sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

P-032 - Vôo Para o Infinito - Clark Darlton [parte 2]


— Você teria companheiros que seriam imortais como você.
— Teria, sim. Mas ficaríamos cansados um do outro se nos víssemos eternamente.
Bell não respondeu. Achava que seria uma banalidade se, a essa altura, asseverasse diante de Rhodan que nunca se cansaria de sua presença, mesmo que a mesma durasse uma eternidade. Contemplou a paisagem que deslizava lentamente lá embaixo. Os propulsores da Stardust-III emitiam um zumbido abafado. Acima deles estendia-se um sol azul-dourado; irradiado pelo sol atômico. Assim que o mesmo se apagasse, surgiriam as estrelas de uma galáxia distante e desconhecida, que talvez fosse a pátria do imortal. Há milhões de anos, as naves de sua raça, extinta mas ainda existente, teriam atravessado o abismo, a fim de encontrar uma nova pátria aqui, na Via Láctea. Aquilo nunca falara a respeito, mas era possível que um dia revelasse o grande segredo.
Rhodan também se manteve em silêncio, contemplando o planeta. Naquele momento estavam passando por cima de um oceano, cuja superfície lisa reluzia para eles. Ao que parecia, não havia a menor brisa que agitasse as águas. No horizonte surgiu um grupo de ilhas.
— Que mundos teriam servido de modelo ao trabalho realizado por aquilo? — disse Bell de si para si. — Às vezes tenho a impressão de encontrar aqui alguma coisa de nossa velha e querida Terra.
— Deve ser isso mesmo — confirmou Rhodan e apontou para a frente. — Aquelas ilhas lembram as do Pacífico Meridional. Por ocasião de nossa primeira visita, vimos uma imitação exata das Montanhas Rochosas dos Estados Unidos.
Subitamente a voz voltou a soar na sala de comando. Aquilo devia ter assistido à palestra e compreendido tudo.
— Você está enganado, meu caro. Não se trata de reproduções. A Rallas não foi uma imitação no verdadeiro sentido da palavra. É bem verdade que seu corpo permaneceu na Terra, no planeta de vocês. Mas aqui seu espírito recebeu outro corpo; portanto, ela compareceu em pessoa. O mesmo objeto pode existir milhares de vezes, desde que seja transferido sucessivamente para planos temporais diferentes. Aquelas ilhas realmente são ilhas da Terra. Mas não existem na Terra agora, neste instante; existiam há milhões de anos. Você constatará isso quando pisar nelas, meu caro. A vegetação não é do nosso tempo, mas da antigüidade mais remota.
— Quer dizer que você conhece dois tipos diferentes de reprodução de imagens — observou Rhodan. — Aquele corpo de mulher permaneceu na Terra, mas estas ilhas não.
— Isso mesmo, amigo. É exatamente como você acaba de dizer. Acompanhei sua palestra desde o início. Estou bastante interessado nos problemas psicológicos da imortalidade. Resolvi todos eles e identifiquei os motivos do tédio, mas não consigo vencê-lo. Às vezes tenho vontade de morrer, e um belo dia acabarei fazendo isso mesmo. Acontece que esse dia ainda não chegou.
Rhodan sorriu.
— Sua fala até parece muito resignada, amigo. Onde está seu senso de humor?
— O senso de humor nem sempre se traduz numa risada. O simples fato de ter concedido o prolongamento da vida a seu amigo Bell evidencia o meu senso infinito de humor. Como é que um imortal não dotado de senso de humor faria viver esse terrano grotesco por mais tempo que o estritamente necessário?
Cerca de metade dos cabelos ruivos de Bell resolveu protestar contra essa constatação, enquanto a outra metade se mantinha em atitude passiva, permanecendo na mesma posição. Rhodan sorriu.
— Você tem razão, amigo — disse. — Acontece que Bell está mortalmente ofendido...
— É justamente aí que está a graça — disse aquilo com uma risadinha. — Como é que se pode ofender mortalmente uma pessoa que alcançou a imortalidade relativa?
— Não vejo nenhuma graça — disse Bell, contrariado. — E também a história da Rallas; gostaria de saber onde está o lado humorístico da mesma.
— Você nunca compreenderá, amigo, que é o segundo em idade — anunciou aquilo satisfeito — porque não tem senso de humor.
Bell fez uma careta e ficou calado. Rhodan viu que se aproximavam do continente em que ficava o grande pavilhão habitado por aquilo. Não demoraria muito até que a cidade estivesse à vista.
— A cidade continua como antes? — perguntou Rhodan, que estava convencido de que o imortal acompanhava seus pensamentos sem cessar. — Não terei nenhum problema em encontrá-la?
— Encontrar o quê? — perguntou aquilo.
Rhodan ficou tão perplexo que alguns segundos se passaram antes que dissesse:
— A cidade, ora esta!
— Desculpe — disse Aquilo em tom apaziguador. Rhodan teve a impressão de que havia uma ligeira ironia em sua voz. — Estou assistindo à destruição de um sistema solar a mais de duzentos mil anos de distância. Há milhões de anos vagou para fora da galáxia, e os habitantes do segundo planeta tentaram afastar o mesmo de seu sol a fim de levá-lo para junto de outro. Seu planeta transformou-se numa Supernova. Atualmente o sistema tem dois sóis, mas não tem habitantes.
Rhodan e Bell ouviram-no, esbaforidos. Aquilo falava em voz tranqüila e indiferente, como se estivesse contando uma história inventada. Contudo, sabiam que pode ria ser tudo menos isso.
— A destruição durou vários meses, mas como atravessei os diversos planos temporais, tudo se desenrolou diante de meu espírito como uma explosão de poucos segundos. Acontece que apenas cometeram um erro pequenino. Quase conseguem.
— Quase conseguem o quê? — perguntou Rhodan, ansioso.
— Quase conseguem retirar o planeta de seu sistema. Já tinham um sol próprio e um dispositivo propulsor que levaria seu mundo... mas o que adianta refletir sobre isso? Aconteceu.
— E não se pode transformar o acontecido em não acontecido?
Houve um instante de silêncio. Depois a voz voltou a falar:
— Por que não? Até que seria uma boa brincadeira. Está vendo aquelas montanhas, amigo? Você as reconhece?
— São os Alpes — disse Rhodan. — Ao menos é a impressão que tenho.
— São os Alpes, sim, meu amigo. Atrás deles fica a cidade que você procura. Mas não vamos perder mais tempo. Bell ficará só por um segundo. Afinal, o que é um segundo na vida de um mortal, quanto mais dum imortal? Rhodan, respire profundamente. Você só soltará a respiração depois de muitas semanas.
Enquanto olhava o calendário automático de bordo — lendo a indicação 17 de agosto, 22:53 h, hora terrena — Rhodan sentiu que estava ficando invisível.
Ainda ouviu a exclamação apavorada de Bell:
— O que houve, Perry?! Você está ficando transparente e...
Depois perdeu a consciência.
* * *
Era tudo bem diferente.
A pequenina nave não precisava de uma transição regular para reduzir a distância imensa de duzentos mil anos-luz a um nada. Simplesmente voou por toda essa distância, a uma velocidade inconcebível.
A nave tinha uma cabina de comando minúscula, e a disposição dos instrumentos e controles era tão familiar a Rhodan que ele teve a impressão de nunca ter entrado em outra cabina. A quantidade enorme de controles não o deixou perturbado, antes lhe inspirava muita confiança. A tela oval que se estendia em semicírculo parecia uma janela aberta para o universo, através da qual podia lançar os olhos.
Estava só, mas sentia que alguém estava com ele, alguém que não podia ver. Em algum lugar da nave encontrava-se o imortal...
— Não estou com você — disse subitamente a voz já familiar. Desta vez soou verdadeiramente em seu interior. — Agora sou você. Está compreendendo, caro amigo? Assumi seu ser físico e passei a existir dentro de você. Juntos salvaremos um sistema solar, pois sei perfeitamente como você lamenta o destino daquela raça que pereceu em algum ponto do universo, ou vai perecer se não lhe dermos auxílio. Dentro de dois dias pousaremos no planeta Barcon II, exatamente três meses antes da catástrofe.
— Como será que tudo isso é possível? — disse Rhodan num sopro, contemplando a confusão de estrelas desconhecidas que se deslocavam vertiginosamente na tela. — O que sou?
— Você é eu, meu amigo. E vice-versa. Como preferir.
— E a Stardust-III?
— Não se preocupe. Você a reencontrará, e não terá perdido nenhum tempo. Agora temos uma tarefa diante de nós, uma tarefa desejada por você mesmo.
— Isto é mais uma brincadeira sua, brincadeira através da qual você quer espantar o tédio.
— É claro que é uma brincadeira, mas uma brincadeira que salvará um povo. A brincadeira com o destino é a brincadeira mais bela que ainda me resta.
Rhodan não teve vontade de travar mais uma discussão sobre a finalidade da vida. Sua inteligência fria começou a digerir os fatos sem indagar sobre sua origem. Mas havia alguma coisa que fazia questão de saber.
— Qual é o tamanho desta nave?
— O tamanho dela? É suficiente para garantir o espaço necessário para você, os mantimentos e o ar, Não precisa de traje protetor. Poderia ter levado você e a mim a Barcon II em estado incorpóreo, mas assim é melhor e mais interessante.
— Que mecanismo propulsor é este que nos conduz a uma velocidade tão tresloucada através do universo?
— Não se iluda, meu amigo. A velocidade só parece ser muito grande. Estamos voando à velocidade da luz. Apenas, modifiquei o curso normal do tempo. Trata-se de um processo que pode ser invertido a qualquer momento. Na situação em que nos encontramos cada segundo faz passar pouco mais de quatro mil anos. Uma vez que nos deslocamos à velocidade da luz, percorremos em dois dias relativos perto de duzentos mil anos-luz.
— Isso é uma loucura!
— Pelo contrário. É um fenômeno perfeitamente normal. Quem domina o tempo transforma-se no senhor do espaço.
— Mas, se todo esse tempo se passa lá fora, no espaço, o sol Barcon não existirá mais quando chegarmos lá. É uma conclusão lógica. Ou será que não é?
— Seria uma conclusão lógica, se no instante da partida não tivéssemos dado um mergulho de duzentos mil anos no passado. Até mergulhamos três meses a mais, a fim de podermos aguardar o momento apropriado.
— É uma coisa medonha — confessou Rhodan e sentiu que um arrepio percorria sua espinha. — Se não soubesse que você está comigo, teria medo, medo de verdade.
— Contemple o universo — disse a voz do imortal dentro dele. — É possível que nunca mais o veja desta forma. Estamos percorrendo muito mais que um ano-luz por segundo. É uma velocidade inacreditável. Mesmo que batêssemos num planeta ou num sol, não o sentiríamos. Não somos apenas nós que nos deslocamos; também a matéria que está lá fora se move a uma velocidade vertiginosa. Ainda acontece que a probabilidade de tocar num astro é menor que a de derrubar um mosquito com um tiro de pistola dado ao acaso. É muito menor.
Rhodan não respondeu. Seguiu o conselho do imortal, absorvendo o milagre da criação cósmica que lhe era oferecido. Parecia um sonho. Talvez não passasse mesmo de um sonho.
A nave mergulhou num mar de estrelas. A lei da perspectiva fez com que se tivesse a impressão de que os sóis fulgurantes se concentravam no ponto para o qual se dirigia a proa da nave. Novos sóis se iam formando naquele ponto e dali se afastavam em todas as direções, com velocidade crescente à medida que se afastavam do centro. Deslizavam para o lado à velocidade de um ano-luz por segundo para retornar a outro ponto. Este segundo ponto ficava na direção da popa da nave.
A grande distância dessas estrelas peregrinas fez com que se tornassem lentas, umas mais, outras menos. Assim mesmo todas conservaram sua cor primitiva. O conhecido fenômeno do arco-íris não se verificou.
O imortal mantinha-se em silêncio. Talvez estivesse em outro lugar, vagando pelo universo à sua maneira. Por um instante Rhodan teve a impressão de estar só e abandonado. Lembrou-se da Stardust-III e da missão que a mesma devia cumprir. Lembrou-se de Bell, à vista de quem desaparecera tão abruptamente. Lembrou-se de Julian Tifflor, que tinha de permanecer num mundo estranho, em companhia de Gucky e de alguns companheiros, até que ele, Rhodan, trouxesse o auxílio prometido. Todos confiavam nele... nele, que cruzava o espaço cósmico numa nave maravilhosa e desconhecida, a fim de prevenir uma raça estranha, que talvez nem existisse mais.
Sacudiu a cabeça.
— Este meu amigo tem cada idéia esquisita! — murmurou, olhando para o relógio instalado em meio às escalas dos instrumentos. Esse relógio indicava o tempo terrestre. Estavam a caminho há três horas, e assim já haviam percorrido treze mil anos-luz.
— Essa idéia foi sua, Rhodan — disse o imortal.
Concluía-se que o mesmo não tinha ido embora. — Eu lhe disse que certa raça foi destruída, e você falou em salvar a mesma. Apenas quero provar-lhe que em certas condições é possível influenciar o futuro. Não há dúvida de que se trata de uma brincadeira, mas a mesma tem um fundo bastante sério. É que você ainda se encontrará com a raça que vai ser salva. Talvez você se arrependa de tê-la prevenido.
As horas arrastavam-se. Rhodan comeu alguma coisa e adormeceu. Quando despertou, o quadro que se apresentava diante dele estava alterado.
O ponto situado na proa apresentava-se com menos estrelas. Só vez por outra apareciam por ali, e era cada vez mais raro que passassem ao lado da nave para mergulhar na escuridão infinita na região da popa.
Escuridão...?
Só agora Rhodan percebeu que atrás dele não havia uma escuridão completa. A tela redonda não reproduzia todo o espaço, mas apenas um setor de setenta por cento. A popa encontrava-se num ângulo morto. Assim mesmo aquilo que lhe foi dado contemplar bastou para fazer com que um calafrio lhe descesse pela espinha.
Olhou para a Via Láctea que ia surgindo aos poucos.
Em pouco menos de doze horas cruzara a região periférica da galáxia em que nascera e abandonara o setor de grande concentração estelar. A pequena nave do imortal arriscara o salto para o abismo, para o abismo pavoroso dos milhões de anos-luz que se abria entre as vias lácteas e que jamais poderia ser vencido por qualquer raça de seres vivos.
Não poderia mesmo...?
Perplexo, contemplava o quadro que se oferecia aos seus olhos. A forma típica de uma nebulosa em espiral desenhava-se nitidamente, vista “de cima”. Um dos braços luminosos abrigava o sol de seu sistema, que já se encontrava a mais de cinqüenta mil anos-luz. E esse braço da espiral não passava de uma parte minúscula da galáxia. Junto à periferia do quadro galático, luziam duas nuvenzinhas, formadas pelas inúmeras estrelas que se reuniam em grupos esféricos. Em um desses grupos encontrava-se o império dos arcônidas.
De repente Rhodan deu-se conta de como o império dos arcônidas era insignificante em comparação com a Via Láctea. E o que era a Terra em comparação com esse império? Apenas um grãozinho de pó.
Será que o imortal o fizera empreender essa viagem para mostrar-lhe que ele mesmo, Rhodan, não passava de uma partícula microscópica em comparação com o cosmos?
A nebulosa ia diminuindo a olhos vistos. Afastando-se a uma velocidade bilhões de vezes maior que a da luz, mergulhou no infinito. Ao menos era o que parecia.
Rhodan voltou a olhar para a frente. Ali não havia nenhuma estrela. Diante da proa da nave o espaço apresentava-se tão negro como Rhodan jamais o vira. Era a escuridão absoluta, na qual a luz seria um fator desconhecido. Só um pouco à esquerda via-se a luz de uma minúscula mancha apagada. Era necessário fitá-la por dez segundos para enxergá-la. Era outra galáxia, situada a milhões de anos-luz.
Mais à direita havia outra. Seu brilho mal conseguia vencer a escuridão. Era uma pequena mancha, que corporificava o brilho de bilhões de sóis. Agora, porém, sua luminosidade não era maior que a de uma vela que se apagava.
Mesmo a luz das estrelas é vencida na luta contra o espaço e o tempo”, pensou Rhodan profundamente abalado e fechou os olhos.
Quando despertou, oito horas se haviam passado.
O quadro do universo estava inalterado. Doze ou quinze vias lácteas brilhavam nas mais diversas direções. Não estavam mais perto, embora Rhodan se aproximasse delas a uma velocidade de dez trilhões de quilômetros por hora. E isso há oito horas.
— Escute aí, meu caro — cochichou, emocionado. — Essa brincadeira está indo longe demais. Você me deveria ter poupado a visão do infinito.
— Por quê? — a voz do imortal invisível parecia um tanto espantada. — Por que não há de ver o que está à sua frente? Afinal, todos nós existimos neste infinito e somos parte do mesmo. Por que não vamos saber o que somos?
— É demais. Meu raciocínio se recusa...
— Se ele recusa, é porque compreendeu — interrompeu-o a voz.
Mudaram de assunto, sem afastar-se do objeto da palestra.
— Já compreendeu por que os barcônidas querem afastar seu planeta do sol a que pertence? Compreendeu por que a solidão infinita desse mundo quase os leva à loucura? Sempre que contemplam o céu à noite, não vêem outra coisa senão galáxias distantes, que a seus olhos devem ser um símbolo de uma convivência amistosa, e realmente são. Naquele lugar, pensam eles, os mundos habitados estão tão próximos um do outro que entre eles existe um contato ininterrupto. Acontece que eles, os barcônidas, enfrentam a solidão, uma solidão eterna e infinita.
Subitamente uma onda de água quente parecia derramar-se por cima de Rhodan.
— Os barcônidas...! Se tirarmos o b...
— Nada de especulações! — advertiu o imortal. Rhodan teve a impressão de que estava esboçando um sorriso de compreensão. — O acaso é um solo fértil para os jogos de idéias, mas sempre continuará a ser o acaso. Raras vezes existe uma ligação real entre os fatos.
— Desta vez não existe?
— Você espera que eu lhe dê uma resposta? Pergunte aos barcônidas; você terá oportunidade para isso.
Rhodan não fez mais nenhuma pergunta.

* * *

Faltavam quinze minutos para completar o segundo dia. Há uma hora, Rhodan se esforçava para descobrir uma estrela em meio à escuridão total e às manchas apagadas das vias lácteas.
— Dentro de sessenta segundos Barcon surgirá na tela, meu amigo. Sua luminosidade pode ser vista a mais de oitocentos anos-luz.
Rhodan não disse nada; esperou. Decorridos exatamente os sessenta segundos, surgiu, bem na sua trajetória, uma pequenina estrela, que aumentava rapidamente.
— Lá está Barcon, o sol solitário. Você vai compreender, meu amigo, que os habitantes de um sistema tão isolado não conhecem as formas de etiqueta galácticas. A tradição já lhes ensinou que não são os únicos seres inteligentes do universo, mas fazem de conta que são. Sua tecnologia é muito aprimorada, mas não se interessaram pela astronáutica, porque a mesma lhes parece inútil. Se voassem à velocidade da luz, levariam cento e cinqüenta mil anos para atingir a estrela mais próxima. A demora seria muito grande, mesmo para um imortal. E os barcônidas podem ser tudo, menos imortais. Por isso dedicaram seu saber a um único projeto, que é o de transformar seu planeta numa gigantesca nave. Acreditam que só assim conseguirão retornar juntos, no curso de milhares de gerações, para a galáxia perdida.
— É um projeto genial — observou Rhodan. — Será que posso fazer alguma coisa por esses cientistas formidáveis? E quem serei aos seus olhos?
— Você poderá ajudar, se eu estiver dentro de você. E não se preocupe com a recepção que lhe será proporcionada. Não existe nenhum povo que anseie tanto por uma visita do espaço como os barcônidas. Vão recebê-lo de braços abertos. É possível que se interessem pelo funcionamento dos propulsores de sua nave, mas saberemos desviar sua atenção. Mesmo que a nave lhes permitisse vencer o tempo e o espaço, não teriam possibilidade de evacuar o planeta, conduzindo seus habitantes a uma distância de milhares de anos-luz. Só lhes resta uma possibilidade, e eles já perceberam a mesma.
Mais cinco minutos se passaram.
O sol Barcon adquirira uma luminosidade brilhante. Encontrava-se a uma distância de quinhentos anos-luz. Dali a nove minutos estariam lá.
Subitamente Rhodan se assustou.
— A desaceleração... deve ser muito forte!
— O retardamento sincronizado do fluxo do tempo neutraliza os efeitos colaterais — informou o imortal rindo. Era a primeira risada que dava nas últimas horas. — Não faça nada, amigo; farei tudo por você. Sinto-me muito satisfeito em ser um homem; é um raro prazer.
Havia uma ironia benévola na voz, mas Rhodan não se incomodou. De repente moveu o braço direito, sem que tivesse dado a respectiva ordem aos músculos. A mão direita manipulou alguns controles. Um ponteiro começou a girar loucamente sobre uma escala redonda. Pequenas lâmpadas se acendiam e voltavam a apagar-se. Uma campainha estridente soou em algum lugar no interior da nave. E o chão vibrou sob os pés de Rhodan.
— Seus olhos apenas registrarão uma redução de nossa velocidade de deslocamento — disse o imortal em tom divertido. — Observe Barcon, mais nada. Não temos outro sistema de referência.
O indicador de distância ainda marcava cento e cinqüenta anos-luz. Se mantivessem a velocidade atual, chegariam a Barcon dentro de cento e sessenta segundos.
Por mais um minuto tudo continuou como estava.
Depois teve início a desaceleração que Rhodan esperava. Barcon continuava a aproximar-se, mas demorou nada menos de meia hora até que a nave mergulhasse no sistema à velocidade de mil quilômetros por segundo.
— Não notarão nossa presença até que estejamos junto deles — profetizou o imortal. — Não possuem telescópios nem instrumentos de observação. Há milhões de anos não vêem uma única estrela.
Rhodan lembrou-se de uma coisa diferente.
— Se nos guiássemos pelo tempo terrestre, qual seria a data de hoje?
A resposta foi imediata.
— Estaríamos em fins de maio deste mesmo ano.
— Maio... foi quando estive doente. Tenho certeza. Não fiquei no hospital, mas na minha residência em Terrânia. Peguei uma espécie de gripe. E o senhor me diz que voltamos a maio?
— Ainda estamos lá! — enfatizou o imortal em tom zombeteiro. — Você está doente e encontra-se na Terra. Esqueceu aquele terrível pesadelo de febre?
— Pesadelo de febre? — Rhodan estremeceu. Sim, lembrava-se. Acordara banhado em suor e olhou para os rostos preocupados de seus amigos, o Dr. Haggard e Bell. — Mas não me lembro do que sonhei.
— Pois eu lhe digo, meu amigo. Você sonhou exatamente aquilo que agora estamos vivendo, apenas numa seqüência mais rápida, e por isso mesmo mais perturbadora para seu espírito. Enquanto sonhava, já tinha esquecido tudo. Tem uma idéia do que seja um sonho?
Rhodan viu o planeta que surgia bem ao longe. Os contornos dos continentes destacavam-se em meio aos mares. Camadas de nuvens cobriam parte de sua superfície.
— O que é mesmo um sonho? — perguntou Rhodan, ansioso.
— É apenas uma excursão do subconsciente. Uma espécie de manifestação do poder de memorização do cérebro humano, uma libertação do espírito, que se desprende do corpo. Durante o sono o cérebro não está preso à matéria, e por isso fica livre das amarras do tempo e do espaço. O homem só conhece um tipo de viagem pelo tempo, que é precisamente o sonho. Contudo, o sonho só abrange uma área diminuta do terreno que fica entre a realidade e a recordação.
— Você quer dizer que realmente vivemos aquilo que sonhamos? Não acredito.
— Não está vendo a prova?
Rhodan calou-se. Teve que reconhecer que não compreendia as explanações do imortal. Sabia que o sonho humano é um fenômeno não explicado de todo, que levanta uma série de indagações. Mas as palavras do imortal lhe abriram perspectivas tão imensas que nem se atrevia a pensar sobre as mesmas. Não se podia contestar que no sonho o ser humano adquire faculdades que não possui em nenhuma outra oportunidade. Consegue vencer a força da gravidade, elevando-se livremente no ar, e em certas circunstâncias consegue mesmo tornar-se invisível e teleportar porções de matéria. Por que podia fazer tudo isso, se não havia motivo para supor que jamais adquiriria esse tipo de capacidade?
Será que num passado muito remoto já pôde fazer essas coisas?
— Daqui a pouco pousaremos — interrompeu-o a voz do imortal. — Os barcônidas são uma raça fortemente amalgamada, no sentido da verdadeira civilização galáctica. Possuem uma capital e um governo que centraliza todas as funções, governo este que, em virtude do projeto gigantesco em que estão empenhados, é formado principalmente por cientistas. Isso nos poupa muito trabalho.
— Não terei... não teremos que recear hostilidades?
— Já disse que para eles somos um presente dos céus. Você terá uma recepção como nunca lhe foi proporcionada em parte alguma, por mais paradoxal que isso possa parecer. Afinal, vamos encontrar-nos com uma raça que nunca teve contato com outros seres, ao menos nos últimos milhões de anos. Essa raça conta com um fato que nenhuma raça do universo dispõe: uma história sem lacunas, baseada em documentos autênticos. Têm, em seus arquivos, filmes de uma época em que o primeiro ser humano na Terra ainda não passava de um sonho distante da natureza criadora.
— Filmes mais antigos que a Humanidade?
— Só em virtude desses filmes já seria lamentável se essa raça fosse destruída.
A pequena nave mergulhou na atmosfera do planeta e circulou em torno do mesmo a uma velocidade várias vezes superior à do som. Cidades extensas alternavam com amplas áreas de cultura e pequenos mares. As linhas cintilantes que uniam as cidades davam mostras de um tráfego intenso.
— O número de habitantes é bastante reduzido em comparação com a grande extensão das terras deste planeta. Isso foi mais um motivo pelo qual negligenciaram o desenvolvimento da navegação espacial. Sabem perfeitamente que os quatro planetas que o sistema abriga além deste não são habitados. E fora disso não teriam para onde ir. Seu mundo oferece tudo de que precisam para a vida.
— Se é assim, por que pretendem sair daqui?
Mergulharam pela última vez na sombra projetada pelo planeta, sobrevoando a face coberta pela noite. Barcon II era do tamanho da Terra e tinha uma atmosfera semelhante. A gravitação era um pouco menor.
— Olhe para o céu, Perry Rhodan, que você compreenderá.
Rhodan olhou para o céu.
Agora, que a atmosfera absorvia inteiramente os débeis raios de luz vindos das galáxias e nebulosas distantes, o céu tornara-se negro. Não havia nenhuma lua que derramasse sua luz suave. Nenhuma estrela brilhava no firmamento escuro como breu. Era uma noite que jamais se vira na Terra, mesmo num céu completamente nublado. Parecia que uma mortalha preta e opaca envolvia este mundo, ameaçando sufocá-lo.
Rhodan teve um calafrio.
— Acho que já começo a compreender — disse em voz baixa.
Subitamente voltaram a mergulhar na luz do sol, que se ergueu vertiginosamente acima do mar no oriente. O continente principal surgiu no horizonte. Em sua costa via-se uma cidade imensa.
— Já estamos sendo esperados — anunciou o imortal. — É claro que essa raça inventou aparelhos que lhes permitem voar pela atmosfera. Mas sabem que não somos deste mundo, pois aqui não existem segredos. Somos seres estranhos, e neste mundo um ser estranho só pode vir do espaço.
— Como são esses seres?
— São como nós; humanóides, tal qual todas as raças da mesma origem.
Rhodan esteve a ponto de formular uma pergunta, mas suas mãos mexeram automaticamente num dos controles, sem que ele pudesse impedi-lo. A pequena nave baixou e passou a deslizar a poucos metros de altura sobre a superfície ligeiramente ondulada do oceano, dirigindo-se à costa. Bem no alto, grandes grupos de ágeis aviões descreviam círculos. Navios enfeitados com bandeirolas coloridas saíram do porto e entraram em formação de parada. Uma compacta massa humana cercava o campo de pouso, situado junto à cidade e ao mar.
— Não se admire com nada — advertiu o imortal. — Para eles somos um filho extraviado que está retornando à pátria. Já mantiveram contato com outras raças, mas quando seu mundo foi-se afastando da galáxia, eles o perderam. Não quiseram deixar sua terra. — Houve uma ligeira pausa. — Alguns poucos o fizeram. E há milhões de anos os barcônidas aguardam o regresso desses poucos.
Os pensamentos atropelaram-se no cérebro de Rhodan, e não houve tempo para pô-los em ordem. O campo de pouso aproximou-se, e a velocidade foi reduzida. A nave pousou com a suavidade de uma pena. O motor desligou-se automaticamente. As vibrações e o zumbido cessaram.
— Vamos descer — sugeriu o imortal. Riu, mas foi uma risada silenciosa e cheia de expectativa, que se comunicou somente com o cérebro de Rhodan. — Não se esqueça de que estou com você, mas lembre-se também de que ninguém sabe disso. Se daqui em diante você tiver que falar comigo, faça-o sem palavras. Compreendeu, velho amigo?
— É claro que compreendi, oh amigo muito mais velho ainda — pensou, divertido, embora seu ânimo não estivesse disposto para gracejos.
— Muito bem — respondeu o imortal em pensamento. — Abra a cabine. Os barcônidas falam o intercosmo. Até foram eles que, em tempos remotos, criaram esse idioma simplificado, mas hoje ninguém mais sabe disso.
Os barcônidas romperam as barreiras que cercavam o campo de pouso e acorreram de todos os lados. Só com grande esforço o elegante veículo de quatro rodas conseguiu abrir caminho em meio à multidão exaltada. Não havia qualquer indício da presença de forças militares ou policiais.
O carro estava aberto. Em seu interior viam-se alguns homens de aspecto dignificante, que em nada se distinguiam de uma delegação terrestre de recepção. Trajavam roupas diversas, que desde logo eliminavam qualquer possibilidade de tratar-se de um uniforme. As calças estavam muito apertadas, enquanto os paletós eram grandes e folgados. Um dos cavalheiros chegava mesmo a trazer uma espécie de cartola sobre a cabeça.
Rhodan lembrou-se do conselho do imortal e não ficou admirado.
Retribuiu a postura de cumprimento do mais velho dos ocupantes do carro, que já parara. Os assistentes eram disciplinados, motivo por que se mantiveram a uma distância que permitia que os quatro ocupantes do carro, que deviam ocupar posições muito elevadas, descessem sem serem molestados.
— Mantenha a calma — recomendou o imortal e soltou uma risada silenciosa. — Estão admirados porque você vem justamente agora. Estão prestes a empreender a grande viagem, e justamente agora recebem uma visita do universo há muito desaparecido.
Rhodan não respondeu. Com um salto colocou-se no solo do planeta estranho e sentiu-se satisfeito pela gravitação reduzida. Em poucos passos colocou-se diante dos quatro homens que o aguardavam.
— Bem-vindo em Barcon, o mundo solitário — disse o velho com a cartola. — Quer dizer que nos encontrou?
Rhodan não pôde deixar de reconhecer que realmente a recepção era muito estranha, pois aquela gente nunca vira um ser estranho à sua raça.
— Falarei através de você — disse o imortal, que percebeu a hesitação de Rhodan. — Portanto, não se espante se você disser alguma coisa de que não tem a menor idéia. De certa forma, você fará a gentileza de emprestar-me seu corpo.
— Foi por acaso — disse Rhodan, e as palavras corriam livremente sobre os lábios que já não eram somente seus. — O governo da galáxia me mandou para procurá-los. Vejo que minha missão foi coroada de êxito. Encontrei Barcon.
— Esperamos por isso mais de um milhão de anos — respondeu o homem de cartola com um sorriso. Rhodan teve a impressão de que estava sonhando; e, a rigor, tudo aquilo não passava de um sono, em sentido figurado. — Mas, à medida que aumentava a distância entre nós e a galáxia, nossas esperanças de conseguir um contato iam minguando. Mas vejo que o milagre acabou por acontecer.
— O milagre reside no domínio do espaço e do tempo — explicou Rhodan sem compreender o que estava dizendo. — Só mesmo esta nave poderia vencer o abismo imenso que se abriu entre Barcon e os nossos mundos.
Um dos quatro homens, que se distinguia por uma espessa barba ruiva, adiantou-se.
— Sou Regoon, físico-chefe de Barcon e representante do chefe de governo. Peço que me explique o princípio de funcionamento do propulsor de sua nave e me diga como foi possível que...
— Nosso hóspede ainda terá tempo para fornecer explicações — interrompeu o barcônida de cilindro em tom de censura e dirigiu-se a Rhodan: — Regoon é um homem muito impaciente, forasteiro. Perdoe sua pergunta precipitada. Aliás, meu nome é Laar; sou o chefe de governo e especialista em energia nuclear.
— Meu nome é Rhodan — disse Perry. Além do mais, o imortal ainda resolvera usar seu nome. — Permanecerei neste mundo por dez semanas. Até lá teremos tempo de sobra para intercambiar nossas experiências no terreno da ciência e da história galáctica.
Laar lançou um olhar em direção à nave, mal disfarçando a curiosidade reprimida a custo.
— Podemos guardar a nave num hangar, para que...
— Não é necessário — disse Rhodan em tom indiferente. — Nosso melhor hangar é o espaço.
Fez um movimento com a mão e a cabine fechou-se automaticamente. O mecanismo propulsor começou a zumbir. O vulto esguio em forma de torpedo começou a subir, ganhou velocidade e logo se transformou num pequenino ponto prateado que se destacou no céu azul.
— Coloquei-o em órbita em torno de Barcon. Daqui a dez semanas voltará a pousar neste lugar.
Os barcônidas contemplaram o espetáculo em silêncio. Só em meio à multidão boquiaberta surgiram alguns gritos de espanto. Laar engoliu algumas vezes em seco antes que conseguisse abrir a boca.
— Um mecanismo de teledireção. É admirável. Lá em cima a nave estará em segurança, embora conosco também o estivesse.
— Desculpem, mas não mandei a nave para o espaço exclusivamente por uma questão de segurança. Tive outros motivos para isso. Enquanto estiver circulando em torno deste mundo, servirá de satélite-laboratório e estação de rádio-recepção. Se houver alguma mensagem importante, pousará imediatamente e a transmitirá. Dessa forma mantenho contato com o governo galático.
Regoon venceu o desapontamento. Apontou para os outros barcônidas que haviam descido do carro.
— Este é Gorat, nosso astrônomo. Infelizmente só pode realizar um estudo teórico dessa ciência interessante, pois nenhum telescópio tem alcance suficiente para permitir um exame mais preciso de qualquer galáxia.
Gorat era muito pequeno e gordo. Sorriu um tanto acanhado e perturbado.
— Gostaria que me contasse alguma coisa sobre as estrelas. Sempre vivo sonhando com a possibilidade de ver uma estrela de verdade, uma estrela que não seja Barcon, evidentemente.
— Este — disse Regoon, apontando para um barcônida muito alto e esbelto — é Nex, que ensina em nosso mundo a ciência do nexialismo.
Quer dizer que também no mais solitário dos mundos do universo prevaleceu a idéia de que um saber abrangente traz mais vantagens que a simples especialização”, pensou Rhodan, que conhecia perfeitamente a doutrina do nexialismo.
Cumprimentou os dois homens. Laar disse:
— Tivemos tempo de sobra para preparar sua recepção. O senhor é meu hóspede, Rhodan. Terá oportunidade de falar com todos os cientistas de nosso mundo, e convencer-se-á de que, apesar de nosso isolamento, procuramos manter vivo ao menos o contato espiritual com o passado. Queira acompanhar-me.
Laar lançou mais um olhar para o céu.
Mas não se via mais nada daquela nave misteriosa, que trouxera a visita surpreendente e tão ansiosamente esperada.
Rhodan dirigiu-se ao carro e tomou lugar entre Laar e Regoon. Ficou pensando de si para si sobre o que aconteceria se por qualquer motivo a nave não voltasse. Mas também poderia preocupar-se com o que seria dele se o imortal resolvesse desaparecer simplesmente de uma hora para outra. Se isso acontecesse, Rhodan se veria num mundo infinitamente distante, e seria o Robinson mais estranho que o mundo jamais vira.
— Você está se preocupando por nada — disse a voz em seu interior, num tom de suave censura. — Nunca deixarei de cumprir a palavra que dei a você, e prometi que não perderia tempo... quanto muito o necessário a um suspiro. Concentre-se exclusivamente na tarefa que tem de cumprir aqui. E acredite: realmente é uma tarefa.
Rhodan sentiu-se aliviado quando o imortal lhe asseverou isso. Não se poderia duvidar de sua palavra.
— Obrigado, pensou.
A viagem até a residência do presidente parecia uma marcha triunfal. Os barcônidas aglomeravam-se de ambos os lados das ruas majestosas e manifestavam seu júbilo ao visitante do espaço. Ao que parecia ninguém estava trabalhando; todos haviam aproveitado a oportunidade de fazer um feriado.
Durante quase uma hora atravessaram a cidade. Depois, o carro, acompanhado de três veículos ocupados por policiais, levou mais meia hora percorrendo uma larga alameda margeada de parques e florestas. Finalmente reduziu a velocidade e parou diante de uma majestosa entrada. Quando ela se abriu, Rhodan viu a residência do chefe do governo.
O sentido estético dos barcônidas deixou-o admirado. A casa não era muito alta, lembrando um bangalô de proporções gigantescas. A frente era formada principalmente por um material semelhante ao vidro. Era transparente e deixava à mostra as peças que ficavam atrás do mesmo. A casa tinha dois pavimentos, mas a grande área que ocupava dava a impressão de que era baixa.
— Aqui o senhor se sentirá muito bem — profetizou Laar e apontou para o edifício. — Este edifício abriga o centro administrativo e científico de Barcon. Não se iluda com as dimensões reduzidas do mesmo. Uma instalação de televisão teledirigida nos mantém em contato permanente com os pontos mais importantes de nosso mundo. Sem sair de seu quarto, o senhor terá oportunidade de conhecer Barcon e os milhares de séculos de sua história. Em todo esse tempo não houve grandes inovações; até é possível que o senhor nos acuse de esterilidade intelectual. Acontece que concentramos nossos esforços num único objetivo, e por isso negligenciamos os demais.
— Já sei — disse Rhodan, sem dar atenção aos rostos espantados dos quatro homens.
Dali a dez minutos a porta fechou-se atrás dele. Viu-se só no aposento que lhe serviria de residência nas próximas dez semanas. Meio desorientado, deixou-se cair numa poltrona encostada à parede de vidro. Aquela posição lhe proporcionava uma visão ampla sobre a cidade e o mar. Suspirou.
— Dez semanas, velho amigo! O que farei durante dez semanas neste mundo estranho, quando não tenho um minuto a perder, pois tenho assuntos urgentes a tratar? Não estarei desperdiçando meu tempo?
— Podemos conversar em voz alta — respondeu o imortal. — Assim você não se sentirá tão só. Aqui ninguém nos ouve, e não existem microfones escondidos. Você fala em desperdício de tempo? Pois está enganado, caro amigo. Não se esqueça de que ainda estamos no mês de maio, e você está de cama, doente. Seu encontro com os mercadores galácticos ainda está num futuro distante. Faltam mais de dez semanas. Portanto, não está perdendo nada.
— Não sei o que responder. Será que você poderia ter a gentileza de contar o que devo fazer para salvar Barcon da destruição?
— Não se preocupe com isso. Cuidarei do assunto para você. Um simples movimento de mão resolverá tudo. Um dia antes de nossa decolagem eles nos mostrarão as instalações com as quais pretendem conduzir Barcon II através do espaço. E então farei o necessário. É por assim dizer uma espécie de inversão de pólos.
— Só isso? — perguntou Rhodan, espantado.
— Só isso.
— Por que temos que ficar aqui durante dez semanas?
O imortal deu uma risadinha. Ele parecia divertir-se a valer.
— Ficaremos para que você veja a história de nossa galáxia. Você não poderá ver mais depressa do que o tempo corre. Receio que terá de assistir a muitos filmes.
— Um tipo de hipertransmissão em regime de concentração de tempo não seria suficiente?
— Desta vez não, meu velho — na voz do imortal soava uma ligeira recriminação. — Você é praticamente imortal, mas ainda não aprendeu a ter paciência. Acho que esta só chegará quando começar o tédio. Mas pelo que vejo nem mesmo para sentir o tédio você terá paciência.
Rhodan olhou para o crepúsculo que descia sobre a cidade. De repente sentiu-se só e abandonado.

3



Os primeiros quinze dias passaram-se sem que acontecesse nada de extraordinário. Através do aparelho de televisão, prontamente instalado, Rhodan travou conhecimento com o planeta Barcon II. Captava as transmissões diretas realizadas de todos os pontos daquele mundo pacífico e paradisíaco. O que invariavelmente causava impressão mais forte em Rhodan era a escuridão do céu noturno. Era bem verdade que, para vê-lo, não precisava do equipamento de televisão. Uma única vez naqueles quinze dias a atmosfera ficara tão limpa que conseguiu enxergar uma débil luminosidade no zênite. Parecia uma mancha de bordas entrecortadas. Era a Via Láctea em que ficava sua pátria, situada a uma distância de cento e cinqüenta mil anos-luz. E, como naquele momento se encontrasse num presente relativista, a Via Láctea para a qual olhava era cento e cinqüenta milênios mais jovem que aquela com que estava familiarizado. Um simples olhar permitiu-lhe uma visão do passado.
No início da terceira semana foi visitado por Nex, o nexialista.
— Fui incumbido de contar-lhe a história de Barcon. Para isso iremos a um grande arquivo.
— As coisas estão começando a ficar interessantes — disse o imortal silenciosamente a Rhodan. — Prepare-se para algumas surpresas. Não se esqueça de que a raça que você tem diante de si já existia quando a Via Láctea ainda era jovem e desabitada.
Um carro levou-os até a cidade. Ninguém se interessou por eles. Barcon voltara a mergulhar na faina do quotidiano. De repente, Rhodan deu-se conta da coincidência que fizera com que Barcon se parecesse tanto com a Terra. O dia desse planeta durava exatamente vinte e quatro horas.
Entraram numa rua lateral que subitamente começou a descer, conduzindo para baixo da terra. O túnel estava bem iluminado, mas parecia não ter fim. Só dali a dez minutos o carro parou.
— Estamos a duzentos metros abaixo da superfície — explicou Nex. — Só aqui nossos filmes estarão seguros para todos os tempos. Nenhuma radiação cósmica penetra nestas profundezas. O ar só é insuflado quando há uma apresentação, e isso só acontece de cinqüenta em cinqüenta anos, quando é constituído um novo governo. Fora disso ficam no vácuo.
Rhodan não respondeu. Sem dizer uma palavra, seguiu o barcônida pelos longos corredores e através das numerosas peças, até que chegassem a uma sala não muito grande, mas bastante confortável. Uma das paredes era formada por um gigantesco quadro de chaves de controle. Na parte da frente, encimando uma espécie de palco, havia uma tela que emitia um brilho leitoso. Na parede oposta estava embutido o projetor. Duas filas de poltronas estofadas convidavam o visitante a acomodar-se.
— Queira sentar, Rhodan. Aqui tudo funciona automaticamente. Basta comprimir o respectivo botão, para que o material desejado seja introduzido no projetor. Nossa raça conheceu a navegação espacial há um milhão de anos, mas a mesma não pôde salvar-nos da catástrofe. Pelo contrário. A despedida forçada do ambiente familiar foi tornada mais penosa pelo fato de sabermos de que alguns de nós poderiam fugir. Mostrar-lhe-ei Barcon na época em que teve início o desastre, e ao fim de sua história galáctica.
O quarto escureceu. Na área de projeção a parede parecia recuar, para dar lugar a uma realidade que se oferecia aos olhos de Rhodan em suas formas e cores naturais.
— Isso é Barcon, visto de uma nave que está saindo para o espaço — explicou Nex com um tremor quase imperceptível na voz. — Pelo que vê, não mudou muita coisa. Apenas, naquela época havia naves espaciais. Agora o senhor vê perfeitamente o planeta vizinho número três, que está penetrando lateralmente no campo de visão. Infelizmente nunca encontramos em nosso sistema um planeta que se prestasse à colonização. Mas chegamos a possuir um império colonial, e um império colonial muito grande.
— Em que parte da galáxia ficava o sol Barcon? — perguntou Rhodan por impulso próprio, sem que o imortal o levasse a isso.
— Logo verá. Naturalmente é impossível assistirmos, no tempo de que dispomos, a todos os filmes do nosso arquivo. Escolherei os mais importantes. A cada cinqüenta anos, quando é realizada a mudança de governo, as pessoas escolhidas ficam neste recinto durante três meses, com pequenas interrupções. Depois disso conhecem a história de nosso mundo e o passado da galáxia, de cujo presente nada sabemos.
Essa constatação parecia encerrar uma solicitação.
— Ainda falaremos a este respeito — prometeu Rhodan. — Receio, porém, que o senhor fique decepcionado.
— Sua nave admirável leva-me a supor o contrário — disse Nex com um sorriso animador. — Mas veja, aquilo é uma de nossas últimas naves colonizadoras. Leva emigrantes para um sistema recém-descoberto, onde ainda não surgiu a vida.
O gigantesco vulto devia ter dois quilômetros de comprimento e deslocava-se em torno de Barcon numa órbita prefixada. Naves menores levantavam-se da superfície, conduzindo os passageiros. Mangueiras de plástico constituíam um passadiço seguro. As pequenas naves entravam por gigantescas escotilhas, trazendo a bagagem e os equipamentos dos colonos. Lá embaixo Barcon ia girando sob a azáfama.
— A nave de colonização trouxe o filme de volta — explicou Nex. — O senhor está vendo alguns extratos.
Pouco depois o sistema de Barcon mergulhou no espaço. O filme fora produzido sob o regime de concentração de tempo, motivo por que Rhodan passou por uma experiência semelhante à de seu vôo para Barcon: as estrelas deslizavam rapidamente sobre a área de projeção. Um sol amarelo ia aumentando de tamanho. Devia ser o destino da expedição. De repente um planeta penetrou no quadro, um mundo de tamanho regular, coberto por uma vegetação exuberante. Planaltos rochosos erguiam-se em meio às estepes e florestas. Grandes rios atravessavam as planícies férteis, atravessadas por rebanhos imensos de estranhos animais. Certa vez Rhodan acreditou ter visto uma espécie de sáurio, mas talvez fosse engano.
— Nesse mundo ainda não havia nenhuma forma de vida inteligente — explicou Nex. — Mas era um mundo fértil, habitado por animais das mais variadas espécies. Nossos colonos encontraram um verdadeiro paraíso. Do momento do pouso naquele planeta até a formação de uma civilização passaram-se uns dez mil anos, se incluirmos as experiências acumuladas.
— Quer dizer que os senhores costumavam largar os emigrantes num mundo apropriado e não se preocupavam mais com eles? — perguntou Rhodan, espantado.
Nex sorriu de forma estranha.
— Isso mesmo. No início de nossa história fundávamos colônias dependentes, mas acabou-se por descobrir que o sistema não era acertado. Os colonos confiavam no seu mundo natal e no apoio que viria de lá. Não tinham maior interesse em explorar as potencialidades da natureza. Tornavam-se preguiçosos e decadentes. Mas os náufragos voluntários, pois não passavam disso, visto que eram obrigados a desmontar a nave que os trouxera para sobreviver, encontram uma nova pátria, que lhes dava tudo de que precisavam para viver. Tinham que trabalhar e desenvolver-se. É bem verdade que também nesses casos houve recaídas; mais de uma vez tivemos que constatar que nossos descendentes que viviam num planeta-colônia regrediam à barbárie. Mas eram exceções. Via de regra desenvolviam uma civilização pujante, que sabia resguardar a herança dos antepassados, mesmo que esquecesse sua origem. Pois um dos princípios que guiavam os empreendimentos coloniais determinava que os colonos não levariam filmes nem registros escritos. Só assim poderiam tornar-se totalmente independentes.
— Quer dizer que se esqueciam de onde vinham.
— Perfeitamente. Só assim tornou-se possível realizar com êxito a colonização dos planetas da Galáxia, formando raças independentes. Muitas vezes duas dessas raças só se encontravam algumas dezenas de milênios depois. Talvez se admirassem pela semelhança que existia entre elas, mas acreditavam que isso decorresse do curso necessário da evolução.
Mais uma vez Nex sorriu e olhou Rhodan de lado.
— Já está começando a compreender a verdade?
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Acho que sim. Mas um milhão de anos é um tempo muito longo, não acha?
— Representam pouco para quem conta em unidades galácticas e se esquece da brevidade da vida. Em termos galácticos cem mil anos da existência de um planeta não representam mais que uma vida humana. Isso significa que o milhão de anos que estamos sós representam dez gerações galácticas. E o que podem fazer dez gerações com um planeta?
— Às vezes nada, às vezes muito. Tudo depende do grau de desenvolvimento e das qualidades da raça.
— Sinto a recriminação — disse Nex, mexendo nos controles dos projetores. — Na sua opinião ficamos parados no curso dessas gerações, que para nós representam cem mil ou mais. Acha que nossa civilização estagnou. Admira-se por não termos feito nenhuma tentativa para escaparmos ao destino que nos impõe uma cruel solidão. Não procure negar.
— Poderia ter tentado ao menos manter contacto com os mundos que já lhes pertenceram. Talvez pelo rádio.
Nex comprimiu um botão.
— Hoje mesmo mostrar-lhe-ei uma coisa que fará com que compreenda nossa atitude — se possuir um coração.
A sala voltou a ser escurecida. Rhodan viu diante de si uma profusão de constelações, nenhuma das quais lhe parecia familiar. A câmera parecia flutuar no meio do recinto. O quadro não era muito nítido; parecia que uma vidraça se interpunha entre o observador e as estrelas.
— Estas fotografias foram tiradas pelo maior observatório que jamais possuímos — isso há um milhão de anos. A câmera tirava uma única fotografia por ano, sempre num momento determinado. Nos anos em que na respectiva noite o céu fosse encoberto pelas estrelas, desistia-se de tirar a fotografia. Por isso só se conseguia em média uma fotografia em cada três anos. Essa fotografia sempre mostra o mesmo setor da Galáxia — ao menos por enquanto. A cada segundo de projeção a que o senhor está assistindo correspondem cerca de cinqüenta anos. Quer dizer que em dois segundos o senhor vê uma vida humana — cem anos. Veja o que nossos antepassados devem ter sentido. Passaram por uma experiência que os abalou até as profundezas da alma e até hoje constitui o fundamento de nossa fé e nossa mentalidade.
Rhodan viu.
As constelações deslocaram-se lentamente — e foram-se afastando. Juntavam-se cada vez mais, a profusão de estrelas tornava-se mais densa, mas em compensação sua luminosidade decrescia.
Subitamente o ângulo de visão ampliou-se, e Rhodan teve uma visão total. Conseguiu enxergar aquilo que estava procurando. Era um dos braços da espiral de onde viera.
Demorou quase dez minutos até que o braço se tornasse visível em toda a plenitude. Mal se distinguiam as diversas estrelas. Formavam uma nuvem alongada e ligeiramente encurvada, que emitia uma luminosidade própria. E essa luminosidade se tornava cada vez mais débil.
— Está vendo aquela aglomeração de estrelas mais luminosa? — perguntou Nex, inclinando-se para Rhodan. — É este o lugar em que antigamente se encontrava o sol Barcon. Por algum motivo inexplicável desprendeu-se do campo de gravitação da Via Láctea que descrevia seu eterno movimento de rotação e foi-se deslocando para fora do grupo de estrelas a que pertencia. Até hoje não chegamos a um acordo sobre os motivos que determinaram o fenômeno. Num movimento implacável nosso sistema foi penetrando no terrível abismo que separa as galáxias. Não havia nada que pudesse deter o afastamento progressivo. Contemple com os próprios olhos o que nossos antepassados tiveram que ver. Sentiram — bem, não sei se o senhor poderá compreender seus sentimentos.
Rhodan não respondeu.
Dali a uma hora toda a Via Láctea penetrara no campo de visão. O setor do espaço em forma de espiral que abrigava o sol do sistema de Rhodan, que naquele momento iluminava uma terra virgem e desabitada, penetrava profundamente na escuridão infinita do espaço interestelar. Quase no centro encontrava-se o sol, a uma distância de apenas trinta mil anos-luz da escuridão.
Onde ficava Árcon? Foi a pergunta que de repente surgiu na mente de Rhodan, mas este preferiu não formular a mesma em voz alta. Mas o imortal ouvira a indagação silenciosa. Respondeu:
— Ficava praticamente fora da Galáxia, velho amigo. Já o preveni para que não formulasse conjeturas. Ainda não chegou o tempo de compreender as grandes relações de causa e efeito. Você já começa a imaginá-las, e por isso sabe mais que a grande maioria dos mortais que habitam a Galáxia. A experiência que você está vivendo através de imagens representa apenas um resumo da que um outro viverá em escala muito mais intensa num espaço de vários bilhões de anos. Não reflita sobre isso, se não quiser enlouquecer.
A Via Láctea ia minguando e deslizando para a escuridão eterna, Barcon afastava-se cada vez mais. Nas vizinhanças da nebulosa em espiral não havia estrelas. A luminosidade débil daquele conjunto formado por bilhões de estrelas ofuscava a luz ainda mais débil das nebulosas situadas a maior distância. Parecia que aquela Via Láctea era a única que existia no Universo, e a mesma afastava-se a cada segundo — ou a cada século que passava.
A grande solidão dos barcônidas teve seu início.
Nex comprimiu outro botão.
— Daqui em diante passarei o filme com a velocidade aumentada quatrocentas vezes. Cada segundo passa a representar cinco mil anos.
O filme ainda durou pouco mais de três minutos.
Nesses três minutos a Via Láctea precipitou-se vertiginosamente num buraco escuro que não tinha limites. A cada segundo que passava tornava-se menor e mais apagada. Ainda não se via nenhuma estrela, e o céu foi-se tornando escuro. A forma típica da nebulosa em espiral transformou-se numa mancha disforme, que aos poucos se perdeu no infinito.
A imagem parou.
— É este o céu que hoje se apresenta à nossa câmera telescópica, que continua a tirar uma fotografia a cada dois ou três anos — disse Nex com a voz embaraçada.
Bem no centro da área negra da projeção via-se a nebulosa, reduzida a uma mancha pequena e insignificante. Estava só: as outras nebulosas não podiam ser alcançadas pela visão. A atmosfera absorvia sua luz débil.
— Estamos sós — prosseguiu Nex, pigarreando. — Mas sabemos que o trabalho que realizamos no passado não foi em vão. Nos planetas por nós colonizados desenvolveram-se novas raças, que devem ter criado uma civilização inimaginável. E nós, os barcônidas, somos seus ancestrais. Seja qual for o lugar de onde o senhor veio, Rhodan, o senhor tem de conformar-se com o fato de ser um descendente dos nossos colonos, ou então um descendente dos seres que nossos colonos colocaram em algum mundo fértil, mas desabitado. Por maior que seja sua raça, ela deve sua existência a nós, os patriarcas da Galáxia.
Rhodan procurou vencer a emoção que ameaçava dominá-lo. Sabia que um problema gigantesco acabara de ser solucionado, mas não se atrevia a extrair todas as conseqüências do fato. Por que, perguntou de si para si, o imortal lhe teria mostrado tudo isso? Por que o teria levado a Barcon, cuja raça, segundo os padrões humanos, havia visto a eternidade e não conseguira enfrentá-la?
Não encontrou resposta e, ao que parecia, o imortal não estava disposto a dar a mesma, pois permaneceu calado.

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