— Você teria
companheiros que seriam imortais como você.
— Teria,
sim. Mas ficaríamos cansados um do outro se nos víssemos eternamente.
Bell não
respondeu. Achava que seria uma banalidade se, a essa altura, asseverasse
diante de Rhodan que nunca se cansaria de sua presença, mesmo que a mesma
durasse uma eternidade. Contemplou a paisagem que deslizava lentamente lá
embaixo. Os propulsores da Stardust-III emitiam um zumbido abafado. Acima deles
estendia-se um sol azul-dourado; irradiado pelo sol atômico. Assim que o mesmo
se apagasse, surgiriam as estrelas de uma galáxia distante e desconhecida, que
talvez fosse a pátria do imortal. Há milhões de anos, as naves de sua raça,
extinta mas ainda existente, teriam atravessado o abismo, a fim de encontrar
uma nova pátria aqui, na Via Láctea. Aquilo nunca falara a respeito, mas era
possível que um dia revelasse o grande segredo.
Rhodan
também se manteve em silêncio, contemplando o planeta. Naquele momento estavam
passando por cima de um oceano, cuja superfície lisa reluzia para eles. Ao que
parecia, não havia a menor brisa que agitasse as águas. No horizonte surgiu um
grupo de ilhas.
— Que mundos
teriam servido de modelo ao trabalho realizado por aquilo? — disse Bell de si
para si. — Às vezes tenho a impressão de encontrar aqui alguma coisa de nossa
velha e querida Terra.
— Deve ser
isso mesmo — confirmou Rhodan e apontou para a frente. — Aquelas ilhas lembram
as do Pacífico Meridional. Por ocasião de nossa primeira visita, vimos uma
imitação exata das Montanhas Rochosas dos Estados Unidos.
Subitamente
a voz voltou a soar na sala de comando. Aquilo devia ter assistido à palestra e
compreendido tudo.
— Você está
enganado, meu caro. Não se trata de reproduções. A Rallas não foi uma imitação
no verdadeiro sentido da palavra. É bem verdade que seu corpo permaneceu na
Terra, no planeta de vocês. Mas aqui seu espírito recebeu outro corpo;
portanto, ela compareceu em pessoa. O mesmo objeto pode existir milhares de
vezes, desde que seja transferido sucessivamente para planos temporais
diferentes. Aquelas ilhas realmente são ilhas da Terra. Mas não existem na
Terra agora, neste instante; existiam há milhões de anos. Você constatará isso
quando pisar nelas, meu caro. A vegetação não é do nosso tempo, mas da
antigüidade mais remota.
— Quer dizer
que você conhece dois tipos diferentes de reprodução de imagens — observou
Rhodan. — Aquele corpo de mulher permaneceu na Terra, mas estas ilhas não.
— Isso
mesmo, amigo. É exatamente como você acaba de dizer. Acompanhei sua palestra
desde o início. Estou bastante interessado nos problemas psicológicos da
imortalidade. Resolvi todos eles e identifiquei os motivos do tédio, mas não
consigo vencê-lo. Às vezes tenho vontade de morrer, e um belo dia acabarei
fazendo isso mesmo. Acontece que esse dia ainda não chegou.
Rhodan
sorriu.
— Sua fala
até parece muito resignada, amigo. Onde está seu senso de humor?
— O senso de
humor nem sempre se traduz numa risada. O simples fato de ter concedido o
prolongamento da vida a seu amigo Bell evidencia o meu senso infinito de humor.
Como é que um imortal não dotado de senso de humor faria viver esse terrano
grotesco por mais tempo que o estritamente necessário?
Cerca de
metade dos cabelos ruivos de Bell resolveu protestar contra essa constatação,
enquanto a outra metade se mantinha em atitude passiva, permanecendo na mesma
posição. Rhodan sorriu.
— Você tem
razão, amigo — disse. — Acontece que Bell está mortalmente ofendido...
— É
justamente aí que está a graça — disse aquilo com uma risadinha. — Como é que
se pode ofender mortalmente uma pessoa que alcançou a imortalidade relativa?
— Não vejo
nenhuma graça — disse Bell, contrariado. — E também a história da Rallas;
gostaria de saber onde está o lado humorístico da mesma.
— Você nunca
compreenderá, amigo, que é o segundo em idade — anunciou aquilo satisfeito —
porque não tem senso de humor.
Bell fez uma
careta e ficou calado. Rhodan viu que se aproximavam do continente em que
ficava o grande pavilhão habitado por aquilo. Não demoraria muito até que a
cidade estivesse à vista.
— A cidade
continua como antes? — perguntou Rhodan, que estava convencido de que o imortal
acompanhava seus pensamentos sem cessar. — Não terei nenhum problema em
encontrá-la?
— Encontrar
o quê? — perguntou aquilo.
Rhodan ficou
tão perplexo que alguns segundos se passaram antes que dissesse:
— A cidade,
ora esta!
— Desculpe —
disse Aquilo em tom apaziguador. Rhodan teve a impressão de que havia uma
ligeira ironia em sua voz. — Estou assistindo à destruição de um sistema solar
a mais de duzentos mil anos de distância. Há milhões de anos vagou para fora da
galáxia, e os habitantes do segundo planeta tentaram afastar o mesmo de seu sol
a fim de levá-lo para junto de outro. Seu planeta transformou-se numa
Supernova. Atualmente o sistema tem dois sóis, mas não tem habitantes.
Rhodan e
Bell ouviram-no, esbaforidos. Aquilo falava em voz tranqüila e indiferente,
como se estivesse contando uma história inventada. Contudo, sabiam que pode ria
ser tudo menos isso.
— A
destruição durou vários meses, mas como atravessei os diversos planos
temporais, tudo se desenrolou diante de meu espírito como uma explosão de
poucos segundos. Acontece que apenas cometeram um erro pequenino. Quase
conseguem.
— Quase
conseguem o quê? — perguntou Rhodan, ansioso.
— Quase
conseguem retirar o planeta de seu sistema. Já tinham um sol próprio e um
dispositivo propulsor que levaria seu mundo... mas o que adianta refletir sobre
isso? Aconteceu.
— E não se
pode transformar o acontecido em não acontecido?
Houve um
instante de silêncio. Depois a voz voltou a falar:
— Por que
não? Até que seria uma boa brincadeira. Está vendo aquelas montanhas, amigo?
Você as reconhece?
— São os
Alpes — disse Rhodan. — Ao menos é a impressão que tenho.
— São os
Alpes, sim, meu amigo. Atrás deles fica a cidade que você procura. Mas não
vamos perder mais tempo. Bell ficará só por um segundo. Afinal, o que é um
segundo na vida de um mortal, quanto mais dum imortal? Rhodan, respire
profundamente. Você só soltará a respiração depois de muitas semanas.
Enquanto
olhava o calendário automático de bordo — lendo a indicação 17 de agosto, 22:53
h, hora terrena — Rhodan sentiu que estava ficando invisível.
Ainda ouviu
a exclamação apavorada de Bell:
— O que
houve, Perry?! Você está ficando transparente e...
Depois
perdeu a consciência.
* * *
Era tudo bem
diferente.
A pequenina
nave não precisava de uma transição regular para reduzir a distância imensa de
duzentos mil anos-luz a um nada. Simplesmente voou por toda essa distância, a
uma velocidade inconcebível.
A nave tinha
uma cabina de comando minúscula, e a disposição dos instrumentos e controles
era tão familiar a Rhodan que ele teve a impressão de nunca ter entrado em
outra cabina. A quantidade enorme de controles não o deixou perturbado, antes
lhe inspirava muita confiança. A tela oval que se estendia em semicírculo
parecia uma janela aberta para o universo, através da qual podia lançar os
olhos.
Estava só,
mas sentia que alguém estava com ele, alguém que não podia ver. Em algum lugar
da nave encontrava-se o imortal...
— Não estou
com você — disse subitamente a voz já familiar. Desta vez soou verdadeiramente
em seu interior. — Agora sou você. Está compreendendo, caro amigo? Assumi seu
ser físico e passei a existir dentro de você. Juntos salvaremos um sistema
solar, pois sei perfeitamente como você lamenta o destino daquela raça que
pereceu em algum ponto do universo, ou vai perecer se não lhe dermos auxílio.
Dentro de dois dias pousaremos no planeta Barcon II, exatamente três meses
antes da catástrofe.
— Como será
que tudo isso é possível? — disse Rhodan num sopro, contemplando a confusão de
estrelas desconhecidas que se deslocavam vertiginosamente na tela. — O que sou?
— Você é eu,
meu amigo. E vice-versa. Como preferir.
— E a
Stardust-III?
— Não se
preocupe. Você a reencontrará, e não terá perdido nenhum tempo. Agora temos uma
tarefa diante de nós, uma tarefa desejada por você mesmo.
— Isto é
mais uma brincadeira sua, brincadeira através da qual você quer espantar o
tédio.
— É claro
que é uma brincadeira, mas uma brincadeira que salvará um povo. A brincadeira
com o destino é a brincadeira mais bela que ainda me resta.
Rhodan não
teve vontade de travar mais uma discussão sobre a finalidade da vida. Sua
inteligência fria começou a digerir os fatos sem indagar sobre sua origem. Mas
havia alguma coisa que fazia questão de saber.
— Qual é o
tamanho desta nave?
— O tamanho
dela? É suficiente para garantir o espaço necessário para você, os mantimentos
e o ar, Não precisa de traje protetor. Poderia ter levado você e a mim a Barcon
II em estado incorpóreo, mas assim é melhor e mais interessante.
— Que mecanismo
propulsor é este que nos conduz a uma velocidade tão tresloucada através do
universo?
— Não se
iluda, meu amigo. A velocidade só parece ser muito grande. Estamos voando à
velocidade da luz. Apenas, modifiquei o curso normal do tempo. Trata-se de um
processo que pode ser invertido a qualquer momento. Na situação em que nos
encontramos cada segundo faz passar pouco mais de quatro mil anos. Uma vez que
nos deslocamos à velocidade da luz, percorremos em dois dias relativos perto de
duzentos mil anos-luz.
— Isso é uma
loucura!
— Pelo
contrário. É um fenômeno perfeitamente normal. Quem domina o tempo
transforma-se no senhor do espaço.
— Mas, se
todo esse tempo se passa lá fora, no espaço, o sol Barcon não existirá mais
quando chegarmos lá. É uma conclusão lógica. Ou será que não é?
— Seria uma
conclusão lógica, se no instante da partida não tivéssemos dado um mergulho de
duzentos mil anos no passado. Até mergulhamos três meses a mais, a fim de
podermos aguardar o momento apropriado.
— É uma
coisa medonha — confessou Rhodan e sentiu que um arrepio percorria sua espinha.
— Se não soubesse que você está comigo, teria medo, medo de verdade.
— Contemple
o universo — disse a voz do imortal dentro dele. — É possível que nunca mais o
veja desta forma. Estamos percorrendo muito mais que um ano-luz por segundo. É
uma velocidade inacreditável. Mesmo que batêssemos num planeta ou num sol, não
o sentiríamos. Não somos apenas nós que nos deslocamos; também a matéria que
está lá fora se move a uma velocidade vertiginosa. Ainda acontece que a
probabilidade de tocar num astro é menor que a de derrubar um mosquito com um
tiro de pistola dado ao acaso. É muito menor.
Rhodan não
respondeu. Seguiu o conselho do imortal, absorvendo o milagre da criação
cósmica que lhe era oferecido. Parecia um sonho. Talvez não passasse mesmo de
um sonho.
A nave
mergulhou num mar de estrelas. A lei da perspectiva fez com que se tivesse a
impressão de que os sóis fulgurantes se concentravam no ponto para o qual se
dirigia a proa da nave. Novos sóis se iam formando naquele ponto e dali se
afastavam em todas as direções, com velocidade crescente à medida que se afastavam
do centro. Deslizavam para o lado à velocidade de um ano-luz por segundo para
retornar a outro ponto. Este segundo ponto ficava na direção da popa da nave.
A grande
distância dessas estrelas peregrinas fez com que se tornassem lentas, umas
mais, outras menos. Assim mesmo todas conservaram sua cor primitiva. O
conhecido fenômeno do arco-íris não se verificou.
O imortal
mantinha-se em silêncio. Talvez estivesse em outro lugar, vagando pelo universo
à sua maneira. Por um instante Rhodan teve a impressão de estar só e
abandonado. Lembrou-se da Stardust-III e da missão que a mesma devia cumprir.
Lembrou-se de Bell, à vista de quem desaparecera tão abruptamente. Lembrou-se
de Julian Tifflor, que tinha de permanecer num mundo estranho, em companhia de
Gucky e de alguns companheiros, até que ele, Rhodan, trouxesse o auxílio
prometido. Todos confiavam nele... nele, que cruzava o espaço cósmico numa nave
maravilhosa e desconhecida, a fim de prevenir uma raça estranha, que talvez nem
existisse mais.
Sacudiu a
cabeça.
— Este meu
amigo tem cada idéia esquisita! — murmurou, olhando para o relógio instalado em
meio às escalas dos instrumentos. Esse relógio indicava o tempo terrestre.
Estavam a caminho há três horas, e assim já haviam percorrido treze mil
anos-luz.
— Essa idéia
foi sua, Rhodan — disse o imortal.
Concluía-se
que o mesmo não tinha ido embora. — Eu lhe disse que certa raça foi destruída,
e você falou em salvar a mesma. Apenas quero provar-lhe que em certas condições
é possível influenciar o futuro. Não há dúvida de que se trata de uma
brincadeira, mas a mesma tem um fundo bastante sério. É que você ainda se
encontrará com a raça que vai ser salva. Talvez você se arrependa de tê-la
prevenido.
As horas
arrastavam-se. Rhodan comeu alguma coisa e adormeceu. Quando despertou, o
quadro que se apresentava diante dele estava alterado.
O ponto
situado na proa apresentava-se com menos estrelas. Só vez por outra apareciam
por ali, e era cada vez mais raro que passassem ao lado da nave para mergulhar
na escuridão infinita na região da popa.
Escuridão...?
Só agora
Rhodan percebeu que atrás dele não havia uma escuridão completa. A tela redonda
não reproduzia todo o espaço, mas apenas um setor de setenta por cento. A popa
encontrava-se num ângulo morto. Assim mesmo aquilo que lhe foi dado contemplar
bastou para fazer com que um calafrio lhe descesse pela espinha.
Olhou para a
Via Láctea que ia surgindo aos poucos.
Em pouco
menos de doze horas cruzara a região periférica da galáxia em que nascera e
abandonara o setor de grande concentração estelar. A pequena nave do imortal
arriscara o salto para o abismo, para o abismo pavoroso dos milhões de anos-luz
que se abria entre as vias lácteas e que jamais poderia ser vencido por
qualquer raça de seres vivos.
Não poderia
mesmo...?
Perplexo,
contemplava o quadro que se oferecia aos seus olhos. A forma típica de uma
nebulosa em espiral desenhava-se nitidamente, vista “de cima”. Um dos braços luminosos abrigava o sol de seu sistema,
que já se encontrava a mais de cinqüenta mil anos-luz. E esse braço da espiral
não passava de uma parte minúscula da galáxia. Junto à periferia do quadro
galático, luziam duas nuvenzinhas, formadas pelas inúmeras estrelas que se
reuniam em grupos esféricos. Em um desses grupos encontrava-se o império dos
arcônidas.
De repente
Rhodan deu-se conta de como o império dos arcônidas era insignificante em
comparação com a Via Láctea. E o que era a Terra em comparação com esse
império? Apenas um grãozinho de pó.
Será que o
imortal o fizera empreender essa viagem para mostrar-lhe que ele mesmo, Rhodan,
não passava de uma partícula microscópica em comparação com o cosmos?
A nebulosa
ia diminuindo a olhos vistos. Afastando-se a uma velocidade bilhões de vezes
maior que a da luz, mergulhou no infinito. Ao menos era o que parecia.
Rhodan
voltou a olhar para a frente. Ali não havia nenhuma estrela. Diante da proa da
nave o espaço apresentava-se tão negro como Rhodan jamais o vira. Era a
escuridão absoluta, na qual a luz seria um fator desconhecido. Só um pouco à
esquerda via-se a luz de uma minúscula mancha apagada. Era necessário fitá-la
por dez segundos para enxergá-la. Era outra galáxia, situada a milhões de
anos-luz.
Mais à
direita havia outra. Seu brilho mal conseguia vencer a escuridão. Era uma
pequena mancha, que corporificava o brilho de bilhões de sóis. Agora, porém,
sua luminosidade não era maior que a de uma vela que se apagava.
“Mesmo a luz das estrelas é vencida na luta
contra o espaço e o tempo”, pensou Rhodan profundamente abalado e fechou os
olhos.
Quando
despertou, oito horas se haviam passado.
O quadro do
universo estava inalterado. Doze ou quinze vias lácteas brilhavam nas mais
diversas direções. Não estavam mais perto, embora Rhodan se aproximasse delas a
uma velocidade de dez trilhões de quilômetros por hora. E isso há oito horas.
— Escute aí,
meu caro — cochichou, emocionado. — Essa brincadeira está indo longe demais.
Você me deveria ter poupado a visão do infinito.
— Por quê? —
a voz do imortal invisível parecia um tanto espantada. — Por que não há de ver
o que está à sua frente? Afinal, todos nós existimos neste infinito e somos
parte do mesmo. Por que não vamos saber o que somos?
— É demais.
Meu raciocínio se recusa...
— Se ele
recusa, é porque compreendeu — interrompeu-o a voz.
Mudaram de
assunto, sem afastar-se do objeto da palestra.
— Já
compreendeu por que os barcônidas querem afastar seu planeta do sol a que pertence?
Compreendeu por que a solidão infinita desse mundo quase os leva à loucura?
Sempre que contemplam o céu à noite, não vêem outra coisa senão galáxias
distantes, que a seus olhos devem ser um símbolo de uma convivência amistosa, e
realmente são. Naquele lugar, pensam eles, os mundos habitados estão tão
próximos um do outro que entre eles existe um contato ininterrupto. Acontece
que eles, os barcônidas, enfrentam a solidão, uma solidão eterna e infinita.
Subitamente
uma onda de água quente parecia derramar-se por cima de Rhodan.
— Os
barcônidas...! Se tirarmos o b...
— Nada de
especulações! — advertiu o imortal. Rhodan teve a impressão de que estava
esboçando um sorriso de compreensão. — O acaso é um solo fértil para os jogos
de idéias, mas sempre continuará a ser o acaso. Raras vezes existe uma ligação
real entre os fatos.
— Desta vez
não existe?
— Você
espera que eu lhe dê uma resposta? Pergunte aos barcônidas; você terá
oportunidade para isso.
Rhodan não
fez mais nenhuma pergunta.
* * *
Faltavam
quinze minutos para completar o segundo dia. Há uma hora, Rhodan se esforçava
para descobrir uma estrela em meio à escuridão total e às manchas apagadas das
vias lácteas.
— Dentro de
sessenta segundos Barcon surgirá na tela, meu amigo. Sua luminosidade pode ser
vista a mais de oitocentos anos-luz.
Rhodan não
disse nada; esperou. Decorridos exatamente os sessenta segundos, surgiu, bem na
sua trajetória, uma pequenina estrela, que aumentava rapidamente.
— Lá está
Barcon, o sol solitário. Você vai compreender, meu amigo, que os habitantes de
um sistema tão isolado não conhecem as formas de etiqueta galácticas. A
tradição já lhes ensinou que não são os únicos seres inteligentes do universo,
mas fazem de conta que são. Sua tecnologia é muito aprimorada, mas não se
interessaram pela astronáutica, porque a mesma lhes parece inútil. Se voassem à
velocidade da luz, levariam cento e cinqüenta mil anos para atingir a estrela
mais próxima. A demora seria muito grande, mesmo para um imortal. E os
barcônidas podem ser tudo, menos imortais. Por isso dedicaram seu saber a um
único projeto, que é o de transformar seu planeta numa gigantesca nave.
Acreditam que só assim conseguirão retornar juntos, no curso de milhares de
gerações, para a galáxia perdida.
— É um
projeto genial — observou Rhodan. — Será que posso fazer alguma coisa por esses
cientistas formidáveis? E quem serei aos seus olhos?
— Você
poderá ajudar, se eu estiver dentro de você. E não se preocupe com a recepção
que lhe será proporcionada. Não existe nenhum povo que anseie tanto por uma
visita do espaço como os barcônidas. Vão recebê-lo de braços abertos. É
possível que se interessem pelo funcionamento dos propulsores de sua nave, mas
saberemos desviar sua atenção. Mesmo que a nave lhes permitisse vencer o tempo
e o espaço, não teriam possibilidade de evacuar o planeta, conduzindo seus
habitantes a uma distância de milhares de anos-luz. Só lhes resta uma possibilidade,
e eles já perceberam a mesma.
Mais cinco
minutos se passaram.
O sol Barcon
adquirira uma luminosidade brilhante. Encontrava-se a uma distância de
quinhentos anos-luz. Dali a nove minutos estariam lá.
Subitamente
Rhodan se assustou.
— A
desaceleração... deve ser muito forte!
— O
retardamento sincronizado do fluxo do tempo neutraliza os efeitos colaterais —
informou o imortal rindo. Era a primeira risada que dava nas últimas horas. —
Não faça nada, amigo; farei tudo por você. Sinto-me muito satisfeito em ser um
homem; é um raro prazer.
Havia uma
ironia benévola na voz, mas Rhodan não se incomodou. De repente moveu o braço
direito, sem que tivesse dado a respectiva ordem aos músculos. A mão direita
manipulou alguns controles. Um ponteiro começou a girar loucamente sobre uma
escala redonda. Pequenas lâmpadas se acendiam e voltavam a apagar-se. Uma
campainha estridente soou em algum lugar no interior da nave. E o chão vibrou
sob os pés de Rhodan.
— Seus olhos
apenas registrarão uma redução de nossa velocidade de deslocamento — disse o
imortal em tom divertido. — Observe Barcon, mais nada. Não temos outro sistema
de referência.
O indicador
de distância ainda marcava cento e cinqüenta anos-luz. Se mantivessem a
velocidade atual, chegariam a Barcon dentro de cento e sessenta segundos.
Por mais um
minuto tudo continuou como estava.
Depois teve
início a desaceleração que Rhodan esperava. Barcon continuava a aproximar-se,
mas demorou nada menos de meia hora até que a nave mergulhasse no sistema à
velocidade de mil quilômetros por segundo.
— Não
notarão nossa presença até que estejamos junto deles — profetizou o imortal. —
Não possuem telescópios nem instrumentos de observação. Há milhões de anos não
vêem uma única estrela.
Rhodan
lembrou-se de uma coisa diferente.
— Se nos
guiássemos pelo tempo terrestre, qual seria a data de hoje?
A resposta
foi imediata.
— Estaríamos
em fins de maio deste mesmo ano.
— Maio...
foi quando estive doente. Tenho certeza. Não fiquei no hospital, mas na minha
residência em Terrânia. Peguei uma espécie de gripe. E o senhor me diz que
voltamos a maio?
— Ainda
estamos lá! — enfatizou o imortal em tom zombeteiro. — Você está doente e
encontra-se na Terra. Esqueceu aquele terrível pesadelo de febre?
— Pesadelo
de febre? — Rhodan estremeceu. Sim, lembrava-se. Acordara banhado em suor e
olhou para os rostos preocupados de seus amigos, o Dr. Haggard e Bell. — Mas
não me lembro do que sonhei.
— Pois eu
lhe digo, meu amigo. Você sonhou exatamente aquilo que agora estamos vivendo,
apenas numa seqüência mais rápida, e por isso mesmo mais perturbadora para seu
espírito. Enquanto sonhava, já tinha esquecido tudo. Tem uma idéia do que seja
um sonho?
Rhodan viu o
planeta que surgia bem ao longe. Os contornos dos continentes destacavam-se em
meio aos mares. Camadas de nuvens cobriam parte de sua superfície.
— O que é
mesmo um sonho? — perguntou Rhodan, ansioso.
— É apenas
uma excursão do subconsciente. Uma espécie de manifestação do poder de
memorização do cérebro humano, uma libertação do espírito, que se desprende do
corpo. Durante o sono o cérebro não está preso à matéria, e por isso fica livre
das amarras do tempo e do espaço. O homem só conhece um tipo de viagem pelo
tempo, que é precisamente o sonho. Contudo, o sonho só abrange uma área
diminuta do terreno que fica entre a realidade e a recordação.
— Você quer
dizer que realmente vivemos aquilo que sonhamos? Não acredito.
— Não está
vendo a prova?
Rhodan
calou-se. Teve que reconhecer que não compreendia as explanações do imortal.
Sabia que o sonho humano é um fenômeno não explicado de todo, que levanta uma
série de indagações. Mas as palavras do imortal lhe abriram perspectivas tão
imensas que nem se atrevia a pensar sobre as mesmas. Não se podia contestar que
no sonho o ser humano adquire faculdades que não possui em nenhuma outra
oportunidade. Consegue vencer a força da gravidade, elevando-se livremente no
ar, e em certas circunstâncias consegue mesmo tornar-se invisível e teleportar
porções de matéria. Por que podia fazer tudo isso, se não havia motivo para
supor que jamais adquiriria esse tipo de capacidade?
Será que num
passado muito remoto já pôde fazer essas coisas?
— Daqui a
pouco pousaremos — interrompeu-o a voz do imortal. — Os barcônidas são uma raça
fortemente amalgamada, no sentido da verdadeira civilização galáctica. Possuem
uma capital e um governo que centraliza todas as funções, governo este que, em
virtude do projeto gigantesco em que estão empenhados, é formado principalmente
por cientistas. Isso nos poupa muito trabalho.
— Não
terei... não teremos que recear hostilidades?
— Já disse
que para eles somos um presente dos céus. Você terá uma recepção como nunca lhe
foi proporcionada em parte alguma, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Afinal, vamos encontrar-nos com uma raça que nunca teve contato com outros
seres, ao menos nos últimos milhões de anos. Essa raça conta com um fato que
nenhuma raça do universo dispõe: uma história sem lacunas, baseada em
documentos autênticos. Têm, em seus arquivos, filmes de uma época em que o
primeiro ser humano na Terra ainda não passava de um sonho distante da natureza
criadora.
— Filmes
mais antigos que a Humanidade?
— Só em
virtude desses filmes já seria lamentável se essa raça fosse destruída.
A pequena
nave mergulhou na atmosfera do planeta e circulou em torno do mesmo a uma
velocidade várias vezes superior à do som. Cidades extensas alternavam com
amplas áreas de cultura e pequenos mares. As linhas cintilantes que uniam as
cidades davam mostras de um tráfego intenso.
— O número
de habitantes é bastante reduzido em comparação com a grande extensão das
terras deste planeta. Isso foi mais um motivo pelo qual negligenciaram o
desenvolvimento da navegação espacial. Sabem perfeitamente que os quatro
planetas que o sistema abriga além deste não são habitados. E fora disso não
teriam para onde ir. Seu mundo oferece tudo de que precisam para a vida.
— Se é
assim, por que pretendem sair daqui?
Mergulharam
pela última vez na sombra projetada pelo planeta, sobrevoando a face coberta
pela noite. Barcon II era do tamanho da Terra e tinha uma atmosfera semelhante.
A gravitação era um pouco menor.
— Olhe para
o céu, Perry Rhodan, que você compreenderá.
Rhodan olhou
para o céu.
Agora, que a
atmosfera absorvia inteiramente os débeis raios de luz vindos das galáxias e nebulosas
distantes, o céu tornara-se negro. Não havia nenhuma lua que derramasse sua luz
suave. Nenhuma estrela brilhava no firmamento escuro como breu. Era uma noite
que jamais se vira na Terra, mesmo num céu completamente nublado. Parecia que
uma mortalha preta e opaca envolvia este mundo, ameaçando sufocá-lo.
Rhodan teve
um calafrio.
— Acho que
já começo a compreender — disse em voz baixa.
Subitamente
voltaram a mergulhar na luz do sol, que se ergueu vertiginosamente acima do mar
no oriente. O continente principal surgiu no horizonte. Em sua costa via-se uma
cidade imensa.
— Já estamos
sendo esperados — anunciou o imortal. — É claro que essa raça inventou
aparelhos que lhes permitem voar pela atmosfera. Mas sabem que não somos deste
mundo, pois aqui não existem segredos. Somos seres estranhos, e neste mundo um
ser estranho só pode vir do espaço.
— Como são
esses seres?
— São como
nós; humanóides, tal qual todas as raças da mesma origem.
Rhodan
esteve a ponto de formular uma pergunta, mas suas mãos mexeram automaticamente
num dos controles, sem que ele pudesse impedi-lo. A pequena nave baixou e
passou a deslizar a poucos metros de altura sobre a superfície ligeiramente
ondulada do oceano, dirigindo-se à costa. Bem no alto, grandes grupos de ágeis
aviões descreviam círculos. Navios enfeitados com bandeirolas coloridas saíram
do porto e entraram em formação de parada. Uma compacta massa humana cercava o
campo de pouso, situado junto à cidade e ao mar.
— Não se
admire com nada — advertiu o imortal. — Para eles somos um filho extraviado que
está retornando à pátria. Já mantiveram contato com outras raças, mas quando
seu mundo foi-se afastando da galáxia, eles o perderam. Não quiseram deixar sua
terra. — Houve uma ligeira pausa. — Alguns poucos o fizeram. E há milhões de
anos os barcônidas aguardam o regresso desses poucos.
Os
pensamentos atropelaram-se no cérebro de Rhodan, e não houve tempo para pô-los
em ordem. O campo de pouso aproximou-se, e a velocidade foi reduzida. A nave
pousou com a suavidade de uma pena. O motor desligou-se automaticamente. As
vibrações e o zumbido cessaram.
— Vamos
descer — sugeriu o imortal. Riu, mas foi uma risada silenciosa e cheia de
expectativa, que se comunicou somente com o cérebro de Rhodan. — Não se esqueça
de que estou com você, mas lembre-se também de que ninguém sabe disso. Se daqui
em diante você tiver que falar comigo, faça-o sem palavras. Compreendeu, velho
amigo?
— É claro
que compreendi, oh amigo muito mais velho ainda — pensou, divertido, embora seu
ânimo não estivesse disposto para gracejos.
— Muito bem
— respondeu o imortal em pensamento. — Abra a cabine. Os barcônidas falam o
intercosmo. Até foram eles que, em tempos remotos, criaram esse idioma
simplificado, mas hoje ninguém mais sabe disso.
Os
barcônidas romperam as barreiras que cercavam o campo de pouso e acorreram de
todos os lados. Só com grande esforço o elegante veículo de quatro rodas
conseguiu abrir caminho em meio à multidão exaltada. Não havia qualquer indício
da presença de forças militares ou policiais.
O carro
estava aberto. Em seu interior viam-se alguns homens de aspecto dignificante,
que em nada se distinguiam de uma delegação terrestre de recepção. Trajavam
roupas diversas, que desde logo eliminavam qualquer possibilidade de tratar-se
de um uniforme. As calças estavam muito apertadas, enquanto os paletós eram
grandes e folgados. Um dos cavalheiros chegava mesmo a trazer uma espécie de
cartola sobre a cabeça.
Rhodan
lembrou-se do conselho do imortal e não ficou admirado.
Retribuiu a
postura de cumprimento do mais velho dos ocupantes do carro, que já parara. Os
assistentes eram disciplinados, motivo por que se mantiveram a uma distância
que permitia que os quatro ocupantes do carro, que deviam ocupar posições muito
elevadas, descessem sem serem molestados.
— Mantenha a
calma — recomendou o imortal e soltou uma risada silenciosa. — Estão admirados
porque você vem justamente agora. Estão prestes a empreender a grande viagem, e
justamente agora recebem uma visita do universo há muito desaparecido.
Rhodan não respondeu.
Com um salto colocou-se no solo do planeta estranho e sentiu-se satisfeito pela
gravitação reduzida. Em poucos passos colocou-se diante dos quatro homens que o
aguardavam.
— Bem-vindo
em Barcon, o mundo solitário — disse o velho com a cartola. — Quer dizer que
nos encontrou?
Rhodan não
pôde deixar de reconhecer que realmente a recepção era muito estranha, pois
aquela gente nunca vira um ser estranho à sua raça.
— Falarei
através de você — disse o imortal, que percebeu a hesitação de Rhodan. — Portanto,
não se espante se você disser alguma coisa de que não tem a menor idéia. De
certa forma, você fará a gentileza de emprestar-me seu corpo.
— Foi por
acaso — disse Rhodan, e as palavras corriam livremente sobre os lábios que já
não eram somente seus. — O governo da galáxia me mandou para procurá-los. Vejo
que minha missão foi coroada de êxito. Encontrei Barcon.
— Esperamos
por isso mais de um milhão de anos — respondeu o homem de cartola com um
sorriso. Rhodan teve a impressão de que estava sonhando; e, a rigor, tudo
aquilo não passava de um sono, em sentido figurado. — Mas, à medida que
aumentava a distância entre nós e a galáxia, nossas esperanças de conseguir um
contato iam minguando. Mas vejo que o milagre acabou por acontecer.
— O milagre
reside no domínio do espaço e do tempo — explicou Rhodan sem compreender o que
estava dizendo. — Só mesmo esta nave poderia vencer o abismo imenso que se
abriu entre Barcon e os nossos mundos.
Um dos
quatro homens, que se distinguia por uma espessa barba ruiva, adiantou-se.
— Sou
Regoon, físico-chefe de Barcon e representante do chefe de governo. Peço que me
explique o princípio de funcionamento do propulsor de sua nave e me diga como
foi possível que...
— Nosso
hóspede ainda terá tempo para fornecer explicações — interrompeu o barcônida de
cilindro em tom de censura e dirigiu-se a Rhodan: — Regoon é um homem muito
impaciente, forasteiro. Perdoe sua pergunta precipitada. Aliás, meu nome é
Laar; sou o chefe de governo e especialista em energia nuclear.
— Meu nome é
Rhodan — disse Perry. Além do mais, o imortal ainda resolvera usar seu nome. —
Permanecerei neste mundo por dez semanas. Até lá teremos tempo de sobra para
intercambiar nossas experiências no terreno da ciência e da história galáctica.
Laar lançou
um olhar em direção à nave, mal disfarçando a curiosidade reprimida a custo.
— Podemos
guardar a nave num hangar, para que...
— Não é
necessário — disse Rhodan em tom indiferente. — Nosso melhor hangar é o espaço.
Fez um
movimento com a mão e a cabine fechou-se automaticamente. O mecanismo propulsor
começou a zumbir. O vulto esguio em forma de torpedo começou a subir, ganhou
velocidade e logo se transformou num pequenino ponto prateado que se destacou
no céu azul.
— Coloquei-o
em órbita em torno de Barcon. Daqui a dez semanas voltará a pousar neste lugar.
Os
barcônidas contemplaram o espetáculo em silêncio. Só em meio à multidão
boquiaberta surgiram alguns gritos de espanto. Laar engoliu algumas vezes em
seco antes que conseguisse abrir a boca.
— Um
mecanismo de teledireção. É admirável. Lá em cima a nave estará em segurança,
embora conosco também o estivesse.
— Desculpem,
mas não mandei a nave para o espaço exclusivamente por uma questão de
segurança. Tive outros motivos para isso. Enquanto estiver circulando em torno deste
mundo, servirá de satélite-laboratório e estação de rádio-recepção. Se houver
alguma mensagem importante, pousará imediatamente e a transmitirá. Dessa forma
mantenho contato com o governo galático.
Regoon
venceu o desapontamento. Apontou para os outros barcônidas que haviam descido
do carro.
— Este é
Gorat, nosso astrônomo. Infelizmente só pode realizar um estudo teórico dessa
ciência interessante, pois nenhum telescópio tem alcance suficiente para
permitir um exame mais preciso de qualquer galáxia.
Gorat era
muito pequeno e gordo. Sorriu um tanto acanhado e perturbado.
— Gostaria
que me contasse alguma coisa sobre as estrelas. Sempre vivo sonhando com a
possibilidade de ver uma estrela de verdade, uma estrela que não seja Barcon,
evidentemente.
— Este —
disse Regoon, apontando para um barcônida muito alto e esbelto — é Nex, que
ensina em nosso mundo a ciência do nexialismo.
“Quer dizer que também no mais solitário dos
mundos do universo prevaleceu a idéia de que um saber abrangente traz mais
vantagens que a simples especialização”, pensou Rhodan, que conhecia
perfeitamente a doutrina do nexialismo.
Cumprimentou
os dois homens. Laar disse:
— Tivemos
tempo de sobra para preparar sua recepção. O senhor é meu hóspede, Rhodan. Terá
oportunidade de falar com todos os cientistas de nosso mundo, e convencer-se-á
de que, apesar de nosso isolamento, procuramos manter vivo ao menos o contato
espiritual com o passado. Queira acompanhar-me.
Laar lançou
mais um olhar para o céu.
Mas não se
via mais nada daquela nave misteriosa, que trouxera a visita surpreendente e
tão ansiosamente esperada.
Rhodan
dirigiu-se ao carro e tomou lugar entre Laar e Regoon. Ficou pensando de si
para si sobre o que aconteceria se por qualquer motivo a nave não voltasse. Mas
também poderia preocupar-se com o que seria dele se o imortal resolvesse
desaparecer simplesmente de uma hora para outra. Se isso acontecesse, Rhodan se
veria num mundo infinitamente distante, e seria o Robinson mais estranho que o
mundo jamais vira.
— Você está
se preocupando por nada — disse a voz em seu interior, num tom de suave
censura. — Nunca deixarei de cumprir a palavra que dei a você, e prometi que
não perderia tempo... quanto muito o necessário a um suspiro. Concentre-se
exclusivamente na tarefa que tem de cumprir aqui. E acredite: realmente é uma
tarefa.
Rhodan
sentiu-se aliviado quando o imortal lhe asseverou isso. Não se poderia duvidar
de sua palavra.
— Obrigado,
pensou.
A viagem até
a residência do presidente parecia uma marcha triunfal. Os barcônidas aglomeravam-se
de ambos os lados das ruas majestosas e manifestavam seu júbilo ao visitante do
espaço. Ao que parecia ninguém estava trabalhando; todos haviam aproveitado a
oportunidade de fazer um feriado.
Durante
quase uma hora atravessaram a cidade. Depois, o carro, acompanhado de três
veículos ocupados por policiais, levou mais meia hora percorrendo uma larga
alameda margeada de parques e florestas. Finalmente reduziu a velocidade e
parou diante de uma majestosa entrada. Quando ela se abriu, Rhodan viu a residência
do chefe do governo.
O sentido
estético dos barcônidas deixou-o admirado. A casa não era muito alta, lembrando
um bangalô de proporções gigantescas. A frente era formada principalmente por
um material semelhante ao vidro. Era transparente e deixava à mostra as peças
que ficavam atrás do mesmo. A casa tinha dois pavimentos, mas a grande área que
ocupava dava a impressão de que era baixa.
— Aqui o
senhor se sentirá muito bem — profetizou Laar e apontou para o edifício. — Este
edifício abriga o centro administrativo e científico de Barcon. Não se iluda
com as dimensões reduzidas do mesmo. Uma instalação de televisão teledirigida
nos mantém em contato permanente com os pontos mais importantes de nosso mundo.
Sem sair de seu quarto, o senhor terá oportunidade de conhecer Barcon e os
milhares de séculos de sua história. Em todo esse tempo não houve grandes
inovações; até é possível que o senhor nos acuse de esterilidade intelectual.
Acontece que concentramos nossos esforços num único objetivo, e por isso negligenciamos
os demais.
— Já sei —
disse Rhodan, sem dar atenção aos rostos espantados dos quatro homens.
Dali a dez
minutos a porta fechou-se atrás dele. Viu-se só no aposento que lhe serviria de
residência nas próximas dez semanas. Meio desorientado, deixou-se cair numa
poltrona encostada à parede de vidro. Aquela posição lhe proporcionava uma
visão ampla sobre a cidade e o mar. Suspirou.
— Dez
semanas, velho amigo! O que farei durante dez semanas neste mundo estranho,
quando não tenho um minuto a perder, pois tenho assuntos urgentes a tratar? Não
estarei desperdiçando meu tempo?
— Podemos
conversar em voz alta — respondeu o imortal. — Assim você não se sentirá tão
só. Aqui ninguém nos ouve, e não existem microfones escondidos. Você fala em
desperdício de tempo? Pois está enganado, caro amigo. Não se esqueça de que
ainda estamos no mês de maio, e você está de cama, doente. Seu encontro com os
mercadores galácticos ainda está num futuro distante. Faltam mais de dez
semanas. Portanto, não está perdendo nada.
— Não sei o
que responder. Será que você poderia ter a gentileza de contar o que devo fazer
para salvar Barcon da destruição?
— Não se
preocupe com isso. Cuidarei do assunto para você. Um simples movimento de mão
resolverá tudo. Um dia antes de nossa decolagem eles nos mostrarão as
instalações com as quais pretendem conduzir Barcon II através do espaço. E
então farei o necessário. É por assim dizer uma espécie de inversão de pólos.
— Só isso? —
perguntou Rhodan, espantado.
— Só isso.
— Por que
temos que ficar aqui durante dez semanas?
O imortal
deu uma risadinha. Ele parecia divertir-se a valer.
— Ficaremos
para que você veja a história de nossa galáxia. Você não poderá ver mais
depressa do que o tempo corre. Receio que terá de assistir a muitos filmes.
— Um tipo de
hipertransmissão em regime de concentração de tempo não seria suficiente?
— Desta vez
não, meu velho — na voz do imortal soava uma ligeira recriminação. — Você é
praticamente imortal, mas ainda não aprendeu a ter paciência. Acho que esta só
chegará quando começar o tédio. Mas pelo que vejo nem mesmo para sentir o tédio
você terá paciência.
Rhodan olhou
para o crepúsculo que descia sobre a cidade. De repente sentiu-se só e
abandonado.
3
Os primeiros
quinze dias passaram-se sem que acontecesse nada de extraordinário. Através do
aparelho de televisão, prontamente instalado, Rhodan travou conhecimento com o
planeta Barcon II. Captava as transmissões diretas realizadas de todos os
pontos daquele mundo pacífico e paradisíaco. O que invariavelmente causava
impressão mais forte em Rhodan era a escuridão do céu noturno. Era bem verdade
que, para vê-lo, não precisava do equipamento de televisão. Uma única vez
naqueles quinze dias a atmosfera ficara tão limpa que conseguiu enxergar uma
débil luminosidade no zênite. Parecia uma mancha de bordas entrecortadas. Era a
Via Láctea em que ficava sua pátria, situada a uma distância de cento e
cinqüenta mil anos-luz. E, como naquele momento se encontrasse num presente
relativista, a Via Láctea para a qual olhava era cento e cinqüenta milênios
mais jovem que aquela com que estava familiarizado. Um simples olhar
permitiu-lhe uma visão do passado.
No início da
terceira semana foi visitado por Nex, o nexialista.
— Fui
incumbido de contar-lhe a história de Barcon. Para isso iremos a um grande
arquivo.
— As coisas
estão começando a ficar interessantes — disse o imortal silenciosamente a
Rhodan. — Prepare-se para algumas surpresas. Não se esqueça de que a raça que
você tem diante de si já existia quando a Via Láctea ainda era jovem e
desabitada.
Um carro
levou-os até a cidade. Ninguém se interessou por eles. Barcon voltara a
mergulhar na faina do quotidiano. De repente, Rhodan deu-se conta da
coincidência que fizera com que Barcon se parecesse tanto com a Terra. O dia
desse planeta durava exatamente vinte e quatro horas.
Entraram
numa rua lateral que subitamente começou a descer, conduzindo para baixo da
terra. O túnel estava bem iluminado, mas parecia não ter fim. Só dali a dez
minutos o carro parou.
— Estamos a
duzentos metros abaixo da superfície — explicou Nex. — Só aqui nossos filmes
estarão seguros para todos os tempos. Nenhuma radiação cósmica penetra nestas
profundezas. O ar só é insuflado quando há uma apresentação, e isso só acontece
de cinqüenta em cinqüenta anos, quando é constituído um novo governo. Fora
disso ficam no vácuo.
Rhodan não
respondeu. Sem dizer uma palavra, seguiu o barcônida pelos longos corredores e
através das numerosas peças, até que chegassem a uma sala não muito grande, mas
bastante confortável. Uma das paredes era formada por um gigantesco quadro de
chaves de controle. Na parte da frente, encimando uma espécie de palco, havia
uma tela que emitia um brilho leitoso. Na parede oposta estava embutido o
projetor. Duas filas de poltronas estofadas convidavam o visitante a
acomodar-se.
— Queira
sentar, Rhodan. Aqui tudo funciona automaticamente. Basta comprimir o
respectivo botão, para que o material desejado seja introduzido no projetor.
Nossa raça conheceu a navegação espacial há um milhão de anos, mas a mesma não
pôde salvar-nos da catástrofe. Pelo contrário. A despedida forçada do ambiente
familiar foi tornada mais penosa pelo fato de sabermos de que alguns de nós
poderiam fugir. Mostrar-lhe-ei Barcon na época em que teve início o desastre, e
ao fim de sua história galáctica.
O quarto
escureceu. Na área de projeção a parede parecia recuar, para dar lugar a uma
realidade que se oferecia aos olhos de Rhodan em suas formas e cores naturais.
— Isso é
Barcon, visto de uma nave que está saindo para o espaço — explicou Nex com um
tremor quase imperceptível na voz. — Pelo que vê, não mudou muita coisa.
Apenas, naquela época havia naves espaciais. Agora o senhor vê perfeitamente o
planeta vizinho número três, que está penetrando lateralmente no campo de
visão. Infelizmente nunca encontramos em nosso sistema um planeta que se
prestasse à colonização. Mas chegamos a possuir um império colonial, e um
império colonial muito grande.
— Em que
parte da galáxia ficava o sol Barcon? — perguntou Rhodan por impulso próprio,
sem que o imortal o levasse a isso.
— Logo verá.
Naturalmente é impossível assistirmos, no tempo de que dispomos, a todos os
filmes do nosso arquivo. Escolherei os mais importantes. A cada cinqüenta anos,
quando é realizada a mudança de governo, as pessoas escolhidas ficam neste
recinto durante três meses, com pequenas interrupções. Depois disso conhecem a
história de nosso mundo e o passado da galáxia, de cujo presente nada sabemos.
Essa
constatação parecia encerrar uma solicitação.
— Ainda
falaremos a este respeito — prometeu Rhodan. — Receio, porém, que o senhor
fique decepcionado.
— Sua nave
admirável leva-me a supor o contrário — disse Nex com um sorriso animador. —
Mas veja, aquilo é uma de nossas últimas naves colonizadoras. Leva emigrantes
para um sistema recém-descoberto, onde ainda não surgiu a vida.
O gigantesco
vulto devia ter dois quilômetros de comprimento e deslocava-se em torno de
Barcon numa órbita prefixada. Naves menores levantavam-se da superfície,
conduzindo os passageiros. Mangueiras de plástico constituíam um passadiço
seguro. As pequenas naves entravam por gigantescas escotilhas, trazendo a
bagagem e os equipamentos dos colonos. Lá embaixo Barcon ia girando sob a
azáfama.
— A nave de
colonização trouxe o filme de volta — explicou Nex. — O senhor está vendo
alguns extratos.
Pouco depois
o sistema de Barcon mergulhou no espaço. O filme fora produzido sob o regime de
concentração de tempo, motivo por que Rhodan passou por uma experiência
semelhante à de seu vôo para Barcon: as estrelas deslizavam rapidamente sobre a
área de projeção. Um sol amarelo ia aumentando de tamanho. Devia ser o destino
da expedição. De repente um planeta penetrou no quadro, um mundo de tamanho
regular, coberto por uma vegetação exuberante. Planaltos rochosos erguiam-se em
meio às estepes e florestas. Grandes rios atravessavam as planícies férteis,
atravessadas por rebanhos imensos de estranhos animais. Certa vez Rhodan
acreditou ter visto uma espécie de sáurio, mas talvez fosse engano.
— Nesse
mundo ainda não havia nenhuma forma de vida inteligente — explicou Nex. — Mas
era um mundo fértil, habitado por animais das mais variadas espécies. Nossos
colonos encontraram um verdadeiro paraíso. Do momento do pouso naquele planeta
até a formação de uma civilização passaram-se uns dez mil anos, se incluirmos
as experiências acumuladas.
— Quer dizer
que os senhores costumavam largar os emigrantes num mundo apropriado e não se
preocupavam mais com eles? — perguntou Rhodan, espantado.
Nex sorriu
de forma estranha.
— Isso
mesmo. No início de nossa história fundávamos colônias dependentes, mas
acabou-se por descobrir que o sistema não era acertado. Os colonos confiavam no
seu mundo natal e no apoio que viria de lá. Não tinham maior interesse em
explorar as potencialidades da natureza. Tornavam-se preguiçosos e decadentes.
Mas os náufragos voluntários, pois não passavam disso, visto que eram obrigados
a desmontar a nave que os trouxera para sobreviver, encontram uma nova pátria,
que lhes dava tudo de que precisavam para viver. Tinham que trabalhar e
desenvolver-se. É bem verdade que também nesses casos houve recaídas; mais de
uma vez tivemos que constatar que nossos descendentes que viviam num
planeta-colônia regrediam à barbárie. Mas eram exceções. Via de regra
desenvolviam uma civilização pujante, que sabia resguardar a herança dos
antepassados, mesmo que esquecesse sua origem. Pois um dos princípios que
guiavam os empreendimentos coloniais determinava que os colonos não levariam
filmes nem registros escritos. Só assim poderiam tornar-se totalmente
independentes.
— Quer dizer
que se esqueciam de onde vinham.
— Perfeitamente.
Só assim tornou-se possível realizar com êxito a colonização dos planetas da
Galáxia, formando raças independentes. Muitas vezes duas dessas raças só se
encontravam algumas dezenas de milênios depois. Talvez se admirassem pela
semelhança que existia entre elas, mas acreditavam que isso decorresse do curso
necessário da evolução.
Mais uma vez
Nex sorriu e olhou Rhodan de lado.
— Já está
começando a compreender a verdade?
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Acho que
sim. Mas um milhão de anos é um tempo muito longo, não acha?
— Representam
pouco para quem conta em unidades galácticas e se esquece da brevidade da vida.
Em termos galácticos cem mil anos da existência de um planeta não representam
mais que uma vida humana. Isso significa que o milhão de anos que estamos sós
representam dez gerações galácticas. E o que podem fazer dez gerações com um
planeta?
— Às vezes
nada, às vezes muito. Tudo depende do grau de desenvolvimento e das qualidades
da raça.
— Sinto a
recriminação — disse Nex, mexendo nos controles dos projetores. — Na sua
opinião ficamos parados no curso dessas gerações, que para nós representam cem
mil ou mais. Acha que nossa civilização estagnou. Admira-se por não termos
feito nenhuma tentativa para escaparmos ao destino que nos impõe uma cruel
solidão. Não procure negar.
— Poderia
ter tentado ao menos manter contacto com os mundos que já lhes pertenceram.
Talvez pelo rádio.
Nex
comprimiu um botão.
— Hoje mesmo
mostrar-lhe-ei uma coisa que fará com que compreenda nossa atitude — se possuir
um coração.
A sala
voltou a ser escurecida. Rhodan viu diante de si uma profusão de constelações,
nenhuma das quais lhe parecia familiar. A câmera parecia flutuar no meio do
recinto. O quadro não era muito nítido; parecia que uma vidraça se interpunha
entre o observador e as estrelas.
— Estas
fotografias foram tiradas pelo maior observatório que jamais possuímos — isso
há um milhão de anos. A câmera tirava uma única fotografia por ano, sempre num
momento determinado. Nos anos em que na respectiva noite o céu fosse encoberto
pelas estrelas, desistia-se de tirar a fotografia. Por isso só se conseguia em
média uma fotografia em cada três anos. Essa fotografia sempre mostra o mesmo
setor da Galáxia — ao menos por enquanto. A cada segundo de projeção a que o
senhor está assistindo correspondem cerca de cinqüenta anos. Quer dizer que em
dois segundos o senhor vê uma vida humana — cem anos. Veja o que nossos
antepassados devem ter sentido. Passaram por uma experiência que os abalou até
as profundezas da alma e até hoje constitui o fundamento de nossa fé e nossa
mentalidade.
Rhodan viu.
As
constelações deslocaram-se lentamente — e foram-se afastando. Juntavam-se cada
vez mais, a profusão de estrelas tornava-se mais densa, mas em compensação sua
luminosidade decrescia.
Subitamente
o ângulo de visão ampliou-se, e Rhodan teve uma visão total. Conseguiu enxergar
aquilo que estava procurando. Era um dos braços da espiral de onde viera.
Demorou
quase dez minutos até que o braço se tornasse visível em toda a plenitude. Mal
se distinguiam as diversas estrelas. Formavam uma nuvem alongada e ligeiramente
encurvada, que emitia uma luminosidade própria. E essa luminosidade se tornava
cada vez mais débil.
— Está vendo
aquela aglomeração de estrelas mais luminosa? — perguntou Nex, inclinando-se
para Rhodan. — É este o lugar em que antigamente se encontrava o sol Barcon.
Por algum motivo inexplicável desprendeu-se do campo de gravitação da Via
Láctea que descrevia seu eterno movimento de rotação e foi-se deslocando para
fora do grupo de estrelas a que pertencia. Até hoje não chegamos a um acordo
sobre os motivos que determinaram o fenômeno. Num movimento implacável nosso
sistema foi penetrando no terrível abismo que separa as galáxias. Não havia
nada que pudesse deter o afastamento progressivo. Contemple com os próprios
olhos o que nossos antepassados tiveram que ver. Sentiram — bem, não sei se o
senhor poderá compreender seus sentimentos.
Rhodan não respondeu.
Dali a uma
hora toda a Via Láctea penetrara no campo de visão. O setor do espaço em forma
de espiral que abrigava o sol do sistema de Rhodan, que naquele momento
iluminava uma terra virgem e desabitada, penetrava profundamente na escuridão
infinita do espaço interestelar. Quase no centro encontrava-se o sol, a uma
distância de apenas trinta mil anos-luz da escuridão.
Onde ficava
Árcon? Foi a pergunta que de repente surgiu na mente de Rhodan, mas este
preferiu não formular a mesma em voz alta. Mas o imortal ouvira a indagação
silenciosa. Respondeu:
— Ficava
praticamente fora da Galáxia, velho amigo. Já o preveni para que não formulasse
conjeturas. Ainda não chegou o tempo de compreender as grandes relações de
causa e efeito. Você já começa a imaginá-las, e por isso sabe mais que a grande
maioria dos mortais que habitam a Galáxia. A experiência que você está vivendo
através de imagens representa apenas um resumo da que um outro viverá em escala
muito mais intensa num espaço de vários bilhões de anos. Não reflita sobre
isso, se não quiser enlouquecer.
A Via Láctea
ia minguando e deslizando para a escuridão eterna, Barcon afastava-se cada vez
mais. Nas vizinhanças da nebulosa em espiral não havia estrelas. A luminosidade
débil daquele conjunto formado por bilhões de estrelas ofuscava a luz ainda
mais débil das nebulosas situadas a maior distância. Parecia que aquela Via
Láctea era a única que existia no Universo, e a mesma afastava-se a cada
segundo — ou a cada século que passava.
A grande
solidão dos barcônidas teve seu início.
Nex
comprimiu outro botão.
— Daqui em
diante passarei o filme com a velocidade aumentada quatrocentas vezes. Cada
segundo passa a representar cinco mil anos.
O filme
ainda durou pouco mais de três minutos.
Nesses três
minutos a Via Láctea precipitou-se vertiginosamente num buraco escuro que não
tinha limites. A cada segundo que passava tornava-se menor e mais apagada.
Ainda não se via nenhuma estrela, e o céu foi-se tornando escuro. A forma
típica da nebulosa em espiral transformou-se numa mancha disforme, que aos
poucos se perdeu no infinito.
A imagem
parou.
— É este o
céu que hoje se apresenta à nossa câmera telescópica, que continua a tirar uma
fotografia a cada dois ou três anos — disse Nex com a voz embaraçada.
Bem no
centro da área negra da projeção via-se a nebulosa, reduzida a uma mancha
pequena e insignificante. Estava só: as outras nebulosas não podiam ser
alcançadas pela visão. A atmosfera absorvia sua luz débil.
— Estamos
sós — prosseguiu Nex, pigarreando. — Mas sabemos que o trabalho que realizamos
no passado não foi em vão. Nos planetas por nós colonizados desenvolveram-se
novas raças, que devem ter criado uma civilização inimaginável. E nós, os
barcônidas, somos seus ancestrais. Seja qual for o lugar de onde o senhor veio,
Rhodan, o senhor tem de conformar-se com o fato de ser um descendente dos
nossos colonos, ou então um descendente dos seres que nossos colonos colocaram
em algum mundo fértil, mas desabitado. Por maior que seja sua raça, ela deve
sua existência a nós, os patriarcas da Galáxia.
Rhodan
procurou vencer a emoção que ameaçava dominá-lo. Sabia que um problema
gigantesco acabara de ser solucionado, mas não se atrevia a extrair todas as
conseqüências do fato. Por que, perguntou de si para si, o imortal lhe teria
mostrado tudo isso? Por que o teria levado a Barcon, cuja raça, segundo os
padrões humanos, havia visto a eternidade e não conseguira enfrentá-la?
Não encontrou resposta e, ao que parecia, o
imortal não estava disposto a dar a mesma, pois permaneceu calado.

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