Autor
W. W. SHOLS
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
Denize
Revisão
Gandalf01
A Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan — uma feliz
combinação da energia humana com a supertecnologia arcônida — pode apresentar,
nos seus anos de existência, uma história muito movimentada, cheia de
dramáticos altos e baixos.
Mas os acontecimentos mais recentes dão a impressão de que, ao se
encontrar com os saltadores ou mercadores galácticos, Perry Rhodan passou a se
defrontar com um poder que tem a intenção e a capacidade de destruir a Terra
para eliminar um possível concorrente no comércio interestelar.
Há oito mil anos os saltadores detêm o monopólio do comércio
galático, isso porque sempre reprimiram no nascedouro qualquer concorrência que
se esboçasse.
A Terra e a Solar System, dois cruzadores espaciais da Terceira
Potência, juntamente com o grupo de Julian Tifflor, que se encontra no planeta
de gelo, dão muito trabalho aos saltadores no sistema de Beta-Albíreo, impedindo-os
de se lançarem a um ataque direto contra a Terra. Acontece que os saltadores já
dispõem de uma quinta-coluna em nosso planeta, composta de inúmeros agentes que
procuram conquistar as bases da Terceira Potência.
O Imperador de Nova Iorque é um desses perigosos agentes...
= = = = = =
= = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência e
comandante da Stardust-III.
Reginald Bell — Ministro da Segurança da
Terceira Potência.
Coronel Freyt — Representante de Perry Rhodan
na Terra.
Ivã Ivanovitch Goratchim — Que tem o costume de brigar consigo mesmo.
Tako Kakuta — Um teleportador que não gosta
de rastejar.
Homer G. Adams
— Um homem que não faz a menor questão de se colocar a serviço de um “imperador”.
1
Uma transição
no hiperespaço.
Provinham da quinta dimensão, onde eram apenas
energia e estavam reduzidos a uma amostra fiel de sua verdadeira identidade.
Cada vez que
ocorria o fenômeno repetiam-se as mesmas dores físicas. A rotina não alterava nada
nesse quadro. Cada transição trazia seu choque.
As juntas
repuxavam e, depois que o espaço normal havia recuperado o corpo, os olhos
precisavam se adaptar ao mesmo.
Figuras
coloridas e saltitantes surgiam de um estranho crepúsculo. Custavam a desaparecer.
Pedaço por pedaço, os olhos voltavam a abranger a visão da realidade. Quando
isso aconteceu, Rhodan se deparou com o sorriso largo de Bell, que não parecia
muito convincente.
Reginald
Bell não teve o menor constrangimento em praguejar em altas vozes e esfregar a
nuca. Pouco lhe importava que todo o pessoal reunido na sala de comando da
Stardust-III o visse naquela oportunidade. Tinha certeza de que cada um deles
estava ocupado em primeira linha com seus problemas. Ninguém escapava à dor e
ao choque.
— Graças a
Deus! Estamos em casa!
Estas
palavras só poderiam ter saído da boca de alguém que há muito tempo vivia as
concepções cósmicas. Afinal, ainda se encontravam muito além da órbita de
Plutão, a cerca de oitenta unidades astronômicas do planeta Terra.
Mas, se
considerarmos que o salto espacial os transportara num instante por uma
distância de trezentos e vinte anos-luz...
Subitamente
um forte zumbido se fez ouvir em meio a essas reflexões ociosas. Pareciam cem
transformadores avariados ao mesmo tempo. De um instante para outro, todos se
esqueceram das dores nas juntas. Uma sereia de alarma não teria causado maior
agitação.
Perry Rhodan
sentiu o beliscão que Bell deu em seu braço.
— Está
vendo? Um belo dia esses saltos teriam que causar algum problema. Nem quero ver
quando a tela de proa esquentar.
Reginald
Bell não foi o único que sentiu arrepios de susto. Qualquer ruído, por mais
familiar que seja, deixa de ser inofensivo quando se verifica uma coincidência
temporal entre ele e o retorno do hiperespaço. Apesar da segurança
proporcionada pela tecnologia arcônida altamente desenvolvida, o homem
desconfiava por instinto.
Desta vez
Rhodan sorriu. Em sua mente o instante de pavor foi mais curto.
— A tela já
está quente. Não sei por que todo esse nervosismo.
Os instrumentos
na sala de comando já tinham voltado a funcionar. Na lâmina translúcida via-se
a constelação familiar do sistema solar. Os dispositivos automáticos haviam
mandado para o espaço os raios dos rastreadores e dos aparelhos de radar.
Antenas complicadas captavam os impulsos identificáveis no espectro
eletromagnético e, depois de transformá-los em símbolos inteligíveis,
conduziam-nos para o quadro que se encontrava diante do primeiro-piloto.
Não havia a
menor dúvida: a transição fora coroada de êxito. Estavam em casa. Apesar disso,
o sorriso de Rhodan só durou poucos segundos.
O ruído fora
causado pelas instalações superpotentes do aparelho de intercomunicação
instalado na nave, cujos impulsos de captação conseguiam absorver, num décimo
de segundo, uma mensagem de um metro de comprimento. O aparelho de decifração
acoplado ao mesmo fez com que poucos segundos depois o texto decodificado se
encontrasse diante dos olhos de Rhodan.
— Cruzador Terra para Stardust-III! Cruzador
Terra para Stardust-III! Segundo informações colhidas pela equipe de Tifflor,
os agentes que o inimigo colocou na Terra são robôs arcônidas. É de recear que
se trata de robôs que sejam de nossa propriedade e se encontrem a serviço da
Terceira Potência. As pesquisas realizadas levam à conclusão de que, em alguns
casos, certos especialistas dos mercadores conseguiram chegar à Terra sem serem
reconhecidos e modificaram a programação dos robôs segundo suas conveniências.
Existe um perigo grave para a Terra. Cruzador Terra para a Stardust-III! Cruzador
Terra para a Stardust-III!
Com um
clique, a reprodução em fita foi interrompida. Por alguns segundos, um silêncio
total tomou conta da ampla sala de comando desse gigante do espaço, cujo
diâmetro atingia oitocentos metros.
— Vejo que a
missão secreta do cadete Tifflor não foi em vão — constatou Rhodan
laconicamente. Até parecia que as informações que acabara de receber não o
preocupavam, mas lhe causavam alegria por demonstrarem que seus planos foram
corretos. Bell, porém, não sentiu a menor disposição de se mostrar exultante
com uma notícia tão desalentadora.
— Esse
menino, o Tifflor, ainda o levará a um convento, onde você poderá meditar em
paz — esbravejou o homem de olhos cor de água. — Até parece que você ainda não
compreendeu todo o significado da mensagem que acabamos de receber. Permita que
eu a interprete no sentido de que o inferno está às soltas na Terra. Este é o
primeiro ponto. E o segundo ponto é o seguinte: temos que deixar Vênus de lado
e nos dirigir diretamente à Terra.
— Ainda dispomos
de três minutos para resolver isso, Bell — disse Rhodan em tom indiferente e
sem a menor ironia. — Na posição em que nos encontramos, a mudança de rota não
será superior a um segundo do arco graduado. O que importa no momento é acelerarmos
a nave ao máximo...
Enquanto
falava, Rhodan transmitiu as instruções necessárias através de seu painel de
controle. Poucos segundos depois, a Stardust-III, impelida por forças
titânicas, disparou para a frente. A nave parecia adquirir vida. O uivo dos
geradores de propulsão rivalizava com o barulho dos mecanismos de absorção da
força gravitacional, forçados até o máximo de sua capacidade.
Esses fatos
não afetaram o bem-estar dos tripulantes. O que parecia se mover era o
universo, não a nave. A sala de comando parecia um pólo imóvel plantado no
centro do espaço cósmico.
Rhodan se
reclinou no assento do piloto.
— Agora
precisamos de paciência. De doze horas de paciência, que será o tempo que
levaremos para pousar no planeta Terra.
Era a ironia
das leis naturais.
Um salto
espacial de trezentos e vinte anos-luz podia ser comprimido num tempo objetivo
de poucos minutos. Mas num vôo normal a uma velocidade próxima à da luz — a que
tinha de recorrer no âmbito de sistemas solares habitados, por motivos de
segurança — um pulo de gato de pouco mais de dez bilhões de quilômetros
demorava meio dia.
Paciência!
* * *
A situação
da Terra entrara num estágio novo, bastante crítico.
Depois de
longos anos, Rhodan pretendia cumprir a promessa de levar Thora e Crest, os
arcônidas, ao seu mundo natal. Por outro lado, achava que a criação de um
governo universal para o planeta Terra representava um problema urgente. Mas
uma série de acontecimentos misteriosos vieram perturbar a realização desses
projetos.
Dois
destróieres de três tripulantes da Terceira Potência não regressaram de um vôo
de reconhecimento. Mais ou menos ao mesmo tempo, desapareceu uma nave auxiliar,
da classe dos chamados girinos. Tudo isso aconteceu numa época de paz, na qual
não se percebia o menor sinal de que houvesse o perigo de uma invasão
extraterrena. Como se isso não bastasse, as naves de patrulhamento da Terceira
Potência, alertadas por esses fatos, constataram que pouco depois algumas naves
desconhecidas pousaram em Vênus e logo voltaram a decolar. Certas perturbações
na estrutura espaço-temporal permitiram a medição de transições que só poderiam
ter sido originadas por hipersaltos executados por unidades espaciais
desconhecidas. O maior cérebro positrônico do sistema solar, instalado na selva
do hemisfério norte do planeta Vênus, com base em fatores de probabilidade bem
fundados, concluiu que um poder desconhecido vindo das profundezas do espaço
descobrira a posição da Terra, mas recuava diante de um conflito aberto.
Constatada
essa situação, Rhodan colocou em estado de alarma seu Exército de Mutantes e,
numa missão extenuante, tangera seus membros para todos os cantos do globo
terrestre. Mas a missão não produziu o menor resultado. Seus colaboradores
supersensoriais — parte deles eram telepatas — voltaram sem terem conseguido
nada.
Em Terrânia,
a metrópole da Terceira Potência, erguida em pleno deserto de Gobi, não se
sabia o que fazer. Pelo que tudo indicava, certos acontecimentos misteriosos
que se verificaram na Terra só podiam ser atribuídos a agentes vindos de fora.
Mas ninguém conseguia localizar esses agentes. E, quando um mutante não
conseguia encontrá-los, qualquer um haveria de confessar que não podia fazer
mais nada.
Isso,
todavia, não aconteceu com Perry Rhodan!
Ele inverteu
as posições. “Se Maomé não vai à
montanha, a montanha tem de ir a Maomé”, conjeturou. Agiu como se Julian
Tifflor, um dos elementos mais promissores de seu corpo de cadetes, fosse um
agente altamente secreto da Terceira Potência. Tifflor era a isca.
E os
desconhecidos morderam a isca.
Apoderaram-se
da nave espacial em que Tifflor viajava, a Good Hope-IX, comandada pelo major
Deringhouse. Para isso, lançaram mão de um raio de tração. Depois desviaram o
veículo espacial para o sistema que gravita em torno dos sóis geminados de
Beta-Albíreo, situado a uma distância de trezentos e vinte anos-luz.
Imediatamente
a Stardust-III, com dois girinos a bordo e acompanhada dos cruzadores Terra e
Solar System seguiu o cadete. Mas Rhodan teve bastante inteligência para não
superestimar o poderio de sua pequena frota. Não podia arriscar um ataque
direto; teria que se manter a uma distância segura e sondar a situação.
As
informações de Crest, o arcônida, confirmaram o acerto desse procedimento.
Descobriram
que estavam lidando com uma raça legendária de mercadores galácticos, os
saltadores. A posição do sistema de Beta-Albíreo constituía o indício mais
seguro disso. Crest pôde explicar detalhadamente o que havia com essa raça.
Há oito mil
anos da escala de tempo terrestre os saltadores haviam se separado do Grande
Império arcônida, embora fossem descendentes dos arcônidas. Seu estilo de vida
inconstante fez com que passassem a levar vida nômade. Com isso desenvolveram
uma cultura e uma tecnologia autônoma. Enquanto o mundo de Árcon, que já fora
tão forte, entrou num processo de degenerescência ininterrupta, os mercadores
saíram pelas imensidões da galáxia, onde encontraram poder e riqueza. Embora
não fossem de índole guerreira, não recuavam diante de qualquer meio para
alcançar os objetivos a que se propunham. E um desses objetivos era a Terra.
* * *
Paciência!
Esse pedido
de Rhodan representou uma dura provação para todos. Até para ele mesmo.
Faltavam
doze horas para o pouso na Terra. O que não poderia acontecer nesse tempo?
Os agentes
estranhos eram robôs que integravam suas próprias fileiras. Mas robôs com a
programação modificada.
Na sala de
comando não discutiam muito. Sempre que o chefe da Terceira Potência se
encontrasse presente, guardava-se um respeito espontâneo, embora todos
soubessem que Perry Rhodan era um homem acessível a qualquer idéia razoável.
Um homem que
raras vezes guardava silêncio era o representante de Rhodan, Reginald Bell.
Bell
encontrou a palavra adequada para desfazer o clima de tensão.
— Até parece
que vocês estão sendo levados para a forca. O que importa que faltem algumas
horas para o pouso? Ao menos conhecemos a situação. Afinal, os robôs
enlouquecidos já estão andando há semanas pelas áreas que estão sob nosso
controle. E, apesar do trabalho secreto que talvez já tenham feito, a Terra
continua de pé. Quando estivermos na Terra, não demoraremos a dar um fim a
isso. Acho que ainda vamos atrapalhar os cálculos dessa gente.
Bell se
calou. Um ou outro dos circunstantes respondeu com um aceno de cabeça. Mas não
chegou a se estabelecer a conversa que ele desejaria. Perry Rhodan transmitiu
algumas ordens para os observadores e solicitou um controle de rota.
Concluída
essa operação de rotina, o silêncio voltou a se instalar na sala. Os
pensamentos voltaram a caminhar pelo futuro e pelo passado.
A Good
Hope-IX, com o comandante e os cadetes, caíra nas mãos dos saltadores. A essa
hora, porém, já se sabia que Tifflor e seus companheiros haviam conseguido
chegar a um planeta de gelo, onde se mantinham escondidos. Rhodan enviara
Gucky, um estranho ser peludo, para ajudá-los; graças aos seus múltiplos dons
parapsicológicos, Gucky representava uma ajuda substancial. No momento era só o
que podia fazer pelo grupo. A qualquer momento teria que contar com a vinda de
reforços para o inimigo. Suas naves eram unidades dotadas do acabamento
arcônida. Para se manter diante desse inimigo dotado de iguais recursos
técnicos teria que procurar alcançar uma superioridade em outra parte. E essa
outra parte só poderia se situar no planeta Peregrino, o planeta da vida
eterna.
Mas, para
encontrar o Peregrino, não bastaria uma navegação de rotina. Os anuários
astronáuticos e as tabelas de efemérides não adiantariam nada. O planeta da
vida eterna era um mundo sem sol. Era um solitário que jazia nos campos
gravitacionais da Via Láctea, mas podia alterar sua rota independentemente dos
mesmos, segundo a vontade e os caprichos de seu senhor.
O cérebro
positrônico altamente desenvolvido estava em condições de obter dados sobre a
posição do planeta; e estes dados se revestiam de razoável teor de
probabilidade. O cérebro “mais
inteligente” de que dispunha a Terceira Potência estava instalado em Vênus.
Esse fato
bastara para levar Perry Rhodan a se afastar do sistema de Beta-Albíreo.
Precisava dos dados sobre a posição em que o Peregrino se encontrava no
momento, pois ali iria buscar aquilo de que necessitava para alcançar
superioridade sobre os mercadores.
Concluiu-se
que a notícia alarmante transmitida pelos cruzadores em patrulha não
correspondia ao programa. Apesar disso, Rhodan conseguiu extrair o que havia de
melhor nesse fato.
Finalmente
obtivera algum indício sobre a ação a ser empreendida na Terra. Na verdade, a
origem daquela situação que envolvia todos estava no seu planeta natal. Por
semanas a fio não conseguiram pôr as mãos no inimigo invisível. Só agora,
através da atuação de Tifflor, descobrira-se que a causa de tudo aquilo não
eram seres vivos, mas robôs.
O novo dado
constituía motivo suficiente para desistir por enquanto do pouso em Vênus. De
nada valeriam as vitórias que fossem alcançadas lá fora, na galáxia, se a
Terra, que era a base da Humanidade, ia passando progressivamente ao controle
do inimigo.
Rhodan
preferiu não transmitir para Terrânia os fatos que haviam acabado de chegar ao
seu conhecimento. Seria melhor chegar de surpresa. Não queria que qualquer dos
agentes do inimigo soubesse antes da hora que sua identidade havia sido
descoberta.
Na altura da
órbita de Júpiter, a Stardust-III expediu o primeiro aviso. Tratava-se de uma
mensagem lacônica e rotineira, que informava a base de Gobi de que o pouso de
Rhodan estava previsto para breve.
A
confirmação de Terrânia veio pela voz do próprio coronel Freyt.
— Ainda bem
que está chegando, chefe. Muita coisa aconteceu na sua ausência.
— Não me
aborreça, coronel — disse Rhodan com um sorriso, a fim de confundir eventuais
escutas do inimigo. — As notícias que lhe trago também não são muito
agradáveis. Espero que ao menos tenha descoberto os agentes do inimigo durante
minha ausência.
— Reivindico
o direito de não ser mais inteligente que você e seu Exército de Mutantes —
respondeu o coronel Freyt em tom distante. — Elaboramos um relatório detalhado
sobre as ações por nós empreendidas. Com sua permissão, o mesmo lhe será
apresentado logo após sua chegada.
— Não faça
tanto drama. Afinal, qual foi o resultado?
— Os tais dos
agentes inimigos não existem.
Muito
obrigado, coronel. Fique com esse tipo de surpresa para si. Seria justo que uma
pessoa que volta para casa só recebesse notícias agradáveis. Acho que você não
levará mais de dez anos para aprender isso...
* * *
A
Stardust-III penetrou na abóbada energética da área central de Terrânia, que se
abrira especialmente. No espaçoporto A vários veículos estavam à espera, para
levar os oficiais aos quartéis. O resto da tripulação foi colocado em vários
ônibus robotizados. Ficaram para trás apenas dez homens da equipe de
conservação, que imediatamente entraram em contato com os robôs de plantão, que
realizariam uma limpeza e uma verificação cuidadosa no gigantesco veículo
espacial.
Rhodan foi
imediatamente ao escritório de Freyt. Somente Bell o acompanhou.
Contrariamente
ao que costumava fazer, o coronel não comparecera ao espaçoporto para
recebê-los. O cumprimento que pronunciou à entrada de Rhodan e Bell não teve
nada de solene. Freyt parecia deprimido. De pé atrás da escrivaninha, disse com
a voz um tanto cansada:
— Façam o
favor de sentar.
Estendeu um
estojo de cigarros a Rhodan e Bell. Sentou devagar e respirou aliviado. Talvez
fosse porque a partir desse momento a responsabilidade pela Terceira Potência
voltara às mãos de Rhodan. Apesar disso, não parecia muito aliviado.
— Tudo continua
como antes, chefe, com a única diferença de que o inimigo fica mais atrevido a
cada dia que passa...
— Há pouco
me disse pelo rádio que os agentes inimigos não existem.
— E não
existem mesmo, se me baseio no resultado das nossas investigações. Mas eles
passam a existir se você lê os jornais, Rhodan.
— Está bem. Conte
tudo, Freyt.
— Esqueça-se
da palestra que tivemos pelo rádio. Aqui estamos entre nós; podemos falar à
vontade.
— Duvido
muito de que estejamos a sós.
— Não se
faça de neurastênico, coronel! Nunca me constou que você sofresse alucinações. Não
me comece com isso justa mente agora.
— Estou
falando sério. Não há dúvida de que os agentes que procuramos realmente
existem. Mas não existe um ser vivo na Terra que possa ser reconhecido como
tal. O senhor mesmo experimentou aquele fracasso com a atuação dos mutantes...
— Não me
recorde os meus fracassos.
— Hoje já
sabemos mais alguma coisa. O cadete Tifflor descobriu que os indivíduos que
estamos procurando são nossos robôs... Ou ao menos alguns deles...
— O coronel
Freyt encarou o chefe.
— Nossos
robôs? — gaguejou. — Isso é...
— Isso é
perfeitamente possível e plausível, Freyt. É a única explicação que temos.
Tifflor sabe disso. Não imaginou esta solução, mas andou espreitando o inimigo.
— E a
explicação é perfeitamente aceitável.
— Todo mundo
sabe que nossos telepatas não podem ler os pensamentos dos robôs. Seu processo mental
desenvolve-se em outra faixa de freqüência que o do homem natural. Além disso,
as reações celulares artificiais são muito mais primitivas e menos exatas que
as do nosso cérebro. Portanto, não há por que deixarmos de acreditar nessa
versão.
De um
instante para outro, Freyt parecia completamente transformado. Sua atitude
voltara a exprimir o otimismo que todos estavam acostumados a ver nele.
— Nesse caso
não haverá o menor problema. Suspendemos o suprimento de energia de todos os
robôs e realizamos uma revisão completa nos mesmos.
— Foi esta a
decisão que tomei há oito horas — disse Rhodan, arrefecendo o entusiasmo de
Freyt. — Mas espero que você consiga imaginar o que vai acontecer se
paralisarmos hoje de tarde todos os robôs de trabalho. Nossas linhas de
montagem estão trabalhando a plena capacidade. A eliminação de vários milhares
de elementos de vigilância significaria que em muitos casos as reações
necessárias deixariam de ser realizadas. Imagine o que vai acontecer se a
corrida de um alto-forno sofrer um atraso, ou se o suprimento de grafite de um
reator não for controlado, ou...
O coronel
Freyt levantou a mão, num gesto de recusa.
— É claro que
compreendo, Rhodan. Nossa indústria não pode funcionar sem a utilização constante
dos robôs. Haveria uma catástrofe...
— Somos
escravos da nossa tecnologia — disse Bell, completando o raciocínio. — É uma
situação maluca. O inimigo está em nossas fileiras. Se reduzirmos essas
fileiras à inatividade, nossa cidade não demorará um dia em voar pelos ares. A
solução do dilema cabe a você, Rhodan.
Rhodan
provou que a solução não era tão difícil assim. Era bem verdade que os
habitantes humanos de Terrânia teriam que desenvolver uma energia
extraordinária.
— Dispomos
de sete horas para preparar a execução do plano. Depois das vinte e duas horas,
o último turno dos trabalhadores da indústria comum vai para casa. Até lá
noventa por cento das nossas fábricas estarão paralisadas. Só teremos de nos
preocupar com os dez por cento que trabalham dia e noite. Trata-se das usinas
de força, dos postos de controle geral, dos hospitais, das unidades policiais,
do serviço de vigilância estratégica, etc. Até as vinte e duas horas todos esses
serviços deverão ser ocupados discretamente por seres humanos. Às vinte e duas
horas e dez minutos o suprimento de energia de todos os robôs será suspenso.
De todos os
robôs de trabalho, Rhodan — ponderou Bell. — Não se esqueça de que os robôs de
combate dispõem de um comando individual, motivo por que não dependem dos
impulsos fornecidos pelo cérebro central de controle.
— É um risco
que temos de assumir — declarou Rhodan. — Com uma única ação não podemos
liquidar tudo. Acontece que os robôs de trabalho representam perto de oitenta
por cento do total de que dispomos. Com a paralisação deles, o risco principal
será eliminado. Faça o favor de convocar a cúpula do estado-maior, coronel.
Daqui a meia hora quero falar com os meus colaboradores.
No mesmo
instante teve início uma atividade que poucas vezes havia sido vista em
Terrânia. Sob um sigilo absoluto e mediante um estrito controle telepático, os
colaboradores mais chegados de Rhodan receberam suas instruções. Estas foram
retransmitidas à ampla rede de setores subordinados.
Para o
observador desprevenido, as atividades do dia-a-dia pareciam prosseguir sem a
menor alteração. Os numerosos turistas que se encontravam na cidade, vindos de
todos os continentes, e que costumavam chegar a Terrânia em contingentes
diários de dois a três mil, apenas viam a atividade benfazeja daquela nação
territorialmente tão pequena. Sem desconfiar de nada, sentiam a paz, a
segurança e o poder que irradiavam do reino de Rhodan.
Quando a
hora X se aproximava, se encontravam nos locais de vida noturna ou nos seus
aposentos nos hotéis.
22:00 h: As
sereias anunciam o término de mais um dia de trabalho, o fim do último turno.
22:05 h: O
nervosismo cresce entre as pessoas informadas sobre os acontecimentos. Os
sentidos estão tensos.
22:10 h!
Em algum
lugar situado no interior da abóbada energética central uma mão puxa a chave de
que tudo depende. No mesmo instante, milhares de robôs de trabalho suspendem
sua atividade. Veículos dirigidos eletronicamente param em meio à viagem. Em
todos os lugares em que havia máquinas que controlavam outras máquinas o
trabalho é suspenso. Nas indústrias vitais as pessoas que se encontram de
prontidão saltam para a frente e numa questão de segundos substituem as
máquinas que entraram em greve. A vida tinha de continuar.
Tudo aquilo
havia sido preparado nos menores detalhes. Os homens de Terrânia trabalhavam em
mais de cinco mil turnos especiais. A execução de numerosas funções, que o
homem progressista há anos entregara à máquina, correu sem o menor contratempo.
Aquilo representava uma recaída para o desconforto de tempos mais atrasados.
Mas, apesar dos termos lacônicos em que fora concebida, a ordem secreta levara
ao conhecimento de todos os participantes que as questões que se encontravam em
jogo eram de importância vital.
De repente,
viaturas policiais com os alto-falantes a todo volume passaram pelas ruas.
— Atenção,
moradores de Terrânia! Houve um contratempo no posto central de controle de
robôs. Pedimos a todos que se mantenham calmos e disciplinados. Os reparos
demorarão algumas horas. O ministério do interior tomará imediatamente todas as
medidas necessárias. Os hóspedes e habitantes de Terrânia que teriam que andar
mais de quinze minutos para chegar em casa deverão comparecer aos pontos de
parada. Pedimos que os que residam mais perto andem a pé. Não há motivo para
preocupações. Mantenham-se disciplinados. O ministério do interior tomará
imediatamente...
O
quartel-general da operação fora instalado no escritório do coronel Freyt. Este
se transformara numa espécie de prefeito de Terrânia, embora sua posição
oficial não fosse esta. Era o representante de Rhodan no território da Terceira
Potência e, como tal, conduzia os destinos do Estado e de sua capital sempre
que Rhodan se encontrasse em outro lugar. E muitas vezes Rhodan se encontrava
em outro lugar.
O
representante de Rhodan nas questões universais era Reginald Bell. Dali se
concluía como esses dois homens sofriam sob o peso das chamadas viagens de
negócios. Quase sempre andavam fora. Em outro país, em outro planeta e até em
outro sistema solar.
A tarefa de
Freyt era mais prosaica, muito embora tanto no caráter como no aspecto exterior
ele tivesse muita semelhança com Perry Rhodan. Geralmente ficava no deserto de
Gobi, onde executava as funções de lugar-tenente do chefe.
Quando
Rhodan regressava, muitas vezes apresentava relatórios extensos sobre os
acontecimentos rotineiros do dia-a-dia. E às vezes havia algo de excitante.
Como hoje.
O coronel
Freyt não procurou ocultar o fato de que a presença de Rhodan representava um
alívio para ele. Dificilmente teria havido em Terrânia horas tão críticas como
as que estavam se passando. Reginald Bell chegou a afirmar que era o dia mais
excitante que vivia desde o pouso no deserto de Gobi.
— O
resultado de nosso trabalho foi excelente — argumentou Bell. — Nenhuma das
ações que nos foram relatadas deixa nada a desejar. Sei perfeitamente que só na
Terceira Potência uma tarefa pode ser executada com tamanha precisão. Mas a
coisa deverá ter seu prosseguimento...
— Você não
demorará em saber como prosseguirão as coisas — respondeu Rhodan. — Até agora o
mundo não parou por causa das preocupações que passam pela sua cabeça.
— Mas os
robôs pararam. Lembro-me perfeitamente das promessas gordas que você transmitiu
pelos alto-falantes móveis e pela rádio estatal. Você sabe perfeitamente que,
por enquanto, nem podemos pensar em reativar os robôs de trabalho, a não ser
que deseje trazer de volta o risco que ontem enfrentávamos.
— Agora é
noite. Nas próximas horas pouca gente estará interessada em saber quando os
robôs estarão plenamente recuperados. A situação só começará a se tornar
crítica amanhã de manhã, quando as pessoas quiserem esquentar a água para o
café. Até lá teremos que dar conta do recado.
Bell se
limitou a dar de ombros, num gesto de incredulidade. Pensava nos milhares de
robôs, que teriam de ser examinados um por um. E o exame só poderia ser
realizado por seres humanos.
Saíram do
escritório de Freyt e dirigiram-se ao elevador que os levaria ao subsolo. Ali
havia muitos veículos que podiam ser dirigidos pela mão do homem. Pegaram três
carros e saíram para a área dos fundos, de onde se dirigiram a um pavilhão
situado a cerca de quatro quilômetros de distância.
Ali uns
trezentos engenheiros haviam montado seus postos de controle. Já estavam
trabalhando no momento em que Rhodan chegou com seu estado-maior, que incluía
vários mutantes.
Numa fila ininterrupta
vinham chegando os caminhões, cujos guindastes colocavam cautelosamente no chão
os robôs desativados.
Rhodan e
Reginald Bell entraram no pavilhão e visitaram alguns dos postos de controle. O
chefe da Terceira Potência conversou com os engenheiros-chefe e os dirigentes
técnicos. Apenas dizia algumas palavras indiferentes, pois a forma de execução
do trabalho havia sido estabelecida em todos os detalhes. Os pacientes eram
classificados segundo critérios especiais e transferidos a outro setor, onde
era apagada a programação anterior. Poucos recebiam desde logo um novo
programa. Eram aqueles que seriam necessários para os serviços que teriam que
ser executados ainda naquela noite. Os outros teriam que aguardar novas
solicitações.
Saíram do
pavilhão, depois de terem se certificado de que o trabalho com os robôs corria
normalmente. Antes de entrarem nos seus carros, Rhodan se dirigiu a Tako
Kakuta, um teleportador japonês que, graças às suas capacidades sensoriais que
haviam passado por um processo de mutação, estava em condições de se teleportar
no mais curto espaço de tempo para qualquer lugar que escolhesse. No âmbito da
geografia terrestre as distâncias praticamente não representavam nada para ele.
— Olá, Tako!
Dê um salto para junto do capitão Klein, que está dirigindo a ação contra os
robôs de combate. Peça que ele lhe forneça um breve relato sobre a situação e
vá diretamente ao escritório do coronel Freyt. Dentro de cinco minutos no
máximo estaremos lá.
— Está bem,
chefe — confirmou o teleportador. Por um instante concentrou-se sobre o alvo
que pretendia atingir com o salto. Depois disso, a figura de seu corpo se
dissolveu num nada aparente. Para os homens da Terceira Potência, o
desaparecimento de um teleportador numa questão de segundos era um acontecimento
corriqueiro.
— Peço aos
outros que venham comigo — disse Rhodan.
Elaborara um
plano bem definido para as ações a serem empreendidas naquela noite. E uma das
providências mais inteligentes consistia em estar prevenido para qualquer
imprevisto. Por isso não podia dispensar a presença dos mutantes. Deviam estar
à mão quando surgisse algo de extraordinário.
Rhodan
examinou o grupo de mutantes.
Muitos dos
mais capazes dos seus mutantes tinham ficado em companhia de John Marshall, a
bordo dos cruzadores pesados Terra e Solar System, estacionados no sistema de
Beta-Albíreo. Assim mesmo Rhodan podia depositar toda a confiança nos homens e
nas mulheres que com ele tinham regressado à Terra.
Além de Tako
Kakuta podia contar com Anne Sloane, uma americana loura e delgada que tinha o
dom da telecinésia. Nos últimos anos, ela aperfeiçoara este dom através de um
treinamento constante. Também havia Ishi Matsu, uma japonesa, que era uma ótima
telepata. E Wuriu Sengu, um tipo de ombros largos com aspecto de lutador, cujas
forças mentais permitiam-lhe enxergar através da matéria compacta. Tanaka
Seiko, o goniômetro, possuía um cérebro que desempenhava as funções de um
receptor de ondas de rádio; podia captar qualquer freqüência sem precisar de um
rádio. Finalmente, naquela noite ainda dispunha de Kitai Ishibashi, um sugestor
que dispunha de consideráveis forças hipnóticas. Quem se encontrasse sob a
influência de Kitai, faria o que ele desejasse, embora acreditasse que estava
agindo por sua livre vontade.
Chegaram ao escritório
de Freyt.
— Se as
coisas correrem conforme você planejou — disse o Dr. Manoli, amigo intimo de
Rhodan desde o tempo da primeira viagem lunar — poderemos passar a noite com
vinho e cigarros.
— Com vinho
não. Hoje de noite o uso do álcool é proibido.
Tiveram de
se contentar com cigarros.
Pouco depois
chegou Tako Kakuta. Não entrou pela porta ou por qualquer outra abertura na
parede. Veio pela maneira peculiar de um teleportador. No meio da sala se
rematerializou de seu breve salto.
— Tudo bem,
chefe — anunciou. — O capitão Klein está cheio de serviço e disse que eu só o
perturbava. Mas acabou dizendo que podemos ficar tranqüilos.
Rhodan
levantou a cabeça; parecia contrariado.
— Desejo um relatório
especificado, Kakuta. Não quero ver chegar o dia em que Klein não tem tempo
para mim. Da próxima vez não se contente com algumas frases vazias. Entendido?
— É claro
que o capitão me entregou algumas linhas — disse Kakuta, abatido. — Aqui está o
papel.
Rhodan leu;
seu rosto parecia mais satisfeito.
— Está bem.
Ao que parece, também no setor de Klein tudo está dando certo. À meia-noite em
ponto, o grupo de choque entrou em ação. Até agora mais de quinhentos robôs de
combate foram desativados em ações individuais. Se as coisas continuarem assim,
ao amanhecer do dia a missão estará concluída e poderemos incluir um comunicado
tranqüilizador no noticiário das sete.
— Gostaria
de ter o seu otimismo — respondeu Bell em tom indiferente, sem modificar a
posição confortável em que se encontrava na poltrona de plástico. — Se as
informações expedidas pelo cruzador Terra forem exatas, grande parte dos nossos
robôs age segundo a vontade do inimigo. Não posso imaginar que os saltadores
tenham alterado apenas a programação dos robôs de trabalho. Todas as
probabilidades levam à conclusão de que um inimigo esperto se interessaria em primeiro
lugar pelas máquinas de guerra. Em primeiro lugar foram concebidas para atuar
num conflito declarado, e depois sua qualidade de indivíduos cibernéticos
confere-lhes uma autonomia maior que a dos robôs de trabalhos, submetidos a um
comando centralizado.
— Seu
raciocínio não deixa de ser correto — confirmou Rhodan. — Foi por isso que tive
uma conversa mais prolongada com o capitão Klein. A luta que ele terá que
travar hoje de noite é mais difícil que muitas das grandes batalhas do espaço
que já enfrentamos. Seus comandos especiais são formados exclusivamente por
oficiais e tenentes. Mas você ouviu o que Tako acaba de dizer.
O
teleportador confirmou com um aceno de cabeça, como se estivesse empenhado em
acalmar os ânimos exaltados.
— Por três minutos
ouvi o capitão Klein expedir ordens e receber informações. O trabalho está
sendo executado com uma precisão cronométrica. Os homens se aproximam dos robôs
de combate ativados em grupos de três. Na maioria obedecem à sua lei fundamental,
segundo a qual devem aceitar sem discussão qualquer decisão de um ser humano.
Não oferecem resistência ao serem desativados...
— Na
maioria?
— Isso
mesmo. Dizem que houve três exceções. Mas antes que os sujeitos pudessem ativar
seu campo protetor individual, nossos comandos os atomizaram com seus
radiadores manuais. O chefe tem razão. Quando o sol nascer, tudo terá chegado
ao fim.
Todos
olharam instintivamente para Rhodan, que parecia ser o único que não partilhava
o otimismo generalizado. Em sua testa via-se uma ruga.
— O que
acha, Bell? Você não acha que a coisa está sendo fácil demais?
— Sei o que
está querendo dizer. Um robô de combate deveria ter reações mais seguras, que
lhe permitissem ativar seu campo protetor em tempo quando fosse atacado por um
homem. Ainda acontece que, se os saltadores programaram vários exemplares
segundo seus interesses, estes deviam se unir para enfrentar nossos comandos.
De outra forma a coisa não faria sentido.
— É isso
mesmo. Acho que nosso vôo para Vênus terá de ser adiado por algumas horas ou
alguns dias. Não sairemos da Terra enquanto não tivermos certeza de que tudo
está em ordem. Sairei por alguns minutos. Enquanto isso você assume o comando,
Bell.
Reginald
Bell confirmou com um aceno de cabeça. Ninguém perguntou quais eram as
intenções de Rhodan.
* * *
Uma vez lá
fora, Rhodan entrou num carro e saiu em desabalada carreira em direção ao
espaçoporto central, em cuja proximidade estava instalado o cérebro positrônico
de Terrânia. Entrou no enorme edifício. Não havia ninguém por perto. As
barreiras de segurança iam abrindo caminho para Rhodan, depois de este ter se
identificado através do modelo de suas ondas cerebrais. Finalmente atingiu o
grande pavilhão e realizou alguns cálculos. Os resultados pareciam satisfazê-lo
até certo ponto.
Era bem
verdade que seu trabalho não era apenas este.
Os acontecimentos
que se desenrolavam na Terra representavam um contratempo nos planos de Rhodan,
mesmo que pudessem ser vencidos num espaço de tempo bastante reduzido. O
regresso para o sistema do Sol fora realizado exclusivamente com vistas ao
grande cérebro positrônico instalado em Vênus. Depois da descoberta do planeta
Peregrino, Rhodan armazenara nas extensas aparelhagens do cérebro positrônico
de Vênus os dados e as quantidades de aproximação daquele corpo celeste. Por
isso mesmo, só aquele cérebro poderia lhe fornecer os dados de que precisava.
Rhodan
transmitiu o aviso em palavras faladas, gravou-o em fita e ouviu a gravação.
— Perry Rhodan, de Terrânia, para o cérebro P
de Vênus. Chave secreta PQ-3Z4! Ordem de prontidão. Preparar todos os dados
para o Projeto Vida Eterna-Peregrino. Estado de alarma até novas instruções.
Peço confirmação.
O texto era
correto. Rhodan introduziu-o no hipercomunicador, que realizava a transmissão
instantânea pela quinta dimensão. A resposta chegou dentro de poucos segundos.
— Cérebro P de Vênus para Perry Rhodan em
Terrânia. Instruções compreendidas. Todos os dados para o Projeto Vida
Eterna-Peregrino serão preparados. Estado de alarma até nova ordem. Ajuste
conforme chave secreta PQ-3Z4. Completamos: cláusula de bloqueio ligada ao
projeto Peregrino não inclui o receptor. Quaisquer informações serão fornecidas
exclusivamente a Perry Rhodan em pessoa. Fim.
A tela do
telecomunicador se apagou. Rhodan foi para o carro e voltou ao escritório de
Freyt.
Lá não
encontrou nada de novo.
— Tako, dê
mais um salto para o lugar em que se encontra o capitão Klein.
— Sim.
— Por que
não vamos todos ao quartel-general de Klein? — perguntou Bell. — Assim
receberemos as informações de primeira mão.
— Ficamos
aqui — decidiu Rhodan laconicamente. — Uma concentração das mulheres e dos
homens mais importantes na área de Klein poderia provocar suspeitas.
Não quero
que o quartel-general da ação que está sendo empreendida fique exposto a um
risco desnecessário. Klein deve trabalhar de forma discreta enquanto isso for
possível.
Kakuta
cumpriu a ordem. Demorou um pouco mais que da outra vez. Em compensação voltou
com notícias mais agradáveis.
— Metade dos
robôs de combate estacionados em nosso território já foi posta fora de combate.
Mas oito máquinas tiveram que ser destruídas porque opuseram resistência. O
capitão Klein não sofreu qualquer perda.
— As coisas
estão correndo mesmo com a precisão de um cronômetro — disse Bell, bastante
satisfeito.
E por mais algumas
horas isso seria verdade.
Quando o
crepúsculo anunciou a chegada de um novo dia, todos os robôs de combate haviam
sido desativados. Nas primeiras horas da manhã foi iniciado o transporte para o
pavilhão de controle, onde os gigantes de mais de dois metros seriam submetidos
ao mesmo tipo de verificação realizada com seus colegas da casta dos
trabalhadores.
Às sete da
manhã, o capitão Klein apresentou a lista completa das máquinas colocadas fora
de combate, com indicação do tempo e lugar. Onze indicações traziam a nota “destruído”.
— Foi um
serviço excelente — disse Rhodan, elogiando o capitão.
Falou alguns
segundos antes da hora. No mesmo instante veio a grande reviravolta.
2
O Videofone emitiu o ruído insistente da ligação
automática. No mesmo instante o zumbido do alarma encheu a sala e, por cima da
tela, a luz de advertência começou a piscar a breves intervalos.
Na
tela surgiu a figura de um tenente.
—
Os robôs estão marchando, capitão! Escaparam do pavilhão e avançam numa frente
ampla por três ruas...
O
tenente apontou a objetiva para fora da janela da sala de vigilância, e todas
as pessoas que se encontravam no escritório de Klein puderam testemunhar o
acontecimento. Mais de mil robôs de combate saíram do pavilhão e encheram a
grande praça fronteira. As vanguardas começaram a formar três cunhas, que
avançavam para o norte, leste e oeste.
—
Dê ordem de retirada a todos os destacamentos militares, capitão! — gritou
Rhodan. — Os que ainda estão vivos na área do pavilhão devem se retirar numa
distância mínima de quinhentos metros e entrar em formação. Os mutantes
comparecerão ao quartel-general do coronel Freyt. Vamos logo, coronel! Bell,
você irá comigo.
Os
dois amigos entraram no carro de Rhodan e saíram em disparada em direção ao
cérebro positrônico. A viagem não durou mais que cento e cinqüenta segundos.
Eram
cento e cinqüenta segundos muito preciosos, pensaram os dois. Mas sabiam que a
perda seria recuperada.
Era
bem verdade que Rhodan poderia dar o alarma em qualquer lugar em que se
encontrasse. Suas pulseiras versáteis bastariam para isso. Mas, face à
catástrofe ora desencadeada, o anúncio de qualquer tipo de alarma não seria uma
medida suficiente. O cérebro positrônico havia sido programado para milhares de
alternativas, e regulado previamente para qualquer emergência. Dessa forma,
todas as reações específicas poderiam ser determinadas e emitidas ao mesmo
tempo.
Rhodan
mal havia passado pela última barreira, quando sua simples presença fez com que
o cérebro se ativasse para o recebimento de comandos.
—
Bell! A caixa número três! Passe para cá!
Uma
gaveta sobre trilhos deslizou para fora de um armário embutido; estava recheada
de cartões perfurados. Rhodan arrancou um maço de cartões da mão do amigo e
atirou-o para dentro da abertura de recepção, que media três metros. Bell
entregou-lhe outras pilhas de cartões, que foram atirados sem prévia escolha
para dentro do primeiro estágio do seletor. Rhodan comprimiu nove botões. Desde
o tempo do supertreinamento arcônida sabia de cor a respectiva combinação.
—
Agora vamos respirar profundamente três vezes. E vamos soltar o ar bem devagar.
Isso
não durou mais de quinze segundos. O fim do exercício respiratório coincidiu
com a conclusão da primeira operação de interpretação. Rhodan segurou um dos
muitos cartões que atirara na máquina.
—
É este! Reação de alarma para todo o território da Terceira Potência no caso da
falha de todos os robôs individuais combinada com um perigo vindo de dentro...
O
cartão logo desapareceu em outro setor do cérebro. O aparelho superdimensionado
despertou para a vida em cem pontos diferentes. Cada reação fundamental
desencadeava muitas outras. Com a rapidez de um relâmpago, os impulsos
positrônicos captaram todos os aspectos da tarefa e se incumbiram de uma
operação complicada e variada de emissão de ordens.
Rhodan
e Bell não puderam fazer outra coisa senão ficar parados e respirar
profundamente por mais três vezes.
As
ordens elaboradas pelo aparelho abrangiam também o setor civil. Os funcionários
mais importantes receberam instruções sobre as providências a serem adotadas
por via direta, através dos receptores de videofone instalados em seus
escritórios e residências. As instruções gerais foram transmitidas pela
emissora de rádio governamental, cuja programação normal foi interrompida
automaticamente.
Quando
o cérebro positrônico ia repetir as instruções, Perry Rhodan interveio
pessoalmente. Suas palavras foram transmitidas por uma rede de alto-falantes,
instalados principalmente ao ar livre. Dessa forma todos que se encontravam no
território da Terceira Potência ouviam suas palavras, inclusive o inimigo. Mas
no momento não havia como evitar que isso acontecesse.
As
palavras de Perry foram de uma concisão extrema. Em poucas palavras expôs a
situação extraordinária com que se defrontavam. Ao concluir, disse que as
instruções posteriores seriam secretas.
Saíram
do recinto em que se encontrava instalado o cérebro.
Quando
saíram à rua, viram chegar os primeiros caminhões com tropas, que se destinavam
à proteção das instalações técnicas mais importantes do Estado. Os soldados
saltaram dos veículos e se espalharam em torno do quarteirão. Rhodan saudou-os
com um gesto de otimismo e colheu uma série de olhares de confiança. Podia
confiar nesses homens. Não tinha a menor dúvida.
Bell
fez a mesma constatação.
—
Que belo dinamismo, não é? — disse.
Sorriu
e se apressou em entrar no carro de Rhodan, que já se punha em movimento.
—
De volta para o quartel-general!
Ali
já haviam dado início ao cumprimento das ordens recebidas. A cúpula do
estado-maior estava de prontidão com as roupas desajeitadas que formavam o
traje transportador arcônida.
—
Já está na hora de nós dois colocarmos isso — pediu Bell. — Com um automóvel convencional
não agüentaremos por muito tempo.
—
Um belo dia você ainda aprenderá a ler pensamentos — zombou Rhodan em tom
amável.
Já
estava envergando o traje arcônida.
Deixou
o capacete aberto. Em caso de necessidade o fecho poderia ser colocado num
instante.
Nos
últimos anos a entrega dos trajes transportadores arcônidas passou a ser
liberada em escala cada vez maior para os funcionários e representantes mais
importantes da Terceira Potência. De início Rhodan e Bell eram os únicos que os
possuíam. Mas as fantásticas possibilidades de utilização desse equipamento
tornaram imperioso, no correr do tempo, que também os membros do Exército de
Mutantes, a alta oficialidade e os funcionários mais graduados os recebessem.
O
traje arcônida era uma vestimenta um tanto desajeitada, que se usava por cima
da roupa comum. Uma instalação antigravitacional embutida no mesmo permitia que
seu portador voasse. Além disso, era dotado de um defletor de raios luminosos
que tornava a pessoa invisível dentro da faixa de freqüência do olho humano
normal. Finalmente, uma barreira energética cuja potência equivalia
aproximadamente à de um robô de combate assegurava a integridade física do
portador.
Lá
fora um oficial deu sinal de sua presença. Era o comandante do grupo destacado
para a proteção do escritório do coronel Freyt.
—
Está bem, capitão — disse Bell. — Cumpra sua tarefa. Peço-lhe que só permita a
entrada de pessoas que tragam alguma informação de real importância.
Rhodan
já se aproximara da tela do videofone. A grande base fixa instalada na Terra já
conectara as ligações sem fio para as comunicações radiofônicas. Dessa forma
surgiu o quadro captado pela visão dos que se encontravam nos helicópteros que
patrulhavam os ares.
Apenas
oito minutos tinham passado desde o momento do alarma. Apesar disso o aspecto
das ruas passara por uma transformação profunda. As três cunhas do exército de
robôs avançavam implacavelmente. Em outras palavras, ainda não haviam se
deparado com qualquer resistência digna de nota.
Mas
a qualquer momento deveriam chegar às linhas de Klein, que haviam realizado um
recuo. Enquanto esse receio ainda tomava corpo, o fato aconteceu.
Os
radiadores de impulsos das tropas de infantaria escondidas nos prédios
expeliram a energia térmica, que era a única que representava um perigo para
aqueles seres artificiais.
Boa
parte dos atacantes prosseguiu em sua marcha. Apenas uns poucos caíram ou se
desmancharam. Os outros envolveram-se automaticamente com seus campos
energéticos protetores, alimentados por uma miniusina nuclear. Os robôs que se
encontravam nas fileiras exteriores desviaram-se imediatamente, deslocando-se o
mais rapidamente que seu formato o permitia em direção às casas.
—
Mantenha-se em contato com o inimigo, capitão — disse Bell subitamente,
dirigindo-se a Klein. — Mas libere um canal para a força aérea.
Ninguém
se surpreendeu com essas palavras. O alarma desencadeado pelo cérebro P
informou todo mundo sobre qual era seu lugar e quem era seu comandante.
Reginald Bell, ministro da segurança da Terceira Potência, investira-se
automaticamente no comando supremo das operações. A presença de Perry Rhodan
não alterava nada nessa situação.
O
coronel Friedrichs apareceu no videofone.
—
Sim senhor!
—
Gostaria que o senhor me apresentasse seu relato, coronel.
—
As esquadrilhas de caça decolaram conforme o plano. A segurança de nosso
território nacional fica a cargo de caças de um tripulante. Os destróieres de
três tripulantes patrulharão o espaço, até a altura da órbita lunar. No
interior da abóbada energética só podemos recorrer aos helicópteros. Vinte e
cinco unidades acabam de decolar e se dirigem para as cunhas dos robôs. Que
armas devem ser utilizadas?
—
Em hipótese alguma podemos usar bombas. Não pretendemos reduzir nossa cidade a
um montão de escombros fumegantes. O ataque deve ser realizado com o armamento
de bordo. Utilize os radiadores de impulsos térmicos. São as armas a cujos
efeitos os robôs são mais sensíveis.
—
Sim senhor.
A
comunicação foi interrompida. A atenção de Bell voltou a ser dedicada à tela.
As perspectivas da cidade não pareciam muito boas, ao menos no que dizia
respeito à área situada no interior da abóbada energética de dez quilômetros de
diâmetro, que formava o centro vital de Terrânia.
Na
tela via-se a imagem de muros que desmoronavam. Edifícios de cinco e seis
pavimentos situados na rota dos robôs caíam como se fossem barracos. As
máquinas de guerra desenvolviam um raciocínio autônomo, e dispunham das armas
mais eficientes que jamais um soldado carregou na Terra.
Sempre
que eram recebidos pelo fogo da infantaria, os aparelhos de observação neles
instalados logo lhes revelavam a posição do inimigo. Acontece que a massa dos
soldados não dispunha de campos energéticos individuais. Não tinham a menor
chance.
Os
alto-falantes informaram-nos de que reforços sob a forma de carros blindados,
dirigidos por homens, se encontravam a caminho. Retiravam-se em corrida
desesperada. Os vultos saíam dos abrigos em disparada. As armas de radiações
dos robôs dispunham de bons alvos. Sua capacidade de reação era muito superior
à do homem. Seu sistema nervoso era menos sofisticado que o de um ser
biologicamente estruturado mas, em compensação, muitas vezes mais eficiente. O
sistema nervoso do homem e do animal é uma instalação de alarma criada pelo
instinto de autoconservação. Nos robôs a necessidade desse tipo de alarma
praticamente não existia. Sua especialidade era o ataque e a destruição.
A
primeira lei dos robôs — “Nunca deves
matar um ser humano” — estava sujeita a uma forte diferenciação. Assim que
qualquer ser humano passava a ser considerado um inimigo, todos os escrúpulos
eram deixados de lado. Em virtude da modificação da programação realizada pelos
saltadores, todos os seres humanos passaram a ser considerados inimigos.
Os
homens assumiram maior cautela. Passaram a se utilizar de qualquer coisa que os
ocultasse. Com os rostos cobertos de suor e sujeira, foram chegando às posições
de defesa.
Os
oficiais designavam o lugar de cada um. Uma ligeira massagem de choque.
Tabletes energéticos. Novas armas. Os primeiros carros blindados estavam chegando.
A tripulação de outros tomava seus lugares no interior dos veículos. E os
soldados que haviam escapado ao inferno continuavam a chegar.
—
Que diabo! Onde estão os helicópteros? — gritou Bell.
—
Já estão chegando — disse Rhodan em tom áspero.
A
ponta da coluna de robôs que marchava pelo centro se derreteu sob o fogo dos
radiadores de impulsos. Oito máquinas de guerra foram destruídas. Mas depois
aconteceu uma coisa estranha.
Os
robôs se uniam em grupos de seis. Procuravam estabelecer uma espécie de contato.
Quem os observasse, logo percebia que o haviam encontrado. Reforçavam-se
mutuamente na ativação dos campos energéticos. E um campo energético seis vezes
reforçado seria impenetrável até mesmo para as armas de médio porte com que
estavam equipados os helicópteros.
“Poderíamos nos orgulhar com a inteligência
desses robôs, se eles estivessem do lado certo”, pensou Rhodan.
Assim
que uma onda de ataque dos helicópteros passava, os grupos de seis
dissolviam-se e prosseguiam no ataque.
—
Assim não conseguiremos deter o inimigo — gemeu Bell. — Por que será que nesta
batalha não dispomos de mutantes?
—
Pois temos mutantes — disse Rhodan em tom oracular. A pergunta de Bell fora
puramente retórica. — As instruções contidas nas diretivas elaboradas pelo
cérebro haviam-nos informado de que, no caso desse alarma, a utilização dos
mutantes não era recomendada. A não ser que se quisesse jogar tudo numa única
cartada.
Um
dos princípios fundamentais que prevaleciam na Terceira Potência determinava
que os mutantes deviam ser poupados sempre que havia uma probabilidade de
noventa por cento ou mais de que os mesmos seriam destruídos.
—
Dispomos de um teleportador, de um telecineta, de um telepata, de um espia, de
um goniômetro e de um sugestor — constatou Bell. — Tako só pode lidar consigo
mesmo, Anne poderia ser muito útil se não fosse preciosa demais, e Ishi não
pode extrair qualquer informação de uma máquina. Também Wuriu e Tanaka não nos
podem ser úteis. Kitai ainda não realizou qualquer experiência bem sucedida com
máquinas. Então, para que servirá essa gente?
—
Ofereço-me como voluntário — disse Anne Sloane, uma lourinha delicada. — Já
movi objetos de várias toneladas por via telecinética...
—
Mas não em plena batalha — objetou Rhodan. — Não adianta que enfrente esses
colossos, Anne. Conseguiria deter e fazer recuar alguns deles, mas apenas por
alguns instantes. Mas não demoraria em chegar a sua vez. A superioridade
numérica é muito grande.
—
Poderia atirá-los para o ar e fazê-los cair. Eles se arrebentariam.
—
Não fale mais sobre isso — recusou Rhodan. — Ainda temos outras coisas em
reserva. Tako, quer dar um pulo até aqui?
Rhodan
falou baixinho com o teleportador; ninguém entendeu suas palavras. Com exceção
talvez de Ishi Matsu, que era uma boa telepata.
De
uma hora para outra, o rosto de Tako irradiou alegria. Acenando fortemente com
a cabeça, disse:
—
Está bem, chefe! Voltarei quanto antes.
E
logo desapareceu.
Ninguém
se atreveu a fazer qualquer pergunta a Rhodan. Sempre que bancava o misterioso,
ele se mostrava coerente nessa atitude; não revelaria seus segredos a ninguém.
O
quadro que aparecia na tela estava completamente modificado.
Nas
três frentes de avanço, a marcha dos robôs fora detida provisoriamente. Mas
apenas provisoriamente.
Os
blindados que intervieram na batalha realizaram aquilo que Anne Sloane
pretendia alcançar através de suas forças naturais. Recorrendo a radiadores
antigravitacionais, os defensores criaram áreas restritas em que os objetos
perdiam o peso. Alguns dos robôs, impelidos pelos instrumentos de deslocamento,
dispararam para o alto. Assim que cessou o efeito dos raios antigravitacionais,
precipitaram-se ruidosamente ao solo. Poucos resistiram ao impacto.
Segundo
o levantamento provisório de Bell, cerca de cinqüenta robôs já haviam sido
destruídos. Mas ainda havia mais de mil, que prosseguiam implacavelmente em
direção ao objetivo: a instalação de comando da abóbada energética, o cérebro
positrônico do deserto de Gobi.
—
Se não houver algum milagre, ao menos oitocentos robôs conseguirão passar —
afirmou Bell. — Temos que desferir um golpe decisivo...
—
O centro em que se situam as instalações mais importantes dispõe de um
dispositivo de segurança muito potente. E o edifício do cérebro P dispõe de uma
barreira energética própria.
—
Obrigado pela lição — disse Bell em tom mordaz. — Acontece que não posso
compartilhar seu otimismo. Já vimos que, através de um contato mútuo, os robôs
são capazes de reforçar suas defesas. Aposto que ainda têm outras surpresas
para nós. E, se essas surpresas dizem respeito à sua tática de ataque, não
haverá nenhum motivo para otimismo.
Os
robôs iniciaram nova manobra.
A
utilização dos raios antigravitacionais retardou seu avanço. Nos momentos
críticos do bombardeio executado pelos blindados moviam-se a passos rastejantes.
Enquanto não impeliam o corpo para cima, mantinham-se relativamente próximos ao
solo. Alguns deles até aproveitavam a oportunidade para se impelir para a
frente. Com isso atingiam velocidades para as quais não haviam sido concebidos.
Dessa
forma as máquinas de guerra avançaram velozmente e, com uma rapidez espantosa,
colocaram-se entre os flancos de quatro blindados. Os pesados veículos foram
imediatamente destruídos.
Foi
uma perda total.
A
manobra tática seguinte dos robôs consistiu numa ampliação de sua frente de
ataque. As pontas das colunas se dividiram. Em seis, oito e doze colunas
prosseguiram no avanço.
Numa
ação que exigia tempo, os homens tiveram que deslocar reforços em torno de
outros quarteirões. E, utilizando o tempo que se passou até que esses reforços
pudessem entrar em ação, os robôs ganharam mais de mil metros de chão.
—
Que diabo, Rhodan! Por que você anda bancando o misterioso? — exclamou Reginald
Bell. — Explique logo o que pretende fazer com Tako. Afinal, o ministro da
segurança sou eu.
Num
movimento instintivo, todos os olhares se voltaram para Rhodan. O olhar
obstinado deste não tinha mais nada da confiança que há pouco irradiava.
—
Ei, Rhodan! Será que alguma coisa não está em ordem?
—
Estão cercando o quarteirão J-D III. É lá que mora o homem que Tako foi
procurar.
Nem
todos sabiam a quem Rhodan se referia. O quarteirão J-D III era grande: contava
mais de duzentas residências.
* * *
Ivã
Goratchim estava dormindo. A cabeça do lado esquerdo que, para distingui-la da
outra, usava o nome Ivanovitch, despertou poucos segundos antes. Mas os
reflexos das juntas fizeram com que Ivã também não demorasse em abrir os olhos.
—
O que houve?
—
Não está ouvindo, Ivã?
—
Quando acordo sempre ouço alguma coisa. Mas prefiro não ouvir nada. Bem que
você poderia ter me deixado dormir.
Ivanovitch
recorreu ao braço direito, comum aos dois, para se coçar. Como as duas cabeças
dispusessem de um único corpo, sempre tinham que chegar a algum acordo sobre o
uso do mesmo. Desde o nascimento, Ivã Goratchim adaptara-se à necessidade desse
procedimento. Além disso, possuía um caráter pacífico comum, que fazia com que
via de regra as duas cabeças acabassem concordando.
Acontece
que desta vez Ivanovitch era de outra opinião. Achou que os ruídos eram muito
importantes. Por isso a mão que o coçava ergueu-se subitamente e, antes que Ivã
desconfiasse de qualquer coisa, seus próprios dedos lhe beliscaram a orelha.
—
Diabo! Que é isso?
—
Isto é para você abrir o ouvido, meu caro. Estou ouvindo alguma coisa que não
parece ser muito boa. Se você adormecer de novo, nem por isso aquilo que há de
mau irá embora. Acho que o ruído indica a existência de algum perigo.
—
Indica guerra, Ivanovitch. Ouço um barulho que parece de veículos blindados
passando por aí.
—
De veículos blindados atirando — corrigiu a cabeça que era três segundos e meio
mais jovem. — Se os blindados estão passando, podem estar numa parada. Mas
quando estão atirando, fazem guerra.
Ivã
Goratchim saltou da cama. Ainda de pijama, correu para a janela e procurou
abri-la.
—
Você é um idiota! — gemeu Ivanovitch. — Em Terrânia não existem janelas que
possam ser abertas. Os aparelhos de condicionamento nos trazem o ar puro.
—
Acho que isto não é nenhum progresso. Uma janela só é uma janela de verdade
quando podemos nos inclinar para fora dela. Você vê que estes vidros embutidos
na parede são um absurdo. Nem podemos ver se o inimigo penetrou em Terrânia.
—
Nenhum inimigo pode penetrar em Terrânia — objetou Ivanovitch. — Quanto mais na
abóbada energética em cujo interior, conforme você sabe, estamos morando. Vai
ver que você está pensando nos nossos libertadores da Sibéria.
—
O mundo, ou Terra, conforme hoje se diz, está unido. Trata-se de um ataque
vindo do espaço. Se me lembro o que Rhodan nos contou sobre os saltadores, e como
o Supercrânio abusou de nós, não me sinto nada bem.
—
Não diga tolices! A Terceira Potência é o baluarte mais forte da Via Láctea.
—
Você mesmo acaba de dizer que é guerra. O que pode ser?
—
Devíamos mudar de roupa e sair para a rua.
—
Com este tempo não dou um passo para fora de minha casa. O ar está cheio de
aço, e de coisa pior. São esses raios modernos. A gente não os vê, não os
ouve...
—
Existem raios que se vêem e ouvem.
—
E existem outros que não se vêem — trovejou Ivã obstinadamente.
Uma
pequena briga entre as duas cabeças parecia estar a caminho. Mas, no mesmo
instante, ambas constataram que mesmo pela janela fechada podiam ver alguma
coisa.
No
céu viram uma fileira de helicópteros, que desceram em curva fechada. Os canos
dos radiadores de impulsos relampejaram.
Ivã
Goratchim empalideceu. O susto removera todos os mal-entendidos. As cabeças e o
corpo reagiram em conjunto, como se obedecessem a um único cérebro.
Num
movimento instintivo, Goratchim se afastou da janela.
—
Isso não é nenhuma manobra ou parada — afirmou Ivã. — Aposto que os saltadores
invadiram nosso território e pretendem conquistar a Terceira Potência. Devemos
ir imediatamente para junto de Rhodan a fim de prestar-lhe auxílio.
—
Ir até lá? — perguntou Ivanovitch em tom desolado. — Nem sabemos onde está
Rhodan. A sede do governo fica a dois quilômetros. E quando estivermos
caminhando pela rua, ninguém nos dirá quem é nosso amigo e quem é nosso
inimigo.
—
Perguntaremos ao pessoal — disse Ivã ingenuamente.
Finalmente
as duas cabeças chegaram a um acordo: ao menos teriam que mudar de roupa.
Quando Goratchim acabou de fazer o nó da gravata, Tako Kakuta surgiu do nada.
As
duas cabeças levaram outro susto. Ainda não se habituara à maneira pela qual um
teleportador costuma chegar. Mas logo percebeu que tinha diante de si um homem
de confiança de Rhodan.
—
Senhor Kakuta! Sua indiscrição nos torna muito nervosos.
—
Pelo universo, Goratchim. Eu o procurei por toda a residência. Quem poderia
imaginar que com todo este drama você ainda está na cama?
—
Ainda é cedo, e estávamos muito cansados — respondeu Ivã.
—
O que aconteceu? — interrompeu-o a cabeça da esquerda. — Como pôde qualquer
poder do universo penetrar até o interior de Terrânia?
—
As explicações têm de ficar para depois. Por enquanto temos que aceitar o fato de
que isso aconteceu — disse Tako Kakuta. — Os agentes dos saltadores obrigaram
nossos robôs a se passar para o seu lado. Até parece que todo o exército de
homens de lata enlouqueceu de uma hora para outra. Rhodan mandou que viesse até
aqui para lhe pedir que o ajudasse.
—
Rhodan estaria em condições de mandar; não precisaria pedir — afirmou Ivã.
—
Tanto faz que seja uma ordem ou um pedido — prosseguiu Ivanovitch. — Estamos
com ele. O que devemos fazer?
—
Senhor Goratchim, o senhor é nossa última esperança.
Ambas
as cabeças se esticaram num orgulho infantil.
—
Para nós esses robôs são um brinquedo — afirmou Ivanovitch.
—
Goratchim, você deve agir com muita prudência — advertiu-o o teleportador. — De
nada nos adiantará se cair na primeira batalha. Você tem muito mais a perder
que qualquer outro homem: duas cabeças.
—
Somos fortes — afirmou Ivã.
—
Para encontrar toda sua força, o forte tem de agir com inteligência — doutrinou
Kakuta. — Está pronto? Faça o favor de vir comigo. Eu o levarei para junto de
Rhodan.
A
residência ficava no primeiro andar. Não adiantava usar o elevador. A rua
estava cheia de gente.
—
É muito mais gente do que vimos da janela — espantou-se Ivanovitch. — E todos
correm na mesma direção. Será um ataque?
O
suor porejava na testa de Kakuta.
—
É uma fuga! — explicou em tom menos gentil do que usara até então. — A frente
de combate fica para outro lado. Temos que dobrar à esquerda e dar uma volta
pelo quarteirão J-G VII. A área que fica à nossa direita não está segura. É possível
que em frente ao centro de compras ainda encontremos um táxi livre.
—
Por que não pegamos um táxi robotizado?
—
Porque os robôs se revoltaram. Vamos, entre na confusão!
Enquanto
Kakuta dava ordem de caminhar, Ivã segurou as duas cabeças com um gesto rápido.
Foi um movimento instintivo.
De
um instante para outro o edifício retumbou em todos os cantos. As paredes
pareciam adquirir vida. Com um movimento chiante, uma fenda de cerca de dois
centímetros abriu-se no teto e caminhou rapidamente em direção ao soalho. O
emboço chovia sobre suas cabeças.
Encontravam-se
na entrada do edifício; enrijeceram de susto.
Kakuta
contou em voz alta até cinco. Quando concluiu, tudo parecia ter passado. Mas na
rua o inferno parecia andar às soltas. Destroços caíam em meio às massas em
fuga. Eram peças que se soltavam do telhado e dos pavimentos superiores.
Homens, mulheres e crianças tombavam mortos. A onda dos fugitivos os
pisoteavam.
Goratchim
ia saltar para a frente.
—
Fique aqui! — berrou Kakuta. — Os enfermeiros cuidarão dessa gente. Se não
pensarmos exclusivamente na nossa tarefa, todos os cidadãos da Terceira
Potência estarão perdidos, e não apenas os poucos que estão ali. O prédio tem
uma saída pelos fundos?
—
Tem. Leva a uma rua particular dos residentes.
—
Vamos, Goratchim. Talvez por lá a confusão não seja tanta.
A
suposição de Kakuta se revelou mais verdadeira do que ele desejava. A rua
particular parecia varrida de gente.
Saíram
do terreno.

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