quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

P-031 - O Imperador de Nova Iorque - W. W. Shols [parte 1]


Autor

W. W. SHOLS



Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
Denize


Revisão
Gandalf01






A Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan — uma feliz combinação da energia humana com a supertecnologia arcônida — pode apresentar, nos seus anos de existência, uma história muito movimentada, cheia de dramáticos altos e baixos.
Mas os acontecimentos mais recentes dão a impressão de que, ao se encontrar com os saltadores ou mercadores galácticos, Perry Rhodan passou a se defrontar com um poder que tem a intenção e a capacidade de destruir a Terra para eliminar um possível concorrente no comércio interestelar.
Há oito mil anos os saltadores detêm o monopólio do comércio galático, isso porque sempre reprimiram no nascedouro qualquer concorrência que se esboçasse.
A Terra e a Solar System, dois cruzadores espaciais da Terceira Potência, juntamente com o grupo de Julian Tifflor, que se encontra no planeta de gelo, dão muito trabalho aos saltadores no sistema de Beta-Albíreo, impedindo-os de se lançarem a um ataque direto contra a Terra. Acontece que os saltadores já dispõem de uma quinta-coluna em nosso planeta, composta de inúmeros agentes que procuram conquistar as bases da Terceira Potência.
O Imperador de Nova Iorque é um desses perigosos agentes...





= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =


Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência e comandante da Stardust-III.

Reginald Bell — Ministro da Segurança da Terceira Potência.

Coronel Freyt — Representante de Perry Rhodan na Terra.

Ivã Ivanovitch Goratchim — Que tem o costume de brigar consigo mesmo.

Tako Kakuta — Um teleportador que não gosta de rastejar.

Homer G. Adams — Um homem que não faz a menor questão de se colocar a serviço de um “imperador”.


1



Uma transição no hiperespaço.
Provinham da quinta dimensão, onde eram apenas energia e estavam reduzidos a uma amostra fiel de sua verdadeira identidade.
Cada vez que ocorria o fenômeno repetiam-se as mesmas dores físicas. A rotina não alterava nada nesse quadro. Cada transição trazia seu choque.
As juntas repuxavam e, depois que o espaço normal havia recuperado o corpo, os olhos precisavam se adaptar ao mesmo.
Figuras coloridas e saltitantes surgiam de um estranho crepúsculo. Custavam a desaparecer. Pedaço por pedaço, os olhos voltavam a abranger a visão da realidade. Quando isso aconteceu, Rhodan se deparou com o sorriso largo de Bell, que não parecia muito convincente.
Reginald Bell não teve o menor constrangimento em praguejar em altas vozes e esfregar a nuca. Pouco lhe importava que todo o pessoal reunido na sala de comando da Stardust-III o visse naquela oportunidade. Tinha certeza de que cada um deles estava ocupado em primeira linha com seus problemas. Ninguém escapava à dor e ao choque.
— Graças a Deus! Estamos em casa!
Estas palavras só poderiam ter saído da boca de alguém que há muito tempo vivia as concepções cósmicas. Afinal, ainda se encontravam muito além da órbita de Plutão, a cerca de oitenta unidades astronômicas do planeta Terra.
Mas, se considerarmos que o salto espacial os transportara num instante por uma distância de trezentos e vinte anos-luz...
Subitamente um forte zumbido se fez ouvir em meio a essas reflexões ociosas. Pareciam cem transformadores avariados ao mesmo tempo. De um instante para outro, todos se esqueceram das dores nas juntas. Uma sereia de alarma não teria causado maior agitação.
Perry Rhodan sentiu o beliscão que Bell deu em seu braço.
— Está vendo? Um belo dia esses saltos teriam que causar algum problema. Nem quero ver quando a tela de proa esquentar.
Reginald Bell não foi o único que sentiu arrepios de susto. Qualquer ruído, por mais familiar que seja, deixa de ser inofensivo quando se verifica uma coincidência temporal entre ele e o retorno do hiperespaço. Apesar da segurança proporcionada pela tecnologia arcônida altamente desenvolvida, o homem desconfiava por instinto.
Desta vez Rhodan sorriu. Em sua mente o instante de pavor foi mais curto.
— A tela já está quente. Não sei por que todo esse nervosismo.
Os instrumentos na sala de comando já tinham voltado a funcionar. Na lâmina translúcida via-se a constelação familiar do sistema solar. Os dispositivos automáticos haviam mandado para o espaço os raios dos rastreadores e dos aparelhos de radar. Antenas complicadas captavam os impulsos identificáveis no espectro eletromagnético e, depois de transformá-los em símbolos inteligíveis, conduziam-nos para o quadro que se encontrava diante do primeiro-piloto.
Não havia a menor dúvida: a transição fora coroada de êxito. Estavam em casa. Apesar disso, o sorriso de Rhodan só durou poucos segundos.
O ruído fora causado pelas instalações superpotentes do aparelho de intercomunicação instalado na nave, cujos impulsos de captação conseguiam absorver, num décimo de segundo, uma mensagem de um metro de comprimento. O aparelho de decifração acoplado ao mesmo fez com que poucos segundos depois o texto decodificado se encontrasse diante dos olhos de Rhodan.
Cruzador Terra para Stardust-III! Cruzador Terra para Stardust-III! Segundo informações colhidas pela equipe de Tifflor, os agentes que o inimigo colocou na Terra são robôs arcônidas. É de recear que se trata de robôs que sejam de nossa propriedade e se encontrem a serviço da Terceira Potência. As pesquisas realizadas levam à conclusão de que, em alguns casos, certos especialistas dos mercadores conseguiram chegar à Terra sem serem reconhecidos e modificaram a programação dos robôs segundo suas conveniências. Existe um perigo grave para a Terra. Cruzador Terra para a Stardust-III! Cruzador Terra para a Stardust-III!
Com um clique, a reprodução em fita foi interrompida. Por alguns segundos, um silêncio total tomou conta da ampla sala de comando desse gigante do espaço, cujo diâmetro atingia oitocentos metros.
— Vejo que a missão secreta do cadete Tifflor não foi em vão — constatou Rhodan laconicamente. Até parecia que as informações que acabara de receber não o preocupavam, mas lhe causavam alegria por demonstrarem que seus planos foram corretos. Bell, porém, não sentiu a menor disposição de se mostrar exultante com uma notícia tão desalentadora.
— Esse menino, o Tifflor, ainda o levará a um convento, onde você poderá meditar em paz — esbravejou o homem de olhos cor de água. — Até parece que você ainda não compreendeu todo o significado da mensagem que acabamos de receber. Permita que eu a interprete no sentido de que o inferno está às soltas na Terra. Este é o primeiro ponto. E o segundo ponto é o seguinte: temos que deixar Vênus de lado e nos dirigir diretamente à Terra.
— Ainda dispomos de três minutos para resolver isso, Bell — disse Rhodan em tom indiferente e sem a menor ironia. — Na posição em que nos encontramos, a mudança de rota não será superior a um segundo do arco graduado. O que importa no momento é acelerarmos a nave ao máximo...
Enquanto falava, Rhodan transmitiu as instruções necessárias através de seu painel de controle. Poucos segundos depois, a Stardust-III, impelida por forças titânicas, disparou para a frente. A nave parecia adquirir vida. O uivo dos geradores de propulsão rivalizava com o barulho dos mecanismos de absorção da força gravitacional, forçados até o máximo de sua capacidade.
Esses fatos não afetaram o bem-estar dos tripulantes. O que parecia se mover era o universo, não a nave. A sala de comando parecia um pólo imóvel plantado no centro do espaço cósmico.
Rhodan se reclinou no assento do piloto.
— Agora precisamos de paciência. De doze horas de paciência, que será o tempo que levaremos para pousar no planeta Terra.
Era a ironia das leis naturais.
Um salto espacial de trezentos e vinte anos-luz podia ser comprimido num tempo objetivo de poucos minutos. Mas num vôo normal a uma velocidade próxima à da luz — a que tinha de recorrer no âmbito de sistemas solares habitados, por motivos de segurança — um pulo de gato de pouco mais de dez bilhões de quilômetros demorava meio dia.
Paciência!
* * *
A situação da Terra entrara num estágio novo, bastante crítico.
Depois de longos anos, Rhodan pretendia cumprir a promessa de levar Thora e Crest, os arcônidas, ao seu mundo natal. Por outro lado, achava que a criação de um governo universal para o planeta Terra representava um problema urgente. Mas uma série de acontecimentos misteriosos vieram perturbar a realização desses projetos.
Dois destróieres de três tripulantes da Terceira Potência não regressaram de um vôo de reconhecimento. Mais ou menos ao mesmo tempo, desapareceu uma nave auxiliar, da classe dos chamados girinos. Tudo isso aconteceu numa época de paz, na qual não se percebia o menor sinal de que houvesse o perigo de uma invasão extraterrena. Como se isso não bastasse, as naves de patrulhamento da Terceira Potência, alertadas por esses fatos, constataram que pouco depois algumas naves desconhecidas pousaram em Vênus e logo voltaram a decolar. Certas perturbações na estrutura espaço-temporal permitiram a medição de transições que só poderiam ter sido originadas por hipersaltos executados por unidades espaciais desconhecidas. O maior cérebro positrônico do sistema solar, instalado na selva do hemisfério norte do planeta Vênus, com base em fatores de probabilidade bem fundados, concluiu que um poder desconhecido vindo das profundezas do espaço descobrira a posição da Terra, mas recuava diante de um conflito aberto.
Constatada essa situação, Rhodan colocou em estado de alarma seu Exército de Mutantes e, numa missão extenuante, tangera seus membros para todos os cantos do globo terrestre. Mas a missão não produziu o menor resultado. Seus colaboradores supersensoriais — parte deles eram telepatas — voltaram sem terem conseguido nada.
Em Terrânia, a metrópole da Terceira Potência, erguida em pleno deserto de Gobi, não se sabia o que fazer. Pelo que tudo indicava, certos acontecimentos misteriosos que se verificaram na Terra só podiam ser atribuídos a agentes vindos de fora. Mas ninguém conseguia localizar esses agentes. E, quando um mutante não conseguia encontrá-los, qualquer um haveria de confessar que não podia fazer mais nada.
Isso, todavia, não aconteceu com Perry Rhodan!
Ele inverteu as posições. “Se Maomé não vai à montanha, a montanha tem de ir a Maomé”, conjeturou. Agiu como se Julian Tifflor, um dos elementos mais promissores de seu corpo de cadetes, fosse um agente altamente secreto da Terceira Potência. Tifflor era a isca.
E os desconhecidos morderam a isca.
Apoderaram-se da nave espacial em que Tifflor viajava, a Good Hope-IX, comandada pelo major Deringhouse. Para isso, lançaram mão de um raio de tração. Depois desviaram o veículo espacial para o sistema que gravita em torno dos sóis geminados de Beta-Albíreo, situado a uma distância de trezentos e vinte anos-luz.
Imediatamente a Stardust-III, com dois girinos a bordo e acompanhada dos cruzadores Terra e Solar System seguiu o cadete. Mas Rhodan teve bastante inteligência para não superestimar o poderio de sua pequena frota. Não podia arriscar um ataque direto; teria que se manter a uma distância segura e sondar a situação.
As informações de Crest, o arcônida, confirmaram o acerto desse procedimento.
Descobriram que estavam lidando com uma raça legendária de mercadores galácticos, os saltadores. A posição do sistema de Beta-Albíreo constituía o indício mais seguro disso. Crest pôde explicar detalhadamente o que havia com essa raça.
Há oito mil anos da escala de tempo terrestre os saltadores haviam se separado do Grande Império arcônida, embora fossem descendentes dos arcônidas. Seu estilo de vida inconstante fez com que passassem a levar vida nômade. Com isso desenvolveram uma cultura e uma tecnologia autônoma. Enquanto o mundo de Árcon, que já fora tão forte, entrou num processo de degenerescência ininterrupta, os mercadores saíram pelas imensidões da galáxia, onde encontraram poder e riqueza. Embora não fossem de índole guerreira, não recuavam diante de qualquer meio para alcançar os objetivos a que se propunham. E um desses objetivos era a Terra.
* * *
Paciência!
Esse pedido de Rhodan representou uma dura provação para todos. Até para ele mesmo.
Faltavam doze horas para o pouso na Terra. O que não poderia acontecer nesse tempo?
Os agentes estranhos eram robôs que integravam suas próprias fileiras. Mas robôs com a programação modificada.
Na sala de comando não discutiam muito. Sempre que o chefe da Terceira Potência se encontrasse presente, guardava-se um respeito espontâneo, embora todos soubessem que Perry Rhodan era um homem acessível a qualquer idéia razoável.
Um homem que raras vezes guardava silêncio era o representante de Rhodan, Reginald Bell.
Bell encontrou a palavra adequada para desfazer o clima de tensão.
— Até parece que vocês estão sendo levados para a forca. O que importa que faltem algumas horas para o pouso? Ao menos conhecemos a situação. Afinal, os robôs enlouquecidos já estão andando há semanas pelas áreas que estão sob nosso controle. E, apesar do trabalho secreto que talvez já tenham feito, a Terra continua de pé. Quando estivermos na Terra, não demoraremos a dar um fim a isso. Acho que ainda vamos atrapalhar os cálculos dessa gente.
Bell se calou. Um ou outro dos circunstantes respondeu com um aceno de cabeça. Mas não chegou a se estabelecer a conversa que ele desejaria. Perry Rhodan transmitiu algumas ordens para os observadores e solicitou um controle de rota.
Concluída essa operação de rotina, o silêncio voltou a se instalar na sala. Os pensamentos voltaram a caminhar pelo futuro e pelo passado.
A Good Hope-IX, com o comandante e os cadetes, caíra nas mãos dos saltadores. A essa hora, porém, já se sabia que Tifflor e seus companheiros haviam conseguido chegar a um planeta de gelo, onde se mantinham escondidos. Rhodan enviara Gucky, um estranho ser peludo, para ajudá-los; graças aos seus múltiplos dons parapsicológicos, Gucky representava uma ajuda substancial. No momento era só o que podia fazer pelo grupo. A qualquer momento teria que contar com a vinda de reforços para o inimigo. Suas naves eram unidades dotadas do acabamento arcônida. Para se manter diante desse inimigo dotado de iguais recursos técnicos teria que procurar alcançar uma superioridade em outra parte. E essa outra parte só poderia se situar no planeta Peregrino, o planeta da vida eterna.
Mas, para encontrar o Peregrino, não bastaria uma navegação de rotina. Os anuários astronáuticos e as tabelas de efemérides não adiantariam nada. O planeta da vida eterna era um mundo sem sol. Era um solitário que jazia nos campos gravitacionais da Via Láctea, mas podia alterar sua rota independentemente dos mesmos, segundo a vontade e os caprichos de seu senhor.
O cérebro positrônico altamente desenvolvido estava em condições de obter dados sobre a posição do planeta; e estes dados se revestiam de razoável teor de probabilidade. O cérebro “mais inteligente” de que dispunha a Terceira Potência estava instalado em Vênus.
Esse fato bastara para levar Perry Rhodan a se afastar do sistema de Beta-Albíreo. Precisava dos dados sobre a posição em que o Peregrino se encontrava no momento, pois ali iria buscar aquilo de que necessitava para alcançar superioridade sobre os mercadores.
Concluiu-se que a notícia alarmante transmitida pelos cruzadores em patrulha não correspondia ao programa. Apesar disso, Rhodan conseguiu extrair o que havia de melhor nesse fato.
Finalmente obtivera algum indício sobre a ação a ser empreendida na Terra. Na verdade, a origem daquela situação que envolvia todos estava no seu planeta natal. Por semanas a fio não conseguiram pôr as mãos no inimigo invisível. Só agora, através da atuação de Tifflor, descobrira-se que a causa de tudo aquilo não eram seres vivos, mas robôs.
O novo dado constituía motivo suficiente para desistir por enquanto do pouso em Vênus. De nada valeriam as vitórias que fossem alcançadas lá fora, na galáxia, se a Terra, que era a base da Humanidade, ia passando progressivamente ao controle do inimigo.
Rhodan preferiu não transmitir para Terrânia os fatos que haviam acabado de chegar ao seu conhecimento. Seria melhor chegar de surpresa. Não queria que qualquer dos agentes do inimigo soubesse antes da hora que sua identidade havia sido descoberta.
Na altura da órbita de Júpiter, a Stardust-III expediu o primeiro aviso. Tratava-se de uma mensagem lacônica e rotineira, que informava a base de Gobi de que o pouso de Rhodan estava previsto para breve.
A confirmação de Terrânia veio pela voz do próprio coronel Freyt.
— Ainda bem que está chegando, chefe. Muita coisa aconteceu na sua ausência.
— Não me aborreça, coronel — disse Rhodan com um sorriso, a fim de confundir eventuais escutas do inimigo. — As notícias que lhe trago também não são muito agradáveis. Espero que ao menos tenha descoberto os agentes do inimigo durante minha ausência.
— Reivindico o direito de não ser mais inteligente que você e seu Exército de Mutantes — respondeu o coronel Freyt em tom distante. — Elaboramos um relatório detalhado sobre as ações por nós empreendidas. Com sua permissão, o mesmo lhe será apresentado logo após sua chegada.
— Não faça tanto drama. Afinal, qual foi o resultado?
— Os tais dos agentes inimigos não existem.
Muito obrigado, coronel. Fique com esse tipo de surpresa para si. Seria justo que uma pessoa que volta para casa só recebesse notícias agradáveis. Acho que você não levará mais de dez anos para aprender isso...
* * *
A Stardust-III penetrou na abóbada energética da área central de Terrânia, que se abrira especialmente. No espaçoporto A vários veículos estavam à espera, para levar os oficiais aos quartéis. O resto da tripulação foi colocado em vários ônibus robotizados. Ficaram para trás apenas dez homens da equipe de conservação, que imediatamente entraram em contato com os robôs de plantão, que realizariam uma limpeza e uma verificação cuidadosa no gigantesco veículo espacial.
Rhodan foi imediatamente ao escritório de Freyt. Somente Bell o acompanhou.
Contrariamente ao que costumava fazer, o coronel não comparecera ao espaçoporto para recebê-los. O cumprimento que pronunciou à entrada de Rhodan e Bell não teve nada de solene. Freyt parecia deprimido. De pé atrás da escrivaninha, disse com a voz um tanto cansada:
— Façam o favor de sentar.
Estendeu um estojo de cigarros a Rhodan e Bell. Sentou devagar e respirou aliviado. Talvez fosse porque a partir desse momento a responsabilidade pela Terceira Potência voltara às mãos de Rhodan. Apesar disso, não parecia muito aliviado.
— Tudo continua como antes, chefe, com a única diferença de que o inimigo fica mais atrevido a cada dia que passa...
— Há pouco me disse pelo rádio que os agentes inimigos não existem.
— E não existem mesmo, se me baseio no resultado das nossas investigações. Mas eles passam a existir se você lê os jornais, Rhodan.
— Está bem. Conte tudo, Freyt.
— Esqueça-se da palestra que tivemos pelo rádio. Aqui estamos entre nós; podemos falar à vontade.
— Duvido muito de que estejamos a sós.
— Não se faça de neurastênico, coronel! Nunca me constou que você sofresse alucinações. Não me comece com isso justa mente agora.
— Estou falando sério. Não há dúvida de que os agentes que procuramos realmente existem. Mas não existe um ser vivo na Terra que possa ser reconhecido como tal. O senhor mesmo experimentou aquele fracasso com a atuação dos mutantes...
— Não me recorde os meus fracassos.
— Hoje já sabemos mais alguma coisa. O cadete Tifflor descobriu que os indivíduos que estamos procurando são nossos robôs... Ou ao menos alguns deles...
— O coronel Freyt encarou o chefe.
— Nossos robôs? — gaguejou. — Isso é...
— Isso é perfeitamente possível e plausível, Freyt. É a única explicação que temos. Tifflor sabe disso. Não imaginou esta solução, mas andou espreitando o inimigo.
— E a explicação é perfeitamente aceitável.
— Todo mundo sabe que nossos telepatas não podem ler os pensamentos dos robôs. Seu processo mental desenvolve-se em outra faixa de freqüência que o do homem natural. Além disso, as reações celulares artificiais são muito mais primitivas e menos exatas que as do nosso cérebro. Portanto, não há por que deixarmos de acreditar nessa versão.
De um instante para outro, Freyt parecia completamente transformado. Sua atitude voltara a exprimir o otimismo que todos estavam acostumados a ver nele.
— Nesse caso não haverá o menor problema. Suspendemos o suprimento de energia de todos os robôs e realizamos uma revisão completa nos mesmos.
— Foi esta a decisão que tomei há oito horas — disse Rhodan, arrefecendo o entusiasmo de Freyt. — Mas espero que você consiga imaginar o que vai acontecer se paralisarmos hoje de tarde todos os robôs de trabalho. Nossas linhas de montagem estão trabalhando a plena capacidade. A eliminação de vários milhares de elementos de vigilância significaria que em muitos casos as reações necessárias deixariam de ser realizadas. Imagine o que vai acontecer se a corrida de um alto-forno sofrer um atraso, ou se o suprimento de grafite de um reator não for controlado, ou...
O coronel Freyt levantou a mão, num gesto de recusa.
— É claro que compreendo, Rhodan. Nossa indústria não pode funcionar sem a utilização constante dos robôs. Haveria uma catástrofe...
— Somos escravos da nossa tecnologia — disse Bell, completando o raciocínio. — É uma situação maluca. O inimigo está em nossas fileiras. Se reduzirmos essas fileiras à inatividade, nossa cidade não demorará um dia em voar pelos ares. A solução do dilema cabe a você, Rhodan.
Rhodan provou que a solução não era tão difícil assim. Era bem verdade que os habitantes humanos de Terrânia teriam que desenvolver uma energia extraordinária.
— Dispomos de sete horas para preparar a execução do plano. Depois das vinte e duas horas, o último turno dos trabalhadores da indústria comum vai para casa. Até lá noventa por cento das nossas fábricas estarão paralisadas. Só teremos de nos preocupar com os dez por cento que trabalham dia e noite. Trata-se das usinas de força, dos postos de controle geral, dos hospitais, das unidades policiais, do serviço de vigilância estratégica, etc. Até as vinte e duas horas todos esses serviços deverão ser ocupados discretamente por seres humanos. Às vinte e duas horas e dez minutos o suprimento de energia de todos os robôs será suspenso.
De todos os robôs de trabalho, Rhodan — ponderou Bell. — Não se esqueça de que os robôs de combate dispõem de um comando individual, motivo por que não dependem dos impulsos fornecidos pelo cérebro central de controle.
— É um risco que temos de assumir — declarou Rhodan. — Com uma única ação não podemos liquidar tudo. Acontece que os robôs de trabalho representam perto de oitenta por cento do total de que dispomos. Com a paralisação deles, o risco principal será eliminado. Faça o favor de convocar a cúpula do estado-maior, coronel. Daqui a meia hora quero falar com os meus colaboradores.
No mesmo instante teve início uma atividade que poucas vezes havia sido vista em Terrânia. Sob um sigilo absoluto e mediante um estrito controle telepático, os colaboradores mais chegados de Rhodan receberam suas instruções. Estas foram retransmitidas à ampla rede de setores subordinados.
Para o observador desprevenido, as atividades do dia-a-dia pareciam prosseguir sem a menor alteração. Os numerosos turistas que se encontravam na cidade, vindos de todos os continentes, e que costumavam chegar a Terrânia em contingentes diários de dois a três mil, apenas viam a atividade benfazeja daquela nação territorialmente tão pequena. Sem desconfiar de nada, sentiam a paz, a segurança e o poder que irradiavam do reino de Rhodan.
Quando a hora X se aproximava, se encontravam nos locais de vida noturna ou nos seus aposentos nos hotéis.
22:00 h: As sereias anunciam o término de mais um dia de trabalho, o fim do último turno.
22:05 h: O nervosismo cresce entre as pessoas informadas sobre os acontecimentos. Os sentidos estão tensos.
22:10 h!
Em algum lugar situado no interior da abóbada energética central uma mão puxa a chave de que tudo depende. No mesmo instante, milhares de robôs de trabalho suspendem sua atividade. Veículos dirigidos eletronicamente param em meio à viagem. Em todos os lugares em que havia máquinas que controlavam outras máquinas o trabalho é suspenso. Nas indústrias vitais as pessoas que se encontram de prontidão saltam para a frente e numa questão de segundos substituem as máquinas que entraram em greve. A vida tinha de continuar.
Tudo aquilo havia sido preparado nos menores detalhes. Os homens de Terrânia trabalhavam em mais de cinco mil turnos especiais. A execução de numerosas funções, que o homem progressista há anos entregara à máquina, correu sem o menor contratempo. Aquilo representava uma recaída para o desconforto de tempos mais atrasados. Mas, apesar dos termos lacônicos em que fora concebida, a ordem secreta levara ao conhecimento de todos os participantes que as questões que se encontravam em jogo eram de importância vital.
De repente, viaturas policiais com os alto-falantes a todo volume passaram pelas ruas.
— Atenção, moradores de Terrânia! Houve um contratempo no posto central de controle de robôs. Pedimos a todos que se mantenham calmos e disciplinados. Os reparos demorarão algumas horas. O ministério do interior tomará imediatamente todas as medidas necessárias. Os hóspedes e habitantes de Terrânia que teriam que andar mais de quinze minutos para chegar em casa deverão comparecer aos pontos de parada. Pedimos que os que residam mais perto andem a pé. Não há motivo para preocupações. Mantenham-se disciplinados. O ministério do interior tomará imediatamente...
O quartel-general da operação fora instalado no escritório do coronel Freyt. Este se transformara numa espécie de prefeito de Terrânia, embora sua posição oficial não fosse esta. Era o representante de Rhodan no território da Terceira Potência e, como tal, conduzia os destinos do Estado e de sua capital sempre que Rhodan se encontrasse em outro lugar. E muitas vezes Rhodan se encontrava em outro lugar.
O representante de Rhodan nas questões universais era Reginald Bell. Dali se concluía como esses dois homens sofriam sob o peso das chamadas viagens de negócios. Quase sempre andavam fora. Em outro país, em outro planeta e até em outro sistema solar.
A tarefa de Freyt era mais prosaica, muito embora tanto no caráter como no aspecto exterior ele tivesse muita semelhança com Perry Rhodan. Geralmente ficava no deserto de Gobi, onde executava as funções de lugar-tenente do chefe.
Quando Rhodan regressava, muitas vezes apresentava relatórios extensos sobre os acontecimentos rotineiros do dia-a-dia. E às vezes havia algo de excitante.
Como hoje.
O coronel Freyt não procurou ocultar o fato de que a presença de Rhodan representava um alívio para ele. Dificilmente teria havido em Terrânia horas tão críticas como as que estavam se passando. Reginald Bell chegou a afirmar que era o dia mais excitante que vivia desde o pouso no deserto de Gobi.
— O resultado de nosso trabalho foi excelente — argumentou Bell. — Nenhuma das ações que nos foram relatadas deixa nada a desejar. Sei perfeitamente que só na Terceira Potência uma tarefa pode ser executada com tamanha precisão. Mas a coisa deverá ter seu prosseguimento...
— Você não demorará em saber como prosseguirão as coisas — respondeu Rhodan. — Até agora o mundo não parou por causa das preocupações que passam pela sua cabeça.
— Mas os robôs pararam. Lembro-me perfeitamente das promessas gordas que você transmitiu pelos alto-falantes móveis e pela rádio estatal. Você sabe perfeitamente que, por enquanto, nem podemos pensar em reativar os robôs de trabalho, a não ser que deseje trazer de volta o risco que ontem enfrentávamos.
— Agora é noite. Nas próximas horas pouca gente estará interessada em saber quando os robôs estarão plenamente recuperados. A situação só começará a se tornar crítica amanhã de manhã, quando as pessoas quiserem esquentar a água para o café. Até lá teremos que dar conta do recado.
Bell se limitou a dar de ombros, num gesto de incredulidade. Pensava nos milhares de robôs, que teriam de ser examinados um por um. E o exame só poderia ser realizado por seres humanos.
Saíram do escritório de Freyt e dirigiram-se ao elevador que os levaria ao subsolo. Ali havia muitos veículos que podiam ser dirigidos pela mão do homem. Pegaram três carros e saíram para a área dos fundos, de onde se dirigiram a um pavilhão situado a cerca de quatro quilômetros de distância.
Ali uns trezentos engenheiros haviam montado seus postos de controle. Já estavam trabalhando no momento em que Rhodan chegou com seu estado-maior, que incluía vários mutantes.
Numa fila ininterrupta vinham chegando os caminhões, cujos guindastes colocavam cautelosamente no chão os robôs desativados.
Rhodan e Reginald Bell entraram no pavilhão e visitaram alguns dos postos de controle. O chefe da Terceira Potência conversou com os engenheiros-chefe e os dirigentes técnicos. Apenas dizia algumas palavras indiferentes, pois a forma de execução do trabalho havia sido estabelecida em todos os detalhes. Os pacientes eram classificados segundo critérios especiais e transferidos a outro setor, onde era apagada a programação anterior. Poucos recebiam desde logo um novo programa. Eram aqueles que seriam necessários para os serviços que teriam que ser executados ainda naquela noite. Os outros teriam que aguardar novas solicitações.
Saíram do pavilhão, depois de terem se certificado de que o trabalho com os robôs corria normalmente. Antes de entrarem nos seus carros, Rhodan se dirigiu a Tako Kakuta, um teleportador japonês que, graças às suas capacidades sensoriais que haviam passado por um processo de mutação, estava em condições de se teleportar no mais curto espaço de tempo para qualquer lugar que escolhesse. No âmbito da geografia terrestre as distâncias praticamente não representavam nada para ele.
— Olá, Tako! Dê um salto para junto do capitão Klein, que está dirigindo a ação contra os robôs de combate. Peça que ele lhe forneça um breve relato sobre a situação e vá diretamente ao escritório do coronel Freyt. Dentro de cinco minutos no máximo estaremos lá.
— Está bem, chefe — confirmou o teleportador. Por um instante concentrou-se sobre o alvo que pretendia atingir com o salto. Depois disso, a figura de seu corpo se dissolveu num nada aparente. Para os homens da Terceira Potência, o desaparecimento de um teleportador numa questão de segundos era um acontecimento corriqueiro.
— Peço aos outros que venham comigo — disse Rhodan.
Elaborara um plano bem definido para as ações a serem empreendidas naquela noite. E uma das providências mais inteligentes consistia em estar prevenido para qualquer imprevisto. Por isso não podia dispensar a presença dos mutantes. Deviam estar à mão quando surgisse algo de extraordinário.
Rhodan examinou o grupo de mutantes.
Muitos dos mais capazes dos seus mutantes tinham ficado em companhia de John Marshall, a bordo dos cruzadores pesados Terra e Solar System, estacionados no sistema de Beta-Albíreo. Assim mesmo Rhodan podia depositar toda a confiança nos homens e nas mulheres que com ele tinham regressado à Terra.
Além de Tako Kakuta podia contar com Anne Sloane, uma americana loura e delgada que tinha o dom da telecinésia. Nos últimos anos, ela aperfeiçoara este dom através de um treinamento constante. Também havia Ishi Matsu, uma japonesa, que era uma ótima telepata. E Wuriu Sengu, um tipo de ombros largos com aspecto de lutador, cujas forças mentais permitiam-lhe enxergar através da matéria compacta. Tanaka Seiko, o goniômetro, possuía um cérebro que desempenhava as funções de um receptor de ondas de rádio; podia captar qualquer freqüência sem precisar de um rádio. Finalmente, naquela noite ainda dispunha de Kitai Ishibashi, um sugestor que dispunha de consideráveis forças hipnóticas. Quem se encontrasse sob a influência de Kitai, faria o que ele desejasse, embora acreditasse que estava agindo por sua livre vontade.
Chegaram ao escritório de Freyt.
— Se as coisas correrem conforme você planejou — disse o Dr. Manoli, amigo intimo de Rhodan desde o tempo da primeira viagem lunar — poderemos passar a noite com vinho e cigarros.
— Com vinho não. Hoje de noite o uso do álcool é proibido.
Tiveram de se contentar com cigarros.
Pouco depois chegou Tako Kakuta. Não entrou pela porta ou por qualquer outra abertura na parede. Veio pela maneira peculiar de um teleportador. No meio da sala se rematerializou de seu breve salto.
— Tudo bem, chefe — anunciou. — O capitão Klein está cheio de serviço e disse que eu só o perturbava. Mas acabou dizendo que podemos ficar tranqüilos.
Rhodan levantou a cabeça; parecia contrariado.
— Desejo um relatório especificado, Kakuta. Não quero ver chegar o dia em que Klein não tem tempo para mim. Da próxima vez não se contente com algumas frases vazias. Entendido?
— É claro que o capitão me entregou algumas linhas — disse Kakuta, abatido. — Aqui está o papel.
Rhodan leu; seu rosto parecia mais satisfeito.
— Está bem. Ao que parece, também no setor de Klein tudo está dando certo. À meia-noite em ponto, o grupo de choque entrou em ação. Até agora mais de quinhentos robôs de combate foram desativados em ações individuais. Se as coisas continuarem assim, ao amanhecer do dia a missão estará concluída e poderemos incluir um comunicado tranqüilizador no noticiário das sete.
— Gostaria de ter o seu otimismo — respondeu Bell em tom indiferente, sem modificar a posição confortável em que se encontrava na poltrona de plástico. — Se as informações expedidas pelo cruzador Terra forem exatas, grande parte dos nossos robôs age segundo a vontade do inimigo. Não posso imaginar que os saltadores tenham alterado apenas a programação dos robôs de trabalho. Todas as probabilidades levam à conclusão de que um inimigo esperto se interessaria em primeiro lugar pelas máquinas de guerra. Em primeiro lugar foram concebidas para atuar num conflito declarado, e depois sua qualidade de indivíduos cibernéticos confere-lhes uma autonomia maior que a dos robôs de trabalhos, submetidos a um comando centralizado.
— Seu raciocínio não deixa de ser correto — confirmou Rhodan. — Foi por isso que tive uma conversa mais prolongada com o capitão Klein. A luta que ele terá que travar hoje de noite é mais difícil que muitas das grandes batalhas do espaço que já enfrentamos. Seus comandos especiais são formados exclusivamente por oficiais e tenentes. Mas você ouviu o que Tako acaba de dizer.
O teleportador confirmou com um aceno de cabeça, como se estivesse empenhado em acalmar os ânimos exaltados.
— Por três minutos ouvi o capitão Klein expedir ordens e receber informações. O trabalho está sendo executado com uma precisão cronométrica. Os homens se aproximam dos robôs de combate ativados em grupos de três. Na maioria obedecem à sua lei fundamental, segundo a qual devem aceitar sem discussão qualquer decisão de um ser humano. Não oferecem resistência ao serem desativados...
— Na maioria?
— Isso mesmo. Dizem que houve três exceções. Mas antes que os sujeitos pudessem ativar seu campo protetor individual, nossos comandos os atomizaram com seus radiadores manuais. O chefe tem razão. Quando o sol nascer, tudo terá chegado ao fim.
Todos olharam instintivamente para Rhodan, que parecia ser o único que não partilhava o otimismo generalizado. Em sua testa via-se uma ruga.
— O que acha, Bell? Você não acha que a coisa está sendo fácil demais?
— Sei o que está querendo dizer. Um robô de combate deveria ter reações mais seguras, que lhe permitissem ativar seu campo protetor em tempo quando fosse atacado por um homem. Ainda acontece que, se os saltadores programaram vários exemplares segundo seus interesses, estes deviam se unir para enfrentar nossos comandos. De outra forma a coisa não faria sentido.
— É isso mesmo. Acho que nosso vôo para Vênus terá de ser adiado por algumas horas ou alguns dias. Não sairemos da Terra enquanto não tivermos certeza de que tudo está em ordem. Sairei por alguns minutos. Enquanto isso você assume o comando, Bell.
Reginald Bell confirmou com um aceno de cabeça. Ninguém perguntou quais eram as intenções de Rhodan.
* * *
Uma vez lá fora, Rhodan entrou num carro e saiu em desabalada carreira em direção ao espaçoporto central, em cuja proximidade estava instalado o cérebro positrônico de Terrânia. Entrou no enorme edifício. Não havia ninguém por perto. As barreiras de segurança iam abrindo caminho para Rhodan, depois de este ter se identificado através do modelo de suas ondas cerebrais. Finalmente atingiu o grande pavilhão e realizou alguns cálculos. Os resultados pareciam satisfazê-lo até certo ponto.
Era bem verdade que seu trabalho não era apenas este.
Os acontecimentos que se desenrolavam na Terra representavam um contratempo nos planos de Rhodan, mesmo que pudessem ser vencidos num espaço de tempo bastante reduzido. O regresso para o sistema do Sol fora realizado exclusivamente com vistas ao grande cérebro positrônico instalado em Vênus. Depois da descoberta do planeta Peregrino, Rhodan armazenara nas extensas aparelhagens do cérebro positrônico de Vênus os dados e as quantidades de aproximação daquele corpo celeste. Por isso mesmo, só aquele cérebro poderia lhe fornecer os dados de que precisava.
Rhodan transmitiu o aviso em palavras faladas, gravou-o em fita e ouviu a gravação.
Perry Rhodan, de Terrânia, para o cérebro P de Vênus. Chave secreta PQ-3Z4! Ordem de prontidão. Preparar todos os dados para o Projeto Vida Eterna-Peregrino. Estado de alarma até novas instruções. Peço confirmação.
O texto era correto. Rhodan introduziu-o no hipercomunicador, que realizava a transmissão instantânea pela quinta dimensão. A resposta chegou dentro de poucos segundos.
Cérebro P de Vênus para Perry Rhodan em Terrânia. Instruções compreendidas. Todos os dados para o Projeto Vida Eterna-Peregrino serão preparados. Estado de alarma até nova ordem. Ajuste conforme chave secreta PQ-3Z4. Completamos: cláusula de bloqueio ligada ao projeto Peregrino não inclui o receptor. Quaisquer informações serão fornecidas exclusivamente a Perry Rhodan em pessoa. Fim.
A tela do telecomunicador se apagou. Rhodan foi para o carro e voltou ao escritório de Freyt.
Lá não encontrou nada de novo.
— Tako, dê mais um salto para o lugar em que se encontra o capitão Klein.
— Sim.
— Por que não vamos todos ao quartel-general de Klein? — perguntou Bell. — Assim receberemos as informações de primeira mão.
— Ficamos aqui — decidiu Rhodan laconicamente. — Uma concentração das mulheres e dos homens mais importantes na área de Klein poderia provocar suspeitas.
Não quero que o quartel-general da ação que está sendo empreendida fique exposto a um risco desnecessário. Klein deve trabalhar de forma discreta enquanto isso for possível.
Kakuta cumpriu a ordem. Demorou um pouco mais que da outra vez. Em compensação voltou com notícias mais agradáveis.
— Metade dos robôs de combate estacionados em nosso território já foi posta fora de combate. Mas oito máquinas tiveram que ser destruídas porque opuseram resistência. O capitão Klein não sofreu qualquer perda.
— As coisas estão correndo mesmo com a precisão de um cronômetro — disse Bell, bastante satisfeito.
E por mais algumas horas isso seria verdade.
Quando o crepúsculo anunciou a chegada de um novo dia, todos os robôs de combate haviam sido desativados. Nas primeiras horas da manhã foi iniciado o transporte para o pavilhão de controle, onde os gigantes de mais de dois metros seriam submetidos ao mesmo tipo de verificação realizada com seus colegas da casta dos trabalhadores.
Às sete da manhã, o capitão Klein apresentou a lista completa das máquinas colocadas fora de combate, com indicação do tempo e lugar. Onze indicações traziam a nota “destruído”.
— Foi um serviço excelente — disse Rhodan, elogiando o capitão.
Falou alguns segundos antes da hora. No mesmo instante veio a grande reviravolta.

2



O Videofone emitiu o ruído insistente da ligação automática. No mesmo instante o zumbido do alarma encheu a sala e, por cima da tela, a luz de advertência começou a piscar a breves intervalos.
Na tela surgiu a figura de um tenente.
— Os robôs estão marchando, capitão! Escaparam do pavilhão e avançam numa frente ampla por três ruas...
O tenente apontou a objetiva para fora da janela da sala de vigilância, e todas as pessoas que se encontravam no escritório de Klein puderam testemunhar o acontecimento. Mais de mil robôs de combate saíram do pavilhão e encheram a grande praça fronteira. As vanguardas começaram a formar três cunhas, que avançavam para o norte, leste e oeste.
— Dê ordem de retirada a todos os destacamentos militares, capitão! — gritou Rhodan. — Os que ainda estão vivos na área do pavilhão devem se retirar numa distância mínima de quinhentos metros e entrar em formação. Os mutantes comparecerão ao quartel-general do coronel Freyt. Vamos logo, coronel! Bell, você irá comigo.
Os dois amigos entraram no carro de Rhodan e saíram em disparada em direção ao cérebro positrônico. A viagem não durou mais que cento e cinqüenta segundos.
Eram cento e cinqüenta segundos muito preciosos, pensaram os dois. Mas sabiam que a perda seria recuperada.
Era bem verdade que Rhodan poderia dar o alarma em qualquer lugar em que se encontrasse. Suas pulseiras versáteis bastariam para isso. Mas, face à catástrofe ora desencadeada, o anúncio de qualquer tipo de alarma não seria uma medida suficiente. O cérebro positrônico havia sido programado para milhares de alternativas, e regulado previamente para qualquer emergência. Dessa forma, todas as reações específicas poderiam ser determinadas e emitidas ao mesmo tempo.
Rhodan mal havia passado pela última barreira, quando sua simples presença fez com que o cérebro se ativasse para o recebimento de comandos.
— Bell! A caixa número três! Passe para cá!
Uma gaveta sobre trilhos deslizou para fora de um armário embutido; estava recheada de cartões perfurados. Rhodan arrancou um maço de cartões da mão do amigo e atirou-o para dentro da abertura de recepção, que media três metros. Bell entregou-lhe outras pilhas de cartões, que foram atirados sem prévia escolha para dentro do primeiro estágio do seletor. Rhodan comprimiu nove botões. Desde o tempo do supertreinamento arcônida sabia de cor a respectiva combinação.
— Agora vamos respirar profundamente três vezes. E vamos soltar o ar bem devagar.
Isso não durou mais de quinze segundos. O fim do exercício respiratório coincidiu com a conclusão da primeira operação de interpretação. Rhodan segurou um dos muitos cartões que atirara na máquina.
— É este! Reação de alarma para todo o território da Terceira Potência no caso da falha de todos os robôs individuais combinada com um perigo vindo de dentro...
O cartão logo desapareceu em outro setor do cérebro. O aparelho superdimensionado despertou para a vida em cem pontos diferentes. Cada reação fundamental desencadeava muitas outras. Com a rapidez de um relâmpago, os impulsos positrônicos captaram todos os aspectos da tarefa e se incumbiram de uma operação complicada e variada de emissão de ordens.
Rhodan e Bell não puderam fazer outra coisa senão ficar parados e respirar profundamente por mais três vezes.
As ordens elaboradas pelo aparelho abrangiam também o setor civil. Os funcionários mais importantes receberam instruções sobre as providências a serem adotadas por via direta, através dos receptores de videofone instalados em seus escritórios e residências. As instruções gerais foram transmitidas pela emissora de rádio governamental, cuja programação normal foi interrompida automaticamente.
Quando o cérebro positrônico ia repetir as instruções, Perry Rhodan interveio pessoalmente. Suas palavras foram transmitidas por uma rede de alto-falantes, instalados principalmente ao ar livre. Dessa forma todos que se encontravam no território da Terceira Potência ouviam suas palavras, inclusive o inimigo. Mas no momento não havia como evitar que isso acontecesse.
As palavras de Perry foram de uma concisão extrema. Em poucas palavras expôs a situação extraordinária com que se defrontavam. Ao concluir, disse que as instruções posteriores seriam secretas.
Saíram do recinto em que se encontrava instalado o cérebro.
Quando saíram à rua, viram chegar os primeiros caminhões com tropas, que se destinavam à proteção das instalações técnicas mais importantes do Estado. Os soldados saltaram dos veículos e se espalharam em torno do quarteirão. Rhodan saudou-os com um gesto de otimismo e colheu uma série de olhares de confiança. Podia confiar nesses homens. Não tinha a menor dúvida.
Bell fez a mesma constatação.
— Que belo dinamismo, não é? — disse.
Sorriu e se apressou em entrar no carro de Rhodan, que já se punha em movimento.
— De volta para o quartel-general!
Ali já haviam dado início ao cumprimento das ordens recebidas. A cúpula do estado-maior estava de prontidão com as roupas desajeitadas que formavam o traje transportador arcônida.
— Já está na hora de nós dois colocarmos isso — pediu Bell. — Com um automóvel convencional não agüentaremos por muito tempo.
— Um belo dia você ainda aprenderá a ler pensamentos — zombou Rhodan em tom amável.
Já estava envergando o traje arcônida.
Deixou o capacete aberto. Em caso de necessidade o fecho poderia ser colocado num instante.
Nos últimos anos a entrega dos trajes transportadores arcônidas passou a ser liberada em escala cada vez maior para os funcionários e representantes mais importantes da Terceira Potência. De início Rhodan e Bell eram os únicos que os possuíam. Mas as fantásticas possibilidades de utilização desse equipamento tornaram imperioso, no correr do tempo, que também os membros do Exército de Mutantes, a alta oficialidade e os funcionários mais graduados os recebessem.
O traje arcônida era uma vestimenta um tanto desajeitada, que se usava por cima da roupa comum. Uma instalação antigravitacional embutida no mesmo permitia que seu portador voasse. Além disso, era dotado de um defletor de raios luminosos que tornava a pessoa invisível dentro da faixa de freqüência do olho humano normal. Finalmente, uma barreira energética cuja potência equivalia aproximadamente à de um robô de combate assegurava a integridade física do portador.
Lá fora um oficial deu sinal de sua presença. Era o comandante do grupo destacado para a proteção do escritório do coronel Freyt.
— Está bem, capitão — disse Bell. — Cumpra sua tarefa. Peço-lhe que só permita a entrada de pessoas que tragam alguma informação de real importância.
Rhodan já se aproximara da tela do videofone. A grande base fixa instalada na Terra já conectara as ligações sem fio para as comunicações radiofônicas. Dessa forma surgiu o quadro captado pela visão dos que se encontravam nos helicópteros que patrulhavam os ares.
Apenas oito minutos tinham passado desde o momento do alarma. Apesar disso o aspecto das ruas passara por uma transformação profunda. As três cunhas do exército de robôs avançavam implacavelmente. Em outras palavras, ainda não haviam se deparado com qualquer resistência digna de nota.
Mas a qualquer momento deveriam chegar às linhas de Klein, que haviam realizado um recuo. Enquanto esse receio ainda tomava corpo, o fato aconteceu.
Os radiadores de impulsos das tropas de infantaria escondidas nos prédios expeliram a energia térmica, que era a única que representava um perigo para aqueles seres artificiais.
Boa parte dos atacantes prosseguiu em sua marcha. Apenas uns poucos caíram ou se desmancharam. Os outros envolveram-se automaticamente com seus campos energéticos protetores, alimentados por uma miniusina nuclear. Os robôs que se encontravam nas fileiras exteriores desviaram-se imediatamente, deslocando-se o mais rapidamente que seu formato o permitia em direção às casas.
— Mantenha-se em contato com o inimigo, capitão — disse Bell subitamente, dirigindo-se a Klein. — Mas libere um canal para a força aérea.
Ninguém se surpreendeu com essas palavras. O alarma desencadeado pelo cérebro P informou todo mundo sobre qual era seu lugar e quem era seu comandante. Reginald Bell, ministro da segurança da Terceira Potência, investira-se automaticamente no comando supremo das operações. A presença de Perry Rhodan não alterava nada nessa situação.
O coronel Friedrichs apareceu no videofone.
— Sim senhor!
— Gostaria que o senhor me apresentasse seu relato, coronel.
— As esquadrilhas de caça decolaram conforme o plano. A segurança de nosso território nacional fica a cargo de caças de um tripulante. Os destróieres de três tripulantes patrulharão o espaço, até a altura da órbita lunar. No interior da abóbada energética só podemos recorrer aos helicópteros. Vinte e cinco unidades acabam de decolar e se dirigem para as cunhas dos robôs. Que armas devem ser utilizadas?
— Em hipótese alguma podemos usar bombas. Não pretendemos reduzir nossa cidade a um montão de escombros fumegantes. O ataque deve ser realizado com o armamento de bordo. Utilize os radiadores de impulsos térmicos. São as armas a cujos efeitos os robôs são mais sensíveis.
— Sim senhor.
A comunicação foi interrompida. A atenção de Bell voltou a ser dedicada à tela. As perspectivas da cidade não pareciam muito boas, ao menos no que dizia respeito à área situada no interior da abóbada energética de dez quilômetros de diâmetro, que formava o centro vital de Terrânia.
Na tela via-se a imagem de muros que desmoronavam. Edifícios de cinco e seis pavimentos situados na rota dos robôs caíam como se fossem barracos. As máquinas de guerra desenvolviam um raciocínio autônomo, e dispunham das armas mais eficientes que jamais um soldado carregou na Terra.
Sempre que eram recebidos pelo fogo da infantaria, os aparelhos de observação neles instalados logo lhes revelavam a posição do inimigo. Acontece que a massa dos soldados não dispunha de campos energéticos individuais. Não tinham a menor chance.
Os alto-falantes informaram-nos de que reforços sob a forma de carros blindados, dirigidos por homens, se encontravam a caminho. Retiravam-se em corrida desesperada. Os vultos saíam dos abrigos em disparada. As armas de radiações dos robôs dispunham de bons alvos. Sua capacidade de reação era muito superior à do homem. Seu sistema nervoso era menos sofisticado que o de um ser biologicamente estruturado mas, em compensação, muitas vezes mais eficiente. O sistema nervoso do homem e do animal é uma instalação de alarma criada pelo instinto de autoconservação. Nos robôs a necessidade desse tipo de alarma praticamente não existia. Sua especialidade era o ataque e a destruição.
A primeira lei dos robôs — “Nunca deves matar um ser humano” — estava sujeita a uma forte diferenciação. Assim que qualquer ser humano passava a ser considerado um inimigo, todos os escrúpulos eram deixados de lado. Em virtude da modificação da programação realizada pelos saltadores, todos os seres humanos passaram a ser considerados inimigos.
Os homens assumiram maior cautela. Passaram a se utilizar de qualquer coisa que os ocultasse. Com os rostos cobertos de suor e sujeira, foram chegando às posições de defesa.
Os oficiais designavam o lugar de cada um. Uma ligeira massagem de choque. Tabletes energéticos. Novas armas. Os primeiros carros blindados estavam chegando. A tripulação de outros tomava seus lugares no interior dos veículos. E os soldados que haviam escapado ao inferno continuavam a chegar.
— Que diabo! Onde estão os helicópteros? — gritou Bell.
— Já estão chegando — disse Rhodan em tom áspero.
A ponta da coluna de robôs que marchava pelo centro se derreteu sob o fogo dos radiadores de impulsos. Oito máquinas de guerra foram destruídas. Mas depois aconteceu uma coisa estranha.
Os robôs se uniam em grupos de seis. Procuravam estabelecer uma espécie de contato. Quem os observasse, logo percebia que o haviam encontrado. Reforçavam-se mutuamente na ativação dos campos energéticos. E um campo energético seis vezes reforçado seria impenetrável até mesmo para as armas de médio porte com que estavam equipados os helicópteros.
Poderíamos nos orgulhar com a inteligência desses robôs, se eles estivessem do lado certo”, pensou Rhodan.
Assim que uma onda de ataque dos helicópteros passava, os grupos de seis dissolviam-se e prosseguiam no ataque.
— Assim não conseguiremos deter o inimigo — gemeu Bell. — Por que será que nesta batalha não dispomos de mutantes?
— Pois temos mutantes — disse Rhodan em tom oracular. A pergunta de Bell fora puramente retórica. — As instruções contidas nas diretivas elaboradas pelo cérebro haviam-nos informado de que, no caso desse alarma, a utilização dos mutantes não era recomendada. A não ser que se quisesse jogar tudo numa única cartada.
Um dos princípios fundamentais que prevaleciam na Terceira Potência determinava que os mutantes deviam ser poupados sempre que havia uma probabilidade de noventa por cento ou mais de que os mesmos seriam destruídos.
— Dispomos de um teleportador, de um telecineta, de um telepata, de um espia, de um goniômetro e de um sugestor — constatou Bell. — Tako só pode lidar consigo mesmo, Anne poderia ser muito útil se não fosse preciosa demais, e Ishi não pode extrair qualquer informação de uma máquina. Também Wuriu e Tanaka não nos podem ser úteis. Kitai ainda não realizou qualquer experiência bem sucedida com máquinas. Então, para que servirá essa gente?
— Ofereço-me como voluntário — disse Anne Sloane, uma lourinha delicada. — Já movi objetos de várias toneladas por via telecinética...
— Mas não em plena batalha — objetou Rhodan. — Não adianta que enfrente esses colossos, Anne. Conseguiria deter e fazer recuar alguns deles, mas apenas por alguns instantes. Mas não demoraria em chegar a sua vez. A superioridade numérica é muito grande.
— Poderia atirá-los para o ar e fazê-los cair. Eles se arrebentariam.
— Não fale mais sobre isso — recusou Rhodan. — Ainda temos outras coisas em reserva. Tako, quer dar um pulo até aqui?
Rhodan falou baixinho com o teleportador; ninguém entendeu suas palavras. Com exceção talvez de Ishi Matsu, que era uma boa telepata.
De uma hora para outra, o rosto de Tako irradiou alegria. Acenando fortemente com a cabeça, disse:
— Está bem, chefe! Voltarei quanto antes.
E logo desapareceu.
Ninguém se atreveu a fazer qualquer pergunta a Rhodan. Sempre que bancava o misterioso, ele se mostrava coerente nessa atitude; não revelaria seus segredos a ninguém.
O quadro que aparecia na tela estava completamente modificado.
Nas três frentes de avanço, a marcha dos robôs fora detida provisoriamente. Mas apenas provisoriamente.
Os blindados que intervieram na batalha realizaram aquilo que Anne Sloane pretendia alcançar através de suas forças naturais. Recorrendo a radiadores antigravitacionais, os defensores criaram áreas restritas em que os objetos perdiam o peso. Alguns dos robôs, impelidos pelos instrumentos de deslocamento, dispararam para o alto. Assim que cessou o efeito dos raios antigravitacionais, precipitaram-se ruidosamente ao solo. Poucos resistiram ao impacto.
Segundo o levantamento provisório de Bell, cerca de cinqüenta robôs já haviam sido destruídos. Mas ainda havia mais de mil, que prosseguiam implacavelmente em direção ao objetivo: a instalação de comando da abóbada energética, o cérebro positrônico do deserto de Gobi.
— Se não houver algum milagre, ao menos oitocentos robôs conseguirão passar — afirmou Bell. — Temos que desferir um golpe decisivo...
— O centro em que se situam as instalações mais importantes dispõe de um dispositivo de segurança muito potente. E o edifício do cérebro P dispõe de uma barreira energética própria.
— Obrigado pela lição — disse Bell em tom mordaz. — Acontece que não posso compartilhar seu otimismo. Já vimos que, através de um contato mútuo, os robôs são capazes de reforçar suas defesas. Aposto que ainda têm outras surpresas para nós. E, se essas surpresas dizem respeito à sua tática de ataque, não haverá nenhum motivo para otimismo.
Os robôs iniciaram nova manobra.
A utilização dos raios antigravitacionais retardou seu avanço. Nos momentos críticos do bombardeio executado pelos blindados moviam-se a passos rastejantes. Enquanto não impeliam o corpo para cima, mantinham-se relativamente próximos ao solo. Alguns deles até aproveitavam a oportunidade para se impelir para a frente. Com isso atingiam velocidades para as quais não haviam sido concebidos.
Dessa forma as máquinas de guerra avançaram velozmente e, com uma rapidez espantosa, colocaram-se entre os flancos de quatro blindados. Os pesados veículos foram imediatamente destruídos.
Foi uma perda total.
A manobra tática seguinte dos robôs consistiu numa ampliação de sua frente de ataque. As pontas das colunas se dividiram. Em seis, oito e doze colunas prosseguiram no avanço.
Numa ação que exigia tempo, os homens tiveram que deslocar reforços em torno de outros quarteirões. E, utilizando o tempo que se passou até que esses reforços pudessem entrar em ação, os robôs ganharam mais de mil metros de chão.
— Que diabo, Rhodan! Por que você anda bancando o misterioso? — exclamou Reginald Bell. — Explique logo o que pretende fazer com Tako. Afinal, o ministro da segurança sou eu.
Num movimento instintivo, todos os olhares se voltaram para Rhodan. O olhar obstinado deste não tinha mais nada da confiança que há pouco irradiava.
— Ei, Rhodan! Será que alguma coisa não está em ordem?
— Estão cercando o quarteirão J-D III. É lá que mora o homem que Tako foi procurar.
Nem todos sabiam a quem Rhodan se referia. O quarteirão J-D III era grande: contava mais de duzentas residências.
* * *
Ivã Goratchim estava dormindo. A cabeça do lado esquerdo que, para distingui-la da outra, usava o nome Ivanovitch, despertou poucos segundos antes. Mas os reflexos das juntas fizeram com que Ivã também não demorasse em abrir os olhos.
— O que houve?
— Não está ouvindo, Ivã?
— Quando acordo sempre ouço alguma coisa. Mas prefiro não ouvir nada. Bem que você poderia ter me deixado dormir.
Ivanovitch recorreu ao braço direito, comum aos dois, para se coçar. Como as duas cabeças dispusessem de um único corpo, sempre tinham que chegar a algum acordo sobre o uso do mesmo. Desde o nascimento, Ivã Goratchim adaptara-se à necessidade desse procedimento. Além disso, possuía um caráter pacífico comum, que fazia com que via de regra as duas cabeças acabassem concordando.
Acontece que desta vez Ivanovitch era de outra opinião. Achou que os ruídos eram muito importantes. Por isso a mão que o coçava ergueu-se subitamente e, antes que Ivã desconfiasse de qualquer coisa, seus próprios dedos lhe beliscaram a orelha.
— Diabo! Que é isso?
— Isto é para você abrir o ouvido, meu caro. Estou ouvindo alguma coisa que não parece ser muito boa. Se você adormecer de novo, nem por isso aquilo que há de mau irá embora. Acho que o ruído indica a existência de algum perigo.
— Indica guerra, Ivanovitch. Ouço um barulho que parece de veículos blindados passando por aí.
— De veículos blindados atirando — corrigiu a cabeça que era três segundos e meio mais jovem. — Se os blindados estão passando, podem estar numa parada. Mas quando estão atirando, fazem guerra.
Ivã Goratchim saltou da cama. Ainda de pijama, correu para a janela e procurou abri-la.
— Você é um idiota! — gemeu Ivanovitch. — Em Terrânia não existem janelas que possam ser abertas. Os aparelhos de condicionamento nos trazem o ar puro.
— Acho que isto não é nenhum progresso. Uma janela só é uma janela de verdade quando podemos nos inclinar para fora dela. Você vê que estes vidros embutidos na parede são um absurdo. Nem podemos ver se o inimigo penetrou em Terrânia.
— Nenhum inimigo pode penetrar em Terrânia — objetou Ivanovitch. — Quanto mais na abóbada energética em cujo interior, conforme você sabe, estamos morando. Vai ver que você está pensando nos nossos libertadores da Sibéria.
— O mundo, ou Terra, conforme hoje se diz, está unido. Trata-se de um ataque vindo do espaço. Se me lembro o que Rhodan nos contou sobre os saltadores, e como o Supercrânio abusou de nós, não me sinto nada bem.
— Não diga tolices! A Terceira Potência é o baluarte mais forte da Via Láctea.
— Você mesmo acaba de dizer que é guerra. O que pode ser?
— Devíamos mudar de roupa e sair para a rua.
— Com este tempo não dou um passo para fora de minha casa. O ar está cheio de aço, e de coisa pior. São esses raios modernos. A gente não os vê, não os ouve...
— Existem raios que se vêem e ouvem.
— E existem outros que não se vêem — trovejou Ivã obstinadamente.
Uma pequena briga entre as duas cabeças parecia estar a caminho. Mas, no mesmo instante, ambas constataram que mesmo pela janela fechada podiam ver alguma coisa.
No céu viram uma fileira de helicópteros, que desceram em curva fechada. Os canos dos radiadores de impulsos relampejaram.
Ivã Goratchim empalideceu. O susto removera todos os mal-entendidos. As cabeças e o corpo reagiram em conjunto, como se obedecessem a um único cérebro.
Num movimento instintivo, Goratchim se afastou da janela.
— Isso não é nenhuma manobra ou parada — afirmou Ivã. — Aposto que os saltadores invadiram nosso território e pretendem conquistar a Terceira Potência. Devemos ir imediatamente para junto de Rhodan a fim de prestar-lhe auxílio.
— Ir até lá? — perguntou Ivanovitch em tom desolado. — Nem sabemos onde está Rhodan. A sede do governo fica a dois quilômetros. E quando estivermos caminhando pela rua, ninguém nos dirá quem é nosso amigo e quem é nosso inimigo.
— Perguntaremos ao pessoal — disse Ivã ingenuamente.
Finalmente as duas cabeças chegaram a um acordo: ao menos teriam que mudar de roupa. Quando Goratchim acabou de fazer o nó da gravata, Tako Kakuta surgiu do nada.
As duas cabeças levaram outro susto. Ainda não se habituara à maneira pela qual um teleportador costuma chegar. Mas logo percebeu que tinha diante de si um homem de confiança de Rhodan.
— Senhor Kakuta! Sua indiscrição nos torna muito nervosos.
— Pelo universo, Goratchim. Eu o procurei por toda a residência. Quem poderia imaginar que com todo este drama você ainda está na cama?
— Ainda é cedo, e estávamos muito cansados — respondeu Ivã.
— O que aconteceu? — interrompeu-o a cabeça da esquerda. — Como pôde qualquer poder do universo penetrar até o interior de Terrânia?
— As explicações têm de ficar para depois. Por enquanto temos que aceitar o fato de que isso aconteceu — disse Tako Kakuta. — Os agentes dos saltadores obrigaram nossos robôs a se passar para o seu lado. Até parece que todo o exército de homens de lata enlouqueceu de uma hora para outra. Rhodan mandou que viesse até aqui para lhe pedir que o ajudasse.
— Rhodan estaria em condições de mandar; não precisaria pedir — afirmou Ivã.
— Tanto faz que seja uma ordem ou um pedido — prosseguiu Ivanovitch. — Estamos com ele. O que devemos fazer?
— Senhor Goratchim, o senhor é nossa última esperança.
Ambas as cabeças se esticaram num orgulho infantil.
— Para nós esses robôs são um brinquedo — afirmou Ivanovitch.
— Goratchim, você deve agir com muita prudência — advertiu-o o teleportador. — De nada nos adiantará se cair na primeira batalha. Você tem muito mais a perder que qualquer outro homem: duas cabeças.
— Somos fortes — afirmou Ivã.
— Para encontrar toda sua força, o forte tem de agir com inteligência — doutrinou Kakuta. — Está pronto? Faça o favor de vir comigo. Eu o levarei para junto de Rhodan.
A residência ficava no primeiro andar. Não adiantava usar o elevador. A rua estava cheia de gente.
— É muito mais gente do que vimos da janela — espantou-se Ivanovitch. — E todos correm na mesma direção. Será um ataque?
O suor porejava na testa de Kakuta.
— É uma fuga! — explicou em tom menos gentil do que usara até então. — A frente de combate fica para outro lado. Temos que dobrar à esquerda e dar uma volta pelo quarteirão J-G VII. A área que fica à nossa direita não está segura. É possível que em frente ao centro de compras ainda encontremos um táxi livre.
— Por que não pegamos um táxi robotizado?
— Porque os robôs se revoltaram. Vamos, entre na confusão!
Enquanto Kakuta dava ordem de caminhar, Ivã segurou as duas cabeças com um gesto rápido. Foi um movimento instintivo.
De um instante para outro o edifício retumbou em todos os cantos. As paredes pareciam adquirir vida. Com um movimento chiante, uma fenda de cerca de dois centímetros abriu-se no teto e caminhou rapidamente em direção ao soalho. O emboço chovia sobre suas cabeças.
Encontravam-se na entrada do edifício; enrijeceram de susto.
Kakuta contou em voz alta até cinco. Quando concluiu, tudo parecia ter passado. Mas na rua o inferno parecia andar às soltas. Destroços caíam em meio às massas em fuga. Eram peças que se soltavam do telhado e dos pavimentos superiores. Homens, mulheres e crianças tombavam mortos. A onda dos fugitivos os pisoteavam.
Goratchim ia saltar para a frente.
— Fique aqui! — berrou Kakuta. — Os enfermeiros cuidarão dessa gente. Se não pensarmos exclusivamente na nossa tarefa, todos os cidadãos da Terceira Potência estarão perdidos, e não apenas os poucos que estão ali. O prédio tem uma saída pelos fundos?
— Tem. Leva a uma rua particular dos residentes.
— Vamos, Goratchim. Talvez por lá a confusão não seja tanta.
A suposição de Kakuta se revelou mais verdadeira do que ele desejava. A rua particular parecia varrida de gente.
Saíram do terreno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html