O quadro
projetado à sua frente apagou-se. A sala voltou a iluminar-se. Nex estava de pé
junto a Rhodan. Em seus olhos reluzia a tristeza que passara a fazer parte da
vida em Barcon II. Com a voz trêmula disse:
— Já
compreendeu o que é a solidão, Rhodan? O senhor vive sob um céu estrelado e
sabe que não está só no Universo. Sabe que a qualquer momento pode entrar em
contacto com outros seres que são seus semelhantes e amigos.
— Talvez o
senhor esteja superestimando os descendentes que sua raça deixou na Galáxia —
objetou Rhodan cautelosamente. — Muitos colonos podem ter levado dezenas de
milênios para redescobrir a astronáutica. Talvez muitos nunca a tenham
descoberto, permanecendo isolados e afastados das outras raças, que afinal são
todas irmãs. Muitos podem ter soçobrado sem que tivessem a menor idéia de que
não eram os únicos seres inteligentes do Universo.
— O senhor
está expondo uma teoria sombria, na qual ninguém de nós gostaria de acreditar.
Vivemos apenas da esperança de que nosso trabalho não terá sido em vão. Sua
visita prova que nossa vida não deixou de preencher uma finalidade.
— Acontece
que não estou em condições de reconduzir Barcon para a comunhão estelar —
lembrou Rhodan.
Uma sombra
passou pelo rosto de Nex.
— É verdade.
Acontece, porém, que o senhor nos traz notícias dos mundos que já pertenceram
ao nosso Império e que devem sua vida ao nosso povo. E o senhor lhes levará
notícias nossas. O simples fato de sabermos que não fomos esquecidos espanta
parte do sentimento de solidão que já se tornou insuportável.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Acho que
já estou compreendendo. E acredito que posso fazer alguma coisa pelos senhores.
Nex apontou
para a porta.
— Vamos
embora. Daqui por diante os filmes serão projetados em seu quarto. Apenas quis
mostrar-lhe as instalações. Daqui a algumas semanas, quando tiver travado
conhecimento com nosso passado, mostrar-nos-á o que aconteceu neste meio tempo
na Galáxia.
— Mostrar? —
disse Rhodan espantado. — Como posso mostrar? Não trouxe nenhum material.
— Pode
mostrar, sim — disse Nex com um sorriso. — Mostrará através dos conhecimentos
armazenados em sua memória. Transformaremos seus pensamentos em imagens.
Enquanto se
dirigiam à residência de Laar não disseram mais nada. Rhodan esforçou-se em vão
para descobrir um meio de livrar-se da situação. O que poderia fazer para
evitar o processo de lavagem cerebral? Era exatamente isso que pretendiam fazer
com ele.
— Não se
preocupe, velho amigo — cochichou o imortal às escondidas. — Será que você
acreditava que não previ essa possibilidade, ou que nem sabia dela? Pois então!
Os barcônidas ficarão admirados com os frutos de seu trabalho pioneiro.
— Pretende
mostrar-lhes alguma coisa que não existe?
— Apenas
pretendo mostrar-lhes o futuro — respondeu aquilo.
4
Durante as
primeiras oito semanas Rhodan travou conhecimento com a história dos barcônidas
— e, através dela, com a história da Galáxia. Ficou sabendo que os barcônidas
se consideravam os criadores da civilização da Via Láctea, da qual foram
expulsos por um destino implacável. Levaram a semente da vida aos mundos
desabitados, e estavam convencidos de que seus descendentes haviam completado a
obra por eles iniciada. Achavam que eram o tronco do qual provinham todas as
raças humanóides.
No dia 5 de
agosto, data em que, segundo Rhodan estava lembrado, travara uma dura batalha
contra os robôs-espiões dos mercadores galácticos, foi levado de carro até a
cidade. Num grande edifício os membros do governo de Barcon II o aguardavam,
entre eles Laar, Regoon, Nex e Gorat. Encontravam-se numa sala ampla, na qual
se viam instrumentos complicados e gigantescos painéis. Sob uma cúpula
reluzente feita dum metal desconhecido havia uma poltrona. Rhodan foi conduzido
a ela.
— Queremos
simplificar as coisas para o senhor — explicou Nex depois dos cumprimentos. —
Um relato minucioso da evolução da Galáxia consumiria muito tempo. Está vendo a
área de projeção? Estamos em condições de projetar seus pensamentos.
Pedimos-lhe que pense, que reproduza na imaginação aquilo que ocorreu, pois
assim poderemos participar das suas experiências. Assim tomaremos conhecimento
do que aconteceu depois que perdemos o contacto com seu mundo.
Rhodan
sentou lentamente. Enquanto Nex colocava um capuz prateado sobre sua cabeça e
efetuava algumas ligações, Rhodan fez algumas perguntas silenciosas ao
acompanhante invisível:
— E agora,
velho amigo? Ficarão sabendo que sua obra foi um fracasso. O que é feito de seu
projeto de espalhar as raças humanóides por todos os planetas habitáveis?
Afinal, o que aconteceu depois que se viram reduzidos à solidão?
— Aconteceu
muita coisa. Mas não aconteceu aquilo que os barcônidas esperavam. O contacto
entre os mundos foi perdido, se é que já existiu. O império em que pensavam
desmoronou-se antes que se formasse.
— O que devo
pensar? Nada sei sobre os acontecimentos que se desenrolaram no espaço. É bem
verdade que os arcônidas me deram seu saber, mas o que representa isso com o
que realmente aconteceu? Afinal, Árcon e M-13 não passam de partículas de pó na
Galáxia.
— Não é
muita coisa — respondeu o imortal. — Deixe por minha conta. Pensarei por você.
Abra os olhos para viver a experiência daquilo que acontecerá um belo dia...
talvez. Não poderei oferecer mais que um resumo muito ligeiro. Mas esse resumo
bastará para transmitir a esses infelizes a impressão de que não viveram em vão
nesta solidão cósmica.
— Está
preparado? — perguntou Nex, interrompendo os pensamentos de Rhodan.
— Estou...
naturalmente. O que devo fazer?
— Pense em
sua própria história e relate o que aconteceu até hoje.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. As luzes apagaram-se. A parede de projeção em
forma de semicírculo emitiu uma fosforescência. Subitamente a superfície
tornou-se negra e Rhodan viu planetas — a Terra.
Uma
gigantesca nave circulava em torno dela e acabou pousando em sua superfície,
sustentada por raios chamejantes. Homens desceram e apossaram-se do mundo novo
e desabitado. Os primeiros núcleos começaram a formar-se.
Rhodan teve
a impressão de que estava sonhando. O imortal estava exibindo a ele e aos
barcônidas quadros que nunca poderiam ter sido realidade. Seriam os terranos
descendentes dos barcônidas, uma raça perdida no espaço?
Mais uma vez
apareceu a Terra, vista de longe. As calotas polares moviam-se, avançando até
as zonas temperadas. Mais tarde as gigantescas geleiras voltaram a retrair-se.
A superfície do planeta modificou-se. Cidades enormes começaram a surgir,
cidades que não conheciam igual na Terra de hoje. Gigantescas edificações em
forma de cúpula tornaram a lua habitável. Naves espaciais corriam de um planeta
para outro, conduzindo colonos para Marte e Vênus. Das profundezas do espaço
interestelar vinham os cargueiros de outras raças e pousavam na Terra, para
oferecer suas mercadorias em troca de outros produtos.
Rhodan compreendeu
que o imortal estava contando aos barcônidas a história dum futuro possível.
Estes naturalmente pensariam que se tratava da história do passado. Não
transmitiu qualquer informação sobre as terríveis guerras, que bastariam para
exterminar a população dum planeta, não mencionou o Império dos arcônidas, que
se encontrava próximo à decadência final, nada mostrou sobre os conflitos
aparentemente insuperáveis que transformavam raças aparentadas em inimigos
mortais.
O imortal
mentia para os barcônidas, para não lhes tornar ainda mais difícil a terrível
solidão em que viviam.
Depois duma
visão panorâmica que mostrou claramente como todas as inteligências humanóides
da Via Láctea se congregaram numa grande comunidade, o quadro ideográfico
apagou-se de uma hora para outra. As luzes foram acendidas aos poucos.
Rhodan olhou
cautelosamente em torno de si. Viu os rostos felizes dos barcônidas que sorriam
em silêncio. Ao que parecia haviam esquecido o destino cruel que os atingira.
Foram eles que tornaram possível a evolução que se exibira diante de seus
olhos. Não viveram em vão. Alguém completara sua obra.
Nex
levantou-se e aproximou-se de Rhodan, para tirar o capuz de sua cabeça. Com a
voz trêmula disse:
— Ficamos
muito gratos pelas informações, Rhodan. Assim a longa viagem para o
desconhecido não será tão difícil.
Rhodan
levantou-se. Contemplou os rostos das pessoas reunidas na sala.
— A longa
viagem para o desconhecido? Não compreendo.
— Amanhã
revelaremos nosso segredo — disse Nex com um sorriso significativo. — E, assim
que lhe tivermos transmitido os conhecimentos teóricos, mostraremos o quanto já
avançamos na prática.
Por algum
tempo conversaram descontraidamente; ninguém aludiu à viagem para o
desconhecido. Dali a duas horas Rhodan estava novamente no seu quarto.
Quando se
encontrava na cama e viu que diante das janelas a noite sem luz derramava suas
sombras sobre o mundo, disse em voz baixa:
— Você
mentiu para eles, velho amigo. Ofereceu-lhes uma ilusão que lhes dará forças
para transformar em realidade seu plano tresloucado.
— Isso mesmo
— respondeu o imortal, também em voz baixa. — Foi exatamente o que fiz. Um belo
dia, daqui a um milhão de anos talvez, a raça dos barcônidas salvará a Galáxia
da destruição, trazendo suas experiências através da solidão infinita do abismo
que se abre entre as nebulosas. Um belo dia as raças inteligentes da Via Láctea
também se sentirão sós. Isso acontecerá no dia em que se derem conta de que
nunca poderão vencer esses abismos.
Rhodan não
respondeu. Por maior que fosse a receptividade de seu cérebro, aperfeiçoado
através do treinamento hipnótico, o mesmo também tinha limites.
E sabia que
esses limites já tinham sido ultrapassados.
* * *
Era o dia 14
de agosto.
Vários dias
foram consumidos em explicar o projeto dos barcônidas a Rhodan. O próprio Nex
explicara-lhe os detalhes técnicos. Não se cansava de asseverar que há várias
gerações sua raça estava familiarizada com o projeto, e que as melhores
inteligências dum mundo unido estavam fazendo o possível para eliminar qualquer
fonte de erro.
O planeta
Barcon II fora escavado por dentro. Toda a população poderia viver e
desenvolver-se no interior do mesmo. Sistemas de transporte inconcebíveis
garantiam a ligação entre os diversos centros residenciais. Os reatores
atômicos espalhados pelos pontos mais diversos garantiam o suprimento de luz,
calor e energia por milhares de séculos. As instalações geradoras de ar
substituiriam a atmosfera perdida. Enquanto o planeta congelado com sua
superfície morta percorresse sua trajetória solitária pelo Universo, a vida
continuaria em seu interior.
Gigantescos
laboratórios produziriam os alimentos e objetos de uso. A vida não seria
diferente da que os habitantes levavam na superfície do planeta. Quando
irrompesse a noite, uma noite de escuridão completa, isso aconteceria sob
comando.
Mas o
aspecto mais importante era a propulsão.
Uma
maquinaria incrível faria com que o planeta se desprendesse do campo de
gravitação do sol de Barcon e se deslocasse numa velocidade crescente em
direção à distante Via Láctea. Um dia, asseverou Nex confiante, a “nave Barcon II” atravessaria o Universo
à velocidade da luz.
Rhodan não
conseguia livrar-se da impressão de viver num sonho. O imortal não respondeu às
perguntas sobre este ponto. Ignorou as observações que Rhodan fazia a este
respeito.
Hoje, no dia
14 de agosto, Nex iria mostrar o singular propulsor ao hóspede do planeta.
Foram de
carro até o aeroporto, onde um pequenino aparelho os aguardava. Tinha a forma
duma gota de líquido e não possuía asas. Rhodan tinha certeza de que não
haveria o menor problema em penetrar no espaço por meio dessa nave, mas isso
não adiantaria nada. Mesmo que alcançassem a velocidade da luz, levariam cento
e cinqüenta mil anos para atingir a estrela mais próxima.
Depois de
uma hora de vôo pousaram num platô de rocha, que se erguia em meio a uma
planície fértil. Várias construções em forma de cúpula e algumas torres
elevadas provavam que havia gente em meio àquela solidão. Olhando melhor,
Rhodan notou que a área do platô fora aumentada por meio de grandes massas de
pedregulho.
— Esta é a
entrada do mecanismo de propulsão, cujo funcionamento se fará sentir aqui —
disse Nex, apontando para baixo. — Regoon concluiu a execução dos velhos
planos. O senhor o encontrará lá embaixo.
Embaixo —
isso significava cerca de cinco mil metros abaixo da superfície.
Rhodan não
pôde deixar de admirar as instalações que os barcônidas haviam montado no curso
dos séculos. Corredores imensos levavam para o interior do planeta. Os mesmos
eram iluminados a espaços regulares por lâmpadas embutidas no teto. Trilhos de
bitola estreita davam mostra do meio de transporte utilizado por lá. Uma
vibração constante enchia o ar tépido.
Regoon veio
ao seu encontro. Trajava um macacão apertado, que não o perturbava no trabalho.
— Talvez o
senhor tenha suas dúvidas — disse, apertando a mão de Rhodan. — Mas
asseguro-lhe que conseguiremos. Muitas gerações trabalharam na execução deste
projeto, e nós o realizaremos.
— O senhor
viverá apenas para ver o começo — respondeu Rhodan com um sorriso. — Só nossos
descendentes saberão se foi bem sucedido. Quanto tempo levará Barcon II para
retornar à nossa Galáxia?
— Calculamos
a duração da viagem em duzentos mil anos — respondeu Regoon. — Quanto a isso
Gorat não tem a menor dúvida.
Duzentos mil
anos! Rhodan estremeceu ao dar-se conta do espírito de sacrifício desses homens
extraordinários. Retirar-se-iam para o interior do planeta, a fim de que seus
descendentes mais longínquos tivessem possibilidade de viver no seio da
comunidade galáctica. Os terranos ainda não haviam chegado a esse ponto. Não
pensavam sequer em seus filhos.
— Conseguirão
— disse, e estava certo de que tinha razão. — Um dia os descendentes do senhor
e os nossos poderão apertar-se as mãos.
O controle
da propulsão planetária era um mecanismo de complexidade inimaginável. A
profusão de painéis e geradores, instrumentos e fios, telas e postos de
observação era tamanha que Rhodan logo desistiu de refletir sobre seu
funcionamento. Nem mesmo um cérebro treinado como o seu poderia compreender à
primeira vista o que estava acontecendo no interior daquele planeta.
Sem dizer
uma palavra caminhava pelos gigantescos pavilhões, ladeado por Nex e Regoon.
Ouvia as explicações que os dois cientistas lhe davam. Mostraram-lhe todas as
instalações e orgulhavam-se da obra de sua vida, que tornaria todo um mundo
independente do sol por um espaço de duzentos mil anos.
Quem dera
que ele, Rhodan, pudesse evitar a catástrofe com o auxílio do imortal.
— Sei onde
está o erro — disse nesse instante a voz silenciosa em seu cérebro. — Daqui a
pouco passaremos pelo gerador principal. Não peça explicações, velho amigo.
Como já disse, trata-se apenas dum erro de regulagem, que produziria uma
aceleração infinita do processo de fissão nuclear. Se isso acontecer, a energia
que deveria durar uma eternidade será liberada num segundo. Você conversará
animadamente com os dois, sem preocupar-se com o que sua mão direita fizer.
— Veja,
Rhodan, este mecanismo comanda a propulsão, pois regula o processo de fissão
nuclear — disse Regoon no mesmo instante. — Laar ficará encarregado de estar
aqui dentro de pouco tempo, a fim de dar início à grande viagem. Os
preparativos já estão sendo tomados.
— Quer dizer
que os propulsores estão prontos? — perguntou Rhodan, apontando com a mão
esquerda para as instalações. Regoon e Nex confirmaram com um gesto e olharam
na direção em que o braço estava apontando. — Tem certeza de que tudo
funcionará perfeitamente?
— Temos
certeza absoluta — respondeu Nex com um sorriso. Nem ele nem Regoon perceberam
que a mão direita de Rhodan inverteu a posição de duas chaves. — Tudo foi
testado milhares de vezes. Não existe a menor possibilidade de erro.
— Faço votos
de que seja assim — disse Rhodan e prendeu os grampos das chaves. Sentiu que o
imortal se retirou. Sentiu-se só e abandonado, mas isso só durou uma fração de
segundo. A voz silenciosa logo se fez ouvir.
— Consegui.
Estive no futuro, amigo velho. Os barcônidas iniciam a viagem. Não submergem na
fusão de seu planeta.
— Como
podemos alterar o futuro? Você não viu seu planeta transformar-se num sol?
— É possível
que um dia você compreenda, amigo velho. A imortalidade e o tédio resolvem
todos os problemas.
— Vamos dar
uma olhada na usina energética, situada numa área isolada — disse Nex,
apontando para um alçapão redondo de cinco metros de diâmetro, engastado no
soalho. — Seria perigoso entrar ali.
Comprimiu um
botão e o alçapão, cuja grossura era de dois metros, abriu-se lentamente.
Rhodan aproximou-se da abertura e olhou para o abismo que se abria diante dele.
A galeria abria-se mais embaixo, dando para outro pavilhão, no qual se viam
gigantescas peças metálicas. Não se reconheciam os detalhes. Um zumbido
uniforme subia dali, enchendo o ar com uma vibração intensa. De algum lugar
vinha um cheiro de ozônio.
— Amanhã as
manobras de evacuação serão iniciadas em todos os pontos do planeta Barcon II —
disse Regoon em tom orgulhoso. — Não demorará muito, e a viagem do planeta terá
início.
— E amanhã
me despedirei de Barcon — respondeu Rhodan. — Informarei os mundos da Galáxia
de que os ancestrais da humanidade retornarão.
Nex e Regoon
sorriram. Em seus olhos não se via mais nada da tristeza que os mesmos
costumavam exprimir. Exalavam confiança e uma felicidade tranqüila. E a força e
decisão que lhes permitiriam passar o resto de suas vidas numa solidão
absoluta.
* * *
A viagem ao
campo de pouso parecia uma marcha triunfal. Milhares de barcônidas enchiam as
ruas e cumprimentavam o embaixador da Galáxia com gritos de júbilo. Nada
parecia indicar que toda essa gente via o sol pela última vez, pois antes mesmo
que deixasse o sistema, os barcônidas desceriam para as profundezas de seu
mundo para morrer por lá. Só seus descendentes mais longínquos veriam um belo
dia os novos sóis, que voltariam a dar calor, luz e vida ao seu planeta.
Enquanto o
carro diminuía a velocidade até parar, a pequenina nave na qual Rhodan viera
desceu do céu. Pousou suavemente. A cabine abriu-se automaticamente.
Laar foi o
primeiro a descer do carro. Deu a mão a Rhodan, para ajudá-lo a descer. Nex,
Regoon e Gorat seguiram-no.
— Agradecemos
pela visita, Rhodan. Já sabemos que nossos filhos não nos esqueceram. Rhodan,
transmita à comunidade galáctica lembranças de seus irmãos.
— Serão
dadas — prometeu Rhodan.
Quando,
ainda de pé na cabine aberta, virou-se para acenar pela última vez para a
multidão, o grito de júbilo da massa humana subiu para o ar claro e tépido do
planeta. Parecia o grito de alívio duma criatura martirizada, que subitamente
se vê livre dos seus sofrimentos.
Rhodan
sentiu as lágrimas que lhe subiam aos olhos. Virou-se abruptamente e
desapareceu no interior da nave. Esta decolou poucos segundos depois com um
leve abalo e, depois de descrever uma curva, subiu verticalmente para o céu.
Barcon II
voltou a mergulhar no silêncio eterno da solidão.
Nos próximos
dois dias o espetáculo da viagem repetiu-se em sentido inverso. A cada hora que
passava a Galáxia crescia, até que a pequena nave mergulhasse na confusão de
estrelas de um dos braços da espiral. Naquele instante Rhodan compreendeu o que
os barcônidas queriam dizer quando falavam em sua solidão insuportável.
— Dentro de
uma hora relativa chegaremos ao destino — disse o imortal de forma bem
perceptível. — Será que você não vai me dizer por que veio?
— Você não
sabe? — perguntou Rhodan espantado.
— Apesar
disso gostaria que você dissesse.
— Preciso
duma arma definitiva, para defender meu planeta natal contra o perigo que o
ameaça. Os mercadores galácticos descobriram a Terra, e não serão os últimos.
— Ora, os
filhos dos barcônidas! — disse aquilo com um riso de escárnio, mas de repente
tornou-se muito sério. — Estes não deverão sofrer nenhuma decepção quando
chegarem à Galáxia, o que poderá acontecer bem mais cedo do que você pensa. É
bem possível que alguém os ajude a vencer o tempo.
Fez uma
pausa, para deixar que suas palavras produzissem efeito na mente de Rhodan.
— Uma mão
forte deve unir a Galáxia. E essa mão forte é você, Rhodan. Só você! Por isso
dar-lhe-ei a arma que me pede. Apenas lhe peço que nunca abuse dela!
— Pretende
dar-me a arma? — perguntou Rhodan, que subitamente se sentia desconfiado. — Sem
qualquer prova, sem outra missão a cumprir?
— Nossa
excursão foi a melhor prova. Você passou bem por ela, não passou?
— Acredito
que sim — com sua ajuda.
Aquilo riu
divertido.
— É claro
que foi com minha ajuda; nem poderia ter sido de outra forma. Quer dizer que
você quer um transmissor fictício. Pretende teleportar porções da matéria.
Deseja levar, por exemplo, cargas nucleares para dentro das naves de seus
inimigos.
— E você me
ajudará?
— Naturalmente.
Durma, Rhodan, que você tem diante de si mais um salto no tempo. Mas não
deixaremos de retornar ao presente, onde há uma tarefa à sua espera. Seu amigo
Bell deverá estar curioso para saber por onde você andou durante o segundo em
que esteve ausente...
Enquanto
refletia sobre as palavras do imortal, Rhodan sentiu um cansaço invencível.
Olhou para a tela e viu a primeira constelação, que se deslocava lentamente.
Depois
adormeceu...
...e logo
despertou.
5
...houve?
Você está ficando transparente... já está de volta! Quer fazer um exercício de
teleportação?
Rhodan olhou
para o relógio de bordo.
17 de
agosto, 22:53 h, hora de Terrânia.
Nem chegara
a perder um segundo.
— Olá, Bell
— disse com a voz embaraçada. — Um exercício de teleportação? Não foi bem isso.
Talvez seja uma brincadeira de nosso grande e velho amigo. — Olhou pela vigia
da frente. — A montanha! Estamos chegando.
Bell ia
perguntar mais alguma coisa, mas preferiu ficar calado. Em sua testa havia uma
ruga vertical. Talvez estivesse refletindo para descobrir como era possível que
numa fração de segundo Rhodan arranjara uma camisa limpa, e ainda um uniforme
bem passado. Mas no planeta da vida eterna tudo era possível, até as coisas
mais medonhas.
Viram a
cidade. O campo de pouso parecia ter crescido. Novos edifícios erguiam-se em
torno dele. O pavilhão continuava no mesmo lugar. A entrada estava aberta. Um
vulto humano, solitário e abandonado, estava lá embaixo, olhando para eles.
Era Homunk,
a criatura artificial do imortal. Corporificava este e servia de mediador entre
ele, o grande invisível, e os humanos. Seu saber infinito permitira-lhe
transformar uma porção de matéria num homem para o qual não havia problemas
insolúveis.
A
Stardust-III pousou.
Rhodan e
Bell foram os primeiros a saírem da nave. Dirigiram-se a Homunk, que os
aguardava com um sorriso nos lábios.
— Bem-vindos
em Peregrino, o planeta da vida eterna — disse, estendendo a mão aos dois
homens. — Quer dizer que desta vez desejam uma arma. Um transmissor fictício de
matéria, segundo soube de meu senhor. O desejo foi concedido. Fui incumbido de
montar dois aparelhos desses nas posições de combate da nave. Será que poderão
dar uma ajuda?
Rhodan ficou
surpreso em ver com que rapidez o imortal atendia ao seu pedido. Isso não
combinava com a imagem que fizera dele, se considerasse as dez semanas que
passara com o mesmo. Mas teriam sido realmente dez semanas?
— Ajudaremos,
sim — naturalmente. — Rhodan teve que fazer um esforço para não dar uma
palmadinha no ombro de Homunk e chamá-lo de “velho amigo”. O homem artificial sorriu.
— Vamos
começar.
Não houve
nenhum preparativo, nenhuma demora.
Que
interesse teria o imortal em não perder tempo — ele, que dominava o tempo?
Por um
instante Rhodan se esquecera de que aquilo possuía um ânimo muito galhofeiro.
Os trabalhos
foram iniciados imediatamente. Os cinqüenta robôs de trabalho depositados a
bordo da Stardust-III levaram para bordo as peças depositadas no grande
pavilhão, e ali montaram os dois aparelhos sob a orientação de Homunk.
Quinze dias
passaram-se.
Rhodan
ficava cada vez mais preocupado com o tempo que estavam perdendo. Bell também
não conseguiu disfarçar a ansiedade. No início da terceira semana, quando os
trabalhos ainda estavam em pleno andamento, Rhodan olhou para o lado. Encontravam-se
numa pequena colina, de onde podiam contemplar a imagem dos Alpes. À sua
esquerda estendia-se a superfície reluzente dum mar. O sol artificial
encontrava-se praticamente no zênite, e um calor agradável enchia o mundo
artificial.
— Já falou com
ele a este respeito? — perguntou Bell.
— Você se
refere ao tempo — respondeu Rhodan, que sabia perfeitamente onde o amigo queria
chegar. — Tentei várias vezes, mas não obtive uma resposta direta. Estamos
perdendo muito mais tempo do que poderia parecer. Já estamos aqui há mais de
quinze dias. Se me lembro da nossa experiência passada, chego à conclusão de
que é bem possível que lá no espaço e sobre a Terra vários anos se tenham
passado. E isso seria uma catástrofe. O que nos adiantarão as superarmas, se chegarmos
tarde para salvar a Terra e o Universo?
— Devíamos...
— principiou Bell, mas calou-se abruptamente. Rhodan percebeu sua hesitação e
seguiu o olhar do amigo, que fitava o mar. Uma esfera colorida flutuava sobre a
superfície ligeiramente agitada e aproximava-se lentamente. Parecia não ter
peso e desconhecer a lei da gravidade. Como se fosse tangida pelo vento, ia
velejando em direção à colina em que se encontravam. E dela saiu a voz do
imortal, forte e nítida — e entremeada com o habitual tom irônico.
— Assumi uma
forma bastante estranha, não acham? Poderia ter vindo sob a forma dum monstro,
mas isso seria contrário à estética. Uma bolha de sabão colorida é bem mais
bonita.
— Mas esta
pode arrebentar — disse Bell sem o menor respeito.
— É claro
que pode! — disse o imortal com uma gostosa gargalhada. Parecia divertir-se a
valer. — Querem ver?
Rhodan
preferiu não perder a oportunidade que se oferecia.
— Não! —
exclamou. — Gostaria de fazer-lhe uma pergunta.
— Mais um
pedido?
— Sim, mais
um pedido, velho amigo. Você sabe qual é a minha situação. Nossos “amigos”, que levam vantagem sobre nós,
estão sitiando nosso sistema. Conseguiram atrair alguns amigos meus a uma
armadilha e os destruirão se não chegarmos em tempo. O mundo de você fica em
outro plano temporal que o meu. Da outra vez que estive aqui passaram-se mais
de quatro anos. Agora isso não deve acontecer. Quinze dias já seriam demais.
Quero pedir-lhe...
— Um prazo
de dez minutos é satisfatório? — perguntou o imortal. A esfera colorida parecia
inchar, e a gama de cores parecia cada vez mais variada. Rhodan parecia
perplexo.
— Está bem,
dez minutos. Mas para quê?
— Dez
minutos ao todo, velho amigo. Pense em tudo pelo que você passou nesses dez
minutos. Você fez uma excursão à eternidade e acompanhou o destino de sua raça.
Além disso, equipou sua nave com a mais formidável das armas. Aliás, tenho
armas ainda mais potentes, mas você não fez nenhuma pergunta a respeito. Não
posso ajudá-lo, se você não me dá as indicações. Talvez mais tarde...
— Ontem
Homunk fez algumas alusões — recordou Bell muito exaltado. — Mas não respondeu
às perguntas que lhe fizemos.
— Nem está
habilitado a responder — disse com uma risadinha a esfera que agora flutuava
bem em cima de suas cabeças. — Mas as indicações que ele forneceu deviam
levá-los a pensar um pouco. Talvez em sua próxima visita vocês poderão fornecer
informações mais precisas sobre aquilo que desejam de mim. Terei muito prazer
em ajudá-los. Não querem que os barcônidas sofram uma decepção quando
regressarem.
Bell fez
cara de espanto.
— Os
barcônidas? Será que está aludindo aos arcônidas?
Uma
gargalhada homérica veio do céu.
— Que
fantasia deliciosa tem meu jovem amigo! Não deve quebrar a cabeça — ela é muito
linda.
Bell esteve
a ponto de responder, mas uma forte lufada de ar quase o atira ao chão. A bolha
reluzente estourara. O ar veio de todos os lados para encher o vácuo. Logo o
vento cessou.
— Foi ele
que quebrou a cabeça — murmurou Bell, arrastando Rhodan encosta abaixo. — Quem
são esses barcônidas?
— Isso é uma
história muito comprida — disse Rhodan em voz baixa. Depois de refletir um
pouco, acrescentou: — É possível que seja apenas uma lenda; não sei. Um dia
destes contarei. Ainda bem que estamos livres de nossa grande preocupação. Não
vamos perder tempo.
— Tem certeza?
— Certeza
absoluta! — confirmou Rhodan, andando a passos largos. Lá embaixo a
Stardust-III os aguardava. Amanhã as armas estariam em condições de serem
usadas.
Homunk
compareceu à sala de comando.
— Meu senhor
pediu que lhe dissesse que já pode decolar, Rhodan.
— Não vai
despedir-se de nós? — perguntou Rhodan espantado.
— Ele o faz
por meu intermédio. Além disso, está conosco neste instante.
Bell olhou
em torno, mas não viu ninguém.
— Onde está?
— perguntou, como se esperasse ver outra esfera colorida.
Homunk
sorriu.
— Está
corporificado num ser humano, num ser humano que o senhor ama muito, Bell —
disse; logo seu rosto voltou a assumir uma expressão séria. — Meu senhor quer
que vocês decolem daqui a dez minutos, rompendo a abóbada energética na vertical.
Vocês retornarão ao seu sistema no mesmo dia em que partiram de lá.
Rhodan
sentiu-se aliviado por ver a informação confirmada mais uma vez.
— E a arma?
Será que funciona?
— Não tenha
a menor dúvida — asseverou Homunk.
Rhodan ligou
o intercomunicador e transmitiu algumas ordens aos postos de combate. Depois
olhou para o relógio.
— Veremos —
disse. — Meu velho amigo não se zangará se fizer uma experiência na sua área. —
Lançou outro olhar para o relógio. — Qual é a profundidade desses oceanos?
— Quatro mil
metros.
— Excelente!
— Rhodan voltou a falar com os postos de combate. Alguns dados. Depois surgiu a
ordem: — Tudo pronto? Pois bem, vou disparar.
Comprimiu um
botão que se encontrava a seu lado, e que nunca parecia ter sido usado, o que
correspondia à realidade.
Alguns
segundos passaram-se. Depois uma enorme montanha de água surgiu lá fora, no
oceano, formou um gigantesco cogumelo e caiu sobre si mesma. Vapores brancos
turbilhonaram em direção ao céu artificial. A vaga provocada pela explosão
correu para a margem e inundou grande extensão da zona costeira.
No mesmo
instante começou a chover.
Alguém
estava rindo.
— Muito bem,
velho amigo. Sabe lidar com armas. Mas volto a preveni-lo: a superioridade que
você acaba de adquirir só poderá ser usada em prol da conservação da paz. Se
não for assim, a arma será dirigida contra você mesmo. Quando for atacado,
poderá destruir o inimigo. Mas nunca ataque ninguém! Eu o previno, velho amigo.
Estou falando muito sério!
— Você não
tem motivo para preocupar-se — tranqüilizou-o Rhodan. — Nosso poder tem por
único objetivo realizar o sonho dos barcônidas. E nisso estamos de acordo, não
estamos, velho amigo?
— Inteiramente!
Passe bem, Perry Rhodan. Um momento! Antes que eu me esqueça: fiz uma promessa
a Bell. Poderá procurar em seu camarote. Mais uma vez o invisível sorriu.
Depois reinou um silêncio total.
Homunk
dirigiu-se à porta.
— Desejo-lhes
tudo de bom. Mais um conselho: assim que saírem da proteção deste mundo e
retornarem ao plano existencial comum, tenham cuidado! Passem bem, caros
amigos!
Desapareceu
antes que pudessem responder.
Bell parecia
furar o ar com o olhar.
— No meu
camarote? O que foi que ele me prometeu?
— Como posso
saber? — disse Rhodan, dando de ombros. — Uma eternidade se passou desde que
chegamos aqui. Não posso lembrar-me de tudo.
— Nem eu.
Duas semanas e meia são um tempo muito longo.
Rhodan
sorriu sem dizer uma palavra. Então Bell vivera dezessete dias. E ele, Rhodan?
Teria vivido treze semanas e meia? Ou uma eternidade formada de duas parcelas de
cento e cinqüenta anos?
Ou seriam
apenas dez minutos?
Levantou a
mão e ligou o intercomunicador.
— Atenção,
todos os tripulantes! Decolaremos dentro de um minuto. Atar cintos! Dentro de
exatamente três minutos romperemos a abóbada energética. O tempo já está
correndo. Cento e setenta e nove... cento...
O robô
prosseguiu na contagem.
Ao número
cento e vinte a Stardust-III ergueu-se e, imponente, subiu ao azul do céu
artificial. As nuvens produzidas pela detonação atômica subaquática já haviam
descido ao solo. Lá em cima o sol artificial desperdiçava a profusão dos raios
dourados.
— Vou até o
camarote para deitar um pouco — disse Bell. — Avise-me quando chegarmos perto
da transição.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça. Permaneceu só na sala de comando. O assento
de piloto proporcionava uma proteção tamanha que poderia superar o pior dos
abalos. Daqui poderia dirigir a enorme esfera com uma das mãos, se não
preferisse deixar o controle a cargo do robô.
Exatamente
dois minutos depois da decolagem a Stardust-III rompeu a cúpula feita de
energia que se estendia acima do planeta Peregrino. O abalo sacudiu todos os
compartimentos da nave, mas em grande parte foi absorvida e compensada pelos
campos gravitacionais.
Poucos
segundos antes do grande acontecimento o sinal de chamada acendeu-se. Bell
procurava entrar em contacto com a sala de comando por meio do
intercomunicador. Aborrecido, Rhodan não lhe deu atenção. Não tinha tempo para
ouvir piadas sem graça ou deixar que o distraíssem de outra forma. A situação exigia
toda concentração. Estava lembrado da advertência de Homunk, segundo a qual
devia ter um cuidado todo especial quando rompesse a barreira que o separava do
Universo normal.
Rhodan não
imaginava por que aquele instante representaria um perigo, mas nem pensou em
fazer pouco caso do aviso que lhe fora dado.
Seu olhar
caiu sobre o relógio de bordo, que poucos segundos antes da ruptura da barreira
continuava a indicar o dia 3 de setembro, 15:47 h, tempo de Terrânia.
O abalo veio
em seguida. O planeta Peregrino desapareceu de uma hora para outra, sendo
substituído pela visão conhecida do Universo.
Os
algarismos do relógio correram vertiginosamente diante dos olhos de Rhodan. O
calendário de bordo adaptou-se ao novo plano temporal. Marcava o dia 17 de
agosto, 22:39 h, tempo de Terrânia.
Fazia
exatamente dez minutos e meio que haviam penetrado nesse mesmo ponto na cúpula
energética do planeta Peregrino. E fazia apenas sete horas que haviam decolado
da Terra.
Dali a
quarenta minutos o imortal o levaria consigo, para uma excursão às profundezas
dos abismos que se abrem entre as nebulosas. Uma excursão à eternidade...
Rhodan
sentiu que seus cabelos se arrepiavam. No mesmo instante o som estridente do
alarma encheu a nave.
Os aparelhos
automáticos de observação haviam localizado porções de matéria, muito embora
nenhuma matéria devesse existir num raio de cinqüenta anos-luz.
Poucos
segundos depois veio o aviso da sala de comando das operações de combate:
— Posto de
combate TFM preparado!
Antes que as
vigias se fechassem, Rhodan viu as oito naves em forma de rolo compressor dos
saltadores, que se precipitavam vertiginosamente sobre a Stardust-III embora o
surgimento repentino do veículo espacial as deva ter surpreendido.
Mais alguns
segundos, e os impulsos eletrônicos percorreram as instalações robotizadas.
Naquele
instante uma gargalhada soou nos ouvidos de Rhodan. Uma voz disse em tom
galhofeiro:
— Olá, amigo
velho! Chegou a hora de experimentar a nova arma. Vai ser muito divertido...
Rhodan não
pensava assim. Estreitou os olhos e mordeu os lábios.
— Transmissor
um — disparar! — gritou no microfone.
Naquele
instante a Stardust-III transformou-se na mais perigosa e mortal de todas as
naves que já percorreram o Universo.
6
Topthor não
acreditava no que estava vendo.
Poucos
minutos antes ordenara uma pausa de descanso, pois contava com uma permanência
mais prolongada de Rhodan sobre o planeta que, segundo tudo indicava, era
invisível. Assim que a gigantesca esfera voltasse a ingressar no espaço, ele a
destruiria num ataque fulminante. Depois disso não seria difícil descobrir o
planeta da vida eterna.
E agora a
Stardust-III surgiu do nada bem diante do seu nariz, apenas dez minutos depois
de ter desaparecido.
Despertou
imediatamente. Com uma pancada de seu enorme punho baixou a chave que colocava
em funcionamento a comunicação audiovisual com as outras naves.
— Alarma!
Rhodan está de volta! Vamos atacá-lo e destruí-lo. Deixem a determinação das
coordenadas do ponto de emersão por minha conta.
Grogham
estava a postos. Em palavras de comando ligeiras e entrecortadas ordenou e
dirigiu o ataque. Mandou que cinco das naves avançassem, enquanto ele mesmo,
com a nave de Topthor e mais uma, permanecia na posição atual. Isso salvaria
sua vida e a do chefe do clã.
As cinco
naves espalharam-se e formaram um anel bem amplo, em cujo centro a Stardust-III
os aguardava, sem esboçar qualquer defesa.
— Lançar
torpedos! — berrou Grogham no seu aparelho de comunicação. Os comandantes dos
cinco couraçados, que tantas vezes haviam corrido em auxílio de outros clãs dos
mercadores, receberam a ordem e agiram de acordo com a mesma.
Cinco
pesados torpedos com cargas de fusão nuclear saíram das escotilhas e correram
em velocidade cada vez maior na direção da Stardust-III.
Tensos,
Topthor e Grogham acompanhavam o espetáculo. Estavam curiosos para ver o que
aconteceria. Naturalmente contavam com a presença dum poderoso campo de defesa
dos terranos, mas esperavam que o mesmo não resistiria à descarga energética de
cinco bombas atômicas superpesadas.
Naquele
instante verificaram-se cinco explosões em torno da Stardust-III, apagando por
um instante a luminosidade débil das estrelas distantes. Topthor fechou os
olhos e esperou que a luminosidade diminuísse. Não conseguiu desvencilhar-se de
certo sentimento de orgulho. Talvez tivesse conseguido aquilo que Etztak e
Orlgans tentaram em vão — destruir Rhodan. Mas a recompensa de seus esforços
não seria apenas esta. Ainda teria encontrado o mundo da vida eterna — ou quase
o teria encontrado.
Lentamente
foi abrindo os olhos.
A gigantesca
esfera continuava a flutuar, intacta, em meio às cinco naves de guerra do clã
dos superpesados, comandado por Topthor. Teve a impressão de que o metal
arcônida emitia um brilho traiçoeiro e desafiador. Fora de si de raiva, berrou:
— Dois
torpedos! Cada nave disparará dois torpedos simultaneamente.
Também este
ataque foi dirigido por Grogham. Perdera parte da autoconfiança, pois imaginava
que talvez desta vez tinham encontrado um inimigo à altura — e não apenas um
inimigo, mas também um mestre.
O campo
energético da nave de Rhodan também resistiu a essas dez explosões e à descarga
energética provocada pelas mesmas. Era bem verdade que os geradores foram
solicitados até o limite de sua capacidade. Se os mercadores tivessem a idéia
de lançar três torpedos ao mesmo tempo, a Stardust-III estaria perdida.
— Transmissor
número um — prepare-se para entrar em ação.
— Preparado!
— soou a voz tranqüila e objetiva.
O posto de
combate aguardava.
Os homens
confiavam na nova arma — e, mais do que isso, em Rhodan.
— Desistiram
dos torpedos, constatou Rhodan. Tentavam alcançar o objetivo com feixes de
raios concentrados. Era uma arma nada desprezível. Mas o campo energético da
Stardust-III resistiu sem problemas.
Teve tempo
para dedicar sua atenção a Bell, que entrara correndo na sala de comando, com
os cabelos em pé.
— Dormiu
bem? — perguntou Rhodan em tom gentil.
Bell
enfureceu-se sem o menor motivo.
— Dormi o
quê! Enquanto você se divertia com esses pepinos saltadores, eu...
— Eu me
diverti com quê? — indagou Rhodan.
— Esses
pepinos. Não pertencem aos saltadores ou mercadores? Pois então! Tenho o
direito de dar-lhes o nome que melhor me aprouver.
— Por que
está tão irritado? Será que uma pulga...
— Pulga o
quê! — disse Bell indignado, e contemplou interessado o quadro que se esboçava
na tela, onde os raios térmicos disparados pelas cinco naves inimigas eram
repelidos pelo campo energético e retornavam ao espaço. — Se voltar a me
encontrar com esse imortal, vou... bem, em parte a culpa é minha.
Preocupado,
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Receio que
o último salto temporal não lhe tenha feito muito bem, mesmo que você não tenha
percebido nada. Ou será que bateu com a cabeça em algum lugar?
— Não bati
em lugar algum! — gritou Bell furioso, batendo com o pé. A cabelaça ruiva
tremia de raiva. — Esse imortal...
— O que há
de errado comigo? — perguntou uma voz vinda do teto. Rhodan e Bell olharam para
cima e endureceram. Bem acima de suas cabeças flutuava uma bola de dez
centímetros de diâmetro, que luzia em todas as cores e emitia uma luminosidade
branca. — Minhas intenções foram as melhores possíveis, caro Bell. Afinal, a
ingratidão é a paga do mundo, segundo se costuma dizer entre os senhores.
Rhodan, não desperdice seu tempo com esse moço imaturo. O inimigo está planejando
um ataque concentrado com bombas gravitacionais. A Stardust-III será
arremessada para a quinta dimensão...
A esfera
apagou-se.
Enquanto
Bell contemplava perplexo o lugar em que estivera a esfera, Rhodan se
transformou numa máquina de combate que funcionava com extrema precisão. Seus
escrúpulos desvaneceram-se.
Bombas
gravitacionais! Era a mais terrível das armas até então produzidas. Ele mesmo
só se atrevera uma única vez a empregá-la. E agora pretendiam destruí-lo com
ela.
— Posto de
combate. Transmissor número um. Fogo!
As
coordenadas eram corretas. Corretíssimas! Uma das cinco naves inchou de um
instante para outro, como se uma bomba nuclear estivesse detonando em seu
interior — o que realmente estava acontecendo. Um sol formou-se. Quando a nuvem
incandescente acabou de espalhar-se pelos quatro cantos, não havia mais
vestígio da nave.
O
transmissor fictício não tivera a menor dificuldade em transportar a bomba
através do campo energético do inimigo e detoná-la no alvo.
Não havia
qualquer defesa contra essa arma.
Rhodan
venceu os escrúpulos morais.
Sabia que
era uma luta de vida e morte. Com esses saltadores não se brincava. E não tinha
a menor idéia de que estava lidando com um clã todo especial.
— Transmissor
número dois — fogo!
A segunda
nave foi destruída com a mesma rapidez da primeira.
— Que coisa
horrível! — gemeu Bell. — Que arma é esta?
Rhodan
mordeu os lábios e, falando entre os dentes, disse:
— Transmissor
número um — fogo!
Depois:
— Transmissor
número dois — fogo!
A última das
cinco naves que participavam do ataque resolveu recorrer a uma ação
desesperada. Acelerando ao máximo, procurou abalroar a Stardust-III de frente.
Rhodan conseguiu destruí-la instantes antes da colisão.
O sopro
incandescente da explosão roçou o campo energético da Stardust-III. Topthor,
que acompanhou os acontecimentos com os olhos arregalados, começou a desconfiar
de que algo de inacreditável se passara. Nos dez minutos passados no planeta da
vida eterna Rhodan devia ter conseguido a terrível arma. Embora parecesse impossível,
devia ser verdade. Não havia outra explicação para a destruição das cinco naves
num espaço de menos de dois minutos. Com armas convencionais Rhodan nunca
conseguiria realizar uma façanha dessas.
E percebeu
mais uma coisa. Rhodan não pensava em atacar quem quer que fosse, muito menos
em destruí-lo. Por isso as três naves que restavam não corriam perigo.
— Grogham!
Prepare a transição! Pouco importa para onde! Vamos dar um salto de duzentos
anos-luz. Uma vez chegados lá, trataremos de orientar-nos. Enquanto isso
transmitirei uma mensagem para Etztak.
Rhodan
cometeu um pequeno engano.
Não se
interessou pelos inimigos que ainda restavam. Acelerou a Stardust-III e
precipitou-se vertiginosamente espaço afora, deixando para trás Topthor com as
três naves.
— E aquelas
ali? — perguntou Bell espantado. — Não vai...
— Destruí-las? Por quê? Não
representam qualquer perigo para nós. A esta hora nossa tarefa mais urgente
consiste em ajudar Tiff. Não se esqueça de que está num planeta de gelo, que
pode transformar-se num inferno de chamas no momento em que Etztak perder a
paciência e descobrir o jogo que estão fazendo com ele. Daqui a oito minutos
passaremos à transição. Materializaremos no sistema de Beta-Albíreo.
Bell
respondeu com um aceno da cabeça, para logo sacudir esta violentamente.
Espere aí!
Não podemos levá-la.
— Levar
quem?
— Ora essa!
A Rallas!
Por um
instante Rhodan pensou que Bell tivesse perdido o juízo. Com a testa levemente
enrugada fitou o amigo, que parecia desesperado.
— A Rallas?
Não venha me dizer...
— Digo, sim.
Está sentada no meu camarote e sente-se muito ofendida porque não me interesso
por ela. Meu Deus, se a tripulação souber disso — especialmente o tal do
Redkens! Não terei mais um minuto de sossego na minha vida.
Rhodan
certificou-se de que o piloto automático robotizado estava calculando o ponto
de transição e a intensidade do salto. Verificou que restavam mais de sete
minutos. Deu um sorriso irônico.
— Fique
tranqüilo, que não é a verdadeira Rallas.
— Qual é a
diferença? Qualquer um pensará que é ela mesma — e, para dizer a verdade,
realmente é. O que devo fazer com ela?
— Ignore-a.
Conheço as brincadeiras do imortal; ele a fará desaparecer assim que perceber
que não nos interessamos por ela. Por enquanto deixe que fique no seu camarote.
— No meu
camarote? — O rosto de Bell parecia tão apavorado que Rhodan não pôde reprimir
uma gostosa gargalhada. — Não posso habitar um camarote juntamente com uma
dama. Não é que tenha alguma coisa contra o sexo feminino, mas na situação em
que nos encontramos...
Rhodan olhou
para o relógio. Faltavam seis minutos.
— No momento
da transição ela desaparecerá. Tenho plena certeza. O imortal apenas está se
permitindo uma brincadeira...
No corredor
ouviram-se passos. Ninguém poderia deixar de ouvir as vozes. Alguém estava
rindo.
Bell
empalideceu de repente. Por um instante lançou um olhar de espanto para Rhodan.
Depois, com um gesto decidido, empurrou a porta para o lado.
A Rallas
estava no corredor, distribuindo autógrafos. Alguns dos telegrafistas, e também
Redkens, do setor de pilotagem, comprimiam-se em torno da estrela de cinema,
falando insistentemente à mesma. Especialmente Redkens fez questão de saber se
a “divina Rallas” passara todo esse
tempo no camarote de Bell.
Para Bell a
brincadeira já estava passando da conta.
Fungando de
raiva, saltou em meio aos entusiásticos caçadores de autógrafos. Abrindo
caminho com os punhos, parou com as pernas afastadas e os cabelos arrepiados
diante da Rallas, que lhe lançou um olhar enlevado. Seus olhos brilhavam na maior
inocência deste mundo.
— Que idéia
é essa? — chiou Bell furioso. — Como se atreve a prejudicar minha boa fama?
Essa gente só pode pensar que eu a contrabandeei para dentro da nave, a fim
de... de...
— A fim de
quê? — indagou a estrela de cinema, cheia de curiosidade.
Bell
recorreu à grosseria para disfarçar o embaraço.
— Sabe muito
bem! — berrou, pisando no pé de Redkens, que se aproximara de mais. — Só podem
pensar isso!
— E não foi
isso mesmo? — disse Rallas num sopro e enrubesceu. — Não venha me dizer que não
passamos horas felizes juntos.
A cor do
rosto de Bell transformou-se numa raridade anatômica. Rhodan não se recordava
de jamais ter visto um rosto tão vermelho. Nem os outros. Recuaram
instintivamente, como se receassem que Bell pudesse estourar.
— Pas...
passamos? — gaguejou Bell e não soube mais o que dizer. Perdeu todo o
autodomínio. Com o rosto desfigurado de raiva entesou o corpo, suas mãos
precipitaram-se para a frente e os dedos apertaram o pescoço da beleza de
Hollywood. — Eu a mato! Você quer minar a moral da tripulação...
Calou-se,
perplexo. Com os olhos muito arregalados, estava fitando seu próprio rosto, que
o cumprimentava com um sorriso familiar. Exclamações de espanto soaram de todos
os lados. Alguém que se encontrava num ponto mais afastado soltou um grito de
pavor.
Bell estava
prestes a estrangular seu sósia. A Rallas havia desaparecido; um segundo Bell
encontrava-se no lugar antes ocupado por ela. Dois Bells fitavam-se. O
verdadeiro estava rubro de raiva, disposto a matar o outro. E o falso exibia o
sorriso indiferente que todos estavam acostumados a ver em Bell.
Rhodan teve
de esforçar-se para reprimir o riso. Faltavam três minutos para a transição.
— A esta
hora você já deve ter compreendido que o imortal apenas estava brincando com
você — e os outros também estão convencidos disso. Você está reabilitado, Bell.
Sua boa fama foi restaurada. Solte seu sósia, que ele não tem culpa de nada.
Bell soltou
o pescoço de sua vítima e recuou um passo. Aos poucos a cor de seu rosto foi
voltando ao normal.
— Será
possível? — perguntou, e em sua voz soava um medo instintivo do desconhecido. —
Aquele ali... sou eu! Ou não sou?
— É uma
imitação, tal qual a Rallas ou nosso grande amigo Homunk. Poderia ser
perfeitamente eu que me defrontasse com você. Vamos deixar de lado as
brincadeiras do imortal, pois temos coisa mais importante a fazer. Bell,
ajude-me a conferir os dados para a transição. Os outros voltarão a seus
postos. Inclusive o senhor, Redkens! Fique com o autógrafo da Rallas; pode
arriscar qualquer aposta de que é autêntico.
Os olhos do
cadete foram desfilando entre a fotografia com a assinatura e o rosto largo e
risonho do falso Bell. Ao que tudo indicava, Redkens não conseguia dedicar a
esse rosto o mesmo amor e veneração que lhe merecera o da Rallas. Sua decepção
era tão evidente que Bell, que já se encontrava na entrada da sala de comando,
lhe disse em tom furioso:
— Dê o fora,
Redkens! Afinal, o senhor não vai querer que eu seja tão bonito como a Rallas.
Desesperado,
Redkens foi seguindo os telegrafistas que se afastavam apressadamente.
O falso Bell
transformou-se numa luminosa esfera branca, que desapareceu com uma risada de
escárnio.
— Tomara que
tenha desaparecido para sempre! — exclamou Bell e fechou a porta. — Gostaria de
estar a algumas centenas de anos-luz daqui.
— Será que
você já não suporta uma simples brincadeira? — disse Rhodan admirado. — Pois
você desafiou o imortal.
Bell olhou
para os instrumentos.
— Ainda
faltam sessenta segundos. As coordenadas estão certas. Tudo correto. —
Atirou-se na poltrona e reclinou-se na mesma. Quando continuou a falar, fechou
os olhos. — Dentro de dois minutos estaremos a mais de 1.750 anos-luz daqui.
Calou-se — e Rhodan sentiu-se grato.
Foi agora,
exatamente nesse segundo, que iniciou a viagem em companhia do imortal. Sentiu
que uma vaga de não-compreensão passava por cima dele e envolvia seu ser. Por
um instante teve a impressão de que caía num abismo sem fim. Caía sem o menor
apoio. Mantinha os olhos bem abertos, mas estes não viam nada. Apenas descortinavam
o negrume da escuridão com uma mancha minúscula e disforme bem à frente.
Era a Via
Láctea!
Precipitava-se
em direção à mesma, e isso numa velocidade inconcebível.
Mas tudo
isso só durou um segundo; depois a visão desapareceu para ceder lugar à
realidade. Viu novamente diante de si as telas de controle da Stardust-III, os
instrumentos e as escalas, as inúmeras chaves, ponteiros e botões.
Reclinado na
poltrona, sentiu a vibração dos propulsores. Era uma realidade inconfundível. O
segundo que se passara... bem, o que era mesmo aquilo? Com uma sensação de
pavor, Rhodan se deu conta de que a vivera duas vezes — ou melhor, três vezes.
A primeira
vez no planeta Peregrino, a. criação incompreensível dum ser ainda mais
incompreensível.
Outra vez no
infinito, onde esse segundo se transformou em duas entidades distintas: uma
realidade de dez semanas e uma visão de trezentos mil anos.
E por fim
agora, num segundo perfeitamente normal.
Qual seria o
segundo genuíno, o segundo real? E o que seria um segundo, se o mesmo já não
tinha qualquer validade?
— Faltam
trinta segundos — disse o contador robotizado com sua voz metálica.
— Vinte e
nove...
Rhodan
fechou os olhos.
Faltavam
vinte e nove segundos — ou vinte e nove eternidades, conforme se preferisse.
Quanto tempo não estaremos desperdiçando quando tentamos dividi-lo?
Vinda do
nada, surgiu a voz que quase chegara a esperar, uma voz silenciosa, mas bem
perceptível:
— É uma
pergunta muito inteligente, velho amigo. Imagine uma Terra em que não
existissem dias e noites, estações do ano, sol e chuva. Será que o homem se
daria conta de que estava envelhecendo? Não ficaria muito surpreso quando
subitamente sentisse a morte aproximar-se? Saberia que o tempo existe?
— O tempo
não é uma coisa perfeita mente real, como o espaço?
— Ambas as
coisas são perfeitamente irreais, velho amigo. Você tem diante de si uma
distância de mais de 1.750 anos-luz, uma distância inconcebível, que ainda há
um decênio todos os habitantes da Terra considerariam insuperável. Você vai
vencer essa distância num segundo. Seus relógios lhe mostrarão que na verdade
não se passou mais que um segundo. Deixe o tempo de fora, e você reconhecerá
que realmente a vitória sobre o espaço não é possível — por essa forma. Assim
mesmo ele é vencido. Você tem alguma explicação?
— Existe o
hiperespaço, o paraespaço. Passamos pela quinta dimensão...
— São
palavras, apenas palavras. O homem as pronuncia, sem jamais compreender seu
sentido. Nem mesmo seu cérebro treinado pode entendê-las. O cérebro humano tem
uma predileção pela formação de conceitos abstratos. Tentarei transmitir-lhe
uma concepção da realidade, mas começo a compreender que com isso apenas o
deixaria mais confuso. Ainda temos muito tempo até que você me abandone.
— Não é
tanto assim — pensou Rhodan e olhou para o relógio, que continuava a indicar
vinte e nove segundos. Perto dele Bell estava estendido, imóvel. Tinha o rosto
rígido, como o dum morto.
— Todo o
tempo do mundo está concentrado nesse estado — pensou o imortal em resposta. —
Olhe para o relógio: está parado. Ainda ouve o contador robotizado? Não, não o
ouve, porque também para ele o tempo parou. E seu amigo Bell; sob seu ponto de
vista, está morto.
— Morto?
— Isso
mesmo: morto. Por mais que você o olhe, para ele só se passa a fração dum
milésimo de segundo. Seu sangue está parado nas veias. A Stardust-III continua
parada no mesmo lugar. O tempo não passa mais — para você.
Rhodan
sentiu um assomo de pavor. Um sopro frio, que parecia vir dum túmulo, parecia
atravessar a sala de comando e fê-lo estremecer. Lançou um olhar para o
relógio. O ponteiro dos segundos estava parado.
Rhodan lutou
com todas as forças contra a sensação de pânico, mas não conseguiu evitar que a
mesma o dominasse, ao menos em parte. Sua mão tocou o corpo de Bell.
Este parecia
de pedra. Não se moveu um milímetro.
— Bell, você
me ouve?
— Não
adianta! — disse a voz do imortal vinda do nada. — Do seu ponto de vista, Bell
congelou no tempo. Vê você sentado ao seu lado, e não enxerga seus movimentos
instantâneos, da mesma forma que não pode ouvir suas palavras. Lembre-se de que
para ele não se passa nem um segundo, enquanto nós estamos ocupados em
solucionar o problema do tempo, passando talvez várias horas no plano da
atemporalidade.
— E eu? O
que houve comigo? O que acontecerá se eu me levantar e andar pela nave?
— Ninguém o
impedirá, velho amigo. Você sairá do seu lugar, mas na verdade apenas o
abandonará por um milésimo de segundo. Seus movimentos são tão rápidos que o
olho humano não consegue captá-los.
Rhodan
continuou sentado.
— Não
compreendo — minha inteligência recusa-se a admitir essa realidade. Não posso
existir simultaneamente em dois planos diferentes.
— É claro
que você pode. Quando você se encontra diante dum aparelho de telefilmagem,
você também existe duas vezes ao mesmo tempo, e em dois tempos diferentes —
desde que você apareça no filme que está sendo exibido.
— Isso não é
a mesma coisa — objetou Rhodan.
— Será que
não é? Será que não é a mesma coisa, se considerarmos que a cada segundo que se
passa somos uma pessoa diferente? As células de nosso corpo renovam-se
constantemente, tal qual o sangue. Logo, o homem deste segundo não pode ser o
mesmo do segundo que se segue. São homens diferentes. Mas, reúna-os no mesmo
segundo, o que é perfeitamente possível para quem adquiriu o domínio do tempo,
e você terá frente a frente não os mesmos homens, mas dois homens iguais.
— Quer dizer
que Bell estava estrangulando a si mesmo, não sua imagem?
O imortal
deu uma risada.
— Por pouco
não mata o Bell que existirá daqui a dez minutos. Foi dali que eu o trouxe.
Rhodan
perguntou:
— E se ele o
matasse, o que aconteceria?
O imortal
ignorou a pergunta. Não estava disposto a responder a todas as indagações.
— Falamos
sobre a influência que se pode exercer no futuro. Você viu a prova. No seu próprio
interesse dar-lhe-ei mais uma prova. Mas não acredito que eu possa anular
qualquer coisa que está acontecendo neste segundo. Apenas quero que esteja
prevenido. Acompanhe-me para o interior da nave de Topthor.
— Quem é
Topthor?
— O chefe do
clã dos mercadores que localizou você. É um dos chamados superpesados. Não se
assuste ao vê-lo. As três naves comandadas por ele estão próximas à transição.
Neste instante está dando ordem ao seu telegrafista, para transmitir
determinada mensagem. O destinatário é um certo Etztak.
— Etztak — o
patriarca dos saltadores. O que vem a ser isso?
— Você sabe
perfeitamente que Etztak perdeu a paciência. Quer transformar num inferno
atômico o planeta em que se encontram seus inimigos. Se receber a mensagem, não
hesitará mais em realizar seu intento.
Você sabe
perfeitamente que estava esperando apenas porque pretendia obter informações
preciosas de sua gente. Mas, quando receber a mensagem de hipercomunicação de
Topthor, ficará ciente de que você o estava enganando. Saberá que as pessoas
que se encontram no planeta de gelo só estão ali para distraí-lo, a fim de que
você pudesse ir tranqüilamente ao planeta da vida eterna, em busca da nova
arma. Topthor o informará de que você conseguiu a nova arma, e provavelmente os
atacará com a mesma. Logo, Etztak estará prevenido. Os mercadores são muito
unidos quando se trata de defender os interesses comuns. Não costumam sujar o
prato de que comem. Etztak solicitará o auxílio da frota de guerra dos
mercadores galácticos.
— Não quero
a guerra — gemeu Rhodan assustado. — Mesmo que disponha de armas superiores,
não a quero.
— Já não é
possível evitá-la totalmente — respondeu a voz do imortal. — E não posso
intrometer-me nos conflitos existentes na Galáxia, pois isso representaria uma
violação das leis naturais. Mas posso fornecer certas indicações. E se eu o
prevenir, apenas lhe darei uma indicação. — Deu uma risadinha irônica. — Venha
comigo, Rhodan. Quero que conheça Topthor, o inimigo com que vai defrontar-se.
É bom que saiba que ele não poderá vê-lo, da mesma forma que você não poderá
tocar seu corpo. Você continuará sentado na Stardust-III, mas seu espírito
abandonará o corpo, por uma pequenina fração de segundo.
Antes que
Rhodan pudesse responder, aconteceu uma coisa muito estranha. Começou a
afastar-se de si mesmo. Flutuou abaixo do teto e teve a impressão de olhar para
si mesmo. Ao mesmo tempo, segundo imaginava, seu corpo retornava ao plano
temporal comum; só seu espírito permanecia no plano em que o tempo parara. O
Rhodan para o qual estava olhando “congelou-se”.
Seu olhar rígido continuava fixado nos instrumentos.
Subitamente
Rhodan, ou seu espírito, atravessou as paredes da Stardust-III. Flutuou
livremente no espaço. Tentou em vão ver-se a si mesmo. Estava reduzido ao nada.
Estava invisível.
A
Stardust-III transformou-se numa esfera parada no espaço, que não se movia um
centímetro sequer. Os homens e as máquinas que se encontravam no seu interior
transformaram-se num retrato realista, que reproduzia apenas um milésimo de
segundo de vida.
A
Stardust-III foi diminuindo rapidamente, até que Rhodan não a viu mais.
— Talvez a
esta hora você já compreenda por que minha raça renunciou ao corpo, quando se
viu diante da possibilidade de espiritualizar-se. O corpo é um simples
instrumento. É vulnerável e por isso mesmo é mortal.
— Bem que eu
sentiria falta do meu corpo — respondeu Rhodan em pensamento.
— Acontece
que você é apenas um humano, velho amigo. Acontece que eu sou minha raça. É uma
diferença enorme. Dentro de mim também vivem aqueles que se opunham à
espiritualização. Talvez seja por isso que tenho uma tendência de fazer minha
aparição sob esta ou aquela forma. Chegamos. Esta é a nave de Topthor.
O “pepino” também estava parado no espaço.
Mantinha-se no mesmo plano existencial da Stardust-III. Rhodan não podia
conceber que nesse meio tempo não havia acontecido absolutamente nada. Mas já
compreendia uma coisa: enquanto se mantivesse por ali, naquele estado, não
estaria perdendo tempo.
Quando viu
Topthor, o gigante quadrado, levou um susto, muito embora o imortal o tivesse
prevenido. A altura do monstro era igual à largura. Topthor segurava um papel
nas mãos superdimensionadas. Naquele instante estava passando o papel a outro
superpesado, que não ficava atrás dele em peso e tamanho.
— A notícia
é esta, amigo velho. Leia.
Rhodan
aproximou-se dos dois superpesados. Poderia tocá-los, se tivesse mãos. Uma
pergunta passou por seu cérebro: como podia ler, se não tinha olhos?
De qualquer
maneira, via perfeitamente o bilhete e as palavras escritas no mesmo. O texto
estava redigido em intercosmo, a língua usual no Império arcônida.
O bilhete
dizia o seguinte:
Para Etztak,
patriarca do clã de Etztak. Perry Rhodan, o terrano, conseguiu uma nova arma.
Conseguiu destruir cinco das minhas naves. Não há qualquer defesa. Etztak, eu o
previno. Garanta o nosso auxílio. Rhodan vai atacá-lo e destruí-lo. Só um golpe
de surpresa poderá eliminá-lo. Chamarei duma nova posição e aguardo sua oferta.
Topthor Clã dos superpesados.
Rhodan leu a
mensagem duas vezes e teve certeza de que não esqueceria o texto. Tudo
dependeria da rapidez das reações de Etztak. Provavelmente não seriam
suficientemente rápidas. A Stardust-III alcançaria o sistema de Beta-Albíreo
num único salto. Era bem verdade que o mesmo acontecia com as naves de Topthor.
Mas vários dias poderiam passar-se antes que os superpesados interviessem nos
combates. Etztak era um homem obstinado, que regatearia o preço do auxílio.
Era esta a
única chance de Rhodan.
Recuou
alguns passos e lançou um olhar detido para Topthor. O rosto parecia dum homem
ou dum arcônida. Ou então — Rhodan estremeceu com a idéia — seria dum
barcônida. Sem dúvida havia algumas alterações. Provavelmente a raça dos
superpesados vivera por muito tempo num planeta de gravitação extremamente elevada
e por isso sofrera uma deformação. Mas os traços da ascendência eram
inconfundíveis.
A comunidade
galáctica. Um sorriso amargo surgiu no rosto de Rhodan. Ainda bem que os
barcônidas não sabiam o que era feito de seu Império. E muito tempo se passaria
até que sua longa viagem os levasse às extremidades da Via Láctea. Muita coisa
poderia mudar até lá...
— Vamos
voltar — insistiu a voz do imortal. — Você já viu a mensagem que seu inimigo
irá receber. Tome suas providências. Quando voltar ao plano existencial da
Stardust-III, não terá muito tempo. Mas você conseguirá.
Pelas
concepções de Rhodan o vôo incorpóreo pelo espaço durou poucos segundos. Logo o
vulto familiar da Stardust-III voltou a surgir diante de seus olhos. Sem o
menor esforço passou pelo campo energético e pelas paredes da nave, para
reencontrar-se na sala de comando, ao lado de Bell, imóvel e inalterado.
— Obrigado,
amigo velho. Quando voltaremos a encontrar-nos?
Uma risada
silenciosa atravessou seu cérebro.
— A
linguagem dum ser atemporal não conhece a palavrinha quando. Mas asseguro-lhe
que voltaremos a encontrar-nos. Até lá, passe bem e cuide da herança que lhe
foi confiada.
Rhodan
sentiu que alguma coisa se afastava dele. No mesmo instante retornou ao seu
corpo.
Abriu os
olhos. O contador robotizado estava dizendo:
— ...vinte e
oito...
Mantivera os
olhos fechados por um segundo. Quanta coisa não acontecera nesse segundo? Muita
coisa! Sabia que nesse preciso momento um certo Topthor enviaria pelo
hiperespaço uma mensagem dirigida a Etztak. Conhecia o teor da mensagem. E
começou a imaginar como se formavam certos acontecimentos que os homens
ingenuamente designavam pelo nome de destino.
— ...vinte...
Oito
segundos se tinham passado. Oito eternidades!
— ...dezoito...
Nunca Rhodan
pensara tanto antes duma transição como desta vez. Nunca o tempo lhe parecera
tão longo. E nunca Bell se mantivera tão calado.
— Anime-se!
— disse Rhodan ao amigo. — Dentro de poucos segundos materializaremos, talvez
em meio às naves de Etztak. Cairão sobre nós que nem uma matilha de lobos, para
escapar à destruição pela nova arma. Devemos estar preparados para...
— A nova
arma? — resmungou Bell irritado. — Você devia voltar a pensar logicamente. Como
é que Etztak vai saber que possuímos uma nova arma?
Rhodan
esboçou um sorriso condescendente.
— Você tem
razão. Como poderia saber? Quase chego a acreditar que estou ficando velho. Até
mesmo um homem relativamente imortal pode envelhecer. Vejo isso em você.
— Nove! —
disse o robô em tom decidido.
— Em mim?
Por quê? — perguntou Bell apressadamente.
— Não se
esqueça da Rallas. Se você fosse mais jovem, não se teria irritado com sua
presença, mesmo que fosse uma imitação.
— ...quatro...
— Não me
irritei por causa da mulher, mas por causa do pessoal de bordo. A disciplina
exige...
— Tolice! —
disse Rhodan.
Bell ficou
calado.
— ...um... —
disse o robô de contagem.
E depois:
— Transição!
A
Stardust-III saiu do Universo para penetrar na quinta dimensão. Naquele
instante o tempo parou para a nave e para aqueles que se encontravam em seu
interior. E parou também no resto do Universo, pois mesmo na Terra distante não
se passou mais que um segundo enquanto a Stardust-III executava um salto que a
transportaria por uma distância que a luz só conseguia vencer em 1.750 anos.
Era bem verdade que isso produzia um envelhecimento que também não ultrapassava
um segundo.
Mas no
subconsciente de Rhodan havia uma pergunta — uma pergunta que alguém formulara
durante o salto.
Que pergunta
seria esta?
Ah, era a
seguinte: Você já compreendeu?
Devia ter
sido a voz do imortal.
Você já
compreendeu?
Rhodan
sacudiu a cabeça e disse em voz alta:
— Não, não
compreendi, amigo velho. Afinal, só sou um humano, e como poderia um humano
compreender a estrutura da eternidade? Mas agradeço-lhe por me ter
proporcionado uma excursão durante a qual consegui imaginar como se criam e
conservam os universos.
A escuridão
da sala e o sol chamejante não deram qualquer resposta. Apenas Bell murmurou de
forma quase imperceptível:
— Isso
também deve acontecer com você. Quando despertamos nossa fantasia começa a
trabalhar. É a única vantagem da transição. Devíamos fazer alguma coisa contra
isso. Já chegamos?
Rhodan
contemplou as estrelas cintilantes.
— Já —
respondeu com o espírito ausente. — Realmente, devíamos fazer alguma coisa contra
isso. Sim, chegamos.
De repente
teve a impressão de que alguém ria nas profundezas de sua alma. Não foi uma
risada zombeteira ou irônica, mas uma risada gentil e alegre.
A risada de
alguém que esteve só por muito tempo, e de uma hora para outra percebe que não
está mais.
* * *
* *
*
Ao contar seu Vôo Para o Infinito, Perry Rhodan oferece uma visão
emocionante do passado e do futuro mais longínquo — e obteve dois transmissores
fictícios.
Esses transmissores fictícios são armas muito perigosas. Já foram
utilizadas e voltarão a sê-lo, porque Etztak, patriarca dos saltadores,
condenou um mundo à morte.
Mundo de Gelo em Chamas, o novo e fascinante
volume da série Perry Rhodan, lhe dirá tudo a este respeito.

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