sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

P-032 - Vôo Para o Infinito - Clark Darlton [parte 3]


O quadro projetado à sua frente apagou-se. A sala voltou a iluminar-se. Nex estava de pé junto a Rhodan. Em seus olhos reluzia a tristeza que passara a fazer parte da vida em Barcon II. Com a voz trêmula disse:
— Já compreendeu o que é a solidão, Rhodan? O senhor vive sob um céu estrelado e sabe que não está só no Universo. Sabe que a qualquer momento pode entrar em contacto com outros seres que são seus semelhantes e amigos.
— Talvez o senhor esteja superestimando os descendentes que sua raça deixou na Galáxia — objetou Rhodan cautelosamente. — Muitos colonos podem ter levado dezenas de milênios para redescobrir a astronáutica. Talvez muitos nunca a tenham descoberto, permanecendo isolados e afastados das outras raças, que afinal são todas irmãs. Muitos podem ter soçobrado sem que tivessem a menor idéia de que não eram os únicos seres inteligentes do Universo.
— O senhor está expondo uma teoria sombria, na qual ninguém de nós gostaria de acreditar. Vivemos apenas da esperança de que nosso trabalho não terá sido em vão. Sua visita prova que nossa vida não deixou de preencher uma finalidade.
— Acontece que não estou em condições de reconduzir Barcon para a comunhão estelar — lembrou Rhodan.
Uma sombra passou pelo rosto de Nex.
— É verdade. Acontece, porém, que o senhor nos traz notícias dos mundos que já pertenceram ao nosso Império e que devem sua vida ao nosso povo. E o senhor lhes levará notícias nossas. O simples fato de sabermos que não fomos esquecidos espanta parte do sentimento de solidão que já se tornou insuportável.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Acho que já estou compreendendo. E acredito que posso fazer alguma coisa pelos senhores.
Nex apontou para a porta.
— Vamos embora. Daqui por diante os filmes serão projetados em seu quarto. Apenas quis mostrar-lhe as instalações. Daqui a algumas semanas, quando tiver travado conhecimento com nosso passado, mostrar-nos-á o que aconteceu neste meio tempo na Galáxia.
— Mostrar? — disse Rhodan espantado. — Como posso mostrar? Não trouxe nenhum material.
— Pode mostrar, sim — disse Nex com um sorriso. — Mostrará através dos conhecimentos armazenados em sua memória. Transformaremos seus pensamentos em imagens.
Enquanto se dirigiam à residência de Laar não disseram mais nada. Rhodan esforçou-se em vão para descobrir um meio de livrar-se da situação. O que poderia fazer para evitar o processo de lavagem cerebral? Era exatamente isso que pretendiam fazer com ele.
— Não se preocupe, velho amigo — cochichou o imortal às escondidas. — Será que você acreditava que não previ essa possibilidade, ou que nem sabia dela? Pois então! Os barcônidas ficarão admirados com os frutos de seu trabalho pioneiro.
— Pretende mostrar-lhes alguma coisa que não existe?
— Apenas pretendo mostrar-lhes o futuro — respondeu aquilo.

4



Durante as primeiras oito semanas Rhodan travou conhecimento com a história dos barcônidas — e, através dela, com a história da Galáxia. Ficou sabendo que os barcônidas se consideravam os criadores da civilização da Via Láctea, da qual foram expulsos por um destino implacável. Levaram a semente da vida aos mundos desabitados, e estavam convencidos de que seus descendentes haviam completado a obra por eles iniciada. Achavam que eram o tronco do qual provinham todas as raças humanóides.
No dia 5 de agosto, data em que, segundo Rhodan estava lembrado, travara uma dura batalha contra os robôs-espiões dos mercadores galácticos, foi levado de carro até a cidade. Num grande edifício os membros do governo de Barcon II o aguardavam, entre eles Laar, Regoon, Nex e Gorat. Encontravam-se numa sala ampla, na qual se viam instrumentos complicados e gigantescos painéis. Sob uma cúpula reluzente feita dum metal desconhecido havia uma poltrona. Rhodan foi conduzido a ela.
— Queremos simplificar as coisas para o senhor — explicou Nex depois dos cumprimentos. — Um relato minucioso da evolução da Galáxia consumiria muito tempo. Está vendo a área de projeção? Estamos em condições de projetar seus pensamentos. Pedimos-lhe que pense, que reproduza na imaginação aquilo que ocorreu, pois assim poderemos participar das suas experiências. Assim tomaremos conhecimento do que aconteceu depois que perdemos o contacto com seu mundo.
Rhodan sentou lentamente. Enquanto Nex colocava um capuz prateado sobre sua cabeça e efetuava algumas ligações, Rhodan fez algumas perguntas silenciosas ao acompanhante invisível:
— E agora, velho amigo? Ficarão sabendo que sua obra foi um fracasso. O que é feito de seu projeto de espalhar as raças humanóides por todos os planetas habitáveis? Afinal, o que aconteceu depois que se viram reduzidos à solidão?
— Aconteceu muita coisa. Mas não aconteceu aquilo que os barcônidas esperavam. O contacto entre os mundos foi perdido, se é que já existiu. O império em que pensavam desmoronou-se antes que se formasse.
— O que devo pensar? Nada sei sobre os acontecimentos que se desenrolaram no espaço. É bem verdade que os arcônidas me deram seu saber, mas o que representa isso com o que realmente aconteceu? Afinal, Árcon e M-13 não passam de partículas de pó na Galáxia.
— Não é muita coisa — respondeu o imortal. — Deixe por minha conta. Pensarei por você. Abra os olhos para viver a experiência daquilo que acontecerá um belo dia... talvez. Não poderei oferecer mais que um resumo muito ligeiro. Mas esse resumo bastará para transmitir a esses infelizes a impressão de que não viveram em vão nesta solidão cósmica.
— Está preparado? — perguntou Nex, interrompendo os pensamentos de Rhodan.
— Estou... naturalmente. O que devo fazer?
— Pense em sua própria história e relate o que aconteceu até hoje.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. As luzes apagaram-se. A parede de projeção em forma de semicírculo emitiu uma fosforescência. Subitamente a superfície tornou-se negra e Rhodan viu planetas — a Terra.
Uma gigantesca nave circulava em torno dela e acabou pousando em sua superfície, sustentada por raios chamejantes. Homens desceram e apossaram-se do mundo novo e desabitado. Os primeiros núcleos começaram a formar-se.
Rhodan teve a impressão de que estava sonhando. O imortal estava exibindo a ele e aos barcônidas quadros que nunca poderiam ter sido realidade. Seriam os terranos descendentes dos barcônidas, uma raça perdida no espaço?
Mais uma vez apareceu a Terra, vista de longe. As calotas polares moviam-se, avançando até as zonas temperadas. Mais tarde as gigantescas geleiras voltaram a retrair-se. A superfície do planeta modificou-se. Cidades enormes começaram a surgir, cidades que não conheciam igual na Terra de hoje. Gigantescas edificações em forma de cúpula tornaram a lua habitável. Naves espaciais corriam de um planeta para outro, conduzindo colonos para Marte e Vênus. Das profundezas do espaço interestelar vinham os cargueiros de outras raças e pousavam na Terra, para oferecer suas mercadorias em troca de outros produtos.
Rhodan compreendeu que o imortal estava contando aos barcônidas a história dum futuro possível. Estes naturalmente pensariam que se tratava da história do passado. Não transmitiu qualquer informação sobre as terríveis guerras, que bastariam para exterminar a população dum planeta, não mencionou o Império dos arcônidas, que se encontrava próximo à decadência final, nada mostrou sobre os conflitos aparentemente insuperáveis que transformavam raças aparentadas em inimigos mortais.
O imortal mentia para os barcônidas, para não lhes tornar ainda mais difícil a terrível solidão em que viviam.
Depois duma visão panorâmica que mostrou claramente como todas as inteligências humanóides da Via Láctea se congregaram numa grande comunidade, o quadro ideográfico apagou-se de uma hora para outra. As luzes foram acendidas aos poucos.
Rhodan olhou cautelosamente em torno de si. Viu os rostos felizes dos barcônidas que sorriam em silêncio. Ao que parecia haviam esquecido o destino cruel que os atingira. Foram eles que tornaram possível a evolução que se exibira diante de seus olhos. Não viveram em vão. Alguém completara sua obra.
Nex levantou-se e aproximou-se de Rhodan, para tirar o capuz de sua cabeça. Com a voz trêmula disse:
— Ficamos muito gratos pelas informações, Rhodan. Assim a longa viagem para o desconhecido não será tão difícil.
Rhodan levantou-se. Contemplou os rostos das pessoas reunidas na sala.
— A longa viagem para o desconhecido? Não compreendo.
— Amanhã revelaremos nosso segredo — disse Nex com um sorriso significativo. — E, assim que lhe tivermos transmitido os conhecimentos teóricos, mostraremos o quanto já avançamos na prática.
Por algum tempo conversaram descontraidamente; ninguém aludiu à viagem para o desconhecido. Dali a duas horas Rhodan estava novamente no seu quarto.
Quando se encontrava na cama e viu que diante das janelas a noite sem luz derramava suas sombras sobre o mundo, disse em voz baixa:
— Você mentiu para eles, velho amigo. Ofereceu-lhes uma ilusão que lhes dará forças para transformar em realidade seu plano tresloucado.
— Isso mesmo — respondeu o imortal, também em voz baixa. — Foi exatamente o que fiz. Um belo dia, daqui a um milhão de anos talvez, a raça dos barcônidas salvará a Galáxia da destruição, trazendo suas experiências através da solidão infinita do abismo que se abre entre as nebulosas. Um belo dia as raças inteligentes da Via Láctea também se sentirão sós. Isso acontecerá no dia em que se derem conta de que nunca poderão vencer esses abismos.
Rhodan não respondeu. Por maior que fosse a receptividade de seu cérebro, aperfeiçoado através do treinamento hipnótico, o mesmo também tinha limites.
E sabia que esses limites já tinham sido ultrapassados.

* * *

Era o dia 14 de agosto.
Vários dias foram consumidos em explicar o projeto dos barcônidas a Rhodan. O próprio Nex explicara-lhe os detalhes técnicos. Não se cansava de asseverar que há várias gerações sua raça estava familiarizada com o projeto, e que as melhores inteligências dum mundo unido estavam fazendo o possível para eliminar qualquer fonte de erro.
O planeta Barcon II fora escavado por dentro. Toda a população poderia viver e desenvolver-se no interior do mesmo. Sistemas de transporte inconcebíveis garantiam a ligação entre os diversos centros residenciais. Os reatores atômicos espalhados pelos pontos mais diversos garantiam o suprimento de luz, calor e energia por milhares de séculos. As instalações geradoras de ar substituiriam a atmosfera perdida. Enquanto o planeta congelado com sua superfície morta percorresse sua trajetória solitária pelo Universo, a vida continuaria em seu interior.
Gigantescos laboratórios produziriam os alimentos e objetos de uso. A vida não seria diferente da que os habitantes levavam na superfície do planeta. Quando irrompesse a noite, uma noite de escuridão completa, isso aconteceria sob comando.
Mas o aspecto mais importante era a propulsão.
Uma maquinaria incrível faria com que o planeta se desprendesse do campo de gravitação do sol de Barcon e se deslocasse numa velocidade crescente em direção à distante Via Láctea. Um dia, asseverou Nex confiante, a “nave Barcon II” atravessaria o Universo à velocidade da luz.
Rhodan não conseguia livrar-se da impressão de viver num sonho. O imortal não respondeu às perguntas sobre este ponto. Ignorou as observações que Rhodan fazia a este respeito.
Hoje, no dia 14 de agosto, Nex iria mostrar o singular propulsor ao hóspede do planeta.
Foram de carro até o aeroporto, onde um pequenino aparelho os aguardava. Tinha a forma duma gota de líquido e não possuía asas. Rhodan tinha certeza de que não haveria o menor problema em penetrar no espaço por meio dessa nave, mas isso não adiantaria nada. Mesmo que alcançassem a velocidade da luz, levariam cento e cinqüenta mil anos para atingir a estrela mais próxima.
Depois de uma hora de vôo pousaram num platô de rocha, que se erguia em meio a uma planície fértil. Várias construções em forma de cúpula e algumas torres elevadas provavam que havia gente em meio àquela solidão. Olhando melhor, Rhodan notou que a área do platô fora aumentada por meio de grandes massas de pedregulho.
— Esta é a entrada do mecanismo de propulsão, cujo funcionamento se fará sentir aqui — disse Nex, apontando para baixo. — Regoon concluiu a execução dos velhos planos. O senhor o encontrará lá embaixo.
Embaixo — isso significava cerca de cinco mil metros abaixo da superfície.
Rhodan não pôde deixar de admirar as instalações que os barcônidas haviam montado no curso dos séculos. Corredores imensos levavam para o interior do planeta. Os mesmos eram iluminados a espaços regulares por lâmpadas embutidas no teto. Trilhos de bitola estreita davam mostra do meio de transporte utilizado por lá. Uma vibração constante enchia o ar tépido.
Regoon veio ao seu encontro. Trajava um macacão apertado, que não o perturbava no trabalho.
— Talvez o senhor tenha suas dúvidas — disse, apertando a mão de Rhodan. — Mas asseguro-lhe que conseguiremos. Muitas gerações trabalharam na execução deste projeto, e nós o realizaremos.
— O senhor viverá apenas para ver o começo — respondeu Rhodan com um sorriso. — Só nossos descendentes saberão se foi bem sucedido. Quanto tempo levará Barcon II para retornar à nossa Galáxia?
— Calculamos a duração da viagem em duzentos mil anos — respondeu Regoon. — Quanto a isso Gorat não tem a menor dúvida.
Duzentos mil anos! Rhodan estremeceu ao dar-se conta do espírito de sacrifício desses homens extraordinários. Retirar-se-iam para o interior do planeta, a fim de que seus descendentes mais longínquos tivessem possibilidade de viver no seio da comunidade galáctica. Os terranos ainda não haviam chegado a esse ponto. Não pensavam sequer em seus filhos.
— Conseguirão — disse, e estava certo de que tinha razão. — Um dia os descendentes do senhor e os nossos poderão apertar-se as mãos.
O controle da propulsão planetária era um mecanismo de complexidade inimaginável. A profusão de painéis e geradores, instrumentos e fios, telas e postos de observação era tamanha que Rhodan logo desistiu de refletir sobre seu funcionamento. Nem mesmo um cérebro treinado como o seu poderia compreender à primeira vista o que estava acontecendo no interior daquele planeta.
Sem dizer uma palavra caminhava pelos gigantescos pavilhões, ladeado por Nex e Regoon. Ouvia as explicações que os dois cientistas lhe davam. Mostraram-lhe todas as instalações e orgulhavam-se da obra de sua vida, que tornaria todo um mundo independente do sol por um espaço de duzentos mil anos.
Quem dera que ele, Rhodan, pudesse evitar a catástrofe com o auxílio do imortal.
— Sei onde está o erro — disse nesse instante a voz silenciosa em seu cérebro. — Daqui a pouco passaremos pelo gerador principal. Não peça explicações, velho amigo. Como já disse, trata-se apenas dum erro de regulagem, que produziria uma aceleração infinita do processo de fissão nuclear. Se isso acontecer, a energia que deveria durar uma eternidade será liberada num segundo. Você conversará animadamente com os dois, sem preocupar-se com o que sua mão direita fizer.
— Veja, Rhodan, este mecanismo comanda a propulsão, pois regula o processo de fissão nuclear — disse Regoon no mesmo instante. — Laar ficará encarregado de estar aqui dentro de pouco tempo, a fim de dar início à grande viagem. Os preparativos já estão sendo tomados.
— Quer dizer que os propulsores estão prontos? — perguntou Rhodan, apontando com a mão esquerda para as instalações. Regoon e Nex confirmaram com um gesto e olharam na direção em que o braço estava apontando. — Tem certeza de que tudo funcionará perfeitamente?
— Temos certeza absoluta — respondeu Nex com um sorriso. Nem ele nem Regoon perceberam que a mão direita de Rhodan inverteu a posição de duas chaves. — Tudo foi testado milhares de vezes. Não existe a menor possibilidade de erro.
— Faço votos de que seja assim — disse Rhodan e prendeu os grampos das chaves. Sentiu que o imortal se retirou. Sentiu-se só e abandonado, mas isso só durou uma fração de segundo. A voz silenciosa logo se fez ouvir.
— Consegui. Estive no futuro, amigo velho. Os barcônidas iniciam a viagem. Não submergem na fusão de seu planeta.
— Como podemos alterar o futuro? Você não viu seu planeta transformar-se num sol?
— É possível que um dia você compreenda, amigo velho. A imortalidade e o tédio resolvem todos os problemas.
— Vamos dar uma olhada na usina energética, situada numa área isolada — disse Nex, apontando para um alçapão redondo de cinco metros de diâmetro, engastado no soalho. — Seria perigoso entrar ali.
Comprimiu um botão e o alçapão, cuja grossura era de dois metros, abriu-se lentamente. Rhodan aproximou-se da abertura e olhou para o abismo que se abria diante dele. A galeria abria-se mais embaixo, dando para outro pavilhão, no qual se viam gigantescas peças metálicas. Não se reconheciam os detalhes. Um zumbido uniforme subia dali, enchendo o ar com uma vibração intensa. De algum lugar vinha um cheiro de ozônio.
— Amanhã as manobras de evacuação serão iniciadas em todos os pontos do planeta Barcon II — disse Regoon em tom orgulhoso. — Não demorará muito, e a viagem do planeta terá início.
— E amanhã me despedirei de Barcon — respondeu Rhodan. — Informarei os mundos da Galáxia de que os ancestrais da humanidade retornarão.
Nex e Regoon sorriram. Em seus olhos não se via mais nada da tristeza que os mesmos costumavam exprimir. Exalavam confiança e uma felicidade tranqüila. E a força e decisão que lhes permitiriam passar o resto de suas vidas numa solidão absoluta.

* * *

A viagem ao campo de pouso parecia uma marcha triunfal. Milhares de barcônidas enchiam as ruas e cumprimentavam o embaixador da Galáxia com gritos de júbilo. Nada parecia indicar que toda essa gente via o sol pela última vez, pois antes mesmo que deixasse o sistema, os barcônidas desceriam para as profundezas de seu mundo para morrer por lá. Só seus descendentes mais longínquos veriam um belo dia os novos sóis, que voltariam a dar calor, luz e vida ao seu planeta.
Enquanto o carro diminuía a velocidade até parar, a pequenina nave na qual Rhodan viera desceu do céu. Pousou suavemente. A cabine abriu-se automaticamente.
Laar foi o primeiro a descer do carro. Deu a mão a Rhodan, para ajudá-lo a descer. Nex, Regoon e Gorat seguiram-no.
— Agradecemos pela visita, Rhodan. Já sabemos que nossos filhos não nos esqueceram. Rhodan, transmita à comunidade galáctica lembranças de seus irmãos.
— Serão dadas — prometeu Rhodan.
Quando, ainda de pé na cabine aberta, virou-se para acenar pela última vez para a multidão, o grito de júbilo da massa humana subiu para o ar claro e tépido do planeta. Parecia o grito de alívio duma criatura martirizada, que subitamente se vê livre dos seus sofrimentos.
Rhodan sentiu as lágrimas que lhe subiam aos olhos. Virou-se abruptamente e desapareceu no interior da nave. Esta decolou poucos segundos depois com um leve abalo e, depois de descrever uma curva, subiu verticalmente para o céu.
Barcon II voltou a mergulhar no silêncio eterno da solidão.
Nos próximos dois dias o espetáculo da viagem repetiu-se em sentido inverso. A cada hora que passava a Galáxia crescia, até que a pequena nave mergulhasse na confusão de estrelas de um dos braços da espiral. Naquele instante Rhodan compreendeu o que os barcônidas queriam dizer quando falavam em sua solidão insuportável.
— Dentro de uma hora relativa chegaremos ao destino — disse o imortal de forma bem perceptível. — Será que você não vai me dizer por que veio?
— Você não sabe? — perguntou Rhodan espantado.
— Apesar disso gostaria que você dissesse.
— Preciso duma arma definitiva, para defender meu planeta natal contra o perigo que o ameaça. Os mercadores galácticos descobriram a Terra, e não serão os últimos.
— Ora, os filhos dos barcônidas! — disse aquilo com um riso de escárnio, mas de repente tornou-se muito sério. — Estes não deverão sofrer nenhuma decepção quando chegarem à Galáxia, o que poderá acontecer bem mais cedo do que você pensa. É bem possível que alguém os ajude a vencer o tempo.
Fez uma pausa, para deixar que suas palavras produzissem efeito na mente de Rhodan.
— Uma mão forte deve unir a Galáxia. E essa mão forte é você, Rhodan. Só você! Por isso dar-lhe-ei a arma que me pede. Apenas lhe peço que nunca abuse dela!
— Pretende dar-me a arma? — perguntou Rhodan, que subitamente se sentia desconfiado. — Sem qualquer prova, sem outra missão a cumprir?
— Nossa excursão foi a melhor prova. Você passou bem por ela, não passou?
— Acredito que sim — com sua ajuda.
Aquilo riu divertido.
— É claro que foi com minha ajuda; nem poderia ter sido de outra forma. Quer dizer que você quer um transmissor fictício. Pretende teleportar porções da matéria. Deseja levar, por exemplo, cargas nucleares para dentro das naves de seus inimigos.
— E você me ajudará?
— Naturalmente. Durma, Rhodan, que você tem diante de si mais um salto no tempo. Mas não deixaremos de retornar ao presente, onde há uma tarefa à sua espera. Seu amigo Bell deverá estar curioso para saber por onde você andou durante o segundo em que esteve ausente...
Enquanto refletia sobre as palavras do imortal, Rhodan sentiu um cansaço invencível. Olhou para a tela e viu a primeira constelação, que se deslocava lentamente.
Depois adormeceu...
...e logo despertou.

5



...houve? Você está ficando transparente... já está de volta! Quer fazer um exercício de teleportação?
Rhodan olhou para o relógio de bordo.
17 de agosto, 22:53 h, hora de Terrânia.
Nem chegara a perder um segundo.
— Olá, Bell — disse com a voz embaraçada. — Um exercício de teleportação? Não foi bem isso. Talvez seja uma brincadeira de nosso grande e velho amigo. — Olhou pela vigia da frente. — A montanha! Estamos chegando.
Bell ia perguntar mais alguma coisa, mas preferiu ficar calado. Em sua testa havia uma ruga vertical. Talvez estivesse refletindo para descobrir como era possível que numa fração de segundo Rhodan arranjara uma camisa limpa, e ainda um uniforme bem passado. Mas no planeta da vida eterna tudo era possível, até as coisas mais medonhas.
Viram a cidade. O campo de pouso parecia ter crescido. Novos edifícios erguiam-se em torno dele. O pavilhão continuava no mesmo lugar. A entrada estava aberta. Um vulto humano, solitário e abandonado, estava lá embaixo, olhando para eles.
Era Homunk, a criatura artificial do imortal. Corporificava este e servia de mediador entre ele, o grande invisível, e os humanos. Seu saber infinito permitira-lhe transformar uma porção de matéria num homem para o qual não havia problemas insolúveis.
A Stardust-III pousou.
Rhodan e Bell foram os primeiros a saírem da nave. Dirigiram-se a Homunk, que os aguardava com um sorriso nos lábios.
— Bem-vindos em Peregrino, o planeta da vida eterna — disse, estendendo a mão aos dois homens. — Quer dizer que desta vez desejam uma arma. Um transmissor fictício de matéria, segundo soube de meu senhor. O desejo foi concedido. Fui incumbido de montar dois aparelhos desses nas posições de combate da nave. Será que poderão dar uma ajuda?
Rhodan ficou surpreso em ver com que rapidez o imortal atendia ao seu pedido. Isso não combinava com a imagem que fizera dele, se considerasse as dez semanas que passara com o mesmo. Mas teriam sido realmente dez semanas?
— Ajudaremos, sim — naturalmente. — Rhodan teve que fazer um esforço para não dar uma palmadinha no ombro de Homunk e chamá-lo de “velho amigo”. O homem artificial sorriu.
— Vamos começar.
Não houve nenhum preparativo, nenhuma demora.
Que interesse teria o imortal em não perder tempo — ele, que dominava o tempo?
Por um instante Rhodan se esquecera de que aquilo possuía um ânimo muito galhofeiro.
Os trabalhos foram iniciados imediatamente. Os cinqüenta robôs de trabalho depositados a bordo da Stardust-III levaram para bordo as peças depositadas no grande pavilhão, e ali montaram os dois aparelhos sob a orientação de Homunk.
Quinze dias passaram-se.
Rhodan ficava cada vez mais preocupado com o tempo que estavam perdendo. Bell também não conseguiu disfarçar a ansiedade. No início da terceira semana, quando os trabalhos ainda estavam em pleno andamento, Rhodan olhou para o lado. Encontravam-se numa pequena colina, de onde podiam contemplar a imagem dos Alpes. À sua esquerda estendia-se a superfície reluzente dum mar. O sol artificial encontrava-se praticamente no zênite, e um calor agradável enchia o mundo artificial.
— Já falou com ele a este respeito? — perguntou Bell.
— Você se refere ao tempo — respondeu Rhodan, que sabia perfeitamente onde o amigo queria chegar. — Tentei várias vezes, mas não obtive uma resposta direta. Estamos perdendo muito mais tempo do que poderia parecer. Já estamos aqui há mais de quinze dias. Se me lembro da nossa experiência passada, chego à conclusão de que é bem possível que lá no espaço e sobre a Terra vários anos se tenham passado. E isso seria uma catástrofe. O que nos adiantarão as superarmas, se chegarmos tarde para salvar a Terra e o Universo?
— Devíamos... — principiou Bell, mas calou-se abruptamente. Rhodan percebeu sua hesitação e seguiu o olhar do amigo, que fitava o mar. Uma esfera colorida flutuava sobre a superfície ligeiramente agitada e aproximava-se lentamente. Parecia não ter peso e desconhecer a lei da gravidade. Como se fosse tangida pelo vento, ia velejando em direção à colina em que se encontravam. E dela saiu a voz do imortal, forte e nítida — e entremeada com o habitual tom irônico.
— Assumi uma forma bastante estranha, não acham? Poderia ter vindo sob a forma dum monstro, mas isso seria contrário à estética. Uma bolha de sabão colorida é bem mais bonita.
— Mas esta pode arrebentar — disse Bell sem o menor respeito.
— É claro que pode! — disse o imortal com uma gostosa gargalhada. Parecia divertir-se a valer. — Querem ver?
Rhodan preferiu não perder a oportunidade que se oferecia.
— Não! — exclamou. — Gostaria de fazer-lhe uma pergunta.
— Mais um pedido?
— Sim, mais um pedido, velho amigo. Você sabe qual é a minha situação. Nossos “amigos”, que levam vantagem sobre nós, estão sitiando nosso sistema. Conseguiram atrair alguns amigos meus a uma armadilha e os destruirão se não chegarmos em tempo. O mundo de você fica em outro plano temporal que o meu. Da outra vez que estive aqui passaram-se mais de quatro anos. Agora isso não deve acontecer. Quinze dias já seriam demais. Quero pedir-lhe...
— Um prazo de dez minutos é satisfatório? — perguntou o imortal. A esfera colorida parecia inchar, e a gama de cores parecia cada vez mais variada. Rhodan parecia perplexo.
— Está bem, dez minutos. Mas para quê?
— Dez minutos ao todo, velho amigo. Pense em tudo pelo que você passou nesses dez minutos. Você fez uma excursão à eternidade e acompanhou o destino de sua raça. Além disso, equipou sua nave com a mais formidável das armas. Aliás, tenho armas ainda mais potentes, mas você não fez nenhuma pergunta a respeito. Não posso ajudá-lo, se você não me dá as indicações. Talvez mais tarde...
— Ontem Homunk fez algumas alusões — recordou Bell muito exaltado. — Mas não respondeu às perguntas que lhe fizemos.
— Nem está habilitado a responder — disse com uma risadinha a esfera que agora flutuava bem em cima de suas cabeças. — Mas as indicações que ele forneceu deviam levá-los a pensar um pouco. Talvez em sua próxima visita vocês poderão fornecer informações mais precisas sobre aquilo que desejam de mim. Terei muito prazer em ajudá-los. Não querem que os barcônidas sofram uma decepção quando regressarem.
Bell fez cara de espanto.
— Os barcônidas? Será que está aludindo aos arcônidas?
Uma gargalhada homérica veio do céu.
— Que fantasia deliciosa tem meu jovem amigo! Não deve quebrar a cabeça — ela é muito linda.
Bell esteve a ponto de responder, mas uma forte lufada de ar quase o atira ao chão. A bolha reluzente estourara. O ar veio de todos os lados para encher o vácuo. Logo o vento cessou.
— Foi ele que quebrou a cabeça — murmurou Bell, arrastando Rhodan encosta abaixo. — Quem são esses barcônidas?
— Isso é uma história muito comprida — disse Rhodan em voz baixa. Depois de refletir um pouco, acrescentou: — É possível que seja apenas uma lenda; não sei. Um dia destes contarei. Ainda bem que estamos livres de nossa grande preocupação. Não vamos perder tempo.
— Tem certeza?
— Certeza absoluta! — confirmou Rhodan, andando a passos largos. Lá embaixo a Stardust-III os aguardava. Amanhã as armas estariam em condições de serem usadas.
Homunk compareceu à sala de comando.
— Meu senhor pediu que lhe dissesse que já pode decolar, Rhodan.
— Não vai despedir-se de nós? — perguntou Rhodan espantado.
— Ele o faz por meu intermédio. Além disso, está conosco neste instante.
Bell olhou em torno, mas não viu ninguém.
— Onde está? — perguntou, como se esperasse ver outra esfera colorida.
Homunk sorriu.
— Está corporificado num ser humano, num ser humano que o senhor ama muito, Bell — disse; logo seu rosto voltou a assumir uma expressão séria. — Meu senhor quer que vocês decolem daqui a dez minutos, rompendo a abóbada energética na vertical. Vocês retornarão ao seu sistema no mesmo dia em que partiram de lá.
Rhodan sentiu-se aliviado por ver a informação confirmada mais uma vez.
— E a arma? Será que funciona?
— Não tenha a menor dúvida — asseverou Homunk.
Rhodan ligou o intercomunicador e transmitiu algumas ordens aos postos de combate. Depois olhou para o relógio.
— Veremos — disse. — Meu velho amigo não se zangará se fizer uma experiência na sua área. — Lançou outro olhar para o relógio. — Qual é a profundidade desses oceanos?
— Quatro mil metros.
— Excelente! — Rhodan voltou a falar com os postos de combate. Alguns dados. Depois surgiu a ordem: — Tudo pronto? Pois bem, vou disparar.
Comprimiu um botão que se encontrava a seu lado, e que nunca parecia ter sido usado, o que correspondia à realidade.
Alguns segundos passaram-se. Depois uma enorme montanha de água surgiu lá fora, no oceano, formou um gigantesco cogumelo e caiu sobre si mesma. Vapores brancos turbilhonaram em direção ao céu artificial. A vaga provocada pela explosão correu para a margem e inundou grande extensão da zona costeira.
No mesmo instante começou a chover.
Alguém estava rindo.
— Muito bem, velho amigo. Sabe lidar com armas. Mas volto a preveni-lo: a superioridade que você acaba de adquirir só poderá ser usada em prol da conservação da paz. Se não for assim, a arma será dirigida contra você mesmo. Quando for atacado, poderá destruir o inimigo. Mas nunca ataque ninguém! Eu o previno, velho amigo. Estou falando muito sério!
— Você não tem motivo para preocupar-se — tranqüilizou-o Rhodan. — Nosso poder tem por único objetivo realizar o sonho dos barcônidas. E nisso estamos de acordo, não estamos, velho amigo?
— Inteiramente! Passe bem, Perry Rhodan. Um momento! Antes que eu me esqueça: fiz uma promessa a Bell. Poderá procurar em seu camarote. Mais uma vez o invisível sorriu. Depois reinou um silêncio total.
Homunk dirigiu-se à porta.
— Desejo-lhes tudo de bom. Mais um conselho: assim que saírem da proteção deste mundo e retornarem ao plano existencial comum, tenham cuidado! Passem bem, caros amigos!
Desapareceu antes que pudessem responder.
Bell parecia furar o ar com o olhar.
— No meu camarote? O que foi que ele me prometeu?
— Como posso saber? — disse Rhodan, dando de ombros. — Uma eternidade se passou desde que chegamos aqui. Não posso lembrar-me de tudo.
— Nem eu. Duas semanas e meia são um tempo muito longo.
Rhodan sorriu sem dizer uma palavra. Então Bell vivera dezessete dias. E ele, Rhodan? Teria vivido treze semanas e meia? Ou uma eternidade formada de duas parcelas de cento e cinqüenta anos?
Ou seriam apenas dez minutos?
Levantou a mão e ligou o intercomunicador.
— Atenção, todos os tripulantes! Decolaremos dentro de um minuto. Atar cintos! Dentro de exatamente três minutos romperemos a abóbada energética. O tempo já está correndo. Cento e setenta e nove... cento...
O robô prosseguiu na contagem.
Ao número cento e vinte a Stardust-III ergueu-se e, imponente, subiu ao azul do céu artificial. As nuvens produzidas pela detonação atômica subaquática já haviam descido ao solo. Lá em cima o sol artificial desperdiçava a profusão dos raios dourados.
— Vou até o camarote para deitar um pouco — disse Bell. — Avise-me quando chegarmos perto da transição.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça. Permaneceu só na sala de comando. O assento de piloto proporcionava uma proteção tamanha que poderia superar o pior dos abalos. Daqui poderia dirigir a enorme esfera com uma das mãos, se não preferisse deixar o controle a cargo do robô.
Exatamente dois minutos depois da decolagem a Stardust-III rompeu a cúpula feita de energia que se estendia acima do planeta Peregrino. O abalo sacudiu todos os compartimentos da nave, mas em grande parte foi absorvida e compensada pelos campos gravitacionais.
Poucos segundos antes do grande acontecimento o sinal de chamada acendeu-se. Bell procurava entrar em contacto com a sala de comando por meio do intercomunicador. Aborrecido, Rhodan não lhe deu atenção. Não tinha tempo para ouvir piadas sem graça ou deixar que o distraíssem de outra forma. A situação exigia toda concentração. Estava lembrado da advertência de Homunk, segundo a qual devia ter um cuidado todo especial quando rompesse a barreira que o separava do Universo normal.
Rhodan não imaginava por que aquele instante representaria um perigo, mas nem pensou em fazer pouco caso do aviso que lhe fora dado.
Seu olhar caiu sobre o relógio de bordo, que poucos segundos antes da ruptura da barreira continuava a indicar o dia 3 de setembro, 15:47 h, tempo de Terrânia.
O abalo veio em seguida. O planeta Peregrino desapareceu de uma hora para outra, sendo substituído pela visão conhecida do Universo.
Os algarismos do relógio correram vertiginosamente diante dos olhos de Rhodan. O calendário de bordo adaptou-se ao novo plano temporal. Marcava o dia 17 de agosto, 22:39 h, tempo de Terrânia.
Fazia exatamente dez minutos e meio que haviam penetrado nesse mesmo ponto na cúpula energética do planeta Peregrino. E fazia apenas sete horas que haviam decolado da Terra.
Dali a quarenta minutos o imortal o levaria consigo, para uma excursão às profundezas dos abismos que se abrem entre as nebulosas. Uma excursão à eternidade...
Rhodan sentiu que seus cabelos se arrepiavam. No mesmo instante o som estridente do alarma encheu a nave.
Os aparelhos automáticos de observação haviam localizado porções de matéria, muito embora nenhuma matéria devesse existir num raio de cinqüenta anos-luz.
Poucos segundos depois veio o aviso da sala de comando das operações de combate:
— Posto de combate TFM preparado!
Antes que as vigias se fechassem, Rhodan viu as oito naves em forma de rolo compressor dos saltadores, que se precipitavam vertiginosamente sobre a Stardust-III embora o surgimento repentino do veículo espacial as deva ter surpreendido.
Mais alguns segundos, e os impulsos eletrônicos percorreram as instalações robotizadas.
Naquele instante uma gargalhada soou nos ouvidos de Rhodan. Uma voz disse em tom galhofeiro:
— Olá, amigo velho! Chegou a hora de experimentar a nova arma. Vai ser muito divertido...
Rhodan não pensava assim. Estreitou os olhos e mordeu os lábios.
— Transmissor um — disparar! — gritou no microfone.
Naquele instante a Stardust-III transformou-se na mais perigosa e mortal de todas as naves que já percorreram o Universo.


6



Topthor não acreditava no que estava vendo.
Poucos minutos antes ordenara uma pausa de descanso, pois contava com uma permanência mais prolongada de Rhodan sobre o planeta que, segundo tudo indicava, era invisível. Assim que a gigantesca esfera voltasse a ingressar no espaço, ele a destruiria num ataque fulminante. Depois disso não seria difícil descobrir o planeta da vida eterna.
E agora a Stardust-III surgiu do nada bem diante do seu nariz, apenas dez minutos depois de ter desaparecido.
Despertou imediatamente. Com uma pancada de seu enorme punho baixou a chave que colocava em funcionamento a comunicação audiovisual com as outras naves.
— Alarma! Rhodan está de volta! Vamos atacá-lo e destruí-lo. Deixem a determinação das coordenadas do ponto de emersão por minha conta.
Grogham estava a postos. Em palavras de comando ligeiras e entrecortadas ordenou e dirigiu o ataque. Mandou que cinco das naves avançassem, enquanto ele mesmo, com a nave de Topthor e mais uma, permanecia na posição atual. Isso salvaria sua vida e a do chefe do clã.
As cinco naves espalharam-se e formaram um anel bem amplo, em cujo centro a Stardust-III os aguardava, sem esboçar qualquer defesa.
— Lançar torpedos! — berrou Grogham no seu aparelho de comunicação. Os comandantes dos cinco couraçados, que tantas vezes haviam corrido em auxílio de outros clãs dos mercadores, receberam a ordem e agiram de acordo com a mesma.
Cinco pesados torpedos com cargas de fusão nuclear saíram das escotilhas e correram em velocidade cada vez maior na direção da Stardust-III.
Tensos, Topthor e Grogham acompanhavam o espetáculo. Estavam curiosos para ver o que aconteceria. Naturalmente contavam com a presença dum poderoso campo de defesa dos terranos, mas esperavam que o mesmo não resistiria à descarga energética de cinco bombas atômicas superpesadas.
Naquele instante verificaram-se cinco explosões em torno da Stardust-III, apagando por um instante a luminosidade débil das estrelas distantes. Topthor fechou os olhos e esperou que a luminosidade diminuísse. Não conseguiu desvencilhar-se de certo sentimento de orgulho. Talvez tivesse conseguido aquilo que Etztak e Orlgans tentaram em vão — destruir Rhodan. Mas a recompensa de seus esforços não seria apenas esta. Ainda teria encontrado o mundo da vida eterna — ou quase o teria encontrado.
Lentamente foi abrindo os olhos.
A gigantesca esfera continuava a flutuar, intacta, em meio às cinco naves de guerra do clã dos superpesados, comandado por Topthor. Teve a impressão de que o metal arcônida emitia um brilho traiçoeiro e desafiador. Fora de si de raiva, berrou:
— Dois torpedos! Cada nave disparará dois torpedos simultaneamente.
Também este ataque foi dirigido por Grogham. Perdera parte da autoconfiança, pois imaginava que talvez desta vez tinham encontrado um inimigo à altura — e não apenas um inimigo, mas também um mestre.
O campo energético da nave de Rhodan também resistiu a essas dez explosões e à descarga energética provocada pelas mesmas. Era bem verdade que os geradores foram solicitados até o limite de sua capacidade. Se os mercadores tivessem a idéia de lançar três torpedos ao mesmo tempo, a Stardust-III estaria perdida.
— Transmissor número um — prepare-se para entrar em ação.
— Preparado! — soou a voz tranqüila e objetiva.
O posto de combate aguardava.
Os homens confiavam na nova arma — e, mais do que isso, em Rhodan.
— Desistiram dos torpedos, constatou Rhodan. Tentavam alcançar o objetivo com feixes de raios concentrados. Era uma arma nada desprezível. Mas o campo energético da Stardust-III resistiu sem problemas.
Teve tempo para dedicar sua atenção a Bell, que entrara correndo na sala de comando, com os cabelos em pé.
— Dormiu bem? — perguntou Rhodan em tom gentil.
Bell enfureceu-se sem o menor motivo.
— Dormi o quê! Enquanto você se divertia com esses pepinos saltadores, eu...
— Eu me diverti com quê? — indagou Rhodan.
— Esses pepinos. Não pertencem aos saltadores ou mercadores? Pois então! Tenho o direito de dar-lhes o nome que melhor me aprouver.
— Por que está tão irritado? Será que uma pulga...
— Pulga o quê! — disse Bell indignado, e contemplou interessado o quadro que se esboçava na tela, onde os raios térmicos disparados pelas cinco naves inimigas eram repelidos pelo campo energético e retornavam ao espaço. — Se voltar a me encontrar com esse imortal, vou... bem, em parte a culpa é minha.
Preocupado, Rhodan sacudiu a cabeça.
— Receio que o último salto temporal não lhe tenha feito muito bem, mesmo que você não tenha percebido nada. Ou será que bateu com a cabeça em algum lugar?
— Não bati em lugar algum! — gritou Bell furioso, batendo com o pé. A cabelaça ruiva tremia de raiva. — Esse imortal...
— O que há de errado comigo? — perguntou uma voz vinda do teto. Rhodan e Bell olharam para cima e endureceram. Bem acima de suas cabeças flutuava uma bola de dez centímetros de diâmetro, que luzia em todas as cores e emitia uma luminosidade branca. — Minhas intenções foram as melhores possíveis, caro Bell. Afinal, a ingratidão é a paga do mundo, segundo se costuma dizer entre os senhores. Rhodan, não desperdice seu tempo com esse moço imaturo. O inimigo está planejando um ataque concentrado com bombas gravitacionais. A Stardust-III será arremessada para a quinta dimensão...
A esfera apagou-se.
Enquanto Bell contemplava perplexo o lugar em que estivera a esfera, Rhodan se transformou numa máquina de combate que funcionava com extrema precisão. Seus escrúpulos desvaneceram-se.
Bombas gravitacionais! Era a mais terrível das armas até então produzidas. Ele mesmo só se atrevera uma única vez a empregá-la. E agora pretendiam destruí-lo com ela.
— Posto de combate. Transmissor número um. Fogo!
As coordenadas eram corretas. Corretíssimas! Uma das cinco naves inchou de um instante para outro, como se uma bomba nuclear estivesse detonando em seu interior — o que realmente estava acontecendo. Um sol formou-se. Quando a nuvem incandescente acabou de espalhar-se pelos quatro cantos, não havia mais vestígio da nave.
O transmissor fictício não tivera a menor dificuldade em transportar a bomba através do campo energético do inimigo e detoná-la no alvo.
Não havia qualquer defesa contra essa arma.
Rhodan venceu os escrúpulos morais.
Sabia que era uma luta de vida e morte. Com esses saltadores não se brincava. E não tinha a menor idéia de que estava lidando com um clã todo especial.
— Transmissor número dois — fogo!
A segunda nave foi destruída com a mesma rapidez da primeira.
— Que coisa horrível! — gemeu Bell. — Que arma é esta?
Rhodan mordeu os lábios e, falando entre os dentes, disse:
— Transmissor número um — fogo!
Depois:
— Transmissor número dois — fogo!
A última das cinco naves que participavam do ataque resolveu recorrer a uma ação desesperada. Acelerando ao máximo, procurou abalroar a Stardust-III de frente. Rhodan conseguiu destruí-la instantes antes da colisão.
O sopro incandescente da explosão roçou o campo energético da Stardust-III. Topthor, que acompanhou os acontecimentos com os olhos arregalados, começou a desconfiar de que algo de inacreditável se passara. Nos dez minutos passados no planeta da vida eterna Rhodan devia ter conseguido a terrível arma. Embora parecesse impossível, devia ser verdade. Não havia outra explicação para a destruição das cinco naves num espaço de menos de dois minutos. Com armas convencionais Rhodan nunca conseguiria realizar uma façanha dessas.
E percebeu mais uma coisa. Rhodan não pensava em atacar quem quer que fosse, muito menos em destruí-lo. Por isso as três naves que restavam não corriam perigo.
— Grogham! Prepare a transição! Pouco importa para onde! Vamos dar um salto de duzentos anos-luz. Uma vez chegados lá, trataremos de orientar-nos. Enquanto isso transmitirei uma mensagem para Etztak.
Rhodan cometeu um pequeno engano.
Não se interessou pelos inimigos que ainda restavam. Acelerou a Stardust-III e precipitou-se vertiginosamente espaço afora, deixando para trás Topthor com as três naves.
— E aquelas ali? — perguntou Bell espantado. — Não vai...
— Destruí-las? Por quê? Não representam qualquer perigo para nós. A esta hora nossa tarefa mais urgente consiste em ajudar Tiff. Não se esqueça de que está num planeta de gelo, que pode transformar-se num inferno de chamas no momento em que Etztak perder a paciência e descobrir o jogo que estão fazendo com ele. Daqui a oito minutos passaremos à transição. Materializaremos no sistema de Beta-Albíreo.
Bell respondeu com um aceno da cabeça, para logo sacudir esta violentamente.
Espere aí! Não podemos levá-la.
— Levar quem?
— Ora essa! A Rallas!
Por um instante Rhodan pensou que Bell tivesse perdido o juízo. Com a testa levemente enrugada fitou o amigo, que parecia desesperado.
— A Rallas? Não venha me dizer...
— Digo, sim. Está sentada no meu camarote e sente-se muito ofendida porque não me interesso por ela. Meu Deus, se a tripulação souber disso — especialmente o tal do Redkens! Não terei mais um minuto de sossego na minha vida.
Rhodan certificou-se de que o piloto automático robotizado estava calculando o ponto de transição e a intensidade do salto. Verificou que restavam mais de sete minutos. Deu um sorriso irônico.
— Fique tranqüilo, que não é a verdadeira Rallas.
— Qual é a diferença? Qualquer um pensará que é ela mesma — e, para dizer a verdade, realmente é. O que devo fazer com ela?
— Ignore-a. Conheço as brincadeiras do imortal; ele a fará desaparecer assim que perceber que não nos interessamos por ela. Por enquanto deixe que fique no seu camarote.
— No meu camarote? — O rosto de Bell parecia tão apavorado que Rhodan não pôde reprimir uma gostosa gargalhada. — Não posso habitar um camarote juntamente com uma dama. Não é que tenha alguma coisa contra o sexo feminino, mas na situação em que nos encontramos...
Rhodan olhou para o relógio. Faltavam seis minutos.
— No momento da transição ela desaparecerá. Tenho plena certeza. O imortal apenas está se permitindo uma brincadeira...
No corredor ouviram-se passos. Ninguém poderia deixar de ouvir as vozes. Alguém estava rindo.
Bell empalideceu de repente. Por um instante lançou um olhar de espanto para Rhodan. Depois, com um gesto decidido, empurrou a porta para o lado.
A Rallas estava no corredor, distribuindo autógrafos. Alguns dos telegrafistas, e também Redkens, do setor de pilotagem, comprimiam-se em torno da estrela de cinema, falando insistentemente à mesma. Especialmente Redkens fez questão de saber se a “divina Rallas” passara todo esse tempo no camarote de Bell.
Para Bell a brincadeira já estava passando da conta.
Fungando de raiva, saltou em meio aos entusiásticos caçadores de autógrafos. Abrindo caminho com os punhos, parou com as pernas afastadas e os cabelos arrepiados diante da Rallas, que lhe lançou um olhar enlevado. Seus olhos brilhavam na maior inocência deste mundo.
— Que idéia é essa? — chiou Bell furioso. — Como se atreve a prejudicar minha boa fama? Essa gente só pode pensar que eu a contrabandeei para dentro da nave, a fim de... de...
— A fim de quê? — indagou a estrela de cinema, cheia de curiosidade.
Bell recorreu à grosseria para disfarçar o embaraço.
— Sabe muito bem! — berrou, pisando no pé de Redkens, que se aproximara de mais. — Só podem pensar isso!
— E não foi isso mesmo? — disse Rallas num sopro e enrubesceu. — Não venha me dizer que não passamos horas felizes juntos.
A cor do rosto de Bell transformou-se numa raridade anatômica. Rhodan não se recordava de jamais ter visto um rosto tão vermelho. Nem os outros. Recuaram instintivamente, como se receassem que Bell pudesse estourar.
— Pas... passamos? — gaguejou Bell e não soube mais o que dizer. Perdeu todo o autodomínio. Com o rosto desfigurado de raiva entesou o corpo, suas mãos precipitaram-se para a frente e os dedos apertaram o pescoço da beleza de Hollywood. — Eu a mato! Você quer minar a moral da tripulação...
Calou-se, perplexo. Com os olhos muito arregalados, estava fitando seu próprio rosto, que o cumprimentava com um sorriso familiar. Exclamações de espanto soaram de todos os lados. Alguém que se encontrava num ponto mais afastado soltou um grito de pavor.
Bell estava prestes a estrangular seu sósia. A Rallas havia desaparecido; um segundo Bell encontrava-se no lugar antes ocupado por ela. Dois Bells fitavam-se. O verdadeiro estava rubro de raiva, disposto a matar o outro. E o falso exibia o sorriso indiferente que todos estavam acostumados a ver em Bell.
Rhodan teve de esforçar-se para reprimir o riso. Faltavam três minutos para a transição.
— A esta hora você já deve ter compreendido que o imortal apenas estava brincando com você — e os outros também estão convencidos disso. Você está reabilitado, Bell. Sua boa fama foi restaurada. Solte seu sósia, que ele não tem culpa de nada.
Bell soltou o pescoço de sua vítima e recuou um passo. Aos poucos a cor de seu rosto foi voltando ao normal.
— Será possível? — perguntou, e em sua voz soava um medo instintivo do desconhecido. — Aquele ali... sou eu! Ou não sou?
— É uma imitação, tal qual a Rallas ou nosso grande amigo Homunk. Poderia ser perfeitamente eu que me defrontasse com você. Vamos deixar de lado as brincadeiras do imortal, pois temos coisa mais importante a fazer. Bell, ajude-me a conferir os dados para a transição. Os outros voltarão a seus postos. Inclusive o senhor, Redkens! Fique com o autógrafo da Rallas; pode arriscar qualquer aposta de que é autêntico.
Os olhos do cadete foram desfilando entre a fotografia com a assinatura e o rosto largo e risonho do falso Bell. Ao que tudo indicava, Redkens não conseguia dedicar a esse rosto o mesmo amor e veneração que lhe merecera o da Rallas. Sua decepção era tão evidente que Bell, que já se encontrava na entrada da sala de comando, lhe disse em tom furioso:
— Dê o fora, Redkens! Afinal, o senhor não vai querer que eu seja tão bonito como a Rallas.
Desesperado, Redkens foi seguindo os telegrafistas que se afastavam apressadamente.
O falso Bell transformou-se numa luminosa esfera branca, que desapareceu com uma risada de escárnio.
— Tomara que tenha desaparecido para sempre! — exclamou Bell e fechou a porta. — Gostaria de estar a algumas centenas de anos-luz daqui.
— Será que você já não suporta uma simples brincadeira? — disse Rhodan admirado. — Pois você desafiou o imortal.
Bell olhou para os instrumentos.
— Ainda faltam sessenta segundos. As coordenadas estão certas. Tudo correto. — Atirou-se na poltrona e reclinou-se na mesma. Quando continuou a falar, fechou os olhos. — Dentro de dois minutos estaremos a mais de 1.750 anos-luz daqui. Calou-se — e Rhodan sentiu-se grato.
Foi agora, exatamente nesse segundo, que iniciou a viagem em companhia do imortal. Sentiu que uma vaga de não-compreensão passava por cima dele e envolvia seu ser. Por um instante teve a impressão de que caía num abismo sem fim. Caía sem o menor apoio. Mantinha os olhos bem abertos, mas estes não viam nada. Apenas descortinavam o negrume da escuridão com uma mancha minúscula e disforme bem à frente.
Era a Via Láctea!
Precipitava-se em direção à mesma, e isso numa velocidade inconcebível.
Mas tudo isso só durou um segundo; depois a visão desapareceu para ceder lugar à realidade. Viu novamente diante de si as telas de controle da Stardust-III, os instrumentos e as escalas, as inúmeras chaves, ponteiros e botões.
Reclinado na poltrona, sentiu a vibração dos propulsores. Era uma realidade inconfundível. O segundo que se passara... bem, o que era mesmo aquilo? Com uma sensação de pavor, Rhodan se deu conta de que a vivera duas vezes — ou melhor, três vezes.
A primeira vez no planeta Peregrino, a. criação incompreensível dum ser ainda mais incompreensível.
Outra vez no infinito, onde esse segundo se transformou em duas entidades distintas: uma realidade de dez semanas e uma visão de trezentos mil anos.
E por fim agora, num segundo perfeitamente normal.
Qual seria o segundo genuíno, o segundo real? E o que seria um segundo, se o mesmo já não tinha qualquer validade?
— Faltam trinta segundos — disse o contador robotizado com sua voz metálica.
— Vinte e nove...
Rhodan fechou os olhos.
Faltavam vinte e nove segundos — ou vinte e nove eternidades, conforme se preferisse. Quanto tempo não estaremos desperdiçando quando tentamos dividi-lo?
Vinda do nada, surgiu a voz que quase chegara a esperar, uma voz silenciosa, mas bem perceptível:
— É uma pergunta muito inteligente, velho amigo. Imagine uma Terra em que não existissem dias e noites, estações do ano, sol e chuva. Será que o homem se daria conta de que estava envelhecendo? Não ficaria muito surpreso quando subitamente sentisse a morte aproximar-se? Saberia que o tempo existe?
— O tempo não é uma coisa perfeita mente real, como o espaço?
— Ambas as coisas são perfeitamente irreais, velho amigo. Você tem diante de si uma distância de mais de 1.750 anos-luz, uma distância inconcebível, que ainda há um decênio todos os habitantes da Terra considerariam insuperável. Você vai vencer essa distância num segundo. Seus relógios lhe mostrarão que na verdade não se passou mais que um segundo. Deixe o tempo de fora, e você reconhecerá que realmente a vitória sobre o espaço não é possível — por essa forma. Assim mesmo ele é vencido. Você tem alguma explicação?
— Existe o hiperespaço, o paraespaço. Passamos pela quinta dimensão...
— São palavras, apenas palavras. O homem as pronuncia, sem jamais compreender seu sentido. Nem mesmo seu cérebro treinado pode entendê-las. O cérebro humano tem uma predileção pela formação de conceitos abstratos. Tentarei transmitir-lhe uma concepção da realidade, mas começo a compreender que com isso apenas o deixaria mais confuso. Ainda temos muito tempo até que você me abandone.
— Não é tanto assim — pensou Rhodan e olhou para o relógio, que continuava a indicar vinte e nove segundos. Perto dele Bell estava estendido, imóvel. Tinha o rosto rígido, como o dum morto.
— Todo o tempo do mundo está concentrado nesse estado — pensou o imortal em resposta. — Olhe para o relógio: está parado. Ainda ouve o contador robotizado? Não, não o ouve, porque também para ele o tempo parou. E seu amigo Bell; sob seu ponto de vista, está morto.
— Morto?
— Isso mesmo: morto. Por mais que você o olhe, para ele só se passa a fração dum milésimo de segundo. Seu sangue está parado nas veias. A Stardust-III continua parada no mesmo lugar. O tempo não passa mais — para você.
Rhodan sentiu um assomo de pavor. Um sopro frio, que parecia vir dum túmulo, parecia atravessar a sala de comando e fê-lo estremecer. Lançou um olhar para o relógio. O ponteiro dos segundos estava parado.
Rhodan lutou com todas as forças contra a sensação de pânico, mas não conseguiu evitar que a mesma o dominasse, ao menos em parte. Sua mão tocou o corpo de Bell.
Este parecia de pedra. Não se moveu um milímetro.
— Bell, você me ouve?
— Não adianta! — disse a voz do imortal vinda do nada. — Do seu ponto de vista, Bell congelou no tempo. Vê você sentado ao seu lado, e não enxerga seus movimentos instantâneos, da mesma forma que não pode ouvir suas palavras. Lembre-se de que para ele não se passa nem um segundo, enquanto nós estamos ocupados em solucionar o problema do tempo, passando talvez várias horas no plano da atemporalidade.
— E eu? O que houve comigo? O que acontecerá se eu me levantar e andar pela nave?
— Ninguém o impedirá, velho amigo. Você sairá do seu lugar, mas na verdade apenas o abandonará por um milésimo de segundo. Seus movimentos são tão rápidos que o olho humano não consegue captá-los.
Rhodan continuou sentado.
— Não compreendo — minha inteligência recusa-se a admitir essa realidade. Não posso existir simultaneamente em dois planos diferentes.
— É claro que você pode. Quando você se encontra diante dum aparelho de telefilmagem, você também existe duas vezes ao mesmo tempo, e em dois tempos diferentes — desde que você apareça no filme que está sendo exibido.
— Isso não é a mesma coisa — objetou Rhodan.
— Será que não é? Será que não é a mesma coisa, se considerarmos que a cada segundo que se passa somos uma pessoa diferente? As células de nosso corpo renovam-se constantemente, tal qual o sangue. Logo, o homem deste segundo não pode ser o mesmo do segundo que se segue. São homens diferentes. Mas, reúna-os no mesmo segundo, o que é perfeitamente possível para quem adquiriu o domínio do tempo, e você terá frente a frente não os mesmos homens, mas dois homens iguais.
— Quer dizer que Bell estava estrangulando a si mesmo, não sua imagem?
O imortal deu uma risada.
— Por pouco não mata o Bell que existirá daqui a dez minutos. Foi dali que eu o trouxe.
Rhodan perguntou:
— E se ele o matasse, o que aconteceria?
O imortal ignorou a pergunta. Não estava disposto a responder a todas as indagações.
— Falamos sobre a influência que se pode exercer no futuro. Você viu a prova. No seu próprio interesse dar-lhe-ei mais uma prova. Mas não acredito que eu possa anular qualquer coisa que está acontecendo neste segundo. Apenas quero que esteja prevenido. Acompanhe-me para o interior da nave de Topthor.
— Quem é Topthor?
— O chefe do clã dos mercadores que localizou você. É um dos chamados superpesados. Não se assuste ao vê-lo. As três naves comandadas por ele estão próximas à transição. Neste instante está dando ordem ao seu telegrafista, para transmitir determinada mensagem. O destinatário é um certo Etztak.
— Etztak — o patriarca dos saltadores. O que vem a ser isso?
— Você sabe perfeitamente que Etztak perdeu a paciência. Quer transformar num inferno atômico o planeta em que se encontram seus inimigos. Se receber a mensagem, não hesitará mais em realizar seu intento.
Você sabe perfeitamente que estava esperando apenas porque pretendia obter informações preciosas de sua gente. Mas, quando receber a mensagem de hipercomunicação de Topthor, ficará ciente de que você o estava enganando. Saberá que as pessoas que se encontram no planeta de gelo só estão ali para distraí-lo, a fim de que você pudesse ir tranqüilamente ao planeta da vida eterna, em busca da nova arma. Topthor o informará de que você conseguiu a nova arma, e provavelmente os atacará com a mesma. Logo, Etztak estará prevenido. Os mercadores são muito unidos quando se trata de defender os interesses comuns. Não costumam sujar o prato de que comem. Etztak solicitará o auxílio da frota de guerra dos mercadores galácticos.
— Não quero a guerra — gemeu Rhodan assustado. — Mesmo que disponha de armas superiores, não a quero.
— Já não é possível evitá-la totalmente — respondeu a voz do imortal. — E não posso intrometer-me nos conflitos existentes na Galáxia, pois isso representaria uma violação das leis naturais. Mas posso fornecer certas indicações. E se eu o prevenir, apenas lhe darei uma indicação. — Deu uma risadinha irônica. — Venha comigo, Rhodan. Quero que conheça Topthor, o inimigo com que vai defrontar-se. É bom que saiba que ele não poderá vê-lo, da mesma forma que você não poderá tocar seu corpo. Você continuará sentado na Stardust-III, mas seu espírito abandonará o corpo, por uma pequenina fração de segundo.
Antes que Rhodan pudesse responder, aconteceu uma coisa muito estranha. Começou a afastar-se de si mesmo. Flutuou abaixo do teto e teve a impressão de olhar para si mesmo. Ao mesmo tempo, segundo imaginava, seu corpo retornava ao plano temporal comum; só seu espírito permanecia no plano em que o tempo parara. O Rhodan para o qual estava olhando “congelou-se”. Seu olhar rígido continuava fixado nos instrumentos.
Subitamente Rhodan, ou seu espírito, atravessou as paredes da Stardust-III. Flutuou livremente no espaço. Tentou em vão ver-se a si mesmo. Estava reduzido ao nada. Estava invisível.
A Stardust-III transformou-se numa esfera parada no espaço, que não se movia um centímetro sequer. Os homens e as máquinas que se encontravam no seu interior transformaram-se num retrato realista, que reproduzia apenas um milésimo de segundo de vida.
A Stardust-III foi diminuindo rapidamente, até que Rhodan não a viu mais.
— Talvez a esta hora você já compreenda por que minha raça renunciou ao corpo, quando se viu diante da possibilidade de espiritualizar-se. O corpo é um simples instrumento. É vulnerável e por isso mesmo é mortal.
— Bem que eu sentiria falta do meu corpo — respondeu Rhodan em pensamento.
— Acontece que você é apenas um humano, velho amigo. Acontece que eu sou minha raça. É uma diferença enorme. Dentro de mim também vivem aqueles que se opunham à espiritualização. Talvez seja por isso que tenho uma tendência de fazer minha aparição sob esta ou aquela forma. Chegamos. Esta é a nave de Topthor.
O “pepino” também estava parado no espaço. Mantinha-se no mesmo plano existencial da Stardust-III. Rhodan não podia conceber que nesse meio tempo não havia acontecido absolutamente nada. Mas já compreendia uma coisa: enquanto se mantivesse por ali, naquele estado, não estaria perdendo tempo.
Quando viu Topthor, o gigante quadrado, levou um susto, muito embora o imortal o tivesse prevenido. A altura do monstro era igual à largura. Topthor segurava um papel nas mãos superdimensionadas. Naquele instante estava passando o papel a outro superpesado, que não ficava atrás dele em peso e tamanho.
— A notícia é esta, amigo velho. Leia.
Rhodan aproximou-se dos dois superpesados. Poderia tocá-los, se tivesse mãos. Uma pergunta passou por seu cérebro: como podia ler, se não tinha olhos?
De qualquer maneira, via perfeitamente o bilhete e as palavras escritas no mesmo. O texto estava redigido em intercosmo, a língua usual no Império arcônida.
O bilhete dizia o seguinte:

Para Etztak, patriarca do clã de Etztak. Perry Rhodan, o terrano, conseguiu uma nova arma. Conseguiu destruir cinco das minhas naves. Não há qualquer defesa. Etztak, eu o previno. Garanta o nosso auxílio. Rhodan vai atacá-lo e destruí-lo. Só um golpe de surpresa poderá eliminá-lo. Chamarei duma nova posição e aguardo sua oferta. Topthor Clã dos superpesados.

Rhodan leu a mensagem duas vezes e teve certeza de que não esqueceria o texto. Tudo dependeria da rapidez das reações de Etztak. Provavelmente não seriam suficientemente rápidas. A Stardust-III alcançaria o sistema de Beta-Albíreo num único salto. Era bem verdade que o mesmo acontecia com as naves de Topthor. Mas vários dias poderiam passar-se antes que os superpesados interviessem nos combates. Etztak era um homem obstinado, que regatearia o preço do auxílio.
Era esta a única chance de Rhodan.
Recuou alguns passos e lançou um olhar detido para Topthor. O rosto parecia dum homem ou dum arcônida. Ou então — Rhodan estremeceu com a idéia — seria dum barcônida. Sem dúvida havia algumas alterações. Provavelmente a raça dos superpesados vivera por muito tempo num planeta de gravitação extremamente elevada e por isso sofrera uma deformação. Mas os traços da ascendência eram inconfundíveis.
A comunidade galáctica. Um sorriso amargo surgiu no rosto de Rhodan. Ainda bem que os barcônidas não sabiam o que era feito de seu Império. E muito tempo se passaria até que sua longa viagem os levasse às extremidades da Via Láctea. Muita coisa poderia mudar até lá...
— Vamos voltar — insistiu a voz do imortal. — Você já viu a mensagem que seu inimigo irá receber. Tome suas providências. Quando voltar ao plano existencial da Stardust-III, não terá muito tempo. Mas você conseguirá.
Pelas concepções de Rhodan o vôo incorpóreo pelo espaço durou poucos segundos. Logo o vulto familiar da Stardust-III voltou a surgir diante de seus olhos. Sem o menor esforço passou pelo campo energético e pelas paredes da nave, para reencontrar-se na sala de comando, ao lado de Bell, imóvel e inalterado.
— Obrigado, amigo velho. Quando voltaremos a encontrar-nos?
Uma risada silenciosa atravessou seu cérebro.
— A linguagem dum ser atemporal não conhece a palavrinha quando. Mas asseguro-lhe que voltaremos a encontrar-nos. Até lá, passe bem e cuide da herança que lhe foi confiada.
Rhodan sentiu que alguma coisa se afastava dele. No mesmo instante retornou ao seu corpo.
Abriu os olhos. O contador robotizado estava dizendo:
— ...vinte e oito...
Mantivera os olhos fechados por um segundo. Quanta coisa não acontecera nesse segundo? Muita coisa! Sabia que nesse preciso momento um certo Topthor enviaria pelo hiperespaço uma mensagem dirigida a Etztak. Conhecia o teor da mensagem. E começou a imaginar como se formavam certos acontecimentos que os homens ingenuamente designavam pelo nome de destino.
— ...vinte...
Oito segundos se tinham passado. Oito eternidades!
— ...dezoito...
Nunca Rhodan pensara tanto antes duma transição como desta vez. Nunca o tempo lhe parecera tão longo. E nunca Bell se mantivera tão calado.
— Anime-se! — disse Rhodan ao amigo. — Dentro de poucos segundos materializaremos, talvez em meio às naves de Etztak. Cairão sobre nós que nem uma matilha de lobos, para escapar à destruição pela nova arma. Devemos estar preparados para...
— A nova arma? — resmungou Bell irritado. — Você devia voltar a pensar logicamente. Como é que Etztak vai saber que possuímos uma nova arma?
Rhodan esboçou um sorriso condescendente.
— Você tem razão. Como poderia saber? Quase chego a acreditar que estou ficando velho. Até mesmo um homem relativamente imortal pode envelhecer. Vejo isso em você.
— Nove! — disse o robô em tom decidido.
— Em mim? Por quê? — perguntou Bell apressadamente.
— Não se esqueça da Rallas. Se você fosse mais jovem, não se teria irritado com sua presença, mesmo que fosse uma imitação.
— ...quatro...
— Não me irritei por causa da mulher, mas por causa do pessoal de bordo. A disciplina exige...
— Tolice! — disse Rhodan.
Bell ficou calado.
— ...um... — disse o robô de contagem.
E depois:
— Transição!
A Stardust-III saiu do Universo para penetrar na quinta dimensão. Naquele instante o tempo parou para a nave e para aqueles que se encontravam em seu interior. E parou também no resto do Universo, pois mesmo na Terra distante não se passou mais que um segundo enquanto a Stardust-III executava um salto que a transportaria por uma distância que a luz só conseguia vencer em 1.750 anos. Era bem verdade que isso produzia um envelhecimento que também não ultrapassava um segundo.
Mas no subconsciente de Rhodan havia uma pergunta — uma pergunta que alguém formulara durante o salto.
Que pergunta seria esta?
Ah, era a seguinte: Você já compreendeu?
Devia ter sido a voz do imortal.
Você já compreendeu?
Rhodan sacudiu a cabeça e disse em voz alta:
— Não, não compreendi, amigo velho. Afinal, só sou um humano, e como poderia um humano compreender a estrutura da eternidade? Mas agradeço-lhe por me ter proporcionado uma excursão durante a qual consegui imaginar como se criam e conservam os universos.
A escuridão da sala e o sol chamejante não deram qualquer resposta. Apenas Bell murmurou de forma quase imperceptível:
— Isso também deve acontecer com você. Quando despertamos nossa fantasia começa a trabalhar. É a única vantagem da transição. Devíamos fazer alguma coisa contra isso. Já chegamos?
Rhodan contemplou as estrelas cintilantes.
— Já — respondeu com o espírito ausente. — Realmente, devíamos fazer alguma coisa contra isso. Sim, chegamos.
De repente teve a impressão de que alguém ria nas profundezas de sua alma. Não foi uma risada zombeteira ou irônica, mas uma risada gentil e alegre.
A risada de alguém que esteve só por muito tempo, e de uma hora para outra percebe que não está mais.



* * *
* *
*






Ao contar seu Vôo Para o Infinito, Perry Rhodan oferece uma visão emocionante do passado e do futuro mais longínquo — e obteve dois transmissores fictícios.
Esses transmissores fictícios são armas muito perigosas. Já foram utilizadas e voltarão a sê-lo, porque Etztak, patriarca dos saltadores, condenou um mundo à morte.
Mundo de Gelo em Chamas, o novo e fascinante volume da série Perry Rhodan, lhe dirá tudo a este respeito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html