Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
Denize
Revisão
Gandalf01
A Terceira Potência, chefiada por Perry Rhodan — uma feliz aliança
da supertécnica arcônida com o espírito de iniciativa do homem — pode
apresentar, nos seus anos de existência, uma história muito movimentada, cheia
de dramáticos altos e baixos.
Mas os acontecimentos mais recentes dão a impressão que, ao se
encontrar com os saltadores, os mercadores galácticos, Perry Rhodan passou a se
defrontar com um poder que tem a intenção e a capacidade de destruir a Terra
para eliminar um possível concorrente no comércio interestelar. Há oito mil
anos, os saltadores detêm o monopólio do comércio galático, isso porque sempre
reprimiram no nascedouro qualquer concorrência que se esboçasse.
O pensamento exclusivamente mercantilista — que os saltadores
foram formando no curso dos milênios — representa a única chance para a
Humanidade. Isso porque Perry Rhodan só terá possibilidade de manter os saltadores
afastados da Terra se esses mercadores galácticos, sempre ciosos de sua
vantagem e que descobriram a Terra em virtude da atividade infame do
Supercrânio, deixarem de informar outras estirpes de mercadores para incluí-las
no “negócio”.
= = = = = =
= Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Representante de Perry Rhodan e
seu melhor amigo.
Julian Tifflor, Klaus Eberhardt e Humpry Hifield — Três cadetes da Academia Espacial da Terceira Potência.
Gucky — O oficial
mais estranho do Exército de Mutantes.
Orlgans — Um
comandante dos salta-dores que revela grande habilidade nos negócios.
Etztak — Patriarca
e chefe guerreiro do clã dos Orlgans.
RB.013 — Um robô
de combate arcônida que passou a atender pelo nome de Moisés.
1
As três
naves flutuavam no espaço a oito horas-luz do centro de gravidade do sistema de
Beta-Albíreo.
Eram três
gigantescas naves de forma esférica: a Terra e a Solar System, cada uma com
duzentos metros de diâmetro, e a Stardust-III, com oitocentos metros.
As três
unidades da frota espacial terrestre se encontravam sob o comando de Perry
Rhodan. Para ser mais exato, estas eram as únicas unidades de grande porte da
frota espacial terrestre.
A situação
estava ficando crítica. O espaço estremecia, e os sensores estruturais
registravam uma transição após a outra. Isso já durava meia hora.
A transição
— a viagem através do hiperespaço — produzia um abalo na estrutura
espaço-temporal que os sensíveis instrumentos instalados na nave captavam a
grande distância.
Mas nesse
caso as distâncias não eram muito grandes. Os veículos espaciais que emergiam
da transição com velocidade reduzida se encontravam a distâncias que variavam
de sete a vinte e uma horas-luz.
Não havia o
menor perigo de que as naves terrestres fossem localizadas. Os instrumentos
usuais de localização só executavam um trabalho exato até a distância de duas
horas-luz. Todavia, era perfeitamente possível que uma das naves estranhas
fosse ter nessa área do espaço e, por alguma coincidência, se defrontasse com o
inimigo.
Na sala de
comando da Stardust-III estava toda a tripulação de combate. O próprio Perry
Rhodan ocupava o assento do piloto. Reginald Bell prestava-lhe auxílio na
qualidade de co-piloto e oficial de armas. Os aparelhos de radiotransmissão
mais importantes contavam com o dobro da guarnição normal.
O ar parecia
tremer de tamanha tensão.
Um dos
oficiais mais jovens procurava apurar o número das transições com a maior
exatidão possível. Rhodan precisava saber com quantos inimigos se defrontaria
caso se visse na contingência de lutar.
— Setenta e
oito — disse o jovem oficial. — No momento está havendo uma pausa.
Bell
virou-se para o lado.
— Não estou
gostando disso — resmungou bastante baixo para que só pudesse ser ouvido por
Rhodan.
Rhodan deu
de ombros.
— Afinal,
não nos perguntaram — respondeu. — Aliás, por enquanto estamos fora de qualquer
perigo. Não é provável que alguma das naves se perca e venha dar neste setor do
espaço.
A pausa
durou bastante. Rhodan já estava acreditando que as setenta e oito naves
reunidas pelo inimigo eram todas as unidades destacadas para a luta no setor de
Beta-Albíreo. Mas os abalos recomeçaram.
Desta vez
vieram de outra direção, e a distância média das naves que saíam da transição
era de trinta e oito horas-luz.
Não havia a
menor dúvida de que se tratava de outro grupo de naves inimigas, que talvez não
tivesse nenhuma ligação com o primeiro.
O jovem
oficial contou noventa transições. Ao todo as três naves terrestres tinham
diante de si cento e sessenta e oito unidades inimigas.
Rhodan riu
baixinho:
— Essa gente
não deixa por menos — disse. — É quase o sêxtuplo das naves que apareceram no
primeiro combate.
O rosto de
Bell se contorceu num sorriso largo.
— Essa gente
nos respeita — afirmou.
Rhodan não respondeu.
Por algum tempo olhou para a frente sem dizer nada. Finalmente virou-se de um
golpe e fitou os olhos de Bell.
— Bell, você
tem de sair! — disse em tom enérgico.
Bell não
parecia se surpreender com essas palavras. Acenou tranqüilamente com a cabeça.
— Era o que
eu imaginava — respondeu. — É por causa de Tifflor, não é?
Sorriu.
— Você não
poderia ter encontrado um elemento melhor que eu — afirmou com um orgulho
evidentemente fingido.
— Por causa
de Tifflor e por causa da concentração de forças inimigas — completou Rhodan. —
Precisamos de informações colhidas nas proximidades do inimigo. Precisamos
conhecer as intenções dos saltadores.
— Está bem.
Como vamos fazer isso?
O plano de
Rhodan estava pronto. Este respondeu prontamente:
— Você irá
na Good Hope-VI com o tenente Everson. Daqui, a Good Hope-VI salta diretamente
para o objetivo. Assim que terminar a transição, você sai da nave num
destróier. O depósito do robô do destróier está recheado com tudo aquilo de que
Tifflor e seus companheiros precisam.
Gucky irá
com você...
— Gucky? —
gemeu Bell.
— ...ele se
teleportará com a carga para a superfície do planeta. Vamos recomendar a Gucky
que execute em trinta segundos no máximo a ação, que vai do momento em que
abandonarem a Good Hope-VI até o instante em que ele se teleportar. Depois
disso, você não terá mais nada a fazer senão voltar pelo caminho mais curto.
— No destróier?
— retrucou Bell.
— Isso
mesmo. Everson saltará de volta com a Good Hope-VI no mesmo instante em que
você for expelido da nave. Não podemos arriscar mais um girino.
— Até parece
— disse Bell esticando as palavras e esboçando um sorriso ligeiro e tristonho —
que você quer se livrar de mim.
Acho que não
há outro meio, não é mesmo?
Rhodan deu
de ombros.
— Há meia
hora estou quebrando a cabeça, mas não encontrei solução melhor
que esta.
* * *
— Há muito
movimento — disse Moisés.
A voz
parecia preocupada. Evidentemente, não estava. Moisés, cujo nome oficial era
RB.013, não tinha a capacidade de sentir preocupação ou qualquer outra emoção.
Moisés era um robô de combate de fabricação arcônida, que só recebera seu
apelido há poucas horas da contagem de tempo terrestre.
O apelido
lhe fora dado por três cadetes e duas estudantes da Academia Espacial. Não
fazia muito tempo que chegara com os mesmos a este mundo, viajando num
destróier que fora totalmente destruído durante o pouso. Encontravam-se num
mundo que descrevia uma órbita excêntrica em torno dos dois sóis de
Beta-Albíreo. Naquele momento esse mundo distava mais de sete unidades
astronômicas do centro do sistema, de onde provinha a luz. Por isso, sua
superfície estava transformada num imenso tapete de gelo e neve e a temperatura
diurna média era de cento e dez graus negativos da escala centígrada.
Os três
cadetes eram Julian Tifflor, Klaus Eberhardt e Humpry Hifield; as duas moças
chamavam-se Mildred Orson e Felicitas Kergonen. A bordo de um destróier,
abandonaram a nave auxiliar Good Hope-IX, que estava prestes a ser derrotada
pelo inimigo. Ainda assim, o destróier foi alvejado e ficou com a capacidade de
manobra sensivelmente reduzida, o que os obrigou a se dirigirem a esse mundo de
gelo, o único que se encontrava suficientemente próximo para que pudessem
arriscar o pouso.
O destróier
ficou totalmente inutilizado depois do pouso. Mas seus cinco ocupantes e
Moisés, o robô, nada haviam sofrido. Marcharam algumas centenas de quilômetros,
à procura de zonas mais quentes, e capturaram uma nave-patrulha do inimigo, com
seus dois tripulantes.
Enquanto o
inimigo só dispunha de uma nave, a Orla XI, a situação não oferecia maiores
perigos. O grupo de Tifflor, vulgo Tiff, dispunha de mantimentos para dois
anos. A caverna na qual haviam se abrigado oferecia proteção contra o frio
mortal do planeta, e a nave-patrulha aprisionada fora escondida, numa grota
próxima, de tal maneira que só poderia ser descoberta por alguém que desse com
o nariz em cima da mesma.
Mas a
situação parecia modificada. O equipamento de observação de Moisés registrou os
movimentos de uma série de naves. Como esse equipamento tivesse um alcance
bastante limitado, isso significava que as naves estavam bem próximas. Não
havia a menor dúvida de que estavam interessadas naquele mundo.
E estavam interessadas
nele porque, entre aqueles cinco, havia uma pessoa à qual atribuíam uma importância
extraordinária.
Tiff, ao
qual coubera o comando do pequeno grupo, naturalmente por ser o mais
competente, viu-se diante de uma decisão bem difícil. A caverna em que se
encontravam ficava tão próxima ao lugar em que haviam escondido a nave-patrulha
que a operação de busca do inimigo não deixava de representar um perigo para
eles.
Mas, se
saíssem naquela hora, exporiam a imensa massa metálica de Moisés aos
instrumentos de observação do inimigo.
Tiff achou
que o maior perigo seria este e decidiu:
— Por
enquanto vamos ficar aqui.
Ninguém
formulou qualquer objeção, nem mesmo Humpry Hifield, que em outras ocasiões não
perdia nenhuma oportunidade de brigar com Tiff.
* * *
— Pronto
para a ejeção! — berrou o tenente Everson.
A resposta
foi muito mais tranqüila.
— Pronto! Dê
o fora!
Everson
comprimiu a chave. As escotilhas da comporta que fechava o grande hangar das
naves auxiliares abriram-se à velocidade máxima. A nave auxiliar Good Hope-VI
saiu, desenvolvendo pouca velocidade. Nas telas óticas via-se o negro do espaço
semeado de estrelas.
Everson se
inclinou em direção ao microfone do intercomunicador.
— Já estamos
do lado de fora — disse.
— Saltarei
daqui a dois minutos.
A voz de
Reginald Bell parecia indiferente.
— Está bem.
Dê um bom salto, tenente.
Bell já
ocupava seu lugar. Encontrava-se no assento de piloto do pequeno destróier que
a Good Hope-VI levava em um dos hangares.
Dali a dois
minutos, a Good Hope-VI realizaria a transição e, no mesmo instante, surgiria
na área que pretendia atingir, visto que o salto pelo hiperespaço era realizado
sem perda apreciável de tempo. Ainda no mesmo instante, a Z-13 sairia do
hangar, e, no máximo trinta segundos depois, a primeira parte da perigosa
missão estaria concluída.
O segundo
assento do destróier de três lugares estava ocupado por Gucky.
Bell
reconhecia que ainda não se acostumara a Gucky, embora já fossem companheiros
há algum tempo; ou melhor, há muitos anos, desde que se quisesse calcular o
tempo segundo as concepções terrestres, incluindo-se os anos em que a
tripulação da supernave de Rhodan perdera por completo esta noção; isto
ocorrera durante as viagens espaciais em busca do planeta da vida eterna.
Mas Gucky
não era um tipo com que a gente se acostumava facilmente.
Parecia o
produto de um cruzamento entre um castor e um rato. Seu corpo, coberto de pêlos
ruivos, tinha cerca de um metro de comprimento. Na parte traseira, era grosso
como um castor, enquanto a cabeça ostentava um par de orelhas de rato. Apesar
do seu aspecto exterior, Gucky pertencia à classe dos seres dotados de
inteligência. Falava o inglês, embora chiasse um pouco. Além disso, possuía
espantosos dons parapsicológicos, como os da telecinésia, da teleportação e da
telepatia.
— Você está
em contato com Tiff? —perguntou Bell.
Gucky acenou
com a cabeça, num gesto perfeitamente humano.
— Sim,
mantenho contato permanente — respondeu.
O cadete
Tifflor trazia no corpo, sem que o soubesse, um transmissor celular de elevada
potência, que o transformava numa espécie de farol telepático. Um telepata capacitado
como Gucky conseguia localizar Tiff com segurança a uma distância de dois
anos-luz.
Bell esteve
a ponto de perguntar mais alguma coisa, mas não teve tempo. A voz potente do
tenente Everson soou no alto-falante:
— Atenção,
transição! Dez... nove...oito...
Bell se
encolheu e agarrou firmemente as chaves de comando presas ao painel de
instrumentos.
Uma vez
concluída a transição, a comporta se abriria automaticamente.
— ...quatro...
três... dois... um... vamos!
Sentiu a
estranha dor da desmaterialização, que parecia contorcer as juntas; mas dessa
vez passou tão depressa que o cérebro mal teve tempo de reagir.
Quando Bell
voltou a abrir os olhos, a Z-13 já se encontrava no espaço. A Good Hope-VI
ficara bem para trás.
Com um
movimento reflexivo da mão, a chave fora empurrada em tempo. A Z-13 acelerava
ao máximo. Na tela via-se crescer o globo pálido-cinzento do mundo de gelo em
que o cadete Tifflor pousara com seu grupo.
Gucky não
parecia se interessar por aquilo. Estava reclinado na poltrona em atitude aparentemente
apática. Os olhos, geralmente grandes e ingênuos, estavam reduzidos a faixas
estreitas.
O
rato-castor iniciara a operação de goniometria. Trinta segundos era um espaço
de tempo muito reduzido para terminar tudo aquilo.
Não ouviu o
grito furioso de Reginald Bell:
— Meu Deus,
o céu está cheio de saltadores!
Em torno da
mancha redonda do planeta gelado, flutuava uma nuvem estreita de pontos
luminosos.
Eram naves.
Uma frota de naves inimigas.
Bell sabia
que havia apenas dois fatores que poderiam favorecê-lo: a surpresa que o
surgimento repentino do pequeno veículo espacial deveria causar entre os
inimigos e a agilidade da Z-13, muito superior à das grandes naves inimigas.
— Estou pronto
— chiou Gucky. — Tudo preparado!
Reginald
Bell nem perdeu tempo em se admirar. O mundo de gelo ficava a mais de
quatrocentos mil quilômetros, uma distância maior que a que separa a Terra da
Lua.
A esfera
projetada pelo mundo estranho cresceu para além das extremidades da tela e as
manchas luminosas das naves inimigas transformaram-se em pontos escuros, que se
destacaram contra o fundo claro, foram crescendo e assumiram contornos nítidos.
— Dê o fora,
Bell! — resmungou Bell para si mesmo. — Daqui a pouco abrirão fogo contra nós.
O inimigo
devia estar realmente muito surpreendido, pois de outra forma já teria atirado.
Gucky chiou
a resposta.
— É agora! —
disse.
Dali a meio
segundo, quando Bell virou a cabeça para olhar seu companheiro, o mesmo já
havia desaparecido. E, juntamente com ele, uma carga de três toneladas de peso
terrestre, cujo transporte se tornou possível graças a um gerador
antigravitacional.
Bell
suspirou aliviado e modificou abruptamente a rota de seu aparelho. Um raio de
energia concentrada se desprendeu de uma das manchas escuras que as naves dos
saltadores projetavam contra o fundo branco da paisagem de neve; depois de
disparar pelo espaço, cruzou a rota da Z-13 no ponto em que o destróier se
encontraria naquele instante se Bell não tivesse executado a manobra.
Com o
desvio, a imagem do planeta frio se deslocou para a extremidade da tela de
observação ótica.
A Z-13 se
encontrava, com a precisão de um segundo do arco graduado, na rota que conduzia
à estrela azulada, um dos sóis do sistema geminado.
Reginald
Bell só manteve essa rota por dois minutos. Depois voltou a fazer uma curva,
gemendo sob a pressão súbita que se abateu sobre ele quando a aceleração
centrífuga ultrapassou os valores que podiam ser absorvidos pelo neutralizador
instalado no aparelho.
A curva foi
de apenas alguns graus, mas havia sido realizada num tempo diminuto e a toda
velocidade. Fez com que o segundo feixe de energia, disparado pelo inimigo,
passasse ao lado da Z-13 e se perdesse no espaço sem produzir qualquer efeito.
Contemplando
a parte da tela que correspondia à visão de popa, Bell viu que a frota inimiga
começava a se movimentar.
Três das
naves aceleraram e puseram-se no encalço da Z-13.
Bell gemeu
ao ler as indicações do aparelho de observação.
Uma das três
naves — que eram cilíndricas e afinavam nas pontas, segundo o feitio dos veículos
espaciais dos saltadores — media setecentos metros de comprimento.
Era um
gigante do espaço! Embora fosse menor que a potente Stardust-III, não havia a
menor dúvida de que excedia a pobre da Z-13 em todas as funções.
Bell
compreendeu que, sem auxílio, não conseguiria sair ileso desse inferno.
Deixou que a
antena do hipercomunicador se regulasse para a posição das três naves
terrestres e resmungou sua mensagem:
— Daisy está
com frio!
* * *
As sereias
de alarma soaram na imensa nave de Etztak.
O próprio
Etztak, patriarca do clã dos Orlgans, se encontrava na sala de comando quando
soou o alarma do observador.
Etztak era
velho; mesmo para um saltador, sua idade era muito avançada. Era um gigante de
dois metros, inclinado sob o peso dos anos. A barba descia em ondulações
brancas até o peito, e o cabelo nada ficava a dever à mesma em comprimento e
pujança.
— O que
houve? — ressoou a voz de Etztak.
O observador
falou timidamente.
— Constatamos
a presença de um objeto desconhecido, senhor. Aproxima-se a grande velocidade.
— De que
tipo de nave se trata? — gritou Etztak.
— Não é nenhuma
nave, senhor. É muito pequena. É um dos veículos auxiliares que aqueles seres
trazem a bordo.
Etztak
fungava de raiva.
— Preparem-se
para abrir fogo! Disparem imediatamente!
Para que as
outras naves de seu clã ficassem informadas, abaixou a chave integral do
hipercomunicador com tamanha violência que quase chegou a quebrar a alavanca.
— Abram fogo
com todas as peças sobre o objeto desconhecido.
Qualquer
palavra de Etztak era uma ordem. Se houve alguma demora no cumprimento dessa
ordem, isso foi devido ao fato de que, além da nave de Etztak, só duas haviam
constatado a presença do inimigo.
A nave de
Etztak, a Etz XXI, foi a primeira a disparar.
Errou o
alvo, porque este executou, uma fração de segundo antes do tiro, uma manobra
bastante arriscada.
Quinze
segundos depois, a nave que se encontrava mais próxima da Etz XXI, a Wena
LXIII, estava com as peças de artilharia prontas para disparar. Descarregou uma
salva de desintegradores sobre o minúsculo ponto, que passava a uma velocidade
incrível junto ao mundo de gelo, tomando a direção do sol azulado. Mas parecia
que todos os demônios do universo estavam ajudando aquela gente: no momento
exato, o pequeno veículo alterou sua rota e prosseguiu na vertiginosa corrida.
Etztak
tomava conhecimento dos fatos à medida em que estes se verificavam.
Agora estava
no seu elemento. A luta irrompera e todos teriam de se guiar exclusivamente por
suas ordens. Mandou que o grosso do clã permanecesse com suas naves junto à
superfície do mundo de gelo; as naves Etz XXI, Wena LXIII e Horl VII encetaram
a perseguição.
A ordem que
Etztak transmitiu aos seus subordinados foi a seguinte:
— A nave
inimiga deve ser destruída, haja o que houver.
* * *
A oito
horas-luz dali, as antenas direcionais de hipercomunicação da Stardust-III
captaram a mensagem:.
— Daisy está
com frio!
Perry Rhodan
contara com a possibilidade de que a situação se tornasse muito séria. Só por
um grande acaso Bell conseguiria romper as linhas inimigas sem que ninguém
procurasse impedi-lo.
Rhodan
entrou em contato com a Solar System, comandada pelo major Nyssen:
— Nyssen, prepare-se
para saltar.Monte as antenas especiais para receber a mensagem codificada de
Bell... se é que a mesma vai chegar. Salte de acordo com os dados goniométricos
fornecidos pela antena. Faça um trabalho bem feito! Ao que parece, Bell se
encontra numa situação dificílima. .
Nyssen confirmou
o recebimento da mensagem e acrescentou com a voz furiosa: — Nós lhes
mostraremos alguma coisa.
O cérebro de
Bell funcionava em alta velocidade.
Cabia
verificar qual seria o momento mais favorável para informar Rhodan de que Daisy
estava prestes a morrer de frio.
Esse momento
não podia estar muito longe.
A gigantesca
nave dos saltadores excedia a Z-13 também em aceleração. A diferença era de
menos um grau da respectiva escala. O gigante do espaço tivera de iniciar suas
manobras a partir de uma posição de repouso absoluto; apesar disso, levou
poucos segundos para atingir uma velocidade próxima à desenvolvida pelo pequeno
destróier.
Os outros
veículos dos saltadores ficaram ligeiramente atrás do gigante, mas Bell tinha
certeza de que, num longo trajeto, mesmo estes poderiam representar um perigo
para ele.
Bell já
desistira de seu plano primitivo, segundo o qual retornaria à Stardust-III pelo
caminho mais curto. Para isso teria que descrever uma curva de cento e oitenta
graus, e com isso cairia diretamente nos braços do inimigo.
Mas Bell não
era um homem que desanimava por pouca coisa.
Sabia que num
ponto a Z-13 era superior à perigosa nave do inimigo: em agilidade. O momento
teria chegado quando o gigante do espaço se aproximasse a menos de cinco mil
quilômetros.
Mas esse
momento só poderia chegar se o monstro não resolvesse de forma diferente, abrindo
fogo a uma distância maior.
Na tela de
Bell, o ponto ofuscante que representava o sol menor se havia deslocado para a
direita. A mancha alaranjada projetada pelo sol principal se encontrava na
margem da tela e inundava a pequena cabina com uma agradável luminosidade
amarela.
“Como seria bom”, pensou Bell.
Foi quando o
alarma estridente voltou a soar na nave. Havia um objeto à frente.
Na tela do
observador, Bell viu o enxame das noventa naves, cuja transição ele mesmo ainda
chegara a observar noventa minutos antes a bordo da Stardust-III.
Essas naves
ficavam bem na rota da Z-13.
Bell
praguejou e voltou a desviar o pequeno veículo espacial para a esquerda. Mesmo
que com isso se aproximasse um pouco do gigante de setecentos metros, ao menos
se livraria das noventa naves que se encontravam à sua frente.
Bell
interrompeu-se em meio aos seus pensamentos.
“Você é um idiota!”
Mais uma vez
mudou de rumo. Voltou à rota antiga.
Não há meio
melhor de se proteger do inimigo do que se esconder bem em meio às suas fileiras.
* * *
Depois de
ter acompanhado por alguns minutos a rota da pequena nave, Etztak esteve
inclinado a ver em seu piloto o maior idiota que jamais lhe aparecera.
— Olhem! —
gritou Etztak, e os circunstantes, obedientes, lançaram os olhos para a tela do
localizador, em cujo fundo luminoso a trajetória do pequeno objeto se desenhava
como a de um cometa. — Uma vez para cá, outra vez para lá — trovejou a voz do
patriarca. — O que está querendo? Será que pensa que dessa forma conseguirá
escapar?
A resposta
às palavras de Etztak veio do posto de observação.
— Noventa
naves de nossa frota de guerra diante de nós, senhor. Distância de sete
minutos-luz.
Etztak viu
os pontos que surgiam na tela. Parte da antena seguiu seus movimentos,
retratando a posição que realmente assumiam face ao centro de sistema — que era
uma posição de imobilidade.
E o anão —
aquela nave ridícula e atrevida — dirigia-se diretamente para a frota.
No mesmo
instante, Etztak compreendeu o que devia fazer.
— Disparar
todas as peças!
Mas não era
costume dos saltadores agir com precisão e rapidez quando uma ordem, esperada
para o momento t0, realmente vinha no momento t0 - t, ou
seja, de forma inesperada e alguns minutos antes da hora.
Pouco depois
de iniciada a perseguição, Etztak percebeu que a nave estranha era inferior à
Etz XXI no que dizia respeito à capacidade de aceleração. Por isso deu ordens
terminantes de só abrir fogo quando a distância ficasse reduzida a menos de
trinta mil quilômetros.
Todos
conheciam os motivos dessa decisão. Um tiro disparado a uma distância tão
reduzida transformaria o estranho numa tocha de gases que logo se espalhariam
pelo espaço. Isso seria uma lição para todos que ousassem afrontar o clã dos
Orlgans.
Seria um
espetáculo, e Etztak gostava de oferecer espetáculos.
E agora?
Por que
estaria o velho revogando sua ordem anterior? O que teria acontecido?
Ninguém
sabia. Os artilheiros estavam confusos.
Num
movimento vagaroso os canos afunilados das armas energéticas ajustaram-se à
posição do alvo.
* * *
— Daisy está
morrendo! — disse Bell.
A Z-13 deu
um salto breve e doloroso para cima e retornou, poucos segundos depois, à rota
antiga.
Ninguém
havia disparado.
As torres de
artilharia da Etz XXI ainda não haviam concluído o ajustamento.
O salto fora
em vão.
* * *
— Está bem —
disse Nyssen tranqüilamente. — Já ouvi. A Solar System está pronta para saltar.
A Solar
System saltou imediatamente, sem esperar que fosse atingida a velocidade que
geralmente se julgava necessária para a transição.
O salto da
nave produziu uma descarga energética de proporções inconcebíveis. A explosão —
de estrutura pentadimensional e por isso mesmo imperceptível aos sentidos
humanos — atirou a Solar System para o hiperespaço.
Nyssen
sentiu uma dor lancinante. Perdeu os sentidos por uma fração de segundo.
Quando
voltou a si, a Solar System se encontrava perto da fileira prateada das naves
inimigas.
Na tela
correspondente à visão de popa, reluzia um ponto minúsculo. Era a Z-13. Perto
dela, via-se um traço fino e alongado que representava uma nave inimiga.
Com Nyssen
aconteceu a mesma coisa que, poucos minutos antes, acontecera com Reginald
Bell: assustou-se quando viu diante de si o resultado das medições realizadas
pelos rastreadores.
— É uma nave
cilíndrica, com as pontas afinadas em forma de torpedo. Seu comprimento é de
setecentos metros e sua largura média de oitenta metros.
Do ponto em
que Nyssen se encontrava, percebia-se logo que o único perigo real para a Z-13
provinha daquela nave gigante. Todas as outras ficavam fora do alcance das
radiações das armas energéticas.
— Todas as posições
de artilharia devem ficar de prontidão! — gritou Nyssen para dentro do
microfone.
A
confirmação veio prontamente e quase em uníssono. As posições de artilharia já
haviam sido ocupadas antes que a Solar System iniciasse a transição.
Nyssen
acelerou a nave, indo de encontro ao ponto minúsculo e apressado, e ao traço
ainda mais apressado.
— Distância:
4,13 segundos-luz!
* * *
Os
instrumentos de Bell registraram a presença da Solar System no instante em que
ela emergiu do hiperespaço.
Bell
suspirou aliviado.
Não
acreditava que o perigo já tivesse passado. No momento em que saiu da
transição, a Solar System se encontrava tão longe que não poderia intervir na
luta, que era iminente.
Mas ao menos
não estava mais sozinho.
Se
conseguisse se esquivar por mais alguns segundos do gigante que se encontrava
atrás dele, a Solar System teria tempo para se aproximar.
Bell se
esforçou ao máximo.
* * *
Etztak
queria que tudo fosse para as profundezas do inferno.
As torres de
radiações da Etz XXI já se haviam ajustado sobre o alvo. Um tiro após o outro
saía dos canos afunilados, atravessava o espaço aos relampejos, com uma vaga
luminosidade ou de forma totalmente invisível, e procurava atingir o pequeno
aparelho.
Acontece que
qualquer mecanismo de pontaria, por melhor que seja, tem um certo tempo morto.
Precisa de alguns milésimos de segundo para pôr os pesados canos de radiações
na nova direção.
E esse tempo
era suficiente para que um veículo espacial com a manobrabilidade e o poder neutralizador
das pressões de aceleração da Z-13 descrevesse uma curva de mais de cinco
graus.
As radiações
disparadas pela Etz XXI passavam rente à Z-13.
Etztak
estava furioso. Batia com o pé e gritava para seus oficiais, embora nenhuma das
pessoas que se encontravam na sala de comando pudesse ser responsabilizada
seriamente pelo insucesso.
Já fazia
noventa segundos que os localizadores haviam constatado a presença da nave
inimiga que acabara de surgir no espaço, produzindo o abalo estrutural ligado à
transição.
Mas, dali em
diante, nenhum aviso chegou ao ouvido de Etztak. Este esbravejava, sem se dar
conta de que era ele mesmo que impedia o êxito total da Etz XXI.
* * *
— Comandante
para os oficiais de artilharia. Não queremos destruir o inimigo. Desejamos apenas
que a Z-13 tenha as costas livres. A qualquer momento poderemos saltar de novo;
preparem-se.
De todos os
lados veio a resposta “entendido”.
A Solar
System se aproximou a alta velocidade da nave inimiga. A distância ia
minguando, e a velocidade da nave terrestre crescia a cada segundo que se
passava.
— Dentro de
dez segundos estará ao alcance das nossas peças de artilharia — anunciou o
segundo-oficial.
— Atirem
assim que o alvo estiver ao nosso alcance! — respondeu Nyssen em tom enérgico.
Nunca os segundos
haviam passado tão devagar.
Nyssen
seguia os ponteiros do cronômetro e esbravejava contra a preguiça deles.
Cinco
segundos!
Qual seria o
alcance dos canhões do inimigo?
Nyssen não
sabia nada do que se passava a bordo da Etz XXI. Nem desconfiava de que,
naquele instante, Etztak esbravejava de raiva.
Mas viu os
feixes de raios dos desintegradores e as faixas de energia branco-azulada das
armas térmicas que atravessavam o espaço; e também viu a pequenina Z-13
saltitar entre uma salva e outra.
Nyssen procurou
verificar o alcance dos raios energéticos com base na sua luminosidade. Num
cálculo instantâneo e aproximado, chegou à conclusão de que não ficava atrás do
alcance das peças de artilharia de sua nave.
O mais
tardar, no mesmo instante em que as radiações disparadas pelas peças da Solar
System podiam atingir o inimigo, também as armas deste poderiam alcançar a
Solar System.
Faltava um
segundo!
A luz verde
começou a piscar no mesmo instante em que o alarma começou a uivar.
A Solar
System estava em plena batalha.
* * *
— Onde está
a nave inimiga? — berrou Etztak.
O observador
forneceu as coordenadas, lançando mão do que ainda lhe restava de autocontrole.
Etztak procurou a imagem do inimigo na tela.
Antes de
descobri-la, fez um sinal para o comandante da artilharia. Este transmitiu a
ordem:
— Ajustar-se
para novo alvo segundo as indicações do observador.
Nesse mesmo
instante, Etztak viu o inimigo. Não viu propriamente o inimigo, mas um feixe de
raios verde-pálidos que saía de certo ponto do espaço e dali a dois segundos
preencheu toda a tela.
A Etz XXI
foi atingida por um golpe de força indescritível. A luz forte se apagou; dali a
poucos segundos surgiu em seu lugar a luz mortiça das lâmpadas de emergência.
Sereias de
alarma uivavam e vozes se atropelavam nos alto-falantes.
Etztak caiu
ao chão. Apesar da confusão reinante na sala de comando, a disciplina era
tamanha que um dos homens logo se apressou em ajudar o velho a pôr-se de pé.
Com uma
rapidez espantosa, Etztak recuperou o autocontrole.
— Fomos
atingidos? — perguntou laconicamente.
— Sim,
senhor — respondeu o homem.— Na sala de máquinas.
Etztak
passou a mão pela testa. A raiva já o abandonara; por um instante não passou de
um velho desamparado.
Mas logo
entrou em contato com a sala de máquinas.
Foi informado
de que dois agregadas importantes haviam sido inutilizados, mas que apesar
disso a Etz XXI ainda estava em condições de manobrar, se bem que com apenas
sessenta por cento de sua velocidade normal.
Etztak
mandou desacelerar, suspender a perseguição e virar a nave.
Os
observadores anunciaram que a grande nave inimiga havia desaparecido.
O pontinho
prosseguia na sua corrida pelo espaço. Nos segundos que se seguiram ao impacto
sofrido pela Etz XXI, esta correra sem acelerar sua marcha, enquanto o pequeno aparelho
continuara a acelerar. Por isso, já ultrapassara o limite atrás do qual as
peças de artilharia da grande nave não representariam qualquer perigo.
— Deixem que
vá embora — resmungou Etztak. — Talvez nossa frota ainda o pegue. Vamos
retornar à nossa posição anterior. Avisem a Wena e a Horl.
* * *
Por uma
fração de segundo, Nyssen entreteve a idéia de colocar a Z-13 a bordo de sua nave e com
ela realizar o salto.
Mas, na
melhor das hipóteses, a manobra demoraria trinta segundos, e Nyssen achou que seria
muito arriscado se expor por esse tempo à artilharia do inimigo.
Por isso,
Bell recebeu uma mensagem lacônica, expedida de bordo da Solar System:
— Daisy terá
de cuidar do resto.
A Solar
System logo desapareceu daquele setor do espaço.
Bell
resmungou, amargurado e aliviado ao mesmo tempo. Fazendo uma curva com o menor
raio possível e desacelerando ao máximo, mudou a rota da Z-13.
A pequena
nave passou a alguns segundos-luz da frota dos saltadores, que se mantinha na
expectativa. A distância era a mínima possível para que o pequeno destróier
pudesse passar em segurança.
As naves de
guerra não pareciam interessadas na perseguição. Talvez o impacto conseguido
por Nyssen lhes tivesse infundido uma certa cautela, ou então estariam ali para
outro fim.
Bell não
quebrou a cabeça a este respeito, embora tivesse tempo de sobra para isso.
Uma mudança
de rota de cento e oitenta graus, realizada a uma velocidade de trajetória
constante, mas de componentes velocimétricas em constante mutação, consumiria
cerca de dez horas.
E a
Stardust-III ficava a uma distância de oito horas-luz. Mesmo que a essa
distância, medida a partir do ponto em que Bell se encontrava — já que ele
pretendia aumentar a velocidade assim que tivesse completado a curva — pudesse
ser obtido um ganho de tempo relativista, ainda faltava cerca de meio dia
terrestre para que a Z-13 se encontrasse definitivamente em segurança.
2
No mundo de gelo, que o grupo batizara de Homem de
Neve, não se percebeu nada dos acontecimentos que se desenrolavam no espaço. A
capacidade de observação de Moisés era limitada. Nem chegara a constatar a
presença da gigantesca nave de Etztak, uma vez que a mesma se encontrava a uma
distância relativamente grande do Homem de Neve; muito menos teve condições de
observá-la durante a perseguição a que se lançou.
O
silêncio enganoso enervou os cadetes. Sabiam que, ao deixá-los no Homem de
Neve, Perry Rhodan seguia um objetivo bem definido. Já tivera tempo de sobra
para retirá-los dali. Se não o fizera, suas intenções deviam ser outras.
Estavam convencidos de que eram a causa real de toda a confusão engendrada
pelos saltadores.
Tiff
se sentia praticamente indefeso diante das recriminações lançadas por Humpry
Hifield.
—
Já que estamos metidos nesta por sua causa — resmungou Hump — você ao menos
poderia ter a gentileza de nos contar quais são as intenções de Rhodan.
Nas
últimas horas, Tiff asseverara ao menos uma dezena de vezes que não sabia
absolutamente nada dos planos de Rhodan. A essa altura nem tomava mais
conhecimento das queixas de Hump.
Vez
por outra, Tiff caminhava até a grota para ouvir o hipercomunicador da pequena
nave capturada. Logo depois de se terem instalado na caverna, Rhodan os
informara pelo receptor da nave que teriam de agüentar por ali, e que
receberiam o necessário apoio. Mas depois dessa mensagem lacônica não houvera
outro contato.
A
esperança que Tiff chegara a ter por algumas horas não se realizou: não
conseguiu captar as mensagens que os saltadores trocavam pelo hipercomunicador.
Ao
que tudo indicava, o inimigo havia extraído imediatamente as conseqüências
cabíveis da captura de um dos seus veículos espaciais: trocaram suas
freqüências.
O
caminho que conduzia da caverna ao pequeno aparelho não era muito cômodo; em
certos lugares chegava a ser perigoso. O gelo liso dificultava o deslocamento,
mas de outro lado a gravitação reduzida vinha em auxílio de quem empreendesse a
descida.
Ao
voltar para a caverna, Tiff ficou refletindo se não seria preferível levar o
grupo mais para o sul, a fim de retirá-lo da área perigosa.
Era
bem verdade que durante as horas de marcha estariam expostos sem a menor
proteção aos instrumentos de observação do inimigo. Mas este não poderia
alcançar toda a superfície do planeta gelado com seus instrumentos. Se tivessem
sorte...
“Será que um bom estrategista deve elaborar
planos baseados no fator sorte?”, pensou Tiff, mas logo zombou de si mesmo
por ter usado a expressão estrategista. Ao que parecia, o transmissor de
capacete levou sua risada para dentro da caverna. A voz suave de Mildred indagou:
—
Qual é a graça?
—
Nada — respondeu Tiff em tom alegre.
Encontrava-se
a uns trinta metros da caverna. Lembrou-se de que Mildred talvez esperasse uma
resposta mais detalhada à pergunta amável que formulara.
—
Sabe... — principiou. E se atirou ao solo.
O
movimento foi puramente instintivo. Não tivera tempo de pensar sobre os fardos
negros que, de uma hora para outra, saíram do nada.
Tiff
ouviu um chiado nos receptores externos, e logo percebeu o baque que se seguiu
quando os objetos escuros tocaram o solo. Ainda escutou um apito agudo.
Levantou
o radiador de impulsos térmicos capturado de um saltador e, levantando
cautelosamente a cabeça, olhou para aqueles objetos estranhos.
“São bombas!”, foi seu primeiro
pensamento.
Mas
aquilo não se parecia com bombas.
Levantando-se
lentamente, caminhou de arma em punho para aqueles estranhos pacotes.
—
Fiquem na caverna! — resmungou.— Alguma coisa caiu do céu.
Mildred
e Felicitas soltaram um grito assustado.
—
Meu Deus, Tiff! Tome cuidado!
Eberhardt
resmungou:
—
Não prefere que eu dê um pulo até aí?
—
Não — respondeu Tiff.
Encontrava-se
a apenas cinco metros do mais próximo dos pacotes, quando descobriu o vulto.
Tiff afastou as pernas, apoiou-as firmemente na neve e levantou a arma.
Com
os olhos incrédulos, Tiff contemplou alguma coisa de cerca de um metro de
altura, que vestia um traje protetor de feitio especial. Foi baixando a arma e
voltou a guardá-la no bolso.
—
Gucky! — fungou. — Isto é... senhor...
—
Cale a boca — chiou Gucky. — Levei uma queda daquelas.
Tiff
fez continência. Gucky, que era um mutante no pleno desempenho de suas
atribuições, ocupava o posto de oficial. Por mais esquisito que parecesse,
ninguém poderia faltar com o devido respeito para com Gucky.
O
rosto de Tiff se iluminou.
—
Fico satisfeito com a sua vinda, embora tenha me assustado.
—
Não pude anunciar minha chegada — respondeu Gucky.
Os
olhos que surgiram atrás da lâmina do visor emitiram um brilho zombeteiro.
—
É claro que não — respondeu Tiff. — Permite que lhe mostre os nossos
alojamentos?
Gucky
fez que sim. Tiff caminhou à sua frente, abriu o fecho da primeira parede
separatória, que protegia a parte dos fundos da caverna contra o frio mortal
reinante no Homem de Neve. Uma lufada de ar quente saiu e, ao entrar em contato
com o frio, transformou-se numa névoa fina.
Gucky seguiu-o. Com olhos de entendido,
acompanhou os movimentos de Tiff quando este voltou a colocar o fecho de rocha
derretida e retirou o da segunda parede.
—
É um serviço bem feito — elogiou.
Passaram
por um total de seis paredes divisórias. Atrás da última ficavam os alojamentos
propriamente ditos, que estavam protegidos contra o frio pela melhor forma que
as circunstâncias permitiam e, além disso, eram aquecidos por Moisés, cujo
irradiador térmico fora regulado para a capacidade mínima.
Gucky
observou que não esperava tamanho conforto. Não regateou elogios.
Depois
de algum tempo disse:
—
Em anexo estão recebendo potentes armas energéticas, trajes transportadores
arcônidas, novas provisões de mantimentos e uma porção de coisas que lhes serão
bastante úteis.
Ao
que parecia, o uso do inglês comercial o divertia.
—
Onde está tudo isso? — perguntou Eberhardt, perplexo.
Tiff
apontou por cima do ombro, mostrando para a saída da caverna.
—
Nos pacotes que Gucky nos trouxe.
* * *
Etztak
mandou que a nave pousasse. Constatara-se que o reparo das avarias causadas
pelo impacto da peça inimiga seria relativamente fácil e rápido se a equipe
pudesse pisar em chão firme.
Logo
após o pouso, Etztak pediu que Orlgans, o saltador que comandava a Orla XI,
comparecesse a bordo de sua nave.
Etztak
pediu, muito embora em tempo de crise dispusesse de poder de comando irrestrito
sobre todos os membros do clã, isso porque julgava mais conveniente seguir os
modos convencionais enquanto o julgasse útil e possível.
Os
saltadores eram um povo aparentado com os arcônidas, que haviam levantado o
Grande Império em torno de seu mundo, Árcon, levando-o das culminâncias do
poder às profundezas da decadência. Os saltadores logo se separaram da raça de
que provinham e passaram a levar existência independente. Eram mercadores. Com
base no passado remoto e legendário de sua história, arrogavam-se o direito de
serem o único povo que praticava o comércio interestelar. Nunca foram uma nação
unida. Cada comandante, que pertencia a uma casta especial, possuía sua própria
nave e negociava por sua conta. E cada um desses comandantes sentia um prazer
extraordinário em estragar o negócio de outro saltador.
Apesar
de tudo, porém, sentiam-se unidos, e o universo via neles um grupo cujos
membros estavam ligados entre si.
Colaboraram
com o Grande Império arcônida e ali foram colhendo experiências, até que não
houvesse naquele mundo mais ninguém que praticasse qualquer tipo de comércio
digno de nota.
Começaram
a ser hostilizados e, com os tesouros acumulados, construíram uma frota de
guerra. Dispunham do cabedal de experiências da tecnologia arcônida e mais
algumas, adquiridas junto a raças estranhas. Até mesmo na época em que se
passaram os acontecimentos na superfície do Homem de Neve, ninguém saberia
dizer se os saltadores não detinham uma posição de superioridade face aos
arcônidas.
Por
mais que os saltadores lucrassem com a decadência do Grande Império — pois os
negócios mais lucrativos daquela raça eram realizados em tempo de guerra,
quando vendiam armas a ambas as partes em conflito — até então nunca houvera um
confronto armado entre eles e os arcônidas.
Os
saltadores não possuíam pátria. Suas naves haviam sido construídas de maneira a
pousarem somente em caso de emergência. Nenhum dos mundos compreendidos na
grande galáxia era seu. Viviam em suas naves, em pleno espaço cósmico, e
saltavam de um sistema para outro, a fim de fazerem seus negócios.
Por
isso eram chamados de saltadores.
Qualquer
um deles tinha o direito de recorrer ao auxílio da frota de guerra, sempre que
houvesse necessidade. Bastava emitir a mensagem de socorro, para que este lhe
fosse prestado no menor espaço de tempo.
Fora
exatamente o que acontecera com a nave Orla XI, comandada por Orlgans. Este
havia dado com a pista das naves mercantes que realizavam a troca de
mercadorias entre o planeta de Ferrol, situado no sistema Vega, e a Terra,
pertencente ao sistema do Sol. As trocas eram realizadas em decorrência de
tratados que Perry Rhodan celebrara com o governante Thort, por ocasião de sua
permanência em Ferrol.
Orlgans
logo farejou uma violação do monopólio a que sua raça se julgava com direito.
Mas, como também farejasse um bom negócio, resolveu tratar do assunto por sua
conta e risco. Pousou em Vênus e desembarcou seus agentes na Terra. Apoderou-se
de uma das naves da frota espacial terrestre, aprisionou a tripulação e guardou
ambas num lugar seguro.
Foi
informado por seus agentes de que, dentro de pouco tempo, um homem muito
importante da frota espacial terrestre sairia da Terra numa outra nave. Segundo
as informações, aquele homem dispunha de informações sobre o planeta da vida
eterna. Tratava-se de um planeta misterioso, sobre o qual falavam as lendas, e
de cuja existência a essa altura ninguém duvidava.
Orlgans
estava ávido por essas informações, de que pretendia se apoderar em proveito
próprio. Esse negócio coroaria sua existência.
Atacou
a nave em que se encontrava esse homem e prendeu-a ao seu veículo espacial por
meio de fitas magnético-mecânicas. Depois realizou um salto através do
hiperespaço e foi parar no sistema de Beta-Albíreo, a fim de se afastar o mais
possível da perigosa área em redor do planeta Terra.
Interrogara
várias vezes o homem indicado — o cadete Julian Tifflor — mas este afirmara que
não possuía as informações desejadas por Orlgans.
Finalmente,
um grupo de três gigantescas naves da frota terrestre surgira no sistema de
Beta-Albíreo. Orlgans transmitiu sua mensagem de socorro e este logo veio sob a
forma de trinta veículos da frota guerreira dos saltadores.
Na
confusão que se formou a pequena nave de Tifflor, aprisionada por Orlgans,
conseguiu escapar. A nave propriamente dita foi recolhida a bordo de um dos
gigantes espaciais da frota terrestre; mas Tifflor saíra da mesma num minúsculo
veículo espacial e, depois de sofrer um impacto de uma das peças da artilharia
dos saltadores, realizou um pouso de emergência no mundo gelado.
As
três gigantescas naves espaciais da frota terrestre puseram em fuga os
saltadores. A Orla XI, que se encontrava à margem dos acontecimentos, foi se
afastando discretamente do cenário.
Acontece
que Orlgans notara a fuga de Tifflor e seu pouso no planeta de gelo. Terminada
a batalha, retornara ao local e saíra em busca dos terrestres. Descobriu sua
pista e constatou que Tifflor não estava só. Orlgans mandara, então, uma
nave-patrulha no encalço dos fugitivos. Estes se apoderaram do pequeno veículo
e aprisionaram seus dois tripulantes, que posteriormente foram postos em
liberdade.
Depois
disso, Orlgans solicitou o auxílio de seu clã. O lucro que resultaria das
informações sobre a posição galáctica do planeta da vida eterna seria tamanho
que ele se tornaria um homem muito rico, mesmo que tivesse que dividi-lo com
todos os comandantes do clã.
É
bem verdade que Orlgans não gostou do surgimento repentino das noventa naves da
frota de guerra. Teria que contar com o retorno da mesma, devidamente
reforçada, depois da derrota que sofrera na primeira investida. Mas Orlgans
preferia que os comandantes das naves guerreiras não fossem informados sobre os
acontecimentos que se desenrolavam no mundo de gelo.
Obedecendo
à ordem recebida, entrou numa pequena nave auxiliar e se dirigiu à gigantesca
Etz XXI. Grudados como moscas à parede externa da nave, junto ao lugar em que o
desintegrador do couraçado terrestre havia aberto um furo no imenso casco, os
homens da equipe de conservação procuravam reparar as avarias.
Orlgans
entrou na nave pela comporta de proa, subiu pelo elevador antigravitacional até
atingir o corredor principal e, logo à frente do poço do elevador, tomou a fita
rolante que percorria velozmente toda a extensão do corredor.
Apenas
vinte minutos depois do momento em que Etztak havia formulado seu pedido,
Orlgans se encontrava diante do patriarca e fez o gesto convencional de reverência.
Etztak
não era homem de muitos rodeios, mesmo diante de um homem como Orlgans, que
durante quinze anos de tempo de bordo só havia visto na tela do
hipercomunicador.
—
Temos que dar um jeito nisso! —disse em tom áspero. — Lá em cima as naves da
frota de guerra estão à espreita. Ai de nós se um dos comandantes souber atrás
do que nós estamos.
—
Como poderia saber? — perguntou Orlgans. — Só se houvesse um traidor em nosso
clã.
Etztak
afastou a objeção com um gesto.
—
Pouco importa qual seja o canal de comunicação através do qual venham a saber.
O fato é que o perigo cresce à medida que demoramos em atingir nosso objetivo.
Estudei cuidadosamente o relatório fornecido por você. Pelo que vejo você
acredita que conseguirá extrair desse estranho certas informações sobre a
posição do planeta da vida eterna.
—
Isso mesmo — respondeu Orlgans.
—
Como chegou a essa conclusão? — indagou Etztak.
—
Por acaso — foi a resposta de Orlgans.
Este
voltou a contar a mesma história que constava do início de seu relato escrito.
Tratava-se da história dos prisioneiros que capturara e dos abalos provocados
pela série de transições constatadas no sistema Vega.
Orlgans
conhecia os hábitos do patriarca. Costumava comparar o relato escrito e verbal,
para descobrir se o comandante pertencente ao seu clã procurava lhe ocultar
alguma coisa.
—
Está bem — resmungou depois de algum tempo. — E esse prisioneiro? Quem é ele?
—
Trata-se de um inimigo do homem que desempenha o papel mais importante naquele
planeta. Nós o recolhemos quando estava fugindo daquele homem.
—
Como é o nome dele?
O
nome constava do relatório fornecido por Orlgans. Apesar disso este respondeu:
—
Mouselet.
Etztak
franziu a testa.
—
O que sabe ele?
—
Praticamente nada. Conhece a organização de nossos inimigos e sabe seus nomes.
Mas nem ouviu falar no planeta da vida eterna.
—
É o que ele diz.
Orlgans
se sobressaltou.
—
Ainda não o submeti a um interrogatório psicológico, porque acho que não
resistiria. Não acredito que tenha mentido.
—
Traga-o para cá. Tiraremos dele tudo que sabe. Não temos tempo para ter
consideração por um estranho.
Orlgans
não formulou qualquer objeção. A partir da sala de Etztak, entrou em contato
com a Orla XI e mandou que três dos seus subordinados trouxessem o
prisioneiro... pelo caminho mais rápido.
* * *
Jean
Pierre Mouselet, desde o momento em que entrara em contato com os saltadores,
ocupava um dos camarotes de popa da Orla XI. Pouco tempo atrás, ainda era um
dos seguidores do Supercrânio, um mutante poderoso e desalmado, que pretendia
destruir Rhodan para alcançar o domínio da Terra e de todo o universo.
Mouselet
maldizia o dia em que subira a bordo dessa nave e, dentro da mesma cadeia de
pensamentos, a hora em que o Supercrânio o obrigara a entrar para o seu
serviço.
Era
bem verdade que, no caso dele, a pressão exercida pelo Supercrânio não fora
muito forte. Mouselet seguira-o com o maior prazer, pois esperara alcançar uma
posição bem paga.
Fugira
da Terra numa das últimas naves que o Supercrânio ainda possuía. No último
instante, quando estava prestes a ser alcançado pelos seus perseguidores,
descobrira o veículo espacial desconhecido, aproximara-se do mesmo e subira a
bordo.
E
lá estava ele.
Quem
dera que nunca!...
A
escotilha do pequeno camarote se abriu sem aviso prévio. Mouselet levantou-se
de um salto.
Um
saltador de estatura alta e barba por fazer surgiu na abertura, apontando a
arma térmica para o francês, num gesto que representava uma ameaça
indisfarçada.
O
saltador disse alguma coisa incompreensível. Dali a dois segundos, o pequeno
aparelho pendurado no seu pescoço falou em bom francês:
—
Venha comigo!
Os
olhos de Mouselet começaram a brilhar. Avançou apressadamente, sem prestar a
menor atenção à arma que o saltador continuava a segurar e gaguejou:
—
Você... tem um cigarro para mim?
Parou.
Trêmulo, esperou que o pequeno aparelho traduzisse suas palavras na língua
daquele ser estranho. O saltador franziu a testa e deu uma resposta que poucos
instantes depois foi traduzida pelo aparelho:
—
Um cigarro? O que vem a ser isso?
Mouselet
deixou cair os ombros.
Já
formulara a pergunta muitas vezes, e sempre recebera a mesma resposta.
Acreditava que jamais voltaria a ter um cigarro nas mãos, a não ser que fosse
levado de volta à Terra.
Abaixou a cabeça, passou pela escotilha e deixou
que o guarda o conduzisse pelo corredor.

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