Este já
formulara a mesma pergunta, e já respondera à mesma. E já estava agindo!
Mais de
cinqüenta mensageiros procuravam um por um os patriarcas do clã. No espaçoporto
foi desencadeado o alarma.
Na noite que
antecedeu a grande conferência nenhum dos patriarcas dormiu.
Os jatos uivaram
e os grupos de destróieres dos mercadores, acompanhados de alguns couraçados,
passaram pelo corredor de saída e dispararam em direção ao céu límpido.
Mas Goszul não
admitira apenas a possibilidade dum ataque vindo do espaço. Também incluiu em
suas cogitações a possibilidade dum atentado contra a grande conferência.
Identificara-se
com Perry Rhodan, colocando-se na situação em que este se encontrava. Tal qual
Etztak, era de opinião que a força de Rhodan devia ter um ponto muito fraco.
Goszul não
quebrou a cabeça para descobrir que ponto seria este. Viu nesse fator o X de
seus cálculos, e percebeu que esse X representava um perigo imenso.
O nervosismo na
ante-sala cresceu. Ouviu a voz de Sharer. A tela junto à poltrona iluminou-se.
O comandante da grande base de artilharia apresentou-se. Sem dizer uma palavra,
Goszul recebeu a informação de que todas as posições estavam ocupadas e prontas
para entrar em ação.
Enquanto a
imagem na tela se desfazia, a voz odienta de Goszul voltou a pronunciar um
nome:
— Perry Rhodan!
Não se recordava
de que em toda a história dos mercadores galácticos tivesse surgido um ser cuja
intervenção e cujos ataques os tivessem obrigado a convocar a grande
conferência. Sharer entrou.
— Todos os clãs
foram informados. Os patriarcas e os observadores que participarem da
conferência, antes de entrar na grande sala, se identificarão através de membros
de dois outros clãs, que anunciarão seus nomes.
Nesse instante
Goszul teve uma idéia.
— Antecipo o
início da conferência por duas horas. Sharer, providencie para que os mensageiros
só avisem os patriarcas no último instante.
Quando se viu a
sós, disse em tom apreensivo:
— Gostaria que a
grande conferência já tivesse chegado ao fim.
Mais uma vez
lembrou-se de Perry Rhodan.
7
— Localização!
O grito soou
quatro vezes — uma vez na Stardust-III e uma vez em cada um dos três
destróieres.
Já o aguardavam
há algumas horas, pois o sinal combinado com o grupo ainda não havia chegado.
A dezoito
milhões de quilômetros a frota de Rhodan mantinha-se à espera. Eram quatro
objetos minúsculos parados na imensidão do espaço, quatro estruturas altamente
sofisticadas, cujos hiperrastreadores acabaram de constatar a decolagem de
grande número de naves no planeta de Goszul.
— As coisas não
estão boas — disse Bell, falando tão baixo que só Rhodan pôde ouvi-lo.
Crest, líder
científico dos arcônidas, entrou.
— Não quero
insistir — disse — mas não se pode acreditar mais no êxito dos nossos mutantes.
Acho que o alarma no planeta diz tudo.
Perry ergueu-se
lentamente do assento do piloto. Quando se encontrava diante de Crest, via-se
que este o superava em tamanho por cerca de vinte centímetros. Apesar disso
havia uma espantosa semelhança entre os dois, embora fossem homens de raças
diversas.
— Pois eu
acredito no êxito dos meus mutantes — respondeu Perry Rhodan, sem enfatizar
suas palavras. — E suponho que nosso cérebro positrônico continua a acreditar
nisso. Quer ver no que ele está acreditando, Crest?
Os postos de
observação continuavam a fornecer novas indicações.
A frota de
guerra dos mercadores descrevia círculos cada vez maiores em torno do planeta
do qual decolara.
Dava uma busca
sistemática no espaço.
Durante a
ligeira caminhada em direção ao cérebro positrônico, Crest mencionou esse fato
inquietante.
— Já sei —
respondeu Rhodan.
— Pois não
demorarão em localizar-nos, tal qual nós constatamos sua decolagem, Rhodan! —
advertiu Crest em tom insistente.
— No momento em
que a frota dos mercadores decolou começamos a retirar-nos — havia uma ligeira
repreensão no tom da voz de Perry. — Não quero arriscar a vida de meus quatro
homens.
Crest lançou-lhe
um olhar de surpresa. Nunca deixaria de admirar a superioridade desse homem
terreno. Sabia perfeitamente que foi graças a ele que Rhodan adquiriu o saber
incomensurável dos arcônidas, mas não cometeu o erro de atribuir importância
excessiva ao fato, pois a utilização do saber depende das qualidades de cada
indivíduo.
A forma pela
qual Perry Rhodan manipulava seus conhecimentos causava admiração até a Crest,
o arcônida.
O cérebro
positrônico da Stardust-III forneceu, traduzidas em algarismos frios, as
possibilidades de êxito do grupo de mutantes que se encontrava no planeta de
Goszul.
— Mas isso é...
— ...é bom, não
é? — interrompeu Perry. — Se houvesse apenas um zero atrás da vírgula, também
ficaria satisfeito. O grande cérebro de Vênus calculou que as chances eram de
zero vírgula quatro...
Um brilho estranho
surgiu nos olhos de Crest.
— E com uma
chance de zero vírgula quatro por cento o senhor arrisca a vida de quatro
homens?
O gesto de
Rhodan fê-lo calar-se subitamente.
— Isso mesmo! —
a firmeza com que Rhodan proferiu estas palavras fez com que Crest o
compreendesse. Logo ouviu a explicação que se seguiu a essas palavras: — É uma
possibilidade de êxito de zero vírgula quatro por cento, mais o fator humano, Crest.
Não somos como os arcônidas, para os quais a finalidade da vida consiste em sonhar
de olhos abertos. Por isso as chances do grupo de mutantes são bem maiores.
O fator humano
representa um mais que nenhum cérebro positrônico pode calcular, nem mesmo o
grande cérebro de Vênus. É que todos eles foram construídos por arcônidas.
A voz áspera do
oficial do posto de observação interrompeu-os:
— Três
destróieres dos saltadores estão saindo do grupo e dirigem-se ao ponto em que
nos encontramos...
Imediatamente
Perry gritou para Bell:
— Acelerar para
o quíntuplo!
Na sala de
comando a pergunta para a qual ninguém tinha resposta enchia o ar como se fosse
um pesadelo:
— Será que os
destróieres dos saltadores nos localizaram?
* * *
— Vou dar uma
olhada lá fora — dissera Kakuta há poucos minutos. — Preciso saber o que está
acontecendo. Alguma coisa não está certa. Dentro de quinze minutos estarei de
volta.
Ninguém se
opusera. O teleportador desaparecera para, num salto arriscado, transportar-se
ao espaçoporto. O lugar estava banhado numa verdadeira orgia de luzes. Tako
Kakuta fechou os olhos ofuscados e saltou para a beira das pistas.
Fora da profusão
de luzes, pôde contemplar tranqüilamente a grande área.
Por coincidência
viera parar perto da Lev-XIV. Arriscou-se a chegar mais perto e viu que os
saltadores entravam na nave e dela saíam pela grande comporta. Essa atividade
intensa despertou sua curiosidade.
No mesmo
instante não havia mais ninguém no lugar em que Tako Kakuta se encontrara há
pouco. Voltou a materializar-se no interior da Lev-XIV, mais precisamente, no
recinto destinado a um fim específico, e que por isso mesmo era de dimensões
bastante reduzidas.
Acontece que a
porta da toalete estava aberta. Lá fora dois mercadores conversavam.
Satisfeito, Kakuta ouviu que falavam mal do patriarca Goszul. O fato de que
Levtan também era atacado não o abalou nem um pouco.
Riu para dentro
ao saber que continuavam a procurar os registros escritos de Levtan.
Tako Kakuta
ouvira o suficiente. Concentrou-se no grande edifício situado na periferia do
espaçoporto, que vira no instante em que os saltadores o levavam à prisão — e
saltou.
Surgiria na
sombra do grande edifício. Não havia necessidade de esconder-se. Pelo aspecto
exterior e pelas vestimentas não se distinguia dos saltadores. Dobrou
lentamente o canto do prédio e aproximou-se dum grupo que discutia junto à
entrada.
Quando Tako viu
o guarda em meio ao grupo, já era tarde. Este o vira e achava que o fato de ele
dobrar o canto direito do prédio tinha algo de errado.
Fazendo um
movimento vigoroso com o braço esquerdo, o guarda deixou a linha de tiro livre.
Com o outro braço dirigiu a arma paralisadora sobre Tako Kakuta.
O pequeno
japonês mascarado de saltador não perdeu a calma.
— Venha cá —
gritou o guarda. Em vez de esperar que se aproximasse, o guarda foi andando em
sua direção. — Quem é você? E o que andou fazendo no lugar em que estão
guardadas as bombas?
Kakuta só
absorveu a palavra “bombas”. Numa
operação mental instantânea registrou todos os detalhes: a situação do edifício
em relação ao espaçoporto, o aspecto da fachada bem iluminada, a fábrica
situada de fronte, a rua larga — e o fato de que atrás do edifício, à direita,
ficava o depósito de bombas.
— Perdeu a
língua? — berrou o guarda.
O grupo de
homens que discutia animadamente teve a atenção despertada para o incidente.
Dois homens aproximaram-se lentamente.
Tako Kakuta
avaliou a situação. Assumia rapidamente os contornos duma catástrofe. No
momento não poderia recorrer à teleportação. Não daria uma demonstração de sua
arte, pois com isso poria em risco os planos de Rhodan e a vida dos homens do
grupo.
— Meu nome é
Brom. Pertenço ao clã de Gaxtek — disse em tom atrevido, fazendo votos de não
se deparar com nenhum membro do clã de Gaxtek.
Quando viu o
sorriso largo que se espalhou pelo rosto do guarda, pondo à mostra os dentes
estragados, sentiu que o desastre se aproximava. Mas nem de leve desconfiou de
que a situação fosse assumir uma feição tão grave.
— Só se você for
da nova nave, a Gax-XXII — disse o guarda em tom desconfiado. — Conheço todos
os outros, e nunca vi você.
— O quê? —
gritou uma voz sonora vinda mais de longe. — A Gax-XXII. Eu sou dessa nave. O
que houve com ela?
— Não fale
tanto; venha cá — disse o guarda, virando-se de lado. — Este homem diz que é de
sua nave. Você o conhece? Dê uma olhada... — virou a cabeça para não tirar os
olhos por muito tempo de cima do suspeito, quando o fato de não ver mais o sujeito
lhe fechou a boca.
Tako Kakuta não
vira outra saída senão teleportar-se.
O mercador que
dizia ser da Gax-XXII e tagarelara por tanto tempo transformara-se na palha em
que resolvera agarrar-se desesperadamente. No momento em que todo mundo olhava
para o saltador, Tako Kakuta efetuara um salto pequenino, que o transportara
até o canto do edifício.
Num cálculo frio
e instantâneo, avaliou todas as chances.
Os saltadores
não deveriam perceber que era um mutante. Deviam acreditar que seu
desaparecimento não era outra coisa senão uma fuga normal. Um deles vira-o
dobrar o canto do prédio. O coração de Tako palpitou.
A situação
melhorava a olhos vistos.
Saiu correndo.
Lembrava-se de que o guarda não trazia nenhum radiador, apenas a arma
paralisadora. E o alcance desta não era muito grande. Foi nesse fato que Tako
baseou seu plano de fuga.
Fugiu como
qualquer outro indivíduo. Sua proteção era a escuridão. Mas aproximava-se cada
vez mais do depósito de bombas, e num lugar em que se guardam bombas sempre
existem guardas.
“É sempre a mesma coisa”, pensou, quando
ouviu um grito vindo da escuridão:
— Pare!
Por trás dele os
saltadores aproximaram-se. Um deles gritou para o guarda do depósito de bombas:
— Mate-o!
Tako teleportou
em meio ao salto e pousou meio esbaforido junto a algumas peças de artilharia
pesada.
Dois soldados
estavam conversando. O mutante aguçou o ouvido. Falavam no alarme e no fato de
que Goszul enviara seus mensageiros aos patriarcas e nos motivos por que o
velho não recorrera ao rádio para transmitir suas ordens.
— Você ouviu
alguma coisa? — ouviu
Tako, um tanto
preocupado, viu um soldado que se aproximava.
Preferiu não
aguardar o encontro. Saltou silenciosamente e rematerializou-se no interior de
sua cela, limitando-se a perguntar:
— Será que
demorei mais de quinze minutos?
* * *
O orgulhoso
patriarca Goszul levantou-se no momento em que foi anunciada a chegada do
último participante da grande conferência.
Há poucos
minutos ainda se sentira martirizado pelas idéias de desastre iminente. Mas
agora estava livre das mesmas e regalava-se no respeito que todos tributavam a
ele, o descobridor e conquistador do planeta.
Presidia a
grande conferência. Fora escolhido por unanimidade. Com uma ligeira alocução
abriu os trabalhos. Cumprimentou os participantes pessoalmente, sem citar
nomes. Mas enquanto ainda proferia a fala introdutória, seus olhos aguçados
procuravam um homem em meio ao grupo de mais de mil e duzentos patriarcas. Era
Etztak.
Não o encontrou,
nem mesmo quando voltou a sentar-se. E não viu qualquer dos filhos de Etztak.
No momento em que ia ordenar que lhe dissessem em que fileira se encontrava
Etztak, o orador Kherr mencionou pela primeira vez o nome de Perry Rhodan.
No mesmo
instante Goszul esqueceu seu amigo Etztak.
— ...o espaço
vital dos mercadores galácticos está ameaçado. Topthor, o superpesado, pagou
com suas naves e com a vida de sua gente o fato de ter atendido ao pedido de
socorro do patriarca Etztak. Perry Rhodan, um ser vindo do planeta que seus
clãs chamam de Terra, recorreu aos recursos dos arcônidas para destruir-nos. O
Império de Árcon encontra-se em estagnação. Os herdeiros legítimos somos nós.
Nada nos impedirá de solicitar o auxílio de todos os superpesados e, com o auxílio
dos mesmos, eliminar o planeta Terra do seio da galáxia. Nosso poder é cem
vezes maior que o de Rhodan. Basta que nossos objetivos sejam definidos. Mas
antes de abrir a discussão a este respeito, interrogaremos o pária Levtan.
Fomos nós que criamos as leis de nossos clãs. Por elas punimos e por elas
perdoamos. Sejam quais forem as declarações de Levtan, não se esqueçam,
patriarcas, de que veio do mundo de Perry Rhodan. Examinem as palavras de
Levtan e as provas que apresenta. Examinem tudo antes de pronunciar o perdão
segundo as leis dos clãs, tirando dele a mácula do pária.
— Examinem tudo,
mesmo que acreditem que está mentindo.
— Examinem com
toda atenção, como se nossa vida dependesse de tudo.
— Examinem, pois
temos diante de nós uma questão de vida ou morte. E a morte traz o nome de
Perry Rhodan!
À fala seguiu-se
um silêncio mortal. As palavras que acabavam de ser pronunciadas traziam uma
enorme carga sugestiva.
O silêncio
condenou quando Levtan, acompanhado de seis robôs, foi conduzido pelo largo corredor
central.
Foi obrigado a
sentar-se numa posição em que fitava os dirigentes e todos os participantes da
grande conferência.
O olhar de
Levtan, que refletia o medo, ficou preso em Goszul.
Este voltou a
levantar-se, cruzou os braços diante do peito, lançou um olhar severo para o
pária e dirigiu-lhe a primeira pergunta.
— Pária Levtan,
onde estão as provas escritas daquilo que você afirmou a respeito de Perry
Rhodan?
Um eco soou no
recinto.
— Rhodan! — respondeu ironicamente.
Goszul viu que
alguns dos patriarcas estremeceram, virando o rosto em direção à entrada. Ele
mesmo conseguiu com grande esforço reprimir o susto.
— As provas
estão em minha nave — respondeu Levtan quase num cochicho.
— Onde? —
perguntou Goszul em tom áspero e logo pronunciou a ameaça: — Não pense que com
essa tática poderá prolongar a vida...
Num esforço
desesperado, Levtan animou-se a uma objeção:
— Não vim de
minha livre vontade? — gritou, e seus olhos oblíquos tornaram-se ainda mais
estreitos. — Não vim para mostrar-lhes a maneira de destruir Rhodan? Afinal,
quem conhece Rhodan?
E o eco
escarneceu:
— Rhodan!
Mais uma vez
Goszul viu os patriarcas estremecerem e olharem para a entrada, como se
esperassem ver Perry Rhodan.
Goszul refletiu
ligeiramente. Já por duas vezes esse eco devolvera o nome de Rhodan num tom de
escárnio. As frases deviam ser formuladas de modo a reduzi-lo ao mínimo.
— Onde estão os
documentos? — gritou para o pária.
— Na sala de
comando de minha nave. No cristal de pilotagem — respondeu Levtan em tom
submisso. — No segundo cristal de pilotagem.
Os olhos velhos
de Goszul dirigiram-se para a entrada onde se encontravam os membros de seu
clã. Brilhavam como os dum jovem caçador. Em tom autoritário gritou:
— Desmontem e
tragam para cá!
Em tom mais
calmo, dirigiu-se a Levtan:
— Conte tudo
sobre Rhodan.
Não pôde retirar
a palavra. E a mesma foi devolvida.
— Rhodan! — gritou o eco.
Goszul sentiu as
primeiras gotas de suor porejarem em sua testa enrugada.
— Fale — berrou
Goszul para o pária. Perdera o autocontrole diante dos numerosos patriarcas
que, dominados pelo eco, estavam encolhidos em suas poltronas, cochichando aos
grupos.
Levtan, o pária,
iniciou seu relato.
* * *
A situação de
Perry Rhodan e sua frota tornara-se mais tranqüila. As naves dos saltadores
continuavam a circular em torno do planeta de Goszul, mas não se afastavam mais
de cinco milhões de quilômetros. E, o que era mais importante, os instrumentos
da Stardust-III revelavam que os mercadores trabalhavam exclusivamente com os
rastreadores estruturais, que funcionavam com base em princípios
hipergravitacionais. Os mesmos não permitiam uma localização precisa num raio
de uma unidade astronômica, mas tornavam-se muito eficientes a distâncias
superiores a 150 milhões de quilômetros.
As naves de
Perry Rhodan mantinham-se a uma distância de 35 milhões de quilômetros do
planeta de Goszul e esperavam. Esperavam uma mensagem de rádio, um ataque.
Esperavam que houvesse alguma coisa. Nada aconteceu.
Subitamente o
receptor emitiu um som. O decifrador automático revelou o texto da mensagem,
que ao ouvido humano só se apresentava sob a forma dum chiado instantâneo.
Rhodan leu o
texto e não ocultou o desapontamento. Era uma mensagem vinda de Terrânia. Fora
enviada pelo coronel Freyt. O destinatário era Perry Rhodan, chefe do Governo
Mundial.
Sem dizer uma
palavra, este entregou a mensagem a Bell, que já adivinhava seu conteúdo. Em
tom contrariado perguntou:
— É uma guerra
de papéis vinda lá de baixo? Lá embaixo — isso significava a Terra, o planeta
que finalmente alcançara a união sob a direção de Perry Rhodan, a Terra em que
já não existiam os blocos de potências, que viviam gritando uns para os outros
que eram mais fortes. Ainda havia três grupos de interesses na velha Terra, mas
aos mesmos só cabia a tarefa de entregar-se ao processo de auto-dissolução.
— Leia! — disse
Perry ao amigo.
Bell leu
bastante contrariado.
— Sempre há uns
senhores que querem fazer política. Bem, Freyt lhes dará umas palmadinhas. Não
vamos responder, não é, Perry?
— Não vamos
responder — respondeu Rhodan laconicamente. Tirou a mensagem das mãos de Bell e
entregou-a a Julian Tifflor, que estava de pé a seu lado.
— Jogue isto no
desintegrador, Tifflor.
Sem olhar para o
papel, Tifflor atirou o mesmo para a grade junto ao autômato. O papel desfez-se
sem produzir fogo ou fumaça.
Rhodan lançou um
ligeiro olhar para o jovem. Seu rosto delicado, que já trazia as marcas das
tarefas desempenhadas nas condições mais adversas, poderia iludir, tal qual os
olhos castanhos e sonhadores. Julian Tifflor podia ser tudo, menos frouxo ou
macio. Era um dos membros da geração jovem dedicada a Perry Rhodan, que tinha
nele o cadete mais fiel e capaz.
— Está com
saudades de John Marshall, Tifflor?
Um brilho fugaz
surgiu nos olhos castanhos. Esse fogo revelara de que material era feito Julian
Tifflor. Só por uma fração de segundos deixara perceber seus pensamentos. Ao
responder, sua voz era tranqüila:
— Não podemos
estar sempre na linha de frente.
A espera
enervante na sala de comando da Stardust-III foi interrompida pela exclamação
do engenheiro que controlava os instrumentos:
— Emanações
radiativas intensas no planeta de Goszul. A área é limitada. Um instante, que a
interpretação logo virá.
Mesmo Rhodan
concordou em esperar. Começou a desconfiar de alguma coisa. Lançou um olhar
pensativo para o relógio. Em tom áspero, perguntou:
— Peço o tempo
local do segundo planeta!
— 45,71! — foi a
resposta vinda do posto de cronometragem. Isso correspondia aproximadamente ao
meio-dia terreno.
No planeta de
Goszul o dia já chegara ao zênite, e a mensagem combinada com o grupo de
mutantes ainda não havia chegado.
— A
interpretação chegou! — voltou a falar o engenheiro dos instrumentos. — As radiações
ocorreram na cidade dos mercadores. Estão restritas a um raio de cem a cento e
cinqüenta metros.
Os homens que se
encontravam na sala de comando pensaram em Marshall, Yokida, Ishibashi e
Kakuta.
A faixa de ondas
previamente convencionada não trouxe a mensagem dos mutantes.
8
John Marshall
acabara de “trazer” o tempo. Eram
23:104.
Os quatro homens
que se encontravam na cela fizeram seus cálculos; na Terra eram cerca de nove
horas.
— A alimentação neste
estabelecimento é muito deficiente — disse Tama Yokida, o telecineta, em tom
seco. — Sugiro que procuremos alguma coisa para comer — voltou a acariciar a
idéia de usar suas forças telecinéticas para tirar a pesada porta dos gonzos.
— Não — disse
Marshall, que mais uma vez captara seus pensamentos. — Não é necessário. Daqui
a pouco virão buscar-nos para participarmos da grande assembléia dos
patriarcas.
Os amigos
olharam-no, desconfiados. Havia alguma coisa na voz de Marshall que não lhes
agradara.
— Sim —
acrescentou o telepata, completando suas informações. — Acontece que não
participaremos na qualidade de hóspedes, mas como testemunhas párias. Levtan
deve ter feito papel de louco, não abrindo mão da exigência de que todos os
membros de seu clã também sejam interrogados.
— Que chefe de
clã! — observou Tako Kakuta, que geralmente costumava manter-se calado. — Meu
pai não teria agido dessa forma. Quando virão buscar-nos?
— O comando já
está a caminho. Todo mundo vive falando em Levtan. Já sabem em que lugar
estavam escondidos seus documentos. Dizem que Goszul mandou alguns homens de
seu clã à Lev-XIV, para retirá-los do segundo cristal de pilotagem...
Kitai Ishibashi
interrompeu as palavras de Marshall.
— Já me
interessei por isso, e sei que o segundo cristal de pilotagem não existe — no
mesmo instante pôs a mão na cabeça e soltou uma risada. — Formidável! Ninguém
desconfiaria de que os documentos pudessem estar lá. Encontraram nossas armas e
equipamentos?
— Os homens do
comando não estão pensando sobre isso — respondeu Marshall e aguçou o ouvido. —
Não são eles que estão chegando?
No corredor
ouviram-se passos; as pisadas duras dos robôs eram inconfundíveis.
A porta da cela
abriu-se. Três armas paralisantes e dois radiadores de impulsos foram apontados
sobre eles.
— Saiam! —
gritou um saltador.
Pelo uniforme
devia ser um oficial. Sem dizer uma palavra, o grupo de Rhodan saiu do
alojamento pouco acolhedor.
O transporte até
o local da grande assembléia foi realizado em grandes veículos em forma de
tanque. Tako Kakuta teve a impressão de que no dia anterior, quando o guarda
estava sendo levado ao local em que seria submetido à lavagem cerebral, já
estivera num veículo desse tipo.
Ao descerem,
viram-se cercados por uma companhia de robôs de combate.
“Se esses camaradas de brinquedo nos
acompanharem até a sala de conferência e não tirarem seus radiadores de nós,
nossa situação poderá tornar-se bastante difícil”, pensou Tama Yokida, e
experimentou o peso de um dos robôs.
Escolheu um dos
indivíduos metálicos que estava na fileira de trás, onde não podia ser visto
por seus amigos sem alma, nem por qualquer dos saltadores.
Tama Yokida
limitou-se a “brincar” ligeiramente
com ele. O esforço que teve de fazer para levantar o robô numa altura de
cinqüenta centímetros não foi maior que o de quem mexe um dedo.
A experiência
durou menos de um segundo. E Tama Yokida ficou satisfeito com o resultado. Caminhando
com a maior tranqüilidade atrás dos amigos, entrou no gigantesco salão. Quando viu
mais de mil patriarcas enfileirados em confortáveis poltronas, conteve a
respiração por um instante.
Nunca esperaria
encontrar essa multidão de caciques dos clãs.
Marshall fez uma
descoberta: apesar dos documentos de Levtan, nenhum dos patriarcas que se
encontravam no recinto acreditava uma palavra daquilo que o mesmo dizia a
respeito de Perry Rhodan.
À sua frente, de
ambos os lados, atrás deles, estavam os robôs, e mais ao longe grupos de
saltadores armados.
Foram conduzidos
pelo largo corredor central em direção ao presidente da grande conferência.
Banhado em suor,
Levtan estava em sua pequena tribuna e olhava para os membros de seu clã como
um homem que está prestes a morrer afogado.
Não sabia mais o
que fazer. Ninguém acreditava nele nem nas provas que apresentava — nos
desenhos, nas fotos em três dimensões, nos filmes.
— Isso não passa
dum truque barato! — gritou um dos patriarcas depois que um terço do filme
havia sido rodado, e a tela mostrou a decolagem de vinte e dois couraçados que
traziam o nome Stardust com uma numeração seguida.
Levtan gritou de
volta. Sabia que seu filme não era nenhuma falsificação. Ele mesmo fizera a
fotografia em Vênus. Quando se arriscou a isso, por pouco não cai nas mãos de
um grupo de guardas de Rhodan. Lembrava-se de todos os detalhes, mas suas
palavras apenas provocavam uma desconfiança tola e odienta.
Queria ajudar os
saltadores! Era o único que poderia mostrar-lhes a maneira de escapar ao perigo
representado por Perry Rhodan.
Perry Rhodan —
era este o poder mais imenso que jamais existira em meio às estrelas. O poderio
de Perry Rhodan equivalia ao triplo daquele que o Império de Árcon atingira nos
seus melhores tempos.
Com a voz rouca
e suplicante, gritou:
— ...a cada
cinco dias que passam um cruzador pesado é construído. As naves de Perry Rhodan
brotam do solo de Vênus que nem cogumelos. Mercadores, eu... eu vi com estes
olhos... eu, que já fui um dos seus, e que fui tratado por Perry Rhodan como se
fosse um cachorro. Rhodan nos odeia. Se nos atrevermos a atacá-lo, seremos
destruídos. Caçará os nossos clãs um por um...
Um raio de
choque fechou-lhe a boca e o filme pôde ser rodado sem ser interrompido por sua
cantilena de ódio.
Etztak,
patriarca do clã de Orlgans, viu a tripulação da Lev-XIV entrar. Afundado em
sua poltrona e escondido atrás das costas largas do gigantesco patriarca Slurd,
absorvia todas as impressões com sua vigilância instintiva, sem deixar que nada
o comovesse. Também o filme não o comoveu.
Não acreditava
nas imagens que estavam sendo projetadas, e muito menos nos vinte e dois
couraçados, sem falar na afirmativa infantil de Levtan, segundo o qual a cada
cinco dias Perry Rhodan construía um cruzador pesado em Vênus.
Ninguém lhe
tirava da cabeça a idéia simplista de que ainda hoje os milagres demoram para
serem feitos.
— Gostaria de
saber por que Goszul mandou trazer essa gente da prisão — disse a Virn,
patriarca do clã de Sanko, que estava sentado à sua direita, acariciando
nervosamente a longa barba. — Será que teremos que ouvir de novo toda a série
de mentiras infames?
O vizinho da
esquerda de Etztak era Gaxtek, o homem que há muitos anos quase foi arruinado
pelas falcatruas de Levtan. Deu uma cotovelada no patriarca dos Orlgans,
chamando a atenção do mesmo para o espetáculo que se desenrolava na mesa
diretora, formada por um grupo de nove patriarcas.
Entre esses nove
patriarcas um dos documentos de Levtan passava de mão em mão, enquanto o clã e a
tripulação dos párias se ia agrupando em torno de seu comandante. Três robôs
mantinham-se mais ao longe, prontos para dirigirem impiedosamente os raios
mortíferos de suas armas sobre os proscritos. Seu centro positrônico estava
regulado especialmente sobre os párias.
Pela primeira
vez Etztak endireitou o corpo e, lançando os olhos por cima do ombro largo de
Slurd, contemplou a mesa diretora.
Estreitou os
olhos. Pensou que estivesse vendo uma alucinação. Viu que os membros da mesa
diretora demonstravam um interesse surpreendente ao examinarem um dos
documentos de Levtan. O patriarca Goszul formava o centro do grupo que discutia
animadamente.
Levantou a
cabeça e dirigiu uma pergunta a Levtan. Etztak começou a desconfiar também dos
seus ouvidos. Que tom de voz era este que Goszul punha na sua pergunta?
O pária viu suas
chances subirem. Até agora respondera com a voz estridente, ou em tom choroso e
suplicante. Agora respondeu com a voz firme:
— Produção
diária de destróieres da classe C, três unidades; da classe G, quatro unidades,
e oito unidades da classe H, a maior de todas.
Mais uma vez
Goszul discutiu animadamente com os membros da mesa diretora da grande
conferência. Depois de algum tempo ordenou:
— Vejamos o
segundo filme. Projeção, por favor!
Etztak voltou a
mergulhar em sua poltrona, desaparecendo atrás das costas do gigantesco
patriarca Slurd. Não se interessou pelo filme que estava sendo projetado, nem
respondeu às perguntas de Gaxtek.
Apenas seu corpo
se encontrava no gigantesco salão. Em pensamento estava no interior de sua
nave, e esta estava envolvida num combate com os cruzadores de Perry Rhodan.
Naquele tempo
acontecera alguma coisa — uma coisa impossível, mas real. O que seria?
Etztak mergulhou
cada vez mais profundamente nessa indagação; pretendia descobrir a resposta,
custasse o que custasse.
Não via nem
ouvia o que se passava em torno dele. Foi o único patriarca que não participou
da grande conferência.
* * *
O grupo de
Rhodan encontrava-se no meio do clã de Levtan. Praticamente no centro do grupo,
mantinham-se bem juntos e, tal qual o patriarca, assistiram a um filme que os
teria entusiasmado — se representasse a verdade.
O filme
tridimensional mostrava uma gigantesca batalha espacial. As esquadrilhas de
couraçados e cruzadores de Perry Rhodan lutavam contra um inimigo que era muito
mais forte que ele, para quem se baseasse no número de naves.
Levtan arriscou
um comentário.
— Local da
batalha: a Nebulosa de Xaders.
A Nebulosa de
Xaders era um dos nomes encontrados no catálogo estelar dos mercadores. Perry
Rhodan não se esquecera de nenhum detalhe, quando refletiu sobre o que Levtan
devia dizer a respeito desse filme para que os que o ouvissem acreditassem
nele.
O catálogo dos
saltadores encontrado na Lev-XIV prestara-lhe ótimos serviços. A Nebulosa de
Xaders ficava na extremidade oposta da Via Láctea, e entre os mercadores era
conhecida como a região mais perigosa da Galáxia. Até agora toda e qualquer
nave que se aproximasse da Nebulosa de Xaders a menos de cinco unidades
astronômicas desapareceria sem deixar vestígio. Nenhum pedido de socorro,
nenhuma nave salva-vidas dava notícia do desastre. E agora o filme de Perry
Rhodan desvendava o segredo da Nebulosa de Xaders.
O formato das
naves utilizadas pela raça que habitava a Nebulosa era estranho e apavorante.
Consistiam de três gigantescas esferas grudadas umas às outras. A do centro
tinha um gigantesco furo que a atravessava de lado a lado e devia ter um
diâmetro de quinhentos metros.
O filme mostrou
a vitória de Rhodan sobre a raça da Nebulosa de Xaders.
Quando a fita
terminou, o pavor tomou conta da grande assembléia. Todos se mantinham em
silêncio, e assim continuaram, inclusive Levtan.
Ninguém deu
atenção aos quatro homens do clã de Levtan que se mantinham bem unidos em meio
aos tripulantes da nave.
Dois deles
estavam trabalhando: Kitai Ishibashi, o sugestor, e John Marshall, o telepata.
Lançando mão de
todas as suas energias mentais, o médico e psicólogo japonês obrigou o
patriarca Goszul a submeter-se à sua vontade. De início concentrou a força de
seus dons sobre ele. Sem que o soubesse, Goszul sentiu os efeitos tremendos do
método progressivo.
“Acredite no que o filme acaba de mostrar e
nos dados constantes dos documentos. Acredite naquilo que Levtan e seu clã
estão prontos a declarar sob juramento. O poder de Perry Rhodan é infinitamente
superior ao de vocês. Desista da idéia de atacar a Terra ou voar para a base de
Vênus. Seria um vôo para a morte.”
John Marshall
encarregou-se dos cérebros dos homens que ao lado de Goszul dirigiam os trabalhos
da grande conferência. O poder de sua mente não era igual ao do japonês, mas
tornou mais fácil a este mergulhar os patriarcas na hipnose profunda, fazendo
com que acreditassem estarem agindo por sua livre vontade.
O silêncio que
reinava no recinto rompeu-se como uma fina parede de vidro. Numa pergunta
proferida em tom estridente, o patriarca Resd exigiu que Levtan lhe prestasse
as informações que desejava.
Levtan
acreditava no que estava dizendo. Acreditava ter visto e sentido tudo aquilo. E
também acreditava no ódio que nutria por Rhodan. Foi justamente esse ódio
desenfreado que tornou plausíveis suas informações.
Um cérebro atrás
do outro submetia-se a Ishibashi. Os patriarcas iam reconhecendo que, se
atacassem Rhodan, estariam selando sua própria destruição.
Do lado direito
do recinto o pânico começou a fermentar e ameaçava transbordar. Com a voz
estridente Levtan gritou sua resposta nessa direção.
— Vi a arma.
Quando Rhodan a acionou, uma enorme cadeia de montanhas desapareceu sem deixar
para trás nem uma nuvem de gases. Quando fugi, essa arma estava sendo montada
em todas as naves de Rhodan.
Goszul começou a
falar. Em tom autoritário exigiu silêncio, mas o pânico espalhou-se como um
veneno sutil.
— Será que
aquilo que acabamos de ouvir não basta? O último filme do arquivo de Rhodan
ainda não nos convenceu? Isto sem falar nos documentos que se encontram diante
da mesa diretora da grande conferência. Patriarcas dos mercadores galácticos,
um pária nos adverte para que não percorramos a trilha que levará nossa raça à
destruição. Não quero convencer ninguém com as minhas palavras. Não posso
exibir os documentos de Levtan a todos os patriarcas. Peço aos ocupantes das
primeiras três fileiras que se levantem e venham olhar.
Kitai Ishibashi
realizou um trabalho inacreditável. Suas forças mentais haviam desencadeado o
pânico. Um cérebro atrás do outro estava sendo submetido ao poder de sua mente.
Os patriarcas se iam convencendo da veracidade das declarações de Levtan e
começavam a temer a força de Rhodan.
Indiferentes
como os membros do clã dos párias, Tako Kakuta, o teleportador, e Tama Yokida
estavam imprensados em meio ao grupo. Limitavam-se a observar, a registrar os
acontecimentos.
Viram que o
lance galático de Perry Rhodan colocava os mercadores numa posição de
xeque-mate.
Subitamente o
coração de Kakuta começou a palpitar. Onde estava Levtan? Não o via em parte
alguma.
Por algumas
frações de segundo conseguia enxergar o lugar em que o pária, de pé numa
pequena tribuna, fizera suas declarações. Os patriarcas curiosos que se
dirigiam à mesa iam obstruindo a visão.
Será que Goszul
chamara Levtan, para fornecer explicações sobre os documentos aos membros da
mesa diretora?
Tako Kakuta não
conseguiu descobri-lo por lá. Tama Yokida notou algo de estranho no amigo.
— O que houve? —
cochichou.
— Levtan
desapareceu — respondeu o teleportador, também em voz baixa.
Tama Yokida
virou-se para os robôs. Os vigilantes continuavam no mesmo lugar, com as armas
apontadas para eles.
— Deve estar
aqui.
— Mas onde? Não
o vejo! A esta hora devíamos vê-lo — disse Kakuta com a voz quase
incompreensível. Sentiu que uma aflição tremenda começava a sacudi-lo.
Deu uma
cotovelada em John Marshall. O retorno ao mundo real quase chegou a ser
doloroso para o australiano. A interrupção consumira tamanhas energias mentais
que no momento não foi capaz de entender os pensamentos de Tako Kakuta.
O teleportador
teve que transmitir-lhe a notícia inquietante aos cochichos.
Marshall, que
era bem mais alto que o teleportador japonês, procurou localizar Levtan.
Não o encontrou.
Não estava junto à mesa diretora, onde os patriarcas continuavam a
acotovelar-se, nem no meio da multidão, nem no largo corredor central.
— Quando começou
a notar a falta dele? — perguntou Marshall tranqüilamente.
— Há dez
minutos; talvez sejam oito. Não sei dizer exatamente. Procure-o, Marshall. É a
primeira vez que tenho medo de verdade. Parece que alguma coisa não deu certo.
O nervosismo de
Tako Kakuta foi contagiante. John Marshall respondeu com um ligeiro aceno de
cabeça, e através de suas energias telepáticas procurou localizar Levtan.
* * *
Etztak viu que
os patriarcas que se encontravam nas primeiras três filas levantaram-se e
correram para a mesa diretora, a fim de apresentar as provas oferecidas por
Levtan.
Etztak, patriarca
do clã de Orlgans, também se levantou, e isso com uma rapidez de que ninguém o
julgaria capaz. Sua poltrona ficava próxima ao corredor central.
Resmungando
desculpas, abriu caminho entre quatro patriarcas, viu-se no corredor e olhou
para a saída principal.
Acenou
ligeiramente com a cabeça e aguardou os acontecimentos.
No primeiro
minuto não aconteceu nada, mas dali a dois minutos Levtan não estava mais na
sua tribuna. Um dos mercadores que tinham ido à mesa diretora passou tão perto
que esbarrou nele. Pediu desculpas. Etztak fez uma careta.
Dali a um minuto
— ou seja, três minutos depois de se ter levantado — virou-se lentamente, como
alguém que respira profundamente antes de dar um salto.
* * *
Quando Marshall
lhe apertou o braço com tamanha força que parecia querer arrancar-lhe o bíceps,
Tako Kakuta percebeu que tinha havido uma catástrofe.
— Etztak e o clã
de Orlgans levaram Levtan para submetê-lo à lavagem cerebral! — cochichou
Marshall aflito.
“Isto é o fim”, pensou Kakuta num acesso
de pânico. Ia voltar-se para Marshall, mas deteve a cabeça em meio ao
movimento.
Marshall movia
os lábios. Cochichava uma ordem quase imperceptível. A ordem era dirigida a
Kitai Ishibashi.
O sugestor
compreendeu. John Marshall sabia localizar Levtan e ler seus pensamentos, mas
nada podia fazer para impedir a lavagem cerebral. Nem mesmo Kitai poderia
evitá-la. Mas podia fazer outra coisa.
Marshall captou
a angústia mortal de Levtan. Identificou todos os pensamentos: a defesa
desesperada do pária, os golpes que distribuía com as mãos e os pés para não
ser submetido à lavagem cerebral. Sabia qual fora o destino da grande massa de
indivíduos submetidos a essa tortura. Todos perderam a razão em virtude do
tratamento.
Marshall também
captou os pensamentos de Etztak. Etztak — esse nome equivalia a um sinal de
alarme. Etztak desconfiara e resolvera agir imediatamente.
John Marshall
lembrou-se do povo escravizado do planeta, e lembrou-se da Terra indefesa e do
destino que a aguardaria se os saltadores pusessem os pés nela. Seria a escravização
total.
O aparelho que
agiria sobre a mente de Levtan devia ter sido ligado. A lavagem cerebral! Seria
a revelação do lance galático de Perry Rhodan!
John Marshall
pensou na Terra e no destino que a aguardava, quando indicou a posição a
Ishibashi.
9
Com o rosto
petrificado Etztak contemplou os quatro homens de seu clã, que acabavam de
dominar Levtan.
O pária
defendera-se desesperadamente.
Um dos filhos de
Orlgans fora jogado ao chão, gemendo e segurando o ventre. Seu sobrinho mais
novo estava enxugando o sangue do queixo. Mas Levtan teve de capitular diante
da tremenda superioridade. Com uma cruel indiferença Etztak viu que os feixes
de radiações cingiam o peito do pária. Dentro de poucos segundos o respectivo
campo energético estabilizou-se, condenando o pária à imobilidade.
— Saia da
frente! — gritou Etztak para o sobrinho.
— Sim senhor —
fungou o jovem mercador e saltou para o lado.
O próprio Etztak
pôs o aparelho a funcionar.
Os protestos
desesperados de Levtan cessaram. O pária conformara-se com o destino cruel. Não
acreditava num milagre que pudesse salvá-lo. E para ele não houve nenhum
milagre.
Limitou-se a
atirar a cabeça para trás — era a única parte do corpo que conseguia mover.
Depois disso foi atingido pela força do aparelho, que penetrou nas idéias e nas
memórias armazenadas em sua massa cinzenta.
— Etztak — disse
com um gemido — os deuses castigarão você e seu clã por...
Não completou a
frase.
Levtan já não
era senhor de si mesmo. Teria que entregar todo o saber, todos os mistérios que
se encerravam em sua mente, e pagaria isso com a razão.
O patriarca
cruel saltou para a frente.
— Saiam a frente!
ordenou, aproximando-se de Levtan e lançando-lhe um olhar preocupado. — O que
houve com o traidor? — gritou. — Será que está morrendo? — apontou para Levtan,
cuja cabeça estava imóvel, levemente inclinada para o lado.
* * *
Quando percebeu
que não conseguia captar mais nenhum pensamento de Levtan, Marshall soube que a
lavagem cerebral fora iniciada.
A catástrofe
aproximava-se vertiginosamente. Etztak estava a ponto de desvendar o mistério
em torno das relações entre Levtan e Perry Rhodan.
A mais de mil
anos-luz do sistema solar, a destruição da Terra estava sendo encetada no
planeta de Goszul.
John Marshall
transformara-se num tático frio. Sobrecarregando suas forças ao máximo
interveio em tudo, não negligenciou nada, não perdeu nenhuma oportunidade.
Arranjou tempo para orientar as forças de Kitai Ishibashi para outro objetivo e
dar uma ordem terrível a Tako Kakuta, o teleportador.
— Prepare-se
para um salto para o depósito de bombas.
O delicado
japonês nem pestanejou ao receber a ordem de Marshall. Preparou-se; sabia que a
qualquer momento a catástrofe poderia desabar sobre eles.
As forças
telepáticas de John Marshall voltaram a exercer-se na área em que Levtan estava
sendo submetido à lavagem cerebral.
Kitai Ishibashi,
o sugestor, trabalhou mais uma vez sobre Goszul, antes de unir suas forças às
de Marshall.
A cabeça calva
do saltador virou-se ligeiramente para a tripulação da Lev. Não notou a
ausência do comandante dos párias. Os três guardas-robôs continuavam no mesmo
lugar. Cochichou alguma coisa para o homem que se encontrava a seu lado. Este
acenou com a cabeça e levantou-se. Pouco depois Tako Kakuta viu-o atrás dos
robôs. Os robôs foram dispensados.
Os verdadeiros
tripulantes da Levtan nem o perceberam. O ligeiro nervosismo causado pelo
desaparecimento do comandante proscrito já cessara.
Kitai Ishibashi
trabalhou depressa. Mas o perigo ainda não fora removido; continuava grave como
antes. Sob a orientação de John, Kitai empenhou todas as forças numa luta
titânica contra o coração de Levtan. O mesmo tinha que ser paralisado, e já!
Etztak não
poderia receber a menor indicação que aumentasse a desconfiança que já se
instalara em seu espírito.
Kitai perdeu por
completo a noção do tempo. Não sabia se o teleportador estava preparado para
saltar, não sabia se Goszul providenciara para que os três robôs fossem
afastados, não sabia se os tripulantes da Lev já deixaram de preocupar-se com o
desaparecimento de seu comandante. Crescera acima de si mesmo.
Em suas mãos
jazia o destino dum mundo — a Terra. E houve mais um estímulo que lhe conferia
energias titânicas: Perry Rhodan confiava em sua capacidade. Ele mesmo, um dos
combatentes da Terceira Potência de Perry Rhodan e do futuro império cósmico,
travava o combate mais cruel de sua vida.
Subitamente os
músculos cardíacos de Levtan contraíram-se num espasmo, enrijecendo sob a força
das energias hipnóticas. Kitai percebeu que em certo setor do espaço, onde
Levtan estava submetido ao poder de Etztak, não havia mais nada que
representasse o comandante dos párias.
Levtan não
poderia revelar o plano de Perry Rhodan. Seu coração parara. Mas o perigo
continuava a aproximar-se do grupo.
Esse perigo era
Etztak, um patriarca que não recuava diante de nada, o protótipo do mercador
galático, que não hesitava em valer-se dos métodos mais brutais para alcançar
seus objetivos.
— Tirem-no
daqui! — berrou, apontando para o cadáver de Levtan. — Tragam dois ou três párias
de seu clã. Quero saber o que está atrás dessas declarações a respeito de
Levtan.
Tama Yokida
estava condenado a um papel de simples observador. O treinamento a que Rhodan o
submetera dava-lhe forças para não mostrar o menor sinal de inquietação, mas na
verdade toda a mente do japonês, geralmente tão equilibrado, fervilhava.
Viu que Kitai
Ishibashi, o sugestor, quase se consumia no esforço interior, chegando
progressivamente à exaustão total; descobriu os primeiros sinais de fraqueza em
John Marshall, o telepata; e viu que Tako Kakuta, que se encontrava a seu lado,
concentrava-se para o salto. Finalmente, Tama Yokida viu que o pânico se
espalhava entre as fileiras de poltronas que nem um veneno sutil, apossando-se
das mentes dos patriarcas, em cujos cérebros ganhava corpo a idéia de que
qualquer ataque a Perry Rhodan ou ao seu planeta traria a morte.
Nada parecia
indicar a iminência duma catástrofe, mas Tama Yokida viu a mesma aproximar-se.
— Traga uma
bomba! — cochichou Marshall ao ouvido de Kakuta. — Faça-a detonar dentro de
três minutos. Mande este salão para os ares.
Tako Kakuta não
saltou imediatamente. Mudou de lugar, passando entre Marshall e Ishibashi. Os
dois cobriram-no com seus corpos.
Foi nesse
instante que o teleportador saltou para o depósito de bombas. Rematerializou-se
sobre uma pilha de bombas. O pouso não fora totalmente silencioso. Ligeiramente
abaixado, mantinha-se de pé sobre os artefatos de vinte centímetros de
comprimento, aguçando o ouvido. Três bombas haviam batido ruidosamente umas
contra as outras.
Ouviu passos. O “rosto de mercador” de Tako Kakuta,
inalterado sob a máscara, contorceu-se num sorriso. Os passos que acabara de
ouvir eram dum ser de carne e ossos.
Será que os
saltadores usavam os goszuls — os escravos — como guardas?
A pilha sobre a
qual se encontrava tinha mais de três metros de altura. As outras pilhas, muito
numerosas, não eram menos altas. As passagens existentes entre as mesmas
pareciam vielas estreitas.
O guarda surgiu
de trás de uma das pilhas. Aproximava-se sorrateiramente, segurando uma arma de
impulsos em cada mão, mas não olhava para cima. Nem desconfiava de que o perigo
pudesse estar ali.
Sem fazer o
menor ruído Tako Kakuta pegou uma das bombas. Era leve: pesava menos de trinta
quilos. Era quanto bastava.
O guarda estava
bem embaixo dele. O saltador estacara em meio ao passo que ia dar.
“Que diabo”, pensou Tako Kakuta
contrariado, “esse sujeito tem um ouvido
excelente. Sabe perfeitamente que foi daqui que veio o barulho.”
Ao soltar a
bomba, não causou o menor ruído. Mas houve um forte baque quando a mesma bateu
na cabeça do mercador. E um verdadeiro estrondo fez-se ouvir quando deslizou
pelo corpo do saltador e bateu no chão.
Tako contou até
dez. Tudo continuou em silêncio no interior do depósito. Não havia outro guarda
além do saltador inconsciente.
O teleportador
lembrou-se da ordem de Marshall:
— A bomba tem
que ser detonada dentro de três minutos.
O incidente já
lhe custara um minuto! E aqui havia um estoque imenso de bombas de todos os
calibres, mas nenhum detonador.
Teleportou-se
para a viela que começava ao lado do mercador inconsciente. As duas armas de
impulsos vinham bem a propósito. Mudaram de dono. Tako Kakuta enfiou a bomba
sob o braço e saiu correndo pela passagem entre as pilhas. Com quatro passos
atingiu o primeiro cruzamento. Olhou apressadamente para os lados, estendeu a
mão e pegou um detonador.
Noventa segundos
já se haviam passado quando o detonador estava preso à pequena bomba atômica.
No mesmo
instante Tako Kakuta teleportou-se de volta para o salão em que estava sendo
realizada a grande conferência dos patriarcas.
* * *
— Dentro de três
minutos deverá ser detonada! — dissera John Marshall ao teleportador. Com isso
dera aos amigos um prazo extremamente curto para escaparem ao perigo.
Se usassem o
largo corredor central gastariam mais de um minuto para atingir a saída, isso
se nenhum patriarca procurasse detê-los. E ainda tinham de contar com a
possibilidade de, lá fora, se defrontarem com os robôs.
— Vamos usar a
saída que fica atrás da mesa diretora! — cochichou Marshall.
Mais uma vez
Kitai Ishibashi concentrou todas as energias. Mais uma vez derramou suas forças
sugestivas sobre a multidão dos patriarcas que se comprimia em torno da mesa. A
sugestão profunda dirigida aos saltadores, no sentido de que estes não vissem
nada de anormal em sua saída, foi breve e potente.
O dia do planeta
de Goszul era mais longo que o dia terreno. Apesar disso Marshall baseava-se
nos minutos de nosso planeta.
Levaram quarenta
segundos para atingir a estreita passagem lateral.
Atrás deles o
pânico continuava a espalhar-se. Em centenas de cérebros fixara-se a idéia de
que seria uma loucura envolver-se numa luta com Perry Rhodan.
Tama Yokida viu
um veículo parado na outra extremidade do gigantesco edifício. Lançou mão de
suas energias telecinéticas.
O veículo
aproximou-se vertiginosamente, desviando-se dos obstáculos que se interpunham
em seu caminho, como se alguma pessoa extremamente hábil o dirigisse. Enquanto
percorria os últimos cem metros, viram que estava ocupado.
Mais uma vez
Kitai Ishibashi interveio. O método progressivo durou apenas alguns segundos.
Foi o tempo suficiente para que o mercador que se encontrava no interior do
veículo se esquecesse de que, apavorado, fizera tudo para parar o carro. Sem
demonstrar o menor espanto, desceu, cumprimentou os três estranhos e disse:
— Entrem, por
favor.
John Marshall
acabara de contar o segundo minuto. Restavam-lhes sessenta segundos para
afastarem-se a uma distância suficiente até o momento em que Tako Kakuta fizesse
detonar a bomba no interior do salão.
Saltaram para
dentro do carro. O veículo acelerou a toda e saiu em disparada. Reunindo as
forças de seu cérebro, Marshall voltou a escutar o que se passava nos cérebros
dos patriarcas que se comprimiam em torno da mesa diretora.
Um misto de medo
e cólera atingiu-o como uma interferência perturbadora. Levou alguns segundos
para encontrar uma explicação para a confusão. Depois compreendeu o que se
passava lá dentro.
Etztak enviara
alguns homens do seu clã para trazer outros homens da tripulação da Lev que
serviriam de vítimas para a lavagem cerebral, e os párias resolveram
defender-se.
Nesse instante
Kitai Ishibashi berrou pela terceira vez:
— Quanto tempo
nos resta?
Num processo
doloroso Marshall retornou à realidade que o cercava. O veículo passava por um
grupo de robôs. Os seres mecânicos não lhe deram atenção; controlavam apenas a
saída principal.
Tama Yokida
pilotava o veículo voador. No momento em que entrava na larga avenida que ia
para o espaçoporto, forças gigantescas atiraram o veículo para o alto.
O grito de Kitai
Ishibashi foi engolido por um rugido primitivo.
* * *
Com a bomba
ativada sob o braço, Tako Kakuta materializou-se no subterrâneo do gigantesco
salão.
Cautelosamente
colocou a bomba no chão, fez mais um salto e, que nem um macaco, ficou preso ao
teto do salão, no ponto exato em que as quatro travessas que sustentavam o teto
se encontravam. Lançou um olhar para a profusão de crânios de patriarcas. Para
ele isso representava um exame de posições.
Numa
teleportação vertical desceu novamente ao subterrâneo. A escuridão não
constituía nenhum obstáculo. Bem ao longe, na outra extremidade do teto abobadado,
uma lâmpada espalhava sua luz débil. Com a bomba sob o braço, voltou a realizar
um salto.
A luz foi apenas
suficiente para ler a escala do detonador.
O prazo de três
minutos havia chegado ao fim. Tako tinha certeza absoluta. Seu sentido do tempo
nunca o enganava.
A detonação se
daria dentro de dez segundos.
Por um instante
lembrou-se de John Marshall, Tama Yokida e Kitai Ishibashi. Naquele instante
julgava os amigos capazes de realizar o impossível. O contador de tempo do
detonador começou a funcionar.
Tako Kakuta
concentrou-se no espaçoporto e saltou em direção ao mesmo.
* * *
Sem que ninguém
o percebesse, Thora, a arcônida, entrou na sala de comando da Stardust-III. A
mulher alta e bela, uma das poucas criaturas do império estelar de Árcon que
não se deixara dominar pela letargia sob a qual o poderio dos arcônidas se
esfacelava, lançou um olhar indagador para Crest.
— Estão
perdidos, desaparecidos, não é? — a pergunta não representava uma simples
constatação, mas uma afirmativa terminante, que não admitia a menor contradita.
Bell virou-se
abruptamente na sua poltrona.
— Pois está
enganada! — disse em tom agressivo. Havia ocasiões em que não suportava o
pessimismo virulento dos arcônidas. E hoje era uma dessas ocasiões.
— Pois prove que
estou errada, Reginald Bell! — respondeu a arcônida em tom mordaz, sem dar
atenção a Crest, que colocou a mão sobre seu braço, pedindo-lhe que procurasse
dominar-se.
Thora não queria
dominar-se. Depois de tanta demora desejava ir para Árcon, para casa. Queria
obrigar Perry Rhodan a cumprir sua promessa.
De tão nervosa
que estava, não notou o brilho suspeito nos olhos de Bell. Mas Perry viu-o e já
estava adivinhando a resposta que o esquentado Bell soltaria.
— Com o maior
prazer, Thora — principiou Bell num tom pacato que dava para desconfiar. — A
prova está naquilo que a senhora vive afirmando. Para a senhora somos bárbaros semi-selvagens.
Acontece que uma criatura semi-selvagem é, sob todos os pontos de vista, mais
estável e resistente que um povo altamente evoluído, que atingiu um estágio em
que se transformou num grupo de deuses indolentes. Espere aí, Thora, a senhora
ainda não ouviu as provas que tenho a oferecer...
Ainda estava
rindo depois que a escotilha que dava para o corredor principal da nave se
fechara atrás da arcônida, que se retirara apressadamente.
Crest
aproximou-se de Bell; parecia pensativo.
— Se um dia Thora
voltar a praticar um ato que para o senhor é uma tolice perigosa, a culpa será
sua.
Bell fez um
gesto de desprezo e ia reclinar-se confortavelmente no assento, quando o alarme
de localização começou a uivar.
As naves dos
saltadores estavam decolando do planeta de Goszul. Não era duas ou três, nem
dez. A localização registrou mais de cem naves. As pessoas que se encontravam
na sala de comando lembraram-se da pequena explosão atômica ocorrida no
planeta. Menos de meia hora se passara desde então.
— Abalos estruturais!
— gritou exaltado o oficial que controlava os rastreadores. — Meu Deus, tão
perto!
O “perto” dizia respeito ao planeta de
Goszul.
Agindo
desarrazoadamente, as naves dos saltadores lançaram-se à transição, sem a menor
consideração pelo planeta habitado.
— Uma série
ininterrupta de transições! — continuou a falar o oficial em tom exaltado.
Subitamente a
voz de Perry Rhodan fez-se ouvir. Era uma voz que impunha silêncio a todos.
— Realizaremos a
transição dentro de oito segundos. Daremos um salto de volta numa distância de
oito dias-luz.
A programação da
Stardust-III e dos três cruzadores pesados de Rhodan era atualizada
constantemente pelo grande cérebro positrônico do supercouraçado, para que a
qualquer momento pudesse realizar uma transição no mais curto espaço de tempo.
— ...quarenta e
três ...quarenta e quatro ...agora são três de uma vez ...quarenta e oito... —
contava o oficial que controlava o rastreador estrutural.
Para a frota de
Rhodan ainda faltavam cinco segundos. Depois a mesma também realizou seu salto
a pequena distância. As quatro naves saltaram ao mesmo tempo, para que houvesse
um único abalo. Com as tensões tremendas a que os saltadores estavam submetendo
a estrutura espacial, seria praticamente impossível que a transição da frota terrena
fosse registrada no planeta de Goszul.
Rhodan e
Reginald Bell olharam-se.
A contagem
automática chegara ao zero. Nas quatro naves o espaço cósmico com o esplendor
dos sóis fulgurantes desfez-se, abrindo-se para envolver o couraçado e os três
cruzadores pesados no processo de transição.
* * *
Tako Kakuta
voltou a materializar-se na sala de comando da Lev-XIV.
Três mercadores
levantaram-se apavorados quando subitamente viram diante de si um homem vindo
do nada. Mas o pavor ainda não se desenvolvera em toda plenitude quando, num
gesto automático, moveram as mãos para pegar as armas.
Sem perder o
sangue-frio, Tako apertou o gatilho das duas armas de impulsos de que acabara
de apoderar-se. Disparou três vezes. O sistema de exaustão uivou, expelindo
três nuvens de gases.
O teleportador
virou-se abruptamente. Só agora teve tempo de examinar a sala de comando da
nave dos párias. A escotilha estava fechada. Se havia outros mercadores que
vigiavam a nave, os mesmos não perceberam a luta que acabara de travar-se.
Os olhos de Tako
passaram apressadamente pelos diversos objetos. De repente os mesmos
arregalaram-se, e Tako praguejou. Um dos instrumentos mais importantes da
Lev-XIV fora destruído: o cristal de pilotagem.
Apavorado,
dirigiu o olhar para a tela de visão global. Procurou desesperadamente outro
veículo espacial cilíndrico do mesmo tipo da Lev-XIV.
Viu um bem ao
longe, quase na extremidade oposta do gigantesco porto espacial. No mesmo
instante teleportou-se para a sala de comando da nave.
Materializou-se do
nada atrás dum saltador que cochilava. A coronha de sua arma não pertencia ao
nada: era a mais dura realidade. A pancada fez o mercador cair ao chão,
inconsciente.
— Bendita seja a
técnica arcônida! — cochichou Tako, enquanto com um simples movimento de mão
arrancou o instrumento com o cristal de pilotagem. A técnica arcônida não
conhecia as perigosas ligações por fios, as soldas que se derretiam com
facilidade ou chaves estampadas inquebráveis.
Eles, os
arcônidas, seguiram pelo caminho mais fácil. Tako Kakuta os estava elogiando
acima de todas as medidas quando a nave foi atingida por uma imensa vaga de compressão,
e meia dezena de suportes se dobraram com um estalo.
Já estava de
volta na Lev-XIV, preparado para enfrentar a onda de compressão.
Arrancou o
instrumento destruído do painel, atirou-o num canto, colocou a peça
sobressalente que acabara de “arranjar”
e não se preocupou quando a onda de compressão também sacudiu a Lev-XIV.
— Bendita seja a
técnica arcônida! — voltou a dizer, e só então aguçou o ouvido para saber o que
se passava lá fora.
A onda de
compressão desencadeada por sua bomba atômica acabara de passar. Não causara o
menor dano à Lev-XIV. No longo caminho que tivera de percorrer até atingir a
extremidade oposta do espaçoporto perdera muito de sua força destrutiva.
Tako pôs-se a
caminho para limpar a Lev-XIV dos mercadores que ainda pudessem importuná-lo
com sua presença. Não encontrou ninguém e pôs-se a esperar na grande comporta. Não
eram eles que estavam chegando? Tako estreitou ainda mais os olhos oblíquos e
sorriu. Aquilo só podia ser Tama Yokida.
O telecineta
transformara o lento deslizador num veículo que se deslocava em vôo rasante.
Com as energias de sua mente fazia-o correr em direção à Lev-XIV. De uma altura
de trezentos metros desceu sobre a nave dos párias.
Até o coração de
Tako Kakuta começou a palpitar quando, ao chegar junto ao solo, perto da rampa,
o veículo ainda desenvolvia uma velocidade tremenda.
Mas não se ouviu
o baque da batida nem o estalo dos materiais que se partiam. O veículo pousou
suavemente. No mesmo instante os amigos de Tako corriam desesperadamente rampa
acima.
— Vamos decolar!
— gritou Marshall. — Estão atrás de nós. Maldito Etztak!
* * *
Etztak viu os
muros de concreto arrebentarem. Parte do teto desabou, soterrando os membros do
clã. Mas não viu nem ouviu nada do inferno que desabava sobre ele.
“As radiações!”, martelava seu cérebro. “A dose é mortal!”
Atirou-se contra
a porta empenada e correu para a sala contígua. Sabia que ali havia trajes
espaciais.
E um traje
desses foi sua salvação. Envergou-o e, passando pelo buraco aberto no teto,
atingiu o ar livre; lutando contra o furacão desencadeado pela bomba, chegou ao
salão de reuniões. Sentiu um frio na espinha. Até onde alcançava a vista só
havia devastação, mas também havia vida.
Passando pela
gigantesca abertura — do teto do salão só restava um terço — flutuou para
baixo. Um olhar para o medidor de radiações mostrou-lhe que a dose já não era
perigosa. Abriu o capacete e gritou para o primeiro patriarca que, cambaleando
por cima dos cadáveres, procurou atingir a saída. Agarrou o décimo, o vigésimo,
e finalmente encontrou alguém que lhe disse que três homens da tripulação de
Levtan haviam abandonado o salão, utilizando a saída atrás da mesa diretora.
Resmungando uma
praga, Etztak fez com que o traje espacial o levasse através do salão. Só viu
cadáveres. Até parecia milagre: a maior parte dos comprovantes de Levtan estava
intacta aos pés de Etztak.
Enfiou-os
apressadamente no bolso. Não havia mais nada a fazer por ali. Passou pela
gigantesca abertura no teto e dirigiu-se velozmente para o espaçoporto.
— Três deles
fugiram — disse numa fúria impotente. — Três elementos desse clã maldito. A
vingança deles foi terrível, mas esqueceram-se de me incluir nos seus cálculos.
Eu os agarro! Minha nave é mais veloz que a deles.
O ódio de Etztak
ia crescendo, e ele nem suspeitava de que Marshall captava seus pensamentos
como se estes tivessem sido emitidos por uma potente emissora.
* * *
Os propulsores
da Lev-XIV uivaram terrivelmente quando a nave se desprendeu do solo,
precipitando-se em direção ao céu luminoso. Estava sendo pilotada por John
Marshall.
Na sala de
comando não foi trocada uma única palavra.
Marshall ainda
se encontrava no planeta de Goszul, embora seu corpo corresse pelo espaço no
interior da Lev-XIV. Experimentou o pânico dos patriarcas que sobreviveram à
bomba de Tako Kakuta.
O medo dominava
todos, mesmo os que não tinham sido submetidos ao tratamento. Era o medo do
poderio de Perry Rhodan. Ninguém pensou na terrível explosão. Ninguém via nela
uma obra de Rhodan. O medo que sentiam por ele sobrepujava tudo.
Tama Yokida
fitou o velocímetro como se fosse um inimigo. A aceleração da Lev-XIV era
terrivelmente lenta.
O planeta de
Goszul foi mergulhando no espaço, transformando-se numa esfera. A tela de visão
global mostrou uma cidade grande e ampla que surgiu na extremidade sul do
continente, até que uma camada de nuvens a cobriu.
— Localização! —
disse Tako Kakuta.
— Estão
chegando! Se não me engano é um grupo de destróieres, mas também há mais grande
nave mercante...
— É Etztak! —
comentou Marshall laconicamente.
— Qual é a
velocidade? — perguntou Ishibashi.
— Estamos indo
muito devagar para viver e muito depressa para viver. Marshall, vamos para a
face noturna. É nossa única chance. Dentro de cinco minutos seremos derrubados
— a voz de Tama Yokida continuava tranqüila.
— Fechar os
capacetes! — ordenou Marshall.
Quatro
destróieres e uma nave mercante dos saltadores aproximavam-se vertiginosamente.
A Lev-XIV descreveu uma curva e correu desesperadamente para a face noturna do
planeta de Goszul.
A altitude era
apenas de 30.000 quilômetros!
Os propulsores
não davam mais que isso. O aparelho de hipercomunicação começou a funcionar.
Uma mensagem
rápida e codificada dirigida a Rhodan.
A mensagem era
formada de apenas três frases:
— Levtan está
morto. A conferência foi desmanchada por uma bomba atômica. Ishibashi
conseguiu...
Foram estas as
únicas palavras captadas pela Stardust-III, que juntamente com os três
cruzadores pesados se mantinha numa posição situada a oito dias-luz do sistema
de Tatlira, onde estava fora do alcance da localização.
Um forte raio
desintegrador esfacelara os campos energéticos da Lev-XIV, atingindo a nave de
raspão.
A popa
desmanchou-se numa nuvem de gases incandescentes. E a ponta caiu sobre a face
noturna do planeta de Goszul.
* * *
“Desceram” da nave a três mil quilômetros
de altura.
Face aos trajes
espaciais arcônidas, essa “descida”
não era nenhum ato tresloucado de desespero.
Cada homem era
uma pequena nave espacial, com seu campo energético, seu propulsor e sua
capacidade de aceleração.
A três mil
quilômetros acima da superfície do planeta de Goszul não passavam de quatro
partículas de pó, tangidos pelas fronteiras do infinito.
Abaixo deles a
ponta da Lev-XIV queimou-se nas camadas densas da atmosfera.
Depois que a
nave fora atingida de raspão não saíram para o espaço em pânico. Ainda tiveram
tempo de levar parte do equipamento habilmente escondido na nave por ocasião da
reforma a que a mesma foi submetida em Terrânia.
Os quatro
mutantes de Perry Rhodan formavam uma corrente. Era uma corrente que se deixava
cair. Só quando atingiram as camadas densas da atmosfera tiveram de lutar
contra as tormentas — fluxos desencadeados pelos jatos e tempestades de mais de
trezentos quilômetros por hora.
John Marshall
foi desviado. Parecia que a noite o havia engolido. Mas Kitai Ishibashi
conseguiu localizá-lo, e Tama Yokida usou suas faculdades telecinéticas para
trazê-lo para junto de si.
Os campos antigravitacionais
dos trajes dos mutantes desenvolviam uma atividade bastante reduzida, pois a
maior parte da energia produzida pelos mini-geradores era destinada aos
envoltórios energéticos. Atravessavam as primeiras camadas de nuvens, e estas
estavam carregadas de granizo. Ao atingirem os campos energéticos, os pedaços
de gelo se assemelhavam a balas. A vibração e as sacudidelas pareciam
ameaçadoras e desagradáveis, mas eram muito mais agradáveis que a lembrança da
impressão causada pelo chiado da popa da Lev-XIV, quando esta se transformou
numa nuvem de gases.
— Atenção!
Estamos a cem metros de altura — disse Marshall.
Os campos
antigravitacionais dos trajes espaciais foram reforçados, e a queda dos
mutantes transformou-se num suave flutuar.
O planeta de
Goszul voltara a recolhê-los — como náufragos.
* * *
Quando o dia
começou a raiar, ligaram os defletores de seus trajes espaciais. No mesmo
instante desapareceram, fizeram-se invisíveis. Conformaram-se com o fato de não
se verem uns aos outros. Através dos pontos de referência geográficos
conseguiam manter contato entre si.
A cerca de cem
quilômetros por hora voaram por cima do continente em cuja extremidade haviam
visto no dia anterior, de bordo da Lev-XIV, uma cidade bastante extensa. Essa
cidade era seu destino. À medida que passavam a pouca altura sobre o solo,
mantendo a direção geral sul, convenciam-se de que o poder dos saltadores não
chegava até lá.
Pelo meio-dia,
John Marshall espantou-os com uma exclamação:
— Olhem a
cidade! Vamos subir mais um pouco, para que possamos vê-la melhor.
A trezentos
metros de altura conseguiram ver a área à qual se destinavam e tiveram todos os
motivos para espantar-se.
— Navios a vela?
— cochichou Kitai Ishibashi no seu capacete, e o rádio embutido transmitiu suas
palavras aos amigos.
— Navios a vela
do século XVIII. Santo Deus, em que era estamos penetrando? E dizem que este
povo descende dos arcônidas. Não acredito.
Marshall
interrompeu-o:
— Silêncio!
Estamos recebendo uma mensagem.
Seu aparelho
portátil de hipercomunicação estava ligado para a recepção.
A trezentos
metros acima da superfície do planeta de Goszul, à vista duma cidade quase
medieval, Marshall recebeu a mensagem de Perry Rhodan. Era uma mensagem
lacônica, codificada e concebida em termos muito gerais.
— Aguardem a
chegada de auxílio! Aguardem a chegada de auxílio!
Estas palavras
foram repetidas vinte vezes. Só então o receptor de hipercomunicação silenciou.
Até o anoitecer não houve nenhum contato.
— Aguardem a
chegada de auxílio!
Para os homens
do grupo de Perry Rhodan estas palavras eram suficientes. Conheciam o chefe.
Sabiam que não os abandonaria.
* * *
* *
*
*
No momento em
que ia ser submetido à lavagem cerebral, Levtan já devia ter chegado à
conclusão de que o resultado final da traição e do jogo dúbio nunca é
favorável. É bem verdade que para Perry Rhodan o aparecimento de Levtan
representou uma dádiva do destino, pois sem isso não teria conseguido
introduzir quatro dos seus mutantes na grande conferência dos patriarcas dos
saltadores, realizada no planeta de Goszul.
E esses quatro
mutantes — quatro homens terrenos num mundo estranho — continuam a desempenhar
um papel de destaque na nova aventura de Perry Rhodan, relatada no próximo
volume da série: O Planeta dos Deuses.

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