segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

P-034 - Levtan, O Traidor - Kurt Brand [parte 3]


Este já formulara a mesma pergunta, e já respondera à mesma. E já estava agindo!
Mais de cinqüenta mensageiros procuravam um por um os patriarcas do clã. No espaçoporto foi desencadeado o alarma.
Na noite que antecedeu a grande conferência nenhum dos patriarcas dormiu.
Os jatos uivaram e os grupos de destróieres dos mercadores, acompanhados de alguns couraçados, passaram pelo corredor de saída e dispararam em direção ao céu límpido.
Mas Goszul não admitira apenas a possibilidade dum ataque vindo do espaço. Também incluiu em suas cogitações a possibilidade dum atentado contra a grande conferência.
Identificara-se com Perry Rhodan, colocando-se na situação em que este se encontrava. Tal qual Etztak, era de opinião que a força de Rhodan devia ter um ponto muito fraco.
Goszul não quebrou a cabeça para descobrir que ponto seria este. Viu nesse fator o X de seus cálculos, e percebeu que esse X representava um perigo imenso.
O nervosismo na ante-sala cresceu. Ouviu a voz de Sharer. A tela junto à poltrona iluminou-se. O comandante da grande base de artilharia apresentou-se. Sem dizer uma palavra, Goszul recebeu a informação de que todas as posições estavam ocupadas e prontas para entrar em ação.
Enquanto a imagem na tela se desfazia, a voz odienta de Goszul voltou a pronunciar um nome:
— Perry Rhodan!
Não se recordava de que em toda a história dos mercadores galácticos tivesse surgido um ser cuja intervenção e cujos ataques os tivessem obrigado a convocar a grande conferência. Sharer entrou.
— Todos os clãs foram informados. Os patriarcas e os observadores que participarem da conferência, antes de entrar na grande sala, se identificarão através de membros de dois outros clãs, que anunciarão seus nomes.
Nesse instante Goszul teve uma idéia.
— Antecipo o início da conferência por duas horas. Sharer, providencie para que os mensageiros só avisem os patriarcas no último instante.
Quando se viu a sós, disse em tom apreensivo:
— Gostaria que a grande conferência já tivesse chegado ao fim.
Mais uma vez lembrou-se de Perry Rhodan.

7



— Localização!
O grito soou quatro vezes — uma vez na Stardust-III e uma vez em cada um dos três destróieres.
Já o aguardavam há algumas horas, pois o sinal combinado com o grupo ainda não havia chegado.
A dezoito milhões de quilômetros a frota de Rhodan mantinha-se à espera. Eram quatro objetos minúsculos parados na imensidão do espaço, quatro estruturas altamente sofisticadas, cujos hiperrastreadores acabaram de constatar a decolagem de grande número de naves no planeta de Goszul.
— As coisas não estão boas — disse Bell, falando tão baixo que só Rhodan pôde ouvi-lo.
Crest, líder científico dos arcônidas, entrou.
— Não quero insistir — disse — mas não se pode acreditar mais no êxito dos nossos mutantes. Acho que o alarma no planeta diz tudo.
Perry ergueu-se lentamente do assento do piloto. Quando se encontrava diante de Crest, via-se que este o superava em tamanho por cerca de vinte centímetros. Apesar disso havia uma espantosa semelhança entre os dois, embora fossem homens de raças diversas.
— Pois eu acredito no êxito dos meus mutantes — respondeu Perry Rhodan, sem enfatizar suas palavras. — E suponho que nosso cérebro positrônico continua a acreditar nisso. Quer ver no que ele está acreditando, Crest?
Os postos de observação continuavam a fornecer novas indicações.
A frota de guerra dos mercadores descrevia círculos cada vez maiores em torno do planeta do qual decolara.
Dava uma busca sistemática no espaço.
Durante a ligeira caminhada em direção ao cérebro positrônico, Crest mencionou esse fato inquietante.
— Já sei — respondeu Rhodan.
— Pois não demorarão em localizar-nos, tal qual nós constatamos sua decolagem, Rhodan! — advertiu Crest em tom insistente.
— No momento em que a frota dos mercadores decolou começamos a retirar-nos — havia uma ligeira repreensão no tom da voz de Perry. — Não quero arriscar a vida de meus quatro homens.
Crest lançou-lhe um olhar de surpresa. Nunca deixaria de admirar a superioridade desse homem terreno. Sabia perfeitamente que foi graças a ele que Rhodan adquiriu o saber incomensurável dos arcônidas, mas não cometeu o erro de atribuir importância excessiva ao fato, pois a utilização do saber depende das qualidades de cada indivíduo.
A forma pela qual Perry Rhodan manipulava seus conhecimentos causava admiração até a Crest, o arcônida.
O cérebro positrônico da Stardust-III forneceu, traduzidas em algarismos frios, as possibilidades de êxito do grupo de mutantes que se encontrava no planeta de Goszul.
— Mas isso é...
— ...é bom, não é? — interrompeu Perry. — Se houvesse apenas um zero atrás da vírgula, também ficaria satisfeito. O grande cérebro de Vênus calculou que as chances eram de zero vírgula quatro...
Um brilho estranho surgiu nos olhos de Crest.
— E com uma chance de zero vírgula quatro por cento o senhor arrisca a vida de quatro homens?
O gesto de Rhodan fê-lo calar-se subitamente.
— Isso mesmo! — a firmeza com que Rhodan proferiu estas palavras fez com que Crest o compreendesse. Logo ouviu a explicação que se seguiu a essas palavras: — É uma possibilidade de êxito de zero vírgula quatro por cento, mais o fator humano, Crest. Não somos como os arcônidas, para os quais a finalidade da vida consiste em sonhar de olhos abertos. Por isso as chances do grupo de mutantes são bem maiores.
O fator humano representa um mais que nenhum cérebro positrônico pode calcular, nem mesmo o grande cérebro de Vênus. É que todos eles foram construídos por arcônidas.
A voz áspera do oficial do posto de observação interrompeu-os:
— Três destróieres dos saltadores estão saindo do grupo e dirigem-se ao ponto em que nos encontramos...
Imediatamente Perry gritou para Bell:
— Acelerar para o quíntuplo!
Na sala de comando a pergunta para a qual ninguém tinha resposta enchia o ar como se fosse um pesadelo:
— Será que os destróieres dos saltadores nos localizaram?

* * *

— Vou dar uma olhada lá fora — dissera Kakuta há poucos minutos. — Preciso saber o que está acontecendo. Alguma coisa não está certa. Dentro de quinze minutos estarei de volta.
Ninguém se opusera. O teleportador desaparecera para, num salto arriscado, transportar-se ao espaçoporto. O lugar estava banhado numa verdadeira orgia de luzes. Tako Kakuta fechou os olhos ofuscados e saltou para a beira das pistas.
Fora da profusão de luzes, pôde contemplar tranqüilamente a grande área.
Por coincidência viera parar perto da Lev-XIV. Arriscou-se a chegar mais perto e viu que os saltadores entravam na nave e dela saíam pela grande comporta. Essa atividade intensa despertou sua curiosidade.
No mesmo instante não havia mais ninguém no lugar em que Tako Kakuta se encontrara há pouco. Voltou a materializar-se no interior da Lev-XIV, mais precisamente, no recinto destinado a um fim específico, e que por isso mesmo era de dimensões bastante reduzidas.
Acontece que a porta da toalete estava aberta. Lá fora dois mercadores conversavam. Satisfeito, Kakuta ouviu que falavam mal do patriarca Goszul. O fato de que Levtan também era atacado não o abalou nem um pouco.
Riu para dentro ao saber que continuavam a procurar os registros escritos de Levtan.
Tako Kakuta ouvira o suficiente. Concentrou-se no grande edifício situado na periferia do espaçoporto, que vira no instante em que os saltadores o levavam à prisão — e saltou.
Surgiria na sombra do grande edifício. Não havia necessidade de esconder-se. Pelo aspecto exterior e pelas vestimentas não se distinguia dos saltadores. Dobrou lentamente o canto do prédio e aproximou-se dum grupo que discutia junto à entrada.
Quando Tako viu o guarda em meio ao grupo, já era tarde. Este o vira e achava que o fato de ele dobrar o canto direito do prédio tinha algo de errado.
Fazendo um movimento vigoroso com o braço esquerdo, o guarda deixou a linha de tiro livre. Com o outro braço dirigiu a arma paralisadora sobre Tako Kakuta.
O pequeno japonês mascarado de saltador não perdeu a calma.
— Venha cá — gritou o guarda. Em vez de esperar que se aproximasse, o guarda foi andando em sua direção. — Quem é você? E o que andou fazendo no lugar em que estão guardadas as bombas?
Kakuta só absorveu a palavra “bombas”. Numa operação mental instantânea registrou todos os detalhes: a situação do edifício em relação ao espaçoporto, o aspecto da fachada bem iluminada, a fábrica situada de fronte, a rua larga — e o fato de que atrás do edifício, à direita, ficava o depósito de bombas.
— Perdeu a língua? — berrou o guarda.
O grupo de homens que discutia animadamente teve a atenção despertada para o incidente. Dois homens aproximaram-se lentamente.
Tako Kakuta avaliou a situação. Assumia rapidamente os contornos duma catástrofe. No momento não poderia recorrer à teleportação. Não daria uma demonstração de sua arte, pois com isso poria em risco os planos de Rhodan e a vida dos homens do grupo.
— Meu nome é Brom. Pertenço ao clã de Gaxtek — disse em tom atrevido, fazendo votos de não se deparar com nenhum membro do clã de Gaxtek.
Quando viu o sorriso largo que se espalhou pelo rosto do guarda, pondo à mostra os dentes estragados, sentiu que o desastre se aproximava. Mas nem de leve desconfiou de que a situação fosse assumir uma feição tão grave.
— Só se você for da nova nave, a Gax-XXII — disse o guarda em tom desconfiado. — Conheço todos os outros, e nunca vi você.
— O quê? — gritou uma voz sonora vinda mais de longe. — A Gax-XXII. Eu sou dessa nave. O que houve com ela?
— Não fale tanto; venha cá — disse o guarda, virando-se de lado. — Este homem diz que é de sua nave. Você o conhece? Dê uma olhada... — virou a cabeça para não tirar os olhos por muito tempo de cima do suspeito, quando o fato de não ver mais o sujeito lhe fechou a boca.
Tako Kakuta não vira outra saída senão teleportar-se.
O mercador que dizia ser da Gax-XXII e tagarelara por tanto tempo transformara-se na palha em que resolvera agarrar-se desesperadamente. No momento em que todo mundo olhava para o saltador, Tako Kakuta efetuara um salto pequenino, que o transportara até o canto do edifício.
Num cálculo frio e instantâneo, avaliou todas as chances.
Os saltadores não deveriam perceber que era um mutante. Deviam acreditar que seu desaparecimento não era outra coisa senão uma fuga normal. Um deles vira-o dobrar o canto do prédio. O coração de Tako palpitou.
A situação melhorava a olhos vistos.
Saiu correndo. Lembrava-se de que o guarda não trazia nenhum radiador, apenas a arma paralisadora. E o alcance desta não era muito grande. Foi nesse fato que Tako baseou seu plano de fuga.
Fugiu como qualquer outro indivíduo. Sua proteção era a escuridão. Mas aproximava-se cada vez mais do depósito de bombas, e num lugar em que se guardam bombas sempre existem guardas.
É sempre a mesma coisa”, pensou, quando ouviu um grito vindo da escuridão:
— Pare!
Por trás dele os saltadores aproximaram-se. Um deles gritou para o guarda do depósito de bombas:
— Mate-o!
Tako teleportou em meio ao salto e pousou meio esbaforido junto a algumas peças de artilharia pesada.
Dois soldados estavam conversando. O mutante aguçou o ouvido. Falavam no alarme e no fato de que Goszul enviara seus mensageiros aos patriarcas e nos motivos por que o velho não recorrera ao rádio para transmitir suas ordens.
— Você ouviu alguma coisa? — ouviu
Tako, um tanto preocupado, viu um soldado que se aproximava.
Preferiu não aguardar o encontro. Saltou silenciosamente e rematerializou-se no interior de sua cela, limitando-se a perguntar:
— Será que demorei mais de quinze minutos?

* * *

O orgulhoso patriarca Goszul levantou-se no momento em que foi anunciada a chegada do último participante da grande conferência.
Há poucos minutos ainda se sentira martirizado pelas idéias de desastre iminente. Mas agora estava livre das mesmas e regalava-se no respeito que todos tributavam a ele, o descobridor e conquistador do planeta.
Presidia a grande conferência. Fora escolhido por unanimidade. Com uma ligeira alocução abriu os trabalhos. Cumprimentou os participantes pessoalmente, sem citar nomes. Mas enquanto ainda proferia a fala introdutória, seus olhos aguçados procuravam um homem em meio ao grupo de mais de mil e duzentos patriarcas. Era Etztak.
Não o encontrou, nem mesmo quando voltou a sentar-se. E não viu qualquer dos filhos de Etztak. No momento em que ia ordenar que lhe dissessem em que fileira se encontrava Etztak, o orador Kherr mencionou pela primeira vez o nome de Perry Rhodan.
No mesmo instante Goszul esqueceu seu amigo Etztak.
— ...o espaço vital dos mercadores galácticos está ameaçado. Topthor, o superpesado, pagou com suas naves e com a vida de sua gente o fato de ter atendido ao pedido de socorro do patriarca Etztak. Perry Rhodan, um ser vindo do planeta que seus clãs chamam de Terra, recorreu aos recursos dos arcônidas para destruir-nos. O Império de Árcon encontra-se em estagnação. Os herdeiros legítimos somos nós. Nada nos impedirá de solicitar o auxílio de todos os superpesados e, com o auxílio dos mesmos, eliminar o planeta Terra do seio da galáxia. Nosso poder é cem vezes maior que o de Rhodan. Basta que nossos objetivos sejam definidos. Mas antes de abrir a discussão a este respeito, interrogaremos o pária Levtan. Fomos nós que criamos as leis de nossos clãs. Por elas punimos e por elas perdoamos. Sejam quais forem as declarações de Levtan, não se esqueçam, patriarcas, de que veio do mundo de Perry Rhodan. Examinem as palavras de Levtan e as provas que apresenta. Examinem tudo antes de pronunciar o perdão segundo as leis dos clãs, tirando dele a mácula do pária.
— Examinem tudo, mesmo que acreditem que está mentindo.
— Examinem com toda atenção, como se nossa vida dependesse de tudo.
— Examinem, pois temos diante de nós uma questão de vida ou morte. E a morte traz o nome de Perry Rhodan!
À fala seguiu-se um silêncio mortal. As palavras que acabavam de ser pronunciadas traziam uma enorme carga sugestiva.
O silêncio condenou quando Levtan, acompanhado de seis robôs, foi conduzido pelo largo corredor central.
Foi obrigado a sentar-se numa posição em que fitava os dirigentes e todos os participantes da grande conferência.
O olhar de Levtan, que refletia o medo, ficou preso em Goszul.
Este voltou a levantar-se, cruzou os braços diante do peito, lançou um olhar severo para o pária e dirigiu-lhe a primeira pergunta.
— Pária Levtan, onde estão as provas escritas daquilo que você afirmou a respeito de Perry Rhodan?
Um eco soou no recinto.
Rhodan! — respondeu ironicamente.
Goszul viu que alguns dos patriarcas estremeceram, virando o rosto em direção à entrada. Ele mesmo conseguiu com grande esforço reprimir o susto.
— As provas estão em minha nave — respondeu Levtan quase num cochicho.
— Onde? — perguntou Goszul em tom áspero e logo pronunciou a ameaça: — Não pense que com essa tática poderá prolongar a vida...
Num esforço desesperado, Levtan animou-se a uma objeção:
— Não vim de minha livre vontade? — gritou, e seus olhos oblíquos tornaram-se ainda mais estreitos. — Não vim para mostrar-lhes a maneira de destruir Rhodan? Afinal, quem conhece Rhodan?
E o eco escarneceu:
— Rhodan!
Mais uma vez Goszul viu os patriarcas estremecerem e olharem para a entrada, como se esperassem ver Perry Rhodan.
Goszul refletiu ligeiramente. Já por duas vezes esse eco devolvera o nome de Rhodan num tom de escárnio. As frases deviam ser formuladas de modo a reduzi-lo ao mínimo.
— Onde estão os documentos? — gritou para o pária.
— Na sala de comando de minha nave. No cristal de pilotagem — respondeu Levtan em tom submisso. — No segundo cristal de pilotagem.
Os olhos velhos de Goszul dirigiram-se para a entrada onde se encontravam os membros de seu clã. Brilhavam como os dum jovem caçador. Em tom autoritário gritou:
— Desmontem e tragam para cá!
Em tom mais calmo, dirigiu-se a Levtan:
— Conte tudo sobre Rhodan.
Não pôde retirar a palavra. E a mesma foi devolvida.
Rhodan! — gritou o eco.
Goszul sentiu as primeiras gotas de suor porejarem em sua testa enrugada.
— Fale — berrou Goszul para o pária. Perdera o autocontrole diante dos numerosos patriarcas que, dominados pelo eco, estavam encolhidos em suas poltronas, cochichando aos grupos.
Levtan, o pária, iniciou seu relato.

* * *

A situação de Perry Rhodan e sua frota tornara-se mais tranqüila. As naves dos saltadores continuavam a circular em torno do planeta de Goszul, mas não se afastavam mais de cinco milhões de quilômetros. E, o que era mais importante, os instrumentos da Stardust-III revelavam que os mercadores trabalhavam exclusivamente com os rastreadores estruturais, que funcionavam com base em princípios hipergravitacionais. Os mesmos não permitiam uma localização precisa num raio de uma unidade astronômica, mas tornavam-se muito eficientes a distâncias superiores a 150 milhões de quilômetros.
As naves de Perry Rhodan mantinham-se a uma distância de 35 milhões de quilômetros do planeta de Goszul e esperavam. Esperavam uma mensagem de rádio, um ataque. Esperavam que houvesse alguma coisa. Nada aconteceu.
Subitamente o receptor emitiu um som. O decifrador automático revelou o texto da mensagem, que ao ouvido humano só se apresentava sob a forma dum chiado instantâneo.
Rhodan leu o texto e não ocultou o desapontamento. Era uma mensagem vinda de Terrânia. Fora enviada pelo coronel Freyt. O destinatário era Perry Rhodan, chefe do Governo Mundial.
Sem dizer uma palavra, este entregou a mensagem a Bell, que já adivinhava seu conteúdo. Em tom contrariado perguntou:
— É uma guerra de papéis vinda lá de baixo? Lá embaixo — isso significava a Terra, o planeta que finalmente alcançara a união sob a direção de Perry Rhodan, a Terra em que já não existiam os blocos de potências, que viviam gritando uns para os outros que eram mais fortes. Ainda havia três grupos de interesses na velha Terra, mas aos mesmos só cabia a tarefa de entregar-se ao processo de auto-dissolução.
— Leia! — disse Perry ao amigo.
Bell leu bastante contrariado.
— Sempre há uns senhores que querem fazer política. Bem, Freyt lhes dará umas palmadinhas. Não vamos responder, não é, Perry?
— Não vamos responder — respondeu Rhodan laconicamente. Tirou a mensagem das mãos de Bell e entregou-a a Julian Tifflor, que estava de pé a seu lado.
— Jogue isto no desintegrador, Tifflor.
Sem olhar para o papel, Tifflor atirou o mesmo para a grade junto ao autômato. O papel desfez-se sem produzir fogo ou fumaça.
Rhodan lançou um ligeiro olhar para o jovem. Seu rosto delicado, que já trazia as marcas das tarefas desempenhadas nas condições mais adversas, poderia iludir, tal qual os olhos castanhos e sonhadores. Julian Tifflor podia ser tudo, menos frouxo ou macio. Era um dos membros da geração jovem dedicada a Perry Rhodan, que tinha nele o cadete mais fiel e capaz.
— Está com saudades de John Marshall, Tifflor?
Um brilho fugaz surgiu nos olhos castanhos. Esse fogo revelara de que material era feito Julian Tifflor. Só por uma fração de segundos deixara perceber seus pensamentos. Ao responder, sua voz era tranqüila:
— Não podemos estar sempre na linha de frente.
A espera enervante na sala de comando da Stardust-III foi interrompida pela exclamação do engenheiro que controlava os instrumentos:
— Emanações radiativas intensas no planeta de Goszul. A área é limitada. Um instante, que a interpretação logo virá.
Mesmo Rhodan concordou em esperar. Começou a desconfiar de alguma coisa. Lançou um olhar pensativo para o relógio. Em tom áspero, perguntou:
— Peço o tempo local do segundo planeta!
— 45,71! — foi a resposta vinda do posto de cronometragem. Isso correspondia aproximadamente ao meio-dia terreno.
No planeta de Goszul o dia já chegara ao zênite, e a mensagem combinada com o grupo de mutantes ainda não havia chegado.
— A interpretação chegou! — voltou a falar o engenheiro dos instrumentos. — As radiações ocorreram na cidade dos mercadores. Estão restritas a um raio de cem a cento e cinqüenta metros.
Os homens que se encontravam na sala de comando pensaram em Marshall, Yokida, Ishibashi e Kakuta.
A faixa de ondas previamente convencionada não trouxe a mensagem dos mutantes.










































8



John Marshall acabara de “trazer” o tempo. Eram 23:104.
Os quatro homens que se encontravam na cela fizeram seus cálculos; na Terra eram cerca de nove horas.
— A alimentação neste estabelecimento é muito deficiente — disse Tama Yokida, o telecineta, em tom seco. — Sugiro que procuremos alguma coisa para comer — voltou a acariciar a idéia de usar suas forças telecinéticas para tirar a pesada porta dos gonzos.
— Não — disse Marshall, que mais uma vez captara seus pensamentos. — Não é necessário. Daqui a pouco virão buscar-nos para participarmos da grande assembléia dos patriarcas.
Os amigos olharam-no, desconfiados. Havia alguma coisa na voz de Marshall que não lhes agradara.
— Sim — acrescentou o telepata, completando suas informações. — Acontece que não participaremos na qualidade de hóspedes, mas como testemunhas párias. Levtan deve ter feito papel de louco, não abrindo mão da exigência de que todos os membros de seu clã também sejam interrogados.
— Que chefe de clã! — observou Tako Kakuta, que geralmente costumava manter-se calado. — Meu pai não teria agido dessa forma. Quando virão buscar-nos?
— O comando já está a caminho. Todo mundo vive falando em Levtan. Já sabem em que lugar estavam escondidos seus documentos. Dizem que Goszul mandou alguns homens de seu clã à Lev-XIV, para retirá-los do segundo cristal de pilotagem...
Kitai Ishibashi interrompeu as palavras de Marshall.
— Já me interessei por isso, e sei que o segundo cristal de pilotagem não existe — no mesmo instante pôs a mão na cabeça e soltou uma risada. — Formidável! Ninguém desconfiaria de que os documentos pudessem estar lá. Encontraram nossas armas e equipamentos?
— Os homens do comando não estão pensando sobre isso — respondeu Marshall e aguçou o ouvido. — Não são eles que estão chegando?
No corredor ouviram-se passos; as pisadas duras dos robôs eram inconfundíveis.
A porta da cela abriu-se. Três armas paralisantes e dois radiadores de impulsos foram apontados sobre eles.
— Saiam! — gritou um saltador.
Pelo uniforme devia ser um oficial. Sem dizer uma palavra, o grupo de Rhodan saiu do alojamento pouco acolhedor.
O transporte até o local da grande assembléia foi realizado em grandes veículos em forma de tanque. Tako Kakuta teve a impressão de que no dia anterior, quando o guarda estava sendo levado ao local em que seria submetido à lavagem cerebral, já estivera num veículo desse tipo.
Ao descerem, viram-se cercados por uma companhia de robôs de combate.
Se esses camaradas de brinquedo nos acompanharem até a sala de conferência e não tirarem seus radiadores de nós, nossa situação poderá tornar-se bastante difícil”, pensou Tama Yokida, e experimentou o peso de um dos robôs.
Escolheu um dos indivíduos metálicos que estava na fileira de trás, onde não podia ser visto por seus amigos sem alma, nem por qualquer dos saltadores.
Tama Yokida limitou-se a “brincar” ligeiramente com ele. O esforço que teve de fazer para levantar o robô numa altura de cinqüenta centímetros não foi maior que o de quem mexe um dedo.
A experiência durou menos de um segundo. E Tama Yokida ficou satisfeito com o resultado. Caminhando com a maior tranqüilidade atrás dos amigos, entrou no gigantesco salão. Quando viu mais de mil patriarcas enfileirados em confortáveis poltronas, conteve a respiração por um instante.
Nunca esperaria encontrar essa multidão de caciques dos clãs.
Marshall fez uma descoberta: apesar dos documentos de Levtan, nenhum dos patriarcas que se encontravam no recinto acreditava uma palavra daquilo que o mesmo dizia a respeito de Perry Rhodan.
À sua frente, de ambos os lados, atrás deles, estavam os robôs, e mais ao longe grupos de saltadores armados.
Foram conduzidos pelo largo corredor central em direção ao presidente da grande conferência.
Banhado em suor, Levtan estava em sua pequena tribuna e olhava para os membros de seu clã como um homem que está prestes a morrer afogado.
Não sabia mais o que fazer. Ninguém acreditava nele nem nas provas que apresentava — nos desenhos, nas fotos em três dimensões, nos filmes.
— Isso não passa dum truque barato! — gritou um dos patriarcas depois que um terço do filme havia sido rodado, e a tela mostrou a decolagem de vinte e dois couraçados que traziam o nome Stardust com uma numeração seguida.
Levtan gritou de volta. Sabia que seu filme não era nenhuma falsificação. Ele mesmo fizera a fotografia em Vênus. Quando se arriscou a isso, por pouco não cai nas mãos de um grupo de guardas de Rhodan. Lembrava-se de todos os detalhes, mas suas palavras apenas provocavam uma desconfiança tola e odienta.
Queria ajudar os saltadores! Era o único que poderia mostrar-lhes a maneira de escapar ao perigo representado por Perry Rhodan.
Perry Rhodan — era este o poder mais imenso que jamais existira em meio às estrelas. O poderio de Perry Rhodan equivalia ao triplo daquele que o Império de Árcon atingira nos seus melhores tempos.
Com a voz rouca e suplicante, gritou:
— ...a cada cinco dias que passam um cruzador pesado é construído. As naves de Perry Rhodan brotam do solo de Vênus que nem cogumelos. Mercadores, eu... eu vi com estes olhos... eu, que já fui um dos seus, e que fui tratado por Perry Rhodan como se fosse um cachorro. Rhodan nos odeia. Se nos atrevermos a atacá-lo, seremos destruídos. Caçará os nossos clãs um por um...
Um raio de choque fechou-lhe a boca e o filme pôde ser rodado sem ser interrompido por sua cantilena de ódio.
Etztak, patriarca do clã de Orlgans, viu a tripulação da Lev-XIV entrar. Afundado em sua poltrona e escondido atrás das costas largas do gigantesco patriarca Slurd, absorvia todas as impressões com sua vigilância instintiva, sem deixar que nada o comovesse. Também o filme não o comoveu.
Não acreditava nas imagens que estavam sendo projetadas, e muito menos nos vinte e dois couraçados, sem falar na afirmativa infantil de Levtan, segundo o qual a cada cinco dias Perry Rhodan construía um cruzador pesado em Vênus.
Ninguém lhe tirava da cabeça a idéia simplista de que ainda hoje os milagres demoram para serem feitos.
— Gostaria de saber por que Goszul mandou trazer essa gente da prisão — disse a Virn, patriarca do clã de Sanko, que estava sentado à sua direita, acariciando nervosamente a longa barba. — Será que teremos que ouvir de novo toda a série de mentiras infames?
O vizinho da esquerda de Etztak era Gaxtek, o homem que há muitos anos quase foi arruinado pelas falcatruas de Levtan. Deu uma cotovelada no patriarca dos Orlgans, chamando a atenção do mesmo para o espetáculo que se desenrolava na mesa diretora, formada por um grupo de nove patriarcas.
Entre esses nove patriarcas um dos documentos de Levtan passava de mão em mão, enquanto o clã e a tripulação dos párias se ia agrupando em torno de seu comandante. Três robôs mantinham-se mais ao longe, prontos para dirigirem impiedosamente os raios mortíferos de suas armas sobre os proscritos. Seu centro positrônico estava regulado especialmente sobre os párias.
Pela primeira vez Etztak endireitou o corpo e, lançando os olhos por cima do ombro largo de Slurd, contemplou a mesa diretora.
Estreitou os olhos. Pensou que estivesse vendo uma alucinação. Viu que os membros da mesa diretora demonstravam um interesse surpreendente ao examinarem um dos documentos de Levtan. O patriarca Goszul formava o centro do grupo que discutia animadamente.
Levantou a cabeça e dirigiu uma pergunta a Levtan. Etztak começou a desconfiar também dos seus ouvidos. Que tom de voz era este que Goszul punha na sua pergunta?
O pária viu suas chances subirem. Até agora respondera com a voz estridente, ou em tom choroso e suplicante. Agora respondeu com a voz firme:
— Produção diária de destróieres da classe C, três unidades; da classe G, quatro unidades, e oito unidades da classe H, a maior de todas.
Mais uma vez Goszul discutiu animadamente com os membros da mesa diretora da grande conferência. Depois de algum tempo ordenou:
— Vejamos o segundo filme. Projeção, por favor!
Etztak voltou a mergulhar em sua poltrona, desaparecendo atrás das costas do gigantesco patriarca Slurd. Não se interessou pelo filme que estava sendo projetado, nem respondeu às perguntas de Gaxtek.
Apenas seu corpo se encontrava no gigantesco salão. Em pensamento estava no interior de sua nave, e esta estava envolvida num combate com os cruzadores de Perry Rhodan.
Naquele tempo acontecera alguma coisa — uma coisa impossível, mas real. O que seria?
Etztak mergulhou cada vez mais profundamente nessa indagação; pretendia descobrir a resposta, custasse o que custasse.
Não via nem ouvia o que se passava em torno dele. Foi o único patriarca que não participou da grande conferência.

* * *

O grupo de Rhodan encontrava-se no meio do clã de Levtan. Praticamente no centro do grupo, mantinham-se bem juntos e, tal qual o patriarca, assistiram a um filme que os teria entusiasmado — se representasse a verdade.
O filme tridimensional mostrava uma gigantesca batalha espacial. As esquadrilhas de couraçados e cruzadores de Perry Rhodan lutavam contra um inimigo que era muito mais forte que ele, para quem se baseasse no número de naves.
Levtan arriscou um comentário.
— Local da batalha: a Nebulosa de Xaders.
A Nebulosa de Xaders era um dos nomes encontrados no catálogo estelar dos mercadores. Perry Rhodan não se esquecera de nenhum detalhe, quando refletiu sobre o que Levtan devia dizer a respeito desse filme para que os que o ouvissem acreditassem nele.
O catálogo dos saltadores encontrado na Lev-XIV prestara-lhe ótimos serviços. A Nebulosa de Xaders ficava na extremidade oposta da Via Láctea, e entre os mercadores era conhecida como a região mais perigosa da Galáxia. Até agora toda e qualquer nave que se aproximasse da Nebulosa de Xaders a menos de cinco unidades astronômicas desapareceria sem deixar vestígio. Nenhum pedido de socorro, nenhuma nave salva-vidas dava notícia do desastre. E agora o filme de Perry Rhodan desvendava o segredo da Nebulosa de Xaders.
O formato das naves utilizadas pela raça que habitava a Nebulosa era estranho e apavorante. Consistiam de três gigantescas esferas grudadas umas às outras. A do centro tinha um gigantesco furo que a atravessava de lado a lado e devia ter um diâmetro de quinhentos metros.
O filme mostrou a vitória de Rhodan sobre a raça da Nebulosa de Xaders.
Quando a fita terminou, o pavor tomou conta da grande assembléia. Todos se mantinham em silêncio, e assim continuaram, inclusive Levtan.
Ninguém deu atenção aos quatro homens do clã de Levtan que se mantinham bem unidos em meio aos tripulantes da nave.
Dois deles estavam trabalhando: Kitai Ishibashi, o sugestor, e John Marshall, o telepata.
Lançando mão de todas as suas energias mentais, o médico e psicólogo japonês obrigou o patriarca Goszul a submeter-se à sua vontade. De início concentrou a força de seus dons sobre ele. Sem que o soubesse, Goszul sentiu os efeitos tremendos do método progressivo.
Acredite no que o filme acaba de mostrar e nos dados constantes dos documentos. Acredite naquilo que Levtan e seu clã estão prontos a declarar sob juramento. O poder de Perry Rhodan é infinitamente superior ao de vocês. Desista da idéia de atacar a Terra ou voar para a base de Vênus. Seria um vôo para a morte.”
John Marshall encarregou-se dos cérebros dos homens que ao lado de Goszul dirigiam os trabalhos da grande conferência. O poder de sua mente não era igual ao do japonês, mas tornou mais fácil a este mergulhar os patriarcas na hipnose profunda, fazendo com que acreditassem estarem agindo por sua livre vontade.
O silêncio que reinava no recinto rompeu-se como uma fina parede de vidro. Numa pergunta proferida em tom estridente, o patriarca Resd exigiu que Levtan lhe prestasse as informações que desejava.
Levtan acreditava no que estava dizendo. Acreditava ter visto e sentido tudo aquilo. E também acreditava no ódio que nutria por Rhodan. Foi justamente esse ódio desenfreado que tornou plausíveis suas informações.
Um cérebro atrás do outro submetia-se a Ishibashi. Os patriarcas iam reconhecendo que, se atacassem Rhodan, estariam selando sua própria destruição.
Do lado direito do recinto o pânico começou a fermentar e ameaçava transbordar. Com a voz estridente Levtan gritou sua resposta nessa direção.
— Vi a arma. Quando Rhodan a acionou, uma enorme cadeia de montanhas desapareceu sem deixar para trás nem uma nuvem de gases. Quando fugi, essa arma estava sendo montada em todas as naves de Rhodan.
Goszul começou a falar. Em tom autoritário exigiu silêncio, mas o pânico espalhou-se como um veneno sutil.
— Será que aquilo que acabamos de ouvir não basta? O último filme do arquivo de Rhodan ainda não nos convenceu? Isto sem falar nos documentos que se encontram diante da mesa diretora da grande conferência. Patriarcas dos mercadores galácticos, um pária nos adverte para que não percorramos a trilha que levará nossa raça à destruição. Não quero convencer ninguém com as minhas palavras. Não posso exibir os documentos de Levtan a todos os patriarcas. Peço aos ocupantes das primeiras três fileiras que se levantem e venham olhar.
Kitai Ishibashi realizou um trabalho inacreditável. Suas forças mentais haviam desencadeado o pânico. Um cérebro atrás do outro estava sendo submetido ao poder de sua mente. Os patriarcas se iam convencendo da veracidade das declarações de Levtan e começavam a temer a força de Rhodan.
Indiferentes como os membros do clã dos párias, Tako Kakuta, o teleportador, e Tama Yokida estavam imprensados em meio ao grupo. Limitavam-se a observar, a registrar os acontecimentos.
Viram que o lance galático de Perry Rhodan colocava os mercadores numa posição de xeque-mate.
Subitamente o coração de Kakuta começou a palpitar. Onde estava Levtan? Não o via em parte alguma.
Por algumas frações de segundo conseguia enxergar o lugar em que o pária, de pé numa pequena tribuna, fizera suas declarações. Os patriarcas curiosos que se dirigiam à mesa iam obstruindo a visão.
Será que Goszul chamara Levtan, para fornecer explicações sobre os documentos aos membros da mesa diretora?
Tako Kakuta não conseguiu descobri-lo por lá. Tama Yokida notou algo de estranho no amigo.
— O que houve? — cochichou.
— Levtan desapareceu — respondeu o teleportador, também em voz baixa.
Tama Yokida virou-se para os robôs. Os vigilantes continuavam no mesmo lugar, com as armas apontadas para eles.
— Deve estar aqui.
— Mas onde? Não o vejo! A esta hora devíamos vê-lo — disse Kakuta com a voz quase incompreensível. Sentiu que uma aflição tremenda começava a sacudi-lo.
Deu uma cotovelada em John Marshall. O retorno ao mundo real quase chegou a ser doloroso para o australiano. A interrupção consumira tamanhas energias mentais que no momento não foi capaz de entender os pensamentos de Tako Kakuta.
O teleportador teve que transmitir-lhe a notícia inquietante aos cochichos.
Marshall, que era bem mais alto que o teleportador japonês, procurou localizar Levtan.
Não o encontrou. Não estava junto à mesa diretora, onde os patriarcas continuavam a acotovelar-se, nem no meio da multidão, nem no largo corredor central.
— Quando começou a notar a falta dele? — perguntou Marshall tranqüilamente.
— Há dez minutos; talvez sejam oito. Não sei dizer exatamente. Procure-o, Marshall. É a primeira vez que tenho medo de verdade. Parece que alguma coisa não deu certo.
O nervosismo de Tako Kakuta foi contagiante. John Marshall respondeu com um ligeiro aceno de cabeça, e através de suas energias telepáticas procurou localizar Levtan.

* * *

Etztak viu que os patriarcas que se encontravam nas primeiras três filas levantaram-se e correram para a mesa diretora, a fim de apresentar as provas oferecidas por Levtan.
Etztak, patriarca do clã de Orlgans, também se levantou, e isso com uma rapidez de que ninguém o julgaria capaz. Sua poltrona ficava próxima ao corredor central.
Resmungando desculpas, abriu caminho entre quatro patriarcas, viu-se no corredor e olhou para a saída principal.
Acenou ligeiramente com a cabeça e aguardou os acontecimentos.
No primeiro minuto não aconteceu nada, mas dali a dois minutos Levtan não estava mais na sua tribuna. Um dos mercadores que tinham ido à mesa diretora passou tão perto que esbarrou nele. Pediu desculpas. Etztak fez uma careta.
Dali a um minuto — ou seja, três minutos depois de se ter levantado — virou-se lentamente, como alguém que respira profundamente antes de dar um salto.

* * *

Quando Marshall lhe apertou o braço com tamanha força que parecia querer arrancar-lhe o bíceps, Tako Kakuta percebeu que tinha havido uma catástrofe.
— Etztak e o clã de Orlgans levaram Levtan para submetê-lo à lavagem cerebral! — cochichou Marshall aflito.
Isto é o fim”, pensou Kakuta num acesso de pânico. Ia voltar-se para Marshall, mas deteve a cabeça em meio ao movimento.
Marshall movia os lábios. Cochichava uma ordem quase imperceptível. A ordem era dirigida a Kitai Ishibashi.
O sugestor compreendeu. John Marshall sabia localizar Levtan e ler seus pensamentos, mas nada podia fazer para impedir a lavagem cerebral. Nem mesmo Kitai poderia evitá-la. Mas podia fazer outra coisa.
Marshall captou a angústia mortal de Levtan. Identificou todos os pensamentos: a defesa desesperada do pária, os golpes que distribuía com as mãos e os pés para não ser submetido à lavagem cerebral. Sabia qual fora o destino da grande massa de indivíduos submetidos a essa tortura. Todos perderam a razão em virtude do tratamento.
Marshall também captou os pensamentos de Etztak. Etztak — esse nome equivalia a um sinal de alarme. Etztak desconfiara e resolvera agir imediatamente.
John Marshall lembrou-se do povo escravizado do planeta, e lembrou-se da Terra indefesa e do destino que a aguardaria se os saltadores pusessem os pés nela. Seria a escravização total.
O aparelho que agiria sobre a mente de Levtan devia ter sido ligado. A lavagem cerebral! Seria a revelação do lance galático de Perry Rhodan!
John Marshall pensou na Terra e no destino que a aguardava, quando indicou a posição a Ishibashi.






9



Com o rosto petrificado Etztak contemplou os quatro homens de seu clã, que acabavam de dominar Levtan.
O pária defendera-se desesperadamente.
Um dos filhos de Orlgans fora jogado ao chão, gemendo e segurando o ventre. Seu sobrinho mais novo estava enxugando o sangue do queixo. Mas Levtan teve de capitular diante da tremenda superioridade. Com uma cruel indiferença Etztak viu que os feixes de radiações cingiam o peito do pária. Dentro de poucos segundos o respectivo campo energético estabilizou-se, condenando o pária à imobilidade.
— Saia da frente! — gritou Etztak para o sobrinho.
— Sim senhor — fungou o jovem mercador e saltou para o lado.
O próprio Etztak pôs o aparelho a funcionar.
Os protestos desesperados de Levtan cessaram. O pária conformara-se com o destino cruel. Não acreditava num milagre que pudesse salvá-lo. E para ele não houve nenhum milagre.
Limitou-se a atirar a cabeça para trás — era a única parte do corpo que conseguia mover. Depois disso foi atingido pela força do aparelho, que penetrou nas idéias e nas memórias armazenadas em sua massa cinzenta.
— Etztak — disse com um gemido — os deuses castigarão você e seu clã por...
Não completou a frase.
Levtan já não era senhor de si mesmo. Teria que entregar todo o saber, todos os mistérios que se encerravam em sua mente, e pagaria isso com a razão.
O patriarca cruel saltou para a frente.
— Saiam a frente! ordenou, aproximando-se de Levtan e lançando-lhe um olhar preocupado. — O que houve com o traidor? — gritou. — Será que está morrendo? — apontou para Levtan, cuja cabeça estava imóvel, levemente inclinada para o lado.

* * *

Quando percebeu que não conseguia captar mais nenhum pensamento de Levtan, Marshall soube que a lavagem cerebral fora iniciada.
A catástrofe aproximava-se vertiginosamente. Etztak estava a ponto de desvendar o mistério em torno das relações entre Levtan e Perry Rhodan.
A mais de mil anos-luz do sistema solar, a destruição da Terra estava sendo encetada no planeta de Goszul.
John Marshall transformara-se num tático frio. Sobrecarregando suas forças ao máximo interveio em tudo, não negligenciou nada, não perdeu nenhuma oportunidade. Arranjou tempo para orientar as forças de Kitai Ishibashi para outro objetivo e dar uma ordem terrível a Tako Kakuta, o teleportador.
— Prepare-se para um salto para o depósito de bombas.
O delicado japonês nem pestanejou ao receber a ordem de Marshall. Preparou-se; sabia que a qualquer momento a catástrofe poderia desabar sobre eles.
As forças telepáticas de John Marshall voltaram a exercer-se na área em que Levtan estava sendo submetido à lavagem cerebral.
Kitai Ishibashi, o sugestor, trabalhou mais uma vez sobre Goszul, antes de unir suas forças às de Marshall.
A cabeça calva do saltador virou-se ligeiramente para a tripulação da Lev. Não notou a ausência do comandante dos párias. Os três guardas-robôs continuavam no mesmo lugar. Cochichou alguma coisa para o homem que se encontrava a seu lado. Este acenou com a cabeça e levantou-se. Pouco depois Tako Kakuta viu-o atrás dos robôs. Os robôs foram dispensados.
Os verdadeiros tripulantes da Levtan nem o perceberam. O ligeiro nervosismo causado pelo desaparecimento do comandante proscrito já cessara.
Kitai Ishibashi trabalhou depressa. Mas o perigo ainda não fora removido; continuava grave como antes. Sob a orientação de John, Kitai empenhou todas as forças numa luta titânica contra o coração de Levtan. O mesmo tinha que ser paralisado, e já!
Etztak não poderia receber a menor indicação que aumentasse a desconfiança que já se instalara em seu espírito.
Kitai perdeu por completo a noção do tempo. Não sabia se o teleportador estava preparado para saltar, não sabia se Goszul providenciara para que os três robôs fossem afastados, não sabia se os tripulantes da Lev já deixaram de preocupar-se com o desaparecimento de seu comandante. Crescera acima de si mesmo.
Em suas mãos jazia o destino dum mundo — a Terra. E houve mais um estímulo que lhe conferia energias titânicas: Perry Rhodan confiava em sua capacidade. Ele mesmo, um dos combatentes da Terceira Potência de Perry Rhodan e do futuro império cósmico, travava o combate mais cruel de sua vida.
Subitamente os músculos cardíacos de Levtan contraíram-se num espasmo, enrijecendo sob a força das energias hipnóticas. Kitai percebeu que em certo setor do espaço, onde Levtan estava submetido ao poder de Etztak, não havia mais nada que representasse o comandante dos párias.
Levtan não poderia revelar o plano de Perry Rhodan. Seu coração parara. Mas o perigo continuava a aproximar-se do grupo.
Esse perigo era Etztak, um patriarca que não recuava diante de nada, o protótipo do mercador galático, que não hesitava em valer-se dos métodos mais brutais para alcançar seus objetivos.
— Tirem-no daqui! — berrou, apontando para o cadáver de Levtan. — Tragam dois ou três párias de seu clã. Quero saber o que está atrás dessas declarações a respeito de Levtan.
Tama Yokida estava condenado a um papel de simples observador. O treinamento a que Rhodan o submetera dava-lhe forças para não mostrar o menor sinal de inquietação, mas na verdade toda a mente do japonês, geralmente tão equilibrado, fervilhava.
Viu que Kitai Ishibashi, o sugestor, quase se consumia no esforço interior, chegando progressivamente à exaustão total; descobriu os primeiros sinais de fraqueza em John Marshall, o telepata; e viu que Tako Kakuta, que se encontrava a seu lado, concentrava-se para o salto. Finalmente, Tama Yokida viu que o pânico se espalhava entre as fileiras de poltronas que nem um veneno sutil, apossando-se das mentes dos patriarcas, em cujos cérebros ganhava corpo a idéia de que qualquer ataque a Perry Rhodan ou ao seu planeta traria a morte.
Nada parecia indicar a iminência duma catástrofe, mas Tama Yokida viu a mesma aproximar-se.
— Traga uma bomba! — cochichou Marshall ao ouvido de Kakuta. — Faça-a detonar dentro de três minutos. Mande este salão para os ares.
Tako Kakuta não saltou imediatamente. Mudou de lugar, passando entre Marshall e Ishibashi. Os dois cobriram-no com seus corpos.
Foi nesse instante que o teleportador saltou para o depósito de bombas. Rematerializou-se sobre uma pilha de bombas. O pouso não fora totalmente silencioso. Ligeiramente abaixado, mantinha-se de pé sobre os artefatos de vinte centímetros de comprimento, aguçando o ouvido. Três bombas haviam batido ruidosamente umas contra as outras.
Ouviu passos. O “rosto de mercador” de Tako Kakuta, inalterado sob a máscara, contorceu-se num sorriso. Os passos que acabara de ouvir eram dum ser de carne e ossos.
Será que os saltadores usavam os goszuls — os escravos — como guardas?
A pilha sobre a qual se encontrava tinha mais de três metros de altura. As outras pilhas, muito numerosas, não eram menos altas. As passagens existentes entre as mesmas pareciam vielas estreitas.
O guarda surgiu de trás de uma das pilhas. Aproximava-se sorrateiramente, segurando uma arma de impulsos em cada mão, mas não olhava para cima. Nem desconfiava de que o perigo pudesse estar ali.
Sem fazer o menor ruído Tako Kakuta pegou uma das bombas. Era leve: pesava menos de trinta quilos. Era quanto bastava.
O guarda estava bem embaixo dele. O saltador estacara em meio ao passo que ia dar.
Que diabo”, pensou Tako Kakuta contrariado, “esse sujeito tem um ouvido excelente. Sabe perfeitamente que foi daqui que veio o barulho.”
Ao soltar a bomba, não causou o menor ruído. Mas houve um forte baque quando a mesma bateu na cabeça do mercador. E um verdadeiro estrondo fez-se ouvir quando deslizou pelo corpo do saltador e bateu no chão.
Tako contou até dez. Tudo continuou em silêncio no interior do depósito. Não havia outro guarda além do saltador inconsciente.
O teleportador lembrou-se da ordem de Marshall:
— A bomba tem que ser detonada dentro de três minutos.
O incidente já lhe custara um minuto! E aqui havia um estoque imenso de bombas de todos os calibres, mas nenhum detonador.
Teleportou-se para a viela que começava ao lado do mercador inconsciente. As duas armas de impulsos vinham bem a propósito. Mudaram de dono. Tako Kakuta enfiou a bomba sob o braço e saiu correndo pela passagem entre as pilhas. Com quatro passos atingiu o primeiro cruzamento. Olhou apressadamente para os lados, estendeu a mão e pegou um detonador.
Noventa segundos já se haviam passado quando o detonador estava preso à pequena bomba atômica.
No mesmo instante Tako Kakuta teleportou-se de volta para o salão em que estava sendo realizada a grande conferência dos patriarcas.

* * *

— Dentro de três minutos deverá ser detonada! — dissera John Marshall ao teleportador. Com isso dera aos amigos um prazo extremamente curto para escaparem ao perigo.
Se usassem o largo corredor central gastariam mais de um minuto para atingir a saída, isso se nenhum patriarca procurasse detê-los. E ainda tinham de contar com a possibilidade de, lá fora, se defrontarem com os robôs.
— Vamos usar a saída que fica atrás da mesa diretora! — cochichou Marshall.
Mais uma vez Kitai Ishibashi concentrou todas as energias. Mais uma vez derramou suas forças sugestivas sobre a multidão dos patriarcas que se comprimia em torno da mesa. A sugestão profunda dirigida aos saltadores, no sentido de que estes não vissem nada de anormal em sua saída, foi breve e potente.
O dia do planeta de Goszul era mais longo que o dia terreno. Apesar disso Marshall baseava-se nos minutos de nosso planeta.
Levaram quarenta segundos para atingir a estreita passagem lateral.
Atrás deles o pânico continuava a espalhar-se. Em centenas de cérebros fixara-se a idéia de que seria uma loucura envolver-se numa luta com Perry Rhodan.
Tama Yokida viu um veículo parado na outra extremidade do gigantesco edifício. Lançou mão de suas energias telecinéticas.
O veículo aproximou-se vertiginosamente, desviando-se dos obstáculos que se interpunham em seu caminho, como se alguma pessoa extremamente hábil o dirigisse. Enquanto percorria os últimos cem metros, viram que estava ocupado.
Mais uma vez Kitai Ishibashi interveio. O método progressivo durou apenas alguns segundos. Foi o tempo suficiente para que o mercador que se encontrava no interior do veículo se esquecesse de que, apavorado, fizera tudo para parar o carro. Sem demonstrar o menor espanto, desceu, cumprimentou os três estranhos e disse:
— Entrem, por favor.
John Marshall acabara de contar o segundo minuto. Restavam-lhes sessenta segundos para afastarem-se a uma distância suficiente até o momento em que Tako Kakuta fizesse detonar a bomba no interior do salão.
Saltaram para dentro do carro. O veículo acelerou a toda e saiu em disparada. Reunindo as forças de seu cérebro, Marshall voltou a escutar o que se passava nos cérebros dos patriarcas que se comprimiam em torno da mesa diretora.
Um misto de medo e cólera atingiu-o como uma interferência perturbadora. Levou alguns segundos para encontrar uma explicação para a confusão. Depois compreendeu o que se passava lá dentro.
Etztak enviara alguns homens do seu clã para trazer outros homens da tripulação da Lev que serviriam de vítimas para a lavagem cerebral, e os párias resolveram defender-se.
Nesse instante Kitai Ishibashi berrou pela terceira vez:
— Quanto tempo nos resta?
Num processo doloroso Marshall retornou à realidade que o cercava. O veículo passava por um grupo de robôs. Os seres mecânicos não lhe deram atenção; controlavam apenas a saída principal.
Tama Yokida pilotava o veículo voador. No momento em que entrava na larga avenida que ia para o espaçoporto, forças gigantescas atiraram o veículo para o alto.
O grito de Kitai Ishibashi foi engolido por um rugido primitivo.

* * *

Com a bomba ativada sob o braço, Tako Kakuta materializou-se no subterrâneo do gigantesco salão.
Cautelosamente colocou a bomba no chão, fez mais um salto e, que nem um macaco, ficou preso ao teto do salão, no ponto exato em que as quatro travessas que sustentavam o teto se encontravam. Lançou um olhar para a profusão de crânios de patriarcas. Para ele isso representava um exame de posições.
Numa teleportação vertical desceu novamente ao subterrâneo. A escuridão não constituía nenhum obstáculo. Bem ao longe, na outra extremidade do teto abobadado, uma lâmpada espalhava sua luz débil. Com a bomba sob o braço, voltou a realizar um salto.
A luz foi apenas suficiente para ler a escala do detonador.
O prazo de três minutos havia chegado ao fim. Tako tinha certeza absoluta. Seu sentido do tempo nunca o enganava.
A detonação se daria dentro de dez segundos.
Por um instante lembrou-se de John Marshall, Tama Yokida e Kitai Ishibashi. Naquele instante julgava os amigos capazes de realizar o impossível. O contador de tempo do detonador começou a funcionar.
Tako Kakuta concentrou-se no espaçoporto e saltou em direção ao mesmo.

* * *

Sem que ninguém o percebesse, Thora, a arcônida, entrou na sala de comando da Stardust-III. A mulher alta e bela, uma das poucas criaturas do império estelar de Árcon que não se deixara dominar pela letargia sob a qual o poderio dos arcônidas se esfacelava, lançou um olhar indagador para Crest.
— Estão perdidos, desaparecidos, não é? — a pergunta não representava uma simples constatação, mas uma afirmativa terminante, que não admitia a menor contradita.
Bell virou-se abruptamente na sua poltrona.
— Pois está enganada! — disse em tom agressivo. Havia ocasiões em que não suportava o pessimismo virulento dos arcônidas. E hoje era uma dessas ocasiões.
— Pois prove que estou errada, Reginald Bell! — respondeu a arcônida em tom mordaz, sem dar atenção a Crest, que colocou a mão sobre seu braço, pedindo-lhe que procurasse dominar-se.
Thora não queria dominar-se. Depois de tanta demora desejava ir para Árcon, para casa. Queria obrigar Perry Rhodan a cumprir sua promessa.
De tão nervosa que estava, não notou o brilho suspeito nos olhos de Bell. Mas Perry viu-o e já estava adivinhando a resposta que o esquentado Bell soltaria.
— Com o maior prazer, Thora — principiou Bell num tom pacato que dava para desconfiar. — A prova está naquilo que a senhora vive afirmando. Para a senhora somos bárbaros semi-selvagens. Acontece que uma criatura semi-selvagem é, sob todos os pontos de vista, mais estável e resistente que um povo altamente evoluído, que atingiu um estágio em que se transformou num grupo de deuses indolentes. Espere aí, Thora, a senhora ainda não ouviu as provas que tenho a oferecer...
Ainda estava rindo depois que a escotilha que dava para o corredor principal da nave se fechara atrás da arcônida, que se retirara apressadamente.
Crest aproximou-se de Bell; parecia pensativo.
— Se um dia Thora voltar a praticar um ato que para o senhor é uma tolice perigosa, a culpa será sua.
Bell fez um gesto de desprezo e ia reclinar-se confortavelmente no assento, quando o alarme de localização começou a uivar.
As naves dos saltadores estavam decolando do planeta de Goszul. Não era duas ou três, nem dez. A localização registrou mais de cem naves. As pessoas que se encontravam na sala de comando lembraram-se da pequena explosão atômica ocorrida no planeta. Menos de meia hora se passara desde então.
— Abalos estruturais! — gritou exaltado o oficial que controlava os rastreadores. — Meu Deus, tão perto!
O “perto” dizia respeito ao planeta de Goszul.
Agindo desarrazoadamente, as naves dos saltadores lançaram-se à transição, sem a menor consideração pelo planeta habitado.
— Uma série ininterrupta de transições! — continuou a falar o oficial em tom exaltado.
Subitamente a voz de Perry Rhodan fez-se ouvir. Era uma voz que impunha silêncio a todos.
— Realizaremos a transição dentro de oito segundos. Daremos um salto de volta numa distância de oito dias-luz.
A programação da Stardust-III e dos três cruzadores pesados de Rhodan era atualizada constantemente pelo grande cérebro positrônico do supercouraçado, para que a qualquer momento pudesse realizar uma transição no mais curto espaço de tempo.
— ...quarenta e três ...quarenta e quatro ...agora são três de uma vez ...quarenta e oito... — contava o oficial que controlava o rastreador estrutural.
Para a frota de Rhodan ainda faltavam cinco segundos. Depois a mesma também realizou seu salto a pequena distância. As quatro naves saltaram ao mesmo tempo, para que houvesse um único abalo. Com as tensões tremendas a que os saltadores estavam submetendo a estrutura espacial, seria praticamente impossível que a transição da frota terrena fosse registrada no planeta de Goszul.
Rhodan e Reginald Bell olharam-se.
A contagem automática chegara ao zero. Nas quatro naves o espaço cósmico com o esplendor dos sóis fulgurantes desfez-se, abrindo-se para envolver o couraçado e os três cruzadores pesados no processo de transição.

* * *

Tako Kakuta voltou a materializar-se na sala de comando da Lev-XIV.
Três mercadores levantaram-se apavorados quando subitamente viram diante de si um homem vindo do nada. Mas o pavor ainda não se desenvolvera em toda plenitude quando, num gesto automático, moveram as mãos para pegar as armas.
Sem perder o sangue-frio, Tako apertou o gatilho das duas armas de impulsos de que acabara de apoderar-se. Disparou três vezes. O sistema de exaustão uivou, expelindo três nuvens de gases.
O teleportador virou-se abruptamente. Só agora teve tempo de examinar a sala de comando da nave dos párias. A escotilha estava fechada. Se havia outros mercadores que vigiavam a nave, os mesmos não perceberam a luta que acabara de travar-se.
Os olhos de Tako passaram apressadamente pelos diversos objetos. De repente os mesmos arregalaram-se, e Tako praguejou. Um dos instrumentos mais importantes da Lev-XIV fora destruído: o cristal de pilotagem.
Apavorado, dirigiu o olhar para a tela de visão global. Procurou desesperadamente outro veículo espacial cilíndrico do mesmo tipo da Lev-XIV.
Viu um bem ao longe, quase na extremidade oposta do gigantesco porto espacial. No mesmo instante teleportou-se para a sala de comando da nave.
Materializou-se do nada atrás dum saltador que cochilava. A coronha de sua arma não pertencia ao nada: era a mais dura realidade. A pancada fez o mercador cair ao chão, inconsciente.
— Bendita seja a técnica arcônida! — cochichou Tako, enquanto com um simples movimento de mão arrancou o instrumento com o cristal de pilotagem. A técnica arcônida não conhecia as perigosas ligações por fios, as soldas que se derretiam com facilidade ou chaves estampadas inquebráveis.
Eles, os arcônidas, seguiram pelo caminho mais fácil. Tako Kakuta os estava elogiando acima de todas as medidas quando a nave foi atingida por uma imensa vaga de compressão, e meia dezena de suportes se dobraram com um estalo.
Já estava de volta na Lev-XIV, preparado para enfrentar a onda de compressão.
Arrancou o instrumento destruído do painel, atirou-o num canto, colocou a peça sobressalente que acabara de “arranjar” e não se preocupou quando a onda de compressão também sacudiu a Lev-XIV.
— Bendita seja a técnica arcônida! — voltou a dizer, e só então aguçou o ouvido para saber o que se passava lá fora.
A onda de compressão desencadeada por sua bomba atômica acabara de passar. Não causara o menor dano à Lev-XIV. No longo caminho que tivera de percorrer até atingir a extremidade oposta do espaçoporto perdera muito de sua força destrutiva.
Tako pôs-se a caminho para limpar a Lev-XIV dos mercadores que ainda pudessem importuná-lo com sua presença. Não encontrou ninguém e pôs-se a esperar na grande comporta. Não eram eles que estavam chegando? Tako estreitou ainda mais os olhos oblíquos e sorriu. Aquilo só podia ser Tama Yokida.
O telecineta transformara o lento deslizador num veículo que se deslocava em vôo rasante. Com as energias de sua mente fazia-o correr em direção à Lev-XIV. De uma altura de trezentos metros desceu sobre a nave dos párias.
Até o coração de Tako Kakuta começou a palpitar quando, ao chegar junto ao solo, perto da rampa, o veículo ainda desenvolvia uma velocidade tremenda.
Mas não se ouviu o baque da batida nem o estalo dos materiais que se partiam. O veículo pousou suavemente. No mesmo instante os amigos de Tako corriam desesperadamente rampa acima.
— Vamos decolar! — gritou Marshall. — Estão atrás de nós. Maldito Etztak!

* * *

Etztak viu os muros de concreto arrebentarem. Parte do teto desabou, soterrando os membros do clã. Mas não viu nem ouviu nada do inferno que desabava sobre ele.
As radiações!”, martelava seu cérebro. “A dose é mortal!”
Atirou-se contra a porta empenada e correu para a sala contígua. Sabia que ali havia trajes espaciais.
E um traje desses foi sua salvação. Envergou-o e, passando pelo buraco aberto no teto, atingiu o ar livre; lutando contra o furacão desencadeado pela bomba, chegou ao salão de reuniões. Sentiu um frio na espinha. Até onde alcançava a vista só havia devastação, mas também havia vida.
Passando pela gigantesca abertura — do teto do salão só restava um terço — flutuou para baixo. Um olhar para o medidor de radiações mostrou-lhe que a dose já não era perigosa. Abriu o capacete e gritou para o primeiro patriarca que, cambaleando por cima dos cadáveres, procurou atingir a saída. Agarrou o décimo, o vigésimo, e finalmente encontrou alguém que lhe disse que três homens da tripulação de Levtan haviam abandonado o salão, utilizando a saída atrás da mesa diretora.
Resmungando uma praga, Etztak fez com que o traje espacial o levasse através do salão. Só viu cadáveres. Até parecia milagre: a maior parte dos comprovantes de Levtan estava intacta aos pés de Etztak.
Enfiou-os apressadamente no bolso. Não havia mais nada a fazer por ali. Passou pela gigantesca abertura no teto e dirigiu-se velozmente para o espaçoporto.
— Três deles fugiram — disse numa fúria impotente. — Três elementos desse clã maldito. A vingança deles foi terrível, mas esqueceram-se de me incluir nos seus cálculos. Eu os agarro! Minha nave é mais veloz que a deles.
O ódio de Etztak ia crescendo, e ele nem suspeitava de que Marshall captava seus pensamentos como se estes tivessem sido emitidos por uma potente emissora.

* * *

Os propulsores da Lev-XIV uivaram terrivelmente quando a nave se desprendeu do solo, precipitando-se em direção ao céu luminoso. Estava sendo pilotada por John Marshall.
Na sala de comando não foi trocada uma única palavra.
Marshall ainda se encontrava no planeta de Goszul, embora seu corpo corresse pelo espaço no interior da Lev-XIV. Experimentou o pânico dos patriarcas que sobreviveram à bomba de Tako Kakuta.
O medo dominava todos, mesmo os que não tinham sido submetidos ao tratamento. Era o medo do poderio de Perry Rhodan. Ninguém pensou na terrível explosão. Ninguém via nela uma obra de Rhodan. O medo que sentiam por ele sobrepujava tudo.
Tama Yokida fitou o velocímetro como se fosse um inimigo. A aceleração da Lev-XIV era terrivelmente lenta.
O planeta de Goszul foi mergulhando no espaço, transformando-se numa esfera. A tela de visão global mostrou uma cidade grande e ampla que surgiu na extremidade sul do continente, até que uma camada de nuvens a cobriu.
— Localização! — disse Tako Kakuta.
— Estão chegando! Se não me engano é um grupo de destróieres, mas também há mais grande nave mercante...
— É Etztak! — comentou Marshall laconicamente.
— Qual é a velocidade? — perguntou Ishibashi.
— Estamos indo muito devagar para viver e muito depressa para viver. Marshall, vamos para a face noturna. É nossa única chance. Dentro de cinco minutos seremos derrubados — a voz de Tama Yokida continuava tranqüila.
— Fechar os capacetes! — ordenou Marshall.
Quatro destróieres e uma nave mercante dos saltadores aproximavam-se vertiginosamente. A Lev-XIV descreveu uma curva e correu desesperadamente para a face noturna do planeta de Goszul.
A altitude era apenas de 30.000 quilômetros!
Os propulsores não davam mais que isso. O aparelho de hipercomunicação começou a funcionar.
Uma mensagem rápida e codificada dirigida a Rhodan.
A mensagem era formada de apenas três frases:
— Levtan está morto. A conferência foi desmanchada por uma bomba atômica. Ishibashi conseguiu...
Foram estas as únicas palavras captadas pela Stardust-III, que juntamente com os três cruzadores pesados se mantinha numa posição situada a oito dias-luz do sistema de Tatlira, onde estava fora do alcance da localização.
Um forte raio desintegrador esfacelara os campos energéticos da Lev-XIV, atingindo a nave de raspão.
A popa desmanchou-se numa nuvem de gases incandescentes. E a ponta caiu sobre a face noturna do planeta de Goszul.

* * *

Desceram” da nave a três mil quilômetros de altura.
Face aos trajes espaciais arcônidas, essa “descida” não era nenhum ato tresloucado de desespero.
Cada homem era uma pequena nave espacial, com seu campo energético, seu propulsor e sua capacidade de aceleração.
A três mil quilômetros acima da superfície do planeta de Goszul não passavam de quatro partículas de pó, tangidos pelas fronteiras do infinito.
Abaixo deles a ponta da Lev-XIV queimou-se nas camadas densas da atmosfera.
Depois que a nave fora atingida de raspão não saíram para o espaço em pânico. Ainda tiveram tempo de levar parte do equipamento habilmente escondido na nave por ocasião da reforma a que a mesma foi submetida em Terrânia.
Os quatro mutantes de Perry Rhodan formavam uma corrente. Era uma corrente que se deixava cair. Só quando atingiram as camadas densas da atmosfera tiveram de lutar contra as tormentas — fluxos desencadeados pelos jatos e tempestades de mais de trezentos quilômetros por hora.
John Marshall foi desviado. Parecia que a noite o havia engolido. Mas Kitai Ishibashi conseguiu localizá-lo, e Tama Yokida usou suas faculdades telecinéticas para trazê-lo para junto de si.
Os campos antigravitacionais dos trajes dos mutantes desenvolviam uma atividade bastante reduzida, pois a maior parte da energia produzida pelos mini-geradores era destinada aos envoltórios energéticos. Atravessavam as primeiras camadas de nuvens, e estas estavam carregadas de granizo. Ao atingirem os campos energéticos, os pedaços de gelo se assemelhavam a balas. A vibração e as sacudidelas pareciam ameaçadoras e desagradáveis, mas eram muito mais agradáveis que a lembrança da impressão causada pelo chiado da popa da Lev-XIV, quando esta se transformou numa nuvem de gases.
— Atenção! Estamos a cem metros de altura — disse Marshall.
Os campos antigravitacionais dos trajes espaciais foram reforçados, e a queda dos mutantes transformou-se num suave flutuar.
O planeta de Goszul voltara a recolhê-los — como náufragos.

* * *

Quando o dia começou a raiar, ligaram os defletores de seus trajes espaciais. No mesmo instante desapareceram, fizeram-se invisíveis. Conformaram-se com o fato de não se verem uns aos outros. Através dos pontos de referência geográficos conseguiam manter contato entre si.
A cerca de cem quilômetros por hora voaram por cima do continente em cuja extremidade haviam visto no dia anterior, de bordo da Lev-XIV, uma cidade bastante extensa. Essa cidade era seu destino. À medida que passavam a pouca altura sobre o solo, mantendo a direção geral sul, convenciam-se de que o poder dos saltadores não chegava até lá.
Pelo meio-dia, John Marshall espantou-os com uma exclamação:
— Olhem a cidade! Vamos subir mais um pouco, para que possamos vê-la melhor.
A trezentos metros de altura conseguiram ver a área à qual se destinavam e tiveram todos os motivos para espantar-se.
— Navios a vela? — cochichou Kitai Ishibashi no seu capacete, e o rádio embutido transmitiu suas palavras aos amigos.
— Navios a vela do século XVIII. Santo Deus, em que era estamos penetrando? E dizem que este povo descende dos arcônidas. Não acredito.
Marshall interrompeu-o:
— Silêncio! Estamos recebendo uma mensagem.
Seu aparelho portátil de hipercomunicação estava ligado para a recepção.
A trezentos metros acima da superfície do planeta de Goszul, à vista duma cidade quase medieval, Marshall recebeu a mensagem de Perry Rhodan. Era uma mensagem lacônica, codificada e concebida em termos muito gerais.
— Aguardem a chegada de auxílio! Aguardem a chegada de auxílio!
Estas palavras foram repetidas vinte vezes. Só então o receptor de hipercomunicação silenciou. Até o anoitecer não houve nenhum contato.
— Aguardem a chegada de auxílio!
Para os homens do grupo de Perry Rhodan estas palavras eram suficientes. Conheciam o chefe. Sabiam que não os abandonaria.



* * *
* *
*







No momento em que ia ser submetido à lavagem cerebral, Levtan já devia ter chegado à conclusão de que o resultado final da traição e do jogo dúbio nunca é favorável. É bem verdade que para Perry Rhodan o aparecimento de Levtan representou uma dádiva do destino, pois sem isso não teria conseguido introduzir quatro dos seus mutantes na grande conferência dos patriarcas dos saltadores, realizada no planeta de Goszul.
E esses quatro mutantes — quatro homens terrenos num mundo estranho — continuam a desempenhar um papel de destaque na nova aventura de Perry Rhodan, relatada no próximo volume da série: O Planeta dos Deuses.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html