Rhodan
recebeu a mensagem de Nyssen segundos antes da transição. Transmitiu-a a MacClears
e recomendou ao comandante:
— Temos que
libertar Good Hope-IX. Trate de pôr as naves inimigas fora de combate, mas não
as destrua.
Dali a
pouco, as duas naves desapareceram da sua posição e se transferiram para o
hiperespaço. Voltaram a mergulhar no espaço a dois anos-luz dali e a uma
distância de apenas três unidades astronômicas dos dois sóis do sistema
geminado.
Eram 21:17 h,
hora de Terrânia.
A luta ia
começar.
* * *
A menor
unidade independente da frota militar dos saltadores era o grupo. Cada grupo
era formado de vinte e cinco a trinta e cinco naves e comandado por um
indivíduo cuja posição correspondia à de um capitão-de-fragata terrestre.
O grupo do
comandante Harlgas era a unidade que se encontrava mais próxima ao sistema de
Beta-Albíreo quando Ornafer emitiu seus desesperados gritos de socorro para o
espaço, valendo-se de uma freqüência especial de hiperondas.
Harlgas agiu
imediatamente.
Poucos
segundos depois de concluir a transição, obteve um quadro nítido da situação. A
Orla XI, que se encontrava em posição
difícil, afastava-se apressadamente do sistema. Próximo a ela, havia uma nave
inimiga de tipo arcônida. A uma distância um pouco maior, havia outro veículo
espacial, que parecia pequeno e inofensivo, motivo por que Harlgas acreditou
que não haveria o menor risco em atacá-lo.
Mas logo viu
que havia um risco: foi quando uma das suas naves se dissolveu em poeira. Assim
que a perda lhe foi anunciada, Harlgas soltou uma furiosa gargalhada. Poucos
segundos depois, a artilharia do grupo conseguiu produzir um impacto no pequeno
veículo, que perdeu a capacidade de manobrar. Harlgas mandou suspender o fogo e
aguardou a reação do inimigo.
Enquanto
isso, não tirava os olhos da nave muito maior, que até então se mantivera
inativa a uma distância de cerca de vinte mil quilômetros e subitamente passou
a se deslocar.
Não demorou
muito a compreender que o inimigo se lançava ao ataque e mandou que as naves de
seu grupo assumissem posições de defesa.
Ficaria mais
à vontade se soubesse quem era o inimigo que tinha diante de si. Uma ligeira
palestra mantida com Orlgans, na Orla XI, informara-o de que, embora as naves
fossem de origem arcônida, o que já percebera, o inimigo não poderia pertencer
àquela raça.
Harlgas não
se sentia muito seguro. A situação se complicou ainda mais quando o observador
anunciou que um veículo de reduzidíssimas dimensões saíra da nave que havia
sido inutilizada.
Harlgas
ordenou a dois dos seus comandantes que perseguissem o pequenino veículo
espacial. As vinte e sete restantes permaneceram nas posições que lhes haviam
sido indicadas, com a recomendação de não cometerem o erro de subestimar o
inimigo.
Logo
verificou que a recomendação se justificava: de uma distância da qual um
comandante saltador nem teria pensado em disparar, a nave inimiga deu a
primeira salva e, nessa primeira investida, transformou duas das naves de
Harlgas numa nuvem de poeira e cinza.
* * *
Conforme se
planejara, o destróier saiu da nave e disparou pelo espaço. Tiff lhe imprimiu
uma aceleração não muito elevada.
— Para onde
vamos? — perguntou Hump.
— Deringhouse
disse que devíamos entrar em contato com Rhodan — respondeu Tiff. — Não tenho a
menor idéia de onde Rhodan possa estar metido, mas...
— ...mas, se
Rhodan diz alguma coisa — interrompeu-o Hump — você acredita como acreditaria
numa passagem da Bíblia.
Tiff não
perdeu a calma.
— Não é isso
— respondeu. — Mas Deringhouse deve saber o que diz.
O espaço no
interior da cabina era muito limitado. Só havia três assentos; por questão de
comodidade, tanto Hump como Eberhardt seguravam uma moça no colo.
Por causa do
perigo que os ameaçava, mantinham os trajes espaciais fechados; por isso as
comunicações tinham que se realizar através dos emissores e receptores de
capacete. Tiff ouviu que Felicitas chorava baixinho.
Esteve a
ponto de animá-la, quando a imagem da tela do rastreador começou a se movimentar.
Até então o aparelho havia seguido os movimentos da frota inimiga, que se
projetava na tela em forma de pontos imóveis. Mas, subitamente, dois desses
pontos se destacaram dos outros e começaram a se deslocar em direção ao centro
da tela.
Tiff alterou
a rota e imprimiu maior aceleração à nave.
— Vamos ter
o que fazer — disse em tom indiferente. — Estamos sendo perseguidos.
* * *
— MacClears,
cuide da Good Hope-IX — ordenou Rhodan. — Recolha-a a bordo de sua nave.
O cruzador
Terra saiu da formação e se aproximou da nave auxiliar. A Stardust-III
prosseguiu em direção à frota inimiga. Encontrava-se cerca de dez mil
quilômetros atrás da Solar System; esta já sabia que alguém havia chegado em
seu auxílio.
— Não se
aproxime muito, Nyssen — gritou Rhodan. — É provável que numa luta a pequena
distância sejamos inferiores a eles.
As nuvens de
gás que haviam restado das duas naves destruídas pelos desintegradores
permaneciam no espaço. Dois segundos depois de Nyssen ter aberto o fogo, a
Stardust-III e a Solar System emergiram do hiperespaço.
Rhodan
manteve seu plano. Desde o início — isto é, desde o dia em que o cadete Julian
Tifflor recebera instruções de voar para Nova Iorque e se apresentar a Homer G.
Adams — só esteve interessado numa coisa: apoderar-se de um daqueles seres
estranhos.
Não tinha o
menor interesse em destruir as naves inimigas e matar suas tripulações. Queria
saber com quem estava lidando.
Foi com essa
intenção que as duas naves avançaram, enquanto a Solar System cuidava da Good
Hope-IX.
* * *
Para o
comandante Harlgas a situação tornava-se cada vez mais confusa.
Os sensores
estruturais indicaram uma transição tão intensa que, por um instante, ele
chegou a acreditar que o aparelho estivesse defeituoso. Mas as outras naves do
grupo anunciaram o mesmo resultado fornecido pelos sensores, e, poucos segundos
depois, Harlgas foi informado de que mais duas unidades haviam surgido atrás da
nave inimiga que os atacara. Uma delas era um verdadeiro gigante, cuja tonelagem
devia equivaler mais ou menos à de todas as naves de Harlgas reunidas.
O comandante
saltador ordenou a retirada. O grupo dos saltadores acelerou e, juntamente com
a Orla XI, começou a se afastar do sistema.
Mas Harlgas
não se arriscou a entrar em transição. Duas das suas naves estavam no encalço
do minúsculo veículo espacial que se separara da pequena nave. Harlgas sabia
que o inimigo não teria o menor problema em dar cabo delas, se perdessem o
contato com o grupo.
As duas
naves dos saltadores eram mais ou menos equivalentes ao pequeno destróier em
capacidade de aceleração. Por isso aproximavam-se metro por metro.
Tiff dividiu
as posições: Hump olhava por cima do ombro de Felicitas, para observar as telas
dos rastreadores e dar aviso assim que houvesse algo de novo. Eberhardt tinha a
seu cargo as peças de artilharia. A tarefa não era nada fácil, pois para
atingir os controles tinha de passar o braço em torno de Mildred Orson.
Mildred fez
o possível para lhe facilitar o trabalho, mas não havia lugar para onde pudesse
se desviar.
A distância
que os separava da mais próxima das duas naves dos saltadores ainda era de
cerca de oito mil quilômetros. A uma distância de seis mil quilômetros os
desintegradores e os radiadores de nêutrons podiam ser disparados com uma
razoável dose de segurança.
Mas não se
sabia se o inimigo dispunha de peças de artilharia mais eficazes.
Tiff decidiu
tirar proveito da maior agilidade da pequena nave.
— Vamos
efetuar uma mudança de rota — disse em tom indiferente.
Efetuou uma
curva repentina, solicitando do neutralizador de pressão o máximo de sua
capacidade. No mesmo instante Hump gritou:
— A
Stardust-III e a Terra!
O destróier
não estava equipado com sensores estruturais. Hump constatara a presença das
duas naves através da observação direta.
Tiff olhou
para o lado e procurou descobrir a rota das duas naves. Viu que a Terra e a
Stardust-III investiam contra a frota inimiga, enquanto os saltadores batiam em
retirada. Percebeu ainda que a Solar System saía da formação e voava em direção
à Good Hope-IX.
— Que azar!
— resmungou Hump. — Antes tivéssemos ficado a bordo da Good Hope-IX, pois nesse
caso praticamente estaríamos em segurança a esta hora.
— Ninguém
podia saber disso — ponderou Tiff.
A mudança de
rota não preocupou as duas naves dos saltadores. Acompanharam a curva do
pequeno destróier; sua agilidade era maior do que Tiff supusera.
— Está bem
na minha mira — suspirou Eberhardt. — Quem dera que chegasse um pouquinho mais
perto.
Tiff
calculou. Se mantivesse a rota atual, o destróier passaria a uma distância de
aproximadamente dez unidades astronômicas do sol azulado. E dali em diante a
viagem prosseguiria pela eternidade afora, até que se esgotassem as reservas
energéticas dos perseguidores ou do perseguido.
Tiff sabia
perfeitamente que, se essa hipótese pudesse ser considerada, ela se
concretizaria primeiro no pequeno destróier. Por isso decidiu rapidamente.
Agindo como um comandante que não tem que prestar contas aos subordinados,
disse:
— Vamos
deixar que cheguem mais perto. Preste atenção, Eberhardt.
Notou que
Eberhardt respirava fortemente. Depois veio a resposta:
— Está bem.
Deixe que venham.
Tiff
desacelerou, utilizando o máximo da capacidade de frenagem da nave. Dentro de
dois minutos, o pequeno veículo espacial teve a velocidade reduzida para menos
da metade. Via-se perfeitamente que as duas naves dos saltadores não estavam
preparadas para uma manobra desse tipo. À medida que o deslocamento do
destróier se tornava mais lento, as duas naves cilíndricas se aproximavam.
— 6,5 —
anunciou Hump.
Eberhardt
manipulava febrilmente o painel de controle das duas peças de artilharia
pesada.
De tão
nervosa que ficou, Felicitas parou de chorar.
— 6,2.
— Cuidado,
Eberhardt!
— Estou
preparado — respondeu Eberhardt.
As duas
naves inimigas começaram a frear.
— 6,1.
— Preparem-se
— disse Tiff. — É bem possível que depois do primeiro tiro tenhamos de executar
algumas manobras. Tentarei me conservar nos limites da capacidade do
neutralizador, mas não sei se conseguirei. É bem possível que haja alguns
solavancos de aceleração.
Ninguém
respondeu. Poucos segundos depois, Hump gritou com a voz exultante:
— 6!
— Fogo!
Os olhos
arregalados de Eberhardt fitaram o estreito feixe de luz que aparecia no centro
da tela de mira. Ao dar o primeiro tiro, soltou um grito.
— Errou! —
gritou Hump decepcionado.
Tiff fez com
que o destróier descrevesse uma curva ampla. Seus ocupantes sentiram uma leve pressão,
que não ultrapassou 0,1 g. O mecanismo de mira controlado por Eberhardt
acompanhou automaticamente o alvo, depois que este tinha sido captado.
— 5,9!
— Fogo!
Desta vez
Eberhardt não gritou; em compensação, a voz estridente de Hump soou nos fones
de ouvido:
— Acertou em
cheio!
Eberhardt
suspirou.
Tiff
executou outra manobra, pois supunha que a essa hora a outra nave que os vinha
perseguindo não deixaria de abrir fogo. A curva aproximou-o pouco menos de
oitocentos quilômetros da nave inimiga. Tiff não tardou em compreender que essa
manobra fora o maior erro já cometido por ele.
Conforme
veio a saber posteriormente, as peças de artilharia pesada dos saltadores
tinham um alcance bem menor que o desintegrador e o radiador de nêutrons que se
encontravam a bordo do destróier. Antes da curva, a nave dirigida por Tiff
estava bem fora do alcance das armas inimigas.
Com a curva,
a velocidade se tornou inferior ao limite crítico.
E entre os
saltadores havia artilheiros de primeira ordem.
Um terrível
solavanco sacudiu o pequeno veículo. Por alguns segundos os olhos de Tiff se
fecharam de dor. Quando voltou a abri-los, o quadro projetado na tela de
localização ótica estava completamente alterado. Os pontos luminosos que
representavam as estrelas traçaram ligeiras faixas, que se deslocavam da
direita para a esquerda contra o fundo escuro das profundezas do espaço. Tiff
não precisou ouvir os estridentes sinais emitidos pelos monitores de avarias
para saber que o destróier havia sido atingido e não mais estava em plenas
condições de manobrar.
Logo
compreendeu que dali em diante estariam lutando pela vida.
— Eberhardt!
Eberhardt
gemeu.
— S...
sim...?
— Já está
com ele na mira?
— Na mira?
Santo Deus, a nave está girando. Como poderia...
— Sei que a
nave está girando — respondeu Tiff em tom grosseiro. — Acontece que o mecanismo
de pontaria funciona automaticamente. Atire assim que o sujeito estiver em cima
do cruzamento dos dois fios. Vamos logo, senão ele acaba nos arrebentando!
— Está
certo, ainda tenho a imagem dele — disse Eberhardt depois de algum tempo. — Mas
dentro de três ou quatro segundos sai de novo.
— Três ou
quatro segundos bastam — berrou Tiff. — Atire!
Eberhardt
atirou. O primeiro tiro não acertou. Em compensação, o destróier sofreu outro
solavanco e uma nova componente dinâmica imprimiu-lhe uma rotação em sentido
praticamente contrário ao da que até então vinha executando. Com isso, a nave
passou a girar mais lentamente.
Devia ter
sido um tiro de raspão. Os monitores de avarias permaneceram em silêncio.
Eberhardt voltou a atirar. Por alguns segundos projetou-se na tela a imagem de
parte da nave inimiga que se dissolvia em gás. Ninguém saberia dizer que parte
havia sido atingida, ou se o impacto colocara o inimigo fora de ação.
— Continue a
atirar! — insistiu Tiff.
Quando o
inimigo voltou a surgir na tela de imagem, junto com ele surgiu um raio
energético finíssimo e ofuscante, que saía da parte não danificada da nave.
Tiff encolheu-se para absorver o solavanco que esperava; mas não houve nenhum
impacto. O raio energético passou perto do destróier avariado, perdendo-se no
espaço.
Em compensação,
a terceira salva disparada por Eberhardt atingiu o inimigo a meia nau,
eliminando de vez o perigo que dali os ameaçava.
— Que sorte!
— disse Eberhardt em tom indiferente. — Nossos canhões estão sem energia.
Tiff
assobiou entre os dentes.
— É uma péssima
notícia — disse em voz baixa e começou a ler os instrumentos.
O primeiro
olhar foi dirigido para o controle do condicionamento de ar. Uma luz vermelha
se acendeu, e uma inscrição em letras garrafais surgiu abaixo da mesma:
Dispositivo de
emergência ligado. Duração total da vida: quinze horas.
O
transmissor de hiperondas havia sido inutilizado. Tiff ligou o receptor, mas o
alto-falante apenas emitiu um chiado monótono.
O mecanismo
propulsor só dispunha de dois por cento de sua capacidade energética.
3
Às 21:45 h,
hora de Terrânia, a Solar System avisou que havia recolhido a Good Hope-IX.
Dois minutos
depois, a Terra, disparando a uma distância segura, inutilizou uma das naves do
grupo do comandante Harlgas.
Às 21:51 h,
os ocupantes da Stardust-III e da Terra perceberam que as outras naves do grupo
puseram no espaço pequenos veículos de socorro, que recolheram os sobreviventes
da nave gravemente danificada. Rhodan proibiu qualquer interferência na
operação de socorro. Bell protestou.
— Como
poderemos saber com quem estamos lidando?
Rhodan
respondeu com a maior tranqüilidade:
— Examinando
os destroços, saberemos.
Pouco antes
das vinte e duas horas, a Stardust-III deu cabo de mais uma nave inimiga.
Também desta vez notou-se que o inimigo se esforçava para salvar os
sobreviventes.
Depois disso
Rhodan deu ordem para iniciar a manobra de frenagem. À medida que a Terra e a
Stardust-III reduziam a velocidade, a frota do comandante Harlgas se afastava
rapidamente.
Harlgas já
soubera que os dois veículos espaciais mandados em perseguição do destróier
estavam perdidos. Assim que o grupo atingiu uma velocidade suficiente, Harlgas
se preparou para a transição. Dali a alguns minutos, suas naves desapareceram
dos céus do setor de Beta-Albíreo.
Rhodan
observou a manobra com a maior tranqüilidade. Reginald Bell, que se encontrava
atrás dele, cerrou os punhos.
— Lá vão
eles! — resmungou. — Não conseguimos nada.
Rhodan se
levantou.
— Prepare
dois grupos de salvamento, que sairão da nave dentro de dez minutos — ordenou
laconicamente, sem dar atenção às palavras de Bell. — Dirigirei pessoalmente um
dos grupos. Diga a Crest que peço que me acompanhe. O outro grupo será dirigido
por Nyssen, que se encontra bem mais próximo dos destroços.
Bell se
apressou em retransmitir as ordens.
Poucos
minutos depois, receberam a notícia, transmitida pela Solar System, de que três
cadetes e duas estudantes da Academia Espacial haviam saído da Good Hope-IX num
destróier, antes que esta fosse recolhida a bordo da Solar System.
Um dos
cadetes, de paradeiro desconhecido, era Julian Tifflor.
Bell estava
muito nervoso quando transmitiu a notícia a Rhodan. Mas este demonstrou uma
calma bastante estranha e sorriu.
— Ótimo!
Tifflor saberá se arranjar.
De tão
perplexo, Bell levou algum tempo sem conseguir dizer uma palavra. Quando
finalmente estava prestes a falar, Crest entrou na sala de comando.
Rhodan foi
ao seu encontro.
Crest
caminhava de forma tranqüila, quase relaxada. Já os passos de Rhodan refletiam
a energia daquele homem. Os brilhantes cabelos brancos de Crest e o cintilar vermelho
de seus olhos eram de uma beleza tão surpreendente que nem pareciam
verdadeiros. Os cabelos de Rhodan estavam arrepiados, pois na excitação dos
últimos minutos passara muitas vezes as mãos pelos mesmos. Mantinha os olhos semicerrados,
como se a luz do recinto os ofuscasse. Ali viam-se frente a frente o arcônida,
representante de uma raça antiqüíssima, e o homem terrano, que pertencia a uma
espécie cuja unidade biológica mal começara a se constituir.
— Gostaria
de dar uma olhada numa das naves danificadas — disse Rhodan. — Será que poderia
me acompanhar?
Crest
confirmou com um ligeiro aceno de cabeça.
— Será um
prazer.
Dali a cinco
minutos, chegou o aviso de que o grupo de salvamento estava pronto para entrar
em ação. Rhodan e Crest pegaram o elevador e desceram à comporta.
O pequeno
grupo utilizou um veículo primitivo. Fora concebido especialmente para o
transporte entre várias naves que se encontrassem no espaço. Consistia
basicamente numa plataforma quadrada, de metal plastificado, que abrigava confortavelmente
vinte pessoas. Embaixo dela havia um mecanismo de propulsão que, face ao feitio
primitivo da mesma, desenvolvia uma potência bastante elevada, permitindo uma
aceleração ou desaceleração de até 100 g. Ainda embaixo da plataforma estava
instalado o neutralizador de pressão; o campo por ele gerado envolvia o espaço
situado acima da plataforma, protegendo seus ocupantes e impedindo que fossem
atirados para o espaço.
Rhodan
manteve contato radiofônico com Reginald Bell. Pouco depois que a plataforma
havia saído da Stardust-III, o mesmo comunicou a Rhodan que o major Nyssen e
seu grupo também se haviam posto a caminho.
A plataforma
levou dez minutos para atingir a nave inimiga, que estava gravemente
danificada. O neutralizador criou um campo de gravitação direcional acima da
plataforma, não influenciável pelos impactos de aceleração e desaceleração. Com
isso, os homens que se encontravam no tosco veículo tiveram a impressão de que
o vulto gigantesco da nave descia sobre eles.
A nave era
um verdadeiro monstro. Rhodan calculou que seu comprimento original devia ser
de uns duzentos e cinqüenta metros. O diâmetro do corpo cilíndrico era
seguramente superior a cinqüenta metros.
Rhodan já
vira muitas naves de raças extraterrestres. Todas elas não passavam de anões em
comparação com o gigante ao qual a plataforma se encostava com o maior cuidado.
Mesmo aquela
nave inimiga, volatilizada pela metade, ainda emitia os raios odientos de
energia concentrada e capacidade de luta.
No momento
em que o impacto suave sacudiu a placa de metal plastificado, Rhodan estava ao
lado de Crest. Olhou para o arcônida. Através da lâmina flexível do visor viu
que seus lábios se moviam. No alto-falante de capacete ouviu estas palavras:
— É uma nave
dos saltadores!
Rhodan
acenou com a cabeça; parecia pensativo. Face a um treinamento hipnótico
intensivo e prolongado, seus conhecimentos eram praticamente iguais aos do
arcônida. Conhecia a história dos saltadores tão bem quanto os arcônidas, e
sabia que eram a única raça que construía naves do tamanho da que tinha diante
de si.
— O que será
que essa gente tem contra nós? — perguntou Rhodan.
Crest levou
algum tempo para responder.
— É possível
que tenha chegado ao conhecimento deles que a Terra comercia com Ferrol. E não
gostariam disso.
— São de
opinião — completou Rhodan — que só eles têm o direito de praticar o comércio
em maior escala e a grande distância. Foi esta a razão do ataque?
— Exatamente
— confirmou Crest com a voz tranqüila.
Um jovem
tenente desceu da plataforma e passou a caminhar sobre o casco da nave, à
procura de uma comporta. Rhodan ouviu seu aviso:
— Não
encontro nenhuma abertura.
— Veja se
conseguimos entrar no local de impacto — retrucou Rhodan.
O tenente
impeliu-se para longe do casco da nave e flutuou até o lugar em que o disparo
do desintegrador da Stardust-III havia atingido a nave. Ali seus destroços
terminavam numa parede esfacelada e deformada.
O jovem
oficial desapareceu por algum tempo. Mas logo Rhodan ouviu sua voz:
— Não há
problemas; podemos entrar por aqui.
Rhodan
respondeu à mensagem:
— Deixarei
quatro homens aqui. Os outros irão comigo.
Em grupo de
sete, passaram ao lado do envoltório da gigantesca nave, dobraram
cautelosamente a parede quebrada e dirigiram os feixes de luz de suas lanternas
para a escuridão da nave vazia.
A construção
era simples e fácil de abranger com a vista. O eixo da nave cilíndrica era
formado por um amplo corredor que, segundo parecia, prosseguia até a proa e,
antes do impacto, provavelmente só terminava na popa agora gaseificada.
Rhodan foi o
primeiro a entrar. Deu um passo e apoiou as pernas firmemente no chão
recortado, para absorver o impacto da gravidade, caso houvesse um neutralizador
e o mesmo estivesse intacto.
Mas não
havia nada disso. A ausência de gravidade se espalhara por todos os cantos da
nave sem vida. Rhodan empurrou-se com o pé e, de holofote na mão, flutuou pelo
corredor.
Crest
seguiu-o.
— Bem que
poderia contar o que está procurando aqui — disse Crest.
— Procuro
indício — respondeu Rhodan. — Não me contento em adivinhar quais são suas
intenções e por que nos atacam. Quero ter certeza.
Em ambas as
paredes do corredor havia grande número de nichos e escotilhas. Rhodan dividiu
o grupo, incumbindo cada um dos homens a dar busca em alguns dos recintos que
ficavam atrás das escotilhas.
As
informações começaram a chegar enquanto Crest e Rhodan ainda se esforçavam para
chegar à proa.
— Cápsulas
energéticas destinadas a armas gravitacionais — anunciou alguém.
— Depósitos
para peças de reposição dos canhões — disse outro.
Rhodan
murmurou uma confirmação.
— Bem que eu
desconfiava que os recintos mais importantes da nave ficam na proa — ouviu
Crest dizer.
Chegaram a
um lugar em que o corredor se alargava para o dobro. As escotilhas se abriam em
todas as direções.
Rhodan
chamou dois dos homens que revistavam salas menos importantes situadas na parte
traseira da nave.
— Peguem a
parte da esquerda — ordenou. — Crest e eu daremos uma olhada à direita.
A primeira
sala inspecionada parecia ser o posto de observação da nave inimiga. Rhodan viu
uma série de instrumentos que lhe pareciam familiares e uns poucos de que não
sabia a utilidade.
Crest também
não sabia.
Os dois
soldados avisaram que haviam encontrado uma posição de combate e provavelmente
a sala de comando da nave. Rhodan ordenou que procurassem encontrar registros
escritos. Explicou em poucas palavras que os livros dos saltadores eram
formados por pequenas pilhas de fitas de plástico, amarradas de um lado.
Dali a
alguns minutos, um dos soldados avisou em tom exaltado:
— Encontrei
um cadáver!
Rhodan
interrompeu a busca que vinha realizando e, acompanhado de Crest, correu para o
lugar de onde havia vindo o aviso.
O feixe de
luz ofuscante do holofote que o soldado tinha na mão estava dirigido para um
vulto de ombros largos, estendido no chão.
O morto
envergava seu traje espacial, mas, quando o tiro do desintegrador rompeu o
casco da nave, o capacete não estava fechado. O homem falecera em virtude da
descompressão explosiva.
— É alto e
largo — murmurou Rhodan. — Foi feito para suportar gravitações mais fortes. É
um saltador.
Crest virou
o rosto. Não suportava a visão do morto. Fez seu holofote percorrer o restante
da sala em que se encontravam.
Ficou
perguntando a si mesmo o que teria sido feito da inteligência dos saltadores,
já que no início da luta não haviam ordenado aos tripulantes da nave que
fechassem os trajes espaciais.
Como seria
possível que, numa nave da guerra, um dos membros da tripulação fosse
surpreendido com o capacete aberto durante um combate?
A pergunta
tanto preocupou Crest que, por várias vezes, passou os olhos por cima da caixa
metálica alongada encostada a uma das paredes sem que a notasse. Só da terceira
vez seu olhar caiu na mesma e ele a examinou.
Ninguém viu
quando o arcônida arregalou os olhos de susto. Rhodan e o soldado estavam
examinando o cadáver do saltador. Crest foi o primeiro a sentir a pressão suave
da gravitação, que subitamente retornava.
Alguns
segundos se passaram até que
Crest
conseguisse vencer o susto a ponto de soltar uma advertência.
— Cuidado!
Rhodan
virou-se precipitadamente, com o holofote na esquerda e o radiador de impulsos
térmicos engatilhado na direita.
— O que
houve?
Crest fez um
débil movimento de mão em direção à caixinha estreita.
— Ali. Uma
bomba-relógio gravitacional!
* * *
As duas
moças recuperaram os sentidos praticamente ao mesmo tempo. Felicitas voltou a
chorar assim que se deu conta da situação em que se achava.
Tiff
conseguira eliminar o movimento de rotação causado pelo impacto. O destróier
desenvolvia uma velocidade inferior a vinte mil quilômetros por segundo —
tomado como ponto de referência o sol azul de Beta-Albíreo, que mais próximo se
encontrava ao veículo espacial — e seguia por uma rota quase vertical àquela na
qual se afastara da Good Hope-IX.
A eliminação
do movimento de rotação consumira mais energia. Se nas proximidades existisse
um mundo em que o pouso, em princípio, fosse possível, ele só poderia ser
utilizado se tivesse uma atmosfera bastante densa, para permitir o pouso
aerodinâmico, ou se sua gravitação superficial fosse inferior a 1 g.
De outra
forma o pouso representaria um acidente, e não se poderia garantir a
integridade física dos ocupantes do destróier.
Eberhardt e
Hump procuraram descobrir o defeito que impedia o funcionamento do
hipercomunicador, mas suas tentativas não foram coroadas de êxito.
O conversor
havia sido destruído pelo impacto. Essa peça tinha uma entrada tridimensional,
situada do lado do gerador, e uma saída de cinco dimensões para o lado do
transmissor. O aparelho que se situava entre essa entrada e saída era uma das
peças mais complicadas do universo. Além de Rhodan, havia na Terra apenas duas
ou três pessoas que entendiam alguma coisa de conversores desse tipo. E nenhum
dos três cadetes pertencia a esse grupo de pessoas.
— Nada —
gemeu Hump em tom resignado.
Tiff acenou
com a cabeça. Não esperava outra coisa.
— Deixe o
receptor ligado! — recomendou.
Depois de
algum tempo, percebeu que o destróier atravessaria aproximadamente o centro da
linha imaginária que ligava os centros de gravidade dos dois sóis. Uma vez que
o astro central, de cor alaranjada, era muito maior que o anão azulado, esse
ponto ficava mais próximo à superfície do gigante.
Naquele
momento Tiff não conseguiu localizar qualquer planeta. Parte dos instrumentos
de localização de maior importância, especialmente os localizadores de grande
alcance, haviam sido postos fora de ação.
O fato não
preocupou Tiff. De bordo da Orla XI vira que o
sistema possuía um planeta. Os sistemas de um único planeta são muito raros,
por isso era provável que houvesse outros.
Restava
saber se o destróier conseguiria se aproximar de algum deles o suficiente para
arriscar uma mudança de rota, seguida do pouso. E mais: seria necessário que
tudo isso acontecesse antes que terminasse o prazo fatal de quinze horas.
Finalmente
Felicitas parou de chorar. Todos se sentiram aliviados.
Depois de
algum tempo, Tiff disse com a voz cansada.
— Faltam
quatorze horas. Quem quiser dormir, que o faça. Mais tarde precisaremos de
vários pares de olhos bem vigilantes.
* * *
A imensa
onda de gravitação desencadeada numa fração de segundo irrompeu na pequena sala
no mesmo instante em que Crest proferiu sua advertência.
O soldado
caiu ao solo com um gemido. O chão tremeu com o impacto de seu corpo. Crest
caiu de joelhos.
Rhodan foi o
único que ainda se manteve de pé. O primeiro grito de Crest deixara-o preparado
para tudo. Não havia ninguém que reagisse mais depressa que Perry Rhodan.
Mas a
terrível gravitação puxava-o com uma força sempre crescente. Rhodan desceu
lentamente e deitou-se de costas. Esforçou-se para controlar a respiração.
Conseguiu. A
cada movimento dos pulmões, Rhodan sentia fortes pontadas, mas a respiração
continuava, e com ela a vida.
Rhodan
procurou se lembrar de tudo que sabia sobre bombas-relógios gravitacionais.
Aquele tipo
de bomba era uma arma traiçoeira cuja única finalidade consistia em segurar o
inimigo até que a pessoa que colocara o artefato pudesse voltar com reforços
suficientes; no entanto, podia também provocar uma morte lenta.
“Seu idiota”, pensou Rhodan, admirando-se
da lentidão com que o cérebro funcionava sob a influência da força gravitacional
aumentada, “você bem que poderia ter se
lembrado da possibilidade de terem colocado uma armadilha nos destroços da nave.”
Com um
tremendo esforço, virou a cabeça ligeiramente para o lado, a fim de ver a
bomba. Os holofotes de Crest e do soldado haviam caído de suas mãos,
espatifando-se no chão. A lanterna de Rhodan estava a seu lado e continuava
acesa. O feixe de luz não se dirigia para a bomba, mas iluminava todo o
recinto.
O estojo da
bomba nem chegava a medir um metro. Era cilíndrico e seu diâmetro era de cerca
de trinta centímetros.
“Uma coisinha dessas, e produz uma energia
gravitacional de tamanha intensidade”, pensou Rhodan.
Calculou que
a pressão gravitacional reinante na sala devia atingir de 15 a 20 g. Era tão
intensa que nem se poderia pensar em mover a mão.
Rhodan
constatou que a gravitação continuava a crescer. Procurou calcular a taxa de
crescimento e, guiando-se pelo que sentia, pensou em 0,l g por minuto.
Era possível
que houvesse uma margem de erro. Logo chegaria o instante em que... ao pensar
nisso, lembrou-se de Nyssen.
Nyssen!
Nyssen estava percorrendo a outra nave. Era bem possível que nesse mesmo instante
também estivesse caindo na armadilha.
Reunindo as
forças que lhe restavam, principiou:
— Aqui
fala... Rhodan! Nyssen... nos destroços... há uma... bomba-relógio
gravitacional. Tome... cuidado!
O suor
porejou em sua testa e penetrou-lhe nos olhos. Com um gemido, colocou a cabeça
na posição anterior.
Ouviu um
estalo no receptor de capacete.
— Aqui fala
Nyssen. Nyssen ao comandante. Não encontramos nada. O que houve com o senhor?
Podemos ajudar?
“Seu idiota”, pensou Rhodan furioso, “você nem sabe como é uma bomba
gravitacional.”
— Tenha
cuidado... — voltou a falar. — Trata-se... de um objeto... cilíndrico... de um
metro de comprimento... e trinta centímetros de diâmetro... Tome... Cuidado!
Ouviu Nyssen
fungar.
— Um objeto
cilíndrico de um metro de comprimento e trinta centímetros de diâmetro?
Houve uma
pausa. Depois ouviu-se o grito rouco de Nyssen:
— Comandante!
Acabamos de colocar aquilo em nossa plataforma!
Por um
instante Rhodan perdeu a consciência. Quando voltou a recuperar os sentidos,
ouviu a voz de Nyssen:
— ...não
responde mais? Alô, comandante! Por que não responde?
Rhodan resmungou alguma coisa. Suas cordas vocais quase não conseguiam
produzir sons articulados.
Nyssen
pareceu compreender.
— No último
instante conseguimos empurrar aquilo para fora da plataforma — disse. — Ainda
bem. Quando se encontrava a uns cem metros, disparou e arrastou a plataforma um
pedaço. A máquina mal e mal conseguiu vencer a força gravitacional. A esta hora
a bomba está vagando pelo espaço.
O cérebro de
Rhodan se rebelou contra a inatividade a que seu corpo estava condenado. Em voz
alta gritou:
— Segure a
bomba!
Voltou a
perder os sentidos.
Não sabia
quanto tempo se passara quando recuperou os sentidos. De qualquer maneira,
ouviu a voz insistente de Nyssen:
— Responda,
por favor! Responda! Prendemos a bomba. Está amarrada a cerca de duzentos
metros da plataforma.
Rhodan teve
vontade de abraçar Nyssen.
— Ótimo! —
cochichou.
Sentiu que
as forças voltavam a abandoná-lo. A gravitação irradiada pela bomba
ultrapassava a marca dos 20 g. Só lhe restavam alguns minutos para explicar a
Nyssen o que devia fazer.
— Aproxime-se...
da nave destroçada em que me encontro... — gemeu. — Estamos... na proa. Lance a
bomba... de tal forma... que...
— Entendido!
— gritou Nyssen, cheio de entusiasmo. — Não explique mais nada. Poupe suas
forças.
Mas Rhodan
proferiu mais uma palavra. Sua voz foi tão débil que Nyssen mal conseguiu
entendê-lo:
— Rápido...
* * *
Depois de
algum tempo até o cronômetro deixou de funcionar. Parou quando o destróier ainda
dispunha de nove horas para encontrar um local em que pudesse pousar. Dali em
diante, Tiff procurou avaliar o tempo que se passava, mas não tinha nenhum
ponto de referência.
Depois de
algum tempo a nave cruzou a linha imaginária que ligava os dois sóis. A
gravitação muito mais intensa do anão azul tornou-se perceptível e obrigou o
veículo espacial a tomar outra rota. Mas nem por um instante houve o risco de
que o destróier fosse se precipitar sobre o sol.
Klaus
Eberhardt realmente adormecera. Tiff apenas conseguira tirar alguns cochilos
ligeiros, e isso não bastava para que o organismo recuperasse as forças. Sentiu
que se aproximava o momento em que começaria a chorar de nervosismo e
frustração, tal qual Felicitas fizera há pouco.
Procurou se
distrair, esforçando-se para imaginar como seria o planeta sobre o qual
pousaria o destróier; tentou adivinhar o que fariam por lá.
Aquilo não
passava de um exercício mental. Se encontrassem algum planeta, seria um que
nunca haviam visto. Ninguém poderia imaginar como seria.
Mas o
pensamento distraía.
Tiff também
se lembrou do robô que todo destróier trazia a bordo. Estava jogado no pequeno
depósito de popa, sem que tivesse sido ativado. O robô dispunha de gerador
próprio, e por algum tempo Tiff ficou refletindo sobre a possibilidade de ligar
o mesmo aos propulsores danificados. Mas lembrou-se que o gerador do robô só
tinha um centésimo do desempenho energético necessário ao funcionamento de um
mecanismo propulsor, motivo por que seria imprestável para esse fim.
Se conseguissem
encontrar um lugar em que pudessem pousar, teriam de ficar satisfeitos se o
robô ainda estivesse em condições de funcionamento. Afinal, não era muito
improvável que também tivesse sido danificado pelo impacto.
Vez por
outra Tiff passava os olhos pela ampla tela de localização ótica, que mostrava
o setor do espaço situado no sentido do deslocamento da nave. O fundo negro
estava repleto de bilhões de pontos luminosos, que cintilavam tranqüilamente.
Tiff não tinha esperança de encontrar por essa forma aquilo que estava
procurando; até chegava a achar ridículo acreditar que um astronauta
conseguisse encontrar um planeta num setor totalmente desconhecido do espaço,
olhando simplesmente para a tela. Mesmo que não dispusesse de um rastreador de
grande alcance, poderia perceber o astro muito mais facilmente pela gravitação
do mesmo, que desviaria a rota do veículo espacial. A dificuldade estava em
percebê-lo pelo tamanho ou pela luminosidade mais intensa, que o destacaria em
meio às miríades de pontos luminosos.
Em noventa e
nove casos entre cem, a opinião de Tiff seria correta.
Acontece que
na tela surgiu uma constelação muito luminosa, que, quando Tiff a olhou pela
primeira vez, produziu em sua fantasia a imagem de um Y formado de sete
estrelas.
Já agora o traço
esquerdo do Y se destacara do resto, e o ponto luminoso que poucos minutos
antes formara a ponta avançara quase até a bifurcação da letra.
Tiff se
ergueu em sua poltrona. Estreitou os olhos e examinou a imagem que se desenhava
na tela.
Uma estrela
fixa não altera sua posição face ao observador, mesmo que este se desloque a
uma velocidade de vinte mil quilômetros por segundo.
Já os
planetas se movem. No momento em que se tornam visíveis já se encontram tão
próximos que, quando o observador se desloca por alguns milhares de
quilômetros, sua posição é totalmente diversa.
Tiff guardou
a descoberta para si, pois não acreditava que sua suposição pudesse ser
correta.
Mas dali a
dez minutos o ponto luminoso que provocara suas suspeitas já havia se deslocado
até o lado oposto do Y, situando-se alguns milímetros acima das estrelas que
até então formavam a extremidade superior do traço do lado direito.
Ainda sem
dizer uma palavra, Tiff determinou a posição do astro desconhecido. O cálculo
não foi muito preciso, já que Tiff não conhecia a mudança de rota causada pela
gravitação do sol azul. Teve que estimá-la, e para isso adotou os valores
geralmente admitidos em estrelas desse tipo.
O cálculo
demorou uns quinze minutos.
Depois
disso, Tiff começou a agir. Em virtude da chave de emergência o neutralizador
continuava a funcionar; por isso ninguém percebeu a nova mudança de rota. As
estrelas projetadas na tela descreveram uma curva ligeira, quase imperceptível.
O ponto
luminoso móvel se deslocou para o centro da tela, e Tiff cuidou para que
continuasse ali.
Depois da
correção de rota, procurou determinar a velocidade do destróier. O propulsor
não estava funcionando mais; se o ponto luminoso, que segundo acreditava era um
planeta, emitisse qualquer força gravitacional, por mínima que fosse, isso
deveria se refletir no movimento do veículo espacial.
Meia hora
depois, Tiff percebeu que tivera razão.
A velocidade
do destróier em relação ao ponto luminoso aumentara em dez metros por segundo.
Tiff virou a
cabeça.
— Já
encontramos o que procurávamos — disse, falando para dentro do microfone de
capacete. Tinha a voz rouca de tanto que teve de se esforçar para não deixar
perceber a sensação de triunfo.
4
Dez minutos
depois de ter cochichado o último pedido aflito dirigido ao major Nyssen, Perry
Rhodan perdeu os sentidos.
Nyssen sabia
o que estava em jogo. Não conhecia nada sobre o funcionamento da bomba-relógio;
só sabia que gerava certa gravitação, da mesma forma que um gerador
gravitacional do tipo que já conhecia.
Mas compreendeu
imediatamente que Rhodan se encontrava em perigo. Não tinha a menor idéia de
quem seriam as pessoas a que Rhodan aludira ao usar a palavra nós; mas,
mesmo que fosse somente Rhodan que se encontrasse em perigo, isso teria levado
Nyssen a empreender as mais audaciosas ações.
Nyssen
partiu do pressuposto de que, na nave danificada em que Rhodan se encontrava, a
bomba devia ter sido colocada na mesma sala que naquela que ele mesmo
examinara. Essa suposição se confirmou quando dois homens do grupo de Nyssen,
munidos de gravímetros, mediram as condições gravitacionais reinantes nas
proximidades da nave destroçada em cujo interior Rhodan estava preso.
Nyssen
pedira às outras pessoas do grupo de Rhodan que saíssem da nave inutilizada e
voltassem à Stardust-III.
A plataforma
comandada por Nyssen arrastava atrás de si a bomba gravitacional ativada, e por
isso a manobra era muito difícil, mesmo para alguém que tivesse de cuidar
apenas de si mesmo.
Nyssen
manteve a bomba presa a longos cabos de plástico, a uma distância de dois
quilômetros. Ainda assim a gravitação artificial era perceptível. Mas, como a
gravitação é uma das grandezas físicas que se regem pela lei do 1/r2,
a bomba não representava um perigo direto para Nyssen e seus homens.
Nyssen
mandou que dois de seus homens abrissem caminho para a sala de comando da nave
destroçada, usando os radiadores de impulsos térmicos. Os homens soltaram
vários metros quadrados das chapas do casco da nave, abrindo um caminho
suficientemente largo para dar passagem à bomba.
Outros
homens prosseguiram nas medições, e apuraram a posição da bomba que mantinha
Rhodan preso, com uma margem de erro não superior a cinqüenta centímetros.
Nyssen
entrou em contato com a Stardust-III e pediu que o cérebro positrônico
executasse a toda pressa uma série de cálculos baseados nos dados por ele
fornecidos. Quando recebeu os resultados, soube que sua missão seria bem
sucedida, desde que conseguisse manobrar seu perigoso reboque com uma exatidão
suficiente.
Pediu aos
homens de seu grupo que voltassem à plataforma assim que estes, depois de medir
cuidadosamente a bomba, haviam aberto um caminho suficientemente largo e
extenso para a mesma.
Não gastou
mais de três minutos para explicar aos homens o que pretendia fazer.
Recomendou-lhes o seguinte:
— O que está
em jogo é a vida de Rhodan e de mais algumas pessoas que estão presas ao seu
lado. Temos muita pressa, mas não podemos agir precipitadamente. Estamos
manipulando o objeto mais perigoso em que já pusemos as mãos.
Aguardou
pelas objeções que surgiriam. Mas não houve nenhuma.
— Vamos
começar! — murmurou.
* * *
Rhodan
despertou com o forte solavanco que atravessou seu corpo.
Por alguns
segundos a atividade febril dos pulmões deixou-o espantado. Fungava como se
acabasse de fazer uma corrida de dez quilômetros.
Mas logo
compreendeu: o organismo estava recuperando aquilo de que fora privado nos
minutos anteriores.
O braço
direito de Rhodan levantou-se de um golpe.
A mão saltou
para o alto e, acima da cabeça, bateu na parede dura.
A bomba! A
bomba deixara de emitir sua gravitação!
Dali a um
instante Rhodan estava de pé. Sentiu a atração estranha provocada por um campo
gravitacional acentuadamente heterogêneo: enquanto nas pernas a gravitação
estava ausente, na cabeça atingia mais de l g.
“Não é nada disso”, pensou Rhodan. “A bomba continua a emitir sua gravitação.
Apenas Nyssen agiu como devia.”
Levantou o
holofote manual e dirigiu a luz na direção de onde devia provir a influência
salvadora. Viu que o feixe de luz passava por uma parede recortada, perdendo-se
no nada.
Ou melhor,
quase no nada. Atrás do buraco aberto na parede, um cilindro de um metro de
comprimento e trinta centímetros de diâmetro flutuava no ar, sustentado por
cabos.
Era a
segunda bomba.
Rhodan olhou
em torno. Procurou avaliar as distâncias. A distância entre as duas bombas — a
que flutuava lá fora e aquela que o fizera desmaiar há meia hora — não era
superior a oito metros. Ele, Rhodan, encontrava-se exatamente no centro da
linha que unia as duas máquinas infernais.
E não tinha
nada que pudesse ajudá-lo a aproximar a segunda bomba para salvar Crest e o
soldado.
A voz
exaltada de Nyssen soou no receptor do capacete. Nyssen comandava seus homens;
Rhodan teve dificuldade em se fazer ouvir.
— Silêncio!
— gritou a plena força dos pulmões. — Aqui fala Rhodan. Preciso de um cabo ou
de uma vara comprida com um gancho ou coisa que o valha.
Nyssen
soltou um grito de alegria.
— Está bem,
chefe? — perguntou.
— Estou, mas
Crest e o soldado ainda estão passando mal. Tenho que dar um jeito de trazer a
bomba mais perto deles.
Nyssen
parecia refletir. Depois de algum tempo respondeu:
— Não
acredito que lhe possamos passar uma vara. Não conseguiríamos fazê-la passar
por cima da bomba. A gravitação a arrebentaria.
— Quem está
falando em passá-la por cima da bomba? Pode medir os dois campos
gravitacionais?
— Podemos.
— Pois mande
abrir a parte superior do casco. Se a pessoa que entrar por lá, permanecer
sempre na linha do centro entre as duas bombas, tudo dará certo.
Nyssen
estava de acordo.
— Começaremos
imediatamente.
Rhodan estava preocupado com Crest.

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