terça-feira, 11 de dezembro de 2012

P-029 - A Frota dos Saltadores - Kurt Marh [parte 2]


Rhodan recebeu a mensagem de Nyssen segundos antes da transição. Transmitiu-a a MacClears e recomendou ao comandante:
— Temos que libertar Good Hope-IX. Trate de pôr as naves inimigas fora de combate, mas não as destrua.
Dali a pouco, as duas naves desapareceram da sua posição e se transferiram para o hiperespaço. Voltaram a mergulhar no espaço a dois anos-luz dali e a uma distância de apenas três unidades astronômicas dos dois sóis do sistema geminado.
Eram 21:17 h, hora de Terrânia.
A luta ia começar.

* * *

A menor unidade independente da frota militar dos saltadores era o grupo. Cada grupo era formado de vinte e cinco a trinta e cinco naves e comandado por um indivíduo cuja posição correspondia à de um capitão-de-fragata terrestre.
O grupo do comandante Harlgas era a unidade que se encontrava mais próxima ao sistema de Beta-Albíreo quando Ornafer emitiu seus desesperados gritos de socorro para o espaço, valendo-se de uma freqüência especial de hiperondas.
Harlgas agiu imediatamente.
Poucos segundos depois de concluir a transição, obteve um quadro nítido da situação. A Orla XI, que se encontrava em posição difícil, afastava-se apressadamente do sistema. Próximo a ela, havia uma nave inimiga de tipo arcônida. A uma distância um pouco maior, havia outro veículo espacial, que parecia pequeno e inofensivo, motivo por que Harlgas acreditou que não haveria o menor risco em atacá-lo.
Mas logo viu que havia um risco: foi quando uma das suas naves se dissolveu em poeira. Assim que a perda lhe foi anunciada, Harlgas soltou uma furiosa gargalhada. Poucos segundos depois, a artilharia do grupo conseguiu produzir um impacto no pequeno veículo, que perdeu a capacidade de manobrar. Harlgas mandou suspender o fogo e aguardou a reação do inimigo.
Enquanto isso, não tirava os olhos da nave muito maior, que até então se mantivera inativa a uma distância de cerca de vinte mil quilômetros e subitamente passou a se deslocar.
Não demorou muito a compreender que o inimigo se lançava ao ataque e mandou que as naves de seu grupo assumissem posições de defesa.
Ficaria mais à vontade se soubesse quem era o inimigo que tinha diante de si. Uma ligeira palestra mantida com Orlgans, na Orla XI, informara-o de que, embora as naves fossem de origem arcônida, o que já percebera, o inimigo não poderia pertencer àquela raça.
Harlgas não se sentia muito seguro. A situação se complicou ainda mais quando o observador anunciou que um veículo de reduzidíssimas dimensões saíra da nave que havia sido inutilizada.
Harlgas ordenou a dois dos seus comandantes que perseguissem o pequenino veículo espacial. As vinte e sete restantes permaneceram nas posições que lhes haviam sido indicadas, com a recomendação de não cometerem o erro de subestimar o inimigo.
Logo verificou que a recomendação se justificava: de uma distância da qual um comandante saltador nem teria pensado em disparar, a nave inimiga deu a primeira salva e, nessa primeira investida, transformou duas das naves de Harlgas numa nuvem de poeira e cinza.

* * *

Conforme se planejara, o destróier saiu da nave e disparou pelo espaço. Tiff lhe imprimiu uma aceleração não muito elevada.
— Para onde vamos? — perguntou Hump.
— Deringhouse disse que devíamos entrar em contato com Rhodan — respondeu Tiff. — Não tenho a menor idéia de onde Rhodan possa estar metido, mas...
— ...mas, se Rhodan diz alguma coisa — interrompeu-o Hump — você acredita como acreditaria numa passagem da Bíblia.
Tiff não perdeu a calma.
— Não é isso — respondeu. — Mas Deringhouse deve saber o que diz.
O espaço no interior da cabina era muito limitado. Só havia três assentos; por questão de comodidade, tanto Hump como Eberhardt seguravam uma moça no colo.
Por causa do perigo que os ameaçava, mantinham os trajes espaciais fechados; por isso as comunicações tinham que se realizar através dos emissores e receptores de capacete. Tiff ouviu que Felicitas chorava baixinho.
Esteve a ponto de animá-la, quando a imagem da tela do rastreador começou a se movimentar. Até então o aparelho havia seguido os movimentos da frota inimiga, que se projetava na tela em forma de pontos imóveis. Mas, subitamente, dois desses pontos se destacaram dos outros e começaram a se deslocar em direção ao centro da tela.
Tiff alterou a rota e imprimiu maior aceleração à nave.
— Vamos ter o que fazer — disse em tom indiferente. — Estamos sendo perseguidos.

* * *

— MacClears, cuide da Good Hope-IX — ordenou Rhodan. — Recolha-a a bordo de sua nave.
O cruzador Terra saiu da formação e se aproximou da nave auxiliar. A Stardust-III prosseguiu em direção à frota inimiga. Encontrava-se cerca de dez mil quilômetros atrás da Solar System; esta já sabia que alguém havia chegado em seu auxílio.
— Não se aproxime muito, Nyssen — gritou Rhodan. — É provável que numa luta a pequena distância sejamos inferiores a eles.
As nuvens de gás que haviam restado das duas naves destruídas pelos desintegradores permaneciam no espaço. Dois segundos depois de Nyssen ter aberto o fogo, a Stardust-III e a Solar System emergiram do hiperespaço.
Rhodan manteve seu plano. Desde o início — isto é, desde o dia em que o cadete Julian Tifflor recebera instruções de voar para Nova Iorque e se apresentar a Homer G. Adams — só esteve interessado numa coisa: apoderar-se de um daqueles seres estranhos.
Não tinha o menor interesse em destruir as naves inimigas e matar suas tripulações. Queria saber com quem estava lidando.
Foi com essa intenção que as duas naves avançaram, enquanto a Solar System cuidava da Good Hope-IX.

* * *

Para o comandante Harlgas a situação tornava-se cada vez mais confusa.
Os sensores estruturais indicaram uma transição tão intensa que, por um instante, ele chegou a acreditar que o aparelho estivesse defeituoso. Mas as outras naves do grupo anunciaram o mesmo resultado fornecido pelos sensores, e, poucos segundos depois, Harlgas foi informado de que mais duas unidades haviam surgido atrás da nave inimiga que os atacara. Uma delas era um verdadeiro gigante, cuja tonelagem devia equivaler mais ou menos à de todas as naves de Harlgas reunidas.
O comandante saltador ordenou a retirada. O grupo dos saltadores acelerou e, juntamente com a Orla XI, começou a se afastar do sistema.
Mas Harlgas não se arriscou a entrar em transição. Duas das suas naves estavam no encalço do minúsculo veículo espacial que se separara da pequena nave. Harlgas sabia que o inimigo não teria o menor problema em dar cabo delas, se perdessem o contato com o grupo.
As duas naves dos saltadores eram mais ou menos equivalentes ao pequeno destróier em capacidade de aceleração. Por isso aproximavam-se metro por metro.
Tiff dividiu as posições: Hump olhava por cima do ombro de Felicitas, para observar as telas dos rastreadores e dar aviso assim que houvesse algo de novo. Eberhardt tinha a seu cargo as peças de artilharia. A tarefa não era nada fácil, pois para atingir os controles tinha de passar o braço em torno de Mildred Orson.
Mildred fez o possível para lhe facilitar o trabalho, mas não havia lugar para onde pudesse se desviar.
A distância que os separava da mais próxima das duas naves dos saltadores ainda era de cerca de oito mil quilômetros. A uma distância de seis mil quilômetros os desintegradores e os radiadores de nêutrons podiam ser disparados com uma razoável dose de segurança.
Mas não se sabia se o inimigo dispunha de peças de artilharia mais eficazes.
Tiff decidiu tirar proveito da maior agilidade da pequena nave.
— Vamos efetuar uma mudança de rota — disse em tom indiferente.
Efetuou uma curva repentina, solicitando do neutralizador de pressão o máximo de sua capacidade. No mesmo instante Hump gritou:
— A Stardust-III e a Terra!
O destróier não estava equipado com sensores estruturais. Hump constatara a presença das duas naves através da observação direta.
Tiff olhou para o lado e procurou descobrir a rota das duas naves. Viu que a Terra e a Stardust-III investiam contra a frota inimiga, enquanto os saltadores batiam em retirada. Percebeu ainda que a Solar System saía da formação e voava em direção à Good Hope-IX.
— Que azar! — resmungou Hump. — Antes tivéssemos ficado a bordo da Good Hope-IX, pois nesse caso praticamente estaríamos em segurança a esta hora.
— Ninguém podia saber disso — ponderou Tiff.
A mudança de rota não preocupou as duas naves dos saltadores. Acompanharam a curva do pequeno destróier; sua agilidade era maior do que Tiff supusera.
— Está bem na minha mira — suspirou Eberhardt. — Quem dera que chegasse um pouquinho mais perto.
Tiff calculou. Se mantivesse a rota atual, o destróier passaria a uma distância de aproximadamente dez unidades astronômicas do sol azulado. E dali em diante a viagem prosseguiria pela eternidade afora, até que se esgotassem as reservas energéticas dos perseguidores ou do perseguido.
Tiff sabia perfeitamente que, se essa hipótese pudesse ser considerada, ela se concretizaria primeiro no pequeno destróier. Por isso decidiu rapidamente. Agindo como um comandante que não tem que prestar contas aos subordinados, disse:
— Vamos deixar que cheguem mais perto. Preste atenção, Eberhardt.
Notou que Eberhardt respirava fortemente. Depois veio a resposta:
— Está bem. Deixe que venham.
Tiff desacelerou, utilizando o máximo da capacidade de frenagem da nave. Dentro de dois minutos, o pequeno veículo espacial teve a velocidade reduzida para menos da metade. Via-se perfeitamente que as duas naves dos saltadores não estavam preparadas para uma manobra desse tipo. À medida que o deslocamento do destróier se tornava mais lento, as duas naves cilíndricas se aproximavam.
— 6,5 — anunciou Hump.
Eberhardt manipulava febrilmente o painel de controle das duas peças de artilharia pesada.
De tão nervosa que ficou, Felicitas parou de chorar.
— 6,2.
— Cuidado, Eberhardt!
— Estou preparado — respondeu Eberhardt.
As duas naves inimigas começaram a frear.
— 6,1.
— Preparem-se — disse Tiff. — É bem possível que depois do primeiro tiro tenhamos de executar algumas manobras. Tentarei me conservar nos limites da capacidade do neutralizador, mas não sei se conseguirei. É bem possível que haja alguns solavancos de aceleração.
Ninguém respondeu. Poucos segundos depois, Hump gritou com a voz exultante:
— 6!
— Fogo!
Os olhos arregalados de Eberhardt fitaram o estreito feixe de luz que aparecia no centro da tela de mira. Ao dar o primeiro tiro, soltou um grito.
— Errou! — gritou Hump decepcionado.
Tiff fez com que o destróier descrevesse uma curva ampla. Seus ocupantes sentiram uma leve pressão, que não ultrapassou 0,1 g. O mecanismo de mira controlado por Eberhardt acompanhou automaticamente o alvo, depois que este tinha sido captado.
— 5,9!
— Fogo!
Desta vez Eberhardt não gritou; em compensação, a voz estridente de Hump soou nos fones de ouvido:
— Acertou em cheio!
Eberhardt suspirou.
Tiff executou outra manobra, pois supunha que a essa hora a outra nave que os vinha perseguindo não deixaria de abrir fogo. A curva aproximou-o pouco menos de oitocentos quilômetros da nave inimiga. Tiff não tardou em compreender que essa manobra fora o maior erro já cometido por ele.
Conforme veio a saber posteriormente, as peças de artilharia pesada dos saltadores tinham um alcance bem menor que o desintegrador e o radiador de nêutrons que se encontravam a bordo do destróier. Antes da curva, a nave dirigida por Tiff estava bem fora do alcance das armas inimigas.
Com a curva, a velocidade se tornou inferior ao limite crítico.
E entre os saltadores havia artilheiros de primeira ordem.
Um terrível solavanco sacudiu o pequeno veículo. Por alguns segundos os olhos de Tiff se fecharam de dor. Quando voltou a abri-los, o quadro projetado na tela de localização ótica estava completamente alterado. Os pontos luminosos que representavam as estrelas traçaram ligeiras faixas, que se deslocavam da direita para a esquerda contra o fundo escuro das profundezas do espaço. Tiff não precisou ouvir os estridentes sinais emitidos pelos monitores de avarias para saber que o destróier havia sido atingido e não mais estava em plenas condições de manobrar.
Logo compreendeu que dali em diante estariam lutando pela vida.
— Eberhardt!
Eberhardt gemeu.
— S... sim...?
— Já está com ele na mira?
— Na mira? Santo Deus, a nave está girando. Como poderia...
— Sei que a nave está girando — respondeu Tiff em tom grosseiro. — Acontece que o mecanismo de pontaria funciona automaticamente. Atire assim que o sujeito estiver em cima do cruzamento dos dois fios. Vamos logo, senão ele acaba nos arrebentando!
— Está certo, ainda tenho a imagem dele — disse Eberhardt depois de algum tempo. — Mas dentro de três ou quatro segundos sai de novo.
— Três ou quatro segundos bastam — berrou Tiff. — Atire!
Eberhardt atirou. O primeiro tiro não acertou. Em compensação, o destróier sofreu outro solavanco e uma nova componente dinâmica imprimiu-lhe uma rotação em sentido praticamente contrário ao da que até então vinha executando. Com isso, a nave passou a girar mais lentamente.
Devia ter sido um tiro de raspão. Os monitores de avarias permaneceram em silêncio. Eberhardt voltou a atirar. Por alguns segundos projetou-se na tela a imagem de parte da nave inimiga que se dissolvia em gás. Ninguém saberia dizer que parte havia sido atingida, ou se o impacto colocara o inimigo fora de ação.
— Continue a atirar! — insistiu Tiff.
Quando o inimigo voltou a surgir na tela de imagem, junto com ele surgiu um raio energético finíssimo e ofuscante, que saía da parte não danificada da nave. Tiff encolheu-se para absorver o solavanco que esperava; mas não houve nenhum impacto. O raio energético passou perto do destróier avariado, perdendo-se no espaço.
Em compensação, a terceira salva disparada por Eberhardt atingiu o inimigo a meia nau, eliminando de vez o perigo que dali os ameaçava.
— Que sorte! — disse Eberhardt em tom indiferente. — Nossos canhões estão sem energia.
Tiff assobiou entre os dentes.
— É uma péssima notícia — disse em voz baixa e começou a ler os instrumentos.
O primeiro olhar foi dirigido para o controle do condicionamento de ar. Uma luz vermelha se acendeu, e uma inscrição em letras garrafais surgiu abaixo da mesma:
Dispositivo de emergência ligado. Duração total da vida: quinze horas.
O transmissor de hiperondas havia sido inutilizado. Tiff ligou o receptor, mas o alto-falante apenas emitiu um chiado monótono.
O mecanismo propulsor só dispunha de dois por cento de sua capacidade energética.

3



Às 21:45 h, hora de Terrânia, a Solar System avisou que havia recolhido a Good Hope-IX.
Dois minutos depois, a Terra, disparando a uma distância segura, inutilizou uma das naves do grupo do comandante Harlgas.
Às 21:51 h, os ocupantes da Stardust-III e da Terra perceberam que as outras naves do grupo puseram no espaço pequenos veículos de socorro, que recolheram os sobreviventes da nave gravemente danificada. Rhodan proibiu qualquer interferência na operação de socorro. Bell protestou.
— Como poderemos saber com quem estamos lidando?
Rhodan respondeu com a maior tranqüilidade:
— Examinando os destroços, saberemos.
Pouco antes das vinte e duas horas, a Stardust-III deu cabo de mais uma nave inimiga. Também desta vez notou-se que o inimigo se esforçava para salvar os sobreviventes.
Depois disso Rhodan deu ordem para iniciar a manobra de frenagem. À medida que a Terra e a Stardust-III reduziam a velocidade, a frota do comandante Harlgas se afastava rapidamente.
Harlgas já soubera que os dois veículos espaciais mandados em perseguição do destróier estavam perdidos. Assim que o grupo atingiu uma velocidade suficiente, Harlgas se preparou para a transição. Dali a alguns minutos, suas naves desapareceram dos céus do setor de Beta-Albíreo.
Rhodan observou a manobra com a maior tranqüilidade. Reginald Bell, que se encontrava atrás dele, cerrou os punhos.
— Lá vão eles! — resmungou. — Não conseguimos nada.
Rhodan se levantou.
— Prepare dois grupos de salvamento, que sairão da nave dentro de dez minutos — ordenou laconicamente, sem dar atenção às palavras de Bell. — Dirigirei pessoalmente um dos grupos. Diga a Crest que peço que me acompanhe. O outro grupo será dirigido por Nyssen, que se encontra bem mais próximo dos destroços.
Bell se apressou em retransmitir as ordens.
Poucos minutos depois, receberam a notícia, transmitida pela Solar System, de que três cadetes e duas estudantes da Academia Espacial haviam saído da Good Hope-IX num destróier, antes que esta fosse recolhida a bordo da Solar System.
Um dos cadetes, de paradeiro desconhecido, era Julian Tifflor.
Bell estava muito nervoso quando transmitiu a notícia a Rhodan. Mas este demonstrou uma calma bastante estranha e sorriu.
— Ótimo! Tifflor saberá se arranjar.
De tão perplexo, Bell levou algum tempo sem conseguir dizer uma palavra. Quando finalmente estava prestes a falar, Crest entrou na sala de comando.
Rhodan foi ao seu encontro.
Crest caminhava de forma tranqüila, quase relaxada. Já os passos de Rhodan refletiam a energia daquele homem. Os brilhantes cabelos brancos de Crest e o cintilar vermelho de seus olhos eram de uma beleza tão surpreendente que nem pareciam verdadeiros. Os cabelos de Rhodan estavam arrepiados, pois na excitação dos últimos minutos passara muitas vezes as mãos pelos mesmos. Mantinha os olhos semicerrados, como se a luz do recinto os ofuscasse. Ali viam-se frente a frente o arcônida, representante de uma raça antiqüíssima, e o homem terrano, que pertencia a uma espécie cuja unidade biológica mal começara a se constituir.
— Gostaria de dar uma olhada numa das naves danificadas — disse Rhodan. — Será que poderia me acompanhar?
Crest confirmou com um ligeiro aceno de cabeça.
— Será um prazer.
Dali a cinco minutos, chegou o aviso de que o grupo de salvamento estava pronto para entrar em ação. Rhodan e Crest pegaram o elevador e desceram à comporta.
O pequeno grupo utilizou um veículo primitivo. Fora concebido especialmente para o transporte entre várias naves que se encontrassem no espaço. Consistia basicamente numa plataforma quadrada, de metal plastificado, que abrigava confortavelmente vinte pessoas. Embaixo dela havia um mecanismo de propulsão que, face ao feitio primitivo da mesma, desenvolvia uma potência bastante elevada, permitindo uma aceleração ou desaceleração de até 100 g. Ainda embaixo da plataforma estava instalado o neutralizador de pressão; o campo por ele gerado envolvia o espaço situado acima da plataforma, protegendo seus ocupantes e impedindo que fossem atirados para o espaço.
Rhodan manteve contato radiofônico com Reginald Bell. Pouco depois que a plataforma havia saído da Stardust-III, o mesmo comunicou a Rhodan que o major Nyssen e seu grupo também se haviam posto a caminho.
A plataforma levou dez minutos para atingir a nave inimiga, que estava gravemente danificada. O neutralizador criou um campo de gravitação direcional acima da plataforma, não influenciável pelos impactos de aceleração e desaceleração. Com isso, os homens que se encontravam no tosco veículo tiveram a impressão de que o vulto gigantesco da nave descia sobre eles.
A nave era um verdadeiro monstro. Rhodan calculou que seu comprimento original devia ser de uns duzentos e cinqüenta metros. O diâmetro do corpo cilíndrico era seguramente superior a cinqüenta metros.
Rhodan já vira muitas naves de raças extraterrestres. Todas elas não passavam de anões em comparação com o gigante ao qual a plataforma se encostava com o maior cuidado.
Mesmo aquela nave inimiga, volatilizada pela metade, ainda emitia os raios odientos de energia concentrada e capacidade de luta.
No momento em que o impacto suave sacudiu a placa de metal plastificado, Rhodan estava ao lado de Crest. Olhou para o arcônida. Através da lâmina flexível do visor viu que seus lábios se moviam. No alto-falante de capacete ouviu estas palavras:
— É uma nave dos saltadores!
Rhodan acenou com a cabeça; parecia pensativo. Face a um treinamento hipnótico intensivo e prolongado, seus conhecimentos eram praticamente iguais aos do arcônida. Conhecia a história dos saltadores tão bem quanto os arcônidas, e sabia que eram a única raça que construía naves do tamanho da que tinha diante de si.
— O que será que essa gente tem contra nós? — perguntou Rhodan.
Crest levou algum tempo para responder.
— É possível que tenha chegado ao conhecimento deles que a Terra comercia com Ferrol. E não gostariam disso.
— São de opinião — completou Rhodan — que só eles têm o direito de praticar o comércio em maior escala e a grande distância. Foi esta a razão do ataque?
— Exatamente — confirmou Crest com a voz tranqüila.
Um jovem tenente desceu da plataforma e passou a caminhar sobre o casco da nave, à procura de uma comporta. Rhodan ouviu seu aviso:
— Não encontro nenhuma abertura.
— Veja se conseguimos entrar no local de impacto — retrucou Rhodan.
O tenente impeliu-se para longe do casco da nave e flutuou até o lugar em que o disparo do desintegrador da Stardust-III havia atingido a nave. Ali seus destroços terminavam numa parede esfacelada e deformada.
O jovem oficial desapareceu por algum tempo. Mas logo Rhodan ouviu sua voz:
— Não há problemas; podemos entrar por aqui.
Rhodan respondeu à mensagem:
— Deixarei quatro homens aqui. Os outros irão comigo.
Em grupo de sete, passaram ao lado do envoltório da gigantesca nave, dobraram cautelosamente a parede quebrada e dirigiram os feixes de luz de suas lanternas para a escuridão da nave vazia.
A construção era simples e fácil de abranger com a vista. O eixo da nave cilíndrica era formado por um amplo corredor que, segundo parecia, prosseguia até a proa e, antes do impacto, provavelmente só terminava na popa agora gaseificada.
Rhodan foi o primeiro a entrar. Deu um passo e apoiou as pernas firmemente no chão recortado, para absorver o impacto da gravidade, caso houvesse um neutralizador e o mesmo estivesse intacto.
Mas não havia nada disso. A ausência de gravidade se espalhara por todos os cantos da nave sem vida. Rhodan empurrou-se com o pé e, de holofote na mão, flutuou pelo corredor.
Crest seguiu-o.
— Bem que poderia contar o que está procurando aqui — disse Crest.
— Procuro indício — respondeu Rhodan. — Não me contento em adivinhar quais são suas intenções e por que nos atacam. Quero ter certeza.
Em ambas as paredes do corredor havia grande número de nichos e escotilhas. Rhodan dividiu o grupo, incumbindo cada um dos homens a dar busca em alguns dos recintos que ficavam atrás das escotilhas.
As informações começaram a chegar enquanto Crest e Rhodan ainda se esforçavam para chegar à proa.
— Cápsulas energéticas destinadas a armas gravitacionais — anunciou alguém.
— Depósitos para peças de reposição dos canhões — disse outro.
Rhodan murmurou uma confirmação.
— Bem que eu desconfiava que os recintos mais importantes da nave ficam na proa — ouviu Crest dizer.
Chegaram a um lugar em que o corredor se alargava para o dobro. As escotilhas se abriam em todas as direções.
Rhodan chamou dois dos homens que revistavam salas menos importantes situadas na parte traseira da nave.
— Peguem a parte da esquerda — ordenou. — Crest e eu daremos uma olhada à direita.
A primeira sala inspecionada parecia ser o posto de observação da nave inimiga. Rhodan viu uma série de instrumentos que lhe pareciam familiares e uns poucos de que não sabia a utilidade.
Crest também não sabia.
Os dois soldados avisaram que haviam encontrado uma posição de combate e provavelmente a sala de comando da nave. Rhodan ordenou que procurassem encontrar registros escritos. Explicou em poucas palavras que os livros dos saltadores eram formados por pequenas pilhas de fitas de plástico, amarradas de um lado.
Dali a alguns minutos, um dos soldados avisou em tom exaltado:
— Encontrei um cadáver!
Rhodan interrompeu a busca que vinha realizando e, acompanhado de Crest, correu para o lugar de onde havia vindo o aviso.
O feixe de luz ofuscante do holofote que o soldado tinha na mão estava dirigido para um vulto de ombros largos, estendido no chão.
O morto envergava seu traje espacial, mas, quando o tiro do desintegrador rompeu o casco da nave, o capacete não estava fechado. O homem falecera em virtude da descompressão explosiva.
— É alto e largo — murmurou Rhodan. — Foi feito para suportar gravitações mais fortes. É um saltador.
Crest virou o rosto. Não suportava a visão do morto. Fez seu holofote percorrer o restante da sala em que se encontravam.
Ficou perguntando a si mesmo o que teria sido feito da inteligência dos saltadores, já que no início da luta não haviam ordenado aos tripulantes da nave que fechassem os trajes espaciais.
Como seria possível que, numa nave da guerra, um dos membros da tripulação fosse surpreendido com o capacete aberto durante um combate?
A pergunta tanto preocupou Crest que, por várias vezes, passou os olhos por cima da caixa metálica alongada encostada a uma das paredes sem que a notasse. Só da terceira vez seu olhar caiu na mesma e ele a examinou.
Ninguém viu quando o arcônida arregalou os olhos de susto. Rhodan e o soldado estavam examinando o cadáver do saltador. Crest foi o primeiro a sentir a pressão suave da gravitação, que subitamente retornava.
Alguns segundos se passaram até que
Crest conseguisse vencer o susto a ponto de soltar uma advertência.
— Cuidado!
Rhodan virou-se precipitadamente, com o holofote na esquerda e o radiador de impulsos térmicos engatilhado na direita.
— O que houve?
Crest fez um débil movimento de mão em direção à caixinha estreita.
— Ali. Uma bomba-relógio gravitacional!

* * *

As duas moças recuperaram os sentidos praticamente ao mesmo tempo. Felicitas voltou a chorar assim que se deu conta da situação em que se achava.
Tiff conseguira eliminar o movimento de rotação causado pelo impacto. O destróier desenvolvia uma velocidade inferior a vinte mil quilômetros por segundo — tomado como ponto de referência o sol azul de Beta-Albíreo, que mais próximo se encontrava ao veículo espacial — e seguia por uma rota quase vertical àquela na qual se afastara da Good Hope-IX.
A eliminação do movimento de rotação consumira mais energia. Se nas proximidades existisse um mundo em que o pouso, em princípio, fosse possível, ele só poderia ser utilizado se tivesse uma atmosfera bastante densa, para permitir o pouso aerodinâmico, ou se sua gravitação superficial fosse inferior a 1 g.
De outra forma o pouso representaria um acidente, e não se poderia garantir a integridade física dos ocupantes do destróier.
Eberhardt e Hump procuraram descobrir o defeito que impedia o funcionamento do hipercomunicador, mas suas tentativas não foram coroadas de êxito.
O conversor havia sido destruído pelo impacto. Essa peça tinha uma entrada tridimensional, situada do lado do gerador, e uma saída de cinco dimensões para o lado do transmissor. O aparelho que se situava entre essa entrada e saída era uma das peças mais complicadas do universo. Além de Rhodan, havia na Terra apenas duas ou três pessoas que entendiam alguma coisa de conversores desse tipo. E nenhum dos três cadetes pertencia a esse grupo de pessoas.
— Nada — gemeu Hump em tom resignado.
Tiff acenou com a cabeça. Não esperava outra coisa.
— Deixe o receptor ligado! — recomendou.
Depois de algum tempo, percebeu que o destróier atravessaria aproximadamente o centro da linha imaginária que ligava os centros de gravidade dos dois sóis. Uma vez que o astro central, de cor alaranjada, era muito maior que o anão azulado, esse ponto ficava mais próximo à superfície do gigante.
Naquele momento Tiff não conseguiu localizar qualquer planeta. Parte dos instrumentos de localização de maior importância, especialmente os localizadores de grande alcance, haviam sido postos fora de ação.
O fato não preocupou Tiff. De bordo da Orla XI vira que o sistema possuía um planeta. Os sistemas de um único planeta são muito raros, por isso era provável que houvesse outros.
Restava saber se o destróier conseguiria se aproximar de algum deles o suficiente para arriscar uma mudança de rota, seguida do pouso. E mais: seria necessário que tudo isso acontecesse antes que terminasse o prazo fatal de quinze horas.
Finalmente Felicitas parou de chorar. Todos se sentiram aliviados.
Depois de algum tempo, Tiff disse com a voz cansada.
— Faltam quatorze horas. Quem quiser dormir, que o faça. Mais tarde precisaremos de vários pares de olhos bem vigilantes.

* * *

A imensa onda de gravitação desencadeada numa fração de segundo irrompeu na pequena sala no mesmo instante em que Crest proferiu sua advertência.
O soldado caiu ao solo com um gemido. O chão tremeu com o impacto de seu corpo. Crest caiu de joelhos.
Rhodan foi o único que ainda se manteve de pé. O primeiro grito de Crest deixara-o preparado para tudo. Não havia ninguém que reagisse mais depressa que Perry Rhodan.
Mas a terrível gravitação puxava-o com uma força sempre crescente. Rhodan desceu lentamente e deitou-se de costas. Esforçou-se para controlar a respiração.
Conseguiu. A cada movimento dos pulmões, Rhodan sentia fortes pontadas, mas a respiração continuava, e com ela a vida.
Rhodan procurou se lembrar de tudo que sabia sobre bombas-relógios gravitacionais.
Aquele tipo de bomba era uma arma traiçoeira cuja única finalidade consistia em segurar o inimigo até que a pessoa que colocara o artefato pudesse voltar com reforços suficientes; no entanto, podia também provocar uma morte lenta.
Seu idiota”, pensou Rhodan, admirando-se da lentidão com que o cérebro funcionava sob a influência da força gravitacional aumentada, “você bem que poderia ter se lembrado da possibilidade de terem colocado uma armadilha nos destroços da nave.”
Com um tremendo esforço, virou a cabeça ligeiramente para o lado, a fim de ver a bomba. Os holofotes de Crest e do soldado haviam caído de suas mãos, espatifando-se no chão. A lanterna de Rhodan estava a seu lado e continuava acesa. O feixe de luz não se dirigia para a bomba, mas iluminava todo o recinto.
O estojo da bomba nem chegava a medir um metro. Era cilíndrico e seu diâmetro era de cerca de trinta centímetros.
Uma coisinha dessas, e produz uma energia gravitacional de tamanha intensidade”, pensou Rhodan.
Calculou que a pressão gravitacional reinante na sala devia atingir de 15 a 20 g. Era tão intensa que nem se poderia pensar em mover a mão.
Rhodan constatou que a gravitação continuava a crescer. Procurou calcular a taxa de crescimento e, guiando-se pelo que sentia, pensou em 0,l g por minuto.
Era possível que houvesse uma margem de erro. Logo chegaria o instante em que... ao pensar nisso, lembrou-se de Nyssen.
Nyssen! Nyssen estava percorrendo a outra nave. Era bem possível que nesse mesmo instante também estivesse caindo na armadilha.
Reunindo as forças que lhe restavam, principiou:
— Aqui fala... Rhodan! Nyssen... nos destroços... há uma... bomba-relógio gravitacional. Tome... cuidado!
O suor porejou em sua testa e penetrou-lhe nos olhos. Com um gemido, colocou a cabeça na posição anterior.
Ouviu um estalo no receptor de capacete.
— Aqui fala Nyssen. Nyssen ao comandante. Não encontramos nada. O que houve com o senhor? Podemos ajudar?
Seu idiota”, pensou Rhodan furioso, “você nem sabe como é uma bomba gravitacional.
— Tenha cuidado... — voltou a falar. — Trata-se... de um objeto... cilíndrico... de um metro de comprimento... e trinta centímetros de diâmetro... Tome... Cuidado!
Ouviu Nyssen fungar.
— Um objeto cilíndrico de um metro de comprimento e trinta centímetros de diâmetro?
Houve uma pausa. Depois ouviu-se o grito rouco de Nyssen:
— Comandante! Acabamos de colocar aquilo em nossa plataforma!
Por um instante Rhodan perdeu a consciência. Quando voltou a recuperar os sentidos, ouviu a voz de Nyssen:
— ...não responde mais? Alô, comandante! Por que não responde?
Rhodan resmungou alguma coisa. Suas cordas vocais quase não conseguiam produzir sons articulados.
Nyssen pareceu compreender.
— No último instante conseguimos empurrar aquilo para fora da plataforma — disse. — Ainda bem. Quando se encontrava a uns cem metros, disparou e arrastou a plataforma um pedaço. A máquina mal e mal conseguiu vencer a força gravitacional. A esta hora a bomba está vagando pelo espaço.
O cérebro de Rhodan se rebelou contra a inatividade a que seu corpo estava condenado. Em voz alta gritou:
— Segure a bomba!
Voltou a perder os sentidos.
Não sabia quanto tempo se passara quando recuperou os sentidos. De qualquer maneira, ouviu a voz insistente de Nyssen:
— Responda, por favor! Responda! Prendemos a bomba. Está amarrada a cerca de duzentos metros da plataforma.
Rhodan teve vontade de abraçar Nyssen.
— Ótimo! — cochichou.
Sentiu que as forças voltavam a abandoná-lo. A gravitação irradiada pela bomba ultrapassava a marca dos 20 g. Só lhe restavam alguns minutos para explicar a Nyssen o que devia fazer.
— Aproxime-se... da nave destroçada em que me encontro... — gemeu. — Estamos... na proa. Lance a bomba... de tal forma... que...
— Entendido! — gritou Nyssen, cheio de entusiasmo. — Não explique mais nada. Poupe suas forças.
Mas Rhodan proferiu mais uma palavra. Sua voz foi tão débil que Nyssen mal conseguiu entendê-lo:
— Rápido...

* * *

Depois de algum tempo até o cronômetro deixou de funcionar. Parou quando o destróier ainda dispunha de nove horas para encontrar um local em que pudesse pousar. Dali em diante, Tiff procurou avaliar o tempo que se passava, mas não tinha nenhum ponto de referência.
Depois de algum tempo a nave cruzou a linha imaginária que ligava os dois sóis. A gravitação muito mais intensa do anão azul tornou-se perceptível e obrigou o veículo espacial a tomar outra rota. Mas nem por um instante houve o risco de que o destróier fosse se precipitar sobre o sol.
Klaus Eberhardt realmente adormecera. Tiff apenas conseguira tirar alguns cochilos ligeiros, e isso não bastava para que o organismo recuperasse as forças. Sentiu que se aproximava o momento em que começaria a chorar de nervosismo e frustração, tal qual Felicitas fizera há pouco.
Procurou se distrair, esforçando-se para imaginar como seria o planeta sobre o qual pousaria o destróier; tentou adivinhar o que fariam por lá.
Aquilo não passava de um exercício mental. Se encontrassem algum planeta, seria um que nunca haviam visto. Ninguém poderia imaginar como seria.
Mas o pensamento distraía.
Tiff também se lembrou do robô que todo destróier trazia a bordo. Estava jogado no pequeno depósito de popa, sem que tivesse sido ativado. O robô dispunha de gerador próprio, e por algum tempo Tiff ficou refletindo sobre a possibilidade de ligar o mesmo aos propulsores danificados. Mas lembrou-se que o gerador do robô só tinha um centésimo do desempenho energético necessário ao funcionamento de um mecanismo propulsor, motivo por que seria imprestável para esse fim.
Se conseguissem encontrar um lugar em que pudessem pousar, teriam de ficar satisfeitos se o robô ainda estivesse em condições de funcionamento. Afinal, não era muito improvável que também tivesse sido danificado pelo impacto.
Vez por outra Tiff passava os olhos pela ampla tela de localização ótica, que mostrava o setor do espaço situado no sentido do deslocamento da nave. O fundo negro estava repleto de bilhões de pontos luminosos, que cintilavam tranqüilamente. Tiff não tinha esperança de encontrar por essa forma aquilo que estava procurando; até chegava a achar ridículo acreditar que um astronauta conseguisse encontrar um planeta num setor totalmente desconhecido do espaço, olhando simplesmente para a tela. Mesmo que não dispusesse de um rastreador de grande alcance, poderia perceber o astro muito mais facilmente pela gravitação do mesmo, que desviaria a rota do veículo espacial. A dificuldade estava em percebê-lo pelo tamanho ou pela luminosidade mais intensa, que o destacaria em meio às miríades de pontos luminosos.
Em noventa e nove casos entre cem, a opinião de Tiff seria correta.
Acontece que na tela surgiu uma constelação muito luminosa, que, quando Tiff a olhou pela primeira vez, produziu em sua fantasia a imagem de um Y formado de sete estrelas.
Já agora o traço esquerdo do Y se destacara do resto, e o ponto luminoso que poucos minutos antes formara a ponta avançara quase até a bifurcação da letra.
Tiff se ergueu em sua poltrona. Estreitou os olhos e examinou a imagem que se desenhava na tela.
Uma estrela fixa não altera sua posição face ao observador, mesmo que este se desloque a uma velocidade de vinte mil quilômetros por segundo.
Já os planetas se movem. No momento em que se tornam visíveis já se encontram tão próximos que, quando o observador se desloca por alguns milhares de quilômetros, sua posição é totalmente diversa.
Tiff guardou a descoberta para si, pois não acreditava que sua suposição pudesse ser correta.
Mas dali a dez minutos o ponto luminoso que provocara suas suspeitas já havia se deslocado até o lado oposto do Y, situando-se alguns milímetros acima das estrelas que até então formavam a extremidade superior do traço do lado direito.
Ainda sem dizer uma palavra, Tiff determinou a posição do astro desconhecido. O cálculo não foi muito preciso, já que Tiff não conhecia a mudança de rota causada pela gravitação do sol azul. Teve que estimá-la, e para isso adotou os valores geralmente admitidos em estrelas desse tipo.
O cálculo demorou uns quinze minutos.
Depois disso, Tiff começou a agir. Em virtude da chave de emergência o neutralizador continuava a funcionar; por isso ninguém percebeu a nova mudança de rota. As estrelas projetadas na tela descreveram uma curva ligeira, quase imperceptível.
O ponto luminoso móvel se deslocou para o centro da tela, e Tiff cuidou para que continuasse ali.
Depois da correção de rota, procurou determinar a velocidade do destróier. O propulsor não estava funcionando mais; se o ponto luminoso, que segundo acreditava era um planeta, emitisse qualquer força gravitacional, por mínima que fosse, isso deveria se refletir no movimento do veículo espacial.
Meia hora depois, Tiff percebeu que tivera razão.
A velocidade do destróier em relação ao ponto luminoso aumentara em dez metros por segundo.
Tiff virou a cabeça.
— Já encontramos o que procurávamos — disse, falando para dentro do microfone de capacete. Tinha a voz rouca de tanto que teve de se esforçar para não deixar perceber a sensação de triunfo.

4



Dez minutos depois de ter cochichado o último pedido aflito dirigido ao major Nyssen, Perry Rhodan perdeu os sentidos.
Nyssen sabia o que estava em jogo. Não conhecia nada sobre o funcionamento da bomba-relógio; só sabia que gerava certa gravitação, da mesma forma que um gerador gravitacional do tipo que já conhecia.
Mas compreendeu imediatamente que Rhodan se encontrava em perigo. Não tinha a menor idéia de quem seriam as pessoas a que Rhodan aludira ao usar a palavra nós; mas, mesmo que fosse somente Rhodan que se encontrasse em perigo, isso teria levado Nyssen a empreender as mais audaciosas ações.
Nyssen partiu do pressuposto de que, na nave danificada em que Rhodan se encontrava, a bomba devia ter sido colocada na mesma sala que naquela que ele mesmo examinara. Essa suposição se confirmou quando dois homens do grupo de Nyssen, munidos de gravímetros, mediram as condições gravitacionais reinantes nas proximidades da nave destroçada em cujo interior Rhodan estava preso.
Nyssen pedira às outras pessoas do grupo de Rhodan que saíssem da nave inutilizada e voltassem à Stardust-III.
A plataforma comandada por Nyssen arrastava atrás de si a bomba gravitacional ativada, e por isso a manobra era muito difícil, mesmo para alguém que tivesse de cuidar apenas de si mesmo.
Nyssen manteve a bomba presa a longos cabos de plástico, a uma distância de dois quilômetros. Ainda assim a gravitação artificial era perceptível. Mas, como a gravitação é uma das grandezas físicas que se regem pela lei do 1/r2, a bomba não representava um perigo direto para Nyssen e seus homens.
Nyssen mandou que dois de seus homens abrissem caminho para a sala de comando da nave destroçada, usando os radiadores de impulsos térmicos. Os homens soltaram vários metros quadrados das chapas do casco da nave, abrindo um caminho suficientemente largo para dar passagem à bomba.
Outros homens prosseguiram nas medições, e apuraram a posição da bomba que mantinha Rhodan preso, com uma margem de erro não superior a cinqüenta centímetros.
Nyssen entrou em contato com a Stardust-III e pediu que o cérebro positrônico executasse a toda pressa uma série de cálculos baseados nos dados por ele fornecidos. Quando recebeu os resultados, soube que sua missão seria bem sucedida, desde que conseguisse manobrar seu perigoso reboque com uma exatidão suficiente.
Pediu aos homens de seu grupo que voltassem à plataforma assim que estes, depois de medir cuidadosamente a bomba, haviam aberto um caminho suficientemente largo e extenso para a mesma.
Não gastou mais de três minutos para explicar aos homens o que pretendia fazer. Recomendou-lhes o seguinte:
— O que está em jogo é a vida de Rhodan e de mais algumas pessoas que estão presas ao seu lado. Temos muita pressa, mas não podemos agir precipitadamente. Estamos manipulando o objeto mais perigoso em que já pusemos as mãos.
Aguardou pelas objeções que surgiriam. Mas não houve nenhuma.
— Vamos começar! — murmurou.
* * *

Rhodan despertou com o forte solavanco que atravessou seu corpo.
Por alguns segundos a atividade febril dos pulmões deixou-o espantado. Fungava como se acabasse de fazer uma corrida de dez quilômetros.
Mas logo compreendeu: o organismo estava recuperando aquilo de que fora privado nos minutos anteriores.
O braço direito de Rhodan levantou-se de um golpe.
A mão saltou para o alto e, acima da cabeça, bateu na parede dura.
A bomba! A bomba deixara de emitir sua gravitação!
Dali a um instante Rhodan estava de pé. Sentiu a atração estranha provocada por um campo gravitacional acentuadamente heterogêneo: enquanto nas pernas a gravitação estava ausente, na cabeça atingia mais de l g.
Não é nada disso”, pensou Rhodan. “A bomba continua a emitir sua gravitação. Apenas Nyssen agiu como devia.”
Levantou o holofote manual e dirigiu a luz na direção de onde devia provir a influência salvadora. Viu que o feixe de luz passava por uma parede recortada, perdendo-se no nada.
Ou melhor, quase no nada. Atrás do buraco aberto na parede, um cilindro de um metro de comprimento e trinta centímetros de diâmetro flutuava no ar, sustentado por cabos.
Era a segunda bomba.
Rhodan olhou em torno. Procurou avaliar as distâncias. A distância entre as duas bombas — a que flutuava lá fora e aquela que o fizera desmaiar há meia hora — não era superior a oito metros. Ele, Rhodan, encontrava-se exatamente no centro da linha que unia as duas máquinas infernais.
E não tinha nada que pudesse ajudá-lo a aproximar a segunda bomba para salvar Crest e o soldado.
A voz exaltada de Nyssen soou no receptor do capacete. Nyssen comandava seus homens; Rhodan teve dificuldade em se fazer ouvir.
— Silêncio! — gritou a plena força dos pulmões. — Aqui fala Rhodan. Preciso de um cabo ou de uma vara comprida com um gancho ou coisa que o valha.
Nyssen soltou um grito de alegria.
— Está bem, chefe? — perguntou.
— Estou, mas Crest e o soldado ainda estão passando mal. Tenho que dar um jeito de trazer a bomba mais perto deles.
Nyssen parecia refletir. Depois de algum tempo respondeu:
— Não acredito que lhe possamos passar uma vara. Não conseguiríamos fazê-la passar por cima da bomba. A gravitação a arrebentaria.
— Quem está falando em passá-la por cima da bomba? Pode medir os dois campos gravitacionais?
— Podemos.
— Pois mande abrir a parte superior do casco. Se a pessoa que entrar por lá, permanecer sempre na linha do centro entre as duas bombas, tudo dará certo.
Nyssen estava de acordo.
— Começaremos imediatamente.
Rhodan estava preocupado com Crest.

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