sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

P-032 - Vôo Para o Infinito - Clark Darlton [parte 1]


Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização

Denise




Revisão

Gandalf01







A Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan — uma combinação feliz da energia humana com a supertecnologia arcônida — pode apresentar, nos seus anos de existência, uma história muito movimentada, cheia de dramáticos altos e baixos.Mas os acontecimentos mais recentes dão a impressão de que, ao defrontar-se com os saltadores ou mercadores galácticos, Perry Rhodan vê-se diante de um poder que tem a intenção e a capacidade de destruir a Terra para eliminar um possível concorrente no comércio interestelar: Por enquanto ainda se mantém a linha de defesa do sistema de Albíreo, formada pelos cruzadores pesados Terra e Solar System. Mas quanto tempo demorarão os saltadores para descobrir que os terranos apenas realizam uma manobra diversionista? Para Perry Rhodan o tempo urge. Mas, para conseguir uma arma eficaz, capaz de defendê-lo contra os saltadores, terá que retornar ao planeta da vida eterna... e realizar um Vôo Para o Infinito.





= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Comandante da Stardust-III e chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Cujos favores vêm sendo solicitados por uma grande estrela do cinema.

Topthor e Grogham — Dois mercadores do clã dos superpesados.

Ele” ou “Aquilo” — Um ser incorpóreo que às vezes pode tornar-se bastante tangível.

Cadete Redkens — Que recebe um autógrafo.

Laar, Regoon, Gorat e Nex — Condenados a um milhão de anos de solidão, num mundo sem estrelas.


1



À primeira vista, percebia-se que a gigantesca nave espacial não fora construída por mãos humanas. Deslocando-se em queda livre, descrevia sua órbita em torno do Sol a uma distância de quinze horas-luz. Com seus instrumentos ultra-sensíveis, observava os planetas do sistema. Sua forma lembrava um enorme rolo compressor, arredondado na frente e achatado na parte de trás. Tinha trezentos metros de comprimento e cinqüenta de diâmetro. A intervalos regulares, a luz brilhava nas janelas redondas. Atrás delas, moviam-se enormes sombras quadráticas.
A nave estranha não estava só. Era acompanhada por mais sete. A frota movia-se em torno do Sol, dirigida por seres que jamais haviam posto os pés na Terra. E não apresentavam aspecto humano. Sua pátria não era nenhum planeta, mas o espaço cósmico. Viviam no interior das naves e faziam seus negócios com todas as raças inteligentes do universo. Amavam a paz somente quando a mesma lhes proporcionava lucros. Sempre que uma guerra prometesse ser mais lucrativa, faziam com que irrompesse. Eram tolerantes e autoritários ao mesmo tempo, tinham senso de humor e ao mesmo tempo caracterizavam-se por uma dureza implacável, que se manifestava toda vez que alguém se intrometia em seus negócios.
Na sala de controle da nave capitania, o comodoro Topthor movia-se pesadamente diante das telas ligadas. Movia-se pesadamente, porque segundo as concepções terrenas seu peso quase chegava a meia tonelada. Sua largura equivalia à altura: um metro e sessenta centímetros. A cor da pele caía para o esverdeado e o crânio liso não apresentava nenhum fio de cabelo. Em compensação, seguindo os costumes de sua raça, ostentava uma barba ruiva.
Os mercadores galácticos descendiam dos arcônidas, uma raça que, sendo dona de um grande império situado a trinta e quatro mil anos-luz da Terra, tornara-se fraca demais para controlar o mesmo. Face a isso, os mercadores adquiriram sua independência e criaram um império próprio. Estabeleceram contato com todos os planetas habitados e viviam exclusivamente do comércio.
Mas Topthor não era um mercador comum; pertencia ao clã dos superpesados. Há tempos imemoriais, quando os descendentes dos arcônidas ainda viviam em planetas, seu clã habitava um planeta em que a gravitação chegava a 2,l g. Em virtude disso, sofreram, no curso das gerações, uma série de alterações anatômicas, que conferiram a seu corpo o formato atual. Eram criaturas estranhas em meio à própria raça, mas o pensamento galático não admitia qualquer forma de discriminação. Com sua esperteza, os mercadores — ou saltadores, como também eram chamados — resolveram extrair da modificação da estrutura anatômica de seus companheiros um proveito para si, e também para estes. Os superpesados transformaram-se na tropa de defesa dos saltadores. Ganhavam a vida fornecendo proteção aos seus companheiros de raça sempre que estes o desejassem e, se necessário, lutando por eles.
Mas, desta vez, Topthor estava agindo por iniciativa própria.
Encarou a tela da frente. Nela se projetava a imagem de um planeta verde-azulado que, segundo tudo indicava, servia de sede a uma civilização florescente. Os continentes jaziam em meio aos mares azuis. Camadas de nuvens brancas cobriam certos trechos de terra, ocultando os detalhes.
O ser gigantesco com o rosto de traços quase humanos bateu com a mão grosseira num botão. Imediatamente outra tela iluminou-se. O rosto de outro superpesado surgiu na mesma.
— O que deseja, Topthor?
— Dizem que é ali, no planeta número três do sistema, não é? Que coisa estranha! Só hoje ficamos sabendo...
— Costumam ser chamados de terranos — completou o outro. — Só praticam a navegação espacial de poucos anos para cá e já querem estragar nossos negócios. Estão mantendo relações comerciais com dois sistemas solares.
— Sei, Grogham. As mensagens radiofônicas de nossos irmãos foram bastante claras. Pelo que me lembro, Orlgans e Etztak trocaram relatórios minuciosos, e tivemos oportunidade de ouvir os mesmos. É bem verdade que não pediram que lhes prestássemos socorro, mas as leis de nosso povo não proíbem nossa intervenção, desde que a mesma não cause prejuízo a outro grupo de mercadores.
Conversavam em intercosmo, a língua universal pela qual costumavam comunicar-se as raças de astronautas do Império. Grogham passou a mão pela barba, que o fazia parecer mais velho do que provavelmente era.
— Pelos últimos relatórios, Orlgans e Etztak estão ocupados em capturar o encarregado do terrano Perry Rhodan, que se entrincheirou num planeta gelado, a cerca de trezentos anos-luz daqui. Por que não vamos aproveitar o tempo para dar uma olhada por aqui? Afinal, o planeta número três é a causa de toda agitação. Talvez possamos fazer um bom negócio.
De um instante para outro, Topthor assumiu uma atitude fria.
— Aqui não se fazem negócios, Grogham. Aqui não! Até parece que o senhor ainda não compreendeu que, pela primeira vez, nos vemos diante de uma concorrência mais séria. No curso de um decênio o tal do Rhodan transformou este planeta subdesenvolvido numa potência interestelar. Suas naves atacam-nos. Com isso declarou a guerra contra nós, os saltadores. Por quê? Apenas porque tentamos olhar suas cartas.
— Nós não — retificou Grogham em tom um pouco pedante — mas Orlgans. Foi ele que aprisionou duas naves de Rhodan, para interrogar seus ocupantes. Será que isso representa um ato amistoso?
— Silêncio! — berrou Topthor. E quando esse colosso de meia tonelada berrava, até mesmo as telas de naves distantes tremiam. Por isso não era de admirar que Grogham se assustasse. Afinal, era apenas o comandante de uma das naves pertencentes à frota mercante e de guerra de Topthor. — Acha que estou interessado em futilidades desse tipo? Acha que realizei um vôo tão longo apenas para intrometer-me nos negócios de outros clãs ou até vir em auxílio dos mesmos? Se pudermos auferir algum lucro, não tenho nada a opor. Acontece que por enquanto nem Orlgans nem Etztak solicitaram auxílio. E um auxílio não solicitado não costuma ser pago.
Grogham parecia desorientado.
— Se é assim, por que viemos para cá, Topthor? Não me lembro de que alguma vez o senhor tenha feito qualquer coisa sem um motivo.
— A observação é muito inteligente — elogiou-o Topthor, que se sentia lisonjeado. — Nunca faço coisa alguma em troca de nada. Também desta vez não estou fazendo. Acompanhei atentamente as informações de nossos robôs de espionagem, já desativados, e as mensagens transmitidas por nossa estação instalada na lua Titã. Rhodan não estará em condições de enfrentar Etztak, se este se lembrar de chamar nosso grupo ou outras unidades de combate. Ainda não o fez porque isso custaria dinheiro. Por isso Rhodan pretende conseguir as armas de que precisa para vencer o inimigo, especialmente Etztak. Onde pretende conseguir essas armas? Grogham não sabia.
— Eu sei! — exultou o comandante da frota. — É bem verdade que todo mundo se mostra bastante cético ao falar no planeta da vida eterna. Apenas correm boatos a respeito de sua existência, mas ninguém sabe se a lenda tem um fundo verdadeiro. Quanto a mim, estou inclinado a admitir algumas gotas de verdade em toda e qualquer lenda, inclusive nesta.
— O planeta da vida eterna? — murmurou Grogham, incrédulo. — Já ouvi falar a respeito. Dizem que percorre sua órbita imprevisível em algum ponto na amplidão do espaço, mas até agora ninguém o encontrou. É um belo conto de fadas.
— Conto de fadas coisa alguma! — berrou Topthor, furioso. — O senhor acredita que esse Rhodan correria atrás de um fantasma quando sua existência está em jogo? Tenho informações seguras de que sabe onde fica esse planeta legendário. Conhece a posição do mesmo. E pretende ir para lá em busca de novas armas. Se conseguir, nossa posição dominante na galáxia terá chegado ao fim. Mas se chegarmos antes dele, faremos o melhor negócio de nossa vida.
— Será que Etztak tem conhecimento das intenções de Rhodan?
— É claro que tem, mas é um idiota tal qual o senhor: não acredita na existência do planeta misterioso. Acha que é mais importante pegar esse funcionariozinho de Rhodan, o tal do Tifflor, que se escondeu naquele planeta de gelo. Bem, sou mais inteligente que Etztak.
Grogham não contestou essa afirmativa.
— No momento não estou interessado em Etztak, nem nas táticas desenvolvidas pelo mesmo — prosseguiu Topthor. — Nossa missão consiste apenas em vigiar Perry Rhodan, esse indivíduo extraordinário que conseguiu arrebatar os segredos que os arcônidas guardavam com tanto cuidado. Bem que esse terraqueozinho me impressiona. Mas não me posso deixar levar pelo sentimento; afinal, o objetivo final dele consiste em romper nosso poder. Se a ordem voltar a reinar no reino dos arcônidas, não seremos mais os únicos que fazem os negócios, e a exploração dos mundos recém-descobertos terá chegado ao fim.
— As informações recebidas dizem quando deve decolar?
— Quem? Rhodan? Pois é justamente isso, não sabemos. As informações que recebemos são antigas, ou melhor, relativamente antigas. O fluxo de comunicações foi interrompido quando, numa ação em grande escala, Rhodan conseguiu pôr fora de ação nossa estação retransmissora, ou melhor, a de Etztak. Só fomos informados de que Rhodan procurará visitar o planeta da vida eterna. E o mais importante da história é isto: procurará visitá-lo mais uma vez. Dali se conclui que já esteve lá, motivo por que deve conhecer sua posição.
A barba de Grogham tremia de forma bem visível. Seus olhos arregalaram-se.
— Já esteve lá? — respirava pesadamente. — Por todos os deuses do universo e por todos os mercados da Galáxia...
— Então? — exultou Topthor. — Agora a conversa já é outra, não é? Não estamos seguindo nenhuma pista errática, mas corremos atrás de uma realidade. Aliás — disse, mudando de assunto de um instante para outro — ainda não há notícias das outras naves?
— Estão estacionadas do lado oposto do sistema, a trinta anos-luz do ponto em que nos encontramos. Por enquanto não observaram a decolagem de qualquer nave terrena. E não houve nenhuma transição.
Topthor acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
— Isso é importante. As transições acabarão traindo Rhodan. Nossos rastreadores de estrutura espacial permitem observar e calcular qualquer movimento que se realize no plano existencial da quinta dimensão. Basta acompanharmos as transições e, se tivermos bastante sorte, rematerializaremos nas imediações do lugar em que Perry Rhodan e suas naves regressarem ao espaço normal.
— É um plano muito bem concebido — confessou Grogham. — Tomara que a espera não seja muito demorada.
— Nem que demore anos — retrucou Topthor em tom mordaz. — De qualquer maneira compensará. O planeta da vida eterna! O que significam alguns anos perdidos diante dele?
Mais uma vez Grogham ficou sem resposta.
Num silêncio total, as oito naves continuaram a percorrer seu caminho em torno do Sol, esperando que algum terrano deixasse o planeta Terra e o Sistema Solar. Formavam uma barreira que não poderia ser rompida sem pôr em alarma os ultra-sensíveis aparelhos de observação.
Sem que o soubesse, a Terra se transformara no centro de um cinturão de defesa intergaláctica.
E esse cinturão tinha tempo de sobra; poderia esperar...

* * *

Acontece que Perry Rhodan não tinha muito tempo.
Aquilo que conseguira evitar durante um decênio acabara de acontecer. A raça mais poderosa do Grande Império dos arcônidas tivera sua atenção despertada para a Terra. O tempo do isolamento salvador e da anonimidade benfazeja havia chegado ao fim. Justamente os saltadores, os mercadores galácticos, foram descobrir a Terra!
A primeira batalha havia sido ganha. Todos os robôs de espionagem de que os saltadores se valeram na Terra e no sistema solar foram postos fora de ação. Num ataque-relâmpago, Rhodan conseguira destruir a estação de rádio instalada em Titã. Mas a luta ainda não estava decidida. No distante sistema da estrela gêmea de Beta-Albíreo, a trezentos e vinte anos-luz da Terra, os cruzadores pesados Terra e Solar System estavam em luta contra a frota mercante armada de dois comandantes dos saltadores, Orlgans e Etztak. No segundo planeta do sistema, formado por um mundo de gelo primitivo, o cadete Julian Tifflor e seus companheiros persistiam em suas posições e aguardavam a libertação. Gucky, o pequeno rato-castor dotado de faculdades extraordinárias, estava com eles. Talvez conseguissem reter os saltadores e desviar sua atenção de Rhodan, até que este conseguisse as armas necessárias para expulsar os intrusos de uma vez por todas.
Por isso não se podia dizer que a situação fosse brilhante no momento em que o gigantesco couraçado Stardust-III, uma nave esférica de oitocentos metros de diâmetro, corria vertiginosamente em busca do ponto de transição.
Perry Rhodan se sentia nervoso.
O fato deixou Reginald Bell bastante contrariado.
— Gostaria de saber por que você se preocupa tanto, chefe — disse o amigo para alegrá-lo. — As coisas estão correndo muito bem. Não precisamos preocupar-nos com Gucky e Tiff; eles darão seu jeito. Quanto a Nyssen...
— A tarefa do major Nyssen não é fácil — ponderou Rhodan em tom sério. — Os dois cruzadores comandados por ele sabem o que devem fazer, mas não sei por quanto tempo agüentarão essa história de voar constantemente para realizar ataques simulados. E há um ponto ainda mais delicado. Os saltadores são uma raça inteligente, e ninguém sabe quanto tempo levarão para perceber que apenas pretendemos detê-los.
— Por que esses seres são chamados de saltadores? São iguais a nós.
— É porque não possuem uma verdadeira pátria: saltam com suas naves mercantes de um sistema solar a outro. Também são chamados de mercadores, mas acho que o nome saltadores é mais apropriado, porque acentua sua condição de apátridas.
Bell olhou para a tela. Júpiter, o planeta gigante, deslocou-se para fora do campo de visão. Desenvolvendo uma velocidade próxima à da luz, a Stardust-III corria em direção ao ponto de transição situado além da órbita de Plutão.
— Ainda demorará muito?
Rhodan franziu a testa.
— Você tem um talento inigualável para exprimir os problemas mais complexos através de perguntas simples, meu amigo. Ainda demorará muito? Pois é isso que me deixa mais louco em toda a história. Receio que no momento não possa dar resposta à sua pergunta. Você deve estar lembrado de que já estivemos no planeta da vida eterna e, quando regressamos à Terra, quatro anos e meio se haviam passado. O planeta Peregrino constitui o produto artificial de um superser, e sua existência desenvolve-se num plano temporal diferente do nosso. De qualquer maneira, precisamos ir até lá para obter uma nova arma que nos permita expulsar os saltadores. O que acontecerá se retornarmos depois de um ou dois anos, mesmo que na nossa opinião só tenhamos permanecido poucos dias no Peregrino?
Um sorriso pálido passou pelo rosto largo de Bell. Seu cabelo ruivo em escovinha não fez o menor esforço para, num gesto de protesto, libertar-se da brilhantina que o prendia, conforme era seu costume. Fez um gesto de desprezo com a mão grossa.
— Por que iria acontecer uma coisa dessas? Pediremos àquilo que compense a diferença de tempo.
Por um instante Rhodan parecia perplexo, mas logo deu de ombros.
— Acho que aquilo vai mandar-nos para o inferno.
Aquilo era o ser incompreensível abrigado pelo planeta Peregrino. Representava a união de um povo muito antigo. Encerrava em si bilhões de seres vivos, que renunciaram voluntariamente aos seus corpos. Poderia ser comparado com um ser energético que encerrasse em si a inteligência de toda a Humanidade. Aquilo — um milagre de início incompreensível, que só começava a ser compreendido quando a pessoa se desse conta do fato de que, apesar da sua infinita superioridade, possuía uma boa dose de senso de humor.
— Por quê? — objetou Bell. Desta vez manteve-se sério. — Afinal, você sempre se deu bem com ele, tanto por ocasião da primeira visita como da segunda, que só durou alguns minutos. Por que não nos prestaria o favor de eliminar só por uma vez o tal do fator tempo?
Meio distraído, Rhodan comprimiu um botão. Uma pequena tela iluminou-se. O rosto de um homem surgiu na mesma. Pertencia a um telegrafista.
— Pois não.
— Envie pelo hiper-rádio uma mensagem destinada ao major Nyssen. Posição: sistema Beta-Albíreo, a trezentos e vinte anos-luz. As coordenadas já são conhecidas. O texto será codificado. O teor da mensagem é o seguinte...
Refletiu por alguns segundos e prosseguiu:
— Para os cruzadores Terra e Solar System. Mantenham posições a todo custo sem arriscar as naves. Os saltadores têm de ser mantidos afastados da Terra. Avisarei assim que retornar do Peregrino. Tempo de ausência desconhecido. Rhodan.
O telegrafista confirmou com um aceno de cabeça.
— Com impulsos cruzados?
— Evidentemente. E logo.
Bell viu que o rosto na tela foi se desvanecendo aos poucos, transformando-se numa série de espirais coloridas, que se tornavam cada vez mais apagadas até desaparecerem de todo.
— Tomara que ninguém pegue o sinal — murmurou em tom preocupado.
— Pouco importa que o façam — tranqüilizou-o Rhodan. — Não faz mal que Etztak saiba que mantemos contato com as nossas naves. De qualquer maneira não conseguirá decifrar a mensagem.
— Não estava pensando nisso, chefe. Mas pode acontecer que haja naves dos saltadores por perto, e que estas nos localizem pelo goniômetro...
O rosto de Rhodan tornou-se mais pálido. Compreendeu imediatamente o raciocínio de Bell. Se alguém conhecesse o ponto de transição e se grudasse atrás deles, não era impossível que conseguisse segui-los. Com os instrumentos de localização ultra-sensíveis e os rastreadores estruturais o problema não seria insolúvel. Mas acabou sacudindo a cabeça.
— Destruímos as instalações automáticas de espionagem que os saltadores haviam instalado no sistema solar. E não têm outras naves neste setor do espaço.
Nem ele nem Bell sabiam da existência dos chamados superpesados. Muito menos tinham conhecimento do fato de que justamente esse clã belicoso estava empenhado em descobrir através deles o planeta da vida eterna. Pela primeira vez Rhodan cometeu o erro de subestimar um inimigo. Era bem verdade que sabia que nunca conseguiria vencer os saltadores com os recursos convencionais, pois a raça era muito antiga e experimentada. Através dos negócios de troca realizados com quase todos os mundos habitados da Via Láctea, conseguiram apoderar-se de todos os tipos de armas que existiam. Nem mesmo um Perry Rhodan poderia enfrentar um inimigo destes. Ainda não.
Ainda acontecia que Rhodan estava bastante nervoso. A insegurança que sentia face à peça que o deslocamento temporal poderia produzir em seus planos deixou-o intranqüilo e imprudente. O conselho de Bell, segundo o qual deveria pedir uma neutralização da diferença entre os dois planos existenciais afinal não passara de um conselho. Se aquilo daria ouvido ao pedido já era outra questão.
Seus pensamentos sombrios foram interrompidos por um zumbido. Um relé ligou-se, estabelecendo uma ligação automática entre a sala de comando e a de telegrafia. A confirmação de Nyssen acabara de chegar sob a forma de um impulso que durou apenas alguns segundos. Uma vez decodificado o mesmo, obteve-se este texto:
Mensagem recebida. Não se preocupe. Daremos o que fazer aos mercadores. Eles não nos agarrarão. Esperamos que a Stardust-III não demore em chegar ao sistema de Albíreo. Até lá agüentaremos. Nyssen.”
Rhodan não parecia se sentir aliviado. Agradeceu ao pessoal da sala de telegrafia e ligou o intercomunicador, que levou sua voz a todos os cantos da gigantesca nave. Disse o seguinte:
— Sala de comando à tripulação. Dentro de cinco horas chegaremos ao ponto de transição situado além da órbita de Plutão. Meia hora antes da transição terá início a contagem regressiva, minuto a minuto. É só.
— Faltam cinco horas! — gemeu Bell num pavor esquisito. — E isso apesar da velocidade da luz.
Rhodan sorriu, mas desta vez seu sorriso não foi tranqüilizador como costumava ser.
— Acontece que a luz é muito lenta, Bell.

* * *

Topthor ergueu seu vulto gigantesco quando Grogham o chamou. A barba ruiva do companheiro tremia de excitação na tela que tinha diante de si.
— Topthor, nossos instrumentos constataram a presença de um gigantesco veículo esférico, que se dirige para fora do sistema. Suas dimensões são assustadoras...
— É a nave principal do tal do Rhodan — disse Topthor com um aceno de cabeça, sem mostrar-se muito impressionado. — Quer dizer que está na hora. Como conseguiram localizá-la?
— Através de uma mensagem de rádio. Constatamos a direção: Beta-Albíreo. Não conseguimos decifrá-la. Deve tratar-se de alguma informação destinada às forças que estão estacionadas naquele setor.
— Etztak que brigue com essas forças, Grogham. Quanto a mim, só estou interessado em Rhodan e no objetivo ao qual se dirige. Segui-lo-emos a uma distância segura. Ligue as barreiras de localização para que não perceba nossa presença. Assim que se realize a transição, calcule o local e a intensidade do abalo estrutural do espaço. Segui-lo-emos num salto de igual intensidade. Se tudo der certo, deveremos sair da quinta dimensão a uma distância máxima de um ano-luz de Rhodan. Entendido?
— Tudo entendido — confirmou Grogham, interrompendo a ligação.
Topthor deixou-se cair novamente na poltrona e acompanhou os acontecimentos na tela. De início viu uma esfera minúscula, que saía do sistema solar à velocidade da luz. Passaria a meia hora-luz da frota dos superpesados que se mantinha à espreita. As barreiras de localização teriam que ser ligadas. Com isso, a pequena frota de Topthor se tornaria invisível aos instrumentos de Rhodan.
Os três minutos transformaram-se em horas. A Stardust-III passou pelas oito naves em forma de rolo compressor e saiu para o espaço interestelar. A transição poderia ser realizada a qualquer momento.
Topthor mandou seguir nova rota. Acompanharam a Stardust-III numa distância bem calculada, que oferecesse a necessária segurança, e aguardaram a transição que decidiria tudo... e tudo revelaria.
A mesma foi realizada depois de mais duas horas.
Nas telas normais seguiu-se um ligeiro tremeluzir. Após isso, a gigantesca nave desapareceu como se nunca tivesse estado no lugar.
Os rastreadores estruturais captaram o abalo que atravessava a estrutura espácio-temporal a velocidade superior à da luz e mediram a intensidade do mesmo. Os instrumentos produzidos por uma tecnologia inacreditável começavam a funcionar. Dali a dez minutos ofereceram o resultado. Grogham anunciou-o com certo orgulho.
— Intensidade de 467,00958 unidades-salto. Direção constante. Distância de 1.603,18 anos-luz, mais ou menos 0,661. Tem alguma ordem, comandante?
— Vamos à transição. Imediatamente!
As mensagens de rádio correram pelas oito naves. Os relés estalaram. Os propulsores trabalharam com uma potência maior. A distância que separava Topthor do ponto em que a Stardust-III iniciara a transição teria que ser incluída nos cálculos.
Depois...
Um tremeluzir no lugar em que se encontravam as oito naves... e nada mais.
A frota de Topthor arriscara o salto para o desconhecido.
O abalo produzido pela transição multiplicada por oito correu pelo universo.

* * *

Ao sentir as primeiras dores, depois de recuperar a consciência, Rhodan percebeu que a transição fora bem sucedida. Perto dele, Bell tremia, e examinou as juntas, para verificar se as mesmas haviam voltado aos seus lugares. Sempre receava que, numa transição dessas, poderia haver uma pane em virtude da qual seu nariz reaparecesse em outro lugar.
— Está tudo aí? — perguntou Rhodan em tom irônico. Não participava dos temores secretos do amigo, mas em compensação tinha outras preocupações. — Tomara que consigamos encontrar o Peregrino.
O problema era este. O planeta artificial do superser era invisível a qualquer instrumento de localização e não podia ser localizado por meio da goniometria. Se não desse sinal de sua presença, nunca seria encontrado, a não ser por puro acaso. E Rhodan não gostava de confiar no acaso.
O planeta Peregrino descrevia uma órbita elíptica, levando dois milhões de anos para percorrê-la. Contornava cerca de trinta sistemas solares, que ficavam praticamente em linha reta. Dois deles formavam os focos da elipse. E o fato de que justamente o sistema solar terrestre era um desses focos deu muito que pensar a Rhodan. Em outra oportunidade verificaria o outro foco. Desconfiava que uma surpresa o aguardava naquele ponto.
Embora soubesse que isso não adiantaria nada, mandou pôr em funcionamento o instrumental comum de localização. Um olhar para a tela revelou-lhe que a Stardust-III se encontrava num setor da Via Láctea em que não havia estrelas. Num raio de cinqüenta anos-luz não havia nenhum sol. A uma distância muito grande estavam as inúmeras estrelas, irradiando sua luminosidade tranqüila, como que esperando. Não piscavam; pareciam ser os inúmeros olhos de um monstro incomensurável.
O quadro fora o mesmo tempos atrás, quando Rhodan se dirigira pela primeira vez ao planeta da vida eterna a fim de receber a ducha celular que deteria o processo de envelhecimento por seis decênios. Não havia nenhuma indicação de que, nas suas proximidades, descrevia sua órbita um planeta artificial, onde vivia aquilo. Aquilo, cuja pista Rhodan acompanhara pelo tempo e pelo espaço a fim de descobrir o segredo da imortalidade. Bem, o segredo continuou a ser um segredo, mas aquilo lhe oferecera a dádiva do prolongamento da vida, já que conseguiu solucionar todos os enigmas. Também Bell foi atingido pelo fenômeno, e ao menos pelos próximos sessenta anos não teria de preocupar-se para evitar o branqueamento de sua linda cabeleira ruiva.
Naquela oportunidade jamais teriam descoberto o planeta que, invisível aos olhos, descrevia sua órbita bem perto deles, se o mesmo não tivesse revelado sua presença. Subitamente alguma coisa monstruosa materializou-se num dos grandes pavilhões da Stardust-III. Tiveram que recorrer a todos os recursos fornecidos pela tecnologia para reduzir a coisa à impotência. E o ser incompreensível apenas soltara uma gargalhada homérica, como se tudo não passasse de brincadeira. Rhodan logo compreendera que realmente era assim.
Mas compreendera mais uma coisa. Aquilo teleportara o monstro para o interior da nave por meio de um transmissor fictício de matéria. E foi justamente por isso que resolveu retornar ao planeta Peregrino. Pretendia pedir àquilo que colocasse à sua disposição um desses TFM ou, se possível, dois. Não poderia haver uma arma mais perfeita.
— Encontraremos o Peregrino — disse Rhodan, para espantar as dúvidas de Bell. — Mas não sei quando.
Lembrou-se de como lhe falara da outra vez. Fora uma palestra amistosa.
Velho amigo — era assim que costumavam chamar-se. Afinal, aquilo tinha senso de humor.
— Anuncie o alarma número três. É bem possível que iniciemos com algumas brincadeiras mais rudes.
Bell acenou com a cabeça e dirigiu-se à sala de telegrafia para tomar as providências necessárias. Rhodan ficou só na grande sala de comando. Parado, fitava distraidamente a tela, que não mostrava nada além das estrelas distantes. Não havia o menor sinal do Peregrino, do planeta da vida, onde residia aquilo, sentindo um tédio terrível em virtude de sua imortalidade.
— Olá, querido! Rhodan quase teve um colapso. Era claro que havia moças e mulheres entre os quinhentos tripulantes da nave, mas não se lembrava de ter mantido relações íntimas com qualquer uma delas. Todas viam nele apenas o comandante, um comandante duro e bem-humorado, mas sempre distante. De repente...
Virou-se e contemplou o rosto de uma mulher. Não sabia por quê, mas aquele rosto lhe parecia familiar. Já devia tê-lo visto antes.
— Que é isso, querido? Não me conhece mais?
A voz era amável e sugestiva, atraente e provocadora. O rosto não era inocente, mas possuía certo encanto ao qual nem mesmo Rhodan conseguia fechar-se. Sabia que não se encontrava diante de um ser humano, mas de uma imagem material-intelectual do ser imortal.
— Olá, madame — disse, acompanhando o gracejo do grande ser. — Acredito que tenha vindo a pedido de meu amigo. Faça o favor de sentar.
— Para que tanta cerimônia, querido?
Aproximou-se dele e enlaçou seu pescoço com os braços finos. Rhodan sentiu o calor de seu corpo; era incapaz de mover-se. Parou estarrecido e aspirou o perfume da bela mulher. A mesma usava um vestido que parecia consistir unicamente num envoltório antigo.
— Hum — fez Rhodan, pigarreando desajeitadamente. Não tinha muita experiência no trato das mulheres, ainda mais de mulheres que nem sequer existiam. Mas a proximidade dessa figura corpórea era tão real como a do monstro terrível que tempos atrás sentira perto de si. De qualquer maneira, aquilo havia modificado sua tática, passando a utilizar mulheres em vez de monstros. Era um avanço considerável... conforme as circunstâncias.
— Então? — disse a bela com um sorriso tentador. — Acho que você não vai muito ao cinema, não é?
— Vou raras vezes — confessou Rhodan.
De repente soube quem era a pessoa que aparecera na sala de comando, vinda do nada. O imortal pesquisara sua memória e ali fora descobrir a impressão fugaz causada por um filme há muito esquecido... e materializara a mesma. Era por isso que tinha a impressão de conhecer aquela mulher.
— Perry! — disse esta subitamente e abraçou Rhodan com tamanha força que o mesmo não pôde esboçar qualquer gesto de defesa, embora estivesse firmemente decidido a fazê-lo se acontecesse o que estava acontecendo. — Você ainda me ama? Naquela oportunidade você gostou muito de mim, não gostou?
Ora essa, a mulher nem sequer existe”, disse Rhodan amargurado de si para si, embora soubesse perfeitamente que existia. Não era a mesma personalidade, segundo lhe parecia. Apenas uma imitação materializada com base em sua memória. Ou então — e isso também já acontecera — aquilo trazia a criatura verdadeira da Terra, ou melhor, apenas seu espírito. E esse espírito bastava para materializar o ser. Aquilo já fora buscar grupos inteiros do passado da Terra, trasladando-os para o plano temporal do planeta Peregrino, onde agiam como se ainda se encontrassem na Terra.
Fosse como fosse, o calor do corpo da bela estrela de cinema, cujo nome Rhodan nem conhecia, era muito real. Procurou defender-se contra a sensação estranha que começou a apossar-se dele. Lançando mão de todas as forças que conseguiu reunir, procurou empurrar a mulher para longe.
Mas enganara-se. A bela tinha forças que lhe permitiriam derrubar um campeão de boxe. Rhodan não conseguiu afastá-la um centímetro que fosse. Pelo contrário. Com o sorriso mais gentil deste mundo, estreitou-o ainda mais nos braços e beijou seus lábios.
Rhodan talvez teria perdoado o gesto, se naquele momento Bell não tivesse voltado à sala de comando. Vinha acompanhado de Redkens, um cadete da Academia Espacial da Terceira Potência. Naquele vôo, trabalhava no setor de navegação da Stardust-III.
Valeria a pena pintar o rosto de Bell naquele instante. Deu dois ou três passos, antes de compreender o que os olhos viam. Logo ali, junto ao painel de controle, seu amigo e mestre Perry Rhodan debatia-se desesperadamente para não ser beijado por Cleópatra. Bell também vira o filme e guardava do mesmo uma lembrança mais precisa que Rhodan.
— Veja! — gemeu em sons inarticulados, apoiando-se na parede oval. — É a Rallas! É de enlouquecer.
— Quem? — gaguejou o jovem cadete, com o rosto vermelho que nem um pimentão.
Era um admirador fiel, embora desesperançado, da conhecida artista e não acreditou no que estava vendo quando a encontrou aqui, a mais de mil e quinhentos anos-luz de Hollywood, nos braços do chefe.
Com um grande esforço, Rhodan conseguiu virar a cabeça. Seu belo espírito parecia não apreciar a assistência que acabara de chegar. Furiosa, a figura por demais real mordeu as pontas das orelhas do amante rebelde.
Rhodan soltou um grito de susto e deu um pontapé nas canelas da famosa Rallas. Mas isso não parecia incomodá-la.
— Querido, eu o amo! — disse ela num sopro.
Bell esteve a ponto de sofrer um ataque. Teve de fazer um grande esforço para manter-se de pé. Com os olhos arregalados, contemplou a estranha cena. Nem se lembrou da possibilidade de que aquilo poderia ser o primeiro sinal de vida do imortal. Só via a bela mulher nos braços de Rhodan.
— Você contrabandeou ela para dentro da nave? — disse fora de fôlego. — Bem que poderia ter contado.
— Acho que devemos deixá-los sós — disse Redkens em tom cortês e dispôs-se a sair. Mas o grito desesperado de Rhodan deteve-o.
— Não se atreva, cadete Redkens! Liberte-me desta mulher, depressa!
— É Cleópatra! — retificou Redkens, perturbado. — Ou melhor, é a divina Rallas...
— Não importa quem seja! — esbravejou Rhodan, tentando libertar-se do abraço implacável da amante vinda do nada. — Vamos, ajudem! O que estão esperando?
Redkens não entendeu uma palavra do que o chefe estava dizendo. Por que trouxera Rallas, se não a queria? Nunca pensara que Rhodan fosse capaz de uma coisa dessas. Todavia...
— Pois vamos — gemeu Bell e pôs-se em movimento. — Não compreendo mais nada; talvez a mulher tenha enlouquecido.
Mal tocou o braço da bela Cleópatra, esta soltou Rhodan, virou-se e fitou o rosto vermelho de Bell.
— Bell, meu querido Bell! Venha para os meus braços, homem amado! — No mesmo instante Bell viu-se no aperto. — Então é aqui que voltamos a encontrar-nos.
Os lábios vermelhos da estrela tão distante comprimiram-se contra os seus, cumprindo um velho desejo, o de um belo dia ser beijado pela linda Rallas. Não ofereceu a menor resistência. Deixou que a mulher fizesse tudo, sem perturbar-se com a gargalhada homérica que veio ter aos seus ouvidos. Rhodan, livre por enquanto dos carinhos insistentes da visitante inesperada, não pôde reprimir o riso quando viu que Bell, frio como gelo e duro como aço, derretia literalmente nos braços da Rallas.
O cadete era o único que tinha que achar que o destino estava sendo injusto com ele. Olhava alternadamente Rhodan e o par enlaçado, e não sabia o que pensar da situação.
Finalmente o imortal parecia reconhecer que as coisas não poderiam continuar assim. Fez com que Cleópatra soltasse sua vítima.
De uma hora para outra, Bell estava só, abraçando alguém que não existia mais. O quadro era tão cômico que Rhodan esqueceu a raiva e pôs-se a rir. Bell abriu os braços, fechados num grande enlevo, e percebeu que estava tendo um comportamento ridículo. E isso na presença de Redkens que, encostado à parede, vivia gaguejando:
— Um autógrafo! Gostaria tanto de um autógrafo dela!
— Cale a boca, Redkens! Essa mulher nunca lhe poderia ter dado um autógrafo. Foi apenas um espírito.
Redkens não acompanhara a primeira viagem ao planeta da vida eterna, e assim não conhecia as brincadeiras do ser incompreensível.
— Um espírito? Ora, eu conheço a Rallas...
— Poderia perfeitamente ter sido Colombo — disse Rhodan. — Mas não me teria assustado como esta... como é mesmo o nome da mulher?
— Rallas, a divina Rallas — gemeu Redkens, decepcionado. — Como é que um espírito pode ter um corpo?
— Um espírito pode tudo — explicou Bell, que aos poucos se recuperava do choque e começava a compreender a ilusão em que caíra. — Cria ilusões materiais em nossa imaginação. Tudo não passa de uma materialização do pensamento. A lembrança de certo filme em que figurava a Rallas estava no subconsciente de Rhodan, e isso bastou para que o imortal realizasse a imitação perfeita da mesma e a fizesse materializar diante de nós. É muito simples, mas tenho que confessar que no primeiro instante caí na brincadeira.
— Foi um instante bastante comprido — objetou Rhodan.
Subitamente calou-se. Uma voz soou em seu cérebro; foi a mesma voz telepática silenciosa vinda dele, do imortal.
— Ei, amigo — disse aquilo. — Veio visitar-me? Pelo que vejo tem motivos importantes para isso. Bem, devíamos conversar prolongadamente a respeito. Mantenham a rota e a velocidade atual. Precisamente dentro de três minutos vocês baterão no campo protetor do Peregrino. Desliguem os propulsores.
Rhodan aguardou outras instruções, mas estas não vieram. Olhou para Bell.
— Ouviu uma voz?
— Não. Você ouviu?
Rhodan compreendeu que aquilo só se dirigira a ele. Por estranho que parecesse, tudo indicava que fazia questão de falar quanto antes com Rhodan. Era o que se concluía da informação sobre a posição exata do planeta.
— Desligue os reatores! — gritou Rhodan. — Bell, providencie para que a tripulação se prepare para uma forte desaceleração. Apesar dos nossos campos antigravitacionais, haverá uma forte pancada. Dentro de três minutos atingiremos o campo energético do planeta Peregrino. Ele nos freará. Depois...
Alguém riu. Foi Redkens. O jovem cadete permanecia encostado à parede. Segurava na mão um cartão postal com uma fotografia. Fitava a mesma e ria até que as lágrimas lhe corressem pela face.
Bell tirou-lhe a fotografia. Olhou-a apenas por um instante e começou a rir. Sem dizer uma palavra, passou a fotografia adiante. Rhodan viu uma fotografia nítida e colorida da dama que há poucos minutos o comprimira tão energicamente contra seu busto. Embaixo dela estava escrito em letra delicada:

Ao meu grande admirador Redkens,
com sinceros votos de felicidades.
Rallas.

* * *

As naves espaciais dos saltadores foram construídas segundo os princípios arcônidas, embora nem sempre fossem iguais umas às outras. As naves capitanias de cada clã estavam equipadas com rastreadores estruturais, que registravam e indicavam qualquer abalo da estrutura espaço-temporal. A esses rastreadores estavam acoplados instrumentos que possibilitavam a localização da causa do abalo e calculavam a distância que seria percorrida pelo objeto que causava o abalo estrutural.
Por isso não era de admirar que Topthor e sua frota retornassem ao espaço normal a menos de cinco horas-luz da Stardust-III.
Fez a mesma constatação de Rhodan: num raio de cinqüenta anos-luz, não havia o menor fragmento de matéria perceptível, com exceção da Stardust-III.
Torcendo o rosto, Topthor olhou para a tela. Numa outra tela Grogham fitava-o tranqüilamente.
— Então, onde está o seu planeta de fadas, Topthor?
O dirigente dos superpesados não se abalou. Não tirava os olhos da Stardust-III. Era importante que a mesma não saísse do alcance dos olhos e dos instrumentos...
— O senhor acreditava que ele estaria logo diante do nosso nariz? Rhodan tomará suas precauções. Se não estou enganado...
Interrompeu-se.
Uma coisa muito estranha aconteceu na tela principal, na qual se via a imagem da Stardust-III.
A nave Stardust-III era uma esfera de oitocentos metros de diâmetro, e uma das metades dessa gigantesca esfera começou a desaparecer. Até parecia que por lá, a cinco horas-luz do ponto em que se encontravam, estava ocorrendo um eclipse da lua. Foi tudo muito rápido. Uma das metades da Stardust-III desapareceu em dois segundos, enquanto a outra metade levou dez segundos para desaparecer. O processo de desaparecimento era mais lento na fase final.
Topthor não encontrou nenhuma explicação para o fenômeno.
— Caramba! Isso não foi nenhuma transição normal — disse um tanto perplexo. — Não houve o menor abalo no ambiente. Nem chegou a ser qualquer espécie de transição. Alguma coisa devorou a nave de Rhodan.
— Devorou a nave? — gaguejou Grogham. Seu rosto foi se tornando pálido. — O que quer dizer com isso?
O alarma tomou conta da nave de Topthor. A frota preparava-se para uma transição ligeira de cinco horas-luz. Quando voltou a materializar-se o espaço em torno dela estava vazio. Os instrumentos não indicavam a presença de qualquer objeto num raio de cinco anos-luz. Logo, a Stardust-III deixara de existir e isso era totalmente impossível. A matéria poderia ser tornada invisível, mas ninguém poderia fazê-la desaparecer de vez. Ao menos isso não poderia ser feito sem uma transição normal, e esta teria sido registrada pelos instrumentos.
O que teria sido feito da Stardust-III?
Topthor não encontrou resposta. Pela primeira vez, viu-se diante de um problema não resolvido. Ou melhor, diante de um problema praticamente insolúvel. Conseguira seguir Rhodan por uma distância superior a mil e quinhentos anos-luz, e agora esse terrano se transformara pura e simplesmente numa porção de vácuo. Alguma coisa não estava certa.
Grogham acenou com a cabeça:
— Se ele desapareceu neste lugar, terá que ressurgir no mesmo. Apenas precisamos de paciência para esperar.
— Foi o que eu pensei — murmurou Topthor, indignado. — Vamos nos preparar para uma longa espera. Temos tempo.
— Posso permitir uma pausa de descanso à tripulação? — perguntou Grogham.
Topthor fez que sim.
— Ordene aos comandantes das outras naves que façam uma pausa para dormir. Não acredito que nas próximas horas aconteça qualquer coisa.
Topthor estava enganado. Mas não poderia imaginar que para seus homens não haveria mais tempo... para adormecer.

2



Com a metade da velocidade da luz, a Stardust-III precipitou-se sobre o campo energético em forma de abóbada que cercava o planeta artificial Peregrino. De um instante para outro, os velocímetros caíram para zero.
Apesar dos campos de neutralização, um forte abalo sacudiu a nave. As pessoas que não haviam colocado os cintos de segurança foram atiradas de um canto para outro. Felizmente, Rhodan, que aguardava o choque, tomara suas precauções. Por isso não houve feridos.
Num espaço de doze segundos, a Stardust-III atravessou o céu artificial do Peregrino... e depois viram o planeta diante de si.
Era um mundo cheio de milagres. Ali se reunia tudo que pudesse ser encontrado nos mundos habitados da galáxia. As paisagens, onduladas com os cursos d’água que deslizavam tranqüilamente, alternavam com os amplos mares salpicados de ilhas deslumbrantes. Os continentes estavam cobertos de florestas que pareciam parques. No meio delas, havia gigantescas estepes, habitadas pelos animais mais estranhos. Montanhas alcantiladas interrompiam o quadro, proporcionando a necessária mudança. Os ares eram percorridos por pássaros primitivos em forma de dragão.
Esse mundo era um verdadeiro paraíso.
Mas não era um mundo normal. Era plano. O planeta Peregrino não era um planeta na acepção comum do termo, mas um gigantesco disco com um diâmetro de oito mil quilômetros. Por cima dele erguia-se a abóbada energética, em cujo ponto mais alto brilhava um sol atômico artificial, que dava calor e vida àquele mundo estranho.
Ao chegar à cúpula de observação da nave, Rhodan mandou abrir as escotilhas metálicas. Bell estava com ele. Mais uma vez o milagre inconcebível do imortal abalou-os até as profundezas da alma. Enlevados, contemplaram a paisagem que desfilava diante deles.
— Está gostando, amigo?
A voz do inconcebível quase chegava a ser ouvida fisicamente no interior do recinto. Até parecia que não se comunicava com eles apenas por via telepática, mas que realmente lhes falava. Rhodan sorriu tranqüilamente.
— É um planeta admirável e pacífico, meu caro amigo. Você acaba de criar um paraíso que causará inveja a qualquer mortal.
— Não são apenas os mortais, mas também os imortais que me invejam — sorriu Aquilo muito alegre.
Perguntou depois:
— Você veio para visitar-me?
— Vim fazer-lhe um pedido — confessou Rhodan, sem tirar os olhos daquela paisagem de conto de fadas. — Você deve saber o que quero.
— Não faço a menor idéia — mentiu aquilo. — Como poderia saber? Não costumo fuçar nos pensamentos mais recônditos dos meus amigos.
— Que mentira! — protestou Bell, que se lembrou da Rallas, que lhe fora tirada tão abruptamente. — Posso provar...
— Ah, é nosso amigo Bell — disse o interlocutor invisível. — Está aborrecido com a bela imitação? Pois bem, vamos dar-lhe uma alegria. Hoje de noite vou contrabandeá-la para dentro de seu camarote.
— Não se atreva! — berrou Bell, assustado.
Não temia tanto a Rallas como os risos dos tripulantes. Seu rosto vermelho adquirira uma estranha palidez. E tornou-se ainda mais pálido quando aquilo soltou uma ruidosa gargalhada. Aquilo estava em toda parte, e por isso também podia ver o rosto assustado de Bell.
— Uma mulher bonita é muito mais interessante que um índio ou um pistoleiro do faroeste — disse a voz em tom divertido, aludindo às reminiscências a que tivera que recorrer por ocasião da primeira visita de Rhodan, para desviar os terranos de seu objetivo. — Aliás, mantenha a rota, amigo. Pouse novamente perto da cidade das máquinas. Não sofreu grandes alterações. Você não terá dificuldades em encontrar o grande pavilhão, onde estarei à sua espera. Homunk o guiará.
Rhodan estava perplexo.
— Como soube que chamei o robô de Homunk?
— Que é isso, amigo? Homunk não é nenhum robô. É um terrano criado por mim, de um pedaço de matéria supérflua. Gostei dele, e por isso deixei que continuasse a existir. Até já ficou mais inteligente; sente-se satisfeito com sua visita.
— Será que você ainda guarda outras surpresas para nós? — perguntou Rhodan. — Ainda teremos de enfrentar alguma prova, algum enigma?
— Não, amigo. Não tenho nenhum motivo para isso. Ainda me divertirei a valer.
Quando a voz se calou, Rhodan e Bell tiveram a impressão de que um homem invisível deixara a sala. Alguma coisa afastou-se deles. Aquilo retirou-se, deixando-os sós.
Bell suspirou aliviado.
— Que coisa medonha. Nunca me conformarei com o fato de que um ser destes exista. Aquilo faz magias, traz os seres de outros planetas e de outros tempos. Aquilo é potente como...
Rhodan sacudiu a cabeça, num gesto de suave censura.
— Não, aquilo não é Deus. Não passa de um ser formado pela fusão de todos os seres de uma raça, e que por isso mesmo domina todo o saber dessa raça. Cometeríamos uma blasfêmia se disséssemos que é Deus. É bem possível que seu saber chegue perto do de um deus, mas aquilo tem mais senso de humor, e trata-se de um humor originado exclusivamente no tédio. Todos os seres imortais sentem tédio.
— Pois eu nunca sentiria tédio, mesmo que vivesse dez mil anos — disse Bell em tom despreocupado. — Sempre surgirão novos acontecimentos que distrairão a gente e nos fazem esquecer que temos tempo demais. Sempre haverá aventuras que espantarão o tédio.
— Bell, um ser mortal nunca pode imaginar o que se passa na alma de um ser verdadeiramente imortal. Asseguro-lhe que tentei, embora não tenha alcançado a verdadeira imortalidade. Meu corpo precisa regularmente da ducha celular vivificadora. Se um dia não a receber, o processo de envelhecimento voltará a funcionar. Apesar disso, fiquei refletindo sobre como devem ser as coisas para quem nunca envelhece. No primeiro instante senti uma felicidade nunca antes experimentada; pensei que estivesse livre de todas as preocupações. Mas isso só aconteceu no primeiro momento. Logo me lembrei de que a eternidade é muito longa. Em torno de mim assistirei à alternância ininterrupta de nascimentos e mortes; enquanto isso, eu continuaria, sem ser atingido por tais ocorrências. Os homens verão um deus em mim, e com isso eu ficaria condenado a uma solidão infinita.

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