Autor
CLARK DARLTON
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
Denise
Revisão
Gandalf01
A Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan — uma combinação
feliz da energia humana com a supertecnologia arcônida — pode apresentar, nos
seus anos de existência, uma história muito movimentada, cheia de dramáticos
altos e baixos.Mas os acontecimentos mais recentes dão a impressão de que, ao
defrontar-se com os saltadores ou mercadores galácticos, Perry Rhodan vê-se
diante de um poder que tem a intenção e a capacidade de destruir a Terra para
eliminar um possível concorrente no comércio interestelar: Por enquanto ainda
se mantém a linha de defesa do sistema de Albíreo, formada pelos cruzadores
pesados Terra e Solar System. Mas quanto tempo demorarão os saltadores para
descobrir que os terranos apenas realizam uma manobra diversionista? Para Perry
Rhodan o tempo urge. Mas, para conseguir uma arma eficaz, capaz de defendê-lo
contra os saltadores, terá que retornar ao planeta da vida eterna... e realizar
um Vôo Para o Infinito.
= = = = = =
= = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Comandante da Stardust-III e
chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Cujos favores vêm sendo
solicitados por uma grande estrela do cinema.
Topthor e Grogham — Dois mercadores do clã dos
superpesados.
“Ele” ou “Aquilo” — Um ser incorpóreo que às
vezes pode tornar-se bastante tangível.
Cadete Redkens — Que recebe um autógrafo.
Laar, Regoon, Gorat e Nex — Condenados
a um milhão de anos de solidão, num mundo sem estrelas.
1
À primeira vista,
percebia-se que a gigantesca nave espacial não fora construída por mãos
humanas. Deslocando-se em queda livre, descrevia sua órbita em torno do Sol a
uma distância de quinze horas-luz. Com seus instrumentos ultra-sensíveis,
observava os planetas do sistema. Sua forma lembrava um enorme rolo compressor,
arredondado na frente e achatado na parte de trás. Tinha trezentos metros de
comprimento e cinqüenta de diâmetro. A intervalos regulares, a luz brilhava nas
janelas redondas. Atrás delas, moviam-se enormes sombras quadráticas.
A nave
estranha não estava só. Era acompanhada por mais sete. A frota movia-se em
torno do Sol, dirigida por seres que jamais haviam posto os pés na Terra. E não
apresentavam aspecto humano. Sua pátria não era nenhum planeta, mas o espaço
cósmico. Viviam no interior das naves e faziam seus negócios com todas as raças
inteligentes do universo. Amavam a paz somente quando a mesma lhes
proporcionava lucros. Sempre que uma guerra prometesse ser mais lucrativa,
faziam com que irrompesse. Eram tolerantes e autoritários ao mesmo tempo,
tinham senso de humor e ao mesmo tempo caracterizavam-se por uma dureza
implacável, que se manifestava toda vez que alguém se intrometia em seus
negócios.
Na sala de
controle da nave capitania, o comodoro Topthor movia-se pesadamente diante das
telas ligadas. Movia-se pesadamente, porque segundo as concepções terrenas seu
peso quase chegava a meia tonelada. Sua largura equivalia à altura: um metro e
sessenta centímetros. A cor da pele caía para o esverdeado e o crânio liso não
apresentava nenhum fio de cabelo. Em compensação, seguindo os costumes de sua
raça, ostentava uma barba ruiva.
Os
mercadores galácticos descendiam dos arcônidas, uma raça que, sendo dona de um
grande império situado a trinta e quatro mil anos-luz da Terra, tornara-se
fraca demais para controlar o mesmo. Face a isso, os mercadores adquiriram sua
independência e criaram um império próprio. Estabeleceram contato com todos os
planetas habitados e viviam exclusivamente do comércio.
Mas Topthor
não era um mercador comum; pertencia ao clã dos superpesados. Há tempos
imemoriais, quando os descendentes dos arcônidas ainda viviam em planetas, seu
clã habitava um planeta em que a gravitação chegava a 2,l g. Em virtude disso,
sofreram, no curso das gerações, uma série de alterações anatômicas, que
conferiram a seu corpo o formato atual. Eram criaturas estranhas em meio à
própria raça, mas o pensamento galático não admitia qualquer forma de
discriminação. Com sua esperteza, os mercadores — ou saltadores, como também
eram chamados — resolveram extrair da modificação da estrutura anatômica de
seus companheiros um proveito para si, e também para estes. Os superpesados
transformaram-se na tropa de defesa dos saltadores. Ganhavam a vida fornecendo
proteção aos seus companheiros de raça sempre que estes o desejassem e, se
necessário, lutando por eles.
Mas, desta
vez, Topthor estava agindo por iniciativa própria.
Encarou a
tela da frente. Nela se projetava a imagem de um planeta verde-azulado que,
segundo tudo indicava, servia de sede a uma civilização florescente. Os
continentes jaziam em meio aos mares azuis. Camadas de nuvens brancas cobriam
certos trechos de terra, ocultando os detalhes.
O ser
gigantesco com o rosto de traços quase humanos bateu com a mão grosseira num
botão. Imediatamente outra tela iluminou-se. O rosto de outro superpesado
surgiu na mesma.
— O que
deseja, Topthor?
— Dizem que
é ali, no planeta número três do sistema, não é? Que coisa estranha! Só hoje
ficamos sabendo...
— Costumam
ser chamados de terranos — completou o outro. — Só praticam a navegação
espacial de poucos anos para cá e já querem estragar nossos negócios. Estão
mantendo relações comerciais com dois sistemas solares.
— Sei,
Grogham. As mensagens radiofônicas de nossos irmãos foram bastante claras. Pelo
que me lembro, Orlgans e Etztak trocaram relatórios minuciosos, e tivemos
oportunidade de ouvir os mesmos. É bem verdade que não pediram que lhes
prestássemos socorro, mas as leis de nosso povo não proíbem nossa intervenção,
desde que a mesma não cause prejuízo a outro grupo de mercadores.
Conversavam
em intercosmo, a língua universal pela qual costumavam comunicar-se as raças de
astronautas do Império. Grogham passou a mão pela barba, que o fazia parecer
mais velho do que provavelmente era.
— Pelos
últimos relatórios, Orlgans e Etztak estão ocupados em capturar o encarregado
do terrano Perry Rhodan, que se entrincheirou num planeta gelado, a cerca de
trezentos anos-luz daqui. Por que não vamos aproveitar o tempo para dar uma
olhada por aqui? Afinal, o planeta número três é a causa de toda agitação.
Talvez possamos fazer um bom negócio.
De um
instante para outro, Topthor assumiu uma atitude fria.
— Aqui não
se fazem negócios, Grogham. Aqui não! Até parece que o senhor ainda não
compreendeu que, pela primeira vez, nos vemos diante de uma concorrência mais
séria. No curso de um decênio o tal do Rhodan transformou este planeta
subdesenvolvido numa potência interestelar. Suas naves atacam-nos. Com isso
declarou a guerra contra nós, os saltadores. Por quê? Apenas porque tentamos
olhar suas cartas.
— Nós não —
retificou Grogham em tom um pouco pedante — mas Orlgans. Foi ele que aprisionou
duas naves de Rhodan, para interrogar seus ocupantes. Será que isso representa
um ato amistoso?
— Silêncio!
— berrou Topthor. E quando esse colosso de meia tonelada berrava, até mesmo as
telas de naves distantes tremiam. Por isso não era de admirar que Grogham se
assustasse. Afinal, era apenas o comandante de uma das naves pertencentes à
frota mercante e de guerra de Topthor. — Acha que estou interessado em
futilidades desse tipo? Acha que realizei um vôo tão longo apenas para
intrometer-me nos negócios de outros clãs ou até vir em auxílio dos mesmos? Se
pudermos auferir algum lucro, não tenho nada a opor. Acontece que por enquanto
nem Orlgans nem Etztak solicitaram auxílio. E um auxílio não solicitado não
costuma ser pago.
Grogham
parecia desorientado.
— Se é
assim, por que viemos para cá, Topthor? Não me lembro de que alguma vez o
senhor tenha feito qualquer coisa sem um motivo.
— A
observação é muito inteligente — elogiou-o Topthor, que se sentia lisonjeado. —
Nunca faço coisa alguma em troca de nada. Também desta vez não estou fazendo.
Acompanhei atentamente as informações de nossos robôs de espionagem, já
desativados, e as mensagens transmitidas por nossa estação instalada na lua
Titã. Rhodan não estará em condições de enfrentar Etztak, se este se lembrar de
chamar nosso grupo ou outras unidades de combate. Ainda não o fez porque isso
custaria dinheiro. Por isso Rhodan pretende conseguir as armas de que precisa
para vencer o inimigo, especialmente Etztak. Onde pretende conseguir essas
armas? Grogham não sabia.
— Eu sei! —
exultou o comandante da frota. — É bem verdade que todo mundo se mostra
bastante cético ao falar no planeta da vida eterna. Apenas correm boatos a
respeito de sua existência, mas ninguém sabe se a lenda tem um fundo
verdadeiro. Quanto a mim, estou inclinado a admitir algumas gotas de verdade em
toda e qualquer lenda, inclusive nesta.
— O planeta
da vida eterna? — murmurou Grogham, incrédulo. — Já ouvi falar a respeito.
Dizem que percorre sua órbita imprevisível em algum ponto na amplidão do
espaço, mas até agora ninguém o encontrou. É um belo conto de fadas.
— Conto de
fadas coisa alguma! — berrou Topthor, furioso. — O senhor acredita que esse
Rhodan correria atrás de um fantasma quando sua existência está em jogo? Tenho
informações seguras de que sabe onde fica esse planeta legendário. Conhece a
posição do mesmo. E pretende ir para lá em busca de novas armas. Se conseguir,
nossa posição dominante na galáxia terá chegado ao fim. Mas se chegarmos antes
dele, faremos o melhor negócio de nossa vida.
— Será que
Etztak tem conhecimento das intenções de Rhodan?
— É claro
que tem, mas é um idiota tal qual o senhor: não acredita na existência do
planeta misterioso. Acha que é mais importante pegar esse funcionariozinho de
Rhodan, o tal do Tifflor, que se escondeu naquele planeta de gelo. Bem, sou
mais inteligente que Etztak.
Grogham não
contestou essa afirmativa.
— No momento
não estou interessado em Etztak, nem nas táticas desenvolvidas pelo mesmo —
prosseguiu Topthor. — Nossa missão consiste apenas em vigiar Perry Rhodan, esse
indivíduo extraordinário que conseguiu arrebatar os segredos que os arcônidas
guardavam com tanto cuidado. Bem que esse terraqueozinho me impressiona. Mas
não me posso deixar levar pelo sentimento; afinal, o objetivo final dele
consiste em romper nosso poder. Se a ordem voltar a reinar no reino dos
arcônidas, não seremos mais os únicos que fazem os negócios, e a exploração dos
mundos recém-descobertos terá chegado ao fim.
— As
informações recebidas dizem quando deve decolar?
— Quem?
Rhodan? Pois é justamente isso, não sabemos. As informações que recebemos são
antigas, ou melhor, relativamente antigas. O fluxo de comunicações foi
interrompido quando, numa ação em grande escala, Rhodan conseguiu pôr fora de
ação nossa estação retransmissora, ou melhor, a de Etztak. Só fomos informados
de que Rhodan procurará visitar o planeta da vida eterna. E o mais importante
da história é isto: procurará visitá-lo mais uma vez. Dali se conclui que já
esteve lá, motivo por que deve conhecer sua posição.
A barba de
Grogham tremia de forma bem visível. Seus olhos arregalaram-se.
— Já esteve
lá? — respirava pesadamente. — Por todos os deuses do universo e por todos os
mercados da Galáxia...
— Então? —
exultou Topthor. — Agora a conversa já é outra, não é? Não estamos seguindo
nenhuma pista errática, mas corremos atrás de uma realidade. Aliás — disse,
mudando de assunto de um instante para outro — ainda não há notícias das outras
naves?
— Estão
estacionadas do lado oposto do sistema, a trinta anos-luz do ponto em que nos
encontramos. Por enquanto não observaram a decolagem de qualquer nave terrena.
E não houve nenhuma transição.
Topthor
acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
— Isso é
importante. As transições acabarão traindo Rhodan. Nossos rastreadores de
estrutura espacial permitem observar e calcular qualquer movimento que se
realize no plano existencial da quinta dimensão. Basta acompanharmos as
transições e, se tivermos bastante sorte, rematerializaremos nas imediações do
lugar em que Perry Rhodan e suas naves regressarem ao espaço normal.
— É um plano
muito bem concebido — confessou Grogham. — Tomara que a espera não seja muito
demorada.
— Nem que
demore anos — retrucou Topthor em tom mordaz. — De qualquer maneira compensará.
O planeta da vida eterna! O que significam alguns anos perdidos diante dele?
Mais uma vez
Grogham ficou sem resposta.
Num silêncio
total, as oito naves continuaram a percorrer seu caminho em torno do Sol,
esperando que algum terrano deixasse o planeta Terra e o Sistema Solar.
Formavam uma barreira que não poderia ser rompida sem pôr em alarma os
ultra-sensíveis aparelhos de observação.
Sem que o
soubesse, a Terra se transformara no centro de um cinturão de defesa intergaláctica.
E esse
cinturão tinha tempo de sobra; poderia esperar...
* * *
Acontece que
Perry Rhodan não tinha muito tempo.
Aquilo que
conseguira evitar durante um decênio acabara de acontecer. A raça mais poderosa
do Grande Império dos arcônidas tivera sua atenção despertada para a Terra. O
tempo do isolamento salvador e da anonimidade benfazeja havia chegado ao fim.
Justamente os saltadores, os mercadores galácticos, foram descobrir a Terra!
A primeira
batalha havia sido ganha. Todos os robôs de espionagem de que os saltadores se
valeram na Terra e no sistema solar foram postos fora de ação. Num ataque-relâmpago,
Rhodan conseguira destruir a estação de rádio instalada em Titã. Mas a luta
ainda não estava decidida. No distante sistema da estrela gêmea de
Beta-Albíreo, a trezentos e vinte anos-luz da Terra, os cruzadores pesados
Terra e Solar System estavam em luta contra a frota mercante armada de dois
comandantes dos saltadores, Orlgans e Etztak. No segundo planeta do sistema,
formado por um mundo de gelo primitivo, o cadete Julian Tifflor e seus
companheiros persistiam em suas posições e aguardavam a libertação. Gucky, o
pequeno rato-castor dotado de faculdades extraordinárias, estava com eles.
Talvez conseguissem reter os saltadores e desviar sua atenção de Rhodan, até
que este conseguisse as armas necessárias para expulsar os intrusos de uma vez por
todas.
Por isso não
se podia dizer que a situação fosse brilhante no momento em que o gigantesco
couraçado Stardust-III, uma nave esférica de oitocentos metros de diâmetro,
corria vertiginosamente em busca do ponto de transição.
Perry Rhodan
se sentia nervoso.
O fato
deixou Reginald Bell bastante contrariado.
— Gostaria
de saber por que você se preocupa tanto, chefe — disse o amigo para alegrá-lo.
— As coisas estão correndo muito bem. Não precisamos preocupar-nos com Gucky e
Tiff; eles darão seu jeito. Quanto a Nyssen...
— A tarefa
do major Nyssen não é fácil — ponderou Rhodan em tom sério. — Os dois
cruzadores comandados por ele sabem o que devem fazer, mas não sei por quanto
tempo agüentarão essa história de voar constantemente para realizar ataques
simulados. E há um ponto ainda mais delicado. Os saltadores são uma raça
inteligente, e ninguém sabe quanto tempo levarão para perceber que apenas
pretendemos detê-los.
— Por que
esses seres são chamados de saltadores? São iguais a nós.
— É porque
não possuem uma verdadeira pátria: saltam com suas naves mercantes de um
sistema solar a outro. Também são chamados de mercadores, mas acho que o nome
saltadores é mais apropriado, porque acentua sua condição de apátridas.
Bell olhou
para a tela. Júpiter, o planeta gigante, deslocou-se para fora do campo de
visão. Desenvolvendo uma velocidade próxima à da luz, a Stardust-III corria em
direção ao ponto de transição situado além da órbita de Plutão.
— Ainda
demorará muito?
Rhodan
franziu a testa.
— Você tem
um talento inigualável para exprimir os problemas mais complexos através de
perguntas simples, meu amigo. Ainda demorará muito? Pois é isso que me deixa
mais louco em toda a história. Receio que no momento não possa dar resposta à
sua pergunta. Você deve estar lembrado de que já estivemos no planeta da vida
eterna e, quando regressamos à Terra, quatro anos e meio se haviam passado. O
planeta Peregrino constitui o produto artificial de um superser, e sua
existência desenvolve-se num plano temporal diferente do nosso. De qualquer
maneira, precisamos ir até lá para obter uma nova arma que nos permita expulsar
os saltadores. O que acontecerá se retornarmos depois de um ou dois anos, mesmo
que na nossa opinião só tenhamos permanecido poucos dias no Peregrino?
Um sorriso
pálido passou pelo rosto largo de Bell. Seu cabelo ruivo em escovinha não fez o
menor esforço para, num gesto de protesto, libertar-se da brilhantina que o
prendia, conforme era seu costume. Fez um gesto de desprezo com a mão grossa.
— Por que
iria acontecer uma coisa dessas? Pediremos àquilo que compense a diferença de
tempo.
Por um
instante Rhodan parecia perplexo, mas logo deu de ombros.
— Acho que
aquilo vai mandar-nos para o inferno.
Aquilo era o
ser incompreensível abrigado pelo planeta Peregrino. Representava a união de um
povo muito antigo. Encerrava em si bilhões de seres vivos, que renunciaram
voluntariamente aos seus corpos. Poderia ser comparado com um ser energético
que encerrasse em si a inteligência de toda a Humanidade. Aquilo — um milagre
de início incompreensível, que só começava a ser compreendido quando a pessoa
se desse conta do fato de que, apesar da sua infinita superioridade, possuía
uma boa dose de senso de humor.
— Por quê? —
objetou Bell. Desta vez manteve-se sério. — Afinal, você sempre se deu bem com
ele, tanto por ocasião da primeira visita como da segunda, que só durou alguns
minutos. Por que não nos prestaria o favor de eliminar só por uma vez o tal do
fator tempo?
Meio
distraído, Rhodan comprimiu um botão. Uma pequena tela iluminou-se. O rosto de
um homem surgiu na mesma. Pertencia a um telegrafista.
— Pois não.
— Envie pelo
hiper-rádio uma mensagem destinada ao major Nyssen. Posição: sistema
Beta-Albíreo, a trezentos e vinte anos-luz. As coordenadas já são conhecidas. O
texto será codificado. O teor da mensagem é o seguinte...
Refletiu por
alguns segundos e prosseguiu:
— Para os
cruzadores Terra e Solar System. Mantenham posições a todo custo sem arriscar
as naves. Os saltadores têm de ser mantidos afastados da Terra. Avisarei assim que
retornar do Peregrino. Tempo de ausência desconhecido. Rhodan.
O
telegrafista confirmou com um aceno de cabeça.
— Com
impulsos cruzados?
— Evidentemente.
E logo.
Bell viu que
o rosto na tela foi se desvanecendo aos poucos, transformando-se numa série de
espirais coloridas, que se tornavam cada vez mais apagadas até desaparecerem de
todo.
— Tomara que
ninguém pegue o sinal — murmurou em tom preocupado.
— Pouco
importa que o façam — tranqüilizou-o Rhodan. — Não faz mal que Etztak saiba que
mantemos contato com as nossas naves. De qualquer maneira não conseguirá
decifrar a mensagem.
— Não estava
pensando nisso, chefe. Mas pode acontecer que haja naves dos saltadores por
perto, e que estas nos localizem pelo goniômetro...
O rosto de
Rhodan tornou-se mais pálido. Compreendeu imediatamente o raciocínio de Bell.
Se alguém conhecesse o ponto de transição e se grudasse atrás deles, não era
impossível que conseguisse segui-los. Com os instrumentos de localização
ultra-sensíveis e os rastreadores estruturais o problema não seria insolúvel.
Mas acabou sacudindo a cabeça.
— Destruímos
as instalações automáticas de espionagem que os saltadores haviam instalado no
sistema solar. E não têm outras naves neste setor do espaço.
Nem ele nem
Bell sabiam da existência dos chamados superpesados. Muito menos tinham
conhecimento do fato de que justamente esse clã belicoso estava empenhado em
descobrir através deles o planeta da vida eterna. Pela primeira vez Rhodan
cometeu o erro de subestimar um inimigo. Era bem verdade que sabia que nunca
conseguiria vencer os saltadores com os recursos convencionais, pois a raça era
muito antiga e experimentada. Através dos negócios de troca realizados com
quase todos os mundos habitados da Via Láctea, conseguiram apoderar-se de todos
os tipos de armas que existiam. Nem mesmo um Perry Rhodan poderia enfrentar um
inimigo destes. Ainda não.
Ainda
acontecia que Rhodan estava bastante nervoso. A insegurança que sentia face à
peça que o deslocamento temporal poderia produzir em seus planos deixou-o intranqüilo
e imprudente. O conselho de Bell, segundo o qual deveria pedir uma
neutralização da diferença entre os dois planos existenciais afinal não passara
de um conselho. Se aquilo daria ouvido ao pedido já era outra questão.
Seus
pensamentos sombrios foram interrompidos por um zumbido. Um relé ligou-se,
estabelecendo uma ligação automática entre a sala de comando e a de telegrafia.
A confirmação de Nyssen acabara de chegar sob a forma de um impulso que durou
apenas alguns segundos. Uma vez decodificado o mesmo, obteve-se este texto:
“Mensagem recebida. Não se preocupe. Daremos
o que fazer aos mercadores. Eles não nos agarrarão. Esperamos que a
Stardust-III não demore em chegar ao sistema de Albíreo. Até lá agüentaremos.
Nyssen.”
Rhodan não
parecia se sentir aliviado. Agradeceu ao pessoal da sala de telegrafia e ligou
o intercomunicador, que levou sua voz a todos os cantos da gigantesca nave.
Disse o seguinte:
— Sala de
comando à tripulação. Dentro de cinco horas chegaremos ao ponto de transição
situado além da órbita de Plutão. Meia hora antes da transição terá início a
contagem regressiva, minuto a minuto. É só.
— Faltam
cinco horas! — gemeu Bell num pavor esquisito. — E isso apesar da velocidade da
luz.
Rhodan
sorriu, mas desta vez seu sorriso não foi tranqüilizador como costumava ser.
— Acontece
que a luz é muito lenta, Bell.
* * *
Topthor
ergueu seu vulto gigantesco quando Grogham o chamou. A barba ruiva do
companheiro tremia de excitação na tela que tinha diante de si.
— Topthor,
nossos instrumentos constataram a presença de um gigantesco veículo esférico,
que se dirige para fora do sistema. Suas dimensões são assustadoras...
— É a nave
principal do tal do Rhodan — disse Topthor com um aceno de cabeça, sem
mostrar-se muito impressionado. — Quer dizer que está na hora. Como conseguiram
localizá-la?
— Através de
uma mensagem de rádio. Constatamos a direção: Beta-Albíreo. Não conseguimos
decifrá-la. Deve tratar-se de alguma informação destinada às forças que estão
estacionadas naquele setor.
— Etztak que
brigue com essas forças, Grogham. Quanto a mim, só estou interessado em Rhodan
e no objetivo ao qual se dirige. Segui-lo-emos a uma distância segura. Ligue as
barreiras de localização para que não perceba nossa presença. Assim que se
realize a transição, calcule o local e a intensidade do abalo estrutural do
espaço. Segui-lo-emos num salto de igual intensidade. Se tudo der certo,
deveremos sair da quinta dimensão a uma distância máxima de um ano-luz de
Rhodan. Entendido?
— Tudo
entendido — confirmou Grogham, interrompendo a ligação.
Topthor
deixou-se cair novamente na poltrona e acompanhou os acontecimentos na tela. De
início viu uma esfera minúscula, que saía do sistema solar à velocidade da luz.
Passaria a meia hora-luz da frota dos superpesados que se mantinha à espreita.
As barreiras de localização teriam que ser ligadas. Com isso, a pequena frota
de Topthor se tornaria invisível aos instrumentos de Rhodan.
Os três
minutos transformaram-se em horas. A Stardust-III passou pelas oito naves em
forma de rolo compressor e saiu para o espaço interestelar. A transição poderia
ser realizada a qualquer momento.
Topthor
mandou seguir nova rota. Acompanharam a Stardust-III numa distância bem
calculada, que oferecesse a necessária segurança, e aguardaram a transição que
decidiria tudo... e tudo revelaria.
A mesma foi
realizada depois de mais duas horas.
Nas telas
normais seguiu-se um ligeiro tremeluzir. Após isso, a gigantesca nave
desapareceu como se nunca tivesse estado no lugar.
Os
rastreadores estruturais captaram o abalo que atravessava a estrutura
espácio-temporal a velocidade superior à da luz e mediram a intensidade do
mesmo. Os instrumentos produzidos por uma tecnologia inacreditável começavam a
funcionar. Dali a dez minutos ofereceram o resultado. Grogham anunciou-o com
certo orgulho.
— Intensidade
de 467,00958 unidades-salto. Direção constante. Distância de 1.603,18 anos-luz,
mais ou menos 0,661. Tem alguma ordem, comandante?
— Vamos à
transição. Imediatamente!
As mensagens
de rádio correram pelas oito naves. Os relés estalaram. Os propulsores
trabalharam com uma potência maior. A distância que separava Topthor do ponto
em que a Stardust-III iniciara a transição teria que ser incluída nos cálculos.
Depois...
Um
tremeluzir no lugar em que se encontravam as oito naves... e nada mais.
A frota de
Topthor arriscara o salto para o desconhecido.
O abalo
produzido pela transição multiplicada por oito correu pelo universo.
* * *
Ao sentir as
primeiras dores, depois de recuperar a consciência, Rhodan percebeu que a
transição fora bem sucedida. Perto dele, Bell tremia, e examinou as juntas,
para verificar se as mesmas haviam voltado aos seus lugares. Sempre receava
que, numa transição dessas, poderia haver uma pane em virtude da qual seu nariz
reaparecesse em outro lugar.
— Está tudo
aí? — perguntou Rhodan em tom irônico. Não participava dos temores secretos do
amigo, mas em compensação tinha outras preocupações. — Tomara que consigamos
encontrar o Peregrino.
O problema
era este. O planeta artificial do superser era invisível a qualquer instrumento
de localização e não podia ser localizado por meio da goniometria. Se não desse
sinal de sua presença, nunca seria encontrado, a não ser por puro acaso. E
Rhodan não gostava de confiar no acaso.
O planeta
Peregrino descrevia uma órbita elíptica, levando dois milhões de anos para
percorrê-la. Contornava cerca de trinta sistemas solares, que ficavam
praticamente em linha reta. Dois deles formavam os focos da elipse. E o fato de
que justamente o sistema solar terrestre era um desses focos deu muito que
pensar a Rhodan. Em outra oportunidade verificaria o outro foco. Desconfiava
que uma surpresa o aguardava naquele ponto.
Embora
soubesse que isso não adiantaria nada, mandou pôr em funcionamento o
instrumental comum de localização. Um olhar para a tela revelou-lhe que a
Stardust-III se encontrava num setor da Via Láctea em que não havia estrelas.
Num raio de cinqüenta anos-luz não havia nenhum sol. A uma distância muito
grande estavam as inúmeras estrelas, irradiando sua luminosidade tranqüila,
como que esperando. Não piscavam; pareciam ser os inúmeros olhos de um monstro
incomensurável.
O quadro
fora o mesmo tempos atrás, quando Rhodan se dirigira pela primeira vez ao
planeta da vida eterna a fim de receber a ducha celular que deteria o processo
de envelhecimento por seis decênios. Não havia nenhuma indicação de que, nas
suas proximidades, descrevia sua órbita um planeta artificial, onde vivia
aquilo. Aquilo, cuja pista Rhodan acompanhara pelo tempo e pelo espaço a fim de
descobrir o segredo da imortalidade. Bem, o segredo continuou a ser um segredo,
mas aquilo lhe oferecera a dádiva do prolongamento da vida, já que conseguiu
solucionar todos os enigmas. Também Bell foi atingido pelo fenômeno, e ao menos
pelos próximos sessenta anos não teria de preocupar-se para evitar o
branqueamento de sua linda cabeleira ruiva.
Naquela
oportunidade jamais teriam descoberto o planeta que, invisível aos olhos,
descrevia sua órbita bem perto deles, se o mesmo não tivesse revelado sua
presença. Subitamente alguma coisa monstruosa materializou-se num dos grandes
pavilhões da Stardust-III. Tiveram que recorrer a todos os recursos fornecidos
pela tecnologia para reduzir a coisa à impotência. E o ser incompreensível
apenas soltara uma gargalhada homérica, como se tudo não passasse de
brincadeira. Rhodan logo compreendera que realmente era assim.
Mas
compreendera mais uma coisa. Aquilo teleportara o monstro para o interior da
nave por meio de um transmissor fictício de matéria. E foi justamente por isso
que resolveu retornar ao planeta Peregrino. Pretendia pedir àquilo que
colocasse à sua disposição um desses TFM ou, se possível, dois. Não poderia
haver uma arma mais perfeita.
—
Encontraremos o Peregrino — disse Rhodan, para espantar as dúvidas de Bell. —
Mas não sei quando.
Lembrou-se
de como lhe falara da outra vez. Fora uma palestra amistosa.
Velho amigo
— era assim que costumavam chamar-se. Afinal, aquilo tinha senso de humor.
— Anuncie o
alarma número três. É bem possível que iniciemos com algumas brincadeiras mais
rudes.
Bell acenou
com a cabeça e dirigiu-se à sala de telegrafia para tomar as providências
necessárias. Rhodan ficou só na grande sala de comando. Parado, fitava
distraidamente a tela, que não mostrava nada além das estrelas distantes. Não
havia o menor sinal do Peregrino, do planeta da vida, onde residia aquilo,
sentindo um tédio terrível em virtude de sua imortalidade.
— Olá,
querido! Rhodan quase teve um colapso. Era claro que havia moças e mulheres
entre os quinhentos tripulantes da nave, mas não se lembrava de ter mantido
relações íntimas com qualquer uma delas. Todas viam nele apenas o comandante,
um comandante duro e bem-humorado, mas sempre distante. De repente...
Virou-se e
contemplou o rosto de uma mulher. Não sabia por quê, mas aquele rosto lhe
parecia familiar. Já devia tê-lo visto antes.
— Que é
isso, querido? Não me conhece mais?
A voz era
amável e sugestiva, atraente e provocadora. O rosto não era inocente, mas
possuía certo encanto ao qual nem mesmo Rhodan conseguia fechar-se. Sabia que não
se encontrava diante de um ser humano, mas de uma imagem material-intelectual
do ser imortal.
— Olá,
madame — disse, acompanhando o gracejo do grande ser. — Acredito que tenha
vindo a pedido de meu amigo. Faça o favor de sentar.
— Para que
tanta cerimônia, querido?
Aproximou-se
dele e enlaçou seu pescoço com os braços finos. Rhodan sentiu o calor de seu
corpo; era incapaz de mover-se. Parou estarrecido e aspirou o perfume da bela
mulher. A mesma usava um vestido que parecia consistir unicamente num envoltório
antigo.
— Hum — fez
Rhodan, pigarreando desajeitadamente. Não tinha muita experiência no trato das
mulheres, ainda mais de mulheres que nem sequer existiam. Mas a proximidade
dessa figura corpórea era tão real como a do monstro terrível que tempos atrás
sentira perto de si. De qualquer maneira, aquilo havia modificado sua tática,
passando a utilizar mulheres em vez de monstros. Era um avanço considerável... conforme
as circunstâncias.
— Então? —
disse a bela com um sorriso tentador. — Acho que você não vai muito ao cinema,
não é?
— Vou raras
vezes — confessou Rhodan.
De repente
soube quem era a pessoa que aparecera na sala de comando, vinda do nada. O
imortal pesquisara sua memória e ali fora descobrir a impressão fugaz causada
por um filme há muito esquecido... e materializara a mesma. Era por isso que
tinha a impressão de conhecer aquela mulher.
— Perry! —
disse esta subitamente e abraçou Rhodan com tamanha força que o mesmo não pôde
esboçar qualquer gesto de defesa, embora estivesse firmemente decidido a
fazê-lo se acontecesse o que estava acontecendo. — Você ainda me ama? Naquela
oportunidade você gostou muito de mim, não gostou?
“Ora essa, a mulher nem sequer existe”,
disse Rhodan amargurado de si para si, embora soubesse perfeitamente que
existia. Não era a mesma personalidade, segundo lhe parecia. Apenas uma
imitação materializada com base em sua memória. Ou então — e isso também já
acontecera — aquilo trazia a criatura verdadeira da Terra, ou melhor, apenas
seu espírito. E esse espírito bastava para materializar o ser. Aquilo já fora
buscar grupos inteiros do passado da Terra, trasladando-os para o plano
temporal do planeta Peregrino, onde agiam como se ainda se encontrassem na
Terra.
Fosse como
fosse, o calor do corpo da bela estrela de cinema, cujo nome Rhodan nem
conhecia, era muito real. Procurou defender-se contra a sensação estranha que
começou a apossar-se dele. Lançando mão de todas as forças que conseguiu
reunir, procurou empurrar a mulher para longe.
Mas
enganara-se. A bela tinha forças que lhe permitiriam derrubar um campeão de
boxe. Rhodan não conseguiu afastá-la um centímetro que fosse. Pelo contrário.
Com o sorriso mais gentil deste mundo, estreitou-o ainda mais nos braços e
beijou seus lábios.
Rhodan
talvez teria perdoado o gesto, se naquele momento Bell não tivesse voltado à
sala de comando. Vinha acompanhado de Redkens, um cadete da Academia Espacial
da Terceira Potência. Naquele vôo, trabalhava no setor de navegação da
Stardust-III.
Valeria a
pena pintar o rosto de Bell naquele instante. Deu dois ou três passos, antes de
compreender o que os olhos viam. Logo ali, junto ao painel de controle, seu
amigo e mestre Perry Rhodan debatia-se desesperadamente para não ser beijado
por Cleópatra. Bell também vira o filme e guardava do mesmo uma lembrança mais
precisa que Rhodan.
— Veja! —
gemeu em sons inarticulados, apoiando-se na parede oval. — É a Rallas! É de
enlouquecer.
— Quem? —
gaguejou o jovem cadete, com o rosto vermelho que nem um pimentão.
Era um
admirador fiel, embora desesperançado, da conhecida artista e não acreditou no
que estava vendo quando a encontrou aqui, a mais de mil e quinhentos anos-luz
de Hollywood, nos braços do chefe.
Com um
grande esforço, Rhodan conseguiu virar a cabeça. Seu belo espírito parecia não
apreciar a assistência que acabara de chegar. Furiosa, a figura por demais real
mordeu as pontas das orelhas do amante rebelde.
Rhodan
soltou um grito de susto e deu um pontapé nas canelas da famosa Rallas. Mas
isso não parecia incomodá-la.
— Querido,
eu o amo! — disse ela num sopro.
Bell esteve
a ponto de sofrer um ataque. Teve de fazer um grande esforço para manter-se de
pé. Com os olhos arregalados, contemplou a estranha cena. Nem se lembrou da
possibilidade de que aquilo poderia ser o primeiro sinal de vida do imortal. Só
via a bela mulher nos braços de Rhodan.
— Você
contrabandeou ela para dentro da nave? — disse fora de fôlego. — Bem que
poderia ter contado.
— Acho que
devemos deixá-los sós — disse Redkens em tom cortês e dispôs-se a sair. Mas o
grito desesperado de Rhodan deteve-o.
— Não se
atreva, cadete Redkens! Liberte-me desta mulher, depressa!
— É
Cleópatra! — retificou Redkens, perturbado. — Ou melhor, é a divina Rallas...
— Não
importa quem seja! — esbravejou Rhodan, tentando libertar-se do abraço
implacável da amante vinda do nada. — Vamos, ajudem! O que estão esperando?
Redkens não
entendeu uma palavra do que o chefe estava dizendo. Por que trouxera Rallas, se
não a queria? Nunca pensara que Rhodan fosse capaz de uma coisa dessas.
Todavia...
— Pois vamos
— gemeu Bell e pôs-se em movimento. — Não compreendo mais nada; talvez a mulher
tenha enlouquecido.
Mal tocou o
braço da bela Cleópatra, esta soltou Rhodan, virou-se e fitou o rosto vermelho
de Bell.
— Bell, meu
querido Bell! Venha para os meus braços, homem amado! — No mesmo instante Bell
viu-se no aperto. — Então é aqui que voltamos a encontrar-nos.
Os lábios
vermelhos da estrela tão distante comprimiram-se contra os seus, cumprindo um
velho desejo, o de um belo dia ser beijado pela linda Rallas. Não ofereceu a
menor resistência. Deixou que a mulher fizesse tudo, sem perturbar-se com a
gargalhada homérica que veio ter aos seus ouvidos. Rhodan, livre por enquanto
dos carinhos insistentes da visitante inesperada, não pôde reprimir o riso
quando viu que Bell, frio como gelo e duro como aço, derretia literalmente nos
braços da Rallas.
O cadete era
o único que tinha que achar que o destino estava sendo injusto com ele. Olhava
alternadamente Rhodan e o par enlaçado, e não sabia o que pensar da situação.
Finalmente o
imortal parecia reconhecer que as coisas não poderiam continuar assim. Fez com
que Cleópatra soltasse sua vítima.
De uma hora
para outra, Bell estava só, abraçando alguém que não existia mais. O quadro era
tão cômico que Rhodan esqueceu a raiva e pôs-se a rir. Bell abriu os braços,
fechados num grande enlevo, e percebeu que estava tendo um comportamento
ridículo. E isso na presença de Redkens que, encostado à parede, vivia
gaguejando:
— Um
autógrafo! Gostaria tanto de um autógrafo dela!
— Cale a
boca, Redkens! Essa mulher nunca lhe poderia ter dado um autógrafo. Foi apenas
um espírito.
Redkens não
acompanhara a primeira viagem ao planeta da vida eterna, e assim não conhecia
as brincadeiras do ser incompreensível.
— Um
espírito? Ora, eu conheço a Rallas...
— Poderia
perfeitamente ter sido Colombo — disse Rhodan. — Mas não me teria assustado
como esta... como é mesmo o nome da mulher?
— Rallas, a
divina Rallas — gemeu Redkens, decepcionado. — Como é que um espírito pode ter
um corpo?
— Um
espírito pode tudo — explicou Bell, que aos poucos se recuperava do choque e
começava a compreender a ilusão em que caíra. — Cria ilusões materiais em nossa
imaginação. Tudo não passa de uma materialização do pensamento. A lembrança de
certo filme em que figurava a Rallas estava no subconsciente de Rhodan, e isso
bastou para que o imortal realizasse a imitação perfeita da mesma e a fizesse
materializar diante de nós. É muito simples, mas tenho que confessar que no
primeiro instante caí na brincadeira.
— Foi um
instante bastante comprido — objetou Rhodan.
Subitamente
calou-se. Uma voz soou em seu cérebro; foi a mesma voz telepática silenciosa
vinda dele, do imortal.
— Ei, amigo
— disse aquilo. — Veio visitar-me? Pelo que vejo tem motivos importantes para
isso. Bem, devíamos conversar prolongadamente a respeito. Mantenham a rota e a
velocidade atual. Precisamente dentro de três minutos vocês baterão no campo
protetor do Peregrino. Desliguem os propulsores.
Rhodan
aguardou outras instruções, mas estas não vieram. Olhou para Bell.
— Ouviu uma
voz?
— Não. Você
ouviu?
Rhodan
compreendeu que aquilo só se dirigira a ele. Por estranho que parecesse, tudo
indicava que fazia questão de falar quanto antes com Rhodan. Era o que se
concluía da informação sobre a posição exata do planeta.
— Desligue
os reatores! — gritou Rhodan. — Bell, providencie para que a tripulação se
prepare para uma forte desaceleração. Apesar dos nossos campos
antigravitacionais, haverá uma forte pancada. Dentro de três minutos
atingiremos o campo energético do planeta Peregrino. Ele nos freará. Depois...
Alguém riu.
Foi Redkens. O jovem cadete permanecia encostado à parede. Segurava na mão um
cartão postal com uma fotografia. Fitava a mesma e ria até que as lágrimas lhe
corressem pela face.
Bell
tirou-lhe a fotografia. Olhou-a apenas por um instante e começou a rir. Sem
dizer uma palavra, passou a fotografia adiante. Rhodan viu uma fotografia
nítida e colorida da dama que há poucos minutos o comprimira tão energicamente
contra seu busto. Embaixo dela estava escrito em letra delicada:
Ao meu grande admirador
Redkens,
com sinceros votos de
felicidades.
Rallas.
* * *
As naves
espaciais dos saltadores foram construídas segundo os princípios arcônidas,
embora nem sempre fossem iguais umas às outras. As naves capitanias de cada clã
estavam equipadas com rastreadores estruturais, que registravam e indicavam
qualquer abalo da estrutura espaço-temporal. A esses rastreadores estavam
acoplados instrumentos que possibilitavam a localização da causa do abalo e
calculavam a distância que seria percorrida pelo objeto que causava o abalo
estrutural.
Por isso não
era de admirar que Topthor e sua frota retornassem ao espaço normal a menos de
cinco horas-luz da Stardust-III.
Fez a mesma
constatação de Rhodan: num raio de cinqüenta anos-luz, não havia o menor
fragmento de matéria perceptível, com exceção da Stardust-III.
Torcendo o
rosto, Topthor olhou para a tela. Numa outra tela Grogham fitava-o
tranqüilamente.
— Então,
onde está o seu planeta de fadas, Topthor?
O dirigente
dos superpesados não se abalou. Não tirava os olhos da Stardust-III. Era
importante que a mesma não saísse do alcance dos olhos e dos instrumentos...
— O senhor
acreditava que ele estaria logo diante do nosso nariz? Rhodan tomará suas
precauções. Se não estou enganado...
Interrompeu-se.
Uma coisa
muito estranha aconteceu na tela principal, na qual se via a imagem da
Stardust-III.
A nave
Stardust-III era uma esfera de oitocentos metros de diâmetro, e uma das metades
dessa gigantesca esfera começou a desaparecer. Até parecia que por lá, a cinco
horas-luz do ponto em que se encontravam, estava ocorrendo um eclipse da lua.
Foi tudo muito rápido. Uma das metades da Stardust-III desapareceu em dois
segundos, enquanto a outra metade levou dez segundos para desaparecer. O processo
de desaparecimento era mais lento na fase final.
Topthor não
encontrou nenhuma explicação para o fenômeno.
— Caramba!
Isso não foi nenhuma transição normal — disse um tanto perplexo. — Não houve o
menor abalo no ambiente. Nem chegou a ser qualquer espécie de transição. Alguma
coisa devorou a nave de Rhodan.
— Devorou a
nave? — gaguejou Grogham. Seu rosto foi se tornando pálido. — O que quer dizer
com isso?
O alarma
tomou conta da nave de Topthor. A frota preparava-se para uma transição ligeira
de cinco horas-luz. Quando voltou a materializar-se o espaço em torno dela
estava vazio. Os instrumentos não indicavam a presença de qualquer objeto num
raio de cinco anos-luz. Logo, a Stardust-III deixara de existir e isso era
totalmente impossível. A matéria poderia ser tornada invisível, mas ninguém
poderia fazê-la desaparecer de vez. Ao menos isso não poderia ser feito sem uma
transição normal, e esta teria sido registrada pelos instrumentos.
O que teria
sido feito da Stardust-III?
Topthor não
encontrou resposta. Pela primeira vez, viu-se diante de um problema não
resolvido. Ou melhor, diante de um problema praticamente insolúvel. Conseguira
seguir Rhodan por uma distância superior a mil e quinhentos anos-luz, e agora
esse terrano se transformara pura e simplesmente numa porção de vácuo. Alguma
coisa não estava certa.
Grogham
acenou com a cabeça:
— Se ele
desapareceu neste lugar, terá que ressurgir no mesmo. Apenas precisamos de
paciência para esperar.
— Foi o que
eu pensei — murmurou Topthor, indignado. — Vamos nos preparar para uma longa
espera. Temos tempo.
— Posso
permitir uma pausa de descanso à tripulação? — perguntou Grogham.
Topthor fez
que sim.
— Ordene aos
comandantes das outras naves que façam uma pausa para dormir. Não acredito que
nas próximas horas aconteça qualquer coisa.
Topthor
estava enganado. Mas não poderia imaginar que para seus homens não haveria mais
tempo... para adormecer.
2
Com a metade
da velocidade da luz, a Stardust-III precipitou-se sobre o campo energético em
forma de abóbada que cercava o planeta artificial Peregrino. De um instante
para outro, os velocímetros caíram para zero.
Apesar dos
campos de neutralização, um forte abalo sacudiu a nave. As pessoas que não
haviam colocado os cintos de segurança foram atiradas de um canto para outro.
Felizmente, Rhodan, que aguardava o choque, tomara suas precauções. Por isso
não houve feridos.
Num espaço
de doze segundos, a Stardust-III atravessou o céu artificial do Peregrino... e
depois viram o planeta diante de si.
Era um mundo
cheio de milagres. Ali se reunia tudo que pudesse ser encontrado nos mundos
habitados da galáxia. As paisagens, onduladas com os cursos d’água que
deslizavam tranqüilamente, alternavam com os amplos mares salpicados de ilhas
deslumbrantes. Os continentes estavam cobertos de florestas que pareciam
parques. No meio delas, havia gigantescas estepes, habitadas pelos animais mais
estranhos. Montanhas alcantiladas interrompiam o quadro, proporcionando a
necessária mudança. Os ares eram percorridos por pássaros primitivos em forma
de dragão.
Esse mundo
era um verdadeiro paraíso.
Mas não era
um mundo normal. Era plano. O planeta Peregrino não era um planeta na acepção
comum do termo, mas um gigantesco disco com um diâmetro de oito mil
quilômetros. Por cima dele erguia-se a abóbada energética, em cujo ponto mais
alto brilhava um sol atômico artificial, que dava calor e vida àquele mundo
estranho.
Ao chegar à
cúpula de observação da nave, Rhodan mandou abrir as escotilhas metálicas. Bell
estava com ele. Mais uma vez o milagre inconcebível do imortal abalou-os até as
profundezas da alma. Enlevados, contemplaram a paisagem que desfilava diante
deles.
— Está
gostando, amigo?
A voz do
inconcebível quase chegava a ser ouvida fisicamente no interior do recinto. Até
parecia que não se comunicava com eles apenas por via telepática, mas que
realmente lhes falava. Rhodan sorriu tranqüilamente.
— É um
planeta admirável e pacífico, meu caro amigo. Você acaba de criar um paraíso
que causará inveja a qualquer mortal.
— Não são
apenas os mortais, mas também os imortais que me invejam — sorriu Aquilo muito
alegre.
Perguntou
depois:
— Você veio
para visitar-me?
— Vim
fazer-lhe um pedido — confessou Rhodan, sem tirar os olhos daquela paisagem de
conto de fadas. — Você deve saber o que quero.
— Não faço a
menor idéia — mentiu aquilo. — Como poderia saber? Não costumo fuçar nos
pensamentos mais recônditos dos meus amigos.
— Que
mentira! — protestou Bell, que se lembrou da Rallas, que lhe fora tirada tão
abruptamente. — Posso provar...
— Ah, é
nosso amigo Bell — disse o interlocutor invisível. — Está aborrecido com a bela
imitação? Pois bem, vamos dar-lhe uma alegria. Hoje de noite vou
contrabandeá-la para dentro de seu camarote.
— Não se
atreva! — berrou Bell, assustado.
Não temia
tanto a Rallas como os risos dos tripulantes. Seu rosto vermelho adquirira uma
estranha palidez. E tornou-se ainda mais pálido quando aquilo soltou uma
ruidosa gargalhada. Aquilo estava em toda parte, e por isso também podia ver o
rosto assustado de Bell.
— Uma mulher
bonita é muito mais interessante que um índio ou um pistoleiro do faroeste —
disse a voz em tom divertido, aludindo às reminiscências a que tivera que
recorrer por ocasião da primeira visita de Rhodan, para desviar os terranos de
seu objetivo. — Aliás, mantenha a rota, amigo. Pouse novamente perto da cidade
das máquinas. Não sofreu grandes alterações. Você não terá dificuldades em
encontrar o grande pavilhão, onde estarei à sua espera. Homunk o guiará.
Rhodan
estava perplexo.
— Como soube
que chamei o robô de Homunk?
— Que é
isso, amigo? Homunk não é nenhum robô. É um terrano criado por mim, de um
pedaço de matéria supérflua. Gostei dele, e por isso deixei que continuasse a
existir. Até já ficou mais inteligente; sente-se satisfeito com sua visita.
— Será que
você ainda guarda outras surpresas para nós? — perguntou Rhodan. — Ainda
teremos de enfrentar alguma prova, algum enigma?
— Não,
amigo. Não tenho nenhum motivo para isso. Ainda me divertirei a valer.
Quando a voz
se calou, Rhodan e Bell tiveram a impressão de que um homem invisível deixara a
sala. Alguma coisa afastou-se deles. Aquilo retirou-se, deixando-os sós.
Bell
suspirou aliviado.
— Que coisa
medonha. Nunca me conformarei com o fato de que um ser destes exista. Aquilo
faz magias, traz os seres de outros planetas e de outros tempos. Aquilo é
potente como...
Rhodan
sacudiu a cabeça, num gesto de suave censura.
— Não,
aquilo não é Deus. Não passa de um ser formado pela fusão de todos os seres de
uma raça, e que por isso mesmo domina todo o saber dessa raça. Cometeríamos uma
blasfêmia se disséssemos que é Deus. É bem possível que seu saber chegue perto
do de um deus, mas aquilo tem mais senso de humor, e trata-se de um humor
originado exclusivamente no tédio. Todos os seres imortais sentem tédio.
— Pois eu
nunca sentiria tédio, mesmo que vivesse dez mil anos — disse Bell em tom
despreocupado. — Sempre surgirão novos acontecimentos que distrairão a gente e
nos fazem esquecer que temos tempo demais. Sempre haverá aventuras que
espantarão o tédio.
— Bell, um
ser mortal nunca pode imaginar o que se passa na alma de um ser verdadeiramente
imortal. Asseguro-lhe que tentei, embora não tenha alcançado a verdadeira
imortalidade. Meu corpo precisa regularmente da ducha celular vivificadora. Se
um dia não a receber, o processo de envelhecimento voltará a funcionar. Apesar
disso, fiquei refletindo sobre como devem ser as coisas para quem nunca
envelhece. No primeiro instante senti uma felicidade nunca antes experimentada;
pensei que estivesse livre de todas as preocupações. Mas isso só aconteceu no
primeiro momento. Logo me lembrei de que a eternidade é muito longa. Em torno
de mim assistirei à alternância ininterrupta de nascimentos e mortes; enquanto
isso, eu continuaria, sem ser atingido por tais ocorrências. Os homens verão um
deus em mim, e com isso eu ficaria condenado a uma solidão infinita.

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