O arcônida
se encontrava bem mais perto da primeira bomba do que ele. Não devia sentir
praticamente nenhuma influência da bomba introduzida por Nyssen.
A idéia de
Rhodan fora esta: recorrer a outra bomba para anular o campo gravitacional da
primeira, ao menos num setor de dimensões bastante reduzidas. Cada uma das
bombas gerava um campo gravitacional cujas linhas de penetrações subiam
verticalmente em relação à superfície de sustentação da bomba — no caso, o chão
da sala de comando. Numa altura de cerca de um metro, as linhas infletiam para
um dos lados, descrevendo um semicírculo e penetrando verticalmente no
envoltório da bomba. Os vetores da primeira bomba penetravam no chão. Nyssen
medira o campo gravitacional e colocara sua bomba de tal maneira que os vetores
do campo por ela gerado apontavam do chão para cima. Face a isso os efeitos dos
dois campos neutralizavam-se mutuamente em todos os pontos situados a igual
distância das duas bombas.
O problema
com que Rhodan se defrontava era o de aproximar a bomba colocada por Nyssen de
tal maneira que Crest e o soldado, que jaziam lado a lado, ficassem
aproximadamente sobre a linha mediana entre as duas bombas.
Quando isso
acontecesse, não haveria a menor dificuldade em libertar os dois. Restava saber
se o homem do grupo de Nyssen conseguiria trazer a vara em tempo.
Vários
minutos se passaram. Subitamente Rhodan sentiu o chão vibrar; concluiu que a
salvação não devia estar longe. Poucos segundos depois, uma placa de cerca de
um metro quadrado se desprendeu do teto. Era de admirar como o homem sabia se
conservar exatamente na linha do meio dos dois campos gravitacionais.
Uma longa
vara de plástico passou pela abertura e desceu cautelosamente.
— Esta
serve, chefe? — perguntou o homem.
— Serve,
obrigado. Trate de dar o fora quanto antes. Por aqui a situação vai ficar
crítica.
O homem
recuou. Rhodan aguardou mais alguns minutos, para que o mesmo pudesse se
colocar em segurança.
Depois agiu
sem perda de um segundo.
Centímetro
por centímetro, foi puxando a bomba com a vara de quase dez metros que Nyssen
havia lhe mandado. Sentiu um forte solavanco quando a ponta da vara penetrou no
setor em que a força gravitacional era mais intensa. Mas logo a bomba se grudou
na vara, como um prego se adere à um imã de elevada potência.
Rhodan agiu
com a maior cautela. Cada vez que aproximava a bomba por dois centímetros,
recuava um centímetro, para se manter a igual distância das duas máquinas
infernais.
Levou quase
meia hora até que, pelos seus cálculos, Crest se encontrava exatamente no
centro da linha que unia as bombas, e o soldado quase no centro.
Rhodan
colocou a vara cuidadosamente no chão. A outra extremidade ficou presa à bomba.
Rhodan viu que a gravitação intensíssima alterara a extremidade originariamente
redonda da vara, feita de metal plastificado de extrema dureza, dando-lhe um
formato elíptico.
Tocou Crest
cautelosamente com o pé.
Teve de
repetir a tentativa várias vezes antes que Crest começasse a se mexer.
— Cuidado! —
disse Rhodan. — Fique onde está e preste atenção.
— Estou
ouvindo — respondeu Crest.
Rhodan explicou
a situação, falando devagar e dando todos os detalhes. Ao terminar, disse:
— Levante e
permaneça sempre bem no meio, entre as duas bombas. Sabe perfeitamente o que
lhe acontecerá se sair do caminho do meio, por um passo que seja. A escotilha
fica exatamente na linha do meio, com a precisão de quase um centímetro. Passe
por ela e espere do lado de fora.
O soldado,
que também havia acordado, ouviu a maior parte das explanações. Rhodan mandou
que seguisse Crest. Depois levantou a extremidade livre da vara e colocou-a
sobre o envoltório metálico da primeira bomba. Com isso dispunha de um cabo de
cerca de quatro metros. Se segurasse a vara no meio, não teria a menor dificuldade
em girar o conjunto.
Dirigindo-se
a Crest, gritou:
— Vá andando
a passo normal pelo corredor, em direção à parte traseira da nave. Girarei as
duas bombas de tal forma que a parte do corredor em que você estiver fique
situada, na medida do possível, exatamente na linha do meio. Atenção, vá
andando!
Fazia votos
de que Crest e o soldado conseguissem andar “a passo normal”. Na linha situada a igual distância das duas bombas
existia um estado de ausência total de gravidade, e para quem tivesse que se
deslocar flutuando e remando com os braços a expressão “a passo normal” dificilmente significaria algo de inteligível.
Mas, depois
de algum tempo, Crest avisou que haviam chegado ao fim da parte não destruída
da nave. Uma vez que esta havia sido despedaçada aproximadamente no meio, isso
significava que Crest e o soldado se encontravam cerca de cento e cinqüenta
metros das duas bombas.
Rhodan
ordenou a Nyssen que fosse buscar os dois homens, aproximando-se na plataforma
pela linha imaginária que formava o prolongamento do corredor central. A
manobra central. A manobra pôde ser realizada sem dificuldades. Dali a cinco
minutos, Crest e o soldado estavam salvos. A uma distância de cento e cinqüenta
metros, os propulsores da plataforma estavam em condições de neutralizar o
campo gravitacional gerado pelas bombas, mesmo que Rhodan tivesse modificado a
disposição simétrica das mesmas.
— E você,
chefe? — perguntou Nyssen em tom preocupado.
Rhodan riu.
— Não
demorarei. Fique onde está. Voltou a levantar o cabo com as bombas e,
mantendo-se sempre no centro da vara, caminhou até se colocar bem embaixo do
buraco por onde havia sido enviada a mesma. Com um movimento cuidadoso, largou
o cabo, respirou profundamente e, abaixando-se rápido, empurrou-se com os pés.
Disparou
para o alto, ultrapassando o buraco do teto por alguns metros; o suficiente
para que suas mãos pudessem segurar na borda do buraco aberto no teto do
compartimento superior.
Dali em
diante as coisas foram bastante simples. Os buracos abertos nos tetos lhe
apontaram o caminho mais curto e seguro. Dali a alguns minutos, Rhodan estava
de pé em cima do casco da nave destroçada; embora no caso a definição que era em
cima fosse um tanto arbitrária.
— Cuidado,
Nyssen! — gritou pelo rádio de capacete. — Já vou.
Nyssen não
podia vê-lo. A nave destroçada obstruía-lhe a visão. Rhodan se manteve sempre
na linha sobre a qual ficava o buraco por onde tinha saído. Como segundo ponto
de referência, escolheu um ponto do casco da nave que estava mais esfacelado do
que os outros; num estado de ausência de gravidade, era totalmente impossível
caminhar em linha reta num trecho curto sem dispor de ao menos dois pontos de
referência.
A caminhada
foi penosa, pois cada passo que dava trazia em si o perigo de ser desviado da
rota. A cada dez metros, Rhodan se agachava cuidadosamente, para fixar os dois
pontos de amarração. Dessa forma levou quarenta minutos para atingir a parte em
que o casco fora esfacelado. Só então se viu diante da plataforma em que se
encontrava Nyssen com seu grupo.
Rastejou até
a extremidade e empurrou-se em direção à plataforma. Nyssen esperava que viesse
pelo corredor. Deu um grito de surpresa quando o viu flutuar suavemente pelo
campo energético ativado através do neutralizador. Logo aterrizou com um
ligeiro solavanco em cima da plataforma.
— Tudo bem,
Nyssen. Vamos para casa.
* * *
Tiff
consumiu noventa e nove por cento de suas reservas de energias para fazer a
marcha do destróier e colocá-lo na órbita do planeta desconhecido. Notava-se
perfeitamente que esse mundo possuía uma atmosfera. Restava saber se era
respirável. Os instrumentos de análise não funcionavam mais.
Mas Tiff
constatara mais uma coisa: o planeta ficava a quase um bilhão de quilômetros do
sol azulado, e a mais de um bilhão de quilômetros do sol alaranjado.
Não falou a
este respeito. Preferiu não assustar ninguém enquanto isso não fosse
absolutamente necessário. Na verdade, o anão azulado era um gigante no que
dizia respeito à potência de suas radiações. Era bem possível que, apesar
disso, as condições fossem suportáveis para a vida num mundo que ficava a uma
distância de um bilhão de quilômetros; sete vezes a distância que separa a
Terra do Sol.
Quando Tiff
descreveu a primeira parábola de frenagem, viram que a superfície do planeta
estava coberta de neve e gelo. Tiff nem conseguiu localizar o eixo do planeta.
Mas acreditava que o equador devia ficar na região em que as massas de gelo e
neve apresentavam uma coloração mais escura.
Mildred
começou a gemer.
— Santo
Deus, isso é pior que a Groenlândia!
Era a
primeira vez que dizia alguma coisa depois do instante em que o destróier havia
sido atingido.
Com os olhos
semicerrados, Hump acompanhou a rota seguida por Tiff.
— Ali, onde
a cor é mais escura... deve ficar o equador — disse.
— Obrigado —
respondeu Tiff em tom mordaz. — Era o que eu imaginava.
No mesmo
instante se arrependeu da resposta indelicada. Estava próximo do esgotamento
nervoso.
— Por que
não segue nessa direção? — perguntou Hump. — É provável que no equador não seja
tão frio.
— Não posso
— respondeu Tiff. — Se fizer qualquer manobra, por menor que seja, a energia
não será suficiente para o pouso.
Hump se
exaltou.
— Por que
não se lembrou disso mais cedo, seu idiota? Por causa da sua estupidez vamos
morrer de frio.
Quando
Eberhardt virou a cabeça, ouviu-se um farfalhar. Antes que Tiff pudesse dizer
qualquer coisa, Eberhardt resmungou:
— Escute aí,
Hump! Com todo o aperto eu lhe quebro a cabeça se você não parar de dizer
tolices.
Não disse
mais nada; mas essas palavras foram proferidas com tamanha fúria que Hump calou
a boca.
A irrupção
de Hump deixou Tiff mais contente que aborrecido. Aquilo provara que Hump
também chegara ao limite das suas energias. Como cadete que era, devia saber
perfeitamente que alguém que só dispõe de pequena parte dos instrumentos usuais
não tem condições de calcular o plano equatorial de um planeta estranho em
tempo de orientar o pouso aerodinâmico pelo mesmo.
Durante a
primeira parábola de frenagem, Tiff mergulhou a uma profundidade bastante
perigosa na atmosfera do mundo estranho. O termômetro externo, que não dependia
de qualquer suprimento de energia e por isso continuava a funcionar
perfeitamente, subiu a mais de quatro mil graus. Mas o aço arcônida conservou
seu poder de resistência, e o aparelho de condicionamento de ar, colocado em
situação de emergência, conseguiu limitar a dois graus a elevação da
temperatura no interior da cabina.
A velocidade
do destróier, que durante a manobra de conversão já baixara para oito
quilômetros por segundo, ficou reduzida à metade.
O destróier
voltou a sair da atmosfera gelada, ganhou altitude, passou pelo ponto máximo e
voltou a se dirigir para o envoltório atmosférico.
— Atenção! —
disse Tiff. — Vamos iniciar a segunda frenagem.
* * *
— Muitos dos
senhores já devem ter adivinhado meus planos — disse Rhodan em tom pensativo,
olhando para o chão... o chão seguro da sala de comando da Stardust-III. — Mas
na situação em que nos encontramos não podemos depender de adivinhações. Por
isso vou dar uma explicação detalhada.
Seu corpo de
ouvintes era formado pelos oficiais das naves Stardust-III, Terra e Solar
System, inclusive os mutantes, e por Crest e Thora, os arcônidas.
Crest, ainda
estava esgotado em virtude da perigosa aventura que acabara de viver, e Thora,
que fitava Rhodan com uma expressão irônica, erguia as sobrancelhas num gesto
de arrogância.
— Descobrimos
que certas inteligências desconhecidas passaram a demonstrar interesse por nós
— prosseguiu Rhodan. — Constatamos que pousaram em Vênus e também espalharam
seus agentes pela Terra. Mas procederam com tamanha habilidade que nem na Terra
nem em Vênus conseguimos capturar qualquer um deles. Além disso, moveram-se no
espaço com tamanha agilidade que chegamos à conclusão de que nos defrontamos
com uma raça cujo nível tecnológico é, pelo menos, igual ao nosso. Também
tínhamos de supor que suas intenções eram hostis. Se não fossem, teriam
encontrado um meio de estabelecer contato conosco. A suposição se transformou
em certeza quando a Good Hope-IX foi capturada.
Olhou em
torno para verificar se alguém estava adivinhando a conclusão final.
— Quem quer
lutar — prosseguiu — tem de saber antes de tudo contra quem vai lutar. Os
desconhecidos não estavam dispostos a nos revelar esse detalhe, motivo por que
tivemos de fazer alguma coisa para desvendar o mistério.
“O cadete
Julian Tifflor, que todos conhecem, é o homem que devia descobrir alguma coisa
sobre o inimigo. No organismo de Tifflor foi implantado um micromodulador de
vibrações celulares, que o transformou numa espécie de farol telepático. Nossos
telepatas conseguem localizá-lo a uma distância de dois anos-luz.
“Lançamos
Tifflor pela forma que nos pareceu mais adequada. O truque foi coroado de
êxito. Os desconhecidos grudaram-se nos calcanhares do cadete. Acabaram por
raptá-lo, e isso de uma maneira pouco agradável para nós. Não contávamos com a
possibilidade de que os desconhecidos tivessem condições de prender uma das
nossas naves a uma das suas, e realizar um hipersalto com as duas naves assim
ligadas; mas foi o que aconteceu com a Good Hope-IX.
“Pois bem,
os senhores sabem perfeitamente que dificuldades tivemos de enfrentar para
reencontrar a pista. Mas acabamos por localizá-la e entramos em toda esta
confusão, sobre a qual já estão informados.
“Que
resultado colhemos de tudo isso? Bem, já sabemos quem são nossos inimigos.
Pertencem a um ramo da raça dos arcônidas. É bem verdade que as relações entre esse
ramo e a raça arcônida propriamente dita são apenas regulares. Chamam a si
mesmos de saltadores. Mandarei distribuir fitas gravadas com informações entre
as várias naves. Poderão se instruir com elas. Permitam, porém, que lhes
adiante os detalhes mais importantes.
“A
tecnologia dos saltadores é pelo menos equivalente à dos arcônidas. E, como nós
mesmos não dispomos de outra tecnologia senão a dos arcônidas, os saltadores
estão, pelo menos, em nível idêntico ao nosso. Viram como as bombas-relógios gravitacionais
por pouco não nos pregam uma peça.
“Dispomos de
todas as informações sobre a raça dos saltadores de que dispõe a civilização
arcônida. Mas não sabemos o que estão planejando contra a Terra. Não sabemos
sequer quantos membros da raça dos saltadores, cujo número total atinge a casa
dos dez bilhões, participam do empreendimento. Daí se conclui que continuamos a
depender de novas informações. E estas devem ser colhidas diretamente na fonte.
“Como sabem,
meu encarregado Julian Tifflor fugiu da Good Hope-IX num destróier. Dois
cadetes e duas estudantes da Academia Espacial o acompanharam. O que os
senhores não sabem é que a Stardust-III localizou o destróier, que este foi
perseguido por duas naves da frota dos saltadores e se empenhou em combate com
as mesmas.
“Confesso
que brinquei com a vida de Tifflor ao ocultar os avisos de localização, para
que ninguém pudesse estragar meus planos através de um apressado gesto de
solidariedade. Deixei propositadamente de partir em auxílio de Tifflor, embora
soubesse que ele se encontrava em dificuldades.
“Meus
cálculos foram corretos. Tifflor conseguiu se livrar dos seus perseguidores; é
bem verdade que o destróier foi danificado durante o combate. Neste meio tempo
o veículo saiu do alcance dos rastreadores da Stardust-III, e parece que o
hipercomunicador de Tifflor está avariado ou inutilizado. Mas não há a menor
dúvida de que Tifflor deverá passar relativamente perto do segundo planeta do
sistema, se é que ainda não passou. Faço votos de que consiga pousar no mesmo.
“A Divisão
Astronômica apurou que o sol geminado de Beta-Albíreo possui um total de quatro
planetas. O mundo para o qual Tifflor está rumando fica a mais de um bilhão de
quilômetros do centro de gravidade do sistema. Não há dúvida de que as
condições de vida no local devem ser bastante precárias.
“De qualquer
maneira, vamos providenciar para que Tifflor receba os suprimentos essenciais.
Quanto ao mais, faremos o possível para que sua posição atual se torne
conhecida, a fim de que possa ser encontrado quanto antes.”
Uma
perplexidade sem limite se espalhou entre os circunstantes. Murmúrios
percorreram as fileiras dos oficiais. Rhodan sorriu.
— Senhores,
permitam que eu explique. De acordo com o resultado das medições, o campo
gravitacional das duas bombas-relógios tem um gradiente temporal muito fraco. É
de se supor que as bombas tenham sido colocadas tão somente no intuito de reter
nossos comandos a bordo. Se tivessem a intenção de matar seus integrantes, o
gradiente temporal teria sido mais forte.
“Daí se
conclui logicamente que devemos contar com o retorno da frota dos saltadores
num futuro muito próximo. Provavelmente trará grandes reforços.
“Não nos
envolveremos num combate. Lembre-se do que acabo de dizer sobre a tecnologia
dos saltadores. É provável que, num ataque maciço, as três naves de que
dispomos ficariam em situação de inferioridade. A esta hora os saltadores já
sabem que terão de enfrentar um supercouraçado e tomarão seus preparativos para
isso.
“Os
saltadores se interessarão por Tifflor, e este, segundo espero, colherá todas
as informações de que precisamos. Quanto a nós, temos outra coisa a fazer.
Oportunamente serão informados a este respeito. Com isso...”
Interrompeu-se,
olhou em torno e sorriu.
— Ah, não,
esquecemos uma coisa muito importante. Já devem ter tomado conhecimento do
relato do major Deringhouse, segundo o qual a Good Hope-IX até poucas horas
atrás ficou presa por meio de fitas magnético-mecânicas à nave dos saltadores
denominada Orla XI, que a havia
capturado nas proximidades da órbita de Plutão.
“Quando a
luta começou, a Orla XI se afastou de fininho do sistema. Não devemos duvidar
de que essa nave será a primeira a saber em que lugar pousou Tifflor, que aos
olhos dos saltadores é um elemento muito importante. Com isso o contato de
Tifflor estará garantido de antemão.”
Dispensou os
oficiais com um sorriso. Os homens se retiraram lentamente, em atitude
pensativa. Apenas Reginald Bell e os dois arcônidas permaneceram na sala.
De pé diante
de Rhodan, Bell olhou-o de baixo para cima.
— Então,
grande mágico, o que me diz? — disse com um misto de ironia e veneração.
* * *
Depois da
quinta frenagem, a máquina não saiu mais do envoltório gélido daquele mundo
estranho.
O destróier
ainda desenvolvia uma velocidade de mach 5, elevada demais para que a indicação
do termômetro externo permitisse qualquer conclusão sobre a temperatura real
reinante na atmosfera do planeta.
A superfície
branca que se estendia embaixo do veículo não fornecia o menor ponto de
referência que tornasse possível a avaliação das distâncias. A partir da
primeira parábola de frenagem, Tiff acreditou que o planeta fosse do tamanho da
Terra, talvez um pouco menor.
A essa
altura, porém, já não sabia se a velocidade ainda seria suficiente para
ultrapassar a zona polar sem a atuação dos propulsores. Esteve a ponto de pedir
a Eberhardt que procurasse descobrir um local apropriado para o pouso. Mas de
que serviria um local desses se o destróier ainda não estava em condições de
pousar?
A velocidade
teria de se consumir por si.
Mach 5; mach
4,5; mach 4...
— Será que a
energia é suficiente para realizar a frenagem? — perguntou Hump subitamente.
Sua voz
parecia preocupada. Agora, que as coisas se tornavam sérias de verdade, parecia
ter mais medo de morrer que vontade de brigar com Tiff.
— Começarei
a frear quando atingirmos metade da velocidade do som — respondeu Tiff em tom
áspero.
Hump gemeu;
parecia apavorado:
— A atmosfera
só poderá sustentar a máquina até mach 1; abaixo disso despencará.
Estava com a
razão. As asas do destróier só haviam sido concebidas para facilitar as
manobras a velocidades superiores a mach 1, numa atmosfera cuja densidade fosse
aproximadamente igual à da atmosfera terrestre.
Não eram
verdadeiras superfícies de sustentação. Durante a concepção da máquina,
chegara-se à conclusão de que a mesma se sustentaria no ar graças aos seus
propulsores que, quando a máquina se encontrasse em condições normais, poderiam
trabalhar em todas as direções.
Mas Tiff se
limitou a resmungar:
— Que
despenque!
Hump
protestou. Mas Tiff não teve tempo nem vontade de se envolver em discussões, e
com Eberhardt parecia acontecer a mesma coisa. Este último disse:
— Cale a
boca!
E Hump calou
a boca. O destróier prosseguiu em sua corrida vertiginosa.
...mach 3;
mach 2,5...
— Será que
teremos que morrer? — perguntou Felicitas com a voz trêmula.
Embora mais
tarde se arrependesse, Tiff não encontrou outra resposta senão esta:
— Naturalmente!
Daqui a dois minutos.
Felicitas
começou a soluçar.
Quando os
dois minutos se tinham passado, a máquina ainda voava a uma velocidade de mach
0,8.
— Eberhardt!
Descobriu algum local em que podemos pousar? — gritou Tiff.
Eberhardt
fitou a tela lateral.
— Descobri
um campo de pouso bem grande — respondeu em tom indiferente. — O planeta é um
único campo de pouso. Resta saber como parecerão as coisas quando tivermos
descido mais.
Realmente
era isso. A superfície branca não apresentava qualquer relevo, a não ser que o
mesmo fosse menor que um morro de tamanho regular. A nave ainda voava a uma
altitude de três mil metros. Mas descia rapidamente.
— Vou
pousar! — disse Tiff.
Não lhe
restava outra alternativa.
Dali a mais
alguns segundos, quando o aparelho já havia descido bastante, viram que na
verdade o terreno não era nada plano.
Tiff fazia
votos de que em sua maioria as elevações só fossem formadas por neve acumulada.
Se houvesse rochas maciças por baixo...
Não devia
pensar nisso!
O destróier
fora concebido para realizar pousos verticais. Não dispunha de trem de
aterrizagem; e, se possuísse um, este adiantaria muito pouco.
— Segurem-se!
A área
estava cheia de pequenos morros.
— Atenção! É
agora!
Houve um
solavanco acompanhado de chiados e gritos. Tiff segurava os controles dos
propulsores com tamanha força que por pouco não quebrou os pulsos. Com o rosto
contorcido de dor, puxou o controle para trás, a fim de acionar os jatos de
frenagem com o que ainda lhes restava de energia.
Houve outro
solavanco quando a máquina saltou por cima de um dos morrinhos. Por um segundo,
a neve turbilhonante encobriu a visão das telas até que estas se apagassem de
vez.
As luzes
também se apagaram. A escuridão tomou conta da pequena cabina.
Ainda
faltava muito para que o destróier se imobilizasse. Por algum tempo parecia
girar em torno do próprio eixo; apesar disso ainda parecia se deslocar para a
frente. Houve um último solavanco, muito forte. O metal, que se rasgava, emitia
sons estridentes. Depois tudo foi silêncio.
Tiff estava
pendurado nos cintos em posição inclinada. Endireitou-se no assento e olhou em
torno. A escuridão era completa e impenetrável. Mas o alto-falante de seu
capacete transmitiu o som de uma respiração apressada.
— Chegamos!
— disse.
5
Não havia a
menor dúvida de que o destróier ficara totalmente inutilizado. Não era possível
abrir a cabina pela forma usual.
Felicitas
perdera os sentidos. Eberhardt se certificou de que seu traje espacial estava
devidamente fechado.
Hump e Tiff,
juntos se esforçaram para abrir a cabina à força.
Só
conseguiram depois de bastante esforço. A cobertura caiu para trás com um
baque. De um instante para outro, o ar quente e úmido da cabina, misturado com
a baixíssima temperatura do planeta, fez com que os visores dos capacetes
espaciais se cobrissem com uma fina camada de gelo.
— Liguem o
aquecimento — ordenou Tiff.
Esperou até
que a poderosa calefação de seu traje espacial atingisse a lâmina do visor de
seu capacete e derretesse a camada de gelo.
Depois se
arrastou para cima e saiu da cabina. Hump ia segui-lo, mas Tiff deu-lhe um
grito:
— Espere!
Hump
obedeceu. Por um instante, Tiff sentou-se de costas sobre a beira da cabina e
procurou descobrir o que lhe causava uma expressão tão estranha naquele mundo.
Era a coisa
mais simples que se podia imaginar: a gravidade. Era ao menos vinte por cento
inferior à da Terra; devia atingir aproximadamente 0,8 g. Tiff saltou da
máquina. Afundou quase até o joelho na neve pulverulenta. Uma onda de calor
percorreu-lhe a espinha quando se deu conta da leviandade que acabara de
cometer. A neve solta poderia perfeitamente ter vinte metros de profundidade.
Se fosse assim, teria afundado como um pato de chumbo na água.
Respirou
fortemente e lançou os olhos em torno. Havia um vento fraco que podia ser
ouvido nos microfones externos e tangia finas nuvens de neve diante dele. Tiff
levantou o braço direito para olhar o termômetro de pulso. Quando viu a posição
dos ponteiros, levou um susto:
Cento e
sessenta graus absolutos!
Isso equivalia
a cento e doze graus negativos da escala centígrada.
“Muito bem”, pensou Tiff, resignado. “Enquanto a calefação dos trajes espaciais
estiver funcionando, ninguém se importará.”
Andou
cautelosamente em torno do destróier para examinar as avarias. Eberhardt, que
se encontrava do lado de dentro, gritou:
— Como está
nossa máquina?
Tiff
respondeu com um sorriso de amargura:
— Não temos
mais nenhum destróier... apenas um destruído.
Não havia a
menor dúvida de que do aparelho não sobrara mais nada além do material de que
fora feito. Uma rocha tinha aberto um rombo em seu casco, do centro até o
mecanismo propulsor. Se a nave tivesse sido atingida mais à frente, a rocha
teria representado um desastre para as cinco pessoas que se encontravam na
cabina.
Não se via
mais nada dos bocais dos jatos. Estavam reduzidos a chapas de metal
plastificado deformadas que cobriam as aberturas.
Tudo
terminado!...
Se Rhodan
não aparecesse, teriam de passar o resto da vida — isto é, o tempo que durassem
as reservas de energia de seus trajes espaciais e as provisões de emergência da
cabina — naquele mundo de gelo.
Se Rhodan
não chegasse ou se não conseguissem descobrir uma civilização independente
naquele planeta.
A idéia
provocou risos em Tiff. Uma civilização naquele mundo! Se ali já existira uma,
ela estava morta desde o tempo em que o planeta se afastara dos sóis geminados
a tal ponto que sua temperatura média descera abaixo dos níveis mínimos
suportáveis.
Os sóis
geminados...
Tiff olhou
para o céu. A luz daquele mundo era pálida e leitosa, mas sua intensidade era
muito maior do que devia ser na opinião de Tiff.
Viu um dos
dois sóis em forma de um ponto luminoso ofuscante, que brilhava por entre os
véus de neve turbilhonante. O outro era uma mancha apagada, quase invisível.
Face à neve,
a visão horizontal não chegava a cem metros. Nessa extensão o terreno era
plano, com exceção de alguns montículos.
Tiff
procurava uma caverna. Uma caverna em que pudessem se instalar, e que pudesse
ser fechada. Só assim se tornaria possível tirar os trajes espaciais. Nos
capacetes dos trajes havia uma ração de emergência feita de alimentos
concentrados. Bastava comprimir o capacete com o polegar para introduzir o
alimento na boca. Mas os alimentos concentrados só alimentariam o portador por
quinhentas horas. Nesse espaço de tempo, segundo a opinião do construtor do
capacete, qualquer um teria a possibilidade de encontrar um recinto protegido.
Mas Tiff não
tinha certeza de que eles o conseguiriam.
— Saiam! —
gritou para os que se encontravam na cabina. — Não saltem muito depressa. A
neve é fofa e bastante profunda.
Saíram.
Felicitas já despertara. Tiff olhou-a com atenção; quando ela o notou, baixou
os olhos.
— Sinto
muito — disse com a voz baixa. — Não deveria ter sido tão infantil.
Tiff
bateu-lhe carinhosamente no ombro.
— Esqueça-se
disso, Felic!
Abatidos e
desorientados, caminharam pela neve. O único que desde o início aproveitou bem
seu tempo foi Tiff. Examinou a bússola de pulso e verificou que, onde quer que
se encontrassem, ela sempre apontava na mesma direção. O campo magnético desse
mundo merecia tanta confiança quanto o da Terra.
Dali a meia
hora, Tiff sugeriu que o robô fosse tirado da prisão. Tinha pouca esperança de
que a sorte desse engenho tivesse sido melhor que a do destróier. Mas não teria
sossego enquanto não tivesse certeza.
O pequeno
depósito em que se encontrava o robô podia ser aberto pelo lado de fora da
nave. Conforme era de esperar, o fecho mecânico não funcionava.
Tiveram
sorte, pois conseguiram abrir a escotilha. Ao que parecia, a única coisa que
continuava intacta era a fita rolante oblíqua. Libertada da presilha que lhe
segurava o pé, a mesma se movimentou com o peso do robô. A fita colocou-o no
chão com um baque, e o impacto, que agiu sobre determinado setor dos pés,
despertou o robô de sua letargia.
Tiff e os
cadetes arregalaram os olhos quando aquela máquina, que parecia tão lerda,
saltou sobre os pés e se colocou de frente para eles. Em si o fato nada tinha
de extraordinário. Apenas, era de admirar que as ocorrências que haviam dado
cabo do destróier não tivessem afetado o robô.
Utilizando
as vias usuais — a acústica direta e o emissor de ondas ultracurtas nele
embutido — o robô anunciou:
— Robô
RB.013 pronto para entrar em ação. Controles funcionais positivos. Solicito
enquadramento.
O RB.013
falava inglês. Não havia a menor dificuldade em ensinar o inglês e mais alguns
idiomas a um robô que originariamente falava em arcônida. Cada língua adicional
só representava uma carga de cinco a oito por mil da capacidade de
armazenamento do pequeno cérebro positrônico.
“Enquadramento”, era essa a tradução de
um conceito arcônida, que na verdade significava o registro da freqüência de
comando. Entre as cinco pessoas que haviam pousado com o destróier deveria ser
escolhida uma cujos comandos seriam considerados preferenciais pelo mecanismo.
Se a
situação fosse diferente, Hump teria se adiantado imediatamente para trocar com
o robô as palavras codificadas que se tornavam necessárias para que o RB.013
pudesse reconhecer seu novo comandante a qualquer distância e em quaisquer
circunstâncias. Mas o vôo longo e desesperançado, o pouso catastrófico e a
desolação desse mundo de gelo eliminaram todas as ambições de Hump, que não
formulou a menor objeção quando Tiff se colocou diante do robô.
— Sou o
cadete Tifflor — disse Tiff. — Julian Tifflor.
— Cadete
Julian Tifflor — repetiu o RB.013.
— O quadrado
da função ondular Pi de Schrõdinger fornece a densidade provável da peça de que
se trata.
O RB.013
respondeu:
— Isso
através da multiplicação com o vetor local, que fornece a expectativa do
respectivo ponto, e da multiplicação com o vetor do impulso, que fornece o grau
de expectativa do impulso.
Era claro
que essas palavras eram simplesmente ridículas. Não se tratava de um
intercâmbio de informações, e pouco importava que os dados fornecidos fossem
objetivamente corretos. A fala e a resposta haviam sido previamente ajustadas.
A fala proporcionava à memória positrônica do robô o armazenamento das
vibrações fundamentais da voz humana, enquanto a resposta do RB.013 dava a Tiff
a certeza de que tudo estava em ordem com o robô. A parte da memória em que
estava armazenada a resposta acoplava-se com o controle principal da máquina; a
resposta não seria liberada se alguma coisa não estivesse em ordem com o robô.
— Muito bem
— disse Tiff. — Até aqui tudo em ordem.
Virou-se. Ao
que parecia, Hump começava a se dar conta do fato de que alguém com quem ele
não concordava começava a atribuir-se as funções de comandante.
Tiff previu
a objeção. Resolveu se adiantar.
— Vocês já
devem ter percebido que antes de tudo precisamos de um lugar para nos abrigar —
disse. — As rações de emergência da cabina são suficientes para dois anos. Mas
para utilizá-las temos de encontrar, nas próximas quinhentas horas, algum
buraco a que possamos nos recolher. Não sabemos de que substâncias se compõe a
atmosfera que nos rodeia. É possível que aquilo que parece neve na realidade
seja parafina, e que o ar seja feito de hidrocarbonatos. Precisamos de
uma espécie de caverna que, com os recursos de que dispomos, possa ser fechada
hermeticamente e tornada habitável. O RB.013 poderá nos ajudar nesse trabalho;
mas antes disso temos de encontrar a caverna.
Hump teve
uma idéia.
— Por que
não ficamos no destróier?
Tiff fez um
gesto de recusa.
— Seria
fácil voltar a fechá-lo hermeticamente. Acontece que é o único objeto metálico
que se encontra nestas redondezas. E acontece que os bocais dos jatos ainda
emitem radiações. Se algum dos saltadores ainda anda pelas proximidades e
resolve nos procurar por aqui, a primeira coisa que encontrará será o
destróier. Por isso não o usaremos.
O RB.013,
com suas longas pernas em forma de vara e os quatro braços, dos quais os dois
inferiores na verdade eram canhões móveis, caminhou pela neve, fazendo seu
teste de locomoção.
Tiff se
dirigiu ao robô.
— Temos que
sair daqui — disse. — Acredito que devemos seguir... — voltou a examinar o
rastro deixado pelo destróier, certificando-se da direção — nessa direção.
Apontou para
o sul, ou seja, na direção em que, antes do pouso, haviam visto as áreas
escuras.
O BR.013
respondeu:
— Sim,
senhor.
Sua voz
quase chegava a parecer humana.
* * *
Orlgans
disse:
— São muito
fortes, mas não tão fortes como a frota que daqui a pouco retornará ao local.
Ornafer
respondeu:
— Acontece
que não estão mais por lá. A frota não conseguirá pegá-los.
Orlgans não
respondeu, pois Ornafer tinha razão. De início desapareceram da tela os pontos
que representavam a frota chamada por Ornafer, e depois os três pontinhos
luminosos projetados pelas naves estranhas.
O que
restava eram apenas as duas naves destroçadas. A Orla XI já se encontrava longe do sistema, mas os instrumentos
ultra-sensíveis registraram a alteração do campo gravitacional do sistema,
produzida pelas naves destruídas.
— Colocaram
bombas-relógios — disse Orlgans. — Gostaria de saber como os bárbaros
conseguiram escapar desta vez.
Ornafer não
sabia. Por algum tempo Orlgans olhou para a frente em atitude pensativa. Quando
voltou a erguer a cabeça enorme e cabeluda, Ornafer viu que sua boca se
contorcia num sorriso sagaz.
— Quanto
tempo deverá passar até que nossa frota retorne? — perguntou Orlgans.
Ornafer
refletiu.
— Umas
quatro ou cinco horas.
Orlgans
concordou.
— Talvez
mais. Chame o observador.
Essa ordem
foi uma surpresa. Ornafer torceu o rosto. Mas logo acionou o intercomunicador.
O observador
respondeu.
Orlgans se
aproximara.
— Forneça-me
todos os dados que os instrumentos forneceram sobre a pequena nave que escapou.
O observador
confirmou com um aceno de cabeça.
Poucos
minutos depois, os dados, registrados em papel de coordenadas de rota,
encontravam-se nas mãos de Orlgans, que os estudou juntamente com Ornafer.
— Está
vendo? — disse Orlgans, ligando com uma linha os diversos pontos fornecidos
pelos instrumentos. A posição dos dois sóis e dos quatro planetas, ao tempo em
que havia sido registrada cada medição, foram consignadas em órbitas coloridas.
Ao lado de
cada ponto constava a indicação do tempo da medição.
Que
pensassem de Ornafer o que quisessem; mas era um excelente astronavegador. Até
mesmo um diagrama bem mais complicado que o que tinha diante de si lhe
permitiria concluir quais eram as intenções de Orlgans.
— Estou
vendo — respondeu. — O pequeno aparelho chegou bem perto do segundo planeta do
sistema.
Orlgans riu:
— Isso
mesmo! Já que restam umas quatro ou cinco horas até que a frota de guerra
retorne, vamos aproveitar o tempo para procurar essa gente.
Enrolou o
diagrama e se dirigiu ao intercomunicador, provavelmente para dar ordem de pôr
a nave em movimento. Parou a meio caminho e, olhando Ornafer por cima do ombro,
disse:
— Será que
você está disposto a deixar a presa para outro?
— Não! —
exclamou Ornafer.
* * *
As três
naves de Rhodan flutuavam no espaço, imóveis, a oito horas-luz dos dois sóis.
Rhodan tinha
certeza quase absoluta que, face ao reduzido intervalo de tempo, os dois abalos
provocados pela transição — na imersão e na saída do hiperespaço — seriam
registrados como um único.
Que os
saltadores quebrassem a cabeça quando seus instrumentos registrassem o segundo
abalo. Rhodan não acreditava que tivessem a idéia de que as três naves pesadas
haviam realizado uma transição apenas por um trajeto de oito horas-luz.
Rhodan
esperou; estava preparado para intervir energicamente nos acontecimentos que se
seguiriam.
* * *
Para o
RB.013 não houve o menor problema em carregar as duas moças no robusto par de
braços superiores. Tiff lhe ordenara que o fizesse. Tinha certeza de que
Mildred e Felicitas haviam chegado ao fim de suas forças, embora não quisessem
confessá-lo.
Mesmo com as
moças sobre os braços, o RB.013 marchava tão rapidamente que os três cadetes,
por causa da neve profunda, tiveram a maior dificuldade em manter passo com
ele. Tiff ordenou ao robô que andasse mais devagar.
Depois de
cinco horas de marcha, mandou fazer uma pausa de descanso. O RB.013 parou
imediatamente e colocou as moças no chão. Eberhardt cavou com as mãos um buraco
alongado na neve, onde podiam descansar. O RB.013 regulou seu mecanismo para a
posição de espera. O saco de mantimentos que haviam retirado do destróier
balançava levemente ao vento.
Hump se
virou e olhou para Tiff.
— Não estou
cansado — disse. — Posso prosseguir.
Tiff
compreendeu que havia chegado o momento que há tanto tempo aguardara.
— Pois ande
— respondeu tranqüilamente.
Hump não
andou. Ou melhor, não andou na direção em que até então haviam marcado. Foi em
direção a Tiff e se plantou diante dele.
— Acho que
você está doido para se livrar de mim, não está? — disse em tom odiento.
Tiff ia
sentar na neve. Fez de conta que a atitude de Hump não o incomodava.
— Não —
respondeu.
Mas Hump não
desistiu por tão pouco. Encostou os braços nos quadris e fungou:
— Ah, é?
Quanta gentileza! Depois que você se arrogou o comando por um ato de puro
arbítrio, até chega a demonstrar um pouquinho de tolerância para com os
colegas, não é?
A palestra
foi transmitida pelos rádios de capacete. Eberhardt entendeu tudo, e o robô
também. Só as duas moças estavam dormindo.
Eberhardt se
levantou e chegou mais perto. Tiff fez um movimento tranqüilo com a mão, que
Hump não viu. Eberhardt parou.
Tiff olhou
Hump com uma expressão séria.
— Em
primeiro lugar — disse em voz áspera — não me arroguei o comando, apenas dei a
conhecer minha voz ao robô. Mesmo que formássemos em cinco um sistema
inteiramente democrático, o robô só daria atenção a uma única voz. E depois — a
voz de Tiff se tornou mais baixa e insistente — eu lhe dou um conselho: cale
essa boca estúpida. Seus nervos estão esgotados; mais nada.
Hum
arregalou os olhos.
— Não diga!
— falou com um sorriso de deboche. — Quem não estiver de acordo com seus modos
autoritários está sofrendo dos nervos, não é?
Voltou a assumir
posição de luta e prosseguiu:
— Escute aí,
meu filho. Vou lhe dizer uma coisa. Se você se atrever mais uma vez a abrir sua
boca enorme sem nos consultar antes, usarei esta mão bem acolchoada — ergueu o
punho cerrado — para quebrar o seu visor. Não queremos nenhum ditador.
Tiff sabia o
que a situação exigia dele.
— Preste
atenção, Hump — respondeu prontamente. — Agora mesmo abro a boca sem consultar
você, para dizer que é um idiota convencido. Pronto, pode quebrar o visor.
Hump não
esperou que Tiff repetisse o desafio. Venceu a distância que o separava de Tiff
com um belo salto. Tiff viu-o chegar, desviou e, antes que Hump tocasse o solo,
pegou suas pernas. O vôo de Hump foi interrompido abruptamente. Tiff deixou que
Hump o arrastasse e caiu na neve bem a seu lado. Soltou as pernas de Hump e
segurou-o pelas costas. Deixou que Hump sentisse a força de suas mãos.
Hump estava
imobilizado.
— Está
vendo, Hump? — disse Tiff. — É muito simples. Basta que eu mova o dedo por um
centímetro para que o capacete e o fecho de seu traje espacial se abra. Você
sabe disso, não sabe? Mesmo que a atmosfera deste planeta não seja venenosa,
você morrerá de frio dentro de poucos minutos. São cento e doze graus abaixo de
zero. Não se esqueça.
Deu um
empurrão em Hump e se levantou de um salto.
— Daqui em
diante — resmungou — você vai ficar bem quietinho, comportando-se como um bom
menino. Da próxima vez darei um bom aperto no contato de seu traje espacial. Na
situação em que nos encontramos não temos necessidade de pessoas que queiram
restaurar sua autoconfiança avariada à custa da comunidade.
Hump
continuou deitado. Tiff ouviu-o soluçar.
— Por que
não apertou? — disse, falando com dificuldade. — Não quero mais...
Foi
interrompido. Quem o interrompeu foi uma voz que não se parecia comover com os
acontecimentos dos últimos instantes.
Pertencia ao
RB.013.
O robô disse
calmamente:
— Localização!
Localização na posição R, quatro mil; Pi, vinte e oito; Teta, sessenta e sete.
No mesmo
instante Tiff se esqueceu de Hump.
— De que
tipo é o objeto? — perguntou apressadamente.
Fez sinal a
Eberhardt para que acordasse as moças.
— Circular e
metálico — respondeu RB.013 com uma calma irritante. — O diâmetro é de dez
metros aproximadamente.
Mildred e
Felicitas levaram trinta segundos para acordar. O RB.013 forneceu outra
informação:
— R, três
mil e oitocentos; Pi inalterado; Teta, sessenta; Teta descendo.
Fosse qual
fosse o objeto, ele estava descendo.
Mildred e
Felicitas se levantaram; pareciam sonolentas e preguiçosas. Tiff recuperou a
calma.
— Vamos
esperar! — disse. — Enquanto o objeto conservar a mesma distância, devemos
supor que seu interesse não se dirige a nós. RB.013!
— Sim,
senhor!
— Prepare o
desintegrador e a arma térmica.
— Sim,
senhor.
Tiff sorriu.
Passou os olhos pelo grupo, para que todos vissem que estava sorrindo.
— Vamos com
calma — disse baixinho.
* * *
Orlgans logo
localizou o destróier. Parou sua nave a mil quilômetros de altura; as naves dos
saltadores não foram feitas para pousos diretos. Se necessário poderiam pousar,
mas um comandante dos saltadores só as forçava a isso a contragosto e em caso
de emergência. Por isso, enviou certo número de pequenas naves auxiliares.
Os
tripulantes das naves auxiliares informaram que o destróier estava reduzido a
um montão de destroços e fora abandonado. Os ocupantes de uma das naves
encontraram alguma coisa que acreditaram ser um rastro. Orlgans mandou que as
outras naves retornassem e mandou que aquela seguisse o rastro.
As naves
auxiliares tinham dois tripulantes e mantinham contato ininterrupto com a Orla XI. Os tripulantes da nave que seguia o rastro eram
Mernok e Paradicsom. Se na frota dos saltadores fosse observada a gradação
hierárquica das forças terrestres, Paradicsom ocuparia o posto de tenente e
Mernok o de sargento.
— Tomara que
o rastro não tenha sido coberto pela neve — murmurou Paradicsom.
Ganhou
altitude e observou cuidadosamente a tela do rastreador, onde o rastro se
destacava sob a forma de um traço escuro contra a paisagem branca.
— Não
acredito — respondeu Mernok, e regulou a rota.
O pequeno
aparelho prosseguia tranqüilamente para o sul. Vez por outra, Paradicsom
avisava que havia perdido o rastro; sempre que isso acontecia, Mernok descrevia
uma curva fechada e voltava a um lugar em que haviam passado poucos instantes
antes, onde o rastro continuava bem visível.
Dessa forma
não conseguiam avançar tão depressa quanto desejavam. Mas sabiam que os
fugitivos iam a pé, e por isso não tinham a menor dúvida de que conseguiriam
agarrá-los naquele dia.
Pelo que
sabiam os saltadores, aquele planeta girava em torno de seu eixo a cada trinta
e uma horas, e naquele momento eram três horas depois do meio-dia.
* * *
Orlgans
refletiu se não devia solicitar o auxílio de sua estirpe.
De início
não se atreveu a falar com Ornafer a este respeito. Este teria feito pouco caso
dele.
Muitas vezes
o próprio Orlgans teve a impressão de que estava sendo ridículo ao se preocupar
por causa de um aparelho tão pequeno, que ainda por cima realizara um pouso de
emergência, fazendo com que seus ocupantes seguissem a pé em busca de regiões
mais quentes.
Mas a
preocupação havia se instalado em sua mente, e não podia ser afastada por meio
de discussões.
Uma coisa
que deixou Orlgans desconfiado foi o fato de que o pequeno destróier em nenhum
momento pensou em retornar para procurar a proteção das três naves grandes de
sua frota. Orlgans não sabia que o impacto causado pela artilharia dos saltadores
havia ocasionado a perda da maior parte de suas reservas de energia,
impossibilitando seu retorno.
Face a isso,
supôs que o pouso naquele mundo de gelo estivesse ligado a alguma intenção
oculta, e teve a impressão de que não seria fácil recapturar os prisioneiros.
Se chamasse
sua estirpe, comandada pelo patriarca Etztak com sua gigantesca nave, teria que
dividir o lucro com os outros comandantes da linhagem dos Orlgans, mas ao menos
teria certeza de conseguir esse lucro.
E se agisse
sozinho?
“Sei lá se realmente encontrarei um lucro lá
embaixo?”, pensou Orlgans.
Até então
achara evidente que seu ex-prisioneiro Tifflor se encontrava entre as pessoas
que haviam pousado naquele mundo de gelo. Seria mesmo tão evidente?
“Ao menos é uma hipótese plausível”,
pensou Orlgans.
E Tifflor
era o elemento-chave que determinaria o êxito ou o fracasso do empreendimento.
Orlgans daria as costas ao mundo de gelo assim que lhe dissessem que Tifflor
não se encontrava entre os fugitivos.
É que,
segundo Orlgans havia sido informado, Tifflor era o homem que dispunha de
conhecimentos profundos sobre a situação e as condições do planeta da vida
eterna, sobre o qual a lenda falava há dez mil anos com tamanha insistência que
nenhum ser sensato duvidava da sua existência.
Orlgans
sabia que aqueles seres estranhos estavam informados sobre o planeta da vida
eterna, e que provavelmente haviam chegado mesmo a pisar no planeta. Ainda
acreditava que Tifflor, seu ex-prisioneiro, dispunha dos conhecimentos que
buscava naquele empreendimento.
Uma série de
informações sobre o mundo galático, a posição do mundo lendário; isso
representava um lucro que seria gigantesco, mesmo que Orlgans tivesse que
dividi-lo com todos os comandantes da estirpe.
Resolveu
aguardar o relato da nave enviada ao mundo gelado. As ondas com a mensagem
dirigida à sua estirpe seriam irradiadas para o espaço assim que surgisse algo
de suspeito.
* * *
Peregrino —
era este o nome que Rhodan dera ao mundo artificial em que a substância mental
de uma raça fisicamente extinta formara um ser coletivo dotado de faculdades
inacreditáveis.
Todos os
seres da galáxia — com exceção apenas daqueles que ainda não conheciam a
navegação espacial — sabiam da existência desse mundo. Mas ninguém conhecia sua
posição.
Ninguém,
além de Rhodan!
Rhodan
encontrara esse mundo, e o imortal lhe havia dado permissão para proporcionar a
todo ser que julgasse digno disso — desde que fossem homens do planeta Terra —
a ducha celular revitalizadora. Esse tratamento representava a vida eterna,
desde que fosse renovado a cada sessenta e dois anos. Não resguardava contra
balas ou tiros de radiações, mas detinha por completo o processo de
envelhecimento.
Por ocasião
de sua primeira visita, Rhodan não conseguira mais que o tratamento no
fisiotron, a ducha celular. Mesmo agora ainda não possuía muita coisa, embora
soubesse que no planeta Peregrino havia outros mistérios: eram mistérios
tecnológicos, que garantiriam a supremacia espacial absoluta a quem os
possuísse.
Rhodan
andava com a idéia de retornar mais uma vez ao planeta Peregrino, e pedir ao
grande imortal permissão para tirar proveito também dos mistérios tecnológicos.
Mas, por
enquanto, era apenas uma idéia.
Havia coisa
mais urgente para fazer.
* * *
Mernok se
espantou.
Virou-se
para Paradicsom, mas este ainda não havia percebido nada. Continuava a fitar a
tela do rastreador.
Mernok
voltou a examinar o quadro projetado na tela do rastreador de microondas. Esse
quadro foi avançando em direção ao centro.
Metal!
Mernok
refletiu calmamente, como era de seu feitio. A existência de metal podia não
estar ligada aos fugitivos. Era bem possível que houvesse algum veio exposto
naquele planeta desolado.
Todavia!...
Mernok
chamou a atenção de Paradicsom. Este tinha um gênio muito mais impulsivo que o
de Mernok. Não perdeu tempo.
— Vamos
descer imediatamente — gritou. — Prepare-se para pousar.
6
— Teta chegou
a zero — disse RB.013, esticando as palavras. — Zero.
Por alguns
segundos o robô parecia aguçar os ouvidos.
— Não há
mais qualquer movimento — disse. — Distância, três mil e duzentos; Pi, vinte e
oito.
A posição RB.013
era tal que a direção da qual haviam vindo coincidia com o valor Teta zero. O
ângulo era medido no sentido do deslocamento dos ponteiros de relógio. Isso
significava que o objeto desconhecido ficava à direita do rastro por eles
deixado, para quem olhasse para trás.
RB.013 havia
apurado que, pelo formato, devia se tratar de um objeto criado por seres
inteligentes. O formato era regular e correspondia ao de um elipsóide
rotacional achatado.
Tiff se
lembrou das pequenas naves auxiliares que chegara a ver a bordo da Orla XI. Tinha plena certeza de que o objeto cuja
presença fora registrada pelo robô era uma dessas naves.
Isso
significava que alguém estava no seu encalço. Os equipamentos de rastreamento e
localização de RB.013 possuíam um alcance de cerca de dez quilômetros para o
rastreamento e cento e cinqüenta quilômetros para a localização. Era bem
verdade que a capacidade de localização sofria as limitações decorrentes da
curvatura do horizonte ou dos acidentes do terreno.
Por isso não
se podia ter certeza sobre o número desses veículos em forma de lentilha que
andavam pelas redondezas. Era apenas provável que fosse somente um.
— Avise-me
assim que notar qualquer movimento — ordenou Tiff ao robô.
Depois se
virou para Hump e Eberhardt.
— Isso
representa uma oportunidade para nós — disse em tom indiferente. — Resta saber
como conseguiremos nos aproximar daquilo sem sermos notados.
Hump ficou
calado. Cabisbaixo, olhava para o chão. Eberhardt resmungou contrariado.
— Será que
já nos descobriram? — perguntou.
Tiff deu de
ombros.
— Bem que
gostaria de saber. Provavelmente já nos...
Interrompeu-se,
virou-se apressadamente e fitou o robô.
— É claro
que nos descobriram — gritou. — Noventa por cento do robô são feitos de metal.
Seu peso é superior a uma tonelada. Devem ter notado sua presença na tela de
microondas, a não ser que sejam cegos.
Com isso a
situação ficou alterada. Tiff proibiu todo mundo de falar. Quem tivesse alguma
coisa a dizer, devia se comunicar por meio de sinais. A palavra falada só seria
usada em casos de extrema urgência.
Se o pouso
do estranho ao norte do ponto em que se encontravam não fosse resultado de um
acaso, mas se devesse ao fato de terem localizado o RB.013, o mesmo a esta hora
estaria ocupado em percorrer a faixa de alta freqüência para captar suas
palestras.
Era bem
verdade que no momento os emissores de capacete estavam funcionando a um nível
energético mínimo, utilizado no chamado contato verbal direto, mas um receptor
apropriado poderia captar esse tipo de emissão a vários quilômetros de
distância.
Tiff
refletiu febrilmente.
Se aqueles
estranhos — lembrou-se de que as naves auxiliares em forma de lentilha levavam
dois tripulantes — tivessem localizado o RB.013, de uma hora para outra
apareceriam por ali para recapturar seus prisioneiros.
Até lá Tiff
precisava de um plano.
* * *
— Não se
mexem — disse Paradicsom, espantado.
Fitou a
mancha luminosa.
— Se é que
são eles — ponderou Mernok.
Paradicsom
grunhiu.
— Quem
poderia ser? O ponto fica exatamente no prolongamento do rastro deles.
Mernok riu.
— Qual deles
é feito de metal?
Paradicsom
franziu a testa.
— Quem sabe
se não carregam algum recipiente metálico?
Paradicsom
refletiu por mais algum tempo. Depois tomou uma decisão.
— Voaremos
até lá — resmungou.
* * *
O RB.013
despertou da letargia.
— Movimento!
— disse com a voz rangedora.
Não disse
mais nada. Aquela palavra era inocente; qualquer um poderia ouvi-la.
Tiff se
levantou e se aproximou do robô. RB.013 se inclinou para a frente e traçou
sulcos profundos na neve, que representavam um sistema de coordenadas. Junto ao
vetor de localização escreveu a cifra correspondente à distância atual e, junto
aos dois ângulos, a direção.
Tiff
compreendeu que a nave auxiliar se deslocava em direção ao ponto em que se
encontravam.
Levaria
apenas alguns segundos para chegar ali.
E ainda não
tinha nenhuma idéia!
Ordenou a
RB.013 que lhe descrevesse a topografia dos arredores. Naquele instante pouco
lhe importou que alguém ouvisse suas palavras. Delas não se poderia extrair
qualquer informação.
RB.013 se
apressou em fornecer a descrição. Usou poucas palavras e recorreu a desenhos na
neve, facilmente compreensíveis.
A cerca de
três quilômetros ao sul, havia uma elevação regular. Tratava-se de um morro de
cerca de quinhentos metros de altura, cujas encostas caíam suavemente para o
leste, norte e oeste. O cume apresentava saliências irregulares, face ao que
RB.013 supunha que a encosta sul fosse muito mais íngreme.
Subitamente
Tiff teve sua idéia.
A mesma só
tinha um defeito: partia do pressuposto de que a pequena nave não tivesse muita
pressa em atacar.
Se não o
fizesse, a idéia seria bem sucedida.
* * *
Paradicsom
assumiu a direção da nave. Sem que quisesse admiti-lo, achou que Mernok era
muito indeciso para dirigir a máquina numa situação daquelas.
Mernok
observava as telas de localização e rastreamento.
Paradicsom
levou poucos segundos para percorrer a maior parte do trecho que ainda os
separava dos fugitivos. Teria prosseguido na mesma velocidade se naquele
instante não tivesse recebido uma mensagem do comandante Orlgans, que lhe
recomendou que procedesse com a maior cautela.
Paradicsom
acreditou que o comandante devia ter um bom motivo para expedir essa
advertência. Ele mesmo era impetuoso, mas não fazia questão de demonstrar
audácia, custasse o que custasse. Por isso tomou a peito a recomendação de
Orlgans, se desviou da rota que vinha seguindo e voltou a parar a uma distância
de mil metros do objeto metálico.
Era bem
verdade que dessa forma não sabia como descobrir se os fugitivos poderiam ser
atacados sem cautelas especiais. Mas acreditou que ele ou Mernok acabariam
tendo uma idéia aproveitável.
* * *
— Mais
rápido! — resmungou Tiff. — Não temos um segundo a perder.
As duas
moças ajudaram. O buraco na neve foi afundando. A maior parte do trabalho foi
executada pelo RB.013.
* * *
Quinze
minutos se passaram sem que a idéia aproveitável de que Paradicsom precisava
surgisse em seu cérebro.
Ligeiramente
contrariado, perguntou a Mernok se este se lembrara de alguma coisa; de início
Mernok não respondeu.
— Ei,
Mernok! — gritou Paradicsom.
Mernok virou-se
abruptamente. Seu rosto retratava um grande espanto. Fungou e levou algum tempo
sem conseguir falar. Finalmente disse:
— A mancha
desapareceu!
Paradicsom
riu.
— A mancha?
Deixe-me ver.
Mernok
deixou que Paradicsom olhasse para a tela. A extensão verde-escura
apresentava-se vazia, com exceção dos minúsculos pontinhos cintilantes que
sempre apareciam nela.
Paradicsom
deixou cair o queixo.
— Para
onde...?
Desesperado,
Mernok bateu com as mãos.
— Não tenho
a menor idéia — lamentou-se. — Bruxuleou algumas vezes e desapareceu.
— Desapareceu?
Não saiu da tela?
— Não.
Desapareceu sem sair do lugar.
Paradicsom
refletiu. Talvez o metal tivesse desaparecido embaixo do chão. Na composição
usual do solo, o poder de penetração das microondas não ultrapassava alguns
centímetros. Caso houvesse uma caverna no lugar em que a peça de metal se
encontrava, o reflexo do localizador desapareceria no mesmo instante em que o
metal fosse introduzido na caverna.
Provavelmente
seria isso.
Mernok
voltara a dedicar sua atenção às telas e deixou a busca de explicações por
conta de Paradicsom, que refletia se não convinha atacar.
Enquanto
aquela gente estivesse metida numa caverna, sua liberdade de movimentos seria
bastante restrita. Com isso se tornaria mais fácil subjugá-los.
O grito
tresloucado de Mernok despertou-o de suas reflexões.
— Olhe! Ali!
Mernok ainda
não havia gritado a última palavra quando o apito de alarma começou seu
concerto de dissonâncias.
Paradicsom
se sentiu tomado pelo pânico. Olhando por cima do ombro de Mernok, fitou a tela
do localizador. Levou algum tempo para compreender o que se passava.
Um traço
verde-claro de luz ofuscante atravessou a tela logo abaixo da borda superior.
Começava à esquerda, meio apagado, e terminava do lado direito numa mancha
fogosa.
— Uma
descarga de radiador térmico! — disse Mernok com um gemido.
Paradicsom
compreendeu. A descarga de um radiador térmico sobre uma porção de matéria
sólida produzia uma zona densa de átomos e moléculas ionizadas, que refletia os
raios de microondas com uma intensidade ainda maior que o metal.
Aos poucos
Paradicsom recuperou a capacidade de raciocinar.
— Verifique
a distância! — gritou para Mernok.
Mernok leu a
distância no instrumento.
— Três mil e
oitocentos. Paradicsom estava perplexo. Há pouco acreditara que os fugitivos se
encontrassem a menos de mil metros e a esta hora disparam uma arma térmica a
mais do triplo dessa distância!
No que
teriam disparado? Seriam realmente os fugitivos que procuravam, ou haveria um
ou mais grupos de seres vivos que habitavam essa solidão desolada?
À medida que
compreendia que não encontraria a explicação de tudo aquilo enquanto
permanecesse no seu assento de piloto, Paradicsom foi se tornando cada vez ais
furioso. Quando a fúria chegou a um ponto alto, berrou:
— Vamos dar
uma olhada!
Com um
solavanco, a nave se levantou e disparou para o alto. Mernok quase não chegou a
percebê-lo. O traço projetado sobre a tela do localizador foi empalidecendo depois
que a descarga cessou. Mas um instante depois, Mernok notou outro tiro disparado
na mesma direção e com a mesma intensidade.
Informou
Paradicsom. Mas este teria prosseguido no seu vôo, mesmo que naquela área
surgisse a descarga de mil armas térmicas.
A nave
auxiliar só levou alguns segundos para vencer a distancia de pouco menos de
quatro mil metros. Mernok registrou uma elevação de altura regular projetada na
tela do rastreador. Três de suas encostas eram suaves e uma bastante íngreme.
— O alvo é
este — disse.
Paradicsom
subiu mais e descreveu alguns círculos em torno do morro.
— O que está
vendo no rastreador? — gritou para Mernok.
Mernok fitou
a tela.
— Nada; só o
morro — respondeu laconicamente.
Paradicsom
desceu um pouco.
— E agora?
A altitude
era de apenas duzentos metros acima da planície.
— Nada de
novo — respondeu Mernok.
Paradicsom praguejou.
Ainda estava praguejando quando Mernok soltou um grito de pavor e apontou para
a tela que registrava o traço luminoso da terceira descarga.
O alvo do
impulso ficava praticamente embaixo da nave.
Paradicsom
empurrou o leme para a frente. A nave caiu como uma pedra. Pouco acima do solo,
junto à encosta norte do morro, Paradicsom aparou a queda e voou algumas
centenas de metros, afastando-se da área alvejada pelo radiador de impulso.
O pouso não
foi muito suave.
Mernok
permaneceu imóvel.
— Ainda não
está vendo nada? — perguntou Paradicsom.
Mernok
sacudiu a mão em negativa. Os acidentes do terreno estavam projetados
nitidamente sobre a tela do rastreador. O alcance do aparelho era de cerca de
dois quilômetros. Os acidentes não eram diferentes, nem inspiravam maiores
suspeitas que os encontrados em qualquer terreno não aplainado.
A tela ótica
revelava ainda menos. O vento recrudescera, tangendo espessas camadas de neve.
A visibilidade não chegava a vinte metros.
Por algum
tempo Paradicsom se manteve em silêncio. Finalmente abriu os cintos e se
levantou.
— Vou dar
uma saída — disse laconicamente. — Espere aqui.
Saiu da
navezinha, passando pela comporta de ar. Sabia que o ar do lado de fora continha
uma elevada percentagem de oxigênio, e não oferecia qualquer perigo além dos
efeitos colaterais provocados pela grande quantidade desse elemento. Apesar
disso preferiu usar a comporta, pois com a saída direta o frio intenso
penetraria na cabina.
Mernok viu-o
caminhando pela neve e ouviu sua voz no alto-falante:
— Logo
estarei de volta.
Dali a um
instante desapareceu em meio aos turbilhões de neve.
* * *
— Atenção! —
chiou Tiff. — Ali vem um!
Só as duas
moças se encontravam perto dele. Enfiaram-se mais profundamente nas pequenas
cavernas cavadas na neve para não serem vistas. Tiff ficou deitado junto à
saída de sua caverna e observou atentamente a sombra cinzenta que se
aproximava.
Achou
preferível não introduzir uma potência mais elevada em seu transmissor para
avisar Hump e Eberhardt de que alguém se aproximava dele. Por alguma
coincidência o rádio de capacete do saltador poderia estar sintonizado na mesma
freqüência, e nesse caso todo o esforço teria sido em vão.
* * *
Paradicsom
andava à procura de pistas. Examinara a uma distância segura o lugar que fora
atingido três vezes pelo radiador de impulsos térmicos. Não viu nada além da
camada de gelo compacto em que a neve se transformara sob os efeitos do calor
infernal.
Paradicsom
não compreendeu por que cargas d’água alguém poderia ter disparado para este
lugar. Mas preferiu não perder tempo em especulações; continuou a procurar
pistas.
Foi andando
pela encosta suave que flanqueava o morro ao norte. Depois de algum tempo viu
três objetos. Seu formato apresentava uma estranha regularidade. Curioso, foi
se aproximando e constatou que alguém devia ter trabalhado a neve pulverulenta
até transformá-la num verdadeiro tijolo. Os tijolos de neve haviam sido unidos
num tubo alongado, aberto na frente.
Paradicsom
ajoelhou-se e olhou para dentro da abertura. No interior do tubo estava escuro,
mas Paradicsom logo viu que havia alguma coisa.
Levantou-se
com um grito de pavor. Embora estivesse armado até os dentes, não teve outra
idéia senão fugir.
Mas mal se
pusera de pé, foi atingido por um golpe tão violento contra a junta do pescoço
de seu traje protetor que perdeu os sentidos.
* * *
Mernok ouviu
o grito.
Não o ouviu
em forma de grito, pois Paradicsom não se preocupara em adaptar a potência de
seu transmissor à distância.
Apesar
disso, Mernok teve a impressão de que alguma coisa não estava em ordem.
— Alô,
Paradicsom! — chamou.
Nenhuma
resposta.
Mernok ficou
nervoso. Como fosse bastante circunspecto, passou a enumerar os motivos que
poderiam impedir Paradicsom de responder, se nada tivesse lhe acontecido.
Mas não
conseguiu se livrar do nervosismo. Voltou a chamar Paradicsom por várias vezes.
Quando já estava prestes a desistir, e se dispunha a relatar o incidente a
Orlgans, obteve resposta.
— O que
houve?
Mernok suspirou
aliviado. A voz parecia apagada, como se a potência do emissor não fosse
suficiente. Mas Mernok não se preocupou com isso.
— Por que
não dá sinal de vida? — perguntou Mernok.
— Levei uma
queda — respondeu Paradicsom. — Estou voltando.
— Encontrou
alguma coisa? — perguntou Mernok, curioso.
— Não —
respondeu a voz.
Os minutos
foram-se arrastando. Paradicsom não parecia disposto a falar e Mernok não
perguntou mais nada. Finalmente viu o vulto cinza-claro que surgia no alto da
encosta. Primeiro localizou-o através do rastreador, depois por meio da
observação direta.
Abriu a
escotilha externa da comporta. O vulto entrou. Mernok aguardou até que a bomba
expelisse o ar frio, substituindo-o por ar aquecido. Depois abriu a escotilha
interna.
A primeira
coisa que viu foi o cano de uma arma de impulsos. De início Mernok apenas ficou
admirado. Mas logo viu o homem que segurava a arma. Viu que seu traje espacial
era cinza-claro tal qual o dos saltadores, mas seu corte era totalmente
diferente.
— O que...?
— Calma —
disse o estranho em intercosmo. — Daqui em diante este veículo é meu.
Entendido? Nada lhe acontecerá, desde que não se meta a fazer tolices.
Mernok
concordou. Ou melhor, não teve outra alternativa.
* * *
O resto foi
simples.
Desenterraram
o RB.013 do buraco profundo em que o mesmo teve de se esconder para não ser
localizado. Isso lhes deu algum trabalho, pois o canal através do qual RB.013
havia disparado os tiros térmicos com seu braço armado estava coberto de gelo
vidrado, que se formara com a neve derretida. Mas o robô deu uma boa ajuda.
O controle
da nave auxiliar apresada não representou o menor problema. Fora construída
segundo o modelo arcônida, e todas as inscrições haviam sido feitas em
caracteres intercósmicos.
Paradicsom e
Mernok foram libertados.
Seus
transmissores de capacete foram munidos de uma fechadura-relógio; só dali a dez
horas poderiam entrar em contato com a Orla XI.
Paradicsom
superara perfeitamente o tratamento um tanto arriscado a que fora submetido no
interior da caverna cavada na neve.
Depois que
perdera os sentidos, Tiff o empurrara para dentro da caverna em que se
encontrava Mildred, cujo abraço carinhoso protegeu sua cabeça contra o frio
mortal. Abriu o capacete para verificar a freqüência em que Mernok e Paradicsom
se comunicavam.
Além disso,
tirou-lhe a pequena arma de impulsos térmicos, com a qual, meia hora depois,
ameaçou Mernok.
Tiff sabia
perfeitamente que depois dos acontecimentos das últimas horas não poderiam
continuar nessa área. Assim que os dois saltadores conseguissem estabelecer
contato radiofônico com sua nave, solicitariam reforços.
Tiff colocou
as duas moças na pequena nave e levou-as cem quilômetros para o sul. Sobrevoou
uma zona montanhosa e encontrou uma caverna que lhe pareceu apropriada para uma
permanência mais prolongada. Abrigou as moças e voltou para buscar Hump e
Eberhardt. Por fim realizou o terceiro vôo para conduzir o RB.013 para o novo
abrigo.
O robô logo
se pôs a trabalhar, a fim de fechar hermeticamente a caverna que lhe serviria
de abrigo. Usou a arma de impulsos térmicos embutida no braço direito para
derreter a rocha e levantar paredes que dividiram a caverna em uma série de
cabinas. Passagens estreitas deixadas nas paredes permitiam a passagem de uma
cabina para outra. Nas poucas horas que restavam antes que a escuridão descesse
sobre o planeta, o RB.013 confeccionou chapas de rocha derretida que se
ajustavam à abertura da caverna com uma precisão tamanha que a mesma ficou,
praticamente, hermeticamente fechada.
Se uma
pequena correnteza de ar conseguisse abrir passagem entre as chapas, ainda
haveria os diversos compartimentos que quebrariam sua força. Afinal, Paradicsom
havia revelado a Tiff que a atmosfera não era venenosa; apenas, o frio nela
reinante era miserável.
A nave
auxiliar aprisionada foi escondida numa fenda do terreno. Além disso, foi
coberta de maneira a não poder ser detectada pelas microondas.
* * *
Depois de
ter recebido o relato de Paradicsom e Mernok, Orlgans suspendeu as hostilidades
contra os fugitivos e pediu socorro à sua estirpe.
No dia
seguinte ao do pouso de emergência, o hipercomunicador da nave auxiliar
aprisionada captou e registrou uma breve mensagem. Perto do meio-dia, quando
foi dar uma olhada, Tiff leu:
— Comandante
para Tifflor. Agüentem. Aguardem auxílio.
A mensagem
fora repetida vinte vezes. O coração de Tiff palpitou enquanto a lia.
Regressou à
caverna e leu a mensagem que havia encontrado. O entusiasmo foi enorme e
genuíno. Tiff esperou até que os ânimos serenassem e disse:
— Parece que
por enquanto nos deixarão em paz. Ficaremos aqui enquanto for possível. Não sei
quais são as intenções reais do chefe, mas tudo indica que alguma coisa muito
importante está em jogo. A vida aqui será bastante confortável enquanto os
mantimentos não acabarem e enquanto não formos atacados. Acredito que dentro de
poucos dias Orlgans começará a nos procurar. Também acredito que, se não nos
retirar daqui, o chefe ao menos nos suprirá daquilo de que precisamos.
“Portanto,
ponham-se à vontade e preparem-se para alguns dias preguiçosos. Não conhecemos
o jogo que está sendo jogado, mas não podemos deixar de participar dele. O
próximo lance será do chefe ou dos saltadores. Tomaremos as providências
necessárias assim que notarmos qualquer coisa.”
O RB.013
estava de pé junto à parede. Seu radiador térmico, regulado para um desempenho
mínimo, espalhava um calor aconchegante. Hump abriu o capacete e fumou um dos
cigarros das rações de emergência.
— Gostaria
de saber o que o chefe viu em você para nos fazer correr por este deserto de
gelo por sua causa — disse Hump em tom odiento.
Tiff não
respondeu; apenas sorriu. Não poderia continuar a ocultar por muito tempo o
fato de que sabia tão pouco sobre os planos de Perry Rhodan quanto as quatro
pessoas que com ele se encontravam no interior da caverna.
* * *
* *
*
Há oito mil anos os saltadores detêm o monopólio do comércio
galático, já que reprimem qualquer concorrência implacavelmente.
Esta posição egoísta desenvolvida pelos saltadores no curso desse
tempo representa uma das chances de Perry Rhodan. Apesar de haverem descoberto
a Terra, eles não incluirão no “negócio” outras estirpes de mercadores, e se
lançarão sozinhos ao ataque.
Perry Rhodan conta, ainda, com outro elemento: os cadetes
espaciais que sob a liderança de Julian Tifflor, realizaram um pouso de
emergência no planeta gelado.
Perigo no Planeta Gelado, é o título do próximo volume da série
Perry Rhodan.

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