Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Nenhum exército equipado com armas terrenas convencionais, por
maior que seja, pode enfrentar os recursos da antiqüíssima técnica arcônida.
Perry Rhodan sabe disso perfeitamente, e não se preocupa com os remanescentes
de uma divisão espacial comandada pelo general Tomisenkow, que investira
obstinadamente contra a fortaleza de Vênus. O que causa muita preocupação ao
chefe da Terceira Potência é a evolução mais recente da política na Terra.
Com sua permanência no planeta Peregrino, Rhodan perdeu mais de
quatro anos. Agora tem de regressar com a maior urgência ao seu mundo, para que
não haja a guerra atômica...
= = = = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira
Potência.
Coronel Freyt — Representante de
Perry Rhodan na Terra.
Capitão Welinskij — Comandante de
um esquadrão de caças.
Major Deringhouse — Que dá
provas de sua qualidade de sabotador e agente secreto.
Fedor A. Strelnikov — Um novo ditador.
Marechal Sirov — O braço direito de
Strelnikov.
1
Vista da
nave capitania Wladislav Kossygin, a frota se parecia com duas fileiras de
pérolas reluzentes, cuidadosamente enfiadas em barbantes, a distâncias sempre
iguais.
A frota se
deslocava sob o brilho reluzente do Sol. Os pontos luminosos que representavam
as naves, projetados nas telas da Kossygin, emitiam uma luz muito mais intensa
que a das estrelas destacadas contra o céu negro.
O major
Pjotkin se esforçou para reprimir o orgulho que essa visão ameaçava provocar em
sua mente.
Era bem
verdade que, comparados com outros veículos que povoavam o espaço, essas naves
não passavam de patos desajeitados e de longas asas. Uma vez fora do âmbito da
gravitação terrestre, possuíam apenas uma reserva de radiações que lhes
permitiria realizar uma manobra de desaceleração antes de atingir a órbita de
Vênus. O resto, o mais difícil do pouso propriamente dito, ficaria a cargo das
asas. A aterrisagem seria aerodinâmica. Tinham que contar com uma perda de
cinco por cento. Como a frota possuísse duzentas naves, dez jamais chegariam ao
solo de Vênus; ou atingiriam o mesmo sob a forma de um meteorito incandescente.
Eram estas as previsões dos cientistas.
O resultado
também poderia ser diferente, segundo Pjotkin. Talvez fosse dez por cento.
A frota
levava reforços para a expedição do general Tomisenkow. Os reforços consistiam
principalmente num suprimento de aço, uma vez que, depois do pouso, as naves
não mais estariam em condições de sair de Vênus. Não lhes restaria qualquer
reserva de radiações. Juntamente com as quinhentas naves de Tomisenkow,
aguardariam a chegada de outra frota de reforço com uma carga de combustível,
que voltaria a colocar os patos metálicos em condições de voar.
Pjotkin
procurou calcular se mil naves seriam suficientes para reabastecer as quase
setecentas que se encontrariam em Vênus. E se fossem? Nesse caso, em vez de
setecentas naves, mil ficariam retidas no planeta coberto de selva.
Sessenta por
cento da tripulação da frota de Pjotkin era formada por mulheres. Pjotkin
ficava se indagando o que os planejadores teriam tido em mente ao comporem
dessa forma o pessoal conduzido pela frota. As mulheres eram especialistas: médicas,
técnicas, biólogas.
Pretenderiam
instalar em Vênus algo parecido com uma base permanente? Uma base que se
tornasse independente da Terra em todos os sentidos, inclusive no campo
biológico?
Sem dúvida
Pjotkin teria encarado sua missão com maior seriedade se soubesse que, para
Tomisenkow e sua expedição, o êxito da mesma representava a sobrevivência. Na
posição atual dos astros — o Sol se interpunha entre os dois planetas — não
havia qualquer comunicação pelo rádio entre Vênus e a Terra. Em nosso planeta
ninguém sabia que Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência e comandante da
supernave Stardust-III, havia dispersado a expedição de Tomisenkow pelos quatro
cantos de Vênus e privado a mesma de quase todos os recursos técnicos.
* * *
Naquele
mesmo instante, a Stardust-III se encontrava em sua viagem de regresso de Vênus
à Terra. As componentes motrizes da enorme nave esférica funcionavam a plena
potência e, dentro de poucos minutos, aceleraram a nave a um ponto extremamente
elevado. Os imensos campos protetores e de absorção de choques fariam com que
qualquer quantidade de matéria, desde a minúscula partícula cósmica até a rocha
interplanetária, se desfizessem sob o efeito das radiações antes de poderem se
tornar perigosas à nave.
Rhodan não
apreciava esse tipo de vôo, pois, se utilizando do sistema de microondas, não
teria chances para uma rápida localização de qualquer objeto que cruzasse seu
caminho. E o rastreamento estrutural, que funcionava com base em princípios
pentadimensionais, tinha seu campo de detecção situado a partir de uma unidade
astronômica, ou seja, cento e cinqüenta milhões de quilômetros. Era bem verdade
que mesmo dentro desse raio o rastreamento era possível; mas perdia todo o
sentido, já que, numa distância tão reduzida, o sistema de observação por
microondas funcionaria praticamente com a mesma rapidez.
Por isso a
Stardust-III se deslocava numa espécie de vôo cego. Nada poderia lhe acontecer,
já que os campos protetores lhe forneceriam proteção ininterrupta. Mas ai de
quem se pusesse em seu caminho.
* * *
Na tela do
radar da Kossygin surgiu uma estranha mancha verde. Aparecera naquele instante,
mas, antes que o operador de radar desse pela sua presença, já havia percorrido
a quarta parte do diâmetro da tela.
Num
movimento treinado milhares de vezes, a mão do homem se deslocou para baixo e
comprimiu a superfície vermelha da chave de alarma. Sereias uivaram e o
telecomunicador transmitiu o alarma às duzentas naves que compunham a frota.
Subitamente
a voz de Pjotkin soou no alto-falante.
— O que
houve, radar?
— Objeto
desconhecido aproxima-se da frota. Velocidade... quase igual à da luz!
O operador
ouviu a respiração pesada de Pjotkin.
— Que setor
de nossa frota está sendo ameaçado? Fale logo, homem!
— O centro.
A voz de
Pjotkin se tornou mais fraca quando ele se voltou para outro microfone. O
operador de radar ouviu as ordens por ele transmitidas:
— Corrigir
rota. Toda força para bombordo. Imediatamente.
O ponto
verde quase havia percorrido metade da tela do radar. Aproximava-se inexoravelmente
do centro marcado em vermelho, que representava a posição do observador.
O operador
de radar conteve a respiração. Se a correção não fosse completada
imediatamente...
Mais dois
segundos!
O homem
cerrou os olhos e se agarrou ao painel, aguardando o choque iminente.
Não houve o
choque esperado. A morte surgiu em forma de um raio azul e ofuscante, que
transformou a Kossygin num enxame de moléculas e átomos que se disseminaram
pelo espaço.
O operador
de radar não percebeu nada. Uma morte que surge com a velocidade da luz nem
chega a causar uma impressão dolorosa.
* * *
Na última
fração de segundo, Rhodan fora avisado sobre a fileira dupla formada pelas
duzentas naves. Num gesto instantâneo, levantou o braço para manobrar algum
dispositivo de comando que desencadeasse uma manobra salvadora.
Mas era
apenas um movimento reflexivo. Ao se dar conta disso, baixou o braço; a
Stardust-III já deixara para trás a frota inimiga.
Imediatamente
a nave executou uma manobra de frenagem, utilizando toda a potência de suas
componentes motrizes. Uma desaceleração máxima — que representava o valor mais
elevado que os neutralizadores poderiam absorver — atingiu em poucos minutos, não
uma imobilização absoluta, mas uma redução de velocidade que permitia a
observação ótica direta da frota parcialmente destroçada.
O quadro que
se apresentava nas telas da Stardust-III era consternador. A fileira dupla de
pérolas cintilantes, que o major Pjotkin observara meia hora antes, estava
esfacelada. Impelidas pelo pânico, as naves se dispersavam em todas as
direções. Apesar disso, ainda se percebia nitidamente a abertura que a
Stardust-III fizera naquele front.
Rhodan
mandou efetuar a sondagem radiofônica. Pretendia escutar as mensagens trocadas
entre as naves. Reconhecera seu formato e por isso sabia que se tratava de uma
frota do Bloco Oriental. Apesar disso, prestaria socorro imediato àqueles
homens, se não conseguissem se arranjar por si.
Ouviu os
informes expedidos das várias naves. O tradutor automático traduziu as
mensagens russas para o inglês.
Rhodan ficou
sabendo que, no início, a frota era composta de duzentas naves. Trinta e quatro
delas — entre elas a nave capitania, que trazia a bordo o major Pjotkin —
haviam sido destruídas; evaporaram-se sob o impacto dos campos protetores da
gigantesca nave.
Um coronel
assumiu o comando. Através de uma série de manobras complicadas voltou a unir
as naves numa formação ordenada. Essas manobras consumiram uma quantidade
considerável de material radiante. Os remanescentes da frota teriam dificuldades
em reduzir a velocidade a um limite que não oferecesse perigo quando atingissem
a órbita de Vênus.
Todos os
observadores de radar da frota haviam percebido a causa do desastre poucos
segundos antes da catástrofe, e agora viram o ponto verde se afastar com
velocidade moderada.
Rhodan ouviu
uma série de conjecturas sobre o que seria aquele ponto. Uma única pessoa teve
a idéia de que poderia se tratar de um veículo da Terceira Potência, mas essa
idéia foi logo abafada pelo comandante da frota.
Rhodan compreendeu
a manobra. O coronel se veria diante de um problema insolúvel se confessasse
que o inimigo dispunha de veículos capazes de atravessar uma frota compacta de
naves sem sofrer o menor dano.
Percebia-se
que as cento e sessenta e seis naves que restavam estavam em condições de
prosseguir viagem sem auxílio de fora. Face à escassez de matéria radiante, não
lhes restava outra alternativa senão prosseguir pela rota em que já se
encontravam: a de Vênus.
A
Stardust-III deixou-as entregues ao seu destino e reiniciou sua viagem.
Rhodan, no
entanto, lamentou a destruição das trinta e quatro naves espaciais. Ainda mais
que o encontro da Stardust-III com a frota do Bloco Oriental só podia ser
atribuído exclusivamente a um acaso por demais infeliz. Era extremamente
improvável que dois ou mais objetos, que se deslocassem pelo espaço em
trajetórias mais ou menos arbitrárias, viessem se encontrar no mesmo ponto;
muito mais improvável do que duas pedrinhas atiradas por pessoas diferentes
virem a se chocar.
2
12 de junho.
Moscou.
Dez horas da
manhã, tempo local.
O
Estado-Maior das forças armadas do Bloco Oriental chegara à conclusão de que o
ataque aos principais centros militares e industriais dos dois outros blocos de
nações e da Terceira Potência teria de ser marcado para um dos próximos dias.
As condições
nunca haviam sido tão favoráveis. O Bloco Oriental instalara sua base em Vênus,
e uma poderosa frota com reforços estava a caminho desta base — não se
desconfiava da sorte lamentável de Tomisenkow, tampouco da catástrofe que
atingira a frota no meio do caminho. Tudo indicava que a Terceira Potência não
tomara conhecimento das modificações políticas determinadas pelo novo curso de
ação do Bloco Oriental, ou não se interessava pelas mesmas. No início temia-se
uma intervenção dos homens de Galáxia, mas esta não se verificara.
Provavelmente
isso seria devido ao fato de que Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência, no
momento não se encontrava na Terra, nem nas proximidades da mesma.
Em Moscou
não se sabia nada sobre o paradeiro de Rhodan.
A grande
conferência do Estado-Maior foi realizada no auditório de uma universidade.
Todos estavam de acordo sobre os princípios pelos quais se orientaria a ação, e
a idéia generalizada de que só faltava discutir alguns detalhes da execução do
plano encheu os generais de uma certa euforia.
Um marechal
búlgaro apresentou sua tese do cerco estratégico da Federação Asiática. Foi
quando um ordenança entrou no recinto com o passo tranqüilo, mas com uma
expressão de desassossego no rosto. Trazia um papel na mão e se dirigiu ao
marechal Sirov que, sentado numa poltrona do centro da primeira fileira,
dirigia a conferência.
Sirov passou
os olhos pelo papel. Os que se encontravam mais próximos viram que franziu a
testa, levantou os olhos e encarou o marechal búlgaro até que o mesmo estacou
em sua fala. Sirov fez um gesto, se levantou e, com o papel na mão, se dirigiu
à tribuna que o professor costumava usar para fazer suas preleções. Espantado,
mas com a maior solicitude, o búlgaro lhe cedeu o lugar.
Sirov
iniciou sua fala sem qualquer intróito:
— Vou ler as
notícias vindas de todas as partes do país, que a central recebeu há poucos
minutos.
— Primeiro:
Às nove horas e trinta e oito minutos, tempo de Moscou, um posto de observações
meteorológicas — fez uma pausa significativa, para que todos compreendessem
que, sob o disfarce do posto, se ocultava um objeto muito mais importante —
situado em Nowaja Sumlja, uma ilha da região ártica, foi arrancado do solo e
carregado por um ciclone. O único sobrevivente encontrou um radiotransmissor
intacto e enviou a notícia. Informa que, poucos segundos antes do início do
fenômeno súbito e inesperado, a escuridão desceu sobre a Terra, como se a noite
polar tivesse irrompido com uma antecedência de quatro meses.
“Segundo:
Nowosibirsk, oito horas e cinqüenta e um minutos, tempo de Moscou. Um tipo de
eclipse solar cai sobre a Terra. A base de foguetes situada nas proximidades da
cidade é atacada por uma estranha ausência de gravidade. Os homens saem
flutuando pelo ar, as rampas de disparo se soltam de suas bases, os foguetes
são tangidos pela tormenta que desaba de repente.
“Terceiro:
Molotov, Montes Urais, nove horas e quarenta e quatro minutos, tempo de Moscou.
Uma coisa inexplicável obscurece o céu por instantes, provoca um ciclone de
violência inacreditável e deixa atrás de si uma faixa de terra calcinada com
cerca de um quilômetro de largura. Todas as instalações de mineração e
processamento de minérios das usinas Sergej Iljuchin situadas acima do solo
foram destruídas.”
Sirov fez
uma pausa. Sentiu certa satisfação ao perceber que não era a única pessoa que
tinha ficado abalada com essas notícias. O pavor e o desânimo se desenhavam em
todos os rostos.
— A
explicação destas ocorrências — prosseguiu em tom áspero — provavelmente está
na quarta notícia, que vou ler.
“O posto de
radar da península de Taimyr, situada no norte da Sibéria, informa ter
localizado um objeto esférico de cerca de oitocentos metros de diâmetro, que se
desloca sobre o território de nossos Estados nas mais variadas direções e
altitudes; ao que tudo indica está sendo dirigido.
“Todos nós
estamos lembrados dos fenômenos ligados à súbita ausência de gravidade,
registrados na época em que a Terceira Potência começou a se estabelecer no
deserto de Gobi. Portanto, sabemos quem é o inimigo que temos diante de nós.
Não conhecemos todas as armas de que ele dispõe, mas estamos dispostos a lançar
nossas armas contra ele. O
tempo das discussões passou; chegou a hora de agir.”
* * *
12 de junho.
Karaganda.
Cerca de 14
horas, tempo local.
Há meia hora
os aparelhos da 23a esquadrilha de caças estão em regime de
rigorosa prontidão.
Fala-se num “veículo
aéreo inimigo muito grande” que, pelo que se ouve, se diverte em cruzar os céus
do país em todas as direções, deixando atrás de si a confusão e a destruição.
Os pilotos
estão sentados nos seus aparelhos, com as carlingas abertas. Pelo que se ouve,
o inimigo desenvolve uma velocidade extraordinária. Uma vez localizado o
veículo inimigo, os aviões terão que decolar imediatamente.
O objetivo é
a destruição do inimigo com todos os meios disponíveis.
* * *
Reginald
Bell, companheiro de Rhodan desde os dias do primeiro vôo humano à Lua, dirigia
a Stardust-III sem recorrer ao piloto automático. Numa tela fixada acima de sua
mesa de comando via-se o mapa do hemisfério norte da Terra. As indicações de
rota transmitidas por Rhodan chegavam a ele através de setas e pontos vermelhos
projetados nesse mapa.
Rhodan fez o
possível para poupar vidas humanas. Sabia que a chamada revolução, que há algum
tempo arrancara o Bloco Oriental do seio do grupo das superpotências que
buscavam a distensão, só era promovida por umas poucas pessoas ambiciosas. Os
quatrocentos milhões de pessoas que habitavam essa região da Terra não podiam
ser responsabilizados pela reviravolta.
Mas estavam
em guerra, e nem mesmo o mais humano dos comandantes conseguiria evitar toda e
qualquer perda de vida.
Rhodan sabia
quais eram os pontos vulneráveis do inimigo. Seus agentes estavam espalhados
pelos quatro cantos da Terra, e os prisioneiros capturados em Vênus tiveram de
lhe dar as informações que desejava, quer quisessem, quer não.
Na região de
Baku, a Stardust-III acabara de inutilizar uma usina de reatores que supria de
energia elétrica as instalações técnico-militares do litoral do Mar Cáspio.
Rhodan
introduziu no mapa projetado uma seta branca que apontava para a Sibéria
Ocidental e colocou um ponto vermelho sobre a cidade de Karaganda.
Imediatamente
Bell mudou de rota.
* * *
—
Localização a duzentos e dez graus! — berrou a voz nos fones de ouvido. —
Altitude: treze mil metros. Pista livre para a decolagem de todos os aparelhos.
A base aérea
de Karaganda era uma das mais modernas do Bloco Oriental. O dimensionamento
racional das pistas permitia a decolagem simultânea de toda uma esquadrilha de
caças.
O capitão
Welinskij, um homem de descendência polonesa, comprimiu o botão que fechava a
carlinga e imprimiu a potência máxima ao motor. Com a ordem de decolar, os
calços das rodas foram afastados automaticamente. A máquina rolou pela pista,
aumentou de velocidade e subiu muito antes de atingir o fim da pista.
Welinskij
assumiu o comando da esquadrilha.
— Virar para
duzentos e dez graus. Altitude de dezoito mil metros.
Não era
recomendável que um piloto de caça atacasse da mesma altitude ou mesmo de baixo
um adversário superior em forças. Uma diferença de altitude de cinco mil metros
aumentaria consideravelmente as chances que tinham Welinskij e seus
companheiros de causar algum dano ao inimigo.
Os aviões de
caça dispunham de dois mecanismos propulsores inteiramente independentes: um
reator de jato, acionado por ocasião da decolagem, que levaria o aparelho
rapidamente à altitude desejada, e um dos mecanismos convencionais de
turboradiações, que permitiria, em vôo horizontal, uma velocidade de mach 4, ou
seja, uma velocidade equivalente a quatro vezes a do som.
Os caças
estavam equipados com foguetes e canhões automáticos, rigidamente montados na
estrutura. Não haveria caça mais eficiente na Terra, se... há alguns anos o primeiro
astronauta americano não tivesse encontrado na Lua os representantes de uma
raça estranha, investindo-se na herança de suas conquistas tecnológicas.
— Chaminé
para todos os limpa-chaminés! Chaminé para todos os limpa-chaminés! O veículo
inimigo desloca-se a uma velocidade de mach 15, de duzentos e dez em direção a
zero trinta. Dentro de quinze segundos sobrevoará a cidade. Limpa-chaminés,
vocês já podem ver o inimigo. Não aguardem nova ordem de ataque. Confirmem!
Logo se
ouviu a voz do comandante da esquadrilha:
—
Limpa-chaminés para chaminé. Vemos o inimigo e atacaremos imediatamente. Fim.
Dirigindo-se
aos pilotos, prosseguiu:
—
Preparem-se, rapazes! Ação individual. Fim.
Welinskij
observou o inimigo.
Viu uma
parede tremeluzente de fogo surgir acima do horizonte. De início era pequena e
bonita; seu aspecto, visto daquela altura, era mais ou menos o de um incêndio
na estepe.
Mas cresceu
numa velocidade espantosa, parecendo se desprender do solo, e se transformou
numa esfera ofuscante. Com um movimento automático, Welinskij colocou os vidros
antiofuscantes diante dos óculos de proteção.
— Meu Deus!
— murmurou para si mesmo. — Falaram em oitocentos metros! Aquilo ali tem pelo
menos dez quilômetros de diâmetro.
Não teve
tempo para refletir. Viu a esfera de fogo se aproximar vertiginosamente. Supôs
que fosse o inimigo, ou que este se escondesse no seu interior. Disparou todos
os foguetes de uma só vez. Mas, de um instante para outro, teve dúvidas se os
pequenos projéteis com suas cargas explosivas nucleares seriam capazes de
causar qualquer dano àquela bola de fogo.
Dirigiu o
avião para o alto. Cerrou os olhos, pois, apesar do vidro antiofuscante, a
esfera fez com que lhe ardessem as conjuntivas.
Welinskij
foi mais feliz que qualquer dos outros pilotos. Conseguiu manobrar seu aparelho
de tal forma que apenas roçou nos gigantescos campos protetores da
Stardust-III. O avião se esfacelou, e a força do impacto fez com que o ejetor
arremessasse Welinskij mais algumas centenas de metros para o alto. Mas, quando
começou a descer, o pára-quedas se abriu, foi atingido pelo ar aquecido e fez
com que o capitão balouçasse em direção ao solo, são e salvo.
Os demais
aparelhos se precipitaram para cima da bola de fogo. Evaporaram-se nas nuvens
causadas pela explosão dos foguetes que eles mesmos haviam disparado poucos
segundos antes.
A luta — se
é que aquilo podia ser chamado de luta — durou exatamente cem segundos, desde o
instante em que surgiu a Stardust-III. Quando chegou ao fim, a 23a
esquadrilha de caças deixara de existir.
Só restava
um vestígio insignificante: o capitão Welinskij, que, atingido pelo redemoinho
causado pela Stardust-III, foi atirado a uma distância tal que pôde se livrar da
radiatividade desencadeada pelos foguetes. Inconsciente, continuava em sua descida.
O destino
poupara aquele homem para que pudesse contar algo aos homens que lhe haviam
confiado a missão.
Mas às vezes
o destino parece bastante míope. Se Welinskij contasse o que presenciara, seria
considerado um idiota e encaminhado a um psiquiatra.
Enquanto
isso acontecia, a fatalidade pôde se abater sobre a Humanidade.
Perry Rhodan
observava a aproximação da esquadrilha de caças com um rosto que parecia
petrificado. Sabia perfeitamente o que aconteceria se os caças não mudassem de
rumo imediatamente.
A
Stardust-III deslocava-se a uma velocidade que equivalia a quinze vezes a do
som. A uma velocidade daquelas, o impacto dos campos protetores, cujo diâmetro
correspondia a dez vezes o da nave, fazia com que as moléculas de ar entrassem
em incandescência ou se ionizassem. O resultado era aquela bola de fogo de
quase dez quilômetros de diâmetro, cuja visão o capitão Welinskij jamais
esqueceria.
Os foguetes
disparados pelos caças detonaram na periferia do campo protetor; no interior da
nave não chegaram sequer a provocar um tremor, por mais leve que fosse. Mas os
pilotos de caça voaram atrás dos projéteis por eles disparados, causando sua
própria destruição.
A
Stardust-III se manteve na rota, em direção à cidade de Karaganda. Rhodan
aproveitou a oportunidade para, pela primeira vez durante aquela missão, fazer
uso de uma arma psicológica.
* * *
A alta
oficialidade da base aérea de Karaganda-Leste ficou com os rostos cadavéricos
ao tomar conhecimento da destruição total da 23a esquadrilha
de caças.
Que inimigo
seria aquele?!
A
Stardust-III sobrevoou a cidade com velocidade reduzida, produzindo uma
tempestade que, em comparação às que haviam sido desencadeadas em outros
lugares, podia ser chamada de pouco intensa. As rajadas chegaram à intensidade
onze, mas não produziram qualquer dano à cidade ou à base.
Houve,
porém, um fato muito mais interessante. A leste da cidade, a imensa nave
interrompeu sua viagem, se imobilizou por um instante e começou a subir. Numa
altitude de quarenta mil metros voltou a se imobilizar. Parecia pendurada no
céu, causando pavor aos habitantes de Karaganda, que não viam mais o sol, e
servindo de estímulo aos oficiais da base de Karaganda-Leste.
— Vamos
atirar! — sugeriu um deles. — Devíamos disparar todos os foguetes ao mesmo
tempo.
A sugestão
não foi aceita. Para causarem algum efeito, os foguetes deveriam ser equipados
com cargas explosivas nucleares. E o comandante da base achou uma temeridade
disparar uma salva de quase cem projéteis desse tipo na direção de um objetivo
a apenas quarenta mil metros de altura, isto é, praticamente por cima da cabeça
dos habitantes da cidade.
Todavia, o
general-de-brigada Chandikarh se declarou disposto a disparar um único foguete
contra a Stardust-III.
— Quero que
a equipe técnica observe a explosão — disse. — Talvez o fenômeno permita alguma
conclusão sobre a forma pela qual podemos atacar o inimigo.
Todos
acharam a sugestão bastante razoável. O disparo do foguete foi preparado como
se fosse uma experiência difícil, e marcado para as quinze horas e trinta
minutos, tempo local, a fim de que a equipe técnica tivesse tempo para instalar
seus instrumentos de observação.
— Procure
verificar a altura da explosão, fotografe o fenômeno, meça a intensidade
luminosa e as emanações radiativas — ordenou Chandikarh. — Depois diga-me o que
acha de tudo isso.
Quinze
horas.
Sentado na
cantina com seus oficiais, Chandikarh tamborilava nervosamente com os dedos,
esperando que os últimos minutos passassem. A Stardust-III continuava imóvel.
Mas Chandikarh receava que reiniciasse a viagem antes que pudessem realizar a
experiência programada.
* * *
Às quinze
horas e três minutos, hora local, Perry Rhodan pôs a funcionar o grande
projetor mental. Um enorme campo de influência hipnótica envolveu a cidade de
Karaganda e a base de Karaganda-Leste.
* * *
Às quinze
horas e três minutos, dúvidas começaram a surgir na mente do general
Chandikarh: valeria a pena realizar a experiência? Ainda às quinze horas e três
minutos chegou à conclusão de que devia ser suspensa.
Às quinze
horas e quatro minutos, os membros da equipe técnica começaram a sacudir a
cabeça, pois já não entendiam as ordens de Chandikarh. Ao mesmo tempo, porém,
se tornou perceptível a sensação generalizada de alívio pelo fato de que não
teriam mais de atirar contra o inimigo.
Às quinze
horas e cinco minutos, Chandikarh disse aos seus oficiais:
— Sejamos
francos, senhores. O que temos para opor a um inimigo destes? Ele espalhou o
pavor e a devastação em todo o país; e isso, ao que tudo indica, com uma única
nave espacial. O que será de nós no dia em que o inimigo lançar mão de duas ou
três naves dessas, ou mesmo de uma esquadrilha?
Um major
relativamente jovem o interrompeu, falando alto:
— Qualquer
um pode adivinhar, general. Nós mesmos seremos destruídos, junto com tudo que
possuímos, antes que tenhamos tempo para dar ordem de abrir fogo.
Outros
oficiais manifestaram sua concordância em altos brados.
Chandikarh
acenou a cabeça.
— Vamos
redigir uma resolução — sugeriu. — Toda a oficialidade da base de
Karaganda-Leste propõe ao Conselho Supremo do Bloco Oriental a cessação
imediata da resistência contra este inimigo e o início de negociações. A
experiência pela qual acabamos de passar fez com que constatássemos que seria
uma irresponsabilidade continuar a luta e provocar o inimigo. Estamos
convencidos de que o Conselho Supremo, mesmo a contragosto, também há de
reconhecer que nos defrontamos com alguém contra o qual, com os recursos de que
atualmente dispomos, nada podemos.
As palavras
de Chandikarh foram recebidas com aplausos. O texto da resolução era
relativamente moderado. As idéias que lhe andavam pela cabeça eram bem
diferentes. “Façam as pazes com a Terceira Potência, seus cabeças-de-vento”,
assim deveria ser o texto. Mas Chandikarh acreditava que a opinião dos outros
oficiais não tivesse sofrido uma transformação tão radical como a sua; por isso
se contentou com a redação mais suave.
Meia hora
depois, o texto foi divulgado na cidade, onde provocou manifestações
entusiásticas de apoio. A reação deixou Chandikarh perplexo e fez com que ele
vencesse o constrangimento que sentia em transmitir o texto para Moscou.
Às quatorze
horas, tempo de Moscou, o Estado-Maior e o Conselho Supremo, reunidos na
capital do Bloco Oriental, estavam informados sobre a opinião que subitamente
passou a reinar em Karaganda. Palavras duras foram proferidas; chegou-se a
falar em motim. Ficou decidido que não se tomaria conhecimento da resolução, e
que alguns homens do serviço secreto seriam enviados a Karaganda.
Era de
admirar, mas, ao que parecia, ninguém estava compreendendo toda a gravidade da
situação. Era bem verdade que ninguém contestava o fato de que o inimigo
contava com recursos técnicos mais avançados. Mas, segundo se argumentava, um
único veículo inimigo só poderia estar num lugar de cada vez. Se a Terceira
Potência acreditava que bastava fazer cruzar uma única nave sobre o território
do Bloco Oriental, provocando as maiores tolices para obrigar essa
superpotência, armada até os dentes, a dobrar os joelhos, estava redondamente
enganada.
* * *
Perry Rhodan
acompanhou os acontecimentos que se desenrolavam em Karaganda e Moscou, na
medida que seus instrumentos de observação o permitiram. Não se surpreendeu com
nada. A mudança de opinião em Karaganda era inevitável, já que o território da
cidade se encontrava sob os efeitos do projetor mental. Por outro lado, os
homens do Estado-Maior de Moscou não seriam dignos do posto se, a essa altura,
já entregassem os pontos.
Às dezesseis
horas, tempo de Karaganda, o major Deringhouse — um jovem desajeitado e
impetuoso que dominava o russo graças ao treinamento hipnótico e era um dos
melhores elementos de que Rhodan dispunha — saiu da Stardust-III num traje
transportador arcônida. O campo de deflexão do traje fez com que Deringhouse se
tornasse invisível, e o poderoso neutralizador gravitacional suavizou sua
descida. Deringhouse venceu os quarenta mil metros que o separavam do solo em
vinte minutos. Enviou a Rhodan o sinal de OK
convencionado através do hipertransmissor, para não assumir qualquer risco.
Depois
disso, a Stardust-III pôs-se em movimento, permitindo que, depois de uma
interrupção de mais de uma hora, o sol voltasse a brilhar no céu de Karaganda.
Antes disso, o projetor mental fizera com que a mudança de opinião dos civis e
militares de Karaganda fosse protelada. O condicionamento pós-hipnótico só
exigia um aumento de potência de quarenta por cento em comparação com a
irradiação hipnótica instantânea.
A
Stardust-III dispôs-se a cumprir seu primeiro objetivo: inutilizar o potencial
militar do inimigo.
* * *
A voz do
marechal Sirov não exprimia a menor reverência. Fedor A. Strelnikov, membro e
secretário do Conselho Supremo, a quem essa reverência seria devida, parecia
não sentir falta dela.
As últimas
notícias eram tão estranhas que ninguém se preocuparia com questões de
etiqueta.
— Karaganda,
Chulba, Tchyrgaki, Irkutsk, Tchita, Blagoviechtchensk — murmurou Strelnikov,
perturbado. — Está notando alguma coisa?
Em vez de
responder, o marechal Sirov pegou uma régua e colocou-a sobre o mapa. Se as
cidades de Karaganda e Blagoviechtchensk fossem ligadas por uma reta, as de
Chulba, Tchyrgaki, Irkutsk e Tchita ficariam nessa reta ou a poucos quilômetros
da mesma.
— As
resoluções são parecidas, até no texto — prosseguiu Strelnikov. — Pede-se o fim
da atividade armamentista, o início de negociações com a Terceira Potência, o
restabelecimento das discussões com os governos dos outros blocos com o
objetivo de criar um governo único de toda a Terra.
Levantou os
olhos do papel que segurava.
— O que acha
disto, marechal?
Sirov deu de
ombros.
— O senhor deve achar alguma coisa — insistiu Strelnikov.
Sirov abriu
a boca para dizer alguma coisa. Mas logo voltou a fechá-la e fez um gesto de
contrariedade.
— O que é? —
indagou Strelnikov.
Sirov
apontou para o mapa.
— Parece que
alguém voou pelo trajeto Karaganda—Blagoviechtchensk e hipnotizou todo mundo. É
a única explicação que me ocorre. Se achar que é uma tolice, não se zangue. O
senhor fez questão de que eu dissesse.
Strelnikov
não se zangou.
— Acredita
que o inimigo dispõe de recursos como este? — prosseguiu nas suas perguntas. —
Acha que lhe basta sobrevoar nosso território uma única vez para desencadear,
dentro de poucas horas, uma revolução de que participem mais de quatrocentos
milhões de pessoas?
— Vejo-me
forçado a admitir esta possibilidade — respondeu Sirov, passando a mão pelo
mapa.
Em sua mente
prolongou a linha até o litoral do estreito dos Tártaros, que separa a Sibéria
da ilha da Sacalina. Qual era a cidade situada no prolongamento da linha?
Komsomolsk.
Strelnikov
seguiu seu olhar.
— Está
pensando em Komsomolsk? — perguntou.
Sirov fez
que sim.
Ficaram
calados por algum tempo.
O telefone
soou. Sirov levantou o fone e o entregou a Strelnikov. Este deu seu nome e
ficou ouvindo. Sirov ouviu uma voz metálica, mas não entendeu uma única
palavra. Mas viu que Strelnikov empalidecia. Sua mão estava trêmula quando
recolocou o fone.
— O senhor
se enganou, marechal — disse. — De Komsomolsk não nos enviaram qualquer
resolução que sugira a paz e o início de negociações.
— Ah, é?
— Não. Em
Komsomolsk as tropas se amotinaram juntamente com a população e cortaram todas
as comunicações com a cidade.
* * *
Na noite
daquele dia, tempo de Moscou, o Conselho Supremo decidiu enfrentar a ameaça com
todos os meios disponíveis. Isso significava levar a guerra a toda a Terra.
Só assim
poderia se esperar que a gigantesca nave espacial, que traçara estreitas faixas
de revolta pelo imenso território do Bloco Oriental, desistisse de seus planos
e passasse a cuidar do bem-estar de toda a Humanidade, em vez de interferir nos
assuntos internos do Bloco Oriental.
Com todos os
meios disponíveis... Isso significava, ainda, o emprego da arma mais recente e
terrível que a Humanidade jamais criara com seus próprios recursos: a bomba
catalítica de fusão.
Todos
estavam perfeitamente lembrados de que Perry Rhodan, quando ainda se encontrava
no primeiro degrau da escada que o conduziria ao sucesso, evitara a guerra,
envolvendo o planeta com um campo de absorção de nêutrons. Os nêutrons, que
deviam provocar a cisão dos átomos de urânio, foram absorvidos por aquele
campo. Nenhuma das bombas atômicas chegou a explodir, tampouco as bombas de
fusão que seriam detonadas por uma bomba atômica.
As bombas
catalíticas não poderiam ser prejudicadas pelo campo de absorção. O processo de
fusão propriamente dito não dependia dos nêutrons; a detonação não era
conseguida por via indireta, através de uma bomba de fissão.
A decisão de
iniciar a guerra foi adotada pela unanimidade dos membros do conselho. O ataque
foi marcado para a zero hora do dia 14 de junho, tempo de Moscou. Os militares
disporiam de vinte e seis horas para os preparativos.
A sessão do
conselho e principalmente a decisão tomada foram estritamente sigilosas.
Sabia-se perfeitamente que nem mesmo no último segundo do ataque deveria
transpirar qualquer coisa sobre as intenções do conselho.
* * *
Strelnikov e
os outros membros do conselho não se sentiriam tão seguros se soubessem que o
segredo em torno da sessão e da resolução não fora nada perfeito.
Todos os
discursos, todos os apartes e todas as indicações foram irradiados no recinto
da sessão por meio de microfones e alto-falantes. Nada disso chegaria para fora
do recinto; mas as palavras, transformadas em impulsos elétricos, atravessaram
os condutores situados no interior da sala.
A corrente
alternada produz um campo eletromagnético em torno do respectivo condutor, e
esse campo retrata os impulsos sob a forma de modulações. Apenas se precisaria
de um receptor bastante sensível para captar o campo eletromagnético modulado a
uma distância de milhares de quilômetros, onde sua intensidade era centenas de
vezes menor que o farfalhar da atmosfera.
Além disso,
precisava-se ter conhecimento da situação exata da origem do campo
eletromagnético. Só assim o receptor direcional estaria em condições de
reprimir o farfalhar atmosférico e, através de um comutador acoplado,
selecionar, entre a multiplicidade dos impulsos captados, aqueles que se
revestiam de interesse.
Qualquer
técnico terreno teria apostado que ninguém seria capaz de construir um receptor
desse tipo.
Mas teria
perdido a aposta. A bordo da Stardust-III havia vários receptores com essas
qualidades. Rhodan entendeu tudo que foi pronunciado naquela sessão, não com a
mesma nitidez de quem a presenciasse, mas com uma clareza suficiente para
compreender o horror do complô.
Sabia que o
Bloco Oriental dispunha de bombas catalíticas de fusão, contra as quais o campo
de absorção de nêutrons seria impotente. Poderia fazer partir imediatamente a
Stardust-III, que naquele instante se encontrava cem mil metros acima da parte
sul dos Montes Urais, e submeter o Conselho Supremo à influência hipnótica.
Mas
acreditava que com uma tática diferente alcançaria um êxito maior e mais
persuasivo.
* * *
No dia 13 de
junho todo mundo prestou atenção.
Perry
Rhodan, chefe da Terceira Potência, interrompeu os programas de rádio e
televisão e dirigiu uma proclamação ao mundo.
Informou
todos aqueles que quisessem ouvi-lo sobre os planos do Bloco Oriental.
Perry Rhodan
se dispôs a defender a Terra contra qualquer agressor de dentro ou de fora. Uma
surpresa especial para Strelnikov e os demais ouvintes ficou reservada para o
fim do comunicado.
Em seu
televisor, Strelnikov viu o rosto de Rhodan se aproximar dele.
— Preste
atenção, Strelnikov — disse Rhodan. — Quero preveni-lo sobre o que farei hoje
de noite, se você e seus comparsas não desistirem de seu intento. Para isso
farei uma pequena demonstração. Hoje ao meio-dia, mais precisamente, entre as
doze e as doze e trinta, hora de Moscou, toda transmissão de energia elétrica,
com ou sem fio, será suspensa no território do Bloco Oriental. Dispõe de uma
hora e meia para tomar suas precauções.
“Sabe
perfeitamente o que isso significa. Faça aterrisar todos os aviões que se
encontrem no ar e avise os hospitais. Ou melhor, faça o que quiser. De qualquer
maneira, saberá o que vai acontecer com seus foguetes hoje de noite. Sem
eletricidade não poderão ser disparados, nem encontrarão o alvo. E a catalise
não funciona sem os processos eletrônicos que a regulam.
* * *
Strelnikov
não fez nada. Não valia a pena tomar qualquer providência. Todo mundo ouvira o
comunicado ou soubera dele por intermédio de terceiros. Todos sabiam o que
teriam de fazer para evitar um acidente.
Pouco antes
do meio-dia os médicos largaram os bisturis, os motoristas encostaram seus
automóveis, os trens pararam por cautela, e quem tinha de visitar alguém num
dos andares superiores de um arranha-céu preferiu subir as escadas para não se
arriscar a ficar preso no elevador.
A inteligência
de Strelnikov se rebelou contra a possibilidade de que Rhodan pudesse fazer o
que prometera. Examinou a pilha de relatórios que tinha diante de si.
A revolta de
Komsomolsk se alastrava. As tropas ali estacionadas avançavam terra adentro.
Enquanto se mantinham na linha que ligava Blagoviechtchensk a Komsomolsk, eram
recebidas de braços abertos. Mas, quando se desviavam dessa linha, avançando na
direção norte ou sul, defrontavam-se com a resistência oferecida pelas tropas
não submetidas à influência do projetor mental. De qualquer maneira Strelnikov
se sentiu abalado ao perceber que mesmo nessas áreas os revoltosos venciam
prontamente as resistências que se impunham a eles.
Até parecia
que se sentiam tomados por um impulso irresistível, inexistente nos regimentos
que continuavam fiéis ao governo.
“Que impulso será este?”, indagou
Strelnikov a si mesmo, perplexo. “Um
impulso para quê?”
Manteve o
televisor ligado e deixou que o programa desfilasse diante dele, sem prestar
muita atenção.
Levantou-se,
foi à janela e olhou para a rua.
Eram cinco
para o meio-dia.
O trânsito
parara. Até os pedestres ficaram junto ao meio-fio, aguardando o milagre.
“Que idiotas”, pensou Strelnikov,
contrariado. “Mesmo que consiga eliminar
a corrente elétrica, será que ele acha que isso será o fim?”
Strelnikov
continuou a pensar. Não podia parar de pensar. Era o homem de quem se esperava
a iniciativa e as decisões depois da lição de trinta minutos que Rhodan
pretendia ministrar ao mundo.
Ouviu-se a
voz do locutor:
— Ao meio-dia
transmitiremos o toque dos sinos da torre de Spasski.
Mas ninguém
ouviu o toque dos sinos. A tela escureceu assim que a torre surgiu no fundo da
paisagem formada pelo Kremlim. Parado diante do aparelho, Strelnikov lhe lançou
um olhar sombrio.
— Apesar de
tudo!... — resmungou.
3
No dia 14 de
junho, às nove horas da manhã, tempo local, a Stardust-III pousou em Galáxia,
que até então era a única cidade situada nos quarenta mil quilômetros quadrados
do território da Terceira Potência, situado no deserto de Gobi.
O Bloco
Oriental desistira de seus planos. Strelnikov divulgou a notícia cerca de uma
hora depois da falta de energia elétrica. Assim mesmo a Stardust-III continuou
a sobrevoar o território inimigo, a fim de verificar se Strelnikov dizia a
verdade.
A noite
desceu sobre o continente asiático; nenhum foguete saíra das rampas de disparo.
A paz fora resguardada. Rhodan tomou providências para que, mesmo em qualquer
momento posterior, um ataque de surpresa não pudesse ser coroado de êxito.
A Terra
respirou aliviada, primeiro porque Rhodan voltara no momento exato, e depois
porque cumprira sua promessa de evitar a guerra.
Quando a
Stardust-III pousou, o coronel Freyt, que na ausência de Rhodan exercia as
funções de chefe em Galáxia, estava de prontidão.
Uma multidão
de espectadores se comprimia nos limites do campo de pouso.
Perry Rhodan
saiu da nave em companhia de seu co-piloto, Reginald Bell, e de dois arcônidas,
Crest e Thora.
Freyt
parecia aliviado, mas não muito feliz, quando Rhodan lhe apertou a mão.
Entraram no carro em que Freyt viera e Rhodan perguntou:
— Tem algum
problema, coronel?
Freyt
hesitou. O carro já havia chegado perto do destino quando resolveu falar.
— Sou
acusado de negligência — disse. — Afirmam que não percebi nem preveni em tempo
a evolução da política do Bloco Oriental. Acreditam que isso ficava dentro do
campo das minhas possibilidades e não compreendem por que não tomei nenhuma
providência.
Rhodan
acenou com a cabeça.
— É só isso?
Freyt
parecia desolado.
— É quanto
basta!
Rhodan conhecera
os problemas de Freyt depois que a Stardust-III concluíra a transição a partir
do planeta Peregrino, e surgira num ponto situado além da órbita de Plutão.
— Tenho que
lhe dizer alguma coisa — respondeu Rhodan depois de algum tempo. — E quero que acredite
que agi com as melhores intenções.
Freyt o
olhou com uma expressão de espanto.
— Nunca
seria capaz de duvidar disso.
— Pois
espere. Tive que tomar precauções para que, na minha ausência, ninguém abusasse
dos recursos técnicos da Terceira Potência, para... bem, para satisfazer suas
ambições, ou para qualquer outro fim. Você compreende?
Freyt fez
que sim. Começou a compreender por que estivera de mãos atadas. Não gostou
muito, mas seu espírito era bastante objetivo para reconhecer que Rhodan tinha
razão.
— Você
recebeu instruções para interferir na política terrena somente se a Terceira
Potência fosse atacada — prosseguiu Rhodan. — Eu não poderia confiar que você se limitaria a estas instruções,
acontecesse o que acontecesse. As tentações com que o homem se defronta em
nossa cidade são muito grandes. Você ainda não possui um grau de treinamento
arcônida que me permita confiar unicamente nas instruções que lhe foram
ministradas. Por isso foi submetido a um bloqueio hipnótico, pelo qual ficou
preso às minhas instruções. Estava impedido de tomar qualquer providência
contra o Bloco Oriental, enquanto nosso território não fosse violado.
Colocou a
mão sobre o ombro de Freyt e o olhou com uma expressão séria.
— Sei
perfeitamente que não vai gostar de mim por causa disso, Freyt. Mas não pude
agir de outra forma. Da próxima vez não será mais necessário. Quanto aos quatro
anos e meio que se passaram, o bloqueio hipnótico representa um tipo de álibi
para você.
Sorriu,
apenas para tentar. Sentiu-se bastante aliviado quando o coronel Freyt
retribuiu o sorriso.
* * *
Uma
atividade intensa tomou conta da cidade, cuja população crescera nos últimos
anos para oitocentos mil habitantes.
O coronel
Freyt estimulara a imigração de técnicos e cientistas. Tomara providências para
que a General Cosmic Company construísse as enormes instalações de montagem e
iniciasse a produção de naves e caças espaciais concebidos segundo os
princípios arcônidas.
A Terceira
Potência dispunha de dois cruzadores pesados da classe Terra; eram naves
esféricas com duzentos metros de diâmetro. A construção de mais dois cruzadores
se encontrava em fase bastante adiantada.
A frota de
caças espaciais aumentara para dez esquadrilhas. Eram mil e oitenta aparelhos
aptos a enfrentar as condições reinantes no espaço, e que só por si bastariam
para garantir à Terceira Potência um predomínio absoluto sobre a Terra.
O exército
era formado por dez mil homens. Estavam equipados com armamento arcônida e equivaliam
pelo menos a vinte vezes esse número de soldados convencionais.
Rhodan
passou os olhos pelos relatórios que Freyt lhe apresentou. Sua inteligência
altamente treinada não gastou mais de trinta minutos para incorporar todos os
dados. Tudo se passara conforme ele previra.
— Não gosto
de usar palavras grandiosas — disse, dirigindo-se ao coronel Freyt. — Mas não
posso deixar de constatar uma coisa. Você foi um representante extraordinário.
Fico-lhe muito grato.
Freyt não
teve tempo para se alegrar com o elogio. Rhodan tinha ordens a dar.
— Avise os
governos dos diversos blocos de que... bem... — piscou para Freyt — como direi?
Avise-os de que ficaria satisfeito em cumprimentar seus representantes em
Galáxia quanto antes.
Freyt
anotou.
— Enfatize o
quanto antes — recomendou
Rhodan. — Isso significa amanhã ou depois. Acrescente que, muito embora a
guerra tenha sido impedida, considero a situação extremamente séria, motivo por
que se torna indispensável uma série de consultas.
Freyt também
anotou este trecho.
— Além
disso, quero que designe uma pessoa de confiança para o controle de precisão do
hipertransmissor. Quero revezar o homem que exercia essas funções a bordo da
Stardust-III. Ficou muito tempo com os olhos abertos. Não há hora marcada para
as mensagens do major Deringhouse. Poderá ser anunciado a qualquer momento que
queira.
—
Deringhouse? — perguntou Freyt, perplexo.
— Sim,
Deringhouse. Larguei-o em Karaganda. Quero que ele me ajude a atingir o segundo
objetivo do nosso plano. Sabe que devemos contar com as intenções hostis do
Bloco Oriental enquanto o atual governo estiver no poder, não sabe?
—
Naturalmente.
— Pois bem.
Um belo dia prenderemos aqueles cavalheiros de um golpe. E Deringhouse abrirá o
caminho para isso.
Em seu
subconsciente, o coronel Freyt procurou analisar a impressão que estas palavras
lhe causavam.
Representavam
um trecho da história mundial. Subitamente, Freyt compreendeu que abismo imenso
o separava de Perry Rhodan. Nos últimos quatro anos e meio supusera em várias
ocasiões que fazia seu trabalho tão bem feito como Perry Rhodan, e que, com esse
poderio imenso, qualquer um poderia dominar a Terra.
Acontece que
não era tão fácil. Era necessário conservar em quaisquer circunstâncias a noção
do alcance desse poderio. Quem se encontrasse nessa situação ocuparia uma
posição bastante exposta e não poderia se dar ao luxo de deixar de cumprir
qualquer promessa. Em outras palavras, tornava-se necessário jogar com a
profusão das possibilidades como um malabarista que brinca com dez bolas ao
mesmo tempo.
Um agente
pode fazer muita coisa que é proibida às outras pessoas. Por outro lado, porém,
não pode fazer certas coisas que um homem normal consideraria óbvias.
O major
Deringhouse trajava uma vestimenta transportadora arcônida que, quando
desejasse, o tornaria invisível; mas por outro lado, quando fosse visível,
provocaria suspeitas em qualquer um. Deringhouse resolveu iniciar seu trabalho
em Karaganda. A cidade com seus habitantes e soldados submetidos a uma
influência pós-hipnótica lhe parecia o melhor ponto de partida.
No entanto,
não havia dúvida de que mesmo uma pessoa influenciada por Rhodan logo ligaria o
aparecimento de uma pessoa em trajes estranhos com o surgimento da Stardust-III
nos céus da cidade. Por isso, Deringhouse preferiu deixar passar algumas horas
antes de entrar em Karaganda.
Não teria sido
difícil a Rhodan influenciar a cidade de tal forma que, mesmo como agente da
Terceira Potência, Deringhouse fosse recebido de braços abertos. Mas esse
estado de espírito logo se tornaria conhecido em Moscou, e a cautela com que o
serviço secreto passaria a agir depois disso teria dificultado
desnecessariamente a tarefa de Deringhouse.
Dessa forma,
o major resolveu aterrisar, invisível, nas proximidades da aldeia de
Plachowskoje, cerca de cento e oitenta quilômetros de Karaganda. Ainda
invisível, deu uma volta pela aldeia. Foi quando aconteceu um fato que,
posteriormente, provocou nele a idéia de que o próprio destino se empenhara em
prestar auxílio a ele e à Terceira Potência.
Plachowskoje
era igual a qualquer outra aldeia da região. Ficava à beira da estrada e quase
não tinha ruas transversais. As casas, baixas, eram rodeadas de campos imensos,
envoltos numa nuvem de pó alimentada ininterruptamente pelas esteiras dos
tratores e das máquinas agrícolas.
Deringhouse
supôs que o melhor lugar para descobrir alguma coisa sobre o ânimo da população
após o ataque da Stardust-III seria o edifício da prefeitura, mas teve algumas
dificuldades em descobri-lo em meio às outras casas.
Finalmente o
reconheceu por causa de um pequeno quadro de avisos, ao qual estava afixado um
único bilhete. No bilhete lia-se o seguinte:
O Conselho Municipal reúne-se hoje de noite, às 20 horas.
O aviso estava manuscrito. Deringhouse
acreditava que durante a reunião se falaria nos acontecimentos daquele dia.

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