quarta-feira, 21 de novembro de 2012

P-027 - O Domínio do Hipno - Clark Darlton [parte 2]


Bell sentia-se no seu elemento, embora estivesse convencido de que estava realizando um ensaio de alarma. Se é que o Supercrânio realmente conseguira, através de um estratagema, se apossar da Good Hope-VII — assim raciocinou naquele instante — ele não seria leviano a ponto de expor a valiosa presa a um risco tão grave. De qualquer maneira, prosseguiu no seu raciocínio, não se podia deixar de lado o fato de que o major Deringhouse, geralmente tão correto, estava agindo de forma bastante estranha.
Não respondia a qualquer mensagem; inexoravelmente e num mutismo impenetrável aproximava-se da Terra. Deixara de enviar o relatório de rotina. Suspendera antes do tempo a busca do Supercrânio, sem fornecer qualquer explicação de tal procedimento.
No fundo, havia motivo para desencadear o alarma em Terrânia, concluiu Bell.
Atrás das extensas áreas dos estaleiros do espaçoporto, as unidades robotizadas assumiam suas posições. Evidentemente os radiadores nada poderiam fazer contra a Good Hope-VII com seus campos energéticos, mas o procedimento de Bell foi puramente instintivo. O espaçoporto ficava fora da área protegida pela abóbada energética, e esse fato teria que ser considerado nos preparativos. Uma decisão definitiva e uma série de medidas defensivas só se tornariam possíveis quando os piores temores se confirmassem. E Bell não contava com essa hipótese.
No mesmo instante Rhodan estava transmitindo as necessárias informações ao Exército de Mutantes. Preferiu não recorrer aos membros mais novos; contentou-se com os homens da velha guarda. Receberam a notícia com a maior tranqüilidade; apenas Gucky mostrou-se bastante nervoso.
O rato-castor, de um metro de comprimento, saltitava de um lado para outro, reforçava cada passo com uma forte pancada de sua cauda achatada, exibia o dente roedor e arrepiava o pêlo marrom-avermelhado. Quem quisesse ver nesse rato-castor um bicho como qualquer outro, estaria cometendo um grande erro. Era muito mais que isso. Gucky viera de um planeta solitário e, em virtude de suas faculdades telecinéticas, fora incorporado ao Exército de Mutantes. Além disso, Gucky era telepata e, como tal, não tivera a menor dificuldade em aprender as principais línguas terrenas.
— Esse Supercrânio! — chiou com sua voz extremamente fina. — Desta vez darei cabo dele. Afinal, não pude participar da última luta.
— Não o subestime — advertiu-o Rhodan, reprimindo um sorriso. — Além disso, nem sabemos se realmente estamos sendo atacados. Apenas suspeitamos e temos de aguardar para ver se nossa suspeita tem fundamento. Marshall, escolha as pessoas adequadas e procure manter contato indireto com Deringhouse. Recorra aos localizadores, espias, goniômetros e telepatas. Marten tentará penetrar no espírito de Deringhouse e procurará ver através de seus olhos. Há muita pressa. Gucky irá comigo ao espaçoporto. Betty Toufry, você também irá comigo. Marshall, você assumirá o comando sobre todo o Exército de Mutantes e o fará entrar em ação. O alarma real será desencadeado assim que a situação tiver sido esclarecida. Entendido?
O australiano confirmou com um aceno de cabeça.
— Entendido.
— Ficaremos em contato pelo rádio. Em hipótese alguma deixe a proteção da abóbada energética sem que tenha recebido ordem expressa para isso.
Acompanhado de Gucky e Betty Toufry, saiu apressadamente do edifício e entrou num carro veloz, que os levou ao espaçoporto.
Não foi sem motivo que Rhodan fez questão de levar justamente Gucky e Betty.
Gucky era o telecineta mais potente que já se vira. Às vezes chegava a teleguiar formações inteiras de aviões velozes, por mais que os pilotos se opusessem. Betty Toufry era telepata e telecineta. Era uma moça muito jovem, mas possuía o cérebro superior e as faculdades de um gênio. De si para si, Rhodan era de opinião que pertencia a um tipo humano ainda em formação. Estava à frente do seu tempo em todos os sentidos.
Em virtude do alarma, as ruas pareciam mortas. Era bem verdade que o crepúsculo já havia descido sobre a terra, e logo mais seria noite. Mas geralmente a essa hora começava a vida noturna de Terrânia. Hoje não se notava nada disso. As pessoas que regressavam do trabalho haviam corrido para os abrigos mais próximos. Esses abrigos ainda davam mostras dos tempos de desassossego que acompanharam a formação da Terceira Potência. Os funcionários administrativos ficavam nas casas e, quando muito, iam aos porões, seguindo as instruções em vigor. As ruas de fitas transportadoras continuavam a rolar em direção à cidade, mas estavam praticamente vazias. De espaço a espaço, um policial solitário patrulhava as ruas e praças.
Deixando a cidade à sua direita, Rhodan correu pela pista de dez metros em direção à área do espaçoporto. À sua esquerda estendia-se o deserto. No horizonte a escuridão já havia descido à terra, enquanto no oeste o céu brilhava num vermelho sangüíneo, anunciando o fim de mais um dia.
Rhodan ligou o dispositivo direcional automatizado de radar do veículo e, através do minitransmissor de pulso, entrou em contato com o coronel Freyt, que se encontrava nas instalações centrais.
— Alô, Freyt! Estou a caminho do espaçoporto, onde Deringhouse deverá pousar, se é que pousa. O que há de novo? Já conseguiu estabelecer contato com o girino VII?
— Nada — respondeu Freyt. — A Good Hope-VII não responde a qualquer mensagem. Talvez o rádio da nave esteja com defeito.
— Também é uma possibilidade — confessou Rhodan, sem abandonar a atitude de ceticismo. — Mas acredito que nessa hipótese Deringhouse teria transmitido alguma notícia através da Z-45. Sabe perfeitamente que qualquer nave que não se identifique antes do pouso é tratada como inimiga. Está bem; ficarei em recepção. Entre em contato comigo assim que haja qualquer novidade.
— Perfeitamente.
Os olhos de Betty Toufry estavam sérios e muito abertos. Rhodan olhou-a de lado, enquanto sua mão esquerda afagava o pêlo de Gucky.
— Será que as coisas ficarão muito ruins? — perguntou ao ler a preocupação nos pensamentos de Rhodan. — O que terá acontecido?
— Muita coisa pode ter acontecido, Betty. Não sabemos, e quando soubermos talvez seja tarde. A que distância você pode captar fluxos de pensamento? Acredita que conseguirá ler os pensamentos de Deringhouse enquanto ele ainda se encontrar além da atmosfera terrestre?
— Talvez. Preciso conhecer a direção exata para me concentrar ao máximo.
— No devido tempo saberemos a direção, Betty.
Rhodan voltou a olhar para a frente e desligou a direção automática. Os estaleiros surgiram na semi-escuridão. Raríssimas luzes estavam acesas, e o campo de pouso, que costumava ficar profusamente iluminado, jazia numa escuridão completa.
Rhodan parou diante do edifício principal. Segurando a mão de Betty, correu para a entrada. Foi seguido pelos passos balouçantes de Gucky, que xingava em sua voz chilreante.
Quando Rhodan entrou, Bell soltou um suspiro de alívio. Estava sentado à frente do quadro de chaves de um gigantesco painel de controle. Lidava simultaneamente com os diversos aparelhos de rádio, através dos quais controlava as unidades do exército e cuidava da entrada em ação dos robôs de combate. Transmitiu mais algumas instruções, colocou várias chaves na posição de repouso e se levantou.
— Ainda bem que você veio — disse. — Sozinho não agüentaria isto por muito tempo.
— De resto tudo em ordem? — perguntou Rhodan.
— Pelo que vejo, sim. Mas chego a acreditar que você vê as coisas pretas demais. Deringhouse dará risada ao ver que confusão causou. É possível que seu rádio esteja com defeito...
— Não temos muito tempo para especular sobre o sentido e a finalidade das medidas de precaução que estamos adotando. A hora logo chegará — comunicou Rhodan.
No mesmo instante o receptor de Rhodan emitiu um zumbido. Era Freyt.
— Já está na sala principal do espaçoporto?
— Sim, pode mudar a ligação.
Dali a poucos segundos o rosto de Freyt surgiu na tela. Olhou para a sala por alguns segundos e começou a falar.
— Deringhouse reduziu a velocidade de seu veículo esférico. A nave penetrou na atmosfera terrestre e continua a baixar. Se continuar na mesma direção, deverá pousar no território da Terceira Potência.
Fez uma pausa. Depois prosseguiu:
— Já conseguimos estabelecer contato visual com o girino VII. Quanto ao aspecto externo não se nota qualquer alteração. Os destróieres não estão à vista. Continua a se aproximar. O campo energético protetor não foi ativado. Começo a acreditar que andamos vendo fantasmas.
— Não acredito em fantasmas — retrucou Rhodan e deu fim à palestra. Chamou John Marshall. O telepata respondeu imediatamente.
— O Exército de Mutantes está entrando em ação. Wuriu Sengu já conseguiu captar uma imagem, ainda pouco nítida, da sala de comando do girino VII.
Sengu era um japonês dotado de uma capacidade extraordinária. Via através da matéria opaca, mesmo a grande distância.
— Diz que a nave está sendo dirigida por Deringhouse. Ao menos é ele que se encontra no assento do piloto. É estranho, não acha? — completou Marshall.
— Por que o comandante de uma nave não vai assumir a direção durante o pouso? — disse Rhodan, um tanto admirado. — Há mais algum detalhe?
— Fellmer Lloyd, nosso localizador, captou modelos de ondas cerebrais muito débeis, mas não conseguiu identificá-las. Afirma que retratam principalmente a indiferença. E captou mais uma coisa indefinível. Não consegue descrever os. sentimentos do portador desse modelo de ondas cerebrais.
— Deve continuar a se concentrar — ordenou Rhodan. — Avise-me assim que haja algo de anormal.
Mais uma vez entrou em contato com Freyt.
— Coronel, preciso imediatamente da posição exata do girino número sete.
Dali a dois minutos, Betty estava reclinada numa poltrona confortável. De olhos fechados, olhava obliquamente para o teto da sala, que não representava qualquer obstáculo aos seus pensamentos tateantes.
Aflito, Rhodan aguardava o resultado.
Subitamente os traços do rosto da jovem se contraíram. Os lábios estreitaram-se e as mãos tremeram. Parecia que Betty procurava ouvir vozes distantes, que mal entendia. De repente abriu os olhos.
— Quem dirige a nave é Deringhouse, mas também não é. Seu modelo de ondas cerebrais é idêntico ao de alguns dos mutantes do Supercrânio que nós aprisionamos. Receio que...
Rhodan não perdeu um segundo. Chamou Freyt e ordenou-lhe que imediatamente desencadeasse o alarma 1. Marshall também foi avisado. Bell transmitiu as necessárias instruções ao exército. Os robôs apontaram os canhões para o céu, que nesse meio tempo havia enegrecido.
Terrânia estava preparada para receber o Supercrânio, que vinha oculto no espírito de Deringhouse.
Todos sabiam que o major Deringhouse estava perdido.
O tenente Carell da guarda fronteira também não o ignorava. Era bem verdade que não tinha sob seu comando qualquer canhão de radiação capaz de destruir a Good Hope-VII; cabia-lhe vigiar, com sua pequena unidade, a fronteira leste da Terceira Potência.
Estava realizando uma inspeção. O pequeno rádio que trazia consigo permitia-lhe um contato permanente com os postos de comando. Uma vez que nenhum perigo real ameaçava a fronteira, andou ao longo do campo de pouso e controlou as sentinelas ali postadas.
Uma sombra imensa destacou-se no horizonte escuro. Era a Stardust-III, a maior nave espacial que existia. Com oitocentos metros de diâmetro, alcançava velocidade superior à da luz, tinha a bordo um armamento inconcebível e abrigava uma tripulação permanente de quinhentos homens. Rhodan apreendera a nave dos tópsidas, quando estes tentaram conquistar o sistema Vega.
Ao lado dela estavam estacionados dois cruzadores pesados da classe Terra, construídos em nosso planeta: o Terra e o Solar System. Seu diâmetro atingia duzentos metros. Também tinham forma esférica, que oferecia grandes vantagens. Os doze girinos, de tamanho idêntico ao das naves da classe Good Hope, encontravam-se a certa distância, prontos para decolar. Aguardavam instruções para entrar em ação.
O tenente Carell constatou esses fatos, enquanto ouvia distraidamente as últimas instruções de alarma de Rhodan. Parecia que a situação começava a ficar séria. E nem havia certeza se Deringhouse...
Foi o último pensamento de Carell. Há um instante caminhara pelo concreto do campo de pouso, vivendo com todas as células de seu corpo. Dentro de um segundo transformou-se numa bomba atômica em detonação, que derreteu o concreto numa grande extensão. A imensa bola de fogo iluminou o gigantesco campo de pouso, fazendo com que todos os detalhes se tornassem nitidamente perceptíveis. Um cogumelo de fumaça negra abriu-se e foi subindo lentamente. Aos poucos a bola de fogo foi se apagando.
A onda de compressão e de calor percorreu o campo de pouso em direção às naves que se mantinham prontas para decolar.
Rhodan e Bell viram o relampejo. Pela forma da explosão concluíram imediatamente que tipo de descarga energética tinham diante de si. Enquanto os dois homens se atiravam ao solo, Rhodan chamou as quinze naves espaciais:
— Decolem! Decolem imediatamente! Mantenham contato e coloquem-se numa distância segura.
Sentado no chão, Bell ligou o aparelho que lhe permitia controlar toda a cidade de Terrânia. Dentro de poucos segundos vinte telas iluminaram-se, retratando todo o território da Terceira Potência, visto de cima. Como numa figura em alto-relevo, a cidade estendia-se embaixo do observador. As ruas iluminadas formavam retas perfeitas. Ao lado desse quadro o deserto estendia-se até o espaçoporto. As telas do meio mostravam o território situado embaixo da abóbada energética. Era ali que se situava o verdadeiro centro do poder de Rhodan.
Com o rosto transformado em máscara, Bell viu que numa das extremidades do campo de pouso um canhão de radiações robotizado se desmanchou numa nuvem de incandescência radiativa. A tela retratou o fenômeno em todos os seus detalhes, tornando-o ainda mais misterioso. Nenhum tiro havia sido disparado, e ninguém atirara uma bomba. A Good Hope-VII ainda se encontrava a uma distância muito grande para fazer uma pontaria tão precisa.
Apesar disso as bombas atômicas estavam explodindo no território da Terceira Potência.
— Não é possível! — disse Bell com um gemido.
Betty continuava reclinada em sua poltrona. As ondas de choque desencadeadas pelas explosões percorriam a área. O calor começava a se tornar insuportável.
— Deve haver alguma explicação — murmurou Rhodan, embora soubesse que não a tinha à mão.
Em vários pontos as telas se iluminavam.
As bombas atômicas detonavam em toda parte, vindas do nada. Unidades completas do exército de robôs desmanchavam-se no ar, antes que pudessem entrar em ação... contra quem? Mesmo Rhodan ainda não percebia que os próprios robôs se transformavam em bombas atômicas.
O coronel Freyt chamava com urgência, usando todas as faixas disponíveis.
— Perry Rhodan! Alarma máximo. O girino número sete está atacando. Só pode ser o girino número sete sob o comando de Deringhouse. Crest recomenda o uso da bomba gravitacional. Supõe que Deringhouse esteja usando a nova arma do Supercrânio, que lhe permite desencadear a grande distância um processo de fusão em qualquer porção de matéria. Aguardo suas instruções.
De uma hora para outra um silêncio apavorante espalhou-se naquela sala do edifício principal.
Rhodan fitou os olhos muito arregalados de Freyt. Pela primeira vez lia neles uma desorientação completa — e era precisamente o que ele mesmo sentia.
— A bomba gravitacional? — disse, estremecendo. — Em plena Terra? Pode ser o fim, Freyt. Diga a Crest que não quero assumir o risco de utilizar a arma definitiva. Devemos encontrar outra saída. Por enquanto os senhores, que estão sob o abrigo da abóbada energética, estão em segurança.
No mesmo instante viu a prova da falsidade de suas palavras. Pelo canto do olho Rhodan viu perfeitamente que na tela do centro surgiu uma mancha de fogo, que aumentou rapidamente e voltou a se apagar.
A arma do Supercrânio podia romper o envoltório protetor dos arcônidas, que nem mesmo os foguetes atômicos das superpotências haviam conseguido destruir.
Era o fim, se não acontecesse um milagre.
— Bell! — a voz de Rhodan continuava calma e controlada. — Pegue um destróier de três homens e suba imediatamente à estratosfera. Betty e Gucky irão com você. Procurem entrar em contato com Deringhouse. Vamos logo, não percam tempo. Bell não se mexeu.
— E você?
— Faça o que digo. Não se preocupe comigo. Irei nos outros destróieres e assumirei o comando da Stardust-III. Talvez nossos hipnos consigam romper a vontade do Supercrânio.
Bell se levantou lentamente. Olhou para Betty.
— Quer que numa missão de vida e morte leve uma moça?
— Sou membro do Exército de Mutantes como qualquer outro — protestou Betty cheia de indignação.
Parecia não sentir medo.
— Betty é a mais potente das nossas telepatas — confirmou Rhodan. — Se é que alguém pode descobrir as intenções do Supercrânio encarnado em Deringhouse, é Betty. Ficaremos em contato.
Ao mesmo tempo Rhodan pôs em estado de alarma os destróieres guardados nos hangares. Freyt foi avisado. Marshall e seus mutantes correram para o campo de pouso, enquanto mais dois robôs de combate desfizeram-se numa detonação atômica.
Bell, Betty e Gucky entraram no Z-13, que estava pronto para decolar. Mal a escotilha se fechou, a nave deslizou pelo trilho horizontal e, uma vez do lado de fora, subiu numa trajetória inclinada. Numa aceleração louca, disparou para o céu negro do deserto.
Subitamente uma das áreas situadas lá embaixo, do lado esquerdo, transformou-se num inferno de fogo. Era o pequeno hangar com os dois destróieres de reserva. Bell, que por acaso olhara para a tela de popa, fechou os olhos diante da luminosidade ofuscante. Num cálculo veloz certificou-se de que nem Rhodan nem Marshall com seus mutantes podiam ter chegado aos dois destróieres.
A tela de proa!
Ligou o rastreador de escuridão e dentro de dez segundos viu a Good Hope-VII, que surgiu nitidamente na tela. Ao que parecia Deringhouse não tinha a intenção de pousar; mantinha-se acima de Terrânia, numa altitude de dez quilômetros.
— Deve ser este — chiou Gucky, que se encontrava mais aos fundos, recuperando-se do cansaço da corrida. — Não o vejo atirar bombas.
Bell não tirou os olhos da tela, enquanto reduzia a velocidade da Z-13.
— Nem pode ver. Está usando uma arma nova. Você acredita que conseguiria assumir o controle telecinético dessa canoa?
— Talvez — disse Gucky, duvidando de sua capacidade. — Vou tentar.
Mas não chegou a tentar.
De repente, a Good Hope-VII descreveu uma curva elegante e, com a aceleração máxima, disparou para o espaço, deixando para trás o Z-13 e os destróieres que acabavam de decolar da Terra.
Será que o Supercrânio desistira do ataque?

3



Em agosto de 1949 a primeira bomba atômica da União Soviética explodiu na Sibéria. O acontecimento surpreendeu e apavorou o mundo ocidental. Mas também apavorou os cientistas soviéticos, ao menos alguns dos que assistiram pessoalmente à explosão.
Ivã Vassilevitch Goratchim e sua jovem esposa Ludmila pertenciam à equipe pioneira. As condições meteorológicas desfavoráveis que surgiram logo após a explosão fizeram com que a nuvem de poeira radiativa se abatesse sobre eles. Os exames realizados imediatamente após o acidente revelaram que a dose de radiatividade a que ambos estiveram expostos era mortal.
Goratchim não concordou em se separar da esposa e ser internado num hospital. No fundo do coração sabia que só viveria mais alguns meses, talvez um ano; e ainda tinha um pressentimento de que o destino que o atingira ainda seria o de várias gerações futuras.
Fugiu com a esposa para as tundras da Sibéria, apagou todas as pistas e desapareceu.
Na beira de algum rio entrou em contato com madeireiros que viviam principalmente da caça e só a contragosto se desincumbiram dos seus deveres para com o Estado. Não se mostraram interessados em saber quem eram o homem e a mulher em busca de refúgio. Acolheram-nos, ajudaram o homem a construir uma cabana e, em recompensa, valeram-se dos seus serviços de conselheiro no soviet da aldeia. Sabia preencher os documentos de entrega exigidos pelo governo de tal forma que dali em diante não houve mais problemas com as comissões de controle que a cada três ou quatro anos surgiam na aldeia. Ludmila deu à luz um filho. Era um monstro de duas cabeças. Ao nascer pesava sete quilos e meio, tinha pele verde e escamosa, e pernas compridas e robustas.
Só com grande esforço Ivã conseguiu impedir que os habitantes da aldeia matassem seu filho. Invocou os direitos do indivíduo e a igualdade dos homens. Os madeireiros cederam, mas passaram a evitar os fugitivos que se haviam instalado em seu meio.
De qualquer maneira, o mutante foi criado na aldeia solitária. Quando chegou aos três anos, todo mundo havia se acostumado à sua figura, mas os pais estavam mortos.
Um belo dia Ivã Vassilevitch desaparecera. Ludmila pedira aos madeireiros que não o procurassem. Só ela sabia que o esposo queria evitar aos outros homens a visão do quadro que seu corpo oferecia. Pouco depois sentira que sua hora também havia chegado. O filho de duas cabeças estava com três anos. Já sabia se alimentar e ajudava os madeireiros em seu trabalho na floresta.
De forma que também Ludmila desaparecera um dia, e nunca mais fora vista. Tal qual o marido, morrera sozinha na tundra solitária.
Com quinze anos, Ivã era um membro da comunidade, tratado de igual para igual pelos outros. Ninguém pensaria em zombar dele por causa das duas cabeças. Quando apareciam pessoas de fora, ele se escondia. Não queria que ninguém soubesse de sua existência.
E assim Ivã atingiu a idade de vinte e três anos. Sua autoconfiança crescera. Certo dia, quando uma comissão visitou a aldeia, não se escondeu mais.
Seu aspecto provocou horror, e depois despertou a admiração dos visitantes.
Um deles passou a demonstrar um interesse todo especial por Ivã.
— Amigo, você não está com vontade de ir comigo para as grandes cidades?
— Não, não estou com vontade — respondeu Ivã. Sem dizer mais uma palavra retirou-se e encontrou-se com os amigos na beira do rio, onde pescavam pelos buracos abertos no gelo.
Dali a quatro meses, o estranho voltou. Mas dessa vez não veio só. Trouxe consigo quatro soldados uniformizados que traziam fuzis nas mãos. Vinham a mando do governo, e deviam levar Ivã, segundo diziam.
A aldeia não fazia nenhuma questão de chamar a atenção do governo. Ivã reconheceu isso e compreendeu seu ponto de vista. No fundo era um sujeito bonachão, e no seu enorme corpo de dois metros e meio de comprimento palpitava um coração russo do dobro do tamanho normal. E esse coração sabia odiar com intensidade dobrada, quando fosse necessário.
Dessa vez era necessário.
Ivã não resistiu quando os soldados o colocaram entre si e o levaram. O estranho, que trajava um grosso casaco de pele, ia à pequena distância atrás deles. Mantinha ambas as mãos enterradas nos bolsos e Ivã sabia que neles guardava suas pistolas.
Os madeireiros seguiram o grupo com os olhos e conformaram-se com a idéia de que nunca mais chegariam a ver Ivã. Só agora começaram a dar-se conta do que valia. Não salvara a vida de alguns deles quando estavam perdidos no mato e não tinham mais nenhum fósforo? Fazia um frio terrível, a lenha estava dura e congelada. Não havia fogo. Foi quando Ivã acendeu uma fogueira, uma fogueira enorme que não se apagou mais. Apenas olhara para certo lugar... e as chamas começaram a se erguer. Não demoraram em recuperar as forças; assim puderam voltar à aldeia, que logo encontraram.
Ninguém se dera ao trabalho de refletir sobre a maneira pela qual Ivã pudera pôr fogo na lenha congelada.
Quando Ivã voltou já era escuro. Sua perna sangrava; havia sido perfurada pela bala disparada por aquele estranho. Os lenhadores cobriram-no de perguntas, mas Ivã não respondeu. Limitava-se a fitar a floresta e a encosta suave, atrás da qual ficava a tundra que se tinha de atravessar para chegar às cidades feitas pelos homens.
Um brilho súbito surgiu em seus olhos.
— Estão voltando — murmurou.
Os madeireiros estremeceram: olhavam para a noite, mas não viam nada além dos troncos escuros das árvores.
Os homens calaram-se e acompanharam seu olhar vidente, sem descobrir o objetivo. O morro ficava a quase dez quilômetros, e a noite estava escura como breu.
Ivã fechou os quatro olhos. Estava sentado num tronco e apoiou as mãos no mesmo. Tinha o corpo ligeiramente inclinado para a frente. Sabia para onde devia dirigir seus fluxos mentais; por alguns segundos uma lamparina se acendeu.
E o inconcebível aconteceu.
De repente viu-se uma terrível explosão na floresta. Uma bola de fogo ofuscante formou-se e subiu lentamente em direção às estrelas. Quando a bola se apagou e escureceu, restou uma nuvem que emitia uma luminosidade débil. Parecia um gigantesco cogumelo que se espalhou e assumiu formas apavorantes.
Depois disso, uma onda de calor passou pela aldeia, derreteu a neve que ainda restava e abriu grandes fendas no gelo fino do rio. As mulheres soltaram gritos de pavor e atiraram-se ao solo. Ivã soltou uma terrível gargalhada, mas em sua risada ouvia-se o pavor pelo que acabara de fazer. Os homens fizeram o sinal-da-cruz.
Por muito tempo falaram sobre o milagre, mas ninguém soube dar uma explicação. Ivã retirou-se para sua cabana e não quis falar com ninguém.
Quando o dia amanheceu, todos dirigiram-se para o morro. O que lhes foi dado ver era um mistério ainda maior que a pavorosa explosão da noite anterior. Uma gigantesca cratera havia sido aberta em plena rocha, arrastando consigo as árvores, os arbustos e as neves. Num círculo de dois quilômetros não havia nenhuma planta viva. A mancha negra da devastação formava um círculo quase perfeito, em cujo centro ficava a cratera.
Dos cinco caçadores de gente não sobrava mais que isso.
Dali em diante Ivã se transformou numa supercriatura. Ao que parecia gostava do papel que passara a desempenhar, e não se fazia rogado para dar pequenos exemplos de sua força misteriosa. Não poderia saber que aquela força não era outra coisa senão a herança deixada por seus infelizes pais, cujas células genéticas haviam sofrido tamanha alteração em virtude das radiações a que estiveram expostas.
Dali a alguns anos, Clifford Monterny começou a formar seu exército de mutantes. Ivã nunca teria acompanhado espontaneamente aquele estranho inchado que certo dia apareceu nas terras solitárias da Sibéria. Acontece que aquele estranho era o hipno mais potente do mundo. Obrigou Ivã a se submeter à sua vontade e ordenou-lhe que dali por diante fosse seu servo fiel.
Ivã obedeceu e acompanhou Clifford Monterny para a América, onde ficava o quartel-general do Supercrânio. Ali lhe foi dispensado o treinamento que o transformou na arma mais perigosa do mundo. Sob a orientação do Supercrânio, Ivã não demorou em captar, ótica e espiritualmente, qualquer alvo situado a muitos quilômetros de distância, transformando-o em energia atômica.
Monterny levou o mais precioso de seus mutantes para Marte, onde acabara de instalar uma base. Depois disso, a guerra contra a Terceira Potência foi iniciada.
A batalha terminara com a vitória de Rhodan. Mas Monterny conseguiu escapar e fugiu para Marte, onde Ivã e duas dezenas de ajudantes, aos quais fora aplicado um bloqueio hipnótico, estavam à sua espera. Muitas vezes Monterny escolhera seus aliados entre certos elementos criminosos, porque o desaparecimento destes era menos notado pela sociedade humana do que seria o de bons pais de família ou personalidades desconhecidas.
E agora, quando o major Deringhouse com a Good Hope-VII esteve a ponto de descobrir a base de Marte, tão bem escondida, o Supercrânio agiu. Além do mais, não quis perder essa chance única de se apoderar da nave esférica.
Tudo saiu segundo o planejado.
Deringhouse ordenou aos seus homens que saíssem da nave. Poucos segundos depois estavam sob o controle do Supercrânio, que lhes aplicou um bloqueio hipnótico. Os cinco destróieres que restavam encontraram seu porto num desfiladeiro. Os tripulantes foram trancafiados.
O major Deringhouse e vinte e cinco dos seus homens receberam ordens para desencadear um ataque decisivo contra o quartel-general de Perry Rhodan em Terrânia.
Ivã Ivanovitch seria a arma principal.

* * *

O major Deringhouse despediu-se do Supercrânio, pelo qual não sentia simpatia nem antipatia. O mesmo não lhe provocava qualquer sentimento e o aspecto apavorante de Ivã deixava-o completamente frio. O mesmo acontecia a seus homens.
Apesar disso, os homens submetidos ao controle do Supercrânio não poderiam ser considerados seres cem por cento automatizados. Ao menos com Ivã isso não acontecia, pois, no curso dos últimos três anos, ele havia recuperado parte de sua capacidade individual de pensar. A independência mental não foi suficiente para libertá-lo do domínio do Supercrânio, mas permitiu-lhe que refletisse sobre certos problemas; por enquanto tratava-se dos problemas de natureza secundária.
Havia, por exemplo, o problema de qual das duas cabeças era a mais velha e, portanto, a que recebia mais intensamente os impulsos nervosos.
A cabeça do lado direito foi chamada de Ivã — o que no fundo era uma falsidade e uma tolice — e afirmava que sua consciência havia despertado três segundos antes da outra cabeça. O tema deu margem a discussões que duravam horas. Essas discussões sempre terminavam no nada, pois ambas as cabeças dispunham de um só corpo e um único sistema nervoso.
Da mesma forma que era errôneo chamar a cabeça do lado direito de Ivã, não se justificava que a outra fosse tratada de Ivanovitch. A atribuição desses nomes resultará de um engano do Supercrânio, que nunca dera a menor atenção ao fato de que os costumes russos exigem dois nomes para cada pessoa; no caso de Goratchim, Ivã era o nome propriamente dito, enquanto Ivanovitch apenas significava “filho de Ivã”.
Mas aconteceu o que tantas vezes se vê: do erro resultou um nome chistoso e permanente...
A Good Hope-VII decolou. Marte não demorou a mergulhar na imensidão do espaço. Quando passou pela nave Z-45, o major Deringhouse teve a impressão de que deveria fazer alguma coisa, mas a voz do Supercrânio logo soou em sua mente:
“Prossiga no seu vôo, Deringhouse. Não se incomode com nada que aconteça fora de sua nave. Está ouvindo? Não precisa se incomodar com coisa alguma, pois cuidei de tudo. Voe para Terrânia sem se anunciar. Fique parado acima da cúpula energética de Terrânia, numa altitude de dez quilômetros, e não faça nada.”
Bem no subconsciente, o último comando tranqüilizou Deringhouse. Sentiu-se aliviado por não ter que lançar mão de suas armas, muito embora não pudesse deixar de dar a devida atenção a uma ordem desse tipo, se a mesma fosse dada.
E a Good Hope-VII ficou parada acima de Terrânia. Conforme as instruções recebidas, todos os aparelhos de comunicação e localização haviam sido desligados. Dessa forma Deringhouse não ouviu os chamados insistentes de Rhodan e do coronel Freyt. Contemplou indiferente os lampejos das explosões atômicas que se verificavam lá embaixo. Acreditava que as mesmas não eram causadas nem por ele, nem por seus homens.
Mais uma vez seu subconsciente, ainda não inteiramente adormecido, sentia-se tranqüilizado.
Ivã Ivanovitch, sentado na cama, estava sozinho no seu camarote. Seus olhos inexpressivos fitavam as telas de imagem. Voltava constantemente a emitir seus olhares concentrados, até que estes encontraram a primeira vítima em movimento.
Foi o tenente Carell.
Carell era um homem, isto é, um organismo vivo, e como tal consistia em parte de átomos de cálcio e carbono, e suas combinações. Os fluxos mentais de Ivã, quando bastante concentrados, produziam nas mais diversas substâncias o efeito que um detonador causa num explosivo perigoso. Liberavam a energia contida na matéria. Isso significava que Ivã podia transformar qualquer ser humano numa bomba atômica em detonação sempre que o desejasse.
E não sabia produzir esse tipo de transformação apenas nos seres humanos. Quase todas as substâncias compostas do universo contêm carbono. Por isso não se limitou a fazer explodir seres humanos; dirigiu seus ataques também contra os robôs de combate da Terceira Potência. Ia desencadeando a esmo as explosões aniquiladoras lá na Terra, sem se dar conta do mal que causava com isso.
Enquanto isso, o Supercrânio encontrava-se bem longe, em Marte, e dirigia as atividades de seu detonador, nome que dera ao mutante duplo Ivã Ivanovitch. Era essa sua arma misteriosa e desconhecida; com ela esperava infligir a derrota final a Rhodan.
Os acontecimentos haviam chegado a esse estágio quando surgiu um imprevisto, com o qual nem o Supercrânio contara. Seu bloqueio hipnótico era firme, e não podia ser afetado, muito menos eliminado, mesmo a grande distância. Acontece que Rhodan também tinha seus mutantes.
Como, por exemplo, Betty Toufry.
O primeiro contato, bastante débil, que estabeleceu com Deringhouse, fez com que a vontade extremamente forte do Supercrânio, que se encontrava a uma distância muito grande, recebesse seu primeiro golpe, ao menos no que dizia respeito ao bloqueio hipnótico a que Deringhouse estava sujeito.
Ainda havia André Noir, o hipno.
Evidentemente as faculdades de Noir não eram tão potentes como as do Supercrânio, mas bastavam para fazer com que um ser que se encontrava a bordo da Good Hope-VII vacilasse, no sentido em que o Supercrânio empregava o termo, mesmo durante a fuga precipitada. Enquanto fugia em direção ao espaçoporto de Terrânia, Noir conseguiu estabelecer contato com sua vítima, removendo parcialmente o bloqueio hipnótico do Supercrânio.
Enquanto isso, John Marshall, o telepata, captava fragmentos de idéias verdadeiramente pavorosas. No primeiro instante não julgou possível que se tratasse de pensamentos humanos. Mas se lembrou de que Fellmer Lloyd captara estruturas mentais semelhantes por ocasião do primeiro contato.
Não havia dúvida de que vinham da Good Hope-VII.
De uma hora para outra os impulsos mentais cessaram. Também não houve mais nenhuma explosão atômica. Nem mesmo Rhodan desconfiou de que houvesse alguma relação entre os dois fenômenos.
No mesmo instante, a Good Hope-VII acelerou loucamente e desapareceu em direção a Marte.

4



Bell estava perplexo. Olhou para a tela, onde o tamanho da nave esférica diminuía tão depressa que até parecia uma bola que caía no abismo da eternidade.
Gucky viu que lhe fora roubada a oportunidade de dar prova do seu saber.
— Está fugindo de mim — consolou-se com um chiado agudo, que exprimia ao mesmo tempo a alegria e a contrariedade. — Percebeu que eu pretendia agarrá-lo. O Supercrânio é um covarde!
— Você não devia tirar conclusões apressadas e por isso mesmo falsas — advertiu-o Betty Toufry, que estava sentada numa grande poltrona. — Você é um ótimo telecineta, mas um péssimo telepata...
— ...e você é uma ótima telepata, mas uma péssima telecineta — defendeu-se Gucky, que parecia furioso.
— Isso mesmo — confirmou a moça, sem demonstrar a menor contrariedade. — E é por isso que sua conclusão, segundo a qual o Supercrânio está com medo de você, é falsa.
— Estabeleceu contato com Deringhouse? — interveio Bell, enquanto, em vão tentava estabelecer contato pelo rádio com Rhodan ou o coronel Freyt.
— Diretamente não — Betty sacudiu a cabeça. — Por um instante acreditei que sentia sua insegurança, mas logo seus débeis fluxos mentais foram superados por um outro, mais próximo e mais forte...
— O Supercrânio — conjeturou Bell sem refletir.
Mais uma vez Betty sacudiu a cabeça.
— Eu disse: mais próximo. O Supercrânio está em Marte. Deve ter um representante habilitado na Good Hope-VII, que dá as ordens a Deringhouse. Foram estes os pensamentos que captei.
— E daí? — perguntou Bell, tenso de curiosidade. Girou os botões do receptor e ouviu um zumbido monótono. Era o sinal de chamada da Terceira Potência.
— Mandou que Deringhouse se retirasse imediatamente até as proximidades da Lua.
— Da Lua? — perguntou Bell, abrindo o volume. — Por que justamente nas proximidades da Lua?
— Não sei — respondeu a moça; parecia desorientada. — De qualquer maneira, nos pensamentos do estranho não havia o menor sinal de medo. Antes notava-se uma certa superioridade e alguns traços de arrependimento. Já não entendo mais nada.
— De arrependimento? — Bell lançou um olhar indagador para Betty. — Por que teria ordenado a destruição da Terceira Potência, para depois sentir arrependimento? Ah... aí está Rhodan.
Regulou o som e ligou a imagem. Poucos instantes depois o rosto de Rhodan surgiu na enorme tela. Via-se nele uma expressão de enorme surpresa. As rugas profundas faziam-no parecer alguns anos mais velho.
— Alô, Bell. O que houve? Perdemos Deringhouse?
— O que houve aí embaixo? — indagou Bell.
— Alguma destruição, mas o bombardeio terminou de repente — apressou-se Rhodan em responder, pois sabia perfeitamente que antes disso Bell não lhe contaria nada. — O Exército de Mutantes está nos destróieres juntamente comigo. Pretendia-mos iniciar a caçada, mas Deringhouse desapareceu.
— Retirou-se para a Lua — disse Bell. — Betty conseguiu captar alguns pensamentos.
— Está bem. Embarcarei na Stardust-III com os mutantes e iniciarei a perseguição. Freyt irá atrás de mim com seus destróieres de combate. Você procurará localizar a pista. Betty fará o possível para continuar a manter contato com Deringhouse.
— Há alguém a bordo da Good Hope-VII — disse Bell com a voz insegura. — Alguém que desencadeou as explosões na Terra e agora está arrependido. É o que Betty afirma. Esse alguém também deve estar habilitado para dar instruções a Deringhouse.
— Será? — disse Rhodan. Ficou calado por alguns segundos. — Não seria nada mau se conseguíssemos capturar esse alguém vivo.
— Faremos o possível — prometeu Bell.
— Iniciem a perseguição — concluiu Rhodan. — Seguiremos atrás de vocês a uma distância segura. Fiquem em recepção. Fim.
Bell dedicou sua atenção aos controles. Não demorou que voltasse a captar a imagem da Good Hope-VII. A nave esférica entrara em órbita em torno da Lua.
A Terra afundou atrás da Z-13 tal qual uma pedra no mar. A esfera metálica que aparecia na tela aumentava a olhos vistos. Bell acompanhava todas as mensagens trocadas entre Rhodan e as outras naves. Dessa forma conseguiu pôr-se a par do que acontecia atrás dele. Rhodan assumiu o controle da Stardust-III e seguiu a Z-13 numa aceleração bastante reduzida. Apesar do perigo que Deringhouse representava, parecia ter desistido do intento de destruir a Good Hope-VII. Bell imaginava que Rhodan estava tão interessado na arma secreta que não tinha a intenção de privar-se dela através da perda total do girino número sete.
Dali a dez minutos, Bell e seus amigos alcançaram a Lua. Entrou numa órbita aproximadamente igual à da Good. Hope-VII e seguiu o girino numa distância segura. Evidentemente qualquer estimativa teria uma precisão apenas relativa, mas confiava nas assertivas de Betty, segundo a qual no momento não corriam o menor perigo.
Quando soube, por intermédio do contato de rádio com a Stardust-III, que Rhodan estava pronto para intervir, Bell agiu.
— Gucky, você se teleportará no momento exato e desligará as máquinas da Good Hope-VII. Já sabe como tem que fazer para colocar a parede divisória entre os dois elementos do reator. Acha que sua energia telecinética basta para isso? Basta? Muito bem. Betty, você manterá contato com Deringhouse e o homem que o vigia. Previna-nos assim que for emitido um comando para o ataque ou para uma ação de defesa de grande envergadura. Talvez tenhamos sorte. Vamos adiante!
Colocou a mão direita sobre o acionador do canhão de impulsos, usou a esquerda para imprimir uma aceleração média à nave e fez com que a Z-13 disparasse em direção à Good Hope-VII como uma bala.
Gucky estava sentado numa enorme poltrona. Fechou os olhos.
Sua grande hora havia chegado.
— Morte para o Supercrânio! — chiou sua voz aguda. Depois disso começou a se concentrar para a teleportação.

* * *

Ivã Ivanovitch sentiu que alguma coisa começava a remexer nos cérebros de suas duas cabeças.
De repente teve a impressão de que uma argola de metal colocada em torno das duas testas se soltava.
Onde estava?
A mente de Ivã começou a funcionar como uma máquina em aquecimento. Recordações já esquecidas surgiam das profundezas do subconsciente e foram completando o quadro de sua situação, que estava sendo traçado.
Sacudiu ambas as cabeças, levantou-se e dirigiu-se à sala de comando da nave. Ao passar pelas portas teve de se abaixar.
Quando o mutante entrou, o major Deringhouse levantou os olhos.
— O que houve, Ivã? Tudo liquidado?
— O que devia estar liquidado? — disse Ivã num tom de espreita, sem permitir que a cabeça irmã Ivanovitch, que contava menos três segundos de idade, fizesse uso da palavra. Sentou numa das poltronas e fitou Deringhouse com os olhos atentos. Mais uma vez sentiu a busca martirizante em seu cérebro, mas ao mesmo tempo sentiu uma pressão diferente, que trazia todos os indícios de uma hostilidade apavorada.
— Só podia ser Terrânia — respondeu Deringhouse em tom maquinal, sem pensar. — Afinal, nossa missão é destruir Terrânia.
— O que vem a ser Terrânia? — indagou Ivã. — Quem nos incumbiu de destruir Terrânia? E por quê?
— Não sei por quê. Só sei que... — Deringhouse interrompeu-se quando a pressão em seu cérebro cresceu a ponto de se tornar dolorosa. Uma voz passou a lhe falar, e ele a entendia perfeitamente:
“Regresse, major Deringhouse. Pouse em Marte, exatamente no lugar de que decolou.”
O Supercrânio havia registrado as alterações ocorridas com seu mutante Ivã. Depois de mais uma tentativa frustrada, reconheceu que a uma distância de vários milhões de quilômetros não estava em condições de realizar a correção. Ainda percebeu que mesmo um bloqueio hipnótico tem de ser renovado a intervalos regulares. Seu erro consistira em descobrir isso muito tarde.
— Regressar — disse Deringhouse, repetindo o comando mental do hipno e pôs as mãos nos controles. A Good Hope-VII descreveu uma curva e, numa aceleração enorme, disparou espaço afora.
Ivã perscrutou seu interior, como se ouvisse vozes. O Supercrânio? Não era o homem que o tirara do mato, naquele tempo recuado, há alguns anos? O homem ao qual desde então obedecia — ou melhor, tinha de obedecer? Por que tinha de obedecer?
De forma suave e quase carinhosa, certos pensamentos sugestivamente reforçados penetraram em sua mente. Eram diferentes daqueles que conhecia. Não traziam em si nada de ameaça ou violência; eram apenas insistentes e amáveis.
Torne-se livre, Ivã”, pareciam dizer. “Liberte-se do jugo do Supercrânio, Ivã, e comece a pensar com sua própria cabeça.”
Pensar com a própria cabeça, pensou o mutante cheio de espanto e indagou de si para si o que significaria isso. Voltou a dedicar sua atenção ao major Deringhouse, que se mantinha imóvel diante dos controles, levando a nave em direção a Marte.
Em Marte o Supercrânio os aguardava. Quanto mais se aproximassem dele, tanto mais forte se tornaria a pressão em sua cabeça. Novas ordens seriam dadas. Teria que voltar a fazer fogo...
Ivã levantou devagar e colocou-se ao lado de Deringhouse.
— Ali fica a Lua. Não passe dela.
Deringhouse levantou os olhos. Havia neles uma expressão de pavor.
— Mas o Supercrânio...
— Quem manda aqui sou eu, não o Supercrânio — esclareceu Ivã em tom áspero. De uma hora para outra teve a impressão de que devia agir com a maior energia, se não quisesse perder uma grande oportunidade. Por enquanto tudo era confuso e indeterminado. Agia instintivamente, mas não inconscientemente.
O major Deringhouse recebeu a contra-ordem do Supercrânio, mas não a cumpriu. A figura gigantesca e ameaçadora de Ivã, que se encontrava a seu lado, representava um perigo muito maior e mais próximo. Fez o que lhe fora mandado: entrou com a Good Hope-VII numa órbita em torno da Lua.
Mas o Supercrânio não iria desistir por tão pouco. Seus comandos martelaram os cérebros dos tripulantes, que não haviam entrado em contato com os mutantes de Rhodan. André Noir não podia atingir todos ao mesmo tempo com os seus fluxos mentais carregados de força hipnótica.
Ivã virou-se apressadamente quando a porta foi aberta e dois homens de pistola em punho precipitaram-se para dentro da sala de comando.
Os punhos de Ivã precipitaram-se para a frente. O do lado esquerdo foi dirigido por Ivanovitch, e o do lado direito por Ivã. Os dois homens nem souberam o que estava acontecendo com eles. Os punhos produziram seu impacto nos queixos dos homens, que subitamente tiveram a impressão de que escamas lhes cobriam os olhos. A pressão do cérebro cessou. Os comandos do Supercrânio deixaram de ser percebidos.
Só deixaram de ser percebidos porque André Noir começou a dispensar seu tratamento aos dois infelizes.
Mas havia mais vinte e três homens a bordo; e eram homens que dariam a vida pelo Supercrânio, se este o exigisse.
Ivã saltou para a frente, segurou os dois homens na queda e deitou-os suavemente no duro chão metálico. Depois trancou a porta do corredor com a fechadura magnética, que não poderia ser aberta do lado de fora. Dali a dez segundos as primeiras pancadas começaram a ser desferidas contra a mesma.
Deringhouse estava indeciso.
Aquela voz voltou a soar nitidamente, e ao que tudo indicava estava sendo reforçada pelo projetor mental, pois de outra forma não conseguiria captá-la.
Deringhouse, você me ouve? Não dê atenção às ordens do Supercrânio. Entendeu? Aqui fala Betty Toufry. Ainda se lembra de mim, não é? Estamos bem perto um do outro. Não faça nada. Deixe a nave vagar pelo espaço. Se entendeu, responda em pensamento. Eu o entendo.”
Ao mesmo tempo outra voz, mais potente, se fez ouvir:
Deringhouse, obedeça somente a mim. Imprima à nave a aceleração máxima e volte para Marte. Não dê atenção a mais ninguém. Quero que seus subordinados prendam Ivã. Obedeça!”
Deringhouse colocou a mão sobre a chave do acelerador. Ivã não tirava os olhos dele... e tinha quatro.
Deringhouse hesitou. A voz suave voltou a soar, mais insistente e de certa forma mais próxima:
Ouça o que Betty tem a lhe dizer, Deringhouse. Será que quer trair a mim e a Perry Rhodan? O Supercrânio é nosso inimigo. Ele o matará se voltar para Marte. Aguarde até que estejamos aí. E não obedeça ao Supercrânio.”
Ivã viu que a mão de seu companheiro era tirada da chave, devagar, num gesto hesitante.
— Vamos esperar — disse a Deringhouse com toda calma, mas não sem certa energia. — Ligue as telas de imagem, para que possamos observar o que se passa ao nosso redor.
Na escuridão do infinito surgiram as estrelas e encheram as telas. Bem perto deles estava uma sombra arredondada, que se tornou comprida e reluziu num brilho prateado quando a luz da Lua não muito distante caiu sobre ela. Deringhouse lembrou-se vagamente de que sabia — ou já soubera — que naves exatamente iguais se encontravam no hangar da Good Hope-VII. Face a isso, seu cérebro, que voltava a raciocinar, lhe disse que aquela nave não podia ser inimiga.
Em seu esconderijo de Marte, o Supercrânio sentiu que estava perdendo o domínio sobre Deringhouse. Fez mais uma tentativa com Ivã.
Ponha fogo nos seus perseguidores, Ivã. Eles querem matar você e a mim — a mim, que sou a pessoa à qual você deve tudo. Não demore mais; obedeça às minhas ordens. Elimine Deringhouse.”
Ivã sacudiu lentamente as duas cabeças e disse em voz alta, para que Deringhouse também ouvisse:
— Não, Supercrânio, não obedecerei. Nem matarei Deringhouse. Aguardarei, pois estou curioso. Quero saber o que aquela gente nos fez; não devo destruí-los.
Do longínquo planeta Marte não veio nenhuma resposta.
Deringhouse e Ivã fitavam passivamente a tela de imagem e deixaram que a nave cruzasse em torno da Lua sem alterarem sua rota. O destróier se aproximou por trás. A uma distância maior, revelava o rastreador ótico, havia outras naves, entre elas um veículo espacial esférico de dimensões inacreditáveis. Mantinha-se a uma distância segura, e subitamente Ivã começou a imaginar o motivo por que agia assim.
Mas por que aquele destróier isolado se arriscava a chegar tão perto?
Ele o descobriria mais cedo do que imaginava.

* * *

Bell sabia perfeitamente que o campo energético da Z-13 não oferecia a menor proteção contra a arma terrível do Supercrânio. Sabia que o alcance aproximado da arma era de cerca de dez quilômetros. Ao ultrapassar essa marca e reduzir a distância ainda mais, sabia que expunha a si mesmo e aos seus companheiros a um perigo imediato. Mas confiava em Betty.
— Já estabeleceu contato com Deringhouse? — perguntou e precipitou-se em direção ao objetivo. Lançou um olhar de esguelha para Gucky, que acabara de saltar de volta: — Já conseguiu alguma coisa?
— Acho que essa gente já não dispõe de qualquer suprimento de energia, além das baterias de emergência — cochichou o rato-castor. — Consegui. Quer que os agite um pouco?
— Espere um pouco — pediu Bell. — Betty, o que houve?
— Noir conseguiu estabelecer um controle parcial sobre o representante do Supercrânio. Este vive lhe ordenando que nos queime; não sei o que quer dizer com isso.
— Que nos queime? — murmurou Bell. Seus olhos estreitaram-se. Lembrou-se das explosões atômicas de Terrânia. — E o representante do Supercrânio não cumpre a ordem?
— Noir incutiu-lhe a insegurança. Ele não quer.
— Excelente! E Deringhouse?
— Acho que este fará o que eu quiser — disse Betty. — O que pretende fazer?
O próprio Bell não sabia exatamente. Dirigiu-se a Gucky:
— Será que você pode pôr fora de ação todos os tripulantes da nave sem machucar ninguém?
Gucky ergueu-se sobre as patas traseiras, apoiando-se na cauda larga. Cruzou as patas sobre o peito e começou a se concentrar. Nesse instante, Bell conseguiu estabelecer contato visual com a Stardust-III, que o seguia a grande distância, tendo a bordo Rhodan e seus mutantes.
Não sobrou muito tempo para falar.
— Noir está controlando um certo Ivã — apressou-se Rhodan em esclarecer. — Mas não sabemos quanto tempo isso durará.
— Gucky já entrou em ação — tranqüilizou-o Bell com certa dose de orgulho. — Os propulsores da Good Hope-VII foram inutilizados. A nave ficou sem energia.
— Acho que já conheço essa maneira de trabalhar — retrucou Rhodan.
— De qualquer maneira está consagrada — respondeu Bell imediatamente. — Agora Gucky vai colocar os tripulantes fora de ação. Quando isso acontecer, estará na hora de recorrer aos nossos mutantes. Para que servem os outros teleportadores?
— Kakuta e Ras Tshubai já estão aguardando o sinal para entrarem em ação — disse Rhodan laconicamente. — Quando poderão fazer isso?
Bell viu que Gucky acenava a cabeça, muito distraído.
— Fique em recepção. Assim você saberá quando os dois saltadores de desmaterialização poderão iniciar sua viagem.
A testa de Rhodan se enrugou.
— Será que este é um novo sinônimo do termo teleportador?
Bell não respondeu. Betty disse:
— Acho que por enquanto Deringhouse se manterá na expectativa. Ao que parece o tal do Ivã libertou-se completamente da pressão que o Supercrânio exercia sobre ele. Pelo que deduzo dos seus pensamentos confusos, chegou a se livrar de dois membros da tripulação que, juntamente com Deringhouse, queriam obrigá-lo a ir para Marte.
Gucky, que já havia desaparecido, chamou pelo microtelecomunicador.
— Estão todos grudados na parede; nem conseguem se mexer — anunciou em tom exultante. — Mas não agüento isto por muito tempo.
— Rhodan! — gritou Bell o mais alto que pôde. — Mande Ras e Kakuta. Acho que já está na hora. Assim que você me der o sinal, chegarei mais perto e penetrarei na esfera.
— Quer um bom conselho? Deixe disso. Irei pessoalmente. Basta que Gucky tenha cuidado para que não haja qualquer imprevisto. Enquanto Deringhouse e seus homens não puderem se mexer, estaremos a salvo dessa arma dos infernos.
Bell praguejou de si para si. Mais uma vez tivera de realizar os trabalhos da fase preparatória, que eram os mais perigosos, e agora teria de ficar parado enquanto os outros completavam a obra. Bem, ele lhes estragaria a sopa. Ele...
Não chegou a levar o pensamento até o fim. Gucky voltou a chamar. Exibiu seu dente irritante, alisou o pêlo arrepiado da nuca e agachou-se numa posição de repouso.
— Acho que os dois teleportadores poderão cuidar do resto — chiou.
Ao que parecia o fato de que outros terminariam o trabalho por ele iniciado não o entristecia muito.
— Bell, grudei os homens na parede e segurei-os por lá. Consegui fazer isso com a metade da minha concentração. Mas não posso continuar aqui durante dias a fio. É preciso libertar os homens do domínio do Supercrânio.
Bell lançou um olhar para a tela.
— Aí vem Rhodan.
A gigantesca nave esférica, a Stardust-III, aproximava-se e, juntamente com a Good Hope-VII, a Z-13 e os destróieres que haviam acorrido ao local, passou a descrever uma órbita vertiginosa em torno da Lua.
Um pedaço do envoltório prateado deslizou para o lado, deixando livre uma abertura. Era a escotilha do grande hangar, que podia abrigar várias naves do tamanho da Good Hope-VII. Um raio refulgiu, e a nave aprisionada, juntamente com Deringhouse, Ivã e mais vinte e cinco homens, deslizou para o interior do ventre guloso da gigantesca esfera.
Bell soltou um suspiro de resignação. Olhou para Betty.
— Então, minha pequena, o que está pensando Deringhouse a esta hora?
A moça passou a mão pela testa.
— Para dizer a verdade, não está pensando absolutamente nada. Ao menos não constato coisa alguma.
Bell sorriu e olhou para a tela que mostrava a Stardust-III.
— Gostaria de saber o que se passa nesta bola de traças.
Rhodan sorriu na tela.
— Você logo saberá, Bell. Vá entrando. Depressa!
Dali a dez segundos, a Z-13 entrou pela escotilha ainda aberta e parou junto à Good Hope-VII.
Gucky parou de sorrir. Da tela do comunicador visual acenou para Betty, como se tivesse entendido o que ela pensara para ele. Afinal, o rato-castor também era um telepata.
— Eu os seguro — chiou.
— Quem é que você segura? — indagou Bell.
— Não incomode Gucky, por favor — disse Betty com uma seriedade fora do comum. — Captei pensamentos malignos, dirigidos para a destruição. De repente o tal do Ivã pretende fazer fogo...
Bell, que já se havia levantado, voltou a afundar na poltrona. Teve a impressão de estar paralisado. Acreditava que a qualquer momento se transformaria numa bomba atômica em detonação, que destruiria sua nave e a própria Stardust-III.

* * *

Ivã Ivanovitch Goratchim sabia que conseguira romper a força que por alguns anos dominara sua existência. Começou a imaginar que tipo criminoso seria este que o escolhera como vítima.
Os pensamentos do Supercrânio eram maus e exigentes, enquanto os outros, que também penetravam em seu cérebro, revelavam amabilidade e boa vontade. Era possível que tudo isso não passasse de um engano. Mas, para que havia recuperado sua capacidade de raciocinar? Ele mesmo decidiria de que lado estava a justiça.
Finalmente veio o instante em que Gucky interferiu nos acontecimentos. De início a luz e a ventilação falharam. Deringhouse logo constatou, muito nervoso, que o suprimento de energia dos reatores havia sido eliminado. As baterias de emergência logo puseram a funcionar a iluminação. Mas a renovação de ar continuou parada. A sala de comando tornou-se mais fria, e também mais abafada.
Poucos segundos depois, Ivã percebeu que uma força invisível o levantava e comprimia fortemente contra a parede. Sentiu-se totalmente desamparado quando o punho de ferro comprimiu as duas cabeças contra o envoltório redondo da janela. Conseguia enxergar, mas via apenas o espaço vazio. Os atacantes vinham do outro lado.
Sua primeira reação foi a de raiva contra aqueles que pretendiam reduzi-lo à impotência. Será que conheciam seu segredo? Se conhecessem, eles se expunham voluntariamente a um perigo muito grave. Naquele instante Ivã teria transformado qualquer pessoa que aparecesse diante da janela numa bomba em detonação. Acontece que nem sequer conseguia ver Gucky. O rato-castor encontrava-se fora de seu campo de visão.
Mas logo os pensamentos tranqüilizantes voltaram a surgir em seus dois cérebros.
Não tenha medo, Ivã, queremos ajudar. Mas precisamos agir com cautela, para que você não possa usar sua arma. Apenas queremos paz com você e sua gente.”
Um segundo depois:
Nós o traremos para dentro de nossa nave.”
Ivã nem conseguia virar a cabeça. Pelos cantos dos olhos viu Deringhouse, que estava estendido no painel de controle sem poder levantar a cabeça por um milímetro que fosse.
De repente a visão do espaço desvaneceu-se, para ser substituída por um recinto bem iluminado, em que os homens corriam nervosamente de um lado para outro.
No cérebro de Ivã começou a germinar uma idéia de destruição. Via perfeitamente os homens que corriam por ali, e não teria a menor dificuldade em transformar qualquer um deles numa bomba que destruiria a nave que o havia trazido até ali. Mas, antes que pudesse realizar seu intento, dois fatores o impediram.
Conhecia perfeitamente os efeitos de seu dom terrível e sabia muito bem que também seria destruído se detonasse um daqueles homens. E ainda havia os pensamentos tranqüilizadores em seu cérebro. Aquela voz suave exercia uma influência inacreditável em seu espírito. Sentiu o desejo de conhecer a dona da mesma. E, se pusesse fogo em alguém, seu parceiro mental também seria destruído.
Ainda havia um terceiro fator: uma nova voz dirigiu-se a ele com frieza e insistência, mas de forma totalmente diferente da do Supercrânio.
Ivã, você não deve fazer mais nenhum mal! Você está com amigos que querem ajudar. Nunca mais você deve empregar seu dom formidável na destruição, mas apenas na construção.”
Ivã hesitou. Um instante depois soube que obedeceria àquele comando. E obedeceria espontaneamente, porque decidira assim. Havia naquilo algo de novo, uma experiência que o fazia feliz.

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