Bell sentia-se no seu elemento, embora estivesse convencido de que estava
realizando um ensaio de alarma. Se é que o Supercrânio realmente conseguira,
através de um estratagema, se apossar da Good Hope-VII — assim raciocinou
naquele instante — ele não seria leviano a ponto de expor a valiosa presa a um
risco tão grave. De qualquer maneira, prosseguiu no seu raciocínio, não se
podia deixar de lado o fato de que o major Deringhouse, geralmente tão correto,
estava agindo de forma bastante estranha.
Não respondia a qualquer mensagem; inexoravelmente e num mutismo
impenetrável aproximava-se da Terra. Deixara de enviar o relatório de rotina.
Suspendera antes do tempo a busca do Supercrânio, sem fornecer qualquer
explicação de tal procedimento.
No fundo, havia motivo para desencadear o alarma em Terrânia, concluiu
Bell.
Atrás das extensas áreas dos estaleiros do espaçoporto, as unidades
robotizadas assumiam suas posições. Evidentemente os radiadores nada poderiam
fazer contra a Good Hope-VII com seus campos energéticos, mas o procedimento de
Bell foi puramente instintivo. O espaçoporto ficava fora da área protegida pela
abóbada energética, e esse fato teria que ser considerado nos preparativos. Uma
decisão definitiva e uma série de medidas defensivas só se tornariam possíveis
quando os piores temores se confirmassem. E Bell não contava com essa hipótese.
No mesmo instante Rhodan estava transmitindo as necessárias informações
ao Exército de Mutantes. Preferiu não recorrer aos membros mais novos;
contentou-se com os homens da velha guarda. Receberam a notícia com a maior
tranqüilidade; apenas Gucky mostrou-se bastante nervoso.
O rato-castor, de um metro de comprimento, saltitava de um lado para
outro, reforçava cada passo com uma forte pancada de sua cauda achatada, exibia
o dente roedor e arrepiava o pêlo marrom-avermelhado. Quem quisesse ver nesse
rato-castor um bicho como qualquer outro, estaria cometendo um grande erro. Era
muito mais que isso. Gucky viera de um planeta solitário e, em virtude de suas
faculdades telecinéticas, fora incorporado ao Exército de Mutantes. Além disso,
Gucky era telepata e, como tal, não tivera a menor dificuldade em aprender as
principais línguas terrenas.
— Esse Supercrânio! — chiou com sua voz extremamente fina. — Desta vez
darei cabo dele. Afinal, não pude participar da última luta.
— Não o subestime — advertiu-o Rhodan, reprimindo um sorriso. — Além
disso, nem sabemos se realmente estamos sendo atacados. Apenas suspeitamos e
temos de aguardar para ver se nossa suspeita tem fundamento. Marshall, escolha
as pessoas adequadas e procure manter contato indireto com Deringhouse. Recorra
aos localizadores, espias, goniômetros e telepatas. Marten tentará penetrar no
espírito de Deringhouse e procurará ver através de seus olhos. Há muita pressa.
Gucky irá comigo ao espaçoporto. Betty Toufry, você também irá comigo.
Marshall, você assumirá o comando sobre todo o Exército de Mutantes e o fará
entrar em ação. O alarma real será desencadeado assim que a situação tiver sido
esclarecida. Entendido?
O australiano confirmou com um aceno de cabeça.
— Entendido.
— Ficaremos em contato pelo rádio. Em hipótese alguma deixe a proteção da
abóbada energética sem que tenha recebido ordem expressa para isso.
Acompanhado de Gucky e Betty Toufry, saiu apressadamente do edifício e
entrou num carro veloz, que os levou ao espaçoporto.
Não foi sem motivo que Rhodan fez questão de levar justamente Gucky e
Betty.
Gucky era o telecineta mais potente que já se vira. Às vezes chegava a
teleguiar formações inteiras de aviões velozes, por mais que os pilotos se
opusessem. Betty Toufry era telepata e telecineta. Era uma moça muito jovem,
mas possuía o cérebro superior e as faculdades de um gênio. De si para si,
Rhodan era de opinião que pertencia a um tipo humano ainda em formação. Estava
à frente do seu tempo em todos os sentidos.
Em virtude do alarma, as ruas pareciam mortas. Era bem verdade que o
crepúsculo já havia descido sobre a terra, e logo mais seria noite. Mas
geralmente a essa hora começava a vida noturna de Terrânia. Hoje não se notava
nada disso. As pessoas que regressavam do trabalho haviam corrido para os
abrigos mais próximos. Esses abrigos ainda davam mostras dos tempos de
desassossego que acompanharam a formação da Terceira Potência. Os funcionários administrativos
ficavam nas casas e, quando muito, iam aos porões, seguindo as instruções em
vigor. As ruas de fitas transportadoras continuavam a rolar em direção à
cidade, mas estavam praticamente vazias. De espaço a espaço, um policial
solitário patrulhava as ruas e praças.
Deixando a cidade à sua direita, Rhodan correu pela pista de dez metros
em direção à área do espaçoporto. À sua esquerda estendia-se o deserto. No
horizonte a escuridão já havia descido à terra, enquanto no oeste o céu
brilhava num vermelho sangüíneo, anunciando o fim de mais um dia.
Rhodan ligou o dispositivo direcional automatizado de radar do veículo e,
através do minitransmissor de pulso, entrou em contato com o coronel Freyt, que
se encontrava nas instalações centrais.
— Alô, Freyt! Estou a caminho do espaçoporto, onde Deringhouse deverá
pousar, se é que pousa. O que há de novo? Já conseguiu estabelecer contato com
o girino VII?
— Nada — respondeu Freyt. — A Good Hope-VII não responde a qualquer
mensagem. Talvez o rádio da nave esteja com defeito.
— Também é uma possibilidade — confessou Rhodan, sem abandonar a atitude
de ceticismo. — Mas acredito que nessa hipótese Deringhouse teria transmitido
alguma notícia através da Z-45. Sabe perfeitamente que qualquer nave que não se
identifique antes do pouso é tratada como inimiga. Está bem; ficarei em
recepção. Entre em contato comigo assim que haja qualquer novidade.
— Perfeitamente.
Os olhos de Betty Toufry estavam sérios e muito abertos. Rhodan olhou-a
de lado, enquanto sua mão esquerda afagava o pêlo de Gucky.
— Será que as coisas ficarão muito ruins? — perguntou ao ler a
preocupação nos pensamentos de Rhodan. — O que terá acontecido?
— Muita coisa pode ter acontecido, Betty. Não sabemos, e quando soubermos
talvez seja tarde. A que distância você pode captar fluxos de pensamento?
Acredita que conseguirá ler os pensamentos de Deringhouse enquanto ele ainda se
encontrar além da atmosfera terrestre?
— Talvez. Preciso conhecer a direção exata para me concentrar ao máximo.
— No devido tempo saberemos a direção, Betty.
Rhodan voltou a olhar para a frente e desligou a direção automática. Os
estaleiros surgiram na semi-escuridão. Raríssimas luzes estavam acesas, e o
campo de pouso, que costumava ficar profusamente iluminado, jazia numa
escuridão completa.
Rhodan parou diante do edifício principal. Segurando a mão de Betty,
correu para a entrada. Foi seguido pelos passos balouçantes de Gucky, que
xingava em sua voz chilreante.
Quando Rhodan entrou, Bell soltou um suspiro de alívio. Estava sentado à
frente do quadro de chaves de um gigantesco painel de controle. Lidava
simultaneamente com os diversos aparelhos de rádio, através dos quais
controlava as unidades do exército e cuidava da entrada em ação dos robôs de
combate. Transmitiu mais algumas instruções, colocou várias chaves na posição
de repouso e se levantou.
— Ainda bem que você veio — disse. — Sozinho não agüentaria isto por
muito tempo.
— De resto tudo em ordem? — perguntou Rhodan.
— Pelo que vejo, sim. Mas chego a acreditar que você vê as coisas pretas
demais. Deringhouse dará risada ao ver que confusão causou. É possível que seu
rádio esteja com defeito...
— Não temos muito tempo para especular sobre o sentido e a finalidade das
medidas de precaução que estamos adotando. A hora logo chegará — comunicou
Rhodan.
No mesmo instante o receptor de Rhodan emitiu um zumbido. Era Freyt.
— Já está na sala principal do espaçoporto?
— Sim, pode mudar a ligação.
Dali a poucos segundos o rosto de Freyt surgiu na tela. Olhou para a sala
por alguns segundos e começou a falar.
— Deringhouse reduziu a velocidade de seu veículo esférico. A nave
penetrou na atmosfera terrestre e continua a baixar. Se continuar na mesma
direção, deverá pousar no território da Terceira Potência.
Fez uma pausa. Depois prosseguiu:
— Já conseguimos estabelecer contato visual com o girino VII. Quanto ao
aspecto externo não se nota qualquer alteração. Os destróieres não estão à
vista. Continua a se aproximar. O campo energético protetor não foi ativado.
Começo a acreditar que andamos vendo fantasmas.
— Não acredito em fantasmas — retrucou Rhodan e deu fim à palestra.
Chamou John Marshall. O telepata respondeu imediatamente.
— O Exército de Mutantes está entrando em ação. Wuriu Sengu já conseguiu
captar uma imagem, ainda pouco nítida, da sala de comando do girino VII.
Sengu era um japonês dotado de uma capacidade extraordinária. Via através
da matéria opaca, mesmo a grande distância.
— Diz que a nave está sendo dirigida por Deringhouse. Ao menos é ele que
se encontra no assento do piloto. É estranho, não acha? — completou Marshall.
— Por que o comandante de uma nave não vai assumir a direção durante o
pouso? — disse Rhodan, um tanto admirado. — Há mais algum detalhe?
— Fellmer Lloyd, nosso localizador, captou modelos de ondas cerebrais
muito débeis, mas não conseguiu identificá-las. Afirma que retratam
principalmente a indiferença. E captou mais uma coisa indefinível. Não consegue
descrever os. sentimentos do portador desse modelo de ondas cerebrais.
— Deve continuar a se concentrar — ordenou Rhodan. — Avise-me assim que
haja algo de anormal.
Mais uma vez entrou em contato com Freyt.
— Coronel, preciso imediatamente da posição exata do girino número sete.
Dali a dois minutos, Betty estava reclinada numa poltrona confortável. De
olhos fechados, olhava obliquamente para o teto da sala, que não representava
qualquer obstáculo aos seus pensamentos tateantes.
Aflito, Rhodan aguardava o resultado.
Subitamente os traços do rosto da jovem se contraíram. Os lábios
estreitaram-se e as mãos tremeram. Parecia que Betty procurava ouvir vozes
distantes, que mal entendia. De repente abriu os olhos.
— Quem dirige a nave é Deringhouse, mas também não é. Seu modelo de ondas
cerebrais é idêntico ao de alguns dos mutantes do Supercrânio que nós
aprisionamos. Receio que...
Rhodan não perdeu um segundo. Chamou Freyt e ordenou-lhe que
imediatamente desencadeasse o alarma 1. Marshall também foi avisado. Bell
transmitiu as necessárias instruções ao exército. Os robôs apontaram os canhões
para o céu, que nesse meio tempo havia enegrecido.
Terrânia estava preparada para receber o Supercrânio, que vinha oculto no
espírito de Deringhouse.
Todos sabiam que o major Deringhouse estava perdido.
O tenente Carell da guarda fronteira também não o ignorava. Era bem
verdade que não tinha sob seu comando qualquer canhão de radiação capaz de destruir
a Good Hope-VII; cabia-lhe vigiar, com sua pequena unidade, a fronteira leste
da Terceira Potência.
Estava realizando uma inspeção. O pequeno rádio que trazia consigo
permitia-lhe um contato permanente com os postos de comando. Uma vez que nenhum
perigo real ameaçava a fronteira, andou ao longo do campo de pouso e controlou
as sentinelas ali postadas.
Uma sombra imensa destacou-se no horizonte escuro. Era a Stardust-III, a
maior nave espacial que existia. Com oitocentos metros de diâmetro, alcançava
velocidade superior à da luz, tinha a bordo um armamento inconcebível e
abrigava uma tripulação permanente de quinhentos homens. Rhodan apreendera a
nave dos tópsidas, quando estes tentaram conquistar o sistema Vega.
Ao lado dela estavam estacionados dois cruzadores pesados da classe
Terra, construídos em nosso planeta: o Terra e o Solar System. Seu diâmetro
atingia duzentos metros. Também tinham forma esférica, que oferecia grandes
vantagens. Os doze girinos, de tamanho idêntico ao das naves da classe Good
Hope, encontravam-se a certa distância, prontos para decolar. Aguardavam
instruções para entrar em ação.
O tenente Carell constatou esses fatos, enquanto ouvia distraidamente as
últimas instruções de alarma de Rhodan. Parecia que a situação começava a ficar
séria. E nem havia certeza se Deringhouse...
Foi o último pensamento de Carell. Há um instante caminhara pelo concreto
do campo de pouso, vivendo com todas as células de seu corpo. Dentro de um
segundo transformou-se numa bomba atômica em detonação, que derreteu o concreto
numa grande extensão. A imensa bola de fogo iluminou o gigantesco campo de
pouso, fazendo com que todos os detalhes se tornassem nitidamente perceptíveis.
Um cogumelo de fumaça negra abriu-se e foi subindo lentamente. Aos poucos a bola
de fogo foi se apagando.
A onda de compressão e de calor percorreu o campo de pouso em direção às
naves que se mantinham prontas para decolar.
Rhodan e Bell viram o relampejo. Pela forma da explosão concluíram
imediatamente que tipo de descarga energética tinham diante de si. Enquanto os
dois homens se atiravam ao solo, Rhodan chamou as quinze naves espaciais:
— Decolem! Decolem imediatamente! Mantenham contato e coloquem-se numa
distância segura.
Sentado no chão, Bell ligou o aparelho que lhe permitia controlar toda a
cidade de Terrânia. Dentro de poucos segundos vinte telas iluminaram-se,
retratando todo o território da Terceira Potência, visto de cima. Como numa
figura em alto-relevo, a cidade estendia-se embaixo do observador. As ruas
iluminadas formavam retas perfeitas. Ao lado desse quadro o deserto estendia-se
até o espaçoporto. As telas do meio mostravam o território situado embaixo da
abóbada energética. Era ali que se situava o verdadeiro centro do poder de
Rhodan.
Com o rosto transformado em máscara, Bell viu que numa das extremidades
do campo de pouso um canhão de radiações robotizado se desmanchou numa nuvem de
incandescência radiativa. A tela retratou o fenômeno em todos os seus detalhes,
tornando-o ainda mais misterioso. Nenhum tiro havia sido disparado, e ninguém
atirara uma bomba. A Good Hope-VII ainda se encontrava a uma distância muito
grande para fazer uma pontaria tão precisa.
Apesar disso as bombas atômicas estavam explodindo no território da
Terceira Potência.
— Não é possível! — disse Bell com um gemido.
Betty continuava reclinada em sua poltrona. As ondas de choque
desencadeadas pelas explosões percorriam a área. O calor começava a se tornar
insuportável.
— Deve haver alguma explicação — murmurou Rhodan, embora soubesse que não
a tinha à mão.
Em vários pontos as telas se iluminavam.
As bombas atômicas detonavam em toda parte, vindas do nada. Unidades
completas do exército de robôs desmanchavam-se no ar, antes que pudessem entrar
em ação... contra quem? Mesmo Rhodan ainda não percebia que os próprios robôs
se transformavam em bombas atômicas.
O coronel Freyt chamava com urgência, usando todas as faixas disponíveis.
— Perry Rhodan! Alarma máximo. O girino número sete está atacando. Só
pode ser o girino número sete sob o comando de Deringhouse. Crest recomenda o
uso da bomba gravitacional. Supõe que Deringhouse esteja usando a nova arma do
Supercrânio, que lhe permite desencadear a grande distância um processo de
fusão em qualquer porção de matéria. Aguardo suas instruções.
De uma hora para outra um silêncio apavorante espalhou-se naquela sala do
edifício principal.
Rhodan fitou os olhos muito arregalados de Freyt. Pela primeira vez lia
neles uma desorientação completa — e era precisamente o que ele mesmo sentia.
— A bomba gravitacional? — disse, estremecendo. — Em plena Terra? Pode
ser o fim, Freyt. Diga a Crest que não quero assumir o risco de utilizar a arma
definitiva. Devemos encontrar outra saída. Por enquanto os senhores, que estão
sob o abrigo da abóbada energética, estão em segurança.
No mesmo instante viu a prova da falsidade de suas palavras. Pelo canto
do olho Rhodan viu perfeitamente que na tela do centro surgiu uma mancha de
fogo, que aumentou rapidamente e voltou a se apagar.
A arma do Supercrânio podia romper o envoltório protetor dos arcônidas,
que nem mesmo os foguetes atômicos das superpotências haviam conseguido
destruir.
Era o fim, se não acontecesse um milagre.
— Bell! — a voz de Rhodan continuava calma e controlada. — Pegue um
destróier de três homens e suba imediatamente à estratosfera. Betty e Gucky
irão com você. Procurem entrar em contato com Deringhouse. Vamos logo, não
percam tempo. Bell não se mexeu.
— E você?
— Faça o que digo. Não se preocupe comigo. Irei nos outros destróieres e
assumirei o comando da Stardust-III. Talvez nossos hipnos consigam romper a
vontade do Supercrânio.
Bell se levantou lentamente. Olhou para Betty.
— Quer que numa missão de vida e morte leve uma moça?
— Sou membro do Exército de Mutantes como qualquer outro — protestou
Betty cheia de indignação.
Parecia não sentir medo.
— Betty é a mais potente das nossas telepatas — confirmou Rhodan. — Se é
que alguém pode descobrir as intenções do Supercrânio encarnado em Deringhouse,
é Betty. Ficaremos em contato.
Ao mesmo tempo Rhodan pôs em estado de alarma os destróieres guardados
nos hangares. Freyt foi avisado. Marshall e seus mutantes correram para o campo
de pouso, enquanto mais dois robôs de combate desfizeram-se numa detonação
atômica.
Bell, Betty e Gucky entraram no Z-13, que estava pronto para decolar. Mal
a escotilha se fechou, a nave deslizou pelo trilho horizontal e, uma vez do
lado de fora, subiu numa trajetória inclinada. Numa aceleração louca, disparou
para o céu negro do deserto.
Subitamente uma das áreas situadas lá embaixo, do lado esquerdo,
transformou-se num inferno de fogo. Era o pequeno hangar com os dois
destróieres de reserva. Bell, que por acaso olhara para a tela de popa, fechou
os olhos diante da luminosidade ofuscante. Num cálculo veloz certificou-se de
que nem Rhodan nem Marshall com seus mutantes podiam ter chegado aos dois
destróieres.
A tela de proa!
Ligou o rastreador de escuridão e dentro de dez segundos viu a Good
Hope-VII, que surgiu nitidamente na tela. Ao que parecia Deringhouse não tinha
a intenção de pousar; mantinha-se acima de Terrânia, numa altitude de dez
quilômetros.
— Deve ser este — chiou Gucky, que se encontrava mais aos fundos,
recuperando-se do cansaço da corrida. — Não o vejo atirar bombas.
Bell não tirou os olhos da tela, enquanto reduzia a velocidade da Z-13.
— Nem pode ver. Está usando uma arma nova. Você acredita que conseguiria
assumir o controle telecinético dessa canoa?
— Talvez — disse Gucky, duvidando de sua capacidade. — Vou tentar.
Mas não chegou a tentar.
De repente, a Good Hope-VII descreveu uma curva elegante e, com a
aceleração máxima, disparou para o espaço, deixando para trás o Z-13 e os
destróieres que acabavam de decolar da Terra.
Será que o Supercrânio desistira do ataque?
3
Em agosto de 1949 a
primeira bomba atômica da União Soviética explodiu na Sibéria. O acontecimento
surpreendeu e apavorou o mundo ocidental. Mas também apavorou os cientistas
soviéticos, ao menos alguns dos que assistiram pessoalmente à explosão.
Ivã Vassilevitch Goratchim e sua jovem esposa Ludmila pertenciam à equipe
pioneira. As condições meteorológicas desfavoráveis que surgiram logo após a
explosão fizeram com que a nuvem de poeira radiativa se abatesse sobre eles. Os
exames realizados imediatamente após o acidente revelaram que a dose de
radiatividade a que ambos estiveram expostos era mortal.
Goratchim não concordou em se separar da esposa e ser internado num
hospital. No fundo do coração sabia que só viveria mais alguns meses, talvez um
ano; e ainda tinha um pressentimento de que o destino que o atingira ainda
seria o de várias gerações futuras.
Fugiu com a esposa para as tundras da Sibéria, apagou todas as pistas e
desapareceu.
Na beira de algum rio entrou em contato com madeireiros que viviam
principalmente da caça e só a contragosto se desincumbiram dos seus deveres
para com o Estado. Não se mostraram interessados em saber quem eram o homem e a
mulher em busca de refúgio. Acolheram-nos, ajudaram o homem a construir uma
cabana e, em recompensa, valeram-se dos seus serviços de conselheiro no soviet
da aldeia. Sabia preencher os documentos de entrega exigidos pelo governo de
tal forma que dali em diante não houve mais problemas com as comissões de
controle que a cada três ou quatro anos surgiam na aldeia. Ludmila deu à luz um
filho. Era um monstro de duas cabeças. Ao nascer pesava sete quilos e meio,
tinha pele verde e escamosa, e pernas compridas e robustas.
Só com grande esforço Ivã conseguiu impedir que os habitantes da aldeia
matassem seu filho. Invocou os direitos do indivíduo e a igualdade dos homens.
Os madeireiros cederam, mas passaram a evitar os fugitivos que se haviam
instalado em seu meio.
De qualquer maneira, o mutante foi criado na aldeia solitária. Quando
chegou aos três anos, todo mundo havia se acostumado à sua figura, mas os pais
estavam mortos.
Um belo dia Ivã Vassilevitch desaparecera. Ludmila pedira aos madeireiros
que não o procurassem. Só ela sabia que o esposo queria evitar aos outros
homens a visão do quadro que seu corpo oferecia. Pouco depois sentira que sua
hora também havia chegado. O filho de duas cabeças estava com três anos. Já
sabia se alimentar e ajudava os madeireiros em seu trabalho na floresta.
De forma que também Ludmila desaparecera um dia, e nunca mais fora vista.
Tal qual o marido, morrera sozinha na tundra solitária.
Com quinze anos, Ivã era um membro da comunidade, tratado de igual para
igual pelos outros. Ninguém pensaria em zombar dele por causa das duas cabeças.
Quando apareciam pessoas de fora, ele se escondia. Não queria que ninguém
soubesse de sua existência.
E assim Ivã atingiu a idade de vinte e três anos. Sua autoconfiança
crescera. Certo dia, quando uma comissão visitou a aldeia, não se escondeu
mais.
Seu aspecto provocou horror, e depois despertou a admiração dos
visitantes.
Um deles passou a demonstrar um interesse todo especial por Ivã.
— Amigo, você não está com vontade de ir comigo para as grandes cidades?
— Não, não estou com vontade — respondeu Ivã. Sem dizer mais uma palavra
retirou-se e encontrou-se com os amigos na beira do rio, onde pescavam pelos
buracos abertos no gelo.
Dali a quatro meses, o estranho voltou. Mas dessa vez não veio só. Trouxe
consigo quatro soldados uniformizados que traziam fuzis nas mãos. Vinham a
mando do governo, e deviam levar Ivã, segundo diziam.
A aldeia não fazia nenhuma questão de chamar a atenção do governo. Ivã
reconheceu isso e compreendeu seu ponto de vista. No fundo era um sujeito
bonachão, e no seu enorme corpo de dois metros e meio de comprimento palpitava
um coração russo do dobro do tamanho normal. E esse coração sabia odiar com
intensidade dobrada, quando fosse necessário.
Dessa vez era necessário.
Ivã não resistiu quando os soldados o colocaram entre si e o levaram. O
estranho, que trajava um grosso casaco de pele, ia à pequena distância atrás
deles. Mantinha ambas as mãos enterradas nos bolsos e Ivã sabia que neles
guardava suas pistolas.
Os madeireiros seguiram o grupo com os olhos e conformaram-se com a idéia
de que nunca mais chegariam a ver Ivã. Só agora começaram a dar-se conta do que
valia. Não salvara a vida de alguns deles quando estavam perdidos no mato e não
tinham mais nenhum fósforo? Fazia um frio terrível, a lenha estava dura e
congelada. Não havia fogo. Foi quando Ivã acendeu uma fogueira, uma fogueira
enorme que não se apagou mais. Apenas olhara para certo lugar... e as chamas
começaram a se erguer. Não demoraram em recuperar as forças; assim puderam
voltar à aldeia, que logo encontraram.
Ninguém se dera ao trabalho de refletir sobre a maneira pela qual Ivã
pudera pôr fogo na lenha congelada.
Quando Ivã voltou já era escuro. Sua perna sangrava; havia sido perfurada
pela bala disparada por aquele estranho. Os lenhadores cobriram-no de
perguntas, mas Ivã não respondeu. Limitava-se a fitar a floresta e a encosta
suave, atrás da qual ficava a tundra que se tinha de atravessar para chegar às
cidades feitas pelos homens.
Um brilho súbito surgiu em seus olhos.
— Estão voltando — murmurou.
Os madeireiros estremeceram: olhavam para a noite, mas não viam nada além
dos troncos escuros das árvores.
Os homens calaram-se e acompanharam seu olhar vidente, sem descobrir o
objetivo. O morro ficava a quase dez quilômetros, e a noite estava escura como
breu.
Ivã fechou os quatro olhos. Estava sentado num tronco e apoiou as mãos no
mesmo. Tinha o corpo ligeiramente inclinado para a frente. Sabia para onde
devia dirigir seus fluxos mentais; por alguns segundos uma lamparina se
acendeu.
E o inconcebível aconteceu.
De repente viu-se uma terrível explosão na floresta. Uma bola de fogo
ofuscante formou-se e subiu lentamente em direção às estrelas. Quando a bola se
apagou e escureceu, restou uma nuvem que emitia uma luminosidade débil. Parecia
um gigantesco cogumelo que se espalhou e assumiu formas apavorantes.
Depois disso, uma onda de calor passou pela aldeia, derreteu a neve que
ainda restava e abriu grandes fendas no gelo fino do rio. As mulheres soltaram
gritos de pavor e atiraram-se ao solo. Ivã soltou uma terrível gargalhada, mas
em sua risada ouvia-se o pavor pelo que acabara de fazer. Os homens fizeram o
sinal-da-cruz.
Por muito tempo falaram sobre o milagre, mas ninguém soube dar uma
explicação. Ivã retirou-se para sua cabana e não quis falar com ninguém.
Quando o dia amanheceu, todos dirigiram-se para o morro. O que lhes foi
dado ver era um mistério ainda maior que a pavorosa explosão da noite anterior.
Uma gigantesca cratera havia sido aberta em plena rocha, arrastando consigo as
árvores, os arbustos e as neves. Num círculo de dois quilômetros não havia
nenhuma planta viva. A mancha negra da devastação formava um círculo quase perfeito,
em cujo centro ficava a cratera.
Dos cinco caçadores de gente não sobrava mais que isso.
Dali em diante Ivã se transformou numa supercriatura. Ao que parecia
gostava do papel que passara a desempenhar, e não se fazia rogado para dar
pequenos exemplos de sua força misteriosa. Não poderia saber que aquela força
não era outra coisa senão a herança deixada por seus infelizes pais, cujas
células genéticas haviam sofrido tamanha alteração em virtude das radiações a
que estiveram expostas.
Dali a alguns anos, Clifford Monterny começou a formar seu exército de mutantes.
Ivã nunca teria acompanhado espontaneamente aquele estranho inchado que certo
dia apareceu nas terras solitárias da Sibéria. Acontece que aquele estranho era
o hipno mais potente do mundo. Obrigou Ivã a se submeter à sua vontade e
ordenou-lhe que dali por diante fosse seu servo fiel.
Ivã obedeceu e acompanhou Clifford Monterny para a América, onde ficava o
quartel-general do Supercrânio. Ali lhe foi dispensado o treinamento que o
transformou na arma mais perigosa do mundo. Sob a orientação do Supercrânio,
Ivã não demorou em captar, ótica e espiritualmente, qualquer alvo situado a
muitos quilômetros de distância, transformando-o em energia atômica.
Monterny levou o mais precioso de seus mutantes para Marte, onde acabara
de instalar uma base. Depois disso, a guerra contra a Terceira Potência foi
iniciada.
A batalha terminara com a vitória de Rhodan. Mas Monterny conseguiu
escapar e fugiu para Marte, onde Ivã e duas dezenas de ajudantes, aos quais
fora aplicado um bloqueio hipnótico, estavam à sua espera. Muitas vezes
Monterny escolhera seus aliados entre certos elementos criminosos, porque o
desaparecimento destes era menos notado pela sociedade humana do que seria o de
bons pais de família ou personalidades desconhecidas.
E agora, quando o major Deringhouse com a Good Hope-VII esteve a ponto de
descobrir a base de Marte, tão bem escondida, o Supercrânio agiu. Além do mais,
não quis perder essa chance única de se apoderar da nave esférica.
Tudo saiu segundo o planejado.
Deringhouse ordenou aos seus homens que saíssem da nave. Poucos segundos
depois estavam sob o controle do Supercrânio, que lhes aplicou um bloqueio
hipnótico. Os cinco destróieres que restavam encontraram seu porto num
desfiladeiro. Os tripulantes foram trancafiados.
O major Deringhouse e vinte e cinco dos seus homens receberam ordens para
desencadear um ataque decisivo contra o quartel-general de Perry Rhodan em Terrânia.
Ivã Ivanovitch seria a arma principal.
* * *
O major Deringhouse despediu-se do Supercrânio, pelo qual não sentia
simpatia nem antipatia. O mesmo não lhe provocava qualquer sentimento e o
aspecto apavorante de Ivã deixava-o completamente frio. O mesmo acontecia a
seus homens.
Apesar disso, os homens submetidos ao controle do Supercrânio não
poderiam ser considerados seres cem por cento automatizados. Ao menos com Ivã
isso não acontecia, pois, no curso dos últimos três anos, ele havia recuperado
parte de sua capacidade individual de pensar. A independência mental não foi
suficiente para libertá-lo do domínio do Supercrânio, mas permitiu-lhe que refletisse
sobre certos problemas; por enquanto tratava-se dos problemas de natureza
secundária.
Havia, por exemplo, o problema de qual das duas cabeças era a mais velha
e, portanto, a que recebia mais intensamente os impulsos nervosos.
A cabeça do lado direito foi chamada de Ivã — o que no fundo era uma
falsidade e uma tolice — e afirmava que sua consciência havia despertado três
segundos antes da outra cabeça. O tema deu margem a discussões que duravam
horas. Essas discussões sempre terminavam no nada, pois ambas as cabeças
dispunham de um só corpo e um único sistema nervoso.
Da mesma forma que era errôneo chamar a cabeça do lado direito de Ivã,
não se justificava que a outra fosse tratada de Ivanovitch. A atribuição desses
nomes resultará de um engano do Supercrânio, que nunca dera a menor atenção ao
fato de que os costumes russos exigem dois nomes para cada pessoa; no caso de
Goratchim, Ivã era o nome propriamente dito, enquanto Ivanovitch apenas
significava “filho de Ivã”.
Mas aconteceu o que tantas vezes se vê: do erro resultou um nome chistoso
e permanente...
A Good Hope-VII decolou. Marte não demorou a mergulhar na imensidão do
espaço. Quando passou pela nave Z-45, o major Deringhouse teve a impressão de
que deveria fazer alguma coisa, mas a voz do Supercrânio logo soou em sua
mente:
“Prossiga no seu vôo, Deringhouse. Não se incomode com nada que aconteça
fora de sua nave. Está ouvindo? Não precisa se incomodar com coisa alguma, pois
cuidei de tudo. Voe para Terrânia sem se anunciar. Fique parado acima da cúpula
energética de Terrânia, numa altitude de dez quilômetros, e não faça nada.”
Bem no subconsciente, o último comando tranqüilizou Deringhouse.
Sentiu-se aliviado por não ter que lançar mão de suas armas, muito embora não
pudesse deixar de dar a devida atenção a uma ordem desse tipo, se a mesma fosse
dada.
E a Good Hope-VII ficou parada acima de Terrânia. Conforme as instruções
recebidas, todos os aparelhos de comunicação e localização haviam sido
desligados. Dessa forma Deringhouse não ouviu os chamados insistentes de Rhodan
e do coronel Freyt. Contemplou indiferente os lampejos das explosões atômicas
que se verificavam lá embaixo. Acreditava que as mesmas não eram causadas nem
por ele, nem por seus homens.
Mais uma vez seu subconsciente, ainda não inteiramente adormecido,
sentia-se tranqüilizado.
Ivã Ivanovitch, sentado na cama, estava sozinho no seu camarote. Seus
olhos inexpressivos fitavam as telas de imagem. Voltava constantemente a emitir
seus olhares concentrados, até que estes encontraram a primeira vítima em
movimento.
Foi o tenente Carell.
Carell era um homem, isto é, um organismo vivo, e como tal consistia em
parte de átomos de cálcio e carbono, e suas combinações. Os fluxos mentais de
Ivã, quando bastante concentrados, produziam nas mais diversas substâncias o
efeito que um detonador causa num explosivo perigoso. Liberavam a energia
contida na matéria. Isso significava que Ivã podia transformar qualquer ser
humano numa bomba atômica em detonação sempre que o desejasse.
E não sabia produzir esse tipo de transformação apenas nos seres humanos.
Quase todas as substâncias compostas do universo contêm carbono. Por isso não
se limitou a fazer explodir seres humanos; dirigiu seus ataques também contra
os robôs de combate da Terceira Potência. Ia desencadeando a esmo as explosões
aniquiladoras lá na Terra, sem se dar conta do mal que causava com isso.
Enquanto isso, o Supercrânio encontrava-se bem longe, em Marte, e dirigia
as atividades de seu detonador, nome que dera ao mutante duplo Ivã Ivanovitch.
Era essa sua arma misteriosa e desconhecida; com ela esperava infligir a
derrota final a Rhodan.
Os acontecimentos haviam chegado a esse estágio quando surgiu um
imprevisto, com o qual nem o Supercrânio contara. Seu bloqueio hipnótico era
firme, e não podia ser afetado, muito menos eliminado, mesmo a grande
distância. Acontece que Rhodan também tinha seus mutantes.
Como, por exemplo, Betty Toufry.
O primeiro contato, bastante débil, que estabeleceu com Deringhouse, fez
com que a vontade extremamente forte do Supercrânio, que se encontrava a uma
distância muito grande, recebesse seu primeiro golpe, ao menos no que dizia
respeito ao bloqueio hipnótico a que Deringhouse estava sujeito.
Ainda havia André Noir, o hipno.
Evidentemente as faculdades de Noir não eram tão potentes como as do
Supercrânio, mas bastavam para fazer com que um ser que se encontrava a bordo
da Good Hope-VII vacilasse, no sentido em que o Supercrânio empregava o termo,
mesmo durante a fuga precipitada. Enquanto fugia em direção ao espaçoporto de
Terrânia, Noir conseguiu estabelecer contato com sua vítima, removendo
parcialmente o bloqueio hipnótico do Supercrânio.
Enquanto isso, John Marshall, o telepata, captava fragmentos de idéias
verdadeiramente pavorosas. No primeiro instante não julgou possível que se
tratasse de pensamentos humanos. Mas se lembrou de que Fellmer Lloyd captara
estruturas mentais semelhantes por ocasião do primeiro contato.
Não havia dúvida de que vinham da Good Hope-VII.
De uma hora para outra os impulsos mentais cessaram. Também não houve
mais nenhuma explosão atômica. Nem mesmo Rhodan desconfiou de que houvesse
alguma relação entre os dois fenômenos.
No mesmo instante, a Good Hope-VII acelerou loucamente e desapareceu em
direção a Marte.
4
Bell estava perplexo. Olhou para a tela, onde o tamanho da nave esférica
diminuía tão depressa que até parecia uma bola que caía no abismo da
eternidade.
Gucky viu que lhe fora roubada a oportunidade de dar prova do seu saber.
— Está fugindo de mim — consolou-se com um chiado agudo, que exprimia ao
mesmo tempo a alegria e a contrariedade. — Percebeu que eu pretendia agarrá-lo.
O Supercrânio é um covarde!
— Você não devia tirar conclusões apressadas e por isso mesmo falsas — advertiu-o
Betty Toufry, que estava sentada numa grande poltrona. — Você é um ótimo
telecineta, mas um péssimo telepata...
— ...e você é uma ótima telepata, mas uma péssima telecineta —
defendeu-se Gucky, que parecia furioso.
— Isso mesmo — confirmou a moça, sem demonstrar a menor contrariedade. —
E é por isso que sua conclusão, segundo a qual o Supercrânio está com medo de
você, é falsa.
— Estabeleceu contato com Deringhouse? — interveio Bell, enquanto, em vão
tentava estabelecer contato pelo rádio com Rhodan ou o coronel Freyt.
— Diretamente não — Betty sacudiu a cabeça. — Por um instante acreditei
que sentia sua insegurança, mas logo seus débeis fluxos mentais foram superados
por um outro, mais próximo e mais forte...
— O Supercrânio — conjeturou Bell sem refletir.
Mais uma vez Betty sacudiu a cabeça.
— Eu disse: mais próximo. O Supercrânio está em Marte. Deve ter um
representante habilitado na Good Hope-VII, que dá as ordens a Deringhouse.
Foram estes os pensamentos que captei.
— E daí? — perguntou Bell, tenso de curiosidade. Girou os botões do
receptor e ouviu um zumbido monótono. Era o sinal de chamada da Terceira
Potência.
— Mandou que Deringhouse se retirasse imediatamente até as proximidades
da Lua.
— Da Lua? — perguntou Bell, abrindo o volume. — Por que justamente nas
proximidades da Lua?
— Não sei — respondeu a moça; parecia desorientada. — De qualquer
maneira, nos pensamentos do estranho não havia o menor sinal de medo. Antes
notava-se uma certa superioridade e alguns traços de arrependimento. Já não
entendo mais nada.
— De arrependimento? — Bell lançou um olhar indagador para Betty. — Por
que teria ordenado a destruição da Terceira Potência, para depois sentir
arrependimento? Ah... aí está Rhodan.
Regulou o som e ligou a imagem. Poucos instantes depois o rosto de Rhodan
surgiu na enorme tela. Via-se nele uma expressão de enorme surpresa. As rugas
profundas faziam-no parecer alguns anos mais velho.
— Alô, Bell. O que houve? Perdemos Deringhouse?
— O que houve aí embaixo? — indagou Bell.
— Alguma destruição, mas o bombardeio terminou de repente — apressou-se
Rhodan em responder, pois sabia perfeitamente que antes disso Bell não lhe
contaria nada. — O Exército de Mutantes está nos destróieres juntamente comigo.
Pretendia-mos iniciar a caçada, mas Deringhouse desapareceu.
— Retirou-se para a Lua — disse Bell. — Betty conseguiu captar alguns
pensamentos.
— Está bem. Embarcarei na Stardust-III com os mutantes e iniciarei a
perseguição. Freyt irá atrás de mim com seus destróieres de combate. Você
procurará localizar a pista. Betty fará o possível para continuar a manter
contato com Deringhouse.
— Há alguém a bordo da Good Hope-VII — disse Bell com a voz insegura. —
Alguém que desencadeou as explosões na Terra e agora está arrependido. É o que
Betty afirma. Esse alguém também deve estar habilitado para dar instruções a
Deringhouse.
— Será? — disse Rhodan. Ficou calado por alguns segundos. — Não seria
nada mau se conseguíssemos capturar esse alguém vivo.
— Faremos o possível — prometeu Bell.
— Iniciem a perseguição — concluiu Rhodan. — Seguiremos atrás de vocês a
uma distância segura. Fiquem em recepção. Fim.
Bell dedicou sua atenção aos controles. Não demorou que voltasse a captar
a imagem da Good Hope-VII. A nave esférica entrara em órbita em torno da Lua.
A Terra afundou atrás da Z-13 tal qual uma pedra no mar. A esfera
metálica que aparecia na tela aumentava a olhos vistos. Bell acompanhava todas
as mensagens trocadas entre Rhodan e as outras naves. Dessa forma conseguiu
pôr-se a par do que acontecia atrás dele. Rhodan assumiu o controle da
Stardust-III e seguiu a Z-13 numa aceleração bastante reduzida. Apesar do
perigo que Deringhouse representava, parecia ter desistido do intento de
destruir a Good Hope-VII. Bell imaginava que Rhodan estava tão interessado na
arma secreta que não tinha a intenção de privar-se dela através da perda total
do girino número sete.
Dali a dez minutos, Bell e seus amigos alcançaram a Lua. Entrou numa
órbita aproximadamente igual à da Good. Hope-VII e seguiu o girino numa
distância segura. Evidentemente qualquer estimativa teria uma precisão apenas
relativa, mas confiava nas assertivas de Betty, segundo a qual no momento não
corriam o menor perigo.
Quando soube, por intermédio do contato de rádio com a Stardust-III, que
Rhodan estava pronto para intervir, Bell agiu.
— Gucky, você se teleportará no momento exato e desligará as máquinas da
Good Hope-VII. Já sabe como tem que fazer para colocar a parede divisória entre
os dois elementos do reator. Acha que sua energia telecinética basta para isso?
Basta? Muito bem. Betty, você manterá contato com Deringhouse e o homem que o
vigia. Previna-nos assim que for emitido um comando para o ataque ou para uma
ação de defesa de grande envergadura. Talvez tenhamos sorte. Vamos adiante!
Colocou a mão direita sobre o acionador do canhão de impulsos, usou a
esquerda para imprimir uma aceleração média à nave e fez com que a Z-13
disparasse em direção à Good Hope-VII como uma bala.
Gucky estava sentado numa enorme poltrona. Fechou os olhos.
Sua grande hora havia chegado.
— Morte para o Supercrânio! — chiou sua voz aguda. Depois disso começou a
se concentrar para a teleportação.
* * *
Ivã Ivanovitch sentiu que alguma coisa começava a remexer nos cérebros de
suas duas cabeças.
De repente teve a impressão de que uma argola de metal colocada em torno
das duas testas se soltava.
Onde estava?
A mente de Ivã começou a funcionar como uma máquina em aquecimento.
Recordações já esquecidas surgiam das profundezas do subconsciente e foram
completando o quadro de sua situação, que estava sendo traçado.
Sacudiu ambas as cabeças, levantou-se e dirigiu-se à sala de comando da
nave. Ao passar pelas portas teve de se abaixar.
Quando o mutante entrou, o major Deringhouse levantou os olhos.
— O que houve, Ivã? Tudo liquidado?
— O que devia estar liquidado? — disse Ivã num tom de espreita, sem
permitir que a cabeça irmã Ivanovitch, que contava menos três segundos de
idade, fizesse uso da palavra. Sentou numa das poltronas e fitou Deringhouse
com os olhos atentos. Mais uma vez sentiu a busca martirizante em seu cérebro,
mas ao mesmo tempo sentiu uma pressão diferente, que trazia todos os indícios
de uma hostilidade apavorada.
— Só podia ser Terrânia — respondeu Deringhouse em tom maquinal, sem
pensar. — Afinal, nossa missão é destruir Terrânia.
— O que vem a ser Terrânia? — indagou Ivã. — Quem nos incumbiu de
destruir Terrânia? E por quê?
— Não sei por quê. Só sei que... — Deringhouse interrompeu-se quando a
pressão em seu cérebro cresceu a ponto de se tornar dolorosa. Uma voz passou a
lhe falar, e ele a entendia perfeitamente:
“Regresse, major Deringhouse. Pouse em Marte, exatamente no lugar de que
decolou.”
O Supercrânio havia registrado as alterações ocorridas com seu mutante
Ivã. Depois de mais uma tentativa frustrada, reconheceu que a uma distância de
vários milhões de quilômetros não estava em condições de realizar a correção.
Ainda percebeu que mesmo um bloqueio hipnótico tem de ser renovado a intervalos
regulares. Seu erro consistira em descobrir isso muito tarde.
— Regressar — disse Deringhouse, repetindo o comando mental do hipno e
pôs as mãos nos controles. A Good Hope-VII descreveu uma curva e, numa
aceleração enorme, disparou espaço afora.
Ivã perscrutou seu interior, como se ouvisse vozes. O Supercrânio? Não
era o homem que o tirara do mato, naquele tempo recuado, há alguns anos? O
homem ao qual desde então obedecia — ou melhor, tinha de obedecer? Por que
tinha de obedecer?
De forma suave e quase carinhosa, certos pensamentos sugestivamente
reforçados penetraram em sua mente. Eram diferentes daqueles que conhecia. Não
traziam em si nada de ameaça ou violência; eram apenas insistentes e amáveis.
“Torne-se livre, Ivã”, pareciam
dizer. “Liberte-se do jugo do
Supercrânio, Ivã, e comece a pensar com sua própria cabeça.”
Pensar com a própria cabeça, pensou o mutante cheio de espanto e indagou
de si para si o que significaria isso. Voltou a dedicar sua atenção ao major
Deringhouse, que se mantinha imóvel diante dos controles, levando a nave em
direção a Marte.
Em Marte o Supercrânio os aguardava. Quanto mais se aproximassem dele,
tanto mais forte se tornaria a pressão em sua cabeça. Novas ordens seriam
dadas. Teria que voltar a fazer fogo...
Ivã levantou devagar e colocou-se ao lado de Deringhouse.
— Ali fica a Lua. Não passe dela.
Deringhouse levantou os olhos. Havia neles uma expressão de pavor.
— Mas o Supercrânio...
— Quem manda aqui sou eu, não o Supercrânio — esclareceu Ivã em tom
áspero. De uma hora para outra teve a impressão de que devia agir com a maior
energia, se não quisesse perder uma grande oportunidade. Por enquanto tudo era
confuso e indeterminado. Agia instintivamente, mas não inconscientemente.
O major Deringhouse recebeu a contra-ordem do Supercrânio, mas não a
cumpriu. A figura gigantesca e ameaçadora de Ivã, que se encontrava a seu lado,
representava um perigo muito maior e mais próximo. Fez o que lhe fora mandado:
entrou com a Good Hope-VII numa órbita em torno da Lua.
Mas o Supercrânio não iria desistir por tão pouco. Seus comandos martelaram
os cérebros dos tripulantes, que não haviam entrado em contato com os mutantes
de Rhodan. André Noir não podia atingir todos ao mesmo tempo com os seus fluxos
mentais carregados de força hipnótica.
Ivã virou-se apressadamente quando a porta foi aberta e dois homens de
pistola em punho precipitaram-se para dentro da sala de comando.
Os punhos de Ivã precipitaram-se para a frente. O do lado esquerdo foi
dirigido por Ivanovitch, e o do lado direito por Ivã. Os dois homens nem
souberam o que estava acontecendo com eles. Os punhos produziram seu impacto
nos queixos dos homens, que subitamente tiveram a impressão de que escamas lhes
cobriam os olhos. A pressão do cérebro cessou. Os comandos do Supercrânio
deixaram de ser percebidos.
Só deixaram de ser percebidos porque André Noir começou a dispensar seu
tratamento aos dois infelizes.
Mas havia mais vinte e três homens a bordo; e eram homens que dariam a
vida pelo Supercrânio, se este o exigisse.
Ivã saltou para a frente, segurou os dois homens na queda e deitou-os
suavemente no duro chão metálico. Depois trancou a porta do corredor com a
fechadura magnética, que não poderia ser aberta do lado de fora. Dali a dez
segundos as primeiras pancadas começaram a ser desferidas contra a mesma.
Deringhouse estava indeciso.
Aquela voz voltou a soar nitidamente, e ao que tudo indicava estava sendo
reforçada pelo projetor mental, pois de outra forma não conseguiria captá-la.
“Deringhouse, você me ouve? Não dê
atenção às ordens do Supercrânio. Entendeu? Aqui fala Betty Toufry. Ainda se
lembra de mim, não é? Estamos bem perto um do outro. Não faça nada. Deixe a
nave vagar pelo espaço. Se entendeu, responda em pensamento. Eu o entendo.”
Ao mesmo tempo outra voz, mais potente, se fez ouvir:
“Deringhouse, obedeça somente a
mim. Imprima à nave a aceleração máxima e volte para Marte. Não dê atenção a
mais ninguém. Quero que seus subordinados prendam Ivã. Obedeça!”
Deringhouse colocou a mão sobre a chave do acelerador. Ivã não tirava os
olhos dele... e tinha quatro.
Deringhouse hesitou. A voz suave voltou a soar, mais insistente e de
certa forma mais próxima:
“Ouça o que Betty tem a lhe dizer,
Deringhouse. Será que quer trair a mim e a Perry Rhodan? O Supercrânio é nosso
inimigo. Ele o matará se voltar para Marte. Aguarde até que estejamos aí. E não
obedeça ao Supercrânio.”
Ivã viu que a mão de seu companheiro era tirada da chave, devagar, num
gesto hesitante.
— Vamos esperar — disse a Deringhouse com toda calma, mas não sem certa
energia. — Ligue as telas de imagem, para que possamos observar o que se passa
ao nosso redor.
Na escuridão do infinito surgiram as estrelas e encheram as telas. Bem
perto deles estava uma sombra arredondada, que se tornou comprida e reluziu num
brilho prateado quando a luz da Lua não muito distante caiu sobre ela.
Deringhouse lembrou-se vagamente de que sabia — ou já soubera — que naves
exatamente iguais se encontravam no hangar da Good Hope-VII. Face a isso, seu
cérebro, que voltava a raciocinar, lhe disse que aquela nave não podia ser
inimiga.
Em seu esconderijo de Marte, o Supercrânio sentiu que estava perdendo o
domínio sobre Deringhouse. Fez mais uma tentativa com Ivã.
“Ponha fogo nos seus perseguidores,
Ivã. Eles querem matar você e a mim — a mim, que sou a pessoa à qual você deve
tudo. Não demore mais; obedeça às minhas ordens. Elimine Deringhouse.”
Ivã sacudiu lentamente as duas cabeças e disse em voz alta, para que
Deringhouse também ouvisse:
— Não, Supercrânio, não obedecerei. Nem matarei Deringhouse. Aguardarei,
pois estou curioso. Quero saber o que aquela gente nos fez; não devo
destruí-los.
Do longínquo planeta Marte não veio nenhuma resposta.
Deringhouse e Ivã fitavam passivamente a tela de imagem e deixaram que a
nave cruzasse em torno da Lua sem alterarem sua rota. O destróier se aproximou
por trás. A uma distância maior, revelava o rastreador ótico, havia outras
naves, entre elas um veículo espacial esférico de dimensões inacreditáveis.
Mantinha-se a uma distância segura, e subitamente Ivã começou a imaginar o
motivo por que agia assim.
Mas por que aquele destróier isolado se arriscava a chegar tão perto?
Ele o descobriria mais cedo do que imaginava.
* * *
Bell sabia perfeitamente que o campo energético da Z-13 não oferecia a
menor proteção contra a arma terrível do Supercrânio. Sabia que o alcance
aproximado da arma era de cerca de dez quilômetros. Ao ultrapassar essa marca e
reduzir a distância ainda mais, sabia que expunha a si mesmo e aos seus
companheiros a um perigo imediato. Mas confiava em Betty.
— Já estabeleceu contato com Deringhouse? — perguntou e precipitou-se em
direção ao objetivo. Lançou um olhar de esguelha para Gucky, que acabara de
saltar de volta: — Já conseguiu alguma coisa?
— Acho que essa gente já não dispõe de qualquer suprimento de energia,
além das baterias de emergência — cochichou o rato-castor. — Consegui. Quer que
os agite um pouco?
— Espere um pouco — pediu Bell. — Betty, o que houve?
— Noir conseguiu estabelecer um controle parcial sobre o representante do
Supercrânio. Este vive lhe ordenando que nos queime; não sei o que quer dizer
com isso.
— Que nos queime? — murmurou Bell. Seus olhos estreitaram-se. Lembrou-se
das explosões atômicas de Terrânia. — E o representante do Supercrânio não
cumpre a ordem?
— Noir incutiu-lhe a insegurança. Ele não quer.
— Excelente! E Deringhouse?
— Acho que este fará o que eu quiser — disse Betty. — O que pretende
fazer?
O próprio Bell não sabia exatamente. Dirigiu-se a Gucky:
— Será que você pode pôr fora de ação todos os tripulantes da nave sem
machucar ninguém?
Gucky ergueu-se sobre as patas traseiras, apoiando-se na cauda larga.
Cruzou as patas sobre o peito e começou a se concentrar. Nesse instante, Bell
conseguiu estabelecer contato visual com a Stardust-III, que o seguia a grande
distância, tendo a bordo Rhodan e seus mutantes.
Não sobrou muito tempo para falar.
— Noir está controlando um certo Ivã — apressou-se Rhodan em esclarecer.
— Mas não sabemos quanto tempo isso durará.
— Gucky já entrou em ação — tranqüilizou-o Bell com certa dose de
orgulho. — Os propulsores da Good Hope-VII foram inutilizados. A nave ficou sem
energia.
— Acho que já conheço essa maneira de trabalhar — retrucou Rhodan.
— De qualquer maneira está consagrada — respondeu Bell imediatamente. —
Agora Gucky vai colocar os tripulantes fora de ação. Quando isso acontecer,
estará na hora de recorrer aos nossos mutantes. Para que servem os outros
teleportadores?
— Kakuta e Ras Tshubai já estão aguardando o sinal para entrarem em ação —
disse Rhodan laconicamente. — Quando poderão fazer isso?
Bell viu que Gucky acenava a cabeça, muito distraído.
— Fique em recepção. Assim você saberá quando os dois saltadores de
desmaterialização poderão iniciar sua viagem.
A testa de Rhodan se enrugou.
— Será que este é um novo sinônimo do termo teleportador?
Bell não respondeu. Betty disse:
— Acho que por enquanto Deringhouse se manterá na expectativa. Ao que
parece o tal do Ivã libertou-se completamente da pressão que o Supercrânio
exercia sobre ele. Pelo que deduzo dos seus pensamentos confusos, chegou a se
livrar de dois membros da tripulação que, juntamente com Deringhouse, queriam
obrigá-lo a ir para Marte.
Gucky, que já havia desaparecido, chamou pelo microtelecomunicador.
— Estão todos grudados na parede; nem conseguem se mexer — anunciou em
tom exultante. — Mas não agüento isto por muito tempo.
— Rhodan! — gritou Bell o mais alto que pôde. — Mande Ras e Kakuta. Acho
que já está na hora. Assim que você me der o sinal, chegarei mais perto e
penetrarei na esfera.
— Quer um bom conselho? Deixe disso. Irei pessoalmente. Basta que Gucky
tenha cuidado para que não haja qualquer imprevisto. Enquanto Deringhouse e
seus homens não puderem se mexer, estaremos a salvo dessa arma dos infernos.
Bell praguejou de si para si. Mais uma vez tivera de realizar os
trabalhos da fase preparatória, que eram os mais perigosos, e agora teria de
ficar parado enquanto os outros completavam a obra. Bem, ele lhes estragaria a
sopa. Ele...
Não chegou a levar o pensamento até o fim. Gucky voltou a chamar. Exibiu
seu dente irritante, alisou o pêlo arrepiado da nuca e agachou-se numa posição
de repouso.
— Acho que os dois teleportadores poderão cuidar do resto — chiou.
Ao que parecia o fato de que outros terminariam o trabalho por ele
iniciado não o entristecia muito.
— Bell, grudei os homens na parede e segurei-os por lá. Consegui fazer
isso com a metade da minha concentração. Mas não posso continuar aqui durante
dias a fio. É preciso libertar os homens do domínio do Supercrânio.
Bell lançou um olhar para a tela.
— Aí vem Rhodan.
A gigantesca nave esférica, a Stardust-III, aproximava-se e, juntamente
com a Good Hope-VII, a Z-13 e os destróieres que haviam acorrido ao local,
passou a descrever uma órbita vertiginosa em torno da Lua.
Um pedaço do envoltório prateado deslizou para o lado, deixando livre uma
abertura. Era a escotilha do grande hangar, que podia abrigar várias naves do
tamanho da Good Hope-VII. Um raio refulgiu, e a nave aprisionada, juntamente
com Deringhouse, Ivã e mais vinte e cinco homens, deslizou para o interior do
ventre guloso da gigantesca esfera.
Bell soltou um suspiro de resignação. Olhou para Betty.
— Então, minha pequena, o que está pensando Deringhouse a esta hora?
A moça passou a mão pela testa.
— Para dizer a verdade, não está pensando absolutamente nada. Ao menos
não constato coisa alguma.
Bell sorriu e olhou para a tela que mostrava a Stardust-III.
— Gostaria de saber o que se passa nesta bola de traças.
Rhodan sorriu na tela.
— Você logo saberá, Bell. Vá entrando. Depressa!
Dali a dez segundos, a Z-13 entrou pela escotilha ainda aberta e parou
junto à Good Hope-VII.
Gucky parou de sorrir. Da tela do comunicador visual acenou para Betty,
como se tivesse entendido o que ela pensara para ele. Afinal, o rato-castor
também era um telepata.
— Eu os seguro — chiou.
— Quem é que você segura? — indagou Bell.
— Não incomode Gucky, por favor — disse Betty com uma seriedade fora do
comum. — Captei pensamentos malignos, dirigidos para a destruição. De repente o
tal do Ivã pretende fazer fogo...
Bell, que já se havia levantado, voltou a afundar na poltrona. Teve a
impressão de estar paralisado. Acreditava que a qualquer momento se
transformaria numa bomba atômica em detonação, que destruiria sua nave e a
própria Stardust-III.
* * *
Ivã Ivanovitch Goratchim sabia que conseguira romper a força que por
alguns anos dominara sua existência. Começou a imaginar que tipo criminoso
seria este que o escolhera como vítima.
Os pensamentos do Supercrânio eram maus e exigentes, enquanto os outros,
que também penetravam em seu cérebro, revelavam amabilidade e boa vontade. Era
possível que tudo isso não passasse de um engano. Mas, para que havia
recuperado sua capacidade de raciocinar? Ele mesmo decidiria de que lado estava
a justiça.
Finalmente veio o instante em que Gucky interferiu nos acontecimentos. De
início a luz e a ventilação falharam. Deringhouse logo constatou, muito
nervoso, que o suprimento de energia dos reatores havia sido eliminado. As
baterias de emergência logo puseram a funcionar a iluminação. Mas a renovação
de ar continuou parada. A sala de comando tornou-se mais fria, e também mais
abafada.
Poucos segundos depois, Ivã percebeu que uma força invisível o levantava
e comprimia fortemente contra a parede. Sentiu-se totalmente desamparado quando
o punho de ferro comprimiu as duas cabeças contra o envoltório redondo da
janela. Conseguia enxergar, mas via apenas o espaço vazio. Os atacantes vinham
do outro lado.
Sua primeira reação foi a de raiva contra aqueles que pretendiam
reduzi-lo à impotência. Será que conheciam seu segredo? Se conhecessem, eles se
expunham voluntariamente a um perigo muito grave. Naquele instante Ivã teria
transformado qualquer pessoa que aparecesse diante da janela numa bomba em
detonação. Acontece que nem sequer conseguia ver Gucky. O rato-castor
encontrava-se fora de seu campo de visão.
Mas logo os pensamentos tranqüilizantes voltaram a surgir em seus dois
cérebros.
“Não tenha medo, Ivã, queremos
ajudar. Mas precisamos agir com cautela, para que você não possa usar sua arma.
Apenas queremos paz com você e sua gente.”
Um segundo depois:
“Nós o traremos para dentro de
nossa nave.”
Ivã nem conseguia virar a cabeça. Pelos cantos dos olhos viu Deringhouse,
que estava estendido no painel de controle sem poder levantar a cabeça por um
milímetro que fosse.
De repente a visão do espaço desvaneceu-se, para ser substituída por um
recinto bem iluminado, em que os homens corriam nervosamente de um lado para
outro.
No cérebro de Ivã começou a germinar uma idéia de destruição. Via
perfeitamente os homens que corriam por ali, e não teria a menor dificuldade em
transformar qualquer um deles numa bomba que destruiria a nave que o havia
trazido até ali. Mas, antes que pudesse realizar seu intento, dois fatores o
impediram.
Conhecia perfeitamente os efeitos de seu dom terrível e sabia muito bem
que também seria destruído se detonasse um daqueles homens. E ainda havia os
pensamentos tranqüilizadores em seu cérebro. Aquela voz suave exercia uma
influência inacreditável em seu espírito. Sentiu o desejo de conhecer a dona da
mesma. E, se pusesse fogo em alguém, seu parceiro mental também seria
destruído.
Ainda havia um terceiro fator: uma nova voz dirigiu-se a ele com frieza e
insistência, mas de forma totalmente diferente da do Supercrânio.
“Ivã, você não deve fazer mais
nenhum mal! Você está com amigos que querem ajudar. Nunca mais você deve
empregar seu dom formidável na destruição, mas apenas na construção.”
Ivã hesitou. Um instante depois soube que obedeceria àquele comando. E
obedeceria espontaneamente, porque decidira assim. Havia naquilo algo de novo,
uma experiência que o fazia feliz.

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