— Bom dia! —
disse o louro com a voz amável. — Entramos de forma um tanto estranha; queira
desculpar. Não tivemos outra alternativa. Pensávamos que...
Deu um salto
enorme para o meio da sala. Era um salto muito maior que o que Sirov pretendia
dar para alcançar a gaveta da escrivaninha.
O marechal
teve a sensação de ter sido envolvido num furacão. Numa raiva surda percebeu
que o louro alto nem quis recorrer às suas armas, sem dúvida muito superiores;
confiava apenas na força dos punhos e na agilidade física.
Mas a raiva
de Sirov não adiantou de nada. Levou uma porção de socos doloridos antes que
pudesse levantar os braços para se proteger. Quando tentou escapar, Deringhouse
lhe bateu com ambos os punhos em cima da cabeça. Sirov tonteou, dobrou os
joelhos, não conseguiu se manter de pé e caiu ao chão com um baque.
A respiração
de Deringhouse nem chegava a ser mais rápida. Apenas a amabilidade havia
desaparecido de seu rosto.
— Não tente
isso uma segunda vez! — avisou ao marechal. — Dispomos de outros meios; da
próxima vez será um homem morto.
Sirov
procurou se levantar. Deringhouse fez um gesto e Welinskij veio em auxílio do
marechal, arrastando-o para uma cadeira e segurando-o. Deringhouse saiu da
sala. Voltou com um monte de fitas de plástico e as atirou a Welinskij.
— Amarre-o!
— ordenou. — Tenha cuidado. Sua segurança depende disso.
Depois,
perguntou a Sirov.
— Sabe por
que estou aqui?
O marechal
não respondeu. Deringhouse esboçou um sorriso zombeteiro.
— Não venha
me dizer que seu serviço de informações é tão ineficiente. A conferência dos
governos legais das potências terrenas decidiu na tarde de anteontem, em
Galáxia, que os objetivos e métodos do atual governo do Bloco Oriental deviam
ser condenados e exigiu a punição dos culpados por uma corte mundial. Já deve
ter ouvido falar nisso.
A essa
altura Sirov já não conseguiu dominar a raiva.
— Não seja
ridículo! — fungou. — Em Galáxia podem decidir e exigir o que quiserem. Quem
vai se interessar por isso?
— Você —
respondeu Deringhouse. — Está em minhas mãos, e delas só sairá para ser
entregue ao carcereiro de Galáxia.
Sirov se
esforçou para soltar uma risada de escárnio, mas não conseguiu.
— Aliás,
você não será o único — prosseguiu Deringhouse em tom indiferente. — Da mesma
forma que o encontrei, ainda vou pôr as mãos em algumas outras pessoas. Assim
não sentirá tanta solidão.
Sirov lhe
lançou um olhar indagador. Deringhouse percebeu que estava interessado em saber
como pudera localizar seu esconderijo. Mas não lhe explicou.
— Afinal,
você só é um dos pequenos patifes — disse Deringhouse.
Com isso a
raiva de Sirov voltou a crescer; mas por mais que forçasse as fitas de
plástico, elas não cediam.
À saída do
apartamento, Deringhouse transmitiu suas instruções a Welinskij.
— Tenha
cuidado! — preveniu-o. — Não caia em qualquer truque. É preferível nem falar
com ele. Não devo demorar. Se houver um imprevisto, use o radiador térmico.
Infelizmente não posso lhe dar coisa melhor.
Welinskij
voltou ao interior da residência e Deringhouse se retirou. Examinou o lugar da
porta onde a fechadura fora retirada cuidadosamente com o radiador térmico.
Estava oculto sob a maçaneta e só mesmo alguém que olhasse cuidadosamente e de
perto notaria alguma coisa.
Ali não
haveria qualquer perigo. Mas, se Sirov estivesse sendo vigiado, a coisa seria
diferente. Nesse caso...
Que nada!
Welinskij possuía uma arma superior e saberia se cuidar. Desde que dispusesse
de mantimentos, poderia resistir com o radiador térmico a um exército inteiro
enquanto conseguisse manter os olhos abertos.
Até então
ele, Deringhouse, já estaria de volta.
Antes de
tomar o elevador para descer ao térreo, ativou o campo de deflexão luminosa.
Assim que chegou à calçada se elevou a uma altitude de dez metros e voou acima
do trânsito.
Seu destino
era a central de telecomunicações. Por ali passavam todos os condutos
telefônicos de Moscou, inclusive os dos dez ou quinze videofones de que a
cidade já dispunha.
Deringhouse
tivera a idéia de penetrar na central de telecomunicações enquanto, em
companhia de Welinskij, viajava de Magnitogorsk a Moscou, parte de avião, parte
de trem ou de carro. Chegando a Moscou, logo transformou a idéia em realidade.
Recorreu ao projetor mental para penetrar no edifício e pelo mesmo meio obteve
permissão de acompanhar trechos das mensagens do setor oficial F. Recorrera à
compulsão hipnótica para obter do diretor a informação de que as mensagens
internas do governo eram transmitidas por esse setor.
A tentativa
foi coroada de êxito. Depois de dez minutos, descobriu o esconderijo do
marechal Sirov. Acompanhara a transmissão das notícias.
Por simples
acaso Sirov foi o primeiro a ser descoberto. Poderia ter sido qualquer outro
membro do Conselho Supremo.
Deringhouse
sabia que, no momento, era mais importante descobrir o esconderijo de
Strelnikov, secretário-geral do conselho.
Se
conseguisse pôr as mãos nele, o êxito do plano de Rhodan estaria garantido.
Deringhouse
não subestimou o risco que correria numa busca a Strelnikov. Para uma pessoa
isolada, o exponencial de perigo que envolvia o projeto cresceria com o tempo,
por melhor que fosse seu equipamento. Além disso, Deringhouse percebeu pela
primeira vez que, ao se unir a Welinskij, arranjara antes um peso que um
auxílio.
Aumentou a
velocidade e, dez minutos depois que deixara Welinskij, chegou ao edifício da
central de telecomunicações.
* * *
Rhodan
procedeu metodicamente. Confiava antes de tudo na força dos seus argumentos.
Não havia nenhum problema que o preocupasse tanto como o da união da
Humanidade, e facilmente poderia influenciar os membros e representantes dos
governos no sentido de concordarem com suas sugestões. No entanto, nada fez para
que isso acontecesse.
Agiu de
igual para igual. Inscreveu-se na lista dos oradores e a palavra lhe foi
concedida em primeiro lugar. Nenhum dos presentes acreditava que aquilo que
teria para dizer fosse mais importante que a mensagem que solicitara a conferência.
Quem
esperava que Rhodan iniciasse seu discurso com um relato do que fizera nos
últimos quatro anos e meio — e houve algumas pessoas que acreditavam que ele
utilizaria a conferência como plataforma publicitária — logo viu que estava
enganado. Rhodan falou sobre aquilo que, nesse meio tempo, havia acontecido na
Terra.
Leu o
relatório sobre a revolução no Bloco Oriental, redigido por seus agentes.
Vários detalhes chegaram ao conhecimento público pela primeira vez. Tratava-se
de fatos que os novos detentores do poder julgavam acobertados pelo segredo.
Rhodan
estava consciente dos efeitos que suas revelações produziriam. Por sugestão sua
e sem que os delegados se opusessem, a conferência foi irradiada pelas potentes
emissoras de televisão da Terceira Potência e retransmitida por todas as
emissoras terrenas, com exceção das situadas no território dos Estados que
compunham o Bloco Oriental.
Rhodan
repetiu as recomendações formuladas aos governos dos blocos de potências
durante as conferências panterrenas realizadas alguns anos atrás. Provou que o
novo governo do Bloco Oriental nada fizera para cumprir essas recomendações e,
mais do que isso, infringira e continuava a infringir as mesmas.
Mas a
acusação de maior peso formulada contra os governos do Bloco Oriental foi a de
que pretenderam desencadear uma guerra que teria significado o fim da
Humanidade, se a Terceira Potência não tivesse interferido a tempo.
As
explanações de Rhodan não duraram mais que uma hora. Assim mesmo abrangeram
toda a problemática em formulações sucintas e precisas. Ao concluir disse:
— Senhores,
sem dúvida temos o direito de levantar a voz em nome daquele grupo de mais de
quatrocentos milhões de pessoas, que já haviam começado a acreditar que dentro
de poucos anos a Terra seria um mundo da união, e que sofreram uma decepção tão
cruel em virtude de uma revolução que não merece esse nome. Quero formular a
seguinte proposta: a conferência tomará uma resolução pela qual declarará que
os objetivos e métodos do Conselho Supremo do Bloco Oriental são um
procedimento criminoso e contrário aos direitos humanos.
A proposta
obteve aprovação unânime em primeira votação.
Rhodan
desceu da tribuna e deixou que outros tomassem a palavra. Ficou satisfeito ao
constatar que os oradores seguintes, sem que o soubessem, se esforçavam para
aplainar o caminho para a outra proposta que pretendia formular. Não interferiu
nas discussões até que julgou chegado o momento. Foi ao anoitecer daquele dia,
quando a conferência ameaçou transbordar da indignação causada pelos métodos
desumanos do regime que se instalara no Bloco Oriental, métodos estes que foram
examinados sob os ângulos mais variados.
Levantou-se
e propôs a criação de uma corte mundial que teria a seu cargo o resguardo dos
direitos humanos em todos os pontos do globo. Ainda sugeriu que os homens que
detinham o poder no Bloco Oriental fossem denunciados perante essa corte,
trazidos à presença do juiz e condenados.
Quando a
proposta foi aceita, a grande maioria das pessoas que se encontravam no enorme
auditório de Galáxia acreditou que a deliberação não passava de um ato
simbólico. Ninguém concebeu a idéia, e muito menos acreditou que Rhodan
conseguiria transformar a resolução em realidade, nos seus mínimos pormenores.
Os trabalhos
da conferência foram suspensos até a manhã do dia seguinte. Nesse dia foram
eleitos os juizes da recém-criada corte mundial. A presidência foi oferecida a
Rhodan, mas este não a aceitou. O posto de juiz supremo foi confiado a
Frederick Donnifer, um australiano que desempenhava as funções de ministro da
justiça do governo de Camberra. E logo se chegou a acordo sobre o preenchimento
dos demais cargos, ainda mais que Donnifer formulava propostas que todos
julgavam aceitáveis.
Um orador
indiano se queixou de que havia um tribunal e um acusado, mas faltava a lei
pela qual os juizes poderiam se guiar ao proferir a condenação.
A objeção
tinha fundamento. Mas logo se verificou que o código a ser adotado poderia ser
a Declaração dos Direitos Humanos promulgada pelas Nações Unidas, que não precisaria
ser submetida a qualquer alteração.
Na noite
daquele dia o tribunal foi constituído. Num breve discurso, Rhodan ressaltou
que em sua opinião o ato representava a criação de mais uma instituição
panterrena, que oportunamente seria seguida de outras. A mais importante e
provavelmente a última seria o governo panterreno.
A primeira
iniciativa, a criação da Federação de Defesa da Terra, não fora bem sucedida,
mas valera como primeiro passo.
Decidiu-se
que, no dia seguinte, seria discutida a forma de uma cooperação que precederia
a constituição da confederação terrena e posteriormente de um Estado federado
terreno. Os participantes da conferência se separaram na convicção de terem
feito o possível para promover o progresso da Humanidade.
Rhodan
providenciara para que seus hóspedes recebessem um tratamento condigno em
Galáxia. Tinha certeza de que a profunda impressão que a cidade causava nos
visitantes e a hospitalidade que lhes estava sendo dispensada representaria
fatores positivos no encaminhamento das negociações.
* * *
Meia hora se
passou sem que Sirov dissesse uma palavra. Welinskij estava sentado atrás dele
e descansara a arma de radiações no colo. Sirov não podia vê-lo. De vez em
quando, o capitão fumava um cigarro, para matar o tempo e vencer o nervosismo.
Depois de
algum tempo Sirov disse:
— Não
poderia ao menos explicar o que esse homem e a Terceira Potência pretendem
fazer?
Welinskij
não achou nada demais em responder à pergunta. Deringhouse o esclarecera a este
respeito, mas Welinskij cometeu o erro de se julgar uma espécie de missionário,
a quem cabia levar a luz da verdade até mesmo aos corações mais sombrios.
Subitamente
Sirov interrompeu seu interlocutor. Inclinou a cabeça para a frente o mais que
as fitas de plástico que lhe prendiam os ombros o permitiram.
— Está
ouvindo? — cochichou.
Welinskij
não ouviu nada.
— Alguém
está subindo a escada — disse Sirov. — Quem será? Seu companheiro?
Welinskij se
levantou e segurou o radiador térmico.
— Vou dar
uma olhada — disse.
Foi na ponta
dos pés até a porta e saiu para a área fronteira. Parou junto à entrada da
residência e aguçou o ouvido. Percebeu uma série de passos, mas talvez isso não
significasse nada. O edifício era grande, e seria de estranhar se naquele
instante não houvesse ninguém pelas escadas.
Os passos
não se fizeram ouvir nas imediações da porta. Assim que se convenceu disso,
Welinskij abriu a porta o suficiente para enfiar a cabeça na fresta. Olhou para
a direita e para a esquerda; não havia ninguém. Tranqüilizado, fechou a porta.
No mesmo
instante, ouviu um estalo surdo vindo da sala em que Sirov se encontrava.
Assustado, deu dois passos largos, se colocou na porta de entrada e olhou para
a sala.
Sirov
continuava sentado na sua cadeira... mas onde ela estava! O marechal devia ter
conseguido movê-la por meio de vários solavancos. Naquele momento a cadeira se
encontrava ao lado esquerdo da escrivaninha e caíra para a frente. Sirov estava
com o peito encostado ao canto do móvel e teve que desenvolver um esforço tão
intenso para manter a cabeça ereta que as veias do pescoço se incharam.
Welinskij
levantou o radiador térmico.
— Não faça
isso, seu idiota! — fungou Sirov. — Pelo amor de Deus, fique onde está.
Welinskij
hesitou. Estava perplexo. Só quando Sirov deixou a cabeça pender para a frente
e seu rosto se desfigurou numa careta de deboche percebeu o que realmente
estava acontecendo.
Numa espécie
de movimento reflexo levantou a pesada arma térmica. O dedo se entortou junto
ao gatilho. Mas no mesmo instante foi agarrado por um turbilhão ensurdecedor e
seus pensamentos se apagaram.
* * *
A paciência
de Deringhouse foi submetida a uma prova dura. Strelnikov não parecia ser um
dos usuários mais assíduos do telefone. No curso de uma hora não chegou a dar
sinal de vida.
A não ser
que o homem que, no início de cada telefonema, dizia “grande vitória” e obtinha
a resposta “grande êxito” fosse Strelnikov. A possibilidade não podia ser
desprezada.
Depois de
duas horas Deringhouse abandonou seu posto de escuta. Anotara a posição do
aparelho que costumava ser usado pela “grande vitória”. Daria uma olhada no
local. Se não conseguisse nada, poderia voltar.
Saiu da
central de telecomunicações às onze horas e trinta e cinco minutos; dez minutos
depois chegou à Rua Vinte e Oito de Outubro, onde ficava o esconderijo de
Sirov. Logo viu a aglomeração que se formara diante do prédio e não duvidou um
instante que alguma coisa acontecera com o marechal. Estava invisível; entrou
cautelosamente pelo largo portal, para não esbarrar em ninguém, e voou pela
escadaria em direção ao oitavo andar, onde ficava a residência de Sirov.
Diante da
residência notou um grupo de homens uniformizados. Ainda percebeu uma fenda de
uns dez centímetros de largura, que descia pela parede do corredor.
Parou no
corredor, esperando que os policiais deixassem a porta livre. Ouviu que, no
apartamento, houvera uma explosão cercada de circunstâncias bastante estranhas.
Ao que parecia, ninguém sabia dizer quem era o ocupante da residência, e
ninguém tinha a menor idéia sobre a causa da explosão.
Depois de
ter esperado quinze minutos, Deringhouse chegou ã conclusão de que qualquer
perda de tempo representaria um risco. Lançou mão do projetor mental. Os
policiais obedeceram à ordem que lhes foi transmitida: afastaram-se para o
lado, liberando a porta.
No interior
do apartamento pelo menos seis policiais se mantinham ativos. Deringhouse
obrigou um por um a se submeter à sua vontade e entrou no escritório de Sirov.
No lugar em
que antes existia a porta, abria-se um enorme buraco. O soalho estava quebrado e
parte do teto desabara por cima da porta. Pelo buraco, via-se o apartamento do
nono andar.
Era estranho
que a explosão quase não causara nenhum dano no interior da sala. Uma
prateleira de livros caíra e seu conteúdo se espalhara pelo chão. Era só.
O livro que
fora atirado mais longe estava perto da mão de um homem que a explosão erguera
no ar e atirara ao chão.
Era
Welinskij.
Deringhouse
se abaixou sobre ele, enquanto os policiais, obedecendo ao seu comando
hipnótico, se enfileiravam junto à parede. Welinskij estava deitado de bruços.
Deringhouse o virou de costas e percebeu à primeira vista que estava morto.
Welinskij!
Deringhouse
cerrou o punho. Fora um jovem tão entusiasta e tolo! Não deveria tê-lo deixado
a sós com Sirov, a raposa velha.
Mas ia lhes
mostrar o que receberiam em troca desse assassinato.
* * *
Dali a
quinze minutos se encontrava novamente na rua. Percebeu o risco que corria.
Sirov fugira e era mais que natural que acreditasse que ele, Deringhouse,
voltasse nas próximas horas para revezar Welinskij.
Mesmo um
homem invisível equipado com uma arma psicológica poderia ser capturado, desde
que o número de perseguidores fosse suficiente e estes agissem com bastante
habilidade.
No curso dos
quinze minutos examinara o buraco aberto pela explosão. Mesmo quem não fosse
perito em explosivos perceberia que a carga fora colocada de tal maneira que
mais de noventa e cinco por cento do efeito explosivo se desenvolveria
verticalmente para cima, a partir da soleira da porta. Welinskij devia estar
ali quando a bomba foi detonada ou provavelmente ainda estaria no hall, com a
porta entreaberta.
Deringhouse
também encontrou o detonador. Era um botão de aparência inofensiva que se
encontrava sobre o tampo da escrivaninha. Perto desta se encontrava a cadeira
em que Sirov estivera sentado, ainda com os restos das fitas de plástico.
Deringhouse
pôde fazer a reconstituição mental dos acontecimentos. Por algum motivo,
Welinskij saíra da sala. Pobre-diabo! Nunca deveria ter feito uma coisa dessas.
Sirov aproveitou o tempo para escorregar com a cadeira para junto da
escrivaninha e, no momento em que Welinskij abriu a porta para entrar, se
inclinou para a frente e comprimiu o botão com a testa.
Aquele
apartamento devia pertencer ao governo. A bomba fora colocada ali quando foi
comprado ou construído pelo governo. Quem colocou a bomba naquele local
demonstrou muita habilidade. Qualquer um que se encontrasse num aperto
conseguiria fazer com que seu inimigo fosse à porta sob qualquer pretexto.
Desde que nesse preciso instante conseguisse colocar a mão, ou qualquer coisa
que se movesse, em cima do botão, o caso estaria liquidado.
Para Sirov
estava liquidado; e além de tudo o marechal se apossara do radiador térmico de
Welinskij.
Deringhouse
compreendeu que o incidente exigia uma modificação dos seus planos. A esta hora
Strelnikov já devia ter sido prevenido e naturalmente abandonara seu
esconderijo; se realmente era a “grande vitória”.
De qualquer
maneira Deringhouse resolveu dar uma olhada no esconderijo. Muitas vezes uma
pessoa que se vê obrigada a sair às pressas deixa uma pista. Tirou o bilhete
com a anotação do bolso e o leu de maneira que ficasse dentro do campo de deflexão.
Era na Rua
Kujbyschev. Deringhouse se lembrou de que a rua ficava num bairro da zona
leste. Dispôs-se a subir quando notou um movimento acima de sua cabeça. Olhou e
viu um trançado fino de fios metálicos, que uma turma de trabalhadores
procurava firmar nos telhados de ambos os lados da rua.
Assustou-se.
Virou a cabeça e viu que o mesmo trançado cobria a rua em todos os lados. Além
disso, em cada esquina, o mesmo descia dos telhados até a rua. E subitamente
dezenas de policiais surgiram de ambos os lados daquele trecho de rua.
Era a
armadilha perfeita!
Deringhouse
não teve ilusões. O alcance de seu projetor mental não ultrapassava cinqüenta
metros. A essa distância poderia, quando muito, submeter dez homens à sua
vontade, desde que eles estivessem bem juntos.
Imaginou
quais seriam as ordens transmitidas a estes policiais. Não deviam sair do
lugar. E estavam tão encostados um ao outro que nem mesmo um cachorro de
tamanho médio conseguiria passar entre eles. Provavelmente estavam preparados
para mobilizar reservas assim que um deles saísse do lugar, deixando uma
passagem. Naturalmente nas ruas laterais várias companhias de polícia estariam
de prontidão, preparadas para acudir ao primeiro chamado e ajudar a encurralar
o homem invisível.
A esse homem
invisível seria impossível exercer um domínio mental simultâneo sobre todos os
policiais.
E a tela de
arame?
Não havia a
menor dúvida de que era mantido sob observação. Telas de arame deste tipo
costumavam ser fabricadas para as mais variadas finalidades. Submetidas a uma
corrente elétrica de reduzida intensidade, indicavam, através de um instrumento
não muito complicado, em que ponto eram tocadas. Na altura dos telhados
aconteceria a mesma coisa que nas ruas transversais, se procurasse sair da
armadilha por lá.
No entanto,
não podiam saber se ele se encontrava na armadilha. Portanto, só precisava
esperar alguns dias até que os policiais fossem embora e retirassem as telas.
Alguns
dias!...
Não podia
esperar nem mesmo algumas horas. Cada minuto perdido na atividade dava a Strelnikov
novas oportunidades de apagar sua pista.
Também
poderia se libertar à força. Ainda possuía o radiador de nêutrons. Poderia
abrir uma brecha e escapar.
Mas se
lembrou do que acontecera em Vênus. O fogo concentrado das armas automáticas
seria dirigido sobre a brecha. Se o campo defensivo do traje recebesse uma
solicitação energética muito intensa, tanto o campo de deflexão como o campo de
neutralização gravitacional seriam eliminados. Se tornaria visível e teria que
se mover no solo.
Sentiu-se
tomado pelo nervosismo quando viu que a polícia se preparava para uma operação
de grande envergadura. Viu caminhões que evacuavam os moradores das vizinhanças
e equipes de operários ocupadas em pregar as janelas desse trecho da Rua Vinte
e Oito de Outubro.
Dessa forma,
quando se pusessem a revistar as casas, não poderia usar qualquer janela para
fugir, sem ser percebido.
O homem que
preparara a operação com tamanha rapidez devia ser dotado de uma inteligência
extraordinária. Não se esquecera de nenhum detalhe que pudesse representar uma
escapatória para o homem invisível dotado de energias hipnóticas.
Não teria
mesmo escapatória?
Deringhouse
teve uma idéia. De início foi vaga e fugaz; antes que compreendesse, saiu de
sua mente. Mas ele a trouxe de volta e fez passar várias vezes pela cabeça.
Seria uma possibilidade?
O risco era
enorme. Mas antes assumir um risco que perder uma oportunidade.
Afinal, o
que poderia lhe acontecer?
6
— O que fizeram em Bajmak foi um truque e nós caímos nele — declarou
Sirov.
Seu aspecto
não melhorara muito desde o instante em que Deringhouse lhe dera a sova. Não
tivera tempo para mudar de roupa. Através de um chamado de emergência,
descobriu o esconderijo de Strelnikov e para lá se dirigiu pelo caminho mais
rápido.
Quando soube
o que havia acontecido, Strelnikov logo procurou retribuir o golpe. Incumbiu um
jovem coronel do serviço de segurança de capturar o agente de Rhodan se este,
conforme era esperado, voltasse à Rua Vinte e Oito de Outubro.
— É claro
que foi um truque — resmungou para Sirov. — Queriam que acreditássemos que a
mina de urânio os manteria ocupados por mais alguns dias, quando na verdade já
se encontravam em Moscou.
Os olhos de
Sirov brilharam.
— Mas
conseguimos enganá-los!... — gabou-se.
Strelnikov
deu uma ducha fria no seu otimismo.
— Por
enquanto — disse. — Só por enquanto.
Sirov se
acalmou.
— O que
pretende fazer? — perguntou.
— Mandar
levá-lo a um lugar seguro — foi a resposta lacônica de Strelnikov.
Sentou atrás
da escrivaninha e preencheu um formulário. Sirov viu que colocou sua assinatura
embaixo do mesmo.
— Tome isto
— ordenou. — Dirija-se ao endereço indicado. De lá será devidamente
encaminhado. Depois aguarde minhas instruções.
Sirov fez
continência.
— Pegue meu
carro — prosseguiu Strelnikov. — Está estacionado na frente da porta. Aí —
apontou para o bilhete que Sirov segurava na mão — receberá o tratamento de que
precisa. Além disso, lhe darão um uniforme novo, ou então um jogo de trajes
civis.
Sirov
executou uma meia-volta impecável e se retirou da sala. Strelnikov aguardou até
que o ruído dos passos sumiu e deu um telefonema. Ao terminar se reclinou na poltrona
e sorriu. Parecia satisfeito.
* * *
Deringhouse
voltou ao prédio em que residira o marechal Sirov.
“Se alguém tiver que morrer”, pensou
amargamente, “que seja um deles, não um
inocente.”
Os policiais
ainda se mantinham ocupados na residência de Sirov. Fez com que o projetor
mental exercesse sua influência sobre eles. Deixou para trás sete homens e
levou três ao sótão da casa. O elevador fora desligado, provavelmente porque
poderia proporcionar ao homem que procuravam uma oportunidade de sair rapidamente
e sem ser notado.
No sótão
havia várias clarabóias. Deringhouse colocou cada policial junto a uma delas.
Ainda estava escondido atrás do campo de deflexão, mas ouviam sua voz e
obedeciam às suas ordens.
— Acertem os
relógios! — ordenou.
A resposta veio
logo. Ao que parecia a polícia moscovita dispunha de excelentes relógios. Não
foi necessário corrigir nenhum deles.
— Às doze e
quarenta em ponto — prosseguiu Deringhouse — os senhores abrirão as clarabóias
e sairão para o telhado. Subam à cumeeira e não deixem que nada os perturbe.
Repitam!
A ordem foi
repetida. Deringhouse estava satisfeito. Saiu do sótão e flutuou escada abaixo
até atingir o térreo.
Não sabia se
numa das outras casas havia uma clarabóia que não tivesse sido trancada. Mas
acabou vendo uma; no telhado da última casa antes da transversal que se dirigia
para o sul. Provavelmente serviria de passagem aos policiais escondidos atrás
das cumeeiras dos telhados, com as pistolas automáticas engatilhadas.
Deringhouse
não teve a menor dificuldade em penetrar na casa. Sua suposição se confirmou:
teve que passar o tempo de espera num canto daquele sótão poeirento, para não
esbarrar em qualquer dos policiais que entravam e saíam pela clarabóia.
Uma única
vez, quando houve uma pausa, se arriscou a enfiar a cabeça pela abertura para
sondar o terreno. Conforme esperava, naquele telhado, ao contrário dos outros,
a tela de arame fora estendida ao menos dois metros acima da cumeeira, a fim de
que os policiais pudessem se mover livremente por baixo dela. Provavelmente
fora presa ao outro lado do telhado por meio de isoladores.
Doze e
trinta e cinco.
Muita coisa
poderia acontecer. Era possível que algum superior notasse a falta dos três
policiais na residência de Sirov e os descobrisse no sótão. Não os deixaria lá,
isso era certo.
E então?
Então
poderia voltar a quebrar a cabeça, e enquanto fizesse isso Strelnikov se
afastaria cada vez mais.
É agora!
Alguns
segundos se passaram sem que acontecesse nada. Um policial enfiou as pernas
pela clarabóia e saltou para dentro.
O que teria
saído errado?
Outro
policial entrou pela porta e subiu ao telhado pela clarabóia.
O plano
falhara.
Nesse
instante começou a gritaria.
— Saiam daí!
Desçam do telhado! Ficaram malucos?
Num
instante, Deringhouse se aproximou da clarabóia e flutuou suavemente através da
mesma. Agachou-se no telhado e olhou para a casa de Sirov. Os três policiais
obedeceram às suas ordens. Sem se preocuparem com os gritos de advertência
subiram pelo telhado, cuja inclinação não era muito acentuada. Cada um se
dirigia diretamente da respectiva clarabóia para a cumeeira. Os outros, que
lhes apontavam as pistolas automáticas, pareciam quebrar a cabeça para
descobrir atrás de qual deles o agente de Rhodan se escondera.
O plano de
Deringhouse era este. Era provável que ninguém soubesse que o pequeno projetor
mental, que cabia perfeitamente no bolso, lhe permitia transmitir ordens
pós-hipnóticas. Se suas suposições fossem corretas, os outros policiais
acreditariam que sempre se encontrava perto dos três colegas que andavam como sonâmbulos.
Pensariam que se encontrava no telhado da casa de Sirov, não naquele em que
eles mesmos estavam postados.
Às doze
horas e quarenta e um minutos, o mais ágil dos três policiais chegou à cumeeira
do telhado e tocou na tela metálica. Em algum lugar bem próximo, um instrumento
de medida reagiria e desencadearia um alarma, uma sereia ou uma campainha.
E depois...
Deringhouse
viu com seus próprios olhos o que aconteceu depois. Ouviu o zumbido e as
batidas características dos helicópteros, antes de vê-los subir das ruas
próximas. Não pôde deixar de admirar aquela organização, que permitia uma ação
tão rápida.
Os pilotos
dos helicópteros sabiam perfeitamente em que lugar deviam se postar. Formaram
um círculo estreito, poucos metros acima da cumeeira da casa de Sirov. Menos de
um minuto se passara desde o momento em que o primeiro policial tocara a tela,
e todas as peças começaram a disparar.
Nesse meio
tempo, os outros dois policiais também haviam atingido a cumeeira. Caíram sob a
primeira salva, escorregaram ruidosamente telhado abaixo e desapareceram atrás
da borda.
Os
helicópteros continuaram a disparar. Não se interessaram pelos três policiais,
mas pelo homem invisível. Posteriormente Deringhouse soube que acreditavam que,
apesar de sua invisibilidade, ele seria vulnerável ou, o que muito se
aproximava da verdade, que o campo de deflexão poderia ser desativado pela
solicitação energética excessiva dirigida ao campo protetor, com o que o homem
se tornaria visível.
De qualquer
forma sua hora havia chegado. Flutuou para a cumeeira, contornou cuidadosamente
um grupo de policiais que olhavam nervosamente para os helicópteros e desceu
pelo outro lado do telhado. Chegou ao ponto em que a tela estava presa ao
telhado e a arrancou. Acreditava que não haveria qualquer risco. Sem dúvida o
dispositivo de alarma, que devia ter sido instalado num posto policial não
muito distante, teria sido colocado em atividade permanente em virtude da ação
dos três policiais.
Levou um
minuto para abrir na tela, muito resistente, uma brecha que permitisse sua
passagem. Ninguém se interessou por ele. O último perigo, o da observação
direta, foi afastado pela curiosidade que a ação dos helicópteros provocou
entre os policiais.
Às doze
horas e quarenta e quatro minutos, Deringhouse estava livre. Para fugir a todo
risco, desceu a meia altura numa das ruas vizinhas e se dirigiu para os bairros
do leste, onde ficava a Rua Kujbyschev.
* * *
— E agora —
disse Strelnikov ao homem de teatro — mande o major entrar. Quero conversar com
ele.
O homem
obedeceu. Retirou-se; dali a trinta segundos o major Kalenkim entrou. Nunca
vira o homem que o chamara; mas sabia que devia executar fiel e prontamente
qualquer ordem partida do mesmo.
Fez uma
continência impecável.
— Preste
atenção — disse Strelnikov. — Quero lhe explicar uma coisa. Pode parecer muito
confuso e complicado, mas com sua inteligência...
* * *
Doze e
cinqüenta e nove. Deringhouse penetrou no prédio da Rua Kujbyschev sem ser
visto. Tratava-se de um daqueles feios prédios de apartamentos de quinze
andares.
O aparelho
de que a “grande vitória” se servira nos seus telefonemas ficava no apartamento
13 C.
Deringhouse
flutuou para cima. A porta do apartamento estava fechada, e no corredor havia
algumas pessoas. Deringhouse esperou até que entrassem em seus apartamentos ou
no elevador. Depois abriu a porta, dirigindo o radiador por alguns segundos
contra a fechadura. O fluxo neutrônico extremamente intenso provocou uma série
de reações nucleares que transformou os materiais da fechadura em outras
substâncias que não eram dotadas de qualquer coesão. Quando abriu a porta, uma
reluzente poeira metálica radiativa caiu da fechadura.
Deringhouse
entrou. Pensara que o apartamento estivesse vazio. Strelnikov tivera tempo de
sobra para dar o fora.
Mas, para
surpresa sua, viu um homem sentado no chão do hall. Mantinha a cabeça inclinada
para a frente e tinha os olhos semicerrados. Uma faixa vermelha se estendia
pelo lado direito do rosto.
Era um homem
velho, de cabelos brancos. Ao que parecia não notou que a porta se abrira; não
se mexia. Sobre seus joelhos havia um bilhete. Deringhouse conseguiu decifrar
as letras desajeitadas:
Agente da Terceira Potência! Strelnikov fugiu. Posso dizer onde está.
Ele me bateu.
A primeira
idéia que acudiu a Deringhouse foi a de que caíra numa armadilha. Quem seria
aquele homem?
Procurou
avaliar a situação. Pelo aspecto, aquele velho devia ter sido o criado ou o
secretário de Strelnikov. Como secretário poderia ter ouvido algumas coisas
faladas diante de Strelnikov. Era perfeitamente possível que soubesse da
existência de um agente da Terceira Potência e estivesse informado sobre as
capacidades extraordinárias de que o mesmo era dotado. Escrevera o bilhete na
suposição de que o agente entraria no apartamento como um homem invisível.
Strelnikov
batera nele; a cicatriz estava ali. Para se vingar oferecia informações sobre o
paradeiro de Strelnikov.
—
Levante-se! — disse Deringhouse.
O velho
estremeceu; provavelmente estava dormindo.
— Onde...
quem...? — gaguejou.
— Estou à
sua frente — disse Deringhouse. — Sou o agente da Terceira Potência. Parece que
está disposto a me levar ao lugar em que posso achar Strelnikov.
Por um
momento teve a impressão de que o velho superestimara sua própria coragem.
Tremeu de medo e só se levantou com muito esforço.
— Eu...
eu... — gaguejou. Deringhouse veio em seu auxílio.
— Não tenha
medo de mim. Como é seu nome?
— Nikolaj.
— Pois bem,
Nikolaj. Sabe para onde Strelnikov fugiu?
Nikolaj fez
que sim.
— Como ficou
sabendo?
— Ouvi a
conversa que teve com um jovem oficial que veio a este apartamento.
— Quer me
levar para lá? — perguntou Deringhouse.
Nikolaj
confirmou com um forte aceno de cabeça.
— Por que
lhe bateu? — indagou Deringhouse.
Nikolaj deu
de ombros.
— Ao sair
disse: “Tome isto por andar me espiando!”,
e bateu no meu rosto com um chicote.
Com os olhos
chamejantes, Nikolaj fez um movimento distraído da mão em direção ao lado
direito do rosto.
Deringhouse
respondeu com um aceno de cabeça.
— Esse tipo
de gente nunca escapa ao seu destino — murmurou. — Podemos sair logo?
Enquanto
desciam no elevador, Nikolaj disse que o esconderijo de Strelnikov ficava em
lugar bem próximo. Seria mais prático andarem a pé.
* * *
O major
Kalenkim estava à paisana. Encostado a uma casa de esquina, assumiu a atitude
de quem aproveita o último dia de férias para ver a fábrica do lado de fora e
ter pena dos pobres-diabos que têm de trabalhar a uma hora daquelas.
Trazia na
boca um cigarro que já se apagara há muito tempo. Não era fumante e só usara o
cigarro para oferecer uma imagem mais autêntica.
Não precisou
de muita paciência. Cerca de quarenta e cinco minutos depois de assumir seu
posto, o homem que teria que vigiar desceu a rua e passou a mão direita atrás
da cabeça.
O sinal
convencionado! O homem era este.
Antes de
chegar ao portão da fábrica, dobrou para o lado e seguiu o caminho estreito que
ladeava o muro de cerca de três metros de altura que cercava toda a área da
fábrica. O major Kalenkim tocou no relógio de pulso que, na verdade, não era
nenhum relógio. Com isso estabeleceu um contato que desencadeou o sinal de
alarma para os homens que, num ponto mais distante, aguardavam o momento de
entrarem em ação.
Abandonou a
esquina em que se instalara tão confortavelmente e seguiu o homem que, a
intervalos regulares, repetia o sinal convencionado, para assegurar a Kalenkim
que tudo continuava bem com ele.
O caminho
estreito parecia feito especialmente para acompanhar alguém às escondidas.
Pequenos tratores com fileiras de reboques carregados ou vazios passavam sem
cessar, e entre eles marchavam os trabalhadores. Três equipes de trabalhadores
de construção estavam ocupados em reparar o muro em vários pontos.
Kalenkim
tinha boas chances de passar despercebido em meio a tamanha confusão.
O homem que,
de tempos em tempos, passava a mão atrás da cabeça passou por um portão lateral
e entrou na área da fábrica. Kalenkim o seguiu a uma distância segura. Estava
convencido de que dali em diante tudo daria certo.
A enorme
caldeira de eliminação de vapor dos reatores da fábrica, que garantiam a esta
um suprimento de energia que não dependia da rede urbana, não ficava a mais de
cem metros.
* * *
Enquanto
caminhavam, Nikolaj e Deringhouse não trocaram uma palavra. Nikolaj ia à
frente, confiante de que o agente o seguia.
Levou-o até
o portão de uma fábrica estatal e ao chegar lá dobrou para a esquerda. Ao lado
do muro o caminho conduzia a um portão lateral, por onde Nikolaj entrou, em
meio à confusão formada pelos veículos e trabalhadores, penetrando no terreno
pertencente à fábrica, ao que tudo indicava sem ser percebido.
Dirigiu-se
diretamente a uma enorme caldeira metálica que, em local um pouco distante da
fábrica propriamente dita, se erguia a uma altura de oitenta metros.
Depois de
ter deixado para trás a massa de trabalhadores que poderiam ter ouvido a
estranha conversa de Nikolaj com um homem invisível, este disse:
— Strelnikov
não está escondido muito no alto, mas na sala de vigilância, situada a meia
altura. O elevador externo vai para lá. Está vendo?
Deringhouse
viu o elevador e a pequena fileira de janelas que interrompia a lisura da
parede metálica a uma altura de cerca de quarenta metros.
— Vamos
adiante! — ordenou. Ninguém os deteve quando tomaram o elevador e subiram.
Abandonaram o elevador e entraram, com Deringhouse à frente, na primeira das
salas de vigilantes.
Nikolaj
parecia sentir medo de novo.
— Se ele me
vê — cochichou — vai...
— Não tenha
medo — disse Deringhouse. — Venha!
Ultrapassada
a porta pela qual haviam entrado, havia mais duas portas.
— Para onde
devo ir? — perguntou Deringhouse.
Nikolaj não
sabia.
— Tentarei
aqui — disse Deringhouse e se dirigiu à porta que ficava na parede lateral da
sala.
Nikolaj não
o viu, mas viu a impressão deixada pelo impacto das botas no plástico macio do
soalho. E parou perto da porta.
— Está
aberta — disse Deringhouse e a empurrou.
Nikolaj
levantou a mão. Parecia ser um gesto inofensivo, como se quisesse se segurar na
parede.
Mas, antes
que sua mão a alcançasse, o cano de uma arma surgiu diante dele e a voz
enérgica de Deringhouse disse:
— Basta, meu
velho! Se levantar a mão mais um centímetro, não assistirá ao seu triunfo.
Nikolaj
empalideceu. Sua mão começou a tremer, hesitou um pouco e foi baixada. As
pisadas de Deringhouse se aproximaram pelo soalho de plástico. O cano da arma
atravessou o ar em sua direção.
— Tire a
peruca! — ordenou Deringhouse.
Nikolaj
hesitou um pouco, mas obedeceu. Contorceu o rosto quando a cabeleira branca
saiu.
Por baixo da
cabeleira surgiu uma calva reluzente, a calva do secretário-geral Strelnikov.
* * *
— Respeito
sua coragem — disse Deringhouse, depois de ter abandonado a invisibilidade. —
Mas devia ter imaginado que o plano não tinha a menor possibilidade de êxito.
Dessa forma nunca conseguiria pôr a mão em mim.
Strelnikov
recuperara boa parte de seu autocontrole. E sabia que o jogo estava
definitivamente perdido.
— Como
descobriu? — perguntou.
— Foi de uma
forma muito estranha. Você me disse que Strelnikov o havia batido e fez um
movimento de mão em direção ao lado direito do rosto. Acontece que o maquilador
colocou a cicatriz do lado esquerdo. Isso já me deixou desconfiado. Quando nos
dirigíamos para cá notei seu gesto, a mão que passava atrás da cabeça, e
descobri o homem ao qual o sinal se dirigia. O que está fazendo agora?
— Está
esperando que eu apareça e lhe diga que você está preso no interior da
caldeira.
— Para que
os gestos?
— Tínhamos
de contar com a possibilidade de que você me submetesse a uma influência
hipnótica. Só faria aqueles gestos enquanto fosse dono da minha vontade. O
major Kalenkim tinha instruções de executar outro plano assim que eu deixasse
de fazer os gestos, dando a entender que você havia conseguido dominar meu
espírito.
— Os
trabalhadores com os tratores e os carros na verdade são policiais, não são?
— São. Iriam
trancar a caldeira assim que se encontrasse lá dentro.
— E como eu
teria entrado lá? Por um alçapão que fica junto à porta?
Strelnikov
fez que sim.
— A chave
está aqui — apontou para um botão quase invisível que ficava perto da porta. —
Esta porta foi colocada há duas horas. Você teria caído diretamente na
caldeira.
Deringhouse
acenou com a cabeça.
— Nesse caso
eu não teria conseguido ativar o campo de neutralização gravitacional em tempo,
ou você teria enchido a caldeira de vapor.
— Era esta a
minha intenção. Será que você ainda teria uma chance?
Deringhouse
ergueu os ombros.
— Não sei.
Provavelmente não. Comprimiu um botão e viu que, diante da porta, uma parte do
soalho desapareceu.
— O que
pretende fazer? — perguntou Strelnikov.
— O que
pretendo fazer é o seguinte — apressou-se Deringhouse a dizer — você encontrará
um pretexto plausível para fazer com que os membros do conselho compareçam
amanhã, às nove horas da manhã, à Praça das Nações. Há dois dias foi
constituída uma corte mundial e decidiu-se a condenação dos homens que detêm o
poder no Bloco Oriental. Você e seus comparsas serão julgados.
Strelnikov
estava muito sério.
— Só se me
hipnotizar.
Deringhouse
sacudiu a cabeça.
— Um chefe
de Estado hipnotizado não me serve. Você comparecerá a juízo, não voluntariamente,
mas na posse plena de suas faculdades mentais; você, os outros quatrocentos e
quatorze membros do conselho com direito de voto e os adidos. E principalmente
o marechal Sirov. Deste eu faço questão.
Deringhouse
lançou um olhar demorado para seu radiador de nêutrons.
— Sabe
perfeitamente o que o espera se não cumprir minhas ordens.
Strelnikov
baixou a cabeça.
— Para
começar — prosseguiu Deringhouse — diga àquele major que está lá embaixo que dê
o fora, e isso pelo meio mais rápido possível. E não se esqueça de passar a mão
atrás da cabeça quando der a ordem.
* * *
No dia 18 de
junho, Perry Rhodan propôs à conferência que a recém-criada corte mundial
fizesse alguma coisa para cumprir a resolução do dia 16: os homens do regime
que detinha o poder no Bloco Oriental deviam ser acusados e julgados.
A proposta
provocou uma discussão acalorada. Os representantes da Federação Asiática
duvidaram da exeqüibilidade do projeto. Os representantes dos Estados da OTAN
manifestaram dúvidas de outra espécie.
O motivo
verdadeiro foi a sensação desagradável que se apossou da maioria dos
representantes ao pensarem que um governo ainda no poder seria convocado a
juízo.
De repente
se assustaram com a coragem demonstrada dois dias antes, por ocasião da
resolução simbólica.
Mas Perry
Rhodan demonstrou cabalmente e com certo sarcasmo que uma assembléia como esta
se desprestigiaria se tomasse uma resolução e frustrasse sua execução.
Prontificou-se a colocar à disposição da corte mundial os recursos técnicos que
se tornassem necessários à execução do plano. De noite declarou com uma
franqueza contundente:
— Não terão
qualquer dificuldade. Já tomamos todas as medidas para realizar a prisão dos
membros do Conselho Supremo do Bloco Oriental.
Na manhã do
dia 19 de junho, a Stardust-III decolou de Galáxia com sua preciosa carga de
membros dos governos de todos os países do mundo. Desenvolvendo grande
velocidade, penetrou no território do Bloco Oriental, sem ser atacada, às oito
e cinqüenta, tempo de Moscou, desceu cuidadosamente na área imensa da Praça das
Nações. Uma rampa energética foi descida, e o presidente da corte mundial,
Frederick Donnifer, saiu da enorme nave em companhia de seus aliados e de Perry
Rhodan, chefe da Terceira Potência.
Ao que
parecia, alguém tomara providências para evitar que algum curioso entrasse na
Praça das Nações. A área estava completamente vazia, com exceção de um pequeno
grupo de pessoas.
Frederick
Donnifer, que ainda não se acostumara à sua elevada posição, lançou os olhos em
torno quando pôs os pés no solo; parecia inseguro.
— Um
momento! — pediu Rhodan. — Aí vem Deringhouse; quer apresentar seu relatório.
Um homem se
destacou do pequeno grupo. Caminhou para o lugar em que se encontrava a
delegação.
Deringhouse
não deu a menor atenção ao juiz. Dirigindo-se a Rhodan, anunciou:
—
Deringhouse relatando. As ordens foram cumpridas. Os membros do Conselho
Supremo devem chegar dentro de poucos minutos.
Rhodan deu
um sorriso e ordenou:
— Major,
repita esta informação perante o senhor Donnifer, presidente da corte mundial.
Donnifer se
adiantou. Deringhouse deu meia-volta e, fazendo continência, repetiu seu breve
relato. De olhos semicerrados, Donnifer disse:
— Major, tem
certeza de que todos virão para cá?
— Certeza
absoluta — respondeu Deringhouse.
Voltando-se
ligeiramente em direção a Rhodan, prosseguiu:
— Não
confiei muito que executassem a ordem de Strelnikov, ainda mais que, de vários
quilômetros de distância, perceberão que a Stardust-III pousou na praça. Cada
um dos membros do conselho será acompanhado por uma escolta de oficiais
devidamente influenciados. Esses oficiais cumprem minhas ordens: trarão seu
homem, quer ele queira, quer não.
Nesse
instante a primeira limusine preta atravessou o cordão de policiais que
isolavam a Praça das Nações. Logo foi seguida de outras. Todas elas descreviam
uma curva, se dirigiam à área de estacionamento e deixavam sua carga. Parecia
que a gigantesca esfera da Stardust-III não impressionava os homens que se
encontravam nos veículos. Notava-se perfeitamente que muitos dos membros do
conselho vieram porque sua escolta não lhes deixara outra alternativa.
Deringhouse
fez com que os membros do conselho fossem reunidos num lugar. O grupo foi
cercado pelos membros das escoltas, para impedir qualquer fuga.
Deringhouse
pôs-se a contar. O conselho era formado de quatrocentos e quinze membros com
direito de voto e oitenta e nove adidos. Sirov foi um dos últimos que
compareceu ao ponto de reunião.
Às nove e
quinze, Deringhouse voltou a se aproximar de Frederick Donnifer e anunciou:
— O Conselho
Supremo está pronto para receber suas ordens.
Donnifer
assumiu posição e, valendo-se de um pequeno microfone ligado a um alto-falante
existente nos fundos da praça, disse:
— Os
representantes dos Estados pertencentes à Federação Asiática e à OTAN, que em
conjunto representam cerca de seis sétimos da Humanidade, decidiram formar uma
corte mundial, que já foi constituída. A essa corte cabe resguardar os direitos
humanos em todo o mundo.
“Os senhores
— num gesto pouco autoritário, apontou o dedo para o grupo dos membros do
conselho — são acusados de terem cometido uma violação grosseira e contínua dos
direitos humanos das pessoas que habitam o território sob sua autoridade.
Intimo-os a se submeterem a esta corte, que deliberará sobre as medidas a serem
adotadas em virtude dos delitos que cometeram.
“A
conferência dos representantes dos governos fará com que os cidadãos de seu
país possam eleger livremente os homens que deverão governá-los. Um governo
provisório tomará todos os preparativos para as eleições.”
Nesse
instante a porta de saída da Stardust-III se alargou, e o passadiço brilhante
cresceu igualmente. Um grupo de cinqüenta robôs de combate arcônidas saiu da
nave. De início seus passos foram silenciosos. Mas, ao atingirem o solo, seus
pés bateram ruidosamente. Formaram um segundo círculo, mais estreito, em torno
dos membros amedrontados do Conselho Supremo.
— Aqui está
a prova de que a corte mundial dispõe dos recursos necessários para executar
suas decisões — prosseguiu Donnifer.
Não houve a
menor hesitação. Diante dos poderosos robôs, a massa compacta dos membros do
Conselho Supremo subiu pelo passadiço e desapareceu no interior da
Stardust-III.
* * *
Donnifer
tomou as providências necessárias para que o Bloco Oriental não ficasse sem
governo na época de transição. Perry Rhodan lhe deu alguns conselhos. No
entanto, nem ele nem qualquer outro membro da Terceira Potência participou da
escolha dos membros da administração provisória.
A
Stardust-III saiu de Moscou às treze horas, tempo local, e chegou a Galáxia no
fim da tarde.
Rhodan
anunciou que, em comemoração ao êxito notável alcançado pela corte mundial, e
ainda em lembrança ao dia em que a primeira nave construída pelo homem — a
velha Stardust — se libertou da influência da Terra e voou à Lua, ofereceria um
banquete para fazer aquilo que os membros da conferência esperavam desde o
primeiro dia.
Preparou um
relatório sobre a evolução da Terceira Potência desde o dia de sua formação.
Providenciou a apresentação de filmes que proporcionariam aos delegados
informações detalhadas sobre os acontecimentos que se desenrolaram nos setores
do espaço mais próximos da Terra e nos mais afastados.
A impressão
causada pelo relatório foi tamanha que ninguém notou quando, durante a
apresentação, um ordenança se dirigiu a Rhodan. Pediu a seu ajudante que lhe
desse um pedaço de papel e rabiscou apressadamente algumas palavras. O
ordenança pegou o papel e desapareceu.
Pelas onze
horas o relatório estava concluído. A onda de aplausos foi dirigida à Terceira
Potência com seu imenso acervo de realizações, e especialmente a Perry Rhodan,
que em passos comedidos caminhou em direção a uma pequena tribuna.
Quando os
aplausos cessaram, começou a falar. Sua voz tinha um tom solene, que
dificilmente alguém teria ouvido antes.
— Senhores,
não quero abusar de sua atenção — iniciou. Por um instante prestou atenção à
confusão desconcertante que os tradutores simultâneos, cada qual agindo numa
direção diversa, faziam de suas palavras. — Mas, antes que termine este dia
memorável, quero assinalar dois fatos.
“O dia 19 de
junho será feriado legal no território da Terceira Potência, em comemoração aos
acontecimentos desenrolados hoje e em lembrança ao primeiro vôo do homem à Lua.
E, para exprimir sua confiança na breve união de todos os povos da Terra, a
Terceira Potência modifica o nome de Galáxia que passa a ser Terrânia.”
Fez uma
pausa. Aplausos começaram a irromper, mas Rhodan interrompeu-os com um gesto.
— O segundo
acontecimento não é tão agradável — disse em tom áspero. — Como sabem, na Lua
existem duas bases. Uma delas está submetida à jurisdição do Bloco Oriental e a
outra pertence aos Estados da OTAN.
“Às vinte e
duas horas e dez minutos, duzentos foguetes de grande alcance dotados de cargas
explosivas de fusão catalítica foram lançados da base do Bloco Oriental em
direção à Terra. Sabem perfeitamente que pouquíssimos homens continuarão vivos
se os foguetes atingirem o alvo. Pouco importa qual seja o ponto da superfície
terrestre em que fica esse alvo.
“Os foguetes
deveriam chegar à Terra amanhã, às cinco horas da manhã aproximadamente, tempo
local. Mas sinto-me feliz em poder lhes comunicar que uma esquadrilha de caças
espaciais, comandada pelo major Nyssen, acaba de chegar ao setor do espaço em
que se encontram os foguetes e dentro de poucos minutos provocará sua
detonação.”
No mesmo
instante a luz se apagou. Na tela gigantesca que permitia a reprodução
tridimensional de qualquer filme, surgiu a imagem do espaço com seus bilhões de
pontos luminosos.
Perplexos,
os membros da conferência se mantiveram em silêncio. Rhodan voltou-se para
contemplar a imagem. A cena era filmada por um caça espacial que se encontrava
a algumas dezenas de milhares de quilômetros da esquadrilha comandada por
Nyssen.
As bombas
começaram a detonar. Até então invisíveis, foram se transformando em manchas
brancas e luminosas, que logo cresceram de tamanho e ocuparam seu lugar no
espaço com a luminosidade de um novo sol. A luz dos duzentos foguetes iluminou
o imenso salão com maior intensidade do que as lâmpadas poderiam fazê-lo. Os
espectadores cerraram os olhos para suportar a luminosidade.
Rhodan
deixou que a imagem agisse no espírito dos espectadores até que a luminosidade
começou a se desvanecer. Lentamente desligou o projetor e, com a mesma
lentidão, voltou a acender as lâmpadas.
Viu diante
de si uma massa de rostos apavorados. Rostos de gente que, em última análise,
devia sua salvação ao homem que se encontrava diante deles.
— Acredito —
disse Rhodan com a voz tão baixa que mal conseguia ser entendido — que esta
projeção provou a todos que a união definitiva da Humanidade constitui uma
necessidade premente.
* * *
Um único agente da Terceira Potência, equipado com algumas das
surpresas da tecnologia arcônida, fora suficiente para instalar a confusão num país
inteiro e prender o principal instigador da discórdia.
Mas nem por isso conseguiu a união definitiva da Humanidade.
Enquanto essa união não se realiza, Perry Rhodan não pode estabelecer contato
com o mundo de Árcon.
Thora, um dos últimos representantes da dinastia reinante de
Árcon, começa a se impacientar e foge.
A
Fuga de Thora é o título do próximo
volume da série Perry Rhodan

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