quinta-feira, 1 de novembro de 2012

P-021 - A Guerra Atômica Que Não Houve - Kurt Mahr [parte 3]


— Bom dia! — disse o louro com a voz amável. — Entramos de forma um tanto estranha; queira desculpar. Não tivemos outra alternativa. Pensávamos que...
Deu um salto enorme para o meio da sala. Era um salto muito maior que o que Sirov pretendia dar para alcançar a gaveta da escrivaninha.
O marechal teve a sensação de ter sido envolvido num furacão. Numa raiva surda percebeu que o louro alto nem quis recorrer às suas armas, sem dúvida muito superiores; confiava apenas na força dos punhos e na agilidade física.
Mas a raiva de Sirov não adiantou de nada. Levou uma porção de socos doloridos antes que pudesse levantar os braços para se proteger. Quando tentou escapar, Deringhouse lhe bateu com ambos os punhos em cima da cabeça. Sirov tonteou, dobrou os joelhos, não conseguiu se manter de pé e caiu ao chão com um baque.
A respiração de Deringhouse nem chegava a ser mais rápida. Apenas a amabilidade havia desaparecido de seu rosto.
— Não tente isso uma segunda vez! — avisou ao marechal. — Dispomos de outros meios; da próxima vez será um homem morto.
Sirov procurou se levantar. Deringhouse fez um gesto e Welinskij veio em auxílio do marechal, arrastando-o para uma cadeira e segurando-o. Deringhouse saiu da sala. Voltou com um monte de fitas de plástico e as atirou a Welinskij.
— Amarre-o! — ordenou. — Tenha cuidado. Sua segurança depende disso.
Depois, perguntou a Sirov.
— Sabe por que estou aqui?
O marechal não respondeu. Deringhouse esboçou um sorriso zombeteiro.
— Não venha me dizer que seu serviço de informações é tão ineficiente. A conferência dos governos legais das potências terrenas decidiu na tarde de anteontem, em Galáxia, que os objetivos e métodos do atual governo do Bloco Oriental deviam ser condenados e exigiu a punição dos culpados por uma corte mundial. Já deve ter ouvido falar nisso.
A essa altura Sirov já não conseguiu dominar a raiva.
— Não seja ridículo! — fungou. — Em Galáxia podem decidir e exigir o que quiserem. Quem vai se interessar por isso?
— Você — respondeu Deringhouse. — Está em minhas mãos, e delas só sairá para ser entregue ao carcereiro de Galáxia.
Sirov se esforçou para soltar uma risada de escárnio, mas não conseguiu.
— Aliás, você não será o único — prosseguiu Deringhouse em tom indiferente. — Da mesma forma que o encontrei, ainda vou pôr as mãos em algumas outras pessoas. Assim não sentirá tanta solidão.
Sirov lhe lançou um olhar indagador. Deringhouse percebeu que estava interessado em saber como pudera localizar seu esconderijo. Mas não lhe explicou.
— Afinal, você só é um dos pequenos patifes — disse Deringhouse.
Com isso a raiva de Sirov voltou a crescer; mas por mais que forçasse as fitas de plástico, elas não cediam.
À saída do apartamento, Deringhouse transmitiu suas instruções a Welinskij.
— Tenha cuidado! — preveniu-o. — Não caia em qualquer truque. É preferível nem falar com ele. Não devo demorar. Se houver um imprevisto, use o radiador térmico. Infelizmente não posso lhe dar coisa melhor.
Welinskij voltou ao interior da residência e Deringhouse se retirou. Examinou o lugar da porta onde a fechadura fora retirada cuidadosamente com o radiador térmico. Estava oculto sob a maçaneta e só mesmo alguém que olhasse cuidadosamente e de perto notaria alguma coisa.
Ali não haveria qualquer perigo. Mas, se Sirov estivesse sendo vigiado, a coisa seria diferente. Nesse caso...
Que nada! Welinskij possuía uma arma superior e saberia se cuidar. Desde que dispusesse de mantimentos, poderia resistir com o radiador térmico a um exército inteiro enquanto conseguisse manter os olhos abertos.
Até então ele, Deringhouse, já estaria de volta.
Antes de tomar o elevador para descer ao térreo, ativou o campo de deflexão luminosa. Assim que chegou à calçada se elevou a uma altitude de dez metros e voou acima do trânsito.
Seu destino era a central de telecomunicações. Por ali passavam todos os condutos telefônicos de Moscou, inclusive os dos dez ou quinze videofones de que a cidade já dispunha.
Deringhouse tivera a idéia de penetrar na central de telecomunicações enquanto, em companhia de Welinskij, viajava de Magnitogorsk a Moscou, parte de avião, parte de trem ou de carro. Chegando a Moscou, logo transformou a idéia em realidade. Recorreu ao projetor mental para penetrar no edifício e pelo mesmo meio obteve permissão de acompanhar trechos das mensagens do setor oficial F. Recorrera à compulsão hipnótica para obter do diretor a informação de que as mensagens internas do governo eram transmitidas por esse setor.
A tentativa foi coroada de êxito. Depois de dez minutos, descobriu o esconderijo do marechal Sirov. Acompanhara a transmissão das notícias.
Por simples acaso Sirov foi o primeiro a ser descoberto. Poderia ter sido qualquer outro membro do Conselho Supremo.
Deringhouse sabia que, no momento, era mais importante descobrir o esconderijo de Strelnikov, secretário-geral do conselho.
Se conseguisse pôr as mãos nele, o êxito do plano de Rhodan estaria garantido.
Deringhouse não subestimou o risco que correria numa busca a Strelnikov. Para uma pessoa isolada, o exponencial de perigo que envolvia o projeto cresceria com o tempo, por melhor que fosse seu equipamento. Além disso, Deringhouse percebeu pela primeira vez que, ao se unir a Welinskij, arranjara antes um peso que um auxílio.
Aumentou a velocidade e, dez minutos depois que deixara Welinskij, chegou ao edifício da central de telecomunicações.

* * *

Rhodan procedeu metodicamente. Confiava antes de tudo na força dos seus argumentos. Não havia nenhum problema que o preocupasse tanto como o da união da Humanidade, e facilmente poderia influenciar os membros e representantes dos governos no sentido de concordarem com suas sugestões. No entanto, nada fez para que isso acontecesse.
Agiu de igual para igual. Inscreveu-se na lista dos oradores e a palavra lhe foi concedida em primeiro lugar. Nenhum dos presentes acreditava que aquilo que teria para dizer fosse mais importante que a mensagem que solicitara a conferência.
Quem esperava que Rhodan iniciasse seu discurso com um relato do que fizera nos últimos quatro anos e meio — e houve algumas pessoas que acreditavam que ele utilizaria a conferência como plataforma publicitária — logo viu que estava enganado. Rhodan falou sobre aquilo que, nesse meio tempo, havia acontecido na Terra.
Leu o relatório sobre a revolução no Bloco Oriental, redigido por seus agentes. Vários detalhes chegaram ao conhecimento público pela primeira vez. Tratava-se de fatos que os novos detentores do poder julgavam acobertados pelo segredo.
Rhodan estava consciente dos efeitos que suas revelações produziriam. Por sugestão sua e sem que os delegados se opusessem, a conferência foi irradiada pelas potentes emissoras de televisão da Terceira Potência e retransmitida por todas as emissoras terrenas, com exceção das situadas no território dos Estados que compunham o Bloco Oriental.
Rhodan repetiu as recomendações formuladas aos governos dos blocos de potências durante as conferências panterrenas realizadas alguns anos atrás. Provou que o novo governo do Bloco Oriental nada fizera para cumprir essas recomendações e, mais do que isso, infringira e continuava a infringir as mesmas.
Mas a acusação de maior peso formulada contra os governos do Bloco Oriental foi a de que pretenderam desencadear uma guerra que teria significado o fim da Humanidade, se a Terceira Potência não tivesse interferido a tempo.
As explanações de Rhodan não duraram mais que uma hora. Assim mesmo abrangeram toda a problemática em formulações sucintas e precisas. Ao concluir disse:
— Senhores, sem dúvida temos o direito de levantar a voz em nome daquele grupo de mais de quatrocentos milhões de pessoas, que já haviam começado a acreditar que dentro de poucos anos a Terra seria um mundo da união, e que sofreram uma decepção tão cruel em virtude de uma revolução que não merece esse nome. Quero formular a seguinte proposta: a conferência tomará uma resolução pela qual declarará que os objetivos e métodos do Conselho Supremo do Bloco Oriental são um procedimento criminoso e contrário aos direitos humanos.
A proposta obteve aprovação unânime em primeira votação.
Rhodan desceu da tribuna e deixou que outros tomassem a palavra. Ficou satisfeito ao constatar que os oradores seguintes, sem que o soubessem, se esforçavam para aplainar o caminho para a outra proposta que pretendia formular. Não interferiu nas discussões até que julgou chegado o momento. Foi ao anoitecer daquele dia, quando a conferência ameaçou transbordar da indignação causada pelos métodos desumanos do regime que se instalara no Bloco Oriental, métodos estes que foram examinados sob os ângulos mais variados.
Levantou-se e propôs a criação de uma corte mundial que teria a seu cargo o resguardo dos direitos humanos em todos os pontos do globo. Ainda sugeriu que os homens que detinham o poder no Bloco Oriental fossem denunciados perante essa corte, trazidos à presença do juiz e condenados.
Quando a proposta foi aceita, a grande maioria das pessoas que se encontravam no enorme auditório de Galáxia acreditou que a deliberação não passava de um ato simbólico. Ninguém concebeu a idéia, e muito menos acreditou que Rhodan conseguiria transformar a resolução em realidade, nos seus mínimos pormenores.
Os trabalhos da conferência foram suspensos até a manhã do dia seguinte. Nesse dia foram eleitos os juizes da recém-criada corte mundial. A presidência foi oferecida a Rhodan, mas este não a aceitou. O posto de juiz supremo foi confiado a Frederick Donnifer, um australiano que desempenhava as funções de ministro da justiça do governo de Camberra. E logo se chegou a acordo sobre o preenchimento dos demais cargos, ainda mais que Donnifer formulava propostas que todos julgavam aceitáveis.
Um orador indiano se queixou de que havia um tribunal e um acusado, mas faltava a lei pela qual os juizes poderiam se guiar ao proferir a condenação.
A objeção tinha fundamento. Mas logo se verificou que o código a ser adotado poderia ser a Declaração dos Direitos Humanos promulgada pelas Nações Unidas, que não precisaria ser submetida a qualquer alteração.
Na noite daquele dia o tribunal foi constituído. Num breve discurso, Rhodan ressaltou que em sua opinião o ato representava a criação de mais uma instituição panterrena, que oportunamente seria seguida de outras. A mais importante e provavelmente a última seria o governo panterreno.
A primeira iniciativa, a criação da Federação de Defesa da Terra, não fora bem sucedida, mas valera como primeiro passo.
Decidiu-se que, no dia seguinte, seria discutida a forma de uma cooperação que precederia a constituição da confederação terrena e posteriormente de um Estado federado terreno. Os participantes da conferência se separaram na convicção de terem feito o possível para promover o progresso da Humanidade.
Rhodan providenciara para que seus hóspedes recebessem um tratamento condigno em Galáxia. Tinha certeza de que a profunda impressão que a cidade causava nos visitantes e a hospitalidade que lhes estava sendo dispensada representaria fatores positivos no encaminhamento das negociações.

* * *

Meia hora se passou sem que Sirov dissesse uma palavra. Welinskij estava sentado atrás dele e descansara a arma de radiações no colo. Sirov não podia vê-lo. De vez em quando, o capitão fumava um cigarro, para matar o tempo e vencer o nervosismo.
Depois de algum tempo Sirov disse:
— Não poderia ao menos explicar o que esse homem e a Terceira Potência pretendem fazer?
Welinskij não achou nada demais em responder à pergunta. Deringhouse o esclarecera a este respeito, mas Welinskij cometeu o erro de se julgar uma espécie de missionário, a quem cabia levar a luz da verdade até mesmo aos corações mais sombrios.
Subitamente Sirov interrompeu seu interlocutor. Inclinou a cabeça para a frente o mais que as fitas de plástico que lhe prendiam os ombros o permitiram.
— Está ouvindo? — cochichou.
Welinskij não ouviu nada.
— Alguém está subindo a escada — disse Sirov. — Quem será? Seu companheiro?
Welinskij se levantou e segurou o radiador térmico.
— Vou dar uma olhada — disse.
Foi na ponta dos pés até a porta e saiu para a área fronteira. Parou junto à entrada da residência e aguçou o ouvido. Percebeu uma série de passos, mas talvez isso não significasse nada. O edifício era grande, e seria de estranhar se naquele instante não houvesse ninguém pelas escadas.
Os passos não se fizeram ouvir nas imediações da porta. Assim que se convenceu disso, Welinskij abriu a porta o suficiente para enfiar a cabeça na fresta. Olhou para a direita e para a esquerda; não havia ninguém. Tranqüilizado, fechou a porta.
No mesmo instante, ouviu um estalo surdo vindo da sala em que Sirov se encontrava. Assustado, deu dois passos largos, se colocou na porta de entrada e olhou para a sala.
Sirov continuava sentado na sua cadeira... mas onde ela estava! O marechal devia ter conseguido movê-la por meio de vários solavancos. Naquele momento a cadeira se encontrava ao lado esquerdo da escrivaninha e caíra para a frente. Sirov estava com o peito encostado ao canto do móvel e teve que desenvolver um esforço tão intenso para manter a cabeça ereta que as veias do pescoço se incharam.
Welinskij levantou o radiador térmico.
— Não faça isso, seu idiota! — fungou Sirov. — Pelo amor de Deus, fique onde está.
Welinskij hesitou. Estava perplexo. Só quando Sirov deixou a cabeça pender para a frente e seu rosto se desfigurou numa careta de deboche percebeu o que realmente estava acontecendo.
Numa espécie de movimento reflexo levantou a pesada arma térmica. O dedo se entortou junto ao gatilho. Mas no mesmo instante foi agarrado por um turbilhão ensurdecedor e seus pensamentos se apagaram.

* * *

A paciência de Deringhouse foi submetida a uma prova dura. Strelnikov não parecia ser um dos usuários mais assíduos do telefone. No curso de uma hora não chegou a dar sinal de vida.
A não ser que o homem que, no início de cada telefonema, dizia “grande vitória” e obtinha a resposta “grande êxito” fosse Strelnikov. A possibilidade não podia ser desprezada.
Depois de duas horas Deringhouse abandonou seu posto de escuta. Anotara a posição do aparelho que costumava ser usado pela “grande vitória”. Daria uma olhada no local. Se não conseguisse nada, poderia voltar.
Saiu da central de telecomunicações às onze horas e trinta e cinco minutos; dez minutos depois chegou à Rua Vinte e Oito de Outubro, onde ficava o esconderijo de Sirov. Logo viu a aglomeração que se formara diante do prédio e não duvidou um instante que alguma coisa acontecera com o marechal. Estava invisível; entrou cautelosamente pelo largo portal, para não esbarrar em ninguém, e voou pela escadaria em direção ao oitavo andar, onde ficava a residência de Sirov.
Diante da residência notou um grupo de homens uniformizados. Ainda percebeu uma fenda de uns dez centímetros de largura, que descia pela parede do corredor.
Parou no corredor, esperando que os policiais deixassem a porta livre. Ouviu que, no apartamento, houvera uma explosão cercada de circunstâncias bastante estranhas. Ao que parecia, ninguém sabia dizer quem era o ocupante da residência, e ninguém tinha a menor idéia sobre a causa da explosão.
Depois de ter esperado quinze minutos, Deringhouse chegou ã conclusão de que qualquer perda de tempo representaria um risco. Lançou mão do projetor mental. Os policiais obedeceram à ordem que lhes foi transmitida: afastaram-se para o lado, liberando a porta.
No interior do apartamento pelo menos seis policiais se mantinham ativos. Deringhouse obrigou um por um a se submeter à sua vontade e entrou no escritório de Sirov.
No lugar em que antes existia a porta, abria-se um enorme buraco. O soalho estava quebrado e parte do teto desabara por cima da porta. Pelo buraco, via-se o apartamento do nono andar.
Era estranho que a explosão quase não causara nenhum dano no interior da sala. Uma prateleira de livros caíra e seu conteúdo se espalhara pelo chão. Era só.
O livro que fora atirado mais longe estava perto da mão de um homem que a explosão erguera no ar e atirara ao chão.
Era Welinskij.
Deringhouse se abaixou sobre ele, enquanto os policiais, obedecendo ao seu comando hipnótico, se enfileiravam junto à parede. Welinskij estava deitado de bruços. Deringhouse o virou de costas e percebeu à primeira vista que estava morto.
Welinskij!
Deringhouse cerrou o punho. Fora um jovem tão entusiasta e tolo! Não deveria tê-lo deixado a sós com Sirov, a raposa velha.
Mas ia lhes mostrar o que receberiam em troca desse assassinato.

* * *

Dali a quinze minutos se encontrava novamente na rua. Percebeu o risco que corria. Sirov fugira e era mais que natural que acreditasse que ele, Deringhouse, voltasse nas próximas horas para revezar Welinskij.
Mesmo um homem invisível equipado com uma arma psicológica poderia ser capturado, desde que o número de perseguidores fosse suficiente e estes agissem com bastante habilidade.
No curso dos quinze minutos examinara o buraco aberto pela explosão. Mesmo quem não fosse perito em explosivos perceberia que a carga fora colocada de tal maneira que mais de noventa e cinco por cento do efeito explosivo se desenvolveria verticalmente para cima, a partir da soleira da porta. Welinskij devia estar ali quando a bomba foi detonada ou provavelmente ainda estaria no hall, com a porta entreaberta.
Deringhouse também encontrou o detonador. Era um botão de aparência inofensiva que se encontrava sobre o tampo da escrivaninha. Perto desta se encontrava a cadeira em que Sirov estivera sentado, ainda com os restos das fitas de plástico.
Deringhouse pôde fazer a reconstituição mental dos acontecimentos. Por algum motivo, Welinskij saíra da sala. Pobre-diabo! Nunca deveria ter feito uma coisa dessas. Sirov aproveitou o tempo para escorregar com a cadeira para junto da escrivaninha e, no momento em que Welinskij abriu a porta para entrar, se inclinou para a frente e comprimiu o botão com a testa.
Aquele apartamento devia pertencer ao governo. A bomba fora colocada ali quando foi comprado ou construído pelo governo. Quem colocou a bomba naquele local demonstrou muita habilidade. Qualquer um que se encontrasse num aperto conseguiria fazer com que seu inimigo fosse à porta sob qualquer pretexto. Desde que nesse preciso instante conseguisse colocar a mão, ou qualquer coisa que se movesse, em cima do botão, o caso estaria liquidado.
Para Sirov estava liquidado; e além de tudo o marechal se apossara do radiador térmico de Welinskij.
Deringhouse compreendeu que o incidente exigia uma modificação dos seus planos. A esta hora Strelnikov já devia ter sido prevenido e naturalmente abandonara seu esconderijo; se realmente era a “grande vitória”.
De qualquer maneira Deringhouse resolveu dar uma olhada no esconderijo. Muitas vezes uma pessoa que se vê obrigada a sair às pressas deixa uma pista. Tirou o bilhete com a anotação do bolso e o leu de maneira que ficasse dentro do campo de deflexão.
Era na Rua Kujbyschev. Deringhouse se lembrou de que a rua ficava num bairro da zona leste. Dispôs-se a subir quando notou um movimento acima de sua cabeça. Olhou e viu um trançado fino de fios metálicos, que uma turma de trabalhadores procurava firmar nos telhados de ambos os lados da rua.
Assustou-se. Virou a cabeça e viu que o mesmo trançado cobria a rua em todos os lados. Além disso, em cada esquina, o mesmo descia dos telhados até a rua. E subitamente dezenas de policiais surgiram de ambos os lados daquele trecho de rua.
Era a armadilha perfeita!
Deringhouse não teve ilusões. O alcance de seu projetor mental não ultrapassava cinqüenta metros. A essa distância poderia, quando muito, submeter dez homens à sua vontade, desde que eles estivessem bem juntos.
Imaginou quais seriam as ordens transmitidas a estes policiais. Não deviam sair do lugar. E estavam tão encostados um ao outro que nem mesmo um cachorro de tamanho médio conseguiria passar entre eles. Provavelmente estavam preparados para mobilizar reservas assim que um deles saísse do lugar, deixando uma passagem. Naturalmente nas ruas laterais várias companhias de polícia estariam de prontidão, preparadas para acudir ao primeiro chamado e ajudar a encurralar o homem invisível.
A esse homem invisível seria impossível exercer um domínio mental simultâneo sobre todos os policiais.
E a tela de arame?
Não havia a menor dúvida de que era mantido sob observação. Telas de arame deste tipo costumavam ser fabricadas para as mais variadas finalidades. Submetidas a uma corrente elétrica de reduzida intensidade, indicavam, através de um instrumento não muito complicado, em que ponto eram tocadas. Na altura dos telhados aconteceria a mesma coisa que nas ruas transversais, se procurasse sair da armadilha por lá.
No entanto, não podiam saber se ele se encontrava na armadilha. Portanto, só precisava esperar alguns dias até que os policiais fossem embora e retirassem as telas.
Alguns dias!...
Não podia esperar nem mesmo algumas horas. Cada minuto perdido na atividade dava a Strelnikov novas oportunidades de apagar sua pista.
Também poderia se libertar à força. Ainda possuía o radiador de nêutrons. Poderia abrir uma brecha e escapar.
Mas se lembrou do que acontecera em Vênus. O fogo concentrado das armas automáticas seria dirigido sobre a brecha. Se o campo defensivo do traje recebesse uma solicitação energética muito intensa, tanto o campo de deflexão como o campo de neutralização gravitacional seriam eliminados. Se tornaria visível e teria que se mover no solo.
Sentiu-se tomado pelo nervosismo quando viu que a polícia se preparava para uma operação de grande envergadura. Viu caminhões que evacuavam os moradores das vizinhanças e equipes de operários ocupadas em pregar as janelas desse trecho da Rua Vinte e Oito de Outubro.
Dessa forma, quando se pusessem a revistar as casas, não poderia usar qualquer janela para fugir, sem ser percebido.
O homem que preparara a operação com tamanha rapidez devia ser dotado de uma inteligência extraordinária. Não se esquecera de nenhum detalhe que pudesse representar uma escapatória para o homem invisível dotado de energias hipnóticas.
Não teria mesmo escapatória?
Deringhouse teve uma idéia. De início foi vaga e fugaz; antes que compreendesse, saiu de sua mente. Mas ele a trouxe de volta e fez passar várias vezes pela cabeça. Seria uma possibilidade?
O risco era enorme. Mas antes assumir um risco que perder uma oportunidade.
Afinal, o que poderia lhe acontecer?

6



— O que fizeram em Bajmak foi um truque e nós caímos nele — declarou Sirov.
Seu aspecto não melhorara muito desde o instante em que Deringhouse lhe dera a sova. Não tivera tempo para mudar de roupa. Através de um chamado de emergência, descobriu o esconderijo de Strelnikov e para lá se dirigiu pelo caminho mais rápido.
Quando soube o que havia acontecido, Strelnikov logo procurou retribuir o golpe. Incumbiu um jovem coronel do serviço de segurança de capturar o agente de Rhodan se este, conforme era esperado, voltasse à Rua Vinte e Oito de Outubro.
— É claro que foi um truque — resmungou para Sirov. — Queriam que acreditássemos que a mina de urânio os manteria ocupados por mais alguns dias, quando na verdade já se encontravam em Moscou.
Os olhos de Sirov brilharam.
— Mas conseguimos enganá-los!... — gabou-se.
Strelnikov deu uma ducha fria no seu otimismo.
— Por enquanto — disse. — Só por enquanto.
Sirov se acalmou.
— O que pretende fazer? — perguntou.
— Mandar levá-lo a um lugar seguro — foi a resposta lacônica de Strelnikov.
Sentou atrás da escrivaninha e preencheu um formulário. Sirov viu que colocou sua assinatura embaixo do mesmo.
— Tome isto — ordenou. — Dirija-se ao endereço indicado. De lá será devidamente encaminhado. Depois aguarde minhas instruções.
Sirov fez continência.
— Pegue meu carro — prosseguiu Strelnikov. — Está estacionado na frente da porta. Aí — apontou para o bilhete que Sirov segurava na mão — receberá o tratamento de que precisa. Além disso, lhe darão um uniforme novo, ou então um jogo de trajes civis.
Sirov executou uma meia-volta impecável e se retirou da sala. Strelnikov aguardou até que o ruído dos passos sumiu e deu um telefonema. Ao terminar se reclinou na poltrona e sorriu. Parecia satisfeito.

* * *

Deringhouse voltou ao prédio em que residira o marechal Sirov.
Se alguém tiver que morrer”, pensou amargamente, “que seja um deles, não um inocente.
Os policiais ainda se mantinham ocupados na residência de Sirov. Fez com que o projetor mental exercesse sua influência sobre eles. Deixou para trás sete homens e levou três ao sótão da casa. O elevador fora desligado, provavelmente porque poderia proporcionar ao homem que procuravam uma oportunidade de sair rapidamente e sem ser notado.
No sótão havia várias clarabóias. Deringhouse colocou cada policial junto a uma delas. Ainda estava escondido atrás do campo de deflexão, mas ouviam sua voz e obedeciam às suas ordens.
— Acertem os relógios! — ordenou.
A resposta veio logo. Ao que parecia a polícia moscovita dispunha de excelentes relógios. Não foi necessário corrigir nenhum deles.
— Às doze e quarenta em ponto — prosseguiu Deringhouse — os senhores abrirão as clarabóias e sairão para o telhado. Subam à cumeeira e não deixem que nada os perturbe. Repitam!
A ordem foi repetida. Deringhouse estava satisfeito. Saiu do sótão e flutuou escada abaixo até atingir o térreo.
Não sabia se numa das outras casas havia uma clarabóia que não tivesse sido trancada. Mas acabou vendo uma; no telhado da última casa antes da transversal que se dirigia para o sul. Provavelmente serviria de passagem aos policiais escondidos atrás das cumeeiras dos telhados, com as pistolas automáticas engatilhadas.
Deringhouse não teve a menor dificuldade em penetrar na casa. Sua suposição se confirmou: teve que passar o tempo de espera num canto daquele sótão poeirento, para não esbarrar em qualquer dos policiais que entravam e saíam pela clarabóia.
Uma única vez, quando houve uma pausa, se arriscou a enfiar a cabeça pela abertura para sondar o terreno. Conforme esperava, naquele telhado, ao contrário dos outros, a tela de arame fora estendida ao menos dois metros acima da cumeeira, a fim de que os policiais pudessem se mover livremente por baixo dela. Provavelmente fora presa ao outro lado do telhado por meio de isoladores.
Doze e trinta e cinco.
Muita coisa poderia acontecer. Era possível que algum superior notasse a falta dos três policiais na residência de Sirov e os descobrisse no sótão. Não os deixaria lá, isso era certo.
E então?
Então poderia voltar a quebrar a cabeça, e enquanto fizesse isso Strelnikov se afastaria cada vez mais.
É agora!
Alguns segundos se passaram sem que acontecesse nada. Um policial enfiou as pernas pela clarabóia e saltou para dentro.
O que teria saído errado?
Outro policial entrou pela porta e subiu ao telhado pela clarabóia.
O plano falhara.
Nesse instante começou a gritaria.
— Saiam daí! Desçam do telhado! Ficaram malucos?
Num instante, Deringhouse se aproximou da clarabóia e flutuou suavemente através da mesma. Agachou-se no telhado e olhou para a casa de Sirov. Os três policiais obedeceram às suas ordens. Sem se preocuparem com os gritos de advertência subiram pelo telhado, cuja inclinação não era muito acentuada. Cada um se dirigia diretamente da respectiva clarabóia para a cumeeira. Os outros, que lhes apontavam as pistolas automáticas, pareciam quebrar a cabeça para descobrir atrás de qual deles o agente de Rhodan se escondera.
O plano de Deringhouse era este. Era provável que ninguém soubesse que o pequeno projetor mental, que cabia perfeitamente no bolso, lhe permitia transmitir ordens pós-hipnóticas. Se suas suposições fossem corretas, os outros policiais acreditariam que sempre se encontrava perto dos três colegas que andavam como sonâmbulos. Pensariam que se encontrava no telhado da casa de Sirov, não naquele em que eles mesmos estavam postados.
Às doze horas e quarenta e um minutos, o mais ágil dos três policiais chegou à cumeeira do telhado e tocou na tela metálica. Em algum lugar bem próximo, um instrumento de medida reagiria e desencadearia um alarma, uma sereia ou uma campainha.
E depois...
Deringhouse viu com seus próprios olhos o que aconteceu depois. Ouviu o zumbido e as batidas características dos helicópteros, antes de vê-los subir das ruas próximas. Não pôde deixar de admirar aquela organização, que permitia uma ação tão rápida.
Os pilotos dos helicópteros sabiam perfeitamente em que lugar deviam se postar. Formaram um círculo estreito, poucos metros acima da cumeeira da casa de Sirov. Menos de um minuto se passara desde o momento em que o primeiro policial tocara a tela, e todas as peças começaram a disparar.
Nesse meio tempo, os outros dois policiais também haviam atingido a cumeeira. Caíram sob a primeira salva, escorregaram ruidosamente telhado abaixo e desapareceram atrás da borda.
Os helicópteros continuaram a disparar. Não se interessaram pelos três policiais, mas pelo homem invisível. Posteriormente Deringhouse soube que acreditavam que, apesar de sua invisibilidade, ele seria vulnerável ou, o que muito se aproximava da verdade, que o campo de deflexão poderia ser desativado pela solicitação energética excessiva dirigida ao campo protetor, com o que o homem se tornaria visível.
De qualquer forma sua hora havia chegado. Flutuou para a cumeeira, contornou cuidadosamente um grupo de policiais que olhavam nervosamente para os helicópteros e desceu pelo outro lado do telhado. Chegou ao ponto em que a tela estava presa ao telhado e a arrancou. Acreditava que não haveria qualquer risco. Sem dúvida o dispositivo de alarma, que devia ter sido instalado num posto policial não muito distante, teria sido colocado em atividade permanente em virtude da ação dos três policiais.
Levou um minuto para abrir na tela, muito resistente, uma brecha que permitisse sua passagem. Ninguém se interessou por ele. O último perigo, o da observação direta, foi afastado pela curiosidade que a ação dos helicópteros provocou entre os policiais.
Às doze horas e quarenta e quatro minutos, Deringhouse estava livre. Para fugir a todo risco, desceu a meia altura numa das ruas vizinhas e se dirigiu para os bairros do leste, onde ficava a Rua Kujbyschev.

* * *

— E agora — disse Strelnikov ao homem de teatro — mande o major entrar. Quero conversar com ele.
O homem obedeceu. Retirou-se; dali a trinta segundos o major Kalenkim entrou. Nunca vira o homem que o chamara; mas sabia que devia executar fiel e prontamente qualquer ordem partida do mesmo.
Fez uma continência impecável.
— Preste atenção — disse Strelnikov. — Quero lhe explicar uma coisa. Pode parecer muito confuso e complicado, mas com sua inteligência...

* * *

Doze e cinqüenta e nove. Deringhouse penetrou no prédio da Rua Kujbyschev sem ser visto. Tratava-se de um daqueles feios prédios de apartamentos de quinze andares.
O aparelho de que a “grande vitória” se servira nos seus telefonemas ficava no apartamento 13 C.
Deringhouse flutuou para cima. A porta do apartamento estava fechada, e no corredor havia algumas pessoas. Deringhouse esperou até que entrassem em seus apartamentos ou no elevador. Depois abriu a porta, dirigindo o radiador por alguns segundos contra a fechadura. O fluxo neutrônico extremamente intenso provocou uma série de reações nucleares que transformou os materiais da fechadura em outras substâncias que não eram dotadas de qualquer coesão. Quando abriu a porta, uma reluzente poeira metálica radiativa caiu da fechadura.
Deringhouse entrou. Pensara que o apartamento estivesse vazio. Strelnikov tivera tempo de sobra para dar o fora.
Mas, para surpresa sua, viu um homem sentado no chão do hall. Mantinha a cabeça inclinada para a frente e tinha os olhos semicerrados. Uma faixa vermelha se estendia pelo lado direito do rosto.
Era um homem velho, de cabelos brancos. Ao que parecia não notou que a porta se abrira; não se mexia. Sobre seus joelhos havia um bilhete. Deringhouse conseguiu decifrar as letras desajeitadas:
Agente da Terceira Potência! Strelnikov fugiu. Posso dizer onde está. Ele me bateu.
A primeira idéia que acudiu a Deringhouse foi a de que caíra numa armadilha. Quem seria aquele homem?
Procurou avaliar a situação. Pelo aspecto, aquele velho devia ter sido o criado ou o secretário de Strelnikov. Como secretário poderia ter ouvido algumas coisas faladas diante de Strelnikov. Era perfeitamente possível que soubesse da existência de um agente da Terceira Potência e estivesse informado sobre as capacidades extraordinárias de que o mesmo era dotado. Escrevera o bilhete na suposição de que o agente entraria no apartamento como um homem invisível.
Strelnikov batera nele; a cicatriz estava ali. Para se vingar oferecia informações sobre o paradeiro de Strelnikov.
— Levante-se! — disse Deringhouse.
O velho estremeceu; provavelmente estava dormindo.
— Onde... quem...? — gaguejou.
— Estou à sua frente — disse Deringhouse. — Sou o agente da Terceira Potência. Parece que está disposto a me levar ao lugar em que posso achar Strelnikov.
Por um momento teve a impressão de que o velho superestimara sua própria coragem. Tremeu de medo e só se levantou com muito esforço.
— Eu... eu... — gaguejou. Deringhouse veio em seu auxílio.
— Não tenha medo de mim. Como é seu nome?
— Nikolaj.
— Pois bem, Nikolaj. Sabe para onde Strelnikov fugiu?
Nikolaj fez que sim.
— Como ficou sabendo?
— Ouvi a conversa que teve com um jovem oficial que veio a este apartamento.
— Quer me levar para lá? — perguntou Deringhouse.
Nikolaj confirmou com um forte aceno de cabeça.
— Por que lhe bateu? — indagou Deringhouse.
Nikolaj deu de ombros.
— Ao sair disse: “Tome isto por andar me espiando!”, e bateu no meu rosto com um chicote.
Com os olhos chamejantes, Nikolaj fez um movimento distraído da mão em direção ao lado direito do rosto.
Deringhouse respondeu com um aceno de cabeça.
— Esse tipo de gente nunca escapa ao seu destino — murmurou. — Podemos sair logo?
Enquanto desciam no elevador, Nikolaj disse que o esconderijo de Strelnikov ficava em lugar bem próximo. Seria mais prático andarem a pé.

* * *

O major Kalenkim estava à paisana. Encostado a uma casa de esquina, assumiu a atitude de quem aproveita o último dia de férias para ver a fábrica do lado de fora e ter pena dos pobres-diabos que têm de trabalhar a uma hora daquelas.
Trazia na boca um cigarro que já se apagara há muito tempo. Não era fumante e só usara o cigarro para oferecer uma imagem mais autêntica.
Não precisou de muita paciência. Cerca de quarenta e cinco minutos depois de assumir seu posto, o homem que teria que vigiar desceu a rua e passou a mão direita atrás da cabeça.
O sinal convencionado! O homem era este.
Antes de chegar ao portão da fábrica, dobrou para o lado e seguiu o caminho estreito que ladeava o muro de cerca de três metros de altura que cercava toda a área da fábrica. O major Kalenkim tocou no relógio de pulso que, na verdade, não era nenhum relógio. Com isso estabeleceu um contato que desencadeou o sinal de alarma para os homens que, num ponto mais distante, aguardavam o momento de entrarem em ação.
Abandonou a esquina em que se instalara tão confortavelmente e seguiu o homem que, a intervalos regulares, repetia o sinal convencionado, para assegurar a Kalenkim que tudo continuava bem com ele.
O caminho estreito parecia feito especialmente para acompanhar alguém às escondidas. Pequenos tratores com fileiras de reboques carregados ou vazios passavam sem cessar, e entre eles marchavam os trabalhadores. Três equipes de trabalhadores de construção estavam ocupados em reparar o muro em vários pontos.
Kalenkim tinha boas chances de passar despercebido em meio a tamanha confusão.
O homem que, de tempos em tempos, passava a mão atrás da cabeça passou por um portão lateral e entrou na área da fábrica. Kalenkim o seguiu a uma distância segura. Estava convencido de que dali em diante tudo daria certo.
A enorme caldeira de eliminação de vapor dos reatores da fábrica, que garantiam a esta um suprimento de energia que não dependia da rede urbana, não ficava a mais de cem metros.

* * *

Enquanto caminhavam, Nikolaj e Deringhouse não trocaram uma palavra. Nikolaj ia à frente, confiante de que o agente o seguia.
Levou-o até o portão de uma fábrica estatal e ao chegar lá dobrou para a esquerda. Ao lado do muro o caminho conduzia a um portão lateral, por onde Nikolaj entrou, em meio à confusão formada pelos veículos e trabalhadores, penetrando no terreno pertencente à fábrica, ao que tudo indicava sem ser percebido.
Dirigiu-se diretamente a uma enorme caldeira metálica que, em local um pouco distante da fábrica propriamente dita, se erguia a uma altura de oitenta metros.
Depois de ter deixado para trás a massa de trabalhadores que poderiam ter ouvido a estranha conversa de Nikolaj com um homem invisível, este disse:
— Strelnikov não está escondido muito no alto, mas na sala de vigilância, situada a meia altura. O elevador externo vai para lá. Está vendo?
Deringhouse viu o elevador e a pequena fileira de janelas que interrompia a lisura da parede metálica a uma altura de cerca de quarenta metros.
— Vamos adiante! — ordenou. Ninguém os deteve quando tomaram o elevador e subiram. Abandonaram o elevador e entraram, com Deringhouse à frente, na primeira das salas de vigilantes.
Nikolaj parecia sentir medo de novo.
— Se ele me vê — cochichou — vai...
— Não tenha medo — disse Deringhouse. — Venha!
Ultrapassada a porta pela qual haviam entrado, havia mais duas portas.
— Para onde devo ir? — perguntou Deringhouse.
Nikolaj não sabia.
— Tentarei aqui — disse Deringhouse e se dirigiu à porta que ficava na parede lateral da sala.
Nikolaj não o viu, mas viu a impressão deixada pelo impacto das botas no plástico macio do soalho. E parou perto da porta.
— Está aberta — disse Deringhouse e a empurrou.
Nikolaj levantou a mão. Parecia ser um gesto inofensivo, como se quisesse se segurar na parede.
Mas, antes que sua mão a alcançasse, o cano de uma arma surgiu diante dele e a voz enérgica de Deringhouse disse:
— Basta, meu velho! Se levantar a mão mais um centímetro, não assistirá ao seu triunfo.
Nikolaj empalideceu. Sua mão começou a tremer, hesitou um pouco e foi baixada. As pisadas de Deringhouse se aproximaram pelo soalho de plástico. O cano da arma atravessou o ar em sua direção.
— Tire a peruca! — ordenou Deringhouse.
Nikolaj hesitou um pouco, mas obedeceu. Contorceu o rosto quando a cabeleira branca saiu.
Por baixo da cabeleira surgiu uma calva reluzente, a calva do secretário-geral Strelnikov.

* * *

— Respeito sua coragem — disse Deringhouse, depois de ter abandonado a invisibilidade. — Mas devia ter imaginado que o plano não tinha a menor possibilidade de êxito. Dessa forma nunca conseguiria pôr a mão em mim.
Strelnikov recuperara boa parte de seu autocontrole. E sabia que o jogo estava definitivamente perdido.
— Como descobriu? — perguntou.
— Foi de uma forma muito estranha. Você me disse que Strelnikov o havia batido e fez um movimento de mão em direção ao lado direito do rosto. Acontece que o maquilador colocou a cicatriz do lado esquerdo. Isso já me deixou desconfiado. Quando nos dirigíamos para cá notei seu gesto, a mão que passava atrás da cabeça, e descobri o homem ao qual o sinal se dirigia. O que está fazendo agora?
— Está esperando que eu apareça e lhe diga que você está preso no interior da caldeira.
— Para que os gestos?
— Tínhamos de contar com a possibilidade de que você me submetesse a uma influência hipnótica. Só faria aqueles gestos enquanto fosse dono da minha vontade. O major Kalenkim tinha instruções de executar outro plano assim que eu deixasse de fazer os gestos, dando a entender que você havia conseguido dominar meu espírito.
— Os trabalhadores com os tratores e os carros na verdade são policiais, não são?
— São. Iriam trancar a caldeira assim que se encontrasse lá dentro.
— E como eu teria entrado lá? Por um alçapão que fica junto à porta?
Strelnikov fez que sim.
— A chave está aqui — apontou para um botão quase invisível que ficava perto da porta. — Esta porta foi colocada há duas horas. Você teria caído diretamente na caldeira.
Deringhouse acenou com a cabeça.
— Nesse caso eu não teria conseguido ativar o campo de neutralização gravitacional em tempo, ou você teria enchido a caldeira de vapor.
— Era esta a minha intenção. Será que você ainda teria uma chance?
Deringhouse ergueu os ombros.
— Não sei. Provavelmente não. Comprimiu um botão e viu que, diante da porta, uma parte do soalho desapareceu.
— O que pretende fazer? — perguntou Strelnikov.
— O que pretendo fazer é o seguinte — apressou-se Deringhouse a dizer — você encontrará um pretexto plausível para fazer com que os membros do conselho compareçam amanhã, às nove horas da manhã, à Praça das Nações. Há dois dias foi constituída uma corte mundial e decidiu-se a condenação dos homens que detêm o poder no Bloco Oriental. Você e seus comparsas serão julgados.
Strelnikov estava muito sério.
— Só se me hipnotizar.
Deringhouse sacudiu a cabeça.
— Um chefe de Estado hipnotizado não me serve. Você comparecerá a juízo, não voluntariamente, mas na posse plena de suas faculdades mentais; você, os outros quatrocentos e quatorze membros do conselho com direito de voto e os adidos. E principalmente o marechal Sirov. Deste eu faço questão.
Deringhouse lançou um olhar demorado para seu radiador de nêutrons.
— Sabe perfeitamente o que o espera se não cumprir minhas ordens.
Strelnikov baixou a cabeça.
— Para começar — prosseguiu Deringhouse — diga àquele major que está lá embaixo que dê o fora, e isso pelo meio mais rápido possível. E não se esqueça de passar a mão atrás da cabeça quando der a ordem.

* * *

No dia 18 de junho, Perry Rhodan propôs à conferência que a recém-criada corte mundial fizesse alguma coisa para cumprir a resolução do dia 16: os homens do regime que detinha o poder no Bloco Oriental deviam ser acusados e julgados.
A proposta provocou uma discussão acalorada. Os representantes da Federação Asiática duvidaram da exeqüibilidade do projeto. Os representantes dos Estados da OTAN manifestaram dúvidas de outra espécie.
O motivo verdadeiro foi a sensação desagradável que se apossou da maioria dos representantes ao pensarem que um governo ainda no poder seria convocado a juízo.
De repente se assustaram com a coragem demonstrada dois dias antes, por ocasião da resolução simbólica.
Mas Perry Rhodan demonstrou cabalmente e com certo sarcasmo que uma assembléia como esta se desprestigiaria se tomasse uma resolução e frustrasse sua execução. Prontificou-se a colocar à disposição da corte mundial os recursos técnicos que se tornassem necessários à execução do plano. De noite declarou com uma franqueza contundente:
— Não terão qualquer dificuldade. Já tomamos todas as medidas para realizar a prisão dos membros do Conselho Supremo do Bloco Oriental.
Na manhã do dia 19 de junho, a Stardust-III decolou de Galáxia com sua preciosa carga de membros dos governos de todos os países do mundo. Desenvolvendo grande velocidade, penetrou no território do Bloco Oriental, sem ser atacada, às oito e cinqüenta, tempo de Moscou, desceu cuidadosamente na área imensa da Praça das Nações. Uma rampa energética foi descida, e o presidente da corte mundial, Frederick Donnifer, saiu da enorme nave em companhia de seus aliados e de Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência.
Ao que parecia, alguém tomara providências para evitar que algum curioso entrasse na Praça das Nações. A área estava completamente vazia, com exceção de um pequeno grupo de pessoas.
Frederick Donnifer, que ainda não se acostumara à sua elevada posição, lançou os olhos em torno quando pôs os pés no solo; parecia inseguro.
— Um momento! — pediu Rhodan. — Aí vem Deringhouse; quer apresentar seu relatório.
Um homem se destacou do pequeno grupo. Caminhou para o lugar em que se encontrava a delegação.
Deringhouse não deu a menor atenção ao juiz. Dirigindo-se a Rhodan, anunciou:
— Deringhouse relatando. As ordens foram cumpridas. Os membros do Conselho Supremo devem chegar dentro de poucos minutos.
Rhodan deu um sorriso e ordenou:
— Major, repita esta informação perante o senhor Donnifer, presidente da corte mundial.
Donnifer se adiantou. Deringhouse deu meia-volta e, fazendo continência, repetiu seu breve relato. De olhos semicerrados, Donnifer disse:
— Major, tem certeza de que todos virão para cá?
— Certeza absoluta — respondeu Deringhouse.
Voltando-se ligeiramente em direção a Rhodan, prosseguiu:
— Não confiei muito que executassem a ordem de Strelnikov, ainda mais que, de vários quilômetros de distância, perceberão que a Stardust-III pousou na praça. Cada um dos membros do conselho será acompanhado por uma escolta de oficiais devidamente influenciados. Esses oficiais cumprem minhas ordens: trarão seu homem, quer ele queira, quer não.
Nesse instante a primeira limusine preta atravessou o cordão de policiais que isolavam a Praça das Nações. Logo foi seguida de outras. Todas elas descreviam uma curva, se dirigiam à área de estacionamento e deixavam sua carga. Parecia que a gigantesca esfera da Stardust-III não impressionava os homens que se encontravam nos veículos. Notava-se perfeitamente que muitos dos membros do conselho vieram porque sua escolta não lhes deixara outra alternativa.
Deringhouse fez com que os membros do conselho fossem reunidos num lugar. O grupo foi cercado pelos membros das escoltas, para impedir qualquer fuga.
Deringhouse pôs-se a contar. O conselho era formado de quatrocentos e quinze membros com direito de voto e oitenta e nove adidos. Sirov foi um dos últimos que compareceu ao ponto de reunião.
Às nove e quinze, Deringhouse voltou a se aproximar de Frederick Donnifer e anunciou:
— O Conselho Supremo está pronto para receber suas ordens.
Donnifer assumiu posição e, valendo-se de um pequeno microfone ligado a um alto-falante existente nos fundos da praça, disse:
— Os representantes dos Estados pertencentes à Federação Asiática e à OTAN, que em conjunto representam cerca de seis sétimos da Humanidade, decidiram formar uma corte mundial, que já foi constituída. A essa corte cabe resguardar os direitos humanos em todo o mundo.
“Os senhores — num gesto pouco autoritário, apontou o dedo para o grupo dos membros do conselho — são acusados de terem cometido uma violação grosseira e contínua dos direitos humanos das pessoas que habitam o território sob sua autoridade. Intimo-os a se submeterem a esta corte, que deliberará sobre as medidas a serem adotadas em virtude dos delitos que cometeram.
“A conferência dos representantes dos governos fará com que os cidadãos de seu país possam eleger livremente os homens que deverão governá-los. Um governo provisório tomará todos os preparativos para as eleições.”
Nesse instante a porta de saída da Stardust-III se alargou, e o passadiço brilhante cresceu igualmente. Um grupo de cinqüenta robôs de combate arcônidas saiu da nave. De início seus passos foram silenciosos. Mas, ao atingirem o solo, seus pés bateram ruidosamente. Formaram um segundo círculo, mais estreito, em torno dos membros amedrontados do Conselho Supremo.
— Aqui está a prova de que a corte mundial dispõe dos recursos necessários para executar suas decisões — prosseguiu Donnifer.
Não houve a menor hesitação. Diante dos poderosos robôs, a massa compacta dos membros do Conselho Supremo subiu pelo passadiço e desapareceu no interior da Stardust-III.

* * *

Donnifer tomou as providências necessárias para que o Bloco Oriental não ficasse sem governo na época de transição. Perry Rhodan lhe deu alguns conselhos. No entanto, nem ele nem qualquer outro membro da Terceira Potência participou da escolha dos membros da administração provisória.
A Stardust-III saiu de Moscou às treze horas, tempo local, e chegou a Galáxia no fim da tarde.
Rhodan anunciou que, em comemoração ao êxito notável alcançado pela corte mundial, e ainda em lembrança ao dia em que a primeira nave construída pelo homem — a velha Stardust — se libertou da influência da Terra e voou à Lua, ofereceria um banquete para fazer aquilo que os membros da conferência esperavam desde o primeiro dia.
Preparou um relatório sobre a evolução da Terceira Potência desde o dia de sua formação. Providenciou a apresentação de filmes que proporcionariam aos delegados informações detalhadas sobre os acontecimentos que se desenrolaram nos setores do espaço mais próximos da Terra e nos mais afastados.
A impressão causada pelo relatório foi tamanha que ninguém notou quando, durante a apresentação, um ordenança se dirigiu a Rhodan. Pediu a seu ajudante que lhe desse um pedaço de papel e rabiscou apressadamente algumas palavras. O ordenança pegou o papel e desapareceu.
Pelas onze horas o relatório estava concluído. A onda de aplausos foi dirigida à Terceira Potência com seu imenso acervo de realizações, e especialmente a Perry Rhodan, que em passos comedidos caminhou em direção a uma pequena tribuna.
Quando os aplausos cessaram, começou a falar. Sua voz tinha um tom solene, que dificilmente alguém teria ouvido antes.
— Senhores, não quero abusar de sua atenção — iniciou. Por um instante prestou atenção à confusão desconcertante que os tradutores simultâneos, cada qual agindo numa direção diversa, faziam de suas palavras. — Mas, antes que termine este dia memorável, quero assinalar dois fatos.
“O dia 19 de junho será feriado legal no território da Terceira Potência, em comemoração aos acontecimentos desenrolados hoje e em lembrança ao primeiro vôo do homem à Lua. E, para exprimir sua confiança na breve união de todos os povos da Terra, a Terceira Potência modifica o nome de Galáxia que passa a ser Terrânia.”
Fez uma pausa. Aplausos começaram a irromper, mas Rhodan interrompeu-os com um gesto.
— O segundo acontecimento não é tão agradável — disse em tom áspero. — Como sabem, na Lua existem duas bases. Uma delas está submetida à jurisdição do Bloco Oriental e a outra pertence aos Estados da OTAN.
“Às vinte e duas horas e dez minutos, duzentos foguetes de grande alcance dotados de cargas explosivas de fusão catalítica foram lançados da base do Bloco Oriental em direção à Terra. Sabem perfeitamente que pouquíssimos homens continuarão vivos se os foguetes atingirem o alvo. Pouco importa qual seja o ponto da superfície terrestre em que fica esse alvo.
“Os foguetes deveriam chegar à Terra amanhã, às cinco horas da manhã aproximadamente, tempo local. Mas sinto-me feliz em poder lhes comunicar que uma esquadrilha de caças espaciais, comandada pelo major Nyssen, acaba de chegar ao setor do espaço em que se encontram os foguetes e dentro de poucos minutos provocará sua detonação.”
No mesmo instante a luz se apagou. Na tela gigantesca que permitia a reprodução tridimensional de qualquer filme, surgiu a imagem do espaço com seus bilhões de pontos luminosos.
Perplexos, os membros da conferência se mantiveram em silêncio. Rhodan voltou-se para contemplar a imagem. A cena era filmada por um caça espacial que se encontrava a algumas dezenas de milhares de quilômetros da esquadrilha comandada por Nyssen.
As bombas começaram a detonar. Até então invisíveis, foram se transformando em manchas brancas e luminosas, que logo cresceram de tamanho e ocuparam seu lugar no espaço com a luminosidade de um novo sol. A luz dos duzentos foguetes iluminou o imenso salão com maior intensidade do que as lâmpadas poderiam fazê-lo. Os espectadores cerraram os olhos para suportar a luminosidade.
Rhodan deixou que a imagem agisse no espírito dos espectadores até que a luminosidade começou a se desvanecer. Lentamente desligou o projetor e, com a mesma lentidão, voltou a acender as lâmpadas.
Viu diante de si uma massa de rostos apavorados. Rostos de gente que, em última análise, devia sua salvação ao homem que se encontrava diante deles.
— Acredito — disse Rhodan com a voz tão baixa que mal conseguia ser entendido — que esta projeção provou a todos que a união definitiva da Humanidade constitui uma necessidade premente.

* * *





Um único agente da Terceira Potência, equipado com algumas das surpresas da tecnologia arcônida, fora suficiente para instalar a confusão num país inteiro e prender o principal instigador da discórdia.
Mas nem por isso conseguiu a união definitiva da Humanidade. Enquanto essa união não se realiza, Perry Rhodan não pode estabelecer contato com o mundo de Árcon.
Thora, um dos últimos representantes da dinastia reinante de Árcon, começa a se impacientar e foge.
A Fuga de Thora é o título do próximo volume da série Perry Rhodan

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