Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Mesmo
para um visitante bem equipado, o mundo primitivo, vegetal e animal, do planeta
Vênus oferece inúmeros perigos.
Por isso
é fácil compreender a situação desesperada em que se encontram aqueles três
homens, praticamente sem recursos, que têm de lutar contra a selva de Vênus e
ainda sofrem uma perseguição implacável de outros homens.
É esta a
situação em que Perry Rhodan, John Marshall e Son Okura se encontram depois da
queda de seu destróier espacial. Para não perecerem na Selva
do Mundo Primitivo, terão que atingir
quanto antes o abrigo protetor da fortaleza de Vênus...
=
= = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — O chefe da Terceira Potência que se
transformou em prisioneiro de Vênus.
John Marshall,
Son Okura — Companheiros de
prisão de Rhodan.
General Tomisenkow
— Um comandante de divisão sem
divisão.
Coronel Raskujan — Que dispõe de cento e vinte e três naves
espaciais intactas e por isso julga ser o senhor absoluto em Vênus.
Thora — Que
fugiu de Perry Rhodan e agora espera ser libertada pelo mesmo.
Reginald Bell
— Amigo íntimo e confidente de Perry
Rhodan.
Tako Kakuta
— Que já passou pelo inferno e está
disposto a repetir a experiência
1
A água borbulhava preguiçosamente. Parecia
ser mais espessa que a água terrena, e realmente era. Quem enfiasse a mão ali e
a retirasse depois de algum tempo, notaria que a mesma estava coberta por uma
camada gosmenta.
Áloes, unicelulares, microrganismos — a
água regurgitava dessas criaturas e parecia uma solução coloidal.
Era Vênus, cheia de vida, quase estourando
de vitalidade!
O barco cruzava, a uma velocidade
constante, as ondas sempre iguais, que eram o último vestígio da tormenta
crepuscular que há mais de oito horas fustigara a terra plana e o braço de mar
primitivo com seus trezentos e cinqüenta quilômetros de largura.
O pequeno gerador ultra-sensível espalhava
um zumbido monótono e sonolento, que pesava sobre as pálpebras.
Mas não podiam dormir, nenhum deles podia.
Fazia mais de um dia terrestre que não fechavam os olhos. Era muito difícil
mantê-los abertos na escuridão, que até ali fora tão alegre e inofensiva.
Especialmente para aquele homem com a
ferida mal curada no ombro.
Era Perry Rhodan, presidente de um Estado
onipotente, a Terceira Potência. As circunstâncias adversas fizeram-no descer
em Vênus numa situação de desamparo, acompanhado apenas de dois dos seus
homens, para que desse provas de sua energia, dominando a situação intrincada.
Por enquanto estava muito longe disso.
Diante de seu barco ainda se estendiam quase trezentos quilômetros de água.
Eram trezentos quilômetros recheados de perigos desconhecidos, trezentos
quilômetros durante os quais, a qualquer segundo, poderia surgir o helicóptero
do coronel Raskujan para atacar a embarcação indefesa. A escuridão não
representava qualquer obstáculo para um veículo moderno, equipado com visores
de luz infravermelha.
— Será que notaram o desaparecimento do
barco inflável? — perguntou John Marshall, o telepata.
Ninguém sabia. Haviam retirado o barco de
um dos helicópteros de Raskujan, no momento em que a luta entre as tropas deste
e as de Tomisenkow havia chegado ao ponto mais alto. Depois disso, tiveram a
precaução de destruir o helicóptero.
— É de supor que mais cedo ou mais tarde
darão pela falta do barco, pois não deixarão de examinar os destroços.
Rhodan ergueu os ombros. O movimento fez a
ferida doer.
— Raskujan vai quebrar a cabeça. Por
enquanto nem sabemos se desconfia da nossa existência.
— E Tomisenkow? Não vai perder tempo; deve
contar logo — objetou Marshall.
Rhodan não estava muito convencido.
— Você não conhece Tomisenkow — retificou.
— Ouvi a palestra de rádio que teve com Raskujan. Este, com sua frota de
abastecimentos, conseguiu agrupar os homens em torno de si. Não há qualquer
tendência para a indisciplina, e isso por um motivo muito simples: os homens
têm bastante comida para matar a fome. Já o grupo de Tomisenkow está completamente
desorganizado. Acontece que Tomisenkow, na sua qualidade de general, insiste em
que Raskujan, que apenas é coronel, se submeta a ele. Este, por sua vez, alega
que, face ao amotinamento das tropas de Tomisenkow, este perdeu os direitos
correspondentes à sua graduação de general. Ambos são do Bloco Oriental, mas
apesar disso são inimigos. Não acredito que Tomisenkow esteja muito disposto a
contar o que quer que seja. Com a experiência que adquiriu em Vênus, é o homem
indicado até mesmo para Raskujan. É bem provável que se sinta seguro e saiba
calar a boca.
Son Okura esteve a ponto de responder. Mas
nesse instante ouviu-se a voz chiante de Marshall, vinda da proa:
— Pare!
A reação de Rhodan foi imediata. Apertou
uma alavanca e a pequena hélice saiu da água. O zumbido do motor, que
trabalhava em ponto morto, subiu um pouco até que Rhodan o desligasse.
Em redor deles tudo era silêncio, com
exceção do sussurrar preguiçoso da água.
— O que houve? — perguntou Rhodan.
— Olhe — respondeu Marshall e apontou para
a frente.
Rhodan se dirigiu à proa e olhou na
direção indicada por Marshall. Não precisou forçar a vista para enxergar o
trecho de água fluorescente que, a uns cem metros de distância, se estendia em
direção ao leste e ao oeste, até onde alcançava a vista.
Rhodan se assustou.
— O que é isso? — perguntou Marshall,
espantado. — Não é possível que seja um...
Rhodan fez que sim.
— É isso mesmo. É um tapete luminoso. É o
maior que já vi.
Son Okura também veio à popa. Possuía
capacidade de abranger com a vista certas faixas do campo de freqüências
eletromagnéticas que o olho humano comum não conseguia enxergar. Captava as
radiações infravermelhas, ou seja, os raios de calor, com a mesma nitidez da
luz visível, e esta lhe era tão perceptível como as gamas ásperas do
ultravioleta.
— O que está vendo? — perguntou Rhodan.
Okura estreitou os olhos. Para ele a água
morna do oceano de Vênus assumia o aspecto de um vasto terreno inundado de
luminosidade. O tapete, que absorvia parte do calor irradiado pela água e
refletia outra parte para dentro do mar, surgia em sua retina sob a forma de um
longo traço escuro.
— Vai uns três quilômetros para o oeste —
disse Son Okura. — Para o leste não vejo o fim.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Então vamos contorná-lo pelo oeste.
Deu partida no motor e colocou a hélice na
água. Girando o leme para a direita, Rhodan fez com que o barco descrevesse uma
curva fechada.
— Isso é tão perigoso assim? — perguntou
Marshall.
— Nunca viu um tapete luminoso?
— Só um bem pequeno, numa enseada.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Pois eu lhe mostrarei o espetáculo. Se
passássemos no meio dele, estaríamos irremediavelmente perdidos. Esse tapete
fininho tem mais força que dez motores como este.
O barco deslocava-se na direção noroeste.
Rhodan se esforçou para contornar a extremidade oeste do tapete luminoso o mais
próximo possível. O barco desenvolvia uma velocidade de trinta quilômetros por
hora, ou seja, cerca de oito metros por segundo. Cada oito metros percorridos a
mais significavam um atraso de um segundo, e nessa viagem os segundos contavam
tanto quanto as horas ou os dias em outras.
Dali a uns dez minutos, o barco se
encontrava aproximadamente na altura da linha que cortava o tapete de leste
para oeste, passando pelo centro. John Marshall parecia fascinado diante do
quadro. A fluorescência reluzia nas cores mais variadas e oferecia um
espetáculo de beleza movimentada, cujo encanto nem Rhodan conseguia
subtrair-se, muito embora já tivesse tido muitas oportunidades de observar o
fenômeno.
Era difícil de imaginar que na realidade
esse tapete luminoso era um único animal estendido na água, à espera da presa.
A beleza dissimulava a voracidade e a violência irresistível com que agarrava
sua vítima e a arrastava para as profundezas.
Rhodan retirou algumas pesadas porcas de
parafuso da caixa de ferramentas e se aproximou de Marshall. A extremidade do
tapete não ficava a menos de quinze minutos do barco.
— Okura — disse Rhodan em voz baixa.
— Sim.
— Prepare-se para fechar o barco. Aguarde
meu comando.
O japonês confirmou com um aceno de
cabeça. Rhodan deu as porcas a Marshall.
— Atire.
Marshall avaliou lentamente o peso das
peças de metal. Depois, num impulso vigoroso do braço direito, atirou todas
elas sobre o tapete.
A reação foi instantânea. Mal as porcas
tocaram o animal, as cores deste começaram a empalidecer. Dentro de poucos
segundos a luminosidade desapareceu por completo. Um rugido ensurdecedor fez-se
ouvir quando o tapete luminoso se fechou em torno do lugar em que fora atingido
e começou a arrastar para o fundo aquilo que acreditava ser uma presa.
As primeiras ondas arrebentaram sobre o
barco. A uns trinta metros a estibordo, o inofensivo tapete fluorescente
transformara-se num amontoado semi-esférico de cor indeterminada.
Quando a massa enorme começou a mergulhar,
as ondas sustentavam coroas de espuma. Marshall, que assistia ao espetáculo de
queixo caído e olhos arregalados, perdeu o equilíbrio e teria caído à água se
Rhodan não o tivesse agarrado em tempo.
— Cuidado! — gritou Rhodan.
Son Okura segurava o fecho.
O tapete continuava a crescer, enquanto a
parte inferior de seu corpo, que agora assumia uma forma esférica, mergulhava
numa velocidade cada vez maior. A contração da substância daquele corpo, que
poucos segundos antes ainda cobrira uma área de vários quilômetros quadrados,
enfurecia o mar como se fosse um temporal de regular intensidade.
Rhodan permitiu que Marshall contemplasse
o espetáculo até que a água que penetrou no barco passou a representar um
verdadeiro perigo. Só então gritou para Okura:
— Feche! E segure-se!
Okura arrastou a cobertura para a frente.
Com um ruído metálico a cobertura flexível se fechou sobre o barco, evitando
que fizesse mais água. Marshall e Rhodan deixaram-se cair ao chão e
seguraram-se nas fitas de plástico presas à parede interna do barco. O japonês,
depois de concluído seu trabalho, perdeu o equilíbrio e foi atirado por cima de
Marshall.
Depois disso o mar jogou bola com eles
durante dez minutos. O barco rodopiava em torno do eixo transversal e
longitudinal. Uma forte pancada repuxou a ferida de Rhodan e obrigou-o a tirar
o braço direito da faixa que o segurava. Son Okura, que não conseguira se
segurar em tempo, rolou por cima da cabeça em direção à popa e, com um baque
bem audível, bateu contra a madeira da caixa de ferramentas.
Depois de várias tentativas Rhodan
conseguiu se deslocar para a frente e desligar o motor. A solicitação variável
forçava o mecanismo e, enquanto o barco estivesse sendo atirado de um lado para
outro, o motor de qualquer maneira não adiantava nada.
Marshall, em cuja homenagem a peça fora
encenada, estava deitado no meio do barco, praguejando em voz alta. Ainda
continuava a praguejar quando o mar voltou a se acalmar e Rhodan mandou que o
japonês abrisse o barco.
Segurando-se na borda, Marshall conseguiu
se pôr de pé.
— Nunca imaginava que isso fosse tão ruim
— fungou.
Rhodan riu.
— Pois da próxima vez já sabe, não é? Não
existe nada que seja tão perigoso e traiçoeiro como um tapete luminoso de Vênus.
Voltou a pôr o motor em movimento e colocou
o barco no curso correto. Não tinha a menor idéia de quanto o barco tinha sido
desviado em virtude do incidente; mas, pelo seu cálculo, o desvio não poderia
fazer uma diferença significativa quanto à sua chegada ao setor norte da costa.
Por algum tempo mantiveram-se ocupados,
retirando a água gosmenta que as ondas levantadas pelo tapete gigante haviam
atirado no interior do barco. O trabalho, em si bem leve, deixou-os tão
cansados que, depois dele, encostaram-se exaustos à parede do barco e, por algum
tempo, tiveram de lutar com o cansaço que ameaçava fechar-lhes os olhos.
A ambição desmedida fizera com que o
governo do Bloco Oriental, derrubado há um ano, se aproveitasse da ausência de
Rhodan, que se afastara da Terra, para tentar se apossar da base montada pela
Terceira Potência no planeta Vênus. Para isso foram enviadas duas grandes
frotas de naves espaciais ao planeta.
“Sem
essa ambição”, refletiu Rhodan, “a
esta hora estaríamos não sei onde, mas de qualquer maneira nos encontraríamos em
paz e segurança”.
Provavelmente essa idéia teria induzido
reflexões filosóficas em sua mente, se Okura, que se encontrava na proa, não se
erguesse repentinamente, soltando uma exclamação de espanto.
Rhodan viu que fitava o céu. Seguiu seu
olhar, mas não viu nada.
Por algum tempo o japonês não disse nada.
Rhodan colocou-se ao seu lado.
— O que houve, Son? — gritou. — O que está
vendo?
Viu que Okura estava com os olhos
arregalados de susto. Tinha a respiração entrecortada. Antes que pudesse dizer
qualquer coisa, Rhodan ouviu o farfalhar surdo vindo de cima, que por um
instante deixou-o tão assustado como o japonês.
— É um lagarto voador — fungou Okura. —
Encontra-se na direção noroeste, mas vem exatamente em nossa direção.
— A que altitude está? — perguntou Rhodan.
— Cerca de cem metros.
— É grande?
O japonês contorceu o rosto.
— Acredito que tenha uns trinta metros de
largura.
Esperaram. O farfalhar, que quase chegava
a estourar os nervos, foi se aproximando, tornou-se cada vez mais forte.
— Daqui a pouco estará acima de nós —
disse o japonês.
E logo em seguida:
— Vai descer; está descrevendo círculos em
cima de nós.
Rhodan deixou cair os ombros.
— Son, fique na popa. Marshall ficará no
meio. Eu cuido do motor. Vamos ficar bem quietos. Son nos avisará assim que o
bicho descer. Quando isso acontecer, teremos de atirar. Façam boa pontaria,
para que não precisemos atirar mais de uma vez. Os disparos dos radiadores
térmicos são perfeitamente visíveis a vários quilômetros de distância. Acho que
não preciso explicar o que vai acontecer se uma das sentinelas de Raskujan
observar nossos tiros.
Alguns minutos passaram-se. O motor emitia
um zumbido monótono e as ondas batiam preguiçosamente no costado do barco.
Subitamente ouviu-se o grito estridente de
Okura:
— Está descendo.
* * *
A frota de reforços do coronel Raskujan
pousara no mesmo lugar em que; semanas antes, o general Tomisenkow fizera
descer quinhentas naves espaciais que se encontravam sob seu comando.
Acontece que Raskujan teve mais sorte que
o general. O acampamento de Tomisenkow fora desmantelado pelo furacão levantado
pela Stardust-III e seus remanescentes espalhados para os quatro cantos.
Tomisenkow levou as naves intactas para esconderijos situados nas montanhas,
onde a expedição punitiva de Rhodan as inutilizou uma por uma.
Por isso Raskujan encontrara um campo
livre para o pouso — inclusive a faixa calcinada, coberta de terra vitrificada,
aberta pelo deslocamento da Stardust-III, que atravessava a selva em linha
reta. Raskujan, então ainda um subordinado do general Tomisenkow, decolara da
Terra com duzentas naves. Trinta e quatro delas foram perdidas quando a
Stardust-III, ao regressar de Vênus para a Terra, passou em meio à formação; as
naves desajeitadas e pouco manobráveis do Bloco Oriental se volatilizaram sob o
impacto do campo protetor energético da supernave. Entre as naves perdidas
encontrava-se a capitania, que trazia a bordo o major Pjotkin.
Raskujan, depois de reagrupar os
remanescentes, prosseguira em sua viagem para Vênus. Outras quarenta e três
naves foram destruídas durante o pouso aerodinâmico em Vênus. Caíram e,
transformadas em meteoros incandescentes, desapareceram nas florestas ou no
mar.
Cento e vinte e três naves chegaram ao
destino sãs e salvas; pareciam orgulhosas, mas em virtude da falta de combustível
estavam condenadas à imobilidade.
Na época não se encontrou qualquer
vestígio de Tomisenkow. O coronel Raskujan teve de se arranjar sozinho e viu-se
obrigado a decidir, segundo seu livre arbítrio, como agir para transformar o
empreendimento num verdadeiro êxito.
A tarefa não parecia muito difícil. Os
homens que o haviam enviado para lá desejavam se apossar da fortaleza da
Terceira Potência. Uma vez que, por ocasião do pouso da frota de apoio, Rhodan
não se encontrava em Vênus, Raskujan pensou que a fortaleza estivesse
desguarnecida e sua conquista seria uma brincadeira.
Mas viu-se obrigado a rever suas idéias
sobre o que vem a ser uma fortaleza. Fazia um ano que, quase diariamente,
quebrava a cabeça nas suas investidas contra a que tinha diante de si. Rhodan
envolvera a base de Vênus com um campo protetor impenetrável. Entre os
tripulantes de Raskujan havia muitos técnicos — talvez seria melhor dizer “técnicas”; por motivos sobre os quais
até então Raskujan não tinha a menor idéia, a maioria dos membros da equipe
técnico-científica da frota era formada por mulheres. Mas até mesmo o técnico
mais competente acaba capitulando diante daquele anteparo energético
impenetrável.
Mas quando Raskujan atingiu esse ponto
morto, sua atenção foi desviada para outro fato. A primeira pista do general Tomisenkow
e de seus homens foi localizada numa massa de terra em forma de península, que
o enorme continente do hemisfério norte fazia avançar em direção ao sul,
abraçando, por assim dizer, o continente com o braço de mar de cerca de
trezentos e cinqüenta quilômetros de largura.
Raskujan, cuja tarefa consistira
inicialmente em dar apoio à tropa de Tomisenkow, procurou coletar informações.
Soube que a divisão espacial de Tomisenkow, exposta às condições extremamente
ásperas reinantes em Vênus, tornara-se vítima da desorganização e da
indisciplina.
Com isso o plano de Raskujan estava
formado: Tomisenkow e seus homens teriam de ser obrigados a entrar nos eixos.
Uma vez que dispunha de meios para impor
seus planos aos efetivos de Tomisenkow, roídos pela desorganização, tinha nas
mãos o general, grande parte da tropa que se mantinha fiel a ele e uma
prisioneira muito mais importante: Thora, a arcônida. Era a mulher que
transmitira a Perry Rhodan grande parte dos conhecimentos que lhe tornaram
possível a instalação da Terceira Potência.
Raskujan exultou. Exultou até perceber que
Thora tinha por ele mais ou menos a mesma consideração que ele mesmo tinha diante
de uma das incômodas moscas que proliferavam em Vênus.
Nem se dignou a responder às suas
perguntas, muito menos revelou como poderiam ser rompidos os campos energéticos
que protegiam a fortaleza de Vênus.
Em vista disso, se dirigiu a Tomisenkow.
Este não o tratou muito melhor do que Thora, e isso o incomodou ainda mais. No
fundo Raskujan era uma criatura subalterna, carregada de complexos de
inferioridade. Uma vez que teve a coragem de atacar e prender um general,
esperava que este se comportasse como um prisioneiro, não como um general.
Desde sua prisão, ou melhor, desde o pouso
dos helicópteros no acampamento de Raskujan, Tomisenkow já havia enfrentado
cinco interrogatórios. Para um homem como ele, que durante um ano tivera
ocasião de pôr os nervos à prova nos perigos da selva de Vênus, isso não
passava de episódios inofensivos e sem a menor importância. Além disso, os
oficiais-investigadores de Raskujan, ao se defrontarem com um general, mesmo
que este não mais usasse as platinas, pareciam sofrer dos mesmos complexos que
seu comandante.
Depois que o temporal crepuscular havia
desabado sobre o solo, Raskujan fez com que o prisioneiro comparecesse à sua
presença, na sala de comando da nave capitania.
Raskujan tinha uma pistola automática bem
visível sobre os joelhos. Não convidou Tomisenkow a sentar.
— Pelo que ouço — principiou — o senhor se
recusa a prestar qualquer colaboração à nossa frota.
Para Tomisenkow, esse intróito não parecia
representar uma pergunta; ao menos, não se dignou a dar qualquer resposta.
— Responda! — rosnou Raskujan.
— Qual é a pergunta? — indagou Tomisenkow
tranqüilamente.
— Por que não quer cooperar comigo?
O rosto de Tomisenkow contraiu-se num
sorriso de deboche.
— Por que não quer cooperar comigo? —
perguntou.
Por um instante Raskujan ficou atônito.
Depois cometeu um erro: respondeu à pergunta de Tomisenkow.
— Porque sua divisão está desorganizada e
roída pela indisciplina — respondeu.
— Isso não é motivo para negar sua
colaboração. O senhor foi enviado para cá a fim de me dar apoio, inclusive
moral, se necessário. Mas em vez de fazer qualquer esforço para localizar minha
divisão e, se fosse o caso, reorganizá-la, o senhor deixou-se ficar por aqui e
realizou algumas tentativas estúpidas para penetrar na base de Rhodan. Quando
acabou descobrindo nosso paradeiro não achou coisa melhor para fazer senão nos
atacar. Atacar justamente a nós, a quem o senhor deveria ter trazido apoio!
Raskujan se esforçou para guardar a
compostura.
— Como ex-oficial o senhor sabe
perfeitamente que tipo de influência os elementos desmoralizados que se
encontravam em sua companhia teriam exercido sobre minha tropa. Não tive outra
alternativa senão demarcar desde logo claramente os fronts. Meu regimento não tem mais nada com
sua divisão.
Tomisenkow fez um gesto tão depreciativo
que Raskujan teve de se esforçar ao máximo para reprimir a fúria de que se
sentia possuído.
— Vá contar isso a outro — disse
Tomisenkow. — Já se esqueceu de que serviu por alguns anos em minha companhia?
Naquele tempo, em que ainda era um jovem tenente, já fazia questão de se
salientar toda vez que surgia uma oportunidade. Não, Raskujan, a coisa não é
tão simples assim. Em Vênus surgiu a oportunidade de bancar o onipotente. Eu
era a única pessoa que, em virtude da graduação, podia estragar seu jogo. Por
isso inventou alguma coisa e nos atacou. E tudo isso apenas para que o senhor
pudesse continuar a desempenhar esse papel miserável.
Raskujan se levantou de um salto.
Levou algum tempo para recuperar a fala.
— Isso é... isso é... não se esqueça de
que é meu...
Nesse instante a sineta do radior-receptor
interrompeu aquele balbuciar indignado. Raskujan virou-se abruptamente e bateu
com a mão espalmada sobre a chave.
— Coronel, observamos um estranho fenômeno
luminoso — principiou a sentinela sem qualquer preâmbulo. — Direção, cento e
cinqüenta e três graus, distância aproximada de duzentos e cinqüenta
quilômetros.
Raskujan franziu a testa.
— Descreva! — ordenou.
— Parece um facho de luz de três
holofotes, coronel — respondeu a sentinela. — Apenas a intensidade deve ter
sido muito maior que a de um holofote convencional.
— Quantas vezes foi observado o fenômeno?
— Uma única vez.
— Está bem; obrigado.
A palestra foi interrompida. Raskujan fez
outra ligação. Uma voz metálica respondeu.
— Capitão, pegue dois helicópteros e dê
uma busca no mar — ordenou. — Peça os dados ao posto central de vigilância.
Observaram fenômenos luminosos estranhos. Quero saber de que se trata.
O capitão confirmou a recepção da ordem.
Raskujan desligou o receptor e voltou a encarar Tomisenkow.
Este sorriu.
— Qual é a graça? — perguntou Raskujan em
tom áspero.
— Acredito — disse Tomisenkow em voz
baixa, apreciando o efeito de suas palavras — que o senhor tem alguém nos seus
calcanhares que lhe ensinará que, em Vênus, um coronel deve se conduzir com
muita humildade.
* * *
O farfalhar cresceu num trovejar quando o
lagarto desceu sobre o barco. Rhodan se reclinou contra o costado e olhou na
direção de que vinha o ruído.
A única coisa que viu foi uma sombra
gigantesca que, numa velocidade inacreditável, passou por cima do barco na
direção norte—sul e voltou a desaparecer na escuridão.
O ruído se afastou, tornando-se cada vez
mais fraco. Depois manteve-se constante por alguns segundos e voltou a crescer.
Rhodan perguntou de si para si até onde
deveria arriscar. Ninguém saberia dizer se o lagarto atacaria nessa revoada ou
nas próximas. Era possível que nem chegasse a fazê-lo.
Mas, de qualquer maneira, seria tarde para
atirar quando tivesse um dos três homens nas garras.
O ruído foi se tornando cada vez mais
forte.
— Atirem quando estiver em cima de nós — disse
Rhodan com a voz áspera e em tom decidido.
Apontaram as armas na direção exata. O
ruído cresceu ainda mais, começando a produzir um zumbido nos ouvidos.
De repente apareceu!
Era uma sombra negra na escuridão
cinzenta, maior que da outra vez e de forma praticamente indefinível.
Rhodan seguiu a sombra com o cano do
radiador de impulsos térmicos. Quando o lagarto se encontrava bem em cima do
barco, ordenou:
— Fogo!
Uma ofuscante luminosidade branco-azulada
saiu dos canos, iluminou por uma fração de segundo o corpo horrível do lagarto,
coberto de uma pele áspera, e atingiu-o com toda sua potência.
O grito do animal poderia ser ouvido a
quilômetros de distância. Mas não durou muito. Algumas centenas de megawats de
energia térmica mataram o animal, cujo corpo incendiado caiu ao mar.
Rhodan largou a arma e pegou o leme. Ainda
deixou que a enorme vaga levantada pelo impacto do animal sobre a água
atingisse o barco de frente; mas logo girou o leme e fez o barco descrever um
grande círculo para o leste.
Só dali a vinte minutos retomou o curso
anterior. Os movimentos do leme, que por uma questão de hábito executava com a
mão direita, fizeram seu ombro doer de novo. Praguejou em voz baixa por causa
de sua relativa incapacidade e manifestou o desejo de ter à mão uma caixa de
primeiros socorros da farmácia arcônida. Com ela estaria recuperado dentro de
poucas horas.
Son Okura continuava sentado na proa, de
olhos fitos no norte. Apenas Marshall parecia acreditar que, uma vez morto o
lagarto, o maior perigo havia passado. Deitado de costas no centro do barco,
mantinha as mãos entrelaçadas em baixo da nuca.
— Levante-se, homem cansado — disse
Rhodan. — Daqui a pouco teremos trabalho de novo.
Marshall se assustou.
— Que trabalho será este? — perguntou
desanimado.
— Infelizmente há um fenômeno luminoso que
acompanha a emissão de calor produzida pela arma térmica — disse em tom
professoral. — E, com a atmosfera limpa, o mesmo se torna perceptível a uns
quinhentos quilômetros de distância. Sabe lá o que isso significa?
Marshall se levantou com um gemido.
— Está bem — resmungou. — E o que vamos
fazer se acontecer aquilo que prevê?
Rhodan sorriu.
— Continuaremos a atirar — respondeu em
tom indiferente.
* * *
O capitão que Raskujan enviara para o mar
com dois helicópteros não precisou se esforçar muito para descobrir o barco inflável,
que não era muito pequeno.
A oitenta quilômetros de distância
produziu um reflexo fraco, mas inconfundível sobre a tela de radar, e a cem
metros o holofote de luz infravermelha e o binóculo noturno tornaram
perfeitamente visíveis os três homens que o tripulavam.
O capitão recomendou uma atenção toda
especial aos artilheiros de bordo e transmitiu idênticas aos ocupantes do outro
aparelho.
Depois desceu e se aproximou
cautelosamente do barco.
* * *
Ouviram as batidas dos rotores dos
helicópteros e o chiado agudo dos jatos. Son Okura viu dois aparelhos que se
aproximavam do norte a uma altitude considerável.
Para Rhodan isso não constituía nenhuma
surpresa; já os aguardava.
Subitamente Okura, que mantinha seu posto
de observação na proa do barco, recuou com um grito e cobriu o rosto com ambos
os braços. Foi quando o comandante dirigiu o holofote de luz infravermelha
sobre o barco e observou-o através de um filtro ótico.
Rhodan procurou adivinhar o pensamento do
inimigo.
“Verá
o barco”, pensou. “E também sabe que
nenhum dos helicópteros de Raskujan foi perdido em cima do mar. Logo,
acreditará que somos gente de Tomisenkow ou então...”
A reflexão não chegou ao fim. Os dois
helicópteros se aproximaram, e a violência com que o fizeram não deixava
nenhuma dúvida sobre suas intenções: pretendiam atacar o barco.
— Deitem-se no chão! — gritou Rhodan. — E
apontem as armas para cima!
Marshall e Okura obedeceram imediatamente.
Um canhão automático começou a emitir seus sons entrecortados, outro seguiu seu
exemplo, e Rhodan percebeu os solavancos de seu barco. Em meio do barulho ouviu
que o zumbido do motor mudava de tom, e logo viu um dos helicópteros bem em
cima de si.
Não sabia se Okura ou Marshall já haviam
atirado. Não viu o relampejo de suas armas. Encostou a coronha do radiador de
impulsos térmicos firmemente ao tronco, para que a arma apontasse bem para
cima, e puxou o gatilho.
A descarga não produziu qualquer recuo da
arma. Num jogo feérico, o raio ofuscante atravessou a escuridão e atingiu o
helicóptero antes que este pudesse se afastar. Houve uma detonação
ensurdecedora quando o tanque de combustível explodiu, e uma chuva de peças de
metal incandescente caiu na água em torno do barco, produzindo um forte chiado.
O outro helicóptero acompanhou a cena e se
afastou em tempo. Mais adiante descreveu círculos a poucos metros acima da
água.
Rhodan engatinhou para a frente. Marshall
ainda estava deitado, tal qual Rhodan lhe ordenara. Ao ver este, sorriu.
Son Okura se colocara de joelhos e
observava o segundo helicóptero, que descrevia círculos em torno do barco.
Rhodan ligou o minitransmissor que trazia no pulso e fez o regulador de
freqüências percorrer todas as faixas. Não ouviu nada além do chiado produzido
pelas perturbações atmosféricas. O piloto do helicóptero ainda não julgava
necessário informar a base sobre o incidente.
Rhodan tinha certeza de que logo o faria,
ou então tentaria um segundo ataque antes disso.
Esperaram.
Okura levantou o braço direito.
— Está apertando os círculos! — exclamou.
Rhodan fitou a escuridão. Não viu nada.
— A que distância se encontra? —
perguntou.
— A distância média é de cerca de cento e
cinqüenta metros — respondeu o japonês.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Pois mostre o que achamos dele — disse a
Okura.
“Estão
muito enganados”, pensou. “Querem
experimentar o alcance dos nossos radiadores. Mas nem desconfiam de que um
radiador de impulsos térmicos desenvolve potência máxima até o fim de seu
alcance. Acreditam que poderão aguardar o próximo tiro e fugir em tempo.”
Son Okura ajoelhou-se junto à borda do
barco e apoiou o radiador sobre a mesma. Estreitou os olhos e inclinou a cabeça
para a frente; foi quando o holofote de luz infravermelha do helicóptero passou
por cima dele.
Depois esmerou-se na pontaria. Rhodan viu
quando o dedo se entortou de encontro ao gatilho. Apesar disso, se assustou
quando o raio branco-azulado da grossura de um dedo saiu do cano.
O helicóptero de Raskujan não teve a menor
chance. Caiu e, com uma forte explosão, desmanchou-se no mar.
Rhodan respirou aliviado. Empurrou
Marshall para o lado e dirigiu-se para o lado em que ficava o motor. Na pressa apenas
conseguira amarrar o leme, e agora...
Quando chegou à popa, estacou. Viu que a
fita de plástico com que amarrara o leme se esfacelara e estava jogada no chão.
Do leme não existia mais nada.
Atirou-se ao chão e examinou o bloco do
motor envolto em metal leve. Viu os vestígios de um projétil de canhão
automático e identificou o local de impacto. Arrancara o leme e demolira o
motor!
Rhodan ficou deitado por um instante.
Bateu com os punhos no estojo de metal leve. Antes só se poderia desprendê-lo
do motor com o auxílio de chaves de fenda e cortadores de metal; mas agora as
primeiras três pancadas fizeram com que balançasse, e com a quinta pancada pôde
retirá-lo sem maiores dificuldades.
Um olhar lhe bastou para compreender a
situação. O projétil explodira junto à pequena e potente turbina. E esta não
pôde ser reconhecida nem mesmo pelo formato; transformara-se num montão fibroso
e disforme de chapa metálica enegrecida.
Rhodan levantou-se. Sentiu-se um pouco
fraco nos joelhos, mas logo venceu a fraqueza.
— O barco está em ordem — gritou Marshall
bastante animado. — Todos os furos produzidos pelos impactos fecharam-se
conforme deviam. O barco quase não fez água.
Rhodan contorceu o rosto. Atravessou o
barco balouçante em direção a Marshall. Este viu o rosto sério do chefe.
— O que foi?
Rhodan colocou a mão sobre seu ombro.
— Comece a chamar de novo, Marshall —
ordenou a voz tranqüila. — O motor está quebrado, e nenhum de nós sabe
consertá-lo. Pelo meu cálculo estamos a uma distância de duzentos e vinte
quilômetros da costa norte do continente norte e cento e trinta quilômetros da
costa norte da península. Logo, não podemos ir para a frente nem para trás.
Tente mais uma vez entrar em contato com as focas.
Com um sorriso animador acrescentou:
— Se não conseguir, teremos que nadar.
2
Raskujan ainda ficou discutindo quase uma
hora com Tomisenkow e quase chegou a esquecer que não tinha necessidade de
manter discussões com um prisioneiro. Depois de algum tempo veio a notícia de
que novamente haviam sido observados por duas vezes estranhos fenômenos
luminosos no mar aberto. Como até então Raskujan não tivesse recebido qualquer
notícia dos dois helicópteros que enviara ao local, começou a ficar nervoso e
mandou que a sentinela levasse Tomisenkow antes que este pudesse dar vazão ao
seu triunfo sobre o fracasso da missão.
Tomisenkow caminhava tranqüilamente entre
as duas sentinelas. Atravessou o acampamento, livre de qualquer vegetação. A
cerca levantada em volta do campo de prisioneiros surgiu na escuridão. As duas
sentinelas entregaram o prisioneiro a uma das quatro sentinelas postadas junto
ao portão do campo e esta levou-o à sua barraca, onde o entregou à sua
sentinela particular.
Não foi em vão que Tomisenkow havia
estudado cuidadosamente e decorado, não um mapa do campo de prisioneiros, mas
aquilo que seus olhos treinados viram dia por dia. Estaria em condições de
atingir seu destino de olhos fechados; por isso a escuridão quase impenetrável
que fazia com que os soldados ainda não habituados às condições reinantes em
Vênus andassem aos tropeções, fornecia a melhor oportunidade para a execução de
seu plano.
Começou a agir tranqüila e metodicamente.
Sua barraca não possuía um soalho próprio; o chão era formado de terra venusiana
batida. Tomisenkow tirou uma das botas e começou a arranhar o chão, colocando a
terra na bota.
Dentro de quinze minutos a bota ficou
cheia até em cima. Tomisenkow comprimiu a terra com o punho fechado. Depois segurou
a estranha ferramenta na mão direita e pesou-a cuidadosamente. Parecia ter o
peso de um saco de areia do mesmo tamanho.
Lançou os olhos em torno de si. A barraca
não era muito grande e era fácil abrangê-la com a vista. Tomisenkow encontrou
um canto apropriado para seu projeto.
Infelizmente não podia modificar a posição
da lâmpada que iluminava o interior da barraca. Poderia quebrá-la, mas nesse
caso...
Agachou-se num dos cantos, de costas para
a entrada, e olhou ostensivamente para o chão. Depois de um ligeiro preparativo
começou a gritar:
— Sentinela! Sentineeelaa!
Parecia um grito de pavor, e o resultado
não se fez esperar. A barraca foi aberta abruptamente. Tomisenkow virou-se
ligeiramente para o lado e esforçou-se para dar ao seu rosto uma expressão de
pavor.
— O que houve? — perguntou a sentinela.
Tomisenkow, esbaforido, fez alguns
movimentos com a mão.
— É aqui... — gemeu — no canto...
depressa!
Em Vênus havia muitas criaturas
monstruosas, inclusive algumas que abrem seu caminho por baixo do solo e de
repente surgem no interior de uma barraca. A sentinela não ignorava isso.
Entrou de pistola automática em punho e
fez sinal para que Tomisenkow se afastasse quando se dirigiu ao canto da
barraca.
Tomisenkow afastou-se.
— Uma espécie de verme... — gemeu. Ficou
numa posição tal que sua sombra caia exatamente no canto que a sentinela devia
examinar. Mal a sentinela tinha passado por ele, pegou a bota cheia de terra e
segurou-a firmemente pelo cano.
— Saia da luz! — ordenou a sentinela e,
sem olhar para Tomisenkow, sacudiu a mão.
Tomisenkow deixou que a luz caísse sobre a
sentinela, avançando um passo em sua direção. Assegurou-se de que o homem já
não poderia ver sua sombra.
Levantou o braço direito e, com a bota
cheia de areia, golpeou a cabeça da sentinela. Esta caiu para a frente e ficou
estendida no chão.
Com um movimento automático, Tomisenkow
esvaziou a bota e, com o pé direito, espalhou a terra pelo chão. Depois pegou
as cordas que fabricara com pedaços da barraca e amarrou o homem inconsciente. Além
disso, enfiou-lhe um lenço na boca, para servir de mordaça.
Finalmente colocou o homem atrás de sua
cama primitiva, para que o mesmo não pudesse ser visto da entrada, pelo menos
ao primeiro relance de olhos. Colocou a pistola automática sobre a cama, para
que a sentinela pudesse vê-la ao despertar.
Tomisenkow sabia como agir face à
situação.
Saiu da barraca.
Não foi muito difícil deslocar-se pela
escuridão até alcançar a maior de todas as barracas, situada acerca de cem
metros, muito embora as sentinelas fizessem de conta que nada lhes poderia
escapar.
“Na
verdade estão com medo”, pensou Tomisenkow com uma certa sensação de
desprezo. “Estão com medo de que, de
repente, saia do chão um verme gigante.”
Chegavam a assobiar canções para espantar
o medo.
Tomisenkow levou quinze minutos para
percorrer os cem metros. Verificou que diante da barraca havia três sentinelas.
Isso não o perturbou; só no ponto em que as cordas são amarradas às cavilhas, a
barraca fica grudada ao chão. Entre as cavilhas um homem normal pode penetrar
na barraca; basta levantar a lona um pouco.
Foi o que Tomisenkow fez. No interior da
barraca a luz estava acesa.
Ouviu um grito de pavor abafado. Entrou de
vez e se levantou. Num movimento instantâneo, pôs o dedo no lábio e fez um
movimento em direção à entrada.
Só depois disso cumprimentou a mulher com
uma ligeira mesura, sem dizer uma palavra.
O cumprimento foi dirigido a Thora, a
arcônida.
O mundo natal de Thora ficava a uma
distância tal da Terra e do sistema solar que Tomisenkow nem podia imaginá-lo.
Há alguns anos Thora pousara na Lua com
sua nave exploradora, colaborou com Rhodan e ajudou-o a montar a estrutura
artificial, mas sumamente estável da Terceira Potência.
Até poucos dias antes, contados pelo tempo
terrestre, Thora fora sua prisioneira.
— Pouco importa que a senhora goste ou não
de mim — disse Tomisenkow apressadamente no seu péssimo inglês. — Não faça
barulho! Não lhe farei nada.
Thora não respondeu. Seus lábios
contraíram-se ligeiramente e esboçaram um sorriso que era tão zombeteiro e
depreciativo que Tomisenkow teve de se esforçar para reprimir a raiva.
— Não disponho de muito tempo —
prosseguiu. — De cinqüenta em cinqüenta minutos é realizada a inspeção das
sentinelas. Quer dizer que dentro de quinze minutos no máximo terei que dar o
fora.
O olhar zombeteiro de Thora deixou-o
irritado.
Esforçou-se para formular sua proposta em
termos precisos.
— Quero cooperar com a senhora —
principiou.
Thora achou que essa proposta não devia
ser respondida.
— Sabe perfeitamente — prosseguiu
Tomisenkow — que para nós não seria difícil dominar as sentinelas de Raskujan.
As dificuldades começarão quando tivermos saído do acampamento. Não dispomos de
outras armas além das que conseguimos tirar das sentinelas, enquanto Raskujan
dispõe de helicópteros e mais uma porção de coisas. Não levaria mais de uma
hora para nos recapturar. Isso quer dizer que devemos saber para onde ir depois
que tivermos escapado. Ficaria a cargo da senhora nos indicar a direção.
Thora encarou-o; a expressão de desprezo
que se desenhava em seu rosto continuava inalterada.
— Será que o senhor acha — disse depois de
algum tempo — que eu vou cair num truque primário como este?
Tomisenkow não se exaltou. Contava com a
objeção.
— Não é nenhum truque. Reflita e há de
concordar comigo. Que interesse teria eu para ser desleal para com a senhora? A
verdade nua e crua é que nos encontramos no mesmo barco. E não adianta que
permaneçamos neste acampamento com as mãos no regaço, esperando que de algum
lugar surja um milagre.
Thora parecia refletir.
— E quem me garante — perguntou depois de
algum tempo — que com sua ação não irei... gosto de usar expressões terrenas,
não irei de mal a pior?
Tomisenkow deu de ombros.
— Se ainda não percebeu a diferença entre
as minhas intenções e as de Raskujan — respondeu em tom deprimido — ainda não
conhece os homens.
Thora deu uma risada irônica.
— A única coisa que conheço nos homens é a
tendência irreprimível de quebrarem a cabeça uns dos outros.
Tomisenkow se levantou.
— Naturalmente — resmungou com a voz
contrariada. — Seu povo nunca fez uma coisa dessas. Sua raça emergiu numa
inocência total de sua predecessora.
Não deixou que Thora respondesse.
— Eu lhe ofereci minha cooperação —
declarou. — No momento tenho a impressão de que a vantagem que a senhora
tiraria do trabalho conjunto seria maior que a minha. Mantenho a oferta. Pense
a respeito. Dentro em breve voltarei a visitá-la para ouvir sua resposta. Até a
vista.
Abaixou-se e passou por baixo da lona.
Dentro de quinze minutos alcançou sua
barraca, sem que uma única vez tivesse estado em perigo de ser descoberto. A
sentinela amarrada já havia recuperado a consciência. O homem encarou-o com os
olhos arregalados e enfurecidos.
Tomisenkow agachou-se à sua frente.
— Escute, rapaz — disse. — Como vê, deixei
sua arma aqui mesmo. Apenas dei um pequeno passeio que você provavelmente não
teria permitido se eu lhe pedisse. Por causa disso tive de me livrar de você
por algum tempo. Sinto muito se o machuquei. Daqui a pouco virá a inspeção das
sentinelas. Até lá você estará livre e terá a arma pendurada sobre o ombro.
Você poderá avisar o incidente ou ficar quieto; depende inteiramente de você.
Da minha parte ninguém saberá nada, pode ter certeza.
Pôs-se a desamarrar o homem. Por fim
retirou a mordaça.
— Levante, rapaz! — ordenou.
A sentinela levantou-se, um tanto perplexo
e desajeitado. Logo pôs a mão na pistola automática. Depois lançou um olhar
desconfiado para Tomisenkow.
Este enfrentou o olhar. Depois de algum
tempo perguntou:
— Está com dor de cabeça?
Surpreso, o homem sacudiu a cabeça.
Depois ambos começaram a rir. Tomisenkow
deu uma forte pancada no ombro da sentinela.
— Você está bem, cabo — disse. — Não me
esquecerei de você quando tudo tiver passado.
A sentinela saiu da barraca e lá fora
refletiu sobre o significado das palavras de Tomisenkow. Estava tão concentrado
que deixou a ronda passar, limitando-se a dizer:
— Cabo Wlassov. Tudo em ordem.
* * *
Fazia duas horas que John Marshall, um
telepata dotado de energias mentais extraordinárias, emitia ininterruptamente
sua mensagem.
“Venham
focas, venham nos ajudar. Somos amigos e merecemos seu auxílio.”
Há duas horas estava esperando que, diante
dele ou ao lado do barco imobilizado, a cabeça de uma foca emergisse da água,
mas esperava em vão. Não vinha nada, e o esgotamento total fazia dançar diante
de seus olhos um mundo de figuras coloridas.
A emissão das mensagens telepáticas
esgotara as últimas reservas de energia de seu organismo. Sabia que as focas
não eram verdadeiros animais marítimos. Viviam próximo à costa, de preferência
nos fiordes que penetravam profundamente na terra; e o ponto mais próximo da
costa distava a menos de cem quilômetros do lugar em que o barco se encontrava
naquele instante.
Marshall esforçara-se para vencer essa
distância; mas o zumbido que ouvia na cabeça dizia-lhe que seus esforços não
poderiam prosseguir por muito tempo.
Ainda durariam alguns minutos, talvez uns
oito ou dez, depois estaria no fim de suas forças.
Son Okura estava agachado em atitude
apática na proa do barco. Vez por outra levantava a cabeça e fazia os olhos
deslizarem sobre o mar; mas não havia nada. Nada que pudesse representar um
perigo e nada que pudesse interromper, por um instante que fosse, a monotonia
da espera.
A atenção de Perry Rhodan concentrou-se
ora no ouvido, ora em suas reflexões. As reflexões giravam em torno da maneira
pela qual a situação atual poderia ser modificada se as mensagens emitidas por
Marshall não fossem coroadas de êxito. O que Rhodan sabia a respeito das focas
era muito pouco. Sabia que possuíam certo grau de inteligência, que lhes
permitia usar uma linguagem própria, e que a comunicação com elas era possível
num nível bastante primitivo. Não sabia se iriam reagir à mensagem, caso
conseguissem captá-la. Era bem possível que não se interessassem em saber quem
se encontrava em situação difícil na imensidão do mar.
O ouvido procurou captar os ruídos que,
segundo esperava Perry Rhodan, surgiriam no curso da próxima hora. Bastante
tempo já se passara depois da derrubada dos dois helicópteros. Fosse qual fosse
sua opinião sobre a habilidade militar do coronel Raskujan, mais cedo ou mais
tarde o mesmo enviaria um grupo maior de helicópteros para descobrir o
paradeiro dos dois aparelhos que decolaram em primeiro lugar.

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