domingo, 4 de novembro de 2012

P-024 - Na Selva do Mundo Primitivo - Kurt Mahr [parte 1]



Autor
KURT MAHR


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN




Mesmo para um visitante bem equipado, o mundo primitivo, vegetal e animal, do planeta Vênus oferece inúmeros perigos.
Por isso é fácil compreender a situação desesperada em que se encontram aqueles três homens, praticamente sem recursos, que têm de lutar contra a selva de Vênus e ainda sofrem uma perseguição implacável de outros homens.
É esta a situação em que Perry Rhodan, John Marshall e Son Okura se encontram depois da queda de seu destróier espacial. Para não perecerem na Selva do Mundo Primitivo, terão que atingir quanto antes o abrigo protetor da fortaleza de Vênus...





= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

Perry Rhodan — O chefe da Terceira Potência que se transformou em prisioneiro de Vênus.

John Marshall, Son Okura — Companheiros de prisão de Rhodan.

General Tomisenkow — Um comandante de divisão sem divisão.

Coronel Raskujan — Que dispõe de cento e vinte e três naves espaciais intactas e por isso julga ser o senhor absoluto em Vênus.

Thora — Que fugiu de Perry Rhodan e agora espera ser libertada pelo mesmo.

Reginald Bell — Amigo íntimo e confidente de Perry Rhodan.

Tako Kakuta — Que já passou pelo inferno e está disposto a repetir a experiência



1



A água borbulhava preguiçosamente. Parecia ser mais espessa que a água terrena, e realmente era. Quem enfiasse a mão ali e a retirasse depois de algum tempo, notaria que a mesma estava coberta por uma camada gosmenta.
Áloes, unicelulares, microrganismos — a água regurgitava dessas criaturas e parecia uma solução coloidal.
Era Vênus, cheia de vida, quase estourando de vitalidade!
O barco cruzava, a uma velocidade constante, as ondas sempre iguais, que eram o último vestígio da tormenta crepuscular que há mais de oito horas fustigara a terra plana e o braço de mar primitivo com seus trezentos e cinqüenta quilômetros de largura.
O pequeno gerador ultra-sensível espalhava um zumbido monótono e sonolento, que pesava sobre as pálpebras.
Mas não podiam dormir, nenhum deles podia. Fazia mais de um dia terrestre que não fechavam os olhos. Era muito difícil mantê-los abertos na escuridão, que até ali fora tão alegre e inofensiva.
Especialmente para aquele homem com a ferida mal curada no ombro.
Era Perry Rhodan, presidente de um Estado onipotente, a Terceira Potência. As circunstâncias adversas fizeram-no descer em Vênus numa situação de desamparo, acompanhado apenas de dois dos seus homens, para que desse provas de sua energia, dominando a situação intrincada.
Por enquanto estava muito longe disso. Diante de seu barco ainda se estendiam quase trezentos quilômetros de água. Eram trezentos quilômetros recheados de perigos desconhecidos, trezentos quilômetros durante os quais, a qualquer segundo, poderia surgir o helicóptero do coronel Raskujan para atacar a embarcação indefesa. A escuridão não representava qualquer obstáculo para um veículo moderno, equipado com visores de luz infravermelha.
— Será que notaram o desaparecimento do barco inflável? — perguntou John Marshall, o telepata.
Ninguém sabia. Haviam retirado o barco de um dos helicópteros de Raskujan, no momento em que a luta entre as tropas deste e as de Tomisenkow havia chegado ao ponto mais alto. Depois disso, tiveram a precaução de destruir o helicóptero.
— É de supor que mais cedo ou mais tarde darão pela falta do barco, pois não deixarão de examinar os destroços.
Rhodan ergueu os ombros. O movimento fez a ferida doer.
— Raskujan vai quebrar a cabeça. Por enquanto nem sabemos se desconfia da nossa existência.
— E Tomisenkow? Não vai perder tempo; deve contar logo — objetou Marshall.
Rhodan não estava muito convencido.
— Você não conhece Tomisenkow — retificou. — Ouvi a palestra de rádio que teve com Raskujan. Este, com sua frota de abastecimentos, conseguiu agrupar os homens em torno de si. Não há qualquer tendência para a indisciplina, e isso por um motivo muito simples: os homens têm bastante comida para matar a fome. Já o grupo de Tomisenkow está completamente desorganizado. Acontece que Tomisenkow, na sua qualidade de general, insiste em que Raskujan, que apenas é coronel, se submeta a ele. Este, por sua vez, alega que, face ao amotinamento das tropas de Tomisenkow, este perdeu os direitos correspondentes à sua graduação de general. Ambos são do Bloco Oriental, mas apesar disso são inimigos. Não acredito que Tomisenkow esteja muito disposto a contar o que quer que seja. Com a experiência que adquiriu em Vênus, é o homem indicado até mesmo para Raskujan. É bem provável que se sinta seguro e saiba calar a boca.
Son Okura esteve a ponto de responder. Mas nesse instante ouviu-se a voz chiante de Marshall, vinda da proa:
— Pare!
A reação de Rhodan foi imediata. Apertou uma alavanca e a pequena hélice saiu da água. O zumbido do motor, que trabalhava em ponto morto, subiu um pouco até que Rhodan o desligasse.
Em redor deles tudo era silêncio, com exceção do sussurrar preguiçoso da água.
— O que houve? — perguntou Rhodan.
— Olhe — respondeu Marshall e apontou para a frente.
Rhodan se dirigiu à proa e olhou na direção indicada por Marshall. Não precisou forçar a vista para enxergar o trecho de água fluorescente que, a uns cem metros de distância, se estendia em direção ao leste e ao oeste, até onde alcançava a vista.
Rhodan se assustou.
— O que é isso? — perguntou Marshall, espantado. — Não é possível que seja um...
Rhodan fez que sim.
— É isso mesmo. É um tapete luminoso. É o maior que já vi.
Son Okura também veio à popa. Possuía capacidade de abranger com a vista certas faixas do campo de freqüências eletromagnéticas que o olho humano comum não conseguia enxergar. Captava as radiações infravermelhas, ou seja, os raios de calor, com a mesma nitidez da luz visível, e esta lhe era tão perceptível como as gamas ásperas do ultravioleta.
— O que está vendo? — perguntou Rhodan.
Okura estreitou os olhos. Para ele a água morna do oceano de Vênus assumia o aspecto de um vasto terreno inundado de luminosidade. O tapete, que absorvia parte do calor irradiado pela água e refletia outra parte para dentro do mar, surgia em sua retina sob a forma de um longo traço escuro.
— Vai uns três quilômetros para o oeste — disse Son Okura. — Para o leste não vejo o fim.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Então vamos contorná-lo pelo oeste.
Deu partida no motor e colocou a hélice na água. Girando o leme para a direita, Rhodan fez com que o barco descrevesse uma curva fechada.
— Isso é tão perigoso assim? — perguntou Marshall.
— Nunca viu um tapete luminoso?
— Só um bem pequeno, numa enseada.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Pois eu lhe mostrarei o espetáculo. Se passássemos no meio dele, estaríamos irremediavelmente perdidos. Esse tapete fininho tem mais força que dez motores como este.
O barco deslocava-se na direção noroeste. Rhodan se esforçou para contornar a extremidade oeste do tapete luminoso o mais próximo possível. O barco desenvolvia uma velocidade de trinta quilômetros por hora, ou seja, cerca de oito metros por segundo. Cada oito metros percorridos a mais significavam um atraso de um segundo, e nessa viagem os segundos contavam tanto quanto as horas ou os dias em outras.
Dali a uns dez minutos, o barco se encontrava aproximadamente na altura da linha que cortava o tapete de leste para oeste, passando pelo centro. John Marshall parecia fascinado diante do quadro. A fluorescência reluzia nas cores mais variadas e oferecia um espetáculo de beleza movimentada, cujo encanto nem Rhodan conseguia subtrair-se, muito embora já tivesse tido muitas oportunidades de observar o fenômeno.
Era difícil de imaginar que na realidade esse tapete luminoso era um único animal estendido na água, à espera da presa. A beleza dissimulava a voracidade e a violência irresistível com que agarrava sua vítima e a arrastava para as profundezas.
Rhodan retirou algumas pesadas porcas de parafuso da caixa de ferramentas e se aproximou de Marshall. A extremidade do tapete não ficava a menos de quinze minutos do barco.
— Okura — disse Rhodan em voz baixa.
— Sim.
— Prepare-se para fechar o barco. Aguarde meu comando.
O japonês confirmou com um aceno de cabeça. Rhodan deu as porcas a Marshall.
— Atire.
Marshall avaliou lentamente o peso das peças de metal. Depois, num impulso vigoroso do braço direito, atirou todas elas sobre o tapete.
A reação foi instantânea. Mal as porcas tocaram o animal, as cores deste começaram a empalidecer. Dentro de poucos segundos a luminosidade desapareceu por completo. Um rugido ensurdecedor fez-se ouvir quando o tapete luminoso se fechou em torno do lugar em que fora atingido e começou a arrastar para o fundo aquilo que acreditava ser uma presa.
As primeiras ondas arrebentaram sobre o barco. A uns trinta metros a estibordo, o inofensivo tapete fluorescente transformara-se num amontoado semi-esférico de cor indeterminada.
Quando a massa enorme começou a mergulhar, as ondas sustentavam coroas de espuma. Marshall, que assistia ao espetáculo de queixo caído e olhos arregalados, perdeu o equilíbrio e teria caído à água se Rhodan não o tivesse agarrado em tempo.
— Cuidado! — gritou Rhodan.
Son Okura segurava o fecho.
O tapete continuava a crescer, enquanto a parte inferior de seu corpo, que agora assumia uma forma esférica, mergulhava numa velocidade cada vez maior. A contração da substância daquele corpo, que poucos segundos antes ainda cobrira uma área de vários quilômetros quadrados, enfurecia o mar como se fosse um temporal de regular intensidade.
Rhodan permitiu que Marshall contemplasse o espetáculo até que a água que penetrou no barco passou a representar um verdadeiro perigo. Só então gritou para Okura:
— Feche! E segure-se!
Okura arrastou a cobertura para a frente. Com um ruído metálico a cobertura flexível se fechou sobre o barco, evitando que fizesse mais água. Marshall e Rhodan deixaram-se cair ao chão e seguraram-se nas fitas de plástico presas à parede interna do barco. O japonês, depois de concluído seu trabalho, perdeu o equilíbrio e foi atirado por cima de Marshall.
Depois disso o mar jogou bola com eles durante dez minutos. O barco rodopiava em torno do eixo transversal e longitudinal. Uma forte pancada repuxou a ferida de Rhodan e obrigou-o a tirar o braço direito da faixa que o segurava. Son Okura, que não conseguira se segurar em tempo, rolou por cima da cabeça em direção à popa e, com um baque bem audível, bateu contra a madeira da caixa de ferramentas.
Depois de várias tentativas Rhodan conseguiu se deslocar para a frente e desligar o motor. A solicitação variável forçava o mecanismo e, enquanto o barco estivesse sendo atirado de um lado para outro, o motor de qualquer maneira não adiantava nada.
Marshall, em cuja homenagem a peça fora encenada, estava deitado no meio do barco, praguejando em voz alta. Ainda continuava a praguejar quando o mar voltou a se acalmar e Rhodan mandou que o japonês abrisse o barco.
Segurando-se na borda, Marshall conseguiu se pôr de pé.
— Nunca imaginava que isso fosse tão ruim — fungou.
Rhodan riu.
— Pois da próxima vez já sabe, não é? Não existe nada que seja tão perigoso e traiçoeiro como um tapete luminoso de Vênus.
Voltou a pôr o motor em movimento e colocou o barco no curso correto. Não tinha a menor idéia de quanto o barco tinha sido desviado em virtude do incidente; mas, pelo seu cálculo, o desvio não poderia fazer uma diferença significativa quanto à sua chegada ao setor norte da costa.
Por algum tempo mantiveram-se ocupados, retirando a água gosmenta que as ondas levantadas pelo tapete gigante haviam atirado no interior do barco. O trabalho, em si bem leve, deixou-os tão cansados que, depois dele, encostaram-se exaustos à parede do barco e, por algum tempo, tiveram de lutar com o cansaço que ameaçava fechar-lhes os olhos.
A ambição desmedida fizera com que o governo do Bloco Oriental, derrubado há um ano, se aproveitasse da ausência de Rhodan, que se afastara da Terra, para tentar se apossar da base montada pela Terceira Potência no planeta Vênus. Para isso foram enviadas duas grandes frotas de naves espaciais ao planeta.
Sem essa ambição”, refletiu Rhodan, “a esta hora estaríamos não sei onde, mas de qualquer maneira nos encontraríamos em paz e segurança”.
Provavelmente essa idéia teria induzido reflexões filosóficas em sua mente, se Okura, que se encontrava na proa, não se erguesse repentinamente, soltando uma exclamação de espanto.
Rhodan viu que fitava o céu. Seguiu seu olhar, mas não viu nada.
Por algum tempo o japonês não disse nada. Rhodan colocou-se ao seu lado.
— O que houve, Son? — gritou. — O que está vendo?
Viu que Okura estava com os olhos arregalados de susto. Tinha a respiração entrecortada. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Rhodan ouviu o farfalhar surdo vindo de cima, que por um instante deixou-o tão assustado como o japonês.
— É um lagarto voador — fungou Okura. — Encontra-se na direção noroeste, mas vem exatamente em nossa direção.
— A que altitude está? — perguntou Rhodan.
— Cerca de cem metros.
— É grande?
O japonês contorceu o rosto.
— Acredito que tenha uns trinta metros de largura.
Esperaram. O farfalhar, que quase chegava a estourar os nervos, foi se aproximando, tornou-se cada vez mais forte.
— Daqui a pouco estará acima de nós — disse o japonês.
E logo em seguida:
— Vai descer; está descrevendo círculos em cima de nós.
Rhodan deixou cair os ombros.
— Son, fique na popa. Marshall ficará no meio. Eu cuido do motor. Vamos ficar bem quietos. Son nos avisará assim que o bicho descer. Quando isso acontecer, teremos de atirar. Façam boa pontaria, para que não precisemos atirar mais de uma vez. Os disparos dos radiadores térmicos são perfeitamente visíveis a vários quilômetros de distância. Acho que não preciso explicar o que vai acontecer se uma das sentinelas de Raskujan observar nossos tiros.
Alguns minutos passaram-se. O motor emitia um zumbido monótono e as ondas batiam preguiçosamente no costado do barco.
Subitamente ouviu-se o grito estridente de Okura:
— Está descendo.

* * *

A frota de reforços do coronel Raskujan pousara no mesmo lugar em que; semanas antes, o general Tomisenkow fizera descer quinhentas naves espaciais que se encontravam sob seu comando.
Acontece que Raskujan teve mais sorte que o general. O acampamento de Tomisenkow fora desmantelado pelo furacão levantado pela Stardust-III e seus remanescentes espalhados para os quatro cantos. Tomisenkow levou as naves intactas para esconderijos situados nas montanhas, onde a expedição punitiva de Rhodan as inutilizou uma por uma.
Por isso Raskujan encontrara um campo livre para o pouso — inclusive a faixa calcinada, coberta de terra vitrificada, aberta pelo deslocamento da Stardust-III, que atravessava a selva em linha reta. Raskujan, então ainda um subordinado do general Tomisenkow, decolara da Terra com duzentas naves. Trinta e quatro delas foram perdidas quando a Stardust-III, ao regressar de Vênus para a Terra, passou em meio à formação; as naves desajeitadas e pouco manobráveis do Bloco Oriental se volatilizaram sob o impacto do campo protetor energético da supernave. Entre as naves perdidas encontrava-se a capitania, que trazia a bordo o major Pjotkin.
Raskujan, depois de reagrupar os remanescentes, prosseguira em sua viagem para Vênus. Outras quarenta e três naves foram destruídas durante o pouso aerodinâmico em Vênus. Caíram e, transformadas em meteoros incandescentes, desapareceram nas florestas ou no mar.
Cento e vinte e três naves chegaram ao destino sãs e salvas; pareciam orgulhosas, mas em virtude da falta de combustível estavam condenadas à imobilidade.
Na época não se encontrou qualquer vestígio de Tomisenkow. O coronel Raskujan teve de se arranjar sozinho e viu-se obrigado a decidir, segundo seu livre arbítrio, como agir para transformar o empreendimento num verdadeiro êxito.
A tarefa não parecia muito difícil. Os homens que o haviam enviado para lá desejavam se apossar da fortaleza da Terceira Potência. Uma vez que, por ocasião do pouso da frota de apoio, Rhodan não se encontrava em Vênus, Raskujan pensou que a fortaleza estivesse desguarnecida e sua conquista seria uma brincadeira.
Mas viu-se obrigado a rever suas idéias sobre o que vem a ser uma fortaleza. Fazia um ano que, quase diariamente, quebrava a cabeça nas suas investidas contra a que tinha diante de si. Rhodan envolvera a base de Vênus com um campo protetor impenetrável. Entre os tripulantes de Raskujan havia muitos técnicos — talvez seria melhor dizer “técnicas”; por motivos sobre os quais até então Raskujan não tinha a menor idéia, a maioria dos membros da equipe técnico-científica da frota era formada por mulheres. Mas até mesmo o técnico mais competente acaba capitulando diante daquele anteparo energético impenetrável.
Mas quando Raskujan atingiu esse ponto morto, sua atenção foi desviada para outro fato. A primeira pista do general Tomisenkow e de seus homens foi localizada numa massa de terra em forma de península, que o enorme continente do hemisfério norte fazia avançar em direção ao sul, abraçando, por assim dizer, o continente com o braço de mar de cerca de trezentos e cinqüenta quilômetros de largura.
Raskujan, cuja tarefa consistira inicialmente em dar apoio à tropa de Tomisenkow, procurou coletar informações. Soube que a divisão espacial de Tomisenkow, exposta às condições extremamente ásperas reinantes em Vênus, tornara-se vítima da desorganização e da indisciplina.
Com isso o plano de Raskujan estava formado: Tomisenkow e seus homens teriam de ser obrigados a entrar nos eixos.
Uma vez que dispunha de meios para impor seus planos aos efetivos de Tomisenkow, roídos pela desorganização, tinha nas mãos o general, grande parte da tropa que se mantinha fiel a ele e uma prisioneira muito mais importante: Thora, a arcônida. Era a mulher que transmitira a Perry Rhodan grande parte dos conhecimentos que lhe tornaram possível a instalação da Terceira Potência.
Raskujan exultou. Exultou até perceber que Thora tinha por ele mais ou menos a mesma consideração que ele mesmo tinha diante de uma das incômodas moscas que proliferavam em Vênus.
Nem se dignou a responder às suas perguntas, muito menos revelou como poderiam ser rompidos os campos energéticos que protegiam a fortaleza de Vênus.
Em vista disso, se dirigiu a Tomisenkow. Este não o tratou muito melhor do que Thora, e isso o incomodou ainda mais. No fundo Raskujan era uma criatura subalterna, carregada de complexos de inferioridade. Uma vez que teve a coragem de atacar e prender um general, esperava que este se comportasse como um prisioneiro, não como um general.
Desde sua prisão, ou melhor, desde o pouso dos helicópteros no acampamento de Raskujan, Tomisenkow já havia enfrentado cinco interrogatórios. Para um homem como ele, que durante um ano tivera ocasião de pôr os nervos à prova nos perigos da selva de Vênus, isso não passava de episódios inofensivos e sem a menor importância. Além disso, os oficiais-investigadores de Raskujan, ao se defrontarem com um general, mesmo que este não mais usasse as platinas, pareciam sofrer dos mesmos complexos que seu comandante.
Depois que o temporal crepuscular havia desabado sobre o solo, Raskujan fez com que o prisioneiro comparecesse à sua presença, na sala de comando da nave capitania.
Raskujan tinha uma pistola automática bem visível sobre os joelhos. Não convidou Tomisenkow a sentar.
— Pelo que ouço — principiou — o senhor se recusa a prestar qualquer colaboração à nossa frota.
Para Tomisenkow, esse intróito não parecia representar uma pergunta; ao menos, não se dignou a dar qualquer resposta.
— Responda! — rosnou Raskujan.
— Qual é a pergunta? — indagou Tomisenkow tranqüilamente.
— Por que não quer cooperar comigo?
O rosto de Tomisenkow contraiu-se num sorriso de deboche.
— Por que não quer cooperar comigo? — perguntou.
Por um instante Raskujan ficou atônito. Depois cometeu um erro: respondeu à pergunta de Tomisenkow.
— Porque sua divisão está desorganizada e roída pela indisciplina — respondeu.
— Isso não é motivo para negar sua colaboração. O senhor foi enviado para cá a fim de me dar apoio, inclusive moral, se necessário. Mas em vez de fazer qualquer esforço para localizar minha divisão e, se fosse o caso, reorganizá-la, o senhor deixou-se ficar por aqui e realizou algumas tentativas estúpidas para penetrar na base de Rhodan. Quando acabou descobrindo nosso paradeiro não achou coisa melhor para fazer senão nos atacar. Atacar justamente a nós, a quem o senhor deveria ter trazido apoio!
Raskujan se esforçou para guardar a compostura.
— Como ex-oficial o senhor sabe perfeitamente que tipo de influência os elementos desmoralizados que se encontravam em sua companhia teriam exercido sobre minha tropa. Não tive outra alternativa senão demarcar desde logo claramente os fronts. Meu regimento não tem mais nada com sua divisão.
Tomisenkow fez um gesto tão depreciativo que Raskujan teve de se esforçar ao máximo para reprimir a fúria de que se sentia possuído.
— Vá contar isso a outro — disse Tomisenkow. — Já se esqueceu de que serviu por alguns anos em minha companhia? Naquele tempo, em que ainda era um jovem tenente, já fazia questão de se salientar toda vez que surgia uma oportunidade. Não, Raskujan, a coisa não é tão simples assim. Em Vênus surgiu a oportunidade de bancar o onipotente. Eu era a única pessoa que, em virtude da graduação, podia estragar seu jogo. Por isso inventou alguma coisa e nos atacou. E tudo isso apenas para que o senhor pudesse continuar a desempenhar esse papel miserável.
Raskujan se levantou de um salto.
Levou algum tempo para recuperar a fala.
— Isso é... isso é... não se esqueça de que é meu...
Nesse instante a sineta do radior-receptor interrompeu aquele balbuciar indignado. Raskujan virou-se abruptamente e bateu com a mão espalmada sobre a chave.
— Coronel, observamos um estranho fenômeno luminoso — principiou a sentinela sem qualquer preâmbulo. — Direção, cento e cinqüenta e três graus, distância aproximada de duzentos e cinqüenta quilômetros.
Raskujan franziu a testa.
— Descreva! — ordenou.
— Parece um facho de luz de três holofotes, coronel — respondeu a sentinela. — Apenas a intensidade deve ter sido muito maior que a de um holofote convencional.
— Quantas vezes foi observado o fenômeno?
— Uma única vez.
— Está bem; obrigado.
A palestra foi interrompida. Raskujan fez outra ligação. Uma voz metálica respondeu.
— Capitão, pegue dois helicópteros e dê uma busca no mar — ordenou. — Peça os dados ao posto central de vigilância. Observaram fenômenos luminosos estranhos. Quero saber de que se trata.
O capitão confirmou a recepção da ordem. Raskujan desligou o receptor e voltou a encarar Tomisenkow.
Este sorriu.
— Qual é a graça? — perguntou Raskujan em tom áspero.
— Acredito — disse Tomisenkow em voz baixa, apreciando o efeito de suas palavras — que o senhor tem alguém nos seus calcanhares que lhe ensinará que, em Vênus, um coronel deve se conduzir com muita humildade.

* * *

O farfalhar cresceu num trovejar quando o lagarto desceu sobre o barco. Rhodan se reclinou contra o costado e olhou na direção de que vinha o ruído.
A única coisa que viu foi uma sombra gigantesca que, numa velocidade inacreditável, passou por cima do barco na direção norte—sul e voltou a desaparecer na escuridão.
O ruído se afastou, tornando-se cada vez mais fraco. Depois manteve-se constante por alguns segundos e voltou a crescer.
Rhodan perguntou de si para si até onde deveria arriscar. Ninguém saberia dizer se o lagarto atacaria nessa revoada ou nas próximas. Era possível que nem chegasse a fazê-lo.
Mas, de qualquer maneira, seria tarde para atirar quando tivesse um dos três homens nas garras.
O ruído foi se tornando cada vez mais forte.
— Atirem quando estiver em cima de nós — disse Rhodan com a voz áspera e em tom decidido.
Apontaram as armas na direção exata. O ruído cresceu ainda mais, começando a produzir um zumbido nos ouvidos.
De repente apareceu!
Era uma sombra negra na escuridão cinzenta, maior que da outra vez e de forma praticamente indefinível.
Rhodan seguiu a sombra com o cano do radiador de impulsos térmicos. Quando o lagarto se encontrava bem em cima do barco, ordenou:
— Fogo!
Uma ofuscante luminosidade branco-azulada saiu dos canos, iluminou por uma fração de segundo o corpo horrível do lagarto, coberto de uma pele áspera, e atingiu-o com toda sua potência.
O grito do animal poderia ser ouvido a quilômetros de distância. Mas não durou muito. Algumas centenas de megawats de energia térmica mataram o animal, cujo corpo incendiado caiu ao mar.
Rhodan largou a arma e pegou o leme. Ainda deixou que a enorme vaga levantada pelo impacto do animal sobre a água atingisse o barco de frente; mas logo girou o leme e fez o barco descrever um grande círculo para o leste.
Só dali a vinte minutos retomou o curso anterior. Os movimentos do leme, que por uma questão de hábito executava com a mão direita, fizeram seu ombro doer de novo. Praguejou em voz baixa por causa de sua relativa incapacidade e manifestou o desejo de ter à mão uma caixa de primeiros socorros da farmácia arcônida. Com ela estaria recuperado dentro de poucas horas.
Son Okura continuava sentado na proa, de olhos fitos no norte. Apenas Marshall parecia acreditar que, uma vez morto o lagarto, o maior perigo havia passado. Deitado de costas no centro do barco, mantinha as mãos entrelaçadas em baixo da nuca.
— Levante-se, homem cansado — disse Rhodan. — Daqui a pouco teremos trabalho de novo.
Marshall se assustou.
— Que trabalho será este? — perguntou desanimado.
— Infelizmente há um fenômeno luminoso que acompanha a emissão de calor produzida pela arma térmica — disse em tom professoral. — E, com a atmosfera limpa, o mesmo se torna perceptível a uns quinhentos quilômetros de distância. Sabe lá o que isso significa?
Marshall se levantou com um gemido.
— Está bem — resmungou. — E o que vamos fazer se acontecer aquilo que prevê?
Rhodan sorriu.
— Continuaremos a atirar — respondeu em tom indiferente.

* * *

O capitão que Raskujan enviara para o mar com dois helicópteros não precisou se esforçar muito para descobrir o barco inflável, que não era muito pequeno.
A oitenta quilômetros de distância produziu um reflexo fraco, mas inconfundível sobre a tela de radar, e a cem metros o holofote de luz infravermelha e o binóculo noturno tornaram perfeitamente visíveis os três homens que o tripulavam.
O capitão recomendou uma atenção toda especial aos artilheiros de bordo e transmitiu idênticas aos ocupantes do outro aparelho.
Depois desceu e se aproximou cautelosamente do barco.

* * *

Ouviram as batidas dos rotores dos helicópteros e o chiado agudo dos jatos. Son Okura viu dois aparelhos que se aproximavam do norte a uma altitude considerável.
Para Rhodan isso não constituía nenhuma surpresa; já os aguardava.
Subitamente Okura, que mantinha seu posto de observação na proa do barco, recuou com um grito e cobriu o rosto com ambos os braços. Foi quando o comandante dirigiu o holofote de luz infravermelha sobre o barco e observou-o através de um filtro ótico.
Rhodan procurou adivinhar o pensamento do inimigo.
Verá o barco”, pensou. “E também sabe que nenhum dos helicópteros de Raskujan foi perdido em cima do mar. Logo, acreditará que somos gente de Tomisenkow ou então...
A reflexão não chegou ao fim. Os dois helicópteros se aproximaram, e a violência com que o fizeram não deixava nenhuma dúvida sobre suas intenções: pretendiam atacar o barco.
— Deitem-se no chão! — gritou Rhodan. — E apontem as armas para cima!
Marshall e Okura obedeceram imediatamente. Um canhão automático começou a emitir seus sons entrecortados, outro seguiu seu exemplo, e Rhodan percebeu os solavancos de seu barco. Em meio do barulho ouviu que o zumbido do motor mudava de tom, e logo viu um dos helicópteros bem em cima de si.
Não sabia se Okura ou Marshall já haviam atirado. Não viu o relampejo de suas armas. Encostou a coronha do radiador de impulsos térmicos firmemente ao tronco, para que a arma apontasse bem para cima, e puxou o gatilho.
A descarga não produziu qualquer recuo da arma. Num jogo feérico, o raio ofuscante atravessou a escuridão e atingiu o helicóptero antes que este pudesse se afastar. Houve uma detonação ensurdecedora quando o tanque de combustível explodiu, e uma chuva de peças de metal incandescente caiu na água em torno do barco, produzindo um forte chiado.
O outro helicóptero acompanhou a cena e se afastou em tempo. Mais adiante descreveu círculos a poucos metros acima da água.
Rhodan engatinhou para a frente. Marshall ainda estava deitado, tal qual Rhodan lhe ordenara. Ao ver este, sorriu.
Son Okura se colocara de joelhos e observava o segundo helicóptero, que descrevia círculos em torno do barco. Rhodan ligou o minitransmissor que trazia no pulso e fez o regulador de freqüências percorrer todas as faixas. Não ouviu nada além do chiado produzido pelas perturbações atmosféricas. O piloto do helicóptero ainda não julgava necessário informar a base sobre o incidente.
Rhodan tinha certeza de que logo o faria, ou então tentaria um segundo ataque antes disso.
Esperaram.
Okura levantou o braço direito.
— Está apertando os círculos! — exclamou.
Rhodan fitou a escuridão. Não viu nada.
— A que distância se encontra? — perguntou.
— A distância média é de cerca de cento e cinqüenta metros — respondeu o japonês.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Pois mostre o que achamos dele — disse a Okura.
Estão muito enganados”, pensou. “Querem experimentar o alcance dos nossos radiadores. Mas nem desconfiam de que um radiador de impulsos térmicos desenvolve potência máxima até o fim de seu alcance. Acreditam que poderão aguardar o próximo tiro e fugir em tempo.
Son Okura ajoelhou-se junto à borda do barco e apoiou o radiador sobre a mesma. Estreitou os olhos e inclinou a cabeça para a frente; foi quando o holofote de luz infravermelha do helicóptero passou por cima dele.
Depois esmerou-se na pontaria. Rhodan viu quando o dedo se entortou de encontro ao gatilho. Apesar disso, se assustou quando o raio branco-azulado da grossura de um dedo saiu do cano.
O helicóptero de Raskujan não teve a menor chance. Caiu e, com uma forte explosão, desmanchou-se no mar.
Rhodan respirou aliviado. Empurrou Marshall para o lado e dirigiu-se para o lado em que ficava o motor. Na pressa apenas conseguira amarrar o leme, e agora...
Quando chegou à popa, estacou. Viu que a fita de plástico com que amarrara o leme se esfacelara e estava jogada no chão. Do leme não existia mais nada.
Atirou-se ao chão e examinou o bloco do motor envolto em metal leve. Viu os vestígios de um projétil de canhão automático e identificou o local de impacto. Arrancara o leme e demolira o motor!
Rhodan ficou deitado por um instante. Bateu com os punhos no estojo de metal leve. Antes só se poderia desprendê-lo do motor com o auxílio de chaves de fenda e cortadores de metal; mas agora as primeiras três pancadas fizeram com que balançasse, e com a quinta pancada pôde retirá-lo sem maiores dificuldades.
Um olhar lhe bastou para compreender a situação. O projétil explodira junto à pequena e potente turbina. E esta não pôde ser reconhecida nem mesmo pelo formato; transformara-se num montão fibroso e disforme de chapa metálica enegrecida.
Rhodan levantou-se. Sentiu-se um pouco fraco nos joelhos, mas logo venceu a fraqueza.
— O barco está em ordem — gritou Marshall bastante animado. — Todos os furos produzidos pelos impactos fecharam-se conforme deviam. O barco quase não fez água.
Rhodan contorceu o rosto. Atravessou o barco balouçante em direção a Marshall. Este viu o rosto sério do chefe.
— O que foi?
Rhodan colocou a mão sobre seu ombro.
— Comece a chamar de novo, Marshall — ordenou a voz tranqüila. — O motor está quebrado, e nenhum de nós sabe consertá-lo. Pelo meu cálculo estamos a uma distância de duzentos e vinte quilômetros da costa norte do continente norte e cento e trinta quilômetros da costa norte da península. Logo, não podemos ir para a frente nem para trás. Tente mais uma vez entrar em contato com as focas.
Com um sorriso animador acrescentou:
— Se não conseguir, teremos que nadar.

2



Raskujan ainda ficou discutindo quase uma hora com Tomisenkow e quase chegou a esquecer que não tinha necessidade de manter discussões com um prisioneiro. Depois de algum tempo veio a notícia de que novamente haviam sido observados por duas vezes estranhos fenômenos luminosos no mar aberto. Como até então Raskujan não tivesse recebido qualquer notícia dos dois helicópteros que enviara ao local, começou a ficar nervoso e mandou que a sentinela levasse Tomisenkow antes que este pudesse dar vazão ao seu triunfo sobre o fracasso da missão.
Tomisenkow caminhava tranqüilamente entre as duas sentinelas. Atravessou o acampamento, livre de qualquer vegetação. A cerca levantada em volta do campo de prisioneiros surgiu na escuridão. As duas sentinelas entregaram o prisioneiro a uma das quatro sentinelas postadas junto ao portão do campo e esta levou-o à sua barraca, onde o entregou à sua sentinela particular.
Não foi em vão que Tomisenkow havia estudado cuidadosamente e decorado, não um mapa do campo de prisioneiros, mas aquilo que seus olhos treinados viram dia por dia. Estaria em condições de atingir seu destino de olhos fechados; por isso a escuridão quase impenetrável que fazia com que os soldados ainda não habituados às condições reinantes em Vênus andassem aos tropeções, fornecia a melhor oportunidade para a execução de seu plano.
Começou a agir tranqüila e metodicamente. Sua barraca não possuía um soalho próprio; o chão era formado de terra venusiana batida. Tomisenkow tirou uma das botas e começou a arranhar o chão, colocando a terra na bota.
Dentro de quinze minutos a bota ficou cheia até em cima. Tomisenkow comprimiu a terra com o punho fechado. Depois segurou a estranha ferramenta na mão direita e pesou-a cuidadosamente. Parecia ter o peso de um saco de areia do mesmo tamanho.
Lançou os olhos em torno de si. A barraca não era muito grande e era fácil abrangê-la com a vista. Tomisenkow encontrou um canto apropriado para seu projeto.
Infelizmente não podia modificar a posição da lâmpada que iluminava o interior da barraca. Poderia quebrá-la, mas nesse caso...
Agachou-se num dos cantos, de costas para a entrada, e olhou ostensivamente para o chão. Depois de um ligeiro preparativo começou a gritar:
— Sentinela! Sentineeelaa!
Parecia um grito de pavor, e o resultado não se fez esperar. A barraca foi aberta abruptamente. Tomisenkow virou-se ligeiramente para o lado e esforçou-se para dar ao seu rosto uma expressão de pavor.
— O que houve? — perguntou a sentinela.
Tomisenkow, esbaforido, fez alguns movimentos com a mão.
— É aqui... — gemeu — no canto... depressa!
Em Vênus havia muitas criaturas monstruosas, inclusive algumas que abrem seu caminho por baixo do solo e de repente surgem no interior de uma barraca. A sentinela não ignorava isso.
Entrou de pistola automática em punho e fez sinal para que Tomisenkow se afastasse quando se dirigiu ao canto da barraca.
Tomisenkow afastou-se.
— Uma espécie de verme... — gemeu. Ficou numa posição tal que sua sombra caia exatamente no canto que a sentinela devia examinar. Mal a sentinela tinha passado por ele, pegou a bota cheia de terra e segurou-a firmemente pelo cano.
— Saia da luz! — ordenou a sentinela e, sem olhar para Tomisenkow, sacudiu a mão.
Tomisenkow deixou que a luz caísse sobre a sentinela, avançando um passo em sua direção. Assegurou-se de que o homem já não poderia ver sua sombra.
Levantou o braço direito e, com a bota cheia de areia, golpeou a cabeça da sentinela. Esta caiu para a frente e ficou estendida no chão.
Com um movimento automático, Tomisenkow esvaziou a bota e, com o pé direito, espalhou a terra pelo chão. Depois pegou as cordas que fabricara com pedaços da barraca e amarrou o homem inconsciente. Além disso, enfiou-lhe um lenço na boca, para servir de mordaça.
Finalmente colocou o homem atrás de sua cama primitiva, para que o mesmo não pudesse ser visto da entrada, pelo menos ao primeiro relance de olhos. Colocou a pistola automática sobre a cama, para que a sentinela pudesse vê-la ao despertar.
Tomisenkow sabia como agir face à situação.
Saiu da barraca.
Não foi muito difícil deslocar-se pela escuridão até alcançar a maior de todas as barracas, situada acerca de cem metros, muito embora as sentinelas fizessem de conta que nada lhes poderia escapar.
Na verdade estão com medo”, pensou Tomisenkow com uma certa sensação de desprezo. “Estão com medo de que, de repente, saia do chão um verme gigante.”
Chegavam a assobiar canções para espantar o medo.
Tomisenkow levou quinze minutos para percorrer os cem metros. Verificou que diante da barraca havia três sentinelas. Isso não o perturbou; só no ponto em que as cordas são amarradas às cavilhas, a barraca fica grudada ao chão. Entre as cavilhas um homem normal pode penetrar na barraca; basta levantar a lona um pouco.
Foi o que Tomisenkow fez. No interior da barraca a luz estava acesa.
Ouviu um grito de pavor abafado. Entrou de vez e se levantou. Num movimento instantâneo, pôs o dedo no lábio e fez um movimento em direção à entrada.
Só depois disso cumprimentou a mulher com uma ligeira mesura, sem dizer uma palavra.
O cumprimento foi dirigido a Thora, a arcônida.
O mundo natal de Thora ficava a uma distância tal da Terra e do sistema solar que Tomisenkow nem podia imaginá-lo.
Há alguns anos Thora pousara na Lua com sua nave exploradora, colaborou com Rhodan e ajudou-o a montar a estrutura artificial, mas sumamente estável da Terceira Potência.
Até poucos dias antes, contados pelo tempo terrestre, Thora fora sua prisioneira.
— Pouco importa que a senhora goste ou não de mim — disse Tomisenkow apressadamente no seu péssimo inglês. — Não faça barulho! Não lhe farei nada.
Thora não respondeu. Seus lábios contraíram-se ligeiramente e esboçaram um sorriso que era tão zombeteiro e depreciativo que Tomisenkow teve de se esforçar para reprimir a raiva.
— Não disponho de muito tempo — prosseguiu. — De cinqüenta em cinqüenta minutos é realizada a inspeção das sentinelas. Quer dizer que dentro de quinze minutos no máximo terei que dar o fora.
O olhar zombeteiro de Thora deixou-o irritado.
Esforçou-se para formular sua proposta em termos precisos.
— Quero cooperar com a senhora — principiou.
Thora achou que essa proposta não devia ser respondida.
— Sabe perfeitamente — prosseguiu Tomisenkow — que para nós não seria difícil dominar as sentinelas de Raskujan. As dificuldades começarão quando tivermos saído do acampamento. Não dispomos de outras armas além das que conseguimos tirar das sentinelas, enquanto Raskujan dispõe de helicópteros e mais uma porção de coisas. Não levaria mais de uma hora para nos recapturar. Isso quer dizer que devemos saber para onde ir depois que tivermos escapado. Ficaria a cargo da senhora nos indicar a direção.
Thora encarou-o; a expressão de desprezo que se desenhava em seu rosto continuava inalterada.
— Será que o senhor acha — disse depois de algum tempo — que eu vou cair num truque primário como este?
Tomisenkow não se exaltou. Contava com a objeção.
— Não é nenhum truque. Reflita e há de concordar comigo. Que interesse teria eu para ser desleal para com a senhora? A verdade nua e crua é que nos encontramos no mesmo barco. E não adianta que permaneçamos neste acampamento com as mãos no regaço, esperando que de algum lugar surja um milagre.
Thora parecia refletir.
— E quem me garante — perguntou depois de algum tempo — que com sua ação não irei... gosto de usar expressões terrenas, não irei de mal a pior?
Tomisenkow deu de ombros.
— Se ainda não percebeu a diferença entre as minhas intenções e as de Raskujan — respondeu em tom deprimido — ainda não conhece os homens.
Thora deu uma risada irônica.
— A única coisa que conheço nos homens é a tendência irreprimível de quebrarem a cabeça uns dos outros.
Tomisenkow se levantou.
— Naturalmente — resmungou com a voz contrariada. — Seu povo nunca fez uma coisa dessas. Sua raça emergiu numa inocência total de sua predecessora.
Não deixou que Thora respondesse.
— Eu lhe ofereci minha cooperação — declarou. — No momento tenho a impressão de que a vantagem que a senhora tiraria do trabalho conjunto seria maior que a minha. Mantenho a oferta. Pense a respeito. Dentro em breve voltarei a visitá-la para ouvir sua resposta. Até a vista.
Abaixou-se e passou por baixo da lona.
Dentro de quinze minutos alcançou sua barraca, sem que uma única vez tivesse estado em perigo de ser descoberto. A sentinela amarrada já havia recuperado a consciência. O homem encarou-o com os olhos arregalados e enfurecidos.
Tomisenkow agachou-se à sua frente.
— Escute, rapaz — disse. — Como vê, deixei sua arma aqui mesmo. Apenas dei um pequeno passeio que você provavelmente não teria permitido se eu lhe pedisse. Por causa disso tive de me livrar de você por algum tempo. Sinto muito se o machuquei. Daqui a pouco virá a inspeção das sentinelas. Até lá você estará livre e terá a arma pendurada sobre o ombro. Você poderá avisar o incidente ou ficar quieto; depende inteiramente de você. Da minha parte ninguém saberá nada, pode ter certeza.
Pôs-se a desamarrar o homem. Por fim retirou a mordaça.
— Levante, rapaz! — ordenou.
A sentinela levantou-se, um tanto perplexo e desajeitado. Logo pôs a mão na pistola automática. Depois lançou um olhar desconfiado para Tomisenkow.
Este enfrentou o olhar. Depois de algum tempo perguntou:
— Está com dor de cabeça?
Surpreso, o homem sacudiu a cabeça.
Depois ambos começaram a rir. Tomisenkow deu uma forte pancada no ombro da sentinela.
— Você está bem, cabo — disse. — Não me esquecerei de você quando tudo tiver passado.
A sentinela saiu da barraca e lá fora refletiu sobre o significado das palavras de Tomisenkow. Estava tão concentrado que deixou a ronda passar, limitando-se a dizer:
— Cabo Wlassov. Tudo em ordem.

* * *

Fazia duas horas que John Marshall, um telepata dotado de energias mentais extraordinárias, emitia ininterruptamente sua mensagem.
Venham focas, venham nos ajudar. Somos amigos e merecemos seu auxílio.”
Há duas horas estava esperando que, diante dele ou ao lado do barco imobilizado, a cabeça de uma foca emergisse da água, mas esperava em vão. Não vinha nada, e o esgotamento total fazia dançar diante de seus olhos um mundo de figuras coloridas.
A emissão das mensagens telepáticas esgotara as últimas reservas de energia de seu organismo. Sabia que as focas não eram verdadeiros animais marítimos. Viviam próximo à costa, de preferência nos fiordes que penetravam profundamente na terra; e o ponto mais próximo da costa distava a menos de cem quilômetros do lugar em que o barco se encontrava naquele instante.
Marshall esforçara-se para vencer essa distância; mas o zumbido que ouvia na cabeça dizia-lhe que seus esforços não poderiam prosseguir por muito tempo.
Ainda durariam alguns minutos, talvez uns oito ou dez, depois estaria no fim de suas forças.
Son Okura estava agachado em atitude apática na proa do barco. Vez por outra levantava a cabeça e fazia os olhos deslizarem sobre o mar; mas não havia nada. Nada que pudesse representar um perigo e nada que pudesse interromper, por um instante que fosse, a monotonia da espera.
A atenção de Perry Rhodan concentrou-se ora no ouvido, ora em suas reflexões. As reflexões giravam em torno da maneira pela qual a situação atual poderia ser modificada se as mensagens emitidas por Marshall não fossem coroadas de êxito. O que Rhodan sabia a respeito das focas era muito pouco. Sabia que possuíam certo grau de inteligência, que lhes permitia usar uma linguagem própria, e que a comunicação com elas era possível num nível bastante primitivo. Não sabia se iriam reagir à mensagem, caso conseguissem captá-la. Era bem possível que não se interessassem em saber quem se encontrava em situação difícil na imensidão do mar.
O ouvido procurou captar os ruídos que, segundo esperava Perry Rhodan, surgiriam no curso da próxima hora. Bastante tempo já se passara depois da derrubada dos dois helicópteros. Fosse qual fosse sua opinião sobre a habilidade militar do coronel Raskujan, mais cedo ou mais tarde o mesmo enviaria um grupo maior de helicópteros para descobrir o paradeiro dos dois aparelhos que decolaram em primeiro lugar.

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