Autor
CLARK DARLTON
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
A
Terceira Potência, resultado de uma feliz aliança entre a supertécnica arcônida
e o arrojo humano, já pode contemplar o passado de alguns anos de tempo
terrestre.
Muita
coisa aconteceu nesses anos: o êxito alcançado nas ações defensivas contra as
invasões vindas do espaço; a decifração dos velhos mistérios de Vênus; a luta
contra os tópsidas, os seres reptilóides, no sistema Vega; a descoberta do
planeta da vida eterna, isso para citar apenas alguns dos marcos mais
dramáticos da história ainda recente da Terceira Potência, dirigida por Perry
Rhodan.
Mas
a Terceira Potência, que até então resistiu incólume a todos os perigos do
espaço, agora vê-se diante de uma ameaça muito mais terrível, que teve sua
origem na própria Terra.
Essa
ameaça parte do Supercrânio, um cientista ávido de poder que pretende aniquilar
a Terceira Potência para instalar uma ditadura mundial. Sem dúvida, o Supercrânio
possui a força mental necessária à execução dos seus intentos, pois é um hipno
— e, enquanto existirem cérebros humanos que se encontrem sob O Domínio do
Hipno, Perry Rhodan e seus homens não terão sossego.
= = = = = = = Personagens
Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.
Reginald Bell — Amigo e confidente de Perry Rhodan.
Major Deringhouse — Um homem que perde seu próprio eu.
Clifford Monterny — Que costuma ser chamado de Super crânio.
Ivã Ivanovitch Goratchim — A última e a mais perigosa arma do
Supercrânio.
Betty Toufry — A telepata mais potente da Terceira Potência.
Gucky — Um membro muito importante do Exército de Mutantes.
Tenente Bings e Sargento Adolfo
— Dois astronautas que têm um hobby muito estranho.
1
Mais uma vez, Marte.
O major Deringhouse, o comandante, contemplou, de olhos semicerrados, os
infindáveis desertos vermelhos, cortados a espaços regulares por largas faixas
verdes.
O planeta Marte era desabitado, ao menos no que dizia respeito a seres
inteligentes. Havia alguma vegetação primitiva, especialmente nas partes mais
profundas das faixas verdes e nas encostas suaves das montanhas. Nos desertos,
viviam insetos e pequenos mamíferos, mas nenhum deles poderia representar um
perigo para o homem.
Embora isso ocorresse, era justamente em Marte que o major Deringhouse
procurava o mais perigoso dos homens vivos e o inimigo número um da Humanidade.
Todas as pistas deixadas pelo criminoso em fuga apontavam para Marte.
Deringhouse suspirou e empinou a nave, fazendo-a subir até que Marte se
transformasse num brilhante globo avermelhado, que logo mergulhou nas
profundezas do espaço. Passando por Fobos, a nave esférica Good Hope-VII
disparou para o espaço vazio.
Imprimindo à nave uma aceleração quase inacreditável, Deringhouse correu
em direção ao ponto de encontro combinado. A Good Hope-VII tinha formato
esférico e seu diâmetro era de cerca de sessenta metros. Os quinze homens da
tripulação perdiam-se no seu interior, mas não havia necessidade de maior
número de pessoas para manobrar o artefato, pois quase todos os comandos eram
automáticos. Nos grandes hangares daquele gigante, havia espaço para dez
destróieres espaciais do tipo mais moderno, que eram tripulados por três homens
e alcançavam a velocidade da luz.
Deringhouse pretendia se encontrar com esses dez destróieres.
Não tinha muita certeza de que o Supercrânio poderia ser encontrado em
Marte. Era bem verdade que todas as pistas apontavam para o planeta vermelho,
mas o sistema solar era muito grande. Havia muitos planetas inexplorados e
numerosos satélites nos quais um homem poderia fixar residência por algum
tempo, desde que dispusesse dos necessários recursos técnicos. Por que teria
escolhido justamente Marte?
O comandante contemplou a tela de popa, onde se via a imagem do planeta,
que se desvanecia no espaço. Deringhouse estava sozinho na cabina de controle
da nave, e no momento não tinha nada a fazer. Dali a dez minutos teria início a
desaceleração automática, que conduziria a nave às coordenadas previamente
convencionadas. Talvez os destróieres já se encontrassem lá. Por motivos
facilmente compreensíveis, tomou-se a precaução de não recorrer às comunicações
pelo rádio.
O Supercrânio era o homem mais perigoso do sistema solar!
Parecia um exagero. Mas Deringhouse conhecia perfeitamente o poder
daquele homem. Clifford Monterny, que a si mesmo se chamava de Supercrânio, era
um mutante. Seu pai, um cientista muito famoso no seu tempo, fora atingido
pelas radiações de um reator atômico avariado; o substrato hereditário do
cientista sofrerá uma alteração. Ao nascer, Clifford parecia ser uma criança
normal, igual a qualquer outra. Só bem mais tarde revelaram-se suas capacidades
extraordinárias. Era um hipno e um sugestor; sabia impor sua vontade a qualquer
ser humano, mesmo que se encontrasse no lado oposto do globo terrestre. Mais
tarde o dom da telepatia veio se juntar a essas qualidades. As três faculdades
reunidas fizeram de Clifford Monterny um homem de extraordinária inteligência.
Ajudado pela fortuna que herdara de seu pai, obteve acesso aos círculos mais
influentes.
O aspecto exterior de Monterny não era o de uma pessoa atraente. O rosto
inchado e a calva reluzente não levavam ninguém a disputar sua companhia.
Talvez essa circunstância tivesse tido uma influência na formação de seu
caráter.
Clifford Monterny era um mutante e sabia que no mundo havia outros
mutantes além dele. Perry Rhodan chegara mesmo a formar um exército de
mutantes, e com o auxílio do mesmo construíra um pequeno império. Por que ficaria
inativo enquanto outros estavam agindo?
Suas faculdades permitiram que descobrisse treze mutantes e os submetesse
ao seu controle mental. Juntamente com eles, começou a campanha contra o maior
de seus inimigos, Perry Rhodan.
O rosto do major Deringhouse abriu-se num largo sorriso. Esticou o corpo
comprido e soltou um bocejo descontraído.
Pois bem, até mesmo um homem superinteligente como o Supercrânio cometera
um erro. Perry Rhodan não era fácil de ser enganado, ainda mais por quem
quisesse combatê-lo com suas próprias armas.
Monterny abandonara seus mutantes para fugir com uma nave espacial
roubada. E agora ele, o major Deringhouse, fora incumbido por Perry Rhodan de
procurar o fugitivo. As buscas já duravam quase trinta dias. E ainda não haviam
produzido qualquer resultado.
Voltou a olhar para a tela. Marte transformara-se numa estrela reluzente,
que brilhava como um olho avermelhado na noite eterna. Já não se viam seus dois
satélites. Deringhouse suspirou e dedicou sua atenção à tela frontal. Uma vez
que, segundo se combinara, as comunicações pelo rádio só seriam utilizadas em
caso de emergência, o contato com os dez destróieres teria de ser estabelecido
através do aparelho de localização ótica.
“Perry Rhodan não ficará muito satisfeito com os resultados de minha missão”,
pensou Deringhouse. “Ainda bem que tem
bastante que fazer na Terra, pois assim me deixará em paz. Talvez eu tenha
sorte e...”
Um relampejo ofuscante arrancou-o de suas reflexões. As mãos hábeis
passaram pelo contraste do rastreador ótico. O aspecto tridimensional do espaço
vazio desapareceu da tela, reflexos brancos e pretos correram pela lâmina
translúcida, agruparam-se e se transformaram numa nova imagem. Viam-se menos
estrelas, e as que apareciam estavam inalteradas. Mas o relampejar surgira de
novo, desta vez mais perto e mais nítido. E continuou. Deringhouse acenou com a
cabeça.
Um dos destróieres já estava ali.
Meia hora depois o envoltório gigantesco da Good Hope-VII havia acolhido
em seu interior as pequenas naves recém-chegadas. Deringhouse pediu que os
comandantes comparecessem à sala de comando e relatassem as ocorrências.
— Tenente Hill, você teve a seu cargo o setor BNZ. Observou alguma coisa?
Um homem ainda jovem, com o uniforme da Terceira Potência, adiantou-se e
fez continência. Seu rosto delicado apresentava rugas causadas pela apreensão.
— Sou o tenente Hill, comandante do destróier Z-VII-1. Nenhuma ocorrência
especial. Patrulhamos o setor do espaço que nos foi indicado e prestamos
atenção especialmente a eventuais emissões de rádio. Não captamos nenhuma.
Também a localização ótica não produziu qualquer resultado. Nada mais a
relatar.
— Capitão Berner, comandante da Z-VII-7. Também não registramos qualquer
acontecimento digno de nota. Passamos a uma distância segura por uma chuva de
meteoritos.
Os relatórios dos outros comandantes não foram muito diferentes. Quando o
comandante do nono destróier concluiu seu relato, Deringhouse lançou um olhar
sobre a tela do localizador ótico. Sacudiu a cabeça.
— Onde ficou o Z-VII-3? — perguntou. — Já devia ter chegado há muito
tempo.
Não obteve resposta. E nunca obteria, pois a nave Z-VII-3 continuaria
desaparecida.
* * *
O sargento Raab sentiu um tédio terrível, pois aqueles incessantes vôos
de reconhecimento lhe caíam sobre os nervos. Aquilo já durava uns trinta dias.
Quem sabia onde esse lendário Supercrânio teria se metido, se é que ainda
existia. Haviam revistado todos os cantos de Marte, chegaram mesmo a pousar nas
duas pequenas luas e não se esqueceram de examinar o espaço interplanetário
entre Marte e o anel de asteróides. Não descobriram nada, absolutamente nada.
A missão de hoje os levaria mais uma vez para as imediações do planeta
vermelho. O pouso não estava previsto. O tenente Yomo, um japonês que exercia
as funções de comandante do destróier Z-VII-3, compartilhou do desinteresse de
seu sargento e admitiu automaticamente que o terceiro membro da tripulação, o
cadete Fouler, só não revelava sua opinião em consideração à sua posição
subalterna.
— O que há com Deimos? — resmungou Raab e contemplou a figura irregular
da rocha. — Não é possível que ali se esconda uma nave e, se me lembro bem das
informações que nos foram dadas, o Supercrânio ainda possui dois dos destróieres
roubados de Rhodan.
— Concordo inteiramente com a sua opinião, sargento — confirmou Yomo, que
era um daqueles superiores que tomam em consideração as opiniões de seus
subalternos. — De qualquer maneira, devemos dar uma olhada. Raras vezes uma
ordem parece ter uma finalidade razoável. Cadete Fouler, circule em torno de
Deimos a uma distância segura. Sargento Raab, o senhor fica incumbido da
observação da superfície do satélite. Eu cuidarei do localizador ótico. Dessa
forma não perderemos qualquer detalhe.
Se o tenente Yomo não tivesse levado seus deveres tão a sério, ainda
estaria vivo dali a uma hora. Mas como poderia saber? Ninguém sabia.
Não havia nada em Deimos; bastaram duas voltas em torno do local para que
o notassem. As rochas entrecortadas daquela lua anã e sem atmosfera lançavam
sombras nítidas e muito contrastantes, muito embora o Sol estivesse muito
distante e não derramasse muita luz e calor sobre o local. Aquele bloco de
pedra de menos de dezesseis quilômetros circulava em torno do planeta a cada
trinta horas, a uma distância de pouco menos de vinte mil quilômetros.
Depois de algum tempo, o sargento Raab sacudiu a cabeça e disse:
— Não adianta fazermos uma corrida de seis dias conosco mesmos; nunca nos
alcançaremos. Nem mesmo um rato está escondido nesse bloco de pedra morta.
— Concordo plenamente com o senhor — admitiu o tenente Yomo. — Cadete
Fouler, tome o novo curso. Fobos.
— Ainda isso! — gemeu Raab. — Esse montão de sujeira ainda é um pouco
menor.
— Ordens são ordens — retrucou Yomo num tom solene e voltou a dedicar sua
atenção aos instrumentos. — Fouler, tome a rota que acabo de indicar.
O esguio destróier passou para a tangente e disparou diretamente na
direção de Marte, uma esfera enorme que mantinha Fobos sob sua influência.
Fobos distava pouco mais de nove mil quilômetros de seu planeta e completava
sua órbita em poucas horas. Essa órbita parecia a de um satélite artificial,
isso, porém, acontece com a órbita de qualquer satélite natural. A suposição
que certos cientistas terrenos haviam formulado sobre este ponto não se
confirmara; Fobos, tal qual Deimos, era um astro natural.
E, como este, não tinha o menor interesse para os três tripulantes da
Z-VII-3.
Nada ali chamou a atenção deles.
Nos últimos trinta dias sempre tora a mesma coisa, e tudo indicava que
nos próximos trinta dias não seria diferente.
O tenente Yomo lançou um olhar para o relógio.
— Ainda temos tempo para dar uma voltinha em torno de Marte. É bem
verdade que o major Deringhouse tomou a si uma missão idêntica, mas não iremos
topar justamente com ele. Toda atenção será pouca.
Com a velocidade bastante reduzida, o destróier baixou para a atmosfera
rarefeita, desceu e, a pouca altura, passou acima do deserto desolado.
O sargento Raab sacudiu a cabeça e, dirigindo-se ao cadete Fouler, disse:
— Mesmo que desça mais ainda, não acredito que encontremos qualquer
coisa. O Supercrânio não será tolo para expor suas naves roubadas por aí. Se ainda
estiver vivo, deve estar escondido no círculo de asteróides. Quer apostar?
— Não aposto por princípio — disse Fouler para escapar a uma definição. —
Mas, se desejar, estou disposto a concordar com o senhor.
Raab resmungou algumas palavras incompreensíveis e olhou para o tenente
Yomo. O japonês confirmou com um aceno de cabeça.
— Ainda vamos dar uma olhada naquela cordilheira. Depois estará na hora
de voltar. O major Deringhouse não gosta que a gente se atrase.
Quando a Z-VII-3 cruzava os cumes das montanhas e se aproximava do platô
que ficava atrás das mesmas, o sargento Raab notou uma coisa estranha. Um
círculo de ferro parecia envolver sua testa e comprimir sua cabeça. Alguma
coisa parecia querer agarrar seu cérebro. Antes que compreendesse o que aquilo
significava, Yomo berrou:
— Coloquem os capacetes! Rápido!
Enquanto falava, tirou um objeto estranho do armário que se encontrava
nas proximidades e enfiou-o na cabeça. Parecia um capacete de aviador coberto
por uma tela de arame. Dois minúsculos bastões metálicos destacavam-se na
altura da testa. Tratava-se de um artefato especial, destinado a proteger o
cérebro humano contra qualquer influência hipnótica.
Uma vez enfiado o capacete, o sargento Raab logo sentiu o alívio. A
pressão na cabeça cessou. O cadete Fouler sentiu a mesma coisa.
Como poderiam saber que seria justamente esse fato que selaria seus
destinos?
Lá embaixo, sob a superfície do platô, o Supercrânio empenhava suas
imensas energias mentais para submeter os tripulantes da Z-VII-3 ao seu
controle hipnótico. Quando essa tentativa falhou, graças à imediata utilização
dos capacetes especiais, percebeu que teria de fazer alguma coisa para que os três
homens jamais pudessem revelar a localização de seu esconderijo.
Tudo aconteceu com a rapidez de um raio.
No mesmo instante em que a nave esguia passava lentamente sobre as
montanhas inóspitas de Marte, na tentativa de localizar a causa da súbita influência
mental, a cabina de proa foi esfacelada por uma explosão ofuscante. O vapor
atômico espalhou-se numa questão de segundos e devorou a nave. As peças
semiderretidas balouçaram em direção ao solo e caíram em qualquer ponto da
rocha. Uma nuvem de fumaça deslocou-se preguiçosamente para o leste, tangida
pelo vento fraco.
Dali a pouco não havia mais nada.
* * *
Quatro horas já se haviam passado desde a hora em que a Z-VII-3 deveria
ter comparecido ao ponto determinado pelas coordenadas pré-escolhidas. O major Deringhouse
perdera a paciência. Mais uma vez convocou os comandantes dos destróieres à
cabina de comando. Seu rosto tinha uma expressão rígida e severa. O sorriso
costumeiro estava ausente.
— Cavalheiros, a ausência do tenente Yomo permite várias conclusões;
teremos de optar por uma delas.
Os comandantes aguardavam com o espírito tenso. Sabiam que as
perspectivas que Deringhouse lhes ofereceria não seriam nada animadoras.
— É possível que a Z-VII-3 tenha encontrado o esconderijo do Supercrânio,
tendo sido destruída ou aprisionada por ele. Se tivesse ocorrido a última
dessas hipóteses, nosso rádio, mantido constantemente em recepção, deveria ter
recebido a mensagem combinada para o caso. Ainda existe a possibilidade de que
o tenente Yomo tenha sido vítima de uma falha técnica de sua nave. Finalmente,
pode ter sido atingido por um meteoro.
O tenente Hill pigarreou de forma bem perceptível. Deringhouse fez um
gesto animador.
— Talvez estejamos vendo as coisas pretas demais — disse Hill. — É
possível que o tenente Yomo apenas se tenha atrasado. Qual foi a rota que lhe
foi destinada? Deringhouse sacudiu a cabeça.
— Isso é praticamente impossível, tenente Hill. A Z-VII-3 recebeu a
incumbência de pesquisar a área de Marte e suas adjacências. Eu mesmo estive lá
com a Good Hope-VII, mas não encontrei nada de suspeito. Uma vez que, segundo
se supõe, o Supercrânio se dirigiu a Marte, a ausência do tenente Yomo me
parece altamente suspeita. Devo confessar que estou muito preocupado.
— Por que não vamos dar uma olhada? — perguntou alguém.
Deringhouse lançou os olhos na direção daquele que acabara de falar.
— É o que estamos fazendo há quase um mês.
— É verdade, major. Mas, se sua tese sobre a Z-VII-3 for correta, o
tenente Yomo deve ter encontrado alguma coisa. Se o Supercrânio se encontrar em
Marte, deve dispor de um bom esconderijo. É bem possível que Yomo o tenha
encontrado por acaso. Não sabemos o que terá acontecido depois disso. Mas
podemos tentar descobrir.
— Se o entendi bem, você sugere uma busca intensa em Marte.
— Perfeitamente.
Deringhouse olhou para os outros oficiais.
— O que acham cavalheiros?
— Achamos que a idéia não é má — disse o capitão Berner, que comandava a
Z-VII-7. — De qualquer maneira será melhor que ficarmos parados por aqui.
O major Deringhouse refletiu por alguns segundos. Finalmente o sorriso
costumeiro se esboçou em seu rosto.
— A ação terá início dentro de dez segundos. As tripulações deverão
ocupar os destróieres. A ejeção será realizada imediatamente.
Os comandantes das pequenas naves de guerra fizeram continência e se
retiraram. O major Deringhouse seguiu-os com os olhos. De um instante para
outro o sorriso se apagou em seu rosto. Tomou lugar na poltrona diante do
painel de controle. Esperou cinco minutos e ligou o intercomunicador. O tenente
Hill respondeu:
— Tudo preparado no hangar 1. Nove destróieres prontos para a ejeção.
— Está bem — respondeu Deringhouse e lançou um olhar para o mapa de
coordenadas. — Daqui a dois minutos mandarei abrir a comporta. Decolem
imediatamente e mantenham-se nas proximidades do girino. Entendido?
— Entendido — respondeu Hill.
Dois minutos depois da ligeira palestra, um pedaço do envoltório da
gigantesca nave esférica deslizou para um lado, deixando livre uma abertura.
Profusamente iluminadas, as naves, pequenas e versáteis, descansavam nos
trilhos de decolagem do hangar. Subitamente, a primeira se movimentou e, numa
aceleração louca, disparou espaço afora. Antes que pudesse descrever a primeira
curva, foi seguida pela segunda. Toda a manobra consumiu menos de dois minutos.
Depois disso a luz se apagou no hangar e a escotilha foi fechada. O movimento
da Good Hope-VII foi acelerado. Os destróieres entraram em formação, com a nave
capitania no meio, e se adaptaram à velocidade desta.
Longe dali, em meio à profusão de estrelas que emitiam uma luz fria,
havia uma de luminosidade vermelha e cintilante: era o planeta Marte. As
calotas polares e a confusão de canais destacavam-se nitidamente na monotonia
das superfícies desérticas.
Com o rosto indiferente, o major Deringhouse contemplou seu destino.
Parecia adivinhar que alguma coisa horrível o aguardava por lá.
* * *
O recinto ficava bem embaixo do solo.
As paredes eram formadas de rocha nua, apenas desbastada. O teto era nu.
Um fino tapete de plástico cobria o chão. As lâmpadas ofuscantes espalhavam uma
luminosidade desagradável. Ao que tudo indicava, o habitante do subterrâneo não
tinha muito senso de comodidade. Num dos lados, uma infinidade de instrumentos
dos tipos mais diversos esforçava-se para esconder a rocha. Fios e cabos
corriam confusamente pelo chão e, passando por uma pequena abertura,
desapareciam no recinto vizinho. Em algum lugar um reator emitia seu zumbido
monótono; era o único ruído que se ouvia por ali.
O ar daquele subterrâneo era perfeitamente respirável; recendia ao
frescor sintético das naves espaciais. Um ventilador zunia no teto.
A luz insuportável se apagou. Por um instante a escuridão pareceu tomar
conta de tudo. Mas logo uma tela se iluminou na parede livre, espalhando sua
luz fria, mas suave. Uma mesa e vários painéis de controle destacaram-se na
penumbra. Diante dela, um homem estava sentado. Usava traje de passeio
cinza-escuro, de feitio bastante simples. A cabeça calva e maciça brilhava sob
a luz mortiça da tela. Mal se reconhecia o rosto balofo, os grandes olhos
frios, as orelhas muito pequenas e os lábios grossos, agora estreitados.
Essa cabeça assentava num pescoço curto e gordo. O corpo gigantesco
descansava numa larga poltrona de aço que, segundo tudo indicava, provinha de
uma nave espacial. As pernas robustas estavam estendidas sob a mesa. As mãos
grossas e curtas repousavam, tranqüilamente, diante dos painéis de controle.
Era Clifford Monterny, o Supercrânio; ele já fora senhor de treze
mutantes que, obedecendo às suas ordens, ameaçavam destruir o poder de Perry
Rhodan. Este, no entanto, os derrotou — e libertou — usando um poder igual aos
daqueles homens. Clifford Monterny, o inimigo número um da Terra e o ser mais
perigoso do sistema solar, estava escondido pouco abaixo da superfície de
Marte, aguardando sua chance.
Ainda possuía dois dos três destróieres que havia roubado. Mas era pouco
para lutar contra a Terra. Precisava de mais naves e mais homens. Uma vez que
submetesse alguém à sua vontade hipnotizante, este obedeceria cegamente às suas
ordens. Era difícil exercer influência mental sobre um desconhecido que se
encontrasse a grande distância, mas o Supercrânio sabia, por experiência
própria, que isso era possível. Não foi à toa que instalou um conjunto completo
de televisão em seu esconderijo. A visão de um rosto projetado na tela
bastava-lhe para reconhecer o modelo de ondas cerebrais do indivíduo, e isso,
por sua vez, lhe bastava para submetê-lo à sua vontade.
O quadro projetado na tela se alterou.
As cores se desmancharam e voltaram a assumir contornos ordenados. O
cintilar das estrelas se apagou, quando as mesmas foram encobertas pela sombra
de uma gigantesca esfera metálica. Por um instante teve a impressão de que um
buraco circular se formara no meio do universo. Só quando a automática de
precisão entrou em funcionamento o quadro assumiu contornos mais reais,
apresentando a Good Hope-VII em tamanho natural.
O Supercrânio voltou a efetuar uma regulagem. O quadro representava
apenas um setor na nave. Mas isso não lhe adiantou muito. Precisava ver os
rostos; só assim poderia contar com um êxito total. Um êxito parcial poderia
ser contraproducente. Se os tripulantes da gigantesca nave percebessem sua
influência antes da hora e colocassem os capacetes isoladores, estaria reduzido
à impotência, e nada lhe restaria senão destruir o veículo espacial. Acontece
que precisava dele para realizar seus planos.
Queria que o comandante da nave esférica acreditasse que ele, o
Supercrânio, só estava interessado na destruição da nave. Para incutir-lhe essa
idéia desviacionista teria que destruir um dos destróieres que a acompanhavam.
Mais uma vez o quadro que o Supercrânio tinha diante de si se alterou. O
veículo espacial esférico foi substituído pelos novos destróieres em formação.
O Supercrânio contemplou-os com os olhos semicerrados. Seus lábios
contorceram-se num sorriso de deboche. Se esses pobres coitados soubessem como
estavam indefesos nas suas naves, fariam meia-volta a toda pressa e fugiriam à
velocidade da luz, sem se importarem para onde.
Ninguém sabia como era terrível a arma que ainda possuía.
Elogiou-se a si mesmo por ter tido a precaução de instalar a base em
Marte antes de declarar guerra a Perry Rhodan. O que mais o orgulhava era o
fato de ter levado Ivã Goratchim a esse planeta. Ivã Goratchim, a arma mais
potente e horrorosa, contra a qual não havia defesa.
Examinou as escalas existentes na parte inferior da tela.
A frota inimiga encontrava-se a uma distância de vinte mil quilômetros.
Como sua velocidade estivesse sendo reduzida constantemente, era de esperar que
dentro de dez minutos penetrasse na atmosfera de Marte. Havia tempo para tomar
as providências necessárias.
Por um instante Clifford Monterny, um monstro em figura de homem, indagou
a si mesmo se aquela gente sabia da destruição de um destróier ou se fora o
puro acaso que os fizera se aproximarem de seu esconderijo em formação cerrada.
Lançou mais um olhar para a tela; depois levantou seu corpo balofo da poltrona
e se dirigiu à porta. Trancou-a cuidadosamente e, a passos rápidos, atravessou
um longo corredor, ladeado de portas tanto à esquerda como à direita.
Finalmente parou. Seus dedos treinados tocaram uma fechadura magnética.
Uma porta metálica deslizou para dentro da rocha, deixando livre uma abertura.
Entrou no recinto que ficava atrás dela.
A sala não continha muitos móveis. Só se via uma cama colocada no canto
oposto à porta.
Alguém estava sentado nessa cama...
A figura horripilante faria congelar o sangue nas veias de qualquer ser
humano; mas o Supercrânio apenas sorriu e disse:
— Levante-se e venha comigo, Ivã. Temos trabalho para você.
O monstro obedeceu; levantou-se e acompanhou seu mestre e senhor.
* * *
Mais ou menos na altura de Fobos, a Good Hope-VII entrou numa órbita
estável em torno de Marte. Os nove destróieres seguiram-na sem que tivessem
recebido ordem específica para isso.
O major Deringhouse deu-se conta que, dali em diante, os contatos teriam
de ser mantidos em nível reduzido. Pelo intercomunicador estabeleceu contato
com a sala de rádio.
— Cadete Renner, chame os destróieres e passe a ligação para mim.
— Sim senhor. Com que potência?
— A potência mínima. As ondas de rádio não devem atingir a superfície de
Marte.
Menos de trinta segundos depois, os comandantes dos destróieres
responderam à mensagem. Deringhouse indicou a posição das naves e instruiu-as a
se manterem à vista uma da outra. A superfície de Marte teria de ser revistada
numa ação conjunta. Quem encontrasse qualquer indício, por menor que fosse,
devia avisar imediatamente os outros. Em hipótese alguma qualquer das naves
deveria empreender uma ação independente. Por enquanto os telecomunicadores não
seriam utilizados.
A navegação que possibilitava a visão das outras naves constituía um
requisito fundamental, quando por outra coisa não fosse, em virtude das
comunicações extremamente reduzidas pelo rádio. Sem ela não haveria
possibilidade de manter qualquer contato. Ninguém fazia a menor idéia do que
havia acontecido com a Z-VII-3, mas ninguém tinha a menor vontade de
compartilhar seu destino.
Seguindo as instruções recebidas, a nave Z-VII-7, comandada pelo capitão
Berner, desviou-se para o lado, ocupando a posição que lhe fora indicada.
Também os outros destróieres espalharam-se, cada qual dirigindo-se à sua
posição.
Berner deixou a direção da nave a cargo do co-piloto e dedicou-se
inteiramente à observação da superfície de Marte. Através de seu telegrafista
mantinha contato permanente com Deringhouse.
O veículo espacial esférico também abandonou sua órbita, descendo
lentamente em direção à superfície de Marte. Os destróieres seguiram-no. A
formação bastante alargada permitia que a observação se estendesse a uma faixa
bem ampla.
O capitão Berner contemplava a superfície avermelhada e juraria que
nenhum Supercrânio estava escondido por ali. Nas montanhas ainda seria
possível, mas na areia do deserto nem poderia se pensar nisso. As pesquisas
haviam revelado que a areia chegava a uma profundidade de cinqüenta metros. Não
era concebível que alguém construísse um esconderijo subterrâneo em pleno
deserto de Marte.
— Tomem a rota da cordilheira oeste — soou a instrução vinda da nave
capitania. — Desçam mais. Utilizem os telescópios. Avisem de qualquer indício
de uma escavação.
Berner seguiu rigorosamente as Instruções. Sabia que a Z-VII-2 se
encontrava a seu lado e, mais para fora, a Z-VII-5. À sua frente a Z-VII-4
estava rompendo as camadas superiores da atmosfera rarefeita de Marte.
As montanhas se aproximaram. A flotilha passou a pequena altura sobre as
encostas suaves, seguiu a linha das cumeeiras e os vales não muito profundos,
permaneceu por um instante sobre uma depressão do terreno e prosseguiu no seu
vôo.
As montanhas passaram a se achatar e o deserto voltou a surgir diante
deles. A próxima cordilheira surgiu no horizonte. Berner já sabia, face aos vôos
anteriores, que era a maior cordilheira de Marte, embora não fosse a mais alta.
A cordilheira lembrava um continente de contornos bastante regulares, que se
destacava no mar do deserto formando uma gigantesca ilha.
Mas havia uma coisa que Berner não sabia. O Supercrânio considerava essa
cordilheira como sua propriedade pessoal, e aguardava a frota que dela se
aproximava.
Esperava pouco abaixo da superfície rochosa.
O capitão Berner viu surgir diante de si a extensa área do platô, que já
sobrevoara tantas vezes. Nunca notara nada de suspeito, e estava convencido de
que também hoje a busca seria em vão.
Um pequeno vale lateral desfilou lentamente diante dele. A rocha nua foi
substituída pela vegetação rala. Ainda não havia a menor indicação.
Mas subitamente Berner sentiu-se ofuscado; fechou os olhos. Bem à sua
frente, no lugar em que se encontrara a Z-VII-4, um sol atômico apareceu de
repente. O calor desprendido pelo mesmo consumiu o destróier. O metal derretido
pingou da bola de fogo e choveu sobre o platô. Os pingos escaldantes deixaram
atrás de si finas nuvens de fumaça.
Quando a luminosidade ofuscante diminuiu um pouco, permitindo que Berner
abrisse os olhos, a Z-VII-4 deixara de existir. Uma nuvem de formato estranho
ocupava o lugar em que antes se encontrava; lentamente foi sendo dissipada pelo
vento.
Tudo fora tão rápido que nem Berner nem o co-piloto tiveram tempo para
esboçar qualquer reação. Atravessaram os vestígios do destróier, reduzido a
gases, e desmancharam a nuvem.
No mesmo instante viram um relampejo à sua esquerda. Dessa vez a vítima
do ataque traiçoeiro e imprevisível fora a Z-VII-2. Poucos segundos depois a
Z-VII-5 também foi destruída.
Sem se preocupar com a proximidade, agora evidenciada, do inimigo que há
tanto tempo procuravam, o major Deringhouse transmitiu sua ordem pelo rádio:
— Os destróieres restantes entrarão imediatamente no hangar!
A manobra foi realizada com uma rapidez quase incrível, mas poucos metros
antes da escotilha salvadora ainda explodiu o destróier Z-VII-10. O vento escaldante
da aniquilação atômica penetrou no hangar da Good Hope-VII.
As cinco naves menores que ainda restaram se encontravam em segurança.
Ninguém desconfiava de que a segurança era apenas aparente; mas era
exatamente isso que o Supercrânio queria.
O major Deringhouse cometeu um erro fatal, pois ainda não se lembrara dos
capacetes defensivos. O súbito ataque aos seus destróieres, a destruição
inexplicável dos mesmos e a proximidade evidente do inimigo roubaram-lhe parte
do seu proverbial sangue-frio.
Deu uma ordem a si mesmo: a retirada.
Mas não o fez sem cometer um segundo engano.
O motivo era bem compreensível. Pelos tripulantes dos quatro destróieres
destruídos não se poderia fazer mais nada; quanto a isso não havia a menor
dúvida. Mas, mesmo que colocasse em segurança a si e ao seu girino e retornasse
à Terra em busca de reforços, ele não o faria sem deixar uma indicação do
esconderijo do Supercrânio. Não havia a menor dúvida de que a Good Hope-VII
fora descoberta. Mas ninguém acreditava que o Supercrânio estava em condições
de atacar, quanto mais de danificar a gigantesca nave. O campo energético
impenetrável já voltara a envolver o veículo esférico.
Seria mesmo impenetrável?
Talvez o fosse para toda e qualquer espécie de matéria, mesmo quando
investisse contra a nave sob a forma de radiações energéticas mortais; mas em
hipótese alguma o seria para os fluxos mentais hipnóticos do Supercrânio.
O segundo erro do major Deringhouse consistiu em retardar a retirada e
ativar o rastreador ótico. De qualquer maneira pretendia estabelecer contato
com o inimigo. Precisava de uma prova irrefutável.
Por isso não ligou apenas o rastreador ótico, mas também o respectivo
receptor, a fim de possibilitar o intercâmbio visual.
Era isso que o Supercrânio esperava. Nas telas da sala de comando, à qual
acabara de regressar, não se via apenas a Good Hope-VII em tamanho natural, mas
também o rosto de Deringhouse.
Dali a dois segundos Deringhouse perdeu sua identidade.
Transformou-se num instrumento daquele ser horroroso, cujos fluxos
hipnóticos se apoderaram de sua vontade, transformando seu corpo numa
ferramenta dócil do mestre.
O major Deringhouse não percebeu nada, menos ainda as pessoas que se
encontravam nas suas proximidades.
Voltou a desligar o rastreador ótico e, assim que os comandantes dos
cinco destróieres que haviam escapado à destruição entraram na sala, levantou
os olhos. O tenente Hill anunciou seu regresso e o de seus companheiros e
aguardou a decisão do superior. Essa decisão foi muito diferente da qual Hill
esperara.
— Pousaremos no platô — disse Deringhouse em tom seguro. — O esconderijo
do Supercrânio deve ficar por lá. De forma alguma poderemos regressar à Terra
sem apresentar um resultado palpável.
Hill não conseguiu esconder a perplexidade.
— Quatro dos nossos destróieres acabam de ser destruídos. Enfrentaremos
um perigo gravíssimo.
— Será que devemos ter medo do perigo? — disse Deringhouse com um ligeiro
tom de censura na voz. — Nossa responsabilidade não é muito maior que todos os
perigos?
— Devíamos saber ao menos com que tipo de arma fomos atacados e como
foram destruídas nossas naves. Não se esqueça de que os campos protetores
haviam sido ativados.
Deringhouse acenou com a cabeça; parecia muito sério.
— Não me esqueci de nada disso. Não podemos descansar enquanto não
conhecermos a arma do inimigo. Por isso dei ordens para que os senhores se
preparassem para o pouso. Avisem a tripulação da nave. Outra coisa: depois de
pousar, sairemos da nave. Não levaremos armas; apenas o equipamento de
respiração.
— Sairemos sem armas? — exclamou o tenente Hill estupefato. — Quer se
defrontar com o Supercrânio sem armas na mão? Não compreendo!
— Pois é tão simples, tenente. Sabemos que o Supercrânio possui uma arma
desconhecida, face à qual até nossos campos energéticos revelaram-se inúteis.
Até é de supor que, se assim o desejar, está em condições de destruir a Good
Hope-VII. Ele não o fez e, mais do que isso, poupou cinco dos nossos
destróieres. Por quê?
O tenente Hill deu de ombros. Um ligeiro sorriso condescendente passou
pelos lábios do major Deringhouse.
— É porque quer mostrar que está disposto a entrar em contato conosco,
sob o signo de sua superioridade. Pois bem; vamos reconhecer formalmente essa
superioridade, indo desarmados ao lugar em que se encontra. O que temos a
perder sob esse aspecto? Nada, tenente Hill. Mas, conforme as circunstâncias,
teremos muito a ganhar.
O tenente não pôde deixar de reconhecer que havia uma certa dose de razão
na exposição de seu superior, mas esse fato não o tranqüilizava. Hill não era
nenhum covarde, mas não gostava de lutar contra um inimigo desconhecido e
invisível; se tivesse de fazê-lo, preferia ter uma arma na mão.
— Seja o que o senhor quiser — disse depois de algum tempo, quando viu
que, nos rostos desorientados de seus companheiros, também não havia qualquer
resposta. — Instruirei a tripulação e transmitirei aos homens tudo que devem
saber. Não seria preferível avisar a Terra do que pretendemos fazer?
O major Deringhouse sacudiu a cabeça muito depressa, talvez depressa
demais. Mas quem haveria de notar isso?
— Isso seria um erro, talvez um erro fatal. O Supercrânio deve se sentir
em segurança. Se captar nossa mensagem, conhecerá nossos planos e saberá que só
aparentemente nos submetemos às suas condições. Pode se retirar, tenente. Não
temos tempo a perder.
Quarenta homens seguiram as ordens de Deringhouse; não se sentiam muito à
vontade. Sabiam que o comandante era um homem audaz, mas cauteloso, que
costumava evitar qualquer risco desnecessário. Tudo indicava que desta vez
subestimava o perigo. O Supercrânio também era um telepata; adivinharia seus
pensamentos. Saberia que vinham sem armas, embora fossem inimigos. Isso
modificaria alguma coisa? Não modificaria nada.
A Good Hope-VII desceu lentamente sobre o platô, passou sobre ele a pouca
altura e acabou pousando ao lado de um pequeno rochedo, que se erguia em meio à
planura.
O major Deringhouse colocou todos os controles na posição de repouso,
olhou para as telas apagadas por alguns segundos, como que imerso em seus
próprios pensamentos, e ligou o intercomunicador. Qualquer pessoa na nave
entenderia o que pretendia dizer.
— Sairei da nave com dez pessoas e procurarei o Supercrânio. Os cinco
comandantes de destróieres e cinco dos oficiais do girino irão comigo. Não
levaremos armas. Na minha ausência, Smith assumirá o comando. Qualquer
comunicação radiofônica com a Terra está proibida, e eventuais chamados não
serão respondidos. Entendido?
Da sala de telegrafia saiu uma confirmação proferida em tom um tanto
perplexo.
Também as confirmações dos outros setores da nave não revelavam muito
entusiasmo. Ninguém gostou da perspectiva de se colocar à mercê de um inimigo
que, segundo se dizia, era cruel e insensível. E tudo isso não combinava com a
personalidade de Deringhouse.
Dali a dez minutos a escotilha de saída se abriu. Deringhouse foi o
primeiro a pisar a superfície do planeta vermelho; os dez oficiais seguiram-no.
Todos eles traziam os leves trajes protetores e as indispensáveis máscaras de
oxigênio. Nenhum deles portava uma arma.
— É ali — disse Deringhouse, apontando para a rocha. — A entrada para o
esconderijo do Supercrânio fica nessa rocha.
Sem aguardar uma resposta, colocou-se em movimento.
O tenente Hill ficou parado. Passou a mão pelos olhos.
— Como é que o senhor sabe que o esconderijo que procuramos há semanas
fica ali, comandante? Acho que o senhor nos deve uma explicação.
A pressão sobre seu cérebro se intensificou. Viu que também Berner pôs a
mão na cabeça e murmurou algumas palavras incompreensíveis. Não havia como
entendê-lo atrás da máscara de respiração.
Uma suspeita terrível se apossou dele. Mas antes que pudesse soltar um
grito de advertência, já era tarde.
Subitamente ficou bem quieto.
Caminhando a passos firmes, seguiu atrás de Deringhouse, que não se
preocupava com os homens que o acompanhavam. Fazia exatamente aquilo que o Supercrânio
mandava.
E o comando era dirigido a ele e aos dez oficiais.
2
Muita coisa acontecera na Terra durante as últimas semanas.
Perry Rhodan estava empenhando todos os meios de que dispunha para
promover a formação do governo mundial. Possuía poder suficiente para isso,
pois dispunha dos infinitos recursos dos arcônidas. Nos últimos meses os seres
extraterrenos que havia salvo na Lua tinham desistido de repetir constantemente
as suas exigências. Desejavam regressar ao seu mundo natal; Rhodan sabia disso.
O planeta Árcon distava trinta e quatro mil anos-luz da Terra.
A nave estelar Stardust-III poderia perfeitamente vencer esse trajeto.
Mas Rhodan tinha seus motivos para adiar o regresso de Crest e Thora. Não
queria que os arcônidas tivessem conhecimento da existência da Terra, que sem
dúvida pretenderiam incorporar ao seu império. Só quando a Terra fosse forte e
unida não haveria mais qualquer impecilho ao estabelecimento de um contato.
Esse contato inevitável não poderia ser adiado mais por muito tempo, a
não ser que quisesse chocar profundamente os dois arcônidas, aos quais devia
tanto. Era essa a causa de seus esforços tremendos para criar sem mais demora o
governo único da Terra.
Por isso uma extraordinária atividade diplomática se desenvolvia em
Terrânia. Após as primeiras conferências com os presidentes dos blocos de
potências terrestres, os plenipotenciários dos mesmos reuniram-se na capital da
Terceira Potência, o império fundado por Rhodan no lugar em que antes existia o
deserto de Gobi. Terrânia era a cidade mais moderna do mundo, contava um milhão
e meio de habitantes e dispunha de um amplo espaçoporto, além de um exército de
dez mil soldados e robôs de guerra de concepção arcônida e produção terrana.
As instalações principais estavam constantemente cobertas por uma abóbada
energética, que já havia resistido a ataques atômicos.
Perry Rhodan tomou um elevador o subiu ao último andar do ministério da
segurança, onde Reginald Bell, o ministro, estava realizando uma conferência
com os representantes das potências mundiais.
Entrou sem se fazer anunciar, cumprimentou Bell e as outras pessoas
presentes com um gesto cordial e sentou numa das cadeiras desocupadas. Não
pretendia intervir nos debates, apenas queria se manter informado sobre o
estado das negociações.
Reginald Bell, o ministro da segurança, retribuiu o gesto de Rhodan com
um ligeiro aceno de cabeça. Em seus olhos havia um brilho disfarçado.
Dirigiu-se aos participantes da conferência. O representante da Federação
Asiática, um chinês gordo, olhou de esguelha para seu vizinho, o representante
da OTAN, antes de soltar a próxima pergunta:
— Os preparativos para a eleição mundial já estão sendo tomados, senhor
Bell, mas, para falar com franqueza, devo dizer que duvido do êxito de seu
projeto ambicioso. E os programas de esclarecimento irradiados por suas
emissoras de televisão nada poderão alterar nesse fato. O nacionalismo está no
sangue de nossa geração.
— Quer dizer que o senhor acredita — Bell se inclinou para a frente e
lançou um olhar perscrutador sobre o chinês — que a Humanidade não está
interessada em se unir?
— Não foi isso que eu afirmei — procurou se defender o chinês. — Apenas
ressaltei as dificuldades que terão de ser vencidas. Tenho certeza de que meus
colegas poderão confirmar essas dificuldades.
O representante do Bloco Oriental confirmou com um aceno de cabeça.
— O nacionalismo, que vem sendo rejeitado há cinco decênios, está
profundamente enraizado em todos os homens e costuma se manifestar quando menos
se precisa dele. Devo confessar que também entre nós existe certa oposição
contra a idéia de um governo mundial. E os círculos oposicionistas simplesmente
ignorarão as eleições mundiais.
Bell olhou para o americano. O delegado, um tanto idoso, pigarreou e
disse:
— Antigamente, as potências do Ocidente costumavam se considerar as
representantes do mundo livre. Evidentemente preferimos não extirpar o
nacionalismo à força; queríamos que morresse por si. Também nos países de nosso
bloco surgiram vozes que rejeitam o governo mundial, por verem nele um tipo de
tutela.
Os outros delegados responderam com um gesto de aprovação, o que Perry
Rhodan, que se encontrava num lugar mais retirado, não deixou de notar com
certo interesse. Reginald Bell, porém, limitou-se a dar de ombros.
— Os chefes dos governos das três potências estão de acordo em que um
governo mundial representará a única possibilidade de enfrentar as dificuldades
que se aproximam. Além disso, todo e qualquer homem que viva nesta Terra
finalmente deve dar-se conta de que não somos os únicos seres inteligentes no
Universo. Há vários anos-luz daqui existem grupos de estrelas que compreendem
muitos sistemas solares. A relação das respectivas dimensões é mais ou menos a
mesma que existe entre uma de nossas grandes potências e uma família. Uma
família isolada não pode existir permanentemente; da mesma forma a Terra não
poderá continuar a existir se não se adaptar às exigências da era cósmica. O
primeiro conquistador que a descobrisse iria incorporá-la ao seu império.
Calou-se. Diante de seus olhos desfilaram mais uma vez os acontecimentos
dos últimos trinta dias. Enquanto a frota comandada pelo major Deringhouse
procurava capturar o Supercrânio, na Terra tomavam-se os preparativos para o
maior empreendimento eleitoral jamais levado a efeito. A Humanidade em conjunto
deveria decidir se queria governos nacionais, ou se preferia um governo
mundial. Há anos os satélites artificiais possibilitavam a recepção das
emissões de televisão em qualquer ponto da Terra. Com isso criavam-se condições
para uma atividade publicitária mais intensa e um esclarecimento mais amplo.
Dia e noite os filmes da Terceira Potência davam a volta pelo mundo. Os
tradutores simultâneos robotizados proporcionavam os esclarecimentos falados.
Esses filmes mostravam os ataques de inteligências extraterrenas contra
mundos inocentes e desprevenidos, e o fim desses mundos. Mais uma vez se
relatou o que acontecera tempos atrás no sistema do sol Vega, quando os
tópsidas, seres em forma de crocodilo, procuraram conquistar o mundo dos
ferrônios. Sem o auxílio de Perry Rhodan, os infelizes habitantes do sistema
Vega não teriam conseguido repelir o invasor.
A Terceira Potência procurou esclarecer pela forma mais crua o que poderia
acontecer aos homens se estes insistissem em seus pontos de vista estreitos.
Perry Rhodan em pessoa quase sempre realizava “viagens políticas”. Falava nas estações de televisão de todo o
mundo sobre a missão da Humanidade unida, que se estenderia muito além dos
limites do sistema solar. Lembrou que o contato com os arcônidas
— É claro que temos toda compreensão para seu ponto de vista, Rhodan.
Sabemos que não pode estabelecer contato com nosso império enquanto não tiver
unido a Terra. Acontece que não podemos esperar para sempre. Você tem
possibilidade de nos levar a Árcon?
— Não se trata apenas do contato com os arcônidas — explicou Rhodan
tranqüilamente. — Você sabe disso, e Thora também. Mas há um ponto que deve ser
ponderado. Sabemos perfeitamente que seu império já não é aquilo que foi há dez
mil anos. Está se esfacelando, sacudido pelas revoluções. Sistemas solares
inteiros rebelam-se contra os arcônidas e atravessam o universo, roubando e
saqueando tudo. Duas dessas raças já encontraram a Terra por coincidência.
Conseguimos repeli-las. Mas se os levarmos para Árcon, todo o império ficará
conhecendo a posição da Terra. Uma invasão em regra seria lançada contra nosso
mundo rico, mas indefeso. Não estaríamos em condições de nos defender de tantos
inimigos. É este o motivo por que ainda não pude cumprir minha promessa.
— Compreendo perfeitamente — disse Crest. — Acontece que há alguns anos
vivemos num exílio voluntário. Prestamos-lhe todo o auxílio possível, e sempre
o ajudamos com a nossa experiência. Não acha que toda dívida deve ser paga um
belo dia?
— Acho, sim — confirmou Rhodan. — Peço-lhe que acredite que estarei
pronto para pagar assim que o momento adequado tenha chegado. Até estou
disposto a pagar com juros.
— Juros? — perguntou Crest espantado.
— Isso mesmo, juros — confirmou Rhodan e voltou a sorrir. — Seu império
está em dificuldades. Quando chegar a hora de os levarmos a Árcon, não iremos
apenas com a Stardust-III, mas com uma grande frota de guerra. Coloco-me à sua
disposição juntamente com essa frota, e prometo-lhe que porei seu império em
ordem. Ao que parece, a habilidade diplomática dificilmente poderá salvar o
Grande Império. Portanto, só nos resta a ação violenta, ou ao menos uma
demonstração de violência. Sua raça é muito velha e decadente para esse tipo de
demonstração. Por isso os homens lhes prestarão auxílio. Acho que dessa forma
minha dívida estará paga e bem paga.
Crest olhou para Thora. A bela arcônida hesitou, mas acabou confirmando
com um movimento de cabeça.
— Está bem, Rhodan. Aceitamos sua palavra. Assim que o governo mundial
esteja formado...
— Há mais um detalhe — interrompeu-o Rhodan. — Não se esqueça do
Supercrânio. Dez mutantes monstruosos como este podem conquistar um sistema
solar. Um deles representa um sério perigo. Quando o mesmo tiver sido
liquidado...
— Também neste ponto você pode contar com nossa compreensão. — disse
Crest com um sorriso. — Reconheço que os mutantes são um fenômeno que ainda não
conhecemos, ao menos sob essa forma. Em nosso império existem raças pouco
dotadas, para as quais a telecinésia apenas representa um substituto para os
membros que faltam. Ninguém possui ambas as coisas. Mas com os habitantes da
Terra acontece precisamente isso. Vejo nesse fato uma ameaça à ordem existente.
— Seria preferível que visse nisso um auxílio ao seu império — constatou
Rhodan e levantou os olhos quando a porta se abriu e deixou entrar um homem que
envergava o uniforme da equipe de rádio. O recém-vindo segurava um bilhete e
ficou em posição de sentido quando o olhar de Rhodan caiu nele.
— Tenho uma mensagem para o coronel Freyt — anunciou e fez continência. —
Parece ser importante; por isso resolvi entregá-la pessoalmente.
— Passe para cá! — disse Freyt e pegou o bilhete. Enquanto lia, uma ruga
vertical formou-se em sua testa. Se a notícia não era de molde a causar
preocupações, ao menos devia dar o que pensar.
— O que houve? — perguntou Rhodan em tom impaciente. — Deringhouse deu
sinal de vida?
Freyt levantou os olhos.
— Sim, deu sinal de vida, embora não o tenha feito pela forma esperada. A
nave Z-45 enviou uma mensagem urgente. Girino VII retornou de Marte e passou à
pouca distância de Z-45 sem dar atenção às suas mensagens. O major Deringhouse
não reagiu sequer aos sinais luminosos convencionados. Passou pela Z-45 sem se
deter e tomou a rota da Terra. Há poucos segundos o girino VII passou pela Lua
e aproxima-se do território da Terceira Potência em órbita parabólica.
Rhodan estreitou os olhos.
— Procurou estabelecer contato? Freyt fez que sim.
— O major Deringhouse não responde. Ao que parece, não está em recepção.
— Isso contraria nossas instruções — disse Rhodan em tom pensativo.
Trocou um olhar ligeiro com Bell, cujo rosto revelava uma atitude de espreita.
— Recomendo toda vigilância. Bell, dê alarma à frota. Deve ficar de prontidão
para decolar.
Por um instante o coronel Freyt perdeu a tranqüilidade que
invariavelmente costumava exibir.
— Prontidão para decolar? Alarma? O que significa isso?
Com uma seriedade fora do comum Rhodan respondeu:
— Já ressaltei que corremos um perigo constante enquanto o Supercrânio
estiver em liberdade; ou melhor, enquanto estiver vivo. É um hipno; não se
esqueça. Pense nos mutantes que conseguiu dominar por tantos anos. Se tirarmos
as conclusões desse fato, o comportamento de Deringhouse parece bastante
suspeito, não acha?
Bell já se recuperara da surpresa. Correu para a porta. Enquanto abria a
mesma, voltou-se e disse:
— Rhodan, será que você acredita mesmo que o Supercrânio se apoderou de
Deringhouse?
— Não acredito, mas conto com a possibilidade. Só ficarei tranqüilo
depois que o girino tiver pousado e toda a tripulação tiver sido examinada por
John Marshall. Mas apresse-se; Deringhouse não deve demorar.
Crest estava ao lado de Thora, um tanto inseguro. Tornara-se pálido.
Também o Dr. Manoli havia esquecido os problemas sobre os quais discutira com
Haggard. Procurou descobrir uma resposta no rosto de Marshall.
Rhodan fez um sinal ao coronel Freyt:
— Providencie para que as mensagens de rádio dirigidas a Deringhouse
sejam expedidas ininterruptamente. Explique-lhe que, se não responder,
abriremos fogo contra ele. Também dê alarma para as unidades robotizadas.
Freyt hesitou.
— Acho que essa desconfiança é excessiva. Só espalhará o desassossego.
Afinal, o que é que Deringhouse poderia fazer, mesmo que estivesse sob o
domínio do Supercrânio?
— Quero que cumpra minhas ordens — disse Rhodan com uma aspereza a que
não estava habituado e lançou um olhar contrariado para seu representante. —
Tenho meus motivos para agir desta forma. Prefiro um alarma desnecessário a uma
Terra destruída. Vá andando!
Freyt se virou sem dizer uma palavra e saiu em companhia de seu
telegrafista.
— Manoli e Haggard — disse Rhodan, dirigindo-se aos dois médicos. —
Dirijam-se imediatamente ao hospital. Aguardem minhas instruções.
— Mas... — principiou Manoli, apenas para ser interrompido imediatamente.
— O que está havendo com todo mundo? Será que ninguém vê o perigo que nos
ameaça? O Supercrânio é o hipno mais potente que já houve. É possível que tenha
se apossado de Deringhouse, e o mandado para cá a fim de nos atacar. Não se
esqueçam de que Deringhouse não deu resposta às mensagens de rádio que lhe
foram dirigidas. Por quê? Ah, não têm nenhuma explicação. Logo, peço-lhes
que...
Os dois médicos retiraram-se sem dizer uma palavra. Os que ficaram para
trás fitaram-se numa atitude de insegurança. Rhodan nunca os vira assim. Crest
quase chegou a se assustar quando este lhe dirigiu a palavra:
— É preferível que se dirija à sua residência, Crest. Você também, Thora.
Acho que o espaço situado embaixo da abóbada energética é o lugar mais seguro.
— E você? — perguntou Crest.
— Cuidarei dos mutantes juntamente com Marshall. Se é que alguém pode dar
uma resposta às perguntas com que logo mais nos defrontaremos, esse alguém será
um mutante. Venha, Marshall. Tenho a leve impressão de que não demoraremos a
descobrir quanto vale nosso Exército de Mutantes.
Enquanto desciam pelo elevador, as sereias de alarma começaram a uivar no
espaçoporto.

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