domingo, 11 de novembro de 2012

P-025 - O Supercrânio - Kurt Mahr [parte 2]


Rhodan ainda não se deu por vencido. Sabia que não havia mais tempo para pegar o radiador de impulsos térmicos. Mas ainda não acreditava que também os subordinados de Raleigh fossem insensíveis à influência hipnótica.
Virou-se ligeiramente para o lado, fazendo com que uma das portas caísse no raio de ação do projetor mental e ordenou:
— Vocês vão me deixar em paz. Larguem as armas.
Os homens não fizeram nada disso. Foram entrando na sala, e Rhodan ouviu que os dois que se encontravam atrás dele também se colocaram em movimento.
Apenas por uma fração de um décimo de segundo a terrível surpresa causada pelo fato de que, naquele caso, seu projetor hipnótico não valia mais que o metal de que era feito, turvou seu raciocínio. Num instante percebeu que antes de tudo precisaria ganhar tempo, para que o capitão Farina pudesse interferir nos acontecimentos.
— Parem aí! — disse Rhodan em tom ameaçador. — Mais um passo, e transformo todo mundo em cinza.
Levantou o projetor mental mais alguns centímetros e entortou ostensivamente o dedo. Os homens pararam, e Rhodan percebeu sua chance. Teria de falar.
— Vocês pensam — disse com um sorriso zombeteiro — que basta que apertem seus gatilhos para me liquidar, não é? Não se esqueçam de que, mesmo que me acertem em cheio, ainda terei tempo para levá-los comigo.
Era uma conversa idiota, infantil; mas ajudava a ganhar tempo e roubava um pouco da segurança dos quatro guarda-costas. Um deles olhou para Raleigh.
Este não sabia até onde era verdadeira a ameaça.
— Está blefando — resmungou. — Esse negócio é uma arma hipnótica. Ninguém pode atirar com ela.
Mas não tinha muita certeza do que estava dizendo, e os outros não deixaram de percebê-lo.
Ficaram parados e olharam para Rhodan.
— Então? — disse Rhodan. — Querem experimentar? Prometo que terão uma morte rápida e indolor.
Subitamente um dos quatro atirou a cabeça para trás e gritou:
— Que nada! Esse sujeito está blefando!
Rhodan viu que seu dedo se entortava no gatilho. Triste, pensou que, de qualquer maneira, Farina chegaria tarde.

* * *

— É uma dica formidável, Mr. Adams — disse Bradley exultante. — Desde ontem os papéis de Hanson & Sons subiram doze pontos.
Aquela explosão de entusiasmo não deixou Adams muito impressionado. Sorriu com uma ligeira ironia e disse:
— Tenha um pouco de paciência. Subirão ainda mais. Pelo menos trinta pontos, segundo os meus cálculos.
Bradley sentou do outro lado da escrivaninha. Nos últimos dois dias comparecera pelo menos duas vezes por dia ao escritório de Adams. Este o recebia numa pequena sala, que não traía a real qualidade de seu ocupante.
Por várias vezes indagara de si para si o que o levava a gostar tanto de Elmer Bradley. Não encontrou resposta. Gostava daquele jovem, e era só.
Gostou tanto dele que no dia em que o conhecera emprestou-lhe trinta mil dólares para que pudesse recuperar o prejuízo. Bradley mostrara-se digno da confiança depositada nele, apresentando a Adams as ações que adquirira. O próprio Adams dera-me a dica relativa aos papéis de Hanson & Sons, revelando um ótimo faro. Desde anteontem houvera uma alta total de vinte e um pontos nas ações dessa empresa, o que significava que Bradley conseguira um lucro com aqueles trinta mil dólares.
— Tenho uma coisa para o senhor! — disse Bradley de sopetão, com a cara de quem acaba de comprar um presente de natal.
Adams ergueu as sobrancelhas.
— Ah, é? Deixe ver.
Bradley tirou do bolso um papel dobrado várias vezes, com aspecto de jornal. O primeiro exame revelou que se tratava de um prospecto particular da bolsa.
Adams submeteu o papel a um cuidadoso exame. À medida que lia, tornava-se cada vez mais nervoso.
— Isso é uma coisa nunca vista! — exclamou depois de algum tempo. — Esse homem deve ser um idiota.
Bradley parecia um tanto embaraçado.
— Eu pensei que isso o interessaria — disse. — Mas, para falar com franqueza, não entendo muito da coisa. Poderia me explicar?
Com um gesto animado da cabeça, Adams principiou:
— Um certo sujeito, um peruano, diz ter descoberto uma rica mina de ouro. A jazida aproveitável é calculada em mais de dez milhões de toneladas. Existem pareceres técnicos nesse sentido. O homem gastou todo o dinheiro de que dispunha para comprar o terreno e agora quer fundar uma sociedade por ações para explorar a mina. As leis financeiras do Peru são bastante elásticas. O homem divulgou sua idéia. Até o momento não encontrou nenhum sócio. Avalia a propriedade imobiliária, juntamente com a mina, em trinta por cento do capital da sociedade a ser criada, e convida qualquer um que tenha vontade para adquirir os restantes setenta por cento, e com isso a maioria absoluta da empresa.
Os olhos de Adams, geralmente inexpressivos, começaram a brilhar. Pouco lhe interessava que Bradley tivesse ou não tivesse entendido sua explicação. Saiu de trás de sua escrivaninha e correu mancando em direção à porta. Bradley esperou-o por mais de uma hora. Só depois disso convenceu-se de que naquele dia não o veria mais e foi embora.
Nesse meio tempo Adams desenvolveu uma atividade de vulcão em plena erupção. De seu verdadeiro escritório, transmitiu instruções aos bancos da General Cosmic, para que preparassem a importância que se tornava necessária para a compra das ações da empresa peruana. Segundo um cálculo superficial essa importância atingia cerca de um bilhão e meio de dólares, e um cálculo também superficial revelava que a mina de ouro proporcionaria à General Cosmic um lucro de pelo menos seis bilhões de dólares.
Meia hora depois de ter lido o prospecto, Adams manteve uma prolongada conferência telefônica com o senhor Ramirez, residente em Callao, proprietário do terreno em que seria instalada a mina. Ramirez estava mais que satisfeito por ter encontrado tão depressa um sócio para seu projeto, e prometeu enviar os pareceres dos geólogos ainda no mesmo dia.
Na noite daquele dia a General Cosmic Company — conhecida pelas iniciais G.C.C.
— realizou a maior compra singular jamais registrada pela história das finanças. Homer G. Adams adquiriu um bilhão quatrocentos e cinqüenta e um milhões setecentos e oitenta e oito mil dólares de ações de uma empresa recém-fundada, a Peruvian Gold.
Isso representava setenta e um por cento do capital.
Naquela noite, nem mesmo Homer G. Adams, geralmente tão calmo, conseguiu conciliar o sono.

* * *

— Pare! — gritou Raleigh, exaltado ao extremo. — Não atire! Precisamos dele vivo — explicou. — Como vêem, apenas blefou com essa arma. Prendam-no.
Rhodan aguardara em vão um instante em que a atenção dos guarda-costas se desviasse o suficiente para que pudesse pegar o radiador térmico sem correr maiores riscos. A qualquer momento, ao menos três daqueles homens se mantinham de olhos fitos nele.
Apesar disso a intervenção de Raleigh representou a salvação.
Tudo correu sem a menor dramaticidade. Em uma das duas portas que os guarda-costas de Raleigh haviam deixado abertas, surgiu a figura morena e corpulenta do capitão Farina.
Empunhava uma pistola automática do modelo mais recente.
Rhodan foi o primeiro que o viu. Um instante depois, os dois homens que se encontravam atrás dele também o descobriram.
— Nada de nervosismo — disse Farina em tom tranqüilo. — Acho que vieram até aqui porque acreditavam que, com a maior facilidade, conseguiriam capturar um prisioneiro. Acontece que as coisas estão mudadas. Qualquer movimento mais precipitado custará imediatamente a vida de quem o fizer.
Esperou que suas palavras produzissem o efeito desejado. Depois comandou em tom enérgico:
— Deixem cair as armas.
Hesitantes, os homens largaram as pistolas, que caíram ruidosamente ao chão.
Rhodan voltou a guardar o projetor mental no bolso e tirou a arma de impulsos térmicos. Em tom ligeiramente irônico disse:
— Foi sobre isto que lhes falei há pouco tempo.
Farina amarrou os homens, enquanto Rhodan os mantinha sob controle. Nenhum deles fez qualquer tentativa de escapar.
Farina viera em seu carro. Seguiu logo atrás do carro de Rhodan. Subiram as montanhas da Serra Nevada. Durante a viagem Rhodan transmitiu uma mensagem radiofônica para Terrânia.
Pela meia-noite os dois veículos chegaram ao lago Tahoe, que ficava num lugar solitário. Uma nave transportadora da Terceira Potência já os aguardava. Rhodan entregou os prisioneiros e enviou uma mensagem escrita a Reginald Bell, para que o resultado do interrogatório lhe fosse comunicado pelo caminho mais rápido.
À zero hora e quinze minutos, a pesada máquina decolou da margem do lago e desapareceu em meio à noite.

* * *

Na manhã do dia seguinte chegaram as primeiras informações sobre o interrogatório.
Raleigh não se lembrava de nada. Ignorava tudo a respeito das grades e dos arados automáticos que costumava vender. E nada sabia do homem que pretendera eliminar por meio de quatro guarda-costas.
Passou a fazer de tolos os homens que o interrogavam, e exigiu sua imediata libertação.
Mas Crest, que conduzia o interrogatório, era de outra opinião. Sabia que, a partir do dia em que iniciara a venda das máquinas agrícolas dirigidas por robôs, Raleigh se encontrara sob uma influência hipnótica incrivelmente forte e provavelmente ininterrupta, e que essa influência cessara desde o momento em que se tornara evidente que Raleigh havia perdido o jogo.
Crest ainda não sabia quem era o homem que exercera tamanha influência sobre Raleigh. Devia ser um hipno de potência extraordinária, ou então disporia de um instrumento mecânico de hipnose.
Crest estava convencido de que mesmo aquilo que Raleigh fizera em virtude da influência estranha a que estivera submetido ainda estava arquivado em sua memória, se bem que em certas áreas do ego que se tornavam inacessíveis à sua consciência. Portanto, Raleigh não mentia ao afirmar que nada sabia daquilo de que era acusado.
O arcônida tinha plena certeza de que conseguiria revelar também a memória sub ou inconsciente de Raleigh, com o que obteria informações das mais valiosas. É bem verdade que seria um trabalho de dias, talvez de semanas. E isso não servia a Rhodan na fase inicial do contragolpe.
Rhodan sabia perfeitamente que saíra incólume da primeira batalha, mas que havia perdido. Juntamente com Farina revistara na noite seguinte as instalações fabris da Farming Tools and Machines, mas não encontrara nada que lhe fornecesse qualquer indicação sobre a identidade do homem ou do poderio que se encontrava atrás da empresa.
Pelo contrário, tinha certeza quase absoluta de que toda essa história das grades e dos arados só foi encenada para atrair algum elemento importante da Terceira Potência para Sacramento e capturá-lo. Raleigh era o homem escolhido para pôr a armadilha a funcionar. Não havia dúvida de que, quando Rhodan entrou em contato com ele, usando o nome suposto Wilder, percebera logo que sua vítima havia chegado.
Por pouco, Rhodan conseguiu se livrar da armadilha.
Mas o desconhecido estava prevenido, e Rhodan não conseguiu compensar a desvantagem por meio de qualquer informação que conseguisse obter.
No momento só restava a esperança de que o tenente Richman conseguisse descobrir alguma coisa em Salt Lake City.
O fato de que, nos últimos dias, nada de novo acontecera em Terrânia não o tranqüilizava muito. Certamente não tinha sua origem na maior segurança das instalações de defesa, mas na circunstância de que o grande desconhecido devia estar ocupado em outra coisa.

* * *

No dia seguinte ao da grande compra, Elmer Bradley voltou a aparecer e restituiu o dinheiro que Adams lhe havia emprestado. Os papéis de Hanson & Sons deram um salto enorme — a segunda sensação de Wall Street naqueles dias — e em poucos dias Bradley tivera um lucro de quinze mil dólares em cima dos trinta mil emprestados por Adams.
Bradley pagou sua dívida em ações. Também conservou seus quinze mil dólares em ações. Adams procurou convencê-lo a ficar também com os trinta mil dólares que lhe havia emprestado.
— O senhor me ajudou a fazer um negócio formidável — disse com um sorriso. — Gostaria de demonstrar-lhe minha gratidão.
Mas não foi possível convencer Bradley. Disse que preferia aproveitar o dinheiro que acabara de ganhar para tirar férias e descansar da estafa dos últimos dias.
Despediu-se e nunca mais foi visto, ao menos por Homer G. Adams.

* * *

Durante todo o dia chegavam as notícias enviadas pelo tenente Richman. Não eram muito animadoras:
— Por enquanto nada de novo. Continuo na pista.
Mas ao menos provava que Richman continuava a cuidar do assunto.
No quarto dia não chegou qualquer notícia. Rhodan estava preocupado; já o capitão Farina aumentou sua dose de otimismo.
— Com Richman — observou — isso significa que encontrou alguma coisa.
Por isso não se preocuparam mais com ele.
Na noite do mesmo dia leram nos jornais que a polícia de Salt Lake City havia descoberto um cadáver nos depósitos situados nas proximidades da estação da Union Pacific. A notícia estava acompanhada de uma fotografia e a descrição do cadáver, tão minuciosa que não havia a menor dúvida: o cadáver era do tenente Richman.

* * *

Naquela mesma noite, Farina e Rhodan foram a Salt Lake City. Farina nunca estivera tão calado como naquelas horas. Percebia-se perfeitamente que se recriminava por sua leviandade.
Em Salt Lake City comunicaram-se com a polícia. O capitão Farina se identificou, enquanto Rhodan continuou a fazer o papel de Mr. Wilder, cujo interesse no assassínio do tenente Richman não foi revelado à polícia.
As indicações que receberam foram simplesmente miseráveis. O cadáver foi encontrado por dois policiais da ronda. Segundo o parecer do médico-legista, Richman morrera cerca de três horas antes da descoberta do cadáver. Não havia qualquer pista. Havia uma certa probabilidade de ter sido morto no lugar em que foi encontrado seu cadáver, não tendo sido arrastado para lá depois de ter sido assassinado.
O proprietário do depósito era um homem de conduta irrepreensível, que conseguiu provar dentro de poucos minutos que não era o assassino e nada tinha que ver com o fato.
Farina e Rhodan passaram a noite num hotel. Ao raiar do dia, quando surgiram os primeiros jornais, havia uma nova sensação para o mundo. Era uma sensação que pouco interessava a Farina, mas em compensação era de bastante interesse para Rhodan, que imediatamente interrompeu sua permanência em Salt Lake City e voltou para Nova Iorque.
Um único acontecimento enchia os jornais:
De um dia para outro a General Cosmic perdia um bilhão e meio.

3



Na verdade o prejuízo era muito maior.
Na verdade, a General Cosmic era um truste formado de grande número de empresas aparentemente autônomas. A entidade conhecida como a General Cosmic Company era apenas o centro administrativo de centenas de empreendimentos.
Esses fatos não deixaram de chegar ao conhecimento dos homens da Bolsa. Embora Adams tivesse agido com a maior cautela ao realizar a congregação, do total das cento e noventa e três empresas, sabia-se que vinte pertenciam à General Cosmic. Quem conhecesse a curiosidade do pessoal da Bolsa não deixaria de reconhecer que se tratava de um “índice de segredo” altamente favorável.
Quando o fato de que a General Cosmic acabara de ser lograda em um bilhão e meio de dólares naquela história da mina de ouro do Peru chegou ao conhecimento do público, as cotações das vinte empresas filiadas conhecidas desceram ao infinito.
Nervosos em virtude desses acontecimentos, também os acionistas das empresas cuja filiação à General Cosmic ainda não era conhecida procuraram se livrar quanto antes dos papéis que detinham, tornando ainda mais violenta a baixa dos valores da G.C.C. Felizmente a própria G.C.C. detinha ao menos noventa por cento das ações de cada empresa. Dessa forma o efeito foi doloroso, mas não perigoso.
Por fim a baixa foi detida porque na tarde daquele dia alguns especuladores muito espertos passaram a adquirir quantidades enormes de ações do grupo G.C.C. Acreditavam que tudo não passasse de um truque bolsístico bem sucedido, e viam naquilo uma chance de enriquecer.
Conforme haveria de se verificar depois, seus cálculos foram corretos, não porque tudo aquilo não passasse de um truque, mas porque a G.C.C. fora montada numa base suficientemente robusta para suportar o prejuízo.
Rhodan chegou a Nova Iorque pelas doze horas do dia da catástrofe. Saiu do aeroporto diretamente à procura de Homer G. Adams. Viu diante de si um homem que havia perdido toda a autoconfiança e não estava muito distante de um colapso nervoso total.
Rhodan perdeu uma hora preciosa para incutir nova coragem a Homer G. Adams. Seu argumento principal foi este:
— A General Cosmic dispõe de um capital de mais de duzentos bilhões de dólares. O negócio da mina de ouro e a baixa dos nossos papéis ocasionaram um prejuízo total de quatro bilhões. Isso representa menos de dois por cento! Não adianta desanimar por tão pouco. Temos coisa mais importante a fazer.
Só depois de algum tempo, Homer G. Adams mostrou-se interessado em saber que coisa mais importante seria essa. Rhodan pediu informações sobre a causa dessa especulação fracassada.
— Não faço esta pergunta porque desconfie de você — apressou-se em acrescentar — mas porque ultimamente certas forças vêm agindo com o objetivo evidente de arruinar a Terceira Potência. Espero que você me ajude a encontrar uma pista. Procure compreender, Adams!
Homer G. Adams forneceu um relato minucioso. Estava acostumado a andar constantemente com um micro gravador. Todas as palestras mantidas com Bradley ou com qualquer outra pessoa estavam registradas. Rhodan mostrou-se mais interessado nesses registros que no relato direto de Adams.
Foi fácil localizar a pista, mesmo para quem não dispusesse de conhecimentos psicanalíticos. Rhodan escutou toda a fita, e reproduziu diante de Adams a primeira conversa, que tiveram na lanchonete da esquina da Wall Street.
Adams ouviu atentamente.
— Está percebendo alguma coisa? — perguntou Rhodan depois de algum tempo.
Adams refletiu. Depois sacudiu a cabeça.
— Não, nada.
— Você costuma emprestar dinheiro sem mais nem menos? — prosseguiu Rhodan.
Adams protestou.
— Não, nunca. Por vários motivos.
Rhodan dispensou a exposição dos motivos.
— Por que emprestou trinta mil dólares a Bradley?
Adams deu de ombros.
— Meu Deus, achei-o muito simpático. Eu mesmo andei quebrando a cabeça sobre o motivo por que gostei tanto dele. Gostei, e pronto.
Rhodan acenou com a cabeça e apontou para o pequeno gravador.
— Não notou que Bradley nem quis saber o motivo por que você se dispôs a emprestar-lhe o dinheiro?
— Não — confessou Adams surpreso.
— Não sei o que dirão os psicólogos — observou Rhodan. — Mas na minha opinião seria de esperar que um jovem que recebe uma oferta de empréstimo de um homem que nunca viu indagasse sobre os motivos dessa oferta.
Adams concordou com essa opinião. Começou a se admirar de não se ter lembrado disso antes.
— Só há uma explicação razoável para o fato de Bradley não ter feito essa pergunta — prosseguiu Rhodan. — Sabia perfeitamente que você o achava tão simpático. Desde o início tinha certeza de que lhe emprestaria o dinheiro e cumpriria qualquer desejo dele.
Adams parecia cair das nuvens.
— Como é que ele poderia saber?
Rhodan se inclinou em direção a Adams.
— Na minha opinião, Bradley é um telepata muito potente. Além disso, deve ter a capacidade de emitir comandos hipnóticos com elevado grau de eficiência pós-hipnótica.
As suposições de Rhodan foram confirmadas em toda linha.
Verificou-se que o indivíduo do Peru, com o qual Adams teria mantido a palestra telefônica, não existia. Ainda mais: foi averiguado que nos últimos três meses nenhuma ligação para o Peru havia sido feita dos aparelhos da General Cosmic.
O telefonema só existira na imaginação de Homer G. Adams, e essa imaginação resultava de uma falsa representação sugerida por Bradley.
O prospecto que havia enganado Adams não passava de um impresso no qual se reconhecia, à primeira vista, uma contrafação primária, e que não teria induzido esse tipo de reação nem mesmo num principiante.
A prova final resultou de um exame psicológico. Verificou-se que, ainda agora, quarenta e oito horas depois do último contato com Elmer Bradley, a atividade cerebral de Homer G. Adams se desenvolvia com uma lentidão anormal, o que constituía o indício mais seguro de uma influência hipnótico-sugestiva precedente.
Não havia a menor dúvida: Adams fora atingido por um truque do misterioso desconhecido, que também era responsável pelos acidentes e roubos ocorridos na cidade de Terrânia e pela venda das máquinas agrícolas robotizadas de Mr. Raleigh.

* * *

Naquele instante, esse homem nem de longe estava tão satisfeito como seria de esperar.
Sem dúvida pudera registrar uma série de êxitos. Mas, ao comparar esses êxitos com aquilo que esperava alcançar através da ação empreendida, verificou que os mesmos não correspondiam sequer a cinqüenta por cento dos seus planos.
A partir do seu quartel-general, que ficava a trinta metros abaixo do solo e, juntamente com a casa que se erguia acima dele, representava uma fortaleza inexpugnável em meio a uma área civilizada, manteve uma palestra de TV com o jovem que se apresentara a Homer G. Adams com o nome de Elmer Bradley.
Quando o rosto do jovem surgiu na tela, não parecia irradiar uma dose maior de otimismo do que na oportunidade em que pela primeira vez se encontrara com Adams.
— Que besteira foi essa? — gritou Monterny. — O senhor recebeu instruções para causar um prejuízo de pelo menos dez bilhões de dólares à General Cosmic. E o que conseguiu? Por um cálculo otimista, cerca de quatro bilhões. O que é isso?
Elmer Bradley residia numa casa pequena e modesta, situada numa cidade também pequena e modesta do norte da Califórnia. As comunicações com Monterny, o Supercrânio, desenvolviam-se através de canais que estavam imunes a qualquer tipo de vigilância.
O próprio Monterny nunca surgia na tela. O tubo de imagem do aparelho de Bradley, quando este se achava ligado, produzia apenas um confuso tremeluzir branco em fundo negro.
— Não tenho certeza — disse Bradley em tom desanimado. — Os dados que o senhor me forneceu eram tão transparentes que, de início, nem acreditei que pudesse ser bem sucedido. Não era possível que um homem como Adams caísse naquilo.
— Como vê — respondeu Monterny em tom áspero — ele caiu.
Bradley respondeu com um aceno de cabeça; parecia cansado.
— É verdade. De qualquer maneira fiquei satisfeito em poder dar o fora.
Subitamente a voz saída do receptor tornou-se gelada.
— O senhor me estragou um golpe, Bradley! Um golpe que por pouco não me faz atingir o objetivo fixado nos meus planos. O senhor teve tempo de sobra para preparar o grande golpe contra a General Cosmic. A quantia de dez bilhões de dólares representava o limite inferior. Para um homem dotado das suas faculdades teria sido fácil atingir o dobro, o triplo e até mais. Se uma empresa do porte da G.C.C. perde mais de dez por cento de seu capital, isso geralmente significa o fim. Tudo isso estava ao seu alcance, Bradley! E o senhor deixou escapar a oportunidade. Por puro medo o senhor agiu precipitadamente. E com isso só conseguiu que nas minhas próximas investidas contra a General Cosmic terei de agir com uma cautela toda especial, se é que ainda me posso dar ao luxo de atacá-la. O senhor terá que se submeter a um novo treinamento, Bradley.
Bradley estremeceu.
Assim que Monterny descobrira nele um telepata de primeira ordem, Bradley teve de se submeter a um treinamento. Estava firmemente convencido de que nem no inferno havia coisa pior. O único objetivo desse treinamento consistiu em ativar a faculdade parapsicológica de Bradley até o limite de sua capacidade, e em familiarizá-lo com os objetivos do Supercrânio; e também com a idéia de que não haveria qualquer objeção contra os mesmos.
Bradley que, fora de seus dons extraordinários, era um homem absolutamente normal, inclusive no que dizia respeito às suas idéias, procurara por duas vezes se subtrair à influência de seu senhor.
Por duas vezes sentira o poder brutal do Supercrânio. Por duas vezes sentira a martelada espiritual que, de uma hora para outra, apagava sua vontade para que prevalecessem exclusivamente as ordens do Supercrânio. E essas ordens teriam de ser cumpridas imediatamente.
Bradley poderia imaginar perfeitamente que o segundo treinamento não seria mais agradável que o primeiro. Mas não formulou qualquer objeção.
— Amanhã passará alguém por aí para levá-lo — disse o Supercrânio. — Vá com essa pessoa e o senhor se transformará num outro homem.
Monterny deu por terminada a palestra. A confusão de linhas ofuscantes na tela do aparelho de Bradley se apagou.
De seu quartel-general, Monterny transmitiu instruções para que dali por diante as atividades de seu grupo fossem transferidas para a filial japonesa.
Esperava alcançar mais com as ações planejadas se elas partissem de um ponto mais próximo à base inimiga.

* * *

Nesse meio tempo, em Terrânia, as pesquisas psicológicas dos presos, realizadas por Crest, o arcônida, haviam atingido um estágio em que se esperava obter as primeiras informações importantes.
Raleigh passara os últimos dias num estado de transe. Não ofereceu a menor resistência quando Crest se esforçou para penetrar em seu inconsciente.
Crest sabia que as informações que Rayleigh pudesse fornecer se revestiriam da maior importância para Rhodan. Pediu a Thora que lhe prestasse auxílio na pesquisa decisiva.
Nos últimos dias, Thora, a arcônida, não tivera outra coisa a fazer senão se recuperar do choque que lhe rendera a aventura de Vênus.
Thora e Crest pertenciam à tripulação de um cruzador espacial de exploração, que saíra do planeta de Árcon, situado a mais de trinta mil anos-luz, com a incumbência de realizar pesquisas neste setor da Via Láctea. A nave, comandada por Thora, ficou presa na Lua, onde Perry Rhodan a descobriu durante sua primeira viagem espacial. Na época, Crest precisava de auxílio dos humanos. Estava doente, e nenhuma das pessoas que se encontravam a bordo da nave estava em condições de curá-lo. Rhodan providenciou o auxílio de que precisava e reconheceu as possibilidades imensas que lhe oferecia o cruzador arcônida, produto de uma tecnologia com um avanço de milênios sobre a da Terra.
Crest apoiou-o, primeiro por gratidão, depois em virtude de uma compreensão íntima. Thora se opôs; só estava interessada em retornar quanto antes ao seu mundo natal.
Mas o caminho de volta lhe foi barrado pelas potências terrenas, informadas sobre o pouso de uma raça estranha sobre a Lua. Foguetes terrenos destruíram o cruzador avariado. Além de Crest, que na época se encontrava na Terra, só restou Thora e uma pequena nave auxiliar esférica com sessenta metros de diâmetro.
Essa nave e os equipamentos que trazia a bordo conferiram a Rhodan uma supremacia técnica absoluta para o Estado recém-criado, a Terceira Potência. Rhodan impediu uma guerra que teria trazido o fim de toda e qualquer civilização terrestre, e acabou sendo reconhecido pelas grandes potências. Repeliu os ataques desfechados por inteligências extraterrenas, atraídas pelo sinal de emergência irradiado pelo cruzador arcônida, e alcançou uma decisão favorável aos agredidos numa guerra travada no sistema Vega, situado a vinte e sete anos-luz. Apresou, das mãos de uma raça que por sua vez a havia tirado de alguém, uma supernave arcônida, que foi transformada no núcleo de seu poderio. Numa viagem erradia de vários anos encontrou o mundo da vida eterna, um planeta artificial habitado por uma raça que levava uma vida espiritual coletiva e que percorria uma estranha órbita não-matemática em torno de uma série de estrelas fixas. Rhodan experimentou em seu próprio corpo o fenômeno inacreditável da renovação celular e alcançou a imortalidade, cabendo-lhe, todavia, visitar a cada sessenta e dois anos aquele mundo artificial, que chamara de Peregrino, para submeter-se a novo tratamento pelo fisiotron. Também Reginald Bell foi transformado num imortal.
Mas a inteligência coletiva espiritualizada negou o tratamento aos arcônidas. Seu tempo já havia passado; a vida eterna só seria concedida a raças jovens e ambiciosas.
Logo depois, Rhodan retornou à Terra. A situação da Terra, que se apresentava tão estável quando de sua partida, começara a balançar. O Bloco Oriental revoltara-se. Em Vênus instalara-se uma divisão espacial inimiga, cuja tarefa consistia em conquistar a base da Terceira Potência juntamente com o poderoso cérebro positrônico.
Rhodan atacou imediatamente. Dispersou a divisão para os quatro cantos, deixando vivo um número suficiente de pessoas, para que as mesmas, depois de terem aprendido a viver no mundo venusiano, acabassem formando uma colônia desligada de toda ambição política. Depois disso regressou à Terra e removeu um obstáculo à união final da Terra, que havia sido colocado pelo Bloco Oriental.
Durante todo esse tempo, Thora tivera de se consolar com a promessa de que Rhodan permitiria seu regresso a Árcon assim que a situação na Terra apresentasse um grau suficiente de segurança.
Thora esperara por vários anos da escala de tempo terrestre; depois resolveu agir por conta própria. Apoderou-se de um dos destróieres recém-construídos e foi a Vênus. Pretendia acionar a hiperestação situada naquele planeta para enviar um pedido de socorro a Árcon. Mas não sabia que o emissor de sinais codificados, sem o qual não se podia ingressar na área da base, ainda não havia sido instalado naquela nave. O destróier foi derrubado e Thora tornou-se prisioneira dos homens que ainda restavam da divisão espacial do Bloco Oriental.
Rhodan, que imediatamente saiu no encalço de Thora, não teve outro destino. Utilizou um destróier do mesmo tipo e também foi repelido e derrubado pelas instalações positrônicas da base.
Sem quaisquer recursos, já que o cérebro positrônico, alarmado por aquelas ocorrências surpreendentes, bloqueara todo o planeta, não permitindo que ninguém de fora o atingisse, Rhodan pôs-se a lutar pela libertação de Thora. Saiu vitorioso; mas por várias vezes teve de encarar a morte pela frente.
Levou Thora, uma Thora tímida e abatida, de volta para a Terra e obteve dela a promessa de que esperaria até que pudessem ir juntos a Árcon.
De certa forma Thora sentiu-se satisfeita porque Crest pedia seu auxílio. Sem que se desse conta disso, estava ansiosa por uma oportunidade de demonstrar a Perry Rhodan que não servia apenas para fazer bobagens e criar confusão. Quem sabe se essa possibilidade não surgiria durante o exame psicológico do prisioneiro.
Crest já a esperava. A sala em que Rayleigh estava deitado era ampla, mas naquele momento estava tão atulhada de instrumentos de todos os tipos que não se podia vê-la de lado a lado.
— O que pretende fazer? — perguntou Thora.
— A rastreação — respondeu Crest laconicamente.
Thora aspirou fortemente no ar.
— Não existe mais nenhuma outra possibilidade?
Crest sacudiu a cabeça.
— Nenhuma. Se é que ainda existe uma memória, esta se localiza em camadas tão profundas que só podemos alcançá-la pelo rastreamento.
Thora fez um gesto com a cabeça; parecia pensativa.
— Tomara que resista.
Crest aproximou o complicado aparelho de rastreamento, preso a um carrinho, colocando-o junto ao leito em que se encontrava o prisioneiro.
— Quer segurar os eletrodos? — perguntou Crest. — Eu observarei o indicador.
Sem dizer uma palavra, Thora pegou as duas peças em forma de espula, ligadas por um cabo ao aparelho propriamente dito, e prendeu-as a um suporte, fixado acima do crânio de Raleigh, de tal forma que as extremidades apontavam diretamente para a cabeça.
— Pronto? — perguntou Crest.
Thora verificou a posição das duas espulas.
— Pronto!
— Aí vem a corrente.
O pequeno aparelho emitiu um leve zumbido. Thora observou as espulas. Mantinham-se imóveis.
— Potência máxima! — disse Crest. Na tela surgiram linhas de luzes verdes, das quais ainda não se podia concluir nada. Crest se certificou de que o registro de imagem estava funcionando. Com base nas imagens gravadas, o cérebro positrônico estaria em condições de decifrar a memória de Raleigh.
As linhas que se entrelaçavam na tela estavam nítidas e bem estendidas, o que provava que os impulsos irradiados à potência máxima eram refletidos da maneira usual. Raleigh possuía um cérebro normal.
— Inverta a posição das duas espulas! — ordenou Crest depois de algum tempo.
Thora trocou as espulas. Um novo período de irradiação forneceria quadros que representariam o complemento dos anteriores.
O exame não durou mais de quinze minutos.
— Pronto! — disse Crest.
Uma chave foi desligada com um estalo. O zumbido cessou. Não se notava qualquer alteração no rosto de Raleigh. Sua respiração era tranqüila.
— Parece que resistiu — observou Thora.
Mas Crest já estava ocupado em outra coisa.
— Quer ajudar também na interpretação? — perguntou.
Thora sorriu.
— Será que está doente, Crest? Meu diagnóstico é o seguinte: um acesso de ativismo terrano. Acaba de fazer numa hora o trabalho que em Árcon não teria realizado num dia.
Crest retribuiu o sorriso.
— A atividade é uma coisa contagiante — respondeu. — Será que preferia ficar deitada embaixo de um observador fictício, contemplando os modelos de ondas?
Thora riu.
— Não. Prefiro ajudá-lo.

* * *

A General Cosmic recuperou-se. As cotações foram subindo, e os especuladores arrojados começaram a exultar.
Mas, a alguns milhares de quilômetros a oeste, um homem esforçava-se em segredo para preparar cuidadosamente o golpe mortal contra a Terceira Potência, e com isso também contra a General Cosmic.
Clifford Monterny, apelidado de Supercrânio, reuniu seus mutantes no quartel-general do Japão e informou-os sobre o que pretendia fazer.
— Desta vez não haverá qualquer falha — explicou. — Uma vez terminada nossa missão, Perry Rhodan e a Terceira Potência terão deixado de existir.

* * *

Rhodan gastou seu tempo examinando o caso de Homer G. Adams. Aceitou de bom grado o auxílio da Federação de Defesa da Terra, comandada por Allan. D. Mercant, e por intermédio dos agentes deste soube que a impressora que havia produzido o prospecto fictício da Bolsa ficava no Japão.
Rhodan pediu que lhe indicassem o local exato — era num subúrbio da cidade de Osaka — e examinou o caso. A impressora pertencia a um particular, e o proprietário não negou que, quinze dias antes, aparecera alguém e lhe pedira que imprimisse o prospecto.
A pista terminou ali mesmo.
Rhodan regressou a Terrânia. Esperava que nesse meio tempo Crest tivesse conseguido alguma informação de Raleigh.

* * *

O setor de interpretação foi devorando a massa de recordações armazenadas no cérebro de Raleigh, que nada tinham que ver com o caso de Sacramento.
Eram quadros da infância, da escola, do serviço militar, estudos na Escola Técnica da Califórnia.
O setor A rejeitou aquele material e depois de algum tempo chegou ao essencial.
Crest soltou um grito de surpresa, quando viu o primeiro quadro da série de informações. Era um homem de contornos desmanchados e rosto irreconhecível, que aparecera no escritório de Raleigh como que vindo do nada e lhe metera um tremendo susto.
Thora arregalou os olhos para a seqüência de quadros que Crest repetia ininterruptamente.
— Não é possível! — gemeu.
Crest acenou com a cabeça, ainda um pouco perplexo.
— É isso mesmo. A partir desse momento Raleigh ficou submetido a uma influência hipnótica. Ao que tudo indica a pressão psicológica podia ser reduzida ou intensificada por setores. Raleigh ainda se lembra, por exemplo, da ocorrência propriamente dita, mas o desconhecido fez com que o quadro desse homem lhe saísse da memória. Olhe só: nenhuma figura definida, nenhum rosto, nada!
Thora fitou Crest de lado.
— Até parece — conjeturou — que em sua opinião esse homem desfigurado e o desconhecido que dirige toda a ação não são uma e a mesma pessoa, não é?
Crest fez que sim.
— É isso mesmo. Tenho certeza de que uma pessoa que deve ter tamanho cuidado em nunca ser reconhecida e identificada jamais participa pessoalmente das ações que planeja. Envia seus mensageiros, e até estes são mascarados de tal forma que o parceiro involuntário não se lembrará dos mesmos. Nem mesmo o rastreador consegue trazer o quadro à luz do dia.
Fizeram outros quadros desfilarem diante de suas vistas: os primeiros fornecimentos vindos por estrada de ferro, o início da propaganda nos jornais e na televisão, as primeiras consultas, as primeiras vendas.
De permeio sempre surgiam os quadros desmanchados de homens não identificáveis, a contratação da guarda pessoal de quatro pessoas.
Finalmente o telefonema de Rhodan. A representação mental do que Raleigh pretendia fazer com Rhodan. A visita deste, a entrada em cena da guarda pessoal, a intervenção de Farina.
Finalmente, o blackout total. Nada além de algumas recordações desfiguradas de cenas transcorridas em Terrânia. E a escuridão total, correspondente ao tempo durante o qual Raleigh se encontrava em transe.
Com um suspiro, Crest desligou o projetor de imagens e fitou a mesa polida que tinha diante de si.
— Pois bem — disse Thora. — Será que aprendemos alguma coisa?
Crest não se apressou em responder.
— Aprendemos — disse em tom pensativo — que o desconhecido dificilmente liberta suas vítimas da influência hipnótica. A qualquer momento estão sujeitas à sua vigilância, às vezes mais intensa, às vezes menos intensa, exercida por via telepática.
— Isso nos adianta alguma coisa?
Crest estreitou os olhos.
— Certos cérebros sentem a influência telepática, mesmo que não sejam os que se acham submetidos à influência de outrem. A influência hipnótica também é um fenômeno de emissão e recepção que se processa pelo espaço de cinco dimensões. Verifica-se o surgimento de campos de dispersão, muito embora um bom telepata geralmente atue de forma semelhante a um emissor de raios direcionais bem congregados. Mas um bom telepata devia estar em condições de notar o fenômeno da influência hipnótica, desde que o auxiliar do desconhecido a capte a uma distância não muito grande.
Eram estes os resultados do exame psicológico, sobre os quais Perry Rhodan foi informado logo após sua chegada. Raleigh e seus homens foram dispensados. Já não representavam qualquer perigo para quem quer que fosse.
Quase no mesmo instante Rhodan recebeu um chamado de Salt Lake City, transmitido pelo emissor de raios direcionais do tipo convencional. O capitão Farina informou em palavras lacônicas que ainda não conseguira realizar qualquer progresso nas suas pesquisas em busca do assassino do tenente Richman. Rhodan recomendou que suspendesse as pesquisas.
— Encontramos a pista desse patife em outro lugar — avisou Rhodan, e Farina mostrou-se agradecido.
Uma vez de posse das informações que em parte foram coletadas pelo próprio Rhodan, em parte obtidas de Crest, pela primeira vez um mutante foi informado sobre a série de incidentes graves. Foi John Marshall, o telepata.
— Quero que me compreenda bem — concluiu a exposição. — No início não sabíamos se o desconhecido não havia obrigado algum dos nossos mutantes a se submeter às suas ordens. Só agora sabemos que não é assim. O inimigo dispõe de uma equipe própria. Enquanto não o sabíamos, não poderíamos assumir o risco de informar o Exército de Mutantes. Nós, que estamos de posse das informações, não somos acessíveis a qualquer tipo de leitura de pensamento, isso em virtude de nossa constituição mental específica. Se um dos membros do Exército de Mutantes tivesse sido incluído no círculo dos confidentes, seus pensamentos não demorariam a se tornar conhecidos dos seus colegas telepatas, o que significa que nossos planos ficariam ao alcance do inimigo. Não quero que se sinta diminuído por isso.
John Marshall, um australiano, olhou Rhodan por cima da mesa. Sorriu.
— Tenho certeza de que os outros mutantes ficarão tão satisfeitos como eu por saberem que acabou recorrendo a nós — respondeu.
Rhodan estreitou os olhos e inclinou a cabeça.
— Minha capacidade parapsicológica é muito fraca; não consigo ler seus pensamentos — disse um pouco desconfiado. — Bem que poderia dizer o que realmente pensa.
O sorriso de Marshall tornou-se mais intenso.
— Pois bem, eu lhe digo. Ninguém se sentirá lisonjeado ao saber que no início desconfiava do Exército de Mutantes. Mas se lhe explicarmos os motivos, acontecerá exatamente o que acabo de dizer: nos sentiremos satisfeitos por podermos cooperar na solução do problema.
Rhodan fez que sim. Depois expôs seu plano a John Marshall.
— Para vocês será mais fácil que para os dois teleportadores — concluiu. — São quatro, e poderão se revezar: você, Ishi Matsu, Betty e talvez Nomo Uatushin. Tako só poderá revezar com Ras Tshubai. Encareça bem o seguinte: a qualquer momento deverão estar de prontidão um telepata e um teleportador. O primeiro terá que localizar qualquer intruso, e o outro deverá agarrá-lo quanto antes. Não devemos nos esquecer de que as pessoas que penetram furtivamente em nosso território também são teleportadores. Tako e Ras devem andar bem armados. Diga-lhes que um projetor mental será completamente inútil.

* * *

O que mais os preocupava era o fato de que o próprio John Marshall não tinha a menor idéia de como o intruso faria notar sua presença. Era a primeira vez que se defrontava com uma tarefa como esta.
Marshall passou a ocupar um pequeno apartamento na periferia da cidade. Ficava no vigésimo primeiro pavimento de um edifício residencial e servia de posto de vigia aos quatro telepatas.
Dividiram o dia em quatro períodos de seis horas, durante os quais cada um ficaria de plantão. Cada um dos dois teleportadores ficaria de prontidão por doze horas. O telepata e o teleportador passavam o tempo jogando baralho ou discutindo. Assim mesmo sentiam muito tédio enquanto não acontecia nada.
Quem mais se empenhou em sua tarefa foi Betty Toufry. Betty era a telepata mais potente da Terceira Potência, e, além disso, possuía em elevado grau o dom da telecinésia. Acompanhara a longa viagem e a permanência no planeta Peregrino.
Naquele dia John Marshall veio substituí-la às seis da tarde. O rosto de Betty exprimia a tristeza e o desânimo.
— Ainda não houve nada, Marshall — disse.
Marshall sorriu.
— Não tenha medo, Betty. Um dia destes vai acontecer alguma coisa.
Betty confirmou com um aceno de cabeça.
— Vai prestar muita atenção? — perguntou em tom insistente.
— Muita! — prometeu Marshall.
Tako Kakuta estava deitado num sofá que havia na sala do pequeno apartamento e lia uma revista. Marshall não via seu rosto, mas ouviu que o japonês bocejava.
— Boa tarde, senhor teleportador em serviço — cumprimentou Marshall.
Kakuta largou a revista.
— Boa tarde. Quais são as novidades?
Marshall fez um gesto de desânimo.
— Nenhuma novidade. O que vamos fazer? Jogar uma partida de pôquer ou de xadrez, conversar, ler?
O japonês refletiu.
— Vamos jogar xadrez — disse depois de algum tempo — se não tiver nenhuma objeção.
Marshall sacudiu a cabeça.
— É indiferente de que forma mato o tempo.
Kakuta levantou-se e arrastou a mesa para junto de si. Marshall pôs cuidadosamente no chão a pasta com livros que trouxera consigo e abriu o pequeno armário em que estavam guardados o tabuleiro e as pedras de xadrez.
A coisa aconteceu quando a caixa com as pedras foi tirada das profundezas do armário e, ao se erguer, Marshall bateu com a parte traseira do crânio na quina do armário.
Alguma coisa estranha e meiga parecia agarrar seu cérebro. No início parecia hesitar, mas depois tornou-se mais forte e assumiu a forma de instruções concretas — instruções dirigidas a um desconhecido que naquele instante penetrava no território da Terceira Potência.
Marshall deixou cair a caixa com as pedras. O barulho fez com que o teleportador se pusesse de pé.
— Chegou — fungou Marshall. — No edifício da administração, entre o vigésimo e o trigésimo andar. Tem instruções de prender Crest e levá-lo consigo. Vamos logo! Dê o fora!
Por uma fração de segundo, Tako se manteve imóvel, com o rosto inexpressivo, como se não tivesse entendido o que Marshall acabava de dizer. Depois o ar começou a tremeluzir, e de um instante para outro o japonês desapareceu.
Marshall pôs-se em movimento. Com um simples movimento de mão estabeleceu a ligação de telecomunicação com o edifício da administração. O major Nyssen, que naquele instante substituía Bell, recebeu o aviso de alarma e providenciou para que o respectivo setor do edifício fosse evacuado imediatamente. Era de esperar que o teleportador inimigo não perceberia a operação, pois levaria algum tempo para se orientar. Para ser bem sucedido Tako Kakuta precisaria ter o campo livre.
Rhodan foi avisado de que pretendiam raptar Crest. A informação deixou-o bastante preocupado. Crest era a coisa mais preciosa que a Terceira Potência poderia perder. E o desconhecido parecia ter bastante certeza de que conseguiria atingir esse objetivo. Era necessário descobrir por que se sentia tão seguro.
Por ordem de Nyssen, John Marshall deixou seu posto e instalou-se no interior da área protegida pelo campo energético, diante do edifício da administração. Dali mantinha contato permanente pelo micro-telecomunicador com Nyssen e com o quartel-general, e poderia dar aviso imediato ao major quando surgisse alguma novidade.
As sensações que Marshall experimentava pouco se modificaram quando ele se aproximou do edifício da administração. Teve a impressão de que as mesmas não dependiam muito da distância. Não saberia descrever a sensação que tomava conta de seu espírito. Era um tipo de dor de cabeça, uma pressão constante que, todavia, ao contrário de uma dor de cabeça comum, vinha acompanhado de uma informação sobre sua origem. A pressão estava ligada a uma série de impulsos perfeitamente distinguíveis. Eram as instruções destinadas ao teleportador desconhecido.
Marshall assumiu seu posto bem na entrada do gigantesco edifício. Transmitiu a seguinte informação ao major Nyssen:
— Acabo de ocupar nova posição, major. Por enquanto não há nenhum acontecimento extraordinário. O homem move-se muito devagar: não está executando nenhum salto de teleportação.

* * *

O salto de Tako Kakuta terminou conforme fora planejado, no corredor principal do vigésimo pavimento. O corredor, profusamente iluminado, estava vazio. Tako usava sapatos leves e macios. Andou pelo corredor sem provocar o menor ruído. Em redor dele tudo era silêncio.
Tako não se deu ao trabalho de revistar as salas situadas à direita e à esquerda do corredor. Marshall o informara de que a tarefa do desconhecido consistia em prender e levar Crest. Não permaneceria numa sala em que evidentemente Crest não se encontrava.
Tako pegou o elevador antigravitacional e subiu ao vigésimo primeiro pavimento. Também aqui limitou-se a percorrer o corredor principal e a andar em volta de todo pavimento pelos corredores periféricos.
Nada, nenhum ruído, nenhuma sensação de perigo.
No vigésimo segundo e no vigésimo terceiro pavimentos o resultado foi o mesmo. Marshall indicara o setor situado entre o vigésimo e o trigésimo pavimentos como sendo a área de operações. Tako não sabia qual era o grau de precisão das indicações de Marshall. Talvez tivesse de subir até o quadragésimo pavimento para encontrar o inimigo.
Vigésimo quarto pavimento.
Vigésimo quinto pavimento.
Vigésimo sexto pavimento.
Nenhuma mensagem do quartel-general. Tudo indicava que o desconhecido ainda se movia sobre suas próprias pernas.
Vigésimo sétimo...
Era lá!
Pela primeira vez em toda vida, Tako sentiu a estranha tração; apesar disso sabia que tinha o inimigo bem diante de si. Agachou-se num dos nichos.
Enquanto esperava, procurou analisar a sensação que lhe ocupava o cérebro. O que seria? Tako sabia que não possuía qualquer dom telepático. Não era possível que a dor suave e persistente fosse produzida pelo intruso desconhecido. Mas este mesmo estava submetido a forte influência hipnótica. Teria sido essa influência que preveniu o japonês?
Tako ouviu um ruído. Comprimiu-se ainda mais profundamente no nicho e avançou a cabeça apenas o suficiente para enxergar o corredor.
Ali estava ele!
Tako viu-o de lado. Era um jovem. Da raça branca, constatou Tako. Examinava as inscrições junto às portas e parecia um tanto indeciso quanto ao caminho que devia tomar.
Não podia ver Tako. Este saiu do esconderijo a passos macios e silenciosos e apontou o radiador de impulsos térmicos antes de falar:
— Fique onde está! E ponha as mãos para o alto!
Tako viu que o susto sacudiu o corpo do desconhecido. Seus dedos abriram-se quando começou lentamente a erguer os braços. Tako aproximou-se lentamente. Quando se encontrava a cerca de cinco metros, sentiu o impacto tremendo da onda mental de choque que o cérebro do desconhecido irradiou quando se preparava para o salto que lhe traria a salvação.
Tako contara com essa possibilidade. Aquele desconhecido seria o primeiro teleportador que não conseguiria se subtrair à ameaça de uma arma por meio de um hipersalto.
Era o ramo de Tako! A fração de um segundo bastou-lhe para absorver o modelo de ondas cerebrais, irradiadas pelo desconhecido e, com isso, a energia que o mesmo ativava para realizar seu salto. As formas de energia, desenvolvidas no espaço de cinco dimensões, necessárias à teleportação representam valores vetoriais; além de uma intensidade, caracterizam-se por uma direção. Ao absorver o modelo e regular sua mente para o mesmo, Tako não saberia responder apenas à pergunta “a que distância?”, e também à indagação “para onde?
Saltou no mesmo instante em que o desconhecido o fez, sempre com o radiador térmico engatilhado na mão.
A dor cruciante da teleportação absorveu-o e, por um milésimo de segundo, fez com que toda luz se apagasse em torno dele.

* * *

— Saltou! — gritou Marshall muito exaltado. — O desconhecido foi embora! Desapareceu.
A reação de Nyssen foi imediata. Dois segundos depois que Marshall acabou de proferir essas palavras, estabeleceu contato com Tako Kakuta.
— Kakuta, está ouvindo? — gritou Nyssen. O sujeito desapareceu. Pode voltar. Suspendemos o alarma.
Nenhuma resposta.
— Kakuta! Está ouvindo? Nenhuma resposta.
Nyssen manteve uma ligeira palestra com Rhodan. Ficou sabendo que um teleportador tem a possibilidade de, através da absorção do modelo das ondas de choque, conhecer o objetivo de outro teleportador que salta nas suas proximidades. Rhodan não tinha a menor dúvida de que Tako aproveitara a oportunidade de seguir o teleportador que se pusera em fuga. O alarma não foi suspenso.

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