Rhodan ainda
não se deu por vencido. Sabia que não havia mais tempo para pegar o radiador de
impulsos térmicos. Mas ainda não acreditava que também os subordinados de
Raleigh fossem insensíveis à influência hipnótica.
Virou-se ligeiramente
para o lado, fazendo com que uma das portas caísse no raio de ação do projetor
mental e ordenou:
— Vocês vão
me deixar em paz. Larguem as armas.
Os homens
não fizeram nada disso. Foram entrando na sala, e Rhodan ouviu que os dois que
se encontravam atrás dele também se colocaram em movimento.
Apenas por
uma fração de um décimo de segundo a terrível surpresa causada pelo fato de
que, naquele caso, seu projetor hipnótico não valia mais que o metal de que era
feito, turvou seu raciocínio. Num instante percebeu que antes de tudo
precisaria ganhar tempo, para que o capitão Farina pudesse interferir nos
acontecimentos.
— Parem aí!
— disse Rhodan em tom ameaçador. — Mais um passo, e transformo todo mundo em
cinza.
Levantou o
projetor mental mais alguns centímetros e entortou ostensivamente o dedo. Os
homens pararam, e Rhodan percebeu sua chance. Teria de falar.
— Vocês
pensam — disse com um sorriso zombeteiro — que basta que apertem seus gatilhos
para me liquidar, não é? Não se esqueçam de que, mesmo que me acertem em cheio,
ainda terei tempo para levá-los comigo.
Era uma
conversa idiota, infantil; mas ajudava a ganhar tempo e roubava um pouco da
segurança dos quatro guarda-costas. Um deles olhou para Raleigh.
Este não
sabia até onde era verdadeira a ameaça.
— Está
blefando — resmungou. — Esse negócio é uma arma hipnótica. Ninguém pode atirar
com ela.
Mas não
tinha muita certeza do que estava dizendo, e os outros não deixaram de
percebê-lo.
Ficaram
parados e olharam para Rhodan.
— Então? —
disse Rhodan. — Querem experimentar? Prometo que terão uma morte rápida e
indolor.
Subitamente
um dos quatro atirou a cabeça para trás e gritou:
— Que nada!
Esse sujeito está blefando!
Rhodan viu
que seu dedo se entortava no gatilho. Triste, pensou que, de qualquer maneira,
Farina chegaria tarde.
* * *
— É uma dica
formidável, Mr. Adams — disse Bradley exultante. — Desde ontem os papéis de Hanson & Sons subiram doze pontos.
Aquela
explosão de entusiasmo não deixou Adams muito impressionado. Sorriu com uma
ligeira ironia e disse:
— Tenha um
pouco de paciência. Subirão ainda mais. Pelo menos trinta pontos, segundo os
meus cálculos.
Bradley
sentou do outro lado da escrivaninha. Nos últimos dois dias comparecera pelo
menos duas vezes por dia ao escritório de Adams. Este o recebia numa pequena
sala, que não traía a real qualidade de seu ocupante.
Por várias
vezes indagara de si para si o que o levava a gostar tanto de Elmer Bradley.
Não encontrou resposta. Gostava daquele jovem, e era só.
Gostou tanto
dele que no dia em que o conhecera emprestou-lhe trinta mil dólares para que
pudesse recuperar o prejuízo. Bradley mostrara-se digno da confiança depositada
nele, apresentando a Adams as ações que adquirira. O próprio Adams dera-me a
dica relativa aos papéis de Hanson & Sons, revelando um ótimo faro. Desde
anteontem houvera uma alta total de vinte e um pontos nas ações dessa empresa,
o que significava que Bradley conseguira um lucro com aqueles trinta mil
dólares.
— Tenho uma
coisa para o senhor! — disse Bradley de sopetão, com a cara de quem acaba de
comprar um presente de natal.
Adams ergueu
as sobrancelhas.
— Ah, é?
Deixe ver.
Bradley
tirou do bolso um papel dobrado várias vezes, com aspecto de jornal. O primeiro
exame revelou que se tratava de um prospecto particular da bolsa.
Adams
submeteu o papel a um cuidadoso exame. À medida que lia, tornava-se cada vez
mais nervoso.
— Isso é uma
coisa nunca vista! — exclamou depois de algum tempo. — Esse homem deve ser um
idiota.
Bradley
parecia um tanto embaraçado.
— Eu pensei
que isso o interessaria — disse. — Mas, para falar com franqueza, não entendo
muito da coisa. Poderia me explicar?
Com um gesto
animado da cabeça, Adams principiou:
— Um certo
sujeito, um peruano, diz ter descoberto uma rica mina de ouro. A jazida
aproveitável é calculada em mais de dez milhões de toneladas. Existem pareceres
técnicos nesse sentido. O homem gastou todo o dinheiro de que dispunha para
comprar o terreno e agora quer fundar uma sociedade por ações para explorar a
mina. As leis financeiras do Peru são bastante elásticas. O homem divulgou sua
idéia. Até o momento não encontrou nenhum sócio. Avalia a propriedade
imobiliária, juntamente com a mina, em trinta por cento do capital da sociedade
a ser criada, e convida qualquer um que tenha vontade para adquirir os
restantes setenta por cento, e com isso a maioria absoluta da empresa.
Os olhos de
Adams, geralmente inexpressivos, começaram a brilhar. Pouco lhe interessava que
Bradley tivesse ou não tivesse entendido sua explicação. Saiu de trás de sua
escrivaninha e correu mancando em direção à porta. Bradley esperou-o por mais
de uma hora. Só depois disso convenceu-se de que naquele dia não o veria mais e
foi embora.
Nesse meio
tempo Adams desenvolveu uma atividade de vulcão em plena erupção. De seu
verdadeiro escritório, transmitiu instruções aos bancos da General Cosmic, para
que preparassem a importância que se tornava necessária para a compra das ações
da empresa peruana. Segundo um cálculo superficial essa importância atingia
cerca de um bilhão e meio de dólares, e um cálculo também superficial revelava que
a mina de ouro proporcionaria à General Cosmic um lucro de pelo menos seis
bilhões de dólares.
Meia hora
depois de ter lido o prospecto, Adams manteve uma prolongada conferência
telefônica com o senhor Ramirez, residente em Callao, proprietário do terreno
em que seria instalada a mina. Ramirez estava mais que satisfeito por ter
encontrado tão depressa um sócio para seu projeto, e prometeu enviar os
pareceres dos geólogos ainda no mesmo dia.
Na noite
daquele dia a General Cosmic Company — conhecida pelas iniciais G.C.C.
— realizou a
maior compra singular jamais registrada pela história das finanças. Homer G.
Adams adquiriu um bilhão quatrocentos e cinqüenta e um milhões setecentos e
oitenta e oito mil dólares de ações de uma empresa recém-fundada, a Peruvian Gold.
Isso
representava setenta e um por cento do capital.
Naquela
noite, nem mesmo Homer G. Adams, geralmente tão calmo, conseguiu conciliar o
sono.
* * *
— Pare! —
gritou Raleigh, exaltado ao extremo. — Não atire! Precisamos dele vivo — explicou.
— Como vêem, apenas blefou com essa arma. Prendam-no.
Rhodan
aguardara em vão um instante em que a atenção dos guarda-costas se desviasse o
suficiente para que pudesse pegar o radiador térmico sem correr maiores riscos.
A qualquer momento, ao menos três daqueles homens se mantinham de olhos fitos
nele.
Apesar disso
a intervenção de Raleigh representou a salvação.
Tudo correu
sem a menor dramaticidade. Em uma das duas portas que os guarda-costas de
Raleigh haviam deixado abertas, surgiu a figura morena e corpulenta do capitão
Farina.
Empunhava
uma pistola automática do modelo mais recente.
Rhodan foi o
primeiro que o viu. Um instante depois, os dois homens que se encontravam atrás
dele também o descobriram.
— Nada de nervosismo
— disse Farina em tom tranqüilo. — Acho que vieram até aqui porque acreditavam
que, com a maior facilidade, conseguiriam capturar um prisioneiro. Acontece que
as coisas estão mudadas. Qualquer movimento mais precipitado custará
imediatamente a vida de quem o fizer.
Esperou que
suas palavras produzissem o efeito desejado. Depois comandou em tom enérgico:
— Deixem
cair as armas.
Hesitantes,
os homens largaram as pistolas, que caíram ruidosamente ao chão.
Rhodan
voltou a guardar o projetor mental no bolso e tirou a arma de impulsos
térmicos. Em tom ligeiramente irônico disse:
— Foi sobre
isto que lhes falei há pouco tempo.
Farina
amarrou os homens, enquanto Rhodan os mantinha sob controle. Nenhum deles fez
qualquer tentativa de escapar.
Farina viera
em seu carro. Seguiu logo atrás do carro de Rhodan. Subiram as montanhas da
Serra Nevada. Durante a viagem Rhodan transmitiu uma mensagem radiofônica para
Terrânia.
Pela
meia-noite os dois veículos chegaram ao lago Tahoe, que ficava num lugar
solitário. Uma nave transportadora da Terceira Potência já os aguardava. Rhodan
entregou os prisioneiros e enviou uma mensagem escrita a Reginald Bell, para
que o resultado do interrogatório lhe fosse comunicado pelo caminho mais
rápido.
À zero hora
e quinze minutos, a pesada máquina decolou da margem do lago e desapareceu em
meio à noite.
* * *
Na manhã do
dia seguinte chegaram as primeiras informações sobre o interrogatório.
Raleigh não
se lembrava de nada. Ignorava tudo a respeito das grades e dos arados
automáticos que costumava vender. E nada sabia do homem que pretendera eliminar
por meio de quatro guarda-costas.
Passou a
fazer de tolos os homens que o interrogavam, e exigiu sua imediata libertação.
Mas Crest,
que conduzia o interrogatório, era de outra opinião. Sabia que, a partir do dia
em que iniciara a venda das máquinas agrícolas dirigidas por robôs, Raleigh se
encontrara sob uma influência hipnótica incrivelmente forte e provavelmente
ininterrupta, e que essa influência cessara desde o momento em que se tornara
evidente que Raleigh havia perdido o jogo.
Crest ainda
não sabia quem era o homem que exercera tamanha influência sobre Raleigh. Devia
ser um hipno de potência extraordinária, ou então disporia de um instrumento
mecânico de hipnose.
Crest estava
convencido de que mesmo aquilo que Raleigh fizera em virtude da influência
estranha a que estivera submetido ainda estava arquivado em sua memória, se bem
que em certas áreas do ego que se tornavam inacessíveis à sua consciência.
Portanto, Raleigh não mentia ao afirmar que nada sabia daquilo de que era
acusado.
O arcônida
tinha plena certeza de que conseguiria revelar também a memória sub ou inconsciente de Raleigh, com o
que obteria informações das mais valiosas. É bem verdade que seria um trabalho
de dias, talvez de semanas. E isso não servia a Rhodan na fase inicial do
contragolpe.
Rhodan sabia
perfeitamente que saíra incólume da primeira batalha, mas que havia perdido.
Juntamente com Farina revistara na noite seguinte as instalações fabris da
Farming Tools and Machines, mas não encontrara nada que lhe fornecesse qualquer
indicação sobre a identidade do homem ou do poderio que se encontrava atrás da
empresa.
Pelo
contrário, tinha certeza quase absoluta de que toda essa história das grades e
dos arados só foi encenada para atrair algum elemento importante da Terceira
Potência para Sacramento e capturá-lo. Raleigh era o homem escolhido para pôr a
armadilha a funcionar. Não havia dúvida de que, quando Rhodan entrou em contato
com ele, usando o nome suposto Wilder, percebera logo que sua vítima havia
chegado.
Por pouco,
Rhodan conseguiu se livrar da armadilha.
Mas o
desconhecido estava prevenido, e Rhodan não conseguiu compensar a desvantagem
por meio de qualquer informação que conseguisse obter.
No momento
só restava a esperança de que o tenente Richman conseguisse descobrir alguma
coisa em Salt Lake City.
O fato de
que, nos últimos dias, nada de novo acontecera em Terrânia não o tranqüilizava
muito. Certamente não tinha sua origem na maior segurança das instalações de
defesa, mas na circunstância de que o grande desconhecido devia estar ocupado
em outra coisa.
* * *
No dia
seguinte ao da grande compra, Elmer Bradley voltou a aparecer e restituiu o
dinheiro que Adams lhe havia emprestado. Os papéis de Hanson & Sons deram
um salto enorme — a segunda sensação de Wall Street naqueles dias — e em poucos
dias Bradley tivera um lucro de quinze mil dólares em cima dos trinta mil
emprestados por Adams.
Bradley
pagou sua dívida em ações. Também conservou seus quinze mil dólares em ações.
Adams procurou convencê-lo a ficar também com os trinta mil dólares que lhe
havia emprestado.
— O senhor
me ajudou a fazer um negócio formidável — disse com um sorriso. — Gostaria de
demonstrar-lhe minha gratidão.
Mas não foi
possível convencer Bradley. Disse que preferia aproveitar o dinheiro que
acabara de ganhar para tirar férias e descansar da estafa dos últimos dias.
Despediu-se
e nunca mais foi visto, ao menos por Homer G. Adams.
* * *
Durante todo
o dia chegavam as notícias enviadas pelo tenente Richman. Não eram muito
animadoras:
— Por
enquanto nada de novo. Continuo na pista.
Mas ao menos
provava que Richman continuava a cuidar do assunto.
No quarto
dia não chegou qualquer notícia. Rhodan estava preocupado; já o capitão Farina
aumentou sua dose de otimismo.
— Com
Richman — observou — isso significa que encontrou alguma coisa.
Por isso não
se preocuparam mais com ele.
Na noite do
mesmo dia leram nos jornais que a polícia de Salt Lake City havia descoberto um
cadáver nos depósitos situados nas proximidades da estação da Union Pacific. A notícia estava
acompanhada de uma fotografia e a descrição do cadáver, tão minuciosa que não
havia a menor dúvida: o cadáver era do tenente Richman.
* * *
Naquela
mesma noite, Farina e Rhodan foram a Salt Lake City. Farina nunca estivera tão
calado como naquelas horas. Percebia-se perfeitamente que se recriminava por
sua leviandade.
Em Salt Lake
City comunicaram-se com a polícia. O capitão Farina se identificou, enquanto
Rhodan continuou a fazer o papel de Mr. Wilder, cujo interesse no assassínio do
tenente Richman não foi revelado à polícia.
As
indicações que receberam foram simplesmente miseráveis. O cadáver foi
encontrado por dois policiais da ronda. Segundo o parecer do médico-legista,
Richman morrera cerca de três horas antes da descoberta do cadáver. Não havia
qualquer pista. Havia uma certa probabilidade de ter sido morto no lugar em que
foi encontrado seu cadáver, não tendo sido arrastado para lá depois de ter sido
assassinado.
O
proprietário do depósito era um homem de conduta irrepreensível, que conseguiu
provar dentro de poucos minutos que não era o assassino e nada tinha que ver
com o fato.
Farina e
Rhodan passaram a noite num hotel. Ao raiar do dia, quando surgiram os
primeiros jornais, havia uma nova sensação para o mundo. Era uma sensação que
pouco interessava a Farina, mas em compensação era de bastante interesse para
Rhodan, que imediatamente interrompeu sua permanência em Salt Lake City e
voltou para Nova Iorque.
Um único
acontecimento enchia os jornais:
De um dia
para outro a General Cosmic perdia um
bilhão e meio.
3
Na verdade o
prejuízo era muito maior.
Na verdade,
a General Cosmic era um truste formado de grande número de empresas
aparentemente autônomas. A entidade conhecida como a General Cosmic Company era
apenas o centro administrativo de centenas de empreendimentos.
Esses fatos
não deixaram de chegar ao conhecimento dos homens da Bolsa. Embora Adams
tivesse agido com a maior cautela ao realizar a congregação, do total das cento
e noventa e três empresas, sabia-se que vinte pertenciam à General Cosmic. Quem
conhecesse a curiosidade do pessoal da Bolsa não deixaria de reconhecer que se
tratava de um “índice de segredo”
altamente favorável.
Quando o
fato de que a General Cosmic acabara de ser lograda em um bilhão e meio de
dólares naquela história da mina de ouro do Peru chegou ao conhecimento do
público, as cotações das vinte empresas filiadas conhecidas desceram ao
infinito.
Nervosos em
virtude desses acontecimentos, também os acionistas das empresas cuja filiação
à General Cosmic ainda não era conhecida procuraram se livrar quanto antes dos
papéis que detinham, tornando ainda mais violenta a baixa dos valores da G.C.C.
Felizmente a própria G.C.C. detinha ao menos noventa por cento das ações de
cada empresa. Dessa forma o efeito foi doloroso, mas não perigoso.
Por fim a
baixa foi detida porque na tarde daquele dia alguns especuladores muito
espertos passaram a adquirir quantidades enormes de ações do grupo G.C.C.
Acreditavam que tudo não passasse de um truque bolsístico bem sucedido, e viam
naquilo uma chance de enriquecer.
Conforme
haveria de se verificar depois, seus cálculos foram corretos, não porque tudo
aquilo não passasse de um truque, mas porque a G.C.C. fora montada numa base
suficientemente robusta para suportar o prejuízo.
Rhodan
chegou a Nova Iorque pelas doze horas do dia da catástrofe. Saiu do aeroporto
diretamente à procura de Homer G. Adams. Viu diante de si um homem que havia
perdido toda a autoconfiança e não estava muito distante de um colapso nervoso
total.
Rhodan
perdeu uma hora preciosa para incutir nova coragem a Homer G. Adams. Seu
argumento principal foi este:
— A General
Cosmic dispõe de um capital de mais de duzentos bilhões de dólares. O negócio
da mina de ouro e a baixa dos nossos papéis ocasionaram um prejuízo total de
quatro bilhões. Isso representa menos de dois por cento! Não adianta desanimar
por tão pouco. Temos coisa mais importante a fazer.
Só depois de
algum tempo, Homer G. Adams mostrou-se interessado em saber que coisa mais
importante seria essa. Rhodan pediu informações sobre a causa dessa especulação
fracassada.
— Não faço
esta pergunta porque desconfie de você — apressou-se em acrescentar — mas
porque ultimamente certas forças vêm agindo com o objetivo evidente de arruinar
a Terceira Potência. Espero que você me ajude a encontrar uma pista. Procure
compreender, Adams!
Homer G.
Adams forneceu um relato minucioso. Estava acostumado a andar constantemente
com um micro gravador. Todas as palestras mantidas com Bradley ou com qualquer
outra pessoa estavam registradas. Rhodan mostrou-se mais interessado nesses
registros que no relato direto de Adams.
Foi fácil
localizar a pista, mesmo para quem não dispusesse de conhecimentos
psicanalíticos. Rhodan escutou toda a fita, e reproduziu diante de Adams a
primeira conversa, que tiveram na lanchonete da esquina da Wall Street.
Adams ouviu
atentamente.
— Está
percebendo alguma coisa? — perguntou Rhodan depois de algum tempo.
Adams
refletiu. Depois sacudiu a cabeça.
— Não, nada.
— Você
costuma emprestar dinheiro sem mais nem menos? — prosseguiu Rhodan.
Adams
protestou.
— Não,
nunca. Por vários motivos.
Rhodan
dispensou a exposição dos motivos.
— Por que
emprestou trinta mil dólares a Bradley?
Adams deu de
ombros.
— Meu Deus,
achei-o muito simpático. Eu mesmo andei quebrando a cabeça sobre o motivo por
que gostei tanto dele. Gostei, e pronto.
Rhodan
acenou com a cabeça e apontou para o pequeno gravador.
— Não notou
que Bradley nem quis saber o motivo por que você se dispôs a emprestar-lhe o
dinheiro?
— Não —
confessou Adams surpreso.
— Não sei o
que dirão os psicólogos — observou Rhodan. — Mas na minha opinião seria de
esperar que um jovem que recebe uma oferta de empréstimo de um homem que nunca
viu indagasse sobre os motivos dessa oferta.
Adams
concordou com essa opinião. Começou a se admirar de não se ter lembrado disso
antes.
— Só há uma
explicação razoável para o fato de Bradley não ter feito essa pergunta —
prosseguiu Rhodan. — Sabia perfeitamente que você o achava tão simpático. Desde
o início tinha certeza de que lhe emprestaria o dinheiro e cumpriria qualquer
desejo dele.
Adams
parecia cair das nuvens.
— Como é que
ele poderia saber?
Rhodan se inclinou
em direção a Adams.
— Na minha
opinião, Bradley é um telepata muito potente. Além disso, deve ter a capacidade
de emitir comandos hipnóticos com elevado grau de eficiência pós-hipnótica.
As
suposições de Rhodan foram confirmadas em toda linha.
Verificou-se
que o indivíduo do Peru, com o qual Adams teria mantido a palestra telefônica,
não existia. Ainda mais: foi averiguado que nos últimos três meses nenhuma
ligação para o Peru havia sido feita dos aparelhos da General Cosmic.
O telefonema
só existira na imaginação de Homer G. Adams, e essa imaginação resultava de uma
falsa representação sugerida por Bradley.
O prospecto
que havia enganado Adams não passava de um impresso no qual se reconhecia, à
primeira vista, uma contrafação primária, e que não teria induzido esse tipo de
reação nem mesmo num principiante.
A prova final
resultou de um exame psicológico. Verificou-se que, ainda agora, quarenta e
oito horas depois do último contato com Elmer Bradley, a atividade cerebral de
Homer G. Adams se desenvolvia com uma lentidão anormal, o que constituía o
indício mais seguro de uma influência hipnótico-sugestiva precedente.
Não havia a
menor dúvida: Adams fora atingido por um truque do misterioso desconhecido, que
também era responsável pelos acidentes e roubos ocorridos na cidade de Terrânia
e pela venda das máquinas agrícolas robotizadas de Mr. Raleigh.
* * *
Naquele
instante, esse homem nem de longe estava tão satisfeito como seria de esperar.
Sem dúvida
pudera registrar uma série de êxitos. Mas, ao comparar esses êxitos com aquilo
que esperava alcançar através da ação empreendida, verificou que os mesmos não
correspondiam sequer a cinqüenta por cento dos seus planos.
A partir do
seu quartel-general, que ficava a trinta metros abaixo do solo e, juntamente
com a casa que se erguia acima dele, representava uma fortaleza inexpugnável em
meio a uma área civilizada, manteve uma palestra de TV com o jovem que se
apresentara a Homer G. Adams com o nome de Elmer Bradley.
Quando o
rosto do jovem surgiu na tela, não parecia irradiar uma dose maior de otimismo
do que na oportunidade em que pela primeira vez se encontrara com Adams.
— Que
besteira foi essa? — gritou Monterny. — O senhor recebeu instruções para causar
um prejuízo de pelo menos dez bilhões de dólares à General Cosmic. E o que
conseguiu? Por um cálculo otimista, cerca de quatro bilhões. O que é isso?
Elmer
Bradley residia numa casa pequena e modesta, situada numa cidade também pequena
e modesta do norte da Califórnia. As comunicações com Monterny, o Supercrânio,
desenvolviam-se através de canais que estavam imunes a qualquer tipo de
vigilância.
O próprio
Monterny nunca surgia na tela. O tubo de imagem do aparelho de Bradley, quando
este se achava ligado, produzia apenas um confuso tremeluzir branco em fundo
negro.
— Não tenho
certeza — disse Bradley em tom desanimado. — Os dados que o senhor me forneceu
eram tão transparentes que, de início, nem acreditei que pudesse ser bem
sucedido. Não era possível que um homem como Adams caísse naquilo.
— Como vê —
respondeu Monterny em tom áspero — ele caiu.
Bradley
respondeu com um aceno de cabeça; parecia cansado.
— É verdade.
De qualquer maneira fiquei satisfeito em poder dar o fora.
Subitamente
a voz saída do receptor tornou-se gelada.
— O senhor
me estragou um golpe, Bradley! Um golpe que por pouco não me faz atingir o
objetivo fixado nos meus planos. O senhor teve tempo de sobra para preparar o
grande golpe contra a General Cosmic. A quantia de dez bilhões de dólares
representava o limite inferior. Para um homem dotado das suas faculdades teria
sido fácil atingir o dobro, o triplo e até mais. Se uma empresa do porte da
G.C.C. perde mais de dez por cento de seu capital, isso geralmente significa o
fim. Tudo isso estava ao seu alcance, Bradley! E o senhor deixou escapar a
oportunidade. Por puro medo o senhor agiu precipitadamente. E com isso só
conseguiu que nas minhas próximas investidas contra a General Cosmic terei de
agir com uma cautela toda especial, se é que ainda me posso dar ao luxo de
atacá-la. O senhor terá que se submeter a um novo treinamento, Bradley.
Bradley
estremeceu.
Assim que
Monterny descobrira nele um telepata de primeira ordem, Bradley teve de se
submeter a um treinamento. Estava firmemente convencido de que nem no inferno
havia coisa pior. O único objetivo desse treinamento consistiu em ativar a
faculdade parapsicológica de Bradley até o limite de sua capacidade, e em
familiarizá-lo com os objetivos do Supercrânio; e também com a idéia de que não
haveria qualquer objeção contra os mesmos.
Bradley que,
fora de seus dons extraordinários, era um homem absolutamente normal, inclusive
no que dizia respeito às suas idéias, procurara por duas vezes se subtrair à
influência de seu senhor.
Por duas
vezes sentira o poder brutal do Supercrânio. Por duas vezes sentira a martelada
espiritual que, de uma hora para outra, apagava sua vontade para que
prevalecessem exclusivamente as ordens do Supercrânio. E essas ordens teriam de
ser cumpridas imediatamente.
Bradley
poderia imaginar perfeitamente que o segundo treinamento não seria mais
agradável que o primeiro. Mas não formulou qualquer objeção.
— Amanhã
passará alguém por aí para levá-lo — disse o Supercrânio. — Vá com essa pessoa
e o senhor se transformará num outro homem.
Monterny deu
por terminada a palestra. A confusão de linhas ofuscantes na tela do aparelho
de Bradley se apagou.
De seu
quartel-general, Monterny transmitiu instruções para que dali por diante as
atividades de seu grupo fossem transferidas para a filial japonesa.
Esperava
alcançar mais com as ações planejadas se elas partissem de um ponto mais
próximo à base inimiga.
* * *
Nesse meio
tempo, em Terrânia, as pesquisas psicológicas dos presos, realizadas por Crest,
o arcônida, haviam atingido um estágio em que se esperava obter as primeiras
informações importantes.
Raleigh
passara os últimos dias num estado de transe. Não ofereceu a menor resistência
quando Crest se esforçou para penetrar em seu inconsciente.
Crest sabia
que as informações que Rayleigh pudesse fornecer se revestiriam da maior
importância para Rhodan. Pediu a Thora que lhe prestasse auxílio na pesquisa decisiva.
Nos últimos
dias, Thora, a arcônida, não tivera outra coisa a fazer senão se recuperar do
choque que lhe rendera a aventura de Vênus.
Thora e
Crest pertenciam à tripulação de um cruzador espacial de exploração, que saíra
do planeta de Árcon, situado a mais de trinta mil anos-luz, com a incumbência
de realizar pesquisas neste setor da Via Láctea. A nave, comandada por Thora,
ficou presa na Lua, onde Perry Rhodan a descobriu durante sua primeira viagem
espacial. Na época, Crest precisava de auxílio dos humanos. Estava doente, e
nenhuma das pessoas que se encontravam a bordo da nave estava em condições de
curá-lo. Rhodan providenciou o auxílio de que precisava e reconheceu as
possibilidades imensas que lhe oferecia o cruzador arcônida, produto de uma tecnologia
com um avanço de milênios sobre a da Terra.
Crest
apoiou-o, primeiro por gratidão, depois em virtude de uma compreensão íntima.
Thora se opôs; só estava interessada em retornar quanto antes ao seu mundo
natal.
Mas o
caminho de volta lhe foi barrado pelas potências terrenas, informadas sobre o
pouso de uma raça estranha sobre a Lua. Foguetes terrenos destruíram o cruzador
avariado. Além de Crest, que na época se encontrava na Terra, só restou Thora e
uma pequena nave auxiliar esférica com sessenta metros de diâmetro.
Essa nave e
os equipamentos que trazia a bordo conferiram a Rhodan uma supremacia técnica
absoluta para o Estado recém-criado, a Terceira Potência. Rhodan impediu uma
guerra que teria trazido o fim de toda e qualquer civilização terrestre, e
acabou sendo reconhecido pelas grandes potências. Repeliu os ataques
desfechados por inteligências extraterrenas, atraídas pelo sinal de emergência
irradiado pelo cruzador arcônida, e alcançou uma decisão favorável aos
agredidos numa guerra travada no sistema Vega, situado a vinte e sete anos-luz.
Apresou, das mãos de uma raça que por sua vez a havia tirado de alguém, uma
supernave arcônida, que foi transformada no núcleo de seu poderio. Numa viagem
erradia de vários anos encontrou o mundo da vida eterna, um planeta artificial
habitado por uma raça que levava uma vida espiritual coletiva e que percorria
uma estranha órbita não-matemática em torno de uma série de estrelas fixas.
Rhodan experimentou em seu próprio corpo o fenômeno inacreditável da renovação
celular e alcançou a imortalidade, cabendo-lhe, todavia, visitar a cada
sessenta e dois anos aquele mundo artificial, que chamara de Peregrino, para
submeter-se a novo tratamento pelo fisiotron. Também Reginald Bell foi
transformado num imortal.
Mas a inteligência
coletiva espiritualizada negou o tratamento aos arcônidas. Seu tempo já havia
passado; a vida eterna só seria concedida a raças jovens e ambiciosas.
Logo depois,
Rhodan retornou à Terra. A situação da Terra, que se apresentava tão estável
quando de sua partida, começara a balançar. O Bloco Oriental revoltara-se. Em
Vênus instalara-se uma divisão espacial inimiga, cuja tarefa consistia em
conquistar a base da Terceira Potência juntamente com o poderoso cérebro
positrônico.
Rhodan
atacou imediatamente. Dispersou a divisão para os quatro cantos, deixando vivo
um número suficiente de pessoas, para que as mesmas, depois de terem aprendido
a viver no mundo venusiano, acabassem formando uma colônia desligada de toda
ambição política. Depois disso regressou à Terra e removeu um obstáculo à união
final da Terra, que havia sido colocado pelo Bloco Oriental.
Durante todo
esse tempo, Thora tivera de se consolar com a promessa de que Rhodan permitiria
seu regresso a Árcon assim que a situação na Terra apresentasse um grau
suficiente de segurança.
Thora
esperara por vários anos da escala de tempo terrestre; depois resolveu agir por
conta própria. Apoderou-se de um dos destróieres recém-construídos e foi a
Vênus. Pretendia acionar a hiperestação situada naquele planeta para enviar um
pedido de socorro a Árcon. Mas não sabia que o emissor de sinais codificados,
sem o qual não se podia ingressar na área da base, ainda não havia sido
instalado naquela nave. O destróier foi derrubado e Thora tornou-se prisioneira
dos homens que ainda restavam da divisão espacial do Bloco Oriental.
Rhodan, que
imediatamente saiu no encalço de Thora, não teve outro destino. Utilizou um
destróier do mesmo tipo e também foi repelido e derrubado pelas instalações
positrônicas da base.
Sem quaisquer
recursos, já que o cérebro positrônico, alarmado por aquelas ocorrências
surpreendentes, bloqueara todo o planeta, não permitindo que ninguém de fora o
atingisse, Rhodan pôs-se a lutar pela libertação de Thora. Saiu vitorioso; mas
por várias vezes teve de encarar a morte pela frente.
Levou Thora,
uma Thora tímida e abatida, de volta para a Terra e obteve dela a promessa de
que esperaria até que pudessem ir juntos a Árcon.
De certa
forma Thora sentiu-se satisfeita porque Crest pedia seu auxílio. Sem que se
desse conta disso, estava ansiosa por uma oportunidade de demonstrar a Perry
Rhodan que não servia apenas para fazer bobagens e criar confusão. Quem sabe se
essa possibilidade não surgiria durante o exame psicológico do prisioneiro.
Crest já a
esperava. A sala em que Rayleigh estava deitado era ampla, mas naquele momento
estava tão atulhada de instrumentos de todos os tipos que não se podia vê-la de
lado a lado.
— O que
pretende fazer? — perguntou Thora.
— A
rastreação — respondeu Crest laconicamente.
Thora
aspirou fortemente no ar.
— Não existe
mais nenhuma outra possibilidade?
Crest
sacudiu a cabeça.
— Nenhuma.
Se é que ainda existe uma memória, esta se localiza em camadas tão profundas
que só podemos alcançá-la pelo rastreamento.
Thora fez um
gesto com a cabeça; parecia pensativa.
— Tomara que
resista.
Crest
aproximou o complicado aparelho de rastreamento, preso a um carrinho,
colocando-o junto ao leito em que se encontrava o prisioneiro.
— Quer
segurar os eletrodos? — perguntou Crest. — Eu observarei o indicador.
Sem dizer
uma palavra, Thora pegou as duas peças em forma de espula, ligadas por um cabo
ao aparelho propriamente dito, e prendeu-as a um suporte, fixado acima do
crânio de Raleigh, de tal forma que as extremidades apontavam diretamente para
a cabeça.
— Pronto? —
perguntou Crest.
Thora
verificou a posição das duas espulas.
— Pronto!
— Aí vem a
corrente.
O pequeno
aparelho emitiu um leve zumbido. Thora observou as espulas. Mantinham-se
imóveis.
— Potência
máxima! — disse Crest. Na tela surgiram linhas de luzes verdes, das quais ainda
não se podia concluir nada. Crest se certificou de que o registro de imagem
estava funcionando. Com base nas imagens gravadas, o cérebro positrônico
estaria em condições de decifrar a memória de Raleigh.
As linhas
que se entrelaçavam na tela estavam nítidas e bem estendidas, o que provava que
os impulsos irradiados à potência máxima eram refletidos da maneira usual.
Raleigh possuía um cérebro normal.
— Inverta a
posição das duas espulas! — ordenou Crest depois de algum tempo.
Thora trocou
as espulas. Um novo período de irradiação forneceria quadros que representariam
o complemento dos anteriores.
O exame não
durou mais de quinze minutos.
— Pronto! —
disse Crest.
Uma chave
foi desligada com um estalo. O zumbido cessou. Não se notava qualquer alteração
no rosto de Raleigh. Sua respiração era tranqüila.
— Parece que
resistiu — observou Thora.
Mas Crest já
estava ocupado em outra coisa.
— Quer
ajudar também na interpretação? — perguntou.
Thora
sorriu.
— Será que
está doente, Crest? Meu diagnóstico é o seguinte: um acesso de ativismo
terrano. Acaba de fazer numa hora o trabalho que em Árcon não teria realizado
num dia.
Crest
retribuiu o sorriso.
— A
atividade é uma coisa contagiante — respondeu. — Será que preferia ficar
deitada embaixo de um observador fictício, contemplando os modelos de ondas?
Thora riu.
— Não.
Prefiro ajudá-lo.
* * *
A General
Cosmic recuperou-se. As cotações foram subindo, e os especuladores arrojados
começaram a exultar.
Mas, a
alguns milhares de quilômetros a oeste, um homem esforçava-se em segredo para
preparar cuidadosamente o golpe mortal contra a Terceira Potência, e com isso
também contra a General Cosmic.
Clifford
Monterny, apelidado de Supercrânio, reuniu seus mutantes no quartel-general do
Japão e informou-os sobre o que pretendia fazer.
— Desta vez
não haverá qualquer falha — explicou. — Uma vez terminada nossa missão, Perry
Rhodan e a Terceira Potência terão deixado de existir.
* * *
Rhodan
gastou seu tempo examinando o caso de Homer G. Adams. Aceitou de bom grado o
auxílio da Federação de Defesa da Terra, comandada por Allan. D. Mercant, e por
intermédio dos agentes deste soube que a impressora que havia produzido o
prospecto fictício da Bolsa ficava no Japão.
Rhodan pediu
que lhe indicassem o local exato — era num subúrbio da cidade de Osaka — e
examinou o caso. A impressora pertencia a um particular, e o proprietário não
negou que, quinze dias antes, aparecera alguém e lhe pedira que imprimisse o
prospecto.
A pista
terminou ali mesmo.
Rhodan
regressou a Terrânia. Esperava que nesse meio tempo Crest tivesse conseguido
alguma informação de Raleigh.
* * *
O setor de
interpretação foi devorando a massa de recordações armazenadas no cérebro de
Raleigh, que nada tinham que ver com o caso de Sacramento.
Eram quadros
da infância, da escola, do serviço militar, estudos na Escola Técnica da
Califórnia.
O setor A
rejeitou aquele material e depois de algum tempo chegou ao essencial.
Crest soltou
um grito de surpresa, quando viu o primeiro quadro da série de informações. Era
um homem de contornos desmanchados e rosto irreconhecível, que aparecera no
escritório de Raleigh como que vindo do nada e lhe metera um tremendo susto.
Thora
arregalou os olhos para a seqüência de quadros que Crest repetia ininterruptamente.
— Não é
possível! — gemeu.
Crest acenou
com a cabeça, ainda um pouco perplexo.
— É isso
mesmo. A partir desse momento Raleigh ficou submetido a uma influência
hipnótica. Ao que tudo indica a pressão psicológica podia ser reduzida ou
intensificada por setores. Raleigh ainda se lembra, por exemplo, da ocorrência
propriamente dita, mas o desconhecido fez com que o quadro desse homem lhe
saísse da memória. Olhe só: nenhuma figura definida, nenhum rosto, nada!
Thora fitou
Crest de lado.
— Até parece
— conjeturou — que em sua opinião esse homem desfigurado e o desconhecido que
dirige toda a ação não são uma e a mesma pessoa, não é?
Crest fez
que sim.
— É isso
mesmo. Tenho certeza de que uma pessoa que deve ter tamanho cuidado em nunca
ser reconhecida e identificada jamais participa pessoalmente das ações que
planeja. Envia seus mensageiros, e até estes são mascarados de tal forma que o
parceiro involuntário não se lembrará dos mesmos. Nem mesmo o rastreador
consegue trazer o quadro à luz do dia.
Fizeram
outros quadros desfilarem diante de suas vistas: os primeiros fornecimentos
vindos por estrada de ferro, o início da propaganda nos jornais e na televisão,
as primeiras consultas, as primeiras vendas.
De permeio
sempre surgiam os quadros desmanchados de homens não identificáveis, a
contratação da guarda pessoal de quatro pessoas.
Finalmente o
telefonema de Rhodan. A representação mental do que Raleigh pretendia fazer com
Rhodan. A visita deste, a entrada em cena da guarda pessoal, a intervenção de
Farina.
Finalmente,
o blackout total. Nada
além de algumas recordações desfiguradas de cenas transcorridas em Terrânia. E
a escuridão total, correspondente ao tempo durante o qual Raleigh se encontrava
em transe.
Com um
suspiro, Crest desligou o projetor de imagens e fitou a mesa polida que tinha
diante de si.
— Pois bem —
disse Thora. — Será que aprendemos alguma coisa?
Crest não se
apressou em responder.
— Aprendemos
— disse em tom pensativo — que o desconhecido dificilmente liberta suas vítimas
da influência hipnótica. A qualquer momento estão sujeitas à sua vigilância, às
vezes mais intensa, às vezes menos intensa, exercida por via telepática.
— Isso nos
adianta alguma coisa?
Crest
estreitou os olhos.
— Certos
cérebros sentem a influência telepática, mesmo que não sejam os que se acham
submetidos à influência de outrem. A influência hipnótica também é um fenômeno
de emissão e recepção que se processa pelo espaço de cinco dimensões.
Verifica-se o surgimento de campos de dispersão, muito embora um bom telepata geralmente
atue de forma semelhante a um emissor de raios direcionais bem congregados. Mas
um bom telepata devia estar em condições de notar o fenômeno da influência
hipnótica, desde que o auxiliar do desconhecido a capte a uma distância não
muito grande.
Eram estes
os resultados do exame psicológico, sobre os quais Perry Rhodan foi informado
logo após sua chegada. Raleigh e seus homens foram dispensados. Já não
representavam qualquer perigo para quem quer que fosse.
Quase no
mesmo instante Rhodan recebeu um chamado de Salt Lake City, transmitido pelo
emissor de raios direcionais do tipo convencional. O capitão Farina informou em
palavras lacônicas que ainda não conseguira realizar qualquer progresso nas
suas pesquisas em busca do assassino do tenente Richman. Rhodan recomendou que
suspendesse as pesquisas.
— Encontramos
a pista desse patife em outro lugar — avisou Rhodan, e Farina mostrou-se
agradecido.
Uma vez de
posse das informações que em parte foram coletadas pelo próprio Rhodan, em
parte obtidas de Crest, pela primeira vez um mutante foi informado sobre a
série de incidentes graves. Foi John Marshall, o telepata.
— Quero que
me compreenda bem — concluiu a exposição. — No início não sabíamos se o
desconhecido não havia obrigado algum dos nossos mutantes a se submeter às suas
ordens. Só agora sabemos que não é assim. O inimigo dispõe de uma equipe
própria. Enquanto não o sabíamos, não poderíamos assumir o risco de informar o
Exército de Mutantes. Nós, que estamos de posse das informações, não somos
acessíveis a qualquer tipo de leitura de pensamento, isso em virtude de nossa
constituição mental específica. Se um dos membros do Exército de Mutantes
tivesse sido incluído no círculo dos confidentes, seus pensamentos não
demorariam a se tornar conhecidos dos seus colegas telepatas, o que significa
que nossos planos ficariam ao alcance do inimigo. Não quero que se sinta
diminuído por isso.
John
Marshall, um australiano, olhou Rhodan por cima da mesa. Sorriu.
— Tenho
certeza de que os outros mutantes ficarão tão satisfeitos como eu por saberem
que acabou recorrendo a nós — respondeu.
Rhodan
estreitou os olhos e inclinou a cabeça.
— Minha
capacidade parapsicológica é muito fraca; não consigo ler seus pensamentos —
disse um pouco desconfiado. — Bem que poderia dizer o que realmente pensa.
O sorriso de
Marshall tornou-se mais intenso.
— Pois bem,
eu lhe digo. Ninguém se sentirá lisonjeado ao saber que no início desconfiava
do Exército de Mutantes. Mas se lhe explicarmos os motivos, acontecerá
exatamente o que acabo de dizer: nos sentiremos satisfeitos por podermos
cooperar na solução do problema.
Rhodan fez
que sim. Depois expôs seu plano a John Marshall.
— Para vocês
será mais fácil que para os dois teleportadores — concluiu. — São quatro, e
poderão se revezar: você, Ishi Matsu, Betty e talvez Nomo Uatushin. Tako só
poderá revezar com Ras Tshubai. Encareça bem o seguinte: a qualquer momento
deverão estar de prontidão um telepata e um teleportador. O primeiro terá que
localizar qualquer intruso, e o outro deverá agarrá-lo quanto antes. Não
devemos nos esquecer de que as pessoas que penetram furtivamente em nosso
território também são teleportadores. Tako e Ras devem andar bem armados.
Diga-lhes que um projetor mental será completamente inútil.
* * *
O que mais
os preocupava era o fato de que o próprio John Marshall não tinha a menor idéia
de como o intruso faria notar sua presença. Era a primeira vez que se
defrontava com uma tarefa como esta.
Marshall
passou a ocupar um pequeno apartamento na periferia da cidade. Ficava no
vigésimo primeiro pavimento de um edifício residencial e servia de posto de
vigia aos quatro telepatas.
Dividiram o
dia em quatro períodos de seis horas, durante os quais cada um ficaria de
plantão. Cada um dos dois teleportadores ficaria de prontidão por doze horas. O
telepata e o teleportador passavam o tempo jogando baralho ou discutindo. Assim
mesmo sentiam muito tédio enquanto não acontecia nada.
Quem mais se
empenhou em sua tarefa foi Betty Toufry. Betty era a telepata mais potente da
Terceira Potência, e, além disso, possuía em elevado grau o dom da telecinésia.
Acompanhara a longa viagem e a permanência no planeta Peregrino.
Naquele dia
John Marshall veio substituí-la às seis da tarde. O rosto de Betty exprimia a
tristeza e o desânimo.
— Ainda não
houve nada, Marshall — disse.
Marshall
sorriu.
— Não tenha
medo, Betty. Um dia destes vai acontecer alguma coisa.
Betty
confirmou com um aceno de cabeça.
— Vai
prestar muita atenção? — perguntou em tom insistente.
— Muita! —
prometeu Marshall.
Tako Kakuta
estava deitado num sofá que havia na sala do pequeno apartamento e lia uma
revista. Marshall não via seu rosto, mas ouviu que o japonês bocejava.
— Boa tarde,
senhor teleportador em serviço — cumprimentou Marshall.
Kakuta
largou a revista.
— Boa tarde.
Quais são as novidades?
Marshall fez
um gesto de desânimo.
— Nenhuma
novidade. O que vamos fazer? Jogar uma partida de pôquer ou de xadrez,
conversar, ler?
O japonês
refletiu.
— Vamos
jogar xadrez — disse depois de algum tempo — se não tiver nenhuma objeção.
Marshall
sacudiu a cabeça.
— É
indiferente de que forma mato o tempo.
Kakuta
levantou-se e arrastou a mesa para junto de si. Marshall pôs cuidadosamente no
chão a pasta com livros que trouxera consigo e abriu o pequeno armário em que
estavam guardados o tabuleiro e as pedras de xadrez.
A coisa
aconteceu quando a caixa com as pedras foi tirada das profundezas do armário e,
ao se erguer, Marshall bateu com a parte traseira do crânio na quina do
armário.
Alguma coisa
estranha e meiga parecia agarrar seu cérebro. No início parecia hesitar, mas
depois tornou-se mais forte e assumiu a forma de instruções concretas — instruções
dirigidas a um desconhecido que naquele instante penetrava no território da
Terceira Potência.
Marshall
deixou cair a caixa com as pedras. O barulho fez com que o teleportador se
pusesse de pé.
— Chegou —
fungou Marshall. — No edifício da administração, entre o vigésimo e o trigésimo
andar. Tem instruções de prender Crest e levá-lo consigo. Vamos logo! Dê o
fora!
Por uma
fração de segundo, Tako se manteve imóvel, com o rosto inexpressivo, como se
não tivesse entendido o que Marshall acabava de dizer. Depois o ar começou a
tremeluzir, e de um instante para outro o japonês desapareceu.
Marshall
pôs-se em movimento. Com um simples movimento de mão estabeleceu a ligação de
telecomunicação com o edifício da administração. O major Nyssen, que naquele
instante substituía Bell, recebeu o aviso de alarma e providenciou para que o
respectivo setor do edifício fosse evacuado imediatamente. Era de esperar que o
teleportador inimigo não perceberia a operação, pois levaria algum tempo para
se orientar. Para ser bem sucedido Tako Kakuta precisaria ter o campo livre.
Rhodan foi
avisado de que pretendiam raptar Crest. A informação deixou-o bastante
preocupado. Crest era a coisa mais preciosa que a Terceira Potência poderia
perder. E o desconhecido parecia ter bastante certeza de que conseguiria
atingir esse objetivo. Era necessário descobrir por que se sentia tão seguro.
Por ordem de
Nyssen, John Marshall deixou seu posto e instalou-se no interior da área
protegida pelo campo energético, diante do edifício da administração. Dali
mantinha contato permanente pelo micro-telecomunicador com Nyssen e com o
quartel-general, e poderia dar aviso imediato ao major quando surgisse alguma
novidade.
As sensações
que Marshall experimentava pouco se modificaram quando ele se aproximou do
edifício da administração. Teve a impressão de que as mesmas não dependiam
muito da distância. Não saberia descrever a sensação que tomava conta de seu
espírito. Era um tipo de dor de cabeça, uma pressão constante que, todavia, ao
contrário de uma dor de cabeça comum, vinha acompanhado de uma informação sobre
sua origem. A pressão estava ligada a uma série de impulsos perfeitamente distinguíveis.
Eram as instruções destinadas ao teleportador desconhecido.
Marshall
assumiu seu posto bem na entrada do gigantesco edifício. Transmitiu a seguinte
informação ao major Nyssen:
— Acabo de
ocupar nova posição, major. Por enquanto não há nenhum acontecimento
extraordinário. O homem move-se muito devagar: não está executando nenhum salto
de teleportação.
* * *
O salto de
Tako Kakuta terminou conforme fora planejado, no corredor principal do vigésimo
pavimento. O corredor, profusamente iluminado, estava vazio. Tako usava sapatos
leves e macios. Andou pelo corredor sem provocar o menor ruído. Em redor dele
tudo era silêncio.
Tako não se
deu ao trabalho de revistar as salas situadas à direita e à esquerda do
corredor. Marshall o informara de que a tarefa do desconhecido consistia em
prender e levar Crest. Não permaneceria numa sala em que evidentemente Crest
não se encontrava.
Tako pegou o
elevador antigravitacional e subiu ao vigésimo primeiro pavimento. Também aqui
limitou-se a percorrer o corredor principal e a andar em volta de todo
pavimento pelos corredores periféricos.
Nada, nenhum
ruído, nenhuma sensação de perigo.
No vigésimo
segundo e no vigésimo terceiro pavimentos o resultado foi o mesmo. Marshall
indicara o setor situado entre o vigésimo e o trigésimo pavimentos como sendo a
área de operações. Tako não sabia qual era o grau de precisão das indicações de
Marshall. Talvez tivesse de subir até o quadragésimo pavimento para encontrar o
inimigo.
Vigésimo
quarto pavimento.
Vigésimo
quinto pavimento.
Vigésimo
sexto pavimento.
Nenhuma
mensagem do quartel-general. Tudo indicava que o desconhecido ainda se movia
sobre suas próprias pernas.
Vigésimo
sétimo...
Era lá!
Pela
primeira vez em toda vida, Tako sentiu a estranha tração; apesar disso sabia
que tinha o inimigo bem diante de si. Agachou-se num dos nichos.
Enquanto
esperava, procurou analisar a sensação que lhe ocupava o cérebro. O que seria?
Tako sabia que não possuía qualquer dom telepático. Não era possível que a dor
suave e persistente fosse produzida pelo intruso desconhecido. Mas este mesmo
estava submetido a forte influência hipnótica. Teria sido essa influência que
preveniu o japonês?
Tako ouviu
um ruído. Comprimiu-se ainda mais profundamente no nicho e avançou a cabeça
apenas o suficiente para enxergar o corredor.
Ali estava
ele!
Tako viu-o
de lado. Era um jovem. Da raça branca, constatou Tako. Examinava as inscrições
junto às portas e parecia um tanto indeciso quanto ao caminho que devia tomar.
Não podia
ver Tako. Este saiu do esconderijo a passos macios e silenciosos e apontou o
radiador de impulsos térmicos antes de falar:
— Fique onde
está! E ponha as mãos para o alto!
Tako viu que
o susto sacudiu o corpo do desconhecido. Seus dedos abriram-se quando começou
lentamente a erguer os braços. Tako aproximou-se lentamente. Quando se
encontrava a cerca de cinco metros, sentiu o impacto tremendo da onda mental de
choque que o cérebro do desconhecido irradiou quando se preparava para o salto
que lhe traria a salvação.
Tako contara
com essa possibilidade. Aquele desconhecido seria o primeiro teleportador que
não conseguiria se subtrair à ameaça de uma arma por meio de um hipersalto.
Era o ramo
de Tako! A fração de um segundo bastou-lhe para absorver o modelo de ondas
cerebrais, irradiadas pelo desconhecido e, com isso, a energia que o mesmo
ativava para realizar seu salto. As formas de energia, desenvolvidas no espaço
de cinco dimensões, necessárias à teleportação representam valores vetoriais;
além de uma intensidade, caracterizam-se por uma direção. Ao absorver o modelo
e regular sua mente para o mesmo, Tako não saberia responder apenas à pergunta “a que distância?”, e também à indagação “para onde?”
Saltou no
mesmo instante em que o desconhecido o fez, sempre com o radiador térmico
engatilhado na mão.
A dor
cruciante da teleportação absorveu-o e, por um milésimo de segundo, fez com que
toda luz se apagasse em torno dele.
* * *
— Saltou! —
gritou Marshall muito exaltado. — O desconhecido foi embora! Desapareceu.
A reação de
Nyssen foi imediata. Dois segundos depois que Marshall acabou de proferir essas
palavras, estabeleceu contato com Tako Kakuta.
— Kakuta,
está ouvindo? — gritou Nyssen. O sujeito desapareceu. Pode voltar. Suspendemos
o alarma.
Nenhuma
resposta.
— Kakuta!
Está ouvindo? Nenhuma resposta.
Nyssen
manteve uma ligeira palestra com Rhodan. Ficou sabendo que um teleportador tem
a possibilidade de, através da absorção do modelo das ondas de choque, conhecer
o objetivo de outro teleportador que salta nas suas proximidades. Rhodan não
tinha a menor dúvida de que Tako aproveitara a oportunidade de seguir o
teleportador que se pusera em fuga. O alarma não foi suspenso.

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