Os robôs marchavam inexoravelmente,
seguidos pelos soldados.
Deviam ter percorrido mais ou menos metade
dos duzentos metros que separavam a nave da casa. Menos de cem metros deviam
faltar até chegarem à casa; eram cem metros formados por grama ressequida e
algumas árvores. Entre elas havia um monte de pedras muito bem empilhadas junto
a um monte de lenha. Tudo recendia a uma pacífica atividade agrária.
Talvez essa impressão tivesse sido
enfatizada demais.
Rhodan, sentado atrás dos controles da
sala de comando da Good Hope-V, esperava que alguma coisa acontecesse. Embora
os canhões do Supercrânio tivessem sido inutilizados, ele não estava liquidado.
Um homem que pretendia conquistar o mundo não se contentaria com uma única
chance; iria no seguro.
Restava saber qual seria o próximo recurso
de que lançaria mão. Bem, Rhodan não ficaria na ignorância por muito tempo.
Subitamente a primeira fila de robôs
parou, como se tivesse esbarrado numa muralha invisível. Um deles cambaleou,
perdeu o equilíbrio e caiu de costas, permanecendo estendido no solo. Os outros
— Rhodan mal acreditava no que via — foram levantados do solo e subiram ao ar
num movimento lento e irregular. Lá em cima começaram a girar em torno de seu
eixo e derivaram para o lado.
Alguns começaram a disparar insensatamente.
O recuo das armas de impulso conferiu-lhes um movimento em sentido contrário.
Giraram que nem rodas de fogo em direção à superfície, expelindo raios
mortíferos. Alguns deles foram reduzidos à inatividade pelos soldados, numa
luta corpo a corpo.
A segunda fila de robôs foi alvo de uma
operação já treinada. Os mutantes do Supercrânio aprendiam depressa. As cinco
obras de arte da eletrônica foram atiradas pelo ar por uma força invisível e
bateram com toda força contra o campo energético da Good Hope-V, ativado às
pressas. Caíram ao solo sem forças e permaneceram imóveis. Suas vísceras
ultra-sensíveis não haviam sido feitas para resistir a tamanha provação.
Antes que a terceira fila de robôs pudesse
ser colocada fora de combate através da mesma manobra, houve um outro
acontecimento com o qual Rhodan, no íntimo, já contava.
Os soldados de seu pequeno exército
passaram a adotar um comportamento muito estranho. Alguns dos homens sentaram
na grama, largaram as perigosas armas de radiações e passaram a desembrulhar
seus mantimentos de reserva. Ao que parecia pretendiam realizar um piquenique
antes de se lançarem ao ataque.
“São
telecinetas e hipnos”, pensou Rhodan com certa dose de desespero.
De qualquer maneira os mutantes de
Monterny tinham um certo humor. Se não fosse assim, teriam ordenado aos
soldados que se matassem uns aos outros.
O contragolpe de Rhodan não se fez
esperar. O êxito de tudo dependia da circunstância de que o Supercrânio tivesse
entrado em ação pessoalmente ou tivesse deixado tudo por conta de seus
mutantes. Pelo que se concluía das experiências feitas até então, o Supercrânio
era o único mutante que sabia impor sua vontade contra os efeitos do projetor
mental.
O telepata John Marshall fez um sinal para
Tatiana. A jovem russa, ansiosa por redimir-se dos erros do passado, saltou
pela escotilha da Good Hope-V e correu a toda pela rampa. Sua mão segurava um
bastão prateado. Apontou-o numa direção que demonstrava conhecer ela
perfeitamente a posição do quartel-general subterrâneo. O bastão foi apontado
para a superfície da terra, num ponto situado à esquerda da casa.
A imagem de Tatiana estava na tela de
Rhodan. Este aumentou o quadro e procurou ler seus pensamentos na testa. John
Marshall saberia identificar os comandos transmitidos através de seus
pensamentos.
O resultado de seus esforços surgiu dentro
de um minuto. Na verdade, era espantoso.
Os robôs que ainda se encontravam no ar
perderam seu suporte invisível e caíram ao solo. Alguns poucos caíram de tal
forma que logo conseguiram se erguer. Prosseguiram sua marcha em direção à
casa, como se não tivesse acontecido nada; atiraram por todos os braços,
transformando a sede da fazenda num montão de destroços fumegantes.
Os soldados, tão entretidos na agradável
atividade de lanchar, interromperam-se subitamente. Por uma fração de segundo
olharam espantados para as latas de conserva abertas e as facas de cortar pão;
logo deixaram cair tudo e correram atrás dos robôs.
Tatiana permaneceu no mesmo lugar,
cuidando para que os mutantes de Monterny não pudessem mais exercer qualquer
influência sobre os homens de Rhodan. Mas sabia que a parte mais difícil de sua
tarefa ainda se encontrava pela frente. Evidentemente não conhecia todos os
detalhes do quartel-general; não sabia quantos homens se encontravam abrigados
nas galerias de rocha, bem embaixo da terra. Mas imaginava que o Supercrânio
devia guardar outras surpresas em seu arsenal.
Tinha que encontrar um meio de convencer
um dos mutantes a abrir uma segunda entrada. O projetor mental devia oferecer
uma possibilidade para isso.
Os robôs e os soldados pararam diante dos
destroços fumegantes da casa. Ali não havia mais nada a fazer. Se a entrada
para o labirinto subterrâneo ficava na casa, fora inutilizada. Ninguém poderia
penetrar na terra ou dela emergir por ali.
Tatiana reduziu ligeiramente a intensidade
do bloqueio defensivo que cercava seu cérebro, para poder absorver alguns
pensamentos vindos de fora. Concentrou-se no modelo já conhecido das ondas
cerebrais do Supercrânio e procurou estabelecer contato com ele. Teve cuidado
para que o projetor mental apontasse constantemente para a sala de comando da
fortaleza subterrânea, e manteve-se preparada para, a qualquer momento, fechar
o bloqueio defensivo.
De repente a voz do Supercrânio,
debilitada pelo bloqueio defensivo, surgiu em seu cérebro.
“Tatiana,
você agiu de modo contrário às minhas ordens e traiu nossa boa causa. Você
passou para o lado dos traidores da Humanidade e...”
“Basta
de frases vazias”, pensou Tatiana concentradamente em resposta à mensagem do
Supercrânio. Sentiu-se fortalecida pela certeza de que John Marshall poderia ouvi-la e transmitiria o conteúdo da
palestra diretamente a Rhodan. “Sua obra
é feita exclusivamente de frases vazias e violência oculta atrás das mesmas. Descobri
suas manhas, Clifford Monterny! Você abusou do meu idealismo.”
“Não
diga bobagens!”, retrucou o Supercrânio, sem fazer qualquer tentativa de
exercer uma influência hipnótica sobre ela. Conhecia suas faculdades. “Contra os meus mutantes você não tem a menor
chance.”
“As
armas de Rhodan são superiores às suas, Monterny. E os mutantes dele são mais
numerosos e capazes. Desista.”
Uma risada silenciosa de deboche
atravessou o cérebro de Tatiana e de Marshall.
“Desistir?”,
ironizou o Supercrânio. “Se eu desistir,
o mundo acabará comigo. Se Rhodan tiver que dominar, ele o fará sobre uma terra
despovoada.”
“Obrigada”,
pensou Tatiana tranqüilamente. “Você
acaba de proferir sua sentença de morte. Tente dar uma ordem aos seus mutantes.
Veremos quem é mais forte: você ou nós.”
“Espere
mais um pouco”, pediu o Supercrânio em tom de deboche. “Você só poderá levar vantagem se esperar.
Talvez consiga influenciar meus mutantes. Acontece que o tal do projetor mental
não tem qualquer efeito sobre mim. E ninguém me impedirá de neste instante
transmitir instruções aos meus agentes, que aguardam em todos os cantos do
mundo, para que executem as ações para as quais estão preparados há longo tempo.”
“É
possível”, reconheceu Tatiana. “Mas
acontece que de nada lhe adiantará transmitir essas ordens, pois você não
conseguirá entrar em contato com seus agentes. Estes já foram presos pelos
serviços de segurança da Terceira Potência. Estão reduzidos à inatividade. Até
parece que você se esquece de que Rhodan também tem um Exército de Mutantes.”
A maldição apenas pensada por Supercrânio
foi mais terrível que quaisquer palavras. Traiu sua impotência. Naquele
instante Rhodan soube que o poder de seu inimigo havia sido rompido. Se
conseguisse penetrar na fortaleza subterrânea...
Tatiana não perdeu tempo.
Seus pensamentos tatearam e localizaram
Roster Deegan. Com o apoio do projetor mental transmitiu-lhe uma ordem
insistente:
— Roster, abra a saída de emergência.
* * *
O Supercrânio sentiu que Tatiana se
afastou dele e estabeleceu contato com seu telecineta. Imaginava o que desejava
dele e decidiu aproveitar a oportunidade para tirar a prova.
Como telepata que era, compreendeu a ordem
que Tatiana transmitiu através de seus pensamentos. Acontece que não era apenas
um telepata, mas também um hipno. Deu a contra-ordem.
Roster parou indeciso em meio ao movimento
que ia executar; lentamente voltou a sentar. O Supercrânio era mais forte que o
projetor mental. Monterny começou a exultar; mas Roster voltou a se levantar. A
passos lentos dirigiu-se para a porta e foi ao corredor.
Por um instante, Supercrânio, perplexo,
seguiu-o com os olhos. Mas logo praguejou e voltou a ativar seus dons
hipnóticos com uma intensidade ainda maior. Mas percebeu logo que uma
resistência tremenda se lhe opunha, uma resistência que não conseguia vencer.
Não sabia que nesse meio tempo André Noir, o hipno de Rhodan, havia entrado em
ação. Reunindo suas forças às do projetor mental manipulado por Tatiana, era
mais potente que o Supercrânio.
O fracasso deixou Monterny arrasado. O
fato de não poder enfrentar Rhodan no terreno da técnica não lhe ofendia o
orgulho; mas não podia se conformar em ser inferior ao inimigo também no
terreno espiritual.
Poderia matar Roster, mas preferiu não
fazê-lo. No mesmo instante em que praticasse tal ato, todos os mutantes se
voltariam contra ele, e isso poderia se tornar perigoso na situação em que se
encontrava.
Se estivesse só, talvez conseguisse
dominá-los; mas com o reforço espiritual dos mutantes de Rhodan seriam mais
fortes que ele.
A fuga?
O Supercrânio cerrou os lábios.
Evidentemente também pensara nessa possibilidade e providenciara tudo que com
ela se relacionasse. No hangar subterrâneo, o terceiro destróier estava à sua
disposição. Estaria em condições de dirigir essa nave, que tinha apenas trinta
metros de comprimento. As provisões de mantimentos que se encontravam a bordo
seriam suficientes para muitos anos. O armamento era suficiente. O destróier
poderia alcançar a velocidade da luz. E, em Marte, o último e o mais terrível
dos mutantes aguardava o momento de entrar em ação.
Por que esperar até que ficasse
encurralado e não tivesse nenhuma saída?
Clifford Monterny fez mais uma tentativa
para recuperar sua influência sobre Roster Deegan, mas logo se deu conta da
inutilidade dos seus esforços. Apesar disso não desistiu. Quis dificultar as
coisas ao máximo para Rhodan.
Enquanto Roster abria a saída de
emergência da fortaleza e a atenção de Tatiana se concentrava na nova tarefa, o
Supercrânio transmitiu comandos pós-hipnóticos aos seus mutantes e fechou-lhes o
cérebro por meio de um bloqueio psicológico. Sabia que a ruptura desses
bloqueios era apenas uma questão de tempo, mas isso aumentaria sua vantagem na
fuga. E bem que precisaria dessa vantagem.
Não hesitou mais.
Fechou-se psiquicamente do mundo exterior
e providenciou para que nenhum telepata pudesse seguir sua pista. Era bem
verdade que assim perderia toda orientação espiritual, mas já não estava
interessado no que acontecesse dali em diante no seu reino. Tinha uma tarefa
bem maior à sua frente.
Saiu da sala de comando em passos
apressados e andou rapidamente pelo corredor. Ouviu passos e gritos atrás de
si. Tiros soaram nos corredores, e alguém berrou um comando. Em meio a tudo
isso, ouvia-se o andar ritmado dos robôs arcônidas. As forças de Rhodan haviam
penetrado na fortaleza do Supercrânio.
Clifford Monterny, tomado de raiva e
desespero, cerrou o punho, soltou uma praga e continuou a correr. Entrou numa
estreita passagem lateral e aumentou a velocidade da corrida. Devia ter pensado
em algum meio de transporte subterrâneo. Mas quem poderia imaginar que seu
esconderijo aparentemente inexpugnável viesse a cair diante do primeiro ataque?
O Supercrânio não podia deixar de reconhecer que, depois de ter alcançado suas
primeiras vitórias, subestimara o inimigo.
O corredor parecia não ter fim. Tal qual
em todos os outros, as luzes de teto, instaladas de espaço em espaço,
espalhavam uma débil luminosidade. Havia dezenas de corredores desse tipo, e os
homens de Rhodan levariam bastante tempo em descobrir este.
Uma curva. Mais uma. Depois prosseguiu em
linha reta.
O Supercrânio tivera bastante inteligência
para instalar seu hangar a boa distância da sala de comando. Se esta fosse
destruída numa ação bélica, o hangar permaneceria intacto. Além disso, ninguém
desconfiaria de que sua saída de emergência se encontrava a mais de dois
quilômetros da entrada principal.
O barulho atrás dele já havia cessado. Os
passos do Supercrânio se tornaram mais lentos. Grossos pingos de suor reluziam
em sua calva. Os traços contorcidos do rosto flácido e nada belo alisaram-se.
Nos olhos assustados voltou a brilhar aquela fria superioridade. Apesar disso,
Monterny estava satisfeito em saber que ninguém o via. Ele, o grande
desconhecido, que era superior a qualquer mortal, estava fugindo.
O corredor terminou diante de uma parede
lisa.
Os dedos trêmulos do Supercrânio apalparam
a parede e encontraram uma pequena elevação. Uma ligeira pressão, e a parede
deslizou para cima, deixando livre a passagem. Prosseguiu. A parede se fechou
atrás dele.
Encontrava-se num pavilhão não muito
grande, mas bastante alto. Quase lembrava o poço de uma mina. As paredes eram
de rocha nua, cujas saliências haviam sido removidas às pressas. O teto de
rocha, que tinha uns cem metros de altura, parecia fechar o hangar.
Bem no meio do gigantesco poço, o
destróier roubado de Rhodan descansava sobre os suportes telescópicos.
Clifford Monterny suspirou aliviado. Agora
nem mesmo Rhodan conseguiria impedir sua fuga. Se logo após a decolagem
imprimisse à nave a aceleração máxima, ninguém o alcançaria.
Num pensamento fugaz, lembrou-se dos
cientistas seqüestrados, que seriam encontrados e libertados por Rhodan. Isso
pouco lhe importava, pois já se apoderara do seu saber. Foi graças a eles que
conseguiu alcançar o controle perfeito da nave espacial que tinha diante de si.
Deu alguns passos, alcançou os suportes
telescópicos e acionou o botão de controle da comporta de entrada. No mesmo
instante a escotilha se abriu muitos metros acima dele e a escada deslizou em
sua direção.
Enquanto isso acontecia, correu de volta e
comprimiu outro botão, que estava embutido na parede de rocha. Lançou um olhar
ansioso para o alto.
A parede de rocha maciça começou a se
mover lá em cima. Deslocou-se para o lado, deixando livre o caminho da fuga. A
luz do dia penetrou no hangar, fazendo com que empalidecessem as luzes que ali
se encontravam acesas.
Clifford Monterny não perdeu mais nenhum
segundo.
Com alguns saltos, colocou-se junto da
escada que já havia completado seu movimento em direção ao solo, subiu por ela
e desapareceu no interior da nave. A escotilha se fechou com um baque surdo.
Mais alguns segundos se passaram.
Esses segundos transformaram-se em
minutos.
Na sala de máquinas da nave, os geradores
de energia e os transformadores começaram a ressoar. O fluxo de partículas
atravessou condutos de consideráveis espessuras, foi submetido a um processo de
compressão e de aceleração nos propulsores e saiu dos bocais de popa sob a
forma de impulso ultraluminosos com a velocidade da luz.
A rocha embaixo do destróier começou a
ferver, enquanto os suportes telescópicos eram recolhidos. A nave disparou para
o alto.
A energia que escapava para todos os lados
com uma pressão tremenda atingiu as paredes do hangar e derreteu a rocha. A
porta secreta foi destruída.
Era evidente que o Supercrânio pretendia
utilizar esse caminho de fuga uma única vez.
Com uma aceleração louca, a nave subiu na
vertical e, qual um gigantesco projétil, saiu do cano de cem metros. Dentro de
poucos segundos, mergulhou e desapareceu no azul do céu.
5
Rhodan saiu da Good Hope-V, também
conhecida por G-5, no momento exato em que Roster Deegan surgiu na superfície
e, com os olhos inexpressivos, caminhou na direção de Tatiana, que se aproximou
dele e procurou lhe restituir aos poucos sua própria vontade.
O Exército de Mutantes substituiu os robôs
e os soldados e assumiu a vigilância. O telepata John Marshall permaneceu ao
lado de Rhodan.
— Tatiana avisa que além de Deegan ainda
há dez mutantes no interior da fortaleza. Um comando pós-hipnótico os obriga a
cumprir as instruções do Supercrânio. Devem ser libertados individualmente da
vontade de Monterny.
— E os prisioneiros do Supercrânio?
Tatiana não descobriu nada?
— Descobriu sim, mas não tem certeza. Ao
que parece, encontram-se na fortaleza de Monterny.
— Está bem — Rhodan lançou os olhos em
torno. — Podemos iniciar a luta contra os mutantes. Eu mesmo cuidarei de
Monterny.
Pegou o projetor mental e dirigiu-se a
Tatiana e Deegan, que se defrontavam num duelo mudo. Perto deles a entrada do
labirinto estava aberta. Havia degraus que conduziam para baixo.
— Irei com você — disse Marshall,
permanecendo ao lado de Rhodan. — Sengu, Anne Sloane e Betty Toufry também.
Sengu poderá nos prevenir quando surgir qualquer perigo, enquanto os dois
telecinetas poderão deter qualquer atacante até que consigamos romper o
bloqueio hipnótico.
Foi exatamente o que aconteceu nesse
instante com Roster Deegan.
O americano sacudiu a cabeça, como se
acabasse de emergir das profundezas da água e se sentisse livre da pressão.
Pegou a mão de Tatiana.
— Ainda não compreendi tudo, mas começo a
imaginar o que aconteceu. Conte comigo. E liberte os outros.
Rhodan se aproximou.
— Venha, Tatiana. Não podemos perder
tempo. Ninguém sabe que diabrura o Supercrânio estará preparando.
Roster lançou um olhar perscrutador para
Rhodan. Fitou-o prolongadamente nos olhos e estendeu-lhe a mão.
— O senhor é Rhodan; conheço-o pelos
retratos. Deve estar interessado em aumentar os efetivos de seu Exército de
Mutantes. Se for assim, saiba que no interior da fortaleza há dez homens que
aguardam a hora de poder se considerar seus amigos. Mas ainda não estão livres.
Tatiana apontou para os projetores mentais
que ela e Rhodan traziam na mão.
— Logo estarão.
Enquanto se dirigia para a sala de
comando, encontrou-se com o primeiro telecineta.
Subitamente Rhodan sentiu-se atirado para
o lado. Teve que estender as mãos para evitar que sua cabeça batesse contra a
parede. Deixou-se escorregar para o chão, para subtrair-se por um instante à
atenção daquele defensor da fortaleza. Depois disso dirigiu calmamente o
projetor para a figura apagada que mal se destacava na luz do corredor. Martelou
insistentemente seus comandos contrários ao bloqueio hipnótico, que não fez
menção de ceder à resistência que subitamente lhe era oposta. Só quando André
Noir acorreu às pressas e utilizou sua potência hipnótica para romper a
barreira mental e implantar seus comandos no cérebro do mutante que o poder do Supercrânio
se esfacelou.
Rhodan teve a cautela de lhe transmitir um
comando pós-hipnótico através do projetor mental. Não havia tempo para
explicações.
Continuaram a penetrar passo a passo no
reino abandonado do Supercrânio. Os mutantes ainda dominados pelo mesmo
opunham-lhe uma resistência encarniçada, mas a mesma acabou sendo vencida.
Incluindo Roster Deegan, dez mutantes
haviam mudado de dono. Mas deviam ter sido onze.
Onde estava o outro?
Onde estava o Supercrânio?
Rhodan lançou os olhos em torno.
— Ras Tshubai.
A figura gigantesca do africano se
aproximou.
— Sim.
— Deu busca em toda a fortaleza?
O teleportador levantou a mão, num gesto
de insegurança.
— Não sei. Nesta toca de raposa há tantos corredores
e salas que nunca se pode ter certeza de ter estado em todos os lugares. De
qualquer maneira, encontrei a sala de comando. Está vazia. Não encontrei a
menor pista do careca.
— E os cientistas?
Antes que Ras pudesse responder, Sengu, o espia, disse:
— Estão presos num calabouço. Trata-se de
um complexo com compartimentos residenciais. Há um elevador no qual se pode
descer ao lugar em que se encontram.
O japonês olhou em direção inclinada para
o chão. Quem imaginasse que enxergava perfeitamente através das massas rochosas
não conseguiria evitar um calafrio.
— Alguém deve tê-los encontrado. Vejo um
vulto que está mexendo na porta da ala dos prisioneiros. Não o reconheço.
Betty Toufry, que era telepata e telecineta
ao mesmo tempo, se aproximou:
— Estou captando os pensamentos de um
homem — cochichou, lançando um olhar inseguro na mesma direção de Sengu. — São
débeis e confusos. Quer matar.
Ras Tshubai se dirigiu a Sengu.
— Descreva a situação do calabouço, para
que possa interceptar o homem antes que faça alguma tolice. Vamos logo!
Rhodan manteve-se imóvel, pois não podia
fazer nada. Deixou livres as mãos dos telepatas. Não via nada, não ouvia nada,
não sentia nada. Não era um mutante, era apenas um homem perfeitamente normal,
se o abstrairmos de certas qualidades que nada têm que ver com qualquer
modificação da estrutura cerebral.
Ras Tshubai prestou atenção às breves
indicações de posição fornecidas por Sengu, acenou com a cabeça... e
desapareceu.
Os que ficaram sentiram o ligeiro
deslocamento de ar provocado pela massa aérea que penetrou no vácuo formado
subitamente com a desmaterialização do teleportador. Nesse mesmo instante o corpo
de Ras Tshubai lhe era restituído no lugar desejado; ele voltava a se
materializar.
Rhodan resolveu aproveitar a pausa
forçada.
— Tatiana e Marshall, venham comigo.
Precisamos descobrir o que é feito do Supercrânio. Não posso imaginar que
esteja escondido em algum canto e fique parado até que o encontremos.
— Nesta fortaleza há dezenas de
corredores, e ninguém de nós viu todos eles — ponderou a russa. — Só sei que um
deles leva a um hangar aberto na rocha, onde está guardado um dos destróieres
roubados. Quem sabe...
— É claro que só pode ser isso — disse
Rhodan com certa impaciência. — Você devia ter dito logo. Tenho certeza de que
o Supercrânio é bastante inteligente para perceber sua derrota no momento adequado.
Você diz que o hangar foi aberto na rocha?
— Isso mesmo.
— Só pode ficar a oeste daqui. Não deve
ser difícil encontrar o corredor que leva para lá. Venha comigo.
A iluminação ainda estava funcionando.
Rhodan correu a frente pelos corredores vazios; Tatiana e Marshall seguiram-no
de perto. As paredes de rocha refletiam o eco abafado e cavo de seus passos.
Atingiram um ponto em que o corredor se
bifurcava. Rhodan lançou um olhar ligeiro para a bússola embutida em seu
relógio e escolheu o caminho que seguia pela esquerda.
— Este corredor leva exatamente para o
oeste. Talvez seja ele.
Não esperou a resposta, mas continuou a
correr.
De repente a rocha começou a vibrar mais à
frente. O chão tremia sob seus pés, como se os efeitos de um terremoto distante
se fizessem sentir até ali.
Rhodan parou assustado e Marshall
empalideceu. Tatiana baixou a mão que segurava o projetor mental.
— O que foi isso? — cochichou com a voz
quase inaudível.
Rhodan cerrou o punho.
— Foi o destróier. De qualquer maneira já
sabemos que o corredor é este mesmo. Chegamos tarde. Talvez o pessoal que está
lá em cima cuide melhor. Vamos ao menos dar uma olhada naquilo.
A dez metros do ponto em que o corredor
terminava, foram atingidos, subitamente, por uma onda de calor seco, que os
impediu de prosseguir. À luz das lâmpadas do teto, Rhodan viu pingos de rocha
endurecidos. A idéia atingiu-o com a força de um raio: o hangar ficava atrás
dessa parede.
— O calor liberado pela decolagem do
destróier não pôde se espalhar e derreteu as paredes. Não acredito que possamos
atingir o hangar por aqui.
Refletiu por alguns segundos e disse em
tom resignado:
— Isso não nos adiantaria nada. A esta
hora o Supercrânio já está correndo pelo espaço. Só podemos fazer votos de que
alguém tenha percebido sua fuga.
— Devíamos avisar a Stardust-III — sugeriu
Marshall.
Um sorriso amargo se esboçou no rosto de
Rhodan.
— Mesmo para isso seria tarde, Marshall.
Mas não se preocupe. O Supercrânio não nos escapará por muito tempo. Afinal,
temos algumas pistas.
Diante dos olhos de Rhodan surgiu o quadro
de solidão, formado por um deserto vermelho atravessado por largas faixas de
verde e aquecido escassamente por um sol distante.
6
Pete Maros era mexicano, mas não tinha
quase nada em comum com seus antepassados.
Mas herdara uma coisa desses antepassados:
seu temperamento impulsivo, que formava um contraste marcante com a atitude
fleumática do inglês Ray Gall. A função principal de Ray era a de telegrafista
do destróier Z-82 que, depois de reparado, passou a ser utilizado por Rhodan.
O comandante da nave era Julian Tifflor,
que, por enquanto, ainda ocupava o posto de cadete da Academia Espacial.
O grupo de nove destróieres se espalhara e
se mantinha a menos de trinta mil metros de altura sobre o Estado de Utah.
Cinqüenta mil metros acima dele, Bell procurava se consolar com o fato de que
era de certa forma o quartel-general de Perry Rhodan, e não podia colocar a
Stardust-III em perigo.
As idéias de Tiff eram semelhantes às de
Bell.
— Aqui estamos nós pendurados acima das
nuvens, e nem podemos ver o que está acontecendo lá embaixo. Até mesmo o
contato pelo rádio foi interrompido. Consegue ouvir alguma coisa, Pete?
O mecânico apontou para a porta da cabina
de rádio.
— Quem está de serviço é Ray. Posso dar
uma olhada.
O inglês mantinha-se imóvel diante do
aparelho mudo e parecia cochilar. A tela, através da qual se estabelecia
contato direto com a Stardust-III, estava apagada.
— Tudo tranqüilo? — perguntou Pete,
demonstrando uma preocupação excessiva.
Ray levantou a cabeça.
— Quando houver alguma novidade, não
deixarei de avisar — resmungou e voltou a fechar os olhos.
Pete sentiu-se aliviado ao constatar que o
telegrafista ficava, ao menos, com os ouvidos abertos e voltou à sala de
comando.
Nesse meio tempo, Tiff havia ligado o
ampliador de imagem e dirigiu a câmera para a superfície da Terra. Não havia
nuvens que impedissem a visão, e poucos segundos depois o Estado de Utah surgiu
na tela como um mapa. A ampliação começou a aumentar automaticamente. O mapa se
desmanchou, e quando a imagem voltou a se tornar nítida, apresentava um setor
menor em igual dimensão. O jogo repetiu-se até que a mancha redonda, que
representava a G-5 pousada, surgisse nitidamente ao lado da casa destruída.
Tiff lembrou-se das instruções de Rhodan.
Não deviam se preocupar com os acontecimentos que se desenrolassem em redor da
G-5. Cabia-lhes cuidar das áreas adjacentes e do espaço aéreo que cobria o
Estado de Utah.
Tiff suspirou. Paciência, não lhe restava
outra coisa, embora ninguém pudesse controlar o que fazia. De qualquer
maneira...
Fez a objetiva da câmera deslizar sobre o
terreno. Deslocou-a para o oeste, em direção à cadeia de montanhas. Foi uma
paisagem nada agradável que se estendeu diante de seus olhos. Nenhum homem
sensato pensaria em fixar sua residência por ali. Rochas pontudas sobressaíam por
entre matas ralas, formando grotas íngremes e profundas.
O formato regular da montanha logo lhe
chamou a atenção.
Num platô relativamente baixo, coberto por
uma vegetação rasteira e cercada de rochas íngremes, havia uma pequena montanha
solitária. Parecia ter chegado ali por acaso. Era feita em grande parte de
pedras soltas, mas em certos lugares aflorava a terra fértil. Apesar disso
nenhuma árvore crescia em sua superfície. Apenas alguns vestígios de grama rala
davam mostras da fertilidade daquele solo.
O pé da montanha tinha o formato de
meia-lua; o lado oposto era côncavo.
Alguma coisa dava a impressão de se tratar
de uma montanha artificial; talvez tivesse sido formada com os materiais
retirados da escavação de uma galeria.
Subitamente Tiff despertou, esquecendo-se
do que significava o tédio e a desilusão. Durante a conferência realizada antes
do ataque, Rhodan afirmara que a área ao redor da fazenda do Supercrânio era
desabitada. E agora descobria, a menos de dois quilômetros da casa destruída,
os vestígios de uma escavação recente.
Pete aproximou-se e olhou por cima de seu
ombro.
— Alguém andou procurando minério por aí —
constatou.
— E tirou toda essa sujeira da terra? —
perguntou Tiff.
— Naturalmente. Acredito que se trate de
uma galeria secundária da mina que deve ter existido por ali.
— Quando foi isso?
— As últimas escavações neste local foram
realizadas há vinte anos — disse Pete, lembrando-se das aulas recebidas em
Terrânia. — Mas não foram compensadoras, e por isso decidiu-se suspendê-las.
— Ah! — disse Tiff em tom de triunfo. Viu
suas suposições se confirmarem. — Tem alguma explicação para o fato de que
nesses dois decênios nem uma moita cresceu no montão de resíduos?
Pete calou-se, perplexo, e examinou mais
detidamente a imagem projetada na tela. Depois acenou com a cabeça.
— Isso é estranho.
— Acha que é? Pois também sou da mesma
opinião. Tenho certeza de que há pouco tempo...
Subitamente calou-se. Enquanto falava não
tirara os olhos do estranho monte de entulho. Como que por acaso seu olhar caiu
sobre o platô que o cercava e registrou uma alteração.
— Veja! A parte interna da montanha.
A rocha natural moveu-se junto à montanha
suspeita. Um pedaço circular de cerca de trinta metros de diâmetro deslizou
lentamente. Por baixo dele surgiu uma abertura negra, em cujo fundo brilhava
uma luz mortiça.
Era uma nave espacial! Um destróier do
mesmo tipo do seu, e idêntico ao que o atacara junto a Marte.
A aceleração da nave era tamanha que
dentro de poucos segundos atingiu a mesma altura da de Tiff e desapareceu
vertiginosamente no céu.
Mas finalmente Tiff reagiu.
— Ray, entre em contato com a Stardust-III
e avise Reginald Bell. Vamos perseguir essa nave.
Deu uma pancada na chave de partida,
colocando-a na aceleração máxima. Os campos gravitacionais foram ativados
automaticamente para neutralizar a súbita pressão.
— Pete, ocupe o canhão neutrônico. Ray
ficará, por cautela, junto ao canhão de popa, assim que tiver transmitido sua
mensagem.
A nave fugitiva já havia mergulhado entre
as estrelas. Tiff procurou uns cinco minutos com o binóculo antes de
localizá-la. Como fosse do mesmo tipo da Z-82, a distância entre as duas naves
dificilmente poderia ser reduzida. Mas era perfeitamente possível perseguir o
destróier e conservar o mesmo intervalo, assim que ambas as naves tivessem
alcançado a velocidade máxima.
A Terra foi recuando depressa,
transformando-se num globo verde-azulado. Ray saiu da sala de telegrafia e
sentou na poltrona junto a Tiff.
— Que surpresa! — exclamou. — Reginald
Bell praguejou terrivelmente. Mandou que procurássemos descobrir o destino da
nave. Talvez seja o Supercrânio que está fugindo. Assim que Rhodan confirmar
sua suspeita, ele nos seguirá. Pediu que mantivéssemos nosso rádio ligado para
recepção.
Tiff não tirou os olhos da tela.
A mancha conservava o mesmo tamanho. Os
números projetados na parte inferior da tela indicavam que o fugitivo se
encontrava a menos de dois mil quilômetros da Z-82. Continuava a acelerar e
dali a pouco atingiria um quarto da velocidade da luz.
Tiff olhou pela janela. Mais uma vez tinha
diante de si o espaço infinito
com suas maravilhas e perigos. E lá adiante um pequenino ponto luminoso corria
vertiginosamente por entre os milhares de estrelas, em busca de um destino
longínquo e desconhecido.
Sentiu um choque quando voltou a olhar
para a tela.
O tamanho da mancha aumentara.
A outra nave encontrava-se a apenas
quinhentos quilômetros.
Reduzira a aceleração.
* * *
Ras Tshubai materializou-se a menos de um
metro do mutante desconhecido, que se virou assustado, encarando o recém-vindo
como se o mesmo fosse um fantasma.
Era um japonês; Ras percebeu-o à primeira
vista. Tratava-se de um homem ainda jovem; empunhava uma pistola automática na
mão direita, que pendia molemente ao longo do corpo.
Ras teve a impressão de que o homem que se
encontrava a seu lado estava aguardando novas instruções, que não chegavam.
Encontrava-se sob influência hipnótica, e esse estado privava-o da liberdade de
movimentos e de decisão.
A dois metros dali havia uma porta,
resguardada por fechaduras magnéticas. Ras sabia que atrás dela ficava a
residência dos cientistas aprisionados.
Ras deu dois passos rápidos e tirou a arma
do japonês. Só a surpresa inaudita do outro livrou-o do uso de violência.
Depois de se apoderar da pistola
automática, Ras enfiou-a entre o cinto e o uniforme.
— Abra a porta que leva ao alojamento dos
cientistas — ordenou ao japonês.
Nesse instante ouviu um ruído às suas
costas. Passos e vozes. Olhou para trás e, na luz débil das lâmpadas,
reconheceu Rhodan e Tatiana. Deviam ter encontrado o elevador e descido por
ele.
Ras suspirou aliviado. Levantou o braço e
fez sinal para que se aproximassem. Nesse instante, o comando pós-hipnótico do
Supercrânio venceu a barreira que se opunha a ele. Ras viu que Rhodan e Tatiana
levantaram os projetores mentais e dirigiram-nos sobre ele. Recebeu uma ordem
absurda, a de não realizar qualquer ataque contra Ras Tshubai, isto é, contra
si mesmo.
É claro que esse comando era dirigido ao
japonês, que se dispunha a investir contra o africano. Estacou em meio ao
movimento, pôs a mão na cabeça num gesto de pavor, e depois, vencido pelo
esforço excessivo do cérebro martirizado, caiu lentamente ao solo, desmaiado.
Quando a pressão na cabeça de Ras Tshubai
cessou, ele se virou; viu que o japonês jazia imóvel. Rhodan e Tatiana se
aproximaram.
— Dois projetores mentais de uma só vez
são uma dose um pouco forte — explicou Rhodan em tom indiferente. — Se nos
tivéssemos lembrado disso antes, talvez o Supercrânio não tivesse escapado.
Onde estão os prisioneiros?
Ras apontou para a pesada porta de ferro.
— Ali.
E... desapareceu. Ressurgiu em menos de
dez segundos. Sorriu; parecia um tanto confuso. Rhodan lançou-lhe um olhar
ansioso e perguntou em tom preocupado:
— O que é isso, Ras? Os prisioneiros não
estão mais lá?
— Estão, sim — tranqüilizou-o o africano e
sacudiu a cabeça. — Mas esses cientistas são gente muito estranha.
Materializei-me no laboratório de um físico. Acredita que o sujeito se assustou
quando surgi ao lado dele que nem um fantasma? Nada disso. Mal levantou os
olhos quando, de uma hora para outra, apareci perto dele, olhando-o enquanto
estudava seus projetos. Limitou-se a fazer um gesto com a mão, como se quisesse
me espantar, e resmungou, dizendo que voltasse dentro de dez minutos.
Rhodan sorriu e dirigiu-se a Tatiana.
— Aposto que foi Glenner, o físico de fama
mundial.
Deu um aceno de cabeça em direção a Ras.
— Abra a porta. Não temos tempo para
esperar por Glenner. Poderá continuar seus trabalhos em Terrânia.
Ras se dirigiu à porta.
* * *
A distância entre o destróier Z-82 e a
nave fugitiva foi diminuindo com uma relativa rapidez. Já se encontravam a mais
de treze milhões de quilômetros da Terra, e a distância crescia constantemente.
A velocidade permanecia inalterada. Uma mensagem de Bell informou-os de que a
Stardust-III recebera ordem para também iniciar a perseguição. Ao menos, deviam
constatar para onde o Supercrânio pretendia fugir.
Pete parecia pensativo.
— Se quisermos liquidar o monstro
sozinhos, devemos nos apressar. Senão Bell nos passará para trás, e a glória
será dele. Eu o conheço.
Tiff lançou um olhar de censura para o
mexicano.
— Se eu fosse você, teria vergonha de
conceber uma idéia dessas. O Supercrânio é um inimigo do mundo, e pouco importa
quem o liquide; o importante é que seja liquidado. Ray procure entrar em
contato com a nave que está à nossa frente.
— Há uma ligação direta com a sala de
telegrafia. O senhor pode tentar, se quiser.
Tiff, satisfeito, efetuou as respectivas
ligações. Chamou o Supercrânio pela faixa geral de telecomunicação e passou à
recepção intensiva. Menos de dez segundos depois o rosto do inimigo do mundo
surgiu na tela. A calva reluzia fortemente e cheia de satisfação. Os olhos, que
pareciam acolchoados em meio à gordura, emitiam um brilho traiçoeiro e ameaçador.
Demonstrou um interesse visível por seus perseguidores. Com toda calma
examinou-os um por um, como se quisesse gravar seus rostos para todos os
tempos.
Tiff sentiu que aquele olhar gelado lhe provocava
um calafrio na espinha. Imaginou que com seus companheiros estaria acontecendo
a mesma coisa.
— O que deseja? — perguntou o Supercrânio
com uma calma apavorante, da qual não se poderia deduzir que se considerava
derrotado.
Tiff procurou se controlar.
— Desista da luta, Clifford Monterny —
disse. — Sua fortaleza em Utah caiu e seus mutantes se encontram sob o poder de
Rhodan. Não tem a menor chance. A qualquer momento poderá surgir o couraçado da
Terceira Potência.
Os olhos gelados pareciam esboçar um
sorriso ameaçador.
— Você é um idiota, meu jovem. Acha que
deixei que se aproximasse para ouvir um sermão? Acreditou realmente que iria me
entregar a você? Subestima minha pessoa e minhas intenções, meu caro. É
possível que ainda não saiba, mas vou lhe revelar um segredo. A comunicação
visual que estamos mantendo permitiu que eu captasse o modelo de suas ondas
cerebrais. Seu nome é Julian Tifflor, não é? E seus companheiros são Pete Maros
e Ray Gall. Pois bem; já devem ter uma idéia do que lhes acontecerá. Preciso
apenas de uma pequena vantagem. Vocês vão deter o couraçado por algum tempo.
Isso me bastará para encontrar um esconderijo no sistema solar. Peço-lhe que dê
um recado a Rhodan: um belo dia voltarei; e não voltarei sozinho.
A mão de Tiff projetou-se para a frente. A
tela se apagou de repente.
No mesmo instante um punho de ferro
parecia demolir sua consciência.
* * *
Bell e o major Nyssen, comandante dos
caças espaciais estacionados a bordo da Stardust-III, encontravam-se na sala de
comando da gigantesca nave esférica, olhando atentamente para a tela amplificadora.
Nyssen disse com a voz rouca:
— Esse Supercrânio é um sujeito estranho.
Por que está desacelerando?
Bell não tirou os olhos da tela, que
registrava ocorrências bastante estranhas. A nave do Supercrânio voltou a
acelerar e disparou pelo espaço. A proa apontava para o círculo de asteróides,
ignorando o planeta Marte, que se encontrava à sua direita.
Enquanto isso o destróier Z-82 continuava
a desacelerar e, descrevendo uma curva ampla, tomou o rumo contrário. A proa
apontava para a Stardust-III, que vinha da Terra.
— Será que Tifflor desistiu? — resmungou
Bell, espantado e estreitou os olhos. — Isso não combina com a idéia que faço
dele.
E o Supercrânio não pode estar atrás dele.
Não conhece Tifflor, nem qualquer dos outros dois homens que se encontram a
bordo da Z-82.
A Stardust-III não teria a menor
dificuldade em efetuar um pequeno salto espacial para alcançar o Supercrânio.
Acontece que num trajeto curto não havia possibilidade de fixar com precisão a
distância que seria percorrida. E no espaço normal o couraçado dos arcônidas
também não ultrapassava a velocidade da luz. Mas Bell acreditava que já
conhecia o lugar para onde o Supercrânio pretendia fugir, e isso tranqüilizou-o
um pouco.
Por enquanto suas preocupações diziam
respeito à Z-82 e aos seus tripulantes.
O destróier se aproximou da Stardust-III
numa velocidade vertiginosa e, a uma distância de cinqüenta quilômetros, abriu
fogo com o canhão de impulsos. Bell reduzira a velocidade de sua nave, para ter
melhores possibilidades de manobra. O campo energético foi ativado.
Os raios despejados pelo canhão do
destróier bateram no campo energético e foram desviados para o lado,
perdendo-se no espaço. Foram refletidos no mesmo ângulo em que se verificou o
impacto. Pouco antes de atingir a Stardust-III, a Z-82 subiu e, depois de
descrever uma curva ampla, repetiu a manobra absurda.
Bell sacudiu a cabeça e, dirigindo-se ao
major Nyssen, disse:
— É claro que temos de nos livrar deles,
pois do contrário não teremos sossego. Não posso imaginar como o Supercrânio
conseguiu submetê-los ao seu controle, mas não há dúvida de que conseguiu.
Enquanto não houver um choque que liberte Tifflor da influência a que está
sujeito, ele representará um perigo constante. Se o deixarmos, voltará à Terra
e atacará qualquer nave nossa que se coloque à sua frente. É bem possível que
alguém que não desconfiasse de nada fosse atingido pela desgraça. O Supercrânio
contou com isso mesmo. Sabe que não deixaremos Tiff na mão, e com isso daremos
a ele mesmo, isto é, a Monterny, a oportunidade de se colocar em segurança. Até
aí muito bem. Só gostaria de saber como poderemos fazer com que Tiff volte a
agir razoavelmente.
— O projetor mental — resmungou Nyssen. —
Tente.
— Teremos poucas probabilidades de êxito,
meu caro. Mesmo a uma distância muito reduzida torna-se difícil libertar alguém
de um bloqueio hipnótico. E, no nosso caso, os raios teriam de atravessar as
paredes de duas naves espaciais e dois campos energéticos. Será inútil; não
tenha menor dúvida.
— Que tal se déssemos um tiro na sua popa?
— sugeriu Nyssen. — Enquanto permanecer na sala de comando, nada poderá lhe
acontecer. Mas ficará privado da fonte de energia de que precisa para nos
atacar. Bell acenou lentamente com a cabeça.
— Nada mau para um caso de emergência —
reconheceu e refletiu desesperadamente para encontrar uma solução melhor. Não
havia dúvida de que a destruição de um destróier não representava uma perda
irreparável e compensava amplamente a vida de três seres humanos. Mas se isso
pudesse ser evitado, seria bem melhor.
Bell cocou a cabeça.
— Quando é que você se lembrará de pedir
auxílio a mim? — piou uma voz que quase chegava a ser encantadora.
O rato-castor estava sentado sobre as
patas traseiras, apoiando-se no rabo. Nos olhos fiéis do animal havia tanta
expectativa e dedicação que Bell teve vontade de se abaixar e afagar o
bichinho. Mas controlou seus impulsos.
Seu rosto assumiu a expressão severa de um
superior.
— Que auxílio poderíamos esperar de você?
— perguntou.
Num gesto de lástima, Gucky sacudiu a
cabeça e sorriu.
— Poderia brincar um pouco.
Bell sabia qual era a brincadeira de
Gucky. O rato-castor era um telecineta, e sua brincadeira consistia no uso das
capacidades sobrenaturais que possuía. Nas fases iniciais de sua amizade, isso
levou a muitos equívocos e, segundo uma recordação instantânea de Bell, até
mesmo os controles direcionais da Stardust-III tornaram-se vítimas da paixão
lúdica de Gucky: a nave foi atirada por alguns anos-luz através do hiperespaço.
— Brincar? — resmungou Bell. Parecia
pensativo. Um plano ainda vago começou a despontar em seu cérebro. — Se você
soubesse respeitar as regras do jogo, poderíamos falar a respeito. Você sabe
perfeitamente que Rhodan lhe proibiu que, quando não esteja autorizado
expressamente...
— Sei disso! — Gucky levantou a pata num
gesto dramático. — Acontece que sou o único mutante que se encontra a bordo da
nave; sou telecineta e teleportador ao mesmo tempo. Sou a única pessoa que pode
reduzir o destróier à inatividade sem destruí-lo.
Nyssen acenou animadamente com a cabeça.
— Gucky tem razão; não há dúvida — acudiu
ao rato-castor. — Devia imobilizar o reator.
— Está bem — disse Bell. — Gucky, peça ao
major Nyssen que explique como se imobiliza um reator.
— No fundo é bastante simples — disse o
comandante dos caças espaciais. — Basta que introduzamos a parede isolatória
entre os dois elementos ativadores. O fenômeno pode ser dirigido e regulado a
partir da sala de comando. Portanto, não nos adiantará interromper simplesmente
a comunicação entre o reator e a sala de comando. Tifflor é muito inteligente;
saberá corrigir o defeito em pouco tempo. Mas se realizarmos uma modificação no
reator, que não possa ser influenciada do lado de fora, estará reduzido à
impotência. O suprimento de energia do destróier terá sido eliminado. A nave
não poderá ser manobrada.
— E as baterias de emergência? — interveio
Bell.
— Dão apenas para a iluminação e para as
comunicações radiofônicas normais. Não lhe servirão para muita coisa.
Gucky aproximou-se e, olhando pela
escotilha, viu o destróier que mais uma vez se aproximava vertiginosamente,
antecedido pelos raios mortais despejados pelo canhão de impulsos. Sacudiu a
cabecinha, num gesto que quase chegava a ser humano.
— Preciso conhecer a situação exata do
reator — chiou.
Nyssen pegou uma folha de papel e um lápis
e esboçou um desenho. Dele se concluía que o reator ficava no terço traseiro da
nave. Pegou uma segunda folha para detalhar o reator e sua estrutura.
— Neste compartimento ficam os dois
elementos, Gucky. Aqui está a parede divisória. Ela é sustentada por meio de
campos magnéticos pequenos, mas muito intensos. Caso suas forças sejam
suficientes, você poderá isolá-la desses campos. Depois disso bastará torcer ou
quebrar um dos pólos. E não haverá força do mundo que consiga levantar a parede
divisória para ativar o reator.
Gucky exibiu seu dente roedor.
— A não ser eu — chiou confiante de si
mesmo e acrescentou: — Hei de conseguir. Deixem-me algum tempo para que possa
me concentrar. Não quero que ninguém me perturbe.
Bell reprimiu uma resposta. Seus olhos
estavam presos à tela, onde se destacava a imagem da Z-82, bastante ampliada.
Tiff estava lançando outro ataque;
aproximava-se numa velocidade tresloucada.
* * *
Uma idéia martelava continuamente o
cérebro de Tiff: aquela esfera de oitocentos metros de diâmetro era sua
inimiga. Teria que atacá-la sem cessar, devia detê-la até que o Supercrânio se
encontrasse em segurança.
Tiff raciocinava perfeitamente e, às
vezes, chegava a refletir sobre o motivo por que, de uma hora para outra, Rhodan
se transformara em seu inimigo e o Supercrânio num aliado. Mas não encontrou
nenhuma resposta, e prosseguiu nos seus ataques.
Com uma obediência mecânica Pete e Ray
controlavam as armas de bordo, despejando raios do desintegrador e do canhão de
impulsos contra a Stardust-III, que se mantinha tranqüila na imensidão do
espaço. Não se deram conta do fato de que um único impulso energético despejado
pela nave poderia romper seus campos protetores e destruí-los.
Passaram ao vigésimo ataque.
A Z-82 descreveu uma curva e, sem diminuir
a velocidade, precipitou-se sobre o inimigo. Sentado em sua torre, Pete
comprimiu os botões que acionavam as peças de artilharia. Ray, sentado junto ao
radiador de popa, aguardava que o destróier voltasse a se afastar.
Mas dessa vez não aconteceu nada.
A Z-82 prosseguiu em linha reta em direção
à Stardust-III, sem que os canhões fossem ativados.
Tiff demorou um pouco a perceber a
alteração, pois sua atenção estava concentrada totalmente na tarefa de se
aproximar o mais possível da nave esférica, para aumentar o efeito dos raios
mortíferos. No último instante procurou ativar os jatos direcionais, para
passar o mais perto possível da Stardust-III, dando oportunidade a Ray para
despejar o fogo de seu canhão sobre o inimigo.
Empurrou a alavanca para a direita, mas a
Z-82 manteve o mesmo curso.
A nave esguia penetrou no campo energético
do couraçado, atingiu-o num ângulo bastante aberto e prosseguiu quase sem
nenhuma alteração de rota. O impacto conferiu-lhe um ligeiro movimento.
O suprimento de energia fora eliminado por
completo. Os campos gravitacionais destinados à neutralização de pressões
deixaram de existir. O impacto contra o campo energético atirou Tiff para fora
do assento. Seu corpo cruzou o ar da sala de comando. Não conseguiu impedir que
sua cabeça batesse contra um suporte. Por um instante perdeu a consciência, mas
ainda pôde constatar, espantado, que perdera o peso.
Pete e Ray tiveram um destino semelhante.
De uma hora para outra o mexicano estava pendurado no teto, de cabeça para
baixo, e tentou em vão se aproximar dos controles do canhão, para prosseguir no
bombardeio insensato. Ray teve menos sorte. Caiu de lado e bateu com a cabeça
contra o painel de controle do radiador de nêutrons. Logo perdeu a consciência.
* * *
Bell seguiu a nave de Tifflor com os
olhos. Depois se dirigiu ao rato-castor, que já havia regressado.
Nada revelava o esforço que tivera que
fazer, muito embora se tivesse teleportado para a sala do reator da Z-82 e
exercido uma atividade telecinética.
O animal passou a mão pelo nariz e
bocejou. De repente soltou um chiado, sorriu satisfeito e exibiu seu único
dente roedor.
— Não foi nada fácil. Gostaria de saber
quem inventou esse dispositivo de separação. Mal consegui movê-lo.
— Mas conseguiu — exultou Bell e
abaixou-se para afagar o pêlo de seu pequeno amigo. — Nosso colega Tiff ficou
sem energia. Se não o pescarmos no espaço, acabará visitando o planeta Plutão.
O major Nyssen apontou para a tela;
parecia preocupado.
— Está na hora.
— Vamos ancorar a nave, tirar os
pobres-diabos de lá e submetê-los ao tratamento do Dr. Manoli. Este lhes
ensinará quem é seu mestre e amigo.
Acelerando ao máximo, a nave esférica saiu
em disparada atrás do destróier desgovernado.
7
Allan D. Mercant não gostava de sair de
seu quartel-general. Mas o convite de ir a Terrânia, formulado por Rhodan,
tinha um tom oficial e insistente. Além disso, parecia que não era o único
convidado; mais tarde tal suposição se confirmaria.
Em poucas horas o avião a jato levou-o
para a Ásia. Quando, no aeroporto de Terrânia, saía do avião com as pernas
endurecidas e percorria a distância que o separava da barreira, outro avião
pousou. Cinco minutos depois, reconheceu o passageiro solitário: era o
presidente da Federação Asiática. Também ele não foi recepcionado por qualquer
delegação. Só e um pouco espantado, caminhou em direção a Mercant.
— O senhor por aqui? — murmurou, enquanto
seu espanto crescia. Estreitou os olhos e estendeu a mão para o chefe da
Federação de Defesa da Terra. — Também veio a convite?
— Sem isso não teria vindo — respondeu
Mercant e apertou a mão de seu interlocutor. — Não quis perder as revelações
importantes que Rhodan deverá fazer.
O presidente da Federação Asiática, um
chinês alto, robusto e de traços inteligentes, sacudiu a cabeça.
— Nem se deram ao trabalho de nos receber.
Será que teremos que andar até Terrânia?
— Lá fora não faltam táxis — observou
Mercant, recordando um fato que observara por ocasião de sua última visita à
capital da Terceira Potência. — É possível que Rhodan não queira chamar a
atenção de ninguém.
O chinês sacudiu os ombros, apertou a
estreita pasta de diplomata embaixo do braço e caminhou em direção à saída.
— Pois venha comigo. Espero que tenha
dinheiro trocado para pagar o táxi.
— Aqui os táxis não custam nada —
tranqüilizou-o Mercant e esboçou um sorriso condescendente. — O que mais me
impressiona é que, em comparação com as outras vezes, o movimento no aeroporto
é bastante reduzido. Não se vê quase ninguém.
Na barreira estava sentado um robô arcônida
de serviço, que os deixou passar sem submetê-los a qualquer controle. Mercant
supôs que o modelo de ondas cerebrais dos dois homens estivesse registrado em
sua memória positrônica. Isso significava que todos os detalhes de sua recepção
haviam sido preparados.
Se fosse assim, por que não haveria
nenhuma delegação para recepcioná-los, como era usual nas visitas de
estadistas?
Resolveu não pensar mais no assunto.
Rhodan nunca agia sem um motivo. Sua conduta devia inspirar-se em razões
poderosas. Enquanto atravessava a praça fronteira ao aeroporto, em direção aos
táxis, rememorou o texto do convite recebido de Rhodan. Fora concebido em
termos bastante lacônicos:
Allan D.
Mercant, chefe da F.D.T., é convidado a participar de uma sessão extraordinária
dos representantes da Terceira Potência e dos outros blocos da Terra. Trata-se
do esclarecimento de questões de importância vital para todos.
Perry Rhodan Presidente da Terceira Potência.
Um africano abriu a porta do táxi, esperou
até que tivessem entrado e levou-os pelo caminho mais rápido à metrópole
moderna. As tentativas de Mercant, que pretendia entrar em conversa com o
motorista, falharam diante do mutismo crônico deste. Além disso, o motorista
fez de conta que nem sabia que estava transportando passageiros tão importantes.
Mercant logo esqueceu seus problemas.
Tinha debaixo de seus pés a cidade mais moderna do mundo, com os arranha-céus
que pareciam tocar as nuvens, as ruas largas e as imensas áreas verdes. O táxi
voador passou a pequena altura por cima da praça de concreto no centro da
cidade, em torno da qual se agrupavam as repartições do governo da Terceira
Potência.
A praça não estava vazia.
Mercant ficou perplexo ao notar que um
verdadeiro exército estava formado na mesma. Lá de cima não podia reconhecer os
detalhes, mas percebeu alguma coisa. Aquilo não era um simples desfile de
soldados. Viam-se peças de artilharia pesada montadas nos respectivos veículos.
Os blindados com o revestimento impenetrável de arconita rolavam por entre
elas.
O presidente da Federação Asiática
estreitou os olhos e contemplou o espetáculo militar. Pigarreou e, dirigindo-se
a Mercant, disse:
— Será que isso tem alguma coisa a ver com
nossa conferência?
Mercant deu de ombros.
— Não sei, mas talvez Rhodan tenha a
gentileza de explicar a finalidade do espetáculo. Talvez se trate de um simples
desfile em homenagem aos homens que derrotaram o Supercrânio.
O chinês esboçou um ar incrédulo.
— Pelo que sei, o Supercrânio conseguiu
fugir. Rhodan apenas conseguiu ocupar um de seus esconderijos.
Mercant sentiu que o aborrecimento
ameaçava tomar conta de seu espírito.
— Por que diz apenas? Afinal, Rhodan
conseguiu libertar doze mutantes da influência desse homem terrível. Até chego
a recear que o senhor não conheça o perigo em que nos encontrávamos. Devemos
ser muito gratos a Rhodan, porque ele conseguiu quebrar o poder do Supercrânio.
— Acho que, no fundo, o tal do Supercrânio
foi inimigo de Rhodan, não nosso — ponderou o presidente da Federação Asiática.
Mercant percebeu que o táxi descia e preparava-se
para pousar. Resolveu mudar de assunto.
— É bem possível que daqui a pouco
saibamos mais alguma coisa. Pelo que vê, estamos pousando no heliporto do
governo. Isso demonstra que o piloto sabe perfeitamente quem são os passageiros
que está transportando. Deixemos que eles nos surpreendam.
Pousaram numa pequena área circular
coberta de areia branca. Ali se tornou patente que estavam sendo esperados. Reginald
Bell, acompanhado de dois oficiais, aproximou-se em atitude quase solene.
Cumprimentou em primeiro lugar o presidente da Federação Asiática, e depois,
com um olhar que suplicava compreensão, dirigiu-se a Mercant.
— Cavalheiros, os senhores estão
atrasados. Os outros hóspedes já estão impacientes à sua espera. Queiram me
acompanhar.
Não era uma pergunta, mas uma intimação.
Antes que Mercant pudesse dizer qualquer coisa, Bell girou sobre os calcanhares
e pôs-se a caminhar à sua frente. Cada um dos oficiais colocou-se de um lado
dos hóspedes e depois seguiram seu ministro da segurança.
Mercant não deixou de lançar um rápido
olhar para as tropas formadas na praça central. Seria difícil deixar de notar
essa demonstração de poderio.
Sentiu um choque ao perceber que os
soldados na verdade não eram soldados. Eram robôs reluzentes, armados com
pesados radiadores de impulsos. Também as peças de artilharia estavam ocupadas
por robôs. Não se via uma única pessoa.
O estranho silêncio e a imobilidade
daquele exército invencível impressionaram Mercant a tal ponto que seguiu o
homem que caminhava à sua frente com uma sensação de desamparo. Fazia votos de
que também o presidente da Federação Asiática sentisse a ameaça implícita que
havia em tudo aquilo.
Mas logo se corrigiu. Era uma advertência,
pensou.
* * *
Encontraram-se numa sala pequena e
simples. Uma das paredes era formada por uma tela superdimensionada, que no
momento não se encontrava em atividade. Quatro homens estavam reunidos em torno
de uma mesa semicircular: Mercant, os presidentes da OTAN, do Bloco Oriental e
da Federação Asiática.
A sua frente, num plano um pouco mais
elevado, estavam cinco pessoas. No centro encontrava-se Perry Rhodan, à sua
direita seu representante, o coronel Freyt, e à direita deste, Bell. À sua
esquerda Crest e Thora, os dois arcônidas, exibiam-se de rosto impassível.
As mãos de Rhodan estavam pousadas sobre
uma caixinha, na qual se viam dez botões vermelhos. Ao lado dos botões
encontravam-se pequenas placas, nas quais estava escrita alguma coisa.
Levantou a cabeça e lançou um olhar de
expectativa para os homens que o contemplavam. Em seus olhos havia um sorriso
sutil, mas também um brilho frio, que parecia advertir de alguma coisa.
— Cavalheiros — principiou Perry Rhodan
com uma amabilidade que formava um contraste marcante com a atmosfera que o
cercava — devem ter ficado admirados com este convite para uma conferência em
Terrânia. Têm todos os motivos para isso. Mas não os deixarei na incerteza por
muito tempo. Permitam que lhes dê algumas explicações antes de formular minhas
exigências.
O presidente da Federação Asiática se
inclinou para a frente.
— Exigências? — disse, entre espantado e
incrédulo.
Bell deu-lhe um sorriso amável de lado.
Rhodan acenou com a cabeça; seu rosto continuou impassível.
— Exigências, sim; o senhor compreendeu
perfeitamente, senhor presidente. Mas peço-lhe que, por enquanto, não se
preocupe com isso. Há outras coisas que devem interessá-lo muito mais. Ou
melhor, que devem interessar a todos.
Lançou os olhos para a caixinha e apertou
um dos botões.
A enorme tela estava ao alcance da vista
de todos; parecia uma tela de cinema.
Não havia muita iluminação na sala, motivo
por que as imagens coloridas e bem formadas pareciam ter muita vida.
Os espectadores deram sinais de espanto
quando viram o que Rhodan pretendia lhes apresentar. Eram filmes que já
conheciam. Parte dos acontecimentos retratados nos mesmos passara-se nos
territórios submetidos à sua soberania, e ainda guardavam uma lembrança nítida
dos mesmos.
Greve dos operários de Detroit, Estados
Unidos da América.
Atentado contra os delegados do Bloco
Oriental por ocasião de sua visita a Londres e complicações diplomáticas
resultantes do incidente.
Revolta de trabalhadores na Sibéria.
Perseguições raciais nos Estados Unidos.
Aumento da criminalidade no Japão.
Fome na China em virtude do fracasso dos
nutricionistas.
Os acontecimentos desfilaram numa
seqüência incessante, sem comentário e som. Com isso a impressão tornou-se mais
realista.
Subitamente a tela se apagou. Os quatro
homens lançaram um olhar indagador para Rhodan. Depois de algum tempo o
presidente da OTAN pigarreou.
— Qual é a finalidade disso? Já conhecemos
esses fatos retratados nos semanários. Tenho certeza de que o senhor não nos
pediu que fizéssemos a viagem para ver isso.
— Correto! — confirmou Rhodan e colocou o
dedo no outro botão. — Olhem o resto.
Seguiram-se cenas de filmes mais velhos,
sobre as guerras de 1914-1918, 1939-1945 e a breve guerra atômica que fora
reprimida no nascedouro graças à intervenção de Rhodan. Também essas cenas
desfilaram sem qualquer comentário.
Quando a tela escureceu, Rhodan tirou a
mão de cima da caixinha. Fitou os quatro homens:
— Os senhores acabam de ver as causas e os
efeitos. Toda guerra tem suas causas. Se acreditamos que já eliminamos essas
causas, estamos enganados. O registro cinematográfico das causas constitui
prova cabal disso. As revoluções, as greves, o descontentamento e os confrontos
violentos continuam a ocorrer. A desconfiança ainda lavra entre os membros de
uma raça que já ultrapassou o limiar de uma nova era. Os senhores sabem de tudo
isso. Mas não sabem que a um só homem cabe boa parte da responsabilidade por
esses fatos causais. Refiro-me ao Supercrânio.
Os ouvintes se movimentaram. Mercant se
inclinou para a frente e fitou os olhos de Rhodan. Uma ruga vertical surgiu em
sua testa, mas a boca já aberta permaneceu muda.
— O Supercrânio? — perguntou o presidente
do Bloco Oriental em tom incrédulo.
— É responsável por grande parte dos
acontecimentos — confirmou Rhodan com um sorriso frio. — O resto é culpa dos
senhores. Isso mesmo, é culpa dos senhores. Têm dificuldade em superar o
passado. De qualquer maneira o exemplo do Supercrânio provou que um mundo
desunido sempre pode ser submetido à vontade de um indivíduo, desde que esse
indivíduo seja um mutante positivo revestido de traços de caráter negativo. Pois
bem. Destruí o quartel-general do Supercrânio; mas nem por isso o perigo foi
eliminado. Mesmo que ele estivesse morto, não poderíamos pensar assim. Os
Supercrânios voltarão a surgir, sempre e sempre.
Apertou outro botão. Na tela surgiu uma
reprodução fiel do Universo. No primeiro instante os espectadores não
conseguiram identificar o setor do espaço que estava sendo projetado na tela.
Mas logo reconheceram uma estrela chamejante, chamada nova.
— Isso — disse Rhodan com uma calma
apavorante — já foi um sistema solar igual ao nosso. Também nele havia um único
planeta habitado. Seus habitantes eram uma raça inteligente e ativa, mas também
eram ambiciosos e de mentalidade estreita em sentido cósmico. Construíram as
armas mais eficientes, e utilizaram-nas para se ameaçarem uns aos outros. Um
belo dia, quando os tópsidas, uma raça de seres inteligentes em forma de
crocodilo, encontraram o sistema, eles o atacaram e destruíram. Não encontraram
qualquer resistência, pois seus habitantes estavam ocupados em dificultar a
vida uns dos outros. Bem, de uma hora para outra ficaram livres de suas
preocupações.
Rhodan apontou para a nova flamejante.
— O que restou de seu sol e dos onze
planetas foi só isso.
O quadro se apagou.
Um silêncio ansioso reinava na sala.
Rhodan pigarreou.
— Pelo que vejo, entenderam o sentido das
minhas palavras. Pois bem. Eu lhes pergunto: querem que um belo dia nosso sol
também seja transformado numa nova flamejante, incendiada pelas forças
terríveis de uma inteligência extraterrena?
— Temos força suficiente para repelir
qualquer ataque — objetou o presidente da Federação Asiática.
— Os senhores dispõem de armas — disse
Rhodan com um gesto zombeteiro e trocou um olhar com Mercant que, segundo sabia,
estava de seu lado. — Mas para que adquiriram essas armas? Para defender sua
Federação Asiática. Essas armas só terão um sentido quando forem construídas no
intuito de servirem à defesa da Terra. Mas voltemos ao Supercrânio. Seus
mutantes revelaram que ele fomentava a desunião entre os homens, instigava
revoltas, causava greves e preparava guerras. É um hipno, cavalheiros. Impôs-se à vontade de políticos influentes e
dirigiu-a segundo seu arbítrio. É possível que tenha exercido influência até
sobre os senhores. Recomendo-lhes que aproveitem a pausa que nos foi
proporcionada. Reflitam seriamente sobre a maneira de amalgamar a Federação
Asiática, o Bloco Oriental, e o Ocidente sob um único governo. Minha exigência
é esta. Hão de reconhecer que não constitui nenhuma novidade. A novidade é o
prazo que agora lhes fixo. Se dentro de um ano o governo mundial não se tiver
transformado em realidade, eu o imporei com as forças de que disponho.
Mercant contemplou a tela vazia; seu rosto
permaneceu inalterado.
Os três presidentes levantaram-se e
encararam Rhodan. Defrontaram-se com o olhar frio do mesmo e voltaram a cair
nas suas poltronas. Os rostos dos arcônidas continuaram inexpressivos. O
coronel Freyt e Bell esforçaram-se para reprimir o riso.
— Poderemos realizar algumas conferências
preparatórias — disse o presidente da OTAN, falando com esforço. Lançou um
olhar de desespero aos colegas. — A organização de um governo mundial...
— Não é tão difícil — interrompeu-o
Rhodan. — Façam de conta que um perigo terrível ameaça a Terra. Ficarão
admirados com a rapidez da solução. Aliás, posso lhes assegurar que esse perigo
não existe apenas na imaginação. O Supercrânio continua vivo e ainda não se deu
por vencido.
— Pensaremos no assunto — disse o
presidente do Bloco Oriental.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não pensem, ajam! — exigiu. — E isso
aplica-se a todos. Acostumem-se com a idéia de que um belo dia terão que
conviver pacificamente com lagartos, aranhas, ou sejam lá quais forem as
inteligências do cosmos. Cavalheiros, a decisão final sobre a maneira da
constituição e a finalidade do governo mundial pertence aos senhores. A decisão
sobre a formação ou não deste governo cabe a mim.
Pela primeira vez Rhodan voltou a sorrir.
— E, acreditem ou não, essa decisão já foi
tomada.
Deu um aceno de cabeça em direção a Bell.
O ministro da segurança da Terceira
Potência se levantou.
— A conferência está encerrada, senhores.
Permitam que os convide a assistirem a uma parada militar que será realizada em
sua honra. Depois disso programamos uma recepção do corpo diplomático. Ainda
hoje de noite nossos aviões os levarão de volta para sua pátria. Queiram me
acompanhar.
Os presidentes seguiram-no em silêncio. Ao
que parecia nenhum deles estava percebendo que Mercant ficara para trás, tendo
sido levado a uma sala contígua por Rhodan.
* * *
— ...portanto, é imperioso que não
descansemos enquanto o Supercrânio não tiver sido definitivamente liquidado,
Mercant. Eu ficarei na Terra, enquanto Bell perseguirá o fugitivo. Já formamos
uma pequena frota.
O chefe dos serviços secretos reunidos da
Terra fez um gesto de aprovação, mas não ocultou seu ceticismo.
— O sistema solar é muito grande, Rhodan.
Como encontrar um homem? Não tem nenhuma pista, nenhum indício, absolutamente
nada.
— Está enganado — disse Rhodan com um
sorriso e levantou os olhos quando viu Bell entrar. — Temos um indício. Além
disso, também aqui a velha regra de que todo criminoso comete algum engano
encontrará sua confirmação. O Supercrânio não é um homem que se recolhe à inatividade
enquanto dispuser de um trunfo.
— Um trunfo?
Mercant levantou a cabeça e lançou um
olhar indagador para Rhodan.
— Isso mesmo, um trunfo. Trata-se de um
mutante ainda desconhecido, que possui faculdades que também não conhecemos.
Foi o que conseguimos saber dos mutantes libertados. Ninguém sabe exatamente do
que se trata, mas deve ser uma coisa terrível. Estou convencido de que o
Supercrânio não demorará em lançar mão desse trunfo. Ali estará nossa chance,
se tivermos sorte.
Bell torceu o rosto e sentou perto dos
dois.
— Mais uma vez a cobaia serei eu. Quando devo
decolar?
— Dentro de uma semana — disse Rhodan. —
Então, o que acharam os presidentes da parada realizada em sua honra?
— Estão muito impressionados — disse Bell,
rindo com satisfação. — Acho que apresentarão uma sugestão para que as
negociações tenham início na semana que vem. Assim você terá que fazer alguma
coisa enquanto eu estiver percorrendo o sistema solar em busca daquele cabeça
de estouro.
— Cabeça de estouro?! — perguntou Mercant,
estupefato.
— Supercrânio... Supercabeça — explicou
Rhodan. — Bell gosta de dar apelidos às pessoas. Assim, por exemplo, costuma
chamar o senhor de...
— Não conte! — pediu Bell e se levantou.
Retirou-se até a porta, entreabriu a mesma e, quando se encontrava quase em
segurança, disse: — Agora pode contar, se quiser.
E fechou a porta.
Mercant piscou para Rhodan.
— Então?
— Ele o chama de Sherlock Holmes Terrano,
se não estou enganado.
Mercant sacudiu a cabeça; estava radiante.
— Ora, ele não precisaria ter fugido por
causa disso. O apelido até me lisonjeia bastante.
Perry Rhodan, como que casualmente,
contemplou suas unhas.
— Há outro detalhe, meu caro Mercant. Para
certas pessoas, Bell inventa dois apelidos, porque um só não lhe parece
suficiente.
— Dois apelidos? — perguntou Mercant cheio
de pressentimentos, passando a mão pela calva cercada da coroa de cabelos
louros. Parecia pensativo. — Será possível? E eu também tenho outro apelido?
Rhodan fez que sim. Procurava se manter
sério.
— Qual é o outro? — insistiu Mercant,
cheio de curiosidade.
— Cabeça de luar.
Parecia que alguém havia derramado uma tina
de água sobre a cabeça de Allan D. Mercant. Este lançou um breve olhar para a
porta fechada, suspirou resignadamente e disse:
— Vamos falar sobre coisas mais
importantes.
Dali a dois minutos haviam esquecido
Bell...
* * *
* *
*
O duelo
dos mutantes foi decidido. A grande maioria dos homens que o Supercrânio quis
submeter ao seu domínio hipnótico foi libertada e, uma vez submetidos a um
processo de reorientação, poderão se transformar em valorosos combatentes da Terceira
Potência.
Mas o
Supercrânio não foi capturado, e é ali que está o maior perigo. Enquanto ainda
existirem pessoas submetidas ao domínio do hipno, a ameaça continuará de pé.
O
Domínio do Hipno, este é o título do
próximo volume da série Perry Rhodan.

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