domingo, 11 de novembro de 2012

P-026 - Duelo de Mutantes - Clark Darlton [parte 3]


Os robôs marchavam inexoravelmente, seguidos pelos soldados.
Deviam ter percorrido mais ou menos metade dos duzentos metros que separavam a nave da casa. Menos de cem metros deviam faltar até chegarem à casa; eram cem metros formados por grama ressequida e algumas árvores. Entre elas havia um monte de pedras muito bem empilhadas junto a um monte de lenha. Tudo recendia a uma pacífica atividade agrária.
Talvez essa impressão tivesse sido enfatizada demais.
Rhodan, sentado atrás dos controles da sala de comando da Good Hope-V, esperava que alguma coisa acontecesse. Embora os canhões do Supercrânio tivessem sido inutilizados, ele não estava liquidado. Um homem que pretendia conquistar o mundo não se contentaria com uma única chance; iria no seguro.
Restava saber qual seria o próximo recurso de que lançaria mão. Bem, Rhodan não ficaria na ignorância por muito tempo.
Subitamente a primeira fila de robôs parou, como se tivesse esbarrado numa muralha invisível. Um deles cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu de costas, permanecendo estendido no solo. Os outros — Rhodan mal acreditava no que via — foram levantados do solo e subiram ao ar num movimento lento e irregular. Lá em cima começaram a girar em torno de seu eixo e derivaram para o lado.
Alguns começaram a disparar insensatamente. O recuo das armas de impulso conferiu-lhes um movimento em sentido contrário. Giraram que nem rodas de fogo em direção à superfície, expelindo raios mortíferos. Alguns deles foram reduzidos à inatividade pelos soldados, numa luta corpo a corpo.
A segunda fila de robôs foi alvo de uma operação já treinada. Os mutantes do Supercrânio aprendiam depressa. As cinco obras de arte da eletrônica foram atiradas pelo ar por uma força invisível e bateram com toda força contra o campo energético da Good Hope-V, ativado às pressas. Caíram ao solo sem forças e permaneceram imóveis. Suas vísceras ultra-sensíveis não haviam sido feitas para resistir a tamanha provação.
Antes que a terceira fila de robôs pudesse ser colocada fora de combate através da mesma manobra, houve um outro acontecimento com o qual Rhodan, no íntimo, já contava.
Os soldados de seu pequeno exército passaram a adotar um comportamento muito estranho. Alguns dos homens sentaram na grama, largaram as perigosas armas de radiações e passaram a desembrulhar seus mantimentos de reserva. Ao que parecia pretendiam realizar um piquenique antes de se lançarem ao ataque.
São telecinetas e hipnos”, pensou Rhodan com certa dose de desespero.
De qualquer maneira os mutantes de Monterny tinham um certo humor. Se não fosse assim, teriam ordenado aos soldados que se matassem uns aos outros.
O contragolpe de Rhodan não se fez esperar. O êxito de tudo dependia da circunstância de que o Supercrânio tivesse entrado em ação pessoalmente ou tivesse deixado tudo por conta de seus mutantes. Pelo que se concluía das experiências feitas até então, o Supercrânio era o único mutante que sabia impor sua vontade contra os efeitos do projetor mental.
O telepata John Marshall fez um sinal para Tatiana. A jovem russa, ansiosa por redimir-se dos erros do passado, saltou pela escotilha da Good Hope-V e correu a toda pela rampa. Sua mão segurava um bastão prateado. Apontou-o numa direção que demonstrava conhecer ela perfeitamente a posição do quartel-general subterrâneo. O bastão foi apontado para a superfície da terra, num ponto situado à esquerda da casa.
A imagem de Tatiana estava na tela de Rhodan. Este aumentou o quadro e procurou ler seus pensamentos na testa. John Marshall saberia identificar os comandos transmitidos através de seus pensamentos.
O resultado de seus esforços surgiu dentro de um minuto. Na verdade, era espantoso.
Os robôs que ainda se encontravam no ar perderam seu suporte invisível e caíram ao solo. Alguns poucos caíram de tal forma que logo conseguiram se erguer. Prosseguiram sua marcha em direção à casa, como se não tivesse acontecido nada; atiraram por todos os braços, transformando a sede da fazenda num montão de destroços fumegantes.
Os soldados, tão entretidos na agradável atividade de lanchar, interromperam-se subitamente. Por uma fração de segundo olharam espantados para as latas de conserva abertas e as facas de cortar pão; logo deixaram cair tudo e correram atrás dos robôs.
Tatiana permaneceu no mesmo lugar, cuidando para que os mutantes de Monterny não pudessem mais exercer qualquer influência sobre os homens de Rhodan. Mas sabia que a parte mais difícil de sua tarefa ainda se encontrava pela frente. Evidentemente não conhecia todos os detalhes do quartel-general; não sabia quantos homens se encontravam abrigados nas galerias de rocha, bem embaixo da terra. Mas imaginava que o Supercrânio devia guardar outras surpresas em seu arsenal.
Tinha que encontrar um meio de convencer um dos mutantes a abrir uma segunda entrada. O projetor mental devia oferecer uma possibilidade para isso.
Os robôs e os soldados pararam diante dos destroços fumegantes da casa. Ali não havia mais nada a fazer. Se a entrada para o labirinto subterrâneo ficava na casa, fora inutilizada. Ninguém poderia penetrar na terra ou dela emergir por ali.
Tatiana reduziu ligeiramente a intensidade do bloqueio defensivo que cercava seu cérebro, para poder absorver alguns pensamentos vindos de fora. Concentrou-se no modelo já conhecido das ondas cerebrais do Supercrânio e procurou estabelecer contato com ele. Teve cuidado para que o projetor mental apontasse constantemente para a sala de comando da fortaleza subterrânea, e manteve-se preparada para, a qualquer momento, fechar o bloqueio defensivo.
De repente a voz do Supercrânio, debilitada pelo bloqueio defensivo, surgiu em seu cérebro.
Tatiana, você agiu de modo contrário às minhas ordens e traiu nossa boa causa. Você passou para o lado dos traidores da Humanidade e...
Basta de frases vazias”, pensou Tatiana concentradamente em resposta à mensagem do Supercrânio. Sentiu-se fortalecida pela certeza de que John Marshall poderia ouvi-la e transmitiria o conteúdo da palestra diretamente a Rhodan. “Sua obra é feita exclusivamente de frases vazias e violência oculta atrás das mesmas. Descobri suas manhas, Clifford Monterny! Você abusou do meu idealismo.
Não diga bobagens!”, retrucou o Supercrânio, sem fazer qualquer tentativa de exercer uma influência hipnótica sobre ela. Conhecia suas faculdades. “Contra os meus mutantes você não tem a menor chance.”
As armas de Rhodan são superiores às suas, Monterny. E os mutantes dele são mais numerosos e capazes. Desista.”
Uma risada silenciosa de deboche atravessou o cérebro de Tatiana e de Marshall.
Desistir?”, ironizou o Supercrânio. “Se eu desistir, o mundo acabará comigo. Se Rhodan tiver que dominar, ele o fará sobre uma terra despovoada.”
Obrigada”, pensou Tatiana tranqüilamente. “Você acaba de proferir sua sentença de morte. Tente dar uma ordem aos seus mutantes. Veremos quem é mais forte: você ou nós.”
Espere mais um pouco”, pediu o Supercrânio em tom de deboche. “Você só poderá levar vantagem se esperar. Talvez consiga influenciar meus mutantes. Acontece que o tal do projetor mental não tem qualquer efeito sobre mim. E ninguém me impedirá de neste instante transmitir instruções aos meus agentes, que aguardam em todos os cantos do mundo, para que executem as ações para as quais estão preparados há longo tempo.”
É possível”, reconheceu Tatiana. “Mas acontece que de nada lhe adiantará transmitir essas ordens, pois você não conseguirá entrar em contato com seus agentes. Estes já foram presos pelos serviços de segurança da Terceira Potência. Estão reduzidos à inatividade. Até parece que você se esquece de que Rhodan também tem um Exército de Mutantes.”
A maldição apenas pensada por Supercrânio foi mais terrível que quaisquer palavras. Traiu sua impotência. Naquele instante Rhodan soube que o poder de seu inimigo havia sido rompido. Se conseguisse penetrar na fortaleza subterrânea...
Tatiana não perdeu tempo.
Seus pensamentos tatearam e localizaram Roster Deegan. Com o apoio do projetor mental transmitiu-lhe uma ordem insistente:
— Roster, abra a saída de emergência.

* * *

O Supercrânio sentiu que Tatiana se afastou dele e estabeleceu contato com seu telecineta. Imaginava o que desejava dele e decidiu aproveitar a oportunidade para tirar a prova.
Como telepata que era, compreendeu a ordem que Tatiana transmitiu através de seus pensamentos. Acontece que não era apenas um telepata, mas também um hipno. Deu a contra-ordem.
Roster parou indeciso em meio ao movimento que ia executar; lentamente voltou a sentar. O Supercrânio era mais forte que o projetor mental. Monterny começou a exultar; mas Roster voltou a se levantar. A passos lentos dirigiu-se para a porta e foi ao corredor.
Por um instante, Supercrânio, perplexo, seguiu-o com os olhos. Mas logo praguejou e voltou a ativar seus dons hipnóticos com uma intensidade ainda maior. Mas percebeu logo que uma resistência tremenda se lhe opunha, uma resistência que não conseguia vencer. Não sabia que nesse meio tempo André Noir, o hipno de Rhodan, havia entrado em ação. Reunindo suas forças às do projetor mental manipulado por Tatiana, era mais potente que o Supercrânio.
O fracasso deixou Monterny arrasado. O fato de não poder enfrentar Rhodan no terreno da técnica não lhe ofendia o orgulho; mas não podia se conformar em ser inferior ao inimigo também no terreno espiritual.
Poderia matar Roster, mas preferiu não fazê-lo. No mesmo instante em que praticasse tal ato, todos os mutantes se voltariam contra ele, e isso poderia se tornar perigoso na situação em que se encontrava.
Se estivesse só, talvez conseguisse dominá-los; mas com o reforço espiritual dos mutantes de Rhodan seriam mais fortes que ele.
A fuga?
O Supercrânio cerrou os lábios. Evidentemente também pensara nessa possibilidade e providenciara tudo que com ela se relacionasse. No hangar subterrâneo, o terceiro destróier estava à sua disposição. Estaria em condições de dirigir essa nave, que tinha apenas trinta metros de comprimento. As provisões de mantimentos que se encontravam a bordo seriam suficientes para muitos anos. O armamento era suficiente. O destróier poderia alcançar a velocidade da luz. E, em Marte, o último e o mais terrível dos mutantes aguardava o momento de entrar em ação.
Por que esperar até que ficasse encurralado e não tivesse nenhuma saída?
Clifford Monterny fez mais uma tentativa para recuperar sua influência sobre Roster Deegan, mas logo se deu conta da inutilidade dos seus esforços. Apesar disso não desistiu. Quis dificultar as coisas ao máximo para Rhodan.
Enquanto Roster abria a saída de emergência da fortaleza e a atenção de Tatiana se concentrava na nova tarefa, o Supercrânio transmitiu comandos pós-hipnóticos aos seus mutantes e fechou-lhes o cérebro por meio de um bloqueio psicológico. Sabia que a ruptura desses bloqueios era apenas uma questão de tempo, mas isso aumentaria sua vantagem na fuga. E bem que precisaria dessa vantagem.
Não hesitou mais.
Fechou-se psiquicamente do mundo exterior e providenciou para que nenhum telepata pudesse seguir sua pista. Era bem verdade que assim perderia toda orientação espiritual, mas já não estava interessado no que acontecesse dali em diante no seu reino. Tinha uma tarefa bem maior à sua frente.
Saiu da sala de comando em passos apressados e andou rapidamente pelo corredor. Ouviu passos e gritos atrás de si. Tiros soaram nos corredores, e alguém berrou um comando. Em meio a tudo isso, ouvia-se o andar ritmado dos robôs arcônidas. As forças de Rhodan haviam penetrado na fortaleza do Supercrânio.
Clifford Monterny, tomado de raiva e desespero, cerrou o punho, soltou uma praga e continuou a correr. Entrou numa estreita passagem lateral e aumentou a velocidade da corrida. Devia ter pensado em algum meio de transporte subterrâneo. Mas quem poderia imaginar que seu esconderijo aparentemente inexpugnável viesse a cair diante do primeiro ataque? O Supercrânio não podia deixar de reconhecer que, depois de ter alcançado suas primeiras vitórias, subestimara o inimigo.
O corredor parecia não ter fim. Tal qual em todos os outros, as luzes de teto, instaladas de espaço em espaço, espalhavam uma débil luminosidade. Havia dezenas de corredores desse tipo, e os homens de Rhodan levariam bastante tempo em descobrir este.
Uma curva. Mais uma. Depois prosseguiu em linha reta.
O Supercrânio tivera bastante inteligência para instalar seu hangar a boa distância da sala de comando. Se esta fosse destruída numa ação bélica, o hangar permaneceria intacto. Além disso, ninguém desconfiaria de que sua saída de emergência se encontrava a mais de dois quilômetros da entrada principal.
O barulho atrás dele já havia cessado. Os passos do Supercrânio se tornaram mais lentos. Grossos pingos de suor reluziam em sua calva. Os traços contorcidos do rosto flácido e nada belo alisaram-se. Nos olhos assustados voltou a brilhar aquela fria superioridade. Apesar disso, Monterny estava satisfeito em saber que ninguém o via. Ele, o grande desconhecido, que era superior a qualquer mortal, estava fugindo.
O corredor terminou diante de uma parede lisa.
Os dedos trêmulos do Supercrânio apalparam a parede e encontraram uma pequena elevação. Uma ligeira pressão, e a parede deslizou para cima, deixando livre a passagem. Prosseguiu. A parede se fechou atrás dele.
Encontrava-se num pavilhão não muito grande, mas bastante alto. Quase lembrava o poço de uma mina. As paredes eram de rocha nua, cujas saliências haviam sido removidas às pressas. O teto de rocha, que tinha uns cem metros de altura, parecia fechar o hangar.
Bem no meio do gigantesco poço, o destróier roubado de Rhodan descansava sobre os suportes telescópicos.
Clifford Monterny suspirou aliviado. Agora nem mesmo Rhodan conseguiria impedir sua fuga. Se logo após a decolagem imprimisse à nave a aceleração máxima, ninguém o alcançaria.
Num pensamento fugaz, lembrou-se dos cientistas seqüestrados, que seriam encontrados e libertados por Rhodan. Isso pouco lhe importava, pois já se apoderara do seu saber. Foi graças a eles que conseguiu alcançar o controle perfeito da nave espacial que tinha diante de si.
Deu alguns passos, alcançou os suportes telescópicos e acionou o botão de controle da comporta de entrada. No mesmo instante a escotilha se abriu muitos metros acima dele e a escada deslizou em sua direção.
Enquanto isso acontecia, correu de volta e comprimiu outro botão, que estava embutido na parede de rocha. Lançou um olhar ansioso para o alto.
A parede de rocha maciça começou a se mover lá em cima. Deslocou-se para o lado, deixando livre o caminho da fuga. A luz do dia penetrou no hangar, fazendo com que empalidecessem as luzes que ali se encontravam acesas.
Clifford Monterny não perdeu mais nenhum segundo.
Com alguns saltos, colocou-se junto da escada que já havia completado seu movimento em direção ao solo, subiu por ela e desapareceu no interior da nave. A escotilha se fechou com um baque surdo.
Mais alguns segundos se passaram.
Esses segundos transformaram-se em minutos.
Na sala de máquinas da nave, os geradores de energia e os transformadores começaram a ressoar. O fluxo de partículas atravessou condutos de consideráveis espessuras, foi submetido a um processo de compressão e de aceleração nos propulsores e saiu dos bocais de popa sob a forma de impulso ultraluminosos com a velocidade da luz.
A rocha embaixo do destróier começou a ferver, enquanto os suportes telescópicos eram recolhidos. A nave disparou para o alto.
A energia que escapava para todos os lados com uma pressão tremenda atingiu as paredes do hangar e derreteu a rocha. A porta secreta foi destruída.
Era evidente que o Supercrânio pretendia utilizar esse caminho de fuga uma única vez.
Com uma aceleração louca, a nave subiu na vertical e, qual um gigantesco projétil, saiu do cano de cem metros. Dentro de poucos segundos, mergulhou e desapareceu no azul do céu.

5



Rhodan saiu da Good Hope-V, também conhecida por G-5, no momento exato em que Roster Deegan surgiu na superfície e, com os olhos inexpressivos, caminhou na direção de Tatiana, que se aproximou dele e procurou lhe restituir aos poucos sua própria vontade.
O Exército de Mutantes substituiu os robôs e os soldados e assumiu a vigilância. O telepata John Marshall permaneceu ao lado de Rhodan.
— Tatiana avisa que além de Deegan ainda há dez mutantes no interior da fortaleza. Um comando pós-hipnótico os obriga a cumprir as instruções do Supercrânio. Devem ser libertados individualmente da vontade de Monterny.
— E os prisioneiros do Supercrânio? Tatiana não descobriu nada?
— Descobriu sim, mas não tem certeza. Ao que parece, encontram-se na fortaleza de Monterny.
— Está bem — Rhodan lançou os olhos em torno. — Podemos iniciar a luta contra os mutantes. Eu mesmo cuidarei de Monterny.
Pegou o projetor mental e dirigiu-se a Tatiana e Deegan, que se defrontavam num duelo mudo. Perto deles a entrada do labirinto estava aberta. Havia degraus que conduziam para baixo.
— Irei com você — disse Marshall, permanecendo ao lado de Rhodan. — Sengu, Anne Sloane e Betty Toufry também. Sengu poderá nos prevenir quando surgir qualquer perigo, enquanto os dois telecinetas poderão deter qualquer atacante até que consigamos romper o bloqueio hipnótico.
Foi exatamente o que aconteceu nesse instante com Roster Deegan.
O americano sacudiu a cabeça, como se acabasse de emergir das profundezas da água e se sentisse livre da pressão. Pegou a mão de Tatiana.
— Ainda não compreendi tudo, mas começo a imaginar o que aconteceu. Conte comigo. E liberte os outros.
Rhodan se aproximou.
— Venha, Tatiana. Não podemos perder tempo. Ninguém sabe que diabrura o Supercrânio estará preparando.
Roster lançou um olhar perscrutador para Rhodan. Fitou-o prolongadamente nos olhos e estendeu-lhe a mão.
— O senhor é Rhodan; conheço-o pelos retratos. Deve estar interessado em aumentar os efetivos de seu Exército de Mutantes. Se for assim, saiba que no interior da fortaleza há dez homens que aguardam a hora de poder se considerar seus amigos. Mas ainda não estão livres.
Tatiana apontou para os projetores mentais que ela e Rhodan traziam na mão.
— Logo estarão.
Enquanto se dirigia para a sala de comando, encontrou-se com o primeiro telecineta.
Subitamente Rhodan sentiu-se atirado para o lado. Teve que estender as mãos para evitar que sua cabeça batesse contra a parede. Deixou-se escorregar para o chão, para subtrair-se por um instante à atenção daquele defensor da fortaleza. Depois disso dirigiu calmamente o projetor para a figura apagada que mal se destacava na luz do corredor. Martelou insistentemente seus comandos contrários ao bloqueio hipnótico, que não fez menção de ceder à resistência que subitamente lhe era oposta. Só quando André Noir acorreu às pressas e utilizou sua potência hipnótica para romper a barreira mental e implantar seus comandos no cérebro do mutante que o poder do Supercrânio se esfacelou.
Rhodan teve a cautela de lhe transmitir um comando pós-hipnótico através do projetor mental. Não havia tempo para explicações.
Continuaram a penetrar passo a passo no reino abandonado do Supercrânio. Os mutantes ainda dominados pelo mesmo opunham-lhe uma resistência encarniçada, mas a mesma acabou sendo vencida.
Incluindo Roster Deegan, dez mutantes haviam mudado de dono. Mas deviam ter sido onze.
Onde estava o outro?
Onde estava o Supercrânio?
Rhodan lançou os olhos em torno.
— Ras Tshubai.
A figura gigantesca do africano se aproximou.
— Sim.
— Deu busca em toda a fortaleza?
O teleportador levantou a mão, num gesto de insegurança.
— Não sei. Nesta toca de raposa há tantos corredores e salas que nunca se pode ter certeza de ter estado em todos os lugares. De qualquer maneira, encontrei a sala de comando. Está vazia. Não encontrei a menor pista do careca.
— E os cientistas?
Antes que Ras pudesse responder, Sengu, o espia, disse:
— Estão presos num calabouço. Trata-se de um complexo com compartimentos residenciais. Há um elevador no qual se pode descer ao lugar em que se encontram.
O japonês olhou em direção inclinada para o chão. Quem imaginasse que enxergava perfeitamente através das massas rochosas não conseguiria evitar um calafrio.
— Alguém deve tê-los encontrado. Vejo um vulto que está mexendo na porta da ala dos prisioneiros. Não o reconheço.
Betty Toufry, que era telepata e telecineta ao mesmo tempo, se aproximou:
— Estou captando os pensamentos de um homem — cochichou, lançando um olhar inseguro na mesma direção de Sengu. — São débeis e confusos. Quer matar.
Ras Tshubai se dirigiu a Sengu.
— Descreva a situação do calabouço, para que possa interceptar o homem antes que faça alguma tolice. Vamos logo!
Rhodan manteve-se imóvel, pois não podia fazer nada. Deixou livres as mãos dos telepatas. Não via nada, não ouvia nada, não sentia nada. Não era um mutante, era apenas um homem perfeitamente normal, se o abstrairmos de certas qualidades que nada têm que ver com qualquer modificação da estrutura cerebral.
Ras Tshubai prestou atenção às breves indicações de posição fornecidas por Sengu, acenou com a cabeça... e desapareceu.
Os que ficaram sentiram o ligeiro deslocamento de ar provocado pela massa aérea que penetrou no vácuo formado subitamente com a desmaterialização do teleportador. Nesse mesmo instante o corpo de Ras Tshubai lhe era restituído no lugar desejado; ele voltava a se materializar.
Rhodan resolveu aproveitar a pausa forçada.
— Tatiana e Marshall, venham comigo. Precisamos descobrir o que é feito do Supercrânio. Não posso imaginar que esteja escondido em algum canto e fique parado até que o encontremos.
— Nesta fortaleza há dezenas de corredores, e ninguém de nós viu todos eles — ponderou a russa. — Só sei que um deles leva a um hangar aberto na rocha, onde está guardado um dos destróieres roubados. Quem sabe...
— É claro que só pode ser isso — disse Rhodan com certa impaciência. — Você devia ter dito logo. Tenho certeza de que o Supercrânio é bastante inteligente para perceber sua derrota no momento adequado. Você diz que o hangar foi aberto na rocha?
— Isso mesmo.
— Só pode ficar a oeste daqui. Não deve ser difícil encontrar o corredor que leva para lá. Venha comigo.
A iluminação ainda estava funcionando. Rhodan correu a frente pelos corredores vazios; Tatiana e Marshall seguiram-no de perto. As paredes de rocha refletiam o eco abafado e cavo de seus passos.
Atingiram um ponto em que o corredor se bifurcava. Rhodan lançou um olhar ligeiro para a bússola embutida em seu relógio e escolheu o caminho que seguia pela esquerda.
— Este corredor leva exatamente para o oeste. Talvez seja ele.
Não esperou a resposta, mas continuou a correr.
De repente a rocha começou a vibrar mais à frente. O chão tremia sob seus pés, como se os efeitos de um terremoto distante se fizessem sentir até ali.
Rhodan parou assustado e Marshall empalideceu. Tatiana baixou a mão que segurava o projetor mental.
— O que foi isso? — cochichou com a voz quase inaudível.
Rhodan cerrou o punho.
— Foi o destróier. De qualquer maneira já sabemos que o corredor é este mesmo. Chegamos tarde. Talvez o pessoal que está lá em cima cuide melhor. Vamos ao menos dar uma olhada naquilo.
A dez metros do ponto em que o corredor terminava, foram atingidos, subitamente, por uma onda de calor seco, que os impediu de prosseguir. À luz das lâmpadas do teto, Rhodan viu pingos de rocha endurecidos. A idéia atingiu-o com a força de um raio: o hangar ficava atrás dessa parede.
— O calor liberado pela decolagem do destróier não pôde se espalhar e derreteu as paredes. Não acredito que possamos atingir o hangar por aqui.
Refletiu por alguns segundos e disse em tom resignado:
— Isso não nos adiantaria nada. A esta hora o Supercrânio já está correndo pelo espaço. Só podemos fazer votos de que alguém tenha percebido sua fuga.
— Devíamos avisar a Stardust-III — sugeriu Marshall.
Um sorriso amargo se esboçou no rosto de Rhodan.
— Mesmo para isso seria tarde, Marshall. Mas não se preocupe. O Supercrânio não nos escapará por muito tempo. Afinal, temos algumas pistas.
Diante dos olhos de Rhodan surgiu o quadro de solidão, formado por um deserto vermelho atravessado por largas faixas de verde e aquecido escassamente por um sol distante.

6



Pete Maros era mexicano, mas não tinha quase nada em comum com seus antepassados.
Mas herdara uma coisa desses antepassados: seu temperamento impulsivo, que formava um contraste marcante com a atitude fleumática do inglês Ray Gall. A função principal de Ray era a de telegrafista do destróier Z-82 que, depois de reparado, passou a ser utilizado por Rhodan.
O comandante da nave era Julian Tifflor, que, por enquanto, ainda ocupava o posto de cadete da Academia Espacial.
O grupo de nove destróieres se espalhara e se mantinha a menos de trinta mil metros de altura sobre o Estado de Utah. Cinqüenta mil metros acima dele, Bell procurava se consolar com o fato de que era de certa forma o quartel-general de Perry Rhodan, e não podia colocar a Stardust-III em perigo.
As idéias de Tiff eram semelhantes às de Bell.
— Aqui estamos nós pendurados acima das nuvens, e nem podemos ver o que está acontecendo lá embaixo. Até mesmo o contato pelo rádio foi interrompido. Consegue ouvir alguma coisa, Pete?
O mecânico apontou para a porta da cabina de rádio.
— Quem está de serviço é Ray. Posso dar uma olhada.
O inglês mantinha-se imóvel diante do aparelho mudo e parecia cochilar. A tela, através da qual se estabelecia contato direto com a Stardust-III, estava apagada.
— Tudo tranqüilo? — perguntou Pete, demonstrando uma preocupação excessiva.
Ray levantou a cabeça.
— Quando houver alguma novidade, não deixarei de avisar — resmungou e voltou a fechar os olhos.
Pete sentiu-se aliviado ao constatar que o telegrafista ficava, ao menos, com os ouvidos abertos e voltou à sala de comando.
Nesse meio tempo, Tiff havia ligado o ampliador de imagem e dirigiu a câmera para a superfície da Terra. Não havia nuvens que impedissem a visão, e poucos segundos depois o Estado de Utah surgiu na tela como um mapa. A ampliação começou a aumentar automaticamente. O mapa se desmanchou, e quando a imagem voltou a se tornar nítida, apresentava um setor menor em igual dimensão. O jogo repetiu-se até que a mancha redonda, que representava a G-5 pousada, surgisse nitidamente ao lado da casa destruída.
Tiff lembrou-se das instruções de Rhodan. Não deviam se preocupar com os acontecimentos que se desenrolassem em redor da G-5. Cabia-lhes cuidar das áreas adjacentes e do espaço aéreo que cobria o Estado de Utah.
Tiff suspirou. Paciência, não lhe restava outra coisa, embora ninguém pudesse controlar o que fazia. De qualquer maneira...
Fez a objetiva da câmera deslizar sobre o terreno. Deslocou-a para o oeste, em direção à cadeia de montanhas. Foi uma paisagem nada agradável que se estendeu diante de seus olhos. Nenhum homem sensato pensaria em fixar sua residência por ali. Rochas pontudas sobressaíam por entre matas ralas, formando grotas íngremes e profundas.
O formato regular da montanha logo lhe chamou a atenção.
Num platô relativamente baixo, coberto por uma vegetação rasteira e cercada de rochas íngremes, havia uma pequena montanha solitária. Parecia ter chegado ali por acaso. Era feita em grande parte de pedras soltas, mas em certos lugares aflorava a terra fértil. Apesar disso nenhuma árvore crescia em sua superfície. Apenas alguns vestígios de grama rala davam mostras da fertilidade daquele solo.
O pé da montanha tinha o formato de meia-lua; o lado oposto era côncavo.
Alguma coisa dava a impressão de se tratar de uma montanha artificial; talvez tivesse sido formada com os materiais retirados da escavação de uma galeria.
Subitamente Tiff despertou, esquecendo-se do que significava o tédio e a desilusão. Durante a conferência realizada antes do ataque, Rhodan afirmara que a área ao redor da fazenda do Supercrânio era desabitada. E agora descobria, a menos de dois quilômetros da casa destruída, os vestígios de uma escavação recente.
Pete aproximou-se e olhou por cima de seu ombro.
— Alguém andou procurando minério por aí — constatou.
— E tirou toda essa sujeira da terra? — perguntou Tiff.
— Naturalmente. Acredito que se trate de uma galeria secundária da mina que deve ter existido por ali.
— Quando foi isso?
— As últimas escavações neste local foram realizadas há vinte anos — disse Pete, lembrando-se das aulas recebidas em Terrânia. — Mas não foram compensadoras, e por isso decidiu-se suspendê-las.
— Ah! — disse Tiff em tom de triunfo. Viu suas suposições se confirmarem. — Tem alguma explicação para o fato de que nesses dois decênios nem uma moita cresceu no montão de resíduos?
Pete calou-se, perplexo, e examinou mais detidamente a imagem projetada na tela. Depois acenou com a cabeça.
— Isso é estranho.
— Acha que é? Pois também sou da mesma opinião. Tenho certeza de que há pouco tempo...
Subitamente calou-se. Enquanto falava não tirara os olhos do estranho monte de entulho. Como que por acaso seu olhar caiu sobre o platô que o cercava e registrou uma alteração.
— Veja! A parte interna da montanha.
A rocha natural moveu-se junto à montanha suspeita. Um pedaço circular de cerca de trinta metros de diâmetro deslizou lentamente. Por baixo dele surgiu uma abertura negra, em cujo fundo brilhava uma luz mortiça.
Era uma nave espacial! Um destróier do mesmo tipo do seu, e idêntico ao que o atacara junto a Marte.
A aceleração da nave era tamanha que dentro de poucos segundos atingiu a mesma altura da de Tiff e desapareceu vertiginosamente no céu.
Mas finalmente Tiff reagiu.
— Ray, entre em contato com a Stardust-III e avise Reginald Bell. Vamos perseguir essa nave.
Deu uma pancada na chave de partida, colocando-a na aceleração máxima. Os campos gravitacionais foram ativados automaticamente para neutralizar a súbita pressão.
— Pete, ocupe o canhão neutrônico. Ray ficará, por cautela, junto ao canhão de popa, assim que tiver transmitido sua mensagem.
A nave fugitiva já havia mergulhado entre as estrelas. Tiff procurou uns cinco minutos com o binóculo antes de localizá-la. Como fosse do mesmo tipo da Z-82, a distância entre as duas naves dificilmente poderia ser reduzida. Mas era perfeitamente possível perseguir o destróier e conservar o mesmo intervalo, assim que ambas as naves tivessem alcançado a velocidade máxima.
A Terra foi recuando depressa, transformando-se num globo verde-azulado. Ray saiu da sala de telegrafia e sentou na poltrona junto a Tiff.
— Que surpresa! — exclamou. — Reginald Bell praguejou terrivelmente. Mandou que procurássemos descobrir o destino da nave. Talvez seja o Supercrânio que está fugindo. Assim que Rhodan confirmar sua suspeita, ele nos seguirá. Pediu que mantivéssemos nosso rádio ligado para recepção.
Tiff não tirou os olhos da tela.
A mancha conservava o mesmo tamanho. Os números projetados na parte inferior da tela indicavam que o fugitivo se encontrava a menos de dois mil quilômetros da Z-82. Continuava a acelerar e dali a pouco atingiria um quarto da velocidade da luz.
Tiff olhou pela janela. Mais uma vez tinha diante de si o espaço infinito com suas maravilhas e perigos. E lá adiante um pequenino ponto luminoso corria vertiginosamente por entre os milhares de estrelas, em busca de um destino longínquo e desconhecido.
Sentiu um choque quando voltou a olhar para a tela.
O tamanho da mancha aumentara.
A outra nave encontrava-se a apenas quinhentos quilômetros.
Reduzira a aceleração.

* * *

Ras Tshubai materializou-se a menos de um metro do mutante desconhecido, que se virou assustado, encarando o recém-vindo como se o mesmo fosse um fantasma.
Era um japonês; Ras percebeu-o à primeira vista. Tratava-se de um homem ainda jovem; empunhava uma pistola automática na mão direita, que pendia molemente ao longo do corpo.
Ras teve a impressão de que o homem que se encontrava a seu lado estava aguardando novas instruções, que não chegavam. Encontrava-se sob influência hipnótica, e esse estado privava-o da liberdade de movimentos e de decisão.
A dois metros dali havia uma porta, resguardada por fechaduras magnéticas. Ras sabia que atrás dela ficava a residência dos cientistas aprisionados.
Ras deu dois passos rápidos e tirou a arma do japonês. Só a surpresa inaudita do outro livrou-o do uso de violência.
Depois de se apoderar da pistola automática, Ras enfiou-a entre o cinto e o uniforme.
— Abra a porta que leva ao alojamento dos cientistas — ordenou ao japonês.
Nesse instante ouviu um ruído às suas costas. Passos e vozes. Olhou para trás e, na luz débil das lâmpadas, reconheceu Rhodan e Tatiana. Deviam ter encontrado o elevador e descido por ele.
Ras suspirou aliviado. Levantou o braço e fez sinal para que se aproximassem. Nesse instante, o comando pós-hipnótico do Supercrânio venceu a barreira que se opunha a ele. Ras viu que Rhodan e Tatiana levantaram os projetores mentais e dirigiram-nos sobre ele. Recebeu uma ordem absurda, a de não realizar qualquer ataque contra Ras Tshubai, isto é, contra si mesmo.
É claro que esse comando era dirigido ao japonês, que se dispunha a investir contra o africano. Estacou em meio ao movimento, pôs a mão na cabeça num gesto de pavor, e depois, vencido pelo esforço excessivo do cérebro martirizado, caiu lentamente ao solo, desmaiado.
Quando a pressão na cabeça de Ras Tshubai cessou, ele se virou; viu que o japonês jazia imóvel. Rhodan e Tatiana se aproximaram.
— Dois projetores mentais de uma só vez são uma dose um pouco forte — explicou Rhodan em tom indiferente. — Se nos tivéssemos lembrado disso antes, talvez o Supercrânio não tivesse escapado. Onde estão os prisioneiros?
Ras apontou para a pesada porta de ferro.
— Ali.
E... desapareceu. Ressurgiu em menos de dez segundos. Sorriu; parecia um tanto confuso. Rhodan lançou-lhe um olhar ansioso e perguntou em tom preocupado:
— O que é isso, Ras? Os prisioneiros não estão mais lá?
— Estão, sim — tranqüilizou-o o africano e sacudiu a cabeça. — Mas esses cientistas são gente muito estranha. Materializei-me no laboratório de um físico. Acredita que o sujeito se assustou quando surgi ao lado dele que nem um fantasma? Nada disso. Mal levantou os olhos quando, de uma hora para outra, apareci perto dele, olhando-o enquanto estudava seus projetos. Limitou-se a fazer um gesto com a mão, como se quisesse me espantar, e resmungou, dizendo que voltasse dentro de dez minutos.
Rhodan sorriu e dirigiu-se a Tatiana.
— Aposto que foi Glenner, o físico de fama mundial.
Deu um aceno de cabeça em direção a Ras.
— Abra a porta. Não temos tempo para esperar por Glenner. Poderá continuar seus trabalhos em Terrânia.
Ras se dirigiu à porta.

* * *

A distância entre o destróier Z-82 e a nave fugitiva foi diminuindo com uma relativa rapidez. Já se encontravam a mais de treze milhões de quilômetros da Terra, e a distância crescia constantemente. A velocidade permanecia inalterada. Uma mensagem de Bell informou-os de que a Stardust-III recebera ordem para também iniciar a perseguição. Ao menos, deviam constatar para onde o Supercrânio pretendia fugir.
Pete parecia pensativo.
— Se quisermos liquidar o monstro sozinhos, devemos nos apressar. Senão Bell nos passará para trás, e a glória será dele. Eu o conheço.
Tiff lançou um olhar de censura para o mexicano.
— Se eu fosse você, teria vergonha de conceber uma idéia dessas. O Supercrânio é um inimigo do mundo, e pouco importa quem o liquide; o importante é que seja liquidado. Ray procure entrar em contato com a nave que está à nossa frente.
— Há uma ligação direta com a sala de telegrafia. O senhor pode tentar, se quiser.
Tiff, satisfeito, efetuou as respectivas ligações. Chamou o Supercrânio pela faixa geral de telecomunicação e passou à recepção intensiva. Menos de dez segundos depois o rosto do inimigo do mundo surgiu na tela. A calva reluzia fortemente e cheia de satisfação. Os olhos, que pareciam acolchoados em meio à gordura, emitiam um brilho traiçoeiro e ameaçador. Demonstrou um interesse visível por seus perseguidores. Com toda calma examinou-os um por um, como se quisesse gravar seus rostos para todos os tempos.
Tiff sentiu que aquele olhar gelado lhe provocava um calafrio na espinha. Imaginou que com seus companheiros estaria acontecendo a mesma coisa.
— O que deseja? — perguntou o Supercrânio com uma calma apavorante, da qual não se poderia deduzir que se considerava derrotado.
Tiff procurou se controlar.
— Desista da luta, Clifford Monterny — disse. — Sua fortaleza em Utah caiu e seus mutantes se encontram sob o poder de Rhodan. Não tem a menor chance. A qualquer momento poderá surgir o couraçado da Terceira Potência.
Os olhos gelados pareciam esboçar um sorriso ameaçador.
— Você é um idiota, meu jovem. Acha que deixei que se aproximasse para ouvir um sermão? Acreditou realmente que iria me entregar a você? Subestima minha pessoa e minhas intenções, meu caro. É possível que ainda não saiba, mas vou lhe revelar um segredo. A comunicação visual que estamos mantendo permitiu que eu captasse o modelo de suas ondas cerebrais. Seu nome é Julian Tifflor, não é? E seus companheiros são Pete Maros e Ray Gall. Pois bem; já devem ter uma idéia do que lhes acontecerá. Preciso apenas de uma pequena vantagem. Vocês vão deter o couraçado por algum tempo. Isso me bastará para encontrar um esconderijo no sistema solar. Peço-lhe que dê um recado a Rhodan: um belo dia voltarei; e não voltarei sozinho.
A mão de Tiff projetou-se para a frente. A tela se apagou de repente.
No mesmo instante um punho de ferro parecia demolir sua consciência.

* * *

Bell e o major Nyssen, comandante dos caças espaciais estacionados a bordo da Stardust-III, encontravam-se na sala de comando da gigantesca nave esférica, olhando atentamente para a tela amplificadora.
Nyssen disse com a voz rouca:
— Esse Supercrânio é um sujeito estranho. Por que está desacelerando?
Bell não tirou os olhos da tela, que registrava ocorrências bastante estranhas. A nave do Supercrânio voltou a acelerar e disparou pelo espaço. A proa apontava para o círculo de asteróides, ignorando o planeta Marte, que se encontrava à sua direita.
Enquanto isso o destróier Z-82 continuava a desacelerar e, descrevendo uma curva ampla, tomou o rumo contrário. A proa apontava para a Stardust-III, que vinha da Terra.
— Será que Tifflor desistiu? — resmungou Bell, espantado e estreitou os olhos. — Isso não combina com a idéia que faço dele.
E o Supercrânio não pode estar atrás dele. Não conhece Tifflor, nem qualquer dos outros dois homens que se encontram a bordo da Z-82.
A Stardust-III não teria a menor dificuldade em efetuar um pequeno salto espacial para alcançar o Supercrânio. Acontece que num trajeto curto não havia possibilidade de fixar com precisão a distância que seria percorrida. E no espaço normal o couraçado dos arcônidas também não ultrapassava a velocidade da luz. Mas Bell acreditava que já conhecia o lugar para onde o Supercrânio pretendia fugir, e isso tranqüilizou-o um pouco.
Por enquanto suas preocupações diziam respeito à Z-82 e aos seus tripulantes.
O destróier se aproximou da Stardust-III numa velocidade vertiginosa e, a uma distância de cinqüenta quilômetros, abriu fogo com o canhão de impulsos. Bell reduzira a velocidade de sua nave, para ter melhores possibilidades de manobra. O campo energético foi ativado.
Os raios despejados pelo canhão do destróier bateram no campo energético e foram desviados para o lado, perdendo-se no espaço. Foram refletidos no mesmo ângulo em que se verificou o impacto. Pouco antes de atingir a Stardust-III, a Z-82 subiu e, depois de descrever uma curva ampla, repetiu a manobra absurda.
Bell sacudiu a cabeça e, dirigindo-se ao major Nyssen, disse:
— É claro que temos de nos livrar deles, pois do contrário não teremos sossego. Não posso imaginar como o Supercrânio conseguiu submetê-los ao seu controle, mas não há dúvida de que conseguiu. Enquanto não houver um choque que liberte Tifflor da influência a que está sujeito, ele representará um perigo constante. Se o deixarmos, voltará à Terra e atacará qualquer nave nossa que se coloque à sua frente. É bem possível que alguém que não desconfiasse de nada fosse atingido pela desgraça. O Supercrânio contou com isso mesmo. Sabe que não deixaremos Tiff na mão, e com isso daremos a ele mesmo, isto é, a Monterny, a oportunidade de se colocar em segurança. Até aí muito bem. Só gostaria de saber como poderemos fazer com que Tiff volte a agir razoavelmente.
— O projetor mental — resmungou Nyssen. — Tente.
— Teremos poucas probabilidades de êxito, meu caro. Mesmo a uma distância muito reduzida torna-se difícil libertar alguém de um bloqueio hipnótico. E, no nosso caso, os raios teriam de atravessar as paredes de duas naves espaciais e dois campos energéticos. Será inútil; não tenha menor dúvida.
— Que tal se déssemos um tiro na sua popa? — sugeriu Nyssen. — Enquanto permanecer na sala de comando, nada poderá lhe acontecer. Mas ficará privado da fonte de energia de que precisa para nos atacar. Bell acenou lentamente com a cabeça.
— Nada mau para um caso de emergência — reconheceu e refletiu desesperadamente para encontrar uma solução melhor. Não havia dúvida de que a destruição de um destróier não representava uma perda irreparável e compensava amplamente a vida de três seres humanos. Mas se isso pudesse ser evitado, seria bem melhor.
Bell cocou a cabeça.
— Quando é que você se lembrará de pedir auxílio a mim? — piou uma voz que quase chegava a ser encantadora.
O rato-castor estava sentado sobre as patas traseiras, apoiando-se no rabo. Nos olhos fiéis do animal havia tanta expectativa e dedicação que Bell teve vontade de se abaixar e afagar o bichinho. Mas controlou seus impulsos.
Seu rosto assumiu a expressão severa de um superior.
— Que auxílio poderíamos esperar de você? — perguntou.
Num gesto de lástima, Gucky sacudiu a cabeça e sorriu.
— Poderia brincar um pouco.
Bell sabia qual era a brincadeira de Gucky. O rato-castor era um telecineta, e sua brincadeira consistia no uso das capacidades sobrenaturais que possuía. Nas fases iniciais de sua amizade, isso levou a muitos equívocos e, segundo uma recordação instantânea de Bell, até mesmo os controles direcionais da Stardust-III tornaram-se vítimas da paixão lúdica de Gucky: a nave foi atirada por alguns anos-luz através do hiperespaço.
— Brincar? — resmungou Bell. Parecia pensativo. Um plano ainda vago começou a despontar em seu cérebro. — Se você soubesse respeitar as regras do jogo, poderíamos falar a respeito. Você sabe perfeitamente que Rhodan lhe proibiu que, quando não esteja autorizado expressamente...
— Sei disso! — Gucky levantou a pata num gesto dramático. — Acontece que sou o único mutante que se encontra a bordo da nave; sou telecineta e teleportador ao mesmo tempo. Sou a única pessoa que pode reduzir o destróier à inatividade sem destruí-lo.
Nyssen acenou animadamente com a cabeça.
— Gucky tem razão; não há dúvida — acudiu ao rato-castor. — Devia imobilizar o reator.
— Está bem — disse Bell. — Gucky, peça ao major Nyssen que explique como se imobiliza um reator.
— No fundo é bastante simples — disse o comandante dos caças espaciais. — Basta que introduzamos a parede isolatória entre os dois elementos ativadores. O fenômeno pode ser dirigido e regulado a partir da sala de comando. Portanto, não nos adiantará interromper simplesmente a comunicação entre o reator e a sala de comando. Tifflor é muito inteligente; saberá corrigir o defeito em pouco tempo. Mas se realizarmos uma modificação no reator, que não possa ser influenciada do lado de fora, estará reduzido à impotência. O suprimento de energia do destróier terá sido eliminado. A nave não poderá ser manobrada.
— E as baterias de emergência? — interveio Bell.
— Dão apenas para a iluminação e para as comunicações radiofônicas normais. Não lhe servirão para muita coisa.
Gucky aproximou-se e, olhando pela escotilha, viu o destróier que mais uma vez se aproximava vertiginosamente, antecedido pelos raios mortais despejados pelo canhão de impulsos. Sacudiu a cabecinha, num gesto que quase chegava a ser humano.
— Preciso conhecer a situação exata do reator — chiou.
Nyssen pegou uma folha de papel e um lápis e esboçou um desenho. Dele se concluía que o reator ficava no terço traseiro da nave. Pegou uma segunda folha para detalhar o reator e sua estrutura.
— Neste compartimento ficam os dois elementos, Gucky. Aqui está a parede divisória. Ela é sustentada por meio de campos magnéticos pequenos, mas muito intensos. Caso suas forças sejam suficientes, você poderá isolá-la desses campos. Depois disso bastará torcer ou quebrar um dos pólos. E não haverá força do mundo que consiga levantar a parede divisória para ativar o reator.
Gucky exibiu seu dente roedor.
— A não ser eu — chiou confiante de si mesmo e acrescentou: — Hei de conseguir. Deixem-me algum tempo para que possa me concentrar. Não quero que ninguém me perturbe.
Bell reprimiu uma resposta. Seus olhos estavam presos à tela, onde se destacava a imagem da Z-82, bastante ampliada.
Tiff estava lançando outro ataque; aproximava-se numa velocidade tresloucada.

* * *

Uma idéia martelava continuamente o cérebro de Tiff: aquela esfera de oitocentos metros de diâmetro era sua inimiga. Teria que atacá-la sem cessar, devia detê-la até que o Supercrânio se encontrasse em segurança.
Tiff raciocinava perfeitamente e, às vezes, chegava a refletir sobre o motivo por que, de uma hora para outra, Rhodan se transformara em seu inimigo e o Supercrânio num aliado. Mas não encontrou nenhuma resposta, e prosseguiu nos seus ataques.
Com uma obediência mecânica Pete e Ray controlavam as armas de bordo, despejando raios do desintegrador e do canhão de impulsos contra a Stardust-III, que se mantinha tranqüila na imensidão do espaço. Não se deram conta do fato de que um único impulso energético despejado pela nave poderia romper seus campos protetores e destruí-los.
Passaram ao vigésimo ataque.
A Z-82 descreveu uma curva e, sem diminuir a velocidade, precipitou-se sobre o inimigo. Sentado em sua torre, Pete comprimiu os botões que acionavam as peças de artilharia. Ray, sentado junto ao radiador de popa, aguardava que o destróier voltasse a se afastar.
Mas dessa vez não aconteceu nada.
A Z-82 prosseguiu em linha reta em direção à Stardust-III, sem que os canhões fossem ativados.
Tiff demorou um pouco a perceber a alteração, pois sua atenção estava concentrada totalmente na tarefa de se aproximar o mais possível da nave esférica, para aumentar o efeito dos raios mortíferos. No último instante procurou ativar os jatos direcionais, para passar o mais perto possível da Stardust-III, dando oportunidade a Ray para despejar o fogo de seu canhão sobre o inimigo.
Empurrou a alavanca para a direita, mas a Z-82 manteve o mesmo curso.
A nave esguia penetrou no campo energético do couraçado, atingiu-o num ângulo bastante aberto e prosseguiu quase sem nenhuma alteração de rota. O impacto conferiu-lhe um ligeiro movimento.
O suprimento de energia fora eliminado por completo. Os campos gravitacionais destinados à neutralização de pressões deixaram de existir. O impacto contra o campo energético atirou Tiff para fora do assento. Seu corpo cruzou o ar da sala de comando. Não conseguiu impedir que sua cabeça batesse contra um suporte. Por um instante perdeu a consciência, mas ainda pôde constatar, espantado, que perdera o peso.
Pete e Ray tiveram um destino semelhante. De uma hora para outra o mexicano estava pendurado no teto, de cabeça para baixo, e tentou em vão se aproximar dos controles do canhão, para prosseguir no bombardeio insensato. Ray teve menos sorte. Caiu de lado e bateu com a cabeça contra o painel de controle do radiador de nêutrons. Logo perdeu a consciência.

* * *

Bell seguiu a nave de Tifflor com os olhos. Depois se dirigiu ao rato-castor, que já havia regressado.
Nada revelava o esforço que tivera que fazer, muito embora se tivesse teleportado para a sala do reator da Z-82 e exercido uma atividade telecinética.
O animal passou a mão pelo nariz e bocejou. De repente soltou um chiado, sorriu satisfeito e exibiu seu único dente roedor.
— Não foi nada fácil. Gostaria de saber quem inventou esse dispositivo de separação. Mal consegui movê-lo.
— Mas conseguiu — exultou Bell e abaixou-se para afagar o pêlo de seu pequeno amigo. — Nosso colega Tiff ficou sem energia. Se não o pescarmos no espaço, acabará visitando o planeta Plutão.
O major Nyssen apontou para a tela; parecia preocupado.
— Está na hora.
— Vamos ancorar a nave, tirar os pobres-diabos de lá e submetê-los ao tratamento do Dr. Manoli. Este lhes ensinará quem é seu mestre e amigo.
Acelerando ao máximo, a nave esférica saiu em disparada atrás do destróier desgovernado.

7



Allan D. Mercant não gostava de sair de seu quartel-general. Mas o convite de ir a Terrânia, formulado por Rhodan, tinha um tom oficial e insistente. Além disso, parecia que não era o único convidado; mais tarde tal suposição se confirmaria.
Em poucas horas o avião a jato levou-o para a Ásia. Quando, no aeroporto de Terrânia, saía do avião com as pernas endurecidas e percorria a distância que o separava da barreira, outro avião pousou. Cinco minutos depois, reconheceu o passageiro solitário: era o presidente da Federação Asiática. Também ele não foi recepcionado por qualquer delegação. Só e um pouco espantado, caminhou em direção a Mercant.
— O senhor por aqui? — murmurou, enquanto seu espanto crescia. Estreitou os olhos e estendeu a mão para o chefe da Federação de Defesa da Terra. — Também veio a convite?
— Sem isso não teria vindo — respondeu Mercant e apertou a mão de seu interlocutor. — Não quis perder as revelações importantes que Rhodan deverá fazer.
O presidente da Federação Asiática, um chinês alto, robusto e de traços inteligentes, sacudiu a cabeça.
— Nem se deram ao trabalho de nos receber. Será que teremos que andar até Terrânia?
— Lá fora não faltam táxis — observou Mercant, recordando um fato que observara por ocasião de sua última visita à capital da Terceira Potência. — É possível que Rhodan não queira chamar a atenção de ninguém.
O chinês sacudiu os ombros, apertou a estreita pasta de diplomata embaixo do braço e caminhou em direção à saída.
— Pois venha comigo. Espero que tenha dinheiro trocado para pagar o táxi.
— Aqui os táxis não custam nada — tranqüilizou-o Mercant e esboçou um sorriso condescendente. — O que mais me impressiona é que, em comparação com as outras vezes, o movimento no aeroporto é bastante reduzido. Não se vê quase ninguém.
Na barreira estava sentado um robô arcônida de serviço, que os deixou passar sem submetê-los a qualquer controle. Mercant supôs que o modelo de ondas cerebrais dos dois homens estivesse registrado em sua memória positrônica. Isso significava que todos os detalhes de sua recepção haviam sido preparados.
Se fosse assim, por que não haveria nenhuma delegação para recepcioná-los, como era usual nas visitas de estadistas?
Resolveu não pensar mais no assunto. Rhodan nunca agia sem um motivo. Sua conduta devia inspirar-se em razões poderosas. Enquanto atravessava a praça fronteira ao aeroporto, em direção aos táxis, rememorou o texto do convite recebido de Rhodan. Fora concebido em termos bastante lacônicos:
Allan D. Mercant, chefe da F.D.T., é convidado a participar de uma sessão extraordinária dos representantes da Terceira Potência e dos outros blocos da Terra. Trata-se do esclarecimento de questões de importância vital para todos.
Perry Rhodan Presidente da Terceira Potência.
Um africano abriu a porta do táxi, esperou até que tivessem entrado e levou-os pelo caminho mais rápido à metrópole moderna. As tentativas de Mercant, que pretendia entrar em conversa com o motorista, falharam diante do mutismo crônico deste. Além disso, o motorista fez de conta que nem sabia que estava transportando passageiros tão importantes.
Mercant logo esqueceu seus problemas. Tinha debaixo de seus pés a cidade mais moderna do mundo, com os arranha-céus que pareciam tocar as nuvens, as ruas largas e as imensas áreas verdes. O táxi voador passou a pequena altura por cima da praça de concreto no centro da cidade, em torno da qual se agrupavam as repartições do governo da Terceira Potência.
A praça não estava vazia.
Mercant ficou perplexo ao notar que um verdadeiro exército estava formado na mesma. Lá de cima não podia reconhecer os detalhes, mas percebeu alguma coisa. Aquilo não era um simples desfile de soldados. Viam-se peças de artilharia pesada montadas nos respectivos veículos. Os blindados com o revestimento impenetrável de arconita rolavam por entre elas.
O presidente da Federação Asiática estreitou os olhos e contemplou o espetáculo militar. Pigarreou e, dirigindo-se a Mercant, disse:
— Será que isso tem alguma coisa a ver com nossa conferência?
Mercant deu de ombros.
— Não sei, mas talvez Rhodan tenha a gentileza de explicar a finalidade do espetáculo. Talvez se trate de um simples desfile em homenagem aos homens que derrotaram o Supercrânio.
O chinês esboçou um ar incrédulo.
— Pelo que sei, o Supercrânio conseguiu fugir. Rhodan apenas conseguiu ocupar um de seus esconderijos.
Mercant sentiu que o aborrecimento ameaçava tomar conta de seu espírito.
— Por que diz apenas? Afinal, Rhodan conseguiu libertar doze mutantes da influência desse homem terrível. Até chego a recear que o senhor não conheça o perigo em que nos encontrávamos. Devemos ser muito gratos a Rhodan, porque ele conseguiu quebrar o poder do Supercrânio.
— Acho que, no fundo, o tal do Supercrânio foi inimigo de Rhodan, não nosso — ponderou o presidente da Federação Asiática.
Mercant percebeu que o táxi descia e preparava-se para pousar. Resolveu mudar de assunto.
— É bem possível que daqui a pouco saibamos mais alguma coisa. Pelo que vê, estamos pousando no heliporto do governo. Isso demonstra que o piloto sabe perfeitamente quem são os passageiros que está transportando. Deixemos que eles nos surpreendam.
Pousaram numa pequena área circular coberta de areia branca. Ali se tornou patente que estavam sendo esperados. Reginald Bell, acompanhado de dois oficiais, aproximou-se em atitude quase solene. Cumprimentou em primeiro lugar o presidente da Federação Asiática, e depois, com um olhar que suplicava compreensão, dirigiu-se a Mercant.
— Cavalheiros, os senhores estão atrasados. Os outros hóspedes já estão impacientes à sua espera. Queiram me acompanhar.
Não era uma pergunta, mas uma intimação. Antes que Mercant pudesse dizer qualquer coisa, Bell girou sobre os calcanhares e pôs-se a caminhar à sua frente. Cada um dos oficiais colocou-se de um lado dos hóspedes e depois seguiram seu ministro da segurança.
Mercant não deixou de lançar um rápido olhar para as tropas formadas na praça central. Seria difícil deixar de notar essa demonstração de poderio.
Sentiu um choque ao perceber que os soldados na verdade não eram soldados. Eram robôs reluzentes, armados com pesados radiadores de impulsos. Também as peças de artilharia estavam ocupadas por robôs. Não se via uma única pessoa.
O estranho silêncio e a imobilidade daquele exército invencível impressionaram Mercant a tal ponto que seguiu o homem que caminhava à sua frente com uma sensação de desamparo. Fazia votos de que também o presidente da Federação Asiática sentisse a ameaça implícita que havia em tudo aquilo.
Mas logo se corrigiu. Era uma advertência, pensou.

* * *

Encontraram-se numa sala pequena e simples. Uma das paredes era formada por uma tela superdimensionada, que no momento não se encontrava em atividade. Quatro homens estavam reunidos em torno de uma mesa semicircular: Mercant, os presidentes da OTAN, do Bloco Oriental e da Federação Asiática.
A sua frente, num plano um pouco mais elevado, estavam cinco pessoas. No centro encontrava-se Perry Rhodan, à sua direita seu representante, o coronel Freyt, e à direita deste, Bell. À sua esquerda Crest e Thora, os dois arcônidas, exibiam-se de rosto impassível.
As mãos de Rhodan estavam pousadas sobre uma caixinha, na qual se viam dez botões vermelhos. Ao lado dos botões encontravam-se pequenas placas, nas quais estava escrita alguma coisa.
Levantou a cabeça e lançou um olhar de expectativa para os homens que o contemplavam. Em seus olhos havia um sorriso sutil, mas também um brilho frio, que parecia advertir de alguma coisa.
— Cavalheiros — principiou Perry Rhodan com uma amabilidade que formava um contraste marcante com a atmosfera que o cercava — devem ter ficado admirados com este convite para uma conferência em Terrânia. Têm todos os motivos para isso. Mas não os deixarei na incerteza por muito tempo. Permitam que lhes dê algumas explicações antes de formular minhas exigências.
O presidente da Federação Asiática se inclinou para a frente.
— Exigências? — disse, entre espantado e incrédulo.
Bell deu-lhe um sorriso amável de lado. Rhodan acenou com a cabeça; seu rosto continuou impassível.
— Exigências, sim; o senhor compreendeu perfeitamente, senhor presidente. Mas peço-lhe que, por enquanto, não se preocupe com isso. Há outras coisas que devem interessá-lo muito mais. Ou melhor, que devem interessar a todos.
Lançou os olhos para a caixinha e apertou um dos botões.
A enorme tela estava ao alcance da vista de todos; parecia uma tela de cinema.
Não havia muita iluminação na sala, motivo por que as imagens coloridas e bem formadas pareciam ter muita vida.
Os espectadores deram sinais de espanto quando viram o que Rhodan pretendia lhes apresentar. Eram filmes que já conheciam. Parte dos acontecimentos retratados nos mesmos passara-se nos territórios submetidos à sua soberania, e ainda guardavam uma lembrança nítida dos mesmos.
Greve dos operários de Detroit, Estados Unidos da América.
Atentado contra os delegados do Bloco Oriental por ocasião de sua visita a Londres e complicações diplomáticas resultantes do incidente.
Revolta de trabalhadores na Sibéria.
Perseguições raciais nos Estados Unidos.
Aumento da criminalidade no Japão.
Fome na China em virtude do fracasso dos nutricionistas.
Os acontecimentos desfilaram numa seqüência incessante, sem comentário e som. Com isso a impressão tornou-se mais realista.
Subitamente a tela se apagou. Os quatro homens lançaram um olhar indagador para Rhodan. Depois de algum tempo o presidente da OTAN pigarreou.
— Qual é a finalidade disso? Já conhecemos esses fatos retratados nos semanários. Tenho certeza de que o senhor não nos pediu que fizéssemos a viagem para ver isso.
— Correto! — confirmou Rhodan e colocou o dedo no outro botão. — Olhem o resto.
Seguiram-se cenas de filmes mais velhos, sobre as guerras de 1914-1918, 1939-1945 e a breve guerra atômica que fora reprimida no nascedouro graças à intervenção de Rhodan. Também essas cenas desfilaram sem qualquer comentário.
Quando a tela escureceu, Rhodan tirou a mão de cima da caixinha. Fitou os quatro homens:
— Os senhores acabam de ver as causas e os efeitos. Toda guerra tem suas causas. Se acreditamos que já eliminamos essas causas, estamos enganados. O registro cinematográfico das causas constitui prova cabal disso. As revoluções, as greves, o descontentamento e os confrontos violentos continuam a ocorrer. A desconfiança ainda lavra entre os membros de uma raça que já ultrapassou o limiar de uma nova era. Os senhores sabem de tudo isso. Mas não sabem que a um só homem cabe boa parte da responsabilidade por esses fatos causais. Refiro-me ao Supercrânio.
Os ouvintes se movimentaram. Mercant se inclinou para a frente e fitou os olhos de Rhodan. Uma ruga vertical surgiu em sua testa, mas a boca já aberta permaneceu muda.
— O Supercrânio? — perguntou o presidente do Bloco Oriental em tom incrédulo.
— É responsável por grande parte dos acontecimentos — confirmou Rhodan com um sorriso frio. — O resto é culpa dos senhores. Isso mesmo, é culpa dos senhores. Têm dificuldade em superar o passado. De qualquer maneira o exemplo do Supercrânio provou que um mundo desunido sempre pode ser submetido à vontade de um indivíduo, desde que esse indivíduo seja um mutante positivo revestido de traços de caráter negativo. Pois bem. Destruí o quartel-general do Supercrânio; mas nem por isso o perigo foi eliminado. Mesmo que ele estivesse morto, não poderíamos pensar assim. Os Supercrânios voltarão a surgir, sempre e sempre.
Apertou outro botão. Na tela surgiu uma reprodução fiel do Universo. No primeiro instante os espectadores não conseguiram identificar o setor do espaço que estava sendo projetado na tela. Mas logo reconheceram uma estrela chamejante, chamada nova.
— Isso — disse Rhodan com uma calma apavorante — já foi um sistema solar igual ao nosso. Também nele havia um único planeta habitado. Seus habitantes eram uma raça inteligente e ativa, mas também eram ambiciosos e de mentalidade estreita em sentido cósmico. Construíram as armas mais eficientes, e utilizaram-nas para se ameaçarem uns aos outros. Um belo dia, quando os tópsidas, uma raça de seres inteligentes em forma de crocodilo, encontraram o sistema, eles o atacaram e destruíram. Não encontraram qualquer resistência, pois seus habitantes estavam ocupados em dificultar a vida uns dos outros. Bem, de uma hora para outra ficaram livres de suas preocupações.
Rhodan apontou para a nova flamejante.
— O que restou de seu sol e dos onze planetas foi só isso.
O quadro se apagou.
Um silêncio ansioso reinava na sala.
Rhodan pigarreou.
— Pelo que vejo, entenderam o sentido das minhas palavras. Pois bem. Eu lhes pergunto: querem que um belo dia nosso sol também seja transformado numa nova flamejante, incendiada pelas forças terríveis de uma inteligência extraterrena?
— Temos força suficiente para repelir qualquer ataque — objetou o presidente da Federação Asiática.
— Os senhores dispõem de armas — disse Rhodan com um gesto zombeteiro e trocou um olhar com Mercant que, segundo sabia, estava de seu lado. — Mas para que adquiriram essas armas? Para defender sua Federação Asiática. Essas armas só terão um sentido quando forem construídas no intuito de servirem à defesa da Terra. Mas voltemos ao Supercrânio. Seus mutantes revelaram que ele fomentava a desunião entre os homens, instigava revoltas, causava greves e preparava guerras. É um hipno, cavalheiros. Impôs-se à vontade de políticos influentes e dirigiu-a segundo seu arbítrio. É possível que tenha exercido influência até sobre os senhores. Recomendo-lhes que aproveitem a pausa que nos foi proporcionada. Reflitam seriamente sobre a maneira de amalgamar a Federação Asiática, o Bloco Oriental, e o Ocidente sob um único governo. Minha exigência é esta. Hão de reconhecer que não constitui nenhuma novidade. A novidade é o prazo que agora lhes fixo. Se dentro de um ano o governo mundial não se tiver transformado em realidade, eu o imporei com as forças de que disponho.
Mercant contemplou a tela vazia; seu rosto permaneceu inalterado.
Os três presidentes levantaram-se e encararam Rhodan. Defrontaram-se com o olhar frio do mesmo e voltaram a cair nas suas poltronas. Os rostos dos arcônidas continuaram inexpressivos. O coronel Freyt e Bell esforçaram-se para reprimir o riso.
— Poderemos realizar algumas conferências preparatórias — disse o presidente da OTAN, falando com esforço. Lançou um olhar de desespero aos colegas. — A organização de um governo mundial...
— Não é tão difícil — interrompeu-o Rhodan. — Façam de conta que um perigo terrível ameaça a Terra. Ficarão admirados com a rapidez da solução. Aliás, posso lhes assegurar que esse perigo não existe apenas na imaginação. O Supercrânio continua vivo e ainda não se deu por vencido.
— Pensaremos no assunto — disse o presidente do Bloco Oriental.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Não pensem, ajam! — exigiu. — E isso aplica-se a todos. Acostumem-se com a idéia de que um belo dia terão que conviver pacificamente com lagartos, aranhas, ou sejam lá quais forem as inteligências do cosmos. Cavalheiros, a decisão final sobre a maneira da constituição e a finalidade do governo mundial pertence aos senhores. A decisão sobre a formação ou não deste governo cabe a mim.
Pela primeira vez Rhodan voltou a sorrir.
— E, acreditem ou não, essa decisão já foi tomada.
Deu um aceno de cabeça em direção a Bell.
O ministro da segurança da Terceira Potência se levantou.
— A conferência está encerrada, senhores. Permitam que os convide a assistirem a uma parada militar que será realizada em sua honra. Depois disso programamos uma recepção do corpo diplomático. Ainda hoje de noite nossos aviões os levarão de volta para sua pátria. Queiram me acompanhar.
Os presidentes seguiram-no em silêncio. Ao que parecia nenhum deles estava percebendo que Mercant ficara para trás, tendo sido levado a uma sala contígua por Rhodan.

* * *

— ...portanto, é imperioso que não descansemos enquanto o Supercrânio não tiver sido definitivamente liquidado, Mercant. Eu ficarei na Terra, enquanto Bell perseguirá o fugitivo. Já formamos uma pequena frota.
O chefe dos serviços secretos reunidos da Terra fez um gesto de aprovação, mas não ocultou seu ceticismo.
— O sistema solar é muito grande, Rhodan. Como encontrar um homem? Não tem nenhuma pista, nenhum indício, absolutamente nada.
— Está enganado — disse Rhodan com um sorriso e levantou os olhos quando viu Bell entrar. — Temos um indício. Além disso, também aqui a velha regra de que todo criminoso comete algum engano encontrará sua confirmação. O Supercrânio não é um homem que se recolhe à inatividade enquanto dispuser de um trunfo.
— Um trunfo?
Mercant levantou a cabeça e lançou um olhar indagador para Rhodan.
— Isso mesmo, um trunfo. Trata-se de um mutante ainda desconhecido, que possui faculdades que também não conhecemos. Foi o que conseguimos saber dos mutantes libertados. Ninguém sabe exatamente do que se trata, mas deve ser uma coisa terrível. Estou convencido de que o Supercrânio não demorará em lançar mão desse trunfo. Ali estará nossa chance, se tivermos sorte.
Bell torceu o rosto e sentou perto dos dois.
— Mais uma vez a cobaia serei eu. Quando devo decolar?
— Dentro de uma semana — disse Rhodan. — Então, o que acharam os presidentes da parada realizada em sua honra?
— Estão muito impressionados — disse Bell, rindo com satisfação. — Acho que apresentarão uma sugestão para que as negociações tenham início na semana que vem. Assim você terá que fazer alguma coisa enquanto eu estiver percorrendo o sistema solar em busca daquele cabeça de estouro.
— Cabeça de estouro?! — perguntou Mercant, estupefato.
— Supercrânio... Supercabeça — explicou Rhodan. — Bell gosta de dar apelidos às pessoas. Assim, por exemplo, costuma chamar o senhor de...
— Não conte! — pediu Bell e se levantou. Retirou-se até a porta, entreabriu a mesma e, quando se encontrava quase em segurança, disse: — Agora pode contar, se quiser.
E fechou a porta.
Mercant piscou para Rhodan.
— Então?
— Ele o chama de Sherlock Holmes Terrano, se não estou enganado.
Mercant sacudiu a cabeça; estava radiante.
— Ora, ele não precisaria ter fugido por causa disso. O apelido até me lisonjeia bastante.
Perry Rhodan, como que casualmente, contemplou suas unhas.
— Há outro detalhe, meu caro Mercant. Para certas pessoas, Bell inventa dois apelidos, porque um só não lhe parece suficiente.
— Dois apelidos? — perguntou Mercant cheio de pressentimentos, passando a mão pela calva cercada da coroa de cabelos louros. Parecia pensativo. — Será possível? E eu também tenho outro apelido?
Rhodan fez que sim. Procurava se manter sério.
— Qual é o outro? — insistiu Mercant, cheio de curiosidade.
— Cabeça de luar.
Parecia que alguém havia derramado uma tina de água sobre a cabeça de Allan D. Mercant. Este lançou um breve olhar para a porta fechada, suspirou resignadamente e disse:
— Vamos falar sobre coisas mais importantes.
Dali a dois minutos haviam esquecido Bell...

* * *
* *
*









O duelo dos mutantes foi decidido. A grande maioria dos homens que o Supercrânio quis submeter ao seu domínio hipnótico foi libertada e, uma vez submetidos a um processo de reorientação, poderão se transformar em valorosos combatentes da Terceira Potência.
Mas o Supercrânio não foi capturado, e é ali que está o maior perigo. Enquanto ainda existirem pessoas submetidas ao domínio do hipno, a ameaça continuará de pé.
O Domínio do Hipno, este é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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