domingo, 4 de novembro de 2012

P-023 - Chave Secreta X - W. W. Shols [parte 1]


Autor
W. W. SHOLS


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN





Para impedir Thora de penetrar na fortaleza de Vênus e estabelecer contato com Árcon, Perry Rhodan seguiu a arcônida, mas não se lembrou de que os novos destróieres espaciais ainda não estavam em condições de irradiar mensagens em código que pudessem atingir o cérebro positrônico da fortaleza.
Acontece que um robô nunca age irrefletidamente, guia-se apenas pela lógica; e é assim que, face à aproximação não anunciada de Thora e Rhodan, o comandante dos robôs da fortaleza de Vênus manipula a Chave Secreta X, que fecha hermeticamente o planeta...






= = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = =


Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência; transformou-se em prisioneiro de Vênus.

John Marshall e Son Okura — Companheiros de Rhodan na prisão.

Reginald Bell — Que não consegue estabelecer contato com o chefe.

Thora — Cuja fuga precipitada da Terra termina em fracasso.

Tako Kakuta — Cujas capacidades teleportativas são a última esperança de Bell.

General Tomisenkow — Um comandante de divisão sem divisão.

Coronel Raskujan — Que a atmosfera de Vênus transforma num elemento amotinado.



1



— Nem que os senhores se arrebentem — disse Reginald Bell depois de uma discussão cansativa — não voltaremos à Terra. Continuaremos na órbita de Vênus que estamos percorrendo. Entendido?
O pequeno grupo de pessoas que se encontrava na sala de comando acenou com a cabeça. Nenhum deles demonstrou qualquer entusiasmo com a decisão aparentemente tresloucada de seu comandante. Conformaram-se, porque era Bell que dava as ordens. E todos os membros do Exército de Mutantes estavam conscientes de que mesmo uma ordem aparentemente absurda devia ser executada.
Bell desempenhava as funções de comandante interino do Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Nesta posição não podia se dar ao luxo de cometer enganos.
E aqui tudo indicava que um engano fora cometido.
— Parece que alguma coisa não está certa — prosseguiu Bell em tom irritado. Seu indicador estendido fez alguns movimentos ameaçadores para baixo. — Quem serve ao chefe da Terceira Potência, quem prestou juramento perante Perry Rhodan, não pode abandoná-lo, por piores que estejam as coisas. Os senhores querem voltar para a Terra. E depois? Sabem perfeitamente que nosso chefe está praticamente só ali embaixo, na selva de Vênus...
Wuriu Sengu, um mutante baixote, mas largo e robusto, arriscou uma objeção:
— Okura deve estar com ele: provavelmente Marshall e Thora também estão.
— Thora saiu sozinha numa nave — interrompeu Bell. — Se é que teve alguma companhia, foi a de um robô. Rhodan, Marshall e Okura seguiram-na em outra nave. Desde que sabemos que aquele cérebro positrônico da fortaleza de Vênus ficou maluco e, com base na chave secreta X, programada por Rhodan, subitamente não mais reconhece seu mestre e senhor e o repele com todos os recursos técnicos de que dispõe, não estou convencido de que Perry e Thora estejam juntos. Tudo indica que as naves deles caíram, e os dois estão expostos aos perigos da selva de Vênus.
Sengu tentou dissipar o pessimismo de Bell:
— O chefe aludiu ao fato de que Thora, a arcônida, está bem.
— Para sermos exatos — insistiu Bell — o chefe disse muito pouco. Não teve tempo para maiores explicações. O contato pelo rádio foi interrompido em dois minutos, e até agora estamos tentando em vão estabelecer novo contato. O cérebro positrônico da fortaleza de Vênus, além de erigir uma barreira de quinhentos quilômetros, impede nosso pouso e não permite qualquer comunicação com as estações de rádio situadas na superfície do solo. De qualquer maneira, os pequenos emissores e receptores de pulso com que Rhodan se acha equipado estão fadados ao fracasso. Acredito que nem mesmo nosso potente emissor de bordo consiga romper a barreira. Uma vez ajustado para uma situação de defesa, o cérebro positrônico dá cumprimento cabal à sua tarefa. É um produto da técnica arcônida. Não esqueçam este detalhe.
O mutante Tanaka Seiko fez um gesto respeitoso com a cabeça.
— Já falamos sobre isto. E agora o senhor mesmo reconhece que somos impotentes. Por que vamos ficar nesta órbita se não podemos fazer nada por Rhodan?
Bell fez uma pausa. Seu olhar duro passou de um para outro dos interlocutores mas, por causa da cor dos seus olhos, não conseguia ser tão penetrante como ele desejaria para se dar um aspecto autoritário.
Ali estavam os melhores homens do seu grupo de elite. Eram mutantes selecionados entre os membros do exército secreto de Rhodan, todos eles nascidos nos primeiros anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Vinham das regiões de Hiroshima e Nagasaki, onde as primeiras bombas atômicas da história da Humanidade haviam causado muita desgraça. Mais uma vez, porém, a artimanha da seqüência grandiosa dos acontecimentos históricos fez com que também ali surgissem as exceções que confirmariam a regra. Depois de vários decênios, constatou-se que o inferno desencadeado com o lançamento das primeiras bombas atômicas sobre o Japão não trouxe apenas a desolação, a morte e a doença. Em alguns casos, explicáveis certamente com base nas leis da genética, houve pequenas modificações nas características hereditárias, que se processaram segundo as leis causais da evolução. Os filhos das pessoas que sofreram esse tipo de influência vieram ao mundo com dons parapsicológicos.
Havia, por exemplo, Tanaka Seiko, que possuía um sexto sentido que lhe permitia a recepção de ondas de rádio: e ainda o espia, que era Wuriu Sengu, um homem que não tinha a menor dificuldade em enxergar através da matéria compacta.
O olhar de Bell se fixou em Tako Kakuta.
— Estou me referindo a você, Tako. Não acha que o cérebro positrônico deixou de considerar um fato?
— Está aludindo à minha capacidade de teleportação?
— Isso mesmo. O cérebro positrônico da fortaleza de Vênus tem dez mil anos. Nem por isso vou afirmar que seja pré-histórico. Afinal, foi montado pelos membros de uma expedição arcônida cujos conhecimentos técnicos naquela época já eram muito mais avançados que os da Humanidade dos nossos dias. Acontece que há dez mil anos ainda não existiam no planeta Terra os mutantes dotados de capacidade parapsicológicas. Logo, a conclusão que se impõe é a de que este cérebro não tem capacidade de ser programado para a defesa contra um teleportador.
— Então quer que eu...
Tako Kakuta se interrompeu. Lançou um olhar assustado para a tela de imagem, regulada para captar a superfície de Vênus. Sob a esfera de sessenta metros de diâmetro formada pela nave Good Hope-V — conhecida no código de comunicações como girino número cinco — deslizava, como que em câmara lenta, a paisagem virgem e selvagem do planeta Vênus. Não se percebiam os detalhes. Só vez por outra a espessa camada de nuvens permitia a visão da superfície do planeta. Eram florestas verde-escuras, um mar azul-escuro, que por vezes chegava a jogar reflexos, e uma rocha marrom-acinzentada, que na região da calota polar era coberta de grossas camadas de neve. A imagem apresentada pela tela mostrava muito menos do que o teleportador via com os olhos da lembrança e da fantasia. Tako permanecera em Vênus por longas semanas. Sabia que ali um labirinto o aguardava.
— Isso mesmo — disse Bell em tom sério. — Quero que desça e entre em contato com Rhodan. Se conseguir encontrá-lo, o resto será brincadeira. Juntamente com o chefe somos uma equipe invencível. Além do mais, vamos conseguir o que pretendemos. Levaremos Rhodan à fortaleza pelo caminho mais rápido, para que possa dar novas instruções ao cérebro.
— Naturalmente — disse Sengu com um tom de otimismo na voz. — Por que a idéia não nos acudiu antes?
— Foi porque muitas vezes somos inclinados a considerar uma barreira energética arcônida como algo de perfeito e absoluto. O contato com a tecnologia arcônida nos transformou em animais guiados pelo instinto, que no subconsciente chegam a acreditar na perfeição. Prepare-se, Tako! É apenas um pulo: você conseguirá.
— A distância chega a ser ridícula. Há tempo vivo pensando num salto e já teria descido por conta própria se...
— Se?
— Se não fosse a selva. Já a conheço. Mesmo um teleportador pode se perder nela, se ficar desorientado. Além disso, a gente está sujeita a se encontrar com vermes antropófagos de todos os tipos, diante dos quais até mesmo a reação instantânea de fuga de um teleportador será inútil.
— Está com medo?
— Sempre sinto um pouco de medo quando tenho que descer diretamente para o inferno. Mas não é isto que importa. Lá embaixo deve haver vários homens que, a qualquer momento, têm de estar preparados para defender sua vida. Acontece que preciso de um objetivo definido. Enquanto não o tenho, posso me teleportar uma infinidade de vezes sem encontrar Rhodan.
— Deixe isso por minha conta. O cérebro positrônico de bordo armazenou todos os dados relativos à manobra. Também dispomos da localização goniométrica da última mensagem transmitida por Rhodan. Encontra-se exatamente a cento e vinte quilômetros a oeste do grande mar primitivo, situado na região norte do planeta. Mais exatamente, está a oeste do braço de mar de quase trezentos e cinqüenta quilômetros de largura que penetra profundamente no continente norte.
— Os dados ainda são muito vagos.
— Sei disso. Acontece que não disse que você vai saltar neste minuto.
Bell afastou o teleportador com um gesto violento e se aproximou do cérebro positrônico de bordo.
— Venham todos! Prestem atenção para que Tako e eu não cometamos qualquer engano. Ponho a mão no fogo se não conseguirmos determinar a posição de Rhodan com uma margem de erro não superior a quinhentos metros. Se não aterrisar nos braços do chefe, Tako, você terá que se dar ao incômodo de chamá-lo.
— Naturalmente.
A interpretação dos dados armazenados foi mais rápida do que se esperava. Os círculos gravados no cérebro reagiram prontamente. Na lâmina milimetrada do último estágio da interpretação ótica, surgiu a projeção de uma reprodução fotográfica da superfície de Vênus, baseada em medições anteriores.
O mais difícil foi a sintonização individual de Tako Kakuta diante do problema.
Sua mente tinha de realizar uma pontaria muito exata, e para isso precisava de uma concepção concreta do lugar que desejava atingir através da teleportação.
Em Vênus só podia contar com esse recurso em escala bastante limitada. Vista de cima, a selva parecia um tapete infinito, que numa concepção ligeira oferecia um milhão de pontos geográficos equivalentes.
— Enxugue o suor, rapaz. Eu lhe dou uma ajuda.
Poucos segundos depois a rede cartográfica foi introduzida no aparelho. Muito embora ela só representasse um recurso criado na mente, que não retratava qualquer realidade na superfície do planeta, ela se revelou de alguma utilidade.
— A orientação está excelente — disse Tako Kakuta depois de algum tempo. — Faça o favor de não modificar a regulagem dos graus geográficos. O curso da nave também parece correto. Dentro de uns dez minutos deveremos atingir o ponto mais favorável para o salto.
Todos lançaram um olhar automático para seus relógios. Além dos cronômetros de bordo, que registravam o tempo segundo o calendário terrestre, os membros da tripulação traziam consigo os chamados relógios de Vênus. A rotação de Vênus é cerca de dez vezes mais lenta que a da Terra. Por isso a duração do dia de Vênus é dez vezes maior.
Naquele instante, o ponto que, segundo o cérebro positrônico da Good Hope-V, correspondia à posição atual de Rhodan, ficava na zona crepuscular móvel. Isso significava que para os amigos que se encontravam na superfície de Vênus um novo amanhecer começara a raiar há pouco tempo.
Os que se orientavam pelo tempo de Vênus encontravam-se pouco antes das setenta e oito horas.
Faltavam cinco minutos para alcançar a posição de salto mais favorável.
Enquanto os homens esperavam em silêncio, a tensão crescia. Mas se alguém que se encontrava a bordo acreditava que a intenção de Tako Kakuta era impossível, não o dizia. Depois que o cérebro da fortaleza de Vênus instalara todas as barreiras concebíveis, a teleportação de um mutante poderia representar a última possibilidade de transpor essas barreiras.
Faltavam três minutos.
Wuriu Sengu, o espia, soltou um gemido de contrariedade. Depois de vários segundos de extrema concentração, durante os quais aparentemente mantinha os olhos fitos no nada, descontraiu o corpo e, num gesto de desânimo, se atirou numa poltrona.
Essa demonstração de pessimismo, que facilmente poderia se transmitir aos outros, deixou Bell bastante aborrecido.
— O que houve, Wuriu?
— Procurei reconhecer alguma coisa embaixo da camada de nuvens. É claro que consigo ver mais que vocês. Para os outros a superfície de Vênus não passa de uma triste camada de nuvens e neblina, enquanto eu vejo nela um paraíso luminoso e colorido. Mas o que importa no momento são os detalhes; é claro que a uma distância destas não consigo reconhecê-los. Apenas sei que, a aproximadamente trinta quilômetros ao sul do ponto determinado pelo cérebro, existe um planalto quase totalmente livre de vegetação. Mas supõe-se que o chefe se encontre em meio à selva mais densa.
— Você quer dizer que, se foi inteligente, tentou atingir o planalto?
— Naturalmente. Para um náufrago representa a melhor proteção contra a fauna imprevisível do planeta.
— Talvez tenha razão. Mas lá embaixo os problemas devem parecer um pouco mais difíceis do que se apresentam quando vistos através de nosso cérebro positrônico. Seja como for, podemos confiar irrestritamente no resultado da localização goniométrica. Tenho certeza de que dentro de quinze minutos saberemos mais alguma coisa. Está preparado, Tako?
Faltava um minuto para atingir a posição de salto.
O teleportador confirmou com um aceno de cabeça.
Além do equipamento usual, trazia um traje arcônida especial afivelado às costas. Todos sabiam o que significava isso. Assim que tivesse encontrado Rhodan, esse traje os ajudaria a alcançar a fortaleza de Vênus no mais curto espaço de tempo. Uma vez lá, Rhodan poderia modificar a programação do cérebro positrônico. Com isso o domínio da Terceira Potência sobre o planeta seria imediatamente restabelecido. O traje especial arcônida representava um recurso técnico extraordinário. Relativamente leve, era facilmente adaptável acima da vestimenta comum e transformava seu portador num verdadeiro Ícaro, num homem voador, já que o neutralizador gravitacional nele embutido eliminava a gravidade de um planeta de média força de atração. O defletor de ondas luminosas e o campo protetor energético faziam com que o homem que o envergasse se tornasse invisível e invulnerável.
Ainda bem que esse tipo de pensamento restituía o otimismo aos homens. Assim que Tako Kakuta entregasse o traje a Perry Rhodan, o episódio do naufrágio teria chegado ao fim.
— Faltam dez segundos — disse Reginald Bell. — Prepare-se, Tako!
— Já vou saltar.
Para os membros do Exército de Mutantes o desaparecimento de um teleportador era um acontecimento a que estavam acostumados há anos. Apesar disso, na situação especial em que se encontravam, representava algo de extraordinário e misterioso. Um homem normal sai pela porta. Ou atira-se num poço antigravitacional. Mas um teleportador permanece no mesmo lugar. Através de um processo puramente mental de concentração, transfere-se para o chamado hiperespaço, desmaterializando-se da mesma forma que uma nave espacial no início do processo de transição. Volta a se materializar com a mesma rapidez no lugar de destino.
O corpo de Kakuta não se desvaneceu aos poucos: de repente tinha desaparecido. Um ligeiro ruído foi produzido pelo ar que preencheu o súbito vácuo.
Antes que alguém pudesse respirar, o lugar em que se encontrara Kakuta estava completamente vazio.
— Agora precisamos ter um pouco de paciência — disse Bell em tom professoral. Fez menção de imitar Wuriu Sengu, que se inclinara numa poltrona para aguardar confortavelmente. Mas antes que atingisse o lugar um grito fez com que voltasse a cabeça.
O espia, que se levantara de um salto, olhava perplexo para o corpo que se contorcia no chão da sala de comando.
Tako Kakuta se debatia num sofrimento indizível. Seu grito transformara-se num choro convulsivo, que logo foi. interrompido por fortes acessos de tosse.
Ralf Marten, o teleótico do Exército de Mutantes, deu um salto para trás quando Kakuta, de olhos fechados, segurou sua perna e procurou enlaçá-la num gesto de fúria e de súplica.
— Ficou louco! — exclamou Tanaka Seiko. — Vamos todos agarrá-lo de vez e amarrá-lo. Não sabe o que está fazendo.
Era verdade que o teleportador parecia não saber o que estava fazendo. Em compensação, os outros não sabiam o que deviam fazer. Kakuta sentia os efeitos de uma estranha experiência. Não poderiam tratá-lo ao mesmo tempo como doente e como malfeitor. E tudo indicava que estava antes doente que louco.
— Devemos ajudá-lo! — declarou Marten.
Sua atitude era de compaixão e desconfiança.
Também os outros homens alargaram o círculo em torno de Tako Kakuta. Procederam assim por puro instinto. Mas a razão teria de intervir.
— Ralf, concentre-se sobre seu cérebro — ordenou Bell. — Diga o que está vendo e ouvindo.
A mutação espiritual de Ralf Marten permitia-lhe desligar temporariamente seu próprio eu para receber determinadas impressões sensoriais através dos olhos e dos ouvidos, sem que a pessoa apossada por essa forma percebesse qualquer coisa.
Marten se concentrou. Foi acometido pela rigidez típica do mutante que está trabalhando. Logo voltou a se descontrair e sacudiu a cabeça.
— Tako não me diz nada. O que está vendo e ouvindo é indefinível. Não nos reconhece. Sua percepção está confusa como se fosse um...
Marten hesitou.
— Fale logo — insistiu Bell. — Acha que Tako está louco?
O teleótico acenou com a cabeça, numa atitude pouco convincente.
— Era exatamente isto que eu pretendia dizer. Acontece que não sou nenhum médico. Não atribua muita importância às minhas impressões.
— Ora, Tako, vá para o inferno! Você está nos confundindo ainda mais. O cérebro de Tako não pode deixar de retratar certos reflexos. Passou cinco segundos fora da nave. Não pode ter se transformado num idiota dentro de um espaço de tempo tão curto.
O teleótico deu de ombros; parecia perplexo.
— Não posso dizer mais nada que possa esclarecer o assunto. Se o cérebro dele reflete a breve experiência pela qual acaba de passar, no que diz respeito às impressões óticas e acústicas, só posso afirmar que essa experiência deve ter sido indefinível e maluca.
— Não o maltrate — recomendou Wuriu Sengu. — Afinal, não é nenhum telepata.
— Obrigado pela lição — retrucou Bell bastante contrariado. — Quer dizer que não temos outra alternativa senão aceitar a sugestão de Tanaka. Caímos todos ao mesmo tempo em cima... Um momento, está se acalmando.
De repente Tako Kakuta ficou quieto. Só a respiração rápida e forte traía sua excitação. Depois de algum tempo abriu os olhos e encarou os amigos, sem que neles se refletisse qualquer conhecimento.
— Tenham paciência! — pediu Bell. — Ao que parece o nervosismo está diminuindo. Não podemos livrá-lo das dores enquanto não soubermos qual é sua origem.
Bell se aproximou do teleportador.
— O que houve, Tako? Diga alguma coisa!
Demorou mais alguns minutos até que o japonês reagisse ao ambiente que o cercava. Os traços de seu rosto pareciam se tornar menos confusos.
— Meu Deus, Bell, por que não me ajuda?
— Ajudarei assim que me explicar o que há com você.
— Sinto dores.
— Onde?
— Em toda parte. Nas costas, na cabeça... Ninguém agüenta três horas naquele inferno.
Seus companheiros lançaram olhares indagadores. “Realmente está doido”, pareciam dizer seus rostos.
— Ficou fora de três a cinco segundos — constatou Tanaka Seiko. — Não é possível que, num espaço de tempo tão curto, tenha pousado em Vênus e retomado à nave.
— De qualquer maneira passou por uma experiência, e por uma experiência muito intensa — observou o comandante. — Dêem uma mão. Vamos colocá-lo no sofá do camarote ao lado.
Bell ajoelhou perto dele e abriu o fecho éclair do colarinho. Isso devia representar um alívio para Tako, pois ele disse com a voz bem perceptível:
— Obrigado!
Levaram-no ao camarote vizinho sem que ele se opusesse. Kakuta mantinha uma atitude totalmente passiva e inofensiva. Engoliu um comprimido de analgésico, conforme haviam mandado.
— Sente-se melhor? — perguntou Bell.
— Obrigado, estou um pouco melhor.
— Graças a Deus! Você se comportou de tal maneira que seus companheiros pensaram que estivesse louco. Já se sente em condições de relatar o que houve?
— Não há muita coisa a relatar. Não cheguei a descer. É impossível chegar à superfície do planeta.
— Ninguém esperava que nos poucos segundos em que esteve ausente pudesse ter chegado a Vênus. Além disso...
— Por que vive falando em alguns segundos? — perguntou Kakuta desconfiado. — O inferno me segurou por várias horas, antes conseguir me livrar dele.
— Está bem — interrompeu-o Bell. — Não vamos discutir ninharias. O que importa é saber qual foi o erro que cometeu.
— Como é que um teleportador pode cometer um erro? Você não está em condições de dizer aos seus olhos e ao seu cérebro como deve se processar o fenômeno da visão: da mesma forma eu não posso exercer qualquer influência sobre o fenômeno da teleportação. É um dom natural que funciona segundo suas próprias leis.
— Hum! — refletiu Bell em voz alta. — Se não cometeu nenhum erro, não adiantará repetir a experiência.
— Nem penso em repetir este tipo de experiência! Desculpe. Não interprete minhas palavras como uma manifestação de rebeldia às suas ordens. Não sei explicar.
— Você aludiu ao inferno.
— É o único nome que posso dar àquilo. Encontrava-me no nada. Apesar disso tudo eram martírio e dores. Só consigo encontrar uma explicação.
— Qual é essa explicação?
— O cérebro me repeliu. A chave secreta X repudia tudo que, de qualquer maneira, assume uma forma existencial. A energia de ordem superior inclui-se nessa classe. Depois que nosso pouso se tornou impossível, tivemos de nos conformar com uma interrupção total das comunicações radiofônicas. E agora temos de nos conformar com o fato de que os fluxos energéticos do espaço de cinco dimensões também são repelidos. Durante o estado de desmaterialização devo ter me encontrado num campo temporal de ordem superior.
— O que vem a ser isso?
— Veja a divergência sobre o tempo durante o qual estive ausente. Todos dizem que não estive fora da nave mais que cinco segundos. Na verdade estive a caminho muito mais que isso...
Para provar sua afirmativa Tako Kakuta ergueu o braço esquerdo onde, ao lado da pulseira de finalidade múltipla, surgiu o mostrador do cronômetro.
— Meu relógio está adiantado duas horas e meia. Esta prova é suficiente?
Foi suficiente. A tripulação da Good Hope-V refugiou-se numa atitude resignada. Nesse instante compreendeu de vez que não mais poderia prestar auxílio a Perry Rhodan, que se encontrava na selva de Vênus. Rhodan e o pequeno grupo de homens que o acompanhava dependiam exclusivamente de seus próprios recursos. Teriam de encontrar a solução.

2



John Marshall corria para salvar a vida.
Correr era sua principal ocupação nos últimos dias. Fugia dos homens do planeta Terra e dos animais de Vênus. Todo o planeta parecia conspirar contra sua pessoa.
Fungando caiu por cima de uma raiz que atingia a altura de seu joelho. Rolou por cima do ombro como um pára-quedista que toca o solo e se voltou para ver o bicho. A raiz oferecia bastante proteção, enquanto a ameaça só viesse da frente.
Olhou para cima. O tronco era liso. Os primeiros galhos ficavam a dez metros de altura. Era impossível subir. O bicho chegaria antes. E contra seus cem metros de comprimento provavelmente a mais alta das árvores de Vênus não representaria uma proteção segura.
A cabeça comprida e pontuda do verme branco e gosmento surgiu por entre a vegetação. A dois metros acima do solo, executou um movimento ligeiro para a direita e para a esquerda e arriscou mais um salto para a frente.
Marshall encontrara o bicho há cerca de uma hora. Desesperado, pegou a carabina automática de fabricação russa que trazia consigo. O susto pelo fato de que poderia revelar sua posição aos perseguidores humanos sobrepujou o medo que o monstro venusiano lhe causava. Há muito tempo o gigantesco verme gosmento era conhecido como uma subinteligência absoluta: suas perigosas reações eram atos puramente instintivos. Mas quem fosse enlaçado por ele não teria tempo para fazer o testamento.
Uma arma automática convencional era praticamente ineficaz contra a massa de carne nojenta daquele monstro, cujas dimensões pareciam infinitas. Por isso mesmo, passado o primeiro susto, Marshall pegara o radiador de impulsos e abrira um fogo ininterrupto de vinte segundos sobre aquela massa branca. O resultado foi apenas uma divisão do bicho que, transformado em dois, reiniciou a perseguição. A fuga consumiu as últimas energias de Marshall.
Naquele instante, estava deitado atrás da raiz, que se erguia diante dele como uma muralha protetora.
Que tal se atirasse bem de frente?
Era apenas uma idéia, e ao que tudo indicava até então ninguém a havia experimentado. Um ataque lateral resultava na divisão daquele corpo de cobra. E um ataque de frente? Penetraria por todo o corpo.
Era este o cálculo. Já não tinha forças para correr. Mas ainda lhe restavam forças para fazer pontaria e apertar o gatilho.
O telepata John Marshall ergueu a arma. A parte superior da raiz proporcionava um bom apoio, que permitiria uma pontaria segura.
A conta tinha que dar certo. Tinha que dar porque sua mente não podia conceber a idéia de que pudesse morrer longe de toda a civilização humana e sem qualquer pessoa que testemunhasse sua morte.
A cabeça do monstro balançava por cima da alça de mira. Mas ainda não se encontrava numa posição adequada para o tiro, já que o corpo estendido ainda formava um ângulo obtuso com o eixo do radiador de impulsos.
Quando o animal se encontrava a menos de vinte metros de distância, Marshall percebeu que, de repente, aquele ser mudara de intenções. Na verdade, falar de intenções em relação a um bicho dotado de tão reduzida capacidade cerebral já representava uma concessão. Não possuía qualquer inteligência digna de nota. Só agia através de reflexos condicionados. E isso fornecia a explicação do comportamento irracional do verme.
Deslizou em direção à árvore, passou do lado oposto do tronco de seis metros de diâmetro e, numa grotesca estupidez, prosseguiu seu caminho em direção à vegetação rasteira não muito distante.
John Marshall conteve a respiração. O que o obrigou a tanto não foi apenas a ansiedade, mas também o cheiro penetrante e inexplicável para um homem vindo do planeta Terra. O verme levou mais de quinze minutos para passar. Enojado, perplexo e aliviado, Marshall seguiu a extremidade posterior do monstro, que num movimento aparentemente inofensivo mergulhou na selva.
Em algum lugar o verme encontraria um buraco profundo repleto de pólipos. Mergulharia ali e viveria numa simbiose harmoniosa com aquelas criaturas.
Marshall enxugou o suor da testa. Mas a lembrança da ponta branca da cauda do verme logo o fez despertar. Há uma hora, quando cortara aquele animal com o radiador de impulsos, as duas extremidades pareciam enegrecidas e carbonizadas. Pouco depois a crosta devia ter caído, da mesma forma que na outra metade do verme logo voltara a crescer uma cabeça.
As peculiaridades incríveis da fauna de Vênus eram conhecidas há anos, e por isso Marshall sabia perfeitamente que ainda não se livrara do perigo.
Se aquele verme se transformara em dois, a culpa era dele mesmo. E o segundo verme surgiu no momento exato em que voltou a olhar para a frente.
O que teria levado o primeiro a ignorá-lo de repente? E isso depois de uma hora de perseguição intensa e metódica!
Uma única explicação acudiu a Marshall. Os movimentos do fugitivo irritaram a fera e sempre voltaram a despertar sua atenção sobre ele. Assim que se abrigou atrás da raiz e se manteve imóvel, o cérebro primitivo daquele ser deixou de reconhecer o objetivo. A tática de se fingir de morto tinha validade em qualquer mundo onde a luta da vida se desenvolvia segundo leis eternas.
Mas a nova esperança de Marshall logo se revelou enganosa.
O segundo verme não era mais inteligente que o primeiro. Apenas o acaso quis que rastejasse na direção, exata da raiz atrás da qual Marshall se abrigara.
Desta vez teria que se defender. No último instante, percebeu que não poderia participar do espetáculo apenas como espectador. O movimento rápido com que levantou o radiador de impulsos bastou para despertar a atenção do animal.
A cabeça branca e pontuda disparou para a frente. Os primeiros cinco ou seis metros do corpo formavam uma reta perfeita.
A conta estava dando certo.
No sentido longitudinal daquele corpo não havia qualquer divisão ou qualquer encapsulamento. Cada um dos anéis transversais do corpo poderia formar um novo organismo. Assim que fosse atingido pela energia mortal, morreria.
A certeza do êxito incutiu nova coragem naquele homem. Reunindo as últimas forças, saltou para fora do seu esconderijo e atacou. Como que tomado de uma sede de sangue, percorreu os quarenta e tantos metros do corpo do animal e, disparando ininterruptamente, traçou uma linha de fogo contínua sobre o corpo branco e descorado.
Perto da trilha gosmenta, que prosseguia por mais alguns quilômetros, as forças o abandonaram e ele caiu ao solo. Vencera. O que lhe restava era um desamparo total. Nem mesmo o cheiro nojento e penetrante evitou que adormecesse instantaneamente.
Quando despertou, o sol ainda se encontrava bem no oriente, atrás de um véu de neblina branquicenta. Seu primeiro olhar foi para o cronômetro. Dormira nada menos de seis horas do tempo terrestre. E continuava vivo.
Os nervos estavam um pouco mais calmos. E os membros obedeciam novamente à sua vontade.
Naquelas seis horas parecia ter dormido o sono inocente de uma criança. E toda criança tem um anjo de guarda. Mas, no futuro, Marshall não deveria confiar nesse anjo de guarda.
Olhou para o sol que se levantava a leste. Para uma orientação mais precisa, servia-se da bússola giratória embutida na pulseira de múltipla finalidade. A fuga do verme fez com que desse uma volta, desviando-se alguns quilômetros de sua rota. Bem, isso não lhe causava maiores preocupações. Apenas faria com que atingisse a costa um pouco mais ao norte. O que importava era que atingisse o mar. Não devia ficar a mais de trinta quilômetros. Face às suas forças minguadas, ainda era uma distância muito grande. Poderia significar que teria de marchar mais uns três ou quatro dias terrestres. Ou uma semana, talvez mais.
Preferiu não fazer cálculos mais exatos quanto ao futuro. A marcha pela selva privara-o de grande parte do seu otimismo.
A fome e a sede constituíam os fenômenos mais regulares. Sorveu um gole de água da garrafa que trazia de reserva; melhorara o sabor do líquido com alguns restos de chá concentrado. Sua refeição consistiu em duzentas e cinqüenta gramas de carne fria. Quando a carne acabasse, teria que se lançar novamente à caça. Mas isso teria tempo. Até que a fome voltasse a atacar.
Lambeu os restos da gordura dos dedos e pôs-se em marcha na direção leste. O mar devia ficar nessa direção. E no oeste as patrulhas do general Tomisenkow deviam estar à sua procura. Proteger-se dele parecia mais importante para essa gente do que se defender dos monstros venusianos.
Naquela área a vegetação rasteira era bastante escassa. O solo era menos úmido que nas baixadas. Nos primeiros quilômetros a marcha não foi cercada de maiores dificuldades. A visibilidade era boa. O dia venusiano que rompia, trazendo consigo um futuro incerto, constituía um desafio para uma espécie de balanço intermediário. Quem não sabe muito bem o que fazer dali por diante e formula indagações sobre o sentido que possam ter seus esforços, faz bem em procurar se lembrar de como tudo começou.
Fazia alguns anos que John Marshall, o telepata do Exército de Mutantes de Perry Rhodan, pisou pela primeira vez no solo de Vênus. Naquela oportunidade foi descoberta no hemisfério norte uma fortaleza misteriosa, construída por uma raça extraterrena, os arcônidas. A fortaleza datava da época em que os homens do planeta Terra começavam a aproveitar o invento da roda, a se arriscar cautelosamente mar afora em embarcações primitivas e a lançar as bases da geometria euclidiana.
Pelo que se dizia, naquela época os arcônidas de Vênus, cujo planeta natal ficava a milhares de anos-luz do sistema solar, chegaram a fundar uma colônia na Terra. Mas esta submergiu com a lendária Atlântida.
Muitos séculos depois, se verificou o segundo encontro entre os homens e os arcônidas. A primeira nave lunar americana, comandada pelo então major Perry Rhodan, descobriu na face oculta da Lua uma nave espacial arcônida que realizara um pouso de emergência. Os únicos sobreviventes entre os tripulantes da nave eram o chefe científico da expedição, chamado Crest, e Thora, a comandante da nave. Auxiliado pela supertecnologia arcônida, Rhodan instalou no deserto de Gobi um novo poder político neutro. Após isso, comandou a primeira expedição a Vênus, que descobriu a fortaleza situada no norte. As instalações inteiramente automatizadas e positronizadas levavam uma vida autônoma. O grande cérebro robotizado dirigia a defesa das fortificações segundo uma programação antiqüíssima. Rhodan foi o único que conseguiu regular sua freqüência cerebral de tal maneira que o cérebro reagisse melhor aos seus comandos que aos de um arcônida.
Vários anos de evolução terrena e de expedições importantes nas áreas interestelares fizeram com que o planeta Vênus, com sua fortaleza, recuasse para o segundo plano do interesse público.
Mas no Bloco Oriental surgiu um grupo de conspiradores que resolveu ignorar os acordos celebrados com Rhodan, dando causa a novas complicações.
Grande número de naves espaciais russas decolou em direção a Vênus, para transformar o planeta numa colônia do Bloco Oriental.
O empreendimento não foi bem sucedido. Enquanto na Terra as divergências políticas puderam ser reduzidas a uma medida tolerável, a expedição de conquista comandada pelo general Tomisenkow foi se transformando numa farsa. Não conseguiu se aproximar do cérebro positrônico instalado em Vênus. O combustível das naves espaciais fora suficiente apenas para a viagem de ida. Uma frota de abastecimento foi dizimada em virtude de um choque casual com a nave de Rhodan; quando atingiu Vênus, perdera grande parte de suas naves.
Os russos transformaram-se em prisioneiros de Vênus. Levaram uma vida selvagem. A expedição desagregou-se. Grupos de rebeldes separaram-se do grosso da tropa que se mantinha fiel ao comando de Tomisenkow. Alguns fanáticos paranóicos, como o tenente Wallerinski, acreditavam chegada a hora de implantar um novo tipo de pacifismo, que teria que ser imposto pela força das armas.
Muitas vezes Marshall refletira sobre a provável situação estratégica no planeta Vênus. Mas tudo não passava de suposições. Só de uma coisa tinha certeza: o general Tomisenkow conseguira reunir os remanescentes de suas tropas numa poderosa unidade. Era só a ele que devia temer, pois suas patrulhas grudavam-se nos seus calcanhares. Por duas vezes nos últimos dias mal e mal conseguira escapar aos seus perseguidores.
As forças desagregadas, como as dos pacifistas comandados pelo tenente Wallerinski, também poderiam se tornar perigosas. Mas só por acaso poderia haver um encontro com elas em meio à amplidão daquelas florestas e estepes.
Mas as preocupações da equipe de Perry Rhodan não eram apenas estas.
Foi só pela obstinação da arcônida Thora que se viram nessa situação complicada. Há anos Thora empenhava-se pelo regresso ao mundo distante de Árcon. Diante da falta de compreensão de Rhodan, apoderou-se de uma nave espacial terrestre e, acompanhada unicamente de um robô, decolou em direção a Vênus. Na pressa se esqueceu do sinal codificado de identificação, motivo por que a barreira instalada pelo cérebro positrônico frustrou seus planos. Perry Rhodan, que não pensara em outra coisa senão na imediata perseguição de Thora, teve destino igual ao dela.
Ambas as naves viram-se detidas pelo campo energético, que protegia a fortaleza num raio de quinhentos quilômetros. Suas naves caíram e, de uma hora para outra, viram-se numa situação igual à do corpo expedicionário russo. Thora logo fora aprisionada por Tomisenkow, e Rhodan ainda não conseguira libertá-la. Mais do que isso, durante um combate noturno foi atingido no ombro, o que o pôs fora de ação por algum tempo. Não estava em condições de realizar marchas prolongadas. Por isso só o mutante Son Okura, que tinha problemas de locomoção, permanecera em sua companhia.
Marshall recebera uma missão especial, que o levara à selva inteiramente só, e o obrigava a atingir o litoral do mar do norte.
Estacou. A debilidade física acelerava a transpiração, obrigando-o a recorrer, com freqüência cada vez maior, ao lenço para enxugar o suor.
Valeria a pena?
Lançou um olhar aflito para a pulseira de múltipla finalidade, que entre outros equipamentos incluía um potente mini-transmissor. Mas Perry Rhodan havia proibido expressamente o uso do rádio quando houvesse possibilidade de ser ouvido e localizado pelo goniômetro.
A missão especial também se ligava a um encontro havido há vários anos. Naquela oportunidade, a equipe de Rhodan encontrara na costa oriental do braço de mar de trezentos e cinqüenta quilômetros de largura uma espécie de focas semi-inteligentes, cuja mentalidade inspirava bastante confiança.
Depois que Rhodan fora ferido no ombro, os quinhentos quilômetros de marcha que o separavam da fortaleza de Vênus transformaram-se num infinito. Mesmo que a cura fosse rápida, era provável que, por mais algumas semanas, a ferida constituísse um sério fator negativo para o chefe da Terceira Potência. Para sobreviver a esse tipo de provação, o homem deve gozar de boa saúde.
Nessa situação, a melhor idéia que poderia ter acudido àqueles homens era a das focas. Se é que alguém poderia prestar um auxílio, seriam elas. E se havia alguém que pudesse entrar em contato com elas, era o telepata John Marshall, que atingiu o mar pelas noventa e quatro horas.
Quando saiu da vegetação, estacou subitamente. À súbita visão do mar, ficou desconfiado, pois o subconsciente já lhe incutira a idéia de que nunca atingiria seu destino. Mas pôs-se a correr. A praia estava coberta de juncos que iam até a altura dos joelhos. Seguia-se uma faixa de areia amarelenta e limpa. E depois vinha a água. Marshall só parou quando sentiu a mesma tocar seus tornozelos.
As focas!
Procurou se concentrar. Colocou todo o desespero de sua situação no grito telepático de socorro. Depois de dois minutos se descontraiu. Seu cérebro assumiu uma atitude passiva, sintonizando-se para a recepção.
As impressões que penetraram nele eram mais que assustadoras.
O ambiente aparentemente morto estava cheio de vida. Essa vida ocultava-se nos juncos e na água. E pensava. Eram pensamentos inumanos. Situavam-se muito abaixo do nível de inteligência compreensível. Não passavam de uma série de emoções, de reações instintivas situadas num primitivo nível animalesco. Não tinham a clareza de uma fórmula matemática; antes, deixavam o campo livre para as interpretações, como uma pintura abstrata. Apesar disso Marshall acreditou poder extrair de tudo isso uma interpretação inteligível.
Teve de compor essa interpretação com um misto de ganância, inveja, fome e agressividade. Era o concerto oferecido pelas almas das criaturas mais baixas. Os tons provenientes das criaturas mais desenvolvidas, das focas, achavam-se ausentes.
Decepcionado, Marshall esteve a ponto de abandonar o exercício cansativo da concentração. Subitamente, porém, um sinal de alarma soou em seu cérebro. Um pensamento concebido numa mente humana surgiu dentro de seu círculo de alcance. Era um pensamento mortífero, vindo da costa.
Por pouco não deu um salto e saiu correndo. Mas lembrou-se em tempo que naquela situação sua vida dependia de sangue-frio. O pensamento girava em torno do ato de matar. E a intenção era tão nítida que até mesmo a vítima, John Marshall, estava perfeitamente fixada.
É o espião da Terceira Potência, o lacaio de Rhodan. Há dias você anda fugindo de nós. Mas agora chegamos ao mar e você não poderá prosseguir. Você tombará morto. Não merece nossa compaixão. Devia chamá-lo. Devia mostrar-lhe o cano da arma e o fogo, mas acontece que você é um dos homens de Rhodan. E com estes não se deve assumir o menor risco.”
Marshall sabia que atrás dele, na orla da floresta, existia uma mira, e que naquele instante sua omoplata esquerda dançava diante da mesma. O homem apontava a arma para seu coração... Assim que se virasse, o tiro seria disparado.
Não se virou: atirou-se na água.
Naquele lugar a água era tão rasa que não cobria seu corpo. Mas os juncos que cresciam na praia ofereciam certa proteção.
No momento em que se deixou cair o tiro foi disparado, mas o projétil passou por cima dele.
O pensamento que surgiu a seguir na orla da floresta foi uma idéia de pânico.
O assassino já não via sua vítima e pensou em fugir. A reação de Marshall despertou reações supersticiosas em sua mente. Mas logo o temor dos superiores e o medo da selva venusiana interpuseram-se nestes fragmentos de idéias.
Preciso matá-lo! Preciso matá-lo, senão nunca mais conseguirei viver tranqüilo perto de Tomisenkow.”
John Marshall rastejou pela água rasa, rolou até a margem e se escondeu entre os juncos, onde permaneceu imóvel.
Os Rhodan são feiticeiros! O medo é de enlouquecer. Só quando todos os Rhodan estiverem mortos teremos sossego e poderemos dormir sem pesadelos. Preciso matá-lo!
A idéia foi se aproximando, e com ela o assassino. Também se atirara ao solo, abrigando-se nos juncos para lançar seu ataque. Mas a atividade de seu cérebro traiu sua posição. Ergueu a cabeça por cima dos juncos. Marshall conhecia a direção. Bastou-lhe girar sua arma por um centímetro para a esquerda e apertar o gatilho.
Quando se levantou e foi para junto do inimigo, só encontrou um morto.
— É estranho! Dizem que somos os Rhodan, quando só existe um homem que usa este nome.
Marshall sabia que estava só. Caminhando ereto, dirigiu-se para a vegetação protetora da selva. Um sorriso brincava em torno de seus lábios. Era um sorriso de orgulho. Na terminologia do inimigo, também ele era um Rhodan.

3



O General Tomisenkow transferira seu quartel-general para um ponto situado cinqüenta quilômetros a leste. Estava situado num planalto que se erguia em meio à selva com uma vegetação escassa. Isso facilitava sua defesa no caso de um ataque lançado por um dos grupos rebeldes. Era bem verdade que na selva encontraria um esconderijo melhor. Mas não estava muito interessado em ficar sem ser reconhecido. Todos sabiam que se instalara nessa área. E todos sabiam que a tropa que se mantinha fiel a ele era numericamente superior a todas as outras. E essa superioridade colocava-o numa posição em que não precisava temer um confronto aberto.
As barraquinhas e cabanas de plástico emergiam em meio à vegetação de pouco menos de dois metros de altura. Todo o perímetro do acampamento estava protegido por uma linha compacta de sentinelas.
De seis em seis horas a senha era modificada, o que dificultava bastante a infiltração de rebeldes. A patrulha que fora mandada no encalço do telepata John Marshall era composta de apenas doze homens e não dependia da senha. Tomisenkow conhecia pessoalmente cada um desses homens.
Subitamente o sargento Kolzov viu um pano branco que se erguia em meio à vegetação.
— Senha!
— Sou o tenente Tanjev do comando avançado. Preciso falar com o general.
— Levante os braços! Pode passar.
Um homem se levantou de um salto e se aproximou com os braços erguidos.
— Está bem, tenente. Vá na direção daquele arbusto redondo. O general mora à esquerda. Há alguma novidade?
— Não ouvi sua pergunta, Kolzov. Preciso falar com o general, não com o senhor.
O tenente Tanjev tinha o aspecto de um soldado sadio que há vários dias se mantinha numa atividade ininterrupta. E isso correspondia aos fatos. Tomisenkow recebeu-o sem demora. Ao entrar fez uma continência impecável.
Os homens ainda estão em boas condições”, pensou Tomisenkow satisfeito. Recebeu Tanjev com um sorriso benévolo, atrás do qual se ocultava a curiosidade.
— Vejo que ainda está vivo, tenente. Quais são as novidades?
— Aquele homem chegou ao mar, general.
— Que homem?
— Como sabe, há quatro dias houve uma batalha de rebeldes ao sul do planalto. Conforme constatamos, pelo menos três elementos da Terceira Potência participaram.
— Isto são fatos conhecidos, tenente — interrompeu o general. — Acho que veio trazer alguma novidade.
— Pois um desses homens foi sozinho em direção ao leste, e saímos em sua perseguição conforme nos foi ordenado.
— Foram instruídos para matá-lo ou trazê-lo para cá. Já conseguiram?
O tenente Tanjev hesitou.
— Ainda não conseguimos capturá-lo, general. Não é fácil agarrar um homem só, quando o mesmo esteja prevenido.
— Quem poderia tê-lo prevenido? Em Vênus quase não há gente.

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