domingo, 4 de novembro de 2012

P-023 - Chave Secreta X - W. W. Shols [parte 3]


— Alô, Perry Rhodan! Aqui fala John Marshall. Estou chamando Perry Rhodan. Encontro-me numa situação de emergência.
Esperou.
Passaram-se dez segundos. O impulso transmitido pelo emissor causaria a ativação automática do receptor. Finalmente veio a resposta.
— Rhodan falando! O que houve, Marshall? Conseguiu alguma coisa?
— Não. As focas não dão sinal de vida. Tentei durante várias horas. Há gente do Bloco Oriental que está no meu encalço. Conseguiram me cercar. Encontro-me numa península em que não existe qualquer vegetação. Minha única proteção consiste num monte de areia. O inimigo está protegido na floresta. Tenho uma segurança relativa diante de armas leves de infantaria. Mas tenho de contar com a possibilidade de que a patrulha inimiga consiga trazer ou já disponha de morteiros. Não há dúvida de que estão atrás de mim. Pode fazer alguma coisa para me ajudar?
— Que diabo, John! Você está mesmo em maus lençóis. Ainda bem que me avisou. Neste momento reina a maior confusão nas fileiras de Tomisenkow e dos rebeldes. Por enquanto não nos preocuparemos com os goniômetros dos mesmos. Okura e eu conseguimos passar na frente das tropas do general. Já temos uma boa vantagem. Calculo que dentro de quatro horas poderemos chegar ao lugar em que se encontra. Agüente até lá. A partir das cento e cinqüenta horas transmita um vetor de rádio de dez em dez minutos, para que possamos tomar logo a direção correta. Não desanime, Marshall! Nós o tiraremos daí.
Pouco depois do fim da palestra radiofônica, os soldados que se encontravam na praia voltaram a atirar. Em três pontos, Marshall reconheceu o fogo dos canos das armas e respondeu prontamente com o radiador de impulsos térmicos.
A mil metros de distância a arma de radiações ainda atingia o alvo com mais de dois terços de sua energia. Na beira da floresta surgiu uma incandescência azulada que produziu uma forte condensação da suculenta vegetação. Num instante um pequeno trecho da linha costeira se cobriu de uma densa camada de neblina.
— Hum — fez Marshall, satisfeito. — Nem contava com este efeito da minha arma. Abrirei um pequeno fogo de barragem e envolverei essa gente na neblina. Isso os irritará e os manterá ocupados por algum tempo.

* * *

— Vamos, Okura! Somos dois inválidos, mas temos de aumentar nossa velocidade mais um pouco. Será que você consegue?
O mutante tentou esboçar um sorriso confiante, mas não conseguiu. Rhodan viu que o rapaz estava realizando um esforço que ultrapassava sua capacidade.
— Venha cá, Son. Passe as três carabinas, espingardas e o saco de mantimentos. É minha vez de fazer o papel de burro de carga.
— Não fale como se eu até aqui tivesse levado a carga sozinho. E não se esqueça do seu ombro.
— Bobagem! Meu ombro está em vias de se curar. Passe para cá essas bugigangas e pegue o facão. Nos quilômetros que se seguem você irá à frente. Terá bastante para fazer.
O gracioso japonês obedeceu. Continuaram a avançar pela selva.
Há muito haviam deixado para trás a passagem pelo rio.
Rhodan, que havia recebido o pedido de socorro de Marshall, não pôde permanecer por mais tempo nas proximidades de Thora. Tinha de chegar ao mar quanto antes. Só lhe restava fazer votos de que alguém da tropa de Tomisenkow tivesse encontrado o bilhete que continha a advertência sobre a armadilha montada por Wallerinski.
A hora já passara e não se ouvira nenhum tiro.
— É claro que encontraram o bilhete — asseverou Okura. — Se Tomisenkow tivesse passeado embaixo daquelas árvores em que Wallerinski se mantinha à espreita, já teríamos ouvido o barulho de outra batalha.
— Se for assim, por enquanto Thora está em segurança. Não demorará muito e nós a tiraremos de lá. Assim que a noite descer sobre o planeta, você será nossa arma mais potente, Okura...
Perry Rhodan estava aludindo à capacidade de ver as freqüências, de que Okura era dotado. Embora para enxergar normalmente Okura precisasse de óculos, ele possuía olhos que dificilmente outro homem conhecia. Sua visão penetrava profundamente nas faixas do ultravioleta e do infravermelho. Isso significava que enxergava muito bem de noite.
— Quando a noite descer sobre o planeta... — repetiu Okura. Pelo tom em que pronunciava as palavras, até parecia que ansiava pela noite. — Não sei por que, mas acho a divisão do tempo na Terra muito mais simpática que a que temos aqui. Até o anoitecer faltam mais de três dias. E até lá temos de libertar Marshall da situação crítica em que se encontra.
— Não é até lá — asseverou Rhodan em tom áspero. — Acho que o tempo de que dispomos é muito menor.
Os últimos quilômetros foram percorridos com uma relativa facilidade. Isso não dependia tanto da natureza do terreno, mas antes da rotina que adquiriram ao lidar com a selva.
Captaram regularmente o vetor transmitido por Marshall e isso lhes permitiu seguir pelo caminho mais curto.
Pelas cento e cinqüenta e duas horas, Rhodan afirmou que estava cheirando o mar.
— Muito cuidado, Son! — advertiu. — Esta floresta está cheia de combatentes sem escrúpulos.
Subitamente viram o mar junto de si. A visão os surpreendeu um pouco. Poucos minutos antes ainda se viram diante de uma vegetação densa e rebelde.
— Hum — resmungou Rhodan. — Não se vê muita coisa. Que neblina!
Okura sorriu.
— É uma neblina muito estranha, mas não me incomoda nem um pouco. Se não me engano ela vai se tornando cada vez mais densa para o lado esquerdo.
— Você não está enganado, Son. Consegue enxergar alguma coisa?
— Enxergo muito bem. A menos de trezentos metros daqui pelo menos vinte homens estão deitados na orla da floresta.
Estão simplesmente deitados no capim, porque acreditam que a neblina os protege contra a visão.
— E Marshall?
— A península fica pouco adiante.
— Ah, sim. Vejo a ponta lá fora. E vejo um ponto negro. Deve ser John. Não compreendo como a neblina pode se concentrar num espaço tão reduzido. No resto da área a visão é perfeita.
Okura não soube responder.
— Quer que avance sozinho? — perguntou. — Será fácil achar o meu caminho.
— Um momento: isso tem tempo. Rhodan enfiou as mãos numa sacola que tirara dos pacifistas. Retirou duas cargas explosivas.
— Acho que isso os despertará. Voltaram à floresta e aproximaram-se do grupo inimigo por trás. Colocaram as duas cargas explosivas num flanco do grupo e regularam os detonadores para uma diferença de trinta segundos. Depois retiraram-se apressadamente. Muito bem abrigados, acompanharam o desenrolar dos acontecimentos.
— Falta um minuto — murmurou Rhodan.
Okura confirmou com um aceno de cabeça.
A primeira carga explodiu.
— Levantaram-se e estão correndo confusamente de um lado para o outro. Gritam alguma coisa...
— Estou ouvindo.
— A maioria deles procurou uma cobertura no próprio local.
— E os outros?
— Três estão fugindo, para o oeste. Vão correndo pela praia. Um deles parece ser corajoso: caminha em direção à floresta. Está com a carabina em posição de atirar.
— Diz que isso é coragem? Esse sujeito ficou maluco.
Os trinta segundos passaram.
A segunda carga explosiva detonou. A confusão nas fileiras inimigas foi total. Todos esperavam novas detonações, cuja origem por enquanto era desconhecida. Face a isso teve início uma retirada geral para o oeste, que degenerou até que cada um corria o mais que podia. Corriam pela costa, pois na praia o deslocamento era mais fácil.
— O acesso à península está livre — disse Okura em tom exaltado.
— Vamos, meu filho — decidiu Rhodan. Assumiram suas posições no início da península.
— Verifique o terreno a oeste — ordenou Perry, mantendo-se ocupado com o rádio. — Venha, John. Libertamos a passagem. Você nos encontrará no ponto exato em que a península se liga à terra firme.
— Pelo sagrado Universo, chefe! Isso foi um trabalho bem feito. Já dispõe de peças de artilharia?
— As explicações ficam para depois. Antes de mais nada quero ver se ainda está inteiro.
Quando o vulto de John Marshall surgiu na neblina, novas detonações rugiram ao longe. Pela sua intensidade concluía-se que eram cargas de grosso calibre.
— O que foi isso? — gemeu Son Okura.
— Acho que foi um bombardeio — disse Rhodan em voz baixa, falando entre os dentes. — Vivo dizendo que alguns cavalheiros que se encontram em Vênus erraram nos seus cálculos.

6



Haviam escapado da armadilha de Wallerinski. Mas, quando o general Tomisenkow viu os quatro helicópteros que se lançavam ao ataque, soube que fugira da chuva para entrar no chuveiro.
A primeira salva de bombas caiu quase toda na selva. Apenas as últimas três detonações vinham da área em que Tomisenkow supunha sua vanguarda.
— Isso é traição. Chamarei essa gente a prestar contas...
— Procure se abrigar — interrompeu-o uma voz. Era o coronel Popolzak. — Espalhem-se pela floresta de ambos os lados do caminho.
Num instante o desfiladeiro bem visível parecia varrido. Apenas algum material deixou de ser retirado.
Mais uma vez as cargas de TNT foram lançadas em meio à confusão da selva, atirando para o ar uma mistura de galhos, árvores inteiras e cipós.
Dentro de dois minutos tudo chegou ao fim.
— Voltarão — afirmou Thora, que com uma repugnância indisfarçável removeu a sujeira de sua roupa.
— O que é que a senhora sabe? — berrou Tomisenkow.
Thora deu de ombros.
— Não sei nada, general. O ataque não foi desfechado pelo meu exército. Mas procure refletir intensamente. Deve ter reconhecido as insígnias dos aparelhos.
— Os helicópteros são do Bloco Oriental, madame. Conheço-os pelo tipo. São os maiores, os mais rápidos...
— Já sei. Os maiores, os mais rápidos e provavelmente os primeiros do mundo — respondeu Thora em tom zombeteiro.
— Cale-se! Eu lhe...
De tanto nervosismo ninguém deixava que o outro terminasse. O general interrompeu Thora. E o coronel Popolzak interrompeu o general.
— Deve haver mortos, general. Tem alguma ordem para mim?
— Não está em condições de decidir a respeito disso, coronel? Mande recolher os mortos e reúna a divisão. Preciso falar com todo mundo.
Tomisenkow olhou para a arcônida. Subitamente segurou-a pela mão.
— A senhora virá comigo.
Thora foi obrigada a segui-lo para a coluna de comunicações, que há vários meses só existia pelo nome. Os telegrafistas eram soldados de infantaria esfarrapados como os demais.
— Kossygin! — berrou Tomisenkow.
Um cabo surgiu entre um montão de aparelhos.
— Às ordens, general.
— A proibição das comunicações radiofônicas está suspensa. Ligue um microfone e um rolo de fio magnético para gravar o som.
— Não quer se comunicar em código?
— Que diabo! Não faça perguntas, cabo.
— Desculpe, general, que freqüência devo ligar?
— Ora essa! A freqüência normal! Acha que quero ter uma conversa particular? Fique aqui mesmo, madame. Não vai fugir para a selva justamente agora!
Thora só recuara alguns passos para sentar num tronco tombado. Para surpresa de todos, sorriu.
— Não se perturbe, general. Não vou fugir.
Kossygin fez uma prova, gravando e reproduzindo sua própria conversa.
— O emissor está preparado, general.
— Aqui fala o general Tomisenkow, comandante da divisão aerotransportada Vênus. Ordem destinada aos quatro helicópteros. Pousem imediatamente em minha área e se apresentem. Acusem o recebimento e declinem o nome do oficial que se encontra no comando.
Para surpresa geral a resposta foi imediata.
— Aqui fala o coronel Raskujan. Quero cumprimentá-lo, general. Infelizmente vejo-me forçado a decepcioná-lo se acredita que pode me dar ordens. Na verdade, sugiro que capitule. Incondicionalmente, compreendeu? Depois poderemos conversar tranqüilamente sobre os detalhes.
— Será que ficou louco, coronel? De onde veio a esta hora? Há um ano seu nome me foi indicado como o do subcomandante de uma frota de reforços. Será que levou doze meses terrestres para percorrer a distância da Terra até aqui?
— A viagem foi um pouco mais rápida. — disse Raskujan com uma risada irônica. — Permita que lhe dê alguns esclarecimentos sobre a situação atual. A frota de reforços pousou há onze meses na superfície de Vênus. Acontece que não havia mais qualquer divisão que merecesse o apoio trazido pela mesma. General, quero que fique sabendo que sou a única pessoa que dá ordens em Vênus.
— Isso é um ato de insubordinação! — fungou Tomisenkow para dentro do microfone que, de tanta exaltação, mal conseguia segurar. — O senhor foi destacado para o meu serviço pela autoridade espacial e tem o dever de se apresentar a mim.
— É o que acabo de fazer. Espero que não se incomode com a demora.
A voz de Raskujan porejava de ironia, o que fez com que o general perdesse o resto de autocontrole que ainda lhe sobrava.
— Repito pela última vez, coronel Raskujan. Apresente-se imediatamente. Não vou discutir os detalhes pelo rádio. Se não obedecer a esta ordem, será chamado a prestar contas perante a instância mais elevada.
— O senhor não está avaliando corretamente a situação — respondeu Raskujan, passando a usar um tom mais amável e objetivo. — A instância mais elevada sou eu. Veja no ano passado um trecho de história. É um pedaço de passado que devia lhe ensinar alguma coisa. Quem dispõe de todo poder em Vênus sou eu, o coronel Raskujan. O planeta está submetido às minhas ordens. Pode acreditar que disponho dos meios para impor minhas ordens a quem se opuser. Não confunda seu bando de assaltantes com a divisão que já foi, general. Repito minha oferta. Recomende aos seus soldados embrutecidos que se entreguem incondicionalmente. Estou disposto a transformar todos eles em pessoas decentes e civilizadas. Tratarei cada um, segundo sua capacidade e boa vontade. Com isto eu me despeço, senhor Tomisenkow. O senhor sabe como me encontrar.
O general ainda berrou para dentro do microfone alguma coisa que soava como traidor. Mas era evidente que o interlocutor já não estava recebendo a mensagem.
Subitamente aquele homem, submetido a uma série de provações que atingiam o limite de sua capacidade psíquica, mergulhou no silêncio. Pôs a mão no pescoço.
— Não force sua voz — aconselhou Thora com a frieza que lhe era peculiar.
Seu sorriso não dissimulava o fato de que a derrota daquele homem a alegrava.
— Como é que uma coisa dessas podia acontecer, madame? Esse sujeito, o tal do Raskujan, já serviu numa companhia comandada por mim. Conheço-o como a mim mesmo. Era um ótimo soldado, e nada fazia desconfiar de que um dia enlouqueceria.
— Em Vênus todo mundo enlouquece. Será que o senhor acha que ainda é normal?
— Acontece que eu sou general e ele é coronel. Isso devia bastar.
— Parece que em Vênus não basta, general. Já ouvi falar num ditado que corre pela Sibéria. “Moscou é longe”, costumam dizer. E nunca essa frase se aplicou melhor a qualquer pessoa que ao senhor e a seu rival. Aqui Raskujan começou tudo de novo. É outro planeta, outra vida. Os fatos são estes.
— Acontece que ele usa o mesmo uniforme que eu. Isto também é um fato.
— É possível que já tenha tirado o uniforme. Além disso, os termos que usou durante a palestra e os helicópteros que comanda causaram a impressão de que o senhor se encontra diante de um poderio militar perfeitamente organizado. Não há dúvida de que é o mais forte. Mas por que digo estas coisas? O senhor tem olhos que enxergam e sabe perfeitamente que os destroços de sua divisão não passam de um grupo embrutecido.
— Madame! — indignou-se Tomisenkow, mas interrompeu-se quando viu seu olhar gelado.
Parecia que entre os dois fora erguido um muro invisível que não permitia qualquer contato. As palestras ligeiras que mantinham vez por outra não podiam alterar esse fato.
O coronel Popolzak anunciou que a divisão se encontrava em forma.
Haviam encontrado trinta e oito mortos, que foram amontoados num lugar um pouco afastado.
— Tiramos suas armas e seus papéis e depositamos tudo no estado-maior.
— Está em ordem — disse Tomisenkow com um aceno de cabeça, como se aquele instante o mais importante fosse a exata contabilização.
— Está tudo em ordem, com exceção dos feridos — observou Popolzak.
Tomisenkow lançou-lhe um olhar irritado, como se nem tivesse pensado nessa possibilidade.
— Há quinze feridos — prosseguiu o coronel.
— O Dr. Militch não está cuidando deles?
— Está cuidando conforme pode. Mas como sabe quase não dispomos mais de medicamentos e ataduras.
— Tem de se arranjar conforme pode. Para isso é médico.
Popolzak nunca vira o rosto de Tomisenkow tão estreito e decaído como estava hoje. E nunca ouvira o chefe falar com tamanha indiferença nos mortos e nos feridos. O surgimento de Raskujan devia tê-lo excitado e deprimido terrivelmente.
O general revistou a tropa. Não se podia falar numa divisão formada diante de seu superior. Nem em número, nem pela apresentação dos homens. Os grupos estavam reunidos o mais próximo que a vegetação intensa permitia.
Dirigiu um discurso aos homens, no qual exprimiu sem rebuços tudo aquilo que já transmitira pessoalmente a Raskujan pelo microfone.
— Tivemos perdas — concluiu. — Mas não porque o coronel Raskujan, o desertor, seja o mais forte, mas apenas porque nos atacou à traição. Há um ano o governo do Bloco Oriental mandou que seguisse para Vênus a fim de nos apoiar. Empregaremos todos os meios de que dispomos para obrigá-lo a prestar a obediência que nos deve. Estamos prevenidos e saberemos nos adaptar à situação. Mais alguns quilômetros, e chegaremos ao mar. Nossa marcha prossegue pelas baixadas da selva, onde a visibilidade é nula. Os grupos de observação do inimigo não nos encontrarão antes de atingirmos nosso objetivo. A prisioneira arcônida garantirá nosso acesso à fortaleza de Vênus. No mesmo instante em que chegarmos lá, ajustaremos nossas contas com Raskujan. Nem que lance cem helicópteros contra nós. Não poderá resistir ao nosso poder e será obrigado a se submeter. Os destacamentos devem se preparar para iniciar a marcha. Os chefes de companhia devem se apresentar ao Dr. Militch. O transporte de todos os feridos que não podem se locomover deve ser garantido. Muito obrigado.

* * *

A neblina artificial já se desvanecera.
Rhodan, Marshall e Okura penetraram um trecho na floresta. Não se via mais nada dos homens do Bloco Oriental, que se retiraram em direção ao oeste. Mas havia o risco de que também penetrassem no mato e procurassem se aproximar sorrateiramente. Uma vez que, depois da detonação das duas cargas, não houve outras explosões no local, poderiam se reanimar.
Rhodan era de outra opinião.
— As duas cargas que detonamos aqui não passam de brincadeira em comparação com aquilo que acaba de acontecer ali na selva. Não há dúvida de que foram bombas. Não me consta que qualquer dos grupos que conhecemos disponha de armas de calibre tão grosso. Só há uma explicação, que já me ocorreu há bastante tempo.
— Está pensando na frota de reforço dos russos, não é?
— Isso mesmo. Conforme sabem, há tempo vivo quebrando a cabeça para descobrir onde pode ter ficado a frota que há cerca de um ano surpreendentemente lançamos numa confusão completa pouco antes de sua chegada a Vênus. Eram duzentas naves, e destruímos apenas trinta e quatro. Uma parte deve ter pousado em Vênus. Mesmo que grande parte das máquinas restantes tenha sido destruída no planeta, um cálculo grosseiro nos leva à conclusão de que algumas devem ter chegado.
— Acredita que elas se mantiveram escondidas por um ano? — perguntou Marshall em tom incrédulo.
— Por que não? Talvez isso se tornasse necessário por razões de ordem tática.
Naquele instante o ribombar de outra série de explosões atravessou a paisagem.
— Trata-se de bombas explosivas comuns — constatou Marshall. — Devem ser os russos. De qualquer maneira não se trata de uma expedição da Terceira Potência.
— Desista dessa esperança, John. Se Bell não consegue descer, nenhuma outra nave conseguirá. A barreira erguida pelo cérebro positrônico é intransponível. Por isso também se torna evidente que essa gente que agora está lançando as bombas já se encontrava aqui quando nós chegamos. E devem dispor de aviões.
Os dois mutantes não sabiam o que dizer.
— De qualquer maneira há um certo paradoxo naquilo.
— Só para quem não sabe o que há atrás disso — asseverou Perry Rhodan.
Subitamente estacou. Okura e Marshall também inclinaram a cabeça para o lado, como se prestassem atenção a um ruído distante.
Um rugido leve e abafado enchia o ar. Não era o ribombar do bombardeio.
— Olhem! — disse Okura de repente e apontou para o sudeste. Rhodan e Marshall não viram nada.
— São helicópteros. Santo Deus, não os reconhece mais?
— Pelo ruído parece que tem razão, Son. Mas devem estar voando naquelas nuvens baixas.
— Naturalmente. Desculpe, não me lembrava.
— Continue a observá-los. Estou interessado em saber que direção vão tomar.
Num gesto instintivo manipulou seu receptor. Fez o seletor de freqüências percorrer a faixa usual das ondas ultracurtas. O condensador seletivo pôs-se a funcionar automaticamente quando houve uma recepção.
Rhodan encostou a pulseira ao ouvido e testemunhou a palestra travada entre o general Tomisenkow e o coronel Raskujan. Marshall e Okura seguiram seu exemplo, pois ambos usavam uma pulseira igual à de Rhodan.
O diálogo breve e exaltado foi bastante instrutivo. Rhodan esboçou um sorriso de satisfação, mas logo se tornou sério.
— Tive razão. Seguiremos essa gente, desde que nos façam o favor de prosseguir por mais algum tempo nas suas transmissões pelo rádio. Uma das feições características de grande parte da Humanidade consiste no fato de sempre ter que viver na discórdia, esteja onde estiver. Aqui em Vênus temos alguns cidadãos comuns do planeta Terra, e já vivem quebrando a cabeça uns dos outros. Acontece que o cosmos está à nossa porta, e temos de aprender a lidar com essas coisas. Parece que a palestra chegou ao fim. Que pena!
— Não acha que devíamos escutar mais um pouco? — sugeriu Okura.
— É claro que sim. No momento não temos coisa melhor para fazer. Mas basta que um de nós cuide disso.
Penetraram mais um pedaço na floresta. Marshall e Okura, que tinham os melhores dons de observação natural, cuidaram da retaguarda. Rhodan observou o terreno em direção ao litoral e manteve seu receptor em atividade.
Os helicópteros já haviam desaparecido sobre o mar, atrás da linha do horizonte. Finalmente, depois de passados mais de noventa minutos, palavras voltaram a soar no éter. Tratava-se de uma ligeira palestra entre um dos pilotos e a base. Mas isso bastou para que Rhodan realizasse a localização goniométrica. O resultado foi registrado imediatamente na pequena bússola giratória que também se encontrava na pulseira, para que pudesse ser interpretado posteriormente.
— Já localizamos o quartel-general de Raskujan.
A exclamação despertou a atenção dos dois companheiros.
— Onde fica? É muito longe?
— Um momento! Não sou nenhum mágico! Com a antena goniométrica só posso determinar a coordenada. Temos a direção, e isso já vale muito.
Rhodan tirou o livro de anotações do bolso e desenhou um croqui da parte norte do planeta. Registrou o mar primitivo com o braço de trezentos e cinqüenta quilômetros que se estendia terra adentro, os acidentes da área em que se encontravam e o bloco continental com a tão cobiçada base de Vênus.
— No momento estamos aqui. Aqui, mais ao sul, foram lançadas as bombas, e os helicópteros voltaram por esta rota.
Traçou uma linha para o nordeste, que atravessava a enseada e prosseguia terra adentro no lado oposto.
— A segunda coordenada deve ser estimada — prosseguiu. — Mas como dispomos de uma série de dados, poderemos calcular a distância com um grau de precisão bastante satisfatório. Conhecemos o tempo de vôo dos helicópteros. Além disso, sabemos que seu percurso toca um ponto geográfico bastante crítico. Fica aqui...
Fez uma cruz na folha de papel e os dois amigos compreenderam imediatamente de que se tratava. A cruz ficava na periferia da abóbada energética de cinqüenta quilômetros de diâmetro que cercava a base de Vênus. E ficava no ponto exato em que doze meses antes Rhodan lançara um ataque contra as forças de Tomisenkow. Numa faixa de vários quilômetros, a paisagem fora transformada em terra morta. Toda a vegetação fora extinta.
— É a picada gigante — disse John Marshall em tom pensativo.
— É claro — confirmou Rhodan. — Para qualquer um que ande vagando por Vênus, o Eldorado só pode ser nossa base. Raskujan quer entrar na fortaleza, da mesma forma que nós e Tomisenkow. E foi por isso que durante um ano não se preocupou com os grupos esparsos. Está alojado nessa grota que transformamos em terra queimada. É o campo de pouso ideal para as naves espaciais e fica a poucos quilômetros da abóbada energética. Cavalheiros, tenho a impressão de que devemos cuidar de Thora. Thora e eu somos as pessoas-chaves para o acesso à fortaleza! Raskujan deve estar de olho em Thora.
— Mas nesse caso não poderia se lançar sem mais nem menos a um ataque contra Tomisenkow — objetou Okura. — Precisa de Thora viva.
— Naturalmente. Provavelmente soube através de outros grupos esparsos como anda a situação. Os colonos ou alguns desertores do grupo de pacifistas terão contado tudo. Por certo o bombardeio não passa de uma demonstração, através da qual pretende mostrar seu poder a Tomisenkow. Um helicóptero permite uma pontaria tão exata que até se pode errar o alvo de propósito. Se minhas suposições forem corretas, dentro em breve Raskujan tentará raptar Thora. Devemos nos antecipar a ele.
Fazia horas que não se via nem se ouvia nada da patrulha formada pelos homens do Bloco Oriental. Provavelmente se juntaram à sua tropa. O bombardeio seria um motivo mais que suficiente para isso.
Rhodan voltou a olhar para o relógio. O entardecer de Vênus já ia bem adiantado. Eram cento e sessenta e seis horas, e aqui no norte os dias eram mais curtos que as noites.
— Não temos muito tempo. Vamos embora, minha gente.
Voltaram a entrar na floresta. A direção em que encontrariam Tomisenkow e Thora era fácil de determinar. Avançaram com bastante rapidez.
Até que o lagarto das árvores atacou.
Rhodan já advertira os companheiros de que nas horas de crepúsculo deveriam dedicar uma atenção especial ao imprevisível mundo animal do planeta. Naquela hora do dia quase tudo estava de pé. Os animais diurnos preparavam-se para voltar aos seus ninhos ou cavernas. E os animais notívagos iam começando suas excursões.
Dez minutos depois de iniciada a marcha, Marshall teve que matar uma barata gigante de três pernas. O animal correu para cima deles com um terrível chiado. Só esse barulho nojento fizera com que fosse notado em tempo.
— Por que será que esse bicho faz um barulho desses ao atacar? — perguntou Marshall depois de tê-lo liquidado silenciosamente com o radiador de impulsos térmicos. — Assim ele só se trai.
— Certos animais assustam suas vítimas de tal maneira que as mesmas ficam rígidas de pavor. Uma tática dessas também serve para fazer presas. Se não fosse assim, essa espécie não se teria mantido até os dias atuais.
A explicação era convincente.
Trinta minutos depois começou o verdadeiro desastre.
Marchavam em fila indiana: Okura, Rhodan, Marshall.
O lagarto das árvores deixou que Okura passasse. Por algum motivo desconhecido o animal atacou o chefe.
Estendeu sua cauda preênsil de uma altura indefinível e numa fração de segundos deu várias voltas em torno do tórax de Rhodan. Este ainda conseguiu soltar um grito. Mas logo o animal lhe apertou o peito de tal maneira que nem conseguia respirar.
Num gesto instintivo Rhodan pôs ambas as mãos naquela cauda coberta de cabelos lisos. Deixara cair o fuzil no primeiro contato. Acontece que suas mãos representavam um instrumento ridículo em comparação com a força desenvolvida nos vários metros dessa parte do corpo do lagarto. Rhodan não pôde fazer nada.
Depois de dois segundos já se encontrava na altura da cabeça de Marshall.
Num gesto instintivo o mutante levantou o radiador de impulsos, mas não se atreveu a atirar. O crepúsculo que caía, e que sob a densa folhagem ainda espalhava uma escuridão muito maior, não permitia uma visibilidade adequada. E aquela cauda executava movimentos pendulares tão intensos que Marshall não podia se arriscar a atirar. A vítima foi arrastada para o alto aos solavancos.
— Okura! — gritou Marshall.
O japonesinho já se virara.
— Está bem, John. Largue a arma. Isto é para mim.
O visor de freqüência não experimentava tantas dificuldades de visão. Viu o laço tríplice daquele rabo de cobra. Viu o tronco do lagarto que ia engrossando progressivamente e que, vinte metros adiante, se perdia em meio à folhagem.
Até então só conheciam esse animal através de descrições. Pelo que se dizia seu aspecto era semelhante ao de um jacaré. Dali provinha o nome, tirado da biologia terrestre. Porém um exame mais detido logo revelara as diferenças.
A cauda preênsil tinha cerca de quatro vezes o comprimento do resto do corpo. Desempenhava uma função tão importante como o rabo dos macacos. O lagarto propriamente dito tinha o corpo curto e coberto de pêlos lisos como um castor. Vivia principalmente nas árvores. Até chegava a construir ninhos.
O lagarto simplesmente tirara Perry Rhodan do caminho. Este já se encontrava a uns sete ou oito metros acima do solo quando Okura conseguiu levantar seu radiador de impulsos térmicos.
O laço com o ser humano surgiu diante da alça de mira. Mas logo Okura viu a parte mais espessa da cauda. Puxou o gatilho. Um raio contínuo de cinco segundos fez com que executasse dois movimentos pendulares. A ponta da cauda se destacou do tronco e caiu ao chão.
Okura e Marshall saltaram para o lugar em que Rhodan se encontrava, para libertá-lo quanto antes. De início procuraram fazê-lo da mesma maneira pela qual se desata um cordão de sapato. Mas logo perceberam que aqui teriam de lançar mão de energias de outra espécie.
Ainda perceberam que um êxito inicial não deve tornar a pessoa despreocupada. Só pensavam em tirar o chefe do laço.
— Cuidado! — gritou Okura de repente e empurrou Marshall para o lado.
O animal furioso saltou de cima da árvore. Chegou ao solo perto de Rhodan. Apesar da pequena distância não se via se este fora atingido mais uma vez.
Agora o alvo era bem grande. Nem mesmo Marshall hesitou em atirar. A uma distância reduzidíssima levantou o radiador de impulsos térmicos e puxou o gatilho. O corpo se estendeu, empinou uma última vez e se imobilizou de vez.
— Está morto — disse Okura e voltou a saltar para a frente.
Com todo azar Rhodan ainda tivera muita sorte. Por poucos centímetros não fora esmagado pelo corpo daquele gigante.
— Chefe! — gritou Marshall e procurou apalpar a cabeça de Rhodan.
— Está inconsciente — disse Okura. — Vamos, John, ajude-me. Não poderemos abrir o laço com as nossas forças. Além de tudo a ponta do rabo está presa sob o corpo do animal.
— Estou vendo. Como poderei ajudar?
— Temos de nos arriscar a dar dois cortes térmicos para seccionar a cauda o mais perto possível do corpo de Rhodan. Só assim poderemos libertá-lo.
Marshall deu um aceno automático com a cabeça. Não se sentiu muito bem quando se pôs a executar essa tarefa. Mas não havia outra alternativa. Teve que reunir todo o sangue-frio e reduzir a abertura do foco ao mínimo.
— OK — disse depois de algum tempo. — Estou pronto.
— Pois atire — pediu Okura sem fazer o mesmo. — Aqui embaixo enxergo um pouco melhor, mas minha mão não está disposta a uma tarefa destas. Não quero ter meu chefe na consciência.
— Ah, então você não quer. Mas os outros...
— Não enlouqueça agora, Marshall. Se alguém de nós tem os nervos em bom estado, é você. Se acredita que sou um covarde, poderemos tirar a prova em outra oportunidade. Hoje não. Este seria o momento mais inadequado.
— Está bem — interrompeu Marshall e fez pontaria.
Ambos os tiros foram bem sucedidos.
— Então! — disse Okura, enquanto o atirador enxugava o suor da testa.
A libertação de Perry Rhodan foi uma questão de segundos. Com um gemido rolou para o lado e ficou deitado de costas. Sua respiração era regular.
— Será que quebrou alguma coisa na queda?
— Não acredito. Em Vênus uma queda de oito metros é muito menos perigoso que na Terra. Além disso, a ponta da cauda foi uma espécie de mola. Só o aperto no tórax...
Marshall interrompeu-se. Rhodan abrira os olhos e pusera a mão no ombro. Os amigos compreenderam imediatamente. Arrancaram sua camisa e viram que a ferida causada pelo tiro voltara a se abrir.
Um dos três pôs-se a praguejar. Lembraram-se dos remédios que já haviam se acabado há tempo.
— Sente dores? — perguntou Okura. Rhodan conseguiu esboçar um sorriso.
— Acho que conseguirei andar, meus caros. Apenas esta velha ferida... — interrompeu-se para cerrar os dentes por algum motivo desconhecido. — Ajudem-me a levantar. Quero experimentar as pernas.
As pernas estavam em ordem. Mas o braço direito estava insensível e imóvel. Rhodan só poderia usar a mão esquerda.
— Sinto muito. Vocês não poderão carregar a bagagem sozinhos. E nem devemos pensar em nos separar mais uma vez. Teríamos que caminhar pelo menos cinco horas para chegar ao lugar em que Tomisenkow se encontra. Vamos voltar ao mar.
— E Thora?
— Esperaremos por ela. É bem verdade que será um jogo arriscado. Raskujan pode ser mais rápido.
— Não há dúvida de que Raskujan será mais rápido. Possui helicópteros. Quanto a nós, nem sabemos se Tomisenkow passará por aqui com sua preciosa prisioneira.
— Sabemos, sim — afirmou Rhodan. — O objetivo de todos os grupos é a base de Vênus. Tomisenkow terá de passar por aqui. É claro que não sabemos se passará alguns quilômetros mais a leste ou a oeste. Mas a praia é visível por um longo trecho. Se tivermos de esperar até o escurecer, Okura nos garantirá uma vantagem ainda maior.
A decisão de Perry Rhodan foi acatada. Puseram-se a caminho para voltar à costa, onde se manteriam na expectativa.
— Talvez volte a chamar as focas — disse Marshall. — Quem sabe se a hora não é mais propícia.
Quando se encontravam a algumas centenas de metros da orla da floresta, voltaram a ouvir ruído de motores.
— Os helicópteros estão voltando! — exclamou Okura bastante exaltado. — Quem dera que já estivéssemos fora da floresta.
— Quer bancar o guarda de trânsito? — disse Rhodan com um sorriso. — Aliás, é bom que abra os ouvidos. Por enquanto só ouço um.
— Um único? Deve ser a patrulha de Raskujan, não é?
O ruído se tornou mais forte e mais abafado. O rangido mais lento das paletas horizontais deu a entender que o aparelho se dispunha a pousar.
— Se for um helicóptero de transporte que vai largar algumas centenas de soldados por aqui estaremos perdidos — observou Rhodan. Apesar disso prosseguiu na sua marcha. Queria lançar quanto antes um olhar sobre a faixa costeira.

7



Fazia várias horas que a divisão espacial dizimada, comandada pelo general Tomisenkow, se pusera a caminho. Com o discurso que, além do apelo a uma obediência determinada pelo juramento e da promessa de um futuro tranqüilo e poderoso, continha tudo que pode ser exigido de um bom propagandista, o general conseguira mais uma vez reunir a tropa desmoralizada em torno de si.
Depois que o coronel Popolzak e Thora não admitiram a menor dúvida quanto aos planos de Raskujan, Tomisenkow parecia ter se conformado com a idéia de que o coronel desertor não se apresentaria a ele. Deixara de fazê-lo durante um ano e também deixaria de fazê-lo no futuro. Thora permitiu-se mais uma de suas observações cínicas.
— Bem, acredito que dentro em breve Raskujan se apresentará ao senhor. No entanto, não o fará para capitular, mas para apontar a pistola contra seu peito.
Pouco depois se encontraram com a patrulha do tenente Tanjev, que se retirara do mar primitivo. Tanjev apresentou um relato minucioso dos acontecimentos. A detonação das duas cargas explosivas foi interpretada como um indício de que as tropas de Raskujan já deviam ter se fixado nos trechos da floresta que ladeiam a costa. Essa circunstância exigia um cuidado redobrado.
Também os homens do Bloco Oriental olhavam para o relógio com uma freqüência cada vez maior.
As pausas intercaladas na marcha se tornaram cada vez raras e mais breves.
Para a frente!, foi a única divisa. Deviam atingir a costa antes do anoitecer.
Thora, que ultimamente dera para desenvolver uma estranha predileção pelos provérbios humanos, veio a dizer posteriormente, face a um acontecimento inesperado, que nunca se deve fazer a conta sem o dono do restaurante.
Na ponta da coluna, que marchava a uns cem metros de distância, subitamente surgiu barulho. Logo depois ouviram-se vários tiros disparados por pistolas e carabinas automáticas.
— É Raskujan! — disse Tomisenkow em tom aflito, revelando o quanto esse problema o preocupava.
Acontece que não era o coronel.
Era a própria hostilidade de Vênus.
Popolzak ia à frente com um grupo de dez homens bem equipados. Marchavam bem juntos. Os três homens que iam à frente traziam facões largos e abriam o caminho. Seus golpes eram decididos e rotineiros. Os galhos e as trepadeiras saltavam para o lado no ritmo de suas batidas. As plantas costumam agir assim em silêncio, numa atitude fatalista.
Acontece que uma das plantas deu um grito e assumiu uma atitude defensiva. À primeira vista parecia ser uma árvore como qualquer outra. Só quando esboçou uma reação ruidosa e saltou para o lado, os homens perceberam que se encontravam diante de um vampiro-carata.
Tudo se passou num espaço de poucos segundos. O vampiro-carata costuma permanecer imóvel por dias, camuflando-se sob a forma de uma árvore. Esse disfarce constitui sua proteção mais segura contra os inimigos naturais. Mas quando é atacado reage com uma rapidez surpreendente. Possui outra arma, muito mais perigosa que seu disfarce. Suas folhas, que lembram as da palmeira carata, natural da América do Sul, estão semeadas no lado inferior com milhares de pequeninas glândulas venenosas. E o animal sabe agarrar sua vítima.
Cerca de uma dezena dessas folhas se estendeu enquanto o grito de dor ainda estava soando. A maior parte do grupo encontrava-se ao alcance daqueles braços venenosos. Os gritos de pavor dos homens misturaram-se aos sons aflitos emitidos pela árvore. Os corpos eram segurados com a força de tenazes de aço. Foram atirados para o alto e as glândulas venenosas procuravam instintivamente qualquer trecho de pele desprotegida. Assim que a encontravam, começavam a agir. Pequenos ganchos preparavam o processo destrutivo, riscando a carne até que sangrasse. Uma vez aberta uma veia da vítima, por minúscula que fosse, o veneno mortal penetrava no organismo.
Alicarim, o quirguiz, foi o último homem do grupo de vanguarda.
Era um talento natural, mesmo antes de ter freqüentado a escola dura de Vênus. Num gesto instintivo segurou o homem que ia à sua frente pela gola do uniforme e puxou-o para trás. No mesmo instante levantou a carabina e pôs o dedo no gatilho.
— Afaste-se, Boris, afaste-se.
Alicarim reforçou o apelo com um desesperado pontapé. Depois esvaziou o pente de balas para dentro da massa disforme. Pouco depois Boris participou do tiroteio. Só pararam quando o vampiro-carata e suas vítimas jaziam imóveis.
Tomisenkow correu para a frente.
— Alicarim! Será que ficou louco? Dê-me sua carabina.
O quirguiz obedeceu.
— Cuide bem dela, general. Ainda precisaremos.
— Seu assassino! — esbravejou Tomisenkow. — Acaba de matar oito dos meus melhores homens. Inclusive o coronel Popolzak...
— Se acredita que fiz isso porque gosto, está enganado. Ainda não viu que isto é um vampiro-carata?
O general estacou e olhou com mais atenção.
— É isso mesmo — confirmou Boris. — Não tivemos outra alternativa, general. Ninguém poderia fazer mais nada por esses homens.
O Dr. Militch realizou um breve exame, conforme mandava o regulamento, e confirmou as palavras de Boris.
Tomisenkow devolveu a carabina de Alicarim.
— Desculpe, Ali. Devemos muito ao senhor. Está disposto a assumir o comando na ponta? Eu lhe darei alguns elementos de primeira categoria.
— Obrigado, general. Pode confiar em mim.
A marcha prosseguiu. Não havia tempo para enterrar os mortos. Dentro de quatro horas teriam que chegar ao mar.

* * *

Son Okura inclinou a cabeça para trás.
— Você pode atingi-lo com uma pedrada — cochichou. — É um helicóptero pequeno. Apenas cinco homens desceram.
— Alguém ficou dentro do aparelho?
— Não: todos desceram.
— Está bem. Vamos até lá: eu mesmo vou avaliar a situação.
Rhodan viu que os soldados de Raskujan marchavam em direção ao mato. No mesmo instante concebeu seu plano.
— Vamos, Marshall, Okura. Nós lhes prepararemos uma recepção condigna.
— Eles não nos verão, chefe. Não vão penetrar na floresta no lugar em que estamos.
— Mas pretendem se instalar por aqui. Não me envergonhem. São nossos inimigos, e teremos que nos defrontar com eles. Além disso, precisamos do helicóptero.
Os outros compreenderam.
— Vamos voar naquilo até a base?
— Por que não? Dentro de três horas a ordem voltará a reinar em Vênus, se vocês não cometerem nenhum engano.
Rhodan pôs a mão em forma de concha na frente dos lábios.
— Fiquem onde estão e larguem as armas.
A reação dos homens do Bloco Oriental foi totalmente diferente. E totalmente confusa.
Os cinco homens se atiraram ao chão e dispararam cegamente. Como não vissem ninguém e só pudessem determinar a direção aproximadamente pelo ouvido, os tiros passaram longe do alvo.
— Não se pode conversar com essa gente — disse Rhodan num tom de desespero. — Temos de atirar todos ao mesmo tempo, John. Dentro de poucos segundos tudo deve chegar ao fim. Já localizou o alvo?
— Sim — cochichou Marshall com a voz rouca.
— Fogo! — comandou Rhodan.
Levantaram-se e saíram da floresta.
Okura seguiu-os sem que ninguém tivesse pedido. Sabia que os cinco soldados estavam mortos. Um furor cego contra uma arma arcônida de impulsos nunca poderia produzir bons resultados.
Correram em direção ao helicóptero e entraram.
— Um helicóptero! — regozijou-se Marshall. — Uma máquina em perfeito estado. Quase não consigo acreditar.
— Devemos aproveitar as oportunidades quando se oferecem. Tudo pronto para decolar? Os vidros estão fechados?
— Tudo em ordem. Mas será que com esse ombro vai conseguir?
— Não se preocupe com isso. Procure observar o que vai acontecer lá fora. Ainda falta muito para atingirmos nosso objetivo. E, se Raskujan manda um helicóptero a algum lugar, vocês podem ter certeza de que ali mesmo logo surgirão outros.
— Quer dizer...
— É isso mesmo. É impossível, por exemplo, que voemos por cima da enseada. Não temos coletes salva-vidas. E nesta situação não gostaria de ser derrubado por cima do mar primitivo. Logo, devemos seguir a linha do litoral. Isso representa uma volta de mais cem quilômetros. Mas a segurança deve vir antes de tudo...
Perry Rhodan controlou a reserva de combustível. Balançou a cabeça. Talvez desse mal e mal. Mas Okura encontrou um tanque de reserva, e o cálculo já parecia muito mais favorável.
Rhodan tinha algum conhecimento dos modelos russos; dentro de poucos instantes conseguiu controlar a máquina. O treinamento hipnótico arcônida e um bom treinamento básico terrestre fizeram dele um homem com uma capacidade de percepção instantânea. Decolou.
A máquina ergueu-se rapidamente e seguiu na direção norte-noroeste. As ondas do mar viscoso espumavam embaixo deles.
Ainda não tinham percorrido mais de dez quilômetros quando Marshall, em tom exaltado, anunciou a presença de outro helicóptero. Okura logo lançou os olhos pela lâmina de vidro inquebrável e confirmou a observação de seu companheiro.
— Isso pode se tornar bastante desagradável, se eles reconhecerem o curso estranho que estamos seguindo. Mas por enquanto não vamos nos preocupar com isso — disse Rhodan com uma confiança fingida. — Coloquem os rádios em posição de recepção. Talvez tenhamos de reagir pelo rádio.
Isso aconteceu dali a dois minutos. O outro helicóptero pediu a senha. Uma voz grossa afirmou que ele, Rhodan, falava com a voz muito estranha. Evidentemente o interlocutor estava aludindo ao seu companheiro, morto há quinze minutos.
Rhodan arranhou o microfone com a unha e numa voz furiosa e disfarçada se lamentou de que seu aparelho não devia estar em ordem. Logo interrompeu o contato.
— Agora podem pensar o que quiserem. Não lhes pudemos dar a senha. Em compensação simulamos um defeito. Só nos resta prosseguir no vôo e aguardar. De qualquer maneira devemos ficar em rigorosa prontidão. Mantenham-me informado sobre os movimentos do inimigo.
— Já posso lhe dar uma informação — disse Okura, pouco satisfeito. — Alteraram seu curso e vêm em nossa direção. Até voam em ângulo para ganhar tempo.
— Nesse caso também alteraremos nosso curso — disse Rhodan em tom irritado e girou para bombordo. O mar deslizou embaixo deles. Dali a pouco se encontravam em cima da selva. Mas isso não adiantou muito. O inimigo também retificou seu curso.
— Que diabo! Estão nos desviando. Rhodan resolveu voar ao encontro do outro helicóptero. Dessa forma se encontraria numa posição mais favorável e não despertaria tantas suspeitas. Era bem verdade que qualquer um perceberia que os homens da Terceira Potência já haviam despertado muitas suspeitas. O inimigo não abriu margem a dúvida quanto a isso. Na altura do litoral recebeu-os com uma rajada das armas de bordo. Rhodan conseguiu se desviar para baixo, mas não conseguiu evitar um impacto na cabina. Ninguém foi ferido, mas havia algo de errado no painel.
— O medidor de pressão do óleo! — exclamou Marshall. Todos viram que não funcionava mais. Mas não saberiam dizer se o dano atingia apenas o indicador ou a tubulagem de óleo.
Antes que pudessem refletir a este respeito, tiveram que se desviar diante de outro ataque.
— Por que não respondemos ao fogo? — perguntou Marshall em tom obstinado.
— Com quê? — respondeu Rhodan, também zangado. — Essa gente tem um canhão de bordo, nós não.
— Devemos abrir a cabina e usar o radiador de impulsos térmicos.
— Pois tente!
Marshall mexeu no fecho. Mas nesse instante o inimigo se aproximou do lado e de cima. Atirou uma bomba que errou o alvo. Mas o detonador foi ativado na superfície da água. Um estilhaço ou mais atingiram o helicóptero.
— Fomos atingidos! — gritou Okura. — A cauda pegou fogo.
Rhodan se virou. Poucas vezes os amigos o haviam visto tão exaltado.
— Vamos! Desçam! Não adianta insistir. Com esta geringonça só poderemos aterrizar no inferno, se o tanque de gasolina pegar fogo. Um momento! Levem suas armas. A água não afetará o radiador de impulsos.
Marshall abriu a cabina. Rhodan baixou até chegar perto da superfície da água. A posição era favorável.
— Saltem agora!
Perry foi o último a abandonar o aparelho. Normalmente não haveria qualquer risco a uma altura de vinte metros. Mas o ombro ferido transformou o salto numa tortura.
A água se fechou por cima dele. A uma profundidade de dois metros encontrou solo firme. Empurrou-se com o pé. As roupas dificultavam a natação. Mas a gravitação reduzida, que apenas atingia 0,85g, compensava a desvantagem.
Ao emergir, Rhodan viu que Marshall se encontrava nas proximidades. Okura nadava mais ao longe. O helicóptero balançou pouco acima das ondas e chegou à praia. Antes de atingir a floresta bateu no solo e explodiu.
Os homens do Bloco Oriental sabiam que os três homens haviam saltado antes. Voltaram ao ataque; pareciam perfeitamente tranqüilos. O grito de advertência de Okura foi desnecessário. Quando o helicóptero se encontrava a uma distância de cem metros, Marshall abriu fogo. Dentro de poucos segundos o aparelho se desmanchou numa incandescência rubra e branquicenta. A profunda alteração estrutural foi acompanhada somente por um ruído surdo. Algumas peças se desprenderam e pingaram na água como tochas incendiadas, extinguindo-se com um chiado. O resto caiu na praia e esfriou lentamente. Os três homens nadaram em direção à praia.
Okura, que se encontrava mais longe da terra firme, alcançou Rhodan dentro de poucos minutos.
— Posso ajudar, chefe? Não devia usar tanto o braço direito.
— Deixe isso para lá. Estou bem. Já temos chão sob os pés; podemos caminhar.
— Eu ainda não tenho — fungou o japonês, que quis imitar Rhodan. Este riu.
— Com seu tamanho você ainda tem um pouco de tempo.
Pouco depois, também o mutante sentiu chão firme embaixo dos pés. Dali a dez minutos chegaram à praia, onde Marshall já os aguardava. Com as roupas gotejantes, os três homens conferenciaram sobre seus planos.
— Por enquanto devemos pôr a roupa no varal. Senão acabamos pegando um resfriado.
Tiraram a roupa e estenderam-na sobre a areia. Se considerarmos que a temperatura média em Vênus é de cinqüenta graus centígrados, compreenderemos facilmente que, mesmo no fim da tarde e nas latitudes situadas bem ao norte, a areia ainda era bastante quente para fazer com que a roupa secasse dentro de poucos minutos.
Marshall aproveitou a oportunidade para realizar um exame minucioso da ferida de Rhodan.
— Perdeu mais um pouco de sangue, chefe.
Enquanto fazia essa observação, arrancou uma faixa de sua camisa e tirou uma embalagem colorida do bolso. Espalhou o resto do conteúdo sobre a faixa de pano.
— É a última atadura impregnada que lhe posso oferecer. E ai de você se não deixar que eu a coloque. Son, dê uma ajuda.
Rhodan não se opôs ao tratamento. Concluído este, voltaram a pôr as roupas.
— Quando o crepúsculo chegar, voltarei a chamar as focas — disse Marshall. — Até lá devíamos nos esconder um pouco. Tenho a impressão de que Tomisenkow não demorará a aparecer por aqui.
— Esse sujeito devia criar juízo e se aliar a nós — refletiu Okura.
— Podemos lhe fazer esta oferta. Ele nos entrega Thora e nós o ajudamos na luta contra Raskujan — disse Rhodan.
— Quer se colocar ao seu lado? — perguntou Marshall. — Raskujan não seria um aliado melhor para nós? Ele tem meios de nos levar à base dentro de poucas horas.
— Tem os meios, mas não tem vontade, meu caro. Não podemos cogitar de Raskujan como nosso aliado. Então deixaremos que ele nos blefe com o fato de que dispõe de um equipamento melhor e de uma tropa praticamente intacta. Mesmo depois de um ano de permanência em Vênus, Raskujan ainda nada em abundância. Praticamente ainda não se submeteu a nenhuma prova em Vênus. Com Tomisenkow a coisa é diferente. Dispondo apenas de recursos primários, conseguiu se manter na selva inóspita de Vênus. Além disso, a posição de Raskujan é injusta.
— Quer dizer que você também faz restrições morais contra ele? — perguntou Marshall.
— Naturalmente. Não passa de um desertor. As ordens que recebeu determinam que se coloque à disposição do general. Em vez disso, quer fazer o papel de comandante.
Conversaram mais algum tempo sobre o tema, enquanto os seletores de freqüência dos receptores embutidos em suas pulseiras deslizavam de um lado para outro. Suas suspeitas íntimas logo se confirmaram. Além dos dois helicópteros destruídos, muitos outros se encontravam no ar. As mensagens trocadas entre eles iam crescendo constantemente.
— Até parece que vão lançar uma ofensiva em grande escala.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Concordo com você, Son. Mas faremos o possível para ficarmos fora disso.

8



— ALARMA!
A mensagem percorreu a coluna de Tomisenkow de ponta a ponta.
Depois que Raskujan apareceu, trazendo clareza sobre a situação reinante em Vênus, nenhum dos grupos em luta achou mais necessário brincar de esconder por meio de uma suspensão das comunicações pelo rádio. Há muitas horas reinava vida nas faixas de ondas curtas e ultracurtas. Podiam correr livremente nas imediações do planeta, pois a barreira levantada pelo cérebro positrônico só impedia qualquer contato para fora. No interior da barreira toda e qualquer forma de comunicação se tornava possível.
O sargento Kossygin mantivera o aparelho portátil ligado o tempo todo para a recepção. Por isso pôde transmitir logo a advertência ao general.
A mensagem de alarma foi seguida imediatamente de instruções mais precisas. Tomisenkow explicou que era do interesse de cada um segui-las. Os homens se dividiram em grupos e procuraram se abrigar atrás de árvores espessas. As armas leves e semipesadas de infantaria foram colocadas em posição. As metralhadoras foram montadas em tripés e posicionadas para atirar em aviões.
Tomisenkow vigiou Thora com olhos de lince.
— Não me cause problemas a esta hora, madame — disse em tom áspero. — Nos próximos minutos não terei muito tempo. Não poderei lhe indicar cada passo que deve dar. Mantenha-se sempre perto de mim.
A linguagem lacônica e enérgica parecia produzir o efeito desejado. Aborrecida, confirmou com um aceno de cabeça e não esperou que Tomisenkow a segurasse brutalmente pela mão e a arrastasse por entre a vegetação. Seguiu-o espontaneamente.
O general se dirigiu ao posto de rádio.
— Dê-me um fone, cabo.
— As ordens!
Tomisenkow ouviu um chiado que subia e descia pela escala acústica, enquanto Kossygin procurava sintonizar o aparelho. Subitamente ouviu os sons familiares de sua língua materna.
— César para Lúculo. Espalhem-se de acordo com o plano A. Repito. Nada de bombardeios enquanto a posição do inimigo não tiver sido perfeitamente determinada. O estado-maior de Tomisenkow e principalmente essa arcônida devem cair em nossas mãos intactos. César aguarda resultados da exploração do terreno. Fim!
— César e Lúculo! — gemeu Tomisenkow. — Ouçam só o vocabulário usado por esse bando de desertores. Mantenha o receptor ligado, cabo.
Kossygin confirmou com um aceno de cabeça.
Conforme se depreendia das indicações de posição não codificadas, os primeiros helicópteros haviam atingido a costa ao sul. Pouco depois o ruído dos motores se tornou perceptível.
O ninho de metralhadora que ficava mais perto do posto de rádio era comandado pelo pequeno e atarracado Alicarim.
— Olá, Ali! Aguarde minhas ordens. Não atire antes.
— Às ordens, general.
Uma voz voltou a soar nos fones de ouvido.
— Lúculo para César. Tomisenkow abandonou o acampamento anterior. Sentido provável de seu deslocamento aproximadamente para o norte. A distância é de cinco a dez quilômetros da costa.
— César para Lúculo. Utilizar visores infravermelhos para a observação no solo. Concentrar-se numa faixa de dez quilômetros ao sul da costa sul.
Nesse momento o primeiro helicóptero trovejou exatamente sobre o lugar em que a tropa de Tomisenkow se encontrava. Os homens iam respirar aliviados quando o ruído se perdeu por cima da selva. Mas logo se ouviu a mensagem seguinte.
— Lúculo para César. Localizamos o inimigo. Tomisenkow suspendeu a marcha. É provável que tenha assumido uma posição defensiva. Transmitirei as coordenadas.
— César para todos. Orientem-se por Lúculo II. Realizem um vôo visual. O grupo de desembarque Otávio desembarcará na faixa costeira e se espalhará em direção ao sul. O grupo de desembarque Cícero saltará conforme o plano AB. Ainda não abram fogo.
Furioso, Tomisenkow arrancou o fone do ouvido.
— Quem foi o idiota que andou livremente por aí? Quero que ele se apresente imediatamente.
É claro que ninguém se apresentou.
— Quando os helicópteros se aproximarem de novo, abram fogo — ordenou Tomisenkow. Fechou os olhos por alguns segundos. Thora percebeu que se esforçava desesperadamente para recuperar o autocontrole. Numa situação dessas não convém que o comando esteja nas mãos de um louco furioso.
As tropas de Raskujan se concentraram cada vez mais em torno do ponto que correspondia às coordenadas fornecidas pelo observador Lúculo II. Alguns minutos depois, seis helicópteros passaram em vôo rasante sobre as posições de Tomisenkow.
— Fogo! — berrou o general em meio ao barulho infernal produzido pelos rotores.
Alicarim leu o comando nos seus lábios mais do que o ouviu. No mesmo instante a primeira rajada saiu do cano refrigerado a ar. Poucos segundos depois as metralhadoras que se encontravam em pontos mais afastados também começaram a atirar. O som entrecortado das mesmas se misturou ao barulho dos helicópteros.
Era evidente que o coronel Raskujan subestimara em muito o poder de fogo do inimigo. De outra forma nunca teria dado ordem para um vôo rasante tão despreocupado. Alguns homens de Wallerinski que vagabundeavam pela selva deviam ter fornecido um relato distorcido sobre os remanescentes da divisão espacial. E, ao que tudo indicava, esqueceram-se de mencionar que, apesar de todo embrutecimento, os homens de Tomisenkow ainda não haviam desaprendido a arte de atirar.
Para os helicópteros, sujeitos à já conhecida proibição de atirar, o fogo de metralhadora representou uma surpresa total. Era o oposto exato do primeiro ataque.
— Atingi um! — berrou Alicarim depois das primeiras três rajadas.
O rotor do primeiro helicóptero se desintegrou. Devia ter atingido a junta. O helicóptero caiu imediatamente e com um grande estrondo atingiu uma árvore de uns sessenta metros de altura. Os destroços caíram ao chão.
Alicarim visou outro alvo, quando a derrubada de um segundo aparelho foi anunciado pelos ocupantes de um ninho de metralhadora situado mais adiante.
— Tudo está correndo segundo o programa. Continue a atirar, Ali! Atire! Aquele gorducho que está bem em cima de nós...
Os êxitos alcançados entusiasmaram Tomisenkow. Apesar disso manteve-se abrigado, pois a todo instante contava com uma reação do inimigo.
Pouco depois uma forte detonação superou todo o ruído da batalha. Alicarim derrubara mais um inimigo. Atingira-o no tanque de combustível. A máquina explodiu no ar e os homens que se encontravam no solo encolheram a cabeça. Uma chuva de destroços aquecidos e incendiados despencava em todos os cantos.
Nuvens de fumaça subiram em meio à selva.
O general levantou a cabeça.
— Tudo bem por aí?
— Aqui não aconteceu nada, general. Ali vem o número quatro. Os Raskujan estão chovendo de todos os quadrantes do céu. Esse sujeito não vai esquecer a lição que recebeu.
O quirguiz só teria razão em parte. Raskujan extraiu as conclusões cabíveis dos resultados daquele combate; mas essas conclusões não determinavam a cessação completa dos ataques.
Os helicópteros que vinham depois deram meia-volta assim que viram o que estava acontecendo com os que iam à frente. O céu estava limpo. Desta vez a divisão espacial escapara sem perdas.
— Procure entrar em contato com Raskujan — disse Tomisenkow ao sargento-telegrafista. — E dê-me o microfone e o fone de ouvido.
— O coronel já está na onda, general — anunciou Kossygin. — Quer falar pessoalmente com o senhor.
— Passe para cá! Esta o senhor não esperava, não é, Raskujan? Recomendo-lhe que se submeta às minhas ordens. Se comparecer pessoalmente dentro de duas horas, esquecerei tudo que aconteceu até aqui. Dou-lhe minha palavra de oficial.
— Muito obrigado, general! Não posso prometer que o encontro seja possível dentro de duas horas. Mas irei até aí. Não tenha a menor dúvida. Mas recomendo-lhe que antes de nosso encontro largue toda e qualquer arma que tenha em seu poder. Eu lhe garanto que não sofrerá nenhum dano pessoal.
— Raskujan! Será que o senhor não compreende que está precipitando sua própria desgraça? Não haverá nenhuma visita como o senhor imagina. Temos armas e munições para rechaçá-lo mais cem vezes...
— Ora, Tomisenkow! Quando eu o ouço falar chego a ter vergonha de saber que já foi meu professor de estratégia. Não me importarei nem um pouco de lançar meu próximo ataque com bombas de todos os calibres. Estou em condições de destruir o senhor e seus homens dentro de poucos minutos. E o trecho de selva em que se encontra está cercado por todos os lados pelas minhas tropas. Reflita à vontade. O senhor pode morrer de fome e se desgastar aos poucos numa série de combates, ou então será razoável e permitirá que eu lhe indique uma habitação condigna numa das nossas naves espaciais.
— Muito obrigado pela oferta. Sua comodidade é um sinal de decadência que não me atrai nem um pouco. Meus homens e eu estamos praticamente casados com Vênus. Mas seus heróis de salão quebrarão os ossos na selva. Não deixe de aparecer, coronel! Será tratado segundo seu comportamento, como um oficial ou como um criminoso. Pense no assunto. Fim.
Tomisenkow largou o microfone e o fone de ouvido.
— Continue com o receptor ligado, Kossygin. Mas não responda mais. Quando surgir uma palestra interessante grave-a até o fim, para que eu possa ouvi-la depois. Continuaremos a marchar em direção ao litoral.

* * *

Dali a pouco começou a cair uma chuva ligeira, que logo se transformou num furacão. Isso perturbava a atividade de ambos os lados. Quando as nuvens começaram a se dissipar, o crepúsculo já começara a cair sobre o planeta. Os homens praguejaram. Faltavam quatro quilômetros para atingir o mar. E, de um instante para o outro, tinha-se de contar com a presença de uma patrulha de Raskujan. Daqui em diante teriam uma vantagem ainda maior, pois dispunham de todos os equipamentos que a tecnologia humana conseguira criar até aquela data.
A marcha pela selva prosseguiu. Alicarim manteve-se mais próximo do estado-maior. O grupo de vanguarda passara a ser comandado pelo tenente Tanjev, que conhecia a região por causa das atividades de patrulhamento que já exercera.
Ainda faltavam três quilômetros para atingir o mar.
Os uniformes estavam molhados e pesavam no corpo. O calor já diminuíra e o frio da noite começou a se fazer sentir. Os homens tremiam. A escuridão já reinava sob a folhagem espessa das árvores.
De repente ouviu-se um tiro. Seguiram-se mais dois, mais três. Exclamações e gritos. A seguir veio uma rajada de metralhadora, que cessou de repente após a detonação de algumas granadas de mão.
Novo fogo de infantaria à esquerda. Metralhadoras, carabinas e pistolas.
O eco ressoou nas copas das gigantescas árvores. A gritaria dos habitantes de Vênus em fuga se misturou ao ruído e desapareceu ao longe. O ruído da batalha aumentou. Os homens de Raskujan pareciam estar em toda parte. Também no flanco direito ouviram-se tiros. A retaguarda lançou mão dos morteiros para se defender; atirou as granadas a esmo em meio à vegetação imperscrutável.
O estado-maior de Tomisenkow, deitado no capim, comprimiu-se junto a um enorme cedro de Vênus. Naquela escuridão os homens se sentiam totalmente desorientados.
— O cerco é perfeito — constatou Alicarim, sem que pretendesse se salientar. — Para escaparmos sãos e salvos teremos de manter um silêncio profundo. Assim que atirarmos seremos descobertos.
— Já foram descobertos — disse subitamente uma voz vinda da escuridão. — Levantem as mãos e deixem as armas no chão. Estão sendo observados pelo visor infravermelho. Quem fizer um movimento equívoco ou proibido será morto imediatamente. Também estou me referindo à senhora, madame. Venha até aqui. Quase chego a acreditar que é a criatura sobre cuja cabeça nosso comandante colocou um prêmio bem apreciável.

9



Dez helicópteros pesados de transporte estavam enfileirados na praia, como se estivessem preparados para um desfile.
Perry Rhodan, Marshall e Okura puseram-se em marcha a partir do lugar em que seu helicóptero havia caído. Seguiram em direção ao sudeste, onde se anunciavam operações militares de grande envergadura. Venceram os dez quilômetros em menos de duas horas, pois na praia não havia praticamente nenhum obstáculo.
O sol desapareceu no ocidente atrás da muralha formada pela selva. A chuva cessou.
Okura foi o primeiro que percebeu a presença dos helicópteros.
— São dez máquinas, chefe. Tudo coisa pesada. Diria que são helicópteros de transporte de tropas. Em cada um deles cabem dois tanques de cinqüenta toneladas.
— Isso significa que o tiroteio que estamos ouvindo ali na selva já representa a esperada ofensiva de Raskujan. Façamos votos para que nada aconteça a Thora.
Pouco depois Rhodan deu ordem de parar. Agora ele mesmo e Marshall já reconheciam os contornos dos aparelhos.
— Naturalmente estão sendo vigiados...
— Chefe, o senhor tem coragem! Quer arriscar mais uma vez?
— O que vou arriscar?
— Bem, você está cogitando de nova tentativa de fugir num desses aparelhos. Devo confessar que o plano não deixa de ser tentador. Afinal, eles não poderão nos derrubar a toda hora. Um belo dia conseguiremos passar.
— Ou então cairemos para sempre na água ou na selva.
— Bem, então você acha que não devemos?
— Um helicóptero faz muito barulho, Son. Além disso, o pessoal logo notaria a falta de um deles. Teriam um cuidado danado. Não haveria a menor chance de passarmos.
— Se é assim, qual é a razão do seu otimismo? — perguntou Marshall sem disfarçar sua contrariedade.
— Vamos refletir, minha gente. O que se pode fazer com um helicóptero de transporte?
— Pode-se voar com ele ou deixá-lo no hangar. Até hoje não tive conhecimento de outra possibilidade de utilização.
— O que acha, Okura?
O japonês deu de ombros.
— Sei tanto quanto John. Um veículo aéreo decola, voa e pousa. Fora disso é inútil.
Rhodan esboçou um sorriso condescendente.
— Então isso vem a ser o Exército de Mutantes, a unidade de elite da Terceira Potência! Muito obrigado, cavalheiros.
— Um momento, chefe. Sua pergunta se referiu a um helicóptero. Até aí nossa resposta evidentemente é correta. Se cogitarmos das peças avulsas, o caso muda de figura. Pode-se, por exemplo, retirar alguns canhões ou uma instalação de rádio. Também deve haver munições e mantimentos.
— Já está melhor, Marshall. O que faz o piloto de um helicóptero quando cai sobre o mar?
— Desce os barcos infláveis pelo pára-quedas. É isso mesmo! Precisamos de um barco inflável.
— Já estava na hora, John. Então precisamos de um barco inflável. E vamos arranjá-lo...
Elaboraram seu plano de guerra e se aproximaram dos veículos estacionados.
— Vejo sentinelas — disse Okura depois de algum tempo.
— Quantos são?
— Vejo um grupo de três. Não descobri nenhum outro. Ao que parece se sentem seguros. Naturalmente tiveram conhecimento do duelo travado entre nós e seus colegas. Mas tenho certeza de que acreditam que estamos mortos tal qual seus companheiros. E nada têm a temer da parte de Tomisenkow.
— De qualquer maneira nós os observaremos por algum tempo — decidiu Rhodan.
O momento durou uma hora inteira. Depois disso tiveram certeza de que não havia outras sentinelas. A ação programada poderia ter início.
Rhodan teve de prometer que se manteria em segundo plano. A ferida no ombro era um motivo mais que suficiente para isso. Além disso, pretendiam fazer o possível para não matar os três homens. E os dois mutantes eram os mais indicados para uma observação bem discreta. Apesar da escuridão, Okura enxergava muito bem. E Marshall eventualmente conseguia ouvir pensamentos que não se traduzissem em palavras.
— Vamos, Son.
— Um momento.
O japonês voltou a limpar os óculos. Depois pegou sua arma de impulsos e os dois se puseram em marcha.
— Será que essa gente dispõe de um visor infravermelho? Se for assim, poderão nos ver a vários quilômetros de distância.
— Poderiam, mas não o fazem. Como vê estão fumando e conversando com as mãos nos bolsos.
Okura e Marshall deitaram e se arrastaram o que ainda faltava. As rodas de dois metros do primeiro helicóptero proporcionaram-lhes uma cobertura provisória.
As sentinelas encontravam-se embaixo do quarto helicóptero.
— Atire! — cochichou Okura. Marshall fez pontaria para a aleta do terceiro helicóptero e puxou o gatilho. O alvo entrou em incandescência e desvaneceu-se em pura energia. As sentinelas puseram-se a correr aos gritos e abrigaram-se atrás do último helicóptero.
— Vamos adiante. Cuidado!
Engatinharam embaixo dos helicópteros. Depois seguiram pela direita, onde o capim lhes fornecia um abrigo mais perfeito.
— Pare! — disse Marshall com a voz baixa. — Já basta.
— Alô. Vocês aí. Levantem-se e ponham os braços para cima.
Okura encolheu a cabeça, pois sua mensagem foi respondida com um tiro. Se o russo fez sua pontaria apenas de ouvido, aquele tiro era uma verdadeira obra de mestre.
— Não desista — insistiu Marshall.
— Se dentro de dez segundos vocês não se levantarem e vierem até aqui sem armas, transformaremos um dos helicópteros em ar. Vou contar...
Os homens do Bloco Oriental ainda não estavam convencidos. Voltaram a atirar. Depois de alguns segundos Okura atingiu um dos helicópteros que caiu aos pedaços e deixou de existir.
— Isto foi o segundo ato, cavalheiros. Marshall estava com o rosto grudado na areia. Infelizmente tinha que ler os pensamentos de três homens ao mesmo tempo, o que dificultava sua tarefa. De qualquer maneira identificou algumas idéias que traziam consigo ares de capitulação.
— Converse mais um pouco, Son. Daqui a pouco vão cair.
— Repito pela última vez. Levantem-se e venham para cá. Sem armas e com os braços levantados. Se agirem em conformidade com as minhas ordens, nada lhes acontecerá. Se quiséssemos matá-los, já o teríamos feito. Dentro de dez segundos mais um helicóptero vai desaparecer...
Okura contou em voz alta.
Quando chegou ao seis, um dos homens se levantou. No oito foi seguido pelos outros. Aproximaram-se conforme lhes fora ordenado: sem armas e com os braços levantados.
Foram amarrados e colocados em helicópteros.
Marshall disparou um tiro de sinalização com o radiador térmico. Breve-longo-breve. Era o sinal convencionado com Rhodan, que chegou pouco depois.
— Isto está liquidado, chefe. Os três estão amarrados no interior dos primeiros três helicópteros. Podemos examinar o conteúdo dos outros.
— Foi um serviço bem feito.
Conforme era de esperar, os helicópteros dispunham de um equipamento completo para a guerra. O barco inflável trazido pelos russos era uma maravilha de conforto. Tratava-se de um barco de plástico capaz de enfrentar o alto-mar, e que cabia num armário embutido. Uma vez inflado, pelo menos quinze pessoas cabiam nele. Os tubos de ar comprimido estavam ao lado do mesmo. Até havia um veículo de duas rodas para o transporte terrestre.
— Levem tudo para fora — disse Rhodan apressadamente, quando Marshall anunciava entusiasticamente suas descobertas.
— Encontrei remédios — exclamou Okura.
— Vamos levar — disse Rhodan laconicamente.
Depois de quinze minutos haviam levado para fora do helicóptero, além do barco e do motor de popa, uma caixa com mantimentos, vários tanques de combustível e a farmácia de bordo. Tudo foi colocado no carro de duas rodas.
Foram até a água pelo caminho mais curto. Depois seguiram paralelamente à costa. Marshall voltou para apagar a pista. Depois destruiu o helicóptero saqueado. Dessa forma os homens do Bloco Oriental nunca se lembrariam da possibilidade de que alguém lhes houvesse roubado um precioso barco de plástico.
O rastro de vários quilômetros que as rodas produziram na areia logo foi apagado pela água.
Quando Rhodan, Marshall e Okura desembarcaram numa pequena baía, podiam se sentir seguros de que ninguém havia adivinhado a finalidade de sua operação.

* * *

O crepúsculo que durara várias horas foi substituído pela noite.
Voltaram a ouvir as transmissões dos homens do Bloco Oriental e souberam que Tomisenkow e Thora haviam sido capturados vivos. Os cumprimentos triunfais que Raskujan e seus oficiais trocavam pelo rádio Fizeram com que um sorriso condescendente surgisse nos lábios de Rhodan.
— Esse homem nem imagina quanto seu triunfo passageiro me deixa satisfeito. Pelo menos podemos ter certeza de que nos próximos dias não se matarão com bombas. E esse coronel com toda sua arrogância bem que precisaria de um encontro com Thora. O orgulho dela lhe quebrará os dentes.
— Não me lembro de o ter visto tão malicioso — constatou Okura.
— Ora, Raskujan é meu inimigo. Portanto, meus desejos devem ser bem compreensíveis... Além disso, o novo aprisionamento de Thora poderá nos trazer vantagens de ordem tática. Aquela arcônida orgulhosa talvez distraia Raskujan um pouco, se conseguir se transformar num problema para ele. Até agora a fortaleza de Vênus tem sido seu único problema.

* * *

Inflaram o barco. Era imponente, e estavam satisfeitos com sua presa.
O exército invasor de Raskujan já se retirara há algumas horas. Só deixara atrás de si destroços e solidão.
Marshall e Okura trocaram a atadura da ferida de Rhodan.
— Como se sente, chefe?
— Obrigado, já estou melhor. Com este equipamento não tenho outra alternativa senão ficar logo curado, para que alcancemos a fortaleza de Vênus dentro de algumas horas. Acho que já passamos pelo pior. Vamos dormir um pouco. Daqui a duas horas colocaremos o barco na água.
Rhodan deitou de costas e fitou a espessa camada de nuvens. O vento abriu uma brecha e deixou entrever uma estrela.
— Veja só! — disse Rhodan. — O Universo ainda existe. Quase que me esqueço.




* * *
* *
*





Reginald Bell, que pretendia vir em auxílio de seu chefe e amigo, teve que admitir que a chave secreta X também impedia qualquer penetração através da quinta dimensão.
Por isso, Perry Rhodan não pode contar com qualquer auxílio vindo de fora. Tem de se libertar com suas próprias forças para não perecer na selva do mundo primitivo.
Na Selva do Mundo Primitivo é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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