E nesse caso só mesmo com uma sorte além
de toda medida o barco deixaria de ser localizado.
“Não
podemos elaborar planos se temos de calcular com a sorte”, pensou Rhodan
com uma certa disposição amarga.
O grito abafado de Son Okura despertou-o de
suas reflexões.
— Estão chegando!
Rhodan se levantou.
— Quem está chegando?
Son Okura também se levantou e se inclinou
para fora do barco. Rhodan viu que observava a superfície do mar, não o céu.
— Quem está chegando, Son? — perguntou.
O japonês estendeu o braço.
— Ali, são as focas.
Rhodan ouviu um ligeiro rumorejar da água,
que não se adaptava ao ritmo das ondas. Uma massa escura e brilhante emergiu a
poucos metros do barco e aproximou-se devagar.
— Marshall, venha cá! — gritou Rhodan.
Marshall levantou-se e avançou a passos
cambaleantes. As cabeças de outras focas surgiram acima da água e se
aproximaram. Rhodan contou trinta ao todo.
Percebia-se que Marshall não agüentaria
mais por muito tempo. Rhodan deu-lhe uma batida carinhosa no ombro e disse:
— Mais um instante, e estará livre disso.
Explique-lhes a situação em que nos encontramos.
Marshall inclinou-se por cima da popa para
se aproximar das focas e ter um apoio para o corpo cansado. Concebeu em idéias
simples e facilmente compreensíveis o relato do que lhes havia acontecido e a
explicação do auxílio de que precisavam.
Felizmente as focas não tinham nada de
obtusas e estavam dispostas a ajudar. Marshall transmitiu a Rhodan a sugestão
formulada pelas mesmas:
— Poderiam rebocar nosso barco, desde que tenhamos
correias para isso. Pretendem formar equipes de dez e se revezar.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Era mais ou menos isso que eu imaginava.
Está tudo em ordem, temos correias em número suficiente.
Cortaram o longo fio da âncora em pedaços
de comprimento adequado. Ajuntaram os cabos de atracação e fizeram laços
segundo as indicações das focas, traduzidas por Marshall. Toda a operação não
demorou mais que quinze minutos. As focas precipitaram-se para dentro dos laços
antes que estes pudessem afundar e firmaram os mesmos com suas potentes
nadadeiras das costas e da barriga. Ao que tudo indicava os cortes dos delgados
fios de plásticos nada conseguiram fazer à sua pele, que tinha a consistência
do couro curtido e, por baixo, uma grossa camada de gordura.
— Estão perguntando para onde queremos ir
— disse Marshall.
Rhodan refletiu.
— Pergunte-lhes se podem nos levar à faixa
de terra que liga a península ao continente.
Marshall formulou a pergunta.
— Dizem que sim — respondeu.
Rhodan pretendia dizer mais alguma coisa,
mas nesse instante o barco pôs-se em movimento. As focas não precisaram de
outras instruções. A embarcação desajeitada cortou as ondas a uma velocidade
que, segundo os cálculos de Rhodan, excedia em cinqüenta por cento aquela que o
motor conseguia lhe imprimir.
Mergulhado em pensamentos, Marshall
contemplou as cabeças brilhantes das focas rebocadoras e das que acompanhavam o
barco pelos dois lados.
Depois deixou-se cair ao chão. A cabeça
estava deitada numa pequena poça de água gosmenta que escapara à atenção dos
ocupantes quando estes esvaziaram o barco. Mas o fato não o perturbou. Mal se
ajeitara no chão, adormeceu.
Rhodan e o japonês trocaram olhares
significativos. Agachados na proa, observavam as focas. Rhodan ficou admirado
porque dez focas conseguiam imprimir ao barco uma velocidade maior que um motor
de turbina com trinta cavalos de potência. Um aumento de velocidade de
cinqüenta por cento significava um aumento de potência superior a cem por
cento, desde que o grau de utilização fosse idêntico. Uma vez admitido esse
pressuposto, tornava-se evidente que cada uma das dez focas desenvolvia uma
potência de cerca de dez cavalos-vapor.
Provavelmente seu grau de utilização era
um pouco superior ao do motor com a complicada propulsão a hélice. Assim mesmo,
porém, a potência de cada foca não seria inferior a quatro ou cinco
cavalos-vapor.
Pela primeira vez Rhodan compreendeu onde
residia a diferença entre as criaturas desse mundo jovem e as da Terra, que em
comparação era infinitamente velha. Pela primeira vez compreendeu que
significado elevado assume o conceito de vitalidade.
* * *
O coronel Raskujan cometeu um erro:
preocupou-se com as duas pessoas mais importantes que tinha entre seus
prisioneiros — Thora e Tomisenkow — antes de se lembrar dos dois helicópteros
que enviara para o mar.
Indagando junto ao posto de rádio
instalado fora das naves, junto à costa, soube que, há mais de duas horas, não
se tinha nenhuma notícia dos dois aparelhos. Em si a demora de duas horas não
causou a menor preocupação a Raskujan. Uma busca em mar aberto poderia demorar
três ou quatro vezes mais que isso sem ser coroada de êxito; mas o silêncio dos
aparelhos inquietou-o.
O posto de rádio tentara várias vezes
estabelecer contato com os dois helicópteros, mas não teve qualquer êxito.
A essa hora a decisão de Raskujan foi
rápida. Um major recebeu instruções para dar busca sobre o mar com três
esquadrilhas de helicópteros, especialmente na área em que foram observados os
estranhos fenômenos luminosos. Procurariam localizar os dois aparelhos e o
eventual inimigo, que seria atacado e destruído ou, se possível, aprisionado.
Os helicópteros decolaram poucos minutos
depois que Raskujan transmitira a ordem. Mas, desde as últimas notícias
recebidas dos dois helicópteros que decolaram em primeiro lugar já se haviam
passado quase três horas.
* * *
Duas horas haviam passado desde que as
focas tinham tomado conta do barco. Segundo o cálculo de Rhodan, nessas duas
horas foram percorridos perto de noventa quilômetros. Uma vez que o barco
passara a se deslocar na direção nordeste, a distância ao ponto hipotético de
desembarque crescera um pouco. Rhodan acreditava que ainda deviam se encontrar
cerca de cento e quarenta quilômetros do destino. Isso representava pouco menos
de quatro horas de viagem.
Tudo dependia do que faria Raskujan face
ao desaparecimento dos dois helicópteros. A sorte não poderia ir ao ponto de
fazer com que Raskujan ficasse parado. A qualquer hora apareceriam outros
helicópteros que dariam busca no mar.
Além das armas de impulsos térmicos, o
barco só teria uma chance diante de uma grande esquadrilha de helicópteros: já
se encontrava a certa distância da rota que os aparelhos percorriam. Talvez a
busca demorasse o suficiente para que o barco se colocasse em segurança.
Talvez...
Rhodan ainda estava envolto nesses
pensamentos, quando o ruído que as focas causavam na água foi superado por
outro. Pôs a mão em concha no ouvido para protegê-lo do ruído das focas e
procurou ouvir noite afora.
Ouviu um zumbido irregular.
Eram helicópteros! Uma esquadrilha
inteira!
“Estão
muito longe”, pensou Rhodan. “Provavelmente
Okura não conseguirá vê-los.”
Apesar disso fez um sinal ao japonês,
chamou sua atenção para o ruído e pediu-lhe que esforçasse a vista. Okura não
via nada. A emissão térmica dos jatos dos helicópteros por certo não lhe teria
escapado se os mesmos se encontrassem ao alcance da visão. Dali se concluía que
os aparelhos ainda se encontravam abaixo da linha do horizonte.
O ruído cresceu, chegou a um máximo e
voltou a diminuir. Cerca de dez minutos depois que Rhodan o ouvira pela
primeira vez, desapareceu.
— Ainda não encontraram a pista certa —
disse Rhodan com um sorriso. — Tomara que não a encontrem tão depressa.
Viu Marshall, que dormia. Se os
helicópteros se aproximassem, teria que despertá-lo do sono que tão bem
merecia.
Se tivesse que lutar para valer, não
poderiam dispensar nenhum dos radiadores térmicos. Além disso, Marshall teria
de avisar as focas, para que elas abandonassem a área de perigo.
— Son, preciso de um uísque — disse Rhodan
com um gemido. — Quer arranjar um?
O japonês foi para a parte traseira do
barco, onde estavam empilhados os suprimentos de víveres, armas e munições
apresadas aos homens de Raskujan. Depois de algum tempo voltou sorrindo, com uma
garrafa na mão.
— Não temos uísque — disse. — Em
compensação encontrei uma legítima vodca russa.
* * *
Mais de cem quilômetros acima do ponto em
que se desenrolava essa cena, outro homem fez uma nova tentativa — que por
enquanto seria a última — para intervir nos acontecimentos que se desenrolavam
em Vênus: era Reginald Bell, companheiro de lutas de Perry Rhodan e ministro da
segurança da Terceira Potência.
Por enquanto Bell tinha de cuidar de sua
própria segurança, sendo incapaz de se preocupar com outras pessoas, pois o
grande cérebro positrônico instalado na fortaleza de Vênus cercava todo o
planeta, quase até o limite de sua atmosfera, com um campo energético
impenetrável que o protegia de qualquer interferência externa.
Bell decolara da Terra pouco depois de
Rhodan, numa nave esférica de sessenta metros de diâmetro, da classe Good Hope.
Na linguagem oficial do código de comunicações, essas naves eram chamadas de
girinos.
Thora sofrera um tipo de curto-circuito
psicológico. A saudade de seu mundo natal e a idéia de que Rhodan nem pensava
em permitir seu regresso levaram-na a procurar auxílio em Vênus. Nesse planeta
ficava a base mais poderosa da Terceira Potência. Não era equipada com naves
capazes de enfrentar o espaço, mas dispunha de hiperemissores, cuja potência
era tamanha que havia uma boa chance de que fosse ouvida por quem de direito.
Thora partira num dos destróieres
recém-construídos e, ao se aproximar da área interditada, que cercava a
fortaleza, sua nave foi destruída, porque o transmissor em código ainda não
havia sido instalado na mesma. Foi aprisionada primeiro por Tomisenkow, depois
por Raskujan.
Rhodan seguiu-a, e o destino que teve
juntamente com seus dois acompanhantes não foi melhor que o de Thora. Todavia,
conseguiram escapar à prisão. Mas as tentativas de libertar Thora falharam por
completo.
O terceiro comparsa foi Reginald Bell. Com
seu girino, reunia todas as condições para atingir Vênus e penetrar na área da
base. Os recursos técnicos de que esta dispunha, lhe permitiriam interferir nos
combates, libertar Thora, resgatar Rhodan e obrigar Raskujan a entrar nos
eixos. Acontece que o cérebro positrônico, advertido pela aproximação não
anunciada das duas naves, fechara Vênus contra o mundo exterior e assumira o
comando sobre Vênus em geral e sobre a fortaleza em particular. Por isso a nave
de Bell ficou cruzando além da área abrangida pelo anteparo energético e nem
sequer conseguiu estabelecer contato permanente pelo rádio com Rhodan, pois o
anteparo não podia ser atravessado nem mesmo pelas ondulações eletromagnéticas,
inclusive as ondas longas do espectro infravermelho.
Bell fizera uma única tentativa de lograr
o dispositivo positrônico, valendo-se de um mutante. O dom parapsicológico de
Tako Kakuta consistia na capacidade da teleportação. Estava em condições de,
sem o auxílio de quaisquer recursos técnicos, transportar-se a uma distância de
cinqüenta mil quilômetros. O ambiente transportador de que se servia era o
hiperespaço sobreposto; com exceção da fonte de energia, o mecanismo era
idêntico ao da transição de uma nave espacial.
Depois da primeira tentativa, Tako Kakuta
regressara imediatamente; estava esgotado ao extremo. Fora de opinião que estivera
a caminho durante várias horas. Não havia a menor dúvida de que a verdade dos
fatos era a seguinte: o dispositivo positrônico da base de Vênus estava
preparado para enfrentar tentativas de rompimento do bloqueio das espécies mais
variadas, inclusive aquelas que se realizassem em níveis superiores. Era de
duvidar que a base mantivesse constantemente um anteparo que abrangesse as
cinco dimensões e cercasse todo o planeta. Isso exigiria um dispêndio
energético de extensões inconcebíveis. Mas, ao que tudo indicava, a reação do
cérebro positrônico face a qualquer objeto que tentasse penetrar na área
protegida era suficientemente rápida para que o mesmo pudesse ser removido para
fora dessa área.
Tako Kakuta levara dois dias terrestres
para se recuperar.
Naquele mesmo dia, Bell lhe perguntou se
estava disposto a repetir a experiência. Deu algumas explicações.
— Talvez o fracasso da primeira tentativa
tenha sido uma coincidência — disse. — Quem sabe se da próxima vez não consegue
penetrar na fortaleza sem ser molestado? Sabe muito bem o quanto isso nos ajudaria.
Já penetrou na base através de um salto de teleportação; está lembrado? Foi
daquela vez em que Tomisenkow acabara de pousar com sua frota de quinhentas
naves e nós os espalhamos pelos quatro cantos. É possível que o cérebro
positrônico julgue a situação de hoje mais perigosa, e por isso tenha ativado
outros campos de defesa. Para falar com franqueza, é até provável que seja
assim. Mas não acha que apesar disso devíamos fazer mais uma tentativa?
A fala de Bell foi cautelosa, o que
contrariava seus hábitos. De resto, não era de sua alçada formular pedidos a um
membro da Terceira Potência. Na situação em que se encontrava, tinha o direito
de ordenar.
Mas sabia perfeitamente o que significaria
uma segunda tentativa de Tako Kakuta. A primeira fora suficiente para fazê-lo
atingir os limites de sua resistência física.
Por estranho que parecesse, Kakuta não
hesitou. Um sorriso um tanto embaraçado espalhou-se por seu rosto redondo de
criança.
— É claro que tentarei mais uma vez. Faço
votos de que também desta vez não sofra outra coisa a não ser a sensação de ter
sido atropelado por um tanque.
Fizeram todos os preparativos para a ação.
Bell mandou que dois tripulantes da nave comparecessem à sala de comando e
ordenou-lhes que cuidassem bem do japonês, se este voltasse a aparecer.
Tako Kakuta colocou-se em posição. Em seu
rosto havia uma expressão fatalista.
— Vou tentar — anunciou.
A transição propriamente dita não levou
mais de um segundo. Mal se notava que os contornos do corpo de Kakuta começaram
a se desvanecer, e o mesmo já havia desaparecido.
Reginald Bell conteve a respiração. No
intervalo de duas pulsações do coração atreveu-se a acreditar que desta vez a
tentativa fora coroada de êxito... mas aí o japonês reapareceu de repente.
Fechara os olhos e o rosto contorcia-se de
dor.
Os homens que Bell mandara comparecer à
sala de comando cumpriram seu dever. Tako Kakuta caiu nos seus braços. Estava
inconsciente.
— Levem-no ao seu camarote — ordenou Bell.
— E cuidem dele. Avisem-me assim que recuperar a consciência.
Deu-lhes as costas e fitou a tela de imagem,
coberta de massas turbilhonantes de nuvens luminosas.
A segunda tentativa fracassara.
Não havia mais nenhuma possibilidade de
intervir nos acontecimentos que se desenrolavam em Vênus.
* * *
Son Okura viu o litoral emergir sob a
forma de um traço negro.
Faltavam quarenta horas para a meia-noite.
Fazia tempo que Marshall despertara e
assumira o posto de Rhodan, para que este descansasse ao menos alguns minutos.
Son Okura era o único que ainda não tivera tempo para dormir.
Por enquanto seus olhos não podiam ser
dispensados.
As focas rebocavam o barco sem cessar.
Haviam ouvido os helicópteros por mais
algumas vezes. De cada vez o ruído fora um pouco mais forte que da vez
anterior. Não havia dúvida de que os aparelhos davam buscas no mar em faixas
que corriam do sul para o norte ou vice-versa, e que essas faixas chegariam
cada vez mais perto da costa e do barco em fuga.
Marshall avisara as focas. Se houvesse um
ataque, aguardariam um sinal para sair dos laços e se retirar da área de
perigo. Marshall esperava que as coisas não chegassem a esse ponto, mas não
tinha muita certeza disso.
Depois de um ligeiro descanso, Rhodan
levantou-se e mandou que o japonês dormisse um pouco. Okura obedeceu; dali em
diante dependeriam exclusivamente do ouvido. Os olhos do espia haviam sido eliminados.
* * *
Pouco depois das duzentas e uma horas,
tempo local, o observador do helicóptero que ia à frente da esquadrilha
reconheceu um reflexo débil e minúsculo na sua tela de radar.
Comunicou-se com o grosso da força e soube
que já haviam observado a mesma coisa. Com isso ficava demonstrado que se
tratava de um reflexo genuíno.
A posição exata do objeto foi determinada;
constatou-se que se deslocava a uma velocidade considerável em direção ao
nordeste.
Cinco minutos depois de realizada a
primeira observação, a esquadrilha tomou o rumo leste e aproximou-se do objeto
desconhecido a toda velocidade. No momento esse objeto deslocava-se na
proximidade da costa da península.
Para o major que comandava a patrulha de
helicópteros, não havia a menor dúvida de que esse objeto se relacionava de
alguma forma com os dois helicópteros desaparecidos. Ordenou aos observadores
que não tirassem os olhos daquele objeto e que utilizassem o dispositivo
infravermelho assim que se encontrassem à vista do mesmo.
* * *
Rhodan aguçou o ouvido.
De início escutara apenas o costumeiro
zumbido distante da esquadrilha que se aproximava, vindo do sul; alcançaria seu
ponto máximo numa posição lateral.
Mais uma vez os helicópteros se
aproximaram, mas por enquanto não havia nenhum perigo.
Rhodan esperava que o ruído se afastasse
para o norte, mas isso não aconteceu. Um novo tom se misturou ao zumbido.
Rhodan compreendeu imediatamente o que
havia acontecido em meio à escuridão: os ocupantes dos aparelhos haviam
descoberto alguma coisa, comunicavam-se entre si e tomavam outro curso. Por
alguns instantes teve esperança de que não fosse justamente o barco. Este era
feito de massa plástica elastificada e não constituía o material adequado para
refletir uma onda de radar.
Mas, quando o ruído começou a crescer com
uma intensidade assustadora, Rhodan percebeu que se enganara. Os aparelhos de
radar do inimigo eram melhores do que acreditara.
— Marshall! Acorde Son!
Marshall também estava escutando.
Respondeu com um breve aceno de cabeça e dirigiu-se à proa, para despertar o
japonês. Não foi fácil, mas sob a força das circunstâncias conseguiu.
— Son! — gritou Rhodan. — Estão atacando.
Diria que são mais ou menos dez helicópteros. Fique de olhos abertos.
E depois:
— Marshall...
— Sim.
— Transmita o sinal às focas. Antes disso
procure saber onde poderemos nos abrigar se conseguirmos resistir à primeira
investida.
— Pois não.
— Son.
— Sim.
— A que distância fica a costa?
— Uns duzentos metros.
Rhodan praguejou por entre os dentes. Não poderiam
ter levado mais um minuto para descobrir o barco?
Marshall já entrara em atividade. Com a
habilidade que lhes era peculiar as focas soltaram-se dos laços e dispararam em
direção à costa.
— As focas moram em cavernas cheias de
água até a metade da altura; desembocam diretamente no mar. Avisam que estão
dispostas a nos abrigar lá.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Está bem. Preparem as armas.
O zumbido dos helicópteros começara a se
desmanchar. Há alguns segundos o ouvido distinguia entre o chiado agudo dos jatos
e as batidas dos motores. Son informou que via nove pontos luminosos que se
aproximavam pouco acima da superfície da água.
— Estão a uns dois quilômetros de
distância — acrescentou.
Nos últimos segundos antes de abandonarem
o barco as focas ainda o haviam levado mais uns cinqüenta metros em direção à
costa. Esta ainda ficava a cento e cinqüenta metros. Rhodan preveniu os
companheiros de que teriam de percorrer essa distância a nado, fossem quais
fossem as criaturas da flora e da fauna aquática que se encontravam no caminho.
— No primeiro ataque abriremos fogo contra
eles — ordenou. — Se não tremermos com a mão, seremos capazes de derrubar quase
uma esquadrilha inteira. Isso lhes incutirá um pouco de respeito.
Aproveitaremos o tempo que levarem para se recuperar do susto para nadar até a
costa. Pendurem o radiador de impulsos térmicos nas costas. Cada um levará ao
menos uma das pistolas automáticas que temos a bordo, além de uma boa provisão
de munições. Não se esqueçam do mais importante: procurem chegar quanto antes
às cavernas das focas. Dos helicópteros eles nos verão mesmo que estejamos
nadando.
Mal acabou de pronunciar essas palavras,
quando Son Okura levantou o braço.
— Atenção! Ali; estão usando holofotes de
luz infravermelha.
Só o japonês via os raios enfeixados que,
vindos das alturas em que se encontrava a patrulha de helicópteros, davam busca
pela superfície do mar. Para Okura os pontos cintilantes em que os raios
infravermelhos atingiam o mar constituíam um indício precioso, que lhe permitia
avaliar o tempo que os helicópteros ainda levariam para descobrir o barco.
— Faltam quinhentos metros! — gritou para
Rhodan. — Vêm bem em nossa direção.
“Não
é de admirar”, pensou Rhodan. “Estão
voando de tal forma que o reflexo fica bem no centro da tela. Isso não é
nenhuma arte.”
— Faltam duzentos metros! — gritou Okura e
cobriu o rosto com os dois braços. O holofote, que para outras pessoas era
invisível, ofuscava os olhos do japonês.
Haviam sido descobertos.
— Abriguem-se! — ordenou Rhodan.
As paredes de plástico do barco forneciam
uma proteção muito melhor do que seria de supor à primeira vista. A massa de
plástico que cercava o recipiente de ar tinha ao menos dez centímetros de
espessura. Além disso, era um material auto-regenerável. O impacto de um
projétil liberava calor. E a massa de plástico utilizava esse calor para fechar
o buraco aberto pelo tiro, recorrendo à substância retirada das partes não
atingidas. Com isso poderiam ser anulados efeitos de qualquer número de
impactos comuns, e de cerca de quinze impactos de projéteis explosivos. Quanto
ao décimo sexto impacto de projétil explosivo...
Um canhão automático começou a emitir um
ruído metálico ininterrupto em meio à escuridão. Os tiros foram muito curtos. A
uns vinte metros do barco Rhodan viu os repuxos luminosos levantados pelos
impactos.
Okura levantou os dois braços, para avisar
que os helicópteros se encontravam em posição de tiro favorável. A voz de
Rhodan superou o barulho:
— Fogo!
O fogo que surgiu em frente aos aparelhos foi
de um silêncio sinistro. Rhodan viu uma sombra que emitia silvos e batidas,
dirigiu seu radiador de impulsos térmicos sobre a mesma e comprimiu fortemente
o gatilho. Ficou com os olhos semicerrados para evitar o ofuscamento produzido
pela luminosidade da descarga energética. Viu quando o raio ofuscante atingiu o
enorme aparelho, descarregou todo seu potencial energético nas paredes, nos
soalhos e nos instrumentos do mesmo, transformando-os de um instante em outro
num montão de metal derretido e volatilizado, que se desmanchou numa explosão
estrondosa ao tocar a superfície da água.
O mesmo fenômeno repetiu-se em mais dois
pontos. Perry Rhodan teve uma sensação de triunfo quando os outros helicópteros
puseram os jatos a uivar e se afastaram precipitadamente.
— Tudo preparado para nadar?
— Tudo preparado — soou a voz de Okura.
— Tudo preparado — respondeu Marshall.
— Vamos!
Deixaram-se cair na água. Logo começaram a
nadar com braçadas vigorosas. A água era gosmenta e um pouco viscosa, mas
avançaram rapidamente e comunicaram-se por meio de gritos para não se
dispersarem.
O ruído dos helicópteros voltou a crescer.
Rhodan viu que Okura, enquanto nadava, virou a cabeça para observar os raios
dos holofotes de luz infravermelha. Fez um gesto tranqüilizador.
Desta vez o ruído dos canhões automáticos
soou a uma distância tranqüilizadora. Voltaram a atacar o barco.
Ouviu uma série de estalos e chiados e viu
uma chuva de faíscas quando um dos projéteis atingiu as munições depositadas no
barco. Praticamente no mesmo
instante os helicópteros pararam de disparar. Ao que tudo indicava achavam que
era impossível que alguém tivesse resistido à explosão.
Okura avisou que dois dos aparelhos
estavam parados pouco acima do barco.
— Pois procurem nadar mais depressa! —
gritou Rhodan. — Logo perceberão que escapamos.
— Son, quanto falta?
— Setenta metros.
Procuraram verificar a profundidade da
água, mas era quase impossível afundar as pernas nesse líquido viscoso.
A voz de Okura voltou a soar:
— Atenção! Estão se aproximando. Vieram devagar.
Ainda não sabiam em que direção os tripulantes do barco haviam se afastado.
Deixaram os holofotes de luz infravermelha deslizar sobre a água.
Ainda faltavam quarenta metros, calculou
Rhodan. E os helicópteros estavam a menos de cem metros atrás deles.
Subitamente Marshall gritou:
— Aqui já temos chão firme! Podemos
caminhar.
Rhodan aproximou-se do lugar de onde vinha
a voz. Viu o vulto de Marshall, que agitava os braços, emergir da escuridão, e
baixou as pernas. Sentiu o chão sob os pés.
Ao andarem não conseguiram avançar muito
mais depressa do que nadando, mas era muito mais confortável. Avançaram metro
por metro em direção à costa, que começou a se desenhar sob a forma de um traço
negro contra a escuridão cinzenta. Mas os helicópteros também vinham se
aproximando metro por metro.
De repente Rhodan ouviu o japonês soltar
um gemido.
— Descobriram-nos.
Rhodan não viu o facho luminoso do
holofote, mas ouviu o ruído das armas automáticas. Poucos metros à direita os
projéteis atingiram a água.
— As focas estão bem à nossa frente! —
gritou Marshall. — Vamos para lá!
O helicóptero corrigiu a pontaria. Rhodan
viu a linha dos projéteis se deslocar em sua direção. Faltavam cinco metros.
Tropeçou sobre alguma coisa e caiu
esticado na água. Alguma coisa segurou-o vigorosamente pelos ombros e voltou a
pô-lo de pé. Mais adiante Marshall gritou alguma coisa que Rhodan não entendia.
Parecia ter a voz muito cava. O que seria?
Era a caverna! Marshall já se encontrava
no interior dela. Rhodan viu que os repuxos levantados pelos projéteis da arma
automática ficavam atrás dele. Com uma sensação de alívio tropeçou pelo chão
escorregadio e coberto de água. Percebeu que subia constantemente e acabou
chegando a uma placa de pedra situada poucos centímetros acima da superfície da
água. Marshall, que já estava sentado, fez-lhe um sinal. O japonês dispôs-se a
subir a pedra, vindo do outro lado.
Rhodan deixou que Marshall o ajudasse.
Assim que conseguiu puxar as pernas para junto do corpo, deixou-se cair.
Deitado de costas, inalou em golfadas vigorosas o ar úmido da caverna das
focas.
Os canhões automáticos dos helicópteros
continuavam a disparar do lado de fora. Mas a abertura da caverna era tão
pequena e estava tão cheia de água que os projéteis disparados não mais
conseguiam atingi-los.
3
— Já
decidiu alguma coisa? — perguntou Tomisenkow.
Thora se assustou quando o viu entrar por
baixo da lona. Apesar disso não perdeu a compostura.
— Já decidi — respondeu em tom altivo. —
Estou disposta a cooperar com o senhor, desde que consiga me convencer de que
existe alguma chance de sermos bem sucedidos, por menor que seja.
Tomisenkow sentou sem ser convidado e
encarou-a com os olhos semicerrados.
— Posso garantir — disse — que eu e mais
alguns dos meus companheiros poderemos sair do acampamento sem sermos
molestados e penetrar algumas centenas de metros na selva. O que acontecer
depois depende da capacidade de sua lendária fortaleza de Vênus de nos proteger
contra os helicópteros e as patrulhas de Raskujan.
Um brilho de suspeita iluminou os olhos
avermelhados de Thora.
— Se acredita que dessa forma conseguirá
penetrar no interior da base, está muito...
Tomisenkow interrompeu-a com um gesto
nervoso.
— Para mim o tempo passou — asseverou. —
Não estou interessado em sua base. Posso viver sem ela.
— Afinal, no que está interessado? —
perguntou Thora com um certo tom de ironia na voz.
Tomisenkow encarou-a.
— Estou interessado — respondeu — em
impedir que um idiota faça tudo quanto é besteira em Vênus. Até parece que a
senhora ainda não conhece a raça terrena a que pertencemos.
— Nunca tive interesse em conhecê-la —
respondeu Thora em tom reservado.
Tomisenkow não parecia ofendido.
— Um dia a senhora devia procurar conhecer
— disse em tom pensativo. — Somos uma raça bem interessante. Basta que se veja,
por exemplo, que um ano que passamos em Vênus quase sem recursos bastou para
que eu e a maioria de meus companheiros nos apaixonássemos por este mundo
horrível. Somos os primeiros que passamos um ano inteiro aqui sem casas
pré-fabricadas, camas macias e outras comodidades; vivemos nas selvas e nos
vales que cortam as montanhas e de noite sempre dormimos em cima das árvores.
Vênus nos pertence. Já não somos russos, mas venusianos ou coisa que o valha.
Por isso sua base não me interessa nem um pouco; e é também por isso que quero
evitar que Raskujan continue a brincar de ditador por aqui. A senhora
compreende?
Thora não respondeu.
— Está bem — disse depois de algum tempo.
— Sairemos juntos deste campo de prisioneiros. Não posso fazer nenhuma
promessa. Mas talvez pudéssemos organizar a fuga da seguinte maneira:...
* * *
Rhodan só se permitiu alguns minutos de
descanso. Depois levantou-se.
— Marshall, diga às focas que têm de sair
quanto antes desta caverna.
Os helicópteros haviam se retirado. No
interior da caverna reinava o silêncio, interrompido apenas pelo ruído das
ondas e pelo arrastar das barbatanas das focas sobre a rocha molhada dos
fundos.
Marshall transmitiu a advertência.
— Não sabem por quê — disse a Rhodan.
— Porque esses helicópteros não terão
coisa mais urgente a fazer que colocar algumas bombas tipo baby bem à frente do nosso nariz.
Marshall também transmitiu essa mensagem,
embora fosse um tanto difícil fazer as focas compreenderem o que vinha a ser
uma bomba baby.
— Estão de acordo — disse depois de algum
tempo.
— Esta caverna tem alguma saída para o
lado da terra? — indagou Rhodan.
Marshall formulou a pergunta.
— Sim, uma espécie de refúgio. Mais
precisamente, uma galeria que sobe num plano inclinado e sai bem em meio à
selva.
— Formidável. Nós a utilizaremos. Acredito
que o pessoal de Raskujan deve ter deixado, em algum lugar lá fora, um
helicóptero que deve observar o terreno. Se pudermos desaparecer sem sermos
notados, teremos uma ótima vantagem.
Procurou avaliar o raio de ação da bomba
que se esperava e pediu a Marshall que comunicasse às focas qual era a
distância mínima que deveriam guardar da caverna para não saírem machucadas.
Constatou-se que para as focas a mudança
não representava qualquer problema. Por sua própria natureza eram uma raça
inconstante, e ao longo da costa havia milhares de cavernas. Prometeram que
iriam advertir outros grupos de focas que se encontravam na área ameaçada.
Marshall também deu sua contribuição:
através de uma mensagem telepática, repetida várias vezes, preveniu todas as
focas que se encontravam nas redondezas.
Finalmente procurou explicar às focas que
aqueles aos quais haviam prestado auxílio sentiam-se muito gratos e que Rhodan
estava disposto a cumprir qualquer desejo que tivessem, desde que isso estivesse
ao seu alcance.
Mas, por espantoso que fosse, as focas não
tinham nenhum desejo. Suas necessidades eram muito reduzidas e o mundo de Vênus
era opulento. Despediram-se uns dos outros com protestos de amizade mútua — que
eram um tanto desajeitados, em virtude da diferença de mentalidades.
Rhodan e seus companheiros puseram-se a
caminho. Rastejaram por uma galeria de cerca de cem metros de comprimento que
fedia a peixe e óleo de baleia e mal dava para andarem de quatro. Mais ou menos
às duzentas e duas horas atingiram o mundo exterior; num ponto bem afastado da
costa, onde a selva impenetrável os protegia.
As focas haviam fornecido uma descrição
aproximada do terreno a Marshall. A topografia desses animais não chegava a ser
uma ciência, mas bastou para que Rhodan constatasse que a faixa de terra
vertical, que ligava a península com a linha costeira do continente norte,
devia se encontrar entre oito e quinze quilômetros de distância do lugar em que
se encontravam.
— Pois bem — disse — são quinze
quilômetros no máximo até a faixa que liga a península ao continente. O campo
energético da base começa a uns vinte quilômetros ao norte da linha costeira.
Isso perfaz, na pior das hipóteses, um total de trinta e cinco quilômetros até
o campo energético. Ali devemos encontrar um meio de ativar o mecanismo
identificador do cérebro positrônico. E depois disso — esboçou um sorriso
cansado — o pior terá ficado para trás.
* * *
Pisando fortemente, o cabo Wlassov saiu da
escuridão e correu em direção à sentinela postada junto ao portão.
— Preciso de auxílio — fungou. — Tomisenkow
desapareceu.
Junto ao portão do primitivo campo de
prisioneiros havia cinco homens; o mais graduado era o sargento. Dois homens
foram destacados para ajudar Wlassov na busca do general desaparecido. O
sargento preveniu Wlassov.
— Vocês dispõem de quinze minutos para
encontrar Tomisenkow. Depois terei de avisar a ocorrência.
Wlassov respondeu com um aceno de cabeça e
desapareceu na escuridão juntamente com os dois homens que o acompanhavam. Uma
das sentinelas ligou a lanterninha para iluminar o caminho; mas Wlassov deu uma
pancada no braço do homem.
— Apague isso! — chiou. — Se ele nos vê de
longe, não deixará que o agarremos.
O argumento era bem plausível, ainda mais
que Wlassov conhecia de cor o caminho até a barraca de Tomisenkow. Caminhou à
frente e pouco se importou quando subitamente algumas sombras emergiram da
escuridão, saltaram sobre seus companheiros e lhes comprimiram a garganta até
que eles perdessem a consciência.
— Tudo em ordem — cochichou uma voz. —
Tirem a roupa deles.
Wlassov deu meia-volta e voltou alguns
passos. Dois homens estavam tirando os uniformes das sentinelas inconscientes.
— Não se apressem — disse Wlassov em tom
tranqüilo. — Temos tempo. O sargento não avisará a ocorrência antes de quinze
minutos.
As duas sentinelas foram amarradas, amordaçadas
e escondidas entre as moitas. O campo de prisioneiros estava seguro contra
animais selvagens, com exceção das formigas gigantes. Desde que estas não
assaltassem o acampamento justamente na próxima hora, a vida dos dois homens
amarrados não correria perigo.
Uma sombra baixa e atarracada destacou-se
em meio à escuridão. Wlassov levou uma pancada vigorosa no ombro.
— Trabalho bem feito, rapaz — disse
Tomisenkow em tom de elogio.
Wlassov deu um sorriso de embaraço.
— Não me sinto muito bem com isso —
respondeu.
Tomisenkow fez um gesto de desprezo.
— Isso passa — disse laconicamente.
Um dos outros homens anunciou:
— Terminamos, chefe.
— Muito bem — resmungou Tomisenkow. —
Estão todos reunidos? Wlassov, Alicarim, Jegorov, Zelinskij. Onde está Thora?
— Estão todos aqui, chefe.
Tomisenkow fez um gesto com a cabeça.
— Está bem. Vamos embora.
O sargento postado junto ao portão não
desconfiou de nada quando, depois de um tempo relativamente curto, Wlassov
voltou acompanhado de dois homens cujo rosto não podia reconhecer. Seus
acompanhantes usavam os uniformes limpos que distinguiam as tropas de Raskujan
dos homens esfarrapados da divisão espacial.
— Tudo em ordem? — perguntou o sargento.
Wlassov acenou com a cabeça; parecia
aliviado.
— Tudo. Passou por baixo da lona de
barraca e deu um passeio. Não acredito que...
Não precisou dizer mais nada. Já havia
chegado perto do sargento. Num movimento instantâneo levantou a mão que
segurava a pesada pistola pelo cano e com a coronha deu uma pancada violenta na
cabeça do homem. Wlassov segurou o pesado corpo do sargento e deixou-o cair
suavemente em meio ao capim.
Uma das outras sentinelas pôs a cabeça
para fora da cabana primitiva que servia de guarita.
— O que houve? O que aconteceu com...
Wlassov fez-lhe um sinal para que se
aproximasse.
— Venha cá. Caiu de repente.
Sem desconfiar de nada a sentinela
dispô-se a vir em auxílio do sargento. Quando inclinou-se sobre o homem
inconsciente, recebeu uma pancada igualmente violenta e seu corpo flácido e
inconsciente cobriu o de seu superior.
Wlassov não perdeu muito tempo com a última
sentinela. Segurou a pistola pela coronha e entrou na cabana. O homem olhou-o
com o rosto sonolento.
— Levante-se e ponha as mãos para cima! —
ordenou Wlassov.
O homem obedeceu, ainda sonolento e quase
morrendo de susto.
— Saia à minha frente!
Mais uma vez o homem fez o que lhe fora
ordenado. Ao sair da porta, um dos homens de Tomisenkow que haviam vindo com
Wlassov deu-lhe uma pancada na cabeça, o que o fez cair duro, tal qual seus
camaradas.
Wlassov soltou dois assobios abafados. A
escuridão adquiriu vida. Tomisenkow, Alicarim e Thora chegaram ao portão.
— Vamos amarrá-los, amordaçá-los e
tirar-lhes as armas — ordenou Tomisenkow laconicamente.
O trabalho progrediu rapidamente. Os três
homens inconscientes também foram escondidos nas moitas num lugar bastante
afastado da cabana. Era de supor que a busca dos fugitivos demoraria até que a
ronda encontrasse as sentinelas desaparecidas.
Ao todo haviam sido derrubadas e
escondidas sete sentinelas: uma adiante da barraca de Thora e da que Alicarim,
Jegorov e Zelinskij ocupavam em conjunto, as duas que o sargento havia
destacado para acompanharem Wlassov e finalmente o sargento com os dois subordinados
que ainda lhe restavam.
A oitava das sentinelas desaparecidas
daria alguma dor de cabeça à ronda: era Wlassov. Era difícil de imaginar que um
dos soldados de Raskujan preferisse renunciar à segurança e ao conforto do
campo de foguetes para seguir um homem que, no linguajar de Raskujan, era um
simples aventureiro, enfrentando a insegurança e as privações.
Talvez essa dor de cabeça retardasse o
início da busca por mais alguns minutos.
O pequeno grupo, com Tomisenkow na ponta,
passou pelo portão totalmente aberto. Wlassov, que carregava duas pistolas
automáticas e um pesado embrulho com munições, ia na retaguarda. Fechou
cuidadosamente o portão.
Tomisenkow tomou o rumo nordeste, para
contornar a área perigosa do campo de pouso dos foguetes. Cinco minutos depois
chegaram à selva no lugar em que terminava a faixa de terra calcinada.
Wlassov conhecia os planos de Tomisenkow.
Queria atingir quanto antes o campo protetor da base que a Terceira Potência
possuía em Vênus. A idéia de roubar um helicóptero logo foi abandonada. O
aparelho não conseguiria decolar sem ser percebido. Dentro de poucos minutos os
homens se poriam em seu encalço e, numa relação de forças de um para vinte, não
podia haver qualquer dúvida quanto ao resultado da perseguição.
Também desistiram da idéia de usar a faixa
calcinada aberta pela Stardust-III para avançar mais depressa. Raskujan logo
imaginaria que fossem adotar esse procedimento. Embrenhando-se pela selva
enganariam Raskujan e estariam protegidos contra a visão direta.
Tomisenkow sabia que a fuga não seria
descoberta antes da próxima ronda, que seria realizada dentro de duas horas. É
a experiência já lhe ensinara que as trilhas abertas na selva se fechariam
dentro de uma hora e meia no máximo, a tal ponto que nenhum dos homens de Raskujan
conseguiria distingui-los do restante da selva de Vênus.
Dessa forma os problemas com que
Tomisenkow se defrontava haviam sido solucionados com um grau máximo de
segurança. Só mesmo um fato imprevisto faria com que o grupo fosse descoberto e
recapturado enquanto Tomisenkow se encontrasse no comando.
O que viria depois era outra coisa.
Wlassov não entendia muito das coisas concebidas pela arcônida e que depois
soubera de Tomisenkow, isto é, de terceira pessoa. Tratava-se do campo
protetor, onde, durante um ano, Raskujan esbarrara diariamente com a cabeça.
Thora parecia estar convencida de que o mecanismo que mantinha o campo ativado
devia ter efetuado alguma ligação especial e que justamente essa ligação daria
a ela e aos seus companheiros uma chance de atravessar a área do campo e
penetrar na base.
Wlassov não compreendia nada disso. Mas
confiava na inteligência de Tomisenkow. Se este acreditava que os planos de
Thora tinham alguma chance, esta realmente devia existir.
* * *
Encontravam-se cerca de dois quilômetros
da saída da galeria quando a bomba baby
explodiu. Por alguns segundos uma luz pálida cobriu o terreno,
penetrando mesmo através da folhagem da selva. Trinta segundos depois, a vaga
de pressão desencadeada pela detonação da bomba gemeu acima da floresta.
Isso não os perturbou. Tratava-se de uma
bomba de fusão, cuja matéria físsil não atinge o nível crítico, mas que,
através de uma matéria refletiva bastante eficaz, como a grafite ou o berílio,
no momento da detonação ultrapassa o fator de criticidade um. A radiatividade
desencadeada pela mesma só atinge um nível perigoso nas imediações do local da
explosão. A caverna das focas, que lhes servira de abrigo por alguns minutos, e
a área situada num raio de quinhentos metros da mesma, constituiriam um terreno
perigoso por mais algum tempo. Mas ninguém sofreria qualquer dano, a não ser
que as focas não levassem a sério a advertência que lhes fora feita.
Apesar disso, Perry Rhodan viu na
detonação da bomba mais uma prova do perigo que se correria se um homem como o
coronel Raskujan pudesse agir à vontade em Vênus. Não compreendia que um mundo
novo exige o emprego de novos métodos. A idéia de que a política da Terra,
inspirada nas ambições nacionalistas, não poderia ser transplantada para ser
praticada em Vênus ultrapassava a capacidade de seu horizonte mental.
Aos homens desse tipo faltava aquilo que
Rhodan costumava designar como a mentalidade cósmica.
Rhodan lamentou que não estivesse ainda em
condições de ensinar a Raskujan qual era seu lugar. Dos trinta e cinco
quilômetros que, na pior das hipóteses, teriam de vencer para alcançar o limite
do campo energético, só haviam percorrido dois. Dentro das próximas cinco horas
teriam que fazer uma pausa de descanso bastante extensa, pois do contrário suas
pernas e mentes entrariam em pane sem prévio aviso.
Desfrutaram de um descanso no nível mais
elevado e menos perigoso da selva. Son Okura localizou a árvore que prometia o
grau mais elevado de conforto e segurança. A uns quarenta metros de altura
alcançaram com algum esforço uma bifurcação bastante extensa para lhes
proporcionar um abrigo seguro. Rhodan dispôs-se a ficar de sentinela durante as
primeiras duas horas. Depois foi a vez do japonês, e o último período coube a
John Marshall.
Instalaram-se o melhor que puderam e dali
a um minuto Marshall e Okura já estavam dormindo profundamente. Rhodan
aproveitou o tempo para refletir sobre um ou outro problema que ainda não tinha
sido resolvido.
Há um ano privara a divisão espacial
comandada pelo general Tomisenkow de suas naves e a tangera na selva. Pretendia
fazer dos dez mil homens de Tomisenkow, ou daquilo que restava dos mesmos, a
base da colonização de Vênus. O plano parecia razoável. A divisão de Tomisenkow
dispersara-se, conforme era de esperar. Houve a formação de grupos dissidentes
que propugnavam esta ou aquela filosofia, como por exemplo o dos pacifistas,
comandado pelo tenente Wallerinski. A dissidência não deixou de ser acompanhada
de atritos internos. Mas com o tempo os grupos começaram a se fixar no solo, a
maior parte deles em formações rochosas que se erguiam em meio à selva espessa
e mortífera, formando planaltos desimpedidos que ofereciam aos colonos um
máximo de segurança e visibilidade.
Acontece que no meio tempo o coronel
Raskujan pousou em Vênus com sua frota de apoio. Durante um ano tentou
conquistar a base da Terceira Potência e com isso, sem que o soubesse, deu
tempo para que Tomisenkow e seus homens se instalassem em Vênus.
Mas chegou o momento fatal em que Raskujan
teve conhecimento da existência dos remanescentes da divisão espacial e se
dispôs a subjugá-los, para realizar seus planos ditados pela sede do poder.
De qualquer maneira Raskujan representava
uma pedra no caminho. Tinha de ser removido antes que pudesse causar danos
ainda maiores. Raskujan não deixava de ser útil, pois a maior parte dos
tripulantes de sua frota era composta de mulheres que se tornavam necessárias
para fazer da colônia uma autarquia biológica. Mas sob todos os outros aspectos
o coronel representava um obstáculo.
Na opinião de Rhodan, Tomisenkow era o
homem que poderia fazer prosperar a nova colônia. E o ressentimento pessoal não
entrava nessa opinião. Rhodan não sabia se jamais chegaria a estabelecer
contato direto com Tomisenkow. Tudo que sabia daquele homem provinha dos
relatos dos prisioneiros que há um ano capturara em Vênus. O quadro resultante
desses relatos não era muito agradável nem harmônico. Mas, conquanto não o
conhecesse pessoalmente, Rhodan acreditava ter encontrado uma qualidade
favorável em Tomisenkow: no ano que se passara, Vênus fez daquele homem uma
criatura modesta e compreensiva.
Suas reflexões haviam chegado a este ponto
quando entre a imensa variedade dos ruídos que a selva produzia a todo instante
sobressaiu um farfalhar entrecortado, que parecia vir de um lugar muito
próximo. Rhodan aproximou-se na escuridão do galho bifurcado e procurou
observar a origem do ruído. Os olhos adaptados à escuridão enxergavam a uma
distância de cerca de três metros, o suficiente para se defender com o radiador
de impulsos térmicos contra qualquer coisa que pudesse se tornar perigosa.
Algo comprido, estreito e móvel entrou no
campo de visão, vindo de cima. Por algum tempo balançou ao acaso entre os
galhos; depois deu um solavanco, cresceu para baixo e arrastou atrás de si um
montão elástico como o resto, que mudava constantemente de forma, deslizando
árvore abaixo por uma trilha gosmenta por ele mesmo produzida.
Rhodan reconheceu o animal. Era um
daqueles pólipos que viviam no solo onde construíam suas armadilhas subterrâneas,
mas vez por outra punham-se a caçar, isso quando as presas que caíam na
armadilha não bastavam para saciar a fome.
Rhodan aguardou pacientemente. Sabia
perfeitamente que seria inútil atirar contra o tentáculo que balançava diante
de seu rosto.
Por algum tempo o corpo flácido do pólipo,
coberto de uma pele dura, escondeu-se na densa folhagem. Depois desceu,
arranhando a árvore, colocou-se numa posição favorável e pôs o tentáculo a sair
em busca da primeira presa.
Rhodan manteve-se quieto quando o
tentáculo escamoso e repugnante passou por cima de seu crânio, caiu sobre o
ombro direito e começou a enlaçá-lo pela cintura. Num movimento lento e
cauteloso levantou o radiador térmico e dirigiu o cano sobre a massa volumosa
formada pelo corpo do animal. Apoiou o pé contra o galho que, da forquilha,
partia para a direita; quando o tentáculo começou a se esforçar para
arrastá-lo, atirou.
A pontaria foi exata, conforme era
necessário num disparo de radiador térmico. O raio ofuscante atingiu o corpo do
pólipo no ponto mais distante da árvore. A substância orgânica queimou e se
volatilizou num chiado, derramando uma chuva de fagulhas amarelentas na
escuridão da selva. Rhodan sentiu que a força do tentáculo diminuía.
Desprendeu-se e também foi consumido pelo calor absorvido pelo corpo do pólipo.
Poucos segundos depois, uma mancha negra,
que a combustão produzira na casca da árvore, era o único vestígio do perigo
que ameaçara os três homens abrigados na forquilha.
Rhodan mudou de lugar e continuou a
observar a escuridão. Incidentes desse tipo eram relativamente raros naquela
altura; não era de supor que durante o seu tempo de vigia a paz voltasse a ser
perturbada.
Recostou-se e voltou a mergulhar em suas
reflexões. Quebrou a cabeça para descobrir de que forma poderia trazer
prosperidade à jovem colônia de Vênus, caso conseguisse sair vivo da aventura.
* * *
Era um acampamento primitivo; mas, com
exceção de Thora, ninguém se incomodou com isso, e até mesmo ela preferiu não
dizer nada.
Deitados no chão úmido e morno,
mantiveram-se em silêncio e sonolentos. O único que parecia interessado em
alguma coisa era Tomisenkow, que conversava com Thora sobre as possibilidades
de penetrar na base apesar da existência do campo protetor.
— Pelo que entendi — disse Tomisenkow — a
senhora tem esperança de que o cérebro positrônico instalado na fortaleza a
reconheça e lhe franqueie o acesso. Será que é assim?
Thora acenou com a cabeça, um pouco
enojada.
— Não tenho nenhuma certeza — disse. —
Pelo que sei, o cérebro positrônico assumiu o comando da base em virtude de
vários incidentes graves. Isso significa que o tipo de ligação que permite o
acesso de um membro da Terceira Potência na base, caso seja irradiado com um
emissor especial o sinal convencionado em código, está superada. Para nós isso
é ótimo, pois não dispomos de um emissor especial para a transmissão de sinais
codificados e os materiais de que dispomos não possibilitam a construção do
mesmo. Nossa única esperança é que talvez o cérebro positrônico, assim que
cheguemos ao limite do campo protetor, reconheça minhas vibrações cerebrais
como sendo as de uma pessoa autorizada, e por isso abra a barreira.
Olhou para Tomisenkow, e este se admirou
com a expressão de perplexidade que havia em seus olhos.
— Infelizmente não sei se o cérebro positrônico
me reconhecerá como pessoa autorizada. Se Rhodan estivesse conosco, não haveria
a menor dúvida de que seríamos bem sucedidos. Mas estando sozinha...
Deixou de pronunciar o resto da frase.
Tomisenkow sentiu a necessidade de consolá-la. Mas antes que lhe ocorresse uma
coisa apropriada que poderia dizer, ouviu um ruído que desviou sua atenção
subitamente e por completo para coisas totalmente diversas.
Thora não sabia o que havia acontecido.
Não ouvira nada.
— Alicarim! — gritou Tomisenkow.
— Sim, chefe — respondeu o homem baixo de olhos
oblíquos vindo da Quirguízia. — Ouvi. É um tirano.
Disse-o em tom indiferente, quase entediado.
— Vem do leste-nordeste — acrescentou
Zelinskij.
E Jegorov completou:
— Tenho a impressão de que vai diretamente
para o lado do pântano.
Tomisenkow fez um gesto com a cabeça.
— Fiquem bem quietos, rapazes — disse a
seus homens. — Talvez passe por nós sem nos perceber.
Da escuridão ouviram as vozes dos homens
que confirmaram o recebimento da ordem.
— O que é? — perguntou Thora, nervosa. —
Um sáurio?
— Isso mesmo. Não está ouvindo?
Thora levantou a cabeça e aguçou o ouvido.
— Se está se referindo àquilo que, de
minuto em minuto, faz um ruído — disse depois de algum tempo — eu...
— Não é de minuto em minuto — respondeu
Tomisenkow com um sorriso. — O intervalo é de trinta a quarenta segundos.
— Por que é chamado de tirano?
— Porque é o único carnívoro entre os
sáurios. Come tudo que atravessa no seu caminho, desde que se trate de
substância animal. Até chega a atacar sáurios de outras raças, mesmo que sejam
maiores que ele. É claro que não consegue devorá-los totalmente. Arranca os
melhores pedaços e deixa o resto para as formigas.
Thora ouviu-o, espantada.
— Por que anda tão devagar?
— Devagar? — Tomisenkow soltou uma estrondosa
gargalhada. — Desloca-se a uma velocidade de vinte quilômetros por hora. É o
único sáurio que costuma andar com o corpo ereto. Geralmente só usa as patas
dianteiras para agarrar sua presa. É menor que a maioria dos sáurios mas,
andando ereto, sua altura é pelo menos dez metros maior. Só as pernas têm cerca
de quinze metros de altura. É só calcular quantos passos tem de dar por minuto
para que esses membros provoquem um deslocamento de vinte quilômetros por hora.
Não são mais que um e meio a dois.
Thora compreendeu.
Os passos retumbantes, que pareciam um
terremoto, tornavam-se cada vez mais fortes. Os outros ruídos da selva
cresceram na mesma proporção. Os animais fugiam daquela criatura poderosa.
— Vamos ficar sentados até que ele nos
pise? — perguntou Thora, um pouco assustada.
Fez um gesto indefinido para a escuridão.
— Para qualquer lugar... para longe daqui.
— E como podemos saber que não passará
justamente no lugar em que pretendemos nos esconder dele? Sabe dizer em que
direção está andando?
Thora sacudiu a cabeça; parecia perplexa.
— Além disso, não precisa ter medo de ser
pisada — prosseguiu Tomisenkow.
— Será que não?
— Não. Um tirano não pisa suas vítimas;
ele as devora. E tem um nariz excelente para farejar sua presa. Não tenha a
menor dúvida.
Depois de ter dado esse tipo de consolo a
Thora, rastejou para onde estava Alicarim. Este havia removido a vegetação de
um pedaço de chão e comprimiu o ouvido contra o solo para escutar melhor.
— Como estão as coisas? — perguntou
Tomisenkow em russo.
Alicarim fez uma careta.
— Mal. Na melhor das hipóteses passará a
cinqüenta metros daqui.
Tomisenkow se assustou.
— Cinqüenta metros não é nada — resmungou. — Seu
faro alcança o triplo dessa distância.

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