Só por uma
fração de segundo, o japonês pôde lançar os olhos em torno, ao chegar ao
destino. Reconheceu uma sala de tamanho médio, cujas paredes, soalho e teto
eram de concreto. Via-se uma mesa, três cadeiras velhas e um armário com uma
fechadura de enrolar antiquada. Não havia nenhuma janela. A iluminação provinha
de um tubo luminoso de um metro e meio, preso ao teto.
Na outra
extremidade da sala, a poucos metros de distância, o desconhecido acabara de
surgir do nada. Tako esteve prestes a dirigir-lhe a palavra. Foi quando uma
força desconhecida atingiu seu cérebro com uma violência indescritível.
Tako caiu
para a frente. O radiador de impulsos térmicos caiu-lhe da mão. Tako comprimiu
o rosto contra o soalho frio e segurou as têmporas para afastar a dor
insuportável.
Por uns
trinta segundos não conseguiu fazer qualquer movimento. As ondas de amplitude
variável da influência estranha percorriam sua cabeça, faziam-no esquecer por
que viera e transformaram-no num pedacinho choroso de gente.
Só depois de
algum tempo lembrou-se de que possuía um dom que lhe permitia transportar-se
para um lugar seguro. Concentrou-se o mais rápido possível, e com a maior
intensidade que a dor lhe permitia, sobre o lugar de onde viera. Quando a
influência estranha reduziu-se, apenas por uma fração de segundo, a um nível
suportável, saltou.
Sentiu que a
dor martelante e ondulante abandonou-o de um instante para outro. A tração e as
tensões produzidas pela teleportação não representavam nada em comparação ao
que suportara nos últimos segundos.
Sentiu-se
grato ao ver que as estrelas cintilantes voltaram a surgir acima de sua cabeça.
Ouviu um farfalhar e sentiu uma areia grossa sob os joelhos. Lançou os olhos em
torno.
As luzes de
Terrânia brilhavam a oeste. Descera a menos de dez quilômetros do destino.
A estafa
tomou conta de seu corpo. Quando tentou levantar, as pernas se dobraram.
Inconsciente, caiu estendido sobre o pedacinho de areia amarela do deserto que,
enfrentando todas as operações de irrigação artificial, conseguiu se manter
entre duas extensas áreas ajardinadas.
4
— Temos notícias
de Kakuta! — anunciou Nyssen pela meia-noite. — Está deitado entre dois
jardins, a uns dez quilômetros a oeste da cidade, e sente-se muito fraco para
andar. Pede que nós o busquemos.
Rhodan fez
que sim.
— Major,
prepare um carro — ordenou, dirigindo-se a Nyssen. — Irei até lá com Marshall.
Nyssen
confirmou o recebimento da ordem. Poucos minutos depois o carro estava
esperando. Marshall foi retirado da residência em que estava de prontidão
juntamente com Ras Tshubai e saiu da cidade em companhia de Rhodan.
Este
mantinha contato com o japonês através do micro-telecomunicador.
— Assim que
enxergar as luzes de nosso carro — disse — oriente-nos. Não temos a menor idéia
de onde está metido. Entendido?
— Sim —
respondeu Tako Kakuta com a voz débil.
— Como está
passando? — indagou Rhodan.
— Miseravelmente
— respondeu o japonês com toda franqueza.
Um instante
depois gritou bastante nervoso:
— Já vejo os
faróis de seu carro. Está quase no caminho certo. Dirija-se um pouquinho mais
para o norte.
Rhodan
seguiu a recomendação.
— Aí! —
exclamou o japonês. — Agora prossiga exatamente na direção leste. Mas faça o
favor de não me atropelar.
Poucos
minutos depois encontraram-no. Deitado de costas, ainda não estava em condições
de se levantar com suas próprias forças. Marshall e Rhodan colocaram-no no
carro e levaram-no à cidade.
* * *
— Como vai
ele, Eric? — perguntou Rhodan.
O Dr.
Manoli, um dos tripulantes da primeira nave espacial terrena, sacudiu os ombros
e deu ao seu rosto uma expressão de contrariedade.
— Esgotamento
total — respondeu. — Nunca vi uma pessoa que estivesse tão acabada, no sentido
literal da palavra, como este japonês.
Rhodan,
pensativo, olhou para a frente.
— Quanto
tempo falta?
Manoli
lançou-lhe um olhar indagador.
— Quanto
tempo falta para quê?
— Para que
eu possa interrogá-lo.
— Bem, umas
cinco ou seis semanas, acredito.
Rhodan
cresceu alguns centímetros, de tão indignado que ficou.
— Semanas? —
exclamou. — Você não sabe quanto dependemos das informações de Tako. Dê-lhe
tudo que você tiver nesses armários, mas faça-me o favor de colocá-lo em forma
dentro de poucas horas. Compreendeu?
Manoli
voltou a erguer os ombros.
— Não é
apenas o esgotamento — ponderou. — Fiz um encefalograma. Durante sua ausência
Kakuta deve ter sido submetido a uma influência mental muito forte. Sua
atividade cerebral é bastante confusa. Só lentamente está voltando à calma.
A testa de
Rhodan se enrugou.
— É sério?
Manoli
sacudiu a cabeça.
— Não;
apenas está confuso.
— Está bem.
Quanto tempo você vai levar para colocá-lo em forma? Duas horas?
O rosto de
Manoli se contorceu.
— Talvez em
dez horas.
— Está bem;
em dez horas. Avise-me quando estiver pronto.
* * *
Tako Kakuta
insistiu em comparecer perante Rhodan de pé e em seus trajes normais. O Dr.
Manoli recomendou que permanecesse de cama durante sua conversa com Rhodan; mas
Kakuta recusou a sugestão.
— Pois
levante, seu teimoso — disse Manoli em tom irritado. — Avise quando se sentir
mal.
Kakuta
prometeu com um sorriso que não deixaria de avisar.
Rhodan
recebeu-o em seu escritório, situado no último pavimento do edifício da
administração. Tako instalou-se confortavelmente numa poltrona, de frente para
Rhodan. Logo iniciou seu relato.
Não omitiu
nada, desde os esforços de Marshall, quando pretendia tirar as pedras de xadrez
do armário, até o momento em que o teleportador desconhecido surgiu diante dele
no vigésimo sétimo pavimento do edifício da administração e o esgotamento total
que dele se apoderou naquela sala de paredes de concreto, bem como o regresso a
Terrânia.
Rhodan
escutou-o atentamente, sem interrompê-lo. Assim que Tako concluiu, levantou-se
e foi a uma das janelas amplas que permitiam que, daquela sala iluminada e
arejada, se tivesse uma vista imponente sobre a cidade e as áreas adjacentes.
A vidraça
quase não produzia nenhum reflexo. Era feita para permitir uma visão
desimpedida. Tako Kakuta, que a essa hora estava sentado atrás dele, numa
posição ligeiramente lateral, só produzia um reflexo apagado.
— Você nunca
havia visto o teleportador desconhecido, não é mesmo? — perguntou Rhodan.
Ficou
satisfeito quando um movimento pouco nítido nos reflexos da vidraça lhe dava a
perceber que o japonês sacudia a cabeça atrás dele.
— Não —
respondeu Tako. — Não tenho o menor conhecimento com ele.
— O que
quero dizer — prosseguiu Rhodan — é que o viu tão bem que, sem a menor dúvida,
o teria reconhecido se já o tivesse visto antes. É isso?
Viu um
movimento na vidraça, cuja transparência era quase perfeita. Era um aceno de
cabeça.
— Sem dúvida
— disse Tako.
Outro
movimento, desta vez mais embaixo, provavelmente na altura dos quadris.
— Tem alguma
idéia sobre a área em que foi parar depois de seu salto? — prosseguiu Rhodan.
Desta vez a
resposta do japonês foi imediata.
— Seria
capaz de saltar a qualquer momento para esse lugar. Mas não acredito que possa
lhe fornecer as respectivas coordenadas.
Enquanto
falava, executou uma série de movimentos apressados. Apesar disso Rhodan
aguardou tranqüilamente que terminasse. Mesmo depois disso deixou passar mais
alguns segundos, antes que dissesse em tom áspero:
— Você tem
um radiador de nêutrons na mão, Tako. Não sei quem lhe teria dado a arma. Nos
minutos que passaram, você engatilhou a mesma, e agora quer me matar. Mas não
conseguirá.
Só depois
disso, voltou-se e olhou para o japonês. O rosto de Tako, que em outras
oportunidades costumava ser tão amável e infantil, contorcera-se numa careta
que apenas exprimia ódio e vontade de matar. Segurando na mão direita o pesado
radiador de nêutrons, mantinha-o apontado para Rhodan. A mão nem chegava a
tremer.
Rhodan
sorriu, embora isso lhe custasse muito esforço.
Tako
entortou o dedo em torno do largo gatilho e disparou. Um raio de cerca de cinco
centímetros de diâmetro, que irradiava uma débil fluorescência, saiu do cano da
arma.
No mesmo
instante, o ar se iluminou cerca de metro e meio de Rhodan, criando uma parede
de dolorosa claridade que tomava toda a largura e altura do aposento. O campo
protetor crepitou levemente ao absorver a energia tremenda do raio de nêutrons,
ativou as reservas de energia da arma e consumiu esta.
Rhodan ouviu
o japonês soltar um grito selvagem. Depois disso tudo foi silêncio. O crepitar
do campo energético cessou no mesmo instante. Rhodan esperou até que a
luminosidade tivesse desaparecido. Depois foi cuidar de Tako.
Este
escorregara para fora da poltrona e estava estendido no chão. A mão que
segurara o radiador de nêutrons apresentava duas manchas frescas de queimadura.
A solicitação excessiva da arma fizera com que sua parte elétrica realizasse a
transferência do elevado potencial do gerador de nêutrons para a mão de Tako. O
choque elétrico privara o japonês da consciência; tomara que só fosse isso.
Rhodan
avisou o Dr. Manoli e mandou que dois enfermeiros levassem o homem
inconsciente.
* * *
— Trata-se
de um bloqueio hipnótico de enorme potência — explicou Perry Rhodan. — E foi
aplicado com tamanha habilidade que o exame da atividade cerebral realizado
pelo Dr. Manoli, que, é bem verdade, foi apenas superficial, não revelou nada.
Crest,
pensativo, olhava fixamente para a frente.
— Que
monstro deve ser esse com que ele esteve em contato! — murmurou.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Se
considerarmos o fato de que aquele desconhecido não conhece a psicofísica
arcônida e, em conseqüência, não dispõe de qualquer aparelho destinado a
exercer influência sobre outras pessoas, só poderemos concluir que se trata de
um monstro.
— Será que
Manoli conseguirá dar conta do recado? — perguntou Crest, que de repente
parecia bastante preocupado.
Rhodan fez
um gesto tranqüilizador.
— Não se
preocupe com Manoli — respondeu. — É um homem que sabe seu ofício, inclusive o
que aprendeu por último. Naturalmente Tako terá que ser poupado nas próximas
semanas.
— Será que
ele ainda se lembra de alguma coisa?
— Lembra,
sim. Recorda-se de todos os detalhes, desde o momento em que enfrentou o
desconhecido até que voltou a pousar em Terrânia. É bem verdade que, se alguém
lhe disser que tentou me matar, dirá que esse alguém é um louco. Juntamente com
o bloqueio hipnótico perdeu toda recordação da tarefa que lhe foi imposta.
Houve uma
pausa. Alguns minutos se passaram até que Crest perguntasse:
— E agora?
Tem outros planos?
Rhodan fez
que sim.
— Por
enquanto não parecem ser facilmente realizáveis, mas sempre são planos.
Crest
fitou-o cheio de curiosidade.
— Teremos de
traduzir o modelo do salto de Tako em dados geográficos inteligíveis.
Crest
respirou fortemente.
— Traduzir!
Sabe lá se isso é possível?
Rhodan riu.
— Não faço a
menor idéia. Levantou-se.
— Cuidarei
disso imediatamente — prosseguiu. — Procurarei saber se temos alguma chance de
êxito. Se não, teremos que tentar por outro caminho.
Quando a
porta se abriu diante dele, ainda disse com um sorriso na boca:
— Há uma
coisa que me deixa muito satisfeito. Toda essa história do seu rapto não passou
de um blefe. Talvez o teleportador desconhecido realmente sentisse a tarefa de se
apoderar de você. Mas na verdade só surgiu por aqui para levar um de nós a
segui-lo.
Na testa de
Crest havia rugas.
— Acredita
que não estão atrás de mim?
— Não tenho
a menor dúvida — disse Rhodan, rindo. — Afinal, seria uma loucura rematada
tentar raptá-lo em pleno território da Terceira Potência.
* * *
Clifford
Monterny sentira seu primeiro fracasso de grandes proporções, por assim dizer,
por transmissão direta.
Mantivera-se
em contato telepático unilateral e imperceptível com o japonês Tako Kakuta, até
que o bloqueio hipnótico a que o mesmo estava sujeito foi removido por via
psicológica. Antes que pudesse restabelecer o contato interrompido, um
contrabloqueio foi incutido na mente de Tako, e este era tão poderoso que nem
mesmo o Supercrânio conseguia rompê-lo.
O que mais
preocupava Monterny era o fato de que não podia atinar com o motivo pelo qual
Rhodan havia previsto o atentado que se planejava. Tako Kakuta não se traíra
com nenhuma palavra, com nenhum gesto. Enquanto esteve submetido a tratamento médico,
cuidaram em primeira linha de seu bem-estar físico. O exame mental foi tão
superficial que nem mesmo um bloqueio hipnótico muito mais mal instalado teria
sido percebido.
Contudo...
Monterny
acreditava que Rhodan não era nenhum mutante; ou melhor, ele tinha certeza
quase absoluta disso. Não possuía qualquer dom profético, telepático ou de
outra natureza que lhe permitisse ver o interior do japonês.
Apesar disso
soube o que iria acontecer. No momento exato abrigara-se atrás de um campo
energético e com um sorriso assistiu ao espetáculo do tiro mortal repelido pela
parede energética protetora. A dor que o choque elétrico produziu em Tako foi
tão intensa que até Monterny chegou a senti-la.
E para que
foi tudo isso?
Uma vez que
estava convencido de que Rhodan não era nenhum mutante, só podia supor que sua
conduta diante do atentado resultava de uma capacidade de raciocínio quase
sobre-humana. E essa idéia deixou-o tão furioso que, por muitas horas, não
esteve em condições de conceber uma idéia clara.
Além da sede
de poder, o Supercrânio ainda estava imbuído da convicção de que um mutante é
um homem superior. Para ele não podia haver coisa pior do que saber que um
homem comum havia desmascarado
seus planos.
Na manhã do
dia seguinte, Monterny teve uma palestra prolongada com MacMurray, seu melhor
confidente.
MacMurray
era o único entre os mutantes de Monterny que já vira o Supercrânio face a
face. Foi naquele primeiro contato, e depois disso o fato repetia-se
constantemente.
A influência
hipnótica a que MacMurray estava submetido era tão intensa que sua verdadeira
personalidade se perdera há muito. Enquanto isso, suas capacidades
parapsicológicas haviam crescido. Um salto destinado a vencer distâncias
planetárias já não constituía o menor problema para aquele jovem, que no meio
tempo havia chegado aos vinte anos. Durante o salto produzia um campo
transicional tão amplo e intenso em torno de si que podia perfeitamente levar
consigo objetos de grandes dimensões.
Era
justamente em virtude dessa faculdade que MacMurray costumava desempenhar um
papel importantíssimo nos planos de Monterny.
* * *
— Será
difícil — admitiu Rhodan — mas não impossível.
Tinha diante
de si uma série de diagramas do salto de Tako Kakuta, elaborados por um
psicoanalisador. Dirigia-se a Crest e Thora.
— Já
descobriu alguma coisa? — perguntou Thora.
Rhodan fez
que sim.
— O destino
aproximado, com uma margem de erro de cem quilômetros para todos os lados.
— Onde...?
Rhodan
levantou os diagramas e mostrou um mapa escondido sob os mesmos. Era o mapa do
império insular japonês.
— Aqui —
disse Rhodan, apontando para um círculo desenhado no mapa. — Em algum lugar
situado no interior desse círculo.
Thora
examinou o mapa. Depois de algum tempo disse em tom ligeiramente irônico:
— Você tem
uma tarefa nada fácil diante de si. No interior desse círculo ficam três
metrópoles com um total de doze milhões de habitantes: Kobe, Osaka e Kioto. A
isso deve se somar a população rural de cerca de cinco milhões de pessoas.
Quanto tempo acha que vai despender nas buscas?
Rhodan
respondeu com um sorriso.
— Não
procuro nenhuma dos dezessete milhões de pessoas que se encontram nessa área,
mas um subterrâneo feito de concreto. Talvez você não se lembre desse detalhe.
Em todo o Japão não existem mil subterrâneos desse tipo.
Voltou a
colocar os diagramas sobre o mapa.
— Além
disso, espero que o modelo do salto de Tako ainda me proporcione dados mais
exatos. E ainda notei outra coisa. Está lembrada da manobra bolsística suicida
empreendida por Homer G. Adams? Saiu num prospecto da Bolsa feito por um
amador. Conseguimos localizar a impressora que confeccionou o prospecto.
— E daí?
— Essa
impressora fica em Osaka!
* * *
O major
Nyssen foi o homem enviado a Osaka por Rhodan.
Nyssen não
se pôs a caminho sem os devidos preparativos. Recebeu os registros dos
acontecimentos ligados à sua tarefa, com a incumbência de gastar pelo menos um
dia no exame cuidadoso dos mesmos. Além disso, os instrumentos de treinamento
hipnótico dos arcônidas proveram-no do conhecimento perfeito da língua
japonesa.
Recebeu,
ainda, um aparelho criado no dia anterior, que o protegia contra qualquer
influência hipnótica. Quando lhe mostraram o aparelho, começou a rir. Não
passava de um capacete que emitia um brilho metálico e cobria toda a parte
superior da cabeça. Um minúsculo gerador embutido no mesmo gerava um campo
anti-hipnótico.
— Quer que
eu ande por aí com isso? — indagou Nyssen.
Rhodan fez
que sim.
— A partir
do instante em que tiver a impressão de que o desconhecido passou a se
interessar por você, deve fazer exatamente isso. Eu lhe recomendo
encarecidamente que, quando isso acontecer, não deixe de usar o capacete. Sabe
perfeitamente o que acontece com uma pessoa não protegida.
Nyssen pegou
o capacete.
O major
juntara-se a Rhodan quando, por incumbência do governo americano, remexia os
destroços do cruzador espacial arcônida destruído na Lua. Era um dos
artilheiros de foguetes que, semanas antes, haviam dado cabo da nave. Seu tipo
era praticamente idêntico ao de Reginald Bell. Como este, era pequeno, embora
um pouco menos baixo, e impusera à sua cabeleira rala castanho-escura o mesmo
corte à escovinha. Sua voz sempre apresentava o tom de quem na última noite
houvesse enfrentado uma tremenda bebedeira.
Nyssen pegou
o avião de passageiros que duas vezes por dia fazia a linha de Xangai. Ali
permaneceu por meio dia, esforçando-se para se livrar de eventuais
perseguidores. De noite pegou o avião para Tóquio.
Em Tóquio
mais uma vez procurou sacudir os perseguidores. De noite pegou o expresso
Tóquio—Kobe, com destino a Osaka.
Às duas e
meia da madrugada chegou ao destino. Em Tóquio fizera algumas modificações no
seu aspecto exterior. Contrariando todos os hábitos, usava um terno cujo
aspecto atual era tão surrado que não poderia ter sido feito por um bom alfaiate,
além de uma camisa desbotada com um colarinho fora da moda. Escolheu um hotel
que correspondesse à sua apresentação.
O disfarce
era simples, mas eficiente. Quem o visse pensaria que tinha diante de si um
daqueles globetroters que
resolveram procurar o Extremo Oriente porque em sua terra natal a polícia
estava atrás deles, ou porque aqui esperavam fazer fortuna mais rapidamente.
Nyssen
ocupou um quarto situado no trigésimo andar de um hotel de categoria inferior e
recuperou-se da canseira do dia anterior com várias horas de sono profundo e
livre de sonhos.
* * *
— O senhor
já conhece sua tarefa — disse o Supercrânio em tom amável. — Não se esqueça de
que muita coisa depende do sucesso desta missão.
Acostumara-se
a dar a MacMurray o tratamento de senhor, depois que fizera dele seu
confidente.
MacMurray
confirmou com um aceno de cabeça.
— Não me
esquecerei.
— E não
cometa o mesmo engano desse idiota do Bradley. Não se apresse. Pelo que sei, o
senhor não correrá o menor risco.
MacMurray
confirmou com um aceno de cabeça.
— Aguardo
seu relatório pontualmente na hora combinada — advertiu-o o Supercrânio.
Mais uma vez
MacMurray confirmou com um aceno de cabeça.
Depois saiu.
No seu quarto — se é que se podia chamar aquilo de quarto, pois não tinha
janelas, a única luz provinha do tubo branco-azulado e as paredes eram de
concreto maciço — reuniu as poucas coisas de que precisava para sua tarefa.
Principalmente a pistola automática, que era o único instrumento em que um
teleportador podia confiar quando, depois de um salto, surgisse em meio aos
seus inimigos.
Os objetos
encheram uma mala de tamanho médio. MacMurray segurou a mala embaixo do braço e
parou no meio do quarto, como se refletisse para se lembrar se havia esquecido
alguma coisa.
Poucos
instantes depois seus contornos começaram a se apagar, e logo depois
desapareceu por completo.
MacMurray
pusera-se a caminho, com a finalidade de, agindo segundo as intenções do
mestre, desferir contra a Terceira Potência o golpe mais pesado que a mesma já
sofrera.
* * *
A noção que
Nyssen tinha sobre aquilo que poderia e não poderia fazer em Osaka era de uma
precisão confortadora.
Uma das
coisas que envolviam um risco excessivo seria, por exemplo, uma visita à
impressora que confeccionara o prospecto da Bolsa. O próprio Rhodan visitara a
mesma poucos dias atrás, e se esta mantinha qualquer tipo de relacionamento com
o misterioso desconhecido, conforme era de supor, essa visita teria sido
cuidadosamente registrada, mesmo que Rhodan não tivesse sido reconhecido.
Nyssen
pretendia desempenhar seu papel por muito tempo sem dar-se a conhecer. Numa
cidade do tamanho de Osaka não havia nada mais fácil, com os meios de que
dispunha, do que encontrar pessoas que se dispusessem a tirar as castanhas do
fogo para ele.
Nyssen deu
uma olhada pela cidade. Passou uma manhã inteira passeando na zona portuária, e
os resultados correspondiam inteiramente às expectativas.
Mais de uma
dezena de pessoas envolveram-no numa palestra no curso de várias horas, dando a
entender que eram exatamente as pessoas que estava procurando. Nyssen ficou
satisfeito ao saber que pareciam ler em seu rosto que estava à procura de
colaboradores.
Escolheu
muito. Pelas dez horas, por pouco não contrata um jovem que tinha uma expressão
de desespero no rosto, o que levaria qualquer um a indagar como viera parar num
ambiente desses. Havia um risco muito grande que, um dia, tivesse um acesso de
moralismo e corresse à polícia para descarregar suas preocupações. Por isso,
Nyssen mandou-o embora.
Acabou por
se decidir a favor de um homem pequeno de olhos matreiros, que atravessou seu
caminho pelas onze e meia e disse num péssimo inglês:
— Eu
Michikai. Michikai fazer tudo. O senhor pagar bem, Michikai ser seu homem.
Nyssen
sorriu. Michikai aparentava uns quarenta anos e era cerca de vinte centímetros
mais baixo que ele.
— Mim
Jeremy. Jeremy pagar bem, o senhor fazer tudo.
Disse-o em
japonês, esforçando-se para imitar o péssimo inglês de Michikai. Este parecia
perplexo. Depois riu, e quando Nyssen também se pôs a rir, o contrato estava
praticamente fechado.
O resto foi
combinado num restaurantezinho. É claro que Nyssen não explicou a seu novo
colaborador a verdadeira finalidade de tudo aquilo. Apenas lhe disse que
gostaria de obter informações sobre as instalações daquela impressora. A tarefa
pareceu tão fácil a Michikai que ele se espantou bastante quando Nyssen lhe
pagou trinta dólares de adiantamento e lhe prometeu outros trinta dólares
quando tivesse todas as informações em que estava interessado.
Nyssen
combinou com seu colaborador que, dali em diante, seus contatos seriam
exclusivamente telefônicos. Para esse fim Michikai permaneceria durante certas
horas num restaurante que lhe era conhecido, e onde Nyssen poderia encontrá-lo.
Não se
previu qualquer possibilidade de contato em sentido oposto; Nyssen quis
resguardar-se contra qualquer interferência do desconhecido.
* * *
Freddy
MacMurray admirou a cidade. Nunca a vira. Ela lhe parecia mais bela que tudo
que seus olhos já haviam contemplado.
Surgira na
margem norte do lago salgado, cuja superfície cintilante interpunha-se entre
ele e a cidade de Terrânia.
MacMurray
admirou o panorama até que o Supercrânio se fizesse sentir. A ordem só foi
irradiada com uma dose minúscula de energia, mas MacMurray entendeu-a
perfeitamente.
“Eu lhe disse que não se apressasse, mas não
lhe pedi que perdesse seu tempo olhando para as coisas que encontrasse pelo caminho. Comece logo!”
MacMurray
pôs-se a correr. Sabia perfeitamente o que havia incomodado o Supercrânio. Não
era o fato de ter contemplado a cidade. De um agente seu esperava-se que
examinasse a área em que iria desenvolver sua atividade.
Monterny
conhecia os pensamentos de seus colaboradores. Percebera a admiração que
MacMurray sentira durante alguns segundos por essa cidade. E isso o deixara zangado.
MacMurray
caminhou pelas áreas ajardinadas desabitadas até enxergar perfeitamente os
detalhes das casas situadas na extremidade norte da cidade. Depois saltou para
lá.
O
Supercrânio seguiu-o atentamente. Sabia que a tarefa de MacMurray encerrava certo
risco para ele, Monterny. Sabia perfeitamente de que maneira fora localizado o
outro teleportador, em cujos calcanhares Tako Kakuta se havia grudado. Sabia
que no Exército de Mutantes de Rhodan havia telepatas muito potentes, e que não
era só MacMurray, mas também seus planos que corriam perigo se mantivesse
contato permanente com aquele jovem.
Para
observá-lo, acompanhou as emanações irradiadas por MacMurray. Só em caso de
extrema necessidade o próprio Monterny funcionaria como emissor.
A tarefa era
importante demais.
* * *
Nyssen
telefonou e pediu que chamassem Michikai. Este deu seu nome verdadeiro. Nyssen
disse:
— Os
pessegueiros já começaram a florir no sul de Kiushu?
Michikai
pigarreou e respondeu:
— Ainda não.
Mas em Hondo a floração quase chegou ao fim.
— Está bem —
disse Nyssen. — O que há de novo?
— Já dei uma
olhada naquela impressora.
— Discretamente?
— Muito
discretamente. Disse que pretendia fazer um pedido de vulto, mas não conseguia
chegar a um acordo com o proprietário quanto ao preço. Por isso fui embora. Já
havia visto tudo. Ou melhor...
— Ou melhor?
— Quase
tudo. Ainda há uma sala em que não consegui entrar. Mas aposto que não tem mais
de quinze metros quadrados, e que nela só há uma porta, pela qual consegui dar
uma olhadela.
— Você tentou
entrar lá? — perguntou Nyssen.
— Sim. Ao
sair fiz de conta que me enganei na porta. O proprietário da impressora não
gostou. Quase chegou a se zangar. No último instante conseguiu dirigir meus
passos para o outro lado.
— Hum — fez
Nyssen. — Viu alguma coisa do que havia lá dentro?
— Vi, sim.
Um videofone.
— Nada mais?
— Nada.
— Está bem.
Preste atenção, Michikai. Na agência do correio da estação central da estrada
de ferro há uma caixa cujo número é 7.415 — sete, quatro, um, cinco. O
funcionário só a abrirá a quem lhe disser a senha Hokaido. É lá que seus
cinqüenta dólares estão depositados. Nos próximos dias voltarei a telefonar.
Na outra
extremidade da linha Michikai soltou um grito agudo.
— Só
cinqüenta dólares? Com tudo...
Nyssen não
ouviu mais nada. Desligara.
Nos próximos
trinta minutos ficou refletindo sobre a hora mais propícia para a visita
planejada.
* * *
Face às
informações minuciosas de que dispunha, sabia quase tudo sobre o dia-a-dia de
uma grande metrópole. Não havia qualquer hora realmente tranqüila, apenas
períodos de um relativo alívio.
Nyssen
escolheu o período entre uma e as quatro da madrugada. Segundo pensava, três
horas seriam suficientes para realizar um exame minucioso numa pequena
impressora.
Dormiu o
resto da tarde, jantou bem e foi a um cinema cuja sessão terminava pouco antes
da meia-noite.
Depois
voltou ao hotel e equipou-se com as coisas que julgava necessárias ou úteis.
Eram mais de vinte objetos; mas, face ao avanço da micro técnica arcônida,
apenas ocupavam dois bolsos da calça e um do paletó.
É bem
verdade que o pesado radiador de nêutrons teve de ser carregado sobre o ombro.
Pouco antes
da uma encontrava-se nas proximidades da tipografia. Ficou satisfeito ao
constatar que a rua estava praticamente vazia. Se conseguisse abrir a porta do
edifício dentro de três minutos, praticamente não correria o menor perigo.
Gastou três
minutos e meio; mas não apareceu ninguém que o perturbasse. Tinha certeza de
que ninguém o observara.
Face à
descrição de Rhodan e de Michikai, Nyssen já conhecia a sala de recepção, os
pequenos escritórios e a oficina ligada aos mesmos. Não perdeu tempo em
revistar essas peças. Sem maiores problemas penetrou no escritório maior e mais
bem instalado e procurou a porta de que Michikai lhe havia falado.
No
escritório havia um total de cinco portas. Aquela que Nyssen procurava era a
única que se haviam dado o trabalho de trancar.
A fechadura
era de um modelo simples. Não resistiu mais de vinte segundos às micro ferramentas
de Nyssen.
A pequena
sala que ficava além dessa porta não tinha janelas. Nyssen fechou a porta atrás
de si, acendeu sua pequena e forte lâmpada permanente e procurou um lugar em
que pudesse colocá-la.
Além do
videofone a que Michikai havia aludido só havia uma cadeira. Nyssen colocou a
lâmpada sobre a cadeira e refletiu sobre o lugar em que devia iniciar as
buscas.
Pensou que
estava sendo um pouco ridículo quando começou a percutir as paredes. Alguns
lugares pareciam ocos, mas quando os iluminava com o pequeno bastão de raios-X
constatava que apenas se tratava de um pouco de emboço caído entre os tijolos.
Gastou uma
hora nessa atividade. Aos poucos se convencia de que nada encontraria.
Subitamente
ouviu um zumbido grave atrás de si. Voltou-se apressadamente e viu que a tela
do videofone começou a se iluminar.
Afastou-se
da parede e contemplou a tela. Era estranho que um videofone começasse a
funcionar por si. Geralmente a tela só se iluminava depois de estabelecida a
comunicação. Aqui isso não poderia ter acontecido, pois ninguém havia levantado
o fone. Nyssen nem sequer ouvira o sinal de chamada.
Colocou-se
numa posição em que o transmissor de imagens não pudesse captá-lo e esperou.
No momento
em que, num movimento rápido, desligou a lâmpada, ouviu o estalo no receptor.
O fone
estava colocado no suporte, mas apesar disso falava.
Nyssen foi
se esgueirando junto à parede, chegando um pouco mais perto do aparelho. Ouviu
a voz metálica que começara a falar. O videofone parecia ter um amplificador ultra
potente. Mesmo sem levantar o fone, Nyssen entendia praticamente todas as
palavras.
— ...uma
conferência importante amanhã às vinte horas... na minha casa. Todos devem
comparecer...
A atenção de
Nyssen foi desviada em parte pela imagem estranha que surgiu na tela. Consistia
numa confusão inextricável de linhas. À primeira vista parecia se tratar de
alguma interferência; mas Nyssen logo percebeu que havia certa regularidade
naquelas linhas trêmulas e ondulantes.
Tirou sua
pequena máquina fotográfica e deixou que a mesma registrasse as linhas. Não
conseguiu desempenhar toda sua potencialidade micro técnica, pois a transmissão
logo cessou. Mas Nyssen esperava que os peritos conseguissem extrair algum
resultado da fotografia.
Mal e mal
percebera que as palavras transmitidas não continham qualquer indicação
importante. Só se falava em coisas das quais os sócios da misteriosa
organização já sabiam onde se encontravam, motivo por que não havia necessidade
de outras explicações.
As
esperanças de Nyssen concentraram-se na fotografia que acabara de fazer.
O tempo
estava ficando curto. Nyssen não mais bateu nas paredes. Tinha certeza quase
absoluta de que nada havia atrás delas.
Preferiu
dedicar sua atenção ao admirável videofone que começou a funcionar sem que
ninguém o ativasse e cujo fone falava quando ainda se encontrava no suporte.
Havia um fio
comum, um tanto fino, que desaparecia na parede pouco abaixo da tela de imagem.
Nyssen iluminou a parede e viu que o fio a atravessava em sentido horizontal.
Voltou ao
escritório maior e procurou um caminho que o conduzisse ao lado oposto da
parede. Havia uma porta que dava para um pátio dos fundos. Uma das paredes
desse pátio era exatamente a que Nyssen procurava.
Nyssen não
gastou muito tempo. Viu perfeitamente o fio um tanto fino que saía da parede,
descrevia uma dobra e subia ao telhado.
E em cima do
telhado havia uma antena robusta e alta.
Nyssen
soltou um assobio entre os dentes. Tal qual os telefones, os videofones estavam
ligados a uma rede. Recebiam os impulsos visuais e auditivos através de fios
que, dentro da cidade, eram colocados embaixo da terra e, na zona rural, eram
presos a postes de madeira ou plástico. Um videofone não precisava de antena;
neste ponto era igual a um telefone.
Aquilo não
era um videofone comum. Era um receptor e transmissor que funcionava sem fio.
Apenas fora disfarçado sob a forma de um videofone, para enganar os visitantes.
Foi por isso
que aquilo começou a trabalhar sem que o fone tivesse sido levantado.
Bastante
pensativo, Nyssen interrompeu sua visita noturna. Ainda continuava pensativo
quando abriu a porta de seu quarto de hotel.
Como de
hábito, tirou em primeiro lugar os instrumentos de medida e colocou-os
cuidadosamente sobre a mesa.
Passou à
leitura dos instrumentos, ainda mergulhado em pensamentos e convencido de que
os mesmos não indicariam nada.
Radiatividade,
nenhuma.
Temperatura,
que bobagem. Ele não teria deixado de perceber se tivesse penetrado numa onda
de calor. Normal!
Influência
telepático-hipnótica...
Os
instrumentos eram tão pequenos que Nyssen teve de recorrer a uma lupa para ler
as respectivas escalas. Praguejando baixinho, mas com violência, tirou a lupa
do olho esquerdo e colocou-a no direito.
Mas o quadro
era o mesmo.
Influência
telepático-hipnótica, oscilação do instrumento: escala seis.
Nyssen
deixou que a lupa caísse do olho e fitou o espaço diante de si.
Pelo que
dizia o instrumento de medida, ele, Nyssen, sofrerá influências hipnóticas. A
escala seis correspondia a seis microfreud,
o suficiente para hipnotizar uma dúzia de homens adultos.
Mas não
percebera nada. Ou será que percebera?
Ainda
estaria submetido a alguma influência hipnótica?
“Pois bem. Não seria difícil encontrar uma
explicação para o fato de não ter percebido nada. Cada cérebro tem sua faixa
peculiar de freqüência. É bem possível que alguém tenha transmitido por outra
freqüência, à qual meu cérebro não é acessível. A medição do instrumento é
integral no que diz respeito à freqüência. Mede tudo que aparece sob a forma de
influência hipnótica.”
Mas, com os
mil demônios, de onde teria vindo essa influência hipnótica?
Quando a
única explicação possível ocorreu a Nyssen, este esteve prestes a pegar
novamente seus instrumentos e fazer mais uma visita à tipografia. Mas depois de
ter olhado para o relógio desistiu da idéia. Eram três e meia, tarde demais.
As ondulações
refletidas na tela não eram nenhuma interferência, nem constituíam o produto de
uma estranha fantasia geométrica. Tratava-se de uma transmissão hipnótica!
5
Para um homem dotado da mobilidade fenomenal de MacMurray não houve a
menor dificuldade em localizar a vítima nas primeiras horas de atividade.
MacMurray
gravou o rosto e a figura do homem e passou a estudar os hábitos do mesmo.
Pretendia
raptar o homem. Raptá-lo por meio da teleportação. Para um teleportador que não
havia sido submetido à ativação cerebral arcônida havia uma grande diferença
entre executar um salto sozinho e transportar com ele mais um objeto de peso aproximadamente
igual ao seu. Mesmo para ele o primeiro ato resumia-se numa liberação
espontânea de energia de curta duração; já o segundo exigia dez minutos de
concentração.
MacMurray
procurou encontrar, em meio ao curso de vida felizmente bastante monótono de
sua vítima, um espaço de tempo que permitisse a intercalação de um intervalo de
dez minutos com a menor dose possível de risco. Seria a hora em que era mais
provável que aquele homem estivesse só.
MacMurray
levou dois dias para se orientar.
Marcou o
grande golpe para o dia 2 de agosto. Hora: entre as vinte e as vinte e uma,
tempo local.
* * *
Rhodan
estava convencido de que nada mais poderia ser tirado do modelo de salto que o
Dr. Manoli havia extraído do cérebro de Kakuta.
O diâmetro
do círculo traçado no mapa fora reduzido para cinco quilômetros.
Só um trecho
muito pequeno da cidade de Osaka ficava dentro do círculo. A probabilidade de
que o objetivo ficasse fora da cidade era muito grande.
Isso
facilitaria as buscas. No Japão uma casa que tivesse um porão de concreto seria
considerada muito grande.
Depois de
ter reunido todos os resultados, Rhodan chamou Crest.
Crest não
respondeu.
Rhodan
telefonou para Thora.
Fazia mais
de três horas que Thora não via Crest.
Rhodan
deixou que alguns minutos se passassem e voltou a chamar Crest.
Mais uma vez
Crest não respondeu.
Rhodan
lembrou-se da tarefa que fora confiada ao teleportador desconhecido, que havia
atraído Tako Kakuta a uma armadilha tão perigosa.
Ordenou uma
busca geral.
Dali a uma
hora não havia mais a menor dúvida de que Crest já não se encontrava no
território da Terceira Potência.
E não
avisara a ninguém onde poderia ser encontrado.
Crest fora
raptado.
* * *
Uma
extrapolação retrospectiva indicou a hora provável do rapto: entre as vinte
horas e as vinte e trinta. Pouco depois Rhodan fizera a primeira tentativa de
falar com Crest.
Àquela hora
o serviço de vigilância estivera a cargo de Ishi Matsu, uma japonesinha
delicada. Ishi informou que, pouco depois das vinte horas, captou um impulso
isolado relativamente forte, mas indecifrável. Uma vez que o impulso não se
repetiu, não se preocupou com ele.
Rhodan
informou a Thora de que Crest havia sido raptado. Nunca vira a arcônida tão
apavorada.
— O que... o
que pretende fazer? — perguntou.
Rhodan
olhou-a com uma expressão de espanto.
— Pretendo
atacar. Não acha que é o mais acertado?
— Onde?
Pois...
— Já
disponho de todas as informações de que preciso. É possível que Nyssen tenha
descoberto mais alguma coisa. Partiremos imediatamente.
— Vai usar o
hipertransmissor de matéria?
O
hipertransmissor de matéria era um aparelho que Rhodan trouxera da viagem em
busca do planeta Peregrino. Substituía, em quem a ele recorresse, o dom
parapsicológico da teleportação, transportando a pessoa pelo espaço de cinco
dimensões até um ponto em que se encontrasse um receptor ajustado para a mesma
freqüência.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— A partir daqui,
não — respondeu. — Os dados que conhecemos ainda não são suficientes. Nas
próximas cinco horas um destacamento nosso voará para Osaka. Levaremos
hipertransmissores e, uma vez conhecido os detalhes da situação, não deixaremos
de usá-los.
O tempo
entre as seis e as sete horas da manhã era uma das horas em que Michikai devia
permanecer em seu restaurante, aguardando o chamado de Nyssen.
Este dormiu
duas horas. Chamou pouco depois das seis. Foi informado de que Michikai não
estava.
Meia hora
depois Nyssen repetiu o chamado; mas Michikai ainda não havia aparecido. Nyssen
pensou que no dia anterior tivesse apanhado seus cinqüenta dólares e
desaparecido. Isso não o preocupava, mas naquele momento o incomodava; bem que
precisaria de Michikai.
Contrariamente
ao que havia decidido antes, foi ao restaurante em que Michikai devia estar a
essa hora. Talvez o dono pudesse dar alguma informação sobre seu paradeiro.
* * *
Para Crest
tudo havia sido tão rápido que ainda não chegara a compreender o que tinha
acontecido. Subitamente um jovem surgiu em seu quarto e abateu-o.
Ao
despertar, viu-se numa sala que muito se assemelhava à que Tako Kakuta
descrevera.
Crest quase
não sentiu nenhuma dor de cabeça; por isso acreditou que a pancada não devia
ter sido muito forte, e que o desmaio não fora prolongado. Mas, pelo que dizia
Rhodan, a sala em que se encontrava ficava no Japão, isto é, a milhares de
quilômetros de Terrânia.
Como chegara
tão depressa até lá?
Quem sabe se
nas imediações de Terrânia não existiam outras instalações desse tipo?
Só depois de
algum tempo Crest lembrou-se da possibilidade de que, entre os inimigos, podia
haver algum teleportador suficientemente forte para transportar um homem
inconsciente num salto. Depois de refletir por algum tempo, Crest admitiu que a
explicação verdadeira era esta.
Levantou-se
e examinou a única porta daquela sala. Era feita de chapa de aço bastante
sólida e não podia ser aberta do lado de dentro. O mobiliário da sala consistia
numa cadeira e numa mesa.
Crest sentou
na cadeira e esperou. Lamentou não ter o hábito de carregar constantemente uma
arma consigo. Entre os potentes radiadores térmicos dos arcônidas havia alguns
suficientemente pequenos para terem boa probabilidade de escapar a uma revista
pessoal.
Cerca de uma
hora depois de ter despertado, a porta se abriu e um homem que nunca vira antes
gritou:
— Venha
comigo!
Crest ergueu
as sobrancelhas e continuou sentado.
— Para onde?
— perguntou.
O homem
exibiu uma pistola automática.
— O senhor
vai ver! — gritou, furioso. Crest levantou-se e, passando perto do homem, saiu
da sala. A sala à qual foi ter não era mais confortável que a primeira. Uma
cadeira e uma mesa.
Mas a outra
continha, além desses móveis, um videofone.
— Pegue a
cadeira e sente diante da tela! — ordenou o homem que segurava a pistola
automática.
Crest
obedeceu. O homem ficou parado na porta. Crest esteve a ponto de lhe perguntar
o que aconteceria, quando a tela no videofone começou a se iluminar.
Não mostrou
nenhum quadro, mas apenas um conjunto de linhas brancas trêmulas e ondulantes.
No mesmo
instante Crest sentiu aquela estranha pressão na cabeça, acompanhada de um
zumbido.
Reagiu
imediatamente. Não era difícil a um cérebro arcônida, ainda mais a um que
possuísse o grau de treinamento do de Crest, resistir a qualquer espécie de
influência telepática ou hipnótica.
Mas
compreendeu o significado do comando hipnótico:
— Daqui em
diante você vai trabalhar para mim. Preciso de um homem como você. E saberei
recompensá-lo pelos serviços que você me prestar. Você será meu servo fiel.
Crest
compreendeu tudo que estava acontecendo.
As linhas
onduladas que surgiram na tela de imagem representavam a emanação reforçada de
uma transmissão hipnótica e exerciam influência sobre quem contemplasse a tela.
Dali se
concluía que as suposições de Rhodan foram falsas: o desconhecido não dispunha
apenas da força de seu cérebro, mas ainda possuía recursos mecânicos destinados
à produção de comandos hipnóticos, embora os mesmos ainda fossem primários e de
potência reduzida.
Uma voz
antipática começou a falar depois que a transmissão hipnótica havia durado
cerca de dois minutos.
— Então;
consegui agarrá-lo, não é?
Crest achou
que não valia a pena responder.
— De hoje em
diante o senhor vai trabalhar para mim! — prosseguiu a voz.
Crest
resolveu usar franqueza.
— Não vou
fazer nada disso! — respondeu.
Por alguns
segundos o desconhecido pareceu perplexo.
— Ah! Então
não fez efeito! Muito bem! Como vê, já conheço sua freqüência pessoal. Não
acredite que poderá resistir por muito tempo. Levem esse homem.
Crest foi
levado de volta à sala em que despertara uma hora antes. Sentou à mesa e pôs-se
a refletir.
* * *
Quando se
dirigia ao restaurante, Nyssen recebeu pelo micro telecomunicador a mensagem de
Rhodan. Esta se limitava a informá-lo de que aterrizara com vinte homens a
nordeste de Osaka e procurava o esconderijo do desconhecido. Pedia-se a Nyssen
que apresentasse imediatamente as informações que conseguira coletar.
Nyssen fez
meia-volta e regressou ao hotel. Estacionou seu carro de tal forma que poderia
sair imediatamente e pegou o elevador para subir ao pavimento em que ficava seu
quarto.
A primeira
coisa que viu ao entrar no quarto foi Michikai. Estava estendido no chão e
tinha um buraco na testa. Do buraco saía um filete de sangue seco que sujava o
tapete surrado.
Os dois
homens que haviam trazido Michikai estavam colocados de um e outro lado da
porta. Cada um deles segurava uma pistola de forma a não permitir a menor
dúvida quanto ao alvo que pretendiam atingir caso houvesse necessidade.
Realmente
Nyssen assustou-se, mas dentro de dois segundos recuperou o autocontrole. No
entanto, murmurando coisas confusas, deu-se o aspecto de quem mal conseguira
evitar um colapso nervoso.
A trinta
quilômetros dali o homem que, por ordem de Rhodan, devia manter contato com
Nyssen teria de decifrar esse murmúrio.
— ...Hotel,
Portão das Aves Celestes... Quarto dois-um-um-sete... dois homens...
aprisionado.
A distância
que separava Nyssen dos dois homens era de três metros. A parte ativa do
microfone estava embutida na pele do pescoço e reagia até mesmo às vibrações
mais débeis da laringe. Havia uma boa chance de que os dois não entendessem as
palavras por ele murmuradas. Esforçou-se para produzir grande quantidade de
saliva e deixou cair um fio da mesma pelo canto esquerdo da boca. Parecia ter
enlouquecido de susto.
Um dos
homens se aproximou dele, com um sorriso de deboche nos lábios.
— Por que
está com medo, meu filho? Não lhe faremos nada.
Deslocava-se
habilmente. Nem por um segundo interpôs-se na linha de tiro do outro.
— O que... o
que querem de mim? — gaguejou Nyssen.
O homem
apontou para o cadáver de Michikai.
— Viemos
entregar este homem e convidá-lo a dar um passeio conosco.
— Nãooo! —
protestou Nyssen com um grito. — Não quero!
— Cale a
boca, seu idiota! Vimos quando você matou esse coitado. Entendido? — voltou a
apontar para Michikai. — Você deve agradecer porque, em vez de entregá-lo à
polícia, preferimos levá-lo conosco.
— Para onde?
— perguntou Nyssen, assustado.
— Você vai
saber. Está armado?
— Não... ah,
sim.
Apontou para
o ombro esquerdo. De qualquer maneira não deixariam de encontrar o pesado
radiador de nêutrons, mesmo que procurasse ocultar sua existência.
O homem
contornou-o e, vindo de trás, pegou em sua axila. Soltou o coldre que segurava
a arma e examinou-a cuidadosamente.
— Está bem —
disse, depois de ter examinado a arma e passado a mão pelo corpo de Nyssen. —
Vamos embora.
O outro
homem abriu a porta e saiu para o corredor. Nyssen pôs-se em movimento.
Passaram
pelo porteiro sem que este percebesse que Nyssen tinha sido seqüestrado. Sem o
menor problema, os três homens alcançaram o carro em que os dois seqüestradores
tinham vindo. Enquanto entravam, o motorista ligou o motor. Nyssen ficou no
assento traseiro, entre os dois homens que o vigiavam.
Quando o
carro deu a saída, resmungou com um mínimo de desempenho vocal:
— Saímos num
carro.
Esperava que
estas palavras, sopradas para dentro do microfone do telecomunicador, fossem
entendidas e corretamente interpretadas pelo elemento de ligação.
Durante meia
hora o automóvel enfrentou o trânsito matutino da grande metrópole. Depois
tomou uma das grandes vias de saída e disparou em direção ao nordeste.
Nyssen já
tivera tempo de elaborar um plano. Sabia que o mais importante era evitar a
influência hipnótica do desconhecido.
O capacete
trazido de Terrânia estava bem guardado na mala.
Devia
encontrar outro caminho para fugir à influência hipnótica.
Poderia
distrair a atenção do desconhecido por meio de algum incidente que lhe
parecesse mais importante que a influência hipnótica a ser exercida sobre mais
um prisioneiro.
* * *
Em toda a
área compreendida no círculo de cinco quilômetros de diâmetro, que Rhodan
traçara segundo os dados extraídos do salto executado por Tako Kakuta, só havia
três edifícios. Um deles era um celeiro meio arruinado que não parecia conter
um porão. Os outros eram casas de campo em estilo japonês.
Rhodan e
seus vinte homens haviam chegado ao amanhecer do dia numa nave de transporte.
Esta retornou imediatamente, depois de ter descarregado os homens.
Rhodan e
seus homens usavam vestimentas transportadoras arcônidas, equipadas com micro
geradores que geravam campos antigravitacionais, deflexivos e protetores.
O grupo de
Rhodan não tivera a menor dificuldade em passar a maior parte da manhã num
bosquezinho sem ser notado por quem quer que fosse.
O rapto de
Nyssen foi uma surpresa nada agradável. Mas tal qual o major, também Rhodan não
demorou em reconhecer a chance que se lhe oferecia. Enquanto viajava com os
seqüestradores, Nyssen murmurava ligeiras indicações sobre a direção que
tomavam. Dentro de pouco tempo não havia mais a menor dúvida sobre qual das
duas casas de campo era aquela em que se encontrava seu alvo.
Rhodan
também compreendeu o plano de Nyssen, segundo o qual a atenção do desconhecido,
que aguardava a chegada do prisioneiro, devia ser distraída, para que Nyssen
tivesse certa liberdade de agir nos primeiros trinta minutos de prisão.
Não havia
possibilidade de estabelecer contato com Crest. O arcônida nunca se convencera
da utilidade de um micro telecomunicador embutido na pele. Rhodan tinha certeza
de que nesse meio tempo devia ter mudado de opinião.
* * *
Incrédulo, o
Supercrânio fitou o quadro que se projetava na tela do aparelho de advertência
e vigilância.
Um estranho!
Estava de pé
na pequena área interna existente no meio do complexo quadrático formado pela
casa de campo. Usava uma vestimenta que Monterny jamais havia visto e trazia na
mão uma arma grosseira, de cano curto.
O
Supercrânio viu que o homem olhava em torno de si, como se estivesse procurando
alguma coisa.
Um instante
depois desapareceu.
Mais um
instante, e voltou a aparecer em outro lugar.
Não! Não era
o mesmo homem. Era mais baixo e tinha ombros mais largos.
Monterny
sentiu que suas mãos tremiam.
Dois homens
haviam conseguido burlar todos os dispositivos de vigilância, penetrando na
área interna, e, além disso, sabiam se tornar invisíveis à vontade.
Monterny deu
o alarma.
Mas os dois
homens haviam desaparecido e por enquanto não voltaram a aparecer.
* * *
As coisas se
passaram conforme Nyssen previra. Foi introduzido na casa de campo por uma
porta lateral. Um dos homens que o vigiavam ficou ao seu lado e mandou que
esperasse, enquanto outro seguiu pelo corredor e desapareceu numa sala.
Voltou
dentro de um minuto; parecia contrariado.
— No momento
não tem tempo — disse ao companheiro. — Leve-o para baixo.
Um elevador
levou Nyssen para baixo da terra. Pareceu-lhe que a sala em que foi enfiado
correspondia à descrição de Tako Kakuta. Mas não sabia que embaixo daquela casa
de campo havia trinta salas iguais a esta.
Foi deixado
só. A sala só tinha uma saída, fechada por uma porta de aço tão robusta que,
nem por um instante, Nyssen pensou em movê-la segundo suas conveniências.
Sentou na
única cadeira que havia naquela sala, apoiou a cabeça nas mãos, colocou os
cotovelos sobre a única mesa e, para as objetivas de televisão que supunha
existirem nas paredes, fez o papel de um homem totalmente desesperado.
Na verdade
refletia friamente, esculpindo os últimos detalhes de seu plano. O que o
inquietava era o fato de que seus cálculos tinham de incluir um fator
imponderável: a vigilância do inimigo.
Seu plano só
poderia ser coroado de êxito se todos naquela casa, até a última das
sentinelas, tivessem sua atenção desviada ao máximo pelos acontecimentos que se
desenrolassem no exterior da mesma.
* * *
Novos
estranhos apareceram. Todos envergavam aquele traje estranho e possuíam a
capacidade de se tornarem invisíveis.
Monterny não
tinha a menor dúvida de que penetravam na área interna vindos pelo ar.
Por alguns
minutos teve a impressão de que os estranhos tinham vindo para libertar o
prisioneiro. Mas essa impressão desapareceu quando por uma fração de segundo
descobriu um dos estranhos no telhado da casa, próximo à antena pela qual
costumavam ser irradiadas as mensagens hipnóticas.
O Supercrânio
sentiu-se alarmado.
Destacou
quinze homens do contingente de trinta que guarnecia a base para proteger a
antena colocada no telhado da casa. Mandou que outros dez patrulhassem a área
adjacente, instruindo-os para que atirassem imediatamente e com todas as armas
disponíveis contra qualquer coisa que se movesse pelo ar.
Depois de
ter feito tudo que estava ao seu alcance para proteger a base, preparou-se para
uma fuga precipitada. Sabia perfeitamente que se encontrava numa verdadeira
armadilha. Se Rhodan — e o Supercrânio não teve a menor dúvida de que os
invisíveis eram homens de Rhodan — não valorizava o prisioneiro tanto quanto
ele, Monterny, acreditara no primeiro momento, poderia fazer a qualquer momento
com que sua tropa-fantasma destruísse a casa por meio de uma explosão.
Depois dos
primeiros acontecimentos não parecia muito provável que ele o fizesse.
Mas Monterny
era um homem que costumava tomar suas precauções em tempo. Embaixo da casa, num
subterrâneo ao qual só ele tinha acesso, começava um corredor que só voltava à
superfície a um quilômetro do lugar em que se encontrava.
E um
quilômetro, segundo os cálculos do Supercrânio, bastava para colocá-lo fora do
alcance de Rhodan.
* * *
Exatamente
uma hora depois de ter sido preso, Nyssen começou a martelar a porta com toda
força dos seus punhos. Martelou-a durante quinze minutos; depois ouviu passos
rastejantes.
Continuou a
martelar até que a porta se abriu. Só então foi para o lado e se abaixou.
O vigia
trazia a pistola na mão; mas Nyssen não veio da direção que ele supunha.
A borda da
mão de Nyssen atingiu o alvo com a precisão de um centímetro. O vigia soltou um
grito selvagem, largou a arma e rodopiou.
Seus
movimentos eram lentos em comparação com os de Nyssen. Um soco bem dado
atirou-o sobre o chão de concreto.
Ficou
inconsciente por um minuto. Nesse tempo Nyssen pegou a arma e certificou-se de
que, no corredor, não havia nada que pudesse perturbá-lo.
— Preste
atenção! — disse ao vigia. — Preste muita atenção! Você sabe perfeitamente que
me encontro numa situação terrível. Preciso de você para sair daqui. Não faço a
menor questão de ser capturado mais uma vez. Gostaria disso tão pouco que o
matarei assim que fizer qualquer coisa de que eu não goste. Entendeu?
O vigia era
um japonês. Respondeu com um apressado aceno da cabeça. Nyssen tinha certeza de
que apenas se encontrava sob uma influência pós-hipnótica relativamente débil.
— Há outro
prisioneiro por aqui — afirmou Nyssen. — Onde está?
O vigia fez
um gesto desolado em direção ao corredor.
— Quantos
vigias existem aqui embaixo?
— Cinco.
— Leve-me ao
outro prisioneiro, mas de tal maneira que não nos encontremos com nenhum dos
outros vigias.
Por alguns
minutos o japonês levou Nyssen de um canto para outro.
Finalmente
encontraram Crest.
O arcônida
levou algum tempo para compreender a sorte que estava tendo. Só com grande
dificuldade Nyssen conseguiu expor seus planos.
— Ainda
falta muito para estarmos em segurança — disse Nyssen em tom decidido. — O
desconhecido ainda mantém firmemente a sua base. Temos de pôr a mão no radiador
de nêutrons que me tiraram.
Finalmente
Crest compreendeu. E concordou com todas as sugestões de Nyssen. Gritou com a
porta aberta a toda a força de seus pulmões, e o vigia, que acorreu para ver
qual era a origem de tamanho barulho, foi abatido por Nyssen, à traição, é
verdade, mas em compensação sem a menor resistência.
Passaram
sorrateiramente junto aos outros três vigias. Segurando a arma de que se haviam
apoderado, Crest ficou de sentinela junto ao elevador, enquanto Nyssen e o
japonês subiram. O próprio japonês deu-lhe uma indicação sobre o lugar em que
poderia encontrar a arma neutrônica. Era na mesma sala em que um dos
seqüestradores havia desaparecido por um instante, logo à sua chegada.
Embora não
estivesse informado sobre o número de pessoas que se encontravam naquela casa,
Nyssen tentou reaver sua arma e foi bem sucedido. Acompanhado de seu
ex-vigilante, retornou ao subterrâneo.
Uma vez lá,
manipulou a arma, no que foi apoiado pelas indicações de Crest, e depositou-a
num lugar que julgava suficientemente eficaz e seguro.
Finalmente
Crest e Nyssen puseram-se em movimento.
* * *
Poucos
minutos depois, Rhodan e seus homens avançaram sem disfarce para a casa de campo,
vindos de duas direções. O ataque do oeste foi iniciado cerca de dois minutos
antes do que vinha do sul. Face a isso a casa ficou praticamente desguarnecida
do lado do sul.
Nyssen e
Crest aproveitaram o tempo. Correram para junto dos homens de Rhodan, quando os
mesmos se encontravam a uns cem metros da casa.
Rhodan foi
avisado e imediatamente mandou suspender o ataque. Um dos homens de seu grupo,
equipado de microfone e alto-falante, penetrou na área interna da casa e
explicou em volume tão alto que seria ouvido por todos, inclusive pelos vigias
que se encontravam no subterrâneo:
— A casa
deve ser evacuada imediatamente. Dentro de cinco minutos explodirá uma bomba
que destruirá toda vida num raio de cem metros.
O efeito do
aviso foi nulo. Os que se encontravam no interior da casa acreditavam que se
tratasse de um truque. Dirigiram-se ao Supercrânio em busca de conselho, mas o
mesmo não quis falar com ninguém.
Esperaram.
Quando os cinco minutos se passaram sem que nada tivesse acontecido, todo mundo
exultou.
A radiação
neutrônica não pode ser vista, ouvida ou cheirada. Nem mesmo um fluxo muito
reduzido.
Os homens da
equipe do Supercrânio só perceberam que a bomba havia explodido quando de um
instante para outro sua pele tornou-se vermelha e começou a arder. Logo após
perderam a visão. Tomados de pânico, saíram correndo pelos corredores e
procuraram sair da casa. Mas era tarde.
Apenas dois
vigias de prisioneiros que tinham atendido ao aviso escaparam à catástrofe.
* * *
As
autoridades japonesas só tiveram sua atenção despertada para os acontecimentos
estranhos que se desenrolaram ao norte da grande via de acesso quando alguém
constatou um nível extraordinário de radiatividade naquela área.
Isso
aconteceu cinco horas depois da detonação da bomba. Àquela hora Rhodan já havia
saído do país e retornado a Terrânia, acompanhado dos dois prisioneiros e da
experiência que as ocorrências lhe renderam.
* * *
A
conferência que segue foi realizada dois dias depois:
— Não
alcançamos um êxito tão grande como acreditávamos — declarou Rhodan em tom
sério. — Pelo que conseguimos saber dos dois prisioneiros e do proprietário da
tipografia de Osaka, em que também conseguimos pôr a mão, o homem mais
importante escapou. Nenhum dos prisioneiros jamais chegou a ver o grande desconhecido,
nem de frente, nem numa tela de imagem. Entre os mortos que encontramos naquela
casa havia um único confidente, com que tratava frente a frente. Mas um morto
não pode nos revelar mais nada. Encontramos o corredor pelo qual o homem
escapou. Mas perdemos sua pista.
“O material
bastante escasso que encontramos naquela casa de campo praticamente não nos diz
nada sobre os planos, as atividades e as possibilidades do inimigo. Mesmo que
os homens que a teimosia levou à morte em Osaka constituíssem toda sua equipe,
não lhe será difícil, face aos recursos de que dispõe, conseguir outros
elementos. Portanto, não nos devemos iludir com a idéia de que a guerra já está
decidida. Por enquanto nem sequer conseguimos localizar os cientistas
seqüestrados em Terrânia. Até agora sabemos de três coisas:
“Além da
equipe propriamente dita, que no momento deixou de existir, o inimigo possui um
número desconhecido de colaboradores. Isso custou a vida de Michikai, o japonês
contratado por Nyssen, e por pouco não custa a do próprio Nyssen. Ainda sabemos
como funciona a transmissão mecânico-hipnótica dos comandos do desconhecido.
Quando recorre ao videofone para estabelecer contato com os elementos de sua
equipe, o que importa não são as palavras faladas, mas os modelos de onda que
surgem na tela. É bem verdade que não se sabe se continuará a recorrer a esse
meio de comunicação, quando souber que já descobrimos seu truque.
“Por fim,
sabemos que a liquidação da base japonesa deve representar um sensível fracasso
para o desconhecido. Embora não tenhamos conseguido muito, estragamos seus
planos. Existe uma certa probabilidade de que fique nervoso e cometa nos
próximos dias alguns erros que nos permitam chegar mais perto dele.”
* * *
Perry Rhodan
em pessoa levou Betty Toufry ao avião que a levaria para Nova Iorque. Rhodan
falava baixo, mas em tom insistente, e Betty era uma ouvinte muito atenta.
— Existe
muita coisa que você não compreenderá, Betty — disse Rhodan. — Ao menos metade
do que pretendemos fazer depende de que a General Cosmic Company continue viva.
Você vai a Nova Iorque a fim de proteger Mr. Adams de qualquer inimigo que dele
queira se aproximar às ocultas. Você terá de ficar com os olhos bem abertos,
Betty!
Betty parou
e lançou um olhar sério para Rhodan.
— Ficarei de
olhos bem abertos.
Poucos
minutos depois Betty estava a caminho de Nova Iorque.
Naquela
mesma noite o capitão Farina transmitiu uma mensagem de Salt Lake City.
Informou que ainda não havia encontrado qualquer pista. Disse textualmente:
— Se não
tivesse visto o cadáver de Richman com meus próprios olhos, não acreditaria que
alguém o assassinou. É o crime perfeito, Mr. Rhodan. Nenhuma pista, absolutamente
nada.
Face a isso, as pesquisas em torno do assassínio de Richman foram
definitivamente suspensas.
Quando Rhodan concluiu a palestra com Farina, Thora entrou na sala.
Deixou que a porta de enrolar baixasse silenciosamente atrás dela e não
interrompeu Rhodan quando ele lançou um olhar pensativo sobre as luzes
coloridas do grande painel do telecomunicador.
De início
pensou que não tivesse notado sua presença. Mas depois de algum tempo disse de
repente:
— Ainda
temos muita coisa a fazer, Thora. Já pensou nisso?
Thora
aproximou-se.
— Sim; posso
imaginar — respondeu.
Rhodan
olhou-a.
— Já notou
que existe uma pergunta para a qual ainda não encontramos nem um princípio de
resposta?
Thora
sorriu.
— É a
explosão no bloco G, não é?
— Exatamente.
Podemos imaginar de que forma foram subtraídos os destróieres. Basta um
teleportador dotado da capacidade do que seqüestrou Crest. Pode introduzir seus
cúmplices no território da Terceira Potência, um por um ou talvez ao mesmo
tempo, e fazê-los descer na sala de comando das naves. Quanto ao resto, não
haverá mais problema. Mas ainda não sabemos como alguém pode provocar uma
explosão num pavilhão de montagem sem que nele se encontre um miligrama de
material nuclear.
Houve uma
ligeira pausa.
— Será que
acredita que um homem como você levará muito tempo para descobrir a explicação?
— perguntou Thora.
Rhodan
encarou-a; parecia perplexo. Procurou um sinal de ironia em seu rosto; mas não
o encontrou.
— Se isso
foi um elogio — disse depois de algum tempo, com um sorriso — foi um elogio
muito gentil.
* * *
* *
*
Na época em que a Terceira Potência foi fundada, Perry Rhodan
mandou que seus ‘captores de
mutantes’ corressem mundo para lhe
trazer os elementos com que pudesse criar seu Exército de Mutantes.
O Supercrânio teve a mesma idéia. Em silêncio montou sua
organização secreta, e agora achava que ela já era suficientemente forte para
enfrentar a Terceira Potência. E é assim que se trava o Duelo de Mutantes, título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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