domingo, 11 de novembro de 2012

P-025 - O Supercrânio - Kurt Mahr [parte 3]


Só por uma fração de segundo, o japonês pôde lançar os olhos em torno, ao chegar ao destino. Reconheceu uma sala de tamanho médio, cujas paredes, soalho e teto eram de concreto. Via-se uma mesa, três cadeiras velhas e um armário com uma fechadura de enrolar antiquada. Não havia nenhuma janela. A iluminação provinha de um tubo luminoso de um metro e meio, preso ao teto.
Na outra extremidade da sala, a poucos metros de distância, o desconhecido acabara de surgir do nada. Tako esteve prestes a dirigir-lhe a palavra. Foi quando uma força desconhecida atingiu seu cérebro com uma violência indescritível.
Tako caiu para a frente. O radiador de impulsos térmicos caiu-lhe da mão. Tako comprimiu o rosto contra o soalho frio e segurou as têmporas para afastar a dor insuportável.
Por uns trinta segundos não conseguiu fazer qualquer movimento. As ondas de amplitude variável da influência estranha percorriam sua cabeça, faziam-no esquecer por que viera e transformaram-no num pedacinho choroso de gente.
Só depois de algum tempo lembrou-se de que possuía um dom que lhe permitia transportar-se para um lugar seguro. Concentrou-se o mais rápido possível, e com a maior intensidade que a dor lhe permitia, sobre o lugar de onde viera. Quando a influência estranha reduziu-se, apenas por uma fração de segundo, a um nível suportável, saltou.
Sentiu que a dor martelante e ondulante abandonou-o de um instante para outro. A tração e as tensões produzidas pela teleportação não representavam nada em comparação ao que suportara nos últimos segundos.
Sentiu-se grato ao ver que as estrelas cintilantes voltaram a surgir acima de sua cabeça. Ouviu um farfalhar e sentiu uma areia grossa sob os joelhos. Lançou os olhos em torno.
As luzes de Terrânia brilhavam a oeste. Descera a menos de dez quilômetros do destino.
A estafa tomou conta de seu corpo. Quando tentou levantar, as pernas se dobraram. Inconsciente, caiu estendido sobre o pedacinho de areia amarela do deserto que, enfrentando todas as operações de irrigação artificial, conseguiu se manter entre duas extensas áreas ajardinadas.



4



— Temos notícias de Kakuta! — anunciou Nyssen pela meia-noite. — Está deitado entre dois jardins, a uns dez quilômetros a oeste da cidade, e sente-se muito fraco para andar. Pede que nós o busquemos.
Rhodan fez que sim.
— Major, prepare um carro — ordenou, dirigindo-se a Nyssen. — Irei até lá com Marshall.
Nyssen confirmou o recebimento da ordem. Poucos minutos depois o carro estava esperando. Marshall foi retirado da residência em que estava de prontidão juntamente com Ras Tshubai e saiu da cidade em companhia de Rhodan.
Este mantinha contato com o japonês através do micro-telecomunicador.
— Assim que enxergar as luzes de nosso carro — disse — oriente-nos. Não temos a menor idéia de onde está metido. Entendido?
— Sim — respondeu Tako Kakuta com a voz débil.
— Como está passando? — indagou Rhodan.
— Miseravelmente — respondeu o japonês com toda franqueza.
Um instante depois gritou bastante nervoso:
— Já vejo os faróis de seu carro. Está quase no caminho certo. Dirija-se um pouquinho mais para o norte.
Rhodan seguiu a recomendação.
— Aí! — exclamou o japonês. — Agora prossiga exatamente na direção leste. Mas faça o favor de não me atropelar.
Poucos minutos depois encontraram-no. Deitado de costas, ainda não estava em condições de se levantar com suas próprias forças. Marshall e Rhodan colocaram-no no carro e levaram-no à cidade.

* * *

— Como vai ele, Eric? — perguntou Rhodan.
O Dr. Manoli, um dos tripulantes da primeira nave espacial terrena, sacudiu os ombros e deu ao seu rosto uma expressão de contrariedade.
— Esgotamento total — respondeu. — Nunca vi uma pessoa que estivesse tão acabada, no sentido literal da palavra, como este japonês.
Rhodan, pensativo, olhou para a frente.
— Quanto tempo falta?
Manoli lançou-lhe um olhar indagador.
— Quanto tempo falta para quê?
— Para que eu possa interrogá-lo.
— Bem, umas cinco ou seis semanas, acredito.
Rhodan cresceu alguns centímetros, de tão indignado que ficou.
— Semanas? — exclamou. — Você não sabe quanto dependemos das informações de Tako. Dê-lhe tudo que você tiver nesses armários, mas faça-me o favor de colocá-lo em forma dentro de poucas horas. Compreendeu?
Manoli voltou a erguer os ombros.
— Não é apenas o esgotamento — ponderou. — Fiz um encefalograma. Durante sua ausência Kakuta deve ter sido submetido a uma influência mental muito forte. Sua atividade cerebral é bastante confusa. Só lentamente está voltando à calma.
A testa de Rhodan se enrugou.
— É sério?
Manoli sacudiu a cabeça.
— Não; apenas está confuso.
— Está bem. Quanto tempo você vai levar para colocá-lo em forma? Duas horas?
O rosto de Manoli se contorceu.
— Talvez em dez horas.
— Está bem; em dez horas. Avise-me quando estiver pronto.

* * *

Tako Kakuta insistiu em comparecer perante Rhodan de pé e em seus trajes normais. O Dr. Manoli recomendou que permanecesse de cama durante sua conversa com Rhodan; mas Kakuta recusou a sugestão.
— Pois levante, seu teimoso — disse Manoli em tom irritado. — Avise quando se sentir mal.
Kakuta prometeu com um sorriso que não deixaria de avisar.
Rhodan recebeu-o em seu escritório, situado no último pavimento do edifício da administração. Tako instalou-se confortavelmente numa poltrona, de frente para Rhodan. Logo iniciou seu relato.
Não omitiu nada, desde os esforços de Marshall, quando pretendia tirar as pedras de xadrez do armário, até o momento em que o teleportador desconhecido surgiu diante dele no vigésimo sétimo pavimento do edifício da administração e o esgotamento total que dele se apoderou naquela sala de paredes de concreto, bem como o regresso a Terrânia.
Rhodan escutou-o atentamente, sem interrompê-lo. Assim que Tako concluiu, levantou-se e foi a uma das janelas amplas que permitiam que, daquela sala iluminada e arejada, se tivesse uma vista imponente sobre a cidade e as áreas adjacentes.
A vidraça quase não produzia nenhum reflexo. Era feita para permitir uma visão desimpedida. Tako Kakuta, que a essa hora estava sentado atrás dele, numa posição ligeiramente lateral, só produzia um reflexo apagado.
— Você nunca havia visto o teleportador desconhecido, não é mesmo? — perguntou Rhodan.
Ficou satisfeito quando um movimento pouco nítido nos reflexos da vidraça lhe dava a perceber que o japonês sacudia a cabeça atrás dele.
— Não — respondeu Tako. — Não tenho o menor conhecimento com ele.
— O que quero dizer — prosseguiu Rhodan — é que o viu tão bem que, sem a menor dúvida, o teria reconhecido se já o tivesse visto antes. É isso?
Viu um movimento na vidraça, cuja transparência era quase perfeita. Era um aceno de cabeça.
— Sem dúvida — disse Tako.
Outro movimento, desta vez mais embaixo, provavelmente na altura dos quadris.
— Tem alguma idéia sobre a área em que foi parar depois de seu salto? — prosseguiu Rhodan.
Desta vez a resposta do japonês foi imediata.
— Seria capaz de saltar a qualquer momento para esse lugar. Mas não acredito que possa lhe fornecer as respectivas coordenadas.
Enquanto falava, executou uma série de movimentos apressados. Apesar disso Rhodan aguardou tranqüilamente que terminasse. Mesmo depois disso deixou passar mais alguns segundos, antes que dissesse em tom áspero:
— Você tem um radiador de nêutrons na mão, Tako. Não sei quem lhe teria dado a arma. Nos minutos que passaram, você engatilhou a mesma, e agora quer me matar. Mas não conseguirá.
Só depois disso, voltou-se e olhou para o japonês. O rosto de Tako, que em outras oportunidades costumava ser tão amável e infantil, contorcera-se numa careta que apenas exprimia ódio e vontade de matar. Segurando na mão direita o pesado radiador de nêutrons, mantinha-o apontado para Rhodan. A mão nem chegava a tremer.
Rhodan sorriu, embora isso lhe custasse muito esforço.
Tako entortou o dedo em torno do largo gatilho e disparou. Um raio de cerca de cinco centímetros de diâmetro, que irradiava uma débil fluorescência, saiu do cano da arma.
No mesmo instante, o ar se iluminou cerca de metro e meio de Rhodan, criando uma parede de dolorosa claridade que tomava toda a largura e altura do aposento. O campo protetor crepitou levemente ao absorver a energia tremenda do raio de nêutrons, ativou as reservas de energia da arma e consumiu esta.
Rhodan ouviu o japonês soltar um grito selvagem. Depois disso tudo foi silêncio. O crepitar do campo energético cessou no mesmo instante. Rhodan esperou até que a luminosidade tivesse desaparecido. Depois foi cuidar de Tako.
Este escorregara para fora da poltrona e estava estendido no chão. A mão que segurara o radiador de nêutrons apresentava duas manchas frescas de queimadura. A solicitação excessiva da arma fizera com que sua parte elétrica realizasse a transferência do elevado potencial do gerador de nêutrons para a mão de Tako. O choque elétrico privara o japonês da consciência; tomara que só fosse isso.
Rhodan avisou o Dr. Manoli e mandou que dois enfermeiros levassem o homem inconsciente.

* * *

— Trata-se de um bloqueio hipnótico de enorme potência — explicou Perry Rhodan. — E foi aplicado com tamanha habilidade que o exame da atividade cerebral realizado pelo Dr. Manoli, que, é bem verdade, foi apenas superficial, não revelou nada.
Crest, pensativo, olhava fixamente para a frente.
— Que monstro deve ser esse com que ele esteve em contato! — murmurou.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Se considerarmos o fato de que aquele desconhecido não conhece a psicofísica arcônida e, em conseqüência, não dispõe de qualquer aparelho destinado a exercer influência sobre outras pessoas, só poderemos concluir que se trata de um monstro.
— Será que Manoli conseguirá dar conta do recado? — perguntou Crest, que de repente parecia bastante preocupado.
Rhodan fez um gesto tranqüilizador.
— Não se preocupe com Manoli — respondeu. — É um homem que sabe seu ofício, inclusive o que aprendeu por último. Naturalmente Tako terá que ser poupado nas próximas semanas.
— Será que ele ainda se lembra de alguma coisa?
— Lembra, sim. Recorda-se de todos os detalhes, desde o momento em que enfrentou o desconhecido até que voltou a pousar em Terrânia. É bem verdade que, se alguém lhe disser que tentou me matar, dirá que esse alguém é um louco. Juntamente com o bloqueio hipnótico perdeu toda recordação da tarefa que lhe foi imposta.
Houve uma pausa. Alguns minutos se passaram até que Crest perguntasse:
— E agora? Tem outros planos?
Rhodan fez que sim.
— Por enquanto não parecem ser facilmente realizáveis, mas sempre são planos.
Crest fitou-o cheio de curiosidade.
— Teremos de traduzir o modelo do salto de Tako em dados geográficos inteligíveis.
Crest respirou fortemente.
— Traduzir! Sabe lá se isso é possível?
Rhodan riu.
— Não faço a menor idéia. Levantou-se.
— Cuidarei disso imediatamente — prosseguiu. — Procurarei saber se temos alguma chance de êxito. Se não, teremos que tentar por outro caminho.
Quando a porta se abriu diante dele, ainda disse com um sorriso na boca:
— Há uma coisa que me deixa muito satisfeito. Toda essa história do seu rapto não passou de um blefe. Talvez o teleportador desconhecido realmente sentisse a tarefa de se apoderar de você. Mas na verdade só surgiu por aqui para levar um de nós a segui-lo.
Na testa de Crest havia rugas.
— Acredita que não estão atrás de mim?
— Não tenho a menor dúvida — disse Rhodan, rindo. — Afinal, seria uma loucura rematada tentar raptá-lo em pleno território da Terceira Potência.

* * *

Clifford Monterny sentira seu primeiro fracasso de grandes proporções, por assim dizer, por transmissão direta.
Mantivera-se em contato telepático unilateral e imperceptível com o japonês Tako Kakuta, até que o bloqueio hipnótico a que o mesmo estava sujeito foi removido por via psicológica. Antes que pudesse restabelecer o contato interrompido, um contrabloqueio foi incutido na mente de Tako, e este era tão poderoso que nem mesmo o Supercrânio conseguia rompê-lo.
O que mais preocupava Monterny era o fato de que não podia atinar com o motivo pelo qual Rhodan havia previsto o atentado que se planejava. Tako Kakuta não se traíra com nenhuma palavra, com nenhum gesto. Enquanto esteve submetido a tratamento médico, cuidaram em primeira linha de seu bem-estar físico. O exame mental foi tão superficial que nem mesmo um bloqueio hipnótico muito mais mal instalado teria sido percebido.
Contudo...
Monterny acreditava que Rhodan não era nenhum mutante; ou melhor, ele tinha certeza quase absoluta disso. Não possuía qualquer dom profético, telepático ou de outra natureza que lhe permitisse ver o interior do japonês.
Apesar disso soube o que iria acontecer. No momento exato abrigara-se atrás de um campo energético e com um sorriso assistiu ao espetáculo do tiro mortal repelido pela parede energética protetora. A dor que o choque elétrico produziu em Tako foi tão intensa que até Monterny chegou a senti-la.
E para que foi tudo isso?
Uma vez que estava convencido de que Rhodan não era nenhum mutante, só podia supor que sua conduta diante do atentado resultava de uma capacidade de raciocínio quase sobre-humana. E essa idéia deixou-o tão furioso que, por muitas horas, não esteve em condições de conceber uma idéia clara.
Além da sede de poder, o Supercrânio ainda estava imbuído da convicção de que um mutante é um homem superior. Para ele não podia haver coisa pior do que saber que um homem comum havia desmascarado seus planos.
Na manhã do dia seguinte, Monterny teve uma palestra prolongada com MacMurray, seu melhor confidente.
MacMurray era o único entre os mutantes de Monterny que já vira o Supercrânio face a face. Foi naquele primeiro contato, e depois disso o fato repetia-se constantemente.
A influência hipnótica a que MacMurray estava submetido era tão intensa que sua verdadeira personalidade se perdera há muito. Enquanto isso, suas capacidades parapsicológicas haviam crescido. Um salto destinado a vencer distâncias planetárias já não constituía o menor problema para aquele jovem, que no meio tempo havia chegado aos vinte anos. Durante o salto produzia um campo transicional tão amplo e intenso em torno de si que podia perfeitamente levar consigo objetos de grandes dimensões.
Era justamente em virtude dessa faculdade que MacMurray costumava desempenhar um papel importantíssimo nos planos de Monterny.

* * *

— Será difícil — admitiu Rhodan — mas não impossível.
Tinha diante de si uma série de diagramas do salto de Tako Kakuta, elaborados por um psicoanalisador. Dirigia-se a Crest e Thora.
— Já descobriu alguma coisa? — perguntou Thora.
Rhodan fez que sim.
— O destino aproximado, com uma margem de erro de cem quilômetros para todos os lados.
— Onde...?
Rhodan levantou os diagramas e mostrou um mapa escondido sob os mesmos. Era o mapa do império insular japonês.
— Aqui — disse Rhodan, apontando para um círculo desenhado no mapa. — Em algum lugar situado no interior desse círculo.
Thora examinou o mapa. Depois de algum tempo disse em tom ligeiramente irônico:
— Você tem uma tarefa nada fácil diante de si. No interior desse círculo ficam três metrópoles com um total de doze milhões de habitantes: Kobe, Osaka e Kioto. A isso deve se somar a população rural de cerca de cinco milhões de pessoas. Quanto tempo acha que vai despender nas buscas?
Rhodan respondeu com um sorriso.
— Não procuro nenhuma dos dezessete milhões de pessoas que se encontram nessa área, mas um subterrâneo feito de concreto. Talvez você não se lembre desse detalhe. Em todo o Japão não existem mil subterrâneos desse tipo.
Voltou a colocar os diagramas sobre o mapa.
— Além disso, espero que o modelo do salto de Tako ainda me proporcione dados mais exatos. E ainda notei outra coisa. Está lembrada da manobra bolsística suicida empreendida por Homer G. Adams? Saiu num prospecto da Bolsa feito por um amador. Conseguimos localizar a impressora que confeccionou o prospecto.
— E daí?
— Essa impressora fica em Osaka!

* * *

O major Nyssen foi o homem enviado a Osaka por Rhodan.
Nyssen não se pôs a caminho sem os devidos preparativos. Recebeu os registros dos acontecimentos ligados à sua tarefa, com a incumbência de gastar pelo menos um dia no exame cuidadoso dos mesmos. Além disso, os instrumentos de treinamento hipnótico dos arcônidas proveram-no do conhecimento perfeito da língua japonesa.
Recebeu, ainda, um aparelho criado no dia anterior, que o protegia contra qualquer influência hipnótica. Quando lhe mostraram o aparelho, começou a rir. Não passava de um capacete que emitia um brilho metálico e cobria toda a parte superior da cabeça. Um minúsculo gerador embutido no mesmo gerava um campo anti-hipnótico.
— Quer que eu ande por aí com isso? — indagou Nyssen.
Rhodan fez que sim.
— A partir do instante em que tiver a impressão de que o desconhecido passou a se interessar por você, deve fazer exatamente isso. Eu lhe recomendo encarecidamente que, quando isso acontecer, não deixe de usar o capacete. Sabe perfeitamente o que acontece com uma pessoa não protegida.
Nyssen pegou o capacete.
O major juntara-se a Rhodan quando, por incumbência do governo americano, remexia os destroços do cruzador espacial arcônida destruído na Lua. Era um dos artilheiros de foguetes que, semanas antes, haviam dado cabo da nave. Seu tipo era praticamente idêntico ao de Reginald Bell. Como este, era pequeno, embora um pouco menos baixo, e impusera à sua cabeleira rala castanho-escura o mesmo corte à escovinha. Sua voz sempre apresentava o tom de quem na última noite houvesse enfrentado uma tremenda bebedeira.
Nyssen pegou o avião de passageiros que duas vezes por dia fazia a linha de Xangai. Ali permaneceu por meio dia, esforçando-se para se livrar de eventuais perseguidores. De noite pegou o avião para Tóquio.
Em Tóquio mais uma vez procurou sacudir os perseguidores. De noite pegou o expresso Tóquio—Kobe, com destino a Osaka.
Às duas e meia da madrugada chegou ao destino. Em Tóquio fizera algumas modificações no seu aspecto exterior. Contrariando todos os hábitos, usava um terno cujo aspecto atual era tão surrado que não poderia ter sido feito por um bom alfaiate, além de uma camisa desbotada com um colarinho fora da moda. Escolheu um hotel que correspondesse à sua apresentação.
O disfarce era simples, mas eficiente. Quem o visse pensaria que tinha diante de si um daqueles globetroters que resolveram procurar o Extremo Oriente porque em sua terra natal a polícia estava atrás deles, ou porque aqui esperavam fazer fortuna mais rapidamente.
Nyssen ocupou um quarto situado no trigésimo andar de um hotel de categoria inferior e recuperou-se da canseira do dia anterior com várias horas de sono profundo e livre de sonhos.

* * *

— O senhor já conhece sua tarefa — disse o Supercrânio em tom amável. — Não se esqueça de que muita coisa depende do sucesso desta missão.
Acostumara-se a dar a MacMurray o tratamento de senhor, depois que fizera dele seu confidente.
MacMurray confirmou com um aceno de cabeça.
— Não me esquecerei.
— E não cometa o mesmo engano desse idiota do Bradley. Não se apresse. Pelo que sei, o senhor não correrá o menor risco.
MacMurray confirmou com um aceno de cabeça.
— Aguardo seu relatório pontualmente na hora combinada — advertiu-o o Supercrânio.
Mais uma vez MacMurray confirmou com um aceno de cabeça.
Depois saiu. No seu quarto — se é que se podia chamar aquilo de quarto, pois não tinha janelas, a única luz provinha do tubo branco-azulado e as paredes eram de concreto maciço — reuniu as poucas coisas de que precisava para sua tarefa. Principalmente a pistola automática, que era o único instrumento em que um teleportador podia confiar quando, depois de um salto, surgisse em meio aos seus inimigos.
Os objetos encheram uma mala de tamanho médio. MacMurray segurou a mala embaixo do braço e parou no meio do quarto, como se refletisse para se lembrar se havia esquecido alguma coisa.
Poucos instantes depois seus contornos começaram a se apagar, e logo depois desapareceu por completo.
MacMurray pusera-se a caminho, com a finalidade de, agindo segundo as intenções do mestre, desferir contra a Terceira Potência o golpe mais pesado que a mesma já sofrera.

* * *

A noção que Nyssen tinha sobre aquilo que poderia e não poderia fazer em Osaka era de uma precisão confortadora.
Uma das coisas que envolviam um risco excessivo seria, por exemplo, uma visita à impressora que confeccionara o prospecto da Bolsa. O próprio Rhodan visitara a mesma poucos dias atrás, e se esta mantinha qualquer tipo de relacionamento com o misterioso desconhecido, conforme era de supor, essa visita teria sido cuidadosamente registrada, mesmo que Rhodan não tivesse sido reconhecido.
Nyssen pretendia desempenhar seu papel por muito tempo sem dar-se a conhecer. Numa cidade do tamanho de Osaka não havia nada mais fácil, com os meios de que dispunha, do que encontrar pessoas que se dispusessem a tirar as castanhas do fogo para ele.
Nyssen deu uma olhada pela cidade. Passou uma manhã inteira passeando na zona portuária, e os resultados correspondiam inteiramente às expectativas.
Mais de uma dezena de pessoas envolveram-no numa palestra no curso de várias horas, dando a entender que eram exatamente as pessoas que estava procurando. Nyssen ficou satisfeito ao saber que pareciam ler em seu rosto que estava à procura de colaboradores.
Escolheu muito. Pelas dez horas, por pouco não contrata um jovem que tinha uma expressão de desespero no rosto, o que levaria qualquer um a indagar como viera parar num ambiente desses. Havia um risco muito grande que, um dia, tivesse um acesso de moralismo e corresse à polícia para descarregar suas preocupações. Por isso, Nyssen mandou-o embora.
Acabou por se decidir a favor de um homem pequeno de olhos matreiros, que atravessou seu caminho pelas onze e meia e disse num péssimo inglês:
— Eu Michikai. Michikai fazer tudo. O senhor pagar bem, Michikai ser seu homem.
Nyssen sorriu. Michikai aparentava uns quarenta anos e era cerca de vinte centímetros mais baixo que ele.
— Mim Jeremy. Jeremy pagar bem, o senhor fazer tudo.
Disse-o em japonês, esforçando-se para imitar o péssimo inglês de Michikai. Este parecia perplexo. Depois riu, e quando Nyssen também se pôs a rir, o contrato estava praticamente fechado.
O resto foi combinado num restaurantezinho. É claro que Nyssen não explicou a seu novo colaborador a verdadeira finalidade de tudo aquilo. Apenas lhe disse que gostaria de obter informações sobre as instalações daquela impressora. A tarefa pareceu tão fácil a Michikai que ele se espantou bastante quando Nyssen lhe pagou trinta dólares de adiantamento e lhe prometeu outros trinta dólares quando tivesse todas as informações em que estava interessado.
Nyssen combinou com seu colaborador que, dali em diante, seus contatos seriam exclusivamente telefônicos. Para esse fim Michikai permaneceria durante certas horas num restaurante que lhe era conhecido, e onde Nyssen poderia encontrá-lo.
Não se previu qualquer possibilidade de contato em sentido oposto; Nyssen quis resguardar-se contra qualquer interferência do desconhecido.

* * *

Freddy MacMurray admirou a cidade. Nunca a vira. Ela lhe parecia mais bela que tudo que seus olhos já haviam contemplado.
Surgira na margem norte do lago salgado, cuja superfície cintilante interpunha-se entre ele e a cidade de Terrânia.
MacMurray admirou o panorama até que o Supercrânio se fizesse sentir. A ordem só foi irradiada com uma dose minúscula de energia, mas MacMurray entendeu-a perfeitamente.
Eu lhe disse que não se apressasse, mas não lhe pedi que perdesse seu tempo olhando para as coisas que encontrasse pelo caminho. Comece logo!
MacMurray pôs-se a correr. Sabia perfeitamente o que havia incomodado o Supercrânio. Não era o fato de ter contemplado a cidade. De um agente seu esperava-se que examinasse a área em que iria desenvolver sua atividade.
Monterny conhecia os pensamentos de seus colaboradores. Percebera a admiração que MacMurray sentira durante alguns segundos por essa cidade. E isso o deixara zangado.
MacMurray caminhou pelas áreas ajardinadas desabitadas até enxergar perfeitamente os detalhes das casas situadas na extremidade norte da cidade. Depois saltou para lá.
O Supercrânio seguiu-o atentamente. Sabia que a tarefa de MacMurray encerrava certo risco para ele, Monterny. Sabia perfeitamente de que maneira fora localizado o outro teleportador, em cujos calcanhares Tako Kakuta se havia grudado. Sabia que no Exército de Mutantes de Rhodan havia telepatas muito potentes, e que não era só MacMurray, mas também seus planos que corriam perigo se mantivesse contato permanente com aquele jovem.
Para observá-lo, acompanhou as emanações irradiadas por MacMurray. Só em caso de extrema necessidade o próprio Monterny funcionaria como emissor.
A tarefa era importante demais.

* * *

Nyssen telefonou e pediu que chamassem Michikai. Este deu seu nome verdadeiro. Nyssen disse:
— Os pessegueiros já começaram a florir no sul de Kiushu?
Michikai pigarreou e respondeu:
— Ainda não. Mas em Hondo a floração quase chegou ao fim.
— Está bem — disse Nyssen. — O que há de novo?
— Já dei uma olhada naquela impressora.
— Discretamente?
— Muito discretamente. Disse que pretendia fazer um pedido de vulto, mas não conseguia chegar a um acordo com o proprietário quanto ao preço. Por isso fui embora. Já havia visto tudo. Ou melhor...
— Ou melhor?
— Quase tudo. Ainda há uma sala em que não consegui entrar. Mas aposto que não tem mais de quinze metros quadrados, e que nela só há uma porta, pela qual consegui dar uma olhadela.
— Você tentou entrar lá? — perguntou Nyssen.
— Sim. Ao sair fiz de conta que me enganei na porta. O proprietário da impressora não gostou. Quase chegou a se zangar. No último instante conseguiu dirigir meus passos para o outro lado.
— Hum — fez Nyssen. — Viu alguma coisa do que havia lá dentro?
— Vi, sim. Um videofone.
— Nada mais?
— Nada.
— Está bem. Preste atenção, Michikai. Na agência do correio da estação central da estrada de ferro há uma caixa cujo número é 7.415 — sete, quatro, um, cinco. O funcionário só a abrirá a quem lhe disser a senha Hokaido. É lá que seus cinqüenta dólares estão depositados. Nos próximos dias voltarei a telefonar.
Na outra extremidade da linha Michikai soltou um grito agudo.
— Só cinqüenta dólares? Com tudo...
Nyssen não ouviu mais nada. Desligara.
Nos próximos trinta minutos ficou refletindo sobre a hora mais propícia para a visita planejada.

* * *

Face às informações minuciosas de que dispunha, sabia quase tudo sobre o dia-a-dia de uma grande metrópole. Não havia qualquer hora realmente tranqüila, apenas períodos de um relativo alívio.
Nyssen escolheu o período entre uma e as quatro da madrugada. Segundo pensava, três horas seriam suficientes para realizar um exame minucioso numa pequena impressora.
Dormiu o resto da tarde, jantou bem e foi a um cinema cuja sessão terminava pouco antes da meia-noite.
Depois voltou ao hotel e equipou-se com as coisas que julgava necessárias ou úteis. Eram mais de vinte objetos; mas, face ao avanço da micro técnica arcônida, apenas ocupavam dois bolsos da calça e um do paletó.
É bem verdade que o pesado radiador de nêutrons teve de ser carregado sobre o ombro.
Pouco antes da uma encontrava-se nas proximidades da tipografia. Ficou satisfeito ao constatar que a rua estava praticamente vazia. Se conseguisse abrir a porta do edifício dentro de três minutos, praticamente não correria o menor perigo.
Gastou três minutos e meio; mas não apareceu ninguém que o perturbasse. Tinha certeza de que ninguém o observara.
Face à descrição de Rhodan e de Michikai, Nyssen já conhecia a sala de recepção, os pequenos escritórios e a oficina ligada aos mesmos. Não perdeu tempo em revistar essas peças. Sem maiores problemas penetrou no escritório maior e mais bem instalado e procurou a porta de que Michikai lhe havia falado.
No escritório havia um total de cinco portas. Aquela que Nyssen procurava era a única que se haviam dado o trabalho de trancar.
A fechadura era de um modelo simples. Não resistiu mais de vinte segundos às micro ferramentas de Nyssen.
A pequena sala que ficava além dessa porta não tinha janelas. Nyssen fechou a porta atrás de si, acendeu sua pequena e forte lâmpada permanente e procurou um lugar em que pudesse colocá-la.
Além do videofone a que Michikai havia aludido só havia uma cadeira. Nyssen colocou a lâmpada sobre a cadeira e refletiu sobre o lugar em que devia iniciar as buscas.
Pensou que estava sendo um pouco ridículo quando começou a percutir as paredes. Alguns lugares pareciam ocos, mas quando os iluminava com o pequeno bastão de raios-X constatava que apenas se tratava de um pouco de emboço caído entre os tijolos.
Gastou uma hora nessa atividade. Aos poucos se convencia de que nada encontraria.
Subitamente ouviu um zumbido grave atrás de si. Voltou-se apressadamente e viu que a tela do videofone começou a se iluminar.
Afastou-se da parede e contemplou a tela. Era estranho que um videofone começasse a funcionar por si. Geralmente a tela só se iluminava depois de estabelecida a comunicação. Aqui isso não poderia ter acontecido, pois ninguém havia levantado o fone. Nyssen nem sequer ouvira o sinal de chamada.
Colocou-se numa posição em que o transmissor de imagens não pudesse captá-lo e esperou.
No momento em que, num movimento rápido, desligou a lâmpada, ouviu o estalo no receptor.
O fone estava colocado no suporte, mas apesar disso falava.
Nyssen foi se esgueirando junto à parede, chegando um pouco mais perto do aparelho. Ouviu a voz metálica que começara a falar. O videofone parecia ter um amplificador ultra potente. Mesmo sem levantar o fone, Nyssen entendia praticamente todas as palavras.
— ...uma conferência importante amanhã às vinte horas... na minha casa. Todos devem comparecer...
A atenção de Nyssen foi desviada em parte pela imagem estranha que surgiu na tela. Consistia numa confusão inextricável de linhas. À primeira vista parecia se tratar de alguma interferência; mas Nyssen logo percebeu que havia certa regularidade naquelas linhas trêmulas e ondulantes.
Tirou sua pequena máquina fotográfica e deixou que a mesma registrasse as linhas. Não conseguiu desempenhar toda sua potencialidade micro técnica, pois a transmissão logo cessou. Mas Nyssen esperava que os peritos conseguissem extrair algum resultado da fotografia.
Mal e mal percebera que as palavras transmitidas não continham qualquer indicação importante. Só se falava em coisas das quais os sócios da misteriosa organização já sabiam onde se encontravam, motivo por que não havia necessidade de outras explicações.
As esperanças de Nyssen concentraram-se na fotografia que acabara de fazer.
O tempo estava ficando curto. Nyssen não mais bateu nas paredes. Tinha certeza quase absoluta de que nada havia atrás delas.
Preferiu dedicar sua atenção ao admirável videofone que começou a funcionar sem que ninguém o ativasse e cujo fone falava quando ainda se encontrava no suporte.
Havia um fio comum, um tanto fino, que desaparecia na parede pouco abaixo da tela de imagem. Nyssen iluminou a parede e viu que o fio a atravessava em sentido horizontal.
Voltou ao escritório maior e procurou um caminho que o conduzisse ao lado oposto da parede. Havia uma porta que dava para um pátio dos fundos. Uma das paredes desse pátio era exatamente a que Nyssen procurava.
Nyssen não gastou muito tempo. Viu perfeitamente o fio um tanto fino que saía da parede, descrevia uma dobra e subia ao telhado.
E em cima do telhado havia uma antena robusta e alta.
Nyssen soltou um assobio entre os dentes. Tal qual os telefones, os videofones estavam ligados a uma rede. Recebiam os impulsos visuais e auditivos através de fios que, dentro da cidade, eram colocados embaixo da terra e, na zona rural, eram presos a postes de madeira ou plástico. Um videofone não precisava de antena; neste ponto era igual a um telefone.
Aquilo não era um videofone comum. Era um receptor e transmissor que funcionava sem fio. Apenas fora disfarçado sob a forma de um videofone, para enganar os visitantes.
Foi por isso que aquilo começou a trabalhar sem que o fone tivesse sido levantado.
Bastante pensativo, Nyssen interrompeu sua visita noturna. Ainda continuava pensativo quando abriu a porta de seu quarto de hotel.
Como de hábito, tirou em primeiro lugar os instrumentos de medida e colocou-os cuidadosamente sobre a mesa.
Passou à leitura dos instrumentos, ainda mergulhado em pensamentos e convencido de que os mesmos não indicariam nada.
Radiatividade, nenhuma.
Temperatura, que bobagem. Ele não teria deixado de perceber se tivesse penetrado numa onda de calor. Normal!
Influência telepático-hipnótica...
Os instrumentos eram tão pequenos que Nyssen teve de recorrer a uma lupa para ler as respectivas escalas. Praguejando baixinho, mas com violência, tirou a lupa do olho esquerdo e colocou-a no direito.
Mas o quadro era o mesmo.
Influência telepático-hipnótica, oscilação do instrumento: escala seis.
Nyssen deixou que a lupa caísse do olho e fitou o espaço diante de si.
Pelo que dizia o instrumento de medida, ele, Nyssen, sofrerá influências hipnóticas. A escala seis correspondia a seis microfreud, o suficiente para hipnotizar uma dúzia de homens adultos.
Mas não percebera nada. Ou será que percebera?
Ainda estaria submetido a alguma influência hipnótica?
Pois bem. Não seria difícil encontrar uma explicação para o fato de não ter percebido nada. Cada cérebro tem sua faixa peculiar de freqüência. É bem possível que alguém tenha transmitido por outra freqüência, à qual meu cérebro não é acessível. A medição do instrumento é integral no que diz respeito à freqüência. Mede tudo que aparece sob a forma de influência hipnótica.”
Mas, com os mil demônios, de onde teria vindo essa influência hipnótica?
Quando a única explicação possível ocorreu a Nyssen, este esteve prestes a pegar novamente seus instrumentos e fazer mais uma visita à tipografia. Mas depois de ter olhado para o relógio desistiu da idéia. Eram três e meia, tarde demais.
As ondulações refletidas na tela não eram nenhuma interferência, nem constituíam o produto de uma estranha fantasia geométrica. Tratava-se de uma transmissão hipnótica!

5



Para um homem dotado da mobilidade fenomenal de MacMurray não houve a menor dificuldade em localizar a vítima nas primeiras horas de atividade.
MacMurray gravou o rosto e a figura do homem e passou a estudar os hábitos do mesmo.
Pretendia raptar o homem. Raptá-lo por meio da teleportação. Para um teleportador que não havia sido submetido à ativação cerebral arcônida havia uma grande diferença entre executar um salto sozinho e transportar com ele mais um objeto de peso aproximadamente igual ao seu. Mesmo para ele o primeiro ato resumia-se numa liberação espontânea de energia de curta duração; já o segundo exigia dez minutos de concentração.
MacMurray procurou encontrar, em meio ao curso de vida felizmente bastante monótono de sua vítima, um espaço de tempo que permitisse a intercalação de um intervalo de dez minutos com a menor dose possível de risco. Seria a hora em que era mais provável que aquele homem estivesse só.
MacMurray levou dois dias para se orientar.
Marcou o grande golpe para o dia 2 de agosto. Hora: entre as vinte e as vinte e uma, tempo local.

* * *

Rhodan estava convencido de que nada mais poderia ser tirado do modelo de salto que o Dr. Manoli havia extraído do cérebro de Kakuta.
O diâmetro do círculo traçado no mapa fora reduzido para cinco quilômetros.
Só um trecho muito pequeno da cidade de Osaka ficava dentro do círculo. A probabilidade de que o objetivo ficasse fora da cidade era muito grande.
Isso facilitaria as buscas. No Japão uma casa que tivesse um porão de concreto seria considerada muito grande.
Depois de ter reunido todos os resultados, Rhodan chamou Crest.
Crest não respondeu.
Rhodan telefonou para Thora.
Fazia mais de três horas que Thora não via Crest.
Rhodan deixou que alguns minutos se passassem e voltou a chamar Crest.
Mais uma vez Crest não respondeu.
Rhodan lembrou-se da tarefa que fora confiada ao teleportador desconhecido, que havia atraído Tako Kakuta a uma armadilha tão perigosa.
Ordenou uma busca geral.
Dali a uma hora não havia mais a menor dúvida de que Crest já não se encontrava no território da Terceira Potência.
E não avisara a ninguém onde poderia ser encontrado.
Crest fora raptado.

* * *

Uma extrapolação retrospectiva indicou a hora provável do rapto: entre as vinte horas e as vinte e trinta. Pouco depois Rhodan fizera a primeira tentativa de falar com Crest.
Àquela hora o serviço de vigilância estivera a cargo de Ishi Matsu, uma japonesinha delicada. Ishi informou que, pouco depois das vinte horas, captou um impulso isolado relativamente forte, mas indecifrável. Uma vez que o impulso não se repetiu, não se preocupou com ele.
Rhodan informou a Thora de que Crest havia sido raptado. Nunca vira a arcônida tão apavorada.
— O que... o que pretende fazer? — perguntou.
Rhodan olhou-a com uma expressão de espanto.
— Pretendo atacar. Não acha que é o mais acertado?
— Onde? Pois...
— Já disponho de todas as informações de que preciso. É possível que Nyssen tenha descoberto mais alguma coisa. Partiremos imediatamente.
— Vai usar o hipertransmissor de matéria?
O hipertransmissor de matéria era um aparelho que Rhodan trouxera da viagem em busca do planeta Peregrino. Substituía, em quem a ele recorresse, o dom parapsicológico da teleportação, transportando a pessoa pelo espaço de cinco dimensões até um ponto em que se encontrasse um receptor ajustado para a mesma freqüência.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— A partir daqui, não — respondeu. — Os dados que conhecemos ainda não são suficientes. Nas próximas cinco horas um destacamento nosso voará para Osaka. Levaremos hipertransmissores e, uma vez conhecido os detalhes da situação, não deixaremos de usá-los.
O tempo entre as seis e as sete horas da manhã era uma das horas em que Michikai devia permanecer em seu restaurante, aguardando o chamado de Nyssen.
Este dormiu duas horas. Chamou pouco depois das seis. Foi informado de que Michikai não estava.
Meia hora depois Nyssen repetiu o chamado; mas Michikai ainda não havia aparecido. Nyssen pensou que no dia anterior tivesse apanhado seus cinqüenta dólares e desaparecido. Isso não o preocupava, mas naquele momento o incomodava; bem que precisaria de Michikai.
Contrariamente ao que havia decidido antes, foi ao restaurante em que Michikai devia estar a essa hora. Talvez o dono pudesse dar alguma informação sobre seu paradeiro.

* * *

Para Crest tudo havia sido tão rápido que ainda não chegara a compreender o que tinha acontecido. Subitamente um jovem surgiu em seu quarto e abateu-o.
Ao despertar, viu-se numa sala que muito se assemelhava à que Tako Kakuta descrevera.
Crest quase não sentiu nenhuma dor de cabeça; por isso acreditou que a pancada não devia ter sido muito forte, e que o desmaio não fora prolongado. Mas, pelo que dizia Rhodan, a sala em que se encontrava ficava no Japão, isto é, a milhares de quilômetros de Terrânia.
Como chegara tão depressa até lá?
Quem sabe se nas imediações de Terrânia não existiam outras instalações desse tipo?
Só depois de algum tempo Crest lembrou-se da possibilidade de que, entre os inimigos, podia haver algum teleportador suficientemente forte para transportar um homem inconsciente num salto. Depois de refletir por algum tempo, Crest admitiu que a explicação verdadeira era esta.
Levantou-se e examinou a única porta daquela sala. Era feita de chapa de aço bastante sólida e não podia ser aberta do lado de dentro. O mobiliário da sala consistia numa cadeira e numa mesa.
Crest sentou na cadeira e esperou. Lamentou não ter o hábito de carregar constantemente uma arma consigo. Entre os potentes radiadores térmicos dos arcônidas havia alguns suficientemente pequenos para terem boa probabilidade de escapar a uma revista pessoal.
Cerca de uma hora depois de ter despertado, a porta se abriu e um homem que nunca vira antes gritou:
— Venha comigo!
Crest ergueu as sobrancelhas e continuou sentado.
— Para onde? — perguntou.
O homem exibiu uma pistola automática.
— O senhor vai ver! — gritou, furioso. Crest levantou-se e, passando perto do homem, saiu da sala. A sala à qual foi ter não era mais confortável que a primeira. Uma cadeira e uma mesa.
Mas a outra continha, além desses móveis, um videofone.
— Pegue a cadeira e sente diante da tela! — ordenou o homem que segurava a pistola automática.
Crest obedeceu. O homem ficou parado na porta. Crest esteve a ponto de lhe perguntar o que aconteceria, quando a tela no videofone começou a se iluminar.
Não mostrou nenhum quadro, mas apenas um conjunto de linhas brancas trêmulas e ondulantes.
No mesmo instante Crest sentiu aquela estranha pressão na cabeça, acompanhada de um zumbido.
Reagiu imediatamente. Não era difícil a um cérebro arcônida, ainda mais a um que possuísse o grau de treinamento do de Crest, resistir a qualquer espécie de influência telepática ou hipnótica.
Mas compreendeu o significado do comando hipnótico:
— Daqui em diante você vai trabalhar para mim. Preciso de um homem como você. E saberei recompensá-lo pelos serviços que você me prestar. Você será meu servo fiel.
Crest compreendeu tudo que estava acontecendo.
As linhas onduladas que surgiram na tela de imagem representavam a emanação reforçada de uma transmissão hipnótica e exerciam influência sobre quem contemplasse a tela.
Dali se concluía que as suposições de Rhodan foram falsas: o desconhecido não dispunha apenas da força de seu cérebro, mas ainda possuía recursos mecânicos destinados à produção de comandos hipnóticos, embora os mesmos ainda fossem primários e de potência reduzida.
Uma voz antipática começou a falar depois que a transmissão hipnótica havia durado cerca de dois minutos.
— Então; consegui agarrá-lo, não é?
Crest achou que não valia a pena responder.
— De hoje em diante o senhor vai trabalhar para mim! — prosseguiu a voz.
Crest resolveu usar franqueza.
— Não vou fazer nada disso! — respondeu.
Por alguns segundos o desconhecido pareceu perplexo.
— Ah! Então não fez efeito! Muito bem! Como vê, já conheço sua freqüência pessoal. Não acredite que poderá resistir por muito tempo. Levem esse homem.
Crest foi levado de volta à sala em que despertara uma hora antes. Sentou à mesa e pôs-se a refletir.

* * *

Quando se dirigia ao restaurante, Nyssen recebeu pelo micro telecomunicador a mensagem de Rhodan. Esta se limitava a informá-lo de que aterrizara com vinte homens a nordeste de Osaka e procurava o esconderijo do desconhecido. Pedia-se a Nyssen que apresentasse imediatamente as informações que conseguira coletar.
Nyssen fez meia-volta e regressou ao hotel. Estacionou seu carro de tal forma que poderia sair imediatamente e pegou o elevador para subir ao pavimento em que ficava seu quarto.
A primeira coisa que viu ao entrar no quarto foi Michikai. Estava estendido no chão e tinha um buraco na testa. Do buraco saía um filete de sangue seco que sujava o tapete surrado.
Os dois homens que haviam trazido Michikai estavam colocados de um e outro lado da porta. Cada um deles segurava uma pistola de forma a não permitir a menor dúvida quanto ao alvo que pretendiam atingir caso houvesse necessidade.
Realmente Nyssen assustou-se, mas dentro de dois segundos recuperou o autocontrole. No entanto, murmurando coisas confusas, deu-se o aspecto de quem mal conseguira evitar um colapso nervoso.
A trinta quilômetros dali o homem que, por ordem de Rhodan, devia manter contato com Nyssen teria de decifrar esse murmúrio.
— ...Hotel, Portão das Aves Celestes... Quarto dois-um-um-sete... dois homens... aprisionado.
A distância que separava Nyssen dos dois homens era de três metros. A parte ativa do microfone estava embutida na pele do pescoço e reagia até mesmo às vibrações mais débeis da laringe. Havia uma boa chance de que os dois não entendessem as palavras por ele murmuradas. Esforçou-se para produzir grande quantidade de saliva e deixou cair um fio da mesma pelo canto esquerdo da boca. Parecia ter enlouquecido de susto.
Um dos homens se aproximou dele, com um sorriso de deboche nos lábios.
— Por que está com medo, meu filho? Não lhe faremos nada.
Deslocava-se habilmente. Nem por um segundo interpôs-se na linha de tiro do outro.
— O que... o que querem de mim? — gaguejou Nyssen.
O homem apontou para o cadáver de Michikai.
— Viemos entregar este homem e convidá-lo a dar um passeio conosco.
— Nãooo! — protestou Nyssen com um grito. — Não quero!
— Cale a boca, seu idiota! Vimos quando você matou esse coitado. Entendido? — voltou a apontar para Michikai. — Você deve agradecer porque, em vez de entregá-lo à polícia, preferimos levá-lo conosco.
— Para onde? — perguntou Nyssen, assustado.
— Você vai saber. Está armado?
— Não... ah, sim.
Apontou para o ombro esquerdo. De qualquer maneira não deixariam de encontrar o pesado radiador de nêutrons, mesmo que procurasse ocultar sua existência.
O homem contornou-o e, vindo de trás, pegou em sua axila. Soltou o coldre que segurava a arma e examinou-a cuidadosamente.
— Está bem — disse, depois de ter examinado a arma e passado a mão pelo corpo de Nyssen. — Vamos embora.
O outro homem abriu a porta e saiu para o corredor. Nyssen pôs-se em movimento.
Passaram pelo porteiro sem que este percebesse que Nyssen tinha sido seqüestrado. Sem o menor problema, os três homens alcançaram o carro em que os dois seqüestradores tinham vindo. Enquanto entravam, o motorista ligou o motor. Nyssen ficou no assento traseiro, entre os dois homens que o vigiavam.
Quando o carro deu a saída, resmungou com um mínimo de desempenho vocal:
— Saímos num carro.
Esperava que estas palavras, sopradas para dentro do microfone do telecomunicador, fossem entendidas e corretamente interpretadas pelo elemento de ligação.
Durante meia hora o automóvel enfrentou o trânsito matutino da grande metrópole. Depois tomou uma das grandes vias de saída e disparou em direção ao nordeste.
Nyssen já tivera tempo de elaborar um plano. Sabia que o mais importante era evitar a influência hipnótica do desconhecido.
O capacete trazido de Terrânia estava bem guardado na mala.
Devia encontrar outro caminho para fugir à influência hipnótica.
Poderia distrair a atenção do desconhecido por meio de algum incidente que lhe parecesse mais importante que a influência hipnótica a ser exercida sobre mais um prisioneiro.

* * *

Em toda a área compreendida no círculo de cinco quilômetros de diâmetro, que Rhodan traçara segundo os dados extraídos do salto executado por Tako Kakuta, só havia três edifícios. Um deles era um celeiro meio arruinado que não parecia conter um porão. Os outros eram casas de campo em estilo japonês.
Rhodan e seus vinte homens haviam chegado ao amanhecer do dia numa nave de transporte. Esta retornou imediatamente, depois de ter descarregado os homens.
Rhodan e seus homens usavam vestimentas transportadoras arcônidas, equipadas com micro geradores que geravam campos antigravitacionais, deflexivos e protetores.
O grupo de Rhodan não tivera a menor dificuldade em passar a maior parte da manhã num bosquezinho sem ser notado por quem quer que fosse.
O rapto de Nyssen foi uma surpresa nada agradável. Mas tal qual o major, também Rhodan não demorou em reconhecer a chance que se lhe oferecia. Enquanto viajava com os seqüestradores, Nyssen murmurava ligeiras indicações sobre a direção que tomavam. Dentro de pouco tempo não havia mais a menor dúvida sobre qual das duas casas de campo era aquela em que se encontrava seu alvo.
Rhodan também compreendeu o plano de Nyssen, segundo o qual a atenção do desconhecido, que aguardava a chegada do prisioneiro, devia ser distraída, para que Nyssen tivesse certa liberdade de agir nos primeiros trinta minutos de prisão.
Não havia possibilidade de estabelecer contato com Crest. O arcônida nunca se convencera da utilidade de um micro telecomunicador embutido na pele. Rhodan tinha certeza de que nesse meio tempo devia ter mudado de opinião.

* * *

Incrédulo, o Supercrânio fitou o quadro que se projetava na tela do aparelho de advertência e vigilância.
Um estranho!
Estava de pé na pequena área interna existente no meio do complexo quadrático formado pela casa de campo. Usava uma vestimenta que Monterny jamais havia visto e trazia na mão uma arma grosseira, de cano curto.
O Supercrânio viu que o homem olhava em torno de si, como se estivesse procurando alguma coisa.
Um instante depois desapareceu.
Mais um instante, e voltou a aparecer em outro lugar.
Não! Não era o mesmo homem. Era mais baixo e tinha ombros mais largos.
Monterny sentiu que suas mãos tremiam.
Dois homens haviam conseguido burlar todos os dispositivos de vigilância, penetrando na área interna, e, além disso, sabiam se tornar invisíveis à vontade.
Monterny deu o alarma.
Mas os dois homens haviam desaparecido e por enquanto não voltaram a aparecer.

* * *

As coisas se passaram conforme Nyssen previra. Foi introduzido na casa de campo por uma porta lateral. Um dos homens que o vigiavam ficou ao seu lado e mandou que esperasse, enquanto outro seguiu pelo corredor e desapareceu numa sala.
Voltou dentro de um minuto; parecia contrariado.
— No momento não tem tempo — disse ao companheiro. — Leve-o para baixo.
Um elevador levou Nyssen para baixo da terra. Pareceu-lhe que a sala em que foi enfiado correspondia à descrição de Tako Kakuta. Mas não sabia que embaixo daquela casa de campo havia trinta salas iguais a esta.
Foi deixado só. A sala só tinha uma saída, fechada por uma porta de aço tão robusta que, nem por um instante, Nyssen pensou em movê-la segundo suas conveniências.
Sentou na única cadeira que havia naquela sala, apoiou a cabeça nas mãos, colocou os cotovelos sobre a única mesa e, para as objetivas de televisão que supunha existirem nas paredes, fez o papel de um homem totalmente desesperado.
Na verdade refletia friamente, esculpindo os últimos detalhes de seu plano. O que o inquietava era o fato de que seus cálculos tinham de incluir um fator imponderável: a vigilância do inimigo.
Seu plano só poderia ser coroado de êxito se todos naquela casa, até a última das sentinelas, tivessem sua atenção desviada ao máximo pelos acontecimentos que se desenrolassem no exterior da mesma.

* * *

Novos estranhos apareceram. Todos envergavam aquele traje estranho e possuíam a capacidade de se tornarem invisíveis.
Monterny não tinha a menor dúvida de que penetravam na área interna vindos pelo ar.
Por alguns minutos teve a impressão de que os estranhos tinham vindo para libertar o prisioneiro. Mas essa impressão desapareceu quando por uma fração de segundo descobriu um dos estranhos no telhado da casa, próximo à antena pela qual costumavam ser irradiadas as mensagens hipnóticas.
O Supercrânio sentiu-se alarmado.
Destacou quinze homens do contingente de trinta que guarnecia a base para proteger a antena colocada no telhado da casa. Mandou que outros dez patrulhassem a área adjacente, instruindo-os para que atirassem imediatamente e com todas as armas disponíveis contra qualquer coisa que se movesse pelo ar.
Depois de ter feito tudo que estava ao seu alcance para proteger a base, preparou-se para uma fuga precipitada. Sabia perfeitamente que se encontrava numa verdadeira armadilha. Se Rhodan — e o Supercrânio não teve a menor dúvida de que os invisíveis eram homens de Rhodan — não valorizava o prisioneiro tanto quanto ele, Monterny, acreditara no primeiro momento, poderia fazer a qualquer momento com que sua tropa-fantasma destruísse a casa por meio de uma explosão.
Depois dos primeiros acontecimentos não parecia muito provável que ele o fizesse.
Mas Monterny era um homem que costumava tomar suas precauções em tempo. Embaixo da casa, num subterrâneo ao qual só ele tinha acesso, começava um corredor que só voltava à superfície a um quilômetro do lugar em que se encontrava.
E um quilômetro, segundo os cálculos do Supercrânio, bastava para colocá-lo fora do alcance de Rhodan.

* * *

Exatamente uma hora depois de ter sido preso, Nyssen começou a martelar a porta com toda força dos seus punhos. Martelou-a durante quinze minutos; depois ouviu passos rastejantes.
Continuou a martelar até que a porta se abriu. Só então foi para o lado e se abaixou.
O vigia trazia a pistola na mão; mas Nyssen não veio da direção que ele supunha.
A borda da mão de Nyssen atingiu o alvo com a precisão de um centímetro. O vigia soltou um grito selvagem, largou a arma e rodopiou.
Seus movimentos eram lentos em comparação com os de Nyssen. Um soco bem dado atirou-o sobre o chão de concreto.
Ficou inconsciente por um minuto. Nesse tempo Nyssen pegou a arma e certificou-se de que, no corredor, não havia nada que pudesse perturbá-lo.
— Preste atenção! — disse ao vigia. — Preste muita atenção! Você sabe perfeitamente que me encontro numa situação terrível. Preciso de você para sair daqui. Não faço a menor questão de ser capturado mais uma vez. Gostaria disso tão pouco que o matarei assim que fizer qualquer coisa de que eu não goste. Entendeu?
O vigia era um japonês. Respondeu com um apressado aceno da cabeça. Nyssen tinha certeza de que apenas se encontrava sob uma influência pós-hipnótica relativamente débil.
— Há outro prisioneiro por aqui — afirmou Nyssen. — Onde está?
O vigia fez um gesto desolado em direção ao corredor.
— Quantos vigias existem aqui embaixo?
— Cinco.
— Leve-me ao outro prisioneiro, mas de tal maneira que não nos encontremos com nenhum dos outros vigias.
Por alguns minutos o japonês levou Nyssen de um canto para outro.
Finalmente encontraram Crest.
O arcônida levou algum tempo para compreender a sorte que estava tendo. Só com grande dificuldade Nyssen conseguiu expor seus planos.
— Ainda falta muito para estarmos em segurança — disse Nyssen em tom decidido. — O desconhecido ainda mantém firmemente a sua base. Temos de pôr a mão no radiador de nêutrons que me tiraram.
Finalmente Crest compreendeu. E concordou com todas as sugestões de Nyssen. Gritou com a porta aberta a toda a força de seus pulmões, e o vigia, que acorreu para ver qual era a origem de tamanho barulho, foi abatido por Nyssen, à traição, é verdade, mas em compensação sem a menor resistência.
Passaram sorrateiramente junto aos outros três vigias. Segurando a arma de que se haviam apoderado, Crest ficou de sentinela junto ao elevador, enquanto Nyssen e o japonês subiram. O próprio japonês deu-lhe uma indicação sobre o lugar em que poderia encontrar a arma neutrônica. Era na mesma sala em que um dos seqüestradores havia desaparecido por um instante, logo à sua chegada.
Embora não estivesse informado sobre o número de pessoas que se encontravam naquela casa, Nyssen tentou reaver sua arma e foi bem sucedido. Acompanhado de seu ex-vigilante, retornou ao subterrâneo.
Uma vez lá, manipulou a arma, no que foi apoiado pelas indicações de Crest, e depositou-a num lugar que julgava suficientemente eficaz e seguro.
Finalmente Crest e Nyssen puseram-se em movimento.

* * *

Poucos minutos depois, Rhodan e seus homens avançaram sem disfarce para a casa de campo, vindos de duas direções. O ataque do oeste foi iniciado cerca de dois minutos antes do que vinha do sul. Face a isso a casa ficou praticamente desguarnecida do lado do sul.
Nyssen e Crest aproveitaram o tempo. Correram para junto dos homens de Rhodan, quando os mesmos se encontravam a uns cem metros da casa.
Rhodan foi avisado e imediatamente mandou suspender o ataque. Um dos homens de seu grupo, equipado de microfone e alto-falante, penetrou na área interna da casa e explicou em volume tão alto que seria ouvido por todos, inclusive pelos vigias que se encontravam no subterrâneo:
— A casa deve ser evacuada imediatamente. Dentro de cinco minutos explodirá uma bomba que destruirá toda vida num raio de cem metros.
O efeito do aviso foi nulo. Os que se encontravam no interior da casa acreditavam que se tratasse de um truque. Dirigiram-se ao Supercrânio em busca de conselho, mas o mesmo não quis falar com ninguém.
Esperaram. Quando os cinco minutos se passaram sem que nada tivesse acontecido, todo mundo exultou.
A radiação neutrônica não pode ser vista, ouvida ou cheirada. Nem mesmo um fluxo muito reduzido.
Os homens da equipe do Supercrânio só perceberam que a bomba havia explodido quando de um instante para outro sua pele tornou-se vermelha e começou a arder. Logo após perderam a visão. Tomados de pânico, saíram correndo pelos corredores e procuraram sair da casa. Mas era tarde.
Apenas dois vigias de prisioneiros que tinham atendido ao aviso escaparam à catástrofe.

* * *
As autoridades japonesas só tiveram sua atenção despertada para os acontecimentos estranhos que se desenrolaram ao norte da grande via de acesso quando alguém constatou um nível extraordinário de radiatividade naquela área.
Isso aconteceu cinco horas depois da detonação da bomba. Àquela hora Rhodan já havia saído do país e retornado a Terrânia, acompanhado dos dois prisioneiros e da experiência que as ocorrências lhe renderam.

* * *

A conferência que segue foi realizada dois dias depois:
— Não alcançamos um êxito tão grande como acreditávamos — declarou Rhodan em tom sério. — Pelo que conseguimos saber dos dois prisioneiros e do proprietário da tipografia de Osaka, em que também conseguimos pôr a mão, o homem mais importante escapou. Nenhum dos prisioneiros jamais chegou a ver o grande desconhecido, nem de frente, nem numa tela de imagem. Entre os mortos que encontramos naquela casa havia um único confidente, com que tratava frente a frente. Mas um morto não pode nos revelar mais nada. Encontramos o corredor pelo qual o homem escapou. Mas perdemos sua pista.
“O material bastante escasso que encontramos naquela casa de campo praticamente não nos diz nada sobre os planos, as atividades e as possibilidades do inimigo. Mesmo que os homens que a teimosia levou à morte em Osaka constituíssem toda sua equipe, não lhe será difícil, face aos recursos de que dispõe, conseguir outros elementos. Portanto, não nos devemos iludir com a idéia de que a guerra já está decidida. Por enquanto nem sequer conseguimos localizar os cientistas seqüestrados em Terrânia. Até agora sabemos de três coisas:
“Além da equipe propriamente dita, que no momento deixou de existir, o inimigo possui um número desconhecido de colaboradores. Isso custou a vida de Michikai, o japonês contratado por Nyssen, e por pouco não custa a do próprio Nyssen. Ainda sabemos como funciona a transmissão mecânico-hipnótica dos comandos do desconhecido. Quando recorre ao videofone para estabelecer contato com os elementos de sua equipe, o que importa não são as palavras faladas, mas os modelos de onda que surgem na tela. É bem verdade que não se sabe se continuará a recorrer a esse meio de comunicação, quando souber que já descobrimos seu truque.
“Por fim, sabemos que a liquidação da base japonesa deve representar um sensível fracasso para o desconhecido. Embora não tenhamos conseguido muito, estragamos seus planos. Existe uma certa probabilidade de que fique nervoso e cometa nos próximos dias alguns erros que nos permitam chegar mais perto dele.”

* * *

Perry Rhodan em pessoa levou Betty Toufry ao avião que a levaria para Nova Iorque. Rhodan falava baixo, mas em tom insistente, e Betty era uma ouvinte muito atenta.
— Existe muita coisa que você não compreenderá, Betty — disse Rhodan. — Ao menos metade do que pretendemos fazer depende de que a General Cosmic Company continue viva. Você vai a Nova Iorque a fim de proteger Mr. Adams de qualquer inimigo que dele queira se aproximar às ocultas. Você terá de ficar com os olhos bem abertos, Betty!
Betty parou e lançou um olhar sério para Rhodan.
— Ficarei de olhos bem abertos.
Poucos minutos depois Betty estava a caminho de Nova Iorque.
Naquela mesma noite o capitão Farina transmitiu uma mensagem de Salt Lake City. Informou que ainda não havia encontrado qualquer pista. Disse textualmente:
— Se não tivesse visto o cadáver de Richman com meus próprios olhos, não acreditaria que alguém o assassinou. É o crime perfeito, Mr. Rhodan. Nenhuma pista, absolutamente nada.
Face a isso, as pesquisas em torno do assassínio de Richman foram definitivamente suspensas.
Quando Rhodan concluiu a palestra com Farina, Thora entrou na sala. Deixou que a porta de enrolar baixasse silenciosamente atrás dela e não interrompeu Rhodan quando ele lançou um olhar pensativo sobre as luzes coloridas do grande painel do telecomunicador.
De início pensou que não tivesse notado sua presença. Mas depois de algum tempo disse de repente:
— Ainda temos muita coisa a fazer, Thora. Já pensou nisso?
Thora aproximou-se.
— Sim; posso imaginar — respondeu.
Rhodan olhou-a.
— Já notou que existe uma pergunta para a qual ainda não encontramos nem um princípio de resposta?
Thora sorriu.
— É a explosão no bloco G, não é?
— Exatamente. Podemos imaginar de que forma foram subtraídos os destróieres. Basta um teleportador dotado da capacidade do que seqüestrou Crest. Pode introduzir seus cúmplices no território da Terceira Potência, um por um ou talvez ao mesmo tempo, e fazê-los descer na sala de comando das naves. Quanto ao resto, não haverá mais problema. Mas ainda não sabemos como alguém pode provocar uma explosão num pavilhão de montagem sem que nele se encontre um miligrama de material nuclear.
Houve uma ligeira pausa.
— Será que acredita que um homem como você levará muito tempo para descobrir a explicação? — perguntou Thora.
Rhodan encarou-a; parecia perplexo. Procurou um sinal de ironia em seu rosto; mas não o encontrou.
— Se isso foi um elogio — disse depois de algum tempo, com um sorriso — foi um elogio muito gentil.




* * *
* *
*





Na época em que a Terceira Potência foi fundada, Perry Rhodan mandou que seus ‘captores de mutantes’ corressem mundo para lhe trazer os elementos com que pudesse criar seu Exército de Mutantes.
O Supercrânio teve a mesma idéia. Em silêncio montou sua organização secreta, e agora achava que ela já era suficientemente forte para enfrentar a Terceira Potência. E é assim que se trava o Duelo de Mutantes, título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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