domingo, 4 de novembro de 2012

P-024 - Na Selva do Mundo Primitivo - Kurt Mahr [parte 3]


Alicarim confirmou com um aceno de cabeça.
Tomisenkow virou-se:
— Assumam posição de combate, rapazes. Ao lado dos troncos das árvores. E façam boa pontaria.
Olhou para o lado e viu Wlassov, que não sabia o que fazer.
— Não fique de pé por aí — disse Tomisenkow em tom contrariado. — É um tirano que vai devorar você se ficar de pé diante de suas patas. Peça a Jegorov que lhe mostre como se deve esperar um tirano. E não se esqueça de uma coisa: se ele baixar a cabeça para dar uma olhada na gente, atire no olho dele. É o único ponto vulnerável de seu corpo. Entendido?
— Entendido — respondeu Wlassov com um nó na garganta.
Alicarim permaneceu até o último instante em seu posto de escuta. Tomisenkow procurou se abrigar atrás de um tronco. Uma vez em posição, fez sinal a Alicarim, que desistiu de escutar.
O quirguiz esgueirou-se para um lugar que lhe fornecia abrigo e colocou a pistola automática ao seu lado.
— Está a menos de vinte metros — fungou. — Dentro de três ou quatro minutos ele nos farejará.
Tomisenkow se limitou a acenar com a cabeça.
Subitamente, entre dois dos passos retumbantes do sáurio, ouviu um ruído diferente. Sobressaltou-se e levou algum tempo para compreender que o ouvido não o enganara.
As preocupações com o tirano quase fizeram com que se esquecesse de Raskujan.
Tomisenkow começou a rir, e Alicarim, que também ouvira o ruído, acompanhou a gargalhada.
— Com todos os demônios — gemeu Tomisenkow. — Se essa gente não se cuidar, o tirano os devorará juntamente com o helicóptero.

* * *

Era um único aparelho, cuja tripulação consistia como de costume em dois homens, um tenente e um sargento. O sargento pilotava a máquina, o tenente observava o terreno. Há pouco o tenente murmurara:
— Gostaria de saber como alguém pode reconhecer pessoas em meio a esse tapete enredado.
E agora o raio do holofote de luz infravermelha descobriu alguma coisa que nada tinha que ver com o objetivo de suas buscas, mas assim mesmo ocupou toda sua atenção.
Era um pescoço robusto e musculoso, que ultrapassava ao menos em dez metros a cobertura da selva, e por cima dele uma cabeça enorme de focinho largo, que balançava suavemente sobre a coluna formada pelo pescoço.
Ordenou ao sargento que subisse cinqüenta metros e mantivesse o aparelho imóvel. Através de seu instrumento de vôo cego, que na realidade era um aparelho rígido de luz infravermelha, o sargento também havia percebido o sáurio. Executou a ordem e imobilizou o aparelho numa altitude segura, cerca de oitenta metros do lugar em que se encontrava o animal.
— Também parou — constatou o tenente. — Ao que parece não se interessa por nós. Descobriu alguma coisa.

* * *

Tomisenkow virou a cabeça e olhou para Thora, que também se abrigara atrás de uma arvore e segurava uma das pistolas automáticas que sobravam. Tomisenkow viu seu cabelo louro-claro brilhar na escuridão.
— Fique quieta — gritou em inglês. — Saberemos lidar com ele.
Thora respondeu em tom irônico:
— Não se preocupe comigo. Só estou interessada em saber quanto valem esses seus lança-granadas antiquados.
Com um resmungo de satisfação, Tomisenkow voltou a olhar para o outro lado.
De repente cessou o ruído que o sáurio produzia com seu deslocamento pela floresta. Tomisenkow assobiou por entre os dentes.
— Ele nos farejou — comentou Alicarim.
Tomisenkow se apoiou nos braços e gritou para a escuridão:
— Ele nos descobriu, rapazes. O espetáculo vai começar.
No seu subconsciente percebeu que o helicóptero também não se deslocava mais. Parado acima da cobertura vegetal da selva, parecia observar o sáurio.
Wlassov não estava gostando daquilo. Não era do seu gosto esperar um inimigo no escuro, ainda mais quando nem sequer sabia como ele era. Estava deitado atrás de uma árvore bem grossa, conforme Jegorov lhe recomendara; mas o próprio Jegorov estava tão distante que Wlassov não o via.
Mas ouviu o grito de advertência de Tomisenkow e estreitou a mão em torno da arma. Enfiara nela um pente de balas em posição de disparar, com dois pentes de reserva. Mais dez pentes se encontravam no chão, ao alcance de suas mãos.
Subitamente o cenário voltou a se movimentar. Wlassov ouviu um forte farfalhar e uma série de estalos quando o sáurio voltou a se mexer. Instintivamente aguardou o estrondo da próxima pisada.
Mas o estrondo não veio. Quase foi tarde demais quando Wlassov percebeu que aquilo que se havia posto em movimento era o pescoço do sáurio. Ouviu o estalo dos galhos bem em cima de sua cabeça e viu uma sombra descer do alto. De um instante para outro o ar se encheu de uma terrível fedentina. Wlassov ouviu um fungar rápido e furioso, quando o sáurio soltou o ar. Foi nesse instante que a cabeça gigantesca emergiu da escuridão.
Por um segundo o sangue gelou-lhe nas veias. Nunca vira, nem em sonho, uma coisa tão pavorosa e cruel. Viu uma boca com duas fileiras duplas de dentes bem afiados que se aproximava dele, uma boca tão grande que poderia perfeitamente ficar de pé no interior da mesma. Em algum lugar à sua direita e à sua esquerda os braços ligeiros do monstro atravessavam a folhagem; mas Wlassov fitou os dois olhos circulares e cintilantes do sáurio, que o fitavam curiosamente a uns três metros de distância.
Subitamente Wlassov se lembrou do conselho que Tomisenkow e Jegorov lhe haviam dado. Num movimento rápido ergueu a pistola automática, teve a tranqüilidade necessária para apontar cuidadosamente para o olho direito e apertou o gatilho.
A salva dos pequenos projéteis explosivos atingiu o alvo. O rosto terrível do sáurio desapareceu de repente, e um instante depois veio do alto um grito tão forte e pavoroso que Wlassov deixou cair a arma e comprimiu as mãos contra os ouvidos.

* * *

— É agora! — gritou o tenente que se encontrava no helicóptero. — É agora que ele vai agarrar a presa.
No filtro de luz infravermelha via-se perfeitamente que o sáurio dobrava o pescoço e mergulhava a cabeça entre a folhagem. Por alguns instantes só se viu a nuca escamosa e saliente do animal. Depois, num movimento súbito, a cabeça voltou a surgir com a boca muito aberta, mas que cabeça!
No lugar em que antes ficava o olho esquerdo via-se uma abertura profunda e irregular, de onde o sangue jorrava aos borbotões. O tenente levou algum tempo sem compreender que animal seria este que, num tempo tão curto, conseguira produzir uma ferida tão extensa naquela fera. Com os olhos muito abertos, esperou que outro sáurio surgisse da escuridão da selva e continuasse a despedaçar o primeiro.
Mas não houve nada disso. O monstro ferido virou-se com um grito e se afastou cambaleante.
E então o espírito do tenente se iluminou.
Uma salva bem dirigida de projéteis explosivos poderia causar uma ferida dessas, de projéteis iguais aos que eram utilizados nas pistolas que ele mesmo usava.
Sua ordem veio quase sob a forma de um chiado, e foi tão repentina que o sargento .estremeceu:
— Desça e dê busca no terreno em que o sáurio esteve.
O sargento obedeceu: o aparelho caiu para a frente e passou rente às copas das árvores. A massa imensa do sáurio abrira uma estrada em meio à selva, e o tenente dirigiu o facho do holofote para o lugar em que essa estrada fazia uma dobra repentina.
O sargento manteve o aparelho imóvel, e, na ânsia da observação, o próprio tenente não se deu conta do risco que com isso assumiam.
Tomisenkow compreendeu a situação. Não sabia o que teria atraído a atenção do helicóptero, mas não tinha a menor dúvida de que estava procurando os fugitivos. Por isso continuou no seu esconderijo e gritou:
— Fiquem deitados até que isso desapareça!
Mas esse grito não conseguiu superar o chiado dos jatos e atingir o ouvido de Wlassov, e mesmo que este o tivesse ouvido, provavelmente não lhe teria dado atenção. O estado de espírito indescritível em que se encontrava, feito de uma mistura quase psicopática de euforia da vitória com os efeitos do medo terrível por que passara, fez com que de um salto se colocasse na estrada aberta pelo sáurio. Uma vez lá, apontou a pistola automática para a sombra bem perceptível que representava o helicóptero e apertou o gatilho.
A cabina de vidro do helicóptero foi atingida em cheio. O sargento foi morto imediatamente, e o tenente, ainda incólume, compreendeu imediatamente o que havia acontecido. Sem se preocupar com os controles do helicóptero, que por alguns segundos manteve a mesma altitude, pegou o microfone do rádio sempre preparado para a transmissão de mensagens e gritou sua informação.
Ainda estava falando quando o aparelho tombou como uma pedra e com um tremendo estrondo se esfacelou no meio da estrada aberta pelo sáurio.

* * *

O posto de rádio instalado no acampamento de Raskujan captou a mensagem:
— Localizamos os prisioneiros. Um pouco ao nordeste do acampamento, três quilômetros...
Não se ouviu mais nada além de um estalo relativamente leve, que era o único ruído que, da tremenda explosão do helicóptero, foi transportado pelo éter até a cabine do operador de rádio.
Este era um homem experimentado. Sabia o que significava a gritaria nervosa e a súbita interrupção da mensagem. E tinha a impressão de que o coronel Raskujan acharia que se tratava de uma ocorrência trivial.
Estabeleceu contato com a sala de comando da nave capitania e comunicou ao coronel o que acabara de ouvir.

4



Ao que parecia os deuses de Vênus protegeram Wlassov. Com um salto de pantera conseguiu mal e mal afastar-se em tempo de escapar ao fogo violento da explosão. Aterrizou violentamente num arbusto malcheiroso, cujos galhos úmidos imediatamente começaram a enlaçar seu corpo. Mas o deslocamento de ar logo o livrou daquele abraço indesejável, atirando-o alguns metros para diante, sem produzir nele qualquer ferimento além de alguns arranhões.
De repente os acontecimentos excitantes dos últimos minutos foram seguidos pelo silêncio total da selva. Wlassov ouviu o sangue zumbir em seus ouvidos antes que a voz zangada de Tomisenkow chegasse até ele:
— Onde está esse idiota que atirou contra o helicóptero?
Wlassov se levantou e experimentou as pernas:
— Aqui! — gritou.
Depois pôs-se em movimento. Alguém ligou uma lâmpada e dirigiu o feixe de luz semi-encoberto para o solo. Era Tomisenkow. Alicarim e Zelinskij estavam a seu lado. Jegorov e a arcônida saíram da folhagem lado a lado.
— Você não ouviu — principiou Tomisenkow em tom contrariado — que dei ordem para que todo mundo permanecesse no lugar em que se encontrava?
— Não — respondeu Wlassov espantado e mantendo-se fiel à verdade.
— O que você pensou quando atirou contra o helicóptero?
Essa pergunta deixou Wlassov ainda mais espantado.
— Bem — respondeu em tom hesitante. — Devo ter pensado a mesma coisa que qualquer pessoa que pega uma pistola automática e atira contra um helicóptero inimigo. Não vejo nada de especial...
Tomisenkow não deixou que terminasse.
— Então não vê nada de especial! — gritou, zangado. — Você não podia imaginar que o pessoal do helicóptero ainda iria transmitir uma mensagem antes de cair?
— Num tempo tão curto? — objetou Wlassov.
— Num tempo tão curto! — escarneceu Tomisenkow. — E se não transmitirem nenhuma mensagem, não demorará mais de meia hora e Raskujan dará pela falta de um de seus aparelhos e mandará que saiam à procura. E encontrar este montão de metais com um aparelho de radar será questão de minutos. Você estragou tudo que já conseguimos fazer. Raskujan não precisará seguir nossa pista a partir do acampamento. Poderá começar aqui mesmo.
Wlassov deixou cair os ombros. De um instante para outro sentiu-se muito ridículo, quando poucos segundos antes ainda acreditara ser o herói do dia.
— Sim, eu reconheço — disse, abatido. — O que posso fazer?
— Você não pode fazer mais nada. Terá que usar as pernas da mesma forma que nós.
Tomisenkow virou-se e olhou para Jegorov e Thora.
— Se Raskujan ainda não sabia em que direção estávamos fugindo, agora ele sabe. Quer dizer que não devemos prosseguir na direção nordeste. Vamos tomar a direção sudeste para ver se conseguimos lograr os helicópteros. Isso representa alguns quilômetros a mais. Mas pelo que vejo, no momento, não temos outra alternativa.
Andaram o mais depressa possível pela estrada que o sáurio ferido, que já desaparecera nas profundezas da selva, havia aberto em direção ao leste. Aproveitaram uma pequena brecha na mata para voltar a mergulhar na escuridão das árvores.
Tal qual da primeira vez, Tomisenkow supunha que os homens de Raskujan procurariam os fugitivos na estrada larga pisada pelo sáurio. Assim, se a sorte os favorecesse, poderiam escapar dos helicópteros.


* * *


Poucos minutos depois das duzentas e treze horas, Rhodan e seus companheiros atingiram o pântano que, segundo se via, se estendia a uma distância desanimadora para ambos os lados.
Rhodan já fizera suas experiências com os pântanos venusianos. A idéia de contornar essa área de solo enganador nem lhe passou pela cabeça. Mandou que Son Okura examinasse as árvores que havia na área pantanosa e achou que as mesmas serviam aos seus propósitos.
— Vamos fazer uma ginástica e passar por cima — ordenou. — Son, você irá na ponta. Marshall, fique com os olhos bem abertos. Uma pisada ou um gesto de mão em falso, e será um homem morto.
Subiram às árvores por um feixe de cipós. Okura guiou o grupo e determinou a velocidade da marcha.
Em primeiro lugar, era o único que enxergava na escuridão; além disso, entre os três era o que se deslocava com maior dificuldade. Tinha dificuldades de andar que vinham de nascença. Por mais que se esforçasse em acompanhar o passo das pessoas normais, havia situações em que sua constituição física o obrigava a ser mais lento. E esta era uma dessas situações. Apesar da longa pausa todos estavam bem próximos ao esgotamento total; quem mais sentiu isso foi Son Okura.
É bem verdade que para Perry Rhodan as coisas não estavam muito melhores. Não tivera tempo para se ocupar com a ferida no ombro. Sentiu que o ferimento latejava e que o sangue que lhe corria pelas veias estava mais quente que antes. A atmosfera úmida da selva estava repleta de bactérias. Dentro em pouco a ferida soltaria pus, ou então ele ficaria com febre.
Ou ambas as coisas.
Sabia que estava na hora de fazer uma pausa de trinta horas no mínimo para dar algum descanso ao corpo maltratado e cuidar da ferida. Mas no momento as trinta horas eram preciosas demais para que pudesse gastá-las numa pausa.
Thora estava em perigo e com ela a base em Vênus. Muito embora Rhodan não duvidasse da fidelidade de Thora, era de recear que um belo dia acabaria não resistindo aos métodos que Raskujan empregava nos seus interrogatórios. E mesmo que não pudesse dizer ao coronel o que ele teria de fazer para penetrar na base, este dispunha de uma multidão de técnicos eletrônicos capazes de extrair das informações de Thora um volume de dados sobre a estrutura do cérebro positrônico em especial e a base em geral que poderia representar um inconveniente grave para a Terceira Potência.
Thora tinha que ser libertada.
Isso não representava qualquer dificuldade, a não ser a distância considerável que ainda tinha que ser percorrida até o campo energético.
Rhodan não tinha qualquer possibilidade de se identificar antes de chegar ao limite desse campo. Não dispunha de qualquer coisa que lhe permitisse um contato a grande distância. Só quando atingisse o campo protetor, o cérebro positrônico começaria a se ocupar com sua pessoa e descobriria que era a pessoa para a qual a base devia ser aberta a qualquer hora. Dali em diante tudo seria fácil.
O pântano que se estendia embaixo deles forçou sua paciência ao máximo. Nem mesmo a visão do japonês conseguia penetrar pela densa folhagem. Por isso viram-se obrigados a, de tempos em tempos, cortar um galho grosso e limpá-lo da folhagem para que o som do impacto no chão lhes revelasse a natureza do solo.
Por várias horas não ouviram outra coisa senão o eterno ruído produzido por um objeto pesado que cai no líquido viscoso do pantanal.
Rhodan sabia perfeitamente que tudo isso seria uma loucura rematada se Son Okura, o mutante, não estivesse com eles. Às duzentas e dezessete horas fizeram outra pausa. Rhodan gostaria de avançar mais algumas centenas de metros, pois Okura dizia que mais adiante a floresta era bem mais densa que no lugar em que se encontravam. Dali se concluía que o pântano terminava naquele lugar. Mas ninguém, naquela altura, era capaz sequer de levantar a perna, quanto mais arrastar todo o peso do corpo por um longo trecho de cipós.
No pântano os animais que andavam em cima das árvores eram tão raros que Rhodan dispensou as sentinelas. Os três dormiram tão profundamente como se tivessem desmaiado; até que ouviram um ruído, vindo de longe, que os arrancou imediatamente do sono, não porque fosse muito forte, mas porque destoava por completo daquele ambiente.
Era o chiado dos motores dos helicópteros e o ruído entrecortado dos canhões automáticos.
Estava tão distante que nem cogitavam da possibilidade de que pudesse ter alguma relação com eles. O ruído vinha do noroeste, onde os helicópteros de Raskujan pareciam ter descoberto alguma coisa sobre a qual valia a pena atirar.
Olhando para o relógio regulado para o tempo terreno, Rhodan viu que fazia cerca de três horas que haviam interrompido sua marcha. Faltava pouco para as duzentas e vinte horas.
Embora os tiros cessassem dentro de pouco tempo e os helicópteros se afastassem, Rhodan achou que era importante saber no que haviam atirado. Ainda mais que o ruído vinha de um lugar que ficava em sua rota. Além disso, as três horas de sono profundo lhes haviam restituído, embora provisoriamente, as forças a ponto de poderem reiniciar imediatamente a marcha.
Verificou-se que a suposição de Son Okura fora correta. Poucos minutos depois de terem partido notaram que embaixo deles o chão era seco e firme. Desceram e dali em diante conseguiram avançar um pouco mais depressa.
Meia hora depois o terreno entrou em aclive. Haviam atingido as imediações das montanhas, e isso lhes parecia ser um prenuncio feliz; pois a cadeia de montanhas em que começavam a penetrar era a mesma em que se situava a base.

* * *

O uivo dos helicópteros pairava constantemente sobre suas cabeças, às vezes bem perto, outras vezes mais afastado.
Os homens de Raskujan encontraram o montão de metal fundido do aparelho derrubado no momento em que o grupo de Tomisenkow acabara de desaparecer na selva. Conforme supusera Tomisenkow, voaram primeiro ao longo da estrada aberta pelo sáurio e deram busca na mesma. Quando viram que essa busca não dava resultado, mudaram de tática. Descreviam círculos largos pela área e paravam de vez em quando para descer um homem por uma corda; esse homem procurava localizar os fugitivos embaixo da folhagem.
Tomisenkow manteve o grupo bem reunido.
Depois de algum tempo o terreno começou a subir. Por algum tempo a subida foi bem suave, mas depois de uma dobra do terreno passou a ser tão íngreme que tiveram de recorrer às suas qualidades de alpinistas para prosseguir a marcha.
Com uma mão diante da outra, um pé diante do outro, subiram num ângulo de setenta graus por um paredão que, apesar do aclive, estava coberto de árvores e arbustos.
Tomisenkow esperava que lá em cima chegassem a um dos platôs rochosos que, vez por outra, se elevam acima da selva.
— Lá em cima a vegetação não é tão densa — explicou Tomisenkow a Alicarim, o quirguiz. — Poderemos observar os helicópteros por suas luzes de posição e orientar-nos por eles, até que desistam da busca.
Meia hora depois chegaram à beira do platô. Tomisenkow não se enganara. Até onde a vista alcançava na escuridão o chão era plano e a vegetação pouco densa. Mas era suficiente para que o solo do platô só pudesse ser visto dos helicópteros em poucos lugares. Tomisenkow contornou esses lugares, enquanto procurava um ponto de onde pudesse acompanhar a atuação dos helicópteros.
Encontraram um lugar desses. Ficava pouco além da borda do platô. A noroeste, o paredão caía quase na vertical em direção à selva. Logo atrás da borda do platô havia uma baixada rasa, coberta de arbustos, que seria um ótimo lugar para acampar. Tomisenkow mandou que Zelinskij, Jegorov, Wlassov e a arcônida descansassem ali, enquanto ele e Alicarim instalaram-se na borda rochosa para observar as luzes coloridas dos helicópteros.

* * *

O major Pjatkov — o mesmo que localizara o barco inflável de Rhodan e atirara uma bomba baby diante da caverna das focas — mandou que seu telegrafista o ligasse com o coronel Raskujan. Pjatkov era um dos favoritos de Raskujan; a ligação foi estabelecida imediatamente.
— Tive uma idéia — principiou Pjatkov sem preâmbulos. — O terreno em que devemos dar a busca é de constituição relativamente simples: todo plano até a encosta sul das montanhas. Mas Tomisenkow ainda não pode ter chegado lá. Antes dele só existe uma única elevação, um platô de rocha que se ergue uns trinta ou quarenta metros acima da selva. Tomisenkow precisa de um lugar em que possa ver quando suspendemos nossas buscas e se estamos muito perto dele. Sabe que somos obrigados a manter as luzes de posição acesas. Basta que se coloque num lugar adequado para poder nos observar com toda calma.
Raskujan ainda não estava convencido.
— Em que direção fica o platô, considerada a posição do aparelho derrubado? — perguntou.
— A sudeste.
Pjatkov sempre tinha uma resposta na ponta da língua.
— Acredito — disse — que Tomisenkow teve a mesma idéia. Depois de conhecermos qualquer ponto de sua trajetória, saberemos em que direção está fugindo. Enquanto não suspendermos as buscas, Tomisenkow marchará em qualquer direção, menos naquela em que o estivermos procurando.
— Hum — fez Raskujan.
— Na minha opinião — prosseguiu Pjatkov animadamente — devíamos pousar no platô com dois ou três helicópteros, sem chamar a atenção, e agarrar Tomisenkow no próprio ninho. Se os outros aparelhos fizerem barulho que chegue, não nos deverá ser difícil subir ao platô.
Raskujan acabou concordando. Pjatkov concluiu a palestra e instruiu dois helicópteros de seu grupo a seguirem-no. Foram na direção norte, quase até as encostas íngremes das montanhas, e desligaram as luzes de posição quando Pjatkov acreditou que não mais poderiam ser vistos do platô. Depois fizeram meia-volta e aproximaram-se do complexo rochoso, vindos do leste.
As máquinas pousaram numa clareira, pouco atrás da borda do platô. Os homens desceram. Pjatkov pediu que se mantivessem, por um instante, junto aos aparelhos. Só depois de ter certeza quase absoluta de que nas proximidades não havia nada de perigoso ou suspeito deu ordem de marcha.
Os homens não gostaram da missão. Nunca haviam saído dos acampamentos, a não ser no interior de helicópteros ou de barcos infláveis relativamente seguros.
O medo só diminuiu depois de uns quinze minutos de marcha.
Pjatkov calculou que a distância que teriam de percorrer para chegar à extremidade oposta do platô seria de cerca de cinco quilômetros. Em sua opinião, mesmo no escuro, essa distância poderia ser vencida dentro de uma hora e meia a duas horas.
Depois disso provaria a Raskujan que estava com a razão.

* * *

Alicarim virou-se.
— O que houve? — resmungou Tomisenkow.
Alicarim levou algum tempo para responder.
— Acho que ouvi um ruído; vem de lá. Apontou para o outro lado do platô.
— Deixe de bobagens — resmungou Tomisenkow. — Que ruído é?
— São helicópteros.
— E agora?
Alicarim aguçou o ouvido.
— Não ouço mais nada.
— Pois então — disse Tomisenkow, voltando a se apoiar nos cotovelos. — Estão todos na nossa frente. Como é que algum deles poderia surgir pelas costas?
Alicarim achou que a pergunta era tola. Não havia nada mais fácil para um helicóptero que contornar o platô e pousar do outro lado. Mas enquanto não tinha certeza de não ter se enganado, preferiu ficar quieto.
Assustou-se quando subitamente os canhões automáticos começaram a disparar em cima da selva. Tomisenkow levantou-se um pouco e com os olhos arregalados fitou a escuridão. Depois começou a rir.
— É formidável! — disse. — Um desses idiotas acredita que nos encontrou.
O tiroteio não durou muito. Terminou sem qualquer motivo plausível, tal qual havia começado. Ao mesmo tempo uma movimentação nervosa teve início na multidão das lâmpadas de posição. Os helicópteros suspenderam as buscas e afastaram-se. Poucos minutos depois não podiam ser vistos mais. Apenas o chiado dos jatos continuou a ser ouvido por mais alguns minutos.
— Não compreendo mais nada — comentou Tomisenkow.
Permaneceu deitado por mais algum tempo; depois levantou-se.
— Está cansado? — perguntou, dirigindo-se a Alicarim.
— Não senhor.
— Está bem. Vou deitar um pouco. Fique com os olhos bem abertos. E avise a Jegorov que dentro de uma hora deve revezá-lo.

* * *

O major Pjatkov trazia consigo um potente binóculo noturno, equipado com um pequeno holofote de luz infravermelha e o respectivo filtro.
Com esse binóculo descobriu o acampamento na baixada junto à borda leste do platô. Mandou que seus homens cercassem o acampamento, e que, ao seu comando, surpreendessem e prendessem os homens que dormiam.
Só depois percebeu que faltava um dos fugitivos. Incluindo a arcônida, dera-se pela falta de seis pessoas, entre elas o cabo Wlassov, que, segundo era de supor, devia ter se unido a Tomisenkow.
Mas Pjatkov só contou cinco homens no acampamento. Faltava um.
Onde estaria?
Pjatkov assumiu um risco: resolveu debilitar ainda mais o círculo já bastante esparso de seus homens, mandando que um deles saísse em busca do sexto fugitivo.
Depois ficou esperando.

* * *

Jegorov não tinha vindo. Provavelmente estaria dormindo.
Alicarim não se zangou. Não estava cansado, e além disso gostava de olhar para a escuridão, embora não visse nada.
De repente ouviu um ligeiro farfalhar. Subia pelo paredão; alguém parecia arranhar um objeto.
Agora o ruído estava bem embaixo dele. Alicarim se arrastou por um metro e percebeu que o ruído ainda vinha de baixo, na vertical.
Soltou um palavrão abafado, levantou-se e correu mais cinco metros. O ruído também estava lá.
Teve que caminhar mais de dez metros até que o arranhar viesse de lado.
Ajoelhou-se e esperou.
De início apenas viu alguma coisa que se movimentava na escuridão; mas não pôde identificar o que era.
Depois alguma coisa escura, brilhante, surgiu no campo de visão. O movimento que Alicarim vira vinha de duas figuras em forma de tentáculo, que assentavam na frente da coisa escura e brilhante que Alicarim havia visto.
Levantou-se de um salto.
Eram formigas!
Ficou mais tranqüilo ao constatar que os animais não se deslocavam em direção ao acampamento. O exército delas subiu pela borda do platô e, estalando e farfalhando, atravessou a folhagem. Cada uma tinha o tamanho da mão de um homem adulto.
Apesar disso, Alicarim pôs-se a voltar ao acampamento. As formigas de Vênus eram animais imprevisíveis. Além disso, ninguém sabia se possuíam o sentido do olfato, que eventualmente lhes permitiria farejar a presa humana.
Era necessário avisar Tomisenkow.
Ali...!
Num gesto instantâneo, mas silencioso, Alicarim deixou-se cair para a frente quando a sombra emergiu da escuridão. Por um instante xingou-se de idiota por causa do susto. Devia ser Jegorov que vinha revezá-lo.
Acontece que não era Jegorov.
E não era nenhum dos homens do grupo de Tomisenkow. O vulto que tinha diante de si media quase dois metros. Para quem olhava de baixo como Alicarim, destacava-se nitidamente contra o céu cinzento.
Passou a dois metros de distância do quirguiz. Andava cautelosamente, olhando de um lado para outro. Ainda não havia descoberto as formigas; apesar disso a área não parecia inspirar-lhe muita confiança.
Os pensamentos atropelaram-se no cérebro de Alicarim. Lembrou-se do barulho dos helicópteros que ouvira há mais de uma hora.
Afinal, o ouvido não o teria enganado mesmo?
Seguiu o homem, arrastando-se pelo chão. A menos de um metro à sua direita marchava o exército de formigas.
Ao chegar à borda do platô, o grandalhão parou. Olhou para a direita, para a esquerda e depois descobriu as formigas. Alicarim viu que, tomado de um tremendo susto, abriu as pernas para ter uma posição mais firme e levantou a pistola automática.
Foi quando Alicarim saltou para a frente.
O homem, mortalmente assustado pelas formigas, não ofereceu a menor resistência. Alicarim deu-lhe uma pisadela na cavidade do joelho e ao mesmo tempo golpeou seu pescoço com o lado da mão.
Com um grito de pânico, o homem caiu para a frente. Foi parar no meio das formigas. Debateu-se para afastar os animais que caíam em cima dele. A pistola foi atirada bem longe, por cima da borda do platô.
Alicarim rastejou para trás e escondeu-se numa moita.
Mas logo levantou-se de um salto. O acampamento estava em perigo! O homem atacado pelas formigas, que a essa hora já estava morto, não devia ter vindo só.
Mas Alicarim ainda não havia avançado dez passos quando percebeu que já não poderia prestar ajuda a ninguém.
Viu sombras que se movimentavam apressadamente na baixada. Gritos abafados soaram. Alguém praguejou: era a voz de Zelinskij.
Chegara tarde!
Alicarim mudou de direção e procurou se afastar o mais rápido possível do palco dos acontecimentos.

5



No lugar em que houvera o tiroteio não foi encontrado nada. Já se encontravam cerca de duzentos metros acima do nível da planície costeira, e evidentemente nem desconfiavam de que a finalidade do tiroteio consistira apenas em fazer barulho para que o major Pjatkov pudesse pousar no platô sem ser molestado.
Por algum tempo, Perry Rhodan acompanhou no seu receptor de pulso as mensagens trocadas entre os pilotos dos helicópteros. Delas se concluía, sem a menor sombra de dúvida, que os homens de Raskujan andavam à procura de prisioneiros que haviam fugido. Rhodan supôs que os fugitivos deviam ser alguns dos homens de Tomisenkow. Não ficou sabendo que Thora se encontrava entre eles. As mensagens apenas aludiam “aos fugitivos”.
Rhodan e seus companheiros se encontravam a poucos quilômetros do limite do campo protetor. Na opinião de Rhodan deviam fazer mais uma pausa de uma hora, antes de enfrentar o restante do caminho.

* * *

Raskujan tinha consciência do seu triunfo. Mandou que os dois prisioneiros mais importantes fossem conduzidos à sala de comando da nave capitania. Encarou-os com um sorriso amável e zombeteiro ao mesmo tempo e perguntou:
— O que esperavam conseguir?
Tomisenkow ainda não tivera a oportunidade de pôr em ordem sua figura esfarrapada. Tinha os cabelos desgrenhados e o uniforme, já estragado, ainda por cima continuava rasgado, tal qual saíra da briga com os homens de Pjatkov.
Thora não participara da breve luta. Estava suja, mas intacta, quando se defrontou com Raskujan.
Nem Tomisenkow nem Thora deram qualquer resposta à pergunta do coronel.
— Ah — disse Raskujan com um sorriso. — Continuam orgulhosos como sempre, não é?
Instalou-se confortavelmente na poltrona e cruzou as pernas.
— Lamento sua teimosia — prosseguiu. — Os senhores se opõem ao único poder real que existe em Vênus. Por quê?
Thora sorriu com desprezo. Tomisenkow respondeu mal-humorado:
— Porque não gostamos do senhor.
Raskujan não deixou se irritar.
— Parto de um ponto de vista mais negociável — explicou tranqüilamente a Tomisenkow. — Todos nós devíamos nos unir. Estou convencido de que juntos criaríamos um poder como ainda não existiu outro.
Tomisenkow soltou uma risada áspera.
— Só se Rhodan o deixasse em paz.
— Ora! — disse Raskujan com um gesto de desprezo. — Ele me deixou em paz durante um ano; por que não vai continuar assim? E se eu conseguir penetrar na base de Vênus com o apoio da senhora — fez um gesto em direção a Thora — nem mesmo Rhodan conseguirá pôr os pés neste planeta contra minha vontade.
— Não pense que vou ajudá-lo a entrar na base de Vênus — gritou Thora, furiosa.
— Pois eu saberei obrigá-la a isso! — disse Raskujan entre os dentes. Já estava começando a perder o autocontrole.
Thora fez um gesto de desprezo.
— Quem é o senhor para obrigar uma arcônida a falar? Além disso, Rhodan o agarrará antes que conclua o interrogatório.
Raskujan se levantou de um salto.
— Rhodan nem sequer está em Vênus! — gritou fora de si. — E se tentar pousar por aqui, saberei impedi-lo.
Nesse ponto a sensação de triunfo levou a melhor sobre a inteligência de Thora. Com os olhos chamejantes gritou:
— Não quebre a cabeça para descobrir como poderá impedir que Rhodan pouse neste planeta. Ele já se encontra em Vênus!
Mal acabou de pronunciar estas palavras, reconheceu o erro que havia cometido. Mas o espetáculo que se lhe ofereceu quando Raskujan, pálido como cera, cambaleou e caiu em sua poltrona, bem que valeu o susto que o erro lhe causava.
Atrás dela, Tomisenkow disse em voz baixa:
— A senhora não devia ter dito isso!

* * *

Alicarim marchava.
Reunindo toda a paciência peculiar a um asiático, procurou vencer todos os obstáculos para alcançar um objetivo, de cuja existência, por enquanto, apenas suspeitava.
Quando ainda era um prisioneiro de Raskujan, ouvira falar nos acontecimentos estranhos que se desenrolaram no mar: os fenômenos luminosos que foram observados, os dois helicópteros que nunca regressaram, a busca extenuante do major Pjatkov, a descoberta de um barco inflável e de três homens que nadavam e, por fim, o lançamento da bomba baby.
Alicarim sabia mais que isso. Lembrou-se do ataque que o acampamento de Tomisenkow, situado na península, sofrerá poucos dias antes que Raskujan o atacasse. O ataque fora repelido; haviam visto três homens, mas não conseguiram aprisionar nenhum deles.
Por fim, Alicarim ainda guardava uma lembrança bastante viva das armas de impulsos térmicos usadas pela Terceira Potência; conhecera-as há um ano. Era provável que os fenômenos luminosos observados pelos homens de Raskujan proviessem de armas desse tipo.
Era bem verdade que o resto não passava de suposições e cálculos. Se é que três homens da Terceira Potência, desprovidos de quase todos os recursos técnicos — assim concluiu Alicarim — se encontravam em Vênus, a primeira coisa que eles procurariam fazer era entrar em contato com o cérebro positrônico instalado no interior da fortaleza.
Foi por isso que Alicarim dirigiu sua marcha montanha acima. Sabia que o enorme campo protetor tinha um diâmetro de cinqüenta quilômetros. A chance de encontrar os três homens em algum ponto naquela extensa área era assustadoramente reduzida. Mas essa chance aumentava pelo fato de que, tal qual Alicarim, os três homens vinham do sul e provavelmente procurariam penetrar no campo protetor dessa direção.
Além disso, essa era a única chance de Alicarim. Em qualquer outro lugar, sua situação seria mais desesperadora do que no lugar em que havia alguma possibilidade de se encontrar com membros da Terceira Potência. Eram os únicos que podiam ajudá-lo.
Por isso Alicarim prosseguiu em sua marcha.
Depois de ter avançado um bom pedaço, viu a abóbada reluzente do campo protetor que surgia entre as copas de duas árvores e logo desapareceu entre a densa camada de nuvens.
A vegetação também era mais rala e a caminhada mais fácil.
Alicarim criou nova coragem e avançou com maior rapidez.

* * *

Fosse qual fosse a opinião que se tinha a respeito de Raskujan, às vezes ele sabia calcular uma situação.
Desde o início, os três homens a respeito dos quais o major Pjatkov lhe falara representaram um mistério para ele. Quem se atreveria a cruzar em plena noite o mar de Vênus num frágil barco inflável, ainda que esse mar apenas consistisse num braço de trezentos e cinqüenta quilômetros de largura?
Raskujan sabia que havia uma certa possibilidade, mesmo remota, de que, apesar dos canhões automáticos e da bomba baby, os três homens ainda estivessem vivos.
Se um desses homens fosse Perry Rhodan...
Raskujan prosseguiu nas suas conjecturas e chegou à mesma conclusão que, mais ou menos ao mesmo tempo e num lugar distante, veio à mente do quirguiz Alicarim.
Se é que Rhodan andou pelo mar num barco inflável, isso significava que, por qualquer motivo, perdera o contato com a Terra e com sua base em Vênus. Se não fosse assim, disporia de recursos técnicos muito maiores do que aqueles com os quais contava no momento.
Partindo desse pressuposto, convenceu-se de que Rhodan não teria coisa mais urgente a fazer senão alcançar o campo protetor que cercava sua base e penetrar na mesma; Raskujan não duvidou um instante sequer de que Rhodan teria possibilidade de fazê-lo.
O resultado lógico dessa conclusão foi uma ordem transmitida a toda a frota de helicópteros: deviam levantar vôo imediatamente, aproximar-se do campo protetor e atirar contra tudo que se movia nas proximidades do mesmo. Raskujan preferiu não revelar o fato de que essa ação se dirigia contra Perry Rhodan. Receava de que esse nome bastasse para amedrontar seus homens.
Depois de uma pausa que todos os tripulantes acharam muito curta, os helicópteros voltaram a levantar vôo. Raskujan contemplou na tela de imagem o quadro que se oferecia no campo de pouso bem iluminado; o espetáculo impressionante dos helicópteros que saíam em disparada tranqüilizou-o ao menos em parte.
O fato de que a maior das ações bélicas já realizadas em Vênus dirigia-se contra um único homem não o perturbou nem um pouco. Se dispusesse de mais equipamentos, enviaria dez vezes mais gente e material para destruir um único homem.
Perry Rhodan.

* * *

O corpo de Rhodan aproveitou a última pausa para, através de uma febre violenta, protestar contra os maus tratos que lhe eram infligidos.
Quando a pausa terminou e a marcha devia ser reiniciada, Rhodan batia os dentes. Marshall e o japonês sugeriram que a pausa fosse prolongada até que a febre terminasse, mas Rhodan respondeu com uma risada contrafeita:
— Receio que esta máquina miserável, — apontou para o peito — ficará febril enquanto não lhe dermos coisa melhor para fazer.
Prosseguiram em sua marcha. Tiveram sorte: o terreno continuava em subida e a vegetação tornava-se cada vez mais rala.
Mas Rhodan teve azar, pois teve de rever sua opinião sobre a máquina miserável. A febre não diminuiu; pelo contrário, aumentou. Houve momentos em que Rhodan teve de se apoiar ao ombro de Marshall para não cair.
Algum tempo depois, marchavam por um vale estreito situado nas montanhas. Ao atingirem a saída norte viram, aparentemente ao alcance da mão, a abóbada reluzente formada pelo campo protetor que cercava a base.
Rhodan soltou um suspiro de alívio. Praticamente já haviam conseguido, e não fora nada fácil.
O terreno em que marchavam consistia num planalto pedregoso coberto apenas de arbustos esparsos. Avançaram rapidamente, e a parede reluzente do campo protetor aproximava-se quase a olhos vistos.
— Ainda faltam uns oitocentos metros. — murmurou Marshall depois de algum tempo, para animar Rhodan e distraí-lo de suas dores.
Mal terminara, quando um zumbido agudo passou pelas montanhas, vindo do sul. Marshall estacou e Rhodan, que se apoiava em seu ombro, também parou.
Son Okura voltou-se bruscamente e fitou o céu escuro.
O zumbido tornou-se mais agudo, aproximou-se por cima do vale e dissociou-se no chiado dos jatos e nas batidas dos rotores.
— São helicópteros! — gritou o japonês.
— Pelo menos quarenta!
Rhodan enrijeceu o corpo e se manteve de pé com suas próprias forças. Voltou apressadamente a cabeça.
— Abriguem-se — fungou. — Lá atrás. Procurem atingir a encosta do vale.

* * *

Só por alguns minutos Alicarim acreditou que todo aquele aparato se destinava a ele. Ouviu que os helicópteros passaram em disparada por cima do esconderijo em que apressadamente se abrigara e começaram a cruzar à frente do campo energético.
Alicarim logo compreendeu suas intenções. Alguém tivera a mesma idéia que ele e procurava alcançar os três homens da Terceira Potência no lugar em que havia maior probabilidade de encontrá-los.
Alicarim pôs-se novamente a caminho e depois de algum tempo passou por um desfiladeiro onde o caminhar era muito difícil, e que atravessava a última barreira de montanhas, terminando na extremidade oeste de um vale cercado de todos os lados por encostas muito elevadas.
Mais ao norte — a uns dois quilômetros, pelos cálculos de Alicarim — a cúpula luminosa emergia do fundo do vale.
Era bem verdade que mais ao norte também os helicópteros cruzavam o ar, conforme o quirguiz ouvia perfeitamente. Uma vez que conhecia seus equipamentos e estava muito bem informado sobre a eficiência dos holofotes de luz infravermelha, procurou se abrigar cuidadosamente. Dessa forma avançou mais devagar, mas com uma segurança incomparavelmente maior.
Os helicópteros passaram sobre o vale numa altura reduzida. Rhodan e seus companheiros não conseguiram atingir a encosta; esconderam-se sob uma pedra larga, de cerca de dois metros de altura. Depois de terem percebido que, por enquanto, não haviam sido descobertos, prosseguiram na retirada e esconderam-se na entrada de uma caverna que penetrava na encosta rochosa. A partir dali Son Okura observou os helicópteros.
— Estão se dividindo — disse. — Dois grupos dirigem-se para o leste e o oeste, ao longo do campo energético, enquanto outro grupo cruza bem diante dele.
Rhodan quase não tinha capacidade de responder.
— Devemos prosseguir — gemeu. — Só poderemos entrar em contato com o cérebro positrônico quando tivermos atingido o limite do campo energético.
Marshall protestou.
— Se fosse o senhor, eu preferiria...
— Cale a boca! — ordenou Rhodan e levantou-se, apoiando a mão na parede rochosa da caverna.
No mesmo instante Son Okura, que se encontrava na entrada da caverna, virou-se com um grito abafado e levantou o radiador térmico.
— Pare!
Ouviu-se uma voz quase incompreensível vinda da direita. Marshall não entendeu uma palavra. Deixou Rhodan a sós e, com a arma engatilhada, colocou-se ao lado do japonês.
— Quem é? — perguntou. Okura deu de ombros.
— É um russo. Diz que é um dos homens de Tomisenkow, e que fugiu do campo de prisioneiros.
Marshall baixou a arma. Fechou os olhos, enquanto Okura mantinha o desconhecido à distância, e concentrou-se sobre os pensamentos que fluíam do cérebro do desconhecido.
— Está bem — resmungou depois de algum tempo e fez um sinal para Okura. — As intenções dele são boas.
Okura também baixou a arma. Gritou em russo para que o homem se aproximasse.
Finalmente Marshall viu-o emergir da escuridão. Era pequeno, mas atarracado. Tinha os olhos oblíquos e os maxilares salientes de um asiático. Dirigindo-se a Son Okura, disse:
— Meu nome é Alicarim. Sou um dos homens de Tomisenkow. Posso contar muita coisa.
Rhodan dispôs-se a ouvir o homem, embora tivesse muita pressa. Alicarim fez um breve relato de tudo que havia acontecido depois do assalto de Raskujan ao acampamento de Tomisenkow.
— Depois desse incidente — murmurou Rhodan — as coisas não serão nada fáceis para Thora. Raskujan não recuará diante das medidas mais violentas para obrigá-la a falar. Vamos adiante!
Saíram da caverna e caminharam rentes à encosta. Aproveitavam todo acidente do terreno que pudesse lhes proporcionar uma proteção e Son Okura manteve os helicópteros sob uma observação ininterrupta. O relato de Alicarim e a preocupação por Thora pareciam ter dado novas forças a Perry Rhodan. Percorreu quase metade do caminho que faltava com suas próprias forças; só no último trecho voltou a se apoiar em Marshall.
Aproximaram-se a uns cinqüenta metros da parede reluzente, sem que os homens que se encontravam nos helicópteros de Raskujan os houvessem visto. Mas dali em diante a situação se tornou crítica.
No último trecho não havia praticamente nenhum abrigo. Só de vez em quando via-se um bloco de pedra, mas na maioria eram tão pequenos que dificilmente poderiam proteger um homem.
Além do mais, Rhodan não teve a menor dúvida de que os helicópteros lançariam bombas assim que descobrissem suas vítimas. E contra uma bomba, a maior das pedras não oferecia proteção suficiente.
Notava-se que Rhodan recorria às últimas reservas de energia. Tinha a face flácida e em sua pele surgiam manchas vermelhas. Sua voz era rouca e entrecortada.
— Vamos fazer uma manobra desviacionista — ordenou. — Um de nós vai atrair a atenção deles. Enquanto os helicópteros se ocupam com esse homem, os outros avançam até o campo protetor. Acredito que o cérebro positrônico só levará alguns segundos para me identificar e abrir a barreira energética por um instante. Quem está disposto a ir?
Alicarim, que não havia entendido uma palavra, pediu que Okura traduzisse o que Rhodan acabara de dizer.
— Eu vou — afirmou depois disso. Okura traduziu suas palavras.
Rhodan não teve nenhuma objeção, ou ao menos não teve nenhuma objeção com a qual quisesse despender tempo naquele instante. Alicarim não pertencia à Terceira Potência. Não tinha nenhum motivo para arriscar a vida nessa manobra temerária.
Mas não havia tempo para debates.
O quirguiz saiu rastejando, depois de ter sido avisado de que deveria começar a correr assim que o campo energético se apagasse. Ninguém sabia quais eram suas idéias quanto à maneira de atrair a atenção dos helicópteros.
Os outros esperaram, febris e impacientes.

* * *

Pjatkov acreditara que o vale que, vindo do sul, estendia-se até a abóbada energética, provavelmente seria o lugar em que os homens que procurava poderiam ser encontrados.
Não tinha a menor idéia de quem eram esses homens. Supunha que deviam ser muitos, ou então, que devia tratar-se de gente muito perigosa ou importante, pois de outra maneira Raskujan não se daria à tamanho trabalho para agarrá-los.
O helicóptero de Pjatkov tinha quatro tripulantes: o piloto, um observador, um telegrafista e ele mesmo. De vez em quando substituía o observador em seu trabalho.
Olhou para o relógio. Ainda poderiam permanecer ali durante cinco horas; depois teriam de regressar para reabastecer. Dentro de cinco horas aqueles desconhecidos teriam que...
— Olhe! — gritou o observador. — Um homem!
Pjatkov empurrou o homem para o lado e olhou pelo filtro ótico. Lá embaixo, em meio às rochas, havia um homem. Encontrava-se a apenas vinte metros do limite do campo protetor e corria que nem um louco.
— Fogo! — berrou Pjatkov.
O observador colocou-se atrás do canhão automático, abrangeu o alvo no pequeno telescópio da mira e começou a disparar. Aborrecido, notou que os projéteis detonavam a uma boa distância do homem que corria e corrigiu a pontaria. Mas antes que conseguisse alvejar o desconhecido, este desapareceu atrás de uma pedra.
O major Pjatkov fungava de nervosismo.
— Desça!
O helicóptero desceu.
— Circule em tomo da rocha.
A máquina inclinou-se ligeiramente e começou a descrever um círculo amplo em torno da rocha.
— Chegue mais perto! — gritou Pjatkov, furioso.
Mas logo percebeu outro movimento pelo canto do olho. Girou rapidamente o filtro ótico e viu os três homens que, a cem metros dali, corriam em direção ao campo energético reluzente. Numa fração de segundo compreendeu que o avanço do homem que se encontrava ali embaixo fora apenas aparente.
O perigo real era representado por aqueles três homens.
— Vá para a esquerda — gritou para o piloto. — Ali há mais gente.
O piloto, que só via os acontecimentos que se desenrolavam bem à sua frente, levou algum tempo para compreender a nova ordem e retificar o curso.
— Mais rápido! — ordenou Pjatkov. — Preparem as bombas.
Pôs a mão para o lado e, numa batida, ligou o rádio. Não seria necessário perder muitas palavras; as vozes de comando bastariam para que os ocupantes dos outros aparelhos compreendessem o que se passava.
Os três fugitivos chegaram ao campo energético.
— As bombas estão prontas — anunciou o observador.
Pjatkov notou que dois aparelhos que voavam a seu lado atiravam com seus canhões automáticos contra os fugitivos.
— As bombas serão lançadas quando eu ordenar — disse.
As bombas preparadas pelo observador eram dotadas de cargas explosivas simples. Nenhum helicóptero que se encontrasse a uma altitude tão pequena arriscaria o uso de bombas nucleares, por menores que fossem.
Mas uma bomba explosiva seria suficiente para...
O campo energético se apagou.
Pjatkov soltou um grito estridente e apavorado quando o campo energético desapareceu de repente. Mas no mesmo instante compreendeu a chance extraordinária que, com isso, lhe era oferecida.
— Vire para a direita! — gritou para o piloto. — Atravesse o campo energético!
O piloto não estava preparado para essa missão. Levou cinco segundos para corrigir o curso. Pjatkov parecia febril.
Finalmente a máquina girou no ar e disparou em velocidade máxima para o lugar em que, poucos instantes antes, a barreira energética se erguia desde o fundo do vale.
Nenhum dos ocupantes do helicóptero de Raskujan chegou a ver que a barreira energética voltou a reluzir no mesmo instante em que o helicóptero se dispôs a romper a respectiva área.
Os ocupantes dos outros helicópteros viram uma explosão ofuscante, que produziu um forte estalo nos receptores.
Mais tarde ninguém saberia dizer se o helicóptero de Pjatkov foi consumido pela energia da barreira energética, ou se foi despedaçado pela explosão das bombas que trazia a bordo.
Depois do primeiro instante de pavor, os ocupantes dos outros helicópteros deram-se conta de que, ao que tudo indicava, depois da ligeira interrupção tudo voltara a ser como era antes, e que naqueles poucos segundos os desconhecidos conseguiram penetrar na área da base.
O coronel Raskujan recebeu esta mensagem lacônica:
— O major Pjatkov está morto. Os fugitivos estão fora de nosso controle, por terem penetrado na base.

* * *

Raskujan logo compreendeu o significado dessa mensagem. Rhodan conseguira penetrar em sua base.
Supôs que dentro de poucos minutos Rhodan utilizaria seu potencial técnico invencível para atacar o campo de foguetes e destruí-lo.
Mandou que o acampamento entrasse em regime de prontidão para a defesa, o que não exigiu maiores preparativos ou modificações. Desde o dia em que pousara em Vênus contava constantemente com algum acontecimento imprevisto e agrupou seus homens e equipamentos de tal forma que poderiam se defender contra um ataque vindo de qualquer direção.
Havia outra questão: será que o agrupamento adequado também se tornaria eficiente face ao furacão artificial que, segundo esperava, seria desencadeado por Perry Rhodan?
Raskujan era de opinião que a resposta só poderia ser negativa. Por isso fez outros preparativos, mas em segredo: além dele e das pessoas atingidas, só uma pessoa soube deles, o piloto que dirigiria o helicóptero.
Ajudado pelo piloto, amarrou as mãos de Tomisenkow e Thora, que eram os mais importantes dentre seus prisioneiros. Fizeram-nos caminhar diante dos canos das pistolas automáticas e ajudaram-nos a entrar no helicóptero que já estava à espera.
Quando as mãos vigorosas do piloto empurraram Tomisenkow para dentro do aparelho, o mesmo lançou um olhar de desprezo por cima do ombro e disse:
— Alguma coisa não deu certo, não é? Os ratos estão abandonando o navio que vai afundar.
— Cale a boca! — rosnou Raskujan. Não disse mais nada.
A cabina era mais ampla que na maioria dos helicópteros. Havia quatro poltronas para passageiros. Thora e Tomisenkow foram obrigados a sentar nas da frente, enquanto Raskujan sentou atrás deles, com a arma engatilhada. O piloto se enfiou na sua poltrona apertada e aguardou alguma coisa. A porta externa se fechou com um chiado.
— Prestem atenção! — disse Raskujan com a voz embaraçada. — O que me interessa a esta altura é não cair nas mãos de Rhodan. Ele conseguiu penetrar em sua base e dentro de poucos minutos estará aqui. Minha situação é muito séria. Levo os dois. O senhor, Tomisenkow, conhece este planeta, e a senhora, Thora, me servirá de refém diante de Rhodan. Neste helicóptero encontra-se uma ampla provisão de armas, munições e mantimentos. Tomisenkow, a tarefa do senhor por enquanto consiste em descobrir um esconderijo seguro para nós.
Uma vez lá, aguardaremos até que Rhodan se mostre disposto a entrar em negociações. Como disse, minha situação é muito séria. Antes de perder a última chance, que são os senhores, prefiro matá-los. Não se esqueçam disso! Tomisenkow, instrua o piloto sobre o curso que deve tomar.
Uma porção de idéias sobressaltou-se no cérebro de Tomisenkow. A mais razoável delas foi a de que no momento não havia outra coisa a fazer senão obedecer às ordens de Raskujan.
— Siga um curso entre duzentos e setenta e duzentos e oitenta graus — resmungou para o piloto. — Suba para cinco mil metros, pois daqui a pouco chegaremos às montanhas.

* * *

Perry Rhodan ainda conseguira forças para formular uma ordem dirigida ao cérebro positrônico, ordem esta que Marshall deveria transmitir por via telepática. Uma vez ciente da presença de Rhodan, era de supor que o cérebro captasse, compreendesse e executasse a mensagem telepática.
A mensagem incluía o pedido de fornecer um meio de transporte que permitisse vencer quanto antes os cinqüenta quilômetros que ainda os separavam do centro da base, e de preparar uma série de medicamentos que colocasse Rhodan em condições de atuar no mais breve espaço de tempo.

* * *

Alicarim não escapou apenas aos tiros disparados pelo helicóptero de Pjatkov; também conseguiu penetrar em tempo na área da base.
Uma vez transmitida a ordem a Marshall, Rhodan desmaiou. Marshall repetiu a ordem até que Son Okura viu um planador que se deslocava a pouca altura e uma velocidade tremenda. Rhodan foi colocado no aparelho, e os outros instalaram-se nas poltronas. Poucos minutos depois o aparelho colocou-os no interior da fortaleza e transportou Rhodan para o lugar em que os medicamentos já haviam sido preparados.
Dali a meia hora Rhodan já estava em condições de formular ordens precisas. Instruiu o cérebro positrônico a desativar o campo energético que cercava todo o planeta, para que Reginald Bell pudesse pousar com sua nave auxiliar. Para evitar outras complicações ainda mandou que a barreira energética de quinhentos quilômetros de diâmetro — que, nos momentos críticos, costumava cercar a área no lugar do anteparo de cinqüenta quilômetros, sempre que o planeta todo não estivesse protegido — também não fosse ativada.
Só então Rhodan considerou terminado o período de esforços sobre-humanos e permitiu uma pausa de sono a si e a seus companheiros totalmente exaustos.

* * *

Reginald Bell reagiu com a explosividade de um vulcão até então contido por uma fina crosta de terra.
O girino — isto é, a nave auxiliar de sessenta metros de diâmetro — avançou a toda velocidade e com os campos protetores ativados para as camadas mais profundas da atmosfera de Vênus. A uma velocidade de mach 15 — ou seja, quinze vezes a velocidade do som — o impacto do campo energético sobre as moléculas de ar ionizava estas e produzia uma certa luminosidade. Com a beleza imponente de um cometa gigante, arrastando atrás de si a ofuscante faixa branco-azulada de ar ionizado, a nave precipitou-se pela noite de Vênus e surgiu sobre o acampamento de Raskujan. Entre os homens que deviam defender o lugar o medo puro e simples começou a se espalhar face ao fenômeno nunca visto.
A nave não foi bombardeada. Aliás, um projétil terreno não lhe poderia causar qualquer dano. Numa altura de cem metros, manteve-se imóvel acima do acampamento. Bell não assumiu qualquer risco. Mandou que Tako Kakuta, o teleportador, ocupasse o grande projetor mental, e mandou que todo o acampamento fosse coberto pela ordem de capitulação, transmitida por via hipnótica.
Só depois disso pousou a nave no chão e começou a realizar seu inventário. Sabia que Thora era uma prisioneira do acampamento e, apesar de todos os ressentimentos que nutria para com a mesma, suas primeiras preocupações dirigiram-se a ela.
Não a encontrou. Os prisioneiros que capturou mostraram-se dóceis, conforme lhes ordenava o comando hipnótico, e conduziram-no para a parte do acampamento em que Thora devia se encontrar. Não estava lá, e ninguém sabia onde poderia estar.
Só depois de algum tempo notou-se que Tomisenkow também não se encontrava no acampamento. E, quando se verificou que o coronel Raskujan havia dado o fora, Bell começou a tirar suas conclusões dos acontecimentos, conclusões estas que se aproximavam bastante da verdade.
Logo se deu conta de que não valeria a pena sair à procura dos desaparecidos. Raskujan não deixaria de dar um sinal de vida assim que a situação voltasse à calma; além disso, nada se poderia fazer contra ele enquanto Thora se encontrasse em suas mãos.

* * *

— Passe entre os dois cumes de montanha — ordenou Tomisenkow.
O piloto relatava constantemente o que via na tela do instrumento de observação, e face a esses dados Tomisenkow fornecia o curso a ser seguido.
Pelo cálculo de Tomisenkow, no curso de uma hora haviam se afastado cerca de cento e cinqüenta quilômetros do acampamento, já que as montanhas e as complicações na transmissão das ordens obrigaram-nos a voar devagar.
A velocidade foi reduzida ainda mais pelo fato de que Tomisenkow procurava ganhar tempo. Esperava que a vigilância de Raskujan se tornasse menos intensa, e que Thora fizesse alguma coisa que o distraísse.
— Atrás destes cumes há outros — disse o piloto. — São três, que estão em fila. O do meio deve ter uns oito ou nove mil metros de altura.
Tomisenkow respondeu com um aceno da cabeça.
— Passe entre o da esquerda e o do meio, e depois tome o curso de duzentos e cinqüenta graus.
Raskujan pigarreou.
— Será que ainda sabe para onde está nos levando?
— Sei, sim — resmungou Tomisenkow.
Nesse instante Thora soltou um grito estridente e se aproximou de Tomisenkow.
— O que houve? — perguntou Raskujan em tom áspero.
Thora sacudiu os ombros.
— Ali — gritou amedrontada. — Um lagarto voador.
Olhou pela janela, como se visse alguma coisa. Seu pavor estava tão bem fingido que, por um instante, o próprio Tomisenkow não sabia se realmente havia visto um lagarto.
Raskujan escorregou para o outro assento e comprimiu o rosto contra a lâmina de plástico transparente. Colocara a pistola automática sobre o joelho.
No mesmo instante Tomisenkow virou-se, colocou os joelhos sobre o assento de sua poltrona e deixou-se cair para a frente. Antes que Raskujan percebesse do que se tratava, comprimira as costas contra seu corpo, inclinando o tronco para a frente, e levantara as mãos amarradas, apertando-as em torno do pescoço de Raskujan. Apertou a garganta do coronel com toda a força de seus dedos. Não via o efeito que estava produzindo.
— Pare — gritou Thora. — O senhor o está matando.
O piloto tivera sua atenção despertada pela cena. Virou a cabeça e olhou para trás.
— Cuide do helicóptero — gritou Tomisenkow. — Senão acabamos caindo.
Quando Tomisenkow soltou Raskujan, este caiu molemente no seu assento. Ainda com as mãos amarradas, Tomisenkow pegou a pistola automática e firmou-a entre dois assentos, fazendo com que apontasse para o piloto.
— Não pense que um homem amarrado não pode atirar — disse. — Basta apertar o gatilho e o senhor será um homem morto. Volte ao acampamento.
A situação era grotesca. Tomisenkow estava ajoelhado na poltrona em que poucos instantes antes Raskujan estivera sentado. Apoiou a barriga no encosto, com a pistola automática atrás de si, de tal maneira que podia alcançá-la com as mãos. Não teria o menor problema em puxar o gatilho. Mas bastava que a arma presa entre os dois assentos escorregasse para baixo para que o piloto não mais se encontrasse ao alcance de seus tiros... e tudo estaria terminado.
Felizmente agora, que Raskujan já não podia fazer mais nada, tornava-se relativamente fácil desamarrar as mãos. Thora conseguiu tirar do bolso de Tomisenkow um pequeno canivete que lhe haviam deixado e com ele cortou as cordas que o amarravam.
O resto foi uma brincadeira. O piloto, que de qualquer maneira não estava convencido de que Raskujan seria o mais gentil dos chefes e que suas ordens eram muito sensatas, só precisou de um pequeno estímulo, representado pela visão da pistola automática engatilhada, para se submeter prontamente às ordens de Tomisenkow.
Este procurou cuidar de Raskujan. Levou um susto tremendo ao constatar que o coronel estava morto.
Cobriu-o com sua jaqueta.
— Não merece outra coisa — disse. — Apesar disso tenho pena.

* * *

Poucas horas depois da meia-noite foi anunciada a chegada de Rhodan. Voou num aparelho da base e pousou no antigo acampamento de Raskujan, junto à nave auxiliar de Reginald Bell.
O campo de pouso estava profusamente iluminado.
Rhodan já fora informado sobre os acontecimentos. Soube que Raskujan procurara desaparecer com Tomisenkow e Thora e que os dois prisioneiros haviam regressado ao acampamento com o cadáver de Raskujan.
Quando entrou na sala de comando da nave auxiliar, Bell apresentou seu relato, conforme determinavam as normas. Nesse relato incluía-se o seguinte trecho:
— Tomisenkow pede, com o devido respeito, que o senhor lhe conceda uma entrevista.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Onde está Thora?
Bell ergueu os ombros.
— Ao que parece preferiu ficar só. Sempre respeitei os desejos daquela mulher.
Mais uma vez Rhodan acenou com a cabeça.
— Nesse caso vou falar com Tomisenkow.
Bell saiu da sala de comando. Dali a pouco Tomisenkow entrou. Rhodan ofereceu-lhe uma poltrona.
— O senhor vai ficar admirado — principiou Tomisenkow sem preâmbulos — com a proposta que vou formular.
Rhodan sorriu com essa fala sem rebuços.
— Antes de sua chegada — prosseguiu o general — falei com os homens de Raskujan. Contei-lhes que conseguimos viver em Vênus durante um ano sem que dispuséssemos de quaisquer recursos, e que viveríamos muito melhor se dispuséssemos de mais algumas das bênçãos da tecnologia. Eu lhes sugeri que ficássemos para sempre em Vênus, e eles concordaram. Todos, com exceção de uns quatro ou cinco.
Fitou Rhodan numa atitude de expectativa.
— Está bom — disse Rhodan. — Ou melhor, excelente. Não oponho nada a que os senhores se fixem, desde que deixem nossa base em paz.
Tomisenkow sacudiu a cabeça.
— Nem pensamos nisso. Soubemos o que aconteceu com o governo do Bloco Oriental. Meus companheiros e eu já rompemos com o passado. E, ao que tudo indica, para os homens da frota de Raskujan não foi muito difícil fazer o mesmo.
Rhodan se levantou e ficou andando de um lado para outro. Subitamente Tomisenkow ouviu que ria.
— Nunca imaginava — disse — que meus planos se realizariam tão depressa.
— Seus planos? — perguntou Tomisenkow, espantado.
— Isso mesmo; meus planos. Na sua opinião, qual foi o motivo por que há um ano não destruí sua frota com os tripulantes?
— Porque... porque... bem, não sei.
— Porque acreditava — interveio Rhodan — que, se continuassem vivos, formariam uma base muito sadia para a primeira colônia a ser instalada em Vênus. Realizei uma experiência com seres humanos; e o ser humano revelou suas aptidões.
Tomisenkow, espantado, ficou de queixo caído. Só aos poucos deu-se conta de que nos últimos meses não fizera outra coisa senão bancar a marionete que alguém arrasta por um fio. Sua inteligência rebelou-se contra essa idéia. Quando finalmente sua mente a absorveu, Tomisenkow sentiu-se possuído pela cólera.
Mas só por um instante.
Não era nenhuma vergonha, para um homem, que Perry Rhodan o conduzisse por um fio invisível.
Rhodan parecia adivinhar seus pensamentos.
— Não perca seu orgulho — disse. — Só a idéia foi minha. O senhor conservou a liberdade de ação. E não tenho receio em afirmar que o senhor a aproveitou muito bem. Acredito que não estarei errando se lhe deixo as mãos livres para instalar a colônia e lhe prometo nosso auxílio.
Tomisenkow tinha a impressão de que estava sonhando. Levantou-se, dirigiu-se a Rhodan e apertou-lhe a mão.
— Obrigado — murmurou. — Muito obrigado.
Enquanto saía, muito nervoso, murmurou uma série de palavras russas, que Rhodan não compreendeu.
Só dez horas depois Rhodan encontrou-se com a arcônida.
Não a procurara. Da sala de comando, resolveu as coisas que tinham de ser resolvidas e começou a preparar a decolagem em direção à Terra.
Thora veio sem ser chamada.
Quase sem o menor ruído, mandou abrir a escotilha e por algum tempo manteve-se imóvel na entrada, antes que Rhodan notasse sua presença.
Logo percebeu seu embaraço e sua insegurança. Como não devia se sentir aquela mulher. Sua fuga precipitada da Terra provocara toda aquela confusão, que por pouco não trazia a morte de Rhodan e o fim da Terceira Potência.
Aproximou-se com passos hesitantes. Rhodan levantou-se e foi ao seu encontro. Viu que ela se dispunha a falar, apressou o passo e segurou a mão dela entre as suas.
— A senhora não imagina — disse com a voz baixa — como me sinto feliz por revê-la.
Isso lhe tirou toda a munição. Não conseguiu dizer mais nada; nada de todas as desculpas e motivos que havia preparado. Fez uma coisa muito espantosa: inclinou-se para a frente até que sua cabeça encostasse no ombro de Rhodan e chorou.
Thora, a arcônida, a mulher que tinha um bloco de gelo no lugar do coração, estava chorando.
Rhodan procurou consolá-la. Deu início a algumas frases consoladoras, mas também não se lembrou de uma coisa adequada que pudesse dizer. Tudo que lhe ocorresse parecia ridículo e inexpressivo.
Ficou parado, segurou Thora pelo ombro e deixou que chorasse à vontade.

* * *

— Tripulação a bordo! — anunciou Bell. — A nave está pronta para decolar.
Rhodan fez um gesto com a cabeça e olhou para a tela. A primeira luz do novo dia surgiu no horizonte.
— Está na hora de irmos para casa — disse em tom pensativo.
Bell deu uma risadinha.
— Neste meio tempo Freyt deve ter criado cabelos brancos. Não sabe nada dos acontecimentos em Vênus além do pouco que pude informar.
Rhodan se dirigiu ao microfone do intercomunicador.
— Decolaremos dentro de sessenta segundos — disse com a voz tranqüila.
Reginald Bell ocupou seu lugar.
— Controle!
Com um ligeiro estalo algumas chaves mudaram de posição.
— Tudo em ordem.
— Cuidado, vamos decolar.
A nave levantou-se e, numa velocidade fascinante, subiu ao céu pálido. Aquilo que antes fora o acampamento de Raskujan e agora era o de Tomisenkow ficou para trás; por um instante a abóbada reluzente de cinqüenta quilômetros formada pelo campo protetor da fortaleza emergiu da escuridão.
Rhodan voltara a modificar os comandos introduzidos no cérebro positrônico. Desta vez seguiu os dados e as sugestões fornecidas pelo próprio cérebro. Não haveria outro incidente como o que acabara de se verificar.
Depois de algum tempo, o sol surgiu no horizonte, qual uma enorme lanterna amarela, envolto na densa atmosfera de Vênus.
— Se este sol tivesse brilhado o tempo todo para nós — disse Rhodan em tom pensativo — muita coisa teria sido bem mais fácil.



* * *
* *
*




Em sua caminhada em direção à barreira energética da fortaleza de Vênus, conseguiram por mais de uma vez lograr a morte, que parecia certa.
Depois disso, operando no ambiente seguro da fortaleza, não tiveram a menor dificuldade em terminar, num golpe, as insensatas lutas pelo poder que vinham sendo travadas entre os colonos involuntários de Vênus. Libertado Vênus, o campo de atividade de Perry Rhodan volta a deslocar-se para a Terra, onde O Supercrânio dá início ao seu jogo nefasto...
O Supercrânio é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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