Alicarim confirmou com um aceno de cabeça.
Tomisenkow virou-se:
— Assumam posição de combate, rapazes. Ao
lado dos troncos das árvores. E façam boa pontaria.
Olhou para o lado e viu Wlassov, que não
sabia o que fazer.
— Não fique de pé por aí — disse
Tomisenkow em tom contrariado. — É um tirano que vai devorar você se ficar de
pé diante de suas patas. Peça a Jegorov que lhe mostre como se deve esperar um
tirano. E não se esqueça de uma coisa: se ele baixar a cabeça para dar uma
olhada na gente, atire no olho dele. É o único ponto vulnerável de seu corpo.
Entendido?
— Entendido — respondeu Wlassov com um nó
na garganta.
Alicarim permaneceu até o último instante
em seu posto de escuta. Tomisenkow procurou se abrigar atrás de um tronco. Uma
vez em posição, fez sinal a Alicarim, que desistiu de escutar.
O quirguiz esgueirou-se para um lugar que
lhe fornecia abrigo e colocou a pistola automática ao seu lado.
— Está a menos de vinte metros — fungou. —
Dentro de três ou quatro minutos ele nos farejará.
Tomisenkow se limitou a acenar com a
cabeça.
Subitamente, entre dois dos passos
retumbantes do sáurio, ouviu um ruído diferente. Sobressaltou-se e levou algum
tempo para compreender que o ouvido não o enganara.
As preocupações com o tirano quase fizeram
com que se esquecesse de Raskujan.
Tomisenkow começou a rir, e Alicarim, que
também ouvira o ruído, acompanhou a gargalhada.
— Com todos os demônios — gemeu
Tomisenkow. — Se essa gente não se cuidar, o tirano os devorará juntamente com
o helicóptero.
* * *
Era um único aparelho, cuja tripulação
consistia como de costume em dois homens, um tenente e um sargento. O sargento
pilotava a máquina, o tenente observava o terreno. Há pouco o tenente
murmurara:
— Gostaria de saber como alguém pode
reconhecer pessoas em meio a esse tapete enredado.
E agora o raio do holofote de luz infravermelha
descobriu alguma coisa que nada tinha que ver com o objetivo de suas buscas,
mas assim mesmo ocupou toda sua atenção.
Era um pescoço robusto e musculoso, que
ultrapassava ao menos em dez metros a cobertura da selva, e por cima dele uma
cabeça enorme de focinho largo, que balançava suavemente sobre a coluna formada
pelo pescoço.
Ordenou ao sargento que subisse cinqüenta
metros e mantivesse o aparelho imóvel. Através de seu instrumento de vôo cego,
que na realidade era um aparelho rígido de luz infravermelha, o sargento também
havia percebido o sáurio. Executou a ordem e imobilizou o aparelho numa
altitude segura, cerca de oitenta metros do lugar em que se encontrava o
animal.
— Também parou — constatou o tenente. — Ao
que parece não se interessa por nós. Descobriu alguma coisa.
* * *
Tomisenkow virou a cabeça e olhou para
Thora, que também se abrigara atrás de uma arvore e segurava uma das pistolas
automáticas que sobravam. Tomisenkow viu seu cabelo louro-claro brilhar na
escuridão.
— Fique quieta — gritou em inglês. —
Saberemos lidar com ele.
Thora respondeu em tom irônico:
— Não se preocupe comigo. Só estou
interessada em saber quanto valem esses seus lança-granadas antiquados.
Com um resmungo de satisfação, Tomisenkow
voltou a olhar para o outro lado.
De repente cessou o ruído que o sáurio
produzia com seu deslocamento pela floresta. Tomisenkow assobiou por entre os
dentes.
— Ele nos farejou — comentou Alicarim.
Tomisenkow se apoiou nos braços e gritou
para a escuridão:
— Ele nos descobriu, rapazes. O espetáculo
vai começar.
No seu subconsciente percebeu que o
helicóptero também não se deslocava mais. Parado acima da cobertura vegetal da
selva, parecia observar o sáurio.
Wlassov não estava gostando daquilo. Não
era do seu gosto esperar um inimigo no escuro, ainda mais quando nem sequer
sabia como ele era. Estava deitado atrás de uma árvore bem grossa, conforme
Jegorov lhe recomendara; mas o próprio Jegorov estava tão distante que Wlassov
não o via.
Mas ouviu o grito de advertência de
Tomisenkow e estreitou a mão em torno da arma. Enfiara nela um pente de balas
em posição de disparar, com dois pentes de reserva. Mais dez pentes se
encontravam no chão, ao alcance de suas mãos.
Subitamente o cenário voltou a se
movimentar. Wlassov ouviu um forte farfalhar e uma série de estalos quando o
sáurio voltou a se mexer. Instintivamente aguardou o estrondo da próxima
pisada.
Mas o estrondo não veio. Quase foi tarde
demais quando Wlassov percebeu que aquilo que se havia posto em movimento era o
pescoço do sáurio. Ouviu o estalo dos galhos bem em cima de sua cabeça e viu
uma sombra descer do alto. De um instante para outro o ar se encheu de uma
terrível fedentina. Wlassov ouviu um fungar rápido e furioso, quando o sáurio
soltou o ar. Foi nesse instante que a cabeça gigantesca emergiu da escuridão.
Por um segundo o sangue gelou-lhe nas
veias. Nunca vira, nem em sonho, uma coisa tão pavorosa e cruel. Viu uma boca
com duas fileiras duplas de dentes bem afiados que se aproximava dele, uma boca
tão grande que poderia perfeitamente ficar de pé no interior da mesma. Em algum
lugar à sua direita e à sua esquerda os braços ligeiros do monstro atravessavam
a folhagem; mas Wlassov fitou os dois olhos circulares e cintilantes do sáurio,
que o fitavam curiosamente a uns três metros de distância.
Subitamente Wlassov se lembrou do conselho
que Tomisenkow e Jegorov lhe haviam dado. Num movimento rápido ergueu a pistola
automática, teve a tranqüilidade necessária para apontar cuidadosamente para o
olho direito e apertou o gatilho.
A salva dos pequenos projéteis explosivos
atingiu o alvo. O rosto terrível do sáurio desapareceu de repente, e um
instante depois veio do alto um grito tão forte e pavoroso que Wlassov deixou
cair a arma e comprimiu as mãos contra os ouvidos.
* * *
— É agora! — gritou o tenente que se
encontrava no helicóptero. — É agora que ele vai agarrar a presa.
No filtro de luz infravermelha via-se
perfeitamente que o sáurio dobrava o pescoço e mergulhava a cabeça entre a
folhagem. Por alguns instantes só se viu a nuca escamosa e saliente do animal.
Depois, num movimento súbito, a cabeça voltou a surgir com a boca muito aberta,
mas que cabeça!
No lugar em que antes ficava o olho
esquerdo via-se uma abertura profunda e irregular, de onde o sangue jorrava aos
borbotões. O tenente levou algum tempo sem compreender que animal seria este
que, num tempo tão curto, conseguira produzir uma ferida tão extensa naquela
fera. Com os olhos muito abertos, esperou que outro sáurio surgisse da
escuridão da selva e continuasse a despedaçar o primeiro.
Mas não houve nada disso. O monstro ferido
virou-se com um grito e se afastou cambaleante.
E então o espírito do tenente se iluminou.
Uma salva bem dirigida de projéteis
explosivos poderia causar uma ferida dessas, de projéteis iguais aos que eram
utilizados nas pistolas que ele mesmo usava.
Sua ordem veio quase sob a forma de um
chiado, e foi tão repentina que o sargento .estremeceu:
— Desça e dê busca no terreno em que o
sáurio esteve.
O sargento obedeceu: o aparelho caiu para
a frente e passou rente às copas das árvores. A massa imensa do sáurio abrira
uma estrada em meio à selva, e o tenente dirigiu o facho do holofote para o
lugar em que essa estrada fazia uma dobra repentina.
O sargento manteve o aparelho imóvel, e,
na ânsia da observação, o próprio tenente não se deu conta do risco que com
isso assumiam.
Tomisenkow compreendeu a situação. Não
sabia o que teria atraído a atenção do helicóptero, mas não tinha a menor
dúvida de que estava procurando os fugitivos. Por isso continuou no seu esconderijo
e gritou:
— Fiquem deitados até que isso desapareça!
Mas esse grito não conseguiu superar o
chiado dos jatos e atingir o ouvido de Wlassov, e mesmo que este o tivesse
ouvido, provavelmente não lhe teria dado atenção. O estado de espírito indescritível
em que se encontrava, feito de uma mistura quase psicopática de euforia da
vitória com os efeitos do medo terrível por que passara, fez com que de um
salto se colocasse na estrada aberta pelo sáurio. Uma vez lá, apontou a pistola
automática para a sombra bem perceptível que representava o helicóptero e
apertou o gatilho.
A cabina de vidro do helicóptero foi
atingida em cheio. O sargento foi morto imediatamente, e o tenente, ainda
incólume, compreendeu imediatamente o que havia acontecido. Sem se preocupar
com os controles do helicóptero, que por alguns segundos manteve a mesma
altitude, pegou o microfone do rádio sempre preparado para a transmissão de
mensagens e gritou sua informação.
Ainda estava falando quando o aparelho
tombou como uma pedra e com um tremendo estrondo se esfacelou no meio da
estrada aberta pelo sáurio.
* * *
O posto de rádio instalado no acampamento
de Raskujan captou a mensagem:
— Localizamos os prisioneiros. Um pouco ao
nordeste do acampamento, três quilômetros...
Não se ouviu mais nada além de um estalo
relativamente leve, que era o único ruído que, da tremenda explosão do
helicóptero, foi transportado pelo éter até a cabine do operador de rádio.
Este era um homem experimentado. Sabia o
que significava a gritaria nervosa e a súbita interrupção da mensagem. E tinha
a impressão de que o coronel Raskujan acharia que se tratava de uma ocorrência
trivial.
Estabeleceu contato com a sala de comando
da nave capitania e comunicou ao coronel o que acabara de ouvir.
4
Ao que parecia os deuses de Vênus
protegeram Wlassov. Com um salto de pantera conseguiu mal e mal afastar-se em
tempo de escapar ao fogo violento da explosão. Aterrizou violentamente num
arbusto malcheiroso, cujos galhos úmidos imediatamente começaram a enlaçar seu
corpo. Mas o deslocamento de ar logo o livrou daquele abraço indesejável,
atirando-o alguns metros para diante, sem produzir nele qualquer ferimento além
de alguns arranhões.
De repente os acontecimentos excitantes
dos últimos minutos foram seguidos pelo silêncio total da selva. Wlassov ouviu
o sangue zumbir em seus ouvidos antes que a voz zangada de Tomisenkow chegasse
até ele:
— Onde está esse idiota que atirou contra
o helicóptero?
Wlassov se levantou e experimentou as
pernas:
— Aqui! — gritou.
Depois pôs-se em movimento. Alguém ligou
uma lâmpada e dirigiu o feixe de luz semi-encoberto para o solo. Era
Tomisenkow. Alicarim e Zelinskij estavam a seu lado. Jegorov e a arcônida
saíram da folhagem lado a lado.
— Você não ouviu — principiou Tomisenkow
em tom contrariado — que dei ordem para que todo mundo permanecesse no lugar em
que se encontrava?
— Não — respondeu Wlassov espantado e
mantendo-se fiel à verdade.
— O que você pensou quando atirou contra o
helicóptero?
Essa pergunta deixou Wlassov ainda mais
espantado.
— Bem — respondeu em tom hesitante. — Devo
ter pensado a mesma coisa que qualquer pessoa que pega uma pistola automática e
atira contra um helicóptero inimigo. Não vejo nada de especial...
Tomisenkow não deixou que terminasse.
— Então não vê nada de especial! — gritou,
zangado. — Você não podia imaginar que o pessoal do helicóptero ainda iria
transmitir uma mensagem antes de cair?
— Num tempo tão curto? — objetou Wlassov.
— Num tempo tão curto! — escarneceu
Tomisenkow. — E se não transmitirem nenhuma mensagem, não demorará mais de meia
hora e Raskujan dará pela falta de um de seus aparelhos e mandará que saiam à
procura. E encontrar este montão de metais com um aparelho de radar será
questão de minutos. Você estragou tudo que já conseguimos fazer. Raskujan não
precisará seguir nossa pista a partir do acampamento. Poderá começar aqui
mesmo.
Wlassov deixou cair os ombros. De um
instante para outro sentiu-se muito ridículo, quando poucos segundos antes
ainda acreditara ser o herói do dia.
— Sim, eu reconheço — disse, abatido. — O
que posso fazer?
— Você não pode fazer mais nada. Terá que
usar as pernas da mesma forma que nós.
Tomisenkow virou-se e olhou para Jegorov e
Thora.
— Se Raskujan ainda não sabia em que
direção estávamos fugindo, agora ele sabe. Quer dizer que não devemos
prosseguir na direção nordeste. Vamos tomar a direção sudeste para ver se
conseguimos lograr os helicópteros. Isso representa alguns quilômetros a mais.
Mas pelo que vejo, no momento, não temos outra alternativa.
Andaram o mais depressa possível pela
estrada que o sáurio ferido, que já desaparecera nas profundezas da selva,
havia aberto em direção ao leste. Aproveitaram uma pequena brecha na mata para
voltar a mergulhar na escuridão das árvores.
Tal qual da primeira vez, Tomisenkow
supunha que os homens de Raskujan procurariam os fugitivos na estrada larga
pisada pelo sáurio. Assim, se a sorte os favorecesse, poderiam escapar dos
helicópteros.
* * *
Poucos minutos depois das duzentas e treze
horas, Rhodan e seus companheiros atingiram o pântano que, segundo se via, se
estendia a uma distância desanimadora para ambos os lados.
Rhodan já fizera suas experiências com os
pântanos venusianos. A idéia de contornar essa área de solo enganador nem lhe
passou pela cabeça. Mandou que Son Okura examinasse as árvores que havia na
área pantanosa e achou que as mesmas serviam aos seus propósitos.
— Vamos fazer uma ginástica e passar por
cima — ordenou. — Son, você irá na ponta. Marshall, fique com os olhos bem
abertos. Uma pisada ou um gesto de mão em falso, e será um homem morto.
Subiram às árvores por um feixe de cipós.
Okura guiou o grupo e determinou a velocidade da marcha.
Em primeiro lugar, era o único que
enxergava na escuridão; além disso, entre os três era o que se deslocava com
maior dificuldade. Tinha dificuldades de andar que vinham de nascença. Por mais
que se esforçasse em acompanhar o passo das pessoas normais, havia situações em
que sua constituição física o obrigava a ser mais lento. E esta era uma dessas
situações. Apesar da longa pausa todos estavam bem próximos ao esgotamento
total; quem mais sentiu isso foi Son Okura.
É bem verdade que para Perry Rhodan as
coisas não estavam muito melhores. Não tivera tempo para se ocupar com a ferida
no ombro. Sentiu que o ferimento latejava e que o sangue que lhe corria pelas
veias estava mais quente que antes. A atmosfera úmida da selva estava repleta
de bactérias. Dentro em pouco a ferida soltaria pus, ou então ele ficaria com
febre.
Ou ambas as coisas.
Sabia que estava na hora de fazer uma
pausa de trinta horas no mínimo para dar algum descanso ao corpo maltratado e
cuidar da ferida. Mas no momento as trinta horas eram preciosas demais para que
pudesse gastá-las numa pausa.
Thora estava em perigo e com ela a base em
Vênus. Muito embora Rhodan não duvidasse da fidelidade de Thora, era de recear
que um belo dia acabaria não resistindo aos métodos que Raskujan empregava nos
seus interrogatórios. E mesmo que não pudesse dizer ao coronel o que ele teria
de fazer para penetrar na base, este dispunha de uma multidão de técnicos
eletrônicos capazes de extrair das informações de Thora um volume de dados
sobre a estrutura do cérebro positrônico em especial e a base em geral que
poderia representar um inconveniente grave para a Terceira Potência.
Thora tinha que ser libertada.
Isso não representava qualquer
dificuldade, a não ser a distância considerável que ainda tinha que ser
percorrida até o campo energético.
Rhodan não tinha qualquer possibilidade de
se identificar antes de chegar ao limite desse campo. Não dispunha de qualquer
coisa que lhe permitisse um contato a grande distância. Só quando atingisse o
campo protetor, o cérebro positrônico começaria a se ocupar com sua pessoa e
descobriria que era a pessoa para a qual a base devia ser aberta a qualquer hora.
Dali em diante tudo seria fácil.
O pântano que se estendia embaixo deles
forçou sua paciência ao máximo. Nem mesmo a visão do japonês conseguia penetrar
pela densa folhagem. Por isso viram-se obrigados a, de tempos em tempos, cortar
um galho grosso e limpá-lo da folhagem para que o som do impacto no chão lhes
revelasse a natureza do solo.
Por várias horas não ouviram outra coisa
senão o eterno ruído produzido por um objeto pesado que cai no líquido viscoso
do pantanal.
Rhodan sabia perfeitamente que tudo isso
seria uma loucura rematada se Son Okura, o mutante, não estivesse com eles. Às
duzentas e dezessete horas fizeram outra pausa. Rhodan gostaria de avançar mais
algumas centenas de metros, pois Okura dizia que mais adiante a floresta era
bem mais densa que no lugar em que se encontravam. Dali se concluía que o
pântano terminava naquele lugar. Mas ninguém, naquela altura, era capaz sequer
de levantar a perna, quanto mais arrastar todo o peso do corpo por um longo
trecho de cipós.
No pântano os animais que andavam em cima
das árvores eram tão raros que Rhodan dispensou as sentinelas. Os três dormiram
tão profundamente como se tivessem desmaiado; até que ouviram um ruído, vindo
de longe, que os arrancou imediatamente do sono, não porque fosse muito forte,
mas porque destoava por completo daquele ambiente.
Era o chiado dos motores dos helicópteros
e o ruído entrecortado dos canhões automáticos.
Estava tão distante que nem cogitavam da
possibilidade de que pudesse ter alguma relação com eles. O ruído vinha do noroeste,
onde os helicópteros de Raskujan pareciam ter descoberto alguma coisa sobre a
qual valia a pena atirar.
Olhando para o relógio regulado para o
tempo terreno, Rhodan viu que fazia cerca de três horas que haviam interrompido
sua marcha. Faltava pouco para as duzentas e vinte horas.
Embora os tiros cessassem dentro de pouco
tempo e os helicópteros se afastassem, Rhodan achou que era importante saber no
que haviam atirado. Ainda mais que o ruído vinha de um lugar que ficava em sua
rota. Além disso, as três horas de sono profundo lhes haviam restituído, embora
provisoriamente, as forças a ponto de poderem reiniciar imediatamente a marcha.
Verificou-se que a suposição de Son Okura
fora correta. Poucos minutos depois de terem partido notaram que embaixo deles
o chão era seco e firme. Desceram e dali em diante conseguiram avançar um pouco
mais depressa.
Meia hora depois o terreno entrou em
aclive. Haviam atingido as imediações das montanhas, e isso lhes parecia ser um
prenuncio feliz; pois a cadeia de montanhas em que começavam a penetrar era a
mesma em que se situava a base.
* * *
O uivo dos helicópteros pairava
constantemente sobre suas cabeças, às vezes bem perto, outras vezes mais
afastado.
Os homens de Raskujan encontraram o montão
de metal fundido do aparelho derrubado no momento em que o grupo de Tomisenkow
acabara de desaparecer na selva. Conforme supusera Tomisenkow, voaram primeiro
ao longo da estrada aberta pelo sáurio e deram busca na mesma. Quando viram que
essa busca não dava resultado, mudaram de tática. Descreviam círculos largos
pela área e paravam de vez em quando para descer um homem por uma corda; esse
homem procurava localizar os fugitivos embaixo da folhagem.
Tomisenkow manteve o grupo bem reunido.
Depois de algum tempo o terreno começou a
subir. Por algum tempo a subida foi bem suave, mas depois de uma dobra do
terreno passou a ser tão íngreme que tiveram de recorrer às suas qualidades de alpinistas
para prosseguir a marcha.
Com uma mão diante da outra, um pé diante
do outro, subiram num ângulo de setenta graus por um paredão que, apesar do
aclive, estava coberto de árvores e arbustos.
Tomisenkow esperava que lá em cima
chegassem a um dos platôs rochosos que, vez por outra, se elevam acima da
selva.
— Lá em cima a vegetação não é tão densa —
explicou Tomisenkow a Alicarim, o quirguiz. — Poderemos observar os
helicópteros por suas luzes de posição e orientar-nos por eles, até que
desistam da busca.
Meia hora depois chegaram à beira do
platô. Tomisenkow não se enganara. Até onde a vista alcançava na escuridão o
chão era plano e a vegetação pouco densa. Mas era suficiente para que o solo do
platô só pudesse ser visto dos helicópteros em poucos lugares. Tomisenkow
contornou esses lugares, enquanto procurava um ponto de onde pudesse acompanhar
a atuação dos helicópteros.
Encontraram um lugar desses. Ficava pouco
além da borda do platô. A noroeste, o paredão caía quase na vertical em direção
à selva. Logo atrás da borda do platô havia uma baixada rasa, coberta de
arbustos, que seria um ótimo lugar para acampar. Tomisenkow mandou que
Zelinskij, Jegorov, Wlassov e a arcônida descansassem ali, enquanto ele e
Alicarim instalaram-se na borda rochosa para observar as luzes coloridas dos
helicópteros.
* * *
O major Pjatkov — o mesmo que localizara o
barco inflável de Rhodan e atirara uma bomba baby diante da caverna das focas — mandou que seu telegrafista o
ligasse com o coronel Raskujan. Pjatkov era um dos favoritos de Raskujan; a
ligação foi estabelecida imediatamente.
— Tive uma idéia — principiou Pjatkov sem
preâmbulos. — O terreno em que devemos dar a busca é de constituição
relativamente simples: todo plano até a encosta sul das montanhas. Mas
Tomisenkow ainda não pode ter chegado lá. Antes dele só existe uma única
elevação, um platô de rocha que se ergue uns trinta ou quarenta metros acima da
selva. Tomisenkow precisa de um lugar em que possa ver quando suspendemos
nossas buscas e se estamos muito perto dele. Sabe que somos obrigados a manter
as luzes de posição acesas. Basta que se coloque num lugar adequado para poder
nos observar com toda calma.
Raskujan ainda não estava convencido.
— Em que direção fica o platô, considerada
a posição do aparelho derrubado? — perguntou.
— A sudeste.
Pjatkov sempre tinha uma resposta na ponta
da língua.
— Acredito — disse — que Tomisenkow teve a
mesma idéia. Depois de conhecermos qualquer ponto de sua trajetória, saberemos em
que direção está fugindo. Enquanto não suspendermos as buscas, Tomisenkow
marchará em qualquer direção, menos naquela em que o estivermos procurando.
— Hum — fez Raskujan.
— Na minha opinião — prosseguiu Pjatkov
animadamente — devíamos pousar no platô com dois ou três helicópteros, sem
chamar a atenção, e agarrar Tomisenkow no próprio ninho. Se os outros aparelhos
fizerem barulho que chegue, não nos deverá ser difícil subir ao platô.
Raskujan acabou concordando. Pjatkov
concluiu a palestra e instruiu dois helicópteros de seu grupo a seguirem-no.
Foram na direção norte, quase até as encostas íngremes das montanhas, e
desligaram as luzes de posição quando Pjatkov acreditou que não mais poderiam
ser vistos do platô. Depois fizeram meia-volta e aproximaram-se do complexo
rochoso, vindos do leste.
As máquinas pousaram numa clareira, pouco
atrás da borda do platô. Os homens desceram. Pjatkov pediu que se mantivessem,
por um instante, junto aos aparelhos. Só depois de ter certeza quase absoluta
de que nas proximidades não havia nada de perigoso ou suspeito deu ordem de
marcha.
Os homens não gostaram da missão. Nunca
haviam saído dos acampamentos, a não ser no interior de helicópteros ou de
barcos infláveis relativamente seguros.
O medo só diminuiu depois de uns quinze
minutos de marcha.
Pjatkov calculou que a distância que
teriam de percorrer para chegar à extremidade oposta do platô seria de cerca de
cinco quilômetros. Em sua opinião, mesmo no escuro, essa distância poderia ser
vencida dentro de uma hora e meia a duas horas.
Depois disso provaria a Raskujan que
estava com a razão.
* * *
Alicarim virou-se.
— O que houve? — resmungou Tomisenkow.
Alicarim levou algum tempo para responder.
— Acho que ouvi um ruído; vem de lá.
Apontou para o outro lado do platô.
— Deixe de bobagens — resmungou
Tomisenkow. — Que ruído é?
— São helicópteros.
— E agora?
Alicarim aguçou o ouvido.
— Não ouço mais nada.
— Pois então — disse Tomisenkow, voltando
a se apoiar nos cotovelos. — Estão todos na nossa frente. Como é que algum
deles poderia surgir pelas costas?
Alicarim achou que a pergunta era tola.
Não havia nada mais fácil para um helicóptero que contornar o platô e pousar do
outro lado. Mas enquanto não tinha certeza de não ter se enganado, preferiu
ficar quieto.
Assustou-se quando subitamente os canhões
automáticos começaram a disparar em cima da selva. Tomisenkow levantou-se um
pouco e com os olhos arregalados fitou a escuridão. Depois começou a rir.
— É formidável! — disse. — Um desses
idiotas acredita que nos encontrou.
O tiroteio não durou muito. Terminou sem
qualquer motivo plausível, tal qual havia começado. Ao mesmo tempo uma
movimentação nervosa teve início na multidão das lâmpadas de posição. Os
helicópteros suspenderam as buscas e afastaram-se. Poucos minutos depois não
podiam ser vistos mais. Apenas o chiado dos jatos continuou a ser ouvido por
mais alguns minutos.
— Não compreendo mais nada — comentou
Tomisenkow.
Permaneceu deitado por mais algum tempo;
depois levantou-se.
— Está cansado? — perguntou, dirigindo-se
a Alicarim.
— Não senhor.
— Está bem. Vou deitar um pouco. Fique com
os olhos bem abertos. E avise a Jegorov que dentro de uma hora deve revezá-lo.
* * *
O major Pjatkov trazia consigo um potente
binóculo noturno, equipado com um pequeno holofote de luz infravermelha e o
respectivo filtro.
Com esse binóculo descobriu o acampamento
na baixada junto à borda leste do platô. Mandou que seus homens cercassem o
acampamento, e que, ao seu comando, surpreendessem e prendessem os homens que
dormiam.
Só depois percebeu que faltava um dos
fugitivos. Incluindo a arcônida, dera-se pela falta de seis pessoas, entre elas
o cabo Wlassov, que, segundo era de supor, devia ter se unido a Tomisenkow.
Mas Pjatkov só contou cinco homens no
acampamento. Faltava um.
Onde estaria?
Pjatkov assumiu um risco: resolveu
debilitar ainda mais o círculo já bastante esparso de seus homens, mandando que
um deles saísse em busca do sexto fugitivo.
Depois ficou esperando.
* * *
Jegorov não tinha vindo. Provavelmente
estaria dormindo.
Alicarim não se zangou. Não estava
cansado, e além disso gostava de olhar para a escuridão, embora não visse nada.
De repente ouviu um ligeiro farfalhar. Subia
pelo paredão; alguém parecia arranhar um objeto.
Agora o ruído estava bem embaixo dele.
Alicarim se arrastou por um metro e percebeu que o ruído ainda vinha de baixo,
na vertical.
Soltou um palavrão abafado, levantou-se e
correu mais cinco metros. O ruído também estava lá.
Teve que caminhar mais de dez metros até
que o arranhar viesse de lado.
Ajoelhou-se e esperou.
De início apenas viu alguma coisa que se
movimentava na escuridão; mas não pôde identificar o que era.
Depois alguma coisa escura, brilhante,
surgiu no campo de visão. O movimento que Alicarim vira vinha de duas figuras
em forma de tentáculo, que assentavam na frente da coisa escura e brilhante que
Alicarim havia visto.
Levantou-se de um salto.
Eram formigas!
Ficou mais tranqüilo ao constatar que os
animais não se deslocavam em direção ao acampamento. O exército delas subiu
pela borda do platô e, estalando e farfalhando, atravessou a folhagem. Cada uma
tinha o tamanho da mão de um homem adulto.
Apesar disso, Alicarim pôs-se a voltar ao
acampamento. As formigas de Vênus eram animais imprevisíveis. Além disso,
ninguém sabia se possuíam o sentido do olfato, que eventualmente lhes
permitiria farejar a presa humana.
Era necessário avisar Tomisenkow.
Ali...!
Num gesto instantâneo, mas silencioso, Alicarim
deixou-se cair para a frente quando a sombra emergiu da escuridão. Por um
instante xingou-se de idiota por causa do susto. Devia ser Jegorov que vinha
revezá-lo.
Acontece que não era Jegorov.
E não era nenhum dos homens do grupo de
Tomisenkow. O vulto que tinha diante de si media quase dois metros. Para quem
olhava de baixo como Alicarim, destacava-se nitidamente contra o céu cinzento.
Passou a dois metros de distância do
quirguiz. Andava cautelosamente, olhando de um lado para outro. Ainda não havia
descoberto as formigas; apesar disso a área não parecia inspirar-lhe muita
confiança.
Os pensamentos atropelaram-se no cérebro
de Alicarim. Lembrou-se do barulho dos helicópteros que ouvira há mais de uma
hora.
Afinal, o ouvido não o teria enganado
mesmo?
Seguiu o homem, arrastando-se pelo chão. A
menos de um metro à sua direita marchava o exército de formigas.
Ao chegar à borda do platô, o grandalhão
parou. Olhou para a direita, para a esquerda e depois descobriu as formigas.
Alicarim viu que, tomado de um tremendo susto, abriu as pernas para ter uma
posição mais firme e levantou a pistola automática.
Foi quando Alicarim saltou para a frente.
O homem, mortalmente assustado pelas
formigas, não ofereceu a menor resistência. Alicarim deu-lhe uma pisadela na cavidade
do joelho e ao mesmo tempo golpeou seu pescoço com o lado da mão.
Com um grito de pânico, o homem caiu para
a frente. Foi parar no meio das formigas. Debateu-se para afastar os animais
que caíam em cima dele. A pistola foi atirada bem longe, por cima da borda do
platô.
Alicarim rastejou para trás e escondeu-se
numa moita.
Mas logo levantou-se de um salto. O
acampamento estava em perigo! O homem atacado pelas formigas, que a essa hora
já estava morto, não devia ter vindo só.
Mas Alicarim ainda não havia avançado dez
passos quando percebeu que já não poderia prestar ajuda a ninguém.
Viu sombras que se movimentavam
apressadamente na baixada. Gritos abafados soaram. Alguém praguejou: era a voz
de Zelinskij.
Chegara tarde!
Alicarim mudou de direção e procurou se
afastar o mais rápido possível do palco dos acontecimentos.
5
No lugar em que houvera o tiroteio não foi
encontrado nada. Já se encontravam cerca de duzentos metros acima do nível da
planície costeira, e evidentemente nem desconfiavam de que a finalidade do
tiroteio consistira apenas em fazer barulho para que o major Pjatkov pudesse
pousar no platô sem ser molestado.
Por algum tempo, Perry Rhodan acompanhou
no seu receptor de pulso as mensagens trocadas entre os pilotos dos
helicópteros. Delas se concluía, sem a menor sombra de dúvida, que os homens de
Raskujan andavam à procura de prisioneiros que haviam fugido. Rhodan supôs que
os fugitivos deviam ser alguns dos homens de Tomisenkow. Não ficou sabendo que
Thora se encontrava entre eles. As mensagens apenas aludiam “aos fugitivos”.
Rhodan e seus companheiros se encontravam
a poucos quilômetros do limite do campo protetor. Na opinião de Rhodan deviam
fazer mais uma pausa de uma hora, antes de enfrentar o restante do caminho.
* * *
Raskujan tinha consciência do seu triunfo.
Mandou que os dois prisioneiros mais importantes fossem conduzidos à sala de
comando da nave capitania. Encarou-os com um sorriso amável e zombeteiro ao
mesmo tempo e perguntou:
— O que esperavam conseguir?
Tomisenkow ainda não tivera a oportunidade
de pôr em ordem sua figura esfarrapada. Tinha os cabelos desgrenhados e o
uniforme, já estragado, ainda por cima continuava rasgado, tal qual saíra da
briga com os homens de Pjatkov.
Thora não participara da breve luta.
Estava suja, mas intacta, quando se defrontou com Raskujan.
Nem Tomisenkow nem Thora deram qualquer
resposta à pergunta do coronel.
— Ah — disse Raskujan com um sorriso. —
Continuam orgulhosos como sempre, não é?
Instalou-se confortavelmente na poltrona e
cruzou as pernas.
— Lamento sua teimosia — prosseguiu. — Os
senhores se opõem ao único poder real que existe em Vênus. Por quê?
Thora sorriu com desprezo. Tomisenkow
respondeu mal-humorado:
— Porque não gostamos do senhor.
Raskujan não deixou se irritar.
— Parto de um ponto de vista mais
negociável — explicou tranqüilamente a Tomisenkow. — Todos nós devíamos nos
unir. Estou convencido de que juntos criaríamos um poder como ainda não existiu
outro.
Tomisenkow soltou uma risada áspera.
— Só se Rhodan o deixasse em paz.
— Ora! — disse Raskujan com um gesto de
desprezo. — Ele me deixou em paz durante um ano; por que não vai continuar
assim? E se eu conseguir penetrar na base de Vênus com o apoio da senhora — fez
um gesto em direção a Thora — nem mesmo Rhodan conseguirá pôr os pés neste
planeta contra minha vontade.
— Não pense que vou ajudá-lo a entrar na
base de Vênus — gritou Thora, furiosa.
— Pois eu saberei obrigá-la a isso! —
disse Raskujan entre os dentes. Já estava começando a perder o autocontrole.
Thora fez um gesto de desprezo.
— Quem é o senhor para obrigar uma
arcônida a falar? Além disso, Rhodan o agarrará antes que conclua o
interrogatório.
Raskujan se levantou de um salto.
— Rhodan nem sequer está em Vênus! —
gritou fora de si. — E se tentar pousar por aqui, saberei impedi-lo.
Nesse ponto a sensação de triunfo levou a
melhor sobre a inteligência de Thora. Com os olhos chamejantes gritou:
— Não quebre a cabeça para descobrir como
poderá impedir que Rhodan pouse neste planeta. Ele já se encontra em Vênus!
Mal acabou de pronunciar estas palavras,
reconheceu o erro que havia cometido. Mas o espetáculo que se lhe ofereceu
quando Raskujan, pálido como cera, cambaleou e caiu em sua poltrona, bem que
valeu o susto que o erro lhe causava.
Atrás dela, Tomisenkow disse em voz baixa:
— A senhora não devia ter dito isso!
* * *
Alicarim marchava.
Reunindo toda a paciência peculiar a um
asiático, procurou vencer todos os obstáculos para alcançar um objetivo, de
cuja existência, por enquanto, apenas suspeitava.
Quando ainda era um prisioneiro de
Raskujan, ouvira falar nos acontecimentos estranhos que se desenrolaram no mar:
os fenômenos luminosos que foram observados, os dois helicópteros que nunca
regressaram, a busca extenuante do major Pjatkov, a descoberta de um barco
inflável e de três homens que nadavam e, por fim, o lançamento da bomba baby.
Alicarim sabia mais que isso. Lembrou-se
do ataque que o acampamento de Tomisenkow, situado na península, sofrerá poucos
dias antes que Raskujan o atacasse. O ataque fora repelido; haviam visto três
homens, mas não conseguiram aprisionar nenhum deles.
Por fim, Alicarim ainda guardava uma
lembrança bastante viva das armas de impulsos térmicos usadas pela Terceira
Potência; conhecera-as há um ano. Era provável que os fenômenos luminosos observados
pelos homens de Raskujan proviessem de armas desse tipo.
Era bem verdade que o resto não passava de
suposições e cálculos. Se é que três homens da Terceira Potência, desprovidos
de quase todos os recursos técnicos — assim concluiu Alicarim — se encontravam
em Vênus, a primeira coisa que eles procurariam fazer era entrar em contato com
o cérebro positrônico instalado no interior da fortaleza.
Foi por isso que Alicarim dirigiu sua
marcha montanha acima. Sabia que o enorme campo protetor tinha um diâmetro de
cinqüenta quilômetros. A chance de encontrar os três homens em algum ponto
naquela extensa área era assustadoramente reduzida. Mas essa chance aumentava
pelo fato de que, tal qual Alicarim, os três homens vinham do sul e
provavelmente procurariam penetrar no campo protetor dessa direção.
Além disso, essa era a única chance de
Alicarim. Em qualquer outro lugar, sua situação seria mais desesperadora do que
no lugar em que havia alguma possibilidade de se encontrar com membros da
Terceira Potência. Eram os únicos que podiam ajudá-lo.
Por isso Alicarim prosseguiu em sua
marcha.
Depois de ter avançado um bom pedaço, viu
a abóbada reluzente do campo protetor que surgia entre as copas de duas árvores
e logo desapareceu entre a densa camada de nuvens.
A vegetação também era mais rala e a
caminhada mais fácil.
Alicarim criou nova coragem e avançou com
maior rapidez.
* * *
Fosse qual fosse a opinião que se tinha a
respeito de Raskujan, às vezes ele sabia calcular uma situação.
Desde o início, os três homens a respeito
dos quais o major Pjatkov lhe falara representaram um mistério para ele. Quem
se atreveria a cruzar em plena noite o mar de Vênus num frágil barco inflável,
ainda que esse mar apenas consistisse num braço de trezentos e cinqüenta
quilômetros de largura?
Raskujan sabia que havia uma certa
possibilidade, mesmo remota, de que, apesar dos canhões automáticos e da bomba baby, os três homens ainda estivessem
vivos.
Se um desses homens fosse Perry Rhodan...
Raskujan prosseguiu nas suas conjecturas e
chegou à mesma conclusão que, mais ou menos ao mesmo tempo e num lugar
distante, veio à mente do quirguiz Alicarim.
Se é que Rhodan andou pelo mar num barco
inflável, isso significava que, por qualquer motivo, perdera o contato com a
Terra e com sua base em Vênus. Se não fosse assim, disporia de recursos
técnicos muito maiores do que aqueles com os quais contava no momento.
Partindo desse pressuposto, convenceu-se
de que Rhodan não teria coisa mais urgente a fazer senão alcançar o campo protetor
que cercava sua base e penetrar na mesma; Raskujan não duvidou um instante
sequer de que Rhodan teria possibilidade de fazê-lo.
O resultado lógico dessa conclusão foi uma
ordem transmitida a toda a frota de helicópteros: deviam levantar vôo
imediatamente, aproximar-se do campo protetor e atirar contra tudo que se movia
nas proximidades do mesmo. Raskujan preferiu não revelar o fato de que essa
ação se dirigia contra Perry Rhodan. Receava de que esse nome bastasse para
amedrontar seus homens.
Depois de uma pausa que todos os
tripulantes acharam muito curta, os helicópteros voltaram a levantar vôo.
Raskujan contemplou na tela de imagem o quadro que se oferecia no campo de
pouso bem iluminado; o espetáculo impressionante dos helicópteros que saíam em
disparada tranqüilizou-o ao menos em parte.
O fato de que a maior das ações bélicas já
realizadas em Vênus dirigia-se contra um único homem não o perturbou nem um
pouco. Se dispusesse de mais equipamentos, enviaria dez vezes mais gente e
material para destruir um único homem.
Perry Rhodan.
* * *
O corpo de Rhodan aproveitou a última
pausa para, através de uma febre violenta, protestar contra os maus tratos que
lhe eram infligidos.
Quando a pausa terminou e a marcha devia
ser reiniciada, Rhodan batia os dentes. Marshall e o japonês sugeriram que a
pausa fosse prolongada até que a febre terminasse, mas Rhodan respondeu com uma
risada contrafeita:
— Receio que esta máquina miserável, —
apontou para o peito — ficará febril enquanto não lhe dermos coisa melhor para
fazer.
Prosseguiram em sua marcha. Tiveram sorte:
o terreno continuava em subida e a vegetação tornava-se cada vez mais rala.
Mas Rhodan teve azar, pois teve de rever
sua opinião sobre a máquina miserável. A febre não diminuiu; pelo contrário,
aumentou. Houve momentos em que Rhodan teve de se apoiar ao ombro de Marshall
para não cair.
Algum tempo depois, marchavam por um vale
estreito situado nas montanhas. Ao atingirem a saída norte viram, aparentemente
ao alcance da mão, a abóbada reluzente formada pelo campo protetor que cercava
a base.
Rhodan soltou um suspiro de alívio.
Praticamente já haviam conseguido, e não fora nada fácil.
O terreno em que marchavam consistia num
planalto pedregoso coberto apenas de arbustos esparsos. Avançaram rapidamente,
e a parede reluzente do campo protetor aproximava-se quase a olhos vistos.
— Ainda faltam uns oitocentos metros. — murmurou
Marshall depois de algum tempo, para animar Rhodan e distraí-lo de suas dores.
Mal terminara, quando um zumbido agudo
passou pelas montanhas, vindo do sul. Marshall estacou e Rhodan, que se apoiava
em seu ombro, também parou.
Son Okura voltou-se bruscamente e fitou o
céu escuro.
O zumbido tornou-se mais agudo,
aproximou-se por cima do vale e dissociou-se no chiado dos jatos e nas batidas
dos rotores.
— São helicópteros! — gritou o japonês.
— Pelo menos quarenta!
Rhodan enrijeceu o corpo e se manteve de
pé com suas próprias forças. Voltou apressadamente a cabeça.
— Abriguem-se — fungou. — Lá atrás.
Procurem atingir a encosta do vale.
* * *
Só por alguns minutos Alicarim acreditou
que todo aquele aparato se destinava a ele. Ouviu que os helicópteros passaram
em disparada por cima do esconderijo em que apressadamente se abrigara e
começaram a cruzar à frente do campo energético.
Alicarim logo compreendeu suas intenções.
Alguém tivera a mesma idéia que ele e procurava alcançar os três homens da
Terceira Potência no lugar em que havia maior probabilidade de encontrá-los.
Alicarim pôs-se novamente a caminho e
depois de algum tempo passou por um desfiladeiro onde o caminhar era muito
difícil, e que atravessava a última barreira de montanhas, terminando na
extremidade oeste de um vale cercado de todos os lados por encostas muito
elevadas.
Mais ao norte — a uns dois quilômetros,
pelos cálculos de Alicarim — a cúpula luminosa emergia do fundo do vale.
Era bem verdade que mais ao norte também
os helicópteros cruzavam o ar, conforme o quirguiz ouvia perfeitamente. Uma vez
que conhecia seus equipamentos e estava muito bem informado sobre a eficiência
dos holofotes de luz infravermelha, procurou se abrigar cuidadosamente. Dessa
forma avançou mais devagar, mas com uma segurança incomparavelmente maior.
Os helicópteros passaram sobre o vale numa
altura reduzida. Rhodan e seus companheiros não conseguiram atingir a encosta;
esconderam-se sob uma pedra larga, de cerca de dois metros de altura. Depois de
terem percebido que, por enquanto, não haviam sido descobertos, prosseguiram na
retirada e esconderam-se na entrada de uma caverna que penetrava na encosta
rochosa. A partir dali Son Okura observou os helicópteros.
— Estão se dividindo — disse. — Dois
grupos dirigem-se para o leste e o oeste, ao longo do campo energético,
enquanto outro grupo cruza bem diante dele.
Rhodan quase não tinha capacidade de
responder.
— Devemos prosseguir — gemeu. — Só
poderemos entrar em contato com o cérebro positrônico quando tivermos atingido
o limite do campo energético.
Marshall protestou.
— Se fosse o senhor, eu preferiria...
— Cale a boca! — ordenou Rhodan e
levantou-se, apoiando a mão na parede rochosa da caverna.
No mesmo instante Son Okura, que se
encontrava na entrada da caverna, virou-se com um grito abafado e levantou o
radiador térmico.
— Pare!
Ouviu-se uma voz quase incompreensível
vinda da direita. Marshall não entendeu uma palavra. Deixou Rhodan a sós e, com
a arma engatilhada, colocou-se ao lado do japonês.
— Quem é? — perguntou. Okura deu de
ombros.
— É um russo. Diz que é um dos homens de
Tomisenkow, e que fugiu do campo de prisioneiros.
Marshall baixou a arma. Fechou os olhos,
enquanto Okura mantinha o desconhecido à distância, e concentrou-se sobre os
pensamentos que fluíam do cérebro do desconhecido.
— Está bem — resmungou depois de algum
tempo e fez um sinal para Okura. — As intenções dele são boas.
Okura também baixou a arma. Gritou em russo
para que o homem se aproximasse.
Finalmente Marshall viu-o emergir da
escuridão. Era pequeno, mas atarracado. Tinha os olhos oblíquos e os maxilares
salientes de um asiático. Dirigindo-se a Son Okura, disse:
— Meu nome é Alicarim. Sou um dos homens
de Tomisenkow. Posso contar muita coisa.
Rhodan dispôs-se a ouvir o homem, embora
tivesse muita pressa. Alicarim fez um breve relato de tudo que havia acontecido
depois do assalto de Raskujan ao acampamento de Tomisenkow.
— Depois desse incidente — murmurou Rhodan
— as coisas não serão nada fáceis para Thora. Raskujan não recuará diante das
medidas mais violentas para obrigá-la a falar. Vamos adiante!
Saíram da caverna e caminharam rentes à
encosta. Aproveitavam todo acidente do terreno que pudesse lhes proporcionar
uma proteção e Son Okura manteve os helicópteros sob uma observação
ininterrupta. O relato de Alicarim e a preocupação por Thora pareciam ter dado
novas forças a Perry Rhodan. Percorreu quase metade do caminho que faltava com
suas próprias forças; só no último trecho voltou a se apoiar em Marshall.
Aproximaram-se a uns cinqüenta metros da
parede reluzente, sem que os homens que se encontravam nos helicópteros de
Raskujan os houvessem visto. Mas dali em diante a situação se tornou crítica.
No último trecho não havia praticamente
nenhum abrigo. Só de vez em quando via-se um bloco de pedra, mas na maioria
eram tão pequenos que dificilmente poderiam proteger um homem.
Além do mais, Rhodan não teve a menor
dúvida de que os helicópteros lançariam bombas assim que descobrissem suas
vítimas. E contra uma bomba, a maior das pedras não oferecia proteção
suficiente.
Notava-se que Rhodan recorria às últimas
reservas de energia. Tinha a face flácida e em sua pele surgiam manchas
vermelhas. Sua voz era rouca e entrecortada.
— Vamos fazer uma manobra desviacionista —
ordenou. — Um de nós vai atrair a atenção deles. Enquanto os helicópteros se
ocupam com esse homem, os outros avançam até o campo protetor. Acredito que o
cérebro positrônico só levará alguns segundos para me identificar e abrir a
barreira energética por um instante. Quem está disposto a ir?
Alicarim, que não havia entendido uma
palavra, pediu que Okura traduzisse o que Rhodan acabara de dizer.
— Eu vou — afirmou depois disso. Okura
traduziu suas palavras.
Rhodan não teve nenhuma objeção, ou ao
menos não teve nenhuma objeção com a qual quisesse despender tempo naquele
instante. Alicarim não pertencia à Terceira Potência. Não tinha nenhum motivo
para arriscar a vida nessa manobra temerária.
Mas não havia tempo para debates.
O quirguiz saiu rastejando, depois de ter
sido avisado de que deveria começar a correr assim que o campo energético se
apagasse. Ninguém sabia quais eram suas idéias quanto à maneira de atrair a
atenção dos helicópteros.
Os outros esperaram, febris e impacientes.
* * *
Pjatkov acreditara que o vale que, vindo
do sul, estendia-se até a abóbada energética, provavelmente seria o lugar em
que os homens que procurava poderiam ser encontrados.
Não tinha a menor idéia de quem eram esses
homens. Supunha que deviam ser muitos, ou então, que devia tratar-se de gente
muito perigosa ou importante, pois de outra maneira Raskujan não se daria à
tamanho trabalho para agarrá-los.
O helicóptero de Pjatkov tinha quatro
tripulantes: o piloto, um observador, um telegrafista e ele mesmo. De vez em
quando substituía o observador em seu trabalho.
Olhou para o relógio. Ainda poderiam
permanecer ali durante cinco horas; depois teriam de regressar para
reabastecer. Dentro de cinco horas aqueles desconhecidos teriam que...
— Olhe! — gritou o observador. — Um homem!
Pjatkov empurrou o homem para o lado e
olhou pelo filtro ótico. Lá embaixo, em meio às rochas, havia um homem.
Encontrava-se a apenas vinte metros do limite do campo protetor e corria que
nem um louco.
— Fogo! — berrou Pjatkov.
O observador colocou-se atrás do canhão
automático, abrangeu o alvo no pequeno telescópio da mira e começou a disparar.
Aborrecido, notou que os projéteis detonavam a uma boa distância do homem que
corria e corrigiu a pontaria. Mas antes que conseguisse alvejar o desconhecido,
este desapareceu atrás de uma pedra.
O major Pjatkov fungava de nervosismo.
— Desça!
O helicóptero desceu.
— Circule em tomo da rocha.
A máquina inclinou-se ligeiramente e
começou a descrever um círculo amplo em torno da rocha.
— Chegue mais perto! — gritou Pjatkov,
furioso.
Mas logo percebeu outro movimento pelo
canto do olho. Girou rapidamente o filtro ótico e viu os três homens que, a cem
metros dali, corriam em direção ao campo energético reluzente. Numa fração de
segundo compreendeu que o avanço do homem que se encontrava ali embaixo fora
apenas aparente.
O perigo real era representado por aqueles
três homens.
— Vá para a esquerda — gritou para o
piloto. — Ali há mais gente.
O piloto, que só via os acontecimentos que
se desenrolavam bem à sua frente, levou algum tempo para compreender a nova
ordem e retificar o curso.
— Mais rápido! — ordenou Pjatkov. —
Preparem as bombas.
Pôs a mão para o lado e, numa batida,
ligou o rádio. Não seria necessário perder muitas palavras; as vozes de comando
bastariam para que os ocupantes dos outros aparelhos compreendessem o que se
passava.
Os três fugitivos chegaram ao campo
energético.
— As bombas estão prontas — anunciou o
observador.
Pjatkov notou que dois aparelhos que voavam
a seu lado atiravam com seus canhões automáticos contra os fugitivos.
— As bombas serão lançadas quando eu
ordenar — disse.
As bombas preparadas pelo observador eram
dotadas de cargas explosivas simples. Nenhum helicóptero que se encontrasse a
uma altitude tão pequena arriscaria o uso de bombas nucleares, por menores que
fossem.
Mas uma bomba explosiva seria suficiente
para...
O campo energético se apagou.
Pjatkov soltou um grito estridente e
apavorado quando o campo energético desapareceu de repente. Mas no mesmo
instante compreendeu a chance extraordinária que, com isso, lhe era oferecida.
— Vire para a direita! — gritou para o
piloto. — Atravesse o campo energético!
O piloto não estava preparado para essa
missão. Levou cinco segundos para corrigir o curso. Pjatkov parecia febril.
Finalmente a máquina girou no ar e
disparou em velocidade máxima para o lugar em que, poucos instantes antes, a
barreira energética se erguia desde o fundo do vale.
Nenhum dos ocupantes do helicóptero de
Raskujan chegou a ver que a barreira energética voltou a reluzir no mesmo
instante em que o helicóptero se dispôs a romper a respectiva área.
Os ocupantes dos outros helicópteros viram
uma explosão ofuscante, que produziu um forte estalo nos receptores.
Mais tarde ninguém saberia dizer se o
helicóptero de Pjatkov foi consumido pela energia da barreira energética, ou se
foi despedaçado pela explosão das bombas que trazia a bordo.
Depois do primeiro instante de pavor, os
ocupantes dos outros helicópteros deram-se conta de que, ao que tudo indicava,
depois da ligeira interrupção tudo voltara a ser como era antes, e que naqueles
poucos segundos os desconhecidos conseguiram penetrar na área da base.
O coronel Raskujan recebeu esta mensagem
lacônica:
— O major Pjatkov está morto. Os fugitivos
estão fora de nosso controle, por terem penetrado na base.
* * *
Raskujan logo compreendeu o significado
dessa mensagem. Rhodan conseguira penetrar em sua base.
Supôs que dentro de poucos minutos Rhodan
utilizaria seu potencial técnico invencível para atacar o campo de foguetes e
destruí-lo.
Mandou que o acampamento entrasse em
regime de prontidão para a defesa, o que não exigiu maiores preparativos ou
modificações. Desde o dia em que pousara em Vênus contava constantemente com
algum acontecimento imprevisto e agrupou seus homens e equipamentos de tal
forma que poderiam se defender contra um ataque vindo de qualquer direção.
Havia outra questão: será que o
agrupamento adequado também se tornaria eficiente face ao furacão artificial
que, segundo esperava, seria desencadeado por Perry Rhodan?
Raskujan era de opinião que a resposta só
poderia ser negativa. Por isso fez outros preparativos, mas em segredo: além
dele e das pessoas atingidas, só uma pessoa soube deles, o piloto que dirigiria
o helicóptero.
Ajudado pelo piloto, amarrou as mãos de
Tomisenkow e Thora, que eram os mais importantes dentre seus prisioneiros.
Fizeram-nos caminhar diante dos canos das pistolas automáticas e ajudaram-nos a
entrar no helicóptero que já estava à espera.
Quando as mãos vigorosas do piloto
empurraram Tomisenkow para dentro do aparelho, o mesmo lançou um olhar de
desprezo por cima do ombro e disse:
— Alguma coisa não deu certo, não é? Os
ratos estão abandonando o navio que vai afundar.
— Cale a boca! — rosnou Raskujan. Não
disse mais nada.
A cabina era mais ampla que na maioria dos
helicópteros. Havia quatro poltronas para passageiros. Thora e Tomisenkow foram
obrigados a sentar nas da frente, enquanto Raskujan sentou atrás deles, com a
arma engatilhada. O piloto se enfiou na sua poltrona apertada e aguardou alguma
coisa. A porta externa se fechou com um chiado.
— Prestem atenção! — disse Raskujan com a
voz embaraçada. — O que me interessa a esta altura é não cair nas mãos de
Rhodan. Ele conseguiu penetrar em sua base e dentro de poucos minutos estará
aqui. Minha situação é muito séria. Levo os dois. O senhor, Tomisenkow, conhece
este planeta, e a senhora, Thora, me servirá de refém diante de Rhodan. Neste
helicóptero encontra-se uma ampla provisão de armas, munições e mantimentos.
Tomisenkow, a tarefa do senhor por enquanto consiste em descobrir um
esconderijo seguro para nós.
Uma vez lá, aguardaremos até que Rhodan se
mostre disposto a entrar em negociações. Como disse, minha situação é muito
séria. Antes de perder a última chance, que são os senhores, prefiro matá-los.
Não se esqueçam disso! Tomisenkow, instrua o piloto sobre o curso que deve
tomar.
Uma porção de idéias sobressaltou-se no
cérebro de Tomisenkow. A mais razoável delas foi a de que no momento não havia
outra coisa a fazer senão obedecer às ordens de Raskujan.
— Siga um curso entre duzentos e setenta e
duzentos e oitenta graus — resmungou para o piloto. — Suba para cinco mil
metros, pois daqui a pouco chegaremos às montanhas.
* * *
Perry Rhodan ainda conseguira forças para
formular uma ordem dirigida ao cérebro positrônico, ordem esta que Marshall
deveria transmitir por via telepática. Uma vez ciente da presença de Rhodan,
era de supor que o cérebro captasse, compreendesse e executasse a mensagem
telepática.
A mensagem incluía o pedido de fornecer um
meio de transporte que permitisse vencer quanto antes os cinqüenta quilômetros
que ainda os separavam do centro da base, e de preparar uma série de
medicamentos que colocasse Rhodan em condições de atuar no mais breve espaço de
tempo.
* * *
Alicarim não escapou apenas aos tiros
disparados pelo helicóptero de Pjatkov; também conseguiu penetrar em tempo na
área da base.
Uma vez transmitida a ordem a Marshall,
Rhodan desmaiou. Marshall repetiu a ordem até que Son Okura viu um planador que
se deslocava a pouca altura e uma velocidade tremenda. Rhodan foi colocado no
aparelho, e os outros instalaram-se nas poltronas. Poucos minutos depois o
aparelho colocou-os no interior da fortaleza e transportou Rhodan para o lugar
em que os medicamentos já haviam sido preparados.
Dali a meia hora Rhodan já estava em
condições de formular ordens precisas. Instruiu o cérebro positrônico a
desativar o campo energético que cercava todo o planeta, para que Reginald Bell
pudesse pousar com sua nave auxiliar. Para evitar outras complicações ainda
mandou que a barreira energética de quinhentos quilômetros de diâmetro — que,
nos momentos críticos, costumava cercar a área no lugar do anteparo de
cinqüenta quilômetros, sempre que o planeta todo não estivesse protegido —
também não fosse ativada.
Só então Rhodan considerou terminado o
período de esforços sobre-humanos e permitiu uma pausa de sono a si e a seus
companheiros totalmente exaustos.
* * *
Reginald Bell reagiu com a explosividade
de um vulcão até então contido por uma fina crosta de terra.
O girino — isto é, a nave auxiliar de
sessenta metros de diâmetro — avançou a toda velocidade e com os campos
protetores ativados para as camadas mais profundas da atmosfera de Vênus. A uma
velocidade de mach 15 — ou seja, quinze vezes a velocidade do som — o impacto
do campo energético sobre as moléculas de ar ionizava estas e produzia uma
certa luminosidade. Com a beleza imponente de um cometa gigante, arrastando
atrás de si a ofuscante faixa branco-azulada de ar ionizado, a nave
precipitou-se pela noite de Vênus e surgiu sobre o acampamento de Raskujan.
Entre os homens que deviam defender o lugar o medo puro e simples começou a se
espalhar face ao fenômeno nunca visto.
A nave não foi bombardeada. Aliás, um
projétil terreno não lhe poderia causar qualquer dano. Numa altura de cem
metros, manteve-se imóvel acima do acampamento. Bell não assumiu qualquer
risco. Mandou que Tako Kakuta, o teleportador, ocupasse o grande projetor
mental, e mandou que todo o acampamento fosse coberto pela ordem de
capitulação, transmitida por via hipnótica.
Só depois disso pousou a nave no chão e
começou a realizar seu inventário. Sabia que Thora era uma prisioneira do
acampamento e, apesar de todos os ressentimentos que nutria para com a mesma,
suas primeiras preocupações dirigiram-se a ela.
Não a encontrou. Os prisioneiros que
capturou mostraram-se dóceis, conforme lhes ordenava o comando hipnótico, e
conduziram-no para a parte do acampamento em que Thora devia se encontrar. Não
estava lá, e ninguém sabia onde poderia estar.
Só depois de algum tempo notou-se que
Tomisenkow também não se encontrava no acampamento. E, quando se verificou que
o coronel Raskujan havia dado o fora, Bell começou a tirar suas conclusões dos
acontecimentos, conclusões estas que se aproximavam bastante da verdade.
Logo se deu conta de que não valeria a
pena sair à procura dos desaparecidos. Raskujan não deixaria de dar um sinal de
vida assim que a situação voltasse à calma; além disso, nada se poderia fazer
contra ele enquanto Thora se encontrasse em suas mãos.
* * *
— Passe entre os dois cumes de montanha —
ordenou Tomisenkow.
O piloto relatava constantemente o que via
na tela do instrumento de observação, e face a esses dados Tomisenkow fornecia
o curso a ser seguido.
Pelo cálculo de Tomisenkow, no curso de
uma hora haviam se afastado cerca de cento e cinqüenta quilômetros do
acampamento, já que as montanhas e as complicações na transmissão das ordens
obrigaram-nos a voar devagar.
A velocidade foi reduzida ainda mais pelo
fato de que Tomisenkow procurava ganhar tempo. Esperava que a vigilância de
Raskujan se tornasse menos intensa, e que Thora fizesse alguma coisa que o
distraísse.
— Atrás destes cumes há outros — disse o
piloto. — São três, que estão em fila. O do meio deve ter uns oito ou nove mil
metros de altura.
Tomisenkow respondeu com um aceno da
cabeça.
— Passe entre o da esquerda e o do meio, e
depois tome o curso de duzentos e cinqüenta graus.
Raskujan pigarreou.
— Será que ainda sabe para onde está nos
levando?
— Sei, sim — resmungou Tomisenkow.
Nesse instante Thora soltou um grito
estridente e se aproximou de Tomisenkow.
— O que houve? — perguntou Raskujan em tom
áspero.
Thora sacudiu os ombros.
— Ali — gritou amedrontada. — Um lagarto
voador.
Olhou pela janela, como se visse alguma
coisa. Seu pavor estava tão bem fingido que, por um instante, o próprio
Tomisenkow não sabia se realmente havia visto um lagarto.
Raskujan escorregou para o outro assento e
comprimiu o rosto contra a lâmina de plástico transparente. Colocara a pistola
automática sobre o joelho.
No mesmo instante Tomisenkow virou-se,
colocou os joelhos sobre o assento de sua poltrona e deixou-se cair para a
frente. Antes que Raskujan percebesse do que se tratava, comprimira as costas contra
seu corpo, inclinando o tronco para a frente, e levantara as mãos amarradas,
apertando-as em torno do pescoço de Raskujan. Apertou a garganta do coronel com
toda a força de seus dedos. Não via o efeito que estava produzindo.
— Pare — gritou Thora. — O senhor o está
matando.
O piloto tivera sua atenção despertada
pela cena. Virou a cabeça e olhou para trás.
— Cuide do helicóptero — gritou
Tomisenkow. — Senão acabamos caindo.
Quando Tomisenkow soltou Raskujan, este
caiu molemente no seu assento. Ainda com as mãos amarradas, Tomisenkow pegou a
pistola automática e firmou-a entre dois assentos, fazendo com que apontasse
para o piloto.
— Não pense que um homem amarrado não pode
atirar — disse. — Basta apertar o gatilho e o senhor será um homem morto. Volte
ao acampamento.
A situação era grotesca. Tomisenkow estava
ajoelhado na poltrona em que poucos instantes antes Raskujan estivera sentado.
Apoiou a barriga no encosto, com a pistola automática atrás de si, de tal
maneira que podia alcançá-la com as mãos. Não teria o menor problema em puxar o
gatilho. Mas bastava que a arma presa entre os dois assentos escorregasse para
baixo para que o piloto não mais se encontrasse ao alcance de seus tiros... e
tudo estaria terminado.
Felizmente agora, que Raskujan já não podia
fazer mais nada, tornava-se relativamente fácil desamarrar as mãos. Thora
conseguiu tirar do bolso de Tomisenkow um pequeno canivete que lhe haviam
deixado e com ele cortou as cordas que o amarravam.
O resto foi uma brincadeira. O piloto, que
de qualquer maneira não estava convencido de que Raskujan seria o mais gentil
dos chefes e que suas ordens eram muito sensatas, só precisou de um pequeno
estímulo, representado pela visão da pistola automática engatilhada, para se
submeter prontamente às ordens de Tomisenkow.
Este procurou cuidar de Raskujan. Levou um
susto tremendo ao constatar que o coronel estava morto.
Cobriu-o com sua jaqueta.
— Não merece outra coisa — disse. — Apesar
disso tenho pena.
* * *
Poucas horas depois da meia-noite foi
anunciada a chegada de Rhodan. Voou num aparelho da base e pousou no antigo
acampamento de Raskujan, junto à nave auxiliar de Reginald Bell.
O campo de pouso estava profusamente
iluminado.
Rhodan já fora informado sobre os
acontecimentos. Soube que Raskujan procurara desaparecer com Tomisenkow e Thora
e que os dois prisioneiros haviam regressado ao acampamento com o cadáver de
Raskujan.
Quando entrou na sala de comando da nave
auxiliar, Bell apresentou seu relato, conforme determinavam as normas. Nesse
relato incluía-se o seguinte trecho:
— Tomisenkow pede, com o devido respeito,
que o senhor lhe conceda uma entrevista.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Onde está Thora?
Bell ergueu os ombros.
— Ao que parece preferiu ficar só. Sempre
respeitei os desejos daquela mulher.
Mais uma vez Rhodan acenou com a cabeça.
— Nesse caso vou falar com Tomisenkow.
Bell saiu da sala de comando. Dali a pouco
Tomisenkow entrou. Rhodan ofereceu-lhe uma poltrona.
— O senhor vai ficar admirado — principiou
Tomisenkow sem preâmbulos — com a proposta que vou formular.
Rhodan sorriu com essa fala sem rebuços.
— Antes de sua chegada — prosseguiu o
general — falei com os homens de Raskujan. Contei-lhes que conseguimos viver em
Vênus durante um ano sem que dispuséssemos de quaisquer recursos, e que
viveríamos muito melhor se dispuséssemos de mais algumas das bênçãos da
tecnologia. Eu lhes sugeri que ficássemos para sempre em Vênus, e eles
concordaram. Todos, com exceção de uns quatro ou cinco.
Fitou Rhodan numa atitude de expectativa.
— Está bom — disse Rhodan. — Ou melhor,
excelente. Não oponho nada a que os senhores se fixem, desde que deixem nossa
base em paz.
Tomisenkow sacudiu a cabeça.
— Nem pensamos nisso. Soubemos o que
aconteceu com o governo do Bloco Oriental. Meus companheiros e eu já rompemos
com o passado. E, ao que tudo indica, para os homens da frota de Raskujan não
foi muito difícil fazer o mesmo.
Rhodan se levantou e ficou andando de um
lado para outro. Subitamente Tomisenkow ouviu que ria.
— Nunca imaginava — disse — que meus
planos se realizariam tão depressa.
— Seus planos? — perguntou Tomisenkow,
espantado.
— Isso mesmo; meus planos. Na sua opinião,
qual foi o motivo por que há um ano não destruí sua frota com os tripulantes?
— Porque... porque... bem, não sei.
— Porque acreditava — interveio Rhodan —
que, se continuassem vivos, formariam uma base muito sadia para a primeira
colônia a ser instalada em Vênus. Realizei uma experiência com seres humanos; e
o ser humano revelou suas aptidões.
Tomisenkow, espantado, ficou de queixo
caído. Só aos poucos deu-se conta de que nos últimos meses não fizera outra
coisa senão bancar a marionete que alguém arrasta por um fio. Sua inteligência
rebelou-se contra essa idéia. Quando finalmente sua mente a absorveu,
Tomisenkow sentiu-se possuído pela cólera.
Mas só por um instante.
Não era nenhuma vergonha, para um homem,
que Perry Rhodan o conduzisse por um fio invisível.
Rhodan parecia adivinhar seus pensamentos.
— Não perca seu orgulho — disse. — Só a
idéia foi minha. O senhor conservou a liberdade de ação. E não tenho receio em
afirmar que o senhor a aproveitou muito bem. Acredito que não estarei errando
se lhe deixo as mãos livres para instalar a colônia e lhe prometo nosso
auxílio.
Tomisenkow tinha a impressão de que estava
sonhando. Levantou-se, dirigiu-se a Rhodan e apertou-lhe a mão.
— Obrigado — murmurou. — Muito obrigado.
Enquanto saía, muito nervoso, murmurou uma
série de palavras russas, que Rhodan não compreendeu.
Só dez horas depois Rhodan encontrou-se
com a arcônida.
Não a procurara. Da sala de comando,
resolveu as coisas que tinham de ser resolvidas e começou a preparar a
decolagem em direção à Terra.
Thora veio sem ser chamada.
Quase sem o menor ruído, mandou abrir a
escotilha e por algum tempo manteve-se imóvel na entrada, antes que Rhodan
notasse sua presença.
Logo percebeu seu embaraço e sua
insegurança. Como não devia se sentir aquela mulher. Sua fuga precipitada da
Terra provocara toda aquela confusão, que por pouco não trazia a morte de
Rhodan e o fim da Terceira Potência.
Aproximou-se com passos hesitantes. Rhodan
levantou-se e foi ao seu encontro. Viu que ela se dispunha a falar, apressou o
passo e segurou a mão dela entre as suas.
— A senhora não imagina — disse com a voz
baixa — como me sinto feliz por revê-la.
Isso lhe tirou toda a munição. Não
conseguiu dizer mais nada; nada de todas as desculpas e motivos que havia
preparado. Fez uma coisa muito espantosa: inclinou-se para a frente até que sua
cabeça encostasse no ombro de Rhodan e chorou.
Thora, a arcônida, a mulher que tinha um
bloco de gelo no lugar do coração, estava chorando.
Rhodan procurou consolá-la. Deu início a
algumas frases consoladoras, mas também não se lembrou de uma coisa adequada
que pudesse dizer. Tudo que lhe ocorresse parecia ridículo e inexpressivo.
Ficou parado, segurou Thora pelo ombro e
deixou que chorasse à vontade.
* * *
— Tripulação a bordo! — anunciou Bell. — A
nave está pronta para decolar.
Rhodan fez um gesto com a cabeça e olhou
para a tela. A primeira luz do novo dia surgiu no horizonte.
— Está na hora de irmos para casa — disse
em tom pensativo.
Bell deu uma risadinha.
— Neste meio tempo Freyt deve ter criado
cabelos brancos. Não sabe nada dos acontecimentos em Vênus além do pouco que
pude informar.
Rhodan se dirigiu ao microfone do intercomunicador.
— Decolaremos dentro de sessenta segundos
— disse com a voz tranqüila.
Reginald Bell ocupou seu lugar.
— Controle!
Com um ligeiro estalo algumas chaves
mudaram de posição.
— Tudo em ordem.
— Cuidado, vamos decolar.
A nave levantou-se e, numa velocidade
fascinante, subiu ao céu pálido. Aquilo que antes fora o acampamento de
Raskujan e agora era o de Tomisenkow ficou para trás; por um instante a abóbada
reluzente de cinqüenta quilômetros formada pelo campo protetor da fortaleza
emergiu da escuridão.
Rhodan voltara a modificar os comandos
introduzidos no cérebro positrônico. Desta vez seguiu os dados e as sugestões
fornecidas pelo próprio cérebro. Não haveria outro incidente como o que acabara
de se verificar.
Depois de algum tempo, o sol surgiu no
horizonte, qual uma enorme lanterna amarela, envolto na densa atmosfera de
Vênus.
— Se este sol tivesse brilhado o tempo
todo para nós — disse Rhodan em tom pensativo — muita coisa teria sido bem mais
fácil.
* * *
* *
*
Em sua
caminhada em direção à barreira energética da fortaleza de Vênus, conseguiram
por mais de uma vez lograr a morte, que parecia certa.
Depois
disso, operando no ambiente seguro da fortaleza, não tiveram a menor
dificuldade em terminar, num golpe, as insensatas lutas pelo poder que vinham
sendo travadas entre os colonos involuntários de Vênus. Libertado Vênus, o
campo de atividade de Perry Rhodan volta a deslocar-se para a Terra, onde O
Supercrânio dá início ao seu jogo
nefasto...
O Supercrânio é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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