Antes que os canhões de Becker pudessem
disparar a segunda salva, foram atingidos pelas descargas energéticas dos
robôs. Os canos de dois dos canhões torceram-se, como se, de uma hora para
outra, tivessem se transformado em cera. Um terceiro canhão se desmanchou numa
chuva de faíscas.
Os outros encontravam-se fora da zona de
destruição. Apesar da reação instantânea, os robôs não tinham a menor chance.
Foram destruídos antes que pudessem se virar.
O tenente Becker, empunhando o radiador
neutrônico que trazia consigo, dirigiu-se aos três carros, que se mantinham à
espera. Os três motoristas aguardavam-no com os rostos inexpressivos e não
esboçaram qualquer defesa.
— Os senhores estão submetidos ao meu
comando — gritou Becker.
Os motoristas, mesmo sentados, assumiram
posição de sentido e fizeram continência.
O sargento Harras, que se mantinha a
distância, não compreendera quase nada do que havia acontecido; mas sabia que
algo de horrível se passava. Becker devia ter enlouquecido de uma hora para
outra. Mas será que ele mesmo não enlouquecera também? Por que cumpria ordens
absurdas como essas? O que o obrigara a fazê-lo?
Que dor de cabeça! Não queria parar. Devia
ser aquele calor insuportável. O sol, quase em posição vertical, dardejava seus
raios sobre o deserto. Os estaleiros tremeluziam no ar aquecido.
Subitamente teve a impressão de que dedos
delicados tateavam seu cérebro e o sondavam. Mas de uma hora para outra esses
dedos já não eram delicados; comandavam e pressionavam. Eliminavam sua vontade
e anulavam seu raciocínio normal.
Tal qual seus companheiros, voltou a
pôr-se em movimento. Passou pelos robôs imóveis, estendidos na areia, e pelos
veículos com os canhões destroçados.
Viu um movimento junto aos estaleiros.
Homens saíram de seus abrigos, de armas nas mãos. Um turbomóvel em disparada
surgiu da direita e parou perto de um edifício. Homens desceram. Um deles
segurava alguma coisa na mão, uma caixinha quadrada.
O tenente Becker levantou o braço.
— Espalhem-se! Vamos atacar os estaleiros.
Num movimento resoluto e automático, o
sargento Harras puxou a arma.
* * *
Perry Rhodan levantou os olhos quando a
porta foi aberta com violência e alguém se precipitou.
Era Bell; mas tinha diante de si um Bell
que ainda não conhecia. Os cabelos estavam desgrenhados, e no rosto, geralmente
corado, via-se uma palidez cadavérica. Os olhos chamejavam nervosamente, e
Rhodan percebeu que as mãos do amigo tremiam.
— Viu o demônio por aí? — perguntou,
espantado.
— Dentro de pouco estará aqui mesmo —
fungou Bell. — O diabo está às soltas. A companhia de vigilância do tenente
Becker está atacando nossos estaleiros.
— O que aconteceu? — perguntou Rhodan e
lançou um olhar atento para Bell, como se temesse pelas faculdades mentais do
mesmo. — Becker está atacando os estaleiros? Acho que isso só pode ser uma
piada de mau gosto. Comigo pode-se fazer muita coisa, Bell, mas...
— É verdade. Aquela gente ficou louca. O
Supercrânio deve estar atrás disso.
— O Supercrânio — murmurou Rhodan,
enquanto se levantava lentamente. — Como? O que aconteceu?
— Há poucos instantes recebi aviso de alarma
do setor sete. Becker e seu grupo está marchando em direção ao estaleiro e
destruiu nove robôs de combate. A guarnição de defesa assumiu seus postos. Está
aguardando novas ordens. O que devem fazer se Becker realmente se lançar ao
ataque? Deve ter enlouquecido.
Naquele instante Rhodan pareceu ver diante
de si o mestiço que havia morrido em virtude de um comando do inimigo
desconhecido. Se o Supercrânio era capaz de uma coisa dessas, ele também
estaria em condições de dar a uma companhia inteira a ordem de marchar para sua
própria destruição.
Subitamente sentiu-se sacudido por um
susto. Deu-se conta do que poderia acontecer se realmente o tal do Supercrânio
dispusesse de qualidades inconcebíveis, face às quais até mesmo as forças dos
mutantes não passassem de brincadeira. Com uma frieza implacável a idéia de que
se defrontava com um inimigo igual em forças, que seria capaz de destruí-lo se
agisse com bastante inteligência, impôs-se ao seu cérebro.
— Não podemos perder tempo — com essa
observação Bell interrompeu as reflexões de Rhodan. — Os homens aguardam nossas
instruções. Não é nada fácil atirar contra amigos que enlouqueceram.
— Vamos até lá — respondeu Rhodan em tom
decidido. — Arranje um projetor mental e um neutralizador gravitacional
pequeno. Ande depressa. Espero no carro.
Bell não perdeu tempo com perguntas. Girou
nos calcanhares e saiu apressadamente. Dois minutos depois, quando Rhodan
chegou ao seu carro, Bell já o esperava. Na mão esquerda segurava uma caixinha
metálica, que não parecia ser muito pesada. Na direita trazia um bastão
prateado.
— Não vamos levar mais ninguém?
— Se não dermos conta disso sozinhos,
ninguém mais dará — respondeu Rhodan e entrou no carro. As turbinas uivaram e o
pequeno veículo acelerou loucamente, precipitando-se sobre a superfície lisa de
concreto. Tomou a direção do estaleiro de naves espaciais, situado a cinco
quilômetros das instalações centrais de Terrânia.
A hora não era de muito movimento. Vez por
outra um pedestre solitário parava e olhava atrás do veículo tresloucado, cujo
motorista devia ter perdido o juízo.
Bell respirava com dificuldade.
— O que será que aconteceu?
— Trata-se de influência hipnótica; nem
poderia ser outra coisa. O Supercrânio apoderou-se da companhia de Becker e
submeteu-a ao seu comando. Devemos tentar compensar esse comando por meio do
projetor mental.
O projetor mental era uma arma arcônida.
Através dele podia-se penetrar na vontade de outra pessoa e dirigi-la. Até se
podiam transmitir comandos pós-hipnóticos.
— O que será de nós? — perguntou Bell. —
Será que o Supercrânio conseguirá nos impor sua vontade?
— Sabemos que ele já o tentou com Crest, o
arcônida, mas não teve êxito. Por isso suponho que sua força não é capaz de
influenciar um cérebro arcônida. E atravessamos o treinamento hipnótico
arcônida. Talvez ele tenha deixado seus reflexos em nossos cérebros. Ao menos
faço votos de que seja assim.
— Eu também — disse Bell, respirando
profundamente.
O veículo disparava pelo deserto. A pista
de concreto, lisa como um espelho, tinha dez metros de largura. Era encimada
pelo ar tremeluzente, que tinha o aspecto de uma nuvem de gás que escapava de
algum lugar. Mais adiante erguiam-se os edifícios alongados do estaleiro, onde
diariamente surgiam novas naves espaciais do tipo dos destróieres. Rhodan
percebeu os contornos pouco nítidos de figuras que corriam de um lado para
outro e fechavam enormes portões. Veículos blindados assumiam suas posições.
Mais à esquerda, em pleno deserto, uma
nuvem de poeira erguia-se acima do solo. Embaixo dela, marchavam soldados. Eram
os homens de Becker!
Rhodan não compreendia por que o inimigo
desconhecido não utilizava suas faculdades num empreendimento que possuísse
maiores chances de êxito. Se estava em condições de submeter uma companhia
inteira à sua influência, poderia ordenar aos pilotos das naves de Rhodan que decolassem
e atacassem Terrânia. Por que não fazia isso? Por que se contentava com uma
ação relativamente inofensiva, da qual devia saber de antemão que não levaria a
nada?
Será que pretendia desgastar os nervos de
Rhodan?
Bem, ao que parece já o havia conseguido
com Bell. O ministro da segurança da Terceira Potência transformara-se num
modelo de insegurança. Se John Marshall estivesse presente àquela hora, sem
dúvida o teria apelidado de ministro da insegurança. Revirava nervosamente o
projetor mental e escorregava nervosamente em seu assento.
— Será que você não sabe mais ficar
quieto? — indagou Rhodan. — Não pense que o Supercrânio se contentará com este
ensaio. É só o começo.
— O começo? — disse Bell com um gemido de
pavor. — Nossos homens atiram contra nós e você diz que isso é só o começo?
Rhodan não respondeu. Conhecia o amigo e
sabia que sua aparente desorientação só era externa. Passou pelos primeiros
robôs de vigilância e deixou para trás os canhões de radiações que se
encontravam em posição de combate. Parou junto a um abrigo subterrâneo, onde
havia alguns oficiais que envergavam o uniforme da divisão de vigilância.
Vieram correndo quando reconheceram Rhodan.
Bell não permitiu que falassem.
— Saiam do caminho! — gritou-lhes. Saltou
do carro e levantou a caixa prateada do projetor mental. — Vamos mostrar a essa
gente como se comanda um exército.
Rhodan tirou a caixa metálica de suas mãos
e colocou-a no chão. Ao que parecia não estava confiando no efeito do projetor.
Deu um aceno de cabeça em direção a Bell:
— Tente. Transmita um comando para que
regressem imediatamente aos seus alojamentos.
Depois disso dirigiu-se aos oficiais, que
pareciam desorientados.
— Mantenham seus homens reunidos. Mas só
dêem ordem de fogo quando eu autorizar. Não queremos matar nossa gente.
— Eles destruíram nove robôs — disse um
capitão.
— Isso é muito lamentável, mas robôs não
são gente. E acontece que fizeram isso contra a vontade.
— Contra a vontade? — perguntou o capitão,
esticando as palavras, mas não formulou outras perguntas.
Nem teria tempo para isso, pois Bell
entrou em ação.
Evidentemente o alcance do projetor mental
era limitado. Mas as forças do tenente Becker já haviam se aproximado bastante.
Era inexplicável que ocupassem posições num lugar tão próximo, pois com seus
canhões poderiam ter bombardeado o estaleiro a dois quilômetros de distância.
Mas Becker mandou que sua coluna parasse a quinhentos metros das linhas do
comando de vigilância e colocasse as peças de artilharia em posição de atirar.
Bell ajoelhou-se lentamente e dirigiu o
bastão prateado sobre o inimigo involuntário. Comprimiu um botão para acionar o
aparelho. Falando em voz alta, disse:
— Tenente Becker, ordeno ao senhor e aos
seus subordinados que voltem imediatamente aos seus alojamentos. Qualquer ordem
em contrário que lhes tenha sido dada é revogada.
Os oficiais — neste meio tempo um total de
cinco se reunira no local — olharam para Bell como se fosse algum bicho
milagroso. Sabiam que os arcônidas possuíam armas lendárias, mas nunca tinham
visto nenhuma delas em ação. Ao menos o projetor mental ainda lhes era
desconhecido. Infelizmente ainda dessa vez não tiveram sorte.
O tenente Becker não deu a menor atenção
às ordens de Bell.
O primeiro disparo passou a pequena altura
acima do grupo, derretendo um robô de vigilância desprevenido que se encontrava
a alguma distância.
— O poder do Supercrânio é maior que o de
nosso projetor mental — disse Rhodan em tom tranqüilo.
Terminara seus preparativos e estava
agachado junto ao abrigo, pronto para entrar em ação. Ali poderia desaparecer
de um momento para outro, quando isso se tornasse necessário. Os cinco oficiais
abrigaram-se atrás da cúpula de concreto. Utilizando seus rádios, instruíram os
subordinados, espalhados por vários lugares, para que aguardassem novas
instruções e em hipótese alguma abrissem fogo contra as tropas amotinadas.
Bell voltou a dirigir o raio hipnótico
contra os homens de Becker e transmitiu um segundo comando que, tal qual o
primeiro, não foi obedecido. Pelo contrário, três dos canhões dirigiram seus
raios neutrônicos contra os pavilhões do estaleiro que se encontravam mais
próximos.
Rhodan percebeu que não poderia opor-se à
atuação do Supercrânio por meios exclusivamente psíquicos. Só a violência
resolveria. Dirigiu a objetiva do neutraliza-dor gravitacional sobre as tropas
de Becker e acionou o aparelho.
O campo de atuação abria-se em forma de
leque; começava junto à caixa metálica, espalhando-se em direção ao inimigo e
diminuindo de intensidade. Mas a regulagem levada a efeito por Rhodan foi
suficiente para fazer com que Becker e seus homens não mais tivessem peso.
O sargento Harras, contrariado, estava
dando um passo para a frente, sem saber por quê, quando subitamente perdeu o
apoio dos pés. Foi subindo lentamente, girando em torno de seu próprio eixo.
Assustado, soltou a arma de radiação, mas o objeto não caiu para baixo,
permaneceu na mesma altura.
O que aconteceu com Harras também
aconteceu com os outros homens do tenente Becker. Este, que pretendia se
deslocar com um salto para junto de um dos canhões, foi atingido com maior
intensidade pela súbita ausência de gravidade. Subiu inclinadamente, como se
fosse uma granada humana e remou desesperadamente com os pés e as mãos,
procurando se segurar no ar. Infelizmente Rhodan não estava em condições de
seguir sua trajetória. O infeliz logo saiu do campo de atuação do neutralizador
e caiu ao solo feito uma pedra. Transformou-se na única vítima do ataque que
lhe fora imposto, além dos condutores e artilheiros dos veículos destruídos
pelos robôs.
Praticamente toda a força do tenente
Becker encontrava-se no ar. A terra não mais conseguia segurá-la. A posição
ocupada por cada um dependia dos movimentos que executara em terra. De qualquer
maneira, o alcance do aparelho arcônida não era ilimitado. Para evitar maiores
perdas, Rhodan teria de agir imediatamente. Dirigindo-se aos oficiais que,
perplexos, haviam acompanhado o fenômeno, disse:
— Vou reduzir a intensidade do
neutralizador. Mandem seus homens para lá, a fim de que aguardem a companhia
que vai aterrisar. Devem se mover com muita cautela. Na área submetida à ação
do aparelho a gravidade foi reduzida a um décimo. Cuidem dos carros de combate
de Becker. Se necessário, os artilheiros devem ser reduzidos à inatividade.
Foi espantosa a rapidez com que os
oficiais se recuperaram do susto. Levaram poucos minutos para mobilizar seus
homens. Os soldados moveram-se com estranhos passos rastejantes sob os corpos
que desciam lentamente, remando desesperadamente no ar e procurando se
recuperar da surpresa. A maior parte deles havia largado as armas, e assim não
poderia mais causar qualquer dano.
Aos poucos Rhodan fez com que a gravidade
voltasse ao nível normal e esperou até que a companhia amotinada fosse dominada.
Tirou o projetor mental das mãos de Bell e procurou proteger os soldados contra
novos comandos hipnóticos. Supunha que esse tipo de proteção seria
perfeitamente possível, muito embora não houvesse condições de romper um
bloqueio depois de instalado.
Menos de cinco minutos depois disso, o
Supercrânio retirou sua influência.
De repente o sargento Harras sentiu que a
pressão em sua cabeça diminuía. No primeiro instante não compreendeu de que se
tratava. Pensou que ainda se encontrasse no fundo da piscina e ficou espantado
ao ver-se ameaçado por armas apontadas em sua direção. O próprio Rhodan
explicou o acontecimento inconcebível a ele e seus companheiros, e ressaltou
que o fenômeno poderia se repetir a qualquer instante. No momento não havia
motivo para recear qualquer ataque armado vindo de fora; por isso determinou
que o armamento da companhia de vigilância fosse reduzido a um mínimo.
Próximo dali, o corpo imóvel do tenente
Becker jazia sob um cobertor. Bell lançou um olhar na direção do mesmo e disse
em tom sombrio:
— Só hoje foram nove vítimas, Rhodan. Está
na hora de darmos um passo decisivo.
Rhodan não respondeu. Sem dizer uma
palavra, regressaram a Terrânia, onde a notícia de outra calamidade os
aguardava. O coronel Freyt em pessoa trouxera a notícia de Nova Iorque, onde
ficava o quartel-general de Homer G. Adams, o financista da Terceira Potência.
Dali, o mutante de memória fotográfica tecia sua rede e dominava a economia
mundial. Homer parecia infalível e nunca tomava uma decisão errada. Ou melhor,
nunca a tomara enquanto o Supercrânio não existia. Os primeiros ataques do
personagem monstruoso foram repelidos. A mutante Betty Toufry foi enviada a
Nova Iorque, para proteger o gênio das finanças. Betty era a telepata mais
potente do Exército de Mutantes, e ao mesmo tempo era uma telecineta.
E foi Betty que deu o alarma.
Mais uma vez Homer G. Adams parecia ter
sido submetido à influência nefasta do Supercrânio. As últimas instruções dadas
por ele não correspondiam às vindas de uma inteligência normal e teriam levado
a General Cosmic Company à beira da ruína financeira.
No último instante Betty conseguiu anular
essas instruções por meio de um projetor mental. Enquanto se encontrasse nas
proximidades de Adams, nada poderia acontecer; mas não poderia segui-lo a cada
passo.
Imediatamente Rhodan pôs-se em contato com
a G.C.C. A tela retratou o rosto embaraçado de Adams, que era um pouco pequeno.
Seu cabelo ralo estava maltratado; tinha a aparência de quem passara algumas
noites sem dormir. No fundo via-se Betty Toufry, que parecia bastante cansada.
— Olá, Adams — disse Rhodan, como se Nova
Iorque ficasse a poucos quilômetros dali, não na extremidade oposta da esfera
terrestre. — Pelo que ouvi, voltou a ter problemas.
Adams ia dizer alguma coisa, mas Rhodan não
permitiu que ele o interrompesse.
— Adams, não há necessidade de se
desculpar. Aqui estamos enfrentando os mesmos problemas. O poder de nosso
pavoroso inimigo estende-se por todo mundo. Gostaria apenas que me dissesse se
não consegue sentir o início da influência exercida pelo Supercrânio.
Adams confirmou com um gesto hesitante.
— Sinto uma pressão no cérebro, mas quando
isso acontece já é tarde. Não sei o que teria acontecido se Betty não estivesse
perto de mim. Sinto muito, Rhodan, mas não pode confiar mais em mim.
— Que tolice, Adams! Não diga uma coisa
dessas. Mantenha-se numa atitude passiva até receber novas instruções. Evite
nos próximos dias qualquer ação de maior envergadura, pois vou precisar de
Betty Toufry. De uma hora para outra o inimigo vai se expor, e então
golpearemos imediatamente.
— Tomara que isso aconteça logo. Não é
nada agradável sabermos que já não somos donos de nós mesmos.
Rhodan esboçou um sorriso tranqüilizador e
interrompeu o contato.
No instante em que a imagem de Adams desapareceu,
o sorriso desapareceu de seus lábios.
* * *
Para quem não prestasse atenção à sua pele
morena e se deixasse enganar por seus modos fleumáticos, Fellmer Lloyd parecia
ser um tipo absolutamente normal e corriqueiro. Trabalhara durante anos numa
usina atômica americana, onde exercia as funções de assessor do diretor
científico, mas a equipe de Perry Rhodan acabou por localizá-lo.
Fellmer Lloyd era um mutante natural.
Não poderia ser designado propriamente um
telepata, mas suas faculdades aproximavam-se das de um mutante desse tipo.
Certo setor de seu cérebro fora modificado pelas emanações radiativas a que
seus pais estiveram expostos, a tal ponto que estava em condições de, a
qualquer momento, absorver os modelos cerebrais de seus semelhantes, classificá-los
e analisá-los. Não sabia captar os pensamentos, mas os sentimentos fundamentais
do próximo, e com isso também suas prováveis intenções. Ao falar com alguém,
sabia imediatamente se o interlocutor tinha uma disposição amistosa ou hostil
para com ele. Suas faculdades transformaram-no num tipo de localizador do
Exército de Mutantes.
Fellmer Lloyd estava parado junto à
barreira do aeroporto de Moscou; sem despertar a atenção de ninguém, observava
os passageiros que desembarcavam e embarcavam no jato de carreira. Era um dos
aviões das linhas regulares que, por incumbência da Terceira Potência,
estabeleciam ligação entre os continentes.
Na semana anterior dois aviões desse tipo
haviam sido destruídos no ar, por sabotagem. O ministério da segurança da Terceira
Potência recorrera aos mutantes aptos para esse tipo de ação, a fim de impedir
a repetição desse tipo de incidente.
E foi assim que Fellmer Lloyd passou a
voar de um continente para outro, tateando os passageiros e tomando cuidado
para que nenhum sabotador subisse a bordo.
Ainda estava indeciso sobre se devia tomar
esse avião e deixar a capital do Bloco Oriental. Gostava de Moscou, onde
travara relações bastante agradáveis. O povo parecia-lhe muito amável e gentil,
motivo por que sentia bastante ter que deixar essa cidade.
Fez um exame quase superficial de um casal
elegante que atravessou a barreira e, atravessando a faixa de concreto,
dirigiu-se ao avião. Provavelmente seriam recém-casados em viagem de núpcias.
De qualquer maneira eram inofensivos.
Mais ao longe os telhados da cidade
brilhavam sob os raios do sol que se punha. Gigantescos arranha-céus erguiam-se
para o alto, num esforço de concentrar sobre si os últimos raios do sol no
poente. A larga via de acesso que ligava o aeroporto à cidade recebia os raios
do sol em cheio; mal conseguia dar vazão ao tráfego.
Subitamente Fellmer Lloyd estremeceu.
Alguma coisa má, vinda não se sabe de
onde, que não combinava com o ambiente de paz, penetrou em seu espírito. Alguém
pensava em violência e em cautela, em morte, em assassínio.
O raio de ação de sua faculdade não era
muito extenso, só atingia algumas centenas de metros. Mas a intensidade das
ondas cerebrais que o atingiam era tamanha que o respectivo emissor devia se encontrar
nas imediações.
Num movimento apressado lançou os olhos em
torno de si.
Grupos de pessoas conversavam. Alguns se
despediam, separavam-se, ainda acenavam com as mãos. Uma dama jovem, com pernas
lindíssimas, atravessou a barreira em passos resolutos e dirigiu-se ao avião.
Carregava uma grande pasta marrom. Mais à esquerda, Lloyd viu um policial,
cujos olhos atentos fitavam as pessoas que passavam por ali.
Os olhos de Lloyd voltaram a pousar na
jovem dama. As impressões causadas pela mesma fortaleceram-se em seu cérebro.
Realmente. As idéias de violência provinham dela; não havia a menor dúvida. Por
um instante o mutante pensou que se tivesse enganado; mas podia confiar em seu
senso de orientação.
Cautelosamente movimentou seu corpo
musculoso e seguiu a dama. Trajava um vestido moderno e dava a impressão de que
praticava muito esporte. Seu andar era elástico, quase macio.
Faltavam três minutos para a decolagem.
Quando subiu a escada do avião, a dama
apresentou sua ficha de embarque com o número da poltrona, trocou algumas
palavras com a aeromoça e entrou no avião. Lloyd seguiu-a. Sua identidade
bastou para que fosse admitido no avião. Recebeu um lugar próximo ao da dama.
As idéias que se ocupavam com alguma coisa
terrível enfraqueceram um pouco, dando lugar a uma sensação de tranqüilidade e
segurança temporária. Lloyd tinha certeza absoluta de que no momento não havia
o menor perigo. Mas também sabia que não devia tirar os olhos daquela bela
dama, enquanto ela se encontrasse no avião.
Devia ter uns vinte e cinco anos, era esbelta
e tinha cabelos castanho-escuros. Os olhos, um pouco estreitos, davam um
encanto extraordinário ao seu rosto oval. Lloyd não podia se conformar com a
idéia de que se tratava de uma agente daquele personagem desconhecido, o
Supercrânio. Talvez tudo não passasse de coincidência.
O avião decolou e seguiu o sol que se
punha. Sua velocidade era tamanha que o sol ainda se encontrava na mesma altura
quando pousou no aeroporto de Tempelhof,
em Berlim.
Lloyd sentiu-se atingido por uma onda de
excitação quando a moça se levantou e se dirigiu à porta. O avião acabara de taxiar
na pista e encontrava-se diante das salas de inspeção alfandegária.
O mutante também se levantou e apressou-se
para não perder de vista sua presa. As ondas cerebrais da mesma eram tão
intensas que Lloyd mal conseguia se proteger contra elas. Quase chegavam a
provocar dor ao penetrarem em sua consciência, despertando nela a sensação de
uma ameaça imediata.
Descera e caminhava a passos rápidos e
decididos em direção à barreira. Segurava a passagem na mão. Ao que parecia não
tinha bagagem.
Nenhuma bagagem?
Lloyd teve a impressão de que alguém
derramara uma tina de água escaldante em suas costas. E a bagagem?
De supetão percebeu a realidade. A dama
não trazia nada na mão. Deixara a pasta de couro no avião.
Lloyd girou sobre os calcanhares, correu
em direção ao avião, forçou passagem ao lado dos passageiros que desciam, não
deu a menor atenção aos protestos enfurecidos e, de um salto, colocou-se junto
à poltrona que havia sido ocupada pela suspeita.
A pasta de couro, aparentemente
inofensiva, estava embaixo da poltrona.
Pegou-a num movimento rápido e voltou
correndo pelo mesmo caminho. Por um instante acreditou ter perdido a pista da
possuidora da pasta. Mas descobriu-a junto à entrada do aeroporto onde se
esforçava para conseguir um táxi. Lloyd captou o modelo confuso de suas idéias,
nas quais voltara a se introduzir a insegurança. Não estava convencida do
acerto daquilo que acabara de fazer?
Chegou no momento exato em que ela ia
entrando num táxi. Com alguns saltos enormes, alcançou o veículo, abriu a porta
e entrou. Fitou diretamente os olhos da dama, arregalados de pavor. O olhar
dela não se fixava nele, mas na pasta de couro que segurava despreocupadamente
embaixo do braço.
— Meu Deus — disse Lloyd, exausto. — Para
que tanta pressa? A senhora esqueceu esta pasta no avião.
A desconhecida fitou-o com os olhos
perscrutadores. Depois disso uma expressão de pavor passou pelo seu rosto.
Enfiou a mão no bolso do vestido e retirou com um revolverzinho. Mas Lloyd fora
prevenido por um modelo dos sentimentos do outro cérebro. Com um gesto tirou a
arma da moça.
— Não faça isso, minha bela amiga —
advertiu em tom suave. — Minhas intenções são as melhores possíveis.
— Esta mentindo — disse a dama, sacudindo
a cabeça. Falava um inglês arranhado, com um ligeiro sotaque russo. — O senhor
vem me perseguindo desde Moscou. Acha que não percebi?
— Quer dizer que lê pensamentos.
A dama hesitou por um instante; depois
confirmou com um aceno de cabeça.
— Sim, sou telepata.
No primeiro instante Lloyd ficou
decepcionado e mesmo assustado. Como lidar com alguém que adivinhava seus pensamentos
mais secretos? Mas depois de algum tempo sacudiu os ombros.
— Está bem. Nesse caso podemos usar de
franqueza. A senhora foi incumbida pelo Supercrânio de sabotar as linhas aéreas
da Terceira Potência. Uma carga explosiva está tiquetaqueando nesta pasta. A
senhora ajustou o detonador e deixou a pasta no avião. Ela explodiria na viagem
daqui para Londres. Minhas suposições não são corretas?
Ela o mediu com o olhar.
— E se fosse assim?
— Nesse caso Perry Rhodan estaria muito
interessado em conversar com a senhora.
Uma sombra passou pelo lindo rosto da
dama.
— Não tenho nenhum interesse em conversar
com o homem que traiu a Humanidade. Diga-lhe isto da minha parte. Aliás, se
fosse o senhor, procuraria me livrar desta pasta quanto antes. A carga
explosiva tem potência suficiente para nos atirar até as nuvens. E a única
pessoa que conhece o momento da detonação sou eu.
— Enquanto a senhora estiver comigo e não
demonstrar nenhuma inquietação, nada poderá me acontecer — observou Lloyd com
uma lógica irrepreensível. Inclinou-se para a frente e abriu o vidro que os
separava do motorista. — Leve-nos de volta ao aeroporto — voltou a fechar o
vidro e dirigiu-se à prisioneira. — Seria bonito se nos apresentássemos. Já
conhece meu nome. Como posso chamar a senhora?
— Tatiana Michalovna — respondeu a dama em
tom obstinado. Lloyd sentiu que não mentia. — Em hipótese alguma descobrirá
mais que isto.
— Perry Rhodan e seus mutantes descobrirão
— prometeu Lloyd em tom tranqüilo e ficou satisfeito ao constatar que sua
interlocutora se assustou. — Tenho um avião rápido no aeroporto. Daqui a
algumas horas poderemos estar em Terrânia.
A dama não respondeu. Seus olhos pensativos
estavam pousados na pasta de couro, que estava de pé junto a Lloyd. Este
percebeu o olhar e sorriu.
— Não se preocupe, madame. Na Sibéria
encontraremos um lugar em que uma pequena explosão não fará mal a ninguém. Por
lá já houve explosões bem maiores.
A dama manteve-se num silêncio obstinado.
* * *
O duelo espiritual entre Marshall e Tatiana
Michalovna não durou muito. A russa logo percebeu que não adiantaria ocultar a
verdade. E houve outro fator com que não contava: Perry Rhodan.
Começou a falar com a voz hesitante.
— Tal qual todos os seres humanos, mantive
uma atitude de ceticismo face à Terceira Potência. Para mim o senhor, Sr.
Rhodan, era um traidor pois aliou-se a seres extraterrenos que aspiravam ao
domínio mundial. É bem verdade que impediu a guerra atômica entre o Oriente e o
Ocidente. Mas nem por isso tinha o direito de nos forçar a ingressar num
processo evolutivo que avança com rapidez excessiva, atirando-nos para fora da
trilha que nos foi prescrita. Também teríamos alcançado a união mundial sem o
senhor.
— Não tenho a menor dúvida — admitiu
Rhodan sorrindo e piscou o olho. — Teriam conseguido à sua maneira,
naturalmente. Acontece que eu fiz à minha maneira. Há alguma objeção contra
isto?
— Há algumas. O fato é que um belo dia me
encontrei com um homem cujas idéias coincidiam com as minhas. Também ele
condenava a Terceira Potência e desejava a paz. Nossa paz. Entrei em contato
com ele. Como nem desconfiasse das minhas capacidades telepáticas, descobri
tudo. Uma quarta potência está sendo formada; será uma potência puramente
humana, que nada terá que ver com os arcônidas e raças da Via Láctea. A
política do Supercrânio é terrena, não galáctica.
— Não é nada inteligente — disse Rhodan. —
Prossiga, Michalovna.
— Resolvi me unir ao grupo do Supercrânio
— disse a moça com a maior naturalidade. — A luta dele é uma luta justa, pois
dirige-se contra uma coisa que sempre será estranha à nossa natureza.
— Já houve um tempo em que as pequenas
nações da Europa julgavam as culturas vizinhas estranhas à sua natureza — objetou
Rhodan. — Hoje formam uma unidade.
— Trata-se de uma evolução natural, não
artificial...
— Não diga isso. Deram um empurrão.
— Apesar de tudo...
— Não vejo a menor diferença. A Humanidade
teve de se convencer de que não é a única raça inteligente que existe no
Universo. Deve se manter isolada, para ser vitimada um belo dia por uma
agressão? Não será muito melhor que nos adaptemos ao ambiente em que vivemos?
Não podemos fazer mais que isso. Só uma Terra unida sob uma mão forte não
perderá a oportunidade de se integrar na civilização galáctica. Há alguns anos
ainda se julgava que essa evolução dos acontecimentos se situava num futuro
muito distante; parecia o sonho de um alucinado. Hoje ingressou no mundo da
realidade. Devemos tomar nossa decisão, e muita gente já o fez. Nem mesmo um
Supercrânio pode modificar isso.
— Nem pretende fazê-lo. Apenas opõe-se ao
domínio exclusivo que o senhor quer exercer.
Rhodan sorriu e lançou um olhar rápido
para John Marshall.
— Se aspirasse ao domínio exclusivo, já o
teria alcançado. A senhora não deixará de reconhecer isso.
A moça hesitou.
— É verdade. Por que ainda não o
conquistou?
— Porque não faço a menor questão disso. A
polícia deve cuidar da ordem, mas nunca deve governar.
— Então acha que lhe cabe o papel de polícia
mundial?
— Talvez, mas isso não deve ser levado ao
pé da letra. Prefiro que me considere um desbravador de caminhos.
A moça não respondeu, mas seu rosto revelava
que refletia intensamente. De repente John Marshall, o telepata, disse:
— Michalovna, por que será que não consigo
captar claramente todos os seus pensamentos? Nunca encontrei uma pessoa que
conseguisse ocultar seus pensamentos de mim.
— Pois desta vez o senhor acaba de
encontrar uma pessoa destas — disse Tatiana com um sorriso de superioridade. —
Além da telepatia possuo outra faculdade, que aparentemente ainda não se tornou
tão corriqueira como supus. Posso instalar um bloqueio volitivo contra qualquer
tipo de influência estranha. É bem possível que esse bloqueio também isole meus
pensamentos do mundo exterior, impedindo que sejam captados por um telepata.
— A senhora sabe se resguardar contra
qualquer influência estranha? — perguntou Rhodan bastante interessado. — Será
que há necessidade disso? Os hipnos são muito raros.
— O Supercrânio é um hipno — disse
Tatiana, enfatizando as palavras.
Rhodan contemplou-a por algum tempo;
depois acenou lentamente com a cabeça.
— Quer dizer que a senhora sabe se
defender de uma influência hipnótica exercida a distância?
Esperou até que a moça confirmasse com um
aceno de cabeça e prosseguiu:
— Mesmo neste instante estaria em
condições de agir contra vontade do Supercrânio?
A moça voltou a confirmar com um aceno de
cabeça.
— Já sabe que costuma ordenar a qualquer
colaborador aprisionado por nós que morra?
Tatiana empalideceu.
— E daí? — perguntou, assustada.
— A pessoa obedece e morre — respondeu
Rhodan em tom brutal. — Por isso recomendo-lhe que tome cuidado para que seu
bloqueio volitivo resista. Provavelmente é o único ser humano sobre o qual o
Supercrânio não consegue exercer qualquer influência, com exceção de nós,
evidentemente. É possível que possa haver certa influência, mas nunca o comando
dirigido ao nosso coração, de suspender sua atividade.
— Isso é uma coisa horrível! — exclamou
Tatiana. Não podia se conformar com o fato de que seu chefe era um homem sem
escrúpulos. Rhodan tirou proveito da situação.
— O Supercrânio fez com que uma das nossas
companhias se amotinasse e atirasse contra seus companheiros. Felizmente
conseguimos evitar o pior.
Tatiana cobriu o rosto com as mãos.
— E eu estava tão cega que quase chego a
assassinar cem pessoas inocentes. Aquela bomba...
— Não pense mais nisso — disse Rhodan
baixinho e em tom insistente. — Já houve gente que fez coisa muito pior, de boa
fé. A senhora agiu de acordo com suas convicções. Assim que estiver recuperada
do susto, Lloyd a levará de volta para Moscou. Ninguém a obrigará a ficar
conosco.
A moça olhou-o, espantada.
— Vai me colocar em liberdade?
— Por que iria segurá-la? Não acredito que
a senhora caia mais uma vez na tolice de se deixar levar por simples frases. O
Supercrânio não é apenas um nacionalista estúpido, mas também um criminoso
ávido de poder. Ainda vou descobrir quem se oculta atrás da máscara do
Supercrânio.
Tatiana levantou a cabeça e encarou
Rhodan, um tanto espantada. De repente sorriu.
— Não sabe quem é o Supercrânio? —
perguntou em tom perscrutador.
Rhodan sacudiu a cabeça. Subitamente seus
olhos cinza-azulados tornaram-se frios e emitiram um brilho enérgico.
Inclinou-se para a frente.
— Será que a senhora sabe?
Tatiana acenou com a cabeça e saboreou seu
triunfo.
— Sei; até o conheço pessoalmente.
3
Nas imediações da região onde em 1.945 foi
detonada a primeira bomba atômica, um reator experimental entrou em pane em
fins de 1944. As radiações liberadas pelo acidente mataram muitos cientistas e
trabalhadores, mas outros tantos escaparam com vida.
Um deles foi o físico Monterny, que casou
pouco depois. Foi um casamento breve, mas feliz. Em 1.945 sua mulher presenteou-o
com um filho, Clifford Monterny. Clifford era um mutante de primeiro grau, um
hipno de potência inacreditável.
Seguindo o exemplo do pai, estudou física.
Sua inteligência extraordinária levou-o a conquistar posições importantes e uma
fortuna apreciável, mas quase chegou a envelhecer antes que descobrisse suas
capacidades anômalas. Não tinha a menor dificuldade em impor sua vontade a
outras pessoas. Levou dois anos para descobrir que a distância não impunha
qualquer limitação à influência por ele exercida. Depois de ter visto um homem
uma única vez, conseguiria localizá-lo do outro lado do mundo e submetê-lo à
sua influência.
Clifford Monterny era gordo e flácido; não
tinha um aspecto muito atraente. As mulheres evitavam-no, e essa circunstância
talvez tivesse exercido alguma influência em seu caráter. A expressão de seus
olhos pequenos e afundados nas órbitas sempre era de inveja e desconfiança. Com
trinta e dois anos já tinha a cabeça completamente calva e quase sempre andava
de chapéu. Sua inteligência extraordinária formava um contraste chocante com
seu aspecto desagradável.
Teve sua atenção despertada pela formação
da Terceira Potência e pelos êxitos alcançados por Perry Rhodan. Acompanhou a
formação do Exército de Mutantes e por mais de uma vez tomou a decisão de se
colocar ao dispor de Rhodan. Mas nunca o fez.
Não era ele mesmo um mutante? Não poderia
dirigir os destinos da Humanidade se o desejasse? Não estaria em condições de
reunir um poder maior do que jamais um homem teve em suas mãos? Não poderia
formar seu próprio exército de mutantes?
Foi assim que Clifford Monterny começou a
reunir, às escondidas, seu próprio grupo de mutantes.
Clifford Monterny transformou-se no
Supercrânio, um homem que quase ninguém conhecia e que parecia estar em todos
os lugares, ou em lugar nenhum. Sua fortuna permitiu-lhe construir um
verdadeiro castelo nas Montanhas Rochosas de Utah. Menos de cem quilômetros ao
leste do grande lago salgado, ao pé do Emmons Peak com seus quatro mil e
noventa metros de altura, ficava sua fazenda de nove quilômetros quadrados. A
casa ali construída parecia uma verdadeira fortaleza, que poderia ser
considerada inexpugnável. As conquistas da técnica moderna permitiam-lhe
detectar e vigiar qualquer visitante, e elas o defenderiam eficazmente contra
qualquer ataque.
Quando atingiu a idade de trinta e cinco
anos, suas capacidades telepáticas estavam totalmente amadurecidas. Além de
seus dons hipnóticos, sabia dominar qualquer homem com quem se tivesse
encontrado uma vez que fosse, captando o modelo de suas vibrações cerebrais.
Para um homem desses não haveria escapatória: o Supercrânio saberia
localizá-lo, onde quer que ele se escondesse.
Num trabalho silencioso, o quartel-general
de uma nova potência foi instalado nas montanhas rochosas de Utah; tratava-se
de uma potência que poderia representar um perigo mesmo para Perry Rhodan. O
primeiro ataque, de natureza econômica, desfechado contra a Terceira Potência,
foi rechaçado por Rhodan. Mas o Supercrânio passou a utilizar métodos mais
diretos.
Foi nesse estágio dos acontecimentos que
Perry Rhodan teve conhecimento da identidade daquele homem, até então
desconhecido.
* * *
Todos os serviços secretos do mundo se
haviam reunido na Federação de Defesa da Terra, F.D.T. O secretário-geral da
importante organização era Allan D. Mercant.
Mercant, ligeiramente perturbado, estava
arrumando a escassa coroa de cabelos louros que cercava sua cabeça quando o
visitante foi anunciado.
— Rhodan em pessoa? — procurou se
certificar, como se não acreditasse no que acabara de ouvir. Quanto tempo já se
fazia que falara com Rhodan pela última vez? — Por que fica parado aí? Faça-o
entrar.
O jovem oficial quase tropeça ao girar
sobre os calcanhares e por pouco não derruba Rhodan, que entrou com um sorriso
no lábio e cumprimentou Mercant com algumas palavras cordiais.
— Como vai, meu velho? Sempre alegre e bem
disposto?
— Que nem um peixe velho — resmungou
Mercant com a voz amargurada e alisou os cabelos que lhe cobriam as têmporas.
Já estavam mais grisalhos, mas o tom louro da coroa de cabelos mantinha-se
obstinadamente. — O que me dá a honra dessa visita?
— Não é nada de agradável — explicou
Rhodan, enquanto se acomodava numa poltrona. — Preciso do seu auxílio.
— Do meu auxílio? — perguntou Mercant,
enquanto seus olhos se tornavam redondos. — Quer que eu o ajude?
— Desta vez quero — disse Rhodan com um
sorriso. — É uma situação excepcional. Não quero saber de dificuldades
políticas. Você sabe perfeitamente como hoje em dia os homens são sensíveis
neste ponto.
— É verdade — confirmou Mercant num tom de
profundo interesse. — Afinal, ainda não temos o governo mundial.
Rhodan se inclinou para a frente e lançou
um olhar perscrutador sobre Mercant.
— Conhece Clifford Monterny?
No rosto de seu interlocutor desenharam-se
as marcas de uma profunda reflexão. Finalmente esboçou um gesto hesitante de
cabeça.
— Já ouvi falar nele, mas não o conheço
pessoalmente.
— Sorte sua — interrompeu-o Rhodan.
Mercant não lhe deu atenção.
— Houve um físico muito conhecido, de nome
Monterny, mas este morreu numa explosão. Já faz bastante tempo.
— É o pai. Refiro-me ao filho, Clifford.
— Não é também um físico?
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça e
Mercant prosseguiu:
— É autor de algumas invenções, mas nunca
despertou a atenção da F.D.T. Deve ter muito dinheiro. Possui uma fazenda ou coisa
que o valha em algum lugar no Oeste. Mas, com os mil demônios, por que me faz
essa pergunta? Será que sou o Departamento de Registro de Moradores?
— Quero que me dê permissão para penetrar
no território dos Estados Unidos com uma esquadrilha de destróieres espaciais e
arrasar essa fazenda de Monterny. Há de concordar comigo que, para isso,
preciso de um certo tipo de autorização.
— Quer o quê?! Acho que... — exclamou
Mercant exaltado.
— É melhor que não ache coisa alguma,
Mercant. Clifford Monterny é o misterioso Supercrânio. Está agindo no intuito
de abalar a ordem mundial. É um hipno e está em condições de ainda hoje levar
qualquer estadista do mundo a despejar as provisões de armas nucleares de que
seu país disponha no território de um país vizinho. Se já existiu um inimigo
mundial número um, este é Clifford Monterny. O único meio de evitar um desastre
de maiores proporções é destruí-lo. Foi por isso que resolvi falar com você.
Mercant já estava falando num telefone de
mesa. Por intermédio do F.B.I. solicitou todos os dados sobre Monterny. Depois
levantou os olhos.
— Conte com toda ajuda que esteja ao meu
alcance, Rhodan. O contato com o presidente dos Estados Unidos é uma questão de
minutos. Mais uma pergunta: onde estão seus destróieres neste momento?
Rhodan esboçou um sorriso gentil.
— Encontram-se numa altitude de trinta mil
metros, exatamente acima do ponto em que nos encontramos. Isto o surpreende?
* * *
O cadete Julian Tifflor viu bem ao longe a
lâmina redonda formada pela Terra. A curvatura da mesma era acompanhada por uma
camada leitosa formada pelas partes mais densas da atmosfera; dali em diante o
céu, passando pelo violeta, tornava-se negro. As grandes estrelas brilhavam,
mas não cintilavam, muito embora o sol estivesse no céu.
Perry Rhodan o admitira sem maiores
formalidades na frota da Terceira Potência. Confiou-lhe o comando de um
destróier. Juntamente com Ray Gall e Pete Maros encontrava-se no Z-82, trinta
mil metros acima do quartel-general da F.D.T., onde Rhodan estava conferenciando
com Mercant.
Mais oito destróieres flutuavam nas
proximidades, sustentados pelos neutralizadores gravitacionais. Mais acima,
numa posição em que não podia ser alcançada pela vista dos tripulantes dos
destróieres, a imensa nave Stardust-III estava estacionada no espaço. Bell em
pessoa estava no comando, enquanto Rhodan se encontrava em terra. A Terceira
Potência passara ao ataque contra o Supercrânio.
Mercant transmitira as necessárias
instruções; ninguém pensaria em incomodar os nove destróieres que aguardavam
sobre o território submetido à soberania americana. Quanto à Stardust-III, uma
nave esférica de oitocentos metros de diâmetro, de qualquer maneira não existia
arma capaz de afetá-la.
Tiff respirou aliviado quando a tela se
iluminou diante dele, exibindo o rosto conhecido de Bell. Sabia que no mesmo
instante os comandantes dos outros destróieres do grupo estavam entrando em
contato com a Stardust-III.
— Atenção, todos os destróieres. Dentro de
alguns minutos a nave auxiliar que conduz Rhodan chegará à Stardust-III. A ação
planejada será levada avante. Basta que observem as instruções permanentes.
Fim.
A tela continuou iluminada, mas o rosto de
Bell desapareceu. O contato acústico foi interrompido. Essa situação perdurou
por dez minutos, após os quais veio uma indicação de rota. A voz tranqüila de
Bell conduzia os nove destróieres ao destino.
* * *
O posto de comando militar de Clifford
Monterny ficava bem abaixo do nível do solo.
Cercado de inúmeras telas e outros
instrumentos de comunicação, o Supercrânio estava sentado nessa central, igual
a uma aranha em sua rede. Era para ali que convergiam todos os fios, era dali
que o monstro dirigia suas batalhas que geralmente passavam quase
despercebidas.
Uma das telas se iluminou. Exibiu um rosto
asiático. A imagem tremia, ocultando os detalhes. A transmissão devia passar
por muitos postos de relê.
— O que houve, S-7? — perguntou Clifford.
— No âmbito das novas tentativas, a Usina
Syntak foi destruída na noite passada. Fica na Austrália e sessenta e cinco por
cento de seu capital pertencem à G.C.C.
— Obrigado, S-7. Remeterei o cheque. O
quadro se apagou. Outro rosto surgiu numa tela diferente. Era de um negro.
— Aqui fala M-3, meu senhor. Hoje de manhã
o governador de Sirãpolis foi vitimado num acidente de trânsito. O condutor do
veículo que causou o acidente escapou sem ser identificado.
— Obrigado, M-3. Já conhece sua próxima
tarefa?
— Perfeitamente. Recebi as instruções por
intermédio...
— Está bem, M-3. Aguardo aviso de que a
tarefa foi cumprida. Fim.
Ainda outra tela se iluminou.
— Alô, chefe. Aqui fala SP-6. Há uma
freqüência extraordinária de vôos no território da F.D.T. A presença da nave
esférica foi observada. O F.B.I. recebeu solicitações de dados sobre a pessoa
de Clifford Monterny.
— O quê? — o Supercrânio se inclinou para
a frente. — Sobre minha pessoa?
— Não há dúvida sobre a autenticidade da
informação, chefe. Apenas não sei quem solicitou os dados.
— Que diabo! Não é possível! Ninguém sabe
quem sou. A não ser que...
Como uma alucinação, o rosto oval de uma
linda mulher surgiu diante de seus olhos. Há dias não tinha contato com ela.
Tatiana Michalovna!
Perdera-a no instante em que ela deixou de
executar sua última tarefa. Sabia que Tatiana era uma telepata de elevada
potência, tal qual ele mesmo. Além disso, porém, dispunha da faculdade de
isolar seu cérebro, subtraindo-se a qualquer tipo de influência. Inclusive de
qualquer influência partida dele.
Será que Tatiana poderia ter se atrevido a
traí-lo? Por que teria agido assim? Não era uma das suas adeptas mais
convictas? Sempre tivera de se controlar quando se encontrava nas proximidades
dela, para não pensar alguma coisa que não devia.
— Deve ter sido um dos membros da nossa
equipe — soou a voz do agente SP-6. — Assim que descobrir quem solicitou as
informações do F.B.I., voltarei a entrar em contato com o senhor. Fim.
Por alguns minutos Clifford interrompeu a
recepção e refletiu intensamente. Seu supercérebro expandiu-se, procurando
localizar seus homens em todas as partes do mundo. Às vezes isso não era fácil,
motivo por que para as mensagens rotineiras mantinha seu equipamento de comunicações.
Todavia, se necessário, poderia vigiar
seus agentes independentemente desse equipamento.
Havia treze mutantes submetidos ao seu
comando. Um dos grandes mutantes não pôde acusar o recebimento da mensagem
telepática, visto que não se encontrava na Terra. Onze deles responderam e
receberam instruções para regressar imediatamente. Um único mutante não atendeu
ao chamado de Clifford: era Tatiana Michalovna.
O Supercrânio não perdeu tempo. Deu o
alarma preventivo. Os primeiros mutantes estavam chegando. A fortaleza foi
colocada em condições de se defender.
Os minúsculos aviões-foguetes foram
pousando na área imensa da fazenda. Traziam os atores principais, os mutantes,
que haviam abandonado seus postos para regressar ao quartel-general, onde lhes
seriam ministradas instruções diretas. Uma atividade febril começou a se
desenvolver nas galerias subterrâneas da antiga mina. Peças de artilharia
moderna subiram em elevadores, entrando em posição de defesa pouco abaixo da
superfície. Tudo se processou automaticamente, obedecendo a comandos
eletrônicos.
Sentado na sala de comando, o Supercrânio
controlava o desenrolar dos acontecimentos. As telas mostravam todos os detalhes
das áreas adjacentes à sede da fazenda. Mas, por mais que se esforçasse, não
viu nada de suspeito. Não se via nem se ouvia nada de um eventual atacante.
Talvez o agente SP-6 se tivesse enganado;
era possível que a solicitação formulada ao F.B.I. não passasse de um ato de
rotina. Mas, para um homem que ocupava sua posição, a cautela nunca seria
demais. Quem dera que o elemento que tinha em Terrânia desse sinal de vida.
Clifford Monterny não sabia que esse homem
nunca mais daria sinal de vida, porque nunca mais estaria em condições de
fazê-lo. Por mais que seu
espírito perscrutador o procurasse, não conseguiria entrar em contato com um
cérebro morto. Tatiana tomara providências para que esse tipo de traição se
tornasse impossível. Ao ser preso, o homem de Clifford foi morto em legítima
defesa.
Conforme já foi dito, o Supercrânio não
conhecia esse detalhe. Aguardava em vão por um contato vindo de Terrânia. E,
como esse contato não chegava, não podia ter certeza se Perry Rhodan descobrira
sua identidade.
Por enquanto tudo continuava quieto.
Mas, ao menor sinal de um ataque, a
fazenda inofensiva do generoso Clifford Monterny se transformaria numa
fortaleza a cuspir fogo.
O Supercrânio estava preparado para a
luta.
* * *
Perry Rhodan e Bell não se apressaram.
A Stardust-III e os nove destróieres
subiram às camadas extremas da atmosfera, para afastar qualquer possibilidade
de serem detectados pelas instalações de radar do Supercrânio. E ali realizaram
o último conselho de guerra.
— Os mutantes fizeram um serviço perfeito
— relatou Bell, lançando um olhar de advertência para Gucky, que estava agachado
num canto. — Conseguimos agarrar mais alguns agentes do Supercrânio. Não
descobrimos nenhum dos seus mutantes. Pelo que diz Tatiana, tinha doze além
dela. Tatiana conhece onze; não conhece um deles. Deve se tratar de um exemplar
dotado de capacidade extraordinária.
— Será que a capacidade dele é maior que a
minha? — perguntou Gucky no seu canto.
Isso seria difícil de imaginar. Pelo menos
no que diz respeito ao aspecto exterior, Gucky não poderia ser superado por
qualquer ser humano. É que Gucky não era nenhum ser humano. Quando por ocasião
de sua viagem em busca do imortal do planeta Peregrino, Rhodan fizera um pouso
no planeta Vagabundo, o rato-castor entrara sorrateiramente a bordo da
Stardust-III e dali em diante nunca mais se afastara de Rhodan e Bell. Gucky
tinha pêlo marrom-avermelhado; sua cabeça era a de um camundongo e o corpo de
castor. Seu maior orgulho era a cauda larga, sobre a qual costumava se apoiar quando
andava sobre as patas traseiras. Sua inteligência extraordinária permitira-lhe
aprender rapidamente a língua dos bípedes. A essa inteligência aliava-se o
domínio perfeito da telecinésia e da teleportação. Já chegara a fazer com que
uma frota inteira de pequenas naves espaciais realizasse os exercícios que lhe
dessem na cabeça, muito embora os pilotos protestassem energicamente contra
essa espécie de tutela.
Era esse Gucky, um dos grandes amigos de
Rhodan, que estava agachado num dos cantos da sala de comando, fazendo o papel
de uma criatura inofensiva. Assim costumava agir quando grandes coisas estavam
para acontecer. Pertencia ao Exército de Mutantes, em igualdade de condições
com os demais membros.
Bell lançou-lhe um olhar perscrutador.
— É possível que em certo ponto seja
superior a você, Gucky. O fato, porém, é que não sabemos. Mas pare de nos
incomodar. Devemos tomar algumas decisões importantes — fungou, bastante
nervoso, e olhou para Rhodan. — Onde estávamos?
— Nos mutantes — disse Rhodan com um sorriso.
— Já conseguiram estabelecer contato.
— É verdade. Tanaka Seiko, o goniômetro,
conseguiu captar a mensagem mental do Supercrânio, e posteriormente também sua
transmissão televisada. Localizou as respectivas estações e fez um croqui. Aqui
está.
Rhodan pegou a folha de papel e examinou o
desenho. Lembrava uma teia de aranha. O Supercrânio encontrava-se no centro da
mesma. Dali partiam os fios que se dirigiam para todo o mundo. As extremidades
desses fios correspondiam à localização de um agente. Os homens de Rhodan já se
dirigiam a esses pontos.
— Excelente! — elogiou Rhodan. — Acho que
com isso conseguiremos isolar o Supercrânio. Já não poderá contar com qualquer
auxílio vindo de fora.
— Não acredito que ele se importe com
isso. Não se esqueça do que Tifflor nos contou. O prisioneiro que capturou
aludiu ao planeta Marte. Receio que tenha instalado uma base em Marte.
— Por enquanto continua na Terra, e é aqui
mesmo que vamos liquidá-lo. Nunca estive tão decidido a exterminar totalmente
um inimigo.
A voz de Rhodan adquirira um tom duro.
— O Supercrânio é um inimigo de toda a
Humanidade. Quer a união da Terra, como nós, mas quer realizar essa união para impor
seu domínio. Diria que é o exemplar perfeito do ditador mundial.
— Vamos lhe estragar a festa — disse Bell
e olhou para o relógio. — Acho que nossas tropas de choque já devem se
encontrar nas proximidades da fazenda. Por que será que ainda não entraram em
contato conosco?
— Talvez tenha surgido algum problema. De
qualquer maneira não vamos esperar muito; logo iniciaremos a ação. Se possível,
quero o Supercrânio vivo.
Bell arregalou os olhos.
— Para quê? Quer prendê-lo? Ele nos
escapará, e a caçada terá de começar de novo. Já que resolvemos atacar, devemos
destruí-lo.
— Estou pensando nos seus mutantes —
ponderou Rhodan. — Estou convencido de que sabem tanto do procedimento
vergonhoso de seu senhor quanto Tatiana.
— Acontece que eles mesmos têm praticado
crimes.
— Porque têm sido obrigados a isso, Bell.
E ainda porque estão convencidos de se encontrarem a serviço de uma boa causa.
Bem, não demoraremos a descobrir.
A porta da sala de comando se abriu.
— Há um chamado de Utah — disse o
telegrafista com a voz nervosa. — Querem falar com o senhor Rhodan.
Bell chegou à sala de telegrafia antes de Rhodan.
Gucky seguiu-os lentamente, no seu andar balouçante.
— Aqui fala Wuriu Sengu — soou a voz do
alto-falante, assim que Rhodan transmitiu a senha. Sengu era o espia japonês do Exército de
Mutantes. Podia ver qualquer objeto, mesmo que este se encontrasse atrás de grossas
paredes de aço. — Estou deitado no chão a três quilômetros da casa de Monterny.
Consegui aterrisar e me aproximar sem dificuldades. Na casa tudo está quieto;
não descobri ninguém. Mas embaixo da terra o movimento é grande. Há um conjunto
incrível de equipamento de defesa. São corredores extensos com galerias
laterais e inúmeros recintos que servem de depósito de munições e mantimentos,
salas de estar, salas de armas, etc. Ainda há elevadores para canhões de tiro
rápido. O Supercrânio está sentado numa espécie de sala de comando e prepara a
defesa de seu reino. Alguém o deve ter prevenido.
— Quem?
— Talvez Seiko possa informar. Está
escutando as palestras radiofônicas. Não tenho nenhum contato com ele.
Rhodan refletiu por alguns segundos. — Está
bem, Sengu. Continue a observar tudo. Procure entrar em contato com os outros
mutantes, especialmente com Seiko. Avise sempre que houver alguma novidade.
Atacaremos exatamente daqui a trinta minutos. Mantenha-se afastado e só
intervenha quando o maior perigo tiver passado. Entendido?
— Entendido.
Rhodan se levantou.
— Dirigirei o ataque a bordo da Good
Hope-V.
Bell, espantado, ergueu as sobrancelhas.
— A bordo do girino?! — disse espantado. —
E o que é que eu vou fazer com a Stardust-III?
— Você ficará de olhos abertos para que
tudo dê certo, meu caro — consolou-o Rhodan. — Você ficará num lugar afastado,
cuidando para que o patife não nos escape. Não se esqueça de que dispõe ao
menos de dois destróieres capazes de atingir a velocidade da luz. Roubou três,
e um deles foi destruído. É possível que um se encontre em Marte. Quer dizer
que sobra um. É desse que você terá de cuidar.
— Eu também? — perguntou Gucky com sua voz
de grilo.
Não parecia nada satisfeito.
— Você também! — confirmou Rhodan,
enquanto dava uma pancada no ombro de Bell. — Estou satisfeito que hoje os arcônidas
não estão conosco. Thora e Crest não gostam de atos de beligerância. Acham que
é um procedimento bárbaro, uma demonstração de violência.
— E não deixam de ter sua razão.
Rhodan deu de ombros.
— Você conhece uma solução melhor?
Bell imitou o gesto de Rhodan, mas não respondeu.
Os dois homens voltaram à sala de comando, acompanhados do inseparável Gucky.
Bell assumiu o comando da Stardust-III. Rhodan tomou o elevador antigravitacional
e dirigiu-se apressadamente aos grandes hangares, a fim de preparar a Good
Hope-V para a decolagem.
Dali a cinco minutos a nave esférica, que
media sessenta metros de diâmetro, saiu do bojo gigantesco da Stardust-III e
mergulhou rapidamente na atmosfera terrestre. Os nove destróieres
acompanharam-na em formação militar.
E assim teve início o ataque ao
quartel-general do Supercrânio.
4
Mal os instrumentos de Clifford Monterny
registraram a presença da nave esférica e desencadearam o alarma, Rhodan já
havia pousado. A queda vertiginosa só foi amortecida no último instante. Quando
a Good Hope-V ainda vibrava sobre os suportes telescópicos, a menos de duzentos
metros do edifício-sede da fazenda, o Supercrânio abriu fogo.
Mais de vinte canos expeliam chamas de
vários metros de comprimento e disparavam cargas explosivas mortais. Os
projéteis tomaram uma trajetória retilínea em direção à Good Hope-V, mas
detonaram no campo protetor instalado nesse meio tempo. Esse campo recebia sua
energia dos inesgotáveis reatores arcônidas. O espetáculo era um fogo de
artifício nunca visto na área tranqüila das montanhas rochosas desde que o
homem andava sobre a Terra. Indiferente a tudo, a esfera manteve-se imóvel
atrás do campo protetor, aguardando.
O dispositivo automático de defesa do Supercrânio
disparou uns quinhentos projéteis, antes que o cérebro eletrônico compreendesse
que esse procedimento era totalmente inútil. As transportadoras mecânicas
mudaram as cargas explosivas. O cérebro eletrônico do Supercrânio decidiu
recorrer às armas atômicas.
Rhodan contara com isso. Sabia que o campo
protetor seria capaz de suportar e neutralizar essa carga. Todavia, o
bombardeio atômico representava o sinal de que o Supercrânio já não dispunha de
outros recursos. Era o princípio do fim.
Rhodan aguardou por uns três ou quatro
minutos, até que surgisse uma ligeira pausa no bombardeio. Tivera tempo de
sobra para determinar a posição dos vinte canhões. Seus canos saíam diretamente
da rocha natural e dali a pouco desapareceriam embaixo do solo, onde estariam a
salvo de qualquer ataque. Se quisesse inutilizar os canhões, teria de agir
depressa.
Os robôs de combate estavam preparados. Os
soldados da Terceira Potência, todos muito bem treinados, esperavam
ansiosamente na grande comporta de carga da Good Hope-V. O resto do Exército de
Mutantes aguardava febrilmente a entrada em ação. Só eles sabiam que a luta
decisiva poderia ser travada num plano exclusivamente espiritual.
Seria uma luta de mutantes contra
mutantes.
Todas as peças da artilharia de desintegração
da nave apontavam para os alvos já conhecidos. Também aguardavam. No mesmo
instante em que Rhodan desativasse o campo energético, expeliriam a torrente
mortífera de raios gaseificantes que destruiria o alvo. Toda e qualquer
estrutura cristalina se desmancharia por completo e deixaria de existir.
Rhodan esperara justamente essa breve
pausa no bombardeio. Uma das desvantagens de um conjunto de peças de artilharia
comandado por meios mecânicos consistia no fato de que as mesmas não podiam
receber um tratamento individual. Quando silenciavam, ou quando havia uma troca
de munições, não havia uma única que continuasse em condições de disparar.
O campo energético que protegia a Good
Hope-V se desfez.
No mesmo instante uns oito ou nove raios
da grossura de um dedo, quase invisíveis, saíram do envoltório côncavo e
alcançaram seu objetivo. Numa fração de segundo a terra e a rocha
transformaram-se numa massa borbulhante e fumegante, na qual os canhões de aço
flutuavam e se derretiam como se fossem de manteiga.
Os feixes de raios deslocaram-se em
direção aos próximos objetivos. Antes que o cérebro eletrônico do complexo
defensivo do Supercrânio registrasse a desgraça, todos os canhões, com exceção
de dois, haviam sido colocados fora de combate. Esses dois afundaram nas
galerias. Mas isso apenas evitou sua destruição. Os raios energéticos expelidos
pela Good Hope-V derreteram a boca das galerias a tal ponto que uma massa
vitrificada as fechava hermeticamente. Dessa forma não havia mais qualquer peça
de artilharia que pudesse ser utilizada na luta contra Rhodan.
Era exatamente isso que Rhodan aguardava.
O alarma ressoou pela nave. Escotilhas
abriram-se. De uma delas, uma rampa larga e inclinada estendeu-se em direção ao
solo. Dentro de poucos segundos vinte robôs de combate marcharam em direção à
casa, que jazia tranqüilamente em meio a algumas árvores solitárias. Nessa casa
devia se encontrar a entrada da fortaleza subterrânea do Supercrânio. Os braços
esquerdos estendiam-se em ângulo. As mãos estavam ausentes. No lugar delas
havia uma abertura em forma de cone.
Foram seguidos pelos soldados, armados com
radiadores de impulsos portáteis e armas automáticas. As granadas de gás
estavam presas aos cintos.
Rhodan permaneceu na sala de comando;
acompanhou os acontecimentos através das imagens projetadas na tela. Por
enquanto achou mais prudente não fazer pleno uso de seus mutantes. Formariam
uma espécie de reserva.
As telas estavam coordenadas de tal forma
que Rhodan parecia se encontrar numa casa de paredes de vidro. Nada poderia lhe
escapar. Por isso foi o primeiro a notar as medidas defensivas do Supercrânio,
cujos efeitos desastrosos logo se fizeram sentir.
* * *
Numa fúria desesperada, Clifford Monterny
fitou os controles das peças de artilharia automaticamente dirigidas. O cérebro
eletrônico não reagia mais. As escalas indicavam a marcação zero. Os canhões
haviam sido colocados fora de ação.
Mas, se Rhodan acreditava que só por isso
já ganhara a batalha, estava redondamente enganado.
Era bem verdade que Clifford supusera que
conseguiria liquidar qualquer atacante com algumas salvas rápidas de suas vinte
peças de artilharia; no entanto, não deixara de prever outras possibilidades.
Não foi à toa que formou um pequeno exército de mutantes, que lhe dispensava
uma cega dedicação.
Seus dedos giraram um botão. Uma tela se
iluminou, e nela surgiu a cabeça de um homem branco. Os cabelos cortados rente
faziam concluir que se tratava de um americano.
— Roster Deegan — disse o Supercrânio —
ponha seus homens em ação. Especialmente os telecinetas. Rhodan está atacando
com robôs. Em hipótese alguma devem alcançar a casa. O senhor comparecerá à
sala de comando para dirigir o contra-ataque.
Dois minutos depois dessa palestra, os
telecinetas de Monterny entraram em ação.

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