domingo, 11 de novembro de 2012

P-026 - Duelo de Mutantes - Clark Darlton [parte 2]


Antes que os canhões de Becker pudessem disparar a segunda salva, foram atingidos pelas descargas energéticas dos robôs. Os canos de dois dos canhões torceram-se, como se, de uma hora para outra, tivessem se transformado em cera. Um terceiro canhão se desmanchou numa chuva de faíscas.
Os outros encontravam-se fora da zona de destruição. Apesar da reação instantânea, os robôs não tinham a menor chance. Foram destruídos antes que pudessem se virar.
O tenente Becker, empunhando o radiador neutrônico que trazia consigo, dirigiu-se aos três carros, que se mantinham à espera. Os três motoristas aguardavam-no com os rostos inexpressivos e não esboçaram qualquer defesa.
— Os senhores estão submetidos ao meu comando — gritou Becker.
Os motoristas, mesmo sentados, assumiram posição de sentido e fizeram continência.
O sargento Harras, que se mantinha a distância, não compreendera quase nada do que havia acontecido; mas sabia que algo de horrível se passava. Becker devia ter enlouquecido de uma hora para outra. Mas será que ele mesmo não enlouquecera também? Por que cumpria ordens absurdas como essas? O que o obrigara a fazê-lo?
Que dor de cabeça! Não queria parar. Devia ser aquele calor insuportável. O sol, quase em posição vertical, dardejava seus raios sobre o deserto. Os estaleiros tremeluziam no ar aquecido.
Subitamente teve a impressão de que dedos delicados tateavam seu cérebro e o sondavam. Mas de uma hora para outra esses dedos já não eram delicados; comandavam e pressionavam. Eliminavam sua vontade e anulavam seu raciocínio normal.
Tal qual seus companheiros, voltou a pôr-se em movimento. Passou pelos robôs imóveis, estendidos na areia, e pelos veículos com os canhões destroçados.
Viu um movimento junto aos estaleiros. Homens saíram de seus abrigos, de armas nas mãos. Um turbomóvel em disparada surgiu da direita e parou perto de um edifício. Homens desceram. Um deles segurava alguma coisa na mão, uma caixinha quadrada.
O tenente Becker levantou o braço.
— Espalhem-se! Vamos atacar os estaleiros.
Num movimento resoluto e automático, o sargento Harras puxou a arma.

* * *

Perry Rhodan levantou os olhos quando a porta foi aberta com violência e alguém se precipitou.
Era Bell; mas tinha diante de si um Bell que ainda não conhecia. Os cabelos estavam desgrenhados, e no rosto, geralmente corado, via-se uma palidez cadavérica. Os olhos chamejavam nervosamente, e Rhodan percebeu que as mãos do amigo tremiam.
— Viu o demônio por aí? — perguntou, espantado.
— Dentro de pouco estará aqui mesmo — fungou Bell. — O diabo está às soltas. A companhia de vigilância do tenente Becker está atacando nossos estaleiros.
— O que aconteceu? — perguntou Rhodan e lançou um olhar atento para Bell, como se temesse pelas faculdades mentais do mesmo. — Becker está atacando os estaleiros? Acho que isso só pode ser uma piada de mau gosto. Comigo pode-se fazer muita coisa, Bell, mas...
— É verdade. Aquela gente ficou louca. O Supercrânio deve estar atrás disso.
— O Supercrânio — murmurou Rhodan, enquanto se levantava lentamente. — Como? O que aconteceu?
— Há poucos instantes recebi aviso de alarma do setor sete. Becker e seu grupo está marchando em direção ao estaleiro e destruiu nove robôs de combate. A guarnição de defesa assumiu seus postos. Está aguardando novas ordens. O que devem fazer se Becker realmente se lançar ao ataque? Deve ter enlouquecido.
Naquele instante Rhodan pareceu ver diante de si o mestiço que havia morrido em virtude de um comando do inimigo desconhecido. Se o Supercrânio era capaz de uma coisa dessas, ele também estaria em condições de dar a uma companhia inteira a ordem de marchar para sua própria destruição.
Subitamente sentiu-se sacudido por um susto. Deu-se conta do que poderia acontecer se realmente o tal do Supercrânio dispusesse de qualidades inconcebíveis, face às quais até mesmo as forças dos mutantes não passassem de brincadeira. Com uma frieza implacável a idéia de que se defrontava com um inimigo igual em forças, que seria capaz de destruí-lo se agisse com bastante inteligência, impôs-se ao seu cérebro.
— Não podemos perder tempo — com essa observação Bell interrompeu as reflexões de Rhodan. — Os homens aguardam nossas instruções. Não é nada fácil atirar contra amigos que enlouqueceram.
— Vamos até lá — respondeu Rhodan em tom decidido. — Arranje um projetor mental e um neutralizador gravitacional pequeno. Ande depressa. Espero no carro.
Bell não perdeu tempo com perguntas. Girou nos calcanhares e saiu apressadamente. Dois minutos depois, quando Rhodan chegou ao seu carro, Bell já o esperava. Na mão esquerda segurava uma caixinha metálica, que não parecia ser muito pesada. Na direita trazia um bastão prateado.
— Não vamos levar mais ninguém?
— Se não dermos conta disso sozinhos, ninguém mais dará — respondeu Rhodan e entrou no carro. As turbinas uivaram e o pequeno veículo acelerou loucamente, precipitando-se sobre a superfície lisa de concreto. Tomou a direção do estaleiro de naves espaciais, situado a cinco quilômetros das instalações centrais de Terrânia.
A hora não era de muito movimento. Vez por outra um pedestre solitário parava e olhava atrás do veículo tresloucado, cujo motorista devia ter perdido o juízo.
Bell respirava com dificuldade.
— O que será que aconteceu?
— Trata-se de influência hipnótica; nem poderia ser outra coisa. O Supercrânio apoderou-se da companhia de Becker e submeteu-a ao seu comando. Devemos tentar compensar esse comando por meio do projetor mental.
O projetor mental era uma arma arcônida. Através dele podia-se penetrar na vontade de outra pessoa e dirigi-la. Até se podiam transmitir comandos pós-hipnóticos.
— O que será de nós? — perguntou Bell. — Será que o Supercrânio conseguirá nos impor sua vontade?
— Sabemos que ele já o tentou com Crest, o arcônida, mas não teve êxito. Por isso suponho que sua força não é capaz de influenciar um cérebro arcônida. E atravessamos o treinamento hipnótico arcônida. Talvez ele tenha deixado seus reflexos em nossos cérebros. Ao menos faço votos de que seja assim.
— Eu também — disse Bell, respirando profundamente.
O veículo disparava pelo deserto. A pista de concreto, lisa como um espelho, tinha dez metros de largura. Era encimada pelo ar tremeluzente, que tinha o aspecto de uma nuvem de gás que escapava de algum lugar. Mais adiante erguiam-se os edifícios alongados do estaleiro, onde diariamente surgiam novas naves espaciais do tipo dos destróieres. Rhodan percebeu os contornos pouco nítidos de figuras que corriam de um lado para outro e fechavam enormes portões. Veículos blindados assumiam suas posições.
Mais à esquerda, em pleno deserto, uma nuvem de poeira erguia-se acima do solo. Embaixo dela, marchavam soldados. Eram os homens de Becker!
Rhodan não compreendia por que o inimigo desconhecido não utilizava suas faculdades num empreendimento que possuísse maiores chances de êxito. Se estava em condições de submeter uma companhia inteira à sua influência, poderia ordenar aos pilotos das naves de Rhodan que decolassem e atacassem Terrânia. Por que não fazia isso? Por que se contentava com uma ação relativamente inofensiva, da qual devia saber de antemão que não levaria a nada?
Será que pretendia desgastar os nervos de Rhodan?
Bem, ao que parece já o havia conseguido com Bell. O ministro da segurança da Terceira Potência transformara-se num modelo de insegurança. Se John Marshall estivesse presente àquela hora, sem dúvida o teria apelidado de ministro da insegurança. Revirava nervosamente o projetor mental e escorregava nervosamente em seu assento.
— Será que você não sabe mais ficar quieto? — indagou Rhodan. — Não pense que o Supercrânio se contentará com este ensaio. É só o começo.
— O começo? — disse Bell com um gemido de pavor. — Nossos homens atiram contra nós e você diz que isso é só o começo?
Rhodan não respondeu. Conhecia o amigo e sabia que sua aparente desorientação só era externa. Passou pelos primeiros robôs de vigilância e deixou para trás os canhões de radiações que se encontravam em posição de combate. Parou junto a um abrigo subterrâneo, onde havia alguns oficiais que envergavam o uniforme da divisão de vigilância. Vieram correndo quando reconheceram Rhodan.
Bell não permitiu que falassem.
— Saiam do caminho! — gritou-lhes. Saltou do carro e levantou a caixa prateada do projetor mental. — Vamos mostrar a essa gente como se comanda um exército.
Rhodan tirou a caixa metálica de suas mãos e colocou-a no chão. Ao que parecia não estava confiando no efeito do projetor. Deu um aceno de cabeça em direção a Bell:
— Tente. Transmita um comando para que regressem imediatamente aos seus alojamentos.
Depois disso dirigiu-se aos oficiais, que pareciam desorientados.
— Mantenham seus homens reunidos. Mas só dêem ordem de fogo quando eu autorizar. Não queremos matar nossa gente.
— Eles destruíram nove robôs — disse um capitão.
— Isso é muito lamentável, mas robôs não são gente. E acontece que fizeram isso contra a vontade.
— Contra a vontade? — perguntou o capitão, esticando as palavras, mas não formulou outras perguntas.
Nem teria tempo para isso, pois Bell entrou em ação.
Evidentemente o alcance do projetor mental era limitado. Mas as forças do tenente Becker já haviam se aproximado bastante. Era inexplicável que ocupassem posições num lugar tão próximo, pois com seus canhões poderiam ter bombardeado o estaleiro a dois quilômetros de distância. Mas Becker mandou que sua coluna parasse a quinhentos metros das linhas do comando de vigilância e colocasse as peças de artilharia em posição de atirar.
Bell ajoelhou-se lentamente e dirigiu o bastão prateado sobre o inimigo involuntário. Comprimiu um botão para acionar o aparelho. Falando em voz alta, disse:
— Tenente Becker, ordeno ao senhor e aos seus subordinados que voltem imediatamente aos seus alojamentos. Qualquer ordem em contrário que lhes tenha sido dada é revogada.
Os oficiais — neste meio tempo um total de cinco se reunira no local — olharam para Bell como se fosse algum bicho milagroso. Sabiam que os arcônidas possuíam armas lendárias, mas nunca tinham visto nenhuma delas em ação. Ao menos o projetor mental ainda lhes era desconhecido. Infelizmente ainda dessa vez não tiveram sorte.
O tenente Becker não deu a menor atenção às ordens de Bell.
O primeiro disparo passou a pequena altura acima do grupo, derretendo um robô de vigilância desprevenido que se encontrava a alguma distância.
— O poder do Supercrânio é maior que o de nosso projetor mental — disse Rhodan em tom tranqüilo.
Terminara seus preparativos e estava agachado junto ao abrigo, pronto para entrar em ação. Ali poderia desaparecer de um momento para outro, quando isso se tornasse necessário. Os cinco oficiais abrigaram-se atrás da cúpula de concreto. Utilizando seus rádios, instruíram os subordinados, espalhados por vários lugares, para que aguardassem novas instruções e em hipótese alguma abrissem fogo contra as tropas amotinadas.
Bell voltou a dirigir o raio hipnótico contra os homens de Becker e transmitiu um segundo comando que, tal qual o primeiro, não foi obedecido. Pelo contrário, três dos canhões dirigiram seus raios neutrônicos contra os pavilhões do estaleiro que se encontravam mais próximos.
Rhodan percebeu que não poderia opor-se à atuação do Supercrânio por meios exclusivamente psíquicos. Só a violência resolveria. Dirigiu a objetiva do neutraliza-dor gravitacional sobre as tropas de Becker e acionou o aparelho.
O campo de atuação abria-se em forma de leque; começava junto à caixa metálica, espalhando-se em direção ao inimigo e diminuindo de intensidade. Mas a regulagem levada a efeito por Rhodan foi suficiente para fazer com que Becker e seus homens não mais tivessem peso.
O sargento Harras, contrariado, estava dando um passo para a frente, sem saber por quê, quando subitamente perdeu o apoio dos pés. Foi subindo lentamente, girando em torno de seu próprio eixo. Assustado, soltou a arma de radiação, mas o objeto não caiu para baixo, permaneceu na mesma altura.
O que aconteceu com Harras também aconteceu com os outros homens do tenente Becker. Este, que pretendia se deslocar com um salto para junto de um dos canhões, foi atingido com maior intensidade pela súbita ausência de gravidade. Subiu inclinadamente, como se fosse uma granada humana e remou desesperadamente com os pés e as mãos, procurando se segurar no ar. Infelizmente Rhodan não estava em condições de seguir sua trajetória. O infeliz logo saiu do campo de atuação do neutralizador e caiu ao solo feito uma pedra. Transformou-se na única vítima do ataque que lhe fora imposto, além dos condutores e artilheiros dos veículos destruídos pelos robôs.
Praticamente toda a força do tenente Becker encontrava-se no ar. A terra não mais conseguia segurá-la. A posição ocupada por cada um dependia dos movimentos que executara em terra. De qualquer maneira, o alcance do aparelho arcônida não era ilimitado. Para evitar maiores perdas, Rhodan teria de agir imediatamente. Dirigindo-se aos oficiais que, perplexos, haviam acompanhado o fenômeno, disse:
— Vou reduzir a intensidade do neutralizador. Mandem seus homens para lá, a fim de que aguardem a companhia que vai aterrisar. Devem se mover com muita cautela. Na área submetida à ação do aparelho a gravidade foi reduzida a um décimo. Cuidem dos carros de combate de Becker. Se necessário, os artilheiros devem ser reduzidos à inatividade.
Foi espantosa a rapidez com que os oficiais se recuperaram do susto. Levaram poucos minutos para mobilizar seus homens. Os soldados moveram-se com estranhos passos rastejantes sob os corpos que desciam lentamente, remando desesperadamente no ar e procurando se recuperar da surpresa. A maior parte deles havia largado as armas, e assim não poderia mais causar qualquer dano.
Aos poucos Rhodan fez com que a gravidade voltasse ao nível normal e esperou até que a companhia amotinada fosse dominada. Tirou o projetor mental das mãos de Bell e procurou proteger os soldados contra novos comandos hipnóticos. Supunha que esse tipo de proteção seria perfeitamente possível, muito embora não houvesse condições de romper um bloqueio depois de instalado.
Menos de cinco minutos depois disso, o Supercrânio retirou sua influência.
De repente o sargento Harras sentiu que a pressão em sua cabeça diminuía. No primeiro instante não compreendeu de que se tratava. Pensou que ainda se encontrasse no fundo da piscina e ficou espantado ao ver-se ameaçado por armas apontadas em sua direção. O próprio Rhodan explicou o acontecimento inconcebível a ele e seus companheiros, e ressaltou que o fenômeno poderia se repetir a qualquer instante. No momento não havia motivo para recear qualquer ataque armado vindo de fora; por isso determinou que o armamento da companhia de vigilância fosse reduzido a um mínimo.
Próximo dali, o corpo imóvel do tenente Becker jazia sob um cobertor. Bell lançou um olhar na direção do mesmo e disse em tom sombrio:
— Só hoje foram nove vítimas, Rhodan. Está na hora de darmos um passo decisivo.
Rhodan não respondeu. Sem dizer uma palavra, regressaram a Terrânia, onde a notícia de outra calamidade os aguardava. O coronel Freyt em pessoa trouxera a notícia de Nova Iorque, onde ficava o quartel-general de Homer G. Adams, o financista da Terceira Potência. Dali, o mutante de memória fotográfica tecia sua rede e dominava a economia mundial. Homer parecia infalível e nunca tomava uma decisão errada. Ou melhor, nunca a tomara enquanto o Supercrânio não existia. Os primeiros ataques do personagem monstruoso foram repelidos. A mutante Betty Toufry foi enviada a Nova Iorque, para proteger o gênio das finanças. Betty era a telepata mais potente do Exército de Mutantes, e ao mesmo tempo era uma telecineta.
E foi Betty que deu o alarma.
Mais uma vez Homer G. Adams parecia ter sido submetido à influência nefasta do Supercrânio. As últimas instruções dadas por ele não correspondiam às vindas de uma inteligência normal e teriam levado a General Cosmic Company à beira da ruína financeira.
No último instante Betty conseguiu anular essas instruções por meio de um projetor mental. Enquanto se encontrasse nas proximidades de Adams, nada poderia acontecer; mas não poderia segui-lo a cada passo.
Imediatamente Rhodan pôs-se em contato com a G.C.C. A tela retratou o rosto embaraçado de Adams, que era um pouco pequeno. Seu cabelo ralo estava maltratado; tinha a aparência de quem passara algumas noites sem dormir. No fundo via-se Betty Toufry, que parecia bastante cansada.
— Olá, Adams — disse Rhodan, como se Nova Iorque ficasse a poucos quilômetros dali, não na extremidade oposta da esfera terrestre. — Pelo que ouvi, voltou a ter problemas.
Adams ia dizer alguma coisa, mas Rhodan não permitiu que ele o interrompesse.
— Adams, não há necessidade de se desculpar. Aqui estamos enfrentando os mesmos problemas. O poder de nosso pavoroso inimigo estende-se por todo mundo. Gostaria apenas que me dissesse se não consegue sentir o início da influência exercida pelo Supercrânio.
Adams confirmou com um gesto hesitante.
— Sinto uma pressão no cérebro, mas quando isso acontece já é tarde. Não sei o que teria acontecido se Betty não estivesse perto de mim. Sinto muito, Rhodan, mas não pode confiar mais em mim.
— Que tolice, Adams! Não diga uma coisa dessas. Mantenha-se numa atitude passiva até receber novas instruções. Evite nos próximos dias qualquer ação de maior envergadura, pois vou precisar de Betty Toufry. De uma hora para outra o inimigo vai se expor, e então golpearemos imediatamente.
— Tomara que isso aconteça logo. Não é nada agradável sabermos que já não somos donos de nós mesmos.
Rhodan esboçou um sorriso tranqüilizador e interrompeu o contato.
No instante em que a imagem de Adams desapareceu, o sorriso desapareceu de seus lábios.

* * *

Para quem não prestasse atenção à sua pele morena e se deixasse enganar por seus modos fleumáticos, Fellmer Lloyd parecia ser um tipo absolutamente normal e corriqueiro. Trabalhara durante anos numa usina atômica americana, onde exercia as funções de assessor do diretor científico, mas a equipe de Perry Rhodan acabou por localizá-lo.
Fellmer Lloyd era um mutante natural.
Não poderia ser designado propriamente um telepata, mas suas faculdades aproximavam-se das de um mutante desse tipo. Certo setor de seu cérebro fora modificado pelas emanações radiativas a que seus pais estiveram expostos, a tal ponto que estava em condições de, a qualquer momento, absorver os modelos cerebrais de seus semelhantes, classificá-los e analisá-los. Não sabia captar os pensamentos, mas os sentimentos fundamentais do próximo, e com isso também suas prováveis intenções. Ao falar com alguém, sabia imediatamente se o interlocutor tinha uma disposição amistosa ou hostil para com ele. Suas faculdades transformaram-no num tipo de localizador do Exército de Mutantes.
Fellmer Lloyd estava parado junto à barreira do aeroporto de Moscou; sem despertar a atenção de ninguém, observava os passageiros que desembarcavam e embarcavam no jato de carreira. Era um dos aviões das linhas regulares que, por incumbência da Terceira Potência, estabeleciam ligação entre os continentes.
Na semana anterior dois aviões desse tipo haviam sido destruídos no ar, por sabotagem. O ministério da segurança da Terceira Potência recorrera aos mutantes aptos para esse tipo de ação, a fim de impedir a repetição desse tipo de incidente.
E foi assim que Fellmer Lloyd passou a voar de um continente para outro, tateando os passageiros e tomando cuidado para que nenhum sabotador subisse a bordo.
Ainda estava indeciso sobre se devia tomar esse avião e deixar a capital do Bloco Oriental. Gostava de Moscou, onde travara relações bastante agradáveis. O povo parecia-lhe muito amável e gentil, motivo por que sentia bastante ter que deixar essa cidade.
Fez um exame quase superficial de um casal elegante que atravessou a barreira e, atravessando a faixa de concreto, dirigiu-se ao avião. Provavelmente seriam recém-casados em viagem de núpcias. De qualquer maneira eram inofensivos.
Mais ao longe os telhados da cidade brilhavam sob os raios do sol que se punha. Gigantescos arranha-céus erguiam-se para o alto, num esforço de concentrar sobre si os últimos raios do sol no poente. A larga via de acesso que ligava o aeroporto à cidade recebia os raios do sol em cheio; mal conseguia dar vazão ao tráfego.
Subitamente Fellmer Lloyd estremeceu.
Alguma coisa má, vinda não se sabe de onde, que não combinava com o ambiente de paz, penetrou em seu espírito. Alguém pensava em violência e em cautela, em morte, em assassínio.
O raio de ação de sua faculdade não era muito extenso, só atingia algumas centenas de metros. Mas a intensidade das ondas cerebrais que o atingiam era tamanha que o respectivo emissor devia se encontrar nas imediações.
Num movimento apressado lançou os olhos em torno de si.
Grupos de pessoas conversavam. Alguns se despediam, separavam-se, ainda acenavam com as mãos. Uma dama jovem, com pernas lindíssimas, atravessou a barreira em passos resolutos e dirigiu-se ao avião. Carregava uma grande pasta marrom. Mais à esquerda, Lloyd viu um policial, cujos olhos atentos fitavam as pessoas que passavam por ali.
Os olhos de Lloyd voltaram a pousar na jovem dama. As impressões causadas pela mesma fortaleceram-se em seu cérebro. Realmente. As idéias de violência provinham dela; não havia a menor dúvida. Por um instante o mutante pensou que se tivesse enganado; mas podia confiar em seu senso de orientação.
Cautelosamente movimentou seu corpo musculoso e seguiu a dama. Trajava um vestido moderno e dava a impressão de que praticava muito esporte. Seu andar era elástico, quase macio.
Faltavam três minutos para a decolagem.
Quando subiu a escada do avião, a dama apresentou sua ficha de embarque com o número da poltrona, trocou algumas palavras com a aeromoça e entrou no avião. Lloyd seguiu-a. Sua identidade bastou para que fosse admitido no avião. Recebeu um lugar próximo ao da dama.
As idéias que se ocupavam com alguma coisa terrível enfraqueceram um pouco, dando lugar a uma sensação de tranqüilidade e segurança temporária. Lloyd tinha certeza absoluta de que no momento não havia o menor perigo. Mas também sabia que não devia tirar os olhos daquela bela dama, enquanto ela se encontrasse no avião.
Devia ter uns vinte e cinco anos, era esbelta e tinha cabelos castanho-escuros. Os olhos, um pouco estreitos, davam um encanto extraordinário ao seu rosto oval. Lloyd não podia se conformar com a idéia de que se tratava de uma agente daquele personagem desconhecido, o Supercrânio. Talvez tudo não passasse de coincidência.
O avião decolou e seguiu o sol que se punha. Sua velocidade era tamanha que o sol ainda se encontrava na mesma altura quando pousou no aeroporto de Tempelhof, em Berlim.
Lloyd sentiu-se atingido por uma onda de excitação quando a moça se levantou e se dirigiu à porta. O avião acabara de taxiar na pista e encontrava-se diante das salas de inspeção alfandegária.
O mutante também se levantou e apressou-se para não perder de vista sua presa. As ondas cerebrais da mesma eram tão intensas que Lloyd mal conseguia se proteger contra elas. Quase chegavam a provocar dor ao penetrarem em sua consciência, despertando nela a sensação de uma ameaça imediata.
Descera e caminhava a passos rápidos e decididos em direção à barreira. Segurava a passagem na mão. Ao que parecia não tinha bagagem.
Nenhuma bagagem?
Lloyd teve a impressão de que alguém derramara uma tina de água escaldante em suas costas. E a bagagem?
De supetão percebeu a realidade. A dama não trazia nada na mão. Deixara a pasta de couro no avião.
Lloyd girou sobre os calcanhares, correu em direção ao avião, forçou passagem ao lado dos passageiros que desciam, não deu a menor atenção aos protestos enfurecidos e, de um salto, colocou-se junto à poltrona que havia sido ocupada pela suspeita.
A pasta de couro, aparentemente inofensiva, estava embaixo da poltrona.
Pegou-a num movimento rápido e voltou correndo pelo mesmo caminho. Por um instante acreditou ter perdido a pista da possuidora da pasta. Mas descobriu-a junto à entrada do aeroporto onde se esforçava para conseguir um táxi. Lloyd captou o modelo confuso de suas idéias, nas quais voltara a se introduzir a insegurança. Não estava convencida do acerto daquilo que acabara de fazer?
Chegou no momento exato em que ela ia entrando num táxi. Com alguns saltos enormes, alcançou o veículo, abriu a porta e entrou. Fitou diretamente os olhos da dama, arregalados de pavor. O olhar dela não se fixava nele, mas na pasta de couro que segurava despreocupadamente embaixo do braço.
— Meu Deus — disse Lloyd, exausto. — Para que tanta pressa? A senhora esqueceu esta pasta no avião.
A desconhecida fitou-o com os olhos perscrutadores. Depois disso uma expressão de pavor passou pelo seu rosto. Enfiou a mão no bolso do vestido e retirou com um revolverzinho. Mas Lloyd fora prevenido por um modelo dos sentimentos do outro cérebro. Com um gesto tirou a arma da moça.
— Não faça isso, minha bela amiga — advertiu em tom suave. — Minhas intenções são as melhores possíveis.
— Esta mentindo — disse a dama, sacudindo a cabeça. Falava um inglês arranhado, com um ligeiro sotaque russo. — O senhor vem me perseguindo desde Moscou. Acha que não percebi?
— Quer dizer que lê pensamentos.
A dama hesitou por um instante; depois confirmou com um aceno de cabeça.
— Sim, sou telepata.
No primeiro instante Lloyd ficou decepcionado e mesmo assustado. Como lidar com alguém que adivinhava seus pensamentos mais secretos? Mas depois de algum tempo sacudiu os ombros.
— Está bem. Nesse caso podemos usar de franqueza. A senhora foi incumbida pelo Supercrânio de sabotar as linhas aéreas da Terceira Potência. Uma carga explosiva está tiquetaqueando nesta pasta. A senhora ajustou o detonador e deixou a pasta no avião. Ela explodiria na viagem daqui para Londres. Minhas suposições não são corretas?
Ela o mediu com o olhar.
— E se fosse assim?
— Nesse caso Perry Rhodan estaria muito interessado em conversar com a senhora.
Uma sombra passou pelo lindo rosto da dama.
— Não tenho nenhum interesse em conversar com o homem que traiu a Humanidade. Diga-lhe isto da minha parte. Aliás, se fosse o senhor, procuraria me livrar desta pasta quanto antes. A carga explosiva tem potência suficiente para nos atirar até as nuvens. E a única pessoa que conhece o momento da detonação sou eu.
— Enquanto a senhora estiver comigo e não demonstrar nenhuma inquietação, nada poderá me acontecer — observou Lloyd com uma lógica irrepreensível. Inclinou-se para a frente e abriu o vidro que os separava do motorista. — Leve-nos de volta ao aeroporto — voltou a fechar o vidro e dirigiu-se à prisioneira. — Seria bonito se nos apresentássemos. Já conhece meu nome. Como posso chamar a senhora?
— Tatiana Michalovna — respondeu a dama em tom obstinado. Lloyd sentiu que não mentia. — Em hipótese alguma descobrirá mais que isto.
— Perry Rhodan e seus mutantes descobrirão — prometeu Lloyd em tom tranqüilo e ficou satisfeito ao constatar que sua interlocutora se assustou. — Tenho um avião rápido no aeroporto. Daqui a algumas horas poderemos estar em Terrânia.
A dama não respondeu. Seus olhos pensativos estavam pousados na pasta de couro, que estava de pé junto a Lloyd. Este percebeu o olhar e sorriu.
— Não se preocupe, madame. Na Sibéria encontraremos um lugar em que uma pequena explosão não fará mal a ninguém. Por lá já houve explosões bem maiores.
A dama manteve-se num silêncio obstinado.

* * *

O duelo espiritual entre Marshall e Tatiana Michalovna não durou muito. A russa logo percebeu que não adiantaria ocultar a verdade. E houve outro fator com que não contava: Perry Rhodan.
Começou a falar com a voz hesitante.
— Tal qual todos os seres humanos, mantive uma atitude de ceticismo face à Terceira Potência. Para mim o senhor, Sr. Rhodan, era um traidor pois aliou-se a seres extraterrenos que aspiravam ao domínio mundial. É bem verdade que impediu a guerra atômica entre o Oriente e o Ocidente. Mas nem por isso tinha o direito de nos forçar a ingressar num processo evolutivo que avança com rapidez excessiva, atirando-nos para fora da trilha que nos foi prescrita. Também teríamos alcançado a união mundial sem o senhor.
— Não tenho a menor dúvida — admitiu Rhodan sorrindo e piscou o olho. — Teriam conseguido à sua maneira, naturalmente. Acontece que eu fiz à minha maneira. Há alguma objeção contra isto?
— Há algumas. O fato é que um belo dia me encontrei com um homem cujas idéias coincidiam com as minhas. Também ele condenava a Terceira Potência e desejava a paz. Nossa paz. Entrei em contato com ele. Como nem desconfiasse das minhas capacidades telepáticas, descobri tudo. Uma quarta potência está sendo formada; será uma potência puramente humana, que nada terá que ver com os arcônidas e raças da Via Láctea. A política do Supercrânio é terrena, não galáctica.
— Não é nada inteligente — disse Rhodan. — Prossiga, Michalovna.
— Resolvi me unir ao grupo do Supercrânio — disse a moça com a maior naturalidade. — A luta dele é uma luta justa, pois dirige-se contra uma coisa que sempre será estranha à nossa natureza.
— Já houve um tempo em que as pequenas nações da Europa julgavam as culturas vizinhas estranhas à sua natureza — objetou Rhodan. — Hoje formam uma unidade.
— Trata-se de uma evolução natural, não artificial...
— Não diga isso. Deram um empurrão.
— Apesar de tudo...
— Não vejo a menor diferença. A Humanidade teve de se convencer de que não é a única raça inteligente que existe no Universo. Deve se manter isolada, para ser vitimada um belo dia por uma agressão? Não será muito melhor que nos adaptemos ao ambiente em que vivemos? Não podemos fazer mais que isso. Só uma Terra unida sob uma mão forte não perderá a oportunidade de se integrar na civilização galáctica. Há alguns anos ainda se julgava que essa evolução dos acontecimentos se situava num futuro muito distante; parecia o sonho de um alucinado. Hoje ingressou no mundo da realidade. Devemos tomar nossa decisão, e muita gente já o fez. Nem mesmo um Supercrânio pode modificar isso.
— Nem pretende fazê-lo. Apenas opõe-se ao domínio exclusivo que o senhor quer exercer.
Rhodan sorriu e lançou um olhar rápido para John Marshall.
— Se aspirasse ao domínio exclusivo, já o teria alcançado. A senhora não deixará de reconhecer isso.
A moça hesitou.
— É verdade. Por que ainda não o conquistou?
— Porque não faço a menor questão disso. A polícia deve cuidar da ordem, mas nunca deve governar.
— Então acha que lhe cabe o papel de polícia mundial?
— Talvez, mas isso não deve ser levado ao pé da letra. Prefiro que me considere um desbravador de caminhos.
A moça não respondeu, mas seu rosto revelava que refletia intensamente. De repente John Marshall, o telepata, disse:
— Michalovna, por que será que não consigo captar claramente todos os seus pensamentos? Nunca encontrei uma pessoa que conseguisse ocultar seus pensamentos de mim.
— Pois desta vez o senhor acaba de encontrar uma pessoa destas — disse Tatiana com um sorriso de superioridade. — Além da telepatia possuo outra faculdade, que aparentemente ainda não se tornou tão corriqueira como supus. Posso instalar um bloqueio volitivo contra qualquer tipo de influência estranha. É bem possível que esse bloqueio também isole meus pensamentos do mundo exterior, impedindo que sejam captados por um telepata.
— A senhora sabe se resguardar contra qualquer influência estranha? — perguntou Rhodan bastante interessado. — Será que há necessidade disso? Os hipnos são muito raros.
— O Supercrânio é um hipno — disse Tatiana, enfatizando as palavras.
Rhodan contemplou-a por algum tempo; depois acenou lentamente com a cabeça.
— Quer dizer que a senhora sabe se defender de uma influência hipnótica exercida a distância?
Esperou até que a moça confirmasse com um aceno de cabeça e prosseguiu:
— Mesmo neste instante estaria em condições de agir contra vontade do Supercrânio?
A moça voltou a confirmar com um aceno de cabeça.
— Já sabe que costuma ordenar a qualquer colaborador aprisionado por nós que morra?
Tatiana empalideceu.
— E daí? — perguntou, assustada.
— A pessoa obedece e morre — respondeu Rhodan em tom brutal. — Por isso recomendo-lhe que tome cuidado para que seu bloqueio volitivo resista. Provavelmente é o único ser humano sobre o qual o Supercrânio não consegue exercer qualquer influência, com exceção de nós, evidentemente. É possível que possa haver certa influência, mas nunca o comando dirigido ao nosso coração, de suspender sua atividade.
— Isso é uma coisa horrível! — exclamou Tatiana. Não podia se conformar com o fato de que seu chefe era um homem sem escrúpulos. Rhodan tirou proveito da situação.
— O Supercrânio fez com que uma das nossas companhias se amotinasse e atirasse contra seus companheiros. Felizmente conseguimos evitar o pior.
Tatiana cobriu o rosto com as mãos.
— E eu estava tão cega que quase chego a assassinar cem pessoas inocentes. Aquela bomba...
— Não pense mais nisso — disse Rhodan baixinho e em tom insistente. — Já houve gente que fez coisa muito pior, de boa fé. A senhora agiu de acordo com suas convicções. Assim que estiver recuperada do susto, Lloyd a levará de volta para Moscou. Ninguém a obrigará a ficar conosco.
A moça olhou-o, espantada.
— Vai me colocar em liberdade?
— Por que iria segurá-la? Não acredito que a senhora caia mais uma vez na tolice de se deixar levar por simples frases. O Supercrânio não é apenas um nacionalista estúpido, mas também um criminoso ávido de poder. Ainda vou descobrir quem se oculta atrás da máscara do Supercrânio.
Tatiana levantou a cabeça e encarou Rhodan, um tanto espantada. De repente sorriu.
— Não sabe quem é o Supercrânio? — perguntou em tom perscrutador.
Rhodan sacudiu a cabeça. Subitamente seus olhos cinza-azulados tornaram-se frios e emitiram um brilho enérgico. Inclinou-se para a frente.
— Será que a senhora sabe?
Tatiana acenou com a cabeça e saboreou seu triunfo.
— Sei; até o conheço pessoalmente.

3



Nas imediações da região onde em 1.945 foi detonada a primeira bomba atômica, um reator experimental entrou em pane em fins de 1944. As radiações liberadas pelo acidente mataram muitos cientistas e trabalhadores, mas outros tantos escaparam com vida.
Um deles foi o físico Monterny, que casou pouco depois. Foi um casamento breve, mas feliz. Em 1.945 sua mulher presenteou-o com um filho, Clifford Monterny. Clifford era um mutante de primeiro grau, um hipno de potência inacreditável.
Seguindo o exemplo do pai, estudou física. Sua inteligência extraordinária levou-o a conquistar posições importantes e uma fortuna apreciável, mas quase chegou a envelhecer antes que descobrisse suas capacidades anômalas. Não tinha a menor dificuldade em impor sua vontade a outras pessoas. Levou dois anos para descobrir que a distância não impunha qualquer limitação à influência por ele exercida. Depois de ter visto um homem uma única vez, conseguiria localizá-lo do outro lado do mundo e submetê-lo à sua influência.
Clifford Monterny era gordo e flácido; não tinha um aspecto muito atraente. As mulheres evitavam-no, e essa circunstância talvez tivesse exercido alguma influência em seu caráter. A expressão de seus olhos pequenos e afundados nas órbitas sempre era de inveja e desconfiança. Com trinta e dois anos já tinha a cabeça completamente calva e quase sempre andava de chapéu. Sua inteligência extraordinária formava um contraste chocante com seu aspecto desagradável.
Teve sua atenção despertada pela formação da Terceira Potência e pelos êxitos alcançados por Perry Rhodan. Acompanhou a formação do Exército de Mutantes e por mais de uma vez tomou a decisão de se colocar ao dispor de Rhodan. Mas nunca o fez.
Não era ele mesmo um mutante? Não poderia dirigir os destinos da Humanidade se o desejasse? Não estaria em condições de reunir um poder maior do que jamais um homem teve em suas mãos? Não poderia formar seu próprio exército de mutantes?
Foi assim que Clifford Monterny começou a reunir, às escondidas, seu próprio grupo de mutantes.
Clifford Monterny transformou-se no Supercrânio, um homem que quase ninguém conhecia e que parecia estar em todos os lugares, ou em lugar nenhum. Sua fortuna permitiu-lhe construir um verdadeiro castelo nas Montanhas Rochosas de Utah. Menos de cem quilômetros ao leste do grande lago salgado, ao pé do Emmons Peak com seus quatro mil e noventa metros de altura, ficava sua fazenda de nove quilômetros quadrados. A casa ali construída parecia uma verdadeira fortaleza, que poderia ser considerada inexpugnável. As conquistas da técnica moderna permitiam-lhe detectar e vigiar qualquer visitante, e elas o defenderiam eficazmente contra qualquer ataque.
Quando atingiu a idade de trinta e cinco anos, suas capacidades telepáticas estavam totalmente amadurecidas. Além de seus dons hipnóticos, sabia dominar qualquer homem com quem se tivesse encontrado uma vez que fosse, captando o modelo de suas vibrações cerebrais. Para um homem desses não haveria escapatória: o Supercrânio saberia localizá-lo, onde quer que ele se escondesse.
Num trabalho silencioso, o quartel-general de uma nova potência foi instalado nas montanhas rochosas de Utah; tratava-se de uma potência que poderia representar um perigo mesmo para Perry Rhodan. O primeiro ataque, de natureza econômica, desfechado contra a Terceira Potência, foi rechaçado por Rhodan. Mas o Supercrânio passou a utilizar métodos mais diretos.
Foi nesse estágio dos acontecimentos que Perry Rhodan teve conhecimento da identidade daquele homem, até então desconhecido.

* * *

Todos os serviços secretos do mundo se haviam reunido na Federação de Defesa da Terra, F.D.T. O secretário-geral da importante organização era Allan D. Mercant.
Mercant, ligeiramente perturbado, estava arrumando a escassa coroa de cabelos louros que cercava sua cabeça quando o visitante foi anunciado.
— Rhodan em pessoa? — procurou se certificar, como se não acreditasse no que acabara de ouvir. Quanto tempo já se fazia que falara com Rhodan pela última vez? — Por que fica parado aí? Faça-o entrar.
O jovem oficial quase tropeça ao girar sobre os calcanhares e por pouco não derruba Rhodan, que entrou com um sorriso no lábio e cumprimentou Mercant com algumas palavras cordiais.
— Como vai, meu velho? Sempre alegre e bem disposto?
— Que nem um peixe velho — resmungou Mercant com a voz amargurada e alisou os cabelos que lhe cobriam as têmporas. Já estavam mais grisalhos, mas o tom louro da coroa de cabelos mantinha-se obstinadamente. — O que me dá a honra dessa visita?
— Não é nada de agradável — explicou Rhodan, enquanto se acomodava numa poltrona. — Preciso do seu auxílio.
— Do meu auxílio? — perguntou Mercant, enquanto seus olhos se tornavam redondos. — Quer que eu o ajude?
— Desta vez quero — disse Rhodan com um sorriso. — É uma situação excepcional. Não quero saber de dificuldades políticas. Você sabe perfeitamente como hoje em dia os homens são sensíveis neste ponto.
— É verdade — confirmou Mercant num tom de profundo interesse. — Afinal, ainda não temos o governo mundial.
Rhodan se inclinou para a frente e lançou um olhar perscrutador sobre Mercant.
— Conhece Clifford Monterny?
No rosto de seu interlocutor desenharam-se as marcas de uma profunda reflexão. Finalmente esboçou um gesto hesitante de cabeça.
— Já ouvi falar nele, mas não o conheço pessoalmente.
— Sorte sua — interrompeu-o Rhodan.
Mercant não lhe deu atenção.
— Houve um físico muito conhecido, de nome Monterny, mas este morreu numa explosão. Já faz bastante tempo.
— É o pai. Refiro-me ao filho, Clifford.
— Não é também um físico?
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça e Mercant prosseguiu:
— É autor de algumas invenções, mas nunca despertou a atenção da F.D.T. Deve ter muito dinheiro. Possui uma fazenda ou coisa que o valha em algum lugar no Oeste. Mas, com os mil demônios, por que me faz essa pergunta? Será que sou o Departamento de Registro de Moradores?
— Quero que me dê permissão para penetrar no território dos Estados Unidos com uma esquadrilha de destróieres espaciais e arrasar essa fazenda de Monterny. Há de concordar comigo que, para isso, preciso de um certo tipo de autorização.
— Quer o quê?! Acho que... — exclamou Mercant exaltado.
— É melhor que não ache coisa alguma, Mercant. Clifford Monterny é o misterioso Supercrânio. Está agindo no intuito de abalar a ordem mundial. É um hipno e está em condições de ainda hoje levar qualquer estadista do mundo a despejar as provisões de armas nucleares de que seu país disponha no território de um país vizinho. Se já existiu um inimigo mundial número um, este é Clifford Monterny. O único meio de evitar um desastre de maiores proporções é destruí-lo. Foi por isso que resolvi falar com você.
Mercant já estava falando num telefone de mesa. Por intermédio do F.B.I. solicitou todos os dados sobre Monterny. Depois levantou os olhos.
— Conte com toda ajuda que esteja ao meu alcance, Rhodan. O contato com o presidente dos Estados Unidos é uma questão de minutos. Mais uma pergunta: onde estão seus destróieres neste momento?
Rhodan esboçou um sorriso gentil.
— Encontram-se numa altitude de trinta mil metros, exatamente acima do ponto em que nos encontramos. Isto o surpreende?

* * *

O cadete Julian Tifflor viu bem ao longe a lâmina redonda formada pela Terra. A curvatura da mesma era acompanhada por uma camada leitosa formada pelas partes mais densas da atmosfera; dali em diante o céu, passando pelo violeta, tornava-se negro. As grandes estrelas brilhavam, mas não cintilavam, muito embora o sol estivesse no céu.
Perry Rhodan o admitira sem maiores formalidades na frota da Terceira Potência. Confiou-lhe o comando de um destróier. Juntamente com Ray Gall e Pete Maros encontrava-se no Z-82, trinta mil metros acima do quartel-general da F.D.T., onde Rhodan estava conferenciando com Mercant.
Mais oito destróieres flutuavam nas proximidades, sustentados pelos neutralizadores gravitacionais. Mais acima, numa posição em que não podia ser alcançada pela vista dos tripulantes dos destróieres, a imensa nave Stardust-III estava estacionada no espaço. Bell em pessoa estava no comando, enquanto Rhodan se encontrava em terra. A Terceira Potência passara ao ataque contra o Supercrânio.
Mercant transmitira as necessárias instruções; ninguém pensaria em incomodar os nove destróieres que aguardavam sobre o território submetido à soberania americana. Quanto à Stardust-III, uma nave esférica de oitocentos metros de diâmetro, de qualquer maneira não existia arma capaz de afetá-la.
Tiff respirou aliviado quando a tela se iluminou diante dele, exibindo o rosto conhecido de Bell. Sabia que no mesmo instante os comandantes dos outros destróieres do grupo estavam entrando em contato com a Stardust-III.
— Atenção, todos os destróieres. Dentro de alguns minutos a nave auxiliar que conduz Rhodan chegará à Stardust-III. A ação planejada será levada avante. Basta que observem as instruções permanentes. Fim.
A tela continuou iluminada, mas o rosto de Bell desapareceu. O contato acústico foi interrompido. Essa situação perdurou por dez minutos, após os quais veio uma indicação de rota. A voz tranqüila de Bell conduzia os nove destróieres ao destino.

* * *

O posto de comando militar de Clifford Monterny ficava bem abaixo do nível do solo.
Cercado de inúmeras telas e outros instrumentos de comunicação, o Supercrânio estava sentado nessa central, igual a uma aranha em sua rede. Era para ali que convergiam todos os fios, era dali que o monstro dirigia suas batalhas que geralmente passavam quase despercebidas.
Uma das telas se iluminou. Exibiu um rosto asiático. A imagem tremia, ocultando os detalhes. A transmissão devia passar por muitos postos de relê.
— O que houve, S-7? — perguntou Clifford.
— No âmbito das novas tentativas, a Usina Syntak foi destruída na noite passada. Fica na Austrália e sessenta e cinco por cento de seu capital pertencem à G.C.C.
— Obrigado, S-7. Remeterei o cheque. O quadro se apagou. Outro rosto surgiu numa tela diferente. Era de um negro.
— Aqui fala M-3, meu senhor. Hoje de manhã o governador de Sirãpolis foi vitimado num acidente de trânsito. O condutor do veículo que causou o acidente escapou sem ser identificado.
— Obrigado, M-3. Já conhece sua próxima tarefa?
— Perfeitamente. Recebi as instruções por intermédio...
— Está bem, M-3. Aguardo aviso de que a tarefa foi cumprida. Fim.
Ainda outra tela se iluminou.
— Alô, chefe. Aqui fala SP-6. Há uma freqüência extraordinária de vôos no território da F.D.T. A presença da nave esférica foi observada. O F.B.I. recebeu solicitações de dados sobre a pessoa de Clifford Monterny.
— O quê? — o Supercrânio se inclinou para a frente. — Sobre minha pessoa?
— Não há dúvida sobre a autenticidade da informação, chefe. Apenas não sei quem solicitou os dados.
— Que diabo! Não é possível! Ninguém sabe quem sou. A não ser que...
Como uma alucinação, o rosto oval de uma linda mulher surgiu diante de seus olhos. Há dias não tinha contato com ela.
Tatiana Michalovna!
Perdera-a no instante em que ela deixou de executar sua última tarefa. Sabia que Tatiana era uma telepata de elevada potência, tal qual ele mesmo. Além disso, porém, dispunha da faculdade de isolar seu cérebro, subtraindo-se a qualquer tipo de influência. Inclusive de qualquer influência partida dele.
Será que Tatiana poderia ter se atrevido a traí-lo? Por que teria agido assim? Não era uma das suas adeptas mais convictas? Sempre tivera de se controlar quando se encontrava nas proximidades dela, para não pensar alguma coisa que não devia.
— Deve ter sido um dos membros da nossa equipe — soou a voz do agente SP-6. — Assim que descobrir quem solicitou as informações do F.B.I., voltarei a entrar em contato com o senhor. Fim.
Por alguns minutos Clifford interrompeu a recepção e refletiu intensamente. Seu supercérebro expandiu-se, procurando localizar seus homens em todas as partes do mundo. Às vezes isso não era fácil, motivo por que para as mensagens rotineiras mantinha seu equipamento de comunicações.
Todavia, se necessário, poderia vigiar seus agentes independentemente desse equipamento.
Havia treze mutantes submetidos ao seu comando. Um dos grandes mutantes não pôde acusar o recebimento da mensagem telepática, visto que não se encontrava na Terra. Onze deles responderam e receberam instruções para regressar imediatamente. Um único mutante não atendeu ao chamado de Clifford: era Tatiana Michalovna.
O Supercrânio não perdeu tempo. Deu o alarma preventivo. Os primeiros mutantes estavam chegando. A fortaleza foi colocada em condições de se defender.
Os minúsculos aviões-foguetes foram pousando na área imensa da fazenda. Traziam os atores principais, os mutantes, que haviam abandonado seus postos para regressar ao quartel-general, onde lhes seriam ministradas instruções diretas. Uma atividade febril começou a se desenvolver nas galerias subterrâneas da antiga mina. Peças de artilharia moderna subiram em elevadores, entrando em posição de defesa pouco abaixo da superfície. Tudo se processou automaticamente, obedecendo a comandos eletrônicos.
Sentado na sala de comando, o Supercrânio controlava o desenrolar dos acontecimentos. As telas mostravam todos os detalhes das áreas adjacentes à sede da fazenda. Mas, por mais que se esforçasse, não viu nada de suspeito. Não se via nem se ouvia nada de um eventual atacante.
Talvez o agente SP-6 se tivesse enganado; era possível que a solicitação formulada ao F.B.I. não passasse de um ato de rotina. Mas, para um homem que ocupava sua posição, a cautela nunca seria demais. Quem dera que o elemento que tinha em Terrânia desse sinal de vida.
Clifford Monterny não sabia que esse homem nunca mais daria sinal de vida, porque nunca mais estaria em condições de fazê-lo. Por mais que seu espírito perscrutador o procurasse, não conseguiria entrar em contato com um cérebro morto. Tatiana tomara providências para que esse tipo de traição se tornasse impossível. Ao ser preso, o homem de Clifford foi morto em legítima defesa.
Conforme já foi dito, o Supercrânio não conhecia esse detalhe. Aguardava em vão por um contato vindo de Terrânia. E, como esse contato não chegava, não podia ter certeza se Perry Rhodan descobrira sua identidade.
Por enquanto tudo continuava quieto.
Mas, ao menor sinal de um ataque, a fazenda inofensiva do generoso Clifford Monterny se transformaria numa fortaleza a cuspir fogo.
O Supercrânio estava preparado para a luta.

* * *

Perry Rhodan e Bell não se apressaram.
A Stardust-III e os nove destróieres subiram às camadas extremas da atmosfera, para afastar qualquer possibilidade de serem detectados pelas instalações de radar do Supercrânio. E ali realizaram o último conselho de guerra.
— Os mutantes fizeram um serviço perfeito — relatou Bell, lançando um olhar de advertência para Gucky, que estava agachado num canto. — Conseguimos agarrar mais alguns agentes do Supercrânio. Não descobrimos nenhum dos seus mutantes. Pelo que diz Tatiana, tinha doze além dela. Tatiana conhece onze; não conhece um deles. Deve se tratar de um exemplar dotado de capacidade extraordinária.
— Será que a capacidade dele é maior que a minha? — perguntou Gucky no seu canto.
Isso seria difícil de imaginar. Pelo menos no que diz respeito ao aspecto exterior, Gucky não poderia ser superado por qualquer ser humano. É que Gucky não era nenhum ser humano. Quando por ocasião de sua viagem em busca do imortal do planeta Peregrino, Rhodan fizera um pouso no planeta Vagabundo, o rato-castor entrara sorrateiramente a bordo da Stardust-III e dali em diante nunca mais se afastara de Rhodan e Bell. Gucky tinha pêlo marrom-avermelhado; sua cabeça era a de um camundongo e o corpo de castor. Seu maior orgulho era a cauda larga, sobre a qual costumava se apoiar quando andava sobre as patas traseiras. Sua inteligência extraordinária permitira-lhe aprender rapidamente a língua dos bípedes. A essa inteligência aliava-se o domínio perfeito da telecinésia e da teleportação. Já chegara a fazer com que uma frota inteira de pequenas naves espaciais realizasse os exercícios que lhe dessem na cabeça, muito embora os pilotos protestassem energicamente contra essa espécie de tutela.
Era esse Gucky, um dos grandes amigos de Rhodan, que estava agachado num dos cantos da sala de comando, fazendo o papel de uma criatura inofensiva. Assim costumava agir quando grandes coisas estavam para acontecer. Pertencia ao Exército de Mutantes, em igualdade de condições com os demais membros.
Bell lançou-lhe um olhar perscrutador.
— É possível que em certo ponto seja superior a você, Gucky. O fato, porém, é que não sabemos. Mas pare de nos incomodar. Devemos tomar algumas decisões importantes — fungou, bastante nervoso, e olhou para Rhodan. — Onde estávamos?
— Nos mutantes — disse Rhodan com um sorriso. — Já conseguiram estabelecer contato.
— É verdade. Tanaka Seiko, o goniômetro, conseguiu captar a mensagem mental do Supercrânio, e posteriormente também sua transmissão televisada. Localizou as respectivas estações e fez um croqui. Aqui está.
Rhodan pegou a folha de papel e examinou o desenho. Lembrava uma teia de aranha. O Supercrânio encontrava-se no centro da mesma. Dali partiam os fios que se dirigiam para todo o mundo. As extremidades desses fios correspondiam à localização de um agente. Os homens de Rhodan já se dirigiam a esses pontos.
— Excelente! — elogiou Rhodan. — Acho que com isso conseguiremos isolar o Supercrânio. Já não poderá contar com qualquer auxílio vindo de fora.
— Não acredito que ele se importe com isso. Não se esqueça do que Tifflor nos contou. O prisioneiro que capturou aludiu ao planeta Marte. Receio que tenha instalado uma base em Marte.
— Por enquanto continua na Terra, e é aqui mesmo que vamos liquidá-lo. Nunca estive tão decidido a exterminar totalmente um inimigo.
A voz de Rhodan adquirira um tom duro.
— O Supercrânio é um inimigo de toda a Humanidade. Quer a união da Terra, como nós, mas quer realizar essa união para impor seu domínio. Diria que é o exemplar perfeito do ditador mundial.
— Vamos lhe estragar a festa — disse Bell e olhou para o relógio. — Acho que nossas tropas de choque já devem se encontrar nas proximidades da fazenda. Por que será que ainda não entraram em contato conosco?
— Talvez tenha surgido algum problema. De qualquer maneira não vamos esperar muito; logo iniciaremos a ação. Se possível, quero o Supercrânio vivo.
Bell arregalou os olhos.
— Para quê? Quer prendê-lo? Ele nos escapará, e a caçada terá de começar de novo. Já que resolvemos atacar, devemos destruí-lo.
— Estou pensando nos seus mutantes — ponderou Rhodan. — Estou convencido de que sabem tanto do procedimento vergonhoso de seu senhor quanto Tatiana.
— Acontece que eles mesmos têm praticado crimes.
— Porque têm sido obrigados a isso, Bell. E ainda porque estão convencidos de se encontrarem a serviço de uma boa causa. Bem, não demoraremos a descobrir.
A porta da sala de comando se abriu.
— Há um chamado de Utah — disse o telegrafista com a voz nervosa. — Querem falar com o senhor Rhodan.
Bell chegou à sala de telegrafia antes de Rhodan. Gucky seguiu-os lentamente, no seu andar balouçante.
— Aqui fala Wuriu Sengu — soou a voz do alto-falante, assim que Rhodan transmitiu a senha. Sengu era o espia japonês do Exército de Mutantes. Podia ver qualquer objeto, mesmo que este se encontrasse atrás de grossas paredes de aço. — Estou deitado no chão a três quilômetros da casa de Monterny. Consegui aterrisar e me aproximar sem dificuldades. Na casa tudo está quieto; não descobri ninguém. Mas embaixo da terra o movimento é grande. Há um conjunto incrível de equipamento de defesa. São corredores extensos com galerias laterais e inúmeros recintos que servem de depósito de munições e mantimentos, salas de estar, salas de armas, etc. Ainda há elevadores para canhões de tiro rápido. O Supercrânio está sentado numa espécie de sala de comando e prepara a defesa de seu reino. Alguém o deve ter prevenido.
— Quem?
— Talvez Seiko possa informar. Está escutando as palestras radiofônicas. Não tenho nenhum contato com ele.
Rhodan refletiu por alguns segundos. — Está bem, Sengu. Continue a observar tudo. Procure entrar em contato com os outros mutantes, especialmente com Seiko. Avise sempre que houver alguma novidade. Atacaremos exatamente daqui a trinta minutos. Mantenha-se afastado e só intervenha quando o maior perigo tiver passado. Entendido?
— Entendido.
Rhodan se levantou.
— Dirigirei o ataque a bordo da Good Hope-V.
Bell, espantado, ergueu as sobrancelhas.
— A bordo do girino?! — disse espantado. — E o que é que eu vou fazer com a Stardust-III?
— Você ficará de olhos abertos para que tudo dê certo, meu caro — consolou-o Rhodan. — Você ficará num lugar afastado, cuidando para que o patife não nos escape. Não se esqueça de que dispõe ao menos de dois destróieres capazes de atingir a velocidade da luz. Roubou três, e um deles foi destruído. É possível que um se encontre em Marte. Quer dizer que sobra um. É desse que você terá de cuidar.
— Eu também? — perguntou Gucky com sua voz de grilo.
Não parecia nada satisfeito.
— Você também! — confirmou Rhodan, enquanto dava uma pancada no ombro de Bell. — Estou satisfeito que hoje os arcônidas não estão conosco. Thora e Crest não gostam de atos de beligerância. Acham que é um procedimento bárbaro, uma demonstração de violência.
— E não deixam de ter sua razão.
Rhodan deu de ombros.
— Você conhece uma solução melhor?
Bell imitou o gesto de Rhodan, mas não respondeu. Os dois homens voltaram à sala de comando, acompanhados do inseparável Gucky. Bell assumiu o comando da Stardust-III. Rhodan tomou o elevador antigravitacional e dirigiu-se apressadamente aos grandes hangares, a fim de preparar a Good Hope-V para a decolagem.
Dali a cinco minutos a nave esférica, que media sessenta metros de diâmetro, saiu do bojo gigantesco da Stardust-III e mergulhou rapidamente na atmosfera terrestre. Os nove destróieres acompanharam-na em formação militar.
E assim teve início o ataque ao quartel-general do Supercrânio.
4



Mal os instrumentos de Clifford Monterny registraram a presença da nave esférica e desencadearam o alarma, Rhodan já havia pousado. A queda vertiginosa só foi amortecida no último instante. Quando a Good Hope-V ainda vibrava sobre os suportes telescópicos, a menos de duzentos metros do edifício-sede da fazenda, o Supercrânio abriu fogo.
Mais de vinte canos expeliam chamas de vários metros de comprimento e disparavam cargas explosivas mortais. Os projéteis tomaram uma trajetória retilínea em direção à Good Hope-V, mas detonaram no campo protetor instalado nesse meio tempo. Esse campo recebia sua energia dos inesgotáveis reatores arcônidas. O espetáculo era um fogo de artifício nunca visto na área tranqüila das montanhas rochosas desde que o homem andava sobre a Terra. Indiferente a tudo, a esfera manteve-se imóvel atrás do campo protetor, aguardando.
O dispositivo automático de defesa do Supercrânio disparou uns quinhentos projéteis, antes que o cérebro eletrônico compreendesse que esse procedimento era totalmente inútil. As transportadoras mecânicas mudaram as cargas explosivas. O cérebro eletrônico do Supercrânio decidiu recorrer às armas atômicas.
Rhodan contara com isso. Sabia que o campo protetor seria capaz de suportar e neutralizar essa carga. Todavia, o bombardeio atômico representava o sinal de que o Supercrânio já não dispunha de outros recursos. Era o princípio do fim.
Rhodan aguardou por uns três ou quatro minutos, até que surgisse uma ligeira pausa no bombardeio. Tivera tempo de sobra para determinar a posição dos vinte canhões. Seus canos saíam diretamente da rocha natural e dali a pouco desapareceriam embaixo do solo, onde estariam a salvo de qualquer ataque. Se quisesse inutilizar os canhões, teria de agir depressa.
Os robôs de combate estavam preparados. Os soldados da Terceira Potência, todos muito bem treinados, esperavam ansiosamente na grande comporta de carga da Good Hope-V. O resto do Exército de Mutantes aguardava febrilmente a entrada em ação. Só eles sabiam que a luta decisiva poderia ser travada num plano exclusivamente espiritual.
Seria uma luta de mutantes contra mutantes.
Todas as peças da artilharia de desintegração da nave apontavam para os alvos já conhecidos. Também aguardavam. No mesmo instante em que Rhodan desativasse o campo energético, expeliriam a torrente mortífera de raios gaseificantes que destruiria o alvo. Toda e qualquer estrutura cristalina se desmancharia por completo e deixaria de existir.
Rhodan esperara justamente essa breve pausa no bombardeio. Uma das desvantagens de um conjunto de peças de artilharia comandado por meios mecânicos consistia no fato de que as mesmas não podiam receber um tratamento individual. Quando silenciavam, ou quando havia uma troca de munições, não havia uma única que continuasse em condições de disparar.
O campo energético que protegia a Good Hope-V se desfez.
No mesmo instante uns oito ou nove raios da grossura de um dedo, quase invisíveis, saíram do envoltório côncavo e alcançaram seu objetivo. Numa fração de segundo a terra e a rocha transformaram-se numa massa borbulhante e fumegante, na qual os canhões de aço flutuavam e se derretiam como se fossem de manteiga.
Os feixes de raios deslocaram-se em direção aos próximos objetivos. Antes que o cérebro eletrônico do complexo defensivo do Supercrânio registrasse a desgraça, todos os canhões, com exceção de dois, haviam sido colocados fora de combate. Esses dois afundaram nas galerias. Mas isso apenas evitou sua destruição. Os raios energéticos expelidos pela Good Hope-V derreteram a boca das galerias a tal ponto que uma massa vitrificada as fechava hermeticamente. Dessa forma não havia mais qualquer peça de artilharia que pudesse ser utilizada na luta contra Rhodan.
Era exatamente isso que Rhodan aguardava.
O alarma ressoou pela nave. Escotilhas abriram-se. De uma delas, uma rampa larga e inclinada estendeu-se em direção ao solo. Dentro de poucos segundos vinte robôs de combate marcharam em direção à casa, que jazia tranqüilamente em meio a algumas árvores solitárias. Nessa casa devia se encontrar a entrada da fortaleza subterrânea do Supercrânio. Os braços esquerdos estendiam-se em ângulo. As mãos estavam ausentes. No lugar delas havia uma abertura em forma de cone.
Foram seguidos pelos soldados, armados com radiadores de impulsos portáteis e armas automáticas. As granadas de gás estavam presas aos cintos.
Rhodan permaneceu na sala de comando; acompanhou os acontecimentos através das imagens projetadas na tela. Por enquanto achou mais prudente não fazer pleno uso de seus mutantes. Formariam uma espécie de reserva.
As telas estavam coordenadas de tal forma que Rhodan parecia se encontrar numa casa de paredes de vidro. Nada poderia lhe escapar. Por isso foi o primeiro a notar as medidas defensivas do Supercrânio, cujos efeitos desastrosos logo se fizeram sentir.

* * *

Numa fúria desesperada, Clifford Monterny fitou os controles das peças de artilharia automaticamente dirigidas. O cérebro eletrônico não reagia mais. As escalas indicavam a marcação zero. Os canhões haviam sido colocados fora de ação.
Mas, se Rhodan acreditava que só por isso já ganhara a batalha, estava redondamente enganado.
Era bem verdade que Clifford supusera que conseguiria liquidar qualquer atacante com algumas salvas rápidas de suas vinte peças de artilharia; no entanto, não deixara de prever outras possibilidades. Não foi à toa que formou um pequeno exército de mutantes, que lhe dispensava uma cega dedicação.
Seus dedos giraram um botão. Uma tela se iluminou, e nela surgiu a cabeça de um homem branco. Os cabelos cortados rente faziam concluir que se tratava de um americano.
— Roster Deegan — disse o Supercrânio — ponha seus homens em ação. Especialmente os telecinetas. Rhodan está atacando com robôs. Em hipótese alguma devem alcançar a casa. O senhor comparecerá à sala de comando para dirigir o contra-ataque.
Dois minutos depois dessa palestra, os telecinetas de Monterny entraram em ação.

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