— Okura tem razão, Marshall. Só há uma
alternativa: é preciso chegar antes de Thora e impedi-la de penetrar na
fortaleza. Mas não vejo motivo algum para crer que ela tenha tido mais sorte
que nós. Afinal, o codificador da nave dela também não estava ajustado.
Resta-nos esperar que ela tenha sobrevivido à queda.
Marshall rosnou, irado:
— Por mim, ela pode ter quebrado o
pescoço.
— Eu não diria uma coisa dessas —
respondeu Rhodan, num ligeiro tom de censura. — Não se deve desejar mal a
ninguém, apenas impedi-lo de cometer algum mal. É uma ilusão pensar que a
violência possa ser combatida. E tem mais: Thora pode quebrar o pescoço que
isso não nos ajuda em nada. Continuamos presos aqui do mesmo jeito.
— O sentido das minhas palavras não era
bem esse — disse Marshall, tentando atenuar sua expressão irrefletida. — O que
eu quis dizer é que eu tenho uma raiva dos diabos dessa mulher extraterrena.
Com um sorriso
suave, Okura observou:
— Mas só da extraterrena, não é?
Rhodan se levantou algo vacilante e se
apoiou na parede. Ainda estava meio tonto daquele longo desmaio. Sob o olhar atento
dos dois companheiros, ensaiou os primeiros passos cautelosos e se dirigiu à
vigia. Lá fora reinava o negrume da noite venusiana. Mas, mesmo se fosse dia
claro, Rhodan não poderia agora ter pensado em sair da cabina. Ainda se sentia
fraco demais para enfrentar a estafante marcha através desse mundo primitivo,
sem falar nas ameaças desconhecidas que ocultava.
Por outro lado, quanto mais tempo perdesse
em esperar, tanto maior se tornava o perigo de um colapso total de tudo o que
havia criado até agora. Poderia ser substituído pelo coronel Freyt, certo; mas
bastava que se tornasse do domínio público que Rhodan, o chefe da Terceira
Potência, não tinha regressado de um vôo a Vênus e que era muito provável que
os sáurios o haviam devorado, para que... bem as conseqüências eram
inimagináveis. O nacionalismo latente de alguns políticos ambiciosos voltaria à
tona e salvaria as pátrias, transformando
os futuros terranos novamente em homens. E isto era exatamente o pior que lhes
poderia acontecer. Recairiam no estágio das concepções nacionalistas bitoladas,
tornando-se presa fácil para qualquer invasor do universo.
Essa conclusão só admitia uma única
decisão.
E Rhodan a externou:
— Precisamos procurar chegar à base.
Primeiro, vamos dormir durante mais algumas horas, para recuperar as forças,
depois partimos. Trajes de exploradores nós não temos, tampouco mantimentos
suficientes. Quer verificar o armamento?
Okura abriu o armário embutido. Bem
arrumadinhos nos suportes, lá estavam três jeitosos irradiadores de impulsos. E
mais nada.
— Ao menos alguma coisa — rosnou Marshall.
— Matar sáurios com essas armas é até covardia.
Para Rhodan isto não parecia ser o
problema principal.
— Só dispomos disso? Nada de pistolas
automáticas ou espingardas?
Olhou ao redor.
— E os víveres e a água?
A expressão de Okura era de pura
lamentação.
— Temos alguns concentrados e uns poucos
litros de água. Talvez o suficiente para dois ou três dias. Mas podemos viver
da caça.
— Engano seu! — Rhodan sacudiu a arma. — O
raio energético de uma pistola de impulsos positrônicos queima e gaseifica
instantaneamente toda e qualquer matéria. Mesmo de um sáurio não sobraria
praticamente nada se o disparo for um pouco excessivo.
— Então — disse Marshall — basta prestar
atenção no disparo. É só matar o bicho e suspender fogo. Além disso, como
sabem, nunca deixo de andar sem o meu velho e fiel revólver — apontou para o
bolso. — Pode ser obsoleto, mas não me desfaço dele, por mais que Bell me goze.
— É o que eu vou fazer agora — resmungou
Rhodan. — Não vai me dizer que pretende derrubar um sáurio com este brinquedo?
— Não estou pensando em sáurios. Afinal,
existem também animais menores em Vênus. Talvez sejam até mais saborosos.
Okura acenou, satisfeito.
— Marshall não deixa de ter razão. Eu
também acredito que vamos conseguir carne. Talvez encontremos até frutas.
Lembro-me que, durante o nosso período de instruções aqui em Vênus,
serviram-nos frutas em quantidade. Tenho certeza de que vou reconhecê-las, se
existirem por aí. Mas eu estou mais preocupado com a água. Afinal, não podemos
beber essa porcaria dos pântanos. Faço idéia de como deve estar pululando de
bactérias!
— Existe uma substância na farmácia de
bordo — disse Rhodan — que substitui a fervura. É só jogar o pozinho na água e
as bactérias desaparecem. Depois, é só filtrá-la para retirar as eventuais
impurezas tóxicas. Esse processo substitui até a destilação. Agora, se for
preciso, nada nos impede de ferver a água. Lenha existe aos montes no chão da
floresta.
— É, lenha molhada ou úmida! Não vai nos
adiantar grande coisa.
Okura meteu a mão no armário da despensa e
exibiu um pequeno pacote.
— Quem é que está falando o tempo todo em
lenha? Veja aqui, Marshall. Sabe o que é isso? Argila energética! Rende cem
vezes mais que álcool. Com esse negócio aqui podemos preparar três refeições
diárias durante três meses. Faltam somente os bifes de sáurios.
Marshall torceu o nariz.
— Nunca na vida comi carne de sáurio! —
lamentou-se.
— Então está mais do que na hora de
começar — constatou Rhodan e sentou-se novamente no leito improvisado. —
Arrumem tudo que possa ser de utilidade e depois vão dormir. Não sei quando
vamos ter nova oportunidade para dormir em paz.
Fechou os olhos e, pouco depois, a
respiração regular mostrou que Perry Rhodan estava decidido a recuperar as forças
para enfrentar a aventura que se avizinhava.
Uma aventura que, de um segundo para o
outro, o havia feito regredir da era da mais moderna tecnologia para a
pré-história.
* * *
E lá estavam eles, escorados nos galhos
grossos de uma enorme árvore, cinqüenta metros acima do solo traiçoeiro da
selva. Cipós da grossura de um braço pendiam de todos os lados, e facilitariam
a descida.
Rhodan lançou um último olhar para a
segurança da cabina, que agora abandonariam para sempre. Segundo sua
estimativa, a base arcônida com a guarnição de robôs devia se situar uns quinhentos
quilômetros para oeste. Uma distância que, devido à fauna e flora
pré-históricas, se constituía num obstáculo praticamente intransponível.
Verificou se o irradiador de impulsos
estava bem preso ao cinto e pendurou no espaço o saquinho que continha a sua
ração de água e víveres concentrados. Depois, escolheu o galho mais apropriado
para seguir Marshall, que já havia iniciado a descida. Okura forçava a vista,
olhando para baixo.
— Estamos com sorte. Há uma pequena
clareira. Nenhum sinal de animais.
O próprio Rhodan sempre voltava a ficar
fascinado quando tinha ensejo de constatar a facilidade com que esse mutante
conseguia enxergar na mais completa escuridão. E agora mal se via um palmo
diante do nariz! Em algum lugar, longe daqui, um vulcão devia ter entrado em
erupção; talvez na cordilheira mais próxima. Uma débil luminosidade avermelhada
penetrava na floresta, emprestando um ligeiro tom rosado a tudo que se via. E
isto, na realidade, era praticamente nada.
— Podemos prosseguir daqui — gritou
Marshall, lá de baixo. — Esses cipós formam uma verdadeira escada de cordas.
Rhodan tateou com os pés, à procura de um
apoio. Encontrou-o e desceu lentamente. Teve a impressão que aqui em cima, nas
árvores, talvez pudessem avançar mais rapidamente que no chão enganoso da
selva. Mas somente a prática confirmaria isto. Talvez pudessem mudar de método
à luz do dia.
Levaram três horas para atingir o chão
firme.
Okura consultou a bússola de pulso.
— Temos que prosseguir nessa direção, se
não houver algum obstáculo. Pelo que eu consigo ver, não há pântanos por aqui.
E o chão está relativamente seco.
Rhodan sentia uma forte dor de cabeça,
conseqüência do seu ferimento.
“Mesmo
um imortal”, pensou amargurado, “não
está livre de sofrer de enxaqueca.”
Enquanto caminhava atrás de Okura, os
acontecimentos no planeta da vida eterna se desenrolavam mais uma vez em sua
mente. Haviam seguido o rastro que os conduziu, através da galáxia e do tempo,
até Peregrino, o planeta solitário. E lá vivia aquele ser imortal do passado,
que revelou a ele, Rhodan, parte do segredo da conservação permanente das
células. E ainda lhe proporcionou a oportunidade de se submeter ao fisiotron, a
ducha celular, que sustava o
processo de envelhecimento por um certo período — para ser mais preciso,
durante sessenta e dois anos, na contagem de tempo terrestre. E aquele ser
determinou que apenas os terranos poderiam se utilizar da ducha celular, se
Rhodan assim o permitisse.
Além de Rhodan, somente Bell havia sido
contemplado com uma prolongação da vida.
Daqui a sessenta e dois anos Rhodan
procuraria de novo aquele ser. Com o auxílio do grande cérebro positrônico,
calcularia as coordenadas espaciais exatas daquele planeta errante e o
revisitaria. Mas seis decênios constituíam um período de tempo bastante longo.
E quanta coisa poderia acontecer até lá...
De repente Okura parou. Forçou a vista
como se perfurasse a escuridão ambiente, e esticou a mão para trás, à procura
de Rhodan. Marshall havia se chocado contra Rhodan e sufocou uma imprecação.
— O que houve? — Okura sussurrou:
— Algo está se locomovendo lá em frente.
Uma sombra grande. Não consigo distinguir exatamente o que é. Ouvir, não se
ouve nada.
— Então também não é um sáurio, porque
esses a gente ouve a quilômetros de distância.
Rhodan silenciava, os ouvidos aguçados.
Instintivamente sua mão se fechou sobre a coronha do irradiador.
O japonês suspirou aliviado.
— Talvez seja um outro animal qualquer. De
qualquer maneira, não enxerga tão bem como eu, porque ainda não nos reparou.
Está se desviando para a direita, penetrando na floresta. A julgar pelos
contornos, tem o tamanho e o aspecto de um gorila. Talvez já existam macacos em
Vênus.
— Pelo amor de Deus! — gemeu Marshall.
Rhodan se dirigiu a ele.
— Por quê? Tem algo contra os macacos?
— Não é bem isso, mas, se realmente
existirem macacos em Vênus, daqui a cem mil anos nossos colonos vão ter
aborrecimentos sem fim com os venusianos... ao menos na minha opinião
Rhodan deu uma risada quase inaudível.
— Queria ter as suas preocupações,
Marshall! Não tem outras, por acaso?
Marshall rosnou algo ininteligível, mas
não deu resposta. Okura reiniciou a caminhada, seguido de perto por Rhodan, que
protegia novamente o rosto com as mãos.
A noite ainda duraria quatro dias
terrestres e, se não sofressem atraso por algum motivo inesperado, talvez
pudessem percorrer uns cem quilômetros até o nascer do sol.
Uma perspectiva deveras auspiciosa.
Cinco horas mais tarde Rhodan esticou a
mão e agarrou o japonês pelo ombro.
— Precisamos descansar, Okura. Se
continuarmos a esbanjar nossas forças desse jeito, nunca vamos chegar à base.
Assim que descobrir um lugar apropriado, vamos repousar por algumas horas.
Talvez encontremos uma clareira.
— Posso fazer uma sugestão? — o japonês
parou. — Que tal se subíssemos novamente numa árvore? Tenho certeza que, alguns
metros acima do solo, encontramos um galho suficientemente largo para nos
acomodar a todos. Aqui embaixo eu teria que ficar de olhos bem abertos o tempo
todo, pois a selva deve estar cheia de perigos ocultos. A meu ver, as árvores
oferecem uma segurança relativamente maior.
— O que me causa espanto — admirou-se
Marshall — é que ainda não encontramos terreno pantanoso pela frente. Tivemos
uma sorte incrível.
— Também só percorremos cinco quilômetros
— observou Rhodan.
Okura encontrou uma árvore que lhe parecia
adequada e foi o primeiro a subir. Dez metros acima do solo encontraram um
galho largo, que se estendia horizontalmente através de um emaranhado de cipós.
O conjunto formava uma espécie de caverna, na qual os homens se sentiram
imediatamente seguros.
Marshall assumiu a função de cozinheiro.
Quando os concentrados começaram a se
dissolver na água e o fogo incolor flamejou debaixo da panela, os três homens
até que se sentiram bastante confortáveis.
— Estou chegando à conclusão, de que a
coisa não está tão ruim assim — observou o australiano alegremente, mexendo a
sopa. — Já pensaram como vai ser quando for dia claro? Aí mesmo é que vamos
marchar que nem uns andarilhos!
Ninguém viu a expressão cética de
Rhodan... Okura talvez, mas Marshall nunca. Rompendo o silêncio que se seguiu,
Okura disse:
— Só que ainda vai passar um bocado de
tempo até o dia claro chegar!
Sem proferir palavra, Marshall continuou a
mexer na sua panela.
3
Meio oculto por véus de nuvens, o sol de
Vênus preparava o seu ocaso. Aquela mancha difusa atrás da camada de bruma
parecia perder o poder luminoso e por isso tornou-se mais colorida. Os raios de
luz, refratados pelas nuvens e névoas, produziram no céu monótono de Vênus um
espetáculo que brilhava em todas as cores do espectro. Aos poucos, o vermelho
começou a predominar, mergulhando este mundo primitivo num tom rosado, e o
inferno verde parecia querer se transformar num paraíso de cores estonteantes.
Até mesmo as superfícies pantanosas, de brilho tão traiçoeiro, se apresentavam
agora como a palheta furta-cor de um pintor divino que, invisível, zelava pela
sua obra em constante modificação.
O mundo de Vênus suspendia a respiração
quando a longa noite se iniciava. Era como a rendição da guarda. Os enormes
sáurios regressavam das florestas e se ocultavam na segurança do seu antigo
elemento. Às dezenas, rolavam por cima dos colmos altos do junco, transformando
as cores variadas do pântano num turbulento espectro gigante, que fazia lembrar
galáxias coloridas, percorrendo trajetórias infindáveis através do nada,
rodando eternamente e procurando em vão por um destino.
À distância, reluziam as rochas desnudas
das cordilheiras. Pareciam cobertas por fogo líquido. Entre as rochas
cintilavam, prateadas, as quedas d’água. Quando se pulverizavam lá embaixo, no
teto da mata virgem, era como se um arco-íris enorme estivesse se alastrando,
na tentativa de encobrir o mundo com suas cores transparentes.
Enquanto os sáurios iniciavam o longo
repouso noturno, os seres vivos da escuridão começaram a acordar. O curto
intervalo da transição chegou bruscamente ao fim, quando o sol desapareceu no
horizonte mormacento e candente.
Em vôo silencioso, mas grasnando
estridentemente, enormes aves lançavam-se através do crepúsculo, sobre pântanos
e florestas, à cata de presa. Gigantescas borboletas noturnas cambaleavam em
direção ao sol poente, tentando em vão alcançá-lo.
Na borda do platô, no alto daquelas rochas
que se erguiam como uma ilha do mar verde da floresta, alguns homens
observavam, emocionados, o soberbo espetáculo da natureza. Não constituía
novidade para eles, mas invariavelmente ficavam enfeitiçados toda vez que o
contemplavam.
Tempos atrás, haviam trajado uma farda.
Mas agora esses uniformes estavam tão esfarrapados que ninguém mais os podia
reconhecer. Parecia que apenas os cintos evitavam que esses farrapos
despencassem de vez. As calças estavam enfiadas em botas dilaceradas, e alguns
dos homens tinham os ombros envoltos em peles grosseiramente trabalhadas.
Porque, com o sol poente, a temperatura caía sensivelmente.
Os cabelos eram longos, assim como as
barbas emaranhadas. Mas, apesar do aspecto estranho, eram indiscutivelmente
homens da Terra longínqua.
Um deles, um sujeito troncudo e forte, de
cara larga, protegia a vista com a mão.
— É mais bonito que na Terra — disse, num
idioma que soava como russo. — Talvez foi isso que levou os outros a resolverem
ficar aqui para sempre.
— E bem provável, general Tomisenkow. Não
há outra explicação. Perderam o juízo.
O ex-comandante da expedição do Bloco
Oriental, que Rhodan havia desbaratado, sacudiu a cabeça com veemência.
— Não creio que a atitude deles possa ser
explicada de maneira tão simples. Deve haver outras razões mais complicadas.
Vênus é um mundo selvagem, mas é um mundo livre...
— Por acaso nós não somos livres também? —
perguntou um dos homens, meio na espreita.
— Liberdade, e liberdade... será que não
existem diferenças? A liberdade não é um conceito da relatividade e do dogma
político? A liberdade pode ser imposta, mas também se pode conquistá-la.
— Coisas estranhas, essas que o senhor
disse, general! — comentou um outro homem, pensativo, e olhou para a vasta
planície que se estendia em direção ao oeste. Lá também se erguiam pequenas
ilhas rochosas, e na luz crepuscular via-se que de uma delas subia uma coluna
de fumaça. — Não foram justamente os rebeldes que disseram a mesma coisa?
— Foram eles, sim. Mas não se limitaram a
palavras; agiram. Tanto assim que se separaram de nós, porque não queriam
regressar à pátria depois do fracasso da nossa invasão. Tínhamos ordens de
conquistar a base venusiana de Rhodan. Não conseguimos. Rhodan destruiu nossas
naves e nos abandonou indefesos nesta selva. Mas ele sabia que o homem pode
sobreviver aqui. Os rebeldes também sabem disso. Todo seu plano está baseado
nesse fato. E é nesse ponto que reside a diferença entre nós e eles. Nós
queremos retornar à Terra com um único intuito: preparar uma nova invasão. Mas
os rebeldes decidiram permanecer em Vênus para colonizá-lo. Só que, com os
meios escassos de que dispõem, estão fadados a um fracasso. Mas parece que isso
eles não entendem.
— Pode ser, mas o fato é que já destacaram
a sua gleba e iniciaram o cultivo do solo. Vênus é muito fértil. Tipo da terra
ideal para colonos.
— O ponto de vista dos rebeldes é tão
válido como qualquer outro — admitiu o general, meio a contragosto. — Mas,
apesar disso, continuam sendo amotinados que se recusam a cumprir ordens. E
amotinados, a gente costuma enforcar!
O soldado maltrapilho e embrutecido ao
lado de Tomisenkow levou a mão instintivamente ao pescoço e se certificou que
sua cabeça ainda estava firmemente no lugar previsto pela natureza. Sua mão
direita estava fechada em torno da coronha da arma energética que trazia no
cinto. Cerrou os olhos ligeiramente e olhou na direção do acampamento dos
rebeldes. Ainda havia claridade suficiente para poder reconhecer todos os
detalhes através de um bom binóculo. E lá também havia sentinelas, que, por sua
vez, estavam olhando para o campo oposto. Eram os únicos homens em Vênus,
pertenciam ao mesmo bloco de potências... e apesar disso eram inimigos mortais,
e se combatiam com todos os meios de que dispunham.
O general Tomisenkow estava se virando
para voltar à sua cabana quando um ofuscante raio luminoso rompeu o crepúsculo.
Era como se um relâmpago tivesse atingido o meio do platô, no qual as tropas de
invasão, derrotadas e náufragas, haviam se estabelecido. Trovoadas não eram
nenhuma raridade em Vênus. Mas a época não era essa.
Com um estrondo avassalador, a onda de
choques varreu por cima dos homens derrubando alguns deles. Tomisenkow
conseguiu se agarrar a uma árvore. Com olhos arregalados fitou o céu pálido,
tentando reconhecer o ponto incandescente que caía lentamente, como um meteoro
gigante.
Por todos os fantasmas do inferno...
aquilo era uma nave espacial!
Mas não podia ser uma nave de Rhodan.
Pois aquelas diabólicas armas defensivas
da fortaleza extraterrena tinham-na atacado e derrubado.
Seria uma nave de suprimentos da pátria?
Claro que era! Não havia outra explicação.
Antes que conseguisse tomar uma resolução, um novo raio rompeu a escuridão.
Porém, aquela nave que estava caindo não foi mais atingida; desapareceu atrás
das copas das árvores altas.
Quando a nova onda de choques tinha
passado por cima dele, Tomisenkow voltou correndo.
— Sargento Rabov, pegue alguns dos seus
homens e tente encontrar aquela nave derrubada. Pode ser que não haja
sobreviventes, mas mantimentos e armas são sempre bem-vindos. Ande ligeiro, antes
que escureça de vez.
O sargento, um sujeito pequeno, de cabelos
escuros e olhos ágeis, acenou vivamente.
— Vou levar o holofote, general. Vamos
encontrar essa nave, pode contar com isso. Não quer vir conosco?
Tomisenkow franziu as sobrancelhas. O que restava
da antiga disciplina?! Estava na hora de coibir esses abusos de confiança.
— Tenho coisa mais importante para fazer!
— rosnou, irado, e se afastou em direção às cabanas ao pé do pequeno cone
rochoso.
Começou a se sentir um solitário no meio
de seus homens.
O sargento Rabov acompanhou a retirada
brusca do seu comandante com uma expressão impassível. Tinha estreitado os
olhos, o que lhe emprestava um aspecto nitidamente mongol. Mas ele não era
mongol, e sim um musculoso ucraniano. E muitos dos seus camaradas
encontravam-se no acampamento dos rebeldes. Na próxima oportunidade...
Afastou esses pensamentos desagradáveis e
seguiu o general a uma grande distância. As sentinelas permaneceram na beira do
platô, aguardando o próximo disparo ofuscante.
Mas esperaram em vão.
* * *
Quando Thora acordou já era noite cerrada.
Suas pernas ainda estavam doloridas e só
conseguia mexê-las com dificuldade. Ainda bem que as pontadas agudas que lhe
atravessavam os quadris eram suportáveis.
Cautelosamente, Thora apoiou os braços no
encosto da poltrona, fez um esforço e conseguiu se levantar. O chão embaixo dos
seus pés estava levemente inclinado e tinha que tomar cuidado para não
escorregar.
Ligou a iluminação, mas tudo permaneceu
escuro. Com um golpe brusco, puxou a alavanca da bateria de emergência para
baixo. Imediatamente as lâmpadas se acenderam. E Thora viu o robô R.17.
Não havia mudado de posição, a testa ainda
encostada no painel dos instrumentos. O braço direito, dobrado, repousava sobre
a mesa estreita em frente aos controles, enquanto o esquerdo pendia, frouxo,
dos ombros.
Quando lhe ocorreu que R.17 talvez
estivesse morto, Thora se
sentiu acometida de uma angustiante solidão. Consertos de pequena monta não
constituíam problema para ela. Mas, se uma das complicadas peças positrônicas
internas estivesse danificada, R.17 permaneceria para sempre na selva
venusiana, se não fosse encontrado antes disso.
Diante da vigia reinava a escuridão. Só lá
longe, no horizonte, ainda havia o fraco brilho avermelhado do sol poente. A
nave destruída jazia sobre uma clareira. As copas das árvores haviam amortecido
o primeiro impacto mas, mesmo assim, era um verdadeiro milagre que a nave
tivesse resvalado sem maiores choques até o chão. Somente o último trecho da
queda tinha resultado num baque mais violento, que luxou ligeiramente as pernas
de Thora e condenou R.17 à imobilidade.
Thora esticou os membros e constatou,
satisfeita, que não havia sofrido qualquer fratura. Sua preocupação imediata
era o robô. Com movimentos habilidosos, que denotavam uma longa prática, abriu
a caixa torácica de R.17 e, com uma lanterna, iluminou aquela confusão de
transistores, conexões e outras pecinhas eletrônicas. Até onde pôde constatar
nada havia sido inutilizado. Pensativa, Thora recolocou a placa no peito do
robô, prendendo-a com os grampos magnéticos. Não havia mais dúvida; já sabia
onde estava o defeito. A fronte de R. 17 havia se chocado com violência
demasiada contra o painel dos instrumentos.
Thora retirou a tampa de vedação do crânio
do robô e mal conseguiu acreditar no que viu. Um dos cabos principais tinha se
soltado e agora pendia, inútil, em meio aos minúsculos tubos de arconita.
Thora encontrou material de solda na caixa
de ferramentas e, poucos minutos depois, já tinha consertado o defeito. R.17
acordou. Ergueu a cabeça, olhou para Thora e perguntou:
— O que se passou? Eu fiquei desativado.
— Foi um cabo que se soltou, só isso.
Fomos derrubados pelos canhões-sentinelas da base. Parece que o codificador não
funcionou direito. A base deve ficar a uns quinhentos quilômetros daqui. E
agora?
— Vamos esperar — respondeu R.17. Para
ele, esta conclusão era evidente. Dispunha de tempo.
— Esperar? Esperar o quê? Esperar que nos
encontrem? Vênus é desabitada. Se Rhodan estiver à minha procura, vai voar para
a base. Duvido que lhe ocorra a idéia de que eu possa ter sido abatida. Como é
que estão os nossos aparelhos radiofônicos?
R.17 se levantou e caminhou, curiosamente
inclinado para a frente, em direção a porta da cabina de rádio. Sua postura
meio adernada era o efeito do giroscópio de estabilização, novamente em
funcionamento. R.17 não precisava se adaptar ao plano inclinado do chão, nem
dependia da posição do centro de gravidade.
Thora permaneceu na central e olhou pela
vigia, tentando reconhecer os objetos lá fora. Sorte sua que o crepúsculo em
Vênus durava cinco vezes mais tempo que na Terra pois, assim, pôde habituar a
vista aos aspectos da vizinhança.
A nave jazia, levemente inclinada, numa
clareira coberta de pedregulhos. Apenas algumas árvores isoladas formavam a
orla de uma floresta, que não era típica das selvas pantanosas das regiões
baixas. Só isto já constituía um fato auspicioso, que Thora aceitou com
satisfação.
R.17 voltou à central de comando.
— Os aparelhos radiofônicos não funcionam
e também não podem ser consertados — constatou, com objetividade. — Assim, não
podemos contar com auxílio, a não ser que dêem por nossa falta. Afinal, Rhodan
está a par do nosso vôo experimental, suponho eu.
— Não, Rhodan ignorava isso; ao menos até
a hora da nossa decolagem. Parti sem permissão, para estabelecer contato com
Árcon através da hiperestação em Vênus. Rhodan não queria que Crest e eu
regressássemos a Árcon.
O robô estacou no meio da cabina. Cravou
os olhos de cristal naquela mulher.
— Infringiu ordens de Rhodan? Sabe que fui
condicionado a obedecer apenas Rhodan. Pelo que fez, tornou-se minha
adversária.
— Nos encontramos na mesma situação.
— Apesar disso, deve ser punida.
O orgulho de Thora foi duramente atingido.
Ela, a arcônida, pertencia à raça dominadora que havia criado esse robô. E
agora esse engenho, sua própria criação, lhe dizia que ela merecia ser
castigada. Até o poder sobre os robôs Rhodan havia retirado das mãos dos
arcônidas!
— Está certo; Rhodan deveria me punir —
admitiu ela, evitando soar ilógica. — Mas ele só vai poder fazer isso quando eu
chegar à presença dele viva. Portanto, é sua obrigação me levar a Rhodan...
para a base venusiana. Porque só lá vamos encontrá-lo.
O robô R.17 reconheceu que a arcônida
tinha razão. Acenou com a cabeça — coisa que ele fazia muito bem, pois os
engenheiros arcônidas não haviam deixado de dotar os seus robôs com essas
reações.
— Muito bem, vamos à base venusiana para
esperar por Rhodan.
Isso, é claro, era fácil de dizer e
difícil de realizar.
— A partir desse momento, sou responsável
pela sua segurança, pela sua vida — constatou R.17, secamente. — A senhora
transgrediu a lei de Rhodan e, portanto, é minha prisioneira. A nave está
inutilizada, por isso vamos partir o mais depressa possível para não perder
tempo.
— E víveres para mim? — lembrou-se Thora,
quase perdendo o fôlego de susto.
O robô apontou para os armários embutidos
na parede.
— Lá se encontram armas, medicamentos,
água e concentrados previstos para uma tripulação de três homens. No caso, dá folgadamente
para duas semanas. Vou lhe permitir o uso de uma arma, porque isso serve ao meu
propósito.
Thora teve que engolir mais essa. Um robô
permitir a ela, a arcônida, o porte de uma arma! Decidiu, no íntimo, que assim
que pudesse mandaria transformar R.17 em sucata.
Pegou o irradiador de impulsos e o afixou
ao cinto. Depois enfiou os concentrados num pequeno saco, que entregou ao robô,
encarregando-se ela mesma de levar os medicamentos. R.17 se ofereceu para
carregar o vasilhame de água.
— Vou levar também o holofote — decidiu
Thora; estremeceu quando se lembrou daquela selva mergulhada na escuridão que a
esperava lá fora. Em outras circunstâncias, Thora teria aguardado o raiar do
dia venusiano. Mas tanto o seu procedimento
quanto seu pensamento eram exclusivamente
norteados pela obsessão de alcançar a base, custasse o que custasse. E assim
resolveu partir em plena escuridão, pois sabia que, a cada minuto que se
passava, diminuíam as suas chances de poder entrar em contato com Árcon. Rhodan
não ficaria de braços cruzados na Terra, esperando que ela realizasse com
sucesso o seu desígnio.
— A escuridão não é problema —
tranqüilizou-a R.17. — Consigo ver muito bem no escuro se ligar minha
instalação infravermelha. E para enfrentar seres hostis, disponho do meu
irradiador de neutrônios — ergueu seu braço esquerdo. — Vou levá-la em
segurança para a fortaleza.
Somente agora Thora se recordou, que Vênus
era habitado principalmente por sáurios enormes. Estava começando a perder a
coragem, mas o desânimo foi logo vencido pela vontade fanática de realizar o
seu intento e de se defrontar com Rhodan. Monstro algum conseguiria detê-la.
Lançou um último olhar pela vigia e depois
abriu a porta de emergência. Estava ligeiramente emperrada, mas, quando R.17 a
forçou com o seu corpo possante, abriu-se com um estridente rangido. A
atmosfera venusiana, ainda quente e úmida, penetrou na cabina e, com ela, os
odores da natureza.
R.17 foi o primeiro a sair. Desceu a
escada estreita e se postou no solo duro e seco, esperando por Thora. Seus
olhos artificiais vararam a escuridão e viram tudo como se o sol estivesse
pairando no céu escuro, mergulhando a paisagem em luminosa claridade.
É claro que isso Rabov e seu pessoal não
podiam saber.
Encobertos pelo manto da escuridão, os
homens do Bloco Oriental aproximaram-se cautelosamente daquela nave espacial
derrubada. Não sabiam ao certo quem a havia conduzido a Vênus. Essa gente podia
pertencer tanto à OTAN quanto à Federação Asiática. Uma luz emanava da vigia de
observação. E nessa luz se moviam as sombras de duas pessoas. Era só o que se
podia distinguir. Depois, a porta se abriu e dois vultos deixaram a nave, ou
aquilo que tinha sobrado dela.
A luz na central permaneceu acesa.
O sargento Rabov fez um sinal aos seus
homens. Agarraram as armas e tentaram varar a escuridão com seus olhos. A luz
na nave espacial lhes fornecia um ponto de referência, mas nada viam daqueles
dois homens que tinham acabado de descer. Deviam ter parado debaixo da nave,
pois não se mexiam mais.
Com sua voz desprovida de qualquer emoção,
R.17 se dirigiu a Thora:
— Tivemos uma sorte inacreditável. Lá na
frente há seres humanos. Consigo vê-los nitidamente. São quatro homens armados.
Estão se aproximando de nós. Se eu quiser, posso matá-los.
Thora se refez rapidamente do impacto da
surpresa.
— Não, não faça isso! Por que quer
matá-los? São inimigos?
— A atitude deles não denota intenções
pacíficas. Observaram a queda da nave e agora vieram para saquear. Talvez foram
até eles que nos derrubaram.
— Você sabe muito bem que fomos derrubados
pela sentinela eletrônica da base — disse Thora, sacudindo a cabeça. — Quem são
esses quatro homens? Você consegue reconhecer algum deles?
— Têm o aspecto de quem vive nesta selva
há anos.
Como um raio, a intuição invadiu a mente
de Thora: eram as tropas de desembarque do Bloco Oriental! E isso significava
inimigos potenciais.
Mas seriam inimigos também aqui, nas
selvas de Vênus, onde um dependia do outro?
Thora sacudiu os ombros.
— Pode ser que não caiamos no seu agrado,
R.17, mas primeiro vamos tratar de saber o que querem de nós. Mantenha-se
pronto para intervir, se for preciso. Quero falar com eles. Vamos deixar que se
aproximem; afinal de contas, eles não sabem que você os vê.
Thora e o robô observaram em silencio a
cautelosa aproximação de Rabov e seus homens. Menos de três passos os
separavam, quando Thora disse em inglês, a língua na qual era mais fluente:
— Desejam alguma coisa de nós?
O susto que o sargento levou foi tamanho
que ficou inteiramente desnorteado. Podia esperar tudo, menos ser interpelado
por uma voz feminina, vinda da escuridão. Tropeçou e se esparramou no chão. Sua
arma se chocou estrondosamente contra a rocha. Soltou uma florida imprecação em
russo.
Ainda esticado no chão, disse:
— Só viemos para oferecer ajuda. Posso
saber quem são?
R.17, que podia ver o sargento
perfeitamente bem, respondeu:
— Agradecemos toda ajuda que nos possa
prestar. Suponho que os senhores pertençam às tropas do general Tomisenkow.
A esta altura, Rabov já se havia refeito
do susto e se levantou. A voz daquele homem na escuridão soava curiosamente
dura e mecânica, se bem que o inglês que falava era perfeito. E o sargento
entendia inglês muito bem. Portanto, esse pessoal que tinha sido derrubado era
da OTAN.
— Sim, somos gente de Tomisenkow.
— Eu não entendi, o que o senhor disse. —
constatou R.17, sem qualquer acanhamento. Não tinha competência para
interpretar corretamente expressões idiomáticas.
Thora disse rapidamente:
— É claro que precisamos juntar forças, se
quisermos sobreviver. Aliás, como é que foi que nos encontrou tão depressa?
Rabov tinha se aproximado lentamente e foi
apanhado pelo feixe de luz, que vinha da cabina. Seu aspecto maltrapilho, embrutecido,
não era de molde a causar a melhor das impressões, quanto mais despertar
confiança. Thora sentiu calafrios ao imaginar o que poderia acontecer se caísse
nas mãos de sujeitos tão rudes. Ainda bem que estava acompanhada por R.17;
certamente saberia como protegê-la.
Durante os primeiros instantes, Rabov nem
prestou atenção no detalhe dos cabelos brancos e dos olhos albinos,
avermelhados. Só via a mulher. Fazia muitos meses que ele e seus camaradas não
viam uma mulher. Rabov era um sujeito tenaz e valente, mas aquela visão
insólita o fez ficar encabulado. Inseguro, trocava constantemente de pé, e
finalmente balbuciou:
— Vimos sua nave ser derrubada. Nosso
acampamento não é longe daqui. Fomos enviados pelo general Tomisenkow.
— Ótimo! — disse Thora, que
instintivamente agarrou a chance que vislumbrou.
— Então nos leve ao seu general. Temos muito
o que falar com ele.
Rabov acenou. Depois lembrou-se que ainda
havia outras perguntas importantes a fazer.
— Foram os únicos que sobreviveram à
queda?
— Fomos os únicos passageiros — respondeu
Thora, sem se importar com a surpresa de Rabov. — Vamos logo! Não tenho nenhuma
vontade de passar a noite inteira em pé aqui.
O sargento Rabov começou a desconfiar que
os papéis haviam sido trocados, mas seu instinto o impedia de se indispor com
essa mulher. Por isso ordenou aos seus três companheiros que guardassem as
armas e iniciassem a caminhada de volta ao acampamento. Ele mesmo resolveu
andar ao lado de Thora, sem dar muita atenção ao outro sobrevivente. Na sua
opinião, devia ser o comandante da nave derrubada. Por uma questão de
gentileza, Rabov se virou para R.17, que até agora tinha se mantido na
escuridão, e disse:
— Espero que não tenha se ferido.
O robô respondeu, com toda objetividade:
— Apenas um cabo se soltou, mas esse
defeito conseguimos consertar. Agora, quanto à nave, essa está perdida.
O sargento Rabov necessitou de vários
segundos para reparar no aparente absurdo da resposta.
— Um cabo?! — murmurou. Não estava
entendendo. — Onde é que esse cabo se soltou?
— Dentro de mim; eu não lhe disse?
Rabov estancou. R.17 que não reagiu com
suficiente rapidez, esbarrou contra o sargento. Por pouco Rabov não se
esparramou mais uma vez no chão. Tinha a impressão de ter sido abalroado por um
tanque ligeiro. Aturdido pela surpresa, se agarrou a Thora que, felizmente,
conseguiu se escorar numa árvore.
O braço esquerdo de R.17 se ergueu
ameaçadoramente.
— Quem... O quê? — gaguejou Rabov,
desconcertado.
Thora se livrou do sargento e sacudiu a
cabeça, indignada.
— Não seja tão impetuoso, meu amigo. Meu
companheiro é um robô. O que tem isso de tão espantoso?
É claro que o sargento Rabov não conhecia
nenhum robô arcônida, mas ele sabia que, na Terra, somente a Terceira Potência
possuía robôs. Como é que esse pessoal da OTAN havia conseguido botar as mãos
nesses robôs? Ou então, um novo pensamento lhe varou o cérebro, será que esses
dois não eram da OTAN? Mas então por que tinham sido derrubados?
Havia algo de podre nessa história, e
Rabov resolveu ir direto ao assunto.
— Pertencem à Terceira Potência?
— Duvidou disso? — retrucou Thora e fez um
gesto impaciente com a mão que, além de R.17, ninguém mais viu. — Vamos ficar
parados aqui eternamente?
Rabov lançou um olhar furtivo na direção
onde supunha que estivesse o robô, e pôs-se novamente em movimento.
Uma mulher e um robô... nunca na vida, nem
ele nem o general Tomisenkow haviam capturado uma dupla tão estranha.
4
O ruído estranho fez Son Okura acordar.
No primeiro instante, ainda tonto de sono,
foi incapaz de se lembrar que tipo de barulho tinha sido esse, e muito menos de
imaginar o que o teria produzido. Levou até vários segundos para se lembrar
onde estava.
Depois, sua mente se desanuviou. Sim...
junto com John Marshall e Perry Rhodan, encontrava-se num galho largo, dez
metros acima do solo de Vênus, em meio à selva daquele planeta virginal. A
escuridão era total. Em algum ponto no oeste, situava-se a base arcônida,
implantada no alto de uma cordilheira. E atrás deles, no leste, jaziam os
escombros calcinados da sua nave espacial.
E ouviu novamente aquele barulho.
As pernas lhe doíam bastante, mas isso não
preocupava Okura no momento. Ativou a parte mutada de seu cérebro... e, de
repente, a noite se tornou dia claro para ele. Podia ver.
A menos de dois metros, encontrava-se
Rhodan, meio deitado, as costas recostadas contra um galho não muito grosso. Ao
lado dele, numa posição encolhida, estava Marshall, que dormia de boca aberta e
roncava. Sua mão direita estava enfiada no bolso e Okura teria apostado a sua
ração de água que, mesmo no sono, não largava o coldre daquele revólver
obsoleto.
Era um ruído arrastante e vinha da
esquerda, onde o enorme tronco da árvore gigante se erguia em direção ao teto
da floresta, a mais de cem metros de altura.
Okura manteve-se imóvel, tentando
descobrir a origem daquele ruído. Quando a descobriu, ficou mais imóvel do que
antes. Por um instante seu coração parou de bater, mas depois o sangue lhe
afluiu à cabeça com tal violência que Okura teve a impressão que fosse
estourar.
Lentamente, aquela coisa amarela se deslocou
sobre a bifurcação do galho e se arrastou, em ondas regulares, em direção aos
três homens.
Nunca antes em sua vida Okura tinha visto
um verme-lesma venusiano. Era até provável que homem algum antes dele tivesse
posto os olhos nesse animal. Vivia oculto nas profundezas das incomensuráveis
florestas. De dia, refugiava-se nas cavidades de troncos gigantes apodrecidos,
e só abandonava o seu esconderijo à noite. Sua alimentação consistia em todas
as matérias orgânicas: plantas, madeira mole... e carne. Tudo que também fosse
lento ou, melhor ainda, imóvel, constituía a sua presa.
No entanto, não se podia considerar o
verme-lesma como uma fera, ou um animal predador, na acepção costumeira da
palavra.
De qualquer maneira bastou o aspecto deste
bicho para que o medo estarrecesse Okura, incapaz de realizar o menor
movimento. Com olhos arregalados fitou aquele ser horripilante, que se
aproximava lentamente dele.
Realmente fazia lembrar uma lesma, ao
menos no que dizia respeito à cabeça. Longas antenas, que oscilavam
constantemente, estendiam-se para a frente, à procura de algum obstáculo. Na
extremidade dessas antenas, constatou Okura, localizavam-se os pequenos olhos.
A outra parte do animal era o verme propriamente dito. Um corpo alongado e
flexível, sem pernas visíveis. Os movimentos dos diversos segmentos anulares
eram responsáveis pela locomoção do verme-lesma.
O que mais infundia pavor era aquela
bocarra voraz. Possuía três fileiras de dentes afiadíssimos, capazes de
triturar praticamente tudo que conseguissem agarrar. Isso incluía ossos, sem a
menor dúvida.
Okura interrompeu suas reflexões, quando
viu que o animal parou de avançar. Os olhos nas pontas das longas antenas
dirigiam-se ao japonês, como se também fossem capazes de enxergar na escuridão.
Talvez até o pudessem. Seja como for, o animal devia ter farejado a sua presa e
agora estava tentando descobrir, se esta era suficientemente lenta, para não
mais lhe poder escapar.
Okura viu que o verme media, no mínimo,
cinco metros de comprimento. Chegou à conclusão que ele e mais um de seus
companheiros caberiam folgadamente no interior desse corpanzil, principalmente
se a deglutição fosse precedida do devido processo de redução. O pensamento
sumamente desagradável de eventualmente ser devorado com toda calma ali no alto
daquele galho, restituiu a Okura o raciocínio e a capacidade de ação.
Com um movimento rápido, arrancou o irradiador
do cinto e abriu o fecho de segurança; certificou-se que a lâmpada de controle
estava acesa e constatou que a energia disponível era suficiente para liquidar
dez desses horripilantes animais. A arma na mão devolveu a coragem a Okura, e
desalojou o resto do medo angustiante que se tinha aninhado no seu coração.
Nenhum ser vivo em Vênus conseguiria resistir a um moderno irradiador de
impulsos dos arcônidas.
O verme-lesma parecia ter chegado à
convicção que uma tentativa poderia trazer resultados satisfatórios. Os
segmentos anulares do corpo voltaram a se locomover, e mais uma vez se fez
ouvir aquele ruído arrastante, que havia arrancado Okura do sono. O japonês
lançou um olhar preocupado aos dois companheiros, que dormiam profundamente;
depois encolheu os ombros. Talvez não se assustassem tanto a ponto de cair da
árvore, quando o chiado da descarga os despertasse do sono merecido.
A pequena distância permitiu fazer
pontaria precisa e Okura apertou o botão disparador. O fino raio energético
acertou em cheio a cabeça daquela criatura estranha, mas perigosa. As antenas,
os olhos, aquela boca voraz, e a parte superior do corpo amarelo desapareceram
no clarão da chama energética, instantaneamente sublimados. O resto do corpo do
verme-lesma se contorceu violentamente, e resvalou do galho, precipitando-se
com um estalo de encontro ao solo.
Rhodan acordou numa fração de segundos.
Ergueu-se e viu que Okura estava tentando apagar as chamas com o pé, antes que
se alastrassem para as folhas secas e os cipós.
— Que foi que houve, Okura?
— Uma espécie de serpente. Rastejou em
nossa direção, mas acordei a tempo. Aliás, acho que é boa hora de reiniciarmos
a marcha.
Marshall virou o corpo pesadamente para o
outro lado.
— Que barulheira é essa? — reclamou,
sonolento. — Ainda é noite escura. Será que nunca se consegue dormir em paz?
— Escapou por pouco de dormir em paz para
todo o sempre! — explicou Rhodan, com toda calma, e se levantou de vez. — Ainda
bem que Okura acordou na hora exata para impedir que o dragão nos devorasse.
— Como é que é?
Marshall ainda estava cansado demais para
se inteirar da realidade dos fatos nos pensamentos de Okura.
— É mesmo. Algum monstro. Uma espécie de
serpente, se quiser. Okura descobriu o bicho no último segundo e o matou. Será
que não ouviu nada?
Marshall se sentou ao lado de Rhodan.
Sacudiu a cabeça.
— Como é que eu posso ter ouvido alguma
coisa, se eu estava dormindo?
Após essa constatação bastante lógica,
tratou de preparar o almoço. Aquele trecho do galho, onde o verme-lesma havia
exalado o último alento, ainda estava em brasas e fornecia iluminação
suficiente. Meia hora depois, já estavam novamente marchando através da
floresta. Okura, de arma na mão, ia na frente e sondava a vizinhança. O chão ainda
se apresentava seco. Mas, como o terreno caía constantemente num declive quase
imperceptível, era inevitável que dentro em pouco chegassem à região pantanosa.
Os três homens aguardavam esse momento com os mesmos receios.
Algo rumorejava na mata, à direita.
Marshall, que formava a retaguarda, ergueu a arma mas não encontrou alvo algum
naquela escuridão. Algo os acompanhava, a menos de dez metros de distância,
atravessando a vegetação densa com passos pesados. Marshall começou a sentir
uma ligeira pressão em seu cérebro. Sem muita esperança de obter um resultado
positivo, Marshall ativou a sua capacidade telepática... e teve uma surpresa.
Era incrível, mas estava realmente
captando os pensamentos de um desconhecido. Eram pensamentos bastante
primitivos e superficiais, que se ocupavam principalmente com presa e comida,
mas não deixavam de ser pensamentos.
— Tem alguém à direita! — sussurrou,
suficientemente alto para que Okura e Rhodan o pudessem ouvir. — Consegue
vê-lo?
O japonês olhou na direção indicada e acenou.
— É a mesma sombra que observamos ontem.
Aquela silhueta de um gorila. Garanto que é um macaco. Enquanto não nos atacar,
não precisamos nos preocupar com ele. Só estou admirado que ele não toma
conhecimento de nós. E é impossível que ele não tenha nos reparado.
— Talvez pensa que também somos macacos —
murmurou Rhodan e lembrou-se dos quinhentos quilômetros que ainda tinham de
percorrer. Aos poucos, começou a se amaldiçoar por ter partido no encalço de
Thora tão despreparado e sem qualquer medida de segurança. Por que não havia
escolhido uma nave já testada e perfeitamente equipada?
Continuaram a caminhar com disposição, sem
se importar com seu acompanhante invisível. Finalmente chegaram às margens de
um pequeno lago e acharam o lugar apropriado para passar um novo período de
descanso. Um murmúrio distante e abafado vinha da escuridão em frente.
Rhodan perguntou a Okura se conseguia
reconhecer alguma coisa.
— Não estou muito certo — respondeu o
japonês, vacilante — mas, se os meus olhos não me enganam, lá adiante há uma
depressão com alguns pântanos e um curso d’água. Atrás dela, ergue-se uma
cordilheira. Consigo ver algumas quedas d’água bastante grandes. E lá em cima,
no platô, a floresta é menos densa. Lá vamos poder avançar com maior rapidez.
Resolveram acender uma fogueira. O solo já
se apresentava úmido mas, poucos metros acima do solo, encontraram lenha
suficientemente seca. As chamas espalharam claridade e lançaram sombras
grotescas contra a cortina da noite. Okura mantinha-se vigilante e vasculhava a
redondeza sem cessar; mas sua preocupação era infundada. Os animais de Vênus
conheciam o fogo apenas sob a forma de vulcões em erupção, e tinham razão para
temê-lo.
A água do lago era impotável. Marshall,
que preparava a refeição, observou meio desalentado que daqui a pouco teriam
que começar a caçar, se não quisessem morrer de fome. Alertou, ainda, que a
água estava escasseando. Rhodan tranqüilizou-o, lembrando que o dia venusiano
já não estava longe e que lá em frente havia aquelas quedas d’água.
Desta vez não dormiram todos ao mesmo
tempo. Revezaram-se e, assim, sempre havia um a vigiar o sono tranqüilo dos
outros.
* * *
Lá pela meia-noite chegaram ao pé daquele
paredão quase vertical.
O sol só nasceria daqui a sessenta horas;
não era possível esperar tanto tempo. Durante a marcha através da baixada
pantanosa Okura havia conseguido abater um pequeno animal com o revólver de
Marshall. Com isso, dispunham de carne suficiente para as próximas refeições. E
agora, quando se encontravam diante daquele paredão, ouviram ao lado o estrondo
de uma enorme queda d’água.
— Um bom lugar para ficar e descansar de
verdade — decidiu Rhodan. — Podemos acender outra fogueira e improvisar um muro
com alguns desses blocos de pedra. Isso vai nos proporcionar segurança suficiente
para uma pausa. E depois vamos subir até aquele platô
Okura olhou para cima. Seus olhos
privilegiados vararam a escuridão perene da noite venusiana. Embora a
temperatura houvesse baixado sensivelmente, ainda fazia muito mais calor do que
numa noite de verão na Terra.
— Não consigo determinar isso com muita
precisão — disse Okura mas aquele platô está a trezentos metros acima da
baixada, no mínimo.
— E também não temos cordas! — comentou
Marshall.
Rhodan liquidou as duas objeções.
— Não temos outra escolha. Além disso, é
bom considerar que uma marcha através do platô é bem menos fatigante e perigosa
que qualquer caminhada através da selva ou dos pântanos. Se algum dia Vênus for
colonizada, os homens só vão poder viver no alto dessas ilhas rochosas. Bem,
visto isso, vamos tratar do nosso assado. Marshall, acenda uma fogueira! Okura,
desembrulhe sua caça!
Quando as chamas da fogueira se ergueram,
constataram que o animal abatido apresentava muito pouca semelhança com uma
caça terrestre. Era quadrúpede, mas as quatro pernas eram tão curtas que Okura
acabou tendo a impressão de ter caçado um bassê avantajado. E aquele focinho
estreito e afilado, fazia lembrar também um cachorro, enquanto que as orelhas,
em pé, não tinham muito que ver com um bassê de raça pura. De um rabo, não
havia nem sinal. E em lugar de pêlo, o animal possuía apenas pele lisa e
escorregadia.
— Parece um porco-espinho de barba feita!
— rosnou Marshall, lambendo os beiços furtivamente. — Ninguém gosta mais de animais
que eu, mas, um bicho gozado desses, eu não queria ter em casa nem de graça.
Vamos tratar de comê-lo!
— Tenho certeza que é bem mais saboroso
que aqueles concentrados — comentou Rhodan e pôs-se a observar, interessado,
com que habilidade Marshall estava preparando o assado.
Duas horas mais tarde estavam saciados e
se recostaram no paredão ligeiramente aquecido, as mãos entrelaçadas sobre os
estômagos repletos.
— Excelente! — elogiou Marshall sua
própria arte culinária. — Precisamos nos lembrar dessa receita!
— Faltou o sal — murmurou Rhodan e sentiu
que estava ficando com sono.
— Podemos chamar esse bicho de
porquinho-bassê — sugeriu Okura, não menos sonolento.
Silenciaram. E, de repente, esse silêncio
foi interrompido por um tiro.
Ouvir um tiro num planeta não habitado por
homens era algo tão surpreendente e fora de propósito que as mentes não
registraram esse fato incomum de imediato. Marshall fitava as chamas, perdido
em pensamentos. E, para um observador neutro, deveria ter sido interessante
acompanhar suas reações.
Marshall apurou os ouvidos, acenou várias
vezes com a cabeça, e finalmente disse:
— Alguém devia estar caçando um
porquinho-bassê, e acertou logo no primeiro tiro.
Resolveu atiçar o fogo e depois viu os
olhos arregalados dos dois companheiros. De repente, ficou lívido:
— Deus do céu, alguém deu um tiro!
De um só salto, Okura estava de pé.
— Impossível! Quem poderia ter sido?
Rhodan estava tão perplexo quanto os outros, mas a sua mente funcionava com
maior rapidez e com raciocínio mais lógico. Numa fração de segundos, registrou
o fato do tiro; concluiu que só poderia ter sido disparado por um homem e que,
portanto, havia homens em Vênus; e no mesmo instante descobriu de que tipo de
homens se tratava. Ao mesmo tempo, se recordou do aspecto geográfico do local
onde as tropas de Tomisenkow haviam desembarcado, e logo em seguida
desbaratadas; chamou à memória a sua própria posição, e chegou à mesma
conclusão. Lá em cima, naquele platô, viviam os navegantes espaciais, dados
como desaparecidos. Acenou para Okura.
— Por que acha que é impossível? Não somos
os únicos homens em Vênus. Além disso, também poderia ter sido Thora.
— A arcônida jamais vai lidar com armas de
fogo terrestres — disse o japonês, sacudindo a cabeça.

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