sábado, 3 de novembro de 2012

P-022 - A Fuga de Thora - Clark Darlton [parte 2]


— Okura tem razão, Marshall. Só há uma alternativa: é preciso chegar antes de Thora e impedi-la de penetrar na fortaleza. Mas não vejo motivo algum para crer que ela tenha tido mais sorte que nós. Afinal, o codificador da nave dela também não estava ajustado. Resta-nos esperar que ela tenha sobrevivido à queda.
Marshall rosnou, irado:
— Por mim, ela pode ter quebrado o pescoço.
— Eu não diria uma coisa dessas — respondeu Rhodan, num ligeiro tom de censura. — Não se deve desejar mal a ninguém, apenas impedi-lo de cometer algum mal. É uma ilusão pensar que a violência possa ser combatida. E tem mais: Thora pode quebrar o pescoço que isso não nos ajuda em nada. Continuamos presos aqui do mesmo jeito.
— O sentido das minhas palavras não era bem esse — disse Marshall, tentando atenuar sua expressão irrefletida. — O que eu quis dizer é que eu tenho uma raiva dos diabos dessa mulher extraterrena.
Com um sorriso suave, Okura observou:             
— Mas só da extraterrena, não é?
Rhodan se levantou algo vacilante e se apoiou na parede. Ainda estava meio tonto daquele longo desmaio. Sob o olhar atento dos dois companheiros, ensaiou os primeiros passos cautelosos e se dirigiu à vigia. Lá fora reinava o negrume da noite venusiana. Mas, mesmo se fosse dia claro, Rhodan não poderia agora ter pensado em sair da cabina. Ainda se sentia fraco demais para enfrentar a estafante marcha através desse mundo primitivo, sem falar nas ameaças desconhecidas que ocultava.
Por outro lado, quanto mais tempo perdesse em esperar, tanto maior se tornava o perigo de um colapso total de tudo o que havia criado até agora. Poderia ser substituído pelo coronel Freyt, certo; mas bastava que se tornasse do domínio público que Rhodan, o chefe da Terceira Potência, não tinha regressado de um vôo a Vênus e que era muito provável que os sáurios o haviam devorado, para que... bem as conseqüências eram inimagináveis. O nacionalismo latente de alguns políticos ambiciosos voltaria à tona e salvaria as pátrias, transformando os futuros terranos novamente em homens. E isto era exatamente o pior que lhes poderia acontecer. Recairiam no estágio das concepções nacionalistas bitoladas, tornando-se presa fácil para qualquer invasor do universo.
Essa conclusão só admitia uma única decisão.
E Rhodan a externou:
— Precisamos procurar chegar à base. Primeiro, vamos dormir durante mais algumas horas, para recuperar as forças, depois partimos. Trajes de exploradores nós não temos, tampouco mantimentos suficientes. Quer verificar o armamento?
Okura abriu o armário embutido. Bem arrumadinhos nos suportes, lá estavam três jeitosos irradiadores de impulsos. E mais nada.
— Ao menos alguma coisa — rosnou Marshall. — Matar sáurios com essas armas é até covardia.
Para Rhodan isto não parecia ser o problema principal.
— Só dispomos disso? Nada de pistolas automáticas ou espingardas?
Olhou ao redor.
— E os víveres e a água?
A expressão de Okura era de pura lamentação.
— Temos alguns concentrados e uns poucos litros de água. Talvez o suficiente para dois ou três dias. Mas podemos viver da caça.
— Engano seu! — Rhodan sacudiu a arma. — O raio energético de uma pistola de impulsos positrônicos queima e gaseifica instantaneamente toda e qualquer matéria. Mesmo de um sáurio não sobraria praticamente nada se o disparo for um pouco excessivo.
— Então — disse Marshall — basta prestar atenção no disparo. É só matar o bicho e suspender fogo. Além disso, como sabem, nunca deixo de andar sem o meu velho e fiel revólver — apontou para o bolso. — Pode ser obsoleto, mas não me desfaço dele, por mais que Bell me goze.
— É o que eu vou fazer agora — resmungou Rhodan. — Não vai me dizer que pretende derrubar um sáurio com este brinquedo?
— Não estou pensando em sáurios. Afinal, existem também animais menores em Vênus. Talvez sejam até mais saborosos.
Okura acenou, satisfeito.
— Marshall não deixa de ter razão. Eu também acredito que vamos conseguir carne. Talvez encontremos até frutas. Lembro-me que, durante o nosso período de instruções aqui em Vênus, serviram-nos frutas em quantidade. Tenho certeza de que vou reconhecê-las, se existirem por aí. Mas eu estou mais preocupado com a água. Afinal, não podemos beber essa porcaria dos pântanos. Faço idéia de como deve estar pululando de bactérias!
— Existe uma substância na farmácia de bordo — disse Rhodan — que substitui a fervura. É só jogar o pozinho na água e as bactérias desaparecem. Depois, é só filtrá-la para retirar as eventuais impurezas tóxicas. Esse processo substitui até a destilação. Agora, se for preciso, nada nos impede de ferver a água. Lenha existe aos montes no chão da floresta.
— É, lenha molhada ou úmida! Não vai nos adiantar grande coisa.
Okura meteu a mão no armário da despensa e exibiu um pequeno pacote.
— Quem é que está falando o tempo todo em lenha? Veja aqui, Marshall. Sabe o que é isso? Argila energética! Rende cem vezes mais que álcool. Com esse negócio aqui podemos preparar três refeições diárias durante três meses. Faltam somente os bifes de sáurios.
Marshall torceu o nariz.
— Nunca na vida comi carne de sáurio! — lamentou-se.
— Então está mais do que na hora de começar — constatou Rhodan e sentou-se novamente no leito improvisado. — Arrumem tudo que possa ser de utilidade e depois vão dormir. Não sei quando vamos ter nova oportunidade para dormir em paz.
Fechou os olhos e, pouco depois, a respiração regular mostrou que Perry Rhodan estava decidido a recuperar as forças para enfrentar a aventura que se avizinhava.
Uma aventura que, de um segundo para o outro, o havia feito regredir da era da mais moderna tecnologia para a pré-história.

* * *

E lá estavam eles, escorados nos galhos grossos de uma enorme árvore, cinqüenta metros acima do solo traiçoeiro da selva. Cipós da grossura de um braço pendiam de todos os lados, e facilitariam a descida.
Rhodan lançou um último olhar para a segurança da cabina, que agora abandonariam para sempre. Segundo sua estimativa, a base arcônida com a guarnição de robôs devia se situar uns quinhentos quilômetros para oeste. Uma distância que, devido à fauna e flora pré-históricas, se constituía num obstáculo praticamente intransponível.
Verificou se o irradiador de impulsos estava bem preso ao cinto e pendurou no espaço o saquinho que continha a sua ração de água e víveres concentrados. Depois, escolheu o galho mais apropriado para seguir Marshall, que já havia iniciado a descida. Okura forçava a vista, olhando para baixo.
— Estamos com sorte. Há uma pequena clareira. Nenhum sinal de animais.
O próprio Rhodan sempre voltava a ficar fascinado quando tinha ensejo de constatar a facilidade com que esse mutante conseguia enxergar na mais completa escuridão. E agora mal se via um palmo diante do nariz! Em algum lugar, longe daqui, um vulcão devia ter entrado em erupção; talvez na cordilheira mais próxima. Uma débil luminosidade avermelhada penetrava na floresta, emprestando um ligeiro tom rosado a tudo que se via. E isto, na realidade, era praticamente nada.
— Podemos prosseguir daqui — gritou Marshall, lá de baixo. — Esses cipós formam uma verdadeira escada de cordas.
Rhodan tateou com os pés, à procura de um apoio. Encontrou-o e desceu lentamente. Teve a impressão que aqui em cima, nas árvores, talvez pudessem avançar mais rapidamente que no chão enganoso da selva. Mas somente a prática confirmaria isto. Talvez pudessem mudar de método à luz do dia.
Levaram três horas para atingir o chão firme.
Okura consultou a bússola de pulso.
— Temos que prosseguir nessa direção, se não houver algum obstáculo. Pelo que eu consigo ver, não há pântanos por aqui. E o chão está relativamente seco.
Rhodan sentia uma forte dor de cabeça, conseqüência do seu ferimento.
Mesmo um imortal”, pensou amargurado, “não está livre de sofrer de enxaqueca.”
Enquanto caminhava atrás de Okura, os acontecimentos no planeta da vida eterna se desenrolavam mais uma vez em sua mente. Haviam seguido o rastro que os conduziu, através da galáxia e do tempo, até Peregrino, o planeta solitário. E lá vivia aquele ser imortal do passado, que revelou a ele, Rhodan, parte do segredo da conservação permanente das células. E ainda lhe proporcionou a oportunidade de se submeter ao fisiotron, a ducha celular, que sustava o processo de envelhecimento por um certo período — para ser mais preciso, durante sessenta e dois anos, na contagem de tempo terrestre. E aquele ser determinou que apenas os terranos poderiam se utilizar da ducha celular, se Rhodan assim o permitisse.
Além de Rhodan, somente Bell havia sido contemplado com uma prolongação da vida.
Daqui a sessenta e dois anos Rhodan procuraria de novo aquele ser. Com o auxílio do grande cérebro positrônico, calcularia as coordenadas espaciais exatas daquele planeta errante e o revisitaria. Mas seis decênios constituíam um período de tempo bastante longo. E quanta coisa poderia acontecer até lá...
De repente Okura parou. Forçou a vista como se perfurasse a escuridão ambiente, e esticou a mão para trás, à procura de Rhodan. Marshall havia se chocado contra Rhodan e sufocou uma imprecação.
— O que houve? — Okura sussurrou:
— Algo está se locomovendo lá em frente. Uma sombra grande. Não consigo distinguir exatamente o que é. Ouvir, não se ouve nada.
— Então também não é um sáurio, porque esses a gente ouve a quilômetros de distância.
Rhodan silenciava, os ouvidos aguçados. Instintivamente sua mão se fechou sobre a coronha do irradiador.
O japonês suspirou aliviado.
— Talvez seja um outro animal qualquer. De qualquer maneira, não enxerga tão bem como eu, porque ainda não nos reparou. Está se desviando para a direita, penetrando na floresta. A julgar pelos contornos, tem o tamanho e o aspecto de um gorila. Talvez já existam macacos em Vênus.
— Pelo amor de Deus! — gemeu Marshall.
Rhodan se dirigiu a ele.
— Por quê? Tem algo contra os macacos?
— Não é bem isso, mas, se realmente existirem macacos em Vênus, daqui a cem mil anos nossos colonos vão ter aborrecimentos sem fim com os venusianos... ao menos na minha opinião
Rhodan deu uma risada quase inaudível.
— Queria ter as suas preocupações, Marshall! Não tem outras, por acaso?
Marshall rosnou algo ininteligível, mas não deu resposta. Okura reiniciou a caminhada, seguido de perto por Rhodan, que protegia novamente o rosto com as mãos.
A noite ainda duraria quatro dias terrestres e, se não sofressem atraso por algum motivo inesperado, talvez pudessem percorrer uns cem quilômetros até o nascer do sol.
Uma perspectiva deveras auspiciosa.
Cinco horas mais tarde Rhodan esticou a mão e agarrou o japonês pelo ombro.
— Precisamos descansar, Okura. Se continuarmos a esbanjar nossas forças desse jeito, nunca vamos chegar à base. Assim que descobrir um lugar apropriado, vamos repousar por algumas horas. Talvez encontremos uma clareira.
— Posso fazer uma sugestão? — o japonês parou. — Que tal se subíssemos novamente numa árvore? Tenho certeza que, alguns metros acima do solo, encontramos um galho suficientemente largo para nos acomodar a todos. Aqui embaixo eu teria que ficar de olhos bem abertos o tempo todo, pois a selva deve estar cheia de perigos ocultos. A meu ver, as árvores oferecem uma segurança relativamente maior.
— O que me causa espanto — admirou-se Marshall — é que ainda não encontramos terreno pantanoso pela frente. Tivemos uma sorte incrível.
— Também só percorremos cinco quilômetros — observou Rhodan.
Okura encontrou uma árvore que lhe parecia adequada e foi o primeiro a subir. Dez metros acima do solo encontraram um galho largo, que se estendia horizontalmente através de um emaranhado de cipós. O conjunto formava uma espécie de caverna, na qual os homens se sentiram imediatamente seguros.
Marshall assumiu a função de cozinheiro.
Quando os concentrados começaram a se dissolver na água e o fogo incolor flamejou debaixo da panela, os três homens até que se sentiram bastante confortáveis.
— Estou chegando à conclusão, de que a coisa não está tão ruim assim — observou o australiano alegremente, mexendo a sopa. — Já pensaram como vai ser quando for dia claro? Aí mesmo é que vamos marchar que nem uns andarilhos!
Ninguém viu a expressão cética de Rhodan... Okura talvez, mas Marshall nunca. Rompendo o silêncio que se seguiu, Okura disse:
— Só que ainda vai passar um bocado de tempo até o dia claro chegar!
Sem proferir palavra, Marshall continuou a mexer na sua panela.

3



Meio oculto por véus de nuvens, o sol de Vênus preparava o seu ocaso. Aquela mancha difusa atrás da camada de bruma parecia perder o poder luminoso e por isso tornou-se mais colorida. Os raios de luz, refratados pelas nuvens e névoas, produziram no céu monótono de Vênus um espetáculo que brilhava em todas as cores do espectro. Aos poucos, o vermelho começou a predominar, mergulhando este mundo primitivo num tom rosado, e o inferno verde parecia querer se transformar num paraíso de cores estonteantes. Até mesmo as superfícies pantanosas, de brilho tão traiçoeiro, se apresentavam agora como a palheta furta-cor de um pintor divino que, invisível, zelava pela sua obra em constante modificação.
O mundo de Vênus suspendia a respiração quando a longa noite se iniciava. Era como a rendição da guarda. Os enormes sáurios regressavam das florestas e se ocultavam na segurança do seu antigo elemento. Às dezenas, rolavam por cima dos colmos altos do junco, transformando as cores variadas do pântano num turbulento espectro gigante, que fazia lembrar galáxias coloridas, percorrendo trajetórias infindáveis através do nada, rodando eternamente e procurando em vão por um destino.
À distância, reluziam as rochas desnudas das cordilheiras. Pareciam cobertas por fogo líquido. Entre as rochas cintilavam, prateadas, as quedas d’água. Quando se pulverizavam lá embaixo, no teto da mata virgem, era como se um arco-íris enorme estivesse se alastrando, na tentativa de encobrir o mundo com suas cores transparentes.
Enquanto os sáurios iniciavam o longo repouso noturno, os seres vivos da escuridão começaram a acordar. O curto intervalo da transição chegou bruscamente ao fim, quando o sol desapareceu no horizonte mormacento e candente.
Em vôo silencioso, mas grasnando estridentemente, enormes aves lançavam-se através do crepúsculo, sobre pântanos e florestas, à cata de presa. Gigantescas borboletas noturnas cambaleavam em direção ao sol poente, tentando em vão alcançá-lo.
Na borda do platô, no alto daquelas rochas que se erguiam como uma ilha do mar verde da floresta, alguns homens observavam, emocionados, o soberbo espetáculo da natureza. Não constituía novidade para eles, mas invariavelmente ficavam enfeitiçados toda vez que o contemplavam.
Tempos atrás, haviam trajado uma farda. Mas agora esses uniformes estavam tão esfarrapados que ninguém mais os podia reconhecer. Parecia que apenas os cintos evitavam que esses farrapos despencassem de vez. As calças estavam enfiadas em botas dilaceradas, e alguns dos homens tinham os ombros envoltos em peles grosseiramente trabalhadas. Porque, com o sol poente, a temperatura caía sensivelmente.
Os cabelos eram longos, assim como as barbas emaranhadas. Mas, apesar do aspecto estranho, eram indiscutivelmente homens da Terra longínqua.
Um deles, um sujeito troncudo e forte, de cara larga, protegia a vista com a mão.
— É mais bonito que na Terra — disse, num idioma que soava como russo. — Talvez foi isso que levou os outros a resolverem ficar aqui para sempre.
— E bem provável, general Tomisenkow. Não há outra explicação. Perderam o juízo.
O ex-comandante da expedição do Bloco Oriental, que Rhodan havia desbaratado, sacudiu a cabeça com veemência.
— Não creio que a atitude deles possa ser explicada de maneira tão simples. Deve haver outras razões mais complicadas. Vênus é um mundo selvagem, mas é um mundo livre...
— Por acaso nós não somos livres também? — perguntou um dos homens, meio na espreita.
— Liberdade, e liberdade... será que não existem diferenças? A liberdade não é um conceito da relatividade e do dogma político? A liberdade pode ser imposta, mas também se pode conquistá-la.
— Coisas estranhas, essas que o senhor disse, general! — comentou um outro homem, pensativo, e olhou para a vasta planície que se estendia em direção ao oeste. Lá também se erguiam pequenas ilhas rochosas, e na luz crepuscular via-se que de uma delas subia uma coluna de fumaça. — Não foram justamente os rebeldes que disseram a mesma coisa?
— Foram eles, sim. Mas não se limitaram a palavras; agiram. Tanto assim que se separaram de nós, porque não queriam regressar à pátria depois do fracasso da nossa invasão. Tínhamos ordens de conquistar a base venusiana de Rhodan. Não conseguimos. Rhodan destruiu nossas naves e nos abandonou indefesos nesta selva. Mas ele sabia que o homem pode sobreviver aqui. Os rebeldes também sabem disso. Todo seu plano está baseado nesse fato. E é nesse ponto que reside a diferença entre nós e eles. Nós queremos retornar à Terra com um único intuito: preparar uma nova invasão. Mas os rebeldes decidiram permanecer em Vênus para colonizá-lo. Só que, com os meios escassos de que dispõem, estão fadados a um fracasso. Mas parece que isso eles não entendem.
— Pode ser, mas o fato é que já destacaram a sua gleba e iniciaram o cultivo do solo. Vênus é muito fértil. Tipo da terra ideal para colonos.
— O ponto de vista dos rebeldes é tão válido como qualquer outro — admitiu o general, meio a contragosto. — Mas, apesar disso, continuam sendo amotinados que se recusam a cumprir ordens. E amotinados, a gente costuma enforcar!
O soldado maltrapilho e embrutecido ao lado de Tomisenkow levou a mão instintivamente ao pescoço e se certificou que sua cabeça ainda estava firmemente no lugar previsto pela natureza. Sua mão direita estava fechada em torno da coronha da arma energética que trazia no cinto. Cerrou os olhos ligeiramente e olhou na direção do acampamento dos rebeldes. Ainda havia claridade suficiente para poder reconhecer todos os detalhes através de um bom binóculo. E lá também havia sentinelas, que, por sua vez, estavam olhando para o campo oposto. Eram os únicos homens em Vênus, pertenciam ao mesmo bloco de potências... e apesar disso eram inimigos mortais, e se combatiam com todos os meios de que dispunham.
O general Tomisenkow estava se virando para voltar à sua cabana quando um ofuscante raio luminoso rompeu o crepúsculo. Era como se um relâmpago tivesse atingido o meio do platô, no qual as tropas de invasão, derrotadas e náufragas, haviam se estabelecido. Trovoadas não eram nenhuma raridade em Vênus. Mas a época não era essa.
Com um estrondo avassalador, a onda de choques varreu por cima dos homens derrubando alguns deles. Tomisenkow conseguiu se agarrar a uma árvore. Com olhos arregalados fitou o céu pálido, tentando reconhecer o ponto incandescente que caía lentamente, como um meteoro gigante.
Por todos os fantasmas do inferno... aquilo era uma nave espacial!
Mas não podia ser uma nave de Rhodan.
Pois aquelas diabólicas armas defensivas da fortaleza extraterrena tinham-na atacado e derrubado.
Seria uma nave de suprimentos da pátria?
Claro que era! Não havia outra explicação. Antes que conseguisse tomar uma resolução, um novo raio rompeu a escuridão. Porém, aquela nave que estava caindo não foi mais atingida; desapareceu atrás das copas das árvores altas.
Quando a nova onda de choques tinha passado por cima dele, Tomisenkow voltou correndo.
— Sargento Rabov, pegue alguns dos seus homens e tente encontrar aquela nave derrubada. Pode ser que não haja sobreviventes, mas mantimentos e armas são sempre bem-vindos. Ande ligeiro, antes que escureça de vez.
O sargento, um sujeito pequeno, de cabelos escuros e olhos ágeis, acenou vivamente.
— Vou levar o holofote, general. Vamos encontrar essa nave, pode contar com isso. Não quer vir conosco?
Tomisenkow franziu as sobrancelhas. O que restava da antiga disciplina?! Estava na hora de coibir esses abusos de confiança.
— Tenho coisa mais importante para fazer! — rosnou, irado, e se afastou em direção às cabanas ao pé do pequeno cone rochoso.
Começou a se sentir um solitário no meio de seus homens.
O sargento Rabov acompanhou a retirada brusca do seu comandante com uma expressão impassível. Tinha estreitado os olhos, o que lhe emprestava um aspecto nitidamente mongol. Mas ele não era mongol, e sim um musculoso ucraniano. E muitos dos seus camaradas encontravam-se no acampamento dos rebeldes. Na próxima oportunidade...
Afastou esses pensamentos desagradáveis e seguiu o general a uma grande distância. As sentinelas permaneceram na beira do platô, aguardando o próximo disparo ofuscante.
Mas esperaram em vão.

* * *

Quando Thora acordou já era noite cerrada.
Suas pernas ainda estavam doloridas e só conseguia mexê-las com dificuldade. Ainda bem que as pontadas agudas que lhe atravessavam os quadris eram suportáveis.
Cautelosamente, Thora apoiou os braços no encosto da poltrona, fez um esforço e conseguiu se levantar. O chão embaixo dos seus pés estava levemente inclinado e tinha que tomar cuidado para não escorregar.
Ligou a iluminação, mas tudo permaneceu escuro. Com um golpe brusco, puxou a alavanca da bateria de emergência para baixo. Imediatamente as lâmpadas se acenderam. E Thora viu o robô R.17.
Não havia mudado de posição, a testa ainda encostada no painel dos instrumentos. O braço direito, dobrado, repousava sobre a mesa estreita em frente aos controles, enquanto o esquerdo pendia, frouxo, dos ombros.
Quando lhe ocorreu que R.17 talvez estivesse morto, Thora se sentiu acometida de uma angustiante solidão. Consertos de pequena monta não constituíam problema para ela. Mas, se uma das complicadas peças positrônicas internas estivesse danificada, R.17 permaneceria para sempre na selva venusiana, se não fosse encontrado antes disso.
Diante da vigia reinava a escuridão. Só lá longe, no horizonte, ainda havia o fraco brilho avermelhado do sol poente. A nave destruída jazia sobre uma clareira. As copas das árvores haviam amortecido o primeiro impacto mas, mesmo assim, era um verdadeiro milagre que a nave tivesse resvalado sem maiores choques até o chão. Somente o último trecho da queda tinha resultado num baque mais violento, que luxou ligeiramente as pernas de Thora e condenou R.17 à imobilidade.
Thora esticou os membros e constatou, satisfeita, que não havia sofrido qualquer fratura. Sua preocupação imediata era o robô. Com movimentos habilidosos, que denotavam uma longa prática, abriu a caixa torácica de R.17 e, com uma lanterna, iluminou aquela confusão de transistores, conexões e outras pecinhas eletrônicas. Até onde pôde constatar nada havia sido inutilizado. Pensativa, Thora recolocou a placa no peito do robô, prendendo-a com os grampos magnéticos. Não havia mais dúvida; já sabia onde estava o defeito. A fronte de R. 17 havia se chocado com violência demasiada contra o painel dos instrumentos.
Thora retirou a tampa de vedação do crânio do robô e mal conseguiu acreditar no que viu. Um dos cabos principais tinha se soltado e agora pendia, inútil, em meio aos minúsculos tubos de arconita.
Thora encontrou material de solda na caixa de ferramentas e, poucos minutos depois, já tinha consertado o defeito. R.17 acordou. Ergueu a cabeça, olhou para Thora e perguntou:
— O que se passou? Eu fiquei desativado.
— Foi um cabo que se soltou, só isso. Fomos derrubados pelos canhões-sentinelas da base. Parece que o codificador não funcionou direito. A base deve ficar a uns quinhentos quilômetros daqui. E agora?
— Vamos esperar — respondeu R.17. Para ele, esta conclusão era evidente. Dispunha de tempo.
— Esperar? Esperar o quê? Esperar que nos encontrem? Vênus é desabitada. Se Rhodan estiver à minha procura, vai voar para a base. Duvido que lhe ocorra a idéia de que eu possa ter sido abatida. Como é que estão os nossos aparelhos radiofônicos?
R.17 se levantou e caminhou, curiosamente inclinado para a frente, em direção a porta da cabina de rádio. Sua postura meio adernada era o efeito do giroscópio de estabilização, novamente em funcionamento. R.17 não precisava se adaptar ao plano inclinado do chão, nem dependia da posição do centro de gravidade.
Thora permaneceu na central e olhou pela vigia, tentando reconhecer os objetos lá fora. Sorte sua que o crepúsculo em Vênus durava cinco vezes mais tempo que na Terra pois, assim, pôde habituar a vista aos aspectos da vizinhança.
A nave jazia, levemente inclinada, numa clareira coberta de pedregulhos. Apenas algumas árvores isoladas formavam a orla de uma floresta, que não era típica das selvas pantanosas das regiões baixas. Só isto já constituía um fato auspicioso, que Thora aceitou com satisfação.
R.17 voltou à central de comando.
— Os aparelhos radiofônicos não funcionam e também não podem ser consertados — constatou, com objetividade. — Assim, não podemos contar com auxílio, a não ser que dêem por nossa falta. Afinal, Rhodan está a par do nosso vôo experimental, suponho eu.
— Não, Rhodan ignorava isso; ao menos até a hora da nossa decolagem. Parti sem permissão, para estabelecer contato com Árcon através da hiperestação em Vênus. Rhodan não queria que Crest e eu regressássemos a Árcon.
O robô estacou no meio da cabina. Cravou os olhos de cristal naquela mulher.
— Infringiu ordens de Rhodan? Sabe que fui condicionado a obedecer apenas Rhodan. Pelo que fez, tornou-se minha adversária.
— Nos encontramos na mesma situação.
— Apesar disso, deve ser punida.
O orgulho de Thora foi duramente atingido. Ela, a arcônida, pertencia à raça dominadora que havia criado esse robô. E agora esse engenho, sua própria criação, lhe dizia que ela merecia ser castigada. Até o poder sobre os robôs Rhodan havia retirado das mãos dos arcônidas!
— Está certo; Rhodan deveria me punir — admitiu ela, evitando soar ilógica. — Mas ele só vai poder fazer isso quando eu chegar à presença dele viva. Portanto, é sua obrigação me levar a Rhodan... para a base venusiana. Porque só lá vamos encontrá-lo.
O robô R.17 reconheceu que a arcônida tinha razão. Acenou com a cabeça — coisa que ele fazia muito bem, pois os engenheiros arcônidas não haviam deixado de dotar os seus robôs com essas reações.
— Muito bem, vamos à base venusiana para esperar por Rhodan.
Isso, é claro, era fácil de dizer e difícil de realizar.
— A partir desse momento, sou responsável pela sua segurança, pela sua vida — constatou R.17, secamente. — A senhora transgrediu a lei de Rhodan e, portanto, é minha prisioneira. A nave está inutilizada, por isso vamos partir o mais depressa possível para não perder tempo.
— E víveres para mim? — lembrou-se Thora, quase perdendo o fôlego de susto.
O robô apontou para os armários embutidos na parede.
— Lá se encontram armas, medicamentos, água e concentrados previstos para uma tripulação de três homens. No caso, dá folgadamente para duas semanas. Vou lhe permitir o uso de uma arma, porque isso serve ao meu propósito.
Thora teve que engolir mais essa. Um robô permitir a ela, a arcônida, o porte de uma arma! Decidiu, no íntimo, que assim que pudesse mandaria transformar R.17 em sucata.
Pegou o irradiador de impulsos e o afixou ao cinto. Depois enfiou os concentrados num pequeno saco, que entregou ao robô, encarregando-se ela mesma de levar os medicamentos. R.17 se ofereceu para carregar o vasilhame de água.
— Vou levar também o holofote — decidiu Thora; estremeceu quando se lembrou daquela selva mergulhada na escuridão que a esperava lá fora. Em outras circunstâncias, Thora teria aguardado o raiar do dia venusiano. Mas tanto o seu procedimento
quanto seu pensamento eram exclusivamente norteados pela obsessão de alcançar a base, custasse o que custasse. E assim resolveu partir em plena escuridão, pois sabia que, a cada minuto que se passava, diminuíam as suas chances de poder entrar em contato com Árcon. Rhodan não ficaria de braços cruzados na Terra, esperando que ela realizasse com sucesso o seu desígnio.
— A escuridão não é problema — tranqüilizou-a R.17. — Consigo ver muito bem no escuro se ligar minha instalação infravermelha. E para enfrentar seres hostis, disponho do meu irradiador de neutrônios — ergueu seu braço esquerdo. — Vou levá-la em segurança para a fortaleza.
Somente agora Thora se recordou, que Vênus era habitado principalmente por sáurios enormes. Estava começando a perder a coragem, mas o desânimo foi logo vencido pela vontade fanática de realizar o seu intento e de se defrontar com Rhodan. Monstro algum conseguiria detê-la.
Lançou um último olhar pela vigia e depois abriu a porta de emergência. Estava ligeiramente emperrada, mas, quando R.17 a forçou com o seu corpo possante, abriu-se com um estridente rangido. A atmosfera venusiana, ainda quente e úmida, penetrou na cabina e, com ela, os odores da natureza.
R.17 foi o primeiro a sair. Desceu a escada estreita e se postou no solo duro e seco, esperando por Thora. Seus olhos artificiais vararam a escuridão e viram tudo como se o sol estivesse pairando no céu escuro, mergulhando a paisagem em luminosa claridade.
É claro que isso Rabov e seu pessoal não podiam saber.
Encobertos pelo manto da escuridão, os homens do Bloco Oriental aproximaram-se cautelosamente daquela nave espacial derrubada. Não sabiam ao certo quem a havia conduzido a Vênus. Essa gente podia pertencer tanto à OTAN quanto à Federação Asiática. Uma luz emanava da vigia de observação. E nessa luz se moviam as sombras de duas pessoas. Era só o que se podia distinguir. Depois, a porta se abriu e dois vultos deixaram a nave, ou aquilo que tinha sobrado dela.
A luz na central permaneceu acesa.
O sargento Rabov fez um sinal aos seus homens. Agarraram as armas e tentaram varar a escuridão com seus olhos. A luz na nave espacial lhes fornecia um ponto de referência, mas nada viam daqueles dois homens que tinham acabado de descer. Deviam ter parado debaixo da nave, pois não se mexiam mais.
Com sua voz desprovida de qualquer emoção, R.17 se dirigiu a Thora:
— Tivemos uma sorte inacreditável. Lá na frente há seres humanos. Consigo vê-los nitidamente. São quatro homens armados. Estão se aproximando de nós. Se eu quiser, posso matá-los.
Thora se refez rapidamente do impacto da surpresa.
— Não, não faça isso! Por que quer matá-los? São inimigos?
— A atitude deles não denota intenções pacíficas. Observaram a queda da nave e agora vieram para saquear. Talvez foram até eles que nos derrubaram.
— Você sabe muito bem que fomos derrubados pela sentinela eletrônica da base — disse Thora, sacudindo a cabeça. — Quem são esses quatro homens? Você consegue reconhecer algum deles?
— Têm o aspecto de quem vive nesta selva há anos.
Como um raio, a intuição invadiu a mente de Thora: eram as tropas de desembarque do Bloco Oriental! E isso significava inimigos potenciais.
Mas seriam inimigos também aqui, nas selvas de Vênus, onde um dependia do outro?
Thora sacudiu os ombros.
— Pode ser que não caiamos no seu agrado, R.17, mas primeiro vamos tratar de saber o que querem de nós. Mantenha-se pronto para intervir, se for preciso. Quero falar com eles. Vamos deixar que se aproximem; afinal de contas, eles não sabem que você os vê.
Thora e o robô observaram em silencio a cautelosa aproximação de Rabov e seus homens. Menos de três passos os separavam, quando Thora disse em inglês, a língua na qual era mais fluente:
— Desejam alguma coisa de nós?
O susto que o sargento levou foi tamanho que ficou inteiramente desnorteado. Podia esperar tudo, menos ser interpelado por uma voz feminina, vinda da escuridão. Tropeçou e se esparramou no chão. Sua arma se chocou estrondosamente contra a rocha. Soltou uma florida imprecação em russo.
Ainda esticado no chão, disse:
— Só viemos para oferecer ajuda. Posso saber quem são?
R.17, que podia ver o sargento perfeitamente bem, respondeu:
— Agradecemos toda ajuda que nos possa prestar. Suponho que os senhores pertençam às tropas do general Tomisenkow.
A esta altura, Rabov já se havia refeito do susto e se levantou. A voz daquele homem na escuridão soava curiosamente dura e mecânica, se bem que o inglês que falava era perfeito. E o sargento entendia inglês muito bem. Portanto, esse pessoal que tinha sido derrubado era da OTAN.
— Sim, somos gente de Tomisenkow.
— Eu não entendi, o que o senhor disse. — constatou R.17, sem qualquer acanhamento. Não tinha competência para interpretar corretamente expressões idiomáticas.
Thora disse rapidamente:
— É claro que precisamos juntar forças, se quisermos sobreviver. Aliás, como é que foi que nos encontrou tão depressa?
Rabov tinha se aproximado lentamente e foi apanhado pelo feixe de luz, que vinha da cabina. Seu aspecto maltrapilho, embrutecido, não era de molde a causar a melhor das impressões, quanto mais despertar confiança. Thora sentiu calafrios ao imaginar o que poderia acontecer se caísse nas mãos de sujeitos tão rudes. Ainda bem que estava acompanhada por R.17; certamente saberia como protegê-la.
Durante os primeiros instantes, Rabov nem prestou atenção no detalhe dos cabelos brancos e dos olhos albinos, avermelhados. Só via a mulher. Fazia muitos meses que ele e seus camaradas não viam uma mulher. Rabov era um sujeito tenaz e valente, mas aquela visão insólita o fez ficar encabulado. Inseguro, trocava constantemente de pé, e finalmente balbuciou:
— Vimos sua nave ser derrubada. Nosso acampamento não é longe daqui. Fomos enviados pelo general Tomisenkow.
— Ótimo! — disse Thora, que instintivamente agarrou a chance que vislumbrou.
— Então nos leve ao seu general. Temos muito o que falar com ele.
Rabov acenou. Depois lembrou-se que ainda havia outras perguntas importantes a fazer.
— Foram os únicos que sobreviveram à queda?
— Fomos os únicos passageiros — respondeu Thora, sem se importar com a surpresa de Rabov. — Vamos logo! Não tenho nenhuma vontade de passar a noite inteira em pé aqui.
O sargento Rabov começou a desconfiar que os papéis haviam sido trocados, mas seu instinto o impedia de se indispor com essa mulher. Por isso ordenou aos seus três companheiros que guardassem as armas e iniciassem a caminhada de volta ao acampamento. Ele mesmo resolveu andar ao lado de Thora, sem dar muita atenção ao outro sobrevivente. Na sua opinião, devia ser o comandante da nave derrubada. Por uma questão de gentileza, Rabov se virou para R.17, que até agora tinha se mantido na escuridão, e disse:
— Espero que não tenha se ferido.
O robô respondeu, com toda objetividade:
— Apenas um cabo se soltou, mas esse defeito conseguimos consertar. Agora, quanto à nave, essa está perdida.
O sargento Rabov necessitou de vários segundos para reparar no aparente absurdo da resposta.
— Um cabo?! — murmurou. Não estava entendendo. — Onde é que esse cabo se soltou?
— Dentro de mim; eu não lhe disse?
Rabov estancou. R.17 que não reagiu com suficiente rapidez, esbarrou contra o sargento. Por pouco Rabov não se esparramou mais uma vez no chão. Tinha a impressão de ter sido abalroado por um tanque ligeiro. Aturdido pela surpresa, se agarrou a Thora que, felizmente, conseguiu se escorar numa árvore.
O braço esquerdo de R.17 se ergueu ameaçadoramente.
— Quem... O quê? — gaguejou Rabov, desconcertado.
Thora se livrou do sargento e sacudiu a cabeça, indignada.
— Não seja tão impetuoso, meu amigo. Meu companheiro é um robô. O que tem isso de tão espantoso?
É claro que o sargento Rabov não conhecia nenhum robô arcônida, mas ele sabia que, na Terra, somente a Terceira Potência possuía robôs. Como é que esse pessoal da OTAN havia conseguido botar as mãos nesses robôs? Ou então, um novo pensamento lhe varou o cérebro, será que esses dois não eram da OTAN? Mas então por que tinham sido derrubados?
Havia algo de podre nessa história, e Rabov resolveu ir direto ao assunto.
— Pertencem à Terceira Potência?
— Duvidou disso? — retrucou Thora e fez um gesto impaciente com a mão que, além de R.17, ninguém mais viu. — Vamos ficar parados aqui eternamente?
Rabov lançou um olhar furtivo na direção onde supunha que estivesse o robô, e pôs-se novamente em movimento.
Uma mulher e um robô... nunca na vida, nem ele nem o general Tomisenkow haviam capturado uma dupla tão estranha.

4



O ruído estranho fez Son Okura acordar.
No primeiro instante, ainda tonto de sono, foi incapaz de se lembrar que tipo de barulho tinha sido esse, e muito menos de imaginar o que o teria produzido. Levou até vários segundos para se lembrar onde estava.
Depois, sua mente se desanuviou. Sim... junto com John Marshall e Perry Rhodan, encontrava-se num galho largo, dez metros acima do solo de Vênus, em meio à selva daquele planeta virginal. A escuridão era total. Em algum ponto no oeste, situava-se a base arcônida, implantada no alto de uma cordilheira. E atrás deles, no leste, jaziam os escombros calcinados da sua nave espacial.
E ouviu novamente aquele barulho.
As pernas lhe doíam bastante, mas isso não preocupava Okura no momento. Ativou a parte mutada de seu cérebro... e, de repente, a noite se tornou dia claro para ele. Podia ver.
A menos de dois metros, encontrava-se Rhodan, meio deitado, as costas recostadas contra um galho não muito grosso. Ao lado dele, numa posição encolhida, estava Marshall, que dormia de boca aberta e roncava. Sua mão direita estava enfiada no bolso e Okura teria apostado a sua ração de água que, mesmo no sono, não largava o coldre daquele revólver obsoleto.
Era um ruído arrastante e vinha da esquerda, onde o enorme tronco da árvore gigante se erguia em direção ao teto da floresta, a mais de cem metros de altura.
Okura manteve-se imóvel, tentando descobrir a origem daquele ruído. Quando a descobriu, ficou mais imóvel do que antes. Por um instante seu coração parou de bater, mas depois o sangue lhe afluiu à cabeça com tal violência que Okura teve a impressão que fosse estourar.
Lentamente, aquela coisa amarela se deslocou sobre a bifurcação do galho e se arrastou, em ondas regulares, em direção aos três homens.
Nunca antes em sua vida Okura tinha visto um verme-lesma venusiano. Era até provável que homem algum antes dele tivesse posto os olhos nesse animal. Vivia oculto nas profundezas das incomensuráveis florestas. De dia, refugiava-se nas cavidades de troncos gigantes apodrecidos, e só abandonava o seu esconderijo à noite. Sua alimentação consistia em todas as matérias orgânicas: plantas, madeira mole... e carne. Tudo que também fosse lento ou, melhor ainda, imóvel, constituía a sua presa.
No entanto, não se podia considerar o verme-lesma como uma fera, ou um animal predador, na acepção costumeira da palavra.
De qualquer maneira bastou o aspecto deste bicho para que o medo estarrecesse Okura, incapaz de realizar o menor movimento. Com olhos arregalados fitou aquele ser horripilante, que se aproximava lentamente dele.
Realmente fazia lembrar uma lesma, ao menos no que dizia respeito à cabeça. Longas antenas, que oscilavam constantemente, estendiam-se para a frente, à procura de algum obstáculo. Na extremidade dessas antenas, constatou Okura, localizavam-se os pequenos olhos. A outra parte do animal era o verme propriamente dito. Um corpo alongado e flexível, sem pernas visíveis. Os movimentos dos diversos segmentos anulares eram responsáveis pela locomoção do verme-lesma.
O que mais infundia pavor era aquela bocarra voraz. Possuía três fileiras de dentes afiadíssimos, capazes de triturar praticamente tudo que conseguissem agarrar. Isso incluía ossos, sem a menor dúvida.
Okura interrompeu suas reflexões, quando viu que o animal parou de avançar. Os olhos nas pontas das longas antenas dirigiam-se ao japonês, como se também fossem capazes de enxergar na escuridão. Talvez até o pudessem. Seja como for, o animal devia ter farejado a sua presa e agora estava tentando descobrir, se esta era suficientemente lenta, para não mais lhe poder escapar.
Okura viu que o verme media, no mínimo, cinco metros de comprimento. Chegou à conclusão que ele e mais um de seus companheiros caberiam folgadamente no interior desse corpanzil, principalmente se a deglutição fosse precedida do devido processo de redução. O pensamento sumamente desagradável de eventualmente ser devorado com toda calma ali no alto daquele galho, restituiu a Okura o raciocínio e a capacidade de ação.
Com um movimento rápido, arrancou o irradiador do cinto e abriu o fecho de segurança; certificou-se que a lâmpada de controle estava acesa e constatou que a energia disponível era suficiente para liquidar dez desses horripilantes animais. A arma na mão devolveu a coragem a Okura, e desalojou o resto do medo angustiante que se tinha aninhado no seu coração. Nenhum ser vivo em Vênus conseguiria resistir a um moderno irradiador de impulsos dos arcônidas.
O verme-lesma parecia ter chegado à convicção que uma tentativa poderia trazer resultados satisfatórios. Os segmentos anulares do corpo voltaram a se locomover, e mais uma vez se fez ouvir aquele ruído arrastante, que havia arrancado Okura do sono. O japonês lançou um olhar preocupado aos dois companheiros, que dormiam profundamente; depois encolheu os ombros. Talvez não se assustassem tanto a ponto de cair da árvore, quando o chiado da descarga os despertasse do sono merecido.
A pequena distância permitiu fazer pontaria precisa e Okura apertou o botão disparador. O fino raio energético acertou em cheio a cabeça daquela criatura estranha, mas perigosa. As antenas, os olhos, aquela boca voraz, e a parte superior do corpo amarelo desapareceram no clarão da chama energética, instantaneamente sublimados. O resto do corpo do verme-lesma se contorceu violentamente, e resvalou do galho, precipitando-se com um estalo de encontro ao solo.
Rhodan acordou numa fração de segundos. Ergueu-se e viu que Okura estava tentando apagar as chamas com o pé, antes que se alastrassem para as folhas secas e os cipós.
— Que foi que houve, Okura?
— Uma espécie de serpente. Rastejou em nossa direção, mas acordei a tempo. Aliás, acho que é boa hora de reiniciarmos a marcha.
Marshall virou o corpo pesadamente para o outro lado.
— Que barulheira é essa? — reclamou, sonolento. — Ainda é noite escura. Será que nunca se consegue dormir em paz?
— Escapou por pouco de dormir em paz para todo o sempre! — explicou Rhodan, com toda calma, e se levantou de vez. — Ainda bem que Okura acordou na hora exata para impedir que o dragão nos devorasse.
— Como é que é?
Marshall ainda estava cansado demais para se inteirar da realidade dos fatos nos pensamentos de Okura.
— É mesmo. Algum monstro. Uma espécie de serpente, se quiser. Okura descobriu o bicho no último segundo e o matou. Será que não ouviu nada?
Marshall se sentou ao lado de Rhodan. Sacudiu a cabeça.
— Como é que eu posso ter ouvido alguma coisa, se eu estava dormindo?
Após essa constatação bastante lógica, tratou de preparar o almoço. Aquele trecho do galho, onde o verme-lesma havia exalado o último alento, ainda estava em brasas e fornecia iluminação suficiente. Meia hora depois, já estavam novamente marchando através da floresta. Okura, de arma na mão, ia na frente e sondava a vizinhança. O chão ainda se apresentava seco. Mas, como o terreno caía constantemente num declive quase imperceptível, era inevitável que dentro em pouco chegassem à região pantanosa. Os três homens aguardavam esse momento com os mesmos receios.
Algo rumorejava na mata, à direita. Marshall, que formava a retaguarda, ergueu a arma mas não encontrou alvo algum naquela escuridão. Algo os acompanhava, a menos de dez metros de distância, atravessando a vegetação densa com passos pesados. Marshall começou a sentir uma ligeira pressão em seu cérebro. Sem muita esperança de obter um resultado positivo, Marshall ativou a sua capacidade telepática... e teve uma surpresa.
Era incrível, mas estava realmente captando os pensamentos de um desconhecido. Eram pensamentos bastante primitivos e superficiais, que se ocupavam principalmente com presa e comida, mas não deixavam de ser pensamentos.
— Tem alguém à direita! — sussurrou, suficientemente alto para que Okura e Rhodan o pudessem ouvir. — Consegue vê-lo?
O japonês olhou na direção indicada e acenou.
— É a mesma sombra que observamos ontem. Aquela silhueta de um gorila. Garanto que é um macaco. Enquanto não nos atacar, não precisamos nos preocupar com ele. Só estou admirado que ele não toma conhecimento de nós. E é impossível que ele não tenha nos reparado.
— Talvez pensa que também somos macacos — murmurou Rhodan e lembrou-se dos quinhentos quilômetros que ainda tinham de percorrer. Aos poucos, começou a se amaldiçoar por ter partido no encalço de Thora tão despreparado e sem qualquer medida de segurança. Por que não havia escolhido uma nave já testada e perfeitamente equipada?
Continuaram a caminhar com disposição, sem se importar com seu acompanhante invisível. Finalmente chegaram às margens de um pequeno lago e acharam o lugar apropriado para passar um novo período de descanso. Um murmúrio distante e abafado vinha da escuridão em frente.
Rhodan perguntou a Okura se conseguia reconhecer alguma coisa.
— Não estou muito certo — respondeu o japonês, vacilante — mas, se os meus olhos não me enganam, lá adiante há uma depressão com alguns pântanos e um curso d’água. Atrás dela, ergue-se uma cordilheira. Consigo ver algumas quedas d’água bastante grandes. E lá em cima, no platô, a floresta é menos densa. Lá vamos poder avançar com maior rapidez.
Resolveram acender uma fogueira. O solo já se apresentava úmido mas, poucos metros acima do solo, encontraram lenha suficientemente seca. As chamas espalharam claridade e lançaram sombras grotescas contra a cortina da noite. Okura mantinha-se vigilante e vasculhava a redondeza sem cessar; mas sua preocupação era infundada. Os animais de Vênus conheciam o fogo apenas sob a forma de vulcões em erupção, e tinham razão para temê-lo.
A água do lago era impotável. Marshall, que preparava a refeição, observou meio desalentado que daqui a pouco teriam que começar a caçar, se não quisessem morrer de fome. Alertou, ainda, que a água estava escasseando. Rhodan tranqüilizou-o, lembrando que o dia venusiano já não estava longe e que lá em frente havia aquelas quedas d’água.
Desta vez não dormiram todos ao mesmo tempo. Revezaram-se e, assim, sempre havia um a vigiar o sono tranqüilo dos outros.

* * *

Lá pela meia-noite chegaram ao pé daquele paredão quase vertical.
O sol só nasceria daqui a sessenta horas; não era possível esperar tanto tempo. Durante a marcha através da baixada pantanosa Okura havia conseguido abater um pequeno animal com o revólver de Marshall. Com isso, dispunham de carne suficiente para as próximas refeições. E agora, quando se encontravam diante daquele paredão, ouviram ao lado o estrondo de uma enorme queda d’água.
— Um bom lugar para ficar e descansar de verdade — decidiu Rhodan. — Podemos acender outra fogueira e improvisar um muro com alguns desses blocos de pedra. Isso vai nos proporcionar segurança suficiente para uma pausa. E depois vamos subir até aquele platô
Okura olhou para cima. Seus olhos privilegiados vararam a escuridão perene da noite venusiana. Embora a temperatura houvesse baixado sensivelmente, ainda fazia muito mais calor do que numa noite de verão na Terra.
— Não consigo determinar isso com muita precisão — disse Okura mas aquele platô está a trezentos metros acima da baixada, no mínimo.
— E também não temos cordas! — comentou Marshall.
Rhodan liquidou as duas objeções.
— Não temos outra escolha. Além disso, é bom considerar que uma marcha através do platô é bem menos fatigante e perigosa que qualquer caminhada através da selva ou dos pântanos. Se algum dia Vênus for colonizada, os homens só vão poder viver no alto dessas ilhas rochosas. Bem, visto isso, vamos tratar do nosso assado. Marshall, acenda uma fogueira! Okura, desembrulhe sua caça!
Quando as chamas da fogueira se ergueram, constataram que o animal abatido apresentava muito pouca semelhança com uma caça terrestre. Era quadrúpede, mas as quatro pernas eram tão curtas que Okura acabou tendo a impressão de ter caçado um bassê avantajado. E aquele focinho estreito e afilado, fazia lembrar também um cachorro, enquanto que as orelhas, em pé, não tinham muito que ver com um bassê de raça pura. De um rabo, não havia nem sinal. E em lugar de pêlo, o animal possuía apenas pele lisa e escorregadia.
— Parece um porco-espinho de barba feita! — rosnou Marshall, lambendo os beiços furtivamente. — Ninguém gosta mais de animais que eu, mas, um bicho gozado desses, eu não queria ter em casa nem de graça. Vamos tratar de comê-lo!
— Tenho certeza que é bem mais saboroso que aqueles concentrados — comentou Rhodan e pôs-se a observar, interessado, com que habilidade Marshall estava preparando o assado.
Duas horas mais tarde estavam saciados e se recostaram no paredão ligeiramente aquecido, as mãos entrelaçadas sobre os estômagos repletos.
— Excelente! — elogiou Marshall sua própria arte culinária. — Precisamos nos lembrar dessa receita!
— Faltou o sal — murmurou Rhodan e sentiu que estava ficando com sono.
— Podemos chamar esse bicho de porquinho-bassê — sugeriu Okura, não menos sonolento.
Silenciaram. E, de repente, esse silêncio foi interrompido por um tiro.
Ouvir um tiro num planeta não habitado por homens era algo tão surpreendente e fora de propósito que as mentes não registraram esse fato incomum de imediato. Marshall fitava as chamas, perdido em pensamentos. E, para um observador neutro, deveria ter sido interessante acompanhar suas reações.
Marshall apurou os ouvidos, acenou várias vezes com a cabeça, e finalmente disse:
— Alguém devia estar caçando um porquinho-bassê, e acertou logo no primeiro tiro.
Resolveu atiçar o fogo e depois viu os olhos arregalados dos dois companheiros. De repente, ficou lívido:
— Deus do céu, alguém deu um tiro!
De um só salto, Okura estava de pé.
— Impossível! Quem poderia ter sido? Rhodan estava tão perplexo quanto os outros, mas a sua mente funcionava com maior rapidez e com raciocínio mais lógico. Numa fração de segundos, registrou o fato do tiro; concluiu que só poderia ter sido disparado por um homem e que, portanto, havia homens em Vênus; e no mesmo instante descobriu de que tipo de homens se tratava. Ao mesmo tempo, se recordou do aspecto geográfico do local onde as tropas de Tomisenkow haviam desembarcado, e logo em seguida desbaratadas; chamou à memória a sua própria posição, e chegou à mesma conclusão. Lá em cima, naquele platô, viviam os navegantes espaciais, dados como desaparecidos. Acenou para Okura.
— Por que acha que é impossível? Não somos os únicos homens em Vênus. Além disso, também poderia ter sido Thora.
— A arcônida jamais vai lidar com armas de fogo terrestres — disse o japonês, sacudindo a cabeça.

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