domingo, 11 de novembro de 2012

P-025 - O Supercrânio - Kurt Mahr [parte 1]


Autor
KURT MAHR


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN












As semanas enervantes passadas em Vênus chegaram ao fim. Perry Rhodan voltou para Terrânia, a capital da Terceira Potência.
Mas na Terra uma surpresa desagradável o aguarda.
A Terceira Potência defronta-se com um inimigo forte e perigoso — um inimigo que também dispõe de um exército de mutantes bem treinado. Esse inimigo é O Supercrânio.






= = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = =


Perry RhodanChefe supremo da Terceira Potência.
Coronel FreytRepresentante de Rhodan em Terrânia.
Reginald BellMinistro da segurança da Terceira Potência.
Clifford MonternyChamado de Supercrânio por seus homens.
Elmer BradleyUm jovem "simpático".
Homer G. AdamsQue é um gênio financeiro, mas também comete erros.
Mr. Raleigh Que não sabe de nada.
Tako KakutaQue sofre uma estranha constrição.
Capitão FarinaO salvador que surge numa situação desesperadora.



1



— O chefe anunciou sua chegada para pouco depois da meia-noite — disse o coronel Freyt, dirigindo-se a seu ajudante.
Sorriu enquanto proferia estas palavras. Não se julgava incapaz de cumprir a missão que lhe fora confiada: representar Rhodan, durante a ausência deste, em Terrânia, a base que a Terceira Potência havia instalado no deserto de Gobi. A sensação de alívio que o regresso de Rhodan provocava em sua mente se devia mais ao fato de saber que os empreendimentos a que Rhodan se lançava no espaço eram muito perigosos, e que um dia, mesmo um homem como Perry Rhodan, poderia encontrar um poderoso inimigo, ou ser vitimado num acidente.
Freyt estava convencido de que de Perry Rhodan dependia não apenas a existência do Estado conhecido como a Terceira Potência mas, em grau ainda maior, o bem-estar de toda a Humanidade.
Tudo isso constituía motivo suficiente para que se alegrasse pelo fato de que Rhodan havia saído são e salvo de mais uma de suas aventuras, e que se encontrava a caminho da Terra.
— Será como das outras vezes? Nenhuma recepção? — perguntou o ajudante.
Freyt confirmou:
— Nenhuma recepção.

* * *

A cidade de Terrânia, capital da Terceira Potência, experimentava um crescimento ininterrupto. No momento tinha um milhão e meio de habitantes. Ficava em pleno deserto de Gobi.
O clima artificial modificara a paisagem. As precipitações pluviométricas, controladas à vontade, transformaram aqueles quarenta mil quilômetros de terreno ondulado e desértico num jardim florido. Terrânia era considerada uma das cidades mais belas do mundo.
Nas imediações da cidade erguia-se a reluzente abóbada energética que envolvia o coração da Terceira Potência em seu manto protetor, repelindo qualquer coisa que se aproximasse do centro vital da Terceira Potência com intenções hostis.

* * *

Pouco antes da meia-noite o coronel Freyt e seu ajudante saíram do edifício da administração e da cúpula energética.
Caminharam na periferia da cidade e viram os edifícios baixos que margeavam o campo de pouso reluzir à luz das estrelas.
Subitamente uma forte luminosidade cobriu a área. Freyt estacou e olhou em torno; parecia perplexo.
— O que foi isso?
Outro relâmpago refulgiu, bem ao longe, além dos telhados da cidade. Quase no mesmo instante o ribombar da primeira explosão passou por eles. Freyt, estarrecido, manteve-se imóvel, com os olhos arregalados. Só quando o estrondo da segunda explosão os atingiu compreendeu o que havia acontecido.
— É no lago salgado — fungou. — Na usina de reatores.
Voltou-se e correu em direção à cidade. O ajudante seguiu-o. Deviam ter percorrido uns trinta metros quando o uivo fino das sereias de alarma penetrou em seus ouvidos.
Enquanto corria, Freyt utilizou o pequeno receptor e emissor, adaptado ao seu uniforme, para pedir uma viatura oficial. O carro veio ao seu encontro quando já se encontravam próximos às grandes vias de acesso da cidade.
— O que houve? — perguntou Freyt, enquanto se atirava no assento ao lado do motorista.
— Houve uma explosão no bloco G — respondeu o motorista. — Não conhecemos outros detalhes.
— Vamos para lá! — disse Freyt.
O carro saiu em disparada, depois de ter dado a volta. As sereias bem abertas abriram-lhe o caminho. A maneira pela qual o motorista dirigia o veículo era notável; mas Freyt quebrava a cabeça com outras coisas.
— Com os mil demônios! O que havia numa usina de reatores que pudesse ser levada a explodir?
Freyt era antes de tudo um soldado; só em segunda linha era técnico. Apesar disso conhecia em grandes linhas o funcionamento de um reator arcônida. Também sabia qual era o material utilizado na construção de uma máquina desse tipo. Mas por mais que forçasse a memória, não se lembrou de nada que pudesse ter causado duas explosões desse tipo.
E como poderia ter ocorrido uma explosão com todas as medidas de segurança que haviam sido adotadas?
Freyt não encontrou resposta a estas indagações. O motorista parou diante da entrada do bloco G e interrompeu o raciocínio de Freyt.
Antes das duas explosões, o bloco G era constituído de um pavilhão de montagem de telhado baixo, onde as peças vindas de fora eram reunidas para formar reatores catalíticos. De dia, uns trezentos homens trabalhavam nesse pavilhão.
Naquele momento ainda se reconheciam os contornos do antigo pavilhão, mas de resto a área parecia um campo de batalha que, por horas a fio, houvesse sido martelado pela artilharia inimiga.
As equipes de socorro haviam chegado antes de Freyt. Protegidos pelas vestes à prova de fogo, os homens enfrentavam o calor irradiado pelos destroços à procura de sobreviventes. Freyt foi informado por um comissário de polícia de que, no momento da explosão, havia uns dez homens no pavilhão, que desempenhavam as funções de guardas-noturnos ou realizavam trabalhos extraordinários.
Ninguém soube dar qualquer informação sobre a causa das explosões. Os instrumentos de medida permitiram localizar dois pontos em que, naquele momento, a temperatura era superior a dois mil graus centígrados. Ao que tudo indicava, eram os lugares em que haviam ocorrido as explosões.
Freyt dirigiu-se ao comissário.
— Mandou verificar o nível de radiatividade? — indagou.
O comissário torceu o rosto.
— Faça-me o favor, coronel! Nesse pavilhão não havia um grama de material radiativo.
Freyt balançou a cabeça.
— Seja como for — disse em tom desconfiado. — Chame a equipe dos medidores.
O comissário dirigiu-se ao seu carro para transmitir a ordem. Freyt começou a se sentir pouco à vontade.
— Não podemos fazer nada — disse ao seu ajudante. — Temos de aguardar ao menos até que as primeiras investigações estejam concluídas.
Esquecera Rhodan e o anunciado pouso.
O que ocorrera não era apenas o acidente, mas a destruição completa de uma das mais importantes unidades produtoras da Terceira Potência. Sem reatores arcônidas não haveria mecanismos propulsores. Sem mecanismos propulsores não haveria naves espaciais. E sem naves espaciais a defesa da Terra seria impossível.
Seria por simples coincidência que o primeiro acidente de grandes proporções ocorrido no território da Terceira Potência tivesse destruído justamente o bloco G?
O coronel Freyt começou a refletir sobre as chances que teria um sabotador para penetrar no território da Terceira Potência e, uma vez lá, quais seriam as chances de executar o ato de sabotagem.
As chances são nulas!”, concluiu.
Mas nem por isso se sentiu mais tranqüilo.
Lançou os olhos em torno. Estava procurando o comissário. Quis saber se no meio tempo havia sido descoberta alguma coisa.
De tão mergulhado em seus pensamentos, nem percebeu que a equipe dos medidores havia chegado; envergando seus uniformes vermelho-berrantes, espalharam-se em torno do edifício destroçado.
Mas não deixou de perceber uma coisa que o sacudiu até a medula dos ossos: o ruído do alarma de radiações. A turma de defesa anti-radiações acionara as sirenas colocadas no topo de seus carros. Freyt viu que as equipes de socorro fugiam precipitadamente do campo de destroços.
Um dos homens que envergavam o traje protetor vermelho veio em sua direção. Cumprimentou-o apressadamente e disse:
— Perigo máximo, coronel! O edifício está contaminado ao menos com dez roentgen por hora.
Nesse preciso instante, Freyt teve de rever sua opinião sobre a segurança absoluta das instalações contra a sabotagem. Por um segundo sobressaltou-se; mas logo o raciocínio frio voltou à sua mente.
— Qual é o material radiativo?
O homem do medidor sacudiu a cabeça.
— Ainda não sabemos, coronel. Dentro de quinze minutos poderemos informar.
Freyt confirmou com um aceno de cabeça.
— Muito bem. Avisem imediatamente. O homem de vermelho fez continência.
Freyt virou-se e foi se afastando. Não se preocupou em saber se seu ajudante o seguia. Só depois de estarem sentados lado a lado no carro notou a presença dele.
— O que acha? — perguntou, contrafeito.
O ajudante deu de ombros.
— Enquanto não conhecermos mais alguns detalhes não podemos achar coisa alguma.
Freyt concordou.
— Tem razão — murmurou.
O incidente deixou-o bastante deprimido. Ocorrera enquanto ele, Freyt, era o representante de Rhodan em Terrânia. Muito embora qualquer um houvesse de concordar que sua pessoa não poderia ter favorecido ou dificultado a ocorrência, ele se sentia responsável; teve a impressão de que o fato do desastre ter ocorrido enquanto ele se encontrava no exercício do cargo representava uma falha pessoal.
O alarma voltou a soar no receptor do carro com tamanha força que fez doer os ouvidos.
— Pare! — gritou Freyt.
A parada foi quase imediata. Freyt foi atirado para a frente, mas não se incomodou. Só ouvia a voz vinda do alto-falante:
— Três naves espaciais recém-construídas da frota Z, os chamados destróieres espaciais, decolaram há poucos minutos sem permissão e sem que se soubesse quem as pilotava. As naves logo alcançaram a velocidade máxima e já saíram da área de alcance dos localizadores.
— Atenção! Chamando o coronel Freyt! Atenção...
Freyt rangeu os dentes.
— Passe para a emissão — ordenou ao motorista.
O telecomunicador foi ligado. Na pequena tela surgiu o rosto aflito do homem que transmitia a notícia alarmante.
— Aqui fala Freyt — anunciou o coronel. — O que houve?
Via-se que a pessoa que se encontrava na outra extremidade desligou todos os outros canais.
— Três destróieres foram seqüestrados, coronel — anunciou laconicamente.
— Seqüestrados! — exclamou Freyt. — Como pode alguém seqüestrar um destróier?
A resposta não se fez esperar.
— Não sabemos, coronel. Não existe a menor dúvida de que a vigilância dos robôs funcionava como sempre. Os robôs não notaram a presença de ninguém que tentasse se aproximar da área em que se encontravam os destróieres.
Freyt olhou fixamente para a frente.
— Quem está dirigindo as investigações? — perguntou depois de algum tempo.
— O major De Casa.
Freyt acenou com a cabeça; parecia cansado.
— Fim.
Ordenou ao motorista que o levasse ao lugar em que estavam estacionados os destróieres. O lugar ficava próximo às gigantescas linhas de montagem, situadas no setor sul da cidade. Os destróieres da classe Z representavam um aperfeiçoamento dos antigos caças espaciais tripulados por um homem. Haviam sido concebidos por Perry Rhodan, que há vários anos encontrara esses caças nos hangares da base de Vênus. Seu desempenho no espaço estava sujeito a limitações, já que não eram dotados de mecanismos de hiperpropulsão. Seus reatores de partículas permitiam que, num espaço de tempo extremamente reduzido, alcançassem a velocidade da luz, mas o caminho para os pontos do espaço situados a maior distância da Terra lhes estava fechado, já que não estavam em condições de realizar o hipersalto espacial.
Apesar disso, uma nave Z era um engenho com um avanço de pelo menos quinhentos anos sobre os produtos mais recentes da tecnologia terrestre. Representava uma arma terrível nas mãos de quem dela soubesse se servir.
Durante os minutos consumidos na viagem até a linha de montagem, Freyt transmitiu uma série de instruções. Os postos de defesa receberam ordem para atirar imediatamente e sem prévio aviso sobre qualquer objeto que decolasse nas próximas horas. Concomitantemente foi emitida uma proibição geral de decolagem. Finalmente, boa parte da equipe de vigias robotizadas foi instruída a permanecer no interior das naves.
A Terceira Potência tinha coisa muito mais importante a perder que os destróieres. O suor porejou na testa de Freyt quando este formulou, para si mesmo, a indagação do que teria acontecido se os desconhecidos tivessem conseguido subtrair os dois cruzadores da classe Terra. Eram naves esféricas de duzentos metros de diâmetro, que tinham plenas condições de enfrentar o espaço.
Por enquanto as luzes vermelhas de advertência do alto dessas naves ainda brilhavam, tranqüilas e inalteradas, por cima dos campos de pouso.
O carro parou diante da figura maciça e reluzente de um robô, que fechava o caminho para a área em que antes estiveram os destróieres. Freyt fez sinal para que a máquina se aproximasse e examinou-a. O robô reagiu ao modelo de ondas cerebrais e ergueu a mão num gesto de cumprimento.
O carro prosseguiu em sua viagem. Depois de ter percorrido mais quinhentos metros, aproximou-se de um grupo de homens que discutiam acaloradamente. Parou e Freyt desceu.
O major De Casa cumprimentou-o. Seu rosto exprimia sem rebuços o que sentia face ao desaparecimento dos destróieres: susto, espanto e um pouco de medo.
— Como foi que isso aconteceu? — perguntou Freyt.
— Ninguém de nós sabe de ciência própria — respondeu prontamente De Casa. Parecia mais aliviado pelo fato de que alguém lhe tirava a responsabilidade das mãos. — Só sabemos o que os robôs informaram, e isso é pouco. Os robôs fizeram sua ronda costumeira. O terreno é plano e não oferece qualquer possibilidade de alguém se esconder. Seus olhos infravermelhos teriam reconhecido até um rato que procurasse se aproximar dos destróieres. Acontece que não passou um rato, um homem ou qualquer outra coisa. Apenas, de repente, os três destróieres subiram do solo e desapareceram, depois de lhes ter sido imprimida a aceleração máxima. O aviso para a central de comando foi transmitido imediatamente; mas, antes que se pudesse esboçar qualquer reação, as três naves já estavam longe.
— Que curso tomaram? — perguntou Freyt.
— O curso sudeste, coronel.
Freyt fitou atentamente o major.
— Isso permite alguma conclusão? — indagou.
De Casa sorriu.
— Provavelmente podemos concluir que o desconhecido que seqüestrou as naves pode ser procurado em qualquer lugar, menos no sudeste.
Freyt confirmou com um aceno de cabeça.
— Provavelmente — disse. Acompanhado por De Casa, andou em torno da área de estacionamento dos destróieres. Antes disso De Casa certificara-se de que os remanescentes radiativos da decolagem eram mínimos, não atingindo o nível de periculosidade.
Não havia nenhum rastro, além das três manchas vitrificadas produzidas pela combustão dos jatos. Nenhuma marca de pé ou de roda, absolutamente nada.
Quando voltou para junto de seu ajudante, Freyt deu um suspiro.
— Não temos sequer a menor indicação que nos permita saber se isso foi obra de homens ou de inteligências extraterrenas — disse em voz baixa.
Naquele instante o motorista da viatura oficial pôs a cabeça para fora do carro.
— Telefonema para o coronel Freyt! — gritou.
Freyt pegou o fone do telecomunicador que o motorista lhe estendeu pela janela do carro. Na tela viu um homem que envergava o traje protetor da equipe de medida de radiações.
— Descobrimos a fonte das radiações e medimos sua intensidade — disse calmamente. — Os dois pontos em que a temperatura é mais elevada são também os de radiação mais intensa. No centro de cada um desses pontos chega a quinhentos roentgen por hora. As radiações são compostas de beta-menos com cerca de 1,8 e 1,6 MeV de beta-mais com...
— Quero saber quais são as substâncias radiativas — disse Freyt em tom de impaciência.
— Magnésio 27 e zircônio 87, coronel.
— Qual é a conclusão que se extrai disso?
O homem da equipe de radiações parecia contrariado.
— Nenhuma — respondeu. — Nem o magnésio 27, nem o zircônio 87 pertencem aos produtos da fissão do urânio ou do plutônio. Não conhecemos qualquer reação nuclear que possa ser relacionada com as explosões que ocorreram aqui e seja capaz de produzir esses isótopos.

* * *

Perry Rhodan pousou em meio a toda essa confusão.
Quando viu que o coronel Freyt não estava no campo de pouso, soube que alguma coisa havia acontecido. Mandou preparar um dos veículos versáteis que a nave de sessenta metros de diâmetro trazia a bordo e, acompanhado de Reginald Bell, foi até a abóbada reluzente do campo protetor.
Bell olhava ansiosamente pelas lâminas de plástico transparente.
— O que terá havido? — perguntou.
Rhodan não respondeu. A barreira automática registrou as irradiações produzidas por sua mente e as dimensões do veículo. Por um instante um setor que tinha exatamente o tamanho necessário para permitir a passagem do mesmo abriu-se na reluzente parede energética.
O carro avançava rapidamente. Rhodan e Bell desceram diante do grande edifício da administração. Poucos minutos depois encontravam-se no escritório de Freyt.
— Isso é grave — disse Rhodan, depois de ter ouvido o relato. — Mas não se recrimine, Freyt. Tudo deve ser obra de alguém que dispõe de alguns truques que ainda não conhecemos.
— Fico satisfeito em saber que você pensa assim — respondeu Freyt. — Mas...
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
— Não há nenhum mas, Freyt. Logo descobriremos do que se trata.
Freyt pigarreou.
— Acredita que... seja um inimigo extraterreno? — perguntou.
Rhodan olhou-o com uma expressão de espanto.
— Um inimigo extraterreno? Não. Teríamos percebido sua aproximação.
Freyt havia refletido sobre isso, antes do pouso de Rhodan. Tinha lá suas dúvidas. Um inimigo que conseguia se apoderar de três destróieres sem ser notado, também estaria em condições de chegar à Terra sem que ninguém o percebesse.
Mas preferiu ficar calado. Quando surgia um problema desses, o melhor que se podia fazer era deixar a solução por conta de Rhodan.

* * *

Rhodan realizou o inventário dos danos. Todas as informações colhidas pelos grupos de pesquisa na área do bloco G e no local em que estiveram estacionados os destróieres foram reunidas, gravadas em fitas de impulsos e introduzidas no cérebro positrônico, que as interpretaria.
O cérebro positrônico desincumbiu-se da tarefa à sua maneira. Encontrou duas mil e quinhentas explicações possíveis para a explosão ocorrida no bloco G, e três mil e oitocentas para o desvio dos destróieres.
Entre esse total de seis mil e trezentas alternativas, Rhodan mandou selecionar aquelas cujo índice de probabilidade ultrapassava determinado grau. Dessa forma chegou a um total de cem soluções.
Essas cem possibilidades foram introduzidas na combinatória. As informações extraídas da mesma coincidiam em larga escala com aquelas elaboradas por seu cérebro.
Na interpretação final foi ajudado por Crest, o arcônida.
Crest, um cientista alto de cabelos brancos, era um dos dois sobreviventes de uma expedição exploradora destruída na Lua por foguetes terrestres de fusão nuclear. Ao contrário de Thora, que era a outra sobrevivente e comandara o cruzador espacial dos arcônidas, desde o início colocara-se inteiramente ao lado de Rhodan. As faculdades transmitidas a este permitiram a formação da Terceira Potência, que salvou a Terra do aniquilamento total pela guerra atômica.
Crest e Rhodan estavam ligados por uma estranha amizade. Quem não os conhecesse veria aqueles dois homens lado a lado por dias seguidos, sem notar nada que tivessem em comum. Mas subitamente, nos momentos de perigo, perceberia a sintonização instantânea daqueles dois espíritos, a atuação harmoniosa, que não dependia de perguntas e respostas, já que resultava do nível de conhecimento mais elevado já atingido por qualquer inteligência no âmbito da galáxia.
No correr dos anos, Crest passara a se interessar na evolução da Terra quase tanto como Rhodan, embora sob outro ângulo. As ocorrências espantosas da noite anterior não o deixaram menos exaltado que este.
— Tem alguma idéia? — perguntou em tom sério.
Um sorriso um tanto obstinado se esboçou no rosto de Rhodan.
— Não tenho nenhuma idéia enquanto a máquina ainda está interpretando os dados — respondeu.
Crest fez um gesto contrafeito.
— Não venha me contar que ainda não teve qualquer idéia sobre quem pode ter mandado para os ares o bloco G e subtraído os destróieres.
Rhodan fez de conta que não ouvia.
Depois de algum tempo levantou a cabeça e fitou Crest.
— Sim — confessou. — Tenho uma idéia.

* * *

A idéia de Rhodan foi confirmada pela interpretação lógica dos dados.
Por motivos que seriam compreendidos imediatamente por qualquer pessoa que examinasse o resultado dos cálculos, as conclusões obtidas só foram comunicadas ao círculo de comando mais chegado a Rhodan. Além de Reginald Bell, do coronel Freyt e dos majores Deringhouse e Nyssen, só Crest e Thora, os arcônidas, participaram da breve conferência.
O rosto de Crest tinha uma expressão preocupada, enquanto Thora irradiava o brilho confiante de sua beleza extraterrena, que nem mesmo os dias terríveis passados em Vênus puderam afetar.
Rhodan colocou diante de si uma pilha de faixas de impulsos e lançou um olhar sério para os expectadores.
— O cérebro positrônico indica milhares de possíveis explicações para os acontecimentos da noite passada — principiou. — Por isso tivemos de realizar uma triagem rigorosa. Todavia, já não se pode duvidar dos resultados da interpretação lógica dos dados. O acidente ocorrido no bloco G, que vitimou dez homens, e a subtração de três destróieres recém-construídos não são obra de um inimigo extraterreno. Face ao volume de conhecimentos de que dispomos, nenhum ser extraterreno pode se aproximar desta área sem ser localizado a uma distância segura. Nem por isso fica excluída a possibilidade de que alguma raça dotada de uma inteligência bastante superior à nossa esteja envolvida nisso. Mas essa alternativa possui uma dose muito restrita de probabilidade.
“Conclui-se que aquilo que acaba de acontecer constitui obra de um inimigo terreno. Só existe uma resposta sensata à pergunta de como esses atentados puderam ser levados a efeito. Alguém, ao compor a equipe de seus colaboradores, teve a mesma idéia que nós.”
De início as pessoas presentes não o compreenderam, com exceção de Crest, que já conhecia o resultado.
Mas subitamente compreenderam. E compreenderam também por que, ao contrário do que costumava ser feito, para essa reunião não fora convocado nenhum dos mutantes, de cujas capacidades resultaram em larga escala os êxitos alcançados pela Terceira Potência.

* * *

Essa conferência de Rhodan foi realizada nas primeiras horas da manhã do dia 20 de julho.
Quase no mesmo dia e mês; alguns anos antes, a seguinte ocorrência verificara-se em Gardiner, uma pequena cidade situada na divisa dos Estados norte-americanos de Wyoming e Montana:
O homem que por ora nos interessa só vivia há poucos dias em Gardiner. Embora à primeira vista não parecesse nada simpático, tinha um aspecto de abastança. Em Gardiner havia dois hotéis; ele residia no mais caro.
O povo da cidade era curioso. Gardiner não era propriamente uma cidade de turistas, embora ficasse na entrada do parque nacional de Yellowstone. Os forasteiros eram uma raridade, e todo mundo começou a se interessar por aquele homem.
Ficaram sabendo que seu nome era Monterny, e que era cientista. Monterny não era muito alto; em compensação era bastante gordo. O enorme crânio sem cabelos, os olhos bem afundados na órbita, levava à conclusão de que, no interior daquele cérebro havia bastante substância cinzenta para proporcionar um saber notável ao cientista.
O povo de Gardiner descobriu tudo isso. Mas não descobriu uma coisa: o que Monterny pretendia na cidade.
Não fazia nada senão passear. O lugar era formado praticamente de uma única rua, ladeada de casas, geralmente de um só pavimento, em que moravam seus duzentos habitantes. As vielas que desembocavam nessa rua quase não contavam. Por isso um homem que aparecesse em Gardiner teria pouco motivo para passear. Dali logo surgiu o boato de que Monterny esperava por alguém.
A atenção misturada de curiosidade que lhe foi tributada de todos os lados não escapou a Monterny. O negócio que pretendia realizar em Gardiner não comportava a menor dose de curiosidade. Por isso, Monterny já estava começando a ficar nervoso, quando finalmente naquele dia encontrou aquilo que procurava.
Foi no fim da tarde, durante um dos seus passeios, que geralmente o faziam percorrer a rua principal em ambas as direções. Teve sua atenção despertada por um jovem que desceu de um carro esporte um pouco desengonçado e entrou numa loja para comprar alguma coisa.
De pé do lado oposto da rua, Monterny observou o jovem com a cabeça esticada para a frente. O jovem não percebeu nada; entrou na loja. Monterny atravessou a rua e parou diante da loja.
Quando o jovem voltou a sair da loja, Monterny dirigiu-lhe a palavra.
— Olá, meu jovem! Podia me fazer um favor?
O jovem estacou, perplexo.
— De que se trata? — perguntou em tom reservado.
Monterny fez um gesto meio amável, meio embaraçado.
— Não gostaria de falar sobre isso em plena rua. Moro no Hotel Wolfreys Place. O senhor se importaria de ir até lá comigo?
O jovem já tinha uma recusa na ponta da língua, mas Monterny o interrompeu em tempo.
— Podemos ir no seu carro.
Era uma sugestão ridícula, pois o Wolfreys Place ficava apenas a alguns passos da loja, mas o jovem sentiu-se orgulhoso porque alguém se dispunha a viajar em seu carro desengonçado.
— E prometo-lhe uma coisa — prosseguiu Monterny. — O senhor não sairá perdendo.
Este argumento acabou por convencer o jovem.
Entraram no carro, foram ao Wolfreys Place e subiram ao quarto de Monterny.
— Sente — disse Monterny em tom ligeiramente menos amável do que o usado até então e apontou para uma poltrona.
O jovem sentou. Monterny tomou lugar à sua frente. Pôs-se a fitar o jovem. Por algum tempo o jovem suportou o olhar com um sorriso amável, depois com um sorriso embaraçado e finalmente com uma careta de obstinação. Finalmente olhou para o lado e passou a examinar o aposento, para não fitar mais os olhos de Monterny.
Quando chegou à conclusão de que aquilo já estava ficando demais, Monterny pôs-se a falar.
— Já me viu alguma vez?
O jovem parecia espantado:
— Não.. Passei quinze dias com amigos em...
— Idaho Falls! — interrompeu-o Monterny. — É verdade?
O jovem não parecia muito surpreso.
— Isso mesmo. Como soube? Falou com meus pais?
Monterny sacudiu a cabeça.
— Não; nunca vi os seus pais. Seu nome é Freddy MacMurray. Seus amigos apelidaram-no de Tigre, porque gosta de usar blusas com desenho de tigre. Em Idaho Falls você tem amigos porque até poucos anos atrás morou lá com seus pais. Seu pai, que é técnico de reatores, foi aposentado antes da idade normal, isso porque foi ferido num acidente. Você nasceu um ano depois do acidente. Há poucos dias você conheceu duas moças em Idaho Falls: Sue e Dorothy. Ainda não sabe qual das duas lhe agrada mais. Não é verdade?
MacMurray levantou-se de um salto.
Depois das primeiras palavras de seu interlocutor, esteve a ponto de protestar contra o tom íntimo usado pelo mesmo; mas as revelações feitas deixaram-no sem fala. A maior parte do que Monterny acabara de dizer seria simples de descobrir, mesmo por quem não possuísse qualquer dom telepático. Mas o fato de que, em Idaho Falls, tivera relações com duas moças não era conhecido por ninguém a não ser ele mesmo.
— De onde... de onde... — gaguejou Freddy.
Monterny interrompeu-o com um gesto.
— Sei muito mais a seu respeito; para falar a verdade, sei tanto quanto você. Antes de mais nada, sei que você possui um talento especial, sobre o qual você ainda não falou com ninguém, embora se trate de um fenômeno único no mundo.
Freddy empalideceu e voltou a mergulhar na poltrona. Seus olhos emitiram um brilho ameaçador quando indagou:
— E o que tem isso?
Monterny não deu a menor atenção à pergunta.
— Basta que você feche os olhos e deseje estar em Idaho Falls, e logo você estará lá. É ou não é verdade? Esse dom é chamado de teleportação, e você é um teleportador. Qual é a maior distância que você já conseguiu vencer?
— Trezentos... — respondeu Freddy precipitadamente, mas logo se interrompeu.
— Quilômetros — completou Monterny satisfeito. — Para o início é muito bom; ainda poderá ser melhorado.
Levantou-se e prosseguiu na sua fala, enquanto caminhava tranqüilamente de um lado para outro.
— Desde que você descobriu seu dom, vive sonhando que um dia será um grande homem. Pois eu lhe darei uma chance para isso. Você vai trabalhar para mim; no começo ganhará mil dólares por mês, além do reembolso das despesas, sem limite. Está entendido?
Voltou-se e encarou Freddy.
— É verdade — disse este com uma segurança surpreendente na voz. — Há anos sonho em ser um grande homem. Mas também sonho em atingir meu objetivo por meios decentes. O que o senhor acaba de me oferecer não deve ser muito decente; se fosse, teria adotado uma atitude mais sincera, falando com meus pais. Não preciso dos seus mil dólares, nem de sua conta de despesas. O motivo é simplesmente que não gosto do senhor.
Fez meia-volta e saiu. Monterny não o deteve. Por algum tempo lançou um olhar odiento para a porta que acabara de se fechar atrás de Freddy MacMurray.
Depois fechou os olhos e se concentrou em alguma coisa.
Freddy já saíra correndo do hotel. Uma multidão de pensamentos revolvia furiosamente seu cérebro; não conseguia reter nenhum deles. Saltou para dentro do carro, cometeu uma infração às regras de trânsito ao dar volta no meio da quadra e pretendia voltar para a casa de seus pais.
Subitamente uma força estranha se apoderou de sua mente com a violência de uma martelada. A confusão de pensamentos foi afastada como por encanto. Um único desejo ocupava a mente de Freddy: voltar para junto do estranho.
Deu marcha à ré, voltou a colocar seu carro diante do hotel, desceu e, passando por Mr. Wolfry, que lhe lançou um olhar de espanto, subiu a escada.
A porta do quarto de Monterny estava aberta. Freddy entrou sem bater.
Monterny recebeu-o com um sorriso.
— É assim que eu gosto! — disse.
Por algum tempo examinou cuidadosamente a figura de Freddy. O jovem tinha os olhos imóveis e vidrados, que Monterny esperava encontrar numa pessoa submetida ao seu poder mental.
— Você vai voltar para a casa de seus pais — ordenou Monterny — e dirá que o levei ao hotel por tê-lo confundido com outra pessoa. Nos próximos vinte dias levará a vida de sempre. Não realizará nenhum salto de teleportação e não contará a ninguém que possui esse dom. Daqui a vinte dias, guarde a data: 7 de agosto, às cinco da tarde, você se transportará por teleportação a Salt Lake City Conhece o grande templo dos mórmons?
Freddy fez que sim.
— Muito bem. Eu o esperarei junto à entrada principal. E não se esqueça de uma coisa: por meu intermédio você poderá se transformar num grande homem; mas sempre estarei acima de você.

* * *

Dali a vinte dias Freddy MacMurray desapareceu de Gardiner, conforme fora combinado, e nunca mais se teve notícia dele. Ninguém ligou seu desaparecimento ao forasteiro que, vinte dias antes, saíra da cidade.
A polícia procurou Freddy e não o encontrou. Quando as buscas foram suspensas, seu pai, debilitado pelo acidente que sofrera, faleceu de mágoa, conforme diziam.
Clifford Monterny continuou a reunir em torno de si pessoas dotadas de faculdades especiais. Procurava-as nos lugares em que, nos últimos anos, haviam ocorrido emanações radiativas intensas, pois sabia que as alterações das características hereditárias humanas produzidas pela radiatividade nem sempre são negativas.
Fez exatamente aquilo que Perry Rhodan fizera poucos anos antes: formou um exército de mutantes. Havia uma única diferença, e muito grande, entre seu procedimento e o de Perry Rhodan: Monterny não perguntava aos homens que reunia se desejavam trabalhar para ele. Só precisava de um contato de poucos segundos para absorver o modelo das ondas cerebrais de qualquer pessoa. Depois disso, estava em condições de reconhecer os pensamentos dessa pessoa, mesmo que ela se encontrasse a milhares de quilômetros do lugar em que se encontrava, e mesmo a essa distância conseguia forçá-la a uma sujeição total à sua vontade.
Monterny era mutante; tratava-se do telepata, hipnotizador e sugestionador mais potente, tudo reunido numa só pessoa. Era um caso único.
Seus homens chamavam-no de Supercrânio. A maior parte deles nem o conhecia pessoalmente. Sabia que estava envolvido numa atividade muito perigosa, e que qualquer erro bastaria para derrubá-lo.
Sentia-se satisfeito em saber que alguém que se tivesse colocado ao seu serviço nunca mais poderia lhe escapar. Onde quer que se encontrasse, estaria submetido à força da sua vontade.
Freddy MacMurray foi sua primeira vítima. Alguns anos depois Monterny conseguira reunir um número de mutantes capazes, que lhe permitia desferir seu primeiro golpe.
O primeiro golpe seria desferido contra o homem que, pelo simples fato de ter alcançado êxito, atraíra o ódio de Monterny.
Contra Perry Rhodan.

2



Perry Rhodan teve alguns dias de trabalho intenso.
Juntamente com Crest coletou todos os dados que, em sua opinião, poderiam fornecer alguma indicação sobre a identidade do desconhecido, traduziu-os, num trabalho que consumia horas, no complicado código mecanizado dos arcônidas e introduziu-os no cérebro positrônico, que os interpretaria.
O resultado não foi compensador.
O cérebro positrônico afirmou que os atentados eram inspirados por uma potência econômica, que, com seus próprios recursos, ou seja, através do seu poderio econômico, procurava minar a Terceira Potência a fim de provocar sua queda.
A combinatória indicou o objetivo da potência estranha com a expressão singela “domínio mundial”.
— Isso não nos adianta nem um pouco — disse Rhodan.
Nos últimos dias a situação vinha se tornando cada vez mais séria. Vários cientistas, que freqüentavam a Academia Espacial de Terrânia, desapareceram de um dia para outro. Alguém roubara boa quantidade de minúsculas peças de propulsores e desaparecera sem deixar vestígio.
O desconhecido trabalhava sem cessar. Os únicos que poderiam enfrentá-lo eram os mutantes dá Terceira Potência, pois ao que tudo indicava também era um mutante.
Mas mesmo um mutante não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E para postá-los em tempo no local adequado seria necessário adivinhar os planos do desconhecido.
E nem Perry Rhodan, nem Crest, nem o cérebro positrônico conseguiram fazer isso.
Utilizando canais secretos, Rhodan fez chegar as informações necessárias à Federação de Defesa da Terra, uma gigantesca organização secreta panterrena dirigida por Allan D. Mercant, um semimutante que, nos primeiros meses de existência da Terceira Potência, desempenhara um papel importante e positivo.
Mercant pôs a funcionar sua extensa máquina de informações e, um dia depois de ter recebido o aviso, já forneceu o primeiro indício a Rhodan.
Uma fábrica de máquinas da Califórnia lançara no mercado, com um mínimo de propaganda, certas máquinas agrícolas dirigidas por robôs.
Perry Rhodan foi de opinião que o indício era tão importante que ele mesmo deveria verificar o que havia atrás dele. Algumas horas depois de ter recebido a informação de Mercant, encontrava-se a caminho dos Estados Unidos.
Não cometeu o engano de se dirigir diretamente à recepção da fábrica de máquinas. Instalou-se num hotel de categoria média e deixou que um dia se passasse antes de entrar em contato com os dois agentes de Mercant.
O nome da cidade era Sacramento. No mesmo instante em que transmitira a notícia a Rhodan, Mercant destacara dois dos seus agentes mais capazes para lá: o capitão Farina e o tenente Richman.
Rhodan e Farina encontraram-se numa cafeteria, enquanto Richman percorria a cidade, sempre de olhos bem abertos.
Farina era um homem baixo e corpulento, cuja ascendência italiana era perceptível de longe. Cumprimentou Rhodan sem demonstrar um respeito excessivo, mas numa ótima disposição de espírito.
— Formidável! — observou, depois de se certificar de que ninguém poderia ouvir sua conversa. — Ninguém desconfia de que o senhor se encontra em Sacramento.
Rhodan sorriu.
Não deixara de tomar certas precauções antes de pôr-se a caminho. A arte de dois grandes peritos em máscaras transformara seu rosto a ponto de que só quem dispusesse de uma ótima visão e de um longo conhecimento poderia reconhecê-lo. Por motivos de segurança e de comodidade, deixou de recorrer a certos acessórios, como barbas falsas e perucas. Rhodan sabia que justamente por isso havia uma possibilidade mínima de ser reconhecido por alguém.
Farina encontrara-o porque tinham combinado o encontro naquele local, e ainda porque Rhodan lhe fornecera um sinal de identificação: uma cicatriz do lado esquerdo da testa.
— Quais são as novidades? — perguntou Rhodan.
— Nenhuma — respondeu Farina aborrecido. — Raleigh comporta-se como se fosse o comerciante mais idôneo de todos os tempos...
— Quem é Raleigh?
— É o chefe da Farming Tools and Machines. Vende seus arados automáticos abertamente e muito barato. Nos poucos dias que se passaram, desde que iniciou as vendas, sua freguesia triplicou ou quadruplicou. Os fregueses elogiam-no além de toda medida.
— Já deu uma olhada do lado de dentro?
Farina acenou com a cabeça.
— Naturalmente; mas não encontramos nada. Não temos a menor idéia de onde Raleigh guarda os desenhos de suas máquinas. Se é que...
Farina fez uma pausa de reflexão.
— Se é que...? — animou-o Rhodan.
— Se é que os desenhos estão em sua casa — prosseguiu Farina. — Richman descobriu que, nos últimos dois dias antes do início das vendas, Raleigh, ou melhor, sua firma, recebeu um grande volume de carga ferroviária.
— De onde?
— De Salt Lake City.
— Seguiram a pista?
Farina sacudiu a cabeça.
— Ainda não tivemos tempo.
Rhodan refletiu. Era um mistério que uma simples fábrica de máquinas, que sem dúvida não estava aparelhada para cumprir programas especiais, conseguisse colocar no mercado num tempo tão curto uma linha de produtos prontos para serem oferecidos aos consumidores — mesmo que partisse do pressuposto de que havia alguma ligação entre os arados dirigidos por robôs e os furtos ocorridos em Terrânia.
— Conhece Raleigh pessoalmente? — perguntou Rhodan.
— Não, mas o vi várias vezes de perto. A primeira impressão é boa.
— E a segunda impressão?
A boca de Farina se contorceu.
— Não é boa. É o tipo escorregadio: amável, mas traiçoeiro.
Rhodan já elaborara seu plano.
— Pois hoje de tarde vamos lhe fazer uma visita e nos apresentar como compradores interessados em seus produtos — sugeriu a Farina. — Procuraremos nos lembrar de alguma coisa que nos permita colher o maior volume possível de informações sobre sua maneira de negociar e sobre suas reações. Eu mesmo cuidarei da segunda parte da tarefa, assim que estivermos suficientemente informados.
— Está bem — respondeu Farina. — E Richman?
— Vai descobrir quem é o fornecedor de Salt Lake City.

* * *

Mais ou menos à mesma hora, aconteceu o seguinte na metrópole nova-iorquina, com um homem que parecia pouco inteligente e, por causa de uma corcunda, oferecia um aspecto um tanto miserável:
Estava almoçando numa lanchonete. Pegou uma bandeja com um bife grande, mas fino, e uma porção de vagens e batatas fritas; tomou lugar junto a uma mesa cujas cadeiras estavam todas desocupadas. Uns cinco minutos depois, quando acabara de constatar que o bife nem de longe correspondia às suas expectativas, outro homem — jovem, alto, robusto e elegante — sentou à mesma mesa.
— Teve azar ali na esquina? — perguntou o homem depois de algum tempo.
Naquele local a expressão ali na esquina era um estereótipo que designava a Wall Street.
O jovem levantou os olhos do prato com uma expressão sombria no rosto e examinou seu interlocutor.
— O senhor tem alguma coisa com isso? — respondeu em tom grosseiro.
Mas o outro não se intimidou.
— Tenho um olho clínico para essas coisas — afirmou. — Talvez possa ajudá-lo.
— O senhor?
Essas duas palavras encerravam uma dose insultuosa de menosprezo.
Mas o homem a quem era dirigido o menosprezo limitou-se a acenar a cabeça:
— Sim, eu.
E não estava exagerando. Aquele homem corcunda, de andar tortuoso, de aspecto tímido e insignificante, com a coroa rala de cabelos desbotados, em parte grisalhos, outro não era senão Homer G. Adams, ostensivamente chefe da General Cosmic Company, a maior empresa industrial da Terra, e além disso ministro das finanças da Terceira Potência.
— Conheço alguns dos truques com os quais se consegue arrancar o dinheiro de certos criançolas esquentados e desbocados — disse Homer G. Adams, brincando com uma caixa de fósforos. — Justamente por isso também conheço os truques que podem ajudar essa gente a recuperar seu dinheiro.
O jovem remexeu a comida que se encontrava em seu prato; parecia ligeiramente embaraçado.
— Já ouviu falar naquela história da Airlines United? — perguntou.
Adams se sobressaltou.
— Meu Deus, não vá me dizer que comprou papéis da Airlines United.
O jovem fez que sim.
— Faz quatro dias.
Adams nem se deu ao trabalho de esclarecer o jovem sobre o assunto. Limitou-se a perguntar:
— Quanto perdeu?
— Tudo — resmungou o jovem.
Adams sorriu.
— Quanto vem a ser isso?
— Pouco mais de doze mil dólares.
Adams fez um gesto com a cabeça.
— É um bom dinheiro para um jovem da sua idade. Aliás, como é seu nome?
— Meu nome? Elmer Bradley. Sou desenhista técnico. Ganhei o dinheiro de herança.
Fitou Adams, como se esperasse que também o corcundinha se apresentasse.
— Meu nome é Adams — disse este em tom indiferente.
Nos Estados Unidos havia mais de um milhão de pessoas com esse nome. Não era de esperar que só por se chamar Adams alguém o ligasse à General Cosmic Company.
— Qual é a dica que me dá? — perguntou Bradley.
— No momento nenhuma — respondeu Adams em tom decidido. — Estou disposto a lhe emprestar a mesma soma que perdeu, para que possa tentar novamente.
Por estranho que parecesse, Bradley não parecia se impressionar muito com a oferta.
Provavelmente a esta hora estará pensando que sou um idiota convencido”, pensou Adams, divertindo-se no íntimo.
Bradley perguntou:
— Neste instante?
Adams sacudiu a cabeça.
— Apareça no meu escritório quando tiver tempo. Lá lhe darei o dinheiro e estudaremos juntos a situação da Bolsa, para que saiba o que comprar.
Pegou uma agenda de bolso, arrancou uma folha e escreveu algumas linhas. Depois empurrou-a a Bradley.
— General Cosmic? — perguntou Bradley, surpreso. — Será que o senhor é...
Adams interrompeu-o com um sorriso.
— Nada disso. Em nossa firma há uns dez Adams, e nenhum deles tem qualquer parentesco com o chefe. O senhor irá?
Bradley sorriu.
— Não tenha a menor dúvida!

* * *

Farina parecia bastante contrariado.
— Nada — disse com um gesto de desprezo. — Não tem nenhum arado automático de dez relhas que possa vencer uma subida de trinta por cento. Por pouco não fazem gozação de mim por causa disso.
Rhodan riu.
— A idéia era justamente essa. Falou com Raleigh?
Farina confirmou com um gesto de cabeça.
— Durante cerca de vinte minutos.
— E daí?
Farina ergueu os ombros.
— Diria que talvez sua idéia não dê resultado.
Rhodan não parecia se importar com isso.
— De qualquer maneira ainda teremos outro meio — respondeu.
Farina ponderou:
— Precisaremos desse meio.
Às sete da noite, Perry Rhodan telefonou para a Farming Tools and Machines.
Raleigh não parecia muito satisfeito com a interrupção.
— Compreendo perfeitamente que minha chamada não lhe dê nenhum prazer — disse Rhodan. — Acontece que preciso falar imediatamente com o senhor.
— Qualquer um pode aparecer com esse tipo de conversa — protestou Raleigh. — Afinal, quem é o senhor?
— Sou um homem que lhe pode causar muitos problemas, a não ser que o senhor chegue a um acordo satisfatório comigo — respondeu Rhodan em tom de animosidade.
Ficou admirado de que Raleigh não desligou imediatamente. Será que sua consciência pouco tranqüila o impedia de fazê-lo?
— A mim ninguém causará problemas! — afirmou Raleigh.
— Depois que tiver falado comigo o senhor não dirá mais isso — objetou Rhodan.
Raleigh parecia refletir.
— Pois bem — disse depois de algum tempo. — Venha.
— Para onde? — perguntou Rhodan.
— 2.035, Parkway Drive. É o endereço de minha residência.
Rhodan preparou-se cuidadosamente para a tarefa. Não esperava que Raleigh fosse reconhecê-lo. Estava equipado com um radiador portátil de impulsos térmicos e um projetor mental. Não levava outras armas. Teve que dispensar até mesmo o traje transportador arcônida, que o protegeria contra qualquer tipo de projétil, porque a estranha vestimenta revelaria imediatamente sua identidade.
No início ainda esperava que não seria obrigado a recorrer ao projetor mental. Provavelmente Raleigh era um membro pouco importante do grupo que conspirava contra a Terceira Potência. E era conveniente para as investigações que o inimigo desconhecido ficasse o maior tempo possível sem saber que o contragolpe já começara.
Pegou o carro alugado em Sacramento e dirigiu-se ao Parkway Drive. Raleigh habitava uma casa que, embora ostentasse um estilo ridículo e ultrapassado, era grande e sem dúvida dispendiosa. Distava tanto da rua que Raleigh tivera que construir um caminho particular para alcançá-la.
Quando Rhodan chegou, eram vinte horas e quarenta minutos. Só a luz pálida das estrelas iluminava a noite. Por mais que Rhodan lançasse os olhos em torno, não via o capitão Farina que, segundo o combinado, devia se encontrar nas proximidades.
Acionou a campainha embutida no batente e aguardou até que o convidassem a entrar.
Pela descrição de Farina, o homem que deixou entrar Rhodan foi o próprio Raleigh.
— Meu nome é Wilder — disse Rhodan. — É muita gentileza sua me receber a esta hora.
Estendeu a mão a Raleigh, mas este fingiu não vê-la. Seu rosto parecia frio como gelo.
Rhodan foi conduzido a um pequeno aposento, que parecia ser o escritório de Raleigh. Este, sem proferir uma palavra, apontou uma poltrona. Rhodan sentou.
— Então? — perguntou Raleigh.
Rhodan reclinou-se confortavelmente na poltrona e cruzou as pernas.
— O senhor roubou minha invenção — disse como que ao acaso e num tom de voz que nada tinha de dramático.
Raleigh estava sentado atrás de sua escrivaninha. Ergueu-se ligeiramente e inclinou-se por cima da mesma. Parecia que acabara de levar um tremendo susto.
— Sua invenção? — fungou. — Repita isso!
Rhodan fez um gesto de assentimento.
— É o que acabo de dizer: o senhor roubou minha invenção.
Raleigh deixou-se cair na poltrona.
— Que invenção? — perguntou. “Acalmou-se muito depressa. Depressa demais”, pensou Rhodan.
— O senhor sabe perfeitamente — respondeu. — Há algum tempo o senhor vem produzindo aivecas, arados e mais umas maquinazinhas, todas de um tipo que a humanidade conhece há milhares de anos. Foi só nestes últimos dias que uma verdadeira novidade surgiu na história da empresa. E essa novidade foi roubada de mim.
Raleigh manteve-se impassível.
— Está em condições de provar isso? — perguntou.
— Naturalmente. Quer que apresente a prova em juízo?
Muito sério, Raleigh fez um gesto com a cabeça.
— Faço questão — respondeu em tom tranqüilo.
Rhodan percebeu que seu blefe não serviria para nada. Raleigh conhecia a origem do comando robotizado de seus arados; não cairia num truque desses.
— O senhor se arrependerá — voltou a investir Rhodan.
Raleigh levantou-se.
— Eu não — disse em tom glacial. — Mas o senhor...
Rhodan também se levantou. Com um gesto disfarçado tirou o pequeno projetor mental do bolso e dirigiu-o sobre Raleigh.
Raleigh logo percebeu. Seu rosto contorceu-se num sorriso de deboche. Não tinha medo.
— Agora o senhor vai me dizer quem está atrás do senhor — ordenou Rhodan.
Enquanto proferia essas palavras, comprimiu o acionador do projetor mental e ficou aguardando que os impulsos transmitidos por via hipnótica fizessem Raleigh falar.
Mas este continuava com o sorriso de deboche no rosto.
Rhodan percebeu que nem tudo corria conforme ele calculara. Por que Raleigh demorava tanto em se submeter à influência do projetor mental? Ou será...
— Andei pensando a mesma coisa — observou Raleigh em tom zombeteiro. — O que é isso? Um hipnotizador?
Deu uma risada de deboche.
— Desta vez o senhor pegou o bonde errado. Seu... seu rhodanita reformador do mundo.
Rhodan sentiu o ódio indisfarçado que vibrava naquelas palavras e também sentiu que Raleigh não o reconhecera; por enquanto sabia apenas de onde vinha.
Rhodanita reformador do mundo! A expressão seria para rir; mas no momento não havia motivo para isso.
No escritório de Raleigh havia duas portas, e ambas se abriram ao mesmo tempo. Os homens que apareceram nelas, dois em cada, mantinham as pistolas automáticas levantadas, não permitindo qualquer dúvida sobre suas intenções.
— Prendam-no! — disse Raleigh por entre os dentes.

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