Autor
KURT MAHR
Tradução
RICHARD PAUL
NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
As semanas enervantes passadas em Vênus chegaram ao fim. Perry
Rhodan voltou para Terrânia, a capital da Terceira Potência.
Mas na Terra uma surpresa desagradável o aguarda.
A Terceira Potência defronta-se com um inimigo forte e perigoso —
um inimigo que também dispõe de um exército de mutantes bem treinado. Esse
inimigo é O Supercrânio.
= = = = = = =
Personagens Principais: = = = = =
= =
Perry Rhodan — Chefe
supremo da Terceira Potência.
Coronel Freyt — Representante
de Rhodan em Terrânia.
Reginald Bell — Ministro da
segurança da Terceira Potência.
Clifford Monterny — Chamado
de Supercrânio por seus homens.
Elmer Bradley — Um jovem
"simpático".
Homer G. Adams — Que é um gênio financeiro,
mas também comete erros.
Mr. Raleigh — Que não sabe de nada.
Tako Kakuta — Que sofre
uma estranha constrição.
Capitão Farina — O salvador
que surge numa situação desesperadora.
1
— O chefe anunciou sua chegada para
pouco depois da meia-noite — disse o coronel Freyt, dirigindo-se a seu
ajudante.
Sorriu
enquanto proferia estas palavras. Não se julgava incapaz de cumprir a missão
que lhe fora confiada: representar Rhodan, durante a ausência deste, em Terrânia,
a base que a Terceira Potência havia instalado no deserto de Gobi. A sensação
de alívio que o regresso de Rhodan provocava em sua mente se devia mais ao fato
de saber que os empreendimentos a que Rhodan se lançava no espaço eram muito
perigosos, e que um dia, mesmo um homem como Perry Rhodan, poderia encontrar um
poderoso inimigo, ou ser vitimado num acidente.
Freyt estava
convencido de que de Perry Rhodan dependia não apenas a existência do Estado
conhecido como a Terceira Potência mas, em grau ainda maior, o bem-estar de
toda a Humanidade.
Tudo isso
constituía motivo suficiente para que se alegrasse pelo fato de que Rhodan
havia saído são e salvo de mais uma de suas aventuras, e que se encontrava a
caminho da Terra.
— Será como
das outras vezes? Nenhuma recepção? — perguntou o ajudante.
Freyt
confirmou:
— Nenhuma
recepção.
* * *
A cidade de
Terrânia, capital da Terceira Potência, experimentava um crescimento
ininterrupto. No momento tinha um milhão e meio de habitantes. Ficava em pleno
deserto de Gobi.
O clima
artificial modificara a paisagem. As precipitações pluviométricas, controladas
à vontade, transformaram aqueles quarenta mil quilômetros de terreno ondulado e
desértico num jardim florido. Terrânia era considerada uma das cidades mais
belas do mundo.
Nas
imediações da cidade erguia-se a reluzente abóbada energética que envolvia o
coração da Terceira Potência em seu manto protetor, repelindo qualquer coisa
que se aproximasse do centro vital da Terceira Potência com intenções hostis.
* * *
Pouco antes
da meia-noite o coronel Freyt e seu ajudante saíram do edifício da
administração e da cúpula energética.
Caminharam
na periferia da cidade e viram os edifícios baixos que margeavam o campo de
pouso reluzir à luz das estrelas.
Subitamente
uma forte luminosidade cobriu a área. Freyt estacou e olhou em torno; parecia
perplexo.
— O que foi
isso?
Outro
relâmpago refulgiu, bem ao longe, além dos telhados da cidade. Quase no mesmo
instante o ribombar da primeira explosão passou por eles. Freyt, estarrecido,
manteve-se imóvel, com os olhos arregalados. Só quando o estrondo da segunda
explosão os atingiu compreendeu o que havia acontecido.
— É no lago
salgado — fungou. — Na usina de reatores.
Voltou-se e
correu em direção à cidade. O ajudante seguiu-o. Deviam ter percorrido uns
trinta metros quando o uivo fino das sereias de alarma penetrou em seus
ouvidos.
Enquanto
corria, Freyt utilizou o pequeno receptor e emissor, adaptado ao seu uniforme,
para pedir uma viatura oficial. O carro veio ao seu encontro quando já se
encontravam próximos às grandes vias de acesso da cidade.
— O que
houve? — perguntou Freyt, enquanto se atirava no assento ao lado do motorista.
— Houve uma
explosão no bloco G — respondeu o motorista. — Não conhecemos outros detalhes.
— Vamos para
lá! — disse Freyt.
O carro saiu
em disparada, depois de ter dado a volta. As sereias bem abertas abriram-lhe o
caminho. A maneira pela qual o motorista dirigia o veículo era notável; mas
Freyt quebrava a cabeça com outras coisas.
— Com os mil
demônios! O que havia numa usina de reatores que pudesse ser levada a explodir?
Freyt era
antes de tudo um soldado; só em segunda linha era técnico. Apesar disso
conhecia em grandes linhas o funcionamento de um reator arcônida. Também sabia
qual era o material utilizado na construção de uma máquina desse tipo. Mas por
mais que forçasse a memória, não se lembrou de nada que pudesse ter causado
duas explosões desse tipo.
E como
poderia ter ocorrido uma explosão com todas as medidas de segurança que haviam
sido adotadas?
Freyt não
encontrou resposta a estas indagações. O motorista parou diante da entrada do
bloco G e interrompeu o raciocínio de Freyt.
Antes das
duas explosões, o bloco G era constituído de um pavilhão de montagem de telhado
baixo, onde as peças vindas de fora eram reunidas para formar reatores catalíticos.
De dia, uns trezentos homens trabalhavam nesse pavilhão.
Naquele
momento ainda se reconheciam os contornos do antigo pavilhão, mas de resto a
área parecia um campo de batalha que, por horas a fio, houvesse sido martelado
pela artilharia inimiga.
As equipes
de socorro haviam chegado antes de Freyt. Protegidos pelas vestes à prova de
fogo, os homens enfrentavam o calor irradiado pelos destroços à procura de
sobreviventes. Freyt foi informado por um comissário de polícia de que, no
momento da explosão, havia uns dez homens no pavilhão, que desempenhavam as
funções de guardas-noturnos ou realizavam trabalhos extraordinários.
Ninguém
soube dar qualquer informação sobre a causa das explosões. Os instrumentos de
medida permitiram localizar dois pontos em que, naquele momento, a temperatura
era superior a dois mil graus centígrados. Ao que tudo indicava, eram os
lugares em que haviam ocorrido as explosões.
Freyt
dirigiu-se ao comissário.
— Mandou
verificar o nível de radiatividade? — indagou.
O comissário
torceu o rosto.
— Faça-me o
favor, coronel! Nesse pavilhão não havia um grama de material radiativo.
Freyt
balançou a cabeça.
— Seja como
for — disse em tom desconfiado. — Chame a equipe dos medidores.
O comissário
dirigiu-se ao seu carro para transmitir a ordem. Freyt começou a se sentir
pouco à vontade.
— Não
podemos fazer nada — disse ao seu ajudante. — Temos de aguardar ao menos até
que as primeiras investigações estejam concluídas.
Esquecera
Rhodan e o anunciado pouso.
O que
ocorrera não era apenas o acidente, mas a destruição completa de uma das mais
importantes unidades produtoras da Terceira Potência. Sem reatores arcônidas
não haveria mecanismos propulsores. Sem mecanismos propulsores não haveria
naves espaciais. E sem naves espaciais a defesa da Terra seria impossível.
Seria por
simples coincidência que o primeiro acidente de grandes proporções ocorrido no
território da Terceira Potência tivesse destruído justamente o bloco G?
O coronel
Freyt começou a refletir sobre as chances que teria um sabotador para penetrar
no território da Terceira Potência e, uma vez lá, quais seriam as chances de
executar o ato de sabotagem.
“As chances são nulas!”, concluiu.
Mas nem por
isso se sentiu mais tranqüilo.
Lançou os
olhos em torno. Estava procurando o comissário. Quis saber se no meio tempo
havia sido descoberta alguma coisa.
De tão
mergulhado em seus pensamentos, nem percebeu que a equipe dos medidores havia
chegado; envergando seus uniformes vermelho-berrantes, espalharam-se em torno
do edifício destroçado.
Mas não
deixou de perceber uma coisa que o sacudiu até a medula dos ossos: o ruído do
alarma de radiações. A turma de defesa anti-radiações acionara as sirenas
colocadas no topo de seus carros. Freyt viu que as equipes de socorro fugiam
precipitadamente do campo de destroços.
Um dos
homens que envergavam o traje protetor vermelho veio em sua direção.
Cumprimentou-o apressadamente e disse:
— Perigo
máximo, coronel! O edifício está contaminado ao menos com dez roentgen por hora.
Nesse
preciso instante, Freyt teve de rever sua opinião sobre a segurança absoluta
das instalações contra a sabotagem. Por um segundo sobressaltou-se; mas logo o
raciocínio frio voltou à sua mente.
— Qual é o
material radiativo?
O homem do
medidor sacudiu a cabeça.
— Ainda não
sabemos, coronel. Dentro de quinze minutos poderemos informar.
Freyt
confirmou com um aceno de cabeça.
— Muito bem.
Avisem imediatamente. O homem de vermelho fez continência.
Freyt
virou-se e foi se afastando. Não se preocupou em saber se seu ajudante o
seguia. Só depois de estarem sentados lado a lado no carro notou a presença
dele.
— O que
acha? — perguntou, contrafeito.
O ajudante
deu de ombros.
— Enquanto
não conhecermos mais alguns detalhes não podemos achar coisa alguma.
Freyt
concordou.
— Tem razão
— murmurou.
O incidente
deixou-o bastante deprimido. Ocorrera enquanto ele, Freyt, era o representante
de Rhodan em Terrânia. Muito embora qualquer um houvesse de concordar que sua
pessoa não poderia ter favorecido ou dificultado a ocorrência, ele se sentia
responsável; teve a impressão de que o fato do desastre ter ocorrido enquanto
ele se encontrava no exercício do cargo representava uma falha pessoal.
O alarma
voltou a soar no receptor do carro com tamanha força que fez doer os ouvidos.
— Pare! —
gritou Freyt.
A parada foi
quase imediata. Freyt foi atirado para a frente, mas não se incomodou. Só ouvia
a voz vinda do alto-falante:
— Três naves
espaciais recém-construídas da frota Z, os chamados destróieres espaciais,
decolaram há poucos minutos sem permissão e sem que se soubesse quem as
pilotava. As naves logo alcançaram a velocidade máxima e já saíram da área de
alcance dos localizadores.
— Atenção!
Chamando o coronel Freyt! Atenção...
Freyt rangeu
os dentes.
— Passe para
a emissão — ordenou ao motorista.
O
telecomunicador foi ligado. Na pequena tela surgiu o rosto aflito do homem que
transmitia a notícia alarmante.
— Aqui fala
Freyt — anunciou o coronel. — O que houve?
Via-se que a
pessoa que se encontrava na outra extremidade desligou todos os outros canais.
— Três
destróieres foram seqüestrados, coronel — anunciou laconicamente.
— Seqüestrados!
— exclamou Freyt. — Como pode alguém seqüestrar um destróier?
A resposta
não se fez esperar.
— Não
sabemos, coronel. Não existe a menor dúvida de que a vigilância dos robôs
funcionava como sempre. Os robôs não notaram a presença de ninguém que tentasse
se aproximar da área em que se encontravam os destróieres.
Freyt olhou
fixamente para a frente.
— Quem está
dirigindo as investigações? — perguntou depois de algum tempo.
— O major De
Casa.
Freyt acenou
com a cabeça; parecia cansado.
— Fim.
Ordenou ao
motorista que o levasse ao lugar em que estavam estacionados os destróieres. O
lugar ficava próximo às gigantescas linhas de montagem, situadas no setor sul
da cidade. Os destróieres da classe Z representavam um aperfeiçoamento dos
antigos caças espaciais tripulados por um homem. Haviam sido concebidos por
Perry Rhodan, que há vários anos encontrara esses caças nos hangares da base de
Vênus. Seu desempenho no espaço estava sujeito a limitações, já que não eram
dotados de mecanismos de hiperpropulsão. Seus reatores de partículas permitiam
que, num espaço de tempo extremamente reduzido, alcançassem a velocidade da
luz, mas o caminho para os pontos do espaço situados a maior distância da Terra
lhes estava fechado, já que não estavam em condições de realizar o hipersalto
espacial.
Apesar
disso, uma nave Z era um engenho com um avanço de pelo menos quinhentos anos
sobre os produtos mais recentes da tecnologia terrestre. Representava uma arma
terrível nas mãos de quem dela soubesse se servir.
Durante os
minutos consumidos na viagem até a linha de montagem, Freyt transmitiu uma
série de instruções. Os postos de defesa receberam ordem para atirar
imediatamente e sem prévio aviso sobre qualquer objeto que decolasse nas
próximas horas. Concomitantemente foi emitida uma proibição geral de decolagem.
Finalmente, boa parte da equipe de vigias robotizadas foi instruída a
permanecer no interior das naves.
A Terceira
Potência tinha coisa muito mais importante a perder que os destróieres. O suor
porejou na testa de Freyt quando este formulou, para si mesmo, a indagação do
que teria acontecido se os desconhecidos tivessem conseguido subtrair os dois cruzadores
da classe Terra. Eram naves esféricas de duzentos metros de diâmetro, que
tinham plenas condições de enfrentar o espaço.
Por enquanto
as luzes vermelhas de advertência do alto dessas naves ainda brilhavam,
tranqüilas e inalteradas, por cima dos campos de pouso.
O carro
parou diante da figura maciça e reluzente de um robô, que fechava o caminho
para a área em que antes estiveram os destróieres. Freyt fez sinal para que a
máquina se aproximasse e examinou-a. O robô reagiu ao modelo de ondas cerebrais
e ergueu a mão num gesto de cumprimento.
O carro
prosseguiu em sua viagem. Depois de ter percorrido mais quinhentos metros,
aproximou-se de um grupo de homens que discutiam acaloradamente. Parou e Freyt
desceu.
O major De
Casa cumprimentou-o. Seu rosto exprimia sem rebuços o que sentia face ao
desaparecimento dos destróieres: susto, espanto e um pouco de medo.
— Como foi
que isso aconteceu? — perguntou Freyt.
— Ninguém de
nós sabe de ciência própria — respondeu prontamente De Casa. Parecia mais
aliviado pelo fato de que alguém lhe tirava a responsabilidade das mãos. — Só
sabemos o que os robôs informaram, e isso é pouco. Os robôs fizeram sua ronda
costumeira. O terreno é plano e não oferece qualquer possibilidade de alguém se
esconder. Seus olhos infravermelhos teriam reconhecido até um rato que
procurasse se aproximar dos destróieres. Acontece que não passou um rato, um
homem ou qualquer outra coisa. Apenas, de repente, os três destróieres subiram
do solo e desapareceram, depois de lhes ter sido imprimida a aceleração máxima.
O aviso para a central de comando foi transmitido imediatamente; mas, antes que
se pudesse esboçar qualquer reação, as três naves já estavam longe.
— Que curso
tomaram? — perguntou Freyt.
— O curso
sudeste, coronel.
Freyt fitou
atentamente o major.
— Isso
permite alguma conclusão? — indagou.
De Casa
sorriu.
— Provavelmente
podemos concluir que o desconhecido que seqüestrou as naves pode ser procurado
em qualquer lugar, menos no sudeste.
Freyt
confirmou com um aceno de cabeça.
— Provavelmente
— disse. Acompanhado por De Casa, andou em torno da área de estacionamento dos
destróieres. Antes disso De Casa certificara-se de que os remanescentes
radiativos da decolagem eram mínimos, não atingindo o nível de periculosidade.
Não havia
nenhum rastro, além das três manchas vitrificadas produzidas pela combustão dos
jatos. Nenhuma marca de pé ou de roda, absolutamente nada.
Quando
voltou para junto de seu ajudante, Freyt deu um suspiro.
— Não temos
sequer a menor indicação que nos permita saber se isso foi obra de homens ou de
inteligências extraterrenas — disse em voz baixa.
Naquele
instante o motorista da viatura oficial pôs a cabeça para fora do carro.
— Telefonema
para o coronel Freyt! — gritou.
Freyt pegou
o fone do telecomunicador que o motorista lhe estendeu pela janela do carro. Na
tela viu um homem que envergava o traje protetor da equipe de medida de
radiações.
— Descobrimos
a fonte das radiações e medimos sua intensidade — disse calmamente. — Os dois
pontos em que a temperatura é mais elevada são também os de radiação mais
intensa. No centro de cada um desses pontos chega a quinhentos roentgen por
hora. As radiações são compostas de beta-menos com cerca de 1,8 e 1,6 MeV de
beta-mais com...
— Quero
saber quais são as substâncias radiativas — disse Freyt em tom de impaciência.
— Magnésio
27 e zircônio 87, coronel.
— Qual é a
conclusão que se extrai disso?
O homem da
equipe de radiações parecia contrariado.
— Nenhuma —
respondeu. — Nem o magnésio 27, nem o zircônio 87 pertencem aos produtos da fissão
do urânio ou do plutônio. Não conhecemos qualquer reação nuclear que possa ser
relacionada com as explosões que ocorreram aqui e seja capaz de produzir esses
isótopos.
* * *
Perry Rhodan
pousou em meio a toda essa confusão.
Quando viu
que o coronel Freyt não estava no campo de pouso, soube que alguma coisa havia
acontecido. Mandou preparar um dos veículos versáteis que a nave de sessenta
metros de diâmetro trazia a bordo e, acompanhado de Reginald Bell, foi até a
abóbada reluzente do campo protetor.
Bell olhava
ansiosamente pelas lâminas de plástico transparente.
— O que terá
havido? — perguntou.
Rhodan não
respondeu. A barreira automática registrou as irradiações produzidas por sua
mente e as dimensões do veículo. Por um instante um setor que tinha exatamente
o tamanho necessário para permitir a passagem do mesmo abriu-se na reluzente
parede energética.
O carro
avançava rapidamente. Rhodan e Bell desceram diante do grande edifício da
administração. Poucos minutos depois encontravam-se no escritório de Freyt.
— Isso é
grave — disse Rhodan, depois de ter ouvido o relato. — Mas não se recrimine,
Freyt. Tudo deve ser obra de alguém que dispõe de alguns truques que ainda não
conhecemos.
— Fico
satisfeito em saber que você pensa assim — respondeu Freyt. — Mas...
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Não há
nenhum mas, Freyt. Logo descobriremos do que se trata.
Freyt
pigarreou.
— Acredita
que... seja um inimigo extraterreno? — perguntou.
Rhodan
olhou-o com uma expressão de espanto.
— Um inimigo
extraterreno? Não. Teríamos percebido sua aproximação.
Freyt havia
refletido sobre isso, antes do pouso de Rhodan. Tinha lá suas dúvidas. Um
inimigo que conseguia se apoderar de três destróieres sem ser notado, também
estaria em condições de chegar à Terra sem que ninguém o percebesse.
Mas preferiu
ficar calado. Quando surgia um problema desses, o melhor que se podia fazer era
deixar a solução por conta de Rhodan.
* * *
Rhodan
realizou o inventário dos danos. Todas as informações colhidas pelos grupos de
pesquisa na área do bloco G e no local em que estiveram estacionados os
destróieres foram reunidas, gravadas em fitas de impulsos e introduzidas no
cérebro positrônico, que as interpretaria.
O cérebro
positrônico desincumbiu-se da tarefa à sua maneira. Encontrou duas mil e
quinhentas explicações possíveis para a explosão ocorrida no bloco G, e três
mil e oitocentas para o desvio dos destróieres.
Entre esse
total de seis mil e trezentas alternativas, Rhodan mandou selecionar aquelas
cujo índice de probabilidade ultrapassava determinado grau. Dessa forma chegou
a um total de cem soluções.
Essas cem
possibilidades foram introduzidas na combinatória. As informações extraídas da
mesma coincidiam em larga escala com aquelas elaboradas por seu cérebro.
Na
interpretação final foi ajudado por Crest, o arcônida.
Crest, um
cientista alto de cabelos brancos, era um dos dois sobreviventes de uma
expedição exploradora destruída na Lua por foguetes terrestres de fusão
nuclear. Ao contrário de Thora, que era a outra sobrevivente e comandara o
cruzador espacial dos arcônidas, desde o início colocara-se inteiramente ao
lado de Rhodan. As faculdades transmitidas a este permitiram a formação da
Terceira Potência, que salvou a Terra do aniquilamento total pela guerra
atômica.
Crest e
Rhodan estavam ligados por uma estranha amizade. Quem não os conhecesse veria
aqueles dois homens lado a lado por dias seguidos, sem notar nada que tivessem
em comum. Mas subitamente, nos momentos de perigo, perceberia a sintonização
instantânea daqueles dois espíritos, a atuação harmoniosa, que não dependia de
perguntas e respostas, já que resultava do nível de conhecimento mais elevado
já atingido por qualquer inteligência no âmbito da galáxia.
No correr
dos anos, Crest passara a se interessar na evolução da Terra quase tanto como
Rhodan, embora sob outro ângulo. As ocorrências espantosas da noite anterior
não o deixaram menos exaltado que este.
— Tem alguma
idéia? — perguntou em tom sério.
Um sorriso
um tanto obstinado se esboçou no rosto de Rhodan.
— Não tenho
nenhuma idéia enquanto a máquina ainda está interpretando os dados — respondeu.
Crest fez um
gesto contrafeito.
— Não venha
me contar que ainda não teve qualquer idéia sobre quem pode ter mandado para os
ares o bloco G e subtraído os destróieres.
Rhodan fez de
conta que não ouvia.
Depois de
algum tempo levantou a cabeça e fitou Crest.
— Sim —
confessou. — Tenho uma idéia.
* * *
A idéia de
Rhodan foi confirmada pela interpretação lógica dos dados.
Por motivos
que seriam compreendidos imediatamente por qualquer pessoa que examinasse o
resultado dos cálculos, as conclusões obtidas só foram comunicadas ao círculo
de comando mais chegado a Rhodan. Além de Reginald Bell, do coronel Freyt e dos
majores Deringhouse e Nyssen, só Crest e Thora, os arcônidas, participaram da
breve conferência.
O rosto de
Crest tinha uma expressão preocupada, enquanto Thora irradiava o brilho
confiante de sua beleza extraterrena, que nem mesmo os dias terríveis passados
em Vênus puderam afetar.
Rhodan
colocou diante de si uma pilha de faixas de impulsos e lançou um olhar sério
para os expectadores.
— O cérebro
positrônico indica milhares de possíveis explicações para os acontecimentos da
noite passada — principiou. — Por isso tivemos de realizar uma triagem
rigorosa. Todavia, já não se pode duvidar dos resultados da interpretação
lógica dos dados. O acidente ocorrido no bloco G, que vitimou dez homens, e a
subtração de três destróieres recém-construídos não são obra de um inimigo
extraterreno. Face ao volume de conhecimentos de que dispomos, nenhum ser
extraterreno pode se aproximar desta área sem ser localizado a uma distância
segura. Nem por isso fica excluída a possibilidade de que alguma raça dotada de
uma inteligência bastante superior à nossa esteja envolvida nisso. Mas essa
alternativa possui uma dose muito restrita de probabilidade.
“Conclui-se
que aquilo que acaba de acontecer constitui obra de um inimigo terreno. Só
existe uma resposta sensata à pergunta de como esses atentados puderam ser
levados a efeito. Alguém, ao compor a equipe de seus colaboradores, teve a
mesma idéia que nós.”
De início as
pessoas presentes não o compreenderam, com exceção de Crest, que já conhecia o
resultado.
Mas
subitamente compreenderam. E compreenderam também por que, ao contrário do que
costumava ser feito, para essa reunião não fora convocado nenhum dos mutantes,
de cujas capacidades resultaram em larga escala os êxitos alcançados pela
Terceira Potência.
* * *
Essa
conferência de Rhodan foi realizada nas primeiras horas da manhã do dia 20 de
julho.
Quase no
mesmo dia e mês; alguns anos antes, a seguinte ocorrência verificara-se em
Gardiner, uma pequena cidade situada na divisa dos Estados norte-americanos de
Wyoming e Montana:
O homem que
por ora nos interessa só vivia há poucos dias em Gardiner. Embora à primeira
vista não parecesse nada simpático, tinha um aspecto de abastança. Em Gardiner
havia dois hotéis; ele residia no mais caro.
O povo da
cidade era curioso. Gardiner não era propriamente uma cidade de turistas,
embora ficasse na entrada do parque nacional de Yellowstone. Os forasteiros
eram uma raridade, e todo mundo começou a se interessar por aquele homem.
Ficaram
sabendo que seu nome era Monterny, e que era cientista. Monterny não era muito
alto; em compensação era bastante gordo. O enorme crânio sem cabelos, os olhos
bem afundados na órbita, levava à conclusão de que, no interior daquele cérebro
havia bastante substância cinzenta para proporcionar um saber notável ao
cientista.
O povo de
Gardiner descobriu tudo isso. Mas não descobriu uma coisa: o que Monterny
pretendia na cidade.
Não fazia
nada senão passear. O lugar era formado praticamente de uma única rua, ladeada
de casas, geralmente de um só pavimento, em que moravam seus duzentos
habitantes. As vielas que desembocavam nessa rua quase não contavam. Por isso
um homem que aparecesse em Gardiner teria pouco motivo para passear. Dali logo
surgiu o boato de que Monterny esperava por alguém.
A atenção
misturada de curiosidade que lhe foi tributada de todos os lados não escapou a
Monterny. O negócio que pretendia realizar em Gardiner não comportava a menor
dose de curiosidade. Por isso, Monterny já estava começando a ficar nervoso,
quando finalmente naquele dia encontrou aquilo que procurava.
Foi no fim
da tarde, durante um dos seus passeios, que geralmente o faziam percorrer a rua
principal em ambas as direções. Teve sua atenção despertada por um jovem que
desceu de um carro esporte um pouco desengonçado e entrou numa loja para
comprar alguma coisa.
De pé do
lado oposto da rua, Monterny observou o jovem com a cabeça esticada para a
frente. O jovem não percebeu nada; entrou na loja. Monterny atravessou a rua e
parou diante da loja.
Quando o
jovem voltou a sair da loja, Monterny dirigiu-lhe a palavra.
— Olá, meu
jovem! Podia me fazer um favor?
O jovem
estacou, perplexo.
— De que se
trata? — perguntou em tom reservado.
Monterny fez
um gesto meio amável, meio embaraçado.
— Não
gostaria de falar sobre isso em plena rua. Moro no Hotel Wolfreys Place. O
senhor se importaria de ir até lá comigo?
O jovem já tinha
uma recusa na ponta da língua, mas Monterny o interrompeu em tempo.
— Podemos ir
no seu carro.
Era uma
sugestão ridícula, pois o Wolfreys Place ficava apenas a alguns passos da loja,
mas o jovem sentiu-se orgulhoso porque alguém se dispunha a viajar em seu carro
desengonçado.
— E
prometo-lhe uma coisa — prosseguiu Monterny. — O senhor não sairá perdendo.
Este
argumento acabou por convencer o jovem.
Entraram no
carro, foram ao Wolfreys Place e subiram ao quarto de Monterny.
— Sente —
disse Monterny em tom ligeiramente menos amável do que o usado até então e
apontou para uma poltrona.
O jovem
sentou. Monterny tomou lugar à sua frente. Pôs-se a fitar o jovem. Por algum
tempo o jovem suportou o olhar com um sorriso amável, depois com um sorriso
embaraçado e finalmente com uma careta de obstinação. Finalmente olhou para o
lado e passou a examinar o aposento, para não fitar mais os olhos de Monterny.
Quando
chegou à conclusão de que aquilo já estava ficando demais, Monterny pôs-se a
falar.
— Já me viu
alguma vez?
O jovem
parecia espantado:
— Não..
Passei quinze dias com amigos em...
— Idaho
Falls! — interrompeu-o Monterny. — É verdade?
O jovem não
parecia muito surpreso.
— Isso
mesmo. Como soube? Falou com meus pais?
Monterny
sacudiu a cabeça.
— Não; nunca
vi os seus pais. Seu nome é Freddy MacMurray. Seus amigos apelidaram-no de
Tigre, porque gosta de usar blusas com desenho de tigre. Em Idaho Falls você
tem amigos porque até poucos anos atrás morou lá com seus pais. Seu pai, que é
técnico de reatores, foi aposentado antes da idade normal, isso porque foi
ferido num acidente. Você nasceu um ano depois do acidente. Há poucos dias você
conheceu duas moças em Idaho Falls: Sue e Dorothy. Ainda não sabe qual das duas
lhe agrada mais. Não é verdade?
MacMurray levantou-se
de um salto.
Depois das
primeiras palavras de seu interlocutor, esteve a ponto de protestar contra o
tom íntimo usado pelo mesmo; mas as revelações feitas deixaram-no sem fala. A
maior parte do que Monterny acabara de dizer seria simples de descobrir, mesmo
por quem não possuísse qualquer dom telepático. Mas o fato de que, em Idaho
Falls, tivera relações com duas moças não era conhecido por ninguém a não ser
ele mesmo.
— De onde...
de onde... — gaguejou Freddy.
Monterny
interrompeu-o com um gesto.
— Sei muito
mais a seu respeito; para falar a verdade, sei tanto quanto você. Antes de mais
nada, sei que você possui um talento especial, sobre o qual você ainda não
falou com ninguém, embora se trate de um fenômeno único no mundo.
Freddy
empalideceu e voltou a mergulhar na poltrona. Seus olhos emitiram um brilho
ameaçador quando indagou:
— E o que
tem isso?
Monterny não
deu a menor atenção à pergunta.
— Basta que
você feche os olhos e deseje estar em Idaho Falls, e logo você estará lá. É ou
não é verdade? Esse dom é chamado de teleportação, e você é um teleportador.
Qual é a maior distância que você já conseguiu vencer?
— Trezentos...
— respondeu Freddy precipitadamente, mas logo se interrompeu.
— Quilômetros
— completou Monterny satisfeito. — Para o início é muito bom; ainda poderá ser
melhorado.
Levantou-se
e prosseguiu na sua fala, enquanto caminhava tranqüilamente de um lado para
outro.
— Desde que
você descobriu seu dom, vive sonhando que um dia será um grande homem. Pois eu
lhe darei uma chance para isso. Você vai trabalhar para mim; no começo ganhará
mil dólares por mês, além do reembolso das despesas, sem limite. Está
entendido?
Voltou-se e
encarou Freddy.
— É verdade
— disse este com uma segurança surpreendente na voz. — Há anos sonho em ser um
grande homem. Mas também sonho em atingir meu objetivo por meios decentes. O
que o senhor acaba de me oferecer não deve ser muito decente; se fosse, teria
adotado uma atitude mais sincera, falando com meus pais. Não preciso dos seus
mil dólares, nem de sua conta de despesas. O motivo é simplesmente que não
gosto do senhor.
Fez
meia-volta e saiu. Monterny não o deteve. Por algum tempo lançou um olhar
odiento para a porta que acabara de se fechar atrás de Freddy MacMurray.
Depois
fechou os olhos e se concentrou em alguma coisa.
Freddy já
saíra correndo do hotel. Uma multidão de pensamentos revolvia furiosamente seu
cérebro; não conseguia reter nenhum deles. Saltou para dentro do carro, cometeu
uma infração às regras de trânsito ao dar volta no meio da quadra e pretendia
voltar para a casa de seus pais.
Subitamente
uma força estranha se apoderou de sua mente com a violência de uma martelada. A
confusão de pensamentos foi afastada como por encanto. Um único desejo ocupava
a mente de Freddy: voltar para junto do estranho.
Deu marcha à
ré, voltou a colocar seu carro diante do hotel, desceu e, passando por Mr.
Wolfry, que lhe lançou um olhar de espanto, subiu a escada.
A porta do
quarto de Monterny estava aberta. Freddy entrou sem bater.
Monterny
recebeu-o com um sorriso.
— É assim
que eu gosto! — disse.
Por algum
tempo examinou cuidadosamente a figura de Freddy. O jovem tinha os olhos
imóveis e vidrados, que Monterny esperava encontrar numa pessoa submetida ao
seu poder mental.
— Você vai
voltar para a casa de seus pais — ordenou Monterny — e dirá que o levei ao
hotel por tê-lo confundido com outra pessoa. Nos próximos vinte dias levará a
vida de sempre. Não realizará nenhum salto de teleportação e não contará a
ninguém que possui esse dom. Daqui a vinte dias, guarde a data: 7 de agosto, às
cinco da tarde, você se transportará por teleportação a Salt Lake City Conhece
o grande templo dos mórmons?
Freddy fez
que sim.
— Muito bem.
Eu o esperarei junto à entrada principal. E não se esqueça de uma coisa: por
meu intermédio você poderá se transformar num grande homem; mas sempre estarei
acima de você.
* * *
Dali a vinte
dias Freddy MacMurray desapareceu de Gardiner, conforme fora combinado, e nunca
mais se teve notícia dele. Ninguém ligou seu desaparecimento ao forasteiro que,
vinte dias antes, saíra da cidade.
A polícia
procurou Freddy e não o encontrou. Quando as buscas foram suspensas, seu pai,
debilitado pelo acidente que sofrera, faleceu de mágoa, conforme diziam.
Clifford
Monterny continuou a reunir em torno de si pessoas dotadas de faculdades
especiais. Procurava-as nos lugares em que, nos últimos anos, haviam ocorrido
emanações radiativas intensas, pois sabia que as alterações das características
hereditárias humanas produzidas pela radiatividade nem sempre são negativas.
Fez
exatamente aquilo que Perry Rhodan fizera poucos anos antes: formou um exército
de mutantes. Havia uma única diferença, e muito grande, entre seu procedimento
e o de Perry Rhodan: Monterny não perguntava aos homens que reunia se desejavam
trabalhar para ele. Só precisava de um contato de poucos segundos para absorver
o modelo das ondas cerebrais de qualquer pessoa. Depois disso, estava em
condições de reconhecer os pensamentos dessa pessoa, mesmo que ela se
encontrasse a milhares de quilômetros do lugar em que se encontrava, e mesmo a
essa distância conseguia forçá-la a uma sujeição total à sua vontade.
Monterny era
mutante; tratava-se do telepata, hipnotizador e sugestionador mais potente,
tudo reunido numa só pessoa. Era um caso único.
Seus homens
chamavam-no de Supercrânio. A maior parte deles nem o conhecia pessoalmente.
Sabia que estava envolvido numa atividade muito perigosa, e que qualquer erro
bastaria para derrubá-lo.
Sentia-se
satisfeito em saber que alguém que se tivesse colocado ao seu serviço nunca
mais poderia lhe escapar. Onde quer que se encontrasse, estaria submetido à
força da sua vontade.
Freddy
MacMurray foi sua primeira vítima. Alguns anos depois Monterny conseguira
reunir um número de mutantes capazes, que lhe permitia desferir seu primeiro
golpe.
O primeiro
golpe seria desferido contra o homem que, pelo simples fato de ter alcançado
êxito, atraíra o ódio de Monterny.
Contra Perry
Rhodan.
2
Perry Rhodan
teve alguns dias de trabalho intenso.
Juntamente
com Crest coletou todos os dados que, em sua opinião, poderiam fornecer alguma
indicação sobre a identidade do desconhecido, traduziu-os, num trabalho que
consumia horas, no complicado código mecanizado dos arcônidas e introduziu-os
no cérebro positrônico, que os interpretaria.
O resultado
não foi compensador.
O cérebro
positrônico afirmou que os atentados eram inspirados por uma potência
econômica, que, com seus próprios recursos, ou seja, através do seu poderio
econômico, procurava minar a Terceira Potência a fim de provocar sua queda.
A
combinatória indicou o objetivo da potência estranha com a expressão singela “domínio mundial”.
— Isso não
nos adianta nem um pouco — disse Rhodan.
Nos últimos dias
a situação vinha se tornando cada vez mais séria. Vários cientistas, que
freqüentavam a Academia Espacial de Terrânia, desapareceram de um dia para
outro. Alguém roubara boa quantidade de minúsculas peças de propulsores e
desaparecera sem deixar vestígio.
O
desconhecido trabalhava sem cessar. Os únicos que poderiam enfrentá-lo eram os
mutantes dá Terceira Potência, pois ao que tudo indicava também era um mutante.
Mas mesmo um
mutante não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. E para postá-los em
tempo no local adequado seria necessário adivinhar os planos do desconhecido.
E nem Perry
Rhodan, nem Crest, nem o cérebro positrônico conseguiram fazer isso.
Utilizando
canais secretos, Rhodan fez chegar as informações necessárias à Federação de
Defesa da Terra, uma gigantesca organização secreta panterrena dirigida por
Allan D. Mercant, um semimutante que, nos primeiros meses de existência da
Terceira Potência, desempenhara um papel importante e positivo.
Mercant pôs
a funcionar sua extensa máquina de informações e, um dia depois de ter recebido
o aviso, já forneceu o primeiro indício a Rhodan.
Uma fábrica
de máquinas da Califórnia lançara no mercado, com um mínimo de propaganda,
certas máquinas agrícolas dirigidas por robôs.
Perry Rhodan
foi de opinião que o indício era tão importante que ele mesmo deveria verificar
o que havia atrás dele. Algumas horas depois de ter recebido a informação de
Mercant, encontrava-se a caminho dos Estados Unidos.
Não cometeu
o engano de se dirigir diretamente à recepção da fábrica de máquinas.
Instalou-se num hotel de categoria média e deixou que um dia se passasse antes
de entrar em contato com os dois agentes de Mercant.
O nome da
cidade era Sacramento. No mesmo instante em que transmitira a notícia a Rhodan,
Mercant destacara dois dos seus agentes mais capazes para lá: o capitão Farina
e o tenente Richman.
Rhodan e
Farina encontraram-se numa cafeteria, enquanto Richman percorria a cidade,
sempre de olhos bem abertos.
Farina era
um homem baixo e corpulento, cuja ascendência italiana era perceptível de
longe. Cumprimentou Rhodan sem demonstrar um respeito excessivo, mas numa ótima
disposição de espírito.
— Formidável!
— observou, depois de se certificar de que ninguém poderia ouvir sua conversa.
— Ninguém desconfia de que o senhor se encontra em Sacramento.
Rhodan
sorriu.
Não deixara
de tomar certas precauções antes de pôr-se a caminho. A arte de dois grandes
peritos em máscaras transformara seu rosto a ponto de que só quem dispusesse de
uma ótima visão e de um longo conhecimento poderia reconhecê-lo. Por motivos de
segurança e de comodidade, deixou de recorrer a certos acessórios, como barbas
falsas e perucas. Rhodan sabia que justamente por isso havia uma possibilidade
mínima de ser reconhecido por alguém.
Farina
encontrara-o porque tinham combinado o encontro naquele local, e ainda porque
Rhodan lhe fornecera um sinal de identificação: uma cicatriz do lado esquerdo
da testa.
— Quais são
as novidades? — perguntou Rhodan.
— Nenhuma —
respondeu Farina aborrecido. — Raleigh comporta-se como se fosse o comerciante
mais idôneo de todos os tempos...
— Quem é
Raleigh?
— É o chefe
da Farming Tools and Machines. Vende
seus arados automáticos abertamente e muito barato. Nos poucos dias que se
passaram, desde que iniciou as vendas, sua freguesia triplicou ou quadruplicou.
Os fregueses elogiam-no além de toda medida.
— Já deu uma
olhada do lado de dentro?
Farina
acenou com a cabeça.
— Naturalmente;
mas não encontramos nada. Não temos a menor idéia de onde Raleigh guarda os
desenhos de suas máquinas. Se é que...
Farina fez
uma pausa de reflexão.
— Se é
que...? — animou-o Rhodan.
— Se é que
os desenhos estão em sua casa — prosseguiu Farina. — Richman descobriu que, nos
últimos dois dias antes do início das vendas, Raleigh, ou melhor, sua firma,
recebeu um grande volume de carga ferroviária.
— De onde?
— De Salt
Lake City.
— Seguiram a
pista?
Farina
sacudiu a cabeça.
— Ainda não
tivemos tempo.
Rhodan
refletiu. Era um mistério que uma simples fábrica de máquinas, que sem dúvida
não estava aparelhada para cumprir programas especiais, conseguisse colocar no
mercado num tempo tão curto uma linha de produtos prontos para serem oferecidos
aos consumidores — mesmo que partisse do pressuposto de que havia alguma
ligação entre os arados dirigidos por robôs e os furtos ocorridos em Terrânia.
— Conhece
Raleigh pessoalmente? — perguntou Rhodan.
— Não, mas o
vi várias vezes de perto. A primeira impressão é boa.
— E a
segunda impressão?
A boca de
Farina se contorceu.
— Não é boa.
É o tipo escorregadio: amável, mas traiçoeiro.
Rhodan já
elaborara seu plano.
— Pois hoje
de tarde vamos lhe fazer uma visita e nos apresentar como compradores
interessados em seus produtos — sugeriu a Farina. — Procuraremos nos lembrar de
alguma coisa que nos permita colher o maior volume possível de informações
sobre sua maneira de negociar e sobre suas reações. Eu mesmo cuidarei da
segunda parte da tarefa, assim que estivermos suficientemente informados.
— Está bem —
respondeu Farina. — E Richman?
— Vai
descobrir quem é o fornecedor de Salt Lake City.
* * *
Mais ou
menos à mesma hora, aconteceu o seguinte na metrópole nova-iorquina, com um
homem que parecia pouco inteligente e, por causa de uma corcunda, oferecia um
aspecto um tanto miserável:
Estava
almoçando numa lanchonete. Pegou uma bandeja com um bife grande, mas fino, e
uma porção de vagens e batatas fritas; tomou lugar junto a uma mesa cujas
cadeiras estavam todas desocupadas. Uns cinco minutos depois, quando acabara de
constatar que o bife nem de longe correspondia às suas expectativas, outro
homem — jovem, alto, robusto e elegante — sentou à mesma mesa.
— Teve azar ali
na esquina? — perguntou o homem depois de algum tempo.
Naquele
local a expressão ali na esquina era
um estereótipo que designava a Wall Street.
O jovem
levantou os olhos do prato com uma expressão sombria no rosto e examinou seu
interlocutor.
— O senhor
tem alguma coisa com isso? — respondeu em tom grosseiro.
Mas o outro
não se intimidou.
— Tenho um
olho clínico para essas coisas — afirmou. — Talvez possa ajudá-lo.
— O senhor?
Essas duas
palavras encerravam uma dose insultuosa de menosprezo.
Mas o homem
a quem era dirigido o menosprezo limitou-se a acenar a cabeça:
— Sim, eu.
E não estava
exagerando. Aquele homem corcunda, de andar tortuoso, de aspecto tímido e
insignificante, com a coroa rala de cabelos desbotados, em parte grisalhos,
outro não era senão Homer G. Adams, ostensivamente chefe da General Cosmic Company, a maior empresa
industrial da Terra, e além disso ministro das finanças da Terceira Potência.
— Conheço
alguns dos truques com os quais se consegue arrancar o dinheiro de certos
criançolas esquentados e desbocados — disse Homer G. Adams, brincando com uma
caixa de fósforos. — Justamente por isso também conheço os truques que podem
ajudar essa gente a recuperar seu dinheiro.
O jovem
remexeu a comida que se encontrava em seu prato; parecia ligeiramente
embaraçado.
— Já ouviu
falar naquela história da Airlines United?
— perguntou.
Adams se
sobressaltou.
— Meu Deus,
não vá me dizer que comprou papéis da Airlines United.
O jovem fez
que sim.
— Faz quatro
dias.
Adams nem se
deu ao trabalho de esclarecer o jovem sobre o assunto. Limitou-se a perguntar:
— Quanto
perdeu?
— Tudo —
resmungou o jovem.
Adams
sorriu.
— Quanto vem
a ser isso?
— Pouco mais
de doze mil dólares.
Adams fez um
gesto com a cabeça.
— É um bom
dinheiro para um jovem da sua idade. Aliás, como é seu nome?
— Meu nome?
Elmer Bradley. Sou desenhista técnico. Ganhei o dinheiro de herança.
Fitou Adams,
como se esperasse que também o corcundinha se apresentasse.
— Meu nome é
Adams — disse este em tom indiferente.
Nos Estados
Unidos havia mais de um milhão de pessoas com esse nome. Não era de esperar que
só por se chamar Adams alguém o ligasse à General Cosmic Company.
— Qual é a
dica que me dá? — perguntou Bradley.
— No momento
nenhuma — respondeu Adams em tom decidido. — Estou disposto a lhe emprestar a
mesma soma que perdeu, para que possa tentar novamente.
Por estranho
que parecesse, Bradley não parecia se impressionar muito com a oferta.
“Provavelmente a esta hora estará pensando
que sou um idiota convencido”, pensou Adams, divertindo-se no íntimo.
Bradley
perguntou:
— Neste
instante?
Adams
sacudiu a cabeça.
— Apareça no
meu escritório quando tiver tempo. Lá lhe darei o dinheiro e estudaremos juntos
a situação da Bolsa, para que saiba o que comprar.
Pegou uma
agenda de bolso, arrancou uma folha e escreveu algumas linhas. Depois
empurrou-a a Bradley.
— General
Cosmic? — perguntou Bradley, surpreso. — Será que o senhor é...
Adams
interrompeu-o com um sorriso.
— Nada
disso. Em nossa firma há uns dez Adams, e nenhum deles tem qualquer parentesco
com o chefe. O senhor irá?
Bradley
sorriu.
— Não tenha
a menor dúvida!
* * *
Farina
parecia bastante contrariado.
— Nada —
disse com um gesto de desprezo. — Não tem nenhum arado automático de dez relhas
que possa vencer uma subida de trinta por cento. Por pouco não fazem gozação de
mim por causa disso.
Rhodan riu.
— A idéia
era justamente essa. Falou com Raleigh?
Farina
confirmou com um gesto de cabeça.
— Durante
cerca de vinte minutos.
— E daí?
Farina
ergueu os ombros.
— Diria que
talvez sua idéia não dê resultado.
Rhodan não
parecia se importar com isso.
— De
qualquer maneira ainda teremos outro meio — respondeu.
Farina
ponderou:
— Precisaremos
desse meio.
Às sete da
noite, Perry Rhodan telefonou para a Farming
Tools and Machines.
Raleigh não
parecia muito satisfeito com a interrupção.
— Compreendo
perfeitamente que minha chamada não lhe dê nenhum prazer — disse Rhodan. —
Acontece que preciso falar imediatamente com o senhor.
— Qualquer
um pode aparecer com esse tipo de conversa — protestou Raleigh. — Afinal, quem
é o senhor?
— Sou um
homem que lhe pode causar muitos problemas, a não ser que o senhor chegue a um
acordo satisfatório comigo — respondeu Rhodan em tom de animosidade.
Ficou
admirado de que Raleigh não desligou imediatamente. Será que sua consciência
pouco tranqüila o impedia de fazê-lo?
— A mim ninguém causará problemas! — afirmou
Raleigh.
— Depois que
tiver falado comigo o senhor
não dirá mais isso — objetou Rhodan.
Raleigh
parecia refletir.
— Pois bem —
disse depois de algum tempo. — Venha.
— Para onde?
— perguntou Rhodan.
— 2.035,
Parkway Drive. É o endereço de minha residência.
Rhodan
preparou-se cuidadosamente para a tarefa. Não esperava que Raleigh fosse
reconhecê-lo. Estava equipado com um radiador portátil de impulsos térmicos e
um projetor mental. Não levava outras armas. Teve que dispensar até mesmo o
traje transportador arcônida, que o protegeria contra qualquer tipo de
projétil, porque a estranha vestimenta revelaria imediatamente sua identidade.
No início
ainda esperava que não seria obrigado a recorrer ao projetor mental.
Provavelmente Raleigh era um membro pouco importante do grupo que conspirava
contra a Terceira Potência. E era conveniente para as investigações que o
inimigo desconhecido ficasse o maior tempo possível sem saber que o contragolpe
já começara.
Pegou o
carro alugado em Sacramento e dirigiu-se ao Parkway Drive. Raleigh habitava uma
casa que, embora ostentasse um estilo ridículo e ultrapassado, era grande e sem
dúvida dispendiosa. Distava tanto da rua que Raleigh tivera que construir um
caminho particular para alcançá-la.
Quando
Rhodan chegou, eram vinte horas e quarenta minutos. Só a luz pálida das
estrelas iluminava a noite. Por mais que Rhodan lançasse os olhos em torno, não
via o capitão Farina que, segundo o combinado, devia se encontrar nas
proximidades.
Acionou a
campainha embutida no batente e aguardou até que o convidassem a entrar.
Pela
descrição de Farina, o homem que deixou entrar Rhodan foi o próprio Raleigh.
— Meu nome é
Wilder — disse Rhodan. — É muita gentileza sua me receber a esta hora.
Estendeu a
mão a Raleigh, mas este fingiu não vê-la. Seu rosto parecia frio como gelo.
Rhodan foi
conduzido a um pequeno aposento, que parecia ser o escritório de Raleigh. Este,
sem proferir uma palavra, apontou uma poltrona. Rhodan sentou.
— Então? —
perguntou Raleigh.
Rhodan reclinou-se
confortavelmente na poltrona e cruzou as pernas.
— O senhor
roubou minha invenção — disse como que ao acaso e num tom de voz que nada tinha
de dramático.
Raleigh
estava sentado atrás de sua escrivaninha. Ergueu-se ligeiramente e inclinou-se
por cima da mesma. Parecia que acabara de levar um tremendo susto.
— Sua
invenção? — fungou. — Repita isso!
Rhodan fez
um gesto de assentimento.
— É o que
acabo de dizer: o senhor roubou minha invenção.
Raleigh
deixou-se cair na poltrona.
— Que
invenção? — perguntou. “Acalmou-se muito
depressa. Depressa demais”, pensou Rhodan.
— O senhor
sabe perfeitamente — respondeu. — Há algum tempo o senhor vem produzindo aivecas, arados e mais umas maquinazinhas,
todas de um tipo que a humanidade conhece há milhares de anos. Foi só nestes
últimos dias que uma verdadeira novidade surgiu na história da empresa. E essa
novidade foi roubada de mim.
Raleigh
manteve-se impassível.
— Está em
condições de provar isso? — perguntou.
— Naturalmente.
Quer que apresente a prova em juízo?
Muito sério,
Raleigh fez um gesto com a cabeça.
— Faço
questão — respondeu em tom tranqüilo.
Rhodan
percebeu que seu blefe não serviria para nada. Raleigh conhecia a origem do
comando robotizado de seus arados; não cairia num truque desses.
— O senhor
se arrependerá — voltou a investir Rhodan.
Raleigh
levantou-se.
— Eu não —
disse em tom glacial. — Mas o senhor...
Rhodan
também se levantou. Com um gesto disfarçado tirou o pequeno projetor mental do
bolso e dirigiu-o sobre Raleigh.
Raleigh logo
percebeu. Seu rosto contorceu-se num sorriso de deboche. Não tinha medo.
— Agora o
senhor vai me dizer quem está atrás do senhor — ordenou Rhodan.
Enquanto
proferia essas palavras, comprimiu o acionador do projetor mental e ficou
aguardando que os impulsos transmitidos por via hipnótica fizessem Raleigh
falar.
Mas este
continuava com o sorriso de deboche no rosto.
Rhodan
percebeu que nem tudo corria conforme ele calculara. Por que Raleigh demorava
tanto em se submeter à influência do projetor mental? Ou será...
— Andei
pensando a mesma coisa — observou Raleigh em tom zombeteiro. — O que é isso? Um
hipnotizador?
Deu uma
risada de deboche.
— Desta vez
o senhor pegou o bonde errado. Seu... seu rhodanita reformador do mundo.
Rhodan
sentiu o ódio indisfarçado que vibrava naquelas palavras e também sentiu que
Raleigh não o reconhecera; por enquanto sabia apenas de onde vinha.
Rhodanita
reformador do mundo! A expressão seria para rir; mas no momento não havia
motivo para isso.
No
escritório de Raleigh havia duas portas, e ambas se abriram ao mesmo tempo. Os
homens que apareceram nelas, dois em cada, mantinham as pistolas automáticas
levantadas, não permitindo qualquer dúvida sobre suas intenções.
— Prendam-no!
— disse Raleigh por entre os dentes.

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