Autor
CLARK DARLTON
Tradução
RICHARD PAUL
NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Os primeiros
ataques do Supercrânio foram repelidos. A Terceira Potência provou sua solidez.
Mas o pavoroso
inimigo continua de posse de seu quartel-general, de onde pode lançar novos
ataques contra a Terceira Potência ou outros Estados. A tarefa mais urgente de
Perry Rhodan consiste em localizar essa central e arrebatar as armas do
Supercrânio, pois só assim conseguirá evitar o caos.
Perry Rhodan
coloca em campo os seus mutantes, que se defrontam com inimigos que nada lhes
ficam a dever em capacidade. O Duelo de Mutantes é deflagrado.
= = = = = = = Personagens
Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan
— Chefe supremo da Terceira Potência.
Reginald Bell
— Ministro da segurança da Terceira Potência.
Clifford Monterny
— Apelidado de Supercrânio.
Julian Tifflor
e Klaus Eberhardt — Dois cadetes da Academia Espacial.
Tatiana Michalovna
— Uma jovem muito perigosa.
André Noir, John Marshall, Betty Toufry — Os membros mais importantes do Exército de Mutantes da
Terceira Potência.
Gucky — Uma criatura vinda do planeta
Vagabundo.
1
A menos de quinhentos metros de altura, a
nave-escola em forma de torpedo da Academia Espacial corria vertiginosamente
sobre a superfície vermelha e desértica de Marte, desviando-se agilmente dos
cumes da longa cadeia de montanhas. O capitão Hawk, um dos instrutores mais
competentes, estava sentado diante de seus controles e mostrava aos alunos que
mesmo uma nave de grandes dimensões, habilmente manejada, é capaz de se desviar
de qualquer obstáculo.
A nave-escola Z-82 tinha cerca de trinta
metros de comprimento e oferecia lugar apenas para três tripulantes. Era capaz
de alcançar a velocidade da luz.
O cadete Klaus Eberhardt estava sentado à
esquerda do observador e procurava memorizar as inúmeras manipulações dos
instrumentos. Não era bobo; pelo contrário, possuía um elevado grau de
inteligência. Mas ele mesmo não negaria que tinha certa dificuldade em
compreender. Isso não acontecia sempre; de forma alguma. Mas geralmente
acontecia nos momentos mais inoportunos. Era esse seu único defeito.
À direita do instrutor, estava sentado
outro cadete. Ao contrário de Eberhardt era alto e esbelto, quase magro. Uma
cabeleira castanho-escura encimava o rosto oval, onde dois olhos castanhos
esboçavam um sorriso meigo, um pouco tímido. Sem que o percebesse, o cadete
Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os
que o cercavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma
pequena bomba atômica. Apesar dos seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático
e um exemplar de coragem e resolução. Era um dos melhores alunos da
instituição.
O capitão Hawk apontou obliquamente para a
frente.
— Estão vendo aquela montanha? Chegarei o
mais próximo possível antes de desviar a nave. Observem o poder de reação da
Z-82. É claro que no espaço vazio esse poder é um pouco menor, porque nas
proximidades da superfície a resistência da atmosfera ajuda na direção.
— Ah! — disse o cadete Eberhardt e acenou
a cabeça para Tiff, que, sorrindo em silêncio, colocou as mãos sobre os
controles simulados, para tentar esboçar sua reação no mesmo instante em que o
instrutor o fizesse. Os instrumentos eletrônicos mediriam e registrariam
qualquer movimento que executasse.
Eberhardt seguiu o exemplo do colega.
O cume da montanha aproximou-se a uma
velocidade vertiginosa. Realmente parecia que a nave iria bater em cheio na
rocha nua e avermelhada. No entanto, literalmente no último segundo, entrou
numa curva quase imperceptível, passou junto à formação rochosa e subiu para o
céu azul-escuro, onde já se viam as primeiras estrelas.
— Foi por pouco — disse o cadete
Eberhardt, reclinando-se no assento. — Acho que eu nunca tentaria uma manobra
dessas, a não ser que isso fosse absolutamente necessário.
— Devemos estar em condições de enfrentar
qualquer situação — observou o capitão Hawk, olhando para o relógio. — Está na
hora de voltarmos à Terra.
— É mesmo — disse Tiff em tom pensativo. —
Pedi licença para hoje de noite.
Hawk lançou-lhe um olhar de recriminação.
— Nas horas de serviço não se deve pensar
no prazer, cadete Tifflor. Ainda temos diante de nós um vôo de regresso
bastante cansativo.
— Esse trechinho? — respondeu Tiff em tom
de desprezo. — Com a Z-82 não levaremos mais de uma hora.
— Não pretendo acelerar até atingir a
velocidade da luz, embora isso fosse perfeitamente possível. Dentro de três
horas pousaremos em Terrânia.
Desta vez o capitão Hawk estava muito
enganado, mas não poderia mesmo saber. Porém, se tivesse levado em consideração
a folga noturna de Tifflor, possivelmente tudo teria sido diferente e os
acontecimentos do dia seguinte seriam completamente outros.
— Já fez os cálculos? — perguntou Hawk. —
Suponhamos que nosso piloto robotizado falhou, e que o senhor tem de encontrar
o curso que mais rapidamente o conduza de volta à Terra. E isso sem
instrumentos, partindo do lugar em que nos encontramos. Quanto tempo levará?
Tiff suspirou e olhou para trás. Na
escotilha viu Marte, cujo tamanho diminuía a olhos vistos.
Na escotilha dianteira, a Terra apareceu como
uma pequenina estrela cinza-azulada. Era perfeitamente reconhecível. Tiff
soltou um suspiro desanimado e sacudiu os ombros.
— É claro que o cálculo da rota não é
fácil, mas pode ser feito. Mas, na minha opinião, é totalmente supérfluo. Com a
velocidade que estamos desenvolvendo podemos perfeitamente realizar um vôo
visual.
O capitão Hawk começou a agitar os braços.
— Cadete Tifflor, não se esqueça de que se
encontra numa nave-escola. Sei perfeitamente que podemos realizar um vôo
visual, mas não é disso que se trata. Quero saber se o senhor é capaz de se
orientar sem instrumentos num espaço desconhecido. Portanto, comece logo a
calcular.
Tiff lançou um olhar melancólico em
direção ao planeta Marte, que se desvanecia. De repente viu que o quadro que se
oferecia pela escotilha estava modificado. Também a Terra deslocou-se
lateralmente, saindo do campo de visão. Hawk havia deixado que a Z-82 corresse sem
rumo, para dificultar a tarefa que Tiff tinha de cumprir.
Não devia ter feito isso. Mas, quem é que
conhece o futuro? O capitão Hawk, pelo menos, não o conhecia. A Z-82
deslocava-se a uma velocidade vertiginosa, acelerando constantemente. Não se
sentia qualquer pressão, pois os campos gravitacionais automáticos compensavam
qualquer modificação da rota ou da velocidade.
Numa expressão de compaixão, Eberhardt
contemplou Tiff quando este se pôs a lançar algarismos numa folha de papel.
Confortavelmente reclinado em sua poltrona, o capitão Hawk deixou que a nave
disparasse pelo espaço afora, sem se preocupar com a trajetória. Dali a pouco
seu aluno teria de recolocar a Z-82 na rota correta e, mais tarde, fazê-la
pousar em segurança.
Ninguém se preocupou com os instrumentos.
Ninguém, com exceção de Eberhardt.
Mas, infelizmente, foi mais uma vez sua
lentidão que lhe causou problemas. Se comparadas com as de um cidadão normal do
planeta Terra — e convém que isto fique bem claro — suas reações ainda eram bem
rápidas. Apenas, era muito lento para preencher as qualidades de um bom piloto
espacial.
E foi por isso que levou dez segundos
vitais para perceber a reação do rastreador. Tratava-se de um instrumento que
emitia constantemente ondas de radar em todas as direções, registrando os
reflexos que ocorressem. O alcance do instrumento era relativamente reduzido, e
por isso tais reflexos se tornavam bastante raros no espaço livre. Só surgiam
quando um asteróide ou um meteorito de grandes dimensões passasse nas
proximidades da nave; ou quando outra nave se encontrava nas vizinhanças.
O cadete Eberhardt estendeu o braço,
apontando para a minúscula tela que se via por cima da escala do rastreador.
— Apareceu alguma coisa — disse. — Parece
ser bem grande.
O capitão Hawk levantou-se preguiçosamente
e, perplexo, fitou o instrumento. Na pequenina tela viu-se uma mancha quase
redonda, que crescia rapidamente. O objeto vinha em sua direção.
De um salto, Hawk pôs-se de pé. Seus olhos
correram velozmente sobre os dados projetados na escala; depois sacudiu a
cabeça.
— Um destróier? Não é possível! Nosso
destróier é o único que se encontra entre Marte e Terra. Se não modificarmos
nossa rota, estará aqui dentro de poucos segundos. Vejam, está desacelerando.
Que coisa estranha!
A figura esguia da nave gêmea já se
tornara visível mesmo a olho nu. Descreveu uma curva bem ampla e voltou a se
aproximar, vinda da frente.
— Quem sabe se a Terceira Potência... —
principiou Tiff, mas o capitão Hawk sacudiu a cabeça.
— Segundo o último comunicado do rádio,
transmitido pela academia, não há nenhuma nave de Perry Rhodan no espaço. Somos
os únicos. Se não conhecesse tão bem esse tipo de nave...
Não chegou a prosseguir.
Uma luz ofuscante surgiu pela frente. Um
raio quase alaranjado saiu da proa do outro destróier e, tão rápido que o olho
humano não poderia segui-lo, aproximou-se da Z-82.
O capitão Hawk não reagiu com a necessária
rapidez, e também para Tiff o inesperado ataque foi rápido demais. Inclinou-se
para a esquerda e bateu com o punho fechado sobre a chave, mas o envoltório
energético formou-se com o atraso de uma fração de segundo.
A pontaria do artilheiro da outra nave era
péssima; foi uma sorte. Foi uma sorte para a Z-82, mas de nada valeu ao capitão
Hawk.
O raio energético disparado pelo inimigo
não chegou a penetrar na capa protetora da proa da Z-82; mas parecia que a nave
havia batido contra uma muralha sólida. O impacto foi tamanho que mesmo os
neutralizadores de pressão revelaram-se praticamente inúteis. A força do
impacto fez com que o capitão Hawk fosse arrancado do assento e projetado, com
toda força e de cabeça, contra o painel de controle do cérebro eletrônico
encarregado da navegação.
Tiff foi atirado para a frente, mas
conseguiu amortizar o impacto, estendendo rapidamente as mãos. Destrancou ambos
os pulsos, o que nem chegou a perceber no momento.
O cadete Eberhardt teve mais sorte. Foi o
único que colocara e afivelara o cinto de segurança, que geralmente não
costumava ser usado. O cinto quase o corta em dois, mas evitou que tivesse destino
idêntico ao de Hawk. Evidentemente Eberhardt teria levado um segundo e meio
para lembrar-se de pôr as mãos à frente do corpo, o que seria demais.
Um olhar bastou para que Tiff visse que
seu instrutor estava morto. Os instrumentos do painel haviam esfacelado seu
crânio. Mas não teve tempo para cuidar do morto. Havia coisa mais importante a
fazer.
Depois do ataque aparentemente frustrado,
a nave inimiga descreveu uma curva e voltou a se aproximar em vôo frontal. Com
um salto, Tiff colocou-se na poltrona do instrutor, agora vazia, e assumiu os
controles. Desviou-se numa curva fechada para a direita, acelerou e lançou-se
ao ataque contra o desconhecido. Enquanto fazia isso, as idéias mais
fantasiosas passavam pela sua mente.
Quem seria o piloto do destróier que os
estava atacando? Não podia ser ninguém da Academia Espacial; a hipótese era
totalmente inconcebível. E também era inconcebível que uma nave da Terceira
Potência se pusesse a derrubar suas próprias naves.
Mas quem seria?
Tiff não sabia que o maior inimigo de
Perry Rhodan havia roubado três destróieres, que estavam sendo tripulados por
homens transformados em simples instrumentos, destituídos de vontade própria,
que haviam recebido ordem para atirar contra qualquer coisa que trouxesse
alguma indicação de pertencer à Terceira Potência.
Tiff ignorava tudo isso. Sabia apenas que
um desconhecido o havia atacado com uma nave muito conhecida e quase chegara a
dar cabo dele. Seria totalmente inútil tentar a fuga, pois o inimigo poderia
desenvolver a mesma velocidade da Z-82. Além disso, a possibilidade de fugir e
deixar para trás um enigma sem solução não agradava ao temperamento de Tiff.
A reação da nave inimiga não foi muito
rápida. Numa curva que quase chegava a ser elegante, Tiff conseguiu colocar a
Z-82 numa posição tal que a proa apontava diretamente para a popa flamejante da
nave tripulada pelo desconhecido. Conforme soubera do ensinamento teórico, ali
ficava o único ponto vulnerável do destróier. Naquele ponto o campo protetor
tinha uma espécie de furo, pois de outra maneira os raios propulsores seriam
refletidos sobre o campo.
Os olhos de Tiff procuraram e encontraram
a chave vermelha do canhão neutrônico, que se tornara célebre em tantas horas
de vôo. Nunca pudera tocar nessa chave, quanto menos acioná-la. Em caso de
necessidade, sempre fizera questão de ressaltar o capitão Hawk, essa chave põe
a funcionar uma arma mortífera, cujos efeitos...
Surgira o caso de necessidade.
O cadete Julian Tifflor não mais se sentia
preso a qualquer regulamento. Estava agindo em legítima defesa.
À medida que a velocidade da Z-82
aumentava, a popa do outro destróier ia se aproximando. Tiff colocou a mão
sobre a chave vermelha e, num movimento instantâneo, puxou-a para fora.
Um segundo.
Dois segundos.
O raio energético alaranjado precipitou-se
para fora da proa e rompeu os chamejantes raios propulsores do inimigo. Com uma
velocidade próxima à da luz, penetrou nos bocais dos jatos e roeu o maquinismo,
até atingir a sala de máquinas, onde se situava o reator arcônida.
Depois de três segundos, Tiff soltou a
chave vermelha e descreveu uma curva fechada com a Z-82. Numa velocidade
vertiginosa, embora parecesse que ambas as naves estavam paradas, passou rente
ao destróier atingido.
Fascinado, Tiff observou os efeitos do
disparo.
De início, um vazamento formara-se na popa
do destróier; nas bordas do mesmo o fogo começou a se espalhar. Surgiu uma
coroa de fogo que, subitamente, foi apagada pelo impacto de uma explosão
silenciosa. A popa se esfacelou e uma força invisível atirou os destroços em
todas as direções. A parte interior da nave parecia se desprender do resto, com
uma tendência a se tornar independente. O envoltório externo rompeu-se. As
fortes paredes metálicas deformaram-se, como se fossem feitas de lata.
O destróier quebrou no meio.
O inimigo estava praticamente destruído.
Tiff respirou aliviado. Só depois disso
teve tempo para cuidar do instrutor e de seu colega.
O capitão Hawk jazia contorcido entre o
assento do piloto e a parede dianteira da cabina. Não havia a menor dúvida de
que estava morto. Apesar disso Tiff não deixou de examiná-lo, mas o resultado
apenas confirmou suas suposições. O cadete Eberhardt, que estivera sentado bem
quieto perto de Tiff, sem poder fazer nada, foi se recuperando do choque. A
primeira observação que soltou foi típica de seu temperamento.
— Agora estamos sem professor. Como
faremos para voltar?
Tiff reprimiu a contrariedade.
— Até parece que se esqueceu de que já
temos algumas horas de vôo. Além disso, já calculei a rota. Dentro de duas
horas pousaremos na Terra. Apenas lhe peço que me ajude a levar o capitão Hawk
ao camarote.
Colocaram o instrutor morto sobre a cama e
cobriram-no. Encontraria seu último descanso em sua cidadezinha natal. Mas seus
alunos nunca o esqueceriam quando, comandando orgulhosamente as naves
espaciais, vagassem pelas amplidões do espaço cósmico. Deviam tudo aquilo que
eram e que sabiam fazer a um homem, o capitão Hawk.
Nesse meio tempo a proa desgovernada só se
desviara ligeiramente para o lado. Dali a pouco penetraria no círculo de
asteróides.
Tiff contemplou os destroços com os olhos
semicerrados.
A proa estava intacta, não apresentando
qualquer vestígio de destruição. Em compensação, o lado oposto assemelhava-se a
um campo de destroços. Peças derretidas da cabina e placas de envoltório semi-gaseificadas
emergiam por entre as bordas entrecortadas. Ao lado dela, certas peças avulsas,
cuja finalidade não mais podia ser reconhecida, acompanhavam a trajetória da
nave.
Em meio a esses destroços devia haver uma
cabina intacta, na qual os inimigos desconhecidos estariam encerrados em
situação desesperadora. Talvez possuíssem armas manuais, mas elas só poderiam
ser usadas se alguém se aproximasse deles.
Era exatamente o que Tiff pretendia fazer.
Dirigindo-se a Eberhardt, disse:
— Vamos dar uma olhada nesses camaradas
que queriam nos mandar para o inferno?
Enquanto proferia estas palavras,
aproximou a trajetória da Z-82 dos destroços da outra nave. Lançou um olhar
bastante expressivo para o armário de parede, examinou os controles remotos e
murmurou:
— Um de nós deve enfiar um traje
pressurizado, sair pela comporta de nossa nave e dar uma olhada no que está se
passando por lá.
— É verdade — confirmou Eberhardt em tom
sério. — Um de nós deve fazer isso.
Tiff esperou. Mas esperou em vão.
Eberhardt não tinha mais nada a dizer sobre o assunto. E o que dissera fora bem
pouco. Suspirou. Tudo ficaria por conta dele.
— Quem vai fazer isso é você, cadete Eberhardt.
Vamos logo! Enfie seu terno e faça a baldeação. Leve um radiador portátil, para
estar prevenido se do lado de lá a porta estiver emperrada.
— Eu? — o cadete Eberhardt arregalou os
olhos. — Quer que eu saia sozinho da nave e prenda aqueles bandidos? Escute aí,
cadete Tifflor, eu sou um piloto espacial; não pertenço ao F.B.I.
— Comandante
Tifflor, por obséquio — retificou Tiff e deu uma expressão autoritária
ao seu rosto. — E procure se apressar, nem que seja só desta vez.
Eberhardt sacudiu os ombros, levantou-se
preguiçosamente e tirou um radiador de impulsos do armário de armamentos. Todas
as naves de treinamento da academia estavam equipadas com essa arma mortal, que
funcionava segundo princípios arcônidas. Lançou um último olhar de desespero
para Tiff, à espera de um gesto de compaixão, balançou nervosamente o corpo e
saiu. Parou na porta.
— Matarei esses bandidos para vingar Hawk
— disse em tom triunfal. — Eu sozinho. E você, o que vai fazer?
— Farei com que nada de mal lhe aconteça —
asseverou Tiff tranqüilamente, apontando para a chave vermelha do canhão
neutrônico. — Ao menos tentarei.
Eberhardt engoliu seco e deixou a cabina
sem mais comentários. Tiff esperou que a luz verde se iluminasse, antes de pôr
a funcionar a comporta.
A Z-82 estava flutuando, aparentemente
imóvel, a menos de dez metros dos destroços. Num certo instante Tiff acreditou
ter percebido um movimento atrás de uma das escotilhas do que restava da nave
inimiga. Mas talvez fosse engano. Não, ali estava de novo. Reconheceu
perfeitamente os contornos de uma figura humana. Uma luz débil surgiu no mesmo
lugar. Naturalmente aquela gente já não dispunha de eletricidade, e por isso
tinha de se contentar com o suprimento das pilhas. Se é que dispunham de
alguma, além das lanternas de bolso. A instalação de rádio também havia sido
destruída pela explosão.
Uma luz vermelha surgiu diante de Tiff. A
comporta de ar estava vazia, e Eberhardt abrira a escotilha externa. As
manobras em pleno espaço haviam sido treinadas várias vezes, mas desta vez era
para valer. Além disso, ninguém sabia o que os esperaria naqueles destroços.
Era bem possível que os piratas — Tiff acreditava que os desconhecidos fossem
exatamente isso — tivessem os trajes pressurizados na cabina.
Eberhardt entrou no seu campo de visão.
Preso a um cabo fino, flutuava perto de Tiff; aproximou-se lentamente dos
destroços, que descreviam um movimento de rotação. A sombra atrás da escotilha
da proa enrijeceu. Devia ter notado a pessoa que se aproximava.
Eberhardt absorveu o leve impacto que
sofreu ao pousar no envoltório da nave destruída. Moveu-se lentamente até
atingir a escotilha. Olhou bem no rosto de um homem, que o encarava com os
olhos arregalados.
O estranho envergava um traje espacial,
mas não estava com o capacete fechado. De pele escura, parecia um mestiço, mas
Eberhardt não tinha certeza. De qualquer maneira, sentiu-se satisfeito ao ler
no rosto do outro o susto e o pavor.
Acenou a cabeça para o estranho, com uma
expressão de raiva no rosto; por uma medida de cautela mostrou-lhe seu radiador
e deslocou-se cautelosamente em direção à parte destroçada da proa. Ao primeiro
relance de olhos, percebeu que tinha diante de si parte do corredor que levava
aos camarotes. Como por milagre a porta da sala de comando não havia sido
danificada.
E agora?
Era claro que pretendia pegar o estranho
vivo, pois a morte do mesmo não ajudaria ninguém. Afinal, era necessário
descobrir quem era ele e qual era a pessoa que se encontrava atrás desse ataque
inexplicável. Eberhardt segurou seu radiador portátil e bateu com a pesada
coronha contra a porta. Três vezes.
Evidentemente não ouviu nada, pois não
havia nenhuma atmosfera que pudesse conduzir o som. Mas a pessoa que se
encontrava na cabina ouviria as pancadas.
Eberhardt encostou o capacete à porta e
pôs-se a escutar. Se o desconhecido respondesse às batidas, as vibrações se
transmitiriam ao ar que se encontrava no interior do capacete. Não demorou dez
segundos e ouviu três batidas. O sujeito estava disposto a negociar.
Eberhardt agradeceu ao destino por ter
prestado muita atenção nas aulas de telegrafia. Lembrou-se da observação
irônica de que muitos dos cadetes não puderam se abster quando tiveram de
aprender o alfabeto Morse. Para que servia esse alfabeto numa era em que as
comunicações audiovisuais cobriam trajetos interplanetários?
Subitamente descobriu para que tinha
aprendido aquilo.
Respondeu às batidas de forma quase
automática:
— Feche o capacete e abra a porta apenas
um pedacinho. Saia de costas e sem armas. Estou esperando.
Não houve qualquer resposta. Mas dali a um
minuto a porta se abriu. Por pouco o ar que escapou do recinto não arrasta
Eberhardt, mas ele se segurou num suporte oculto. Na mão direita empunhava o
radiador de impulsos, engatilhado e apontado para a abertura da porta.
Viu em primeiro lugar um braço, que tateou
cuidadosamente para trás; logo após surgiu a parte traseira de um traje
espacial. Era do mesmo tipo usado pelos cadetes da academia. Logo, também devia
ser...
Eberhardt praguejou por não ter se
lembrado logo dessa possibilidade. Com um gesto rápido ligou o radiofone.
Talvez o outro já estivesse pronto para receber sua mensagem.
Estava.
— ...bom, se me levasse de volta para
Marte.
Eberhardt aguçou o ouvido. O homem queria
ir para Marte? Teria vindo de lá? O que estaria acontecendo naquele planeta?
— Vire-se de frente e levante as mãos. O desconhecido
obedeceu. Só agora Eberhardt pôde examinar melhor o rosto. Não se enganara. Era
um mestiço. Falava um inglês perfeito.
— Onde estão os outros tripulantes?
A resposta surpreendeu Eberhardt:
— Estou sozinho.
O mestiço estava desarmado; via-se ao
primeiro relance de olhos. Eberhardt ordenou-lhe que o deixasse passar e
aguardasse. Foi à sala de comando da nave destroçada e certificou-se de que
estava vazia. Realmente; o rapaz devia ter pilotado a nave sozinho. Era
estranho.
Saiu da sala de comando e, satisfeito,
notou que o outro não saíra do lugar.
— Vamos embora. Voe na minha frente. Está
vendo a comporta aberta. Trate de entrar; mas não pense em tolices. Mantenho a
arma apontada para você.
O desconhecido não respondeu; afastou-se
com um ligeiro empurrão. Livre de toda força gravitacional, passou sobre a
fresta e pousou um pouco ao lado da comporta, no casco da Z-82. Com um ligeiro
movimento colocou-se no interior da comporta; ficou aguardando.
Eberhardt seguiu-o; não sabia o que
pensar. Tinha a impressão de que a coisa fora fácil demais. Aquele sujeito
devia saber que para ele as perspectivas não eram nada agradáveis. Por que
havia deixado que o aprisionassem sem esboçar a menor resistência?
Tiff aguardou o prisioneiro na sala de
comando. Esperou pacientemente até que o mestiço tirasse o capacete; estudou
seu rosto. Ficou surpreso com a sinceridade espelhada no mesmo. Nos olhos
lia-se um ligeiro espanto, aliado a um pouco de medo e indecisão. É bem verdade
que também se notava uma certa teimosia. Os lábios estavam firmemente cerrados.
O queixo enérgico e proeminente dava testemunho de uma dose elevada de coragem
e energia, o que era contrariado pela maneira pela qual o homem se entregava ao
seu destino.
— Você fala inglês? — perguntou Tiff, enquanto
fazia sinal para que Eberhardt fechasse a porta que dava para o corredor.
O mestiço confirmou com um aceno de
cabeça, mas não pronunciou uma palavra.
— Quem é você?
Ainda desta vez não houve resposta.
— Você nos atacou sem motivo — prosseguiu
Tiff, enquanto seu espírito começava a ferver. Lembrou-se do capitão Hawk, que
acabara de morrer. — Quero saber quem o mandou fazer isso, e por que fez.
— Não posso falar — murmurou o mestiço e
logo cerrou os lábios, como se quisesse impedir que alguma palavra irrefletida
saísse de sua boca.
— Então não pode falar? — disse Tiff
espantado, enquanto os pensamentos se atropelavam em seu cérebro. Quem sabe se
o acaso não os levara a se defrontar com um acontecimento muito importante? Já
não acreditava que se tratasse de um simples ato de pirataria. Ninguém pensaria
em encontrar tesouros numa nave-escola da Academia Espacial.
— Está bem. Outra gente o fará falar.
Cadete Eberhardt, tranque o prisioneiro na cela e tire seu capacete. Tire todo
o ar da sala de acesso à cela, para que toda e qualquer tentativa de fuga seja
ilusória.
Estreitou os olhos e viu que o prisioneiro
se deixava levar, indiferente, como se já não tivesse nada a ver com aquilo.
Aguardou ate que Eberhardt voltasse e o
informasse de que o pirata estava bem trancafiado.
— Seguiremos rumo à Terra — decidiu Tiff.
— Estabeleça contato com a central de comando e informe-a sobre o incidente.
Acredito que estarão interessados em saber tudo.
Enquanto a Z-82, numa aceleração louca, se
precipitava para o espaço, deixando os destroços da outra nave entregues ao seu
destino, as ondas de rádio adiantaram-se à nave. Eberhardt relatou todos os
detalhes do ataque, deu informações sobre a morte trágica de Hawk e sentiu-se
muito surpreendido quando, subitamente, foi interrompido por uma emissora muito
forte. Uma voz um tanto nervosa perguntou:
— Como era a nave que atacou a sua?
Eberhardt reagiu com uma rapidez
surpreendente.
— Foi um destróier do mesmo tipo do nosso.
Não sabemos como explicar o incidente.
— Capturaram um prisioneiro?
— Isso mesmo. Afinal, quem é o senhor?
— Sou do setor de segurança da Terceira
Potência. Reginald Bell.
— Só podia ser — disse Eberhardt em tom
resignado. — O setor de segurança tem suas orelhas em toda parte.
— Graças a Deus! — retrucou Bell e
acrescentou: — Continue ligado para a recepção. Terei que transmitir a
informação a outra pessoa. E possível que Perry Rhodan queira entrar em contato
com você.
Ouviu-se um estalo no alto-falante; depois
só restou um zumbido. Um tanto espantado, Eberhardt dirigiu-se a Tiff:
— Esse Reginald Bell! Tem que meter o
nariz em tudo.
Tiff provou que também sabia reagir
rapidamente. Lançando um último olhar para a fileira de instrumentos, ligou o
piloto automático, que manteria o destróier na rota. Levantou-se e aproximou-se
de Eberhardt.
— Tomarei conta disso — disse em tom
indiferente. — Veremos o que estão querendo de nós. Fique de olho no
rastreador, para que não nos peguem de surpresa mais uma vez. Tenho a impressão
de que há algo de errado em tudo isso.
Nem desconfiava de que essa afirmativa era
totalmente correta.
* * *
Anos atrás, o primeiro foguete espacial
tripulado decolou com destino à Lua e pousou no satélite. Naquela oportunidade
ninguém desconfiava de que com isso teria início uma nova época da história da
Humanidade. O major Rhodan, comandante da expedição, encontrou na Lua alguns
representantes dos arcônidas, uma raça humanóide que regia um império estelar
situado a 34.000 anos-luz de distância. Prestou ajuda à expedição frustrada e
esta o recompensou com o extenso saber de sua raça, que há milênios conhecia os
segredos da navegação espacial. Com o auxílio dos arcônidas, Perry Rhodan
instalou na Terra a Terceira Potência, impediu a guerra nuclear e, nessa altura
dos acontecimentos, esforçava-se para alcançar a união definitiva do mundo.
Seu quartel-general achava-se instalado na
cidade de Terrânia, situada em pleno deserto de Gobi. Terrânia era a metrópole
mais moderna do mundo e encerrava em seu seio o saber e a tecnologia de
milênios. Em caso de necessidade a cidade e as instalações nela existentes
podiam ser isoladas do mundo exterior por meio de uma abóbada energética. Um
exército formado por dez mil soldados e robôs cuidava da segurança da Terceira
Potência.
Reginald Bell, ministro da segurança e um
dos homens que haviam acompanhado Perry Rhodan na primeira viagem à Lua,
aguardou pacientemente até que a tela de quase dois metros de altura se
iluminasse. Uma escrivaninha surgiu na mesma. Atrás dela estava sentado um
homem. Quase chegava a ser magro, seu cabelo castanho-escuro era liso e estava
penteado para trás; possuía um par de olhos cinza-azulados que pareciam chispar
fogo. Embora já não fosse tão jovem, Perry Rhodan não aparentava mais de trinta
anos. E conservaria esse aspecto para
sempre, pois o saber inconcebível de uma raça há muito desaparecida
tornara-o quase imortal. A cada sessenta e dois anos teria que visitar o
planeta da vida eterna, onde estava instalada a misteriosa ducha celular que
lhe conferiria a juventude por mais seis decênios.
Também Reginald Bell estivera no planeta
Peregrino e, tal qual Rhodan, obtivera o tratamento da conservação celular.
— Um dos destróieres roubados apareceu,
Rhodan — disse Bell. Seus olhos chispavam de nervosismo contido. — Atacou uma
nave-escola da academia.
Perry Rhodan ergueu as sobrancelhas.
— Onde?
— Nas proximidades de Marte. Felizmente um
dos cadetes teve bastante presença de espírito para destruir a nave atacante,
depois que o instrutor tinha sido morto. Capturou um prisioneiro.
De repente Rhodan demonstrou bastante
interesse.
— Um prisioneiro?
— Foi por isso que me comuniquei com você.
Pensei que gostaria de dar uma olhada no sujeito.
— Onde está o prisioneiro?
— No momento está na cela da nave-escola
Z-82. Aguarde um momento. Eu o colocarei em contato com o destróier. Assim você
poderá falar pessoalmente com o cadete. A nave está a caminho da Terra.
Alguns segundos depois, o cadete Julian
Tifflor anunciou-se pelo rádio. Relatou mais uma vez em palavras lacônicas, mas
precisas, o incidente pelo qual havia passado, e aguardou. Perry Rhodan
refletiu sobre o que acabara de ouvir e disse:
— Como é mesmo seu nome?
— Cadete Julian Tifflor.
— Muito bem. Você pousará no espaçoporto
de Terrânia e me apresentará um relato pessoal. Sua base será avisada. Cuide
bem do prisioneiro; é muito importante para nós. O cadáver do capitão Hawk será
trasladado para sua terra natal. Quando poderei contar com sua chegada?
— Dentro de oitenta minutos.
Na voz de Tiff havia respeito e veneração.
Para ele Perry Rhodan não era apenas o chefe supremo da Academia Espacial; era
principalmente uma figura lendária e distante. Onde estaria a Terra hoje se
Perry Rhodan não tivesse conseguido utilizar o poder dos arcônidas? Talvez os
homens já tivessem se destruído uns aos outros. Talvez nosso planeta nem
existisse mais.
— Está bem, cadete Tifflor. Fico à sua
espera.
Bell interrompeu a comunicação e instruiu
os postos militares para que dentro de oitenta minutos facultassem o pouso do
destróier Z-82 e fizessem conduzir os tripulantes imediatamente ao edifício do
ministério da segurança. Depois voltou-se a Rhodan, cuja imagem em tamanho
natural ainda era projetada na tela.
— Então, o que acha?
— Não tenho a menor dúvida; trata-se de um
dos três destróieres que o Supercrânio nos roubou.
— Supercrânio; sempre ouço falar nele —
resmungou Bell, assustado. — Quem dera que soubéssemos quem se esconde atrás
desse apelido. Supercrânio, Supercabeça. Talvez não passe de uma cabeça d’água.
— Não acredito — disse Rhodan. — O
Supercrânio é um sujeito muito inteligente, que resolveu se transformar na
Quarta Potência do planeta Terra. Não será fácil impedi-lo de realizar seu
intento. Até hoje não conseguimos estabelecer a identidade do grande
desconhecido. Só sabemos que nos defrontamos com um inimigo dotado de uma
enorme inteligência e falta de escrúpulos, que não recua nem mesmo diante de um
assassínio. Interrogaremos o prisioneiro até descobrir tudo que desejamos saber
a respeito desse desconhecido. Depois disso saberá quem eu sou. Se é que o
prisioneiro vai prestar declarações — objetou Rhodan, enfatizando o se.
Bell soltou uma risada fria.
— Ele vai prestar declarações; nem tenha a
menor dúvida. Afinal, para que serve André Noir?
— Não me refiro a qualquer resistência da
parte dele — disse Perry Rhodan. — Mas é bem possível que o Supercrânio tenha
adotado certas providências que o impeçam de prestar declarações, mesmo que se
encontre sob influência hipnótica.
— Veremos — disse Bell para espantar as
preocupações que surgiram em sua própria mente.
* * *
Para Tiff o primeiro encontro com Perry
Rhodan foi um dos grandes momentos de sua vida. Então era este o salvador da
Humanidade e o herói da juventude moderna, o lendário Perry Rhodan, que
repelira a invasão dos deformadores individuais, expulsara os tópsidas do
sistema Vega e salvara a Humanidade da destruição.
E esse homem estava sorrindo.
Para Tiff talvez fosse a maior surpresa de
toda a vida, e mais tarde o mesmo reconheceu que, no primeiro instante, aquele
sorriso o decepcionara um pouco.
Perto de Rhodan havia outro homem, que já
conhecia de muitas fotos e telefilmes. Era Reginald Bell, ministro da segurança
da Terceira Potência e o melhor amigo de Rhodan. Até Tiff sabia que Bell estava
sorrindo, mas era um sorriso impaciente e insistente.
Tiff ficou em posição de sentido.
— O cadete Tifflor e o cadete Eberhardt
estão de volta de um vôo de treinamento. Ocorrências especiais: ataque de um
destróier, o capitão Hawk morto, inimigo destruído, um prisioneiro capturado.
De repente Rhodan não estava sorrindo
mais. Dirigiu-se a Tiff e estendeu-lhe a mão.
— Agradeço-lhe por sua atuação decidida,
cadete Tifflor. Você vingou o capitão Hawk e nos prestou um grande serviço. Se
não fosse você não saberíamos quem espalha a insegurança pelo espaço com nossos
destróieres roubados. O prisioneiro é este?
Eberhardt e o mestiço estavam um pouco
atrás de Tiff. Além da cor da pele não havia a menor diferença entre os mesmos,
pois ambos continuavam a envergar o leve terno pressurizado, embora sem o
capacete. E na academia dos espaçonautas não existiam diferenças raciais.
Por isso não era de admirar que Rhodan
apontasse para Eberhardt, que se encontrava ao lado do prisioneiro,
ligeiramente embaraçado. Tiff se esforçou para reprimir um sorriso.
— Perdão, este é o cadete Eberhardt, que
aprisionou o sobrevivente.
Rhodan apertou a mão de Eberhardt.
— Então é este? — disse, examinando
atentamente o mestiço. Aproximou-se dele. — Quem é você? E qual é a pessoa que
lhe dá ordens?
Nenhuma resposta.
Bell, que também cumprimentara os dois
cadetes, franziu a testa, bastante contrariado.
— Para que tudo isso? — perguntou. — Para
que servem nossos mutantes? John Marshall logo descobrirá o que há com ele.
Esse sujeito não conseguirá esconder seus pensamentos.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Cuide disso, Bell. Enquanto isso
converso com os nossos hóspedes. Avise-me assim que ele falar.
Bell aproximou-se do prisioneiro, fitou os
olhos inexpressivos do mesmo, sacudiu a cabeça, perplexo, e deu-lhe o braço. E
de braços dados, como se fossem grandes amigos, os dois homens saíram da sala.
Rhodan seguiu-os com os olhos; parecia pensativo. Depois de algum tempo voltou
a se dirigir a Tiff.
— Agora você vai contar minuciosamente o
que aconteceu. Quero conhecer todos os detalhes, mesmo os que pareçam não ter a
menor importância. Devemos encontrar algum indício.
Tiff começou a contar.
* * *
As emanações radiativas, cuja presença na
atmosfera terrestre data de 1945, produziram um efeito mais rápido do que os
cientistas haviam admitido. Quase diariamente nascera um mutante, sem que ninguém
tivesse percebido qualquer coisa dessa mudança paulatina. Só muitos anos mais
tarde começaram a ser descobertas faculdades extraordinárias em pessoas
aparentemente normais. De uma hora para outra surgiram os telepatas e os
telecinetas. Um homem desapareceu na África e apareceu no mesmo instante a três
mil quilômetros de distância; atravessara essa distância por teleportação.
Houve outra pessoa que captou emissões de rádio sem possuir qualquer aparelho
receptor. De repente o cérebro humano demonstrou capacidades que nunca possuíra
antes. Os mutantes começaram a surgir em todos os cantos da Terra, se bem que
poucos deles apresentassem alterações positivas. Isoladamente não representavam
qualquer perigo, mas se fossem reunidos sob uma disciplina rígida poderiam se
transformar numa força combatente bastante poderosa.
Rhodan não demorara a perceber o fato.
Enviara comandos de busca a todas as partes do mundo, especialmente ao Japão.
Dentro de poucos meses foi formado o Exército de Mutantes. Esse exército formava
a espinha dorsal das forças armadas de Rhodan.
Um desses mutantes era John Marshall. Suas
capacidades telepáticas permitiam-lhe dispensar qualquer detector de mentiras,
por mais sofisticado que fosse. Nenhum pensamento lhe ficava oculto, e a
experiência ensinara que Marshall sabia manter contato telepático até mesmo com
seres extraterrenos.
O prisioneiro que tinham diante de si era
um homem normal; ao menos à primeira vista parecia sê-lo. Quando John Marshall
penetrou nos seus pensamentos, não se defrontou com qualquer obstáculo. Mas
Marshall só conseguiu captar os pensamentos superficiais.
— Quem lhe deu ordem para atacar a
nave-escola Z-82? — perguntou John Marshall e fitou os olhos do mestiço.
Bell estava a seu lado e procurou dar-se
um ar de muito zangado. Mas o prisioneiro nem parecia perceber. Dispôs-se a
falar, mas acabou ficando calado. Alguma coisa o impedia de responder. Talvez
quisesse, mas evidentemente não podia.
Ishi Matsu, a telepata japonesa,
concentrara-se mais intensamente, talvez porque desconfiasse de que haveria
dificuldades.
— Está sofrendo um bloqueio hipnótico —
cochichou. — Suas recordações estão mergulhadas num campo energético hipnótico.
Não conseguiremos rompê-lo.
— Que tal um contra bloqueio? — sugeriu
Bell.
Ishi sacudiu a cabeça.
— Não acredito que adiante alguma coisa,
mas podemos tentar. André Noir seria o homem indicado para isso.
Poucos minutos depois, Noir, filho de
franceses radicados no Japão, entrou na sala e parou junto à porta. Com um ar
indiferente contemplou o prisioneiro. Era o chamado hipno do Exército de Mutantes. Tinha a
maior facilidade em penetrar na consciência de qualquer ser vivo e obrigá-lo a
submeter-se à sua vontade. Ninguém desconfiaria de que esse homem, que parecia
tão descansado, fosse um dos hipnotizadores mais eficazes do mundo.
André Noir se aproximou lentamente. Seus
olhos pensativos descansavam no prisioneiro. Sem olhar para Marshall ou Bell,
disse:
— Pode dizer seu nome, pois está entre
amigos. E diga também o nome de quem lhe dá ordens. Sei que está submetido a
coação, mas o senhor tem de me ajudar a remover essa coação, senão nunca será
um homem livre.
— Antes viver sob coação que deixar de
viver — disse o mestiço em tom hesitante.
Todos sentiram que alguém lhe colocara
essas palavras na boca.
— Uma vida livre é melhor — disse Noir em
tom insistente.
O prisioneiro não demonstrou a menor
reação.
Noir empenhou suas imensas energias
espirituais para romper o anel que alguém colocara em torno da consciência do
prisioneiro. John Marshall e Bell mantiveram-se numa atitude de muda
expectativa. A japonesinha delicada tinha o rosto transformado em máscara;
acompanhava o fenômeno em todos os detalhes.
Mais alguém entrou na sala
semi-obscurecida, quase sem ser percebido, e parou junto à porta.
Perry Rhodan.
Subitamente o encanto foi quebrado. O
prisioneiro arregalou os olhos, encarou seu interlocutor, perplexo, e abriu a
boca. Dela saiu uma série de palavras ininteligíveis, pronunciadas às pressas,
como se aquele homem estivesse com medo e tivesse que se apressar.
De repente passou a falar em inglês:
— ...atacar e destruir tudo... Ódio, um
ódio terrível... Domínio mundial... Mutantes... eu também... o Supercrânio...
— Quem é o Supercrânio? — gritou Rhodan,
que continuava parado junto à porta. Aproximou-se e fitou os olhos do
prisioneiro. Noir sacudiu a cabeça, desesperado, e fez um gesto como se
quisesse deter Rhodan.
— Supercrânio... — balbuciou o
prisioneiro. — O Supercrânio é...
Seu rosto se modificou numa rapidez
apavorante. Parecia que de repente o prisioneiro estava vendo alguma coisa
horrorosa e incompreensível. A dor parecia fustigar seu corpo. As pernas
começaram a se dobrar. Rhodan deu um salto e segurou-o na queda. Marshall veio
em seu auxílio. André não fez nada disso; recuou alguns passos.
— É tarde — murmurou. — O bloqueio
hipnótico foi muito forte. Mas não foi o bloqueio hipnótico que o matou. Foi um
comando hipnótico superpotente.
Colocaram o corpo imóvel do mestiço num
sofá. John Marshall inclinou-se para examiná-lo.
— Um comando hipnótico? — perguntou
Rhodan, olhando para Noir. — Quem deu esse comando?
— Não sei. Deve ter sido o tal do
Supercrânio.
— E qual foi o comando que transmitiu ao
nosso prisioneiro?
— Um comando de morrer. Ordenou-lhe
simplesmente que morresse. E o prisioneiro morreu.
— Uma coisa dessas é possível?
André Noir confirmou com um ar sério.
— Acredito que encontrei alguém que é
capaz de medir-se comigo — disse em tom sombrio.
Saiu sem aguardar resposta. Bell, que se
mantivera totalmente passivo junto à parede, aproximou-se de Rhodan.
— Sempre esse Supercrânio. Aí está a
prova. Nas últimas duas horas, assassinou duas pessoas, o capitão Hawk, e este
aqui, que afinal era um elemento do seu grupo.
— Ele comanda os mutantes que domina —
disse Marshall, que ainda se encontrava junto ao sofá. — No instante em que o
prisioneiro morreu, consegui penetrar por um segundo em seu espírito. Era um
mutante fraco e possuía memória fotográfica. Por isso foi capaz de pilotar o
destróier sozinho. Sem dúvida poderia ter contado alguma coisa bem interessante.
— Sem dúvida — confirmou Rhodan. — Foi por
isso que teve de morrer.
Franziu a testa e olhou para Marshall.
— Não conseguiu descobrir de que direção
vinham as emanações que o influenciaram?
— De que direção? O que quer dizer com
isso?
— É simples. Se o Supercrânio exercia uma
vigilância telepática sobre o prisioneiro, os impulsos hipnóticos por ele
emitidos devem ter vindo da mesma direção.
Talvez você possa me esclarecer a este
respeito.
— Noir pensou nisso enquanto deixava a
sala. Estava admirado porque os impulsos vinham de duas direções diversas:
exatamente do leste e do oeste.
Rhodan estacou.
— De duas direções ao mesmo tempo?! —
exclamou, espantado. — É estranho. Talvez não seja, pois afinal a Terra é
redonda. Mas quase chegaria a apostar que vinham exclusivamente de uma direção.
De cima. Ou será que Marte ainda se encontra embaixo da linha do horizonte?
John Marshall seguiu-o com os olhos,
silencioso, quando deixou a sala.
Bell apontou para o prisioneiro, que jazia
imóvel.
— Quer dizer que está morto?
— Isso mesmo — confirmou Marshall.
2
O
Tenente Becker comandava o posto de fronteira leste, formado de dez
postos de combate, próximos uns aos outros, equipados com canhões arcônidas de
nêutrons. Os postos estavam constantemente guarnecidos.
A companhia de guardas ficava a pouca
distância dali, numa área plana. Um pequeno cinema, um bar e uma piscina
constituíam as únicas distrações para os homens, a não ser que estes
preferissem usar o ônibus, que trafegava regularmente, para irem à cidade, onde
encontrariam oportunidade para se divertir ao gosto de cada um.
O sargento Harras acabara de anunciar a
Becker o regresso de seu grupo e mandara que os homens se dirigissem aos
alojamentos. Tinham oito horas livres diante deles. Só de noite voltariam a
montar guarda.
Um sol escaldante brilhava no céu. Não se
via qualquer nuvem. A melhor coisa que Harras pôde imaginar foi tirar quanto
antes o uniforme suado e dar um salto na piscina, onde ficaria até que a fome o
tangesse para a cantina.
Vestindo apenas um calção, saiu do quarto
que compartilhava com dois outros sargentos, andou tranqüilamente por cima do
gramado ralo e parou à beira da piscina. Respirou o cheiro vivificante da água
em que trinta homens se debatiam alegremente, esquecidos de que se encontravam
num deserto quase totalmente ressequido. Gritavam piadas uns para os outros e
não pouparam Harras.
— Está com medo? — berrou alguém perto
dele e bateu contra a água, levantando um verdadeiro esguicho que atingiu
Harras. — Entre, seu sapo.
Subitamente o sargento Harras hesitou.
Ainda há um instante a perspectiva de saltar no líquido frio o alegrara, mas
agora alguma coisa parecia segurá-lo. Mas o desejo de se refrescar era mais
forte que todos os pressentimentos sombrios. Deu um passo para a frente e deixou
que seu corpo robusto caísse na água.
— A piscina está transbordando! — gritou
alguém ironicamente.
Harras não o ouviu mais. Deixou-se afundar
e se sentiu feliz por não ouvir qualquer voz. Por um instante agradeceu ao
destino pelo instante de solidão.
Pensamentos e desejos estranhos se
apoderaram dele, afastando seu eu normal.
Sentiu uma pressão estranha em algum ponto da cabeça. Uma estranha ansiedade se
apossou de seu coração. Talvez tivesse segurado a respiração por muito tempo.
Deu um empurrão no fundo e subiu à tona. O
quadro com que se deparou parecia confirmar suas suposições mais inconcebíveis.
Seus companheiros dirigiam-se às pressas para a beira da piscina e saíam da
água. Ninguém dizia uma palavra. Parecia que nos poucos instantes em que estivera
embaixo da água alguém lhes dera um comando. Um comando para que saíssem
imediatamente da piscina.
O tenente Becker surgiu na saída do
edifício. Agitava os braços e gritava alguma coisa que Harras não entendia.
Mas sabia o que Becker havia gritado...
— Alarma! Entrar em forma. Equipar-se para
a luta.
O sargento Harras correu para o quarto, envergou
o uniforme, afivelou o radiador portátil e correu para a praça de reuniões.
Metade da companhia já se encontrava lá. Do lado dos postos de fronteira vieram
os veículos de esteira. Espantado, Harras constatou que os radiadores de
nêutrons haviam sido retirados dos postos de combate e montados nos veículos. A
fronteira estava desguarnecida. Talvez os robôs arcônidas se incumbissem da
vigilância.
O tenente Becker não se preocupou com o
fato de que a companhia não estava toda reunida. Uma inquietação nervosa
parecia dominá-lo. Insistiu para que os oficiais subalternos se apressassem.
Mal os dez carros com os canhões entraram em forma, deu ordem para iniciar a marcha.
O sargento Harras percebeu que alguma
coisa não estava certa, porém, por mais que se esforçasse, não conseguia
concentrar seus pensamentos sobre aquilo que estava acontecendo. A pressão na
cabeça não diminuíra, mas se tornara ainda mais forte. Alguma coisa o obrigava
a pôr-se em marcha com gestos mecânicos.
O tenente Becker deslocou sua unidade em
direção aos estaleiros da Terceira Potência, situados no interior da área
interditada, a menos de dois quilômetros do lugar em que se encontravam. Os
canhões de radiação neutrônica iam à frente, com os canos apontados
horizontalmente. Os artilheiros estavam sentados atrás dos controles, prontos
para disparar a qualquer momento.
Por um instante, Harras teve idéia de
perguntar ao homem que ia a seu lado o que havia acontecido, mas, quando viu os
lábios estreitados do mesmo, desistiu do seu intento. Devia ser uma coisa
horrível.
Mas tudo isso era uma tolice rematada...
Teve sua atenção desviada. Três veículos,
vindos dos estaleiros, aproximaram-se da coluna, levantando uma espessa nuvem
de poeira. Pararam e deixaram descer nove robôs de combate dos arcônidas.
“São
reforços”, pensou Harras aliviado, mas ainda preocupado.
Tal qual seus companheiros, havia-se
acostumado com a idéia de ver nesses homens mecânicos sofisticados seus amigos
e aliados. Ajudavam-nos a proteger a Terceira Potência contra qualquer
atacante.
O tenente Becker fez uma coisa totalmente
incompreensível. Deu ordens para que os robôs fossem destruídos. Os veículos
com os canhões formaram um semicírculo em cujo foco estavam os robôs.
Harras não conseguiu pegar sua arma
manual. Sabia que a ordem dada por Becker era absurda, mas não tinha forças
para se opor à mesma. Manteve-se em atitude passiva; foi o máximo que conseguiu
fazer.
Pelos cantos dos olhos viu que com outros
soldados se passava coisa semelhante. Hesitavam em cumprir as ordens de Becker.
“Isso
é um motim declarado”, pensou o sargento Harras tomado de pavor. “Um motim contra Perry Rhodan e contra os arcônidas.
Um motim contra o exército onipotente dos robôs.”
O primeiro canhão emitiu um raio de
energia concentrada contra os robôs desprevenidos, dando início à batalha
absurda. Quatro dos nove homens mecânicos caíram, semiderretidos, permanecendo
imóveis, estendidos na areia escaldante do deserto. Os outros esboçaram uma
reação instantânea; o pensamento positrônico não conhecia o segundo de pavor.
Foram atacados, e pouco lhes importava
quem era o atacante. Seus braços esquerdos levantaram-se e assumiram uma
posição horizontal. O relê embutido em seus ventres deu um estalo, liberando a
ligação de emergência, através da qual lhes era concedida permissão para
disparar contra seres humanos. O braço esquerdo transformou-se num canhão de
radiação em miniatura.

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