domingo, 11 de novembro de 2012

P-026 - Duelo de Mutantes - Clark Darlton [parte 1]



Autor
CLARK DARLTON


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN






Os primeiros ataques do Supercrânio foram repelidos. A Terceira Potência provou sua solidez.
Mas o pavoroso inimigo continua de posse de seu quartel-general, de onde pode lançar novos ataques contra a Terceira Potência ou outros Estados. A tarefa mais urgente de Perry Rhodan consiste em localizar essa central e arrebatar as armas do Supercrânio, pois só assim conseguirá evitar o caos.
Perry Rhodan coloca em campo os seus mutantes, que se defrontam com inimigos que nada lhes ficam a dever em capacidade. O Duelo de Mutantes é deflagrado.







= = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = =

Perry RhodanChefe supremo da Terceira Potência.

Reginald BellMinistro da segurança da Terceira Potência.

Clifford MonternyApelidado de Supercrânio.

Julian Tifflor e Klaus EberhardtDois cadetes da Academia Espacial.

Tatiana MichalovnaUma jovem muito perigosa.

André Noir, John Marshall, Betty ToufryOs membros mais importantes do Exército de Mutantes da Terceira Potência.

GuckyUma criatura vinda do planeta Vagabundo.



1



A menos de quinhentos metros de altura, a nave-escola em forma de torpedo da Academia Espacial corria vertiginosamente sobre a superfície vermelha e desértica de Marte, desviando-se agilmente dos cumes da longa cadeia de montanhas. O capitão Hawk, um dos instrutores mais competentes, estava sentado diante de seus controles e mostrava aos alunos que mesmo uma nave de grandes dimensões, habilmente manejada, é capaz de se desviar de qualquer obstáculo.
A nave-escola Z-82 tinha cerca de trinta metros de comprimento e oferecia lugar apenas para três tripulantes. Era capaz de alcançar a velocidade da luz.
O cadete Klaus Eberhardt estava sentado à esquerda do observador e procurava memorizar as inúmeras manipulações dos instrumentos. Não era bobo; pelo contrário, possuía um elevado grau de inteligência. Mas ele mesmo não negaria que tinha certa dificuldade em compreender. Isso não acontecia sempre; de forma alguma. Mas geralmente acontecia nos momentos mais inoportunos. Era esse seu único defeito.
À direita do instrutor, estava sentado outro cadete. Ao contrário de Eberhardt era alto e esbelto, quase magro. Uma cabeleira castanho-escura encimava o rosto oval, onde dois olhos castanhos esboçavam um sorriso meigo, um pouco tímido. Sem que o percebesse, o cadete Julian Tifflor, que seus amigos e colegas chamavam apenas de Tiff, enganava os que o cercavam. Atrás daqueles olhos sonhadores escondia-se a energia de uma pequena bomba atômica. Apesar dos seus vinte anos, Tiff era um gênio matemático e um exemplar de coragem e resolução. Era um dos melhores alunos da instituição.
O capitão Hawk apontou obliquamente para a frente.
— Estão vendo aquela montanha? Chegarei o mais próximo possível antes de desviar a nave. Observem o poder de reação da Z-82. É claro que no espaço vazio esse poder é um pouco menor, porque nas proximidades da superfície a resistência da atmosfera ajuda na direção.
— Ah! — disse o cadete Eberhardt e acenou a cabeça para Tiff, que, sorrindo em silêncio, colocou as mãos sobre os controles simulados, para tentar esboçar sua reação no mesmo instante em que o instrutor o fizesse. Os instrumentos eletrônicos mediriam e registrariam qualquer movimento que executasse.
Eberhardt seguiu o exemplo do colega.
O cume da montanha aproximou-se a uma velocidade vertiginosa. Realmente parecia que a nave iria bater em cheio na rocha nua e avermelhada. No entanto, literalmente no último segundo, entrou numa curva quase imperceptível, passou junto à formação rochosa e subiu para o céu azul-escuro, onde já se viam as primeiras estrelas.
— Foi por pouco — disse o cadete Eberhardt, reclinando-se no assento. — Acho que eu nunca tentaria uma manobra dessas, a não ser que isso fosse absolutamente necessário.
— Devemos estar em condições de enfrentar qualquer situação — observou o capitão Hawk, olhando para o relógio. — Está na hora de voltarmos à Terra.
— É mesmo — disse Tiff em tom pensativo. — Pedi licença para hoje de noite.
Hawk lançou-lhe um olhar de recriminação.
— Nas horas de serviço não se deve pensar no prazer, cadete Tifflor. Ainda temos diante de nós um vôo de regresso bastante cansativo.
— Esse trechinho? — respondeu Tiff em tom de desprezo. — Com a Z-82 não levaremos mais de uma hora.
— Não pretendo acelerar até atingir a velocidade da luz, embora isso fosse perfeitamente possível. Dentro de três horas pousaremos em Terrânia.
Desta vez o capitão Hawk estava muito enganado, mas não poderia mesmo saber. Porém, se tivesse levado em consideração a folga noturna de Tifflor, possivelmente tudo teria sido diferente e os acontecimentos do dia seguinte seriam completamente outros.
— Já fez os cálculos? — perguntou Hawk. — Suponhamos que nosso piloto robotizado falhou, e que o senhor tem de encontrar o curso que mais rapidamente o conduza de volta à Terra. E isso sem instrumentos, partindo do lugar em que nos encontramos. Quanto tempo levará?
Tiff suspirou e olhou para trás. Na escotilha viu Marte, cujo tamanho diminuía a olhos vistos.
Na escotilha dianteira, a Terra apareceu como uma pequenina estrela cinza-azulada. Era perfeitamente reconhecível. Tiff soltou um suspiro desanimado e sacudiu os ombros.
— É claro que o cálculo da rota não é fácil, mas pode ser feito. Mas, na minha opinião, é totalmente supérfluo. Com a velocidade que estamos desenvolvendo podemos perfeitamente realizar um vôo visual.
O capitão Hawk começou a agitar os braços.
— Cadete Tifflor, não se esqueça de que se encontra numa nave-escola. Sei perfeitamente que podemos realizar um vôo visual, mas não é disso que se trata. Quero saber se o senhor é capaz de se orientar sem instrumentos num espaço desconhecido. Portanto, comece logo a calcular.
Tiff lançou um olhar melancólico em direção ao planeta Marte, que se desvanecia. De repente viu que o quadro que se oferecia pela escotilha estava modificado. Também a Terra deslocou-se lateralmente, saindo do campo de visão. Hawk havia deixado que a Z-82 corresse sem rumo, para dificultar a tarefa que Tiff tinha de cumprir.
Não devia ter feito isso. Mas, quem é que conhece o futuro? O capitão Hawk, pelo menos, não o conhecia. A Z-82 deslocava-se a uma velocidade vertiginosa, acelerando constantemente. Não se sentia qualquer pressão, pois os campos gravitacionais automáticos compensavam qualquer modificação da rota ou da velocidade.
Numa expressão de compaixão, Eberhardt contemplou Tiff quando este se pôs a lançar algarismos numa folha de papel. Confortavelmente reclinado em sua poltrona, o capitão Hawk deixou que a nave disparasse pelo espaço afora, sem se preocupar com a trajetória. Dali a pouco seu aluno teria de recolocar a Z-82 na rota correta e, mais tarde, fazê-la pousar em segurança.
Ninguém se preocupou com os instrumentos.
Ninguém, com exceção de Eberhardt.
Mas, infelizmente, foi mais uma vez sua lentidão que lhe causou problemas. Se comparadas com as de um cidadão normal do planeta Terra — e convém que isto fique bem claro — suas reações ainda eram bem rápidas. Apenas, era muito lento para preencher as qualidades de um bom piloto espacial.
E foi por isso que levou dez segundos vitais para perceber a reação do rastreador. Tratava-se de um instrumento que emitia constantemente ondas de radar em todas as direções, registrando os reflexos que ocorressem. O alcance do instrumento era relativamente reduzido, e por isso tais reflexos se tornavam bastante raros no espaço livre. Só surgiam quando um asteróide ou um meteorito de grandes dimensões passasse nas proximidades da nave; ou quando outra nave se encontrava nas vizinhanças.
O cadete Eberhardt estendeu o braço, apontando para a minúscula tela que se via por cima da escala do rastreador.
— Apareceu alguma coisa — disse. — Parece ser bem grande.
O capitão Hawk levantou-se preguiçosamente e, perplexo, fitou o instrumento. Na pequenina tela viu-se uma mancha quase redonda, que crescia rapidamente. O objeto vinha em sua direção.
De um salto, Hawk pôs-se de pé. Seus olhos correram velozmente sobre os dados projetados na escala; depois sacudiu a cabeça.
— Um destróier? Não é possível! Nosso destróier é o único que se encontra entre Marte e Terra. Se não modificarmos nossa rota, estará aqui dentro de poucos segundos. Vejam, está desacelerando. Que coisa estranha!
A figura esguia da nave gêmea já se tornara visível mesmo a olho nu. Descreveu uma curva bem ampla e voltou a se aproximar, vinda da frente.
— Quem sabe se a Terceira Potência... — principiou Tiff, mas o capitão Hawk sacudiu a cabeça.
— Segundo o último comunicado do rádio, transmitido pela academia, não há nenhuma nave de Perry Rhodan no espaço. Somos os únicos. Se não conhecesse tão bem esse tipo de nave...
Não chegou a prosseguir.
Uma luz ofuscante surgiu pela frente. Um raio quase alaranjado saiu da proa do outro destróier e, tão rápido que o olho humano não poderia segui-lo, aproximou-se da Z-82.
O capitão Hawk não reagiu com a necessária rapidez, e também para Tiff o inesperado ataque foi rápido demais. Inclinou-se para a esquerda e bateu com o punho fechado sobre a chave, mas o envoltório energético formou-se com o atraso de uma fração de segundo.
A pontaria do artilheiro da outra nave era péssima; foi uma sorte. Foi uma sorte para a Z-82, mas de nada valeu ao capitão Hawk.
O raio energético disparado pelo inimigo não chegou a penetrar na capa protetora da proa da Z-82; mas parecia que a nave havia batido contra uma muralha sólida. O impacto foi tamanho que mesmo os neutralizadores de pressão revelaram-se praticamente inúteis. A força do impacto fez com que o capitão Hawk fosse arrancado do assento e projetado, com toda força e de cabeça, contra o painel de controle do cérebro eletrônico encarregado da navegação.
Tiff foi atirado para a frente, mas conseguiu amortizar o impacto, estendendo rapidamente as mãos. Destrancou ambos os pulsos, o que nem chegou a perceber no momento.
O cadete Eberhardt teve mais sorte. Foi o único que colocara e afivelara o cinto de segurança, que geralmente não costumava ser usado. O cinto quase o corta em dois, mas evitou que tivesse destino idêntico ao de Hawk. Evidentemente Eberhardt teria levado um segundo e meio para lembrar-se de pôr as mãos à frente do corpo, o que seria demais.
Um olhar bastou para que Tiff visse que seu instrutor estava morto. Os instrumentos do painel haviam esfacelado seu crânio. Mas não teve tempo para cuidar do morto. Havia coisa mais importante a fazer.
Depois do ataque aparentemente frustrado, a nave inimiga descreveu uma curva e voltou a se aproximar em vôo frontal. Com um salto, Tiff colocou-se na poltrona do instrutor, agora vazia, e assumiu os controles. Desviou-se numa curva fechada para a direita, acelerou e lançou-se ao ataque contra o desconhecido. Enquanto fazia isso, as idéias mais fantasiosas passavam pela sua mente.
Quem seria o piloto do destróier que os estava atacando? Não podia ser ninguém da Academia Espacial; a hipótese era totalmente inconcebível. E também era inconcebível que uma nave da Terceira Potência se pusesse a derrubar suas próprias naves.
Mas quem seria?
Tiff não sabia que o maior inimigo de Perry Rhodan havia roubado três destróieres, que estavam sendo tripulados por homens transformados em simples instrumentos, destituídos de vontade própria, que haviam recebido ordem para atirar contra qualquer coisa que trouxesse alguma indicação de pertencer à Terceira Potência.
Tiff ignorava tudo isso. Sabia apenas que um desconhecido o havia atacado com uma nave muito conhecida e quase chegara a dar cabo dele. Seria totalmente inútil tentar a fuga, pois o inimigo poderia desenvolver a mesma velocidade da Z-82. Além disso, a possibilidade de fugir e deixar para trás um enigma sem solução não agradava ao temperamento de Tiff.
A reação da nave inimiga não foi muito rápida. Numa curva que quase chegava a ser elegante, Tiff conseguiu colocar a Z-82 numa posição tal que a proa apontava diretamente para a popa flamejante da nave tripulada pelo desconhecido. Conforme soubera do ensinamento teórico, ali ficava o único ponto vulnerável do destróier. Naquele ponto o campo protetor tinha uma espécie de furo, pois de outra maneira os raios propulsores seriam refletidos sobre o campo.
Os olhos de Tiff procuraram e encontraram a chave vermelha do canhão neutrônico, que se tornara célebre em tantas horas de vôo. Nunca pudera tocar nessa chave, quanto menos acioná-la. Em caso de necessidade, sempre fizera questão de ressaltar o capitão Hawk, essa chave põe a funcionar uma arma mortífera, cujos efeitos...
Surgira o caso de necessidade.
O cadete Julian Tifflor não mais se sentia preso a qualquer regulamento. Estava agindo em legítima defesa.
À medida que a velocidade da Z-82 aumentava, a popa do outro destróier ia se aproximando. Tiff colocou a mão sobre a chave vermelha e, num movimento instantâneo, puxou-a para fora.
Um segundo.
Dois segundos.
O raio energético alaranjado precipitou-se para fora da proa e rompeu os chamejantes raios propulsores do inimigo. Com uma velocidade próxima à da luz, penetrou nos bocais dos jatos e roeu o maquinismo, até atingir a sala de máquinas, onde se situava o reator arcônida.
Depois de três segundos, Tiff soltou a chave vermelha e descreveu uma curva fechada com a Z-82. Numa velocidade vertiginosa, embora parecesse que ambas as naves estavam paradas, passou rente ao destróier atingido.
Fascinado, Tiff observou os efeitos do disparo.
De início, um vazamento formara-se na popa do destróier; nas bordas do mesmo o fogo começou a se espalhar. Surgiu uma coroa de fogo que, subitamente, foi apagada pelo impacto de uma explosão silenciosa. A popa se esfacelou e uma força invisível atirou os destroços em todas as direções. A parte interior da nave parecia se desprender do resto, com uma tendência a se tornar independente. O envoltório externo rompeu-se. As fortes paredes metálicas deformaram-se, como se fossem feitas de lata.
O destróier quebrou no meio.
O inimigo estava praticamente destruído.
Tiff respirou aliviado. Só depois disso teve tempo para cuidar do instrutor e de seu colega.
O capitão Hawk jazia contorcido entre o assento do piloto e a parede dianteira da cabina. Não havia a menor dúvida de que estava morto. Apesar disso Tiff não deixou de examiná-lo, mas o resultado apenas confirmou suas suposições. O cadete Eberhardt, que estivera sentado bem quieto perto de Tiff, sem poder fazer nada, foi se recuperando do choque. A primeira observação que soltou foi típica de seu temperamento.
— Agora estamos sem professor. Como faremos para voltar?
Tiff reprimiu a contrariedade.
— Até parece que se esqueceu de que já temos algumas horas de vôo. Além disso, já calculei a rota. Dentro de duas horas pousaremos na Terra. Apenas lhe peço que me ajude a levar o capitão Hawk ao camarote.
Colocaram o instrutor morto sobre a cama e cobriram-no. Encontraria seu último descanso em sua cidadezinha natal. Mas seus alunos nunca o esqueceriam quando, comandando orgulhosamente as naves espaciais, vagassem pelas amplidões do espaço cósmico. Deviam tudo aquilo que eram e que sabiam fazer a um homem, o capitão Hawk.
Nesse meio tempo a proa desgovernada só se desviara ligeiramente para o lado. Dali a pouco penetraria no círculo de asteróides.
Tiff contemplou os destroços com os olhos semicerrados.
A proa estava intacta, não apresentando qualquer vestígio de destruição. Em compensação, o lado oposto assemelhava-se a um campo de destroços. Peças derretidas da cabina e placas de envoltório semi-gaseificadas emergiam por entre as bordas entrecortadas. Ao lado dela, certas peças avulsas, cuja finalidade não mais podia ser reconhecida, acompanhavam a trajetória da nave.
Em meio a esses destroços devia haver uma cabina intacta, na qual os inimigos desconhecidos estariam encerrados em situação desesperadora. Talvez possuíssem armas manuais, mas elas só poderiam ser usadas se alguém se aproximasse deles.
Era exatamente o que Tiff pretendia fazer. Dirigindo-se a Eberhardt, disse:
— Vamos dar uma olhada nesses camaradas que queriam nos mandar para o inferno?
Enquanto proferia estas palavras, aproximou a trajetória da Z-82 dos destroços da outra nave. Lançou um olhar bastante expressivo para o armário de parede, examinou os controles remotos e murmurou:
— Um de nós deve enfiar um traje pressurizado, sair pela comporta de nossa nave e dar uma olhada no que está se passando por lá.
— É verdade — confirmou Eberhardt em tom sério. — Um de nós deve fazer isso.
Tiff esperou. Mas esperou em vão. Eberhardt não tinha mais nada a dizer sobre o assunto. E o que dissera fora bem pouco. Suspirou. Tudo ficaria por conta dele.
— Quem vai fazer isso é você, cadete Eberhardt. Vamos logo! Enfie seu terno e faça a baldeação. Leve um radiador portátil, para estar prevenido se do lado de lá a porta estiver emperrada.
— Eu? — o cadete Eberhardt arregalou os olhos. — Quer que eu saia sozinho da nave e prenda aqueles bandidos? Escute aí, cadete Tifflor, eu sou um piloto espacial; não pertenço ao F.B.I.
— Comandante Tifflor, por obséquio — retificou Tiff e deu uma expressão autoritária ao seu rosto. — E procure se apressar, nem que seja só desta vez.
Eberhardt sacudiu os ombros, levantou-se preguiçosamente e tirou um radiador de impulsos do armário de armamentos. Todas as naves de treinamento da academia estavam equipadas com essa arma mortal, que funcionava segundo princípios arcônidas. Lançou um último olhar de desespero para Tiff, à espera de um gesto de compaixão, balançou nervosamente o corpo e saiu. Parou na porta.
— Matarei esses bandidos para vingar Hawk — disse em tom triunfal. — Eu sozinho. E você, o que vai fazer?
— Farei com que nada de mal lhe aconteça — asseverou Tiff tranqüilamente, apontando para a chave vermelha do canhão neutrônico. — Ao menos tentarei.
Eberhardt engoliu seco e deixou a cabina sem mais comentários. Tiff esperou que a luz verde se iluminasse, antes de pôr a funcionar a comporta.
A Z-82 estava flutuando, aparentemente imóvel, a menos de dez metros dos destroços. Num certo instante Tiff acreditou ter percebido um movimento atrás de uma das escotilhas do que restava da nave inimiga. Mas talvez fosse engano. Não, ali estava de novo. Reconheceu perfeitamente os contornos de uma figura humana. Uma luz débil surgiu no mesmo lugar. Naturalmente aquela gente já não dispunha de eletricidade, e por isso tinha de se contentar com o suprimento das pilhas. Se é que dispunham de alguma, além das lanternas de bolso. A instalação de rádio também havia sido destruída pela explosão.
Uma luz vermelha surgiu diante de Tiff. A comporta de ar estava vazia, e Eberhardt abrira a escotilha externa. As manobras em pleno espaço haviam sido treinadas várias vezes, mas desta vez era para valer. Além disso, ninguém sabia o que os esperaria naqueles destroços. Era bem possível que os piratas — Tiff acreditava que os desconhecidos fossem exatamente isso — tivessem os trajes pressurizados na cabina.
Eberhardt entrou no seu campo de visão. Preso a um cabo fino, flutuava perto de Tiff; aproximou-se lentamente dos destroços, que descreviam um movimento de rotação. A sombra atrás da escotilha da proa enrijeceu. Devia ter notado a pessoa que se aproximava.
Eberhardt absorveu o leve impacto que sofreu ao pousar no envoltório da nave destruída. Moveu-se lentamente até atingir a escotilha. Olhou bem no rosto de um homem, que o encarava com os olhos arregalados.
O estranho envergava um traje espacial, mas não estava com o capacete fechado. De pele escura, parecia um mestiço, mas Eberhardt não tinha certeza. De qualquer maneira, sentiu-se satisfeito ao ler no rosto do outro o susto e o pavor.
Acenou a cabeça para o estranho, com uma expressão de raiva no rosto; por uma medida de cautela mostrou-lhe seu radiador e deslocou-se cautelosamente em direção à parte destroçada da proa. Ao primeiro relance de olhos, percebeu que tinha diante de si parte do corredor que levava aos camarotes. Como por milagre a porta da sala de comando não havia sido danificada.
E agora?
Era claro que pretendia pegar o estranho vivo, pois a morte do mesmo não ajudaria ninguém. Afinal, era necessário descobrir quem era ele e qual era a pessoa que se encontrava atrás desse ataque inexplicável. Eberhardt segurou seu radiador portátil e bateu com a pesada coronha contra a porta. Três vezes.
Evidentemente não ouviu nada, pois não havia nenhuma atmosfera que pudesse conduzir o som. Mas a pessoa que se encontrava na cabina ouviria as pancadas.
Eberhardt encostou o capacete à porta e pôs-se a escutar. Se o desconhecido respondesse às batidas, as vibrações se transmitiriam ao ar que se encontrava no interior do capacete. Não demorou dez segundos e ouviu três batidas. O sujeito estava disposto a negociar.
Eberhardt agradeceu ao destino por ter prestado muita atenção nas aulas de telegrafia. Lembrou-se da observação irônica de que muitos dos cadetes não puderam se abster quando tiveram de aprender o alfabeto Morse. Para que servia esse alfabeto numa era em que as comunicações audiovisuais cobriam trajetos interplanetários?
Subitamente descobriu para que tinha aprendido aquilo.
Respondeu às batidas de forma quase automática:
— Feche o capacete e abra a porta apenas um pedacinho. Saia de costas e sem armas. Estou esperando.
Não houve qualquer resposta. Mas dali a um minuto a porta se abriu. Por pouco o ar que escapou do recinto não arrasta Eberhardt, mas ele se segurou num suporte oculto. Na mão direita empunhava o radiador de impulsos, engatilhado e apontado para a abertura da porta.
Viu em primeiro lugar um braço, que tateou cuidadosamente para trás; logo após surgiu a parte traseira de um traje espacial. Era do mesmo tipo usado pelos cadetes da academia. Logo, também devia ser...
Eberhardt praguejou por não ter se lembrado logo dessa possibilidade. Com um gesto rápido ligou o radiofone. Talvez o outro já estivesse pronto para receber sua mensagem.
Estava.
— ...bom, se me levasse de volta para Marte.
Eberhardt aguçou o ouvido. O homem queria ir para Marte? Teria vindo de lá? O que estaria acontecendo naquele planeta?
— Vire-se de frente e levante as mãos. O desconhecido obedeceu. Só agora Eberhardt pôde examinar melhor o rosto. Não se enganara. Era um mestiço. Falava um inglês perfeito.
— Onde estão os outros tripulantes?
A resposta surpreendeu Eberhardt:
— Estou sozinho.
O mestiço estava desarmado; via-se ao primeiro relance de olhos. Eberhardt ordenou-lhe que o deixasse passar e aguardasse. Foi à sala de comando da nave destroçada e certificou-se de que estava vazia. Realmente; o rapaz devia ter pilotado a nave sozinho. Era estranho.
Saiu da sala de comando e, satisfeito, notou que o outro não saíra do lugar.
— Vamos embora. Voe na minha frente. Está vendo a comporta aberta. Trate de entrar; mas não pense em tolices. Mantenho a arma apontada para você.
O desconhecido não respondeu; afastou-se com um ligeiro empurrão. Livre de toda força gravitacional, passou sobre a fresta e pousou um pouco ao lado da comporta, no casco da Z-82. Com um ligeiro movimento colocou-se no interior da comporta; ficou aguardando.
Eberhardt seguiu-o; não sabia o que pensar. Tinha a impressão de que a coisa fora fácil demais. Aquele sujeito devia saber que para ele as perspectivas não eram nada agradáveis. Por que havia deixado que o aprisionassem sem esboçar a menor resistência?
Tiff aguardou o prisioneiro na sala de comando. Esperou pacientemente até que o mestiço tirasse o capacete; estudou seu rosto. Ficou surpreso com a sinceridade espelhada no mesmo. Nos olhos lia-se um ligeiro espanto, aliado a um pouco de medo e indecisão. É bem verdade que também se notava uma certa teimosia. Os lábios estavam firmemente cerrados. O queixo enérgico e proeminente dava testemunho de uma dose elevada de coragem e energia, o que era contrariado pela maneira pela qual o homem se entregava ao seu destino.
— Você fala inglês? — perguntou Tiff, enquanto fazia sinal para que Eberhardt fechasse a porta que dava para o corredor.
O mestiço confirmou com um aceno de cabeça, mas não pronunciou uma palavra.
— Quem é você?
Ainda desta vez não houve resposta.
— Você nos atacou sem motivo — prosseguiu Tiff, enquanto seu espírito começava a ferver. Lembrou-se do capitão Hawk, que acabara de morrer. — Quero saber quem o mandou fazer isso, e por que fez.
— Não posso falar — murmurou o mestiço e logo cerrou os lábios, como se quisesse impedir que alguma palavra irrefletida saísse de sua boca.
— Então não pode falar? — disse Tiff espantado, enquanto os pensamentos se atropelavam em seu cérebro. Quem sabe se o acaso não os levara a se defrontar com um acontecimento muito importante? Já não acreditava que se tratasse de um simples ato de pirataria. Ninguém pensaria em encontrar tesouros numa nave-escola da Academia Espacial.
— Está bem. Outra gente o fará falar. Cadete Eberhardt, tranque o prisioneiro na cela e tire seu capacete. Tire todo o ar da sala de acesso à cela, para que toda e qualquer tentativa de fuga seja ilusória.
Estreitou os olhos e viu que o prisioneiro se deixava levar, indiferente, como se já não tivesse nada a ver com aquilo.
Aguardou ate que Eberhardt voltasse e o informasse de que o pirata estava bem trancafiado.
— Seguiremos rumo à Terra — decidiu Tiff. — Estabeleça contato com a central de comando e informe-a sobre o incidente. Acredito que estarão interessados em saber tudo.
Enquanto a Z-82, numa aceleração louca, se precipitava para o espaço, deixando os destroços da outra nave entregues ao seu destino, as ondas de rádio adiantaram-se à nave. Eberhardt relatou todos os detalhes do ataque, deu informações sobre a morte trágica de Hawk e sentiu-se muito surpreendido quando, subitamente, foi interrompido por uma emissora muito forte. Uma voz um tanto nervosa perguntou:
— Como era a nave que atacou a sua?
Eberhardt reagiu com uma rapidez surpreendente.
— Foi um destróier do mesmo tipo do nosso. Não sabemos como explicar o incidente.
— Capturaram um prisioneiro?
— Isso mesmo. Afinal, quem é o senhor?
— Sou do setor de segurança da Terceira Potência. Reginald Bell.
— Só podia ser — disse Eberhardt em tom resignado. — O setor de segurança tem suas orelhas em toda parte.
— Graças a Deus! — retrucou Bell e acrescentou: — Continue ligado para a recepção. Terei que transmitir a informação a outra pessoa. E possível que Perry Rhodan queira entrar em contato com você.
Ouviu-se um estalo no alto-falante; depois só restou um zumbido. Um tanto espantado, Eberhardt dirigiu-se a Tiff:
— Esse Reginald Bell! Tem que meter o nariz em tudo.
Tiff provou que também sabia reagir rapidamente. Lançando um último olhar para a fileira de instrumentos, ligou o piloto automático, que manteria o destróier na rota. Levantou-se e aproximou-se de Eberhardt.
— Tomarei conta disso — disse em tom indiferente. — Veremos o que estão querendo de nós. Fique de olho no rastreador, para que não nos peguem de surpresa mais uma vez. Tenho a impressão de que há algo de errado em tudo isso.
Nem desconfiava de que essa afirmativa era totalmente correta.

* * *

Anos atrás, o primeiro foguete espacial tripulado decolou com destino à Lua e pousou no satélite. Naquela oportunidade ninguém desconfiava de que com isso teria início uma nova época da história da Humanidade. O major Rhodan, comandante da expedição, encontrou na Lua alguns representantes dos arcônidas, uma raça humanóide que regia um império estelar situado a 34.000 anos-luz de distância. Prestou ajuda à expedição frustrada e esta o recompensou com o extenso saber de sua raça, que há milênios conhecia os segredos da navegação espacial. Com o auxílio dos arcônidas, Perry Rhodan instalou na Terra a Terceira Potência, impediu a guerra nuclear e, nessa altura dos acontecimentos, esforçava-se para alcançar a união definitiva do mundo.
Seu quartel-general achava-se instalado na cidade de Terrânia, situada em pleno deserto de Gobi. Terrânia era a metrópole mais moderna do mundo e encerrava em seu seio o saber e a tecnologia de milênios. Em caso de necessidade a cidade e as instalações nela existentes podiam ser isoladas do mundo exterior por meio de uma abóbada energética. Um exército formado por dez mil soldados e robôs cuidava da segurança da Terceira Potência.
Reginald Bell, ministro da segurança e um dos homens que haviam acompanhado Perry Rhodan na primeira viagem à Lua, aguardou pacientemente até que a tela de quase dois metros de altura se iluminasse. Uma escrivaninha surgiu na mesma. Atrás dela estava sentado um homem. Quase chegava a ser magro, seu cabelo castanho-escuro era liso e estava penteado para trás; possuía um par de olhos cinza-azulados que pareciam chispar fogo. Embora já não fosse tão jovem, Perry Rhodan não aparentava mais de trinta anos. E conservaria esse aspecto para sempre, pois o saber inconcebível de uma raça há muito desaparecida tornara-o quase imortal. A cada sessenta e dois anos teria que visitar o planeta da vida eterna, onde estava instalada a misteriosa ducha celular que lhe conferiria a juventude por mais seis decênios.
Também Reginald Bell estivera no planeta Peregrino e, tal qual Rhodan, obtivera o tratamento da conservação celular.
— Um dos destróieres roubados apareceu, Rhodan — disse Bell. Seus olhos chispavam de nervosismo contido. — Atacou uma nave-escola da academia.
Perry Rhodan ergueu as sobrancelhas.
— Onde?
— Nas proximidades de Marte. Felizmente um dos cadetes teve bastante presença de espírito para destruir a nave atacante, depois que o instrutor tinha sido morto. Capturou um prisioneiro.
De repente Rhodan demonstrou bastante interesse.
— Um prisioneiro?
— Foi por isso que me comuniquei com você. Pensei que gostaria de dar uma olhada no sujeito.
— Onde está o prisioneiro?
— No momento está na cela da nave-escola Z-82. Aguarde um momento. Eu o colocarei em contato com o destróier. Assim você poderá falar pessoalmente com o cadete. A nave está a caminho da Terra.
Alguns segundos depois, o cadete Julian Tifflor anunciou-se pelo rádio. Relatou mais uma vez em palavras lacônicas, mas precisas, o incidente pelo qual havia passado, e aguardou. Perry Rhodan refletiu sobre o que acabara de ouvir e disse:
— Como é mesmo seu nome?
— Cadete Julian Tifflor.
— Muito bem. Você pousará no espaçoporto de Terrânia e me apresentará um relato pessoal. Sua base será avisada. Cuide bem do prisioneiro; é muito importante para nós. O cadáver do capitão Hawk será trasladado para sua terra natal. Quando poderei contar com sua chegada?
— Dentro de oitenta minutos.
Na voz de Tiff havia respeito e veneração. Para ele Perry Rhodan não era apenas o chefe supremo da Academia Espacial; era principalmente uma figura lendária e distante. Onde estaria a Terra hoje se Perry Rhodan não tivesse conseguido utilizar o poder dos arcônidas? Talvez os homens já tivessem se destruído uns aos outros. Talvez nosso planeta nem existisse mais.
— Está bem, cadete Tifflor. Fico à sua espera.
Bell interrompeu a comunicação e instruiu os postos militares para que dentro de oitenta minutos facultassem o pouso do destróier Z-82 e fizessem conduzir os tripulantes imediatamente ao edifício do ministério da segurança. Depois voltou-se a Rhodan, cuja imagem em tamanho natural ainda era projetada na tela.
— Então, o que acha?
— Não tenho a menor dúvida; trata-se de um dos três destróieres que o Supercrânio nos roubou.
— Supercrânio; sempre ouço falar nele — resmungou Bell, assustado. — Quem dera que soubéssemos quem se esconde atrás desse apelido. Supercrânio, Supercabeça. Talvez não passe de uma cabeça d’água.
— Não acredito — disse Rhodan. — O Supercrânio é um sujeito muito inteligente, que resolveu se transformar na Quarta Potência do planeta Terra. Não será fácil impedi-lo de realizar seu intento. Até hoje não conseguimos estabelecer a identidade do grande desconhecido. Só sabemos que nos defrontamos com um inimigo dotado de uma enorme inteligência e falta de escrúpulos, que não recua nem mesmo diante de um assassínio. Interrogaremos o prisioneiro até descobrir tudo que desejamos saber a respeito desse desconhecido. Depois disso saberá quem eu sou. Se é que o prisioneiro vai prestar declarações — objetou Rhodan, enfatizando o se.
Bell soltou uma risada fria.
— Ele vai prestar declarações; nem tenha a menor dúvida. Afinal, para que serve André Noir?
— Não me refiro a qualquer resistência da parte dele — disse Perry Rhodan. — Mas é bem possível que o Supercrânio tenha adotado certas providências que o impeçam de prestar declarações, mesmo que se encontre sob influência hipnótica.
— Veremos — disse Bell para espantar as preocupações que surgiram em sua própria mente.

* * *

Para Tiff o primeiro encontro com Perry Rhodan foi um dos grandes momentos de sua vida. Então era este o salvador da Humanidade e o herói da juventude moderna, o lendário Perry Rhodan, que repelira a invasão dos deformadores individuais, expulsara os tópsidas do sistema Vega e salvara a Humanidade da destruição.
E esse homem estava sorrindo.
Para Tiff talvez fosse a maior surpresa de toda a vida, e mais tarde o mesmo reconheceu que, no primeiro instante, aquele sorriso o decepcionara um pouco.
Perto de Rhodan havia outro homem, que já conhecia de muitas fotos e telefilmes. Era Reginald Bell, ministro da segurança da Terceira Potência e o melhor amigo de Rhodan. Até Tiff sabia que Bell estava sorrindo, mas era um sorriso impaciente e insistente.
Tiff ficou em posição de sentido.
— O cadete Tifflor e o cadete Eberhardt estão de volta de um vôo de treinamento. Ocorrências especiais: ataque de um destróier, o capitão Hawk morto, inimigo destruído, um prisioneiro capturado.
De repente Rhodan não estava sorrindo mais. Dirigiu-se a Tiff e estendeu-lhe a mão.
— Agradeço-lhe por sua atuação decidida, cadete Tifflor. Você vingou o capitão Hawk e nos prestou um grande serviço. Se não fosse você não saberíamos quem espalha a insegurança pelo espaço com nossos destróieres roubados. O prisioneiro é este?
Eberhardt e o mestiço estavam um pouco atrás de Tiff. Além da cor da pele não havia a menor diferença entre os mesmos, pois ambos continuavam a envergar o leve terno pressurizado, embora sem o capacete. E na academia dos espaçonautas não existiam diferenças raciais.
Por isso não era de admirar que Rhodan apontasse para Eberhardt, que se encontrava ao lado do prisioneiro, ligeiramente embaraçado. Tiff se esforçou para reprimir um sorriso.
— Perdão, este é o cadete Eberhardt, que aprisionou o sobrevivente.
Rhodan apertou a mão de Eberhardt.
— Então é este? — disse, examinando atentamente o mestiço. Aproximou-se dele. — Quem é você? E qual é a pessoa que lhe dá ordens?
Nenhuma resposta.
Bell, que também cumprimentara os dois cadetes, franziu a testa, bastante contrariado.
— Para que tudo isso? — perguntou. — Para que servem nossos mutantes? John Marshall logo descobrirá o que há com ele. Esse sujeito não conseguirá esconder seus pensamentos.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Cuide disso, Bell. Enquanto isso converso com os nossos hóspedes. Avise-me assim que ele falar.
Bell aproximou-se do prisioneiro, fitou os olhos inexpressivos do mesmo, sacudiu a cabeça, perplexo, e deu-lhe o braço. E de braços dados, como se fossem grandes amigos, os dois homens saíram da sala. Rhodan seguiu-os com os olhos; parecia pensativo. Depois de algum tempo voltou a se dirigir a Tiff.
— Agora você vai contar minuciosamente o que aconteceu. Quero conhecer todos os detalhes, mesmo os que pareçam não ter a menor importância. Devemos encontrar algum indício.
Tiff começou a contar.

* * *

As emanações radiativas, cuja presença na atmosfera terrestre data de 1945, produziram um efeito mais rápido do que os cientistas haviam admitido. Quase diariamente nascera um mutante, sem que ninguém tivesse percebido qualquer coisa dessa mudança paulatina. Só muitos anos mais tarde começaram a ser descobertas faculdades extraordinárias em pessoas aparentemente normais. De uma hora para outra surgiram os telepatas e os telecinetas. Um homem desapareceu na África e apareceu no mesmo instante a três mil quilômetros de distância; atravessara essa distância por teleportação. Houve outra pessoa que captou emissões de rádio sem possuir qualquer aparelho receptor. De repente o cérebro humano demonstrou capacidades que nunca possuíra antes. Os mutantes começaram a surgir em todos os cantos da Terra, se bem que poucos deles apresentassem alterações positivas. Isoladamente não representavam qualquer perigo, mas se fossem reunidos sob uma disciplina rígida poderiam se transformar numa força combatente bastante poderosa.
Rhodan não demorara a perceber o fato. Enviara comandos de busca a todas as partes do mundo, especialmente ao Japão. Dentro de poucos meses foi formado o Exército de Mutantes. Esse exército formava a espinha dorsal das forças armadas de Rhodan.
Um desses mutantes era John Marshall. Suas capacidades telepáticas permitiam-lhe dispensar qualquer detector de mentiras, por mais sofisticado que fosse. Nenhum pensamento lhe ficava oculto, e a experiência ensinara que Marshall sabia manter contato telepático até mesmo com seres extraterrenos.
O prisioneiro que tinham diante de si era um homem normal; ao menos à primeira vista parecia sê-lo. Quando John Marshall penetrou nos seus pensamentos, não se defrontou com qualquer obstáculo. Mas Marshall só conseguiu captar os pensamentos superficiais.
— Quem lhe deu ordem para atacar a nave-escola Z-82? — perguntou John Marshall e fitou os olhos do mestiço.
Bell estava a seu lado e procurou dar-se um ar de muito zangado. Mas o prisioneiro nem parecia perceber. Dispôs-se a falar, mas acabou ficando calado. Alguma coisa o impedia de responder. Talvez quisesse, mas evidentemente não podia.
Ishi Matsu, a telepata japonesa, concentrara-se mais intensamente, talvez porque desconfiasse de que haveria dificuldades.
— Está sofrendo um bloqueio hipnótico — cochichou. — Suas recordações estão mergulhadas num campo energético hipnótico. Não conseguiremos rompê-lo.
— Que tal um contra bloqueio? — sugeriu Bell.
Ishi sacudiu a cabeça.
— Não acredito que adiante alguma coisa, mas podemos tentar. André Noir seria o homem indicado para isso.
Poucos minutos depois, Noir, filho de franceses radicados no Japão, entrou na sala e parou junto à porta. Com um ar indiferente contemplou o prisioneiro. Era o chamado hipno do Exército de Mutantes. Tinha a maior facilidade em penetrar na consciência de qualquer ser vivo e obrigá-lo a submeter-se à sua vontade. Ninguém desconfiaria de que esse homem, que parecia tão descansado, fosse um dos hipnotizadores mais eficazes do mundo.
André Noir se aproximou lentamente. Seus olhos pensativos descansavam no prisioneiro. Sem olhar para Marshall ou Bell, disse:
— Pode dizer seu nome, pois está entre amigos. E diga também o nome de quem lhe dá ordens. Sei que está submetido a coação, mas o senhor tem de me ajudar a remover essa coação, senão nunca será um homem livre.
— Antes viver sob coação que deixar de viver — disse o mestiço em tom hesitante.
Todos sentiram que alguém lhe colocara essas palavras na boca.
— Uma vida livre é melhor — disse Noir em tom insistente.
O prisioneiro não demonstrou a menor reação.
Noir empenhou suas imensas energias espirituais para romper o anel que alguém colocara em torno da consciência do prisioneiro. John Marshall e Bell mantiveram-se numa atitude de muda expectativa. A japonesinha delicada tinha o rosto transformado em máscara; acompanhava o fenômeno em todos os detalhes.
Mais alguém entrou na sala semi-obscurecida, quase sem ser percebido, e parou junto à porta.
Perry Rhodan.
Subitamente o encanto foi quebrado. O prisioneiro arregalou os olhos, encarou seu interlocutor, perplexo, e abriu a boca. Dela saiu uma série de palavras ininteligíveis, pronunciadas às pressas, como se aquele homem estivesse com medo e tivesse que se apressar.
De repente passou a falar em inglês:
— ...atacar e destruir tudo... Ódio, um ódio terrível... Domínio mundial... Mutantes... eu também... o Supercrânio...
— Quem é o Supercrânio? — gritou Rhodan, que continuava parado junto à porta. Aproximou-se e fitou os olhos do prisioneiro. Noir sacudiu a cabeça, desesperado, e fez um gesto como se quisesse deter Rhodan.
— Supercrânio... — balbuciou o prisioneiro. — O Supercrânio é...
Seu rosto se modificou numa rapidez apavorante. Parecia que de repente o prisioneiro estava vendo alguma coisa horrorosa e incompreensível. A dor parecia fustigar seu corpo. As pernas começaram a se dobrar. Rhodan deu um salto e segurou-o na queda. Marshall veio em seu auxílio. André não fez nada disso; recuou alguns passos.
— É tarde — murmurou. — O bloqueio hipnótico foi muito forte. Mas não foi o bloqueio hipnótico que o matou. Foi um comando hipnótico superpotente.
Colocaram o corpo imóvel do mestiço num sofá. John Marshall inclinou-se para examiná-lo.
— Um comando hipnótico? — perguntou Rhodan, olhando para Noir. — Quem deu esse comando?
— Não sei. Deve ter sido o tal do Supercrânio.
— E qual foi o comando que transmitiu ao nosso prisioneiro?
— Um comando de morrer. Ordenou-lhe simplesmente que morresse. E o prisioneiro morreu.
— Uma coisa dessas é possível?
André Noir confirmou com um ar sério.
— Acredito que encontrei alguém que é capaz de medir-se comigo — disse em tom sombrio.
Saiu sem aguardar resposta. Bell, que se mantivera totalmente passivo junto à parede, aproximou-se de Rhodan.
— Sempre esse Supercrânio. Aí está a prova. Nas últimas duas horas, assassinou duas pessoas, o capitão Hawk, e este aqui, que afinal era um elemento do seu grupo.
— Ele comanda os mutantes que domina — disse Marshall, que ainda se encontrava junto ao sofá. — No instante em que o prisioneiro morreu, consegui penetrar por um segundo em seu espírito. Era um mutante fraco e possuía memória fotográfica. Por isso foi capaz de pilotar o destróier sozinho. Sem dúvida poderia ter contado alguma coisa bem interessante.
— Sem dúvida — confirmou Rhodan. — Foi por isso que teve de morrer.
Franziu a testa e olhou para Marshall.
— Não conseguiu descobrir de que direção vinham as emanações que o influenciaram?
— De que direção? O que quer dizer com isso?
— É simples. Se o Supercrânio exercia uma vigilância telepática sobre o prisioneiro, os impulsos hipnóticos por ele emitidos devem ter vindo da mesma direção.
Talvez você possa me esclarecer a este respeito.
— Noir pensou nisso enquanto deixava a sala. Estava admirado porque os impulsos vinham de duas direções diversas: exatamente do leste e do oeste.
Rhodan estacou.
— De duas direções ao mesmo tempo?! — exclamou, espantado. — É estranho. Talvez não seja, pois afinal a Terra é redonda. Mas quase chegaria a apostar que vinham exclusivamente de uma direção. De cima. Ou será que Marte ainda se encontra embaixo da linha do horizonte?
John Marshall seguiu-o com os olhos, silencioso, quando deixou a sala.
Bell apontou para o prisioneiro, que jazia imóvel.
— Quer dizer que está morto?
— Isso mesmo — confirmou Marshall.

2



O Tenente Becker comandava o posto de fronteira leste, formado de dez postos de combate, próximos uns aos outros, equipados com canhões arcônidas de nêutrons. Os postos estavam constantemente guarnecidos.
A companhia de guardas ficava a pouca distância dali, numa área plana. Um pequeno cinema, um bar e uma piscina constituíam as únicas distrações para os homens, a não ser que estes preferissem usar o ônibus, que trafegava regularmente, para irem à cidade, onde encontrariam oportunidade para se divertir ao gosto de cada um.
O sargento Harras acabara de anunciar a Becker o regresso de seu grupo e mandara que os homens se dirigissem aos alojamentos. Tinham oito horas livres diante deles. Só de noite voltariam a montar guarda.
Um sol escaldante brilhava no céu. Não se via qualquer nuvem. A melhor coisa que Harras pôde imaginar foi tirar quanto antes o uniforme suado e dar um salto na piscina, onde ficaria até que a fome o tangesse para a cantina.
Vestindo apenas um calção, saiu do quarto que compartilhava com dois outros sargentos, andou tranqüilamente por cima do gramado ralo e parou à beira da piscina. Respirou o cheiro vivificante da água em que trinta homens se debatiam alegremente, esquecidos de que se encontravam num deserto quase totalmente ressequido. Gritavam piadas uns para os outros e não pouparam Harras.
— Está com medo? — berrou alguém perto dele e bateu contra a água, levantando um verdadeiro esguicho que atingiu Harras. — Entre, seu sapo.
Subitamente o sargento Harras hesitou. Ainda há um instante a perspectiva de saltar no líquido frio o alegrara, mas agora alguma coisa parecia segurá-lo. Mas o desejo de se refrescar era mais forte que todos os pressentimentos sombrios. Deu um passo para a frente e deixou que seu corpo robusto caísse na água.
— A piscina está transbordando! — gritou alguém ironicamente.
Harras não o ouviu mais. Deixou-se afundar e se sentiu feliz por não ouvir qualquer voz. Por um instante agradeceu ao destino pelo instante de solidão.
Pensamentos e desejos estranhos se apoderaram dele, afastando seu eu normal. Sentiu uma pressão estranha em algum ponto da cabeça. Uma estranha ansiedade se apossou de seu coração. Talvez tivesse segurado a respiração por muito tempo.
Deu um empurrão no fundo e subiu à tona. O quadro com que se deparou parecia confirmar suas suposições mais inconcebíveis. Seus companheiros dirigiam-se às pressas para a beira da piscina e saíam da água. Ninguém dizia uma palavra. Parecia que nos poucos instantes em que estivera embaixo da água alguém lhes dera um comando. Um comando para que saíssem imediatamente da piscina.
O tenente Becker surgiu na saída do edifício. Agitava os braços e gritava alguma coisa que Harras não entendia.
Mas sabia o que Becker havia gritado...
— Alarma! Entrar em forma. Equipar-se para a luta.
O sargento Harras correu para o quarto, envergou o uniforme, afivelou o radiador portátil e correu para a praça de reuniões. Metade da companhia já se encontrava lá. Do lado dos postos de fronteira vieram os veículos de esteira. Espantado, Harras constatou que os radiadores de nêutrons haviam sido retirados dos postos de combate e montados nos veículos. A fronteira estava desguarnecida. Talvez os robôs arcônidas se incumbissem da vigilância.
O tenente Becker não se preocupou com o fato de que a companhia não estava toda reunida. Uma inquietação nervosa parecia dominá-lo. Insistiu para que os oficiais subalternos se apressassem. Mal os dez carros com os canhões entraram em forma, deu ordem para iniciar a marcha.
O sargento Harras percebeu que alguma coisa não estava certa, porém, por mais que se esforçasse, não conseguia concentrar seus pensamentos sobre aquilo que estava acontecendo. A pressão na cabeça não diminuíra, mas se tornara ainda mais forte. Alguma coisa o obrigava a pôr-se em marcha com gestos mecânicos.
O tenente Becker deslocou sua unidade em direção aos estaleiros da Terceira Potência, situados no interior da área interditada, a menos de dois quilômetros do lugar em que se encontravam. Os canhões de radiação neutrônica iam à frente, com os canos apontados horizontalmente. Os artilheiros estavam sentados atrás dos controles, prontos para disparar a qualquer momento.
Por um instante, Harras teve idéia de perguntar ao homem que ia a seu lado o que havia acontecido, mas, quando viu os lábios estreitados do mesmo, desistiu do seu intento. Devia ser uma coisa horrível.
Mas tudo isso era uma tolice rematada...
Teve sua atenção desviada. Três veículos, vindos dos estaleiros, aproximaram-se da coluna, levantando uma espessa nuvem de poeira. Pararam e deixaram descer nove robôs de combate dos arcônidas.
São reforços”, pensou Harras aliviado, mas ainda preocupado.
Tal qual seus companheiros, havia-se acostumado com a idéia de ver nesses homens mecânicos sofisticados seus amigos e aliados. Ajudavam-nos a proteger a Terceira Potência contra qualquer atacante.
O tenente Becker fez uma coisa totalmente incompreensível. Deu ordens para que os robôs fossem destruídos. Os veículos com os canhões formaram um semicírculo em cujo foco estavam os robôs.
Harras não conseguiu pegar sua arma manual. Sabia que a ordem dada por Becker era absurda, mas não tinha forças para se opor à mesma. Manteve-se em atitude passiva; foi o máximo que conseguiu fazer.
Pelos cantos dos olhos viu que com outros soldados se passava coisa semelhante. Hesitavam em cumprir as ordens de Becker.
Isso é um motim declarado”, pensou o sargento Harras tomado de pavor. “Um motim contra Perry Rhodan e contra os arcônidas. Um motim contra o exército onipotente dos robôs.”
O primeiro canhão emitiu um raio de energia concentrada contra os robôs desprevenidos, dando início à batalha absurda. Quatro dos nove homens mecânicos caíram, semiderretidos, permanecendo imóveis, estendidos na areia escaldante do deserto. Os outros esboçaram uma reação instantânea; o pensamento positrônico não conhecia o segundo de pavor.
Foram atacados, e pouco lhes importava quem era o atacante. Seus braços esquerdos levantaram-se e assumiram uma posição horizontal. O relê embutido em seus ventres deu um estalo, liberando a ligação de emergência, através da qual lhes era concedida permissão para disparar contra seres humanos. O braço esquerdo transformou-se num canhão de radiação em miniatura.

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