— Então, por exclusão, só restam os homens
de Tomisenkow — disse Rhodan.
— O pessoal do Bloco Oriental? — Marshall
ainda mantinha a cabeça inclinada. — O que esses caras querem aqui?
— Caçar...
Rhodan foi interrompido por um novo tiro,
seguido dos estampidos de uma salva inteira. A resposta não se fez tardar; uma
fuzilaria irregular veio de uma outra direção. Aquilo não era uma caçada. Era
um combate entre dois grupos que se defrontavam na região. E isso alterava a
situação. Rhodan olhou pensativo para aquele paredão, que se erguia quase a
pique.
— Não vejo mais sentido em subir ao platô.
Se me reconhecem, acabam comigo em três tempos. Pois é a mim que devem sua
sorte atual; ao menos, é o que eles pensam. Por outro lado, eles possuem fuzis,
e com esses a gente pode caçar. Seu revólver foi útil, Marshall, mas também não
vai nos salvar por muito tempo. Portanto, um de nós vai ter que tentar
estabelecer contato com eles.
— Uma tarefa arriscada como quê! —
murmurou Okura. — Mas eu poderia tentar, porque eu consigo enxergá-los mais
cedo do que eles a mim.
— De noite, sim. Eu acho que devemos subir
juntos ao platô. Depois, resolvemos o que vamos fazer.
Enquanto arrumavam os seus pertences,
ainda ouviram alguns tiros esparsos. Embrulharam o resto da carne em folhas
secas, abasteceram-se de água e, finalmente, reduziram a fogueira sem, porém,
extingui-la.
— Será que não podíamos dormir mais
algumas horas? — quis saber Marshall. — Sei que estamos com pressa, mas também
não com tanta assim.
Rhodan inclinou a cabeça e aguçou os
ouvidos. Nenhum som veio do alto. O silêncio reinava novamente naquele platô.
Rhodan acenou.
— De acordo. Mais cinco horas de sono e
depois partimos. Eu só não entendo por que é que estão se batendo. Gostaria de
saber qual é o pomo da discórdia.
Okura se estendeu embaixo de uma saliência
de rocha e disse:
— O pomo da discórdia é Vênus, ora essa!
Como os conheço, eles se engalfinharam porque não chegaram a um acordo quanto
ao tipo de sociedade mais adequado para os futuros venusianos.
Rhodan acenou, com uma expressão séria no
rosto.
— Pode ser que tenha razão, Okura. Mas, se
esse for o caso, estão brigando à toa, porque jamais vai caber a eles resolver
este assunto.
— E quem é que não briga por uma coisa
dessas? — murmurou Marshall e fechou os olhos. A julgar pela sua expressão,
desejava sonhar com bifes de porquinhos-bassê, mas não pensar a respeito de
absurdos.
A fogueira se extinguiu lentamente.
Escureceu.
E tudo continuou escuro, até que um súbito
clarão rompeu as trevas. Mas isso só aconteceu horas mais tarde.
* * *
Quando o sargento Rabov entregou Thora e o
robô no quartel-general de Tomisenkow, ficou admirado com a indisfarçada
satisfação demonstrada pelo seu comandante supremo. Depois, em cumprimento às
ordens recebidas, se embrenhou na mata à frente de uma patrulha de vinte
homens, numa operação de reconhecimento da ilha rochosa dos rebeldes. Se
possível devia fazer alguns prisioneiros, pois Tomisenkow queria saber se
estavam planejando um ataque contra ele.
O caminho era longo e conduzia através de
pântanos, baixadas e florestas, mas Rabov não o estava percorrendo pela
primeira vez. Conhecia as marcações que levavam ao platô do inimigo; por isso
não tinha dúvidas que encontraria esse caminho sozinho... no momento oportuno.
Mas esse dia ainda não havia chegado.
A patrulha de Rabov não era a única em
operação nesta noite. Do lado oposto, um pequeno exército de uns duzentos
homens aproximava-se do platô no qual se haviam instalado os rebeldes. Esses
homens faziam parte de um outro bando sedicioso das tropas de Tomisenkow. Por
razões puramente ideológicas, este bando não era partidário de nenhuma das duas
facções, mas representava o pacifismo absoluto. E agora estava empenhado em
impingir esse pacifismo aos rebeldes; se preciso, com o emprego da violência.
Um tenente de nome Wallerinski comandava o
destacamento.
Wallerinski e seus homens chegaram
primeiro. Escalaram a ilha rochosa dos rebeldes e pegaram as sentinelas de
surpresa. Fiel aos seus princípios pacifistas, Wallerinski não matou as
sentinelas, apenas as aprisionou. Mas isto não o impediu de interrogá-las com
todos os requintes da arte de arrancar informações, a fim de que revelassem o
esconderijo dos rebeldes.
Uma hora mais tarde, o destacamento de
Wallerinski topou com o posto avançado dos rebeldes. Mas o homem não estava
dormindo, e conseguiu soltar um tiro de alerta, que acordou o acampamento. Dez
minutos depois, o tiroteio começou.
Rabov e seus vinte homens ainda se
encontravam a alguns quilômetros do platô dos rebeldes quando ouviram os tiros.
Discutiram o fato e chegaram à conclusão que, nas redondezas, deviam existir
outros grupos daquele exército desbaratado, e que se combatiam mutuamente.
E essa triste verdade só tinha uma
explicação: a culpa era daquela natureza inóspita, que transformava conhecidos
em estranhos e impedia que se mantivessem as relações de amizade.
Rabov ia dar a ordem para prosseguir a
marcha, quando um dos seus homens veio correndo em sua direção.
Agitado, e quase sem fôlego, o homem
balbuciou:
— Luz! Lá na frente há uma fogueira.
Pode-se vê-la com toda a nitidez!
— Lá embaixo? — quis saber Rabov.
— Sim, no pé do paredão. Talvez os
rebeldes instalaram um posto avançado lá.
— É, um posto avançado com uma fogueira,
para que possam ser vistos a quilômetros de distância — disse Rabov com ironia.
Tinha certeza que a verdade era bem outra, mas qual seria, não podia imaginar.
Senão teria refletido um pouco mais, antes de emitir sua ordem: — Vamos descer,
para ver quem são!
E assim, duas horas mais tarde, Rabov
olhou para três homens adormecidos, que acordaram imediatamente quando os
feixes dos holofotes incidiram nos seus rostos.
Como tinham aspecto bem tratado e não
trajavam o uniforme daquele exército desbaratado, Rabov se dirigiu a eles em
inglês. Tinha o vago pressentimento que aquela mulher havia mentido ao afirmar
que somente ela e o robô se encontravam naquela nave espacial derrubada.
— Estão sob a mira de vinte fuzis! —
advertiu — portanto, não tentem agarrar as pistolas. Um dos meus homens vai
agora recolher suas armas. Se estiverem de acordo, acenem.
Perry Rhodan reconheceu que tinha cometido
um erro fatal. Era realmente um contra-senso querer dormir tranqüilamente num
terreno onde se realizava um tiroteio. Agora teria que arcar com as
conseqüências. Baixinho, sussurrou para Okura:
— Consegue reconhecer alguma coisa?
— O sujeito não está mentindo, não —
cochichou o japonês em resposta. — Estamos cercados, e vejo os fuzis apontados
para nós. Podíamos liquidar alguns deles...
— E qual é a nossa chance?
— Bem, eu diria um para dez.
— É muito pouco — sussurrou Rhodan e,
depois, disse em voz alta: — Mande vir o seu homem para apanhar as armas. Quem
são vocês?
— Vai ficar sabendo disso quando chegar a
hora. Foram os senhores que atiraram ainda há pouco?
— Se está se referindo àquele tiroteio,
sinto ter que desapontá-lo. Foi realizado lá em cima, no platô.
Sem oferecer resistência, Rhodan deixou
que lhe tirassem o irradiador de impulsos do cinto e constatou, com satisfação,
que Marshall conseguiu ficar com o revólver oculto no fundo do bolso. Okura não
fez uma cara muito feliz, quando lhe retiraram a arma. Pela primeira vez não
sorriu.
— Muito bem — disse o homem atrás do
holofote — agora vamos conversar um pouco.
Quando emergiu da escuridão, Rhodan
conseguiu finalmente vê-lo. Um aspecto pouco alentador, constatou no íntimo,
fazendo votos para que outro não o reconhecesse; Não era realmente uma
perspectiva muito agradável cair nas mãos daqueles homens que ele, por assim
dizer, havia entregue a um destino incerto em Vênus.
— Eu sou o sargento Rabov, do exército do
general Tomisenkow — apresentou-se Rabov. — E quem são os senhores?
Essa pergunta exigia uma resposta clara.
Ou ao menos uma resposta, pensou Rhodan, que não soasse suspeita.
— Faço parte de uma expedição — disse ele,
cauteloso — que recebeu a missão de testar a vigilância da fortaleza venusiana
de Rhodan.
— Quem o enviou?
— Ora, quem havia de ser?
— Os americanos?
— É possível.
Rabov considerou isto como uma resposta
positiva. Só não conseguia explicar por que aquela moça, lá em cima no platô,
havia mentido, e por que esses três se tinham separado dela e do robô.
— Suponho que vieram sozinhos. Foram
derrubados?
— Adivinhou.
Rabov refletiu. Ainda não era hora de
exibir todos os trunfos. O prisioneiro não precisava saber que ele já havia
encontrado os outros sobreviventes. Era sempre bom deixar o adversário na
incerteza a respeito da sua situação. Isso era um princípio básico antiqüíssimo
e de uma eficiência mais que comprovada. Todavia, era bem interessante ouvir
que esse homem admitia pertencer à OTAN, enquanto a mulher afirmava representar
a Terceira Potência.
— E onde foi derrubado? Rhodan apontou
para leste.
— Lá, em cima da selva. Os canhões nos
apanharam.
— Ah! — fez Rabov, sem estar convencido. —
Quer dizer que não foram derrubados sobre um platô e sim sobre a selva? E
depois vieram para cá a pé?
— Isso mesmo. Há algo de estranho nisso?
Rabov não deu resposta. Estava diante de
uma encruzilhada. O que seria mais acertado: levar os prisioneiros ao
acampamento de Tomisenkow ou entregá-los, como presente introdutório, nas mãos
dos rebeldes, aos quais pretendia se aliar? Além disso, ainda era preciso
descobrir quem era aquele terceiro grupo que havia atacado os rebeldes de
surpresa. Talvez fosse melhor esperar até que não houvesse mais dúvida quem
seria o vitorioso.
A prudência venceu e Rabov tomou sua
decisão.
— Vamos levá-los conosco — disse ele a
Rhodan. — Vamos andando, homens! Quero ver o que se passou lá em cima. Talvez
abocanhemos a parte do leão!
A escalada se revelou demorada e não
isenta de perigos.
Alguns dos homens de Rabov serviram de
guia, pois conheciam a trilha secreta suficientemente bem para encontrá-la
também na escuridão. Rhodan, Marshall e Okura iam no meio, seguidos de Rabov.
Os demais soldados da patrulha formavam a retaguarda.
Após sete horas, houve um período de
descanso e Rabov avisou que agora não faltava muito para atingirem o platô.
Rhodan estava admirado com o comportamento inesperado do sargento. Tinha como
certo ser tratado com aspereza e severidade e, no entanto, Rabov mostrava-se
reservado e, às vezes, até mesmo gentil. Bem, esse pessoal não sabia quem eram
seus prisioneiros mas, mesmo assim, a consideração que lhes dispensavam era
surpreendente. Rhodan resolveu não se esquecer desse detalhe.
Notava-se que Marshall queria segredar
algo a Rhodan, sentado ao seu lado. Mas a presença constante de Rabov impediu
que o fizesse e, assim, Marshall resolveu aguardar uma ocasião mais propícia.
Dez minutos depois, reiniciaram a escalada
e meia hora mais tarde alcançaram o platô. Na distância, ouviu-se novamente o pipoquear
de tiros. Okura caminhava, agora, ao lado de Rhodan e, na primeira
oportunidade, sussurrou rapidamente:
— Quer que eu fuja? Para mim é fácil!
Disso Rhodan não tinha dúvida. O japonês
podia enxergar no escuro, e, além disso, nenhum dos três prisioneiros tinha
sido manietado. Se Okura permanecesse nas proximidades, poderia intervir a
qualquer momento, caso a situação viesse a se tornar crítica.
Rabov havia percebido o cochicho e se
aproximou, curioso.
— Preferia que se mantivessem em silêncio
— disse em tom cortês, porém firme.
Rhodan deu um aceno afirmativo para Okura
e depois se dirigiu a Rabov:
— Não se preocupe, eu o acompanharia também
de livre e espontânea vontade. Acha que gostaria de ficar sozinho na selva?
Não, se alguém pode me ajudar, é o senhor.
Rabov parecia estar mais tranqüilo.
E de repente Okura desapareceu. Além de
Rhodan, ninguém mais percebeu a fuga do japonês, pois cada qual estava cuidando
de si, procurando não tropeçar em pedras soltas ou troncos de árvores tombados.
Aquele tiroteio distante tinha chegado mais perto. Portanto, os combates
prosseguiam.
O terreno em frente já era bem menos
acidentado. Na distância havia claridade, como se a floresta estivesse em
chamas. Provavelmente o acampamento dos rebeldes havia sido incendiado. A
fuzilaria era intensa, entremeada pelas detonações de pequenas granadas. Mais
além ouviu-se o ribombar de um canhão.
Rhodan constatou, satisfeito, que não
estavam empregando armas atômicas. Era um sinal de que os futuros colonos de
Vênus ainda não eram tão civilizados a ponto de recorrerem às últimas
conquistas da tecnologia humana.
As primeiras balas passaram, sibilantes,
sobre as cabeças dos homens. Sem perda de tempo, todos se jogaram no chão.
Rabov estava deitado ao lado de Rhodan, a quem não perdia de vista um instante
sequer. O incêndio, que devorava a aldeia dos colonos situada atrás do pequeno
bosque, fornecia luz suficiente. As poucas árvores, espalhadas na vizinhança
imediata, não ofereciam qualquer possibilidade de abrigo.
— Onde é que está seu japonês? — ofegou
Rabov, mexendo nervosamente na pistola. — Não vai me dizer que ele...
— Não está longe daqui — explicou Rhodan,
sem mentir. — Talvez resolveu examinar a situação mais de perto. Para ser
honesto, eu também não me considero propriamente um prisioneiro seu. Seja
sensato, Rabov; é esse o seu nome, não é? Pode ser que estejamos defrontando
com um inimigo comum. Devíamos nos unir antes que ele nos obrigue a isso.
— As ordens que recebi não foram no
sentido de entrar em combate com o inimigo e, sim, para fazer um reconhecimento
geral da situação. Preciso saber quem realizou esse ataque de surpresa ao
acampamento dos rebeldes.
— Rebeldes, por quê? — admirou-se Rhodan.
— Amotinaram-se contra Tomisenkow e
resolveram permanecer em Vênus, de livre e espontânea vontade, para se tornarem
colonos.
— Que mais poderiam fazer? Tomisenkow não
está de acordo com essa decisão?
— O general só quer realizar a tarefa de
que foi incumbido: conquistar a base venusiana de Rhodan.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isto é tão absurdo quanto inútil. Na
Terra, Rhodan e o Bloco Oriental já selaram a paz. O exército de Tomisenkow foi
dado como desaparecido.
Rabov silenciou. Então os rebeldes estavam
certos quando resolveram iniciar uma vida nova em Vênus. Mas então quem era
esse pessoal que havia assaltado os rebeldes? Um outro grupo do qual nada se
sabia?
Rabov decidiu botar as cartas na mesa.
— Não sei quem você é, mas vou lhe dizer
uma coisa: você mentiu para mim. Você não pertence à OTAN e sim à Terceira
Potência de Rhodan. Por que me ocultou isso?
— O que lhe faz pensar isso?
— Apenas sei que é verdade. Não obstante,
você foi derrubado pelos canhões de Rhodan. E isso eu não entendo. Tem alguma
coisa contra Rhodan?
— Não contra a pessoa dele — disse Rhodan,
numa autocrítica cheia de ironia — apenas contra sua leviandade.
— Essa também não entendi! — Rabov sacudiu
a cabeça e olhou para a frente, onde o clarão de uma explosão rasgou o
crepúsculo. Alguns tiros pipocaram perigosamente perto. Passos apressados
arrastavam-se sobre o pedregal. Contra o horizonte em chamas destacavam-se as
silhuetas de homens que corriam em todas as direções. A agitação estava
aumentando.
— Como sabe que eu pertenço à Terceira
Potência? — perguntou Rhodan e olhou para Marshall. Antes que Rabov pudesse
responder, o telepata disse:
— Uma nave foi derrubada sobre outro
platô. Rabov foi até lá e encontrou uma mulher e um robô. Os dois se encontram
agora nas mãos do general Tomisenkow.
Deliberadamente Marshall não citou nomes,
mas Rhodan compreendeu imediatamente que Thora não tinha chegado à fortaleza
venusiana. Também tinha fracassado no seu intento. A essa altura, já devia ter
revelado a sua identidade e isso tornava a situação mais crítica, porque o
general Tomisenkow jamais entregaria voluntariamente um trunfo tão alto.
— Isso é verdade? — perguntou Rhodan,
dirigindo-se a Rabov.
O sargento acenou, perplexo.
— Como é que ele sabe disso?
Rhodan ignorou a pergunta.
— Quem é essa mulher?
— Não disse o seu nome, porém admitiu
pertencer à Terceira Potência. Mas ela mentiu quando disse que veio apenas na
companhia do robô. O senhor estava com ela, e depois se separaram. Por quê?
Rhodan vislumbrou sua chance. Se não
descobrissem um elo entre ele e a fuga de Thora, era bem provável que também
não fosse reconhecido. Por outro lado, Tomisenkow não sabia que Thora tinha
fugido e estava sendo perseguida. E imediatamente reconheceria nela a arcônida.
Uma situação confusa.
Mas, no próximo instante, Rhodan se veria
obrigado a interromper seus pensamentos.
Subitamente um fulgor relampejou rente ao
seu rosto e o estampido de um tiro quase lhe estourou os tímpanos. Alguém
soltou um grito e tombou pesadamente. De toda parte, surgiram vultos
indistintos e se lançaram sobre os homens calmamente deitados no chão.
Rhodan viu que Marshall se levantou de um
só salto e mergulhou entre os arbustos ao lado. Durante algum tempo, ouviu os
passos que se afastaram apressadamente, mas decidiu não seguir o exemplo de
Marshall, embora soubesse que dificilmente teria outra oportunidade tão propícia
para fugir.
Mas a nova situação exigia que
permanecesse junto a Rabov para o que desse e viesse.
Aos gritos selvagens da luta corpo a corpo
misturaram-se de repente, exclamações de surpresa. Tornou-se evidente que os
atacantes tinham cometido um engano, tomando os adversários por rebeldes. Em
voz alta alguém intimou Rabov e seus homens a se renderem. Disse que poderiam
ficar de posse das armas, mas que era preciso negociar, antes de continuar com
essa carnificina inútil.
Essa proposta pareceu bastante sensata a
Rabov. Ordenou a seus homens que cessassem o fogo. Todos obedeceram, menos
quatro; mas esses quatro nunca mais poderiam obedecer a ninguém, pois estavam
mortos.
O adversário inesperado também havia
sofrido baixas mas, nessa confusão generalizada, não era possível determinar
prontamente o número exato. Rabov estava novamente do lado de Rhodan, a mão
sobre a coronha da pistola automática. Parecia não ter percebido que Marshall
havia fugido. Mas também podia ser que soubesse do fato, e só não achava o momento
propício para discutir o assunto.
Alguém acendeu um archote primitivo. Um
homem alto, de barba negra, atravessou o círculo de luz e parou diante do
sargento, no qual devia ter reconhecido o comandante daquele destacamento.
— Quem são vocês? — perguntou, em tom
arrogante. — Pertencem aos rebeldes?
— Podia fazer a mesma pergunta ao senhor!
— retrucou Rabov. A arma na sua direita apontava para o chão. — O senhor matou
quatro dos meus homens!
— Quer dizer que não são rebeldes? É curioso.
Então são homens do general Tomisenkow?
— E se for o caso?
— Não melhora em nada a situação... a sua,
bem entendido. Não queremos ter nada com ninguém; nem com Tomisenkow, nem com
seus adversários!
— Se é assim, por que atacaram os
rebeldes?
O outro não deu resposta a esta pergunta.
Disse:
— Vamos continuar a conversar na aldeia.
Sigam-me até lá. Se forem sensatos, vai ser fácil encontrar uma solução. Os
sobreviventes da aldeia já se aliaram a nós.
— A vocês; afinal de contas quem são
vocês?
O desconhecido estufou o peito.
— Eu sou Wallerinski, o presidente dos
pacifistas.
Rabov acenou lentamente e lançou um rápido
olhar para Rhodan. Depois seus olhos fitaram os quatro soldados mortos, vítimas
daquele ataque de surpresa.
— Ah! Agora estou entendendo — disse ele,
e deu um suspiro. — Quer dizer que vocês são pacifistas? Parece inacreditável,
mas até em Vênus já estão realizando um baile de máscaras de dogmas humanos.
Todo mundo trocou de papel e se disfarça com mantos alheios. Pacifistas
transformaram-se em assassinos e incendeiam uma aldeia. Rebeldes tornam-se
colonos pacíficos e são escorraçados da sua gleba. Tropas regulares levam uma
vida de bandidos. Realmente é uma situação muito clara e inequívoca!
— O que quer dizer com isso? — vociferou
Wallerinski furioso.
Rabov encolheu os ombros.
— Entendeu muito bem o que eu quis dizer!
— retorquiu e acrescentou: — Vá lá; vamos acompanhá-lo. Mas vou avisando logo:
não vamos permitir que nos trate como prisioneiros!
No íntimo, Rhodan teve de admitir que
estava simpatizando com o sargento Rabov.
* * *
Favorecido pela escuridão, Okura conseguiu
se manter perto da patrulha desde o momento de sua fuga. Testemunhou o assalto
e o surpreendente armistício e, quando viu Marshall fugir, fez com que o
australiano o encontrasse. Juntos, começaram a seguir os dois grupos que
marchavam para a aldeia e se vigiavam mutuamente, abertamente desconfiados.
— Devíamos tirar Rhodan do meio daquele
pessoal — murmurou Okura, que não conseguiu se livrar de um certo sentimento de
culpa. Mas Marshall sacudiu a cabeça.
— Não é o que ele quer. Eu agora consigo
captar bem os seus pensamentos, e há mensagens para nós no meio deles. Ele quer
ficar junto desse Rabov, porque só esse sabe onde Thora se encontra. No
momento, ele não corre perigo. Se a situação se tornar crítica, quer que o
libertemos junto com Rabov. Mas, se possível, sem derramamento de sangue.
— E como é que vamos saber se a situação
ficou crítica ou não? — objetou o japonês, ainda céptico. — Não gostei nem um
pouco desse cara que apareceu por último.
— Wallerinski? É um fanático inofensivo.
— Será que existem fanáticos inofensivos?
— observou Okura, que tinha suas dúvidas. — Mesmo o fanático mais burro pode
ser perigoso. Por falar nisso, gostaria de saber que causa esse Wallerinski
defende tão fanaticamente!
— O pacifismo! — respondeu Marshall
sombriamente. — Consegue ver bem agora?
— Lá na frente está a aldeia. Metade foi
destruída pelo incêndio e os escombros ainda estão fumegando. Os habitantes fugiram.
Se a sua afirmação foi correta, estamos diante da obra de um pacifista.
Havia amargura nas palavras do japonês.
Sabia quantos abusos já tinham sido cometidos em nome do pretenso pacifismo. E
sabia isso de experiência própria. Hoje, qualquer um encobria as intenções
agressivas sob o manto do pacifismo e afirmava que suas ações serviam
unicamente à causa da paz. Graças a Deus, as coisas haviam mudado desde que
existia a Terceira Potência. Mas, em Vênus, a história da Humanidade ainda se
encontrava no limiar.
Okura e Marshall pararam na orla da
clareira. Se avançassem mais, corriam o risco de serem descobertos. Mas, mesmo
que o japonês perdesse agora Rhodan de vista, Marshall continuaria em
comunicação com ele, se bem que essa comunicação era apenas unidirecional.
Infelizmente o dom telepático de Rhodan era muito limitado, porém ele sabia que
Marshall conseguia captar seus pensamentos. E foi desta maneira que o
australiano ficou sabendo de tudo que se passava naquela aldeia, apesar de não
poder utilizar o rádio de pulso.
A ampla sala de reuniões estava repleta de
homens e também algumas mulheres, que pertenciam ao grupo rebelde. Wallerinski
galgou uma mesa, ergueu as duas mãos e pediu silêncio. Lançou um olhar ligeiro
para um punhado de prisioneiros no fundo da sala, certificou-se que as saídas
estavam devidamente guarnecidas por sentinelas, e depois começou a falar.
— Homens e mulheres! — gritou com uma voz
autoritária e nada agradável. — A luta entre nós terminou. Tomamos a resolução
acertada de nos unir. De agora em diante, vamos trilhar juntos o caminho do
futuro. Queremos que a paz reine em Vênus, mas para que isso se torne realidade
é preciso eliminar uma última ameaça, a maior de todas. E essa ameaça é o
general Tomisenkow. Insiste em realizar o intento suicida de atacar a base de
Rhodan. Foi motivo bastante para nos separarmos dele. Vocês fizeram o mesmo, se
bem que por uma razão diferente: querem se tornar colonos pacíficos e melhorar
suas condições de vida. Mas antes que possamos nos dedicar ao nosso trabalho, Tomisenkow
tem que ser eliminado, e é preciso inculcar nos seus homens a convicção de que
nossos objetivos são melhores. E para isso, precisamos de um líder.
Lá da porta alguém gritou:
— Wallerinski é o nosso líder! Vai nos
trazer a liberdade!
Rhodan acenou lentamente.
— É assim que começam todas as guerras! —
sussurrou, tão baixinho que só Rabov, que estava ao seu lado, pôde ouvi-lo.
O sargento não respondeu. Pressentia que,
fatalmente teria que tomar mais uma decisão portentosa. Só não podia imaginar o
que essa decisão envolvia.
5
Até nova ordem, o Exército de Mutantes de
Perry Rhodan ficou sob o comando de Reginald Bell, ministro da segurança da
Terceira Potência. Um dos efeitos da radiação liberada pela bomba atômica de
Hiroshima foi uma certa alteração no sangue das vítimas, e, pouco menos de
vinte anos após aquele terrível evento, apareceram os primeiros mutantes. Entre
eles havia telepatas, aos quais nenhum pensamento dos seus semelhantes ficava
oculto. Havia localizadores, que captavam ondas encefálicas e podiam reconhecer
o estado de ânimo de terceiros. Havia ainda os telecinetas que, graças à
energia da mente, conseguiam locomover matéria através de grandes distâncias.
Já os teleportadores empregavam a força do pensamento para se
desmaterializarem, o que lhes permitia transportar a si mesmos através de
longos percursos.
O único membro extraterreno do exército
secreto dos mutantes era Gucky, o rato-castor do planeta Vagabundo. Durante uma
escala, esse ser — que não chegava a ter um metro de altura — havia se
escondido sorrateiramente a bordo da nave espacial e, a partir desse momento,
pertencia ao reduzido círculo dos amigos mais íntimos de Rhodan.
Isso podia parecer estranho mas, apesar do
seu aspecto, Gucky não era um animal. Era um ser inteligente, capaz de pensar e
raciocinar. Sob a orientação de John Marshall, havia aprendido inglês e até
intercosmo: e agora estava apto a se comunicar perfeitamente nesses idiomas.
Gucky costumava se sentar diante dos visitantes de Rhodan, apoiando-se na cauda
de castor. E todos achavam aquela criatura “muito
engraçadinha”. Mas, invariavelmente, levavam um susto tremendo quando de
repente, dizia:
— Bem, e o senhor como tem passado,
cavalheiro?
E ainda por cima era o melhor telecineta
de todo o corpo de mutantes! Foi um custo fazê-lo perder o hábito de brincar
voluntariamente com essa faculdade; porém agora já não havia naves espaciais
que decolavam sem razão ou canhões de radiação que disparavam sozinhos. Mas não
era só isso. Gucky possuía ainda vários outros talentos, entre os quais se
destacava uma extraordinária capacidade telepática, ainda mal explorada.
Tratava-se, enfim, de um verdadeiro gênio universal.
Entre ele e Bell reinava uma espécie de
antagonismo amistoso, fato que se revelava toda vez que se encontravam. Como
hoje, quando Bell convocou o Exército de Mutantes para explicar os detalhes da
nova missão.
As solenidades foram encerradas com o
discurso de Bell e o mundo voltou ao dia-a-dia. Bell se lançou ao trabalho.
Estava preocupado. O destróier de Rhodan tinha sido avistado pela estação lunar
para, em seguida, desaparecer na direção de Vênus.
E, a partir daquele momento, não havia
mais notícias dele ou de Thora. As hiperestações radiofônicas mantinham os
receptores ligados noite e dia, porém, nenhum comunicado veio de Vênus. Isso
foi o suficiente para que Bell se lembrasse da ordem de Rhodan. Convocou os
mutantes, expôs a situação e lhes ordenou que se apresentassem a bordo do
girino número cinco, dentro de meia hora.
Aquela nave esférica, designada no código
das comunicações pela palavra girino, tinha
um diâmetro de sessenta metros, e era capaz de voar com velocidade superior à
da luz. Do ponto de vista terrestre, podia ser considerada como a nave espacial
perfeita; entretanto, arcônidas a utilizavam apenas como nave auxiliar dos seus
couraçados espaciais da classe império.
Bell finalizou sua exposição sucinta,
dizendo:
— ...portanto, algo pode ter acontecido a
Rhodan. Exijo o máximo empenho de todos e que ajam com rapidez e decisão. Vamos
levar cinqüenta soldados-robôs, além de dez caças espaciais com os respectivos
pilotos. Alguma pergunta?
Bell olhou ao redor.
— Muito bem, então dentro de trinta
minutos; podem se retirar!
Ia sair rapidamente da sala, mas quase
esbarrou em Gucky, que estava ocupando o vão da porta.
— Só uma perguntinha — disse o rato-castor,
exibindo seu único dente roedor, o que significava que estava rindo.
Mas isto não implicava que também
estivesse de bom humor. Bell sabia disso, ao menos devia ter sabido.
— Fale logo, estou com pressa!
— Eu sou membro do Exército de Mutantes e,
portanto, vou participar dessa missão. Ou não?
— Você? Quer ir a Vê nus para cometer uma
das suas travessuras? E causar confusão geral? Nem pense nisso!
Bell ia forçar a passagem, porém Gucky
bloqueou o caminho.
— Vou contar isso a Rhodan! — ameaçou, mudando
de tática.
— Por mim, pode contar a ele o que você
quiser — grunhiu Bell e tentou em vão levantar o pé. Era como se estivesse
pregado ao chão. — Pare com essa brincadeira, seu anão! Prender o meu pé! Isto
é insubordinação!
— Posso ir com vocês ou não?
Bell sentiu que o sangue lhe afluía à
cabeça. Alguns dos mutantes tinham se aproximado e estavam começando a rir.
— Não pode, não! — decidiu Bell, se bem
que agora ainda poderia ter evitado uma derrota ignóbil. — Não mesmo! Essa
missão requer homens, não um Mickey Mouse!
Não deveria ter dito isso. Gucky sentia-se
mortalmente ofendido toda vez que alguém o apelidava de Mickey Mouse.
Bell sentiu que a pressão no seu pé estava
cedendo, mas isto pouco lhe adiantou.
De repente, se tornou leve como uma pluma.
Apoiado na cauda de castor, Gucky estava sentado diante dele e o observava
fascinado. Exibia o dente solitário num riso manhoso. O pêlo castanho da nuca
se eriçou, formando uma gola lanosa.
— É sua palavra definitiva? — estridulou,
tremendo de excitação.
A voz de Gucky já era esganiçada por
natureza, mas adquiria uma estridência fora do comum quando o seu dono estava
emocionado.
— É definitiva, sim! — berrou Bell, a
plenos pulmões, apesar de saber que não adiantaria nada e quais seriam as
conseqüências. Queixar-se a Rhodan também seria totalmente inútil, pois esse só
iria rir dele a valer. Fato é que Gucky tinha umas tantas regalias; e sabia
tirar o máximo proveito delas.
Uma ligeira rigidez apareceu no olhar
meigo de Gucky, sinal que estava se concentrando. E Bell ficou definitivamente
liberto da gravidade... e começou a subir como um balão. Mãos invisíveis
abriram a janela, e Bell flutuou para fora.
E lá ficou pairando, trinta metros acima
do piso de concreto, sustentado apenas pelas formas telecinéticas de Gucky.
Exibindo um riso triunfante, Gucky
bamboleou até a janela, galgou o parapeito com um salto elegante, e pôs-se a
observar o amigo, que devolveu o olhar com uma expressão de raiva impotente.
— Como é? — piou Gucky, alegremente. — não
vai mudar a sua decisão? Afinal, você tem que admitir que eu sou um aliado
bastante capaz.
— É, mas duvido que consiga fazer flutuar
um sáurio — resmungou Bell e olhou para baixo, apavorado. Seus pés estavam
apoiados em nada. — Além do mais, isso não passa de pura extorsão!
— Que palavra mais feia! — indignou-se
Gucky e fez com que Bell caísse dois metros. — Um homem educado não usa um
termo desses!
— Não faz idéia dos termos que tenho em
mente em relação a você! Está bem; vou pensar no caso. Mas agora me faça
entrar!
— Quero saber se vou participar dessa
missão, ou não! — insistiu Gucky.
Parecia não tomar conhecimento da presença
dos outros mutantes, que acompanhavam o espetáculo com vivo interesse. Nenhum
deles ousou interferir, porque Bell poderia se estatelar no fundo. Mas Gucky
não via perigo algum; confiava nas suas forças.
Bell deu um aceno convulsivo e tentou
encostar as mãos na parede do prédio.
— Está bem; você vem conosco, mas sob uma
condição.
— Qual é? — quis saber Gucky, desconfiado,
e fez desaparecer o dente.
— Você tem que me prometer que vai se
comportar direitinho, e fazer tudo que eu lhe mandar. E nada de travessuras em Vênus!
Entendido?
O rato-castor fez Bell pousar suavemente
no peitoril e acenou vivamente com a cabeça.
— De acordo. Mas se você não cumprir sua
palavra, deixando-me aqui, vou fazê-lo voar para a Lua sem traje espacial!
Sem uma palavra, Bell pulou do peitoril e
se dirigiu à porta.
A telepata Betty Toufry corou subitamente
e fixou um olhar estarrecido nas costas de Bell.
O ministro da segurança da Terceira
Potência devia ter pensado uma imprecação terrível e, ao mesmo tempo, bastante
obscena.
* * *
O general Tomisenkow observou sua visita
inesperada com indisfarçada satisfação. Realmente, a sorte o havia bafejado
além de qualquer expectativa. Thora havia caído nas suas mãos! Logo Thora, a
colaboradora íntima de Rhodan! Logo ela, a arcônida, a quem Rhodan devia todo o
seu poder!
Tomisenkow pôs-se a matutar no que tinha
acabado de ouvir. Era preciso aprender a lidar Com Thora, a não contrariá-la.
Talvez assim pudesse ser levada a revelar, um dia, alguns dos segredos dos
arcônidas. Seria tão absurdo imaginar que isso pudesse acontecer? Tomisenkow
achava que não. Afinal, a nave de Thora não tinha sido derrubada pelas armas do
próprio Rhodan?
— É lastimável, realmente lastimável! —
disse o general, cheio de simpatia. — E estão achando que tudo não passou de um
engano lamentável?
— Absolutamente não foi um engano — disse
R.17, com voz rangente. Parecia que tinha chegado a época da sua revisão anual.
Era preciso lubrificar, com urgência, alguns dos mancais da sua laringe
artificial. — A instalação eletrônica de vigilância não nos reconheceu.
— Não acha possível que Rhodan mandou
derrubá-los de propósito para que não pudessem penetrar na base de Vênus? —
perguntou Tomisenkow, ardiloso.
— Isto é absurdo! — objetou Thora. —
Rhodan ainda não podia ter chegado aqui!
— Ah! Quer dizer, que ele ainda vem?
Thora mordeu os lábios. Volta e meia cometia
o erro de subestimar os homens. Por pouco não se traiu. Agora era tarde demais
para tirar Rhodan da jogada.
— É possível — disse ela, procurando uma
evasiva. — Tudo é possível. Talvez seja até possível ao senhor explicar por que
pretende me deter aqui. Sabe tão bem quanto eu que o meu robô pode destruir
todo seu acampamento. Vai me fornecer agora as provisões pedidas e os soldados?
Ou quer que eu tente chegar lá sozinha?
— Vai pensar duas vezes antes de
empreender algo contra mim, pois sozinha está praticamente indefesa! Só com
esse robô, nunca vai chegar à base a mais de quinhentos quilômetros daqui.
Portanto, a senhora depende de mim. Bem, quero me aproveitar da sua situação
precária. Vou ajudá-la. Vou levá-la à base, caso as barreiras não nos detenham.
— Essas reagem ao padrão dos cérebros
arcônidas, portanto, não constituem perigo.
— Ótimo! E, quando estiver diante da base,
o que vai fazer, e o que vai acontecer comigo?
— Pode regressar, são e salvo.
O general Tomisenkow deu um sorriso
manhoso.
— Quanta generosidade de sua parte, nobre
arcônida! Quando Rhodan a salvou na Lua a senhora o recompensou, dando-lhe o
poder sobre a Terra. Agora eu a salvo aqui, e está querendo me despachar com
uma mera esmola. Aliás, esmola coisa nenhuma! O que pretende me dar já possuo
há muito tempo. Segurança? Essa eu tenho! Não, minha cara, se quiser chegar à
fortaleza vai ter que pagar um preço condizente... ou pode tentar ir sozinha!
Tomisenkow sabia que Thora jamais chegaria
à base sem ajuda, um fato que ele pretendia explorar. Além disso, era seu
propósito, separar Thora do robô na primeira oportunidade, para aprisioná-la.
Não existia refém melhor do que Thora.
Principalmente se era verdade que Rhodan
estava se dirigindo para cá.
Nem por um instante Thora acreditou na
sinceridade desse homem. Agora mesmo poderia ter dado uma ordem de
aniquilamento total a R.17. Mas, de que lhe valeria isso? Além disso, ela não
sabia com que armas os homens de Tomisenkow estavam equipados. Talvez até
conseguissem eliminar o robô, e nesse caso ela estaria perdida de fato. Pesou
bem as palavras, antes de pronunciá-las:
— Não tenho saída. Vou precisar do seu
auxílio. Reconheço, também, que vou ter que pagar por ele. Vamos aguardar o
romper do dia. Aí podemos discutir os detalhes. Até lá, peço que me dê um
alojamento para mim e o robô.
— Esse também precisa dormir? — perguntou Tomisenkow,
com ironia.
Thora sacudiu a cabeça e disse, reservada:
— Ele não. Mas eu preciso.
* * *
Rhodan, Rabov e seus homens não podiam ser
considerados como prisioneiros, na acepção normal do termo. A começar pelo fato
de que puderam ficar de posse das armas. Foram alojados numa grande choupana,
diante da qual Wallerinski postou imediatamente algumas sentinelas; não para
vigiá-los, como afirmou, e sim para protegê-los.
Rhodan pediu a Rabov que lhe devolvesse a
arma bem como a dos seus dois companheiros. O sargento anuiu prontamente ao
pedido. Talvez pressentia que, num futuro próximo, necessitaria do auxílio
desse estranho misterioso.
— O que vai acontecer agora? — perguntou
Rhodan. Achava que Rabov devia conhecer melhor a mentalidade dos seus
patrícios. — Acredita que o grupo de Wallerinski vai atacar as tropas do
general?
— É mais do que certo!
— E não acha que, na posição que ocupa,
tem o dever de alertar Tomisenkow?
Rabov vacilou. Aquele grupo de colonos
rebeldes, aos quais ele quis se unir, praticamente não existia mais. Detestava
Wallerinski por causa das suas frases empoladas. Nesse caso, seria melhor ficar
ao lado do general Tomisenkow. Rabov acenou.
— Sei que é meu dever avisá-lo; mas como
vou sair daqui sem despertar suspeita?
— Não se preocupe com isso; eu só queria
saber de que lado o senhor está. Meus dois amigos vêm nos buscar. Um deles
consegue ver mesmo de noite, e vai poder nos conduzir em segurança através da
escuridão. E eu recuperei as minhas armas, com as quais eu poderia liquidar
essa bagunça toda em questão de segundos... mas para que...
Rhodan se concentrou, esperançoso de que
Marshall pudesse captar seus pensamentos agora. Se o conseguisse, então ele e
Okura já deviam estar a caminho da aldeia para libertá-lo. Talvez não fosse
também má idéia ir ao encontro deles.
Virou-se para Rabov:
— Que sabe daquela mulher e do robô, cuja
nave foi destruída sobre o planeta? Ela está em segurança?
— Está sim — Rabov arreganhou os dentes —
mas é uma segurança relativa. Faz muito tempo que os nossos homens não vêem uma
mulher!
— Então não vão ficar muito contentes com
a sua prisioneira! — vaticinou Rhodan, irado. Sabia que, se fosse preciso, o
robô poderia transformar Tomisenkow e sua força armada em cinza radiativa;
entretanto, violência não resolve problemas. — Diga a seus homens que vamos
apanhá-los mais tarde. Não temos mais tempo a perder. Meus amigos já estão nos
esperando. Lá na orla da floresta, em direção leste se não me engano.
Rabov deu suas instruções. Depois o sargento
e Rhodan saíram da choupana.
Quase no fim da rua ardia uma fogueira,
rodeada por alguns homens, cujas silhuetas as chamas revelavam. Provavelmente
estavam cansados e preferiam mil vezes estar dormindo.
Perto da choupana não havia ninguém.
Rhodan agarrou a mão de Rabov e confiou
mais na sua intuição do que nos seus olhos. Enquanto caminhava, com passos
seguros em direção leste, pensava constantemente na sua posição, para que
Marshall tivesse mais facilidade em encontrá-lo.
Se Marshall não estivesse dormindo agora.
Aquela aldeia semicalcinada ficou para
trás. Lá na frente, em direção ao bosque, estava ficando mais escuro. Uma luz
relampejou por alguns segundos. Depois Rhodan ouviu que alguém atravessava os
arbustos com passos seguros. Ninguém caminhava assim de noite, a não ser que
portasse uma lâmpada e pudesse ver.
— Okura?
— Sim!
Era como se o sopro de uma brisa
alcançasse o ouvido de Rhodan através do silêncio da escuridão. Claro, Okura
não sabia quem estava com ele. Um descuido de Marshall, não contar esse detalhe
ao japonês.
— Sou eu — sussurrou Rhodan. — Rabov está
comigo. Vai nos levar ao general Tomisenkow... e a Thora.
Rhodan sentiu que o sargento estremeceu.
— Vou levá-los a quem? — e, como não
recebeu resposta, acrescentou: — Thora! Não é a arcônida?
E após mais uma pequena pausa perguntou:
— Quem é o senhor?
— Está tudo em ordem? — perguntou Rhodan e
depois se dirigiu ao sargento: — Não se preocupe inutilmente, meu caro Rabov.
Apostou no cavalo vencedor do páreo... mas ainda pode escolher outro, se
quiser. Leve-nos a Tomisenkow e deixe todo o resto comigo!
E assim aconteceu que três grupos
diferentes tencionavam fazer uma visita ao general desaparecido; claro que cada
qual por razões próprias... igualmente diferentes.
Bell vinha para procurar Rhodan, cujo
paradeiro ele desconhecia.
Wallerinski armou-se de violência para
implantar a paz onde não havia guerra.
E Rhodan queria libertar Thora que, por
seu lado, não fazia a menor questão de ser libertada por Rhodan. Ao menos não
agora.
6
A distância era relativamente pequena; por
isso Bell dispensou o salto através do hiperespaço, não acelerando o girino
número cinco até a velocidade da luz. A Terra se tornou rapidamente uma estrela
brilhante, o Sol passou pela esquerda, e depois Vênus, radioso, dominou o setor
do céu diante da proa.
Um estalo acompanhou o desligamento do
piloto automático. Bell voltou a assumir o comando da grande nave esférica.
Conhecia perfeitamente a localização da base em Vênus e, pelos seus cálculos,
havia constatado que ela ainda se encontrava mergulhada na noite venusiana. O
sol nasceria somente daqui a quarenta horas.
Aos poucos, Bell começou a ficar
intranqüilo.
Se tudo tivesse decorrido normalmente, há
muito tempo Rhodan teria enviado alguma notícia. Será que não tinha encontrado
Thora na base? E, se não, o que teria acontecido a Thora? Talvez ela nem
tivesse se dirigido a Vênus, ousando realizar um vôo interestelar com aquele
destróier.
Bell virou a alavanca do intercomunicador
e estabeleceu a comunicação visual com a sala radiofônica. Lá, Tanaka Seiko
estava de serviço. Seiko era japonês, técnico de altas freqüências, e o rastreador do Exército de Mutantes.
Sem o auxílio de qualquer aparelho, conseguia captar as ondas eletromagnéticas
e, o que era mais surpreendente, conseguia ouvir as emissões irradiadas por
homens, em todas as freqüências de ondas. Não havia homem mais indicado para a
estação-receptora da nave.
Seu rosto apareceu na tela de visão.
— Chefe?
Bell gostava de ser chamado assim. Era um
sinal de respeito e admiração. Também não era ele o substituto direto de
Rhodan? Era algo que encheria qualquer um de justo orgulho.
— Nada, ainda?
— Não captei um pio de Vênus até agora! —
Seiko sacudiu a cabeça. — E como se lá não houvesse homem algum.
— O que provavelmente não está certo,
porque, se eu me recordo direito, também as tropas desaparecidas do Bloco
Oriental possuem aparelhos radiofônicos. Mas, o que me intriga demais, é que
nem Rhodan, nem Thora deram sinal de vida até agora; isto é um bocado
inquietante!
— Os minitransmissores são fracos demais
para essa distância.
— Mas não os aparelhos do destróier!
— Talvez apresentaram algum defeito.
— O quê?! Os aparelhos radiofônicos dos
destróieres?
— Quem sabe...
Bell refletia febrilmente, mas não
encontrou qualquer explicação. Seria possível?... Não, era melhor nem pensar
nisso! Aliás, não havia razão para isso. Pois, quem poderia ter impedido Rhodan
de pousar em Vênus? A instalação de vigilância positrônica da hiperestação o
reconheceria, evidentemente.
— Está bem, Seiko, mantenha o receptor
ligado. E comunique imediatamente qualquer novidade. Vou agora iniciar as
manobras de pouso.
Vênus, uma bola brilhante, já tinha se
aproximado bastante. O lado direito ainda estava na escuridão. Mediante uma
pequena evolução, Bell colocou a nave exatamente sobre a zona da meia luz.
Depois, começou a baixar.
Quando o casco da nave entrou em contato
com as camadas superiores da densa atmosfera, o girino número cinco foi
sacudido por um violento abalo que arrancou Bell da poltrona. Enquanto se
levantava, meio aturdido, perscrutando rapidamente os controles, a porta da
central se abriu e vários dos mutantes entraram correndo.
Ralf Marten segurou-se na parede.
— O que está se passando com você, Bell?
Está querendo nos matar a todos?
Bell lançou um olhar de desprezo para
aquele teuto-japonês, esguio e de cabelos escuros.
— Está com medo? Mas, honestamente, eu
mesmo não sei o que aconteceu. Espere um momento, Seiko está me chamando.
O rosto do telegrafista estava lívido
quando apareceu na tela de imagem. Mexia nos seus aparelhos.
— Mensagens radiofônicas — disse ele, sem
interromper os manejos. — Da hiperestação. Deve ser o cérebro positrônico.
Recusa a permissão para o pouso.
— O quê? — berrou Bell. Seus cabelos
curtos e ruivos se ouriçaram ameaçadoramente e transformaram-se numa verdadeira
escova de aço. Uma ira repentina brilhava nos seus olhos. — Que idéia maluca é
essa? Pergunte a esse robô idiota qual a razão da sua recusa!
Bem que Seiko tentou, mas seus esforços
foram em vão. Com uma obstinação irritante, a instalação do cérebro positrônico
enviava constantemente a mesma mensagem, sem tomar conhecimento das tentativas
desesperadas do japonês.
— A chave secreta X foi ativada. Qualquer
aproximação na atmosfera de Vênus será impedida com o campo repulsor
hiper-gravitacional. Repito: a chave secreta X foi ativada...
Repetia essa mensagem incessantemente,
como se estivesse gravada numa fita sem fim.
Finalmente Bell desistiu, e ordenou a
Seiko que vasculhasse toda gama de freqüências, à procura de algum outro sinal
radiofônico. Desligou o intercomunicador e se dirigiu a Marten:
— Nessas condições, Rhodan também não
conseguiu pousar. O cérebro positrônico deve ter enlouquecido.
Bell não podia saber que esse procedimento
estranho nada mais era do que uma conseqüência lógica dos acontecimentos
precedentes. O próprio Rhodan havia programado a chave secreta X no cérebro
positrônico durante a sua última visita à base venusiana.
O cérebro tinha recebido a ordem de erigir
o campo repulsor indistintamente diante de qualquer um, conhecesse ele o código
ou não, se antes tivesse registrado alguma ocorrência que pudesse ser
considerada suspeita.
E esse estado de programação havia sido
atingido naquele instante em que o cérebro derrubou os dois destróieres. Eram
naves da frota de Rhodan, sem dúvida, mas não conheciam o código secreto.
O girino número cinco também era uma nave
de Rhodan, e essa conhecia o sinal. Mas agora já era tarde demais. O campo
repulsor havia sido erigido e só podia ser novamente eliminado por uma chave
especial dentro da fortaleza.
Somente um arcônida, ou o próprio Rhodan,
podiam penetrar na base, graças ao padrão característico das suas ondas
encefálicas.
E com isto tinha se chegado a um ponto
morto, que só poderia ser superado por Thora ou Rhodan, mas nunca por Bell.
No momento talvez fosse até bom que Bell
não soubesse disso. Sua raiva daquele cérebro positrônico teria atingido
proporções incomensuráveis.
A nave esférica girava em torno de Vênus a
uma altura constante. Não podia baixar mais, porque aquele anteparo energético
a impedia de fazê-lo. Ver, também não se via nada, já que os aparelhos eram
incapazes de perfurar a densa camada de nuvens. Apenas Wuriu Sengu, com sua visão
raio-X, conseguia enxergar a superfície do planeta. A sua faculdade de poder
trespassar a matéria sólida com o olhar proporcionou-lhe a oportunidade de ver
selvas, pântanos, mares e cordilheiras, mas isso em nada contribuía para sair
do impasse.
— Agora eu tenho certeza — murmurou Bell,
desesperado — que algo aconteceu a Rhodan. Se a culpa for daquele cérebro
positrônico, vou transformá-lo em sucata com estas minhas mãos!
Ralf Marten sacudiu a cabeça.
— É um propósito meio difícil de realizar,
porque ninguém, repito, ninguém pode pousar em Vênus no momento. O planeta encontra-se
totalmente isolado. Não sei o que aconteceu, mas sei que as instalações
automáticas da base são de uma confiabilidade a toda prova. Não há poder no
mundo que possa impedi-las de cumprir rigorosamente com o seu dever.
— Dever! — gemeu Bell, nervoso. — O que
esse monturo idiota de lata entende de deveres? Era sua maldita obrigação
ajudar a nós e a Rhodan. Em vez disso... bolas!
Chamou Seiko na central radiofônica.
— Precisa emitir constantemente e procurar
estabelecer uma ligação com Rhodan. Deve estar lá embaixo, entre selvas,
pântanos e sáurios.
Com um suspiro, que denotava sua profunda
aflição, recostou-se na poltrona do piloto e se entregou aos seus pensamentos
sombrios.
E por baixo da nave rodava, com infinita
lentidão, o planeta encoberto, que se recusou a revelar os seus segredos.
* * *
Durante a descida do platô notaram os
primeiros indícios da aurora.
Longe, no leste, Rhodan vislumbrou um
tênue brilho na escuridão impenetrável. Os primeiros raios lançaram-se do
horizonte para as camadas superiores das nuvens, tingindo-as num tom róseo. Mas
a luminosidade se alastrava muito lentamente e, no momento, era impossível
definir a posição do sol atrás daquela faixa de claridade incipiente.
Isto ainda levaria horas.
Durante a marcha através da escuridão da
noite venusiana, Okura os havia alertado constantemente contra todos os
obstáculos que encontrava e, assim, conseguiram chegar até aqui em segurança.
Não havia sinal de possíveis perseguidores, e era mais do que provável que só
daqui a algumas horas a sua fuga seria descoberta.
Isso servia aos propósitos de Rhodan. Não
tinha a menor intenção de se intrometer na briga daquelas tropas de invasão desbaratadas,
as quais, no íntimo, já considerava como os primeiros colonos venusianos. Mas
não deixaria de alertar Tomisenkow; se conseguisse chegar até ele. E isto,
pensou Rhodan, ainda era meio incerto.
Entre os dois platôs, estendia-se a
baixada com seus pântanos traiçoeiros. Rabov disse que a travessia era menos
perigosa à noite, porque assim que o dia raiasse os sáurios despertavam e saíam
do seu esconderijo à procura de alimento. Disse, ainda, que na grande maioria
eram herbívoros, o que, porém, não os impedia de atacarem outros seres vivos,
se neles vissem concorrentes ou intrusos indesejáveis.
Rhodan e seus companheiros confiavam
plenamente nas suas infalíveis armas energéticas e tranqüilizaram Rabov, que
portava apenas a pistola de serviço, com a qual, realmente, não poderia
enfrentar aqueles gigantes pré-históricos. Víveres não constituíam preocupação,
porque ainda possuíam algumas provisões e alcançariam o acampamento de Tomisenkow
dentro de vinte horas, na pior das hipóteses. E, se a água escasseasse,
poderiam se reabastecer no rio que atravessava a baixada.
Quando chegaram ao local, onde Rabov os
havia capturado de surpresa, já havia claridade suficiente para poder
reconhecer a vizinhança imediata. E não ficaram muito satisfeitos com o que
viram.
A queda d’água precipitava-se num rio, que
corria velozmente e desembocava num imenso lago. Ao longo das margens desse
lago, explicou Rabov, serpenteava o caminho através da baixada. A margem era
constituída por mata cerrada, da qual se levantava um denso nevoeiro que se
mesclava com as nuvens baixas. A leste, uma mancha difusa pairava na neblina
mormacenta — o sol.
Havia movimento no lago. Aqui e acolá,
via-se um remoinho e depois apareciam os enormes corpos de sáurios dos mais
diversos tipos que, de uma maneira geral, apresentavam grande semelhança com
aqueles que, em priscas eras, tinham povoado a Terra. Alguns permaneciam na
água rasa e começavam a pastar embaixo da superfície. Estes eram os menos
perigosos.
Outros, porém, nadavam ou caminhavam
pesadamente até a margem, galgavam a terra firme e, bamboleantes, desapareciam
na floresta, onde se dedicavam a devorar pequenas árvores sem a menor
dificuldade.
Rhodan havia assistido àquela movimentação
com olhos semicerrados. Soltou um suspiro e disse a Marshall:
— Até que enfim vai poder verificar se
sáurios pensam, e o que eles pensam. Acredita que os cérebros deles são capazes
de emitir correntes de pensamentos?
— E por que não? — respondeu o telepata,
pensativo. — Tenho para mim que os pensamentos deles não devem lá ser coisa
muito sensata ou lógica, mas seria muita presunção negar-lhes qualquer
capacidade de pensar. Todo ser vivo pensa, até a formiga. Só o homem tem a
pretensão de achar que é o único ser racional. Isto o distingue do animal, mas
de forma alguma no sentido positivo. Bem, nós astronautas somos diferentes
daqueles que nunca tiraram o pé da Terra. Se tínhamos algum preconceito, o
perdemos pelo contato com o universo. Sabemos que a raça dominante de um
planeta pode ter o aspecto de um réptil, e isto fez nascer em nós o respeito
pelo animal terrestre. Involuntariamente, não vemos num cachorro apenas o animal
mas, sim, um verdadeiro ser vivo, que só se distingue de nós, pelo fato de
pensar de maneira diferente.
— Quer dizer que vê um parentesco entre a
nossa capacidade de aceitar raças estranhas e extraterrenas e o amor que
dedicamos ao animal da Terra? — espantou-se Rhodan, apesar de estar começando a
imaginar qual seria a conexão.
— Perfeitamente — disse Marshall, em tom
convicto. — Pode ser atrevimento de minha parte, mas vou mais longe ainda. Na
minha opinião, apenas quem ama verdadeiramente os animais está em condições de
avançar universo adentro e estabelecer contato com os habitantes de planetas
estranhos. Somente um homem desses possui a compreensão necessária para não
recuar horrorizado diante de formas de vida as mais impossíveis. Ao contrário,
vai aceitá-las como são e reconhecer que têm os mesmos direitos; fato que,
algum dia, poderá ser decisivo no estabelecimento da paz em todo o universo.
Rhodan não deu resposta. Olhou para a
selva mormacenta lá embaixo; sabia que outro não tinha sido o aspecto das
planícies na Terra, milhões de anos atrás. Naquela era, o animal havia sido o
soberano do planeta, porque o homem só apareceu muito mais tarde. Devia a sua
existência ao animal, assim como o animal à planta. Sucedendo-se, um substituía
o outro, e todos eram interdependentes. Um não existiria se não tivesse havido
o outro. E nem um podia passar sem o outro.
E apesar disso, todos viviam da luta entre
si...
Rhodan arrancou-se dos pensamentos.
— Não vai haver problemas; não há sáurio
que resista aos nossos irradiadores de impulsos. Só espero não ter que matar
muitos. Eles pertencem a esse mundo, e esse mundo é deles. Vamos indo.
Rabov ia na frente, seguido de Rhodan,
enquanto Marshall e Okura formavam a retaguarda. Alcançaram rapidamente a
margem do extenso lago pantanoso, mas Rabov se manteve suficientemente afastado
para não terem que atravessar terreno molhado demais. Debaixo das gigantescas
árvores, o chão ainda se apresentava relativamente seco, era praticamente
impossível que aqui topassem com algum sáurio.
Tudo estava correndo satisfatoriamente,
até que contornaram a última enseada, deixando o lago para trás. Não tinham
escolha. Teriam que atravessar um capinzal de uns cinco quilômetros de largura,
onde só em alguns pontos espalhados se erguia uma árvore solitária. Aqui, o
capim atingia uma altura de cinco metros, o que lhes tolhia inteiramente a
visão. O chão era úmido e cedia. Caminhavam como que por cima de uma esponja
gigantesca, e nem de longe se sentiam tão seguros quanto na selva.
Rabov apontou em direção ao alvo, que se
destacava das névoas arroxeadas como um bloco de cor escura.
— Esta é a trilha que costumávamos
percorrer; mas só à noite. Daqui a pouco voltamos a pisar em terreno seco.
Apressou os passos para sair o mais
depressa possível da zona perigosa. Rhodan o seguiu, vigilante, de arma na mão.
De repente, Rabov emitiu um grito agudo,
arrancou a pistola do cinto e disparou o pente inteiro na floresta de capim à
sua frente. Depois recuou e esbarrou contra Rhodan, que teve dificuldade para
se manter em pé.
Okura esticou o braço e apontou para a
frente, onde os colmos do capim subitamente se separaram. Rhodan pensou que o
sangue fosse lhe congelar nas veias quando viu o monstro que se arrastava em
direção a eles, sem se importar com os projéteis de Rabov, que haviam
ricocheteado em sua pele. Devia ter uns dez metros de comprimento e se
assemelhava a um dragão pré-histórico. Deslocava-se sobre quatro patas e nas
costas ostentava uma crista, constituída por placas ósseas. Os olhos na pequena
cabeça brilhavam com uma expressão traiçoeira. Da boca larga do réptil, pendiam
tufos de capim e raízes de árvores.
— Um estegossauro — murmurou Rhodan,
indeciso. — A rigor, é um herbívoro inofensivo. Se não estivéssemos exatamente
no seu caminho...
— Atire logo — implorou Rabov, tremendo
como vara verde. — Vai nos esmagar! Eles atacam os homens, eu já vi isso mais
de uma vez!
Marshall se afastou um pouco para o lado e
ergueu a arma. Rhodan olhou para ele e sacudiu a cabeça.
— Aguarde, Marshall.
Okura parecia compreender que, apesar da
situação, Rhodan queria ganhar tempo para fazer uma experiência. Por isso,
também se afastou da trilha, mantendo-se quase oculto no capim que a margeava.
Rhodan acenou quase imperceptivelmente, nas não desviou o olhar do estegossauro.
O enorme animal arrastava o corpo pesado
através do capim, aproximando-se cada vez mais. Seguia os movimentos dos homens
com olhos ágeis, porém não fez qualquer menção de atacá-los. Rhodan havia
agarrado Rabov pela mão, puxando-o para perto de si. A poucos metros de
distância, o sáurio passou pelos homens, sem lhes dedicar maior atenção.
Esmagou o capim à sua frente como um rolo compressor, deixando atrás de si uma
verdadeira estrada de uns quatro ou cinco metros de largura, pela qual
arrastava a cauda couraçada. Segundos depois, voltou a pastar pacificamente.
Quando Rhodan se virou com um sorriso
triunfante para Marshall, viu a expressão de espanto no rosto deste.
— Pensou! — murmurou Marshall, ainda
aturdido. — Esse bicho pensou!
— E o que foi que pensou?
Marshall sacudiu a cabeça.
— Pensou com tanta clareza que cheguei a
acreditar que um homem estivesse diante de mim!
— Diga logo o que o bicho pensou,
Marshall! Será que o monstro o desnorteou?
— O que pensou foi o seguinte: “Será que vale a pena esmagar estas pragas
nocivas?”
— Pragas nocivas?
Marshall acenou.
— Sim, foi isso que ele pensou; e se
referiu a nós!
Rhodan deu um sorriso fraco.
— Não é muito lisonjeiro, mas reforça a
teoria a respeito da qual estávamos filosofando ainda há pouco. Que é impressionante,
é. Mas vamos embora; não temos tempo a perder. De qualquer maneira, estou
satisfeito que não foi preciso matá-lo. O bicho pensou, e por isso merece
viver.
Percorreram alguns metros da estrada
aberta pelo estegossauro; depois Rabov enveredou pela direita. Não tinha
entendido uma única palavra da conversa e devia achar que os seus três
companheiros haviam ficado birutas. Mas não se atreveu a fazer perguntas.
Pouco depois, chegaram àquele paredão
quase a pique, e iniciaram a escalada. Seguiram por uma trilha bastante batida
e duas horas depois alcançaram a beira do platô.
Rabov olhou cuidadosamente ao redor, mas
parecia não encontrar o que estava procurando. Um pouco perplexo, virou-se para
Rhodan.
— Não vejo as sentinelas. Isto é estranho.
Normalmente havia dois homens postados aqui.
— O acampamento de Tomisenkow fica longe?
— perguntou Rhodan; já havia recolocado a arma no cinto.
— Uns dez minutos, não mais do que isso.
— Então vamos.
O fato de não ter encontrado sentinelas
parecia preocupar Rabov sobremaneira. Simplesmente não lhe entrava na cabeça
que Tomisenkow tivesse relaxado de tal maneira sua habitual vigilância. Logo
ele, que era a desconfiança personificada.
— Atrás daquelas rochas se encontram as
primeiras cabanas — murmurou Rabov, e ia acrescentar mais alguma coisa, porém
os acontecimentos que se precipitariam nos próximos segundos impediram que o
fizesse.
Era como se o inferno tivesse explodido.
Um silvo agudo fez com que Rhodan e seus
dois companheiros se jogassem ao solo, numa fração de segundo. Rabov, porém,
não reagiu com a mesma rapidez. Onde estava, foi atingido pela saraivada de uma
metralhadora, oculta entre os arbustos. Cambaleou durante uns dois ou três
segundos, depois tombou pesadamente ao chão.
Agora estavam sem guia, e teriam que achar
sozinhos o caminho que levava a Thora. Rhodan sabia disso. E não precisava se
certificar. E sabia também que...
Uma dor lancinante varou-lhe o ombro
direito. Era como se alguém o tivesse trespassado com um ferro em brasa. Também
tinha recebido um tiro.
O general Tomisenkow devia ter concentrado
suas tropas na aldeia, substituindo as sentinelas e postos avançados por uma
instalação de defesa automática. E isto significava morte certa para quem
tentasse se aproximar da aldeia.
Marshall já sabia o que tinha acontecido.
Apesar das balas sibilantes, ergueu-se de um pulo e se aproximou de Rhodan para
examiná-lo.
— Felizmente o tiro não afetou nenhum
osso. Mas temos que sair daqui. Okura, ajude-me.
Rhodan gemia de dor, contudo tentou
auxiliar Marshall e o japonês, quando o arrastaram alguns metros para trás. E,
como por encanto, cessou de repente o matraquear das metralhadoras ocultas por
toda parte. Rhodan e os companheiros já se encontravam fora da zona de
bloqueio.
Rabov estava morto. Nunca mais necessitaria
de ajuda. Ao menos, não precisava mais se decidir a favor de Wallerinski ou de Tomisenkow.
Marshall e Okura sentiram-se aliviados
quando Rhodan declarou que estava em condições de caminhar sozinho. Por via das
dúvidas ampararam-no, um de cada lado, e trataram de colocar distância entre
eles e aquela traiçoeira armadilha mortal. Contra esta, nem mesmo os
irradiadores de impulsos seriam eficazes, porque não se conseguia discernir
alvo algum.
Longe, atrás deles, ouviram uma voz de
comando e um tiro solitário. Alguns homens gritaram e depois fez-se novamente
silêncio.
— Vamos ficar no platô? — quis saber
Marshall.
Rhodan reprimiu suas dores.
— Por enquanto, podemos nos abrigar
naquela floresta, à direita. Não consegue descobrir o que esses homens pretendem?
Afinal, a distância não é tão grande assim.
— Vou deixar isso para mais tarde, quando
tiver sossego suficiente para me concentrar — observou Marshall. — Primeiro,
precisamos levá-lo a um lugar seguro e tratar do seu ferimento.
Rhodan resolveu não dar resposta. Sabia
que podia confiar nos companheiros; além disso, precisava poupar suas forças.
Penetraram profundamente na floresta que,
aqui, não era muito densa e finalmente encontraram uma gigantesca árvore, de
tal maneira enleada por trepadeiras que seria fácil galgá-la. Rhodan
praticamente dispensou auxílio, pois só precisou da mão esquerda para se alçar
pouco a pouco. Vinte metros acima do solo da floresta, encontraram um galho
bastante largo e. achatado, que se estendia quase na horizontal, perdendo-se no
emaranhado dos galhos vizinhos. Uma verdadeira cortina de cipós pré-históricos
oferecia proteção para todos os lados. Haviam encontrado uma cabana natural no
alto da árvore e que, mais tarde, ainda poderiam reforçar por meio de galhos
flexíveis.
O ferimento de Rhodan não era grave; a
bala havia atravessado o ombro de lado a lado. Marshall aplicou um curativo e
fez Rhodan tomar um remédio contra febre. Dez minutos depois, a respiração
regular do ferido mostrou que tinha caído no profundo sono da convalescença.
Mas Okura e Marshall continuavam intranqüilos.
— Bem, cá estamos — disse Okura,
sussurrando, a fim de não acordar Rhodan. — Thora caiu nas mãos desse Tomisenkow,
e nós estamos trepados nessa árvore como macacos indefesos, e esperamos que
aconteça um milagre. E Bell? Deus sabe onde se encontra. Não deve estar se
precipitando; também não tem noção que tudo saiu ao contrário. Mas, a essa
altura, devia começar a se preocupar um pouco.
É claro que Okura não podia saber que Bell
estava bem acima deles, girando em torno de Vênus no girino número cinco, igualmente
à espera de um milagre que lhe permitisse o pouso nesse maldito planeta. O
aparelho radiofônico estava em funcionamento ininterrupto, tentando estabelecer
comunicação com alguém. O receptor permanecia mudo.
Com uma expressão melancólica, Marshall
checou as provisões.
Constatou que eram bastante minguadas.
— Não dá para agüentar muito tempo — disse
ele — a não ser que voltemos a caçar.
— Só daqui a três ou quatro dias Rhodan
vai poder mexer novamente o braço — constatou Okura. — Ao menos até lá devíamos
ficar na proteção dessa cabana.
— Ah! — resmungou Marshall e se acomodou.
— Eu vou dormir. Vai ficar acordado?
— Se eu não ficar, quem fica? — respondeu
Okura, com um sorriso cansado. Ajeitou-se da melhor maneira que pôde, com as
costas apoiadas no tronco da árvore, e colocou o irradiador de impulsos sobre
os joelhos.
* * *
Após algumas horas de sono e uma refeição
reforçada, Rhodan recuperou a costumeira energia. Graças aos excelentes
medicamentos, a ferida sarou, e já começara a cicatrizar. Em instante algum
chegou a estar com febre.
Analisaram a situação.
Depois de terem considerado todos os
pontos, Rhodan fez um resumo:
— ...portanto, é uma ilusão pensar que
podemos estabelecer contato com Tomisenkow. Guarda Thora como a menina dos
olhos, e não vai perder a oportunidade de fazer umas tantas exigências para
libertá-la. De Bell, não temos notícia alguma. Já deve ter pousado na base há
muito tempo; a não ser que o cérebro positrônico ativou a chave secreta X
programada por mim. Nesse caso, é claro que não vai poder pousar; aliás,
ninguém mais pode pousar em Vênus.
— Se for assim, como vão poder nos
resgatar? — perguntou Okura, preocupado.
— Só resta uma única possibilidade: vou
ter que alcançar a base a pé, para poder reprogramar o cérebro positrônico. Mas
isso fica para depois. Antes, quero libertar Thora.
— Mas o senhor acabou de dizer... —
começou Marshall, porém logo emudeceu. Devia ter vasculhado indiscretamente os
pensamentos de Rhodan. — Tinha me esquecido dela! — murmurou, concluindo sua
observação.
Okura olhou de um para o outro sem
entender nada. Não sabia ler pensamentos e, assim, também não sabia a que
Marshall estava se referindo. Rhodan notou a perplexidade do japonês e pôs-se a
explicar do que se tratava.
— Quando, muitos anos atrás, pousamos pela
primeira vez em Vênus, topamos com aquelas focas semi-inteligentes nas margens
do mar pré-histórico. Nossos telepatas conseguiram se comunicar com elas, e
acabamos por nos dar muito bem com esses seres. Houve até uma ocasião, em que
pude auxiliá-los, prestando-lhes um grande favor. Talvez não tenham esquecido
isto e estejam prontos a saldar sua dívida de gratidão. Seria um absurdo se
quiséssemos todos os três empreender a longa marcha para aquele mar, que se
situa no leste. E só um telepata pode se comunicar com estas focas e lhes
explicar o que desejamos delas. Vamos discutir os detalhes mais tarde, mas acho
difícil que encontremos uma solução melhor.
— Um telepata?! — gemeu Marshall e
empalideceu um pouco. — Portanto, está se referindo a mim! Eu... marchar
sozinho através dessa floresta?
Brincou nervosamente com a larga pulseira,
que abrigava uma série de instrumentos minúsculos.
— Não acha melhor tentar estabelecer
comunicação com Bell?
— Isso também, mas se a chave secreta X
foi ativada, a tentativa não vai nos ajudar em nada. As focas conhecem o
caminho para a base e, portanto, podem nos guiar. Não adianta estrebuchar,
Marshall, não vai poder escapar ao seu destino. Okura e eu vamos permanecer
aqui, aguardando o seu regresso. Se ocorrer algo de novo em relação a Tomisenkow,
vamos deixar uma mensagem para você neste local.
— E as provisões? Vamos viver de quê?
— Tem a sua pistola e pode caçar —
tranqüilizou-o Rhodan. — Nós vamos tentar fazer o mesmo com os irradiadores de
impulsos.
— Não é necessário — asseverou Okura e
puxou uma pesada pistola do bolso. — Não vi razão alguma — acrescentou, como
que a se desculpar — para deixar a arma de Rabov cair nas mãos dos homens de Tomisenkow.
Essa pistola nos garante mais carne do que podemos comer.
Rhodan acenou, satisfeito.
— Ótimo! Então está tudo decidido,
Marshall. Sugiro que agora durma mais algumas horas. Depois vamos discutir os
detalhes finais.
* * *
Já era dia em Vênus. A claridade havia
atravessado o teto da floresta, removendo todos os véus ocultantes da noite. A
cabana na árvore flutuava num mar de orquídeas multicoloridas, que pareciam
enormes águas-vivas boiando num lago verde. Escaravelhos coloridos rastejavam,
apressados, sobre os galhos e troncos. Mais acima, ouviam-se os grasnidos e
gorjeios dos habitantes alados da selva.
Com certo desânimo, Marshall se despediu
de Rhodan e Okura, e desceu do esconderijo. Lá embaixo, ainda parou por um
instante, e acenou para os companheiros. Depois se virou e iniciou a longa
marcha para leste, em direção àquele mar pré-histórico. Viram-no desaparecer na
vegetação cerrada e, pouco depois, já não ouviam mais os passos cautelosos.
Agora Rhodan e Okura estavam sozinhos
naquela cabana no alto da árvore.
Por enquanto, estavam condenados à
inatividade. Teriam que aguardar o regresso de Marshall. Mas isso poderia levar
vários dias. Seria dia claro por mais cento e vinte horas. Se Marshall
conseguisse realizar sua tarefa dentro desse prazo, teriam dado um grande passo
para a frente. Se não...
Okura brincava distraidamente com a
pulseira de utilidade múltipla quando, de repente, ouviu uma voz baixa que
emanava do alto-falante do minitransmissor:
— ...chamando Perry Rhodan; atenção,
estamos chamando Perry Rhodan; responda Perry Rhodan!
Aquela voz estava se tornando cada vez
mais alta, como se o emissor estivesse se aproximando a grande velocidade.
Repetia essa mensagem sem cessar.
Rapidamente Okura ligou o rastreador e
olhou quase verticalmente para cima. Uma expressão de dúvida se delineou no seu
rosto. Rhodan deu um sorriso, que era um misto de contentamento e resignação.
— É a voz de Bell, Okura. Acuse o
recebimento da mensagem!
Segundos depois, ouviram Bell soltar um
grito alto, que denotava surpresa ao mesmo tempo que alívio.
— Com mil diabos, Rhodan, onde é que você
está? Estou procurando você como uma agulha no palheiro. Por que você não
entrou em contato antes?
— Calma Bell, uma coisa depois da outra.
Onde você se encontra?
— A bordo do girino número cinco e não
posso pousar. Aquele maldito cérebro positrônico...
— Bem que desconfiei que fosse isso! —
interrompeu Rhodan e suspirou. — Aquela chave secreta foi ativada e ninguém
pode pousar em Vênus. É, Bell, não tem remédio; você vai ter que voltar à Terra
e aguardar o meu chamado. Vou tentar chegar à base. No momento, você não pode
me ajudar!
— E Thora?
— Está em boas mãos — respondeu Rhodan,
com um ligeiro traço de ironia.
— Não vou voltar para a Terra! — disse
Bell, de repente. Sua voz já soava novamente mais baixa, porque a distância
estava aumentando. — Vou circular por aí, até poder pousar. E fim do papo!
Quando Bell dizia fim do papo, nada mais podia alterar o seu ponto de vista.
Rhodan sabia disso.
— Muito bem, por mim pode ficar orbitando
em torno de Vênus o tempo que quiser. Okura e eu vamos brincar de Tarzan aqui
na floresta, enquanto Marshall negocia com as focas venusianas. No momento,
está tudo na mais perfeita ordem. Recomendações minhas aos mutantes!
A resposta de Bell veio tão débil que se
tornou ininteligível; mas Okura estava pronto a jurar que tinha sido um
palavrão.
Rhodan deu um sorriso meio forçado. Voltou
a sentir dores. Recostou-se contra aquela cortina de cipós gigantes. Acima da
sua cabeça pendia uma orquídea cor de sangue, do tamanho da cabeça de um homem.
— Vai ficar xingando o tempo todo ou eu
não o conheço. Não há coisa que ele deteste mais do que ficar de mãos atadas,
enquanto os outros estão mergulhados até o pescoço nas aventuras mais malucas.
— E nem pode assistir ao espetáculo! —
disse Okura, sorrindo, e apontou para o alto, onde a eterna camada mormacenta
pairava acima do teto da floresta.
Rhodan fechou os olhos e acenou.
Pensou no quanto tinha que realizar.
Tarefas gigantescas o aguardavam. Havia iniciado a obra da sua vida ainda outro
dia, mal tinha lançado a pedra fundamental. Em algum lugar da Via Láctea, o
Grande Império estelar dos arcônidas estava começando a desmoronar. Talvez,
neste preciso instante, a anos-luz de distância, novas frotas de invasão
estivessem decolando, a fim de fazerem uma visita de surpresa à Terra.
No momento não podia agir. O destino tinha
lhe tirado a responsabilidade das mãos. Mas Rhodan sabia que, algum dia, essa
responsabilidade lhe seria restituída mil vezes mais pesada.
E enquanto os sáurios pastavam nas baixadas,
enquanto Thora com mal reprimida raiva negociava o seu preço com Tomisenkow,
enquanto Marshall percorria sozinho a solidão da selva e Bell orbitava em torno
de Vênus com ira impotente, enquanto tudo isso acontecia, Perry Rhodan dormia o
sono da convalescença definitiva; e lá estava Son Okura, atento e vigilante,
para que ninguém perturbasse os sonhos do seu amo e senhor.
A hora da decisão, que parecia tão
próxima, estava agora mais longe do que nunca, oculta nas brumas de um futuro
remoto...
* * *
* *
*
Também os
imortais podem cometer tolices!
Quando
Thora fugiu, Perry Rhodan cometeu a tolice de segui-la com uma nave espacial
que ainda não estava em condições de emitir o código de identificação exigido
pela base de Vênus.
A
conseqüência disso foi a imediata ativação da Chave Secreta X, que fez de Perry Rhodan um prisioneiro de
Vênus.
Chave Secreta X é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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