sábado, 3 de novembro de 2012

P-022 - A Fuga de Thora - Clark Darlton [parte 3]


— Então, por exclusão, só restam os homens de Tomisenkow — disse Rhodan.
— O pessoal do Bloco Oriental? — Marshall ainda mantinha a cabeça inclinada. — O que esses caras querem aqui?
— Caçar...       
Rhodan foi interrompido por um novo tiro, seguido dos estampidos de uma salva inteira. A resposta não se fez tardar; uma fuzilaria irregular veio de uma outra direção. Aquilo não era uma caçada. Era um combate entre dois grupos que se defrontavam na região. E isso alterava a situação. Rhodan olhou pensativo para aquele paredão, que se erguia quase a pique.
— Não vejo mais sentido em subir ao platô. Se me reconhecem, acabam comigo em três tempos. Pois é a mim que devem sua sorte atual; ao menos, é o que eles pensam. Por outro lado, eles possuem fuzis, e com esses a gente pode caçar. Seu revólver foi útil, Marshall, mas também não vai nos salvar por muito tempo. Portanto, um de nós vai ter que tentar estabelecer contato com eles.
— Uma tarefa arriscada como quê! — murmurou Okura. — Mas eu poderia tentar, porque eu consigo enxergá-los mais cedo do que eles a mim.
— De noite, sim. Eu acho que devemos subir juntos ao platô. Depois, resolvemos o que vamos fazer.
Enquanto arrumavam os seus pertences, ainda ouviram alguns tiros esparsos. Embrulharam o resto da carne em folhas secas, abasteceram-se de água e, finalmente, reduziram a fogueira sem, porém, extingui-la.
— Será que não podíamos dormir mais algumas horas? — quis saber Marshall. — Sei que estamos com pressa, mas também não com tanta assim.
Rhodan inclinou a cabeça e aguçou os ouvidos. Nenhum som veio do alto. O silêncio reinava novamente naquele platô. Rhodan acenou.
— De acordo. Mais cinco horas de sono e depois partimos. Eu só não entendo por que é que estão se batendo. Gostaria de saber qual é o pomo da discórdia.
Okura se estendeu embaixo de uma saliência de rocha e disse:
— O pomo da discórdia é Vênus, ora essa! Como os conheço, eles se engalfinharam porque não chegaram a um acordo quanto ao tipo de sociedade mais adequado para os futuros venusianos.
Rhodan acenou, com uma expressão séria no rosto.
— Pode ser que tenha razão, Okura. Mas, se esse for o caso, estão brigando à toa, porque jamais vai caber a eles resolver este assunto.
— E quem é que não briga por uma coisa dessas? — murmurou Marshall e fechou os olhos. A julgar pela sua expressão, desejava sonhar com bifes de porquinhos-bassê, mas não pensar a respeito de absurdos.
A fogueira se extinguiu lentamente. Escureceu.
E tudo continuou escuro, até que um súbito clarão rompeu as trevas. Mas isso só aconteceu horas mais tarde.

* * *

Quando o sargento Rabov entregou Thora e o robô no quartel-general de Tomisenkow, ficou admirado com a indisfarçada satisfação demonstrada pelo seu comandante supremo. Depois, em cumprimento às ordens recebidas, se embrenhou na mata à frente de uma patrulha de vinte homens, numa operação de reconhecimento da ilha rochosa dos rebeldes. Se possível devia fazer alguns prisioneiros, pois Tomisenkow queria saber se estavam planejando um ataque contra ele.
O caminho era longo e conduzia através de pântanos, baixadas e florestas, mas Rabov não o estava percorrendo pela primeira vez. Conhecia as marcações que levavam ao platô do inimigo; por isso não tinha dúvidas que encontraria esse caminho sozinho... no momento oportuno.
Mas esse dia ainda não havia chegado.
A patrulha de Rabov não era a única em operação nesta noite. Do lado oposto, um pequeno exército de uns duzentos homens aproximava-se do platô no qual se haviam instalado os rebeldes. Esses homens faziam parte de um outro bando sedicioso das tropas de Tomisenkow. Por razões puramente ideológicas, este bando não era partidário de nenhuma das duas facções, mas representava o pacifismo absoluto. E agora estava empenhado em impingir esse pacifismo aos rebeldes; se preciso, com o emprego da violência.
Um tenente de nome Wallerinski comandava o destacamento.
Wallerinski e seus homens chegaram primeiro. Escalaram a ilha rochosa dos rebeldes e pegaram as sentinelas de surpresa. Fiel aos seus princípios pacifistas, Wallerinski não matou as sentinelas, apenas as aprisionou. Mas isto não o impediu de interrogá-las com todos os requintes da arte de arrancar informações, a fim de que revelassem o esconderijo dos rebeldes.
Uma hora mais tarde, o destacamento de Wallerinski topou com o posto avançado dos rebeldes. Mas o homem não estava dormindo, e conseguiu soltar um tiro de alerta, que acordou o acampamento. Dez minutos depois, o tiroteio começou.
Rabov e seus vinte homens ainda se encontravam a alguns quilômetros do platô dos rebeldes quando ouviram os tiros. Discutiram o fato e chegaram à conclusão que, nas redondezas, deviam existir outros grupos daquele exército desbaratado, e que se combatiam mutuamente.
E essa triste verdade só tinha uma explicação: a culpa era daquela natureza inóspita, que transformava conhecidos em estranhos e impedia que se mantivessem as relações de amizade.
Rabov ia dar a ordem para prosseguir a marcha, quando um dos seus homens veio correndo em sua direção.
Agitado, e quase sem fôlego, o homem balbuciou:
— Luz! Lá na frente há uma fogueira. Pode-se vê-la com toda a nitidez!
— Lá embaixo? — quis saber Rabov.
— Sim, no pé do paredão. Talvez os rebeldes instalaram um posto avançado lá.
— É, um posto avançado com uma fogueira, para que possam ser vistos a quilômetros de distância — disse Rabov com ironia. Tinha certeza que a verdade era bem outra, mas qual seria, não podia imaginar. Senão teria refletido um pouco mais, antes de emitir sua ordem: — Vamos descer, para ver quem são!
E assim, duas horas mais tarde, Rabov olhou para três homens adormecidos, que acordaram imediatamente quando os feixes dos holofotes incidiram nos seus rostos.
Como tinham aspecto bem tratado e não trajavam o uniforme daquele exército desbaratado, Rabov se dirigiu a eles em inglês. Tinha o vago pressentimento que aquela mulher havia mentido ao afirmar que somente ela e o robô se encontravam naquela nave espacial derrubada.
— Estão sob a mira de vinte fuzis! — advertiu — portanto, não tentem agarrar as pistolas. Um dos meus homens vai agora recolher suas armas. Se estiverem de acordo, acenem.
Perry Rhodan reconheceu que tinha cometido um erro fatal. Era realmente um contra-senso querer dormir tranqüilamente num terreno onde se realizava um tiroteio. Agora teria que arcar com as conseqüências. Baixinho, sussurrou para Okura:
— Consegue reconhecer alguma coisa?
— O sujeito não está mentindo, não — cochichou o japonês em resposta. — Estamos cercados, e vejo os fuzis apontados para nós. Podíamos liquidar alguns deles...
— E qual é a nossa chance?
— Bem, eu diria um para dez.
— É muito pouco — sussurrou Rhodan e, depois, disse em voz alta: — Mande vir o seu homem para apanhar as armas. Quem são vocês?
— Vai ficar sabendo disso quando chegar a hora. Foram os senhores que atiraram ainda há pouco?
— Se está se referindo àquele tiroteio, sinto ter que desapontá-lo. Foi realizado lá em cima, no platô.
Sem oferecer resistência, Rhodan deixou que lhe tirassem o irradiador de impulsos do cinto e constatou, com satisfação, que Marshall conseguiu ficar com o revólver oculto no fundo do bolso. Okura não fez uma cara muito feliz, quando lhe retiraram a arma. Pela primeira vez não sorriu.
— Muito bem — disse o homem atrás do holofote — agora vamos conversar um pouco.
Quando emergiu da escuridão, Rhodan conseguiu finalmente vê-lo. Um aspecto pouco alentador, constatou no íntimo, fazendo votos para que outro não o reconhecesse; Não era realmente uma perspectiva muito agradável cair nas mãos daqueles homens que ele, por assim dizer, havia entregue a um destino incerto em Vênus.
— Eu sou o sargento Rabov, do exército do general Tomisenkow — apresentou-se Rabov. — E quem são os senhores?
Essa pergunta exigia uma resposta clara. Ou ao menos uma resposta, pensou Rhodan, que não soasse suspeita.
— Faço parte de uma expedição — disse ele, cauteloso — que recebeu a missão de testar a vigilância da fortaleza venusiana de Rhodan.
— Quem o enviou?
— Ora, quem havia de ser?
— Os americanos?
— É possível.
Rabov considerou isto como uma resposta positiva. Só não conseguia explicar por que aquela moça, lá em cima no platô, havia mentido, e por que esses três se tinham separado dela e do robô.
— Suponho que vieram sozinhos. Foram derrubados?
— Adivinhou.
Rabov refletiu. Ainda não era hora de exibir todos os trunfos. O prisioneiro não precisava saber que ele já havia encontrado os outros sobreviventes. Era sempre bom deixar o adversário na incerteza a respeito da sua situação. Isso era um princípio básico antiqüíssimo e de uma eficiência mais que comprovada. Todavia, era bem interessante ouvir que esse homem admitia pertencer à OTAN, enquanto a mulher afirmava representar a Terceira Potência.
— E onde foi derrubado? Rhodan apontou para leste.
— Lá, em cima da selva. Os canhões nos apanharam.
— Ah! — fez Rabov, sem estar convencido. — Quer dizer que não foram derrubados sobre um platô e sim sobre a selva? E depois vieram para cá a pé?
— Isso mesmo. Há algo de estranho nisso?
Rabov não deu resposta. Estava diante de uma encruzilhada. O que seria mais acertado: levar os prisioneiros ao acampamento de Tomisenkow ou entregá-los, como presente introdutório, nas mãos dos rebeldes, aos quais pretendia se aliar? Além disso, ainda era preciso descobrir quem era aquele terceiro grupo que havia atacado os rebeldes de surpresa. Talvez fosse melhor esperar até que não houvesse mais dúvida quem seria o vitorioso.
A prudência venceu e Rabov tomou sua decisão.
— Vamos levá-los conosco — disse ele a Rhodan. — Vamos andando, homens! Quero ver o que se passou lá em cima. Talvez abocanhemos a parte do leão!
A escalada se revelou demorada e não isenta de perigos.
Alguns dos homens de Rabov serviram de guia, pois conheciam a trilha secreta suficientemente bem para encontrá-la também na escuridão. Rhodan, Marshall e Okura iam no meio, seguidos de Rabov. Os demais soldados da patrulha formavam a retaguarda.
Após sete horas, houve um período de descanso e Rabov avisou que agora não faltava muito para atingirem o platô. Rhodan estava admirado com o comportamento inesperado do sargento. Tinha como certo ser tratado com aspereza e severidade e, no entanto, Rabov mostrava-se reservado e, às vezes, até mesmo gentil. Bem, esse pessoal não sabia quem eram seus prisioneiros mas, mesmo assim, a consideração que lhes dispensavam era surpreendente. Rhodan resolveu não se esquecer desse detalhe.
Notava-se que Marshall queria segredar algo a Rhodan, sentado ao seu lado. Mas a presença constante de Rabov impediu que o fizesse e, assim, Marshall resolveu aguardar uma ocasião mais propícia.
Dez minutos depois, reiniciaram a escalada e meia hora mais tarde alcançaram o platô. Na distância, ouviu-se novamente o pipoquear de tiros. Okura caminhava, agora, ao lado de Rhodan e, na primeira oportunidade, sussurrou rapidamente:
— Quer que eu fuja? Para mim é fácil!
Disso Rhodan não tinha dúvida. O japonês podia enxergar no escuro, e, além disso, nenhum dos três prisioneiros tinha sido manietado. Se Okura permanecesse nas proximidades, poderia intervir a qualquer momento, caso a situação viesse a se tornar crítica.
Rabov havia percebido o cochicho e se aproximou, curioso.
— Preferia que se mantivessem em silêncio — disse em tom cortês, porém firme.
Rhodan deu um aceno afirmativo para Okura e depois se dirigiu a Rabov:
— Não se preocupe, eu o acompanharia também de livre e espontânea vontade. Acha que gostaria de ficar sozinho na selva? Não, se alguém pode me ajudar, é o senhor.
Rabov parecia estar mais tranqüilo.
E de repente Okura desapareceu. Além de Rhodan, ninguém mais percebeu a fuga do japonês, pois cada qual estava cuidando de si, procurando não tropeçar em pedras soltas ou troncos de árvores tombados. Aquele tiroteio distante tinha chegado mais perto. Portanto, os combates prosseguiam.
O terreno em frente já era bem menos acidentado. Na distância havia claridade, como se a floresta estivesse em chamas. Provavelmente o acampamento dos rebeldes havia sido incendiado. A fuzilaria era intensa, entremeada pelas detonações de pequenas granadas. Mais além ouviu-se o ribombar de um canhão.
Rhodan constatou, satisfeito, que não estavam empregando armas atômicas. Era um sinal de que os futuros colonos de Vênus ainda não eram tão civilizados a ponto de recorrerem às últimas conquistas da tecnologia humana.
As primeiras balas passaram, sibilantes, sobre as cabeças dos homens. Sem perda de tempo, todos se jogaram no chão. Rabov estava deitado ao lado de Rhodan, a quem não perdia de vista um instante sequer. O incêndio, que devorava a aldeia dos colonos situada atrás do pequeno bosque, fornecia luz suficiente. As poucas árvores, espalhadas na vizinhança imediata, não ofereciam qualquer possibilidade de abrigo.
— Onde é que está seu japonês? — ofegou Rabov, mexendo nervosamente na pistola. — Não vai me dizer que ele...
— Não está longe daqui — explicou Rhodan, sem mentir. — Talvez resolveu examinar a situação mais de perto. Para ser honesto, eu também não me considero propriamente um prisioneiro seu. Seja sensato, Rabov; é esse o seu nome, não é? Pode ser que estejamos defrontando com um inimigo comum. Devíamos nos unir antes que ele nos obrigue a isso.
— As ordens que recebi não foram no sentido de entrar em combate com o inimigo e, sim, para fazer um reconhecimento geral da situação. Preciso saber quem realizou esse ataque de surpresa ao acampamento dos rebeldes.
— Rebeldes, por quê? — admirou-se Rhodan.
— Amotinaram-se contra Tomisenkow e resolveram permanecer em Vênus, de livre e espontânea vontade, para se tornarem colonos.
— Que mais poderiam fazer? Tomisenkow não está de acordo com essa decisão?
— O general só quer realizar a tarefa de que foi incumbido: conquistar a base venusiana de Rhodan.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Isto é tão absurdo quanto inútil. Na Terra, Rhodan e o Bloco Oriental já selaram a paz. O exército de Tomisenkow foi dado como desaparecido.
Rabov silenciou. Então os rebeldes estavam certos quando resolveram iniciar uma vida nova em Vênus. Mas então quem era esse pessoal que havia assaltado os rebeldes? Um outro grupo do qual nada se sabia?
Rabov decidiu botar as cartas na mesa.
— Não sei quem você é, mas vou lhe dizer uma coisa: você mentiu para mim. Você não pertence à OTAN e sim à Terceira Potência de Rhodan. Por que me ocultou isso?
— O que lhe faz pensar isso?
— Apenas sei que é verdade. Não obstante, você foi derrubado pelos canhões de Rhodan. E isso eu não entendo. Tem alguma coisa contra Rhodan?
— Não contra a pessoa dele — disse Rhodan, numa autocrítica cheia de ironia — apenas contra sua leviandade.
— Essa também não entendi! — Rabov sacudiu a cabeça e olhou para a frente, onde o clarão de uma explosão rasgou o crepúsculo. Alguns tiros pipocaram perigosamente perto. Passos apressados arrastavam-se sobre o pedregal. Contra o horizonte em chamas destacavam-se as silhuetas de homens que corriam em todas as direções. A agitação estava aumentando.
— Como sabe que eu pertenço à Terceira Potência? — perguntou Rhodan e olhou para Marshall. Antes que Rabov pudesse responder, o telepata disse:
— Uma nave foi derrubada sobre outro platô. Rabov foi até lá e encontrou uma mulher e um robô. Os dois se encontram agora nas mãos do general Tomisenkow.
Deliberadamente Marshall não citou nomes, mas Rhodan compreendeu imediatamente que Thora não tinha chegado à fortaleza venusiana. Também tinha fracassado no seu intento. A essa altura, já devia ter revelado a sua identidade e isso tornava a situação mais crítica, porque o general Tomisenkow jamais entregaria voluntariamente um trunfo tão alto.
— Isso é verdade? — perguntou Rhodan, dirigindo-se a Rabov.
O sargento acenou, perplexo.
— Como é que ele sabe disso?
Rhodan ignorou a pergunta.
— Quem é essa mulher?
— Não disse o seu nome, porém admitiu pertencer à Terceira Potência. Mas ela mentiu quando disse que veio apenas na companhia do robô. O senhor estava com ela, e depois se separaram. Por quê?
Rhodan vislumbrou sua chance. Se não descobrissem um elo entre ele e a fuga de Thora, era bem provável que também não fosse reconhecido. Por outro lado, Tomisenkow não sabia que Thora tinha fugido e estava sendo perseguida. E imediatamente reconheceria nela a arcônida.
Uma situação confusa.
Mas, no próximo instante, Rhodan se veria obrigado a interromper seus pensamentos.
Subitamente um fulgor relampejou rente ao seu rosto e o estampido de um tiro quase lhe estourou os tímpanos. Alguém soltou um grito e tombou pesadamente. De toda parte, surgiram vultos indistintos e se lançaram sobre os homens calmamente deitados no chão.
Rhodan viu que Marshall se levantou de um só salto e mergulhou entre os arbustos ao lado. Durante algum tempo, ouviu os passos que se afastaram apressadamente, mas decidiu não seguir o exemplo de Marshall, embora soubesse que dificilmente teria outra oportunidade tão propícia para fugir.
Mas a nova situação exigia que permanecesse junto a Rabov para o que desse e viesse.
Aos gritos selvagens da luta corpo a corpo misturaram-se de repente, exclamações de surpresa. Tornou-se evidente que os atacantes tinham cometido um engano, tomando os adversários por rebeldes. Em voz alta alguém intimou Rabov e seus homens a se renderem. Disse que poderiam ficar de posse das armas, mas que era preciso negociar, antes de continuar com essa carnificina inútil.
Essa proposta pareceu bastante sensata a Rabov. Ordenou a seus homens que cessassem o fogo. Todos obedeceram, menos quatro; mas esses quatro nunca mais poderiam obedecer a ninguém, pois estavam mortos.
O adversário inesperado também havia sofrido baixas mas, nessa confusão generalizada, não era possível determinar prontamente o número exato. Rabov estava novamente do lado de Rhodan, a mão sobre a coronha da pistola automática. Parecia não ter percebido que Marshall havia fugido. Mas também podia ser que soubesse do fato, e só não achava o momento propício para discutir o assunto.
Alguém acendeu um archote primitivo. Um homem alto, de barba negra, atravessou o círculo de luz e parou diante do sargento, no qual devia ter reconhecido o comandante daquele destacamento.
— Quem são vocês? — perguntou, em tom arrogante. — Pertencem aos rebeldes?
— Podia fazer a mesma pergunta ao senhor! — retrucou Rabov. A arma na sua direita apontava para o chão. — O senhor matou quatro dos meus homens!
— Quer dizer que não são rebeldes? É curioso. Então são homens do general Tomisenkow?
— E se for o caso?
— Não melhora em nada a situação... a sua, bem entendido. Não queremos ter nada com ninguém; nem com Tomisenkow, nem com seus adversários!
— Se é assim, por que atacaram os rebeldes?
O outro não deu resposta a esta pergunta. Disse:
— Vamos continuar a conversar na aldeia. Sigam-me até lá. Se forem sensatos, vai ser fácil encontrar uma solução. Os sobreviventes da aldeia já se aliaram a nós.
— A vocês; afinal de contas quem são vocês?
O desconhecido estufou o peito.
— Eu sou Wallerinski, o presidente dos pacifistas.
Rabov acenou lentamente e lançou um rápido olhar para Rhodan. Depois seus olhos fitaram os quatro soldados mortos, vítimas daquele ataque de surpresa.
— Ah! Agora estou entendendo — disse ele, e deu um suspiro. — Quer dizer que vocês são pacifistas? Parece inacreditável, mas até em Vênus já estão realizando um baile de máscaras de dogmas humanos. Todo mundo trocou de papel e se disfarça com mantos alheios. Pacifistas transformaram-se em assassinos e incendeiam uma aldeia. Rebeldes tornam-se colonos pacíficos e são escorraçados da sua gleba. Tropas regulares levam uma vida de bandidos. Realmente é uma situação muito clara e inequívoca!
— O que quer dizer com isso? — vociferou Wallerinski furioso.
Rabov encolheu os ombros.
— Entendeu muito bem o que eu quis dizer! — retorquiu e acrescentou: — Vá lá; vamos acompanhá-lo. Mas vou avisando logo: não vamos permitir que nos trate como prisioneiros!
No íntimo, Rhodan teve de admitir que estava simpatizando com o sargento Rabov.

* * *

Favorecido pela escuridão, Okura conseguiu se manter perto da patrulha desde o momento de sua fuga. Testemunhou o assalto e o surpreendente armistício e, quando viu Marshall fugir, fez com que o australiano o encontrasse. Juntos, começaram a seguir os dois grupos que marchavam para a aldeia e se vigiavam mutuamente, abertamente desconfiados.
— Devíamos tirar Rhodan do meio daquele pessoal — murmurou Okura, que não conseguiu se livrar de um certo sentimento de culpa. Mas Marshall sacudiu a cabeça.
— Não é o que ele quer. Eu agora consigo captar bem os seus pensamentos, e há mensagens para nós no meio deles. Ele quer ficar junto desse Rabov, porque só esse sabe onde Thora se encontra. No momento, ele não corre perigo. Se a situação se tornar crítica, quer que o libertemos junto com Rabov. Mas, se possível, sem derramamento de sangue.
— E como é que vamos saber se a situação ficou crítica ou não? — objetou o japonês, ainda céptico. — Não gostei nem um pouco desse cara que apareceu por último.
— Wallerinski? É um fanático inofensivo.
— Será que existem fanáticos inofensivos? — observou Okura, que tinha suas dúvidas. — Mesmo o fanático mais burro pode ser perigoso. Por falar nisso, gostaria de saber que causa esse Wallerinski defende tão fanaticamente!
— O pacifismo! — respondeu Marshall sombriamente. — Consegue ver bem agora?
— Lá na frente está a aldeia. Metade foi destruída pelo incêndio e os escombros ainda estão fumegando. Os habitantes fugiram. Se a sua afirmação foi correta, estamos diante da obra de um pacifista.
Havia amargura nas palavras do japonês. Sabia quantos abusos já tinham sido cometidos em nome do pretenso pacifismo. E sabia isso de experiência própria. Hoje, qualquer um encobria as intenções agressivas sob o manto do pacifismo e afirmava que suas ações serviam unicamente à causa da paz. Graças a Deus, as coisas haviam mudado desde que existia a Terceira Potência. Mas, em Vênus, a história da Humanidade ainda se encontrava no limiar.
Okura e Marshall pararam na orla da clareira. Se avançassem mais, corriam o risco de serem descobertos. Mas, mesmo que o japonês perdesse agora Rhodan de vista, Marshall continuaria em comunicação com ele, se bem que essa comunicação era apenas unidirecional. Infelizmente o dom telepático de Rhodan era muito limitado, porém ele sabia que Marshall conseguia captar seus pensamentos. E foi desta maneira que o australiano ficou sabendo de tudo que se passava naquela aldeia, apesar de não poder utilizar o rádio de pulso.
A ampla sala de reuniões estava repleta de homens e também algumas mulheres, que pertenciam ao grupo rebelde. Wallerinski galgou uma mesa, ergueu as duas mãos e pediu silêncio. Lançou um olhar ligeiro para um punhado de prisioneiros no fundo da sala, certificou-se que as saídas estavam devidamente guarnecidas por sentinelas, e depois começou a falar.
— Homens e mulheres! — gritou com uma voz autoritária e nada agradável. — A luta entre nós terminou. Tomamos a resolução acertada de nos unir. De agora em diante, vamos trilhar juntos o caminho do futuro. Queremos que a paz reine em Vênus, mas para que isso se torne realidade é preciso eliminar uma última ameaça, a maior de todas. E essa ameaça é o general Tomisenkow. Insiste em realizar o intento suicida de atacar a base de Rhodan. Foi motivo bastante para nos separarmos dele. Vocês fizeram o mesmo, se bem que por uma razão diferente: querem se tornar colonos pacíficos e melhorar suas condições de vida. Mas antes que possamos nos dedicar ao nosso trabalho, Tomisenkow tem que ser eliminado, e é preciso inculcar nos seus homens a convicção de que nossos objetivos são melhores. E para isso, precisamos de um líder.
Lá da porta alguém gritou:
— Wallerinski é o nosso líder! Vai nos trazer a liberdade!
Rhodan acenou lentamente.
— É assim que começam todas as guerras! — sussurrou, tão baixinho que só Rabov, que estava ao seu lado, pôde ouvi-lo.
O sargento não respondeu. Pressentia que, fatalmente teria que tomar mais uma decisão portentosa. Só não podia imaginar o que essa decisão envolvia.

5



Até nova ordem, o Exército de Mutantes de Perry Rhodan ficou sob o comando de Reginald Bell, ministro da segurança da Terceira Potência. Um dos efeitos da radiação liberada pela bomba atômica de Hiroshima foi uma certa alteração no sangue das vítimas, e, pouco menos de vinte anos após aquele terrível evento, apareceram os primeiros mutantes. Entre eles havia telepatas, aos quais nenhum pensamento dos seus semelhantes ficava oculto. Havia localizadores, que captavam ondas encefálicas e podiam reconhecer o estado de ânimo de terceiros. Havia ainda os telecinetas que, graças à energia da mente, conseguiam locomover matéria através de grandes distâncias. Já os teleportadores empregavam a força do pensamento para se desmaterializarem, o que lhes permitia transportar a si mesmos através de longos percursos.
O único membro extraterreno do exército secreto dos mutantes era Gucky, o rato-castor do planeta Vagabundo. Durante uma escala, esse ser — que não chegava a ter um metro de altura — havia se escondido sorrateiramente a bordo da nave espacial e, a partir desse momento, pertencia ao reduzido círculo dos amigos mais íntimos de Rhodan.
Isso podia parecer estranho mas, apesar do seu aspecto, Gucky não era um animal. Era um ser inteligente, capaz de pensar e raciocinar. Sob a orientação de John Marshall, havia aprendido inglês e até intercosmo: e agora estava apto a se comunicar perfeitamente nesses idiomas. Gucky costumava se sentar diante dos visitantes de Rhodan, apoiando-se na cauda de castor. E todos achavam aquela criatura “muito engraçadinha”. Mas, invariavelmente, levavam um susto tremendo quando de repente, dizia:
— Bem, e o senhor como tem passado, cavalheiro?
E ainda por cima era o melhor telecineta de todo o corpo de mutantes! Foi um custo fazê-lo perder o hábito de brincar voluntariamente com essa faculdade; porém agora já não havia naves espaciais que decolavam sem razão ou canhões de radiação que disparavam sozinhos. Mas não era só isso. Gucky possuía ainda vários outros talentos, entre os quais se destacava uma extraordinária capacidade telepática, ainda mal explorada. Tratava-se, enfim, de um verdadeiro gênio universal.
Entre ele e Bell reinava uma espécie de antagonismo amistoso, fato que se revelava toda vez que se encontravam. Como hoje, quando Bell convocou o Exército de Mutantes para explicar os detalhes da nova missão.
As solenidades foram encerradas com o discurso de Bell e o mundo voltou ao dia-a-dia. Bell se lançou ao trabalho. Estava preocupado. O destróier de Rhodan tinha sido avistado pela estação lunar para, em seguida, desaparecer na direção de Vênus.
E, a partir daquele momento, não havia mais notícias dele ou de Thora. As hiperestações radiofônicas mantinham os receptores ligados noite e dia, porém, nenhum comunicado veio de Vênus. Isso foi o suficiente para que Bell se lembrasse da ordem de Rhodan. Convocou os mutantes, expôs a situação e lhes ordenou que se apresentassem a bordo do girino número cinco, dentro de meia hora.
Aquela nave esférica, designada no código das comunicações pela palavra girino, tinha um diâmetro de sessenta metros, e era capaz de voar com velocidade superior à da luz. Do ponto de vista terrestre, podia ser considerada como a nave espacial perfeita; entretanto, arcônidas a utilizavam apenas como nave auxiliar dos seus couraçados espaciais da classe império.
Bell finalizou sua exposição sucinta, dizendo:
— ...portanto, algo pode ter acontecido a Rhodan. Exijo o máximo empenho de todos e que ajam com rapidez e decisão. Vamos levar cinqüenta soldados-robôs, além de dez caças espaciais com os respectivos pilotos. Alguma pergunta?
Bell olhou ao redor.
— Muito bem, então dentro de trinta minutos; podem se retirar!
Ia sair rapidamente da sala, mas quase esbarrou em Gucky, que estava ocupando o vão da porta.
— Só uma perguntinha — disse o rato-castor, exibindo seu único dente roedor, o que significava que estava rindo.
Mas isto não implicava que também estivesse de bom humor. Bell sabia disso, ao menos devia ter sabido.
— Fale logo, estou com pressa!
— Eu sou membro do Exército de Mutantes e, portanto, vou participar dessa missão. Ou não?
— Você? Quer ir a Vê nus para cometer uma das suas travessuras? E causar confusão geral? Nem pense nisso!
Bell ia forçar a passagem, porém Gucky bloqueou o caminho.
— Vou contar isso a Rhodan! — ameaçou, mudando de tática.
— Por mim, pode contar a ele o que você quiser — grunhiu Bell e tentou em vão levantar o pé. Era como se estivesse pregado ao chão. — Pare com essa brincadeira, seu anão! Prender o meu pé! Isto é insubordinação!
— Posso ir com vocês ou não?
Bell sentiu que o sangue lhe afluía à cabeça. Alguns dos mutantes tinham se aproximado e estavam começando a rir.
— Não pode, não! — decidiu Bell, se bem que agora ainda poderia ter evitado uma derrota ignóbil. — Não mesmo! Essa missão requer homens, não um Mickey Mouse!
Não deveria ter dito isso. Gucky sentia-se mortalmente ofendido toda vez que alguém o apelidava de Mickey Mouse.
Bell sentiu que a pressão no seu pé estava cedendo, mas isto pouco lhe adiantou.
De repente, se tornou leve como uma pluma. Apoiado na cauda de castor, Gucky estava sentado diante dele e o observava fascinado. Exibia o dente solitário num riso manhoso. O pêlo castanho da nuca se eriçou, formando uma gola lanosa.
— É sua palavra definitiva? — estridulou, tremendo de excitação.
A voz de Gucky já era esganiçada por natureza, mas adquiria uma estridência fora do comum quando o seu dono estava emocionado.
— É definitiva, sim! — berrou Bell, a plenos pulmões, apesar de saber que não adiantaria nada e quais seriam as conseqüências. Queixar-se a Rhodan também seria totalmente inútil, pois esse só iria rir dele a valer. Fato é que Gucky tinha umas tantas regalias; e sabia tirar o máximo proveito delas.
Uma ligeira rigidez apareceu no olhar meigo de Gucky, sinal que estava se concentrando. E Bell ficou definitivamente liberto da gravidade... e começou a subir como um balão. Mãos invisíveis abriram a janela, e Bell flutuou para fora.
E lá ficou pairando, trinta metros acima do piso de concreto, sustentado apenas pelas formas telecinéticas de Gucky.
Exibindo um riso triunfante, Gucky bamboleou até a janela, galgou o parapeito com um salto elegante, e pôs-se a observar o amigo, que devolveu o olhar com uma expressão de raiva impotente.
— Como é? — piou Gucky, alegremente. — não vai mudar a sua decisão? Afinal, você tem que admitir que eu sou um aliado bastante capaz.
— É, mas duvido que consiga fazer flutuar um sáurio — resmungou Bell e olhou para baixo, apavorado. Seus pés estavam apoiados em nada. — Além do mais, isso não passa de pura extorsão!
— Que palavra mais feia! — indignou-se Gucky e fez com que Bell caísse dois metros. — Um homem educado não usa um termo desses!
— Não faz idéia dos termos que tenho em mente em relação a você! Está bem; vou pensar no caso. Mas agora me faça entrar!
— Quero saber se vou participar dessa missão, ou não! — insistiu Gucky.
Parecia não tomar conhecimento da presença dos outros mutantes, que acompanhavam o espetáculo com vivo interesse. Nenhum deles ousou interferir, porque Bell poderia se estatelar no fundo. Mas Gucky não via perigo algum; confiava nas suas forças.
Bell deu um aceno convulsivo e tentou encostar as mãos na parede do prédio.
— Está bem; você vem conosco, mas sob uma condição.
— Qual é? — quis saber Gucky, desconfiado, e fez desaparecer o dente.
— Você tem que me prometer que vai se comportar direitinho, e fazer tudo que eu lhe mandar. E nada de travessuras em Vênus! Entendido?
O rato-castor fez Bell pousar suavemente no peitoril e acenou vivamente com a cabeça.
— De acordo. Mas se você não cumprir sua palavra, deixando-me aqui, vou fazê-lo voar para a Lua sem traje espacial!
Sem uma palavra, Bell pulou do peitoril e se dirigiu à porta.
A telepata Betty Toufry corou subitamente e fixou um olhar estarrecido nas costas de Bell.
O ministro da segurança da Terceira Potência devia ter pensado uma imprecação terrível e, ao mesmo tempo, bastante obscena.

* * *

O general Tomisenkow observou sua visita inesperada com indisfarçada satisfação. Realmente, a sorte o havia bafejado além de qualquer expectativa. Thora havia caído nas suas mãos! Logo Thora, a colaboradora íntima de Rhodan! Logo ela, a arcônida, a quem Rhodan devia todo o seu poder!
Tomisenkow pôs-se a matutar no que tinha acabado de ouvir. Era preciso aprender a lidar Com Thora, a não contrariá-la. Talvez assim pudesse ser levada a revelar, um dia, alguns dos segredos dos arcônidas. Seria tão absurdo imaginar que isso pudesse acontecer? Tomisenkow achava que não. Afinal, a nave de Thora não tinha sido derrubada pelas armas do próprio Rhodan?
— É lastimável, realmente lastimável! — disse o general, cheio de simpatia. — E estão achando que tudo não passou de um engano lamentável?
— Absolutamente não foi um engano — disse R.17, com voz rangente. Parecia que tinha chegado a época da sua revisão anual. Era preciso lubrificar, com urgência, alguns dos mancais da sua laringe artificial. — A instalação eletrônica de vigilância não nos reconheceu.
— Não acha possível que Rhodan mandou derrubá-los de propósito para que não pudessem penetrar na base de Vênus? — perguntou Tomisenkow, ardiloso.
— Isto é absurdo! — objetou Thora. — Rhodan ainda não podia ter chegado aqui!
— Ah! Quer dizer, que ele ainda vem?
Thora mordeu os lábios. Volta e meia cometia o erro de subestimar os homens. Por pouco não se traiu. Agora era tarde demais para tirar Rhodan da jogada.
— É possível — disse ela, procurando uma evasiva. — Tudo é possível. Talvez seja até possível ao senhor explicar por que pretende me deter aqui. Sabe tão bem quanto eu que o meu robô pode destruir todo seu acampamento. Vai me fornecer agora as provisões pedidas e os soldados? Ou quer que eu tente chegar lá sozinha?
— Vai pensar duas vezes antes de empreender algo contra mim, pois sozinha está praticamente indefesa! Só com esse robô, nunca vai chegar à base a mais de quinhentos quilômetros daqui. Portanto, a senhora depende de mim. Bem, quero me aproveitar da sua situação precária. Vou ajudá-la. Vou levá-la à base, caso as barreiras não nos detenham.
— Essas reagem ao padrão dos cérebros arcônidas, portanto, não constituem perigo.
— Ótimo! E, quando estiver diante da base, o que vai fazer, e o que vai acontecer comigo?
— Pode regressar, são e salvo.
O general Tomisenkow deu um sorriso manhoso.
— Quanta generosidade de sua parte, nobre arcônida! Quando Rhodan a salvou na Lua a senhora o recompensou, dando-lhe o poder sobre a Terra. Agora eu a salvo aqui, e está querendo me despachar com uma mera esmola. Aliás, esmola coisa nenhuma! O que pretende me dar já possuo há muito tempo. Segurança? Essa eu tenho! Não, minha cara, se quiser chegar à fortaleza vai ter que pagar um preço condizente... ou pode tentar ir sozinha!
Tomisenkow sabia que Thora jamais chegaria à base sem ajuda, um fato que ele pretendia explorar. Além disso, era seu propósito, separar Thora do robô na primeira oportunidade, para aprisioná-la. Não existia refém melhor do que Thora.
Principalmente se era verdade que Rhodan estava se dirigindo para cá.
Nem por um instante Thora acreditou na sinceridade desse homem. Agora mesmo poderia ter dado uma ordem de aniquilamento total a R.17. Mas, de que lhe valeria isso? Além disso, ela não sabia com que armas os homens de Tomisenkow estavam equipados. Talvez até conseguissem eliminar o robô, e nesse caso ela estaria perdida de fato. Pesou bem as palavras, antes de pronunciá-las:
— Não tenho saída. Vou precisar do seu auxílio. Reconheço, também, que vou ter que pagar por ele. Vamos aguardar o romper do dia. Aí podemos discutir os detalhes. Até lá, peço que me dê um alojamento para mim e o robô.
— Esse também precisa dormir? — perguntou Tomisenkow, com ironia.
Thora sacudiu a cabeça e disse, reservada:
— Ele não. Mas eu preciso.

* * *

Rhodan, Rabov e seus homens não podiam ser considerados como prisioneiros, na acepção normal do termo. A começar pelo fato de que puderam ficar de posse das armas. Foram alojados numa grande choupana, diante da qual Wallerinski postou imediatamente algumas sentinelas; não para vigiá-los, como afirmou, e sim para protegê-los.
Rhodan pediu a Rabov que lhe devolvesse a arma bem como a dos seus dois companheiros. O sargento anuiu prontamente ao pedido. Talvez pressentia que, num futuro próximo, necessitaria do auxílio desse estranho misterioso.
— O que vai acontecer agora? — perguntou Rhodan. Achava que Rabov devia conhecer melhor a mentalidade dos seus patrícios. — Acredita que o grupo de Wallerinski vai atacar as tropas do general?
— É mais do que certo!
— E não acha que, na posição que ocupa, tem o dever de alertar Tomisenkow?
Rabov vacilou. Aquele grupo de colonos rebeldes, aos quais ele quis se unir, praticamente não existia mais. Detestava Wallerinski por causa das suas frases empoladas. Nesse caso, seria melhor ficar ao lado do general Tomisenkow. Rabov acenou.
— Sei que é meu dever avisá-lo; mas como vou sair daqui sem despertar suspeita?
— Não se preocupe com isso; eu só queria saber de que lado o senhor está. Meus dois amigos vêm nos buscar. Um deles consegue ver mesmo de noite, e vai poder nos conduzir em segurança através da escuridão. E eu recuperei as minhas armas, com as quais eu poderia liquidar essa bagunça toda em questão de segundos... mas para que...
Rhodan se concentrou, esperançoso de que Marshall pudesse captar seus pensamentos agora. Se o conseguisse, então ele e Okura já deviam estar a caminho da aldeia para libertá-lo. Talvez não fosse também má idéia ir ao encontro deles.
Virou-se para Rabov:
— Que sabe daquela mulher e do robô, cuja nave foi destruída sobre o planeta? Ela está em segurança?
— Está sim — Rabov arreganhou os dentes — mas é uma segurança relativa. Faz muito tempo que os nossos homens não vêem uma mulher!
— Então não vão ficar muito contentes com a sua prisioneira! — vaticinou Rhodan, irado. Sabia que, se fosse preciso, o robô poderia transformar Tomisenkow e sua força armada em cinza radiativa; entretanto, violência não resolve problemas. — Diga a seus homens que vamos apanhá-los mais tarde. Não temos mais tempo a perder. Meus amigos já estão nos esperando. Lá na orla da floresta, em direção leste se não me engano.
Rabov deu suas instruções. Depois o sargento e Rhodan saíram da choupana.
Quase no fim da rua ardia uma fogueira, rodeada por alguns homens, cujas silhuetas as chamas revelavam. Provavelmente estavam cansados e preferiam mil vezes estar dormindo.
Perto da choupana não havia ninguém.
Rhodan agarrou a mão de Rabov e confiou mais na sua intuição do que nos seus olhos. Enquanto caminhava, com passos seguros em direção leste, pensava constantemente na sua posição, para que Marshall tivesse mais facilidade em encontrá-lo.
Se Marshall não estivesse dormindo agora.
Aquela aldeia semicalcinada ficou para trás. Lá na frente, em direção ao bosque, estava ficando mais escuro. Uma luz relampejou por alguns segundos. Depois Rhodan ouviu que alguém atravessava os arbustos com passos seguros. Ninguém caminhava assim de noite, a não ser que portasse uma lâmpada e pudesse ver.
— Okura?
— Sim!
Era como se o sopro de uma brisa alcançasse o ouvido de Rhodan através do silêncio da escuridão. Claro, Okura não sabia quem estava com ele. Um descuido de Marshall, não contar esse detalhe ao japonês.
— Sou eu — sussurrou Rhodan. — Rabov está comigo. Vai nos levar ao general Tomisenkow... e a Thora.
Rhodan sentiu que o sargento estremeceu.
— Vou levá-los a quem? — e, como não recebeu resposta, acrescentou: — Thora! Não é a arcônida?
E após mais uma pequena pausa perguntou:
— Quem é o senhor?
— Está tudo em ordem? — perguntou Rhodan e depois se dirigiu ao sargento: — Não se preocupe inutilmente, meu caro Rabov. Apostou no cavalo vencedor do páreo... mas ainda pode escolher outro, se quiser. Leve-nos a Tomisenkow e deixe todo o resto comigo!
E assim aconteceu que três grupos diferentes tencionavam fazer uma visita ao general desaparecido; claro que cada qual por razões próprias... igualmente diferentes.
Bell vinha para procurar Rhodan, cujo paradeiro ele desconhecia.
Wallerinski armou-se de violência para implantar a paz onde não havia guerra.
E Rhodan queria libertar Thora que, por seu lado, não fazia a menor questão de ser libertada por Rhodan. Ao menos não agora.




6



A distância era relativamente pequena; por isso Bell dispensou o salto através do hiperespaço, não acelerando o girino número cinco até a velocidade da luz. A Terra se tornou rapidamente uma estrela brilhante, o Sol passou pela esquerda, e depois Vênus, radioso, dominou o setor do céu diante da proa.
Um estalo acompanhou o desligamento do piloto automático. Bell voltou a assumir o comando da grande nave esférica. Conhecia perfeitamente a localização da base em Vênus e, pelos seus cálculos, havia constatado que ela ainda se encontrava mergulhada na noite venusiana. O sol nasceria somente daqui a quarenta horas.
Aos poucos, Bell começou a ficar intranqüilo.
Se tudo tivesse decorrido normalmente, há muito tempo Rhodan teria enviado alguma notícia. Será que não tinha encontrado Thora na base? E, se não, o que teria acontecido a Thora? Talvez ela nem tivesse se dirigido a Vênus, ousando realizar um vôo interestelar com aquele destróier.
Bell virou a alavanca do intercomunicador e estabeleceu a comunicação visual com a sala radiofônica. Lá, Tanaka Seiko estava de serviço. Seiko era japonês, técnico de altas freqüências, e o rastreador do Exército de Mutantes. Sem o auxílio de qualquer aparelho, conseguia captar as ondas eletromagnéticas e, o que era mais surpreendente, conseguia ouvir as emissões irradiadas por homens, em todas as freqüências de ondas. Não havia homem mais indicado para a estação-receptora da nave.
Seu rosto apareceu na tela de visão.
— Chefe?
Bell gostava de ser chamado assim. Era um sinal de respeito e admiração. Também não era ele o substituto direto de Rhodan? Era algo que encheria qualquer um de justo orgulho.
— Nada, ainda?
— Não captei um pio de Vênus até agora! — Seiko sacudiu a cabeça. — E como se lá não houvesse homem algum.
— O que provavelmente não está certo, porque, se eu me recordo direito, também as tropas desaparecidas do Bloco Oriental possuem aparelhos radiofônicos. Mas, o que me intriga demais, é que nem Rhodan, nem Thora deram sinal de vida até agora; isto é um bocado inquietante!
— Os minitransmissores são fracos demais para essa distância.
— Mas não os aparelhos do destróier!
— Talvez apresentaram algum defeito.
— O quê?! Os aparelhos radiofônicos dos destróieres?
— Quem sabe...
Bell refletia febrilmente, mas não encontrou qualquer explicação. Seria possível?... Não, era melhor nem pensar nisso! Aliás, não havia razão para isso. Pois, quem poderia ter impedido Rhodan de pousar em Vênus? A instalação de vigilância positrônica da hiperestação o reconheceria, evidentemente.
— Está bem, Seiko, mantenha o receptor ligado. E comunique imediatamente qualquer novidade. Vou agora iniciar as manobras de pouso.
Vênus, uma bola brilhante, já tinha se aproximado bastante. O lado direito ainda estava na escuridão. Mediante uma pequena evolução, Bell colocou a nave exatamente sobre a zona da meia luz. Depois, começou a baixar.
Quando o casco da nave entrou em contato com as camadas superiores da densa atmosfera, o girino número cinco foi sacudido por um violento abalo que arrancou Bell da poltrona. Enquanto se levantava, meio aturdido, perscrutando rapidamente os controles, a porta da central se abriu e vários dos mutantes entraram correndo.
Ralf Marten segurou-se na parede.
— O que está se passando com você, Bell? Está querendo nos matar a todos?
Bell lançou um olhar de desprezo para aquele teuto-japonês, esguio e de cabelos escuros.
— Está com medo? Mas, honestamente, eu mesmo não sei o que aconteceu. Espere um momento, Seiko está me chamando.
O rosto do telegrafista estava lívido quando apareceu na tela de imagem. Mexia nos seus aparelhos.
— Mensagens radiofônicas — disse ele, sem interromper os manejos. — Da hiperestação. Deve ser o cérebro positrônico. Recusa a permissão para o pouso.
— O quê? — berrou Bell. Seus cabelos curtos e ruivos se ouriçaram ameaçadoramente e transformaram-se numa verdadeira escova de aço. Uma ira repentina brilhava nos seus olhos. — Que idéia maluca é essa? Pergunte a esse robô idiota qual a razão da sua recusa!
Bem que Seiko tentou, mas seus esforços foram em vão. Com uma obstinação irritante, a instalação do cérebro positrônico enviava constantemente a mesma mensagem, sem tomar conhecimento das tentativas desesperadas do japonês.
— A chave secreta X foi ativada. Qualquer aproximação na atmosfera de Vênus será impedida com o campo repulsor hiper-gravitacional. Repito: a chave secreta X foi ativada...
Repetia essa mensagem incessantemente, como se estivesse gravada numa fita sem fim.
Finalmente Bell desistiu, e ordenou a Seiko que vasculhasse toda gama de freqüências, à procura de algum outro sinal radiofônico. Desligou o intercomunicador e se dirigiu a Marten:
— Nessas condições, Rhodan também não conseguiu pousar. O cérebro positrônico deve ter enlouquecido.
Bell não podia saber que esse procedimento estranho nada mais era do que uma conseqüência lógica dos acontecimentos precedentes. O próprio Rhodan havia programado a chave secreta X no cérebro positrônico durante a sua última visita à base venusiana.
O cérebro tinha recebido a ordem de erigir o campo repulsor indistintamente diante de qualquer um, conhecesse ele o código ou não, se antes tivesse registrado alguma ocorrência que pudesse ser considerada suspeita.
E esse estado de programação havia sido atingido naquele instante em que o cérebro derrubou os dois destróieres. Eram naves da frota de Rhodan, sem dúvida, mas não conheciam o código secreto.
O girino número cinco também era uma nave de Rhodan, e essa conhecia o sinal. Mas agora já era tarde demais. O campo repulsor havia sido erigido e só podia ser novamente eliminado por uma chave especial dentro da fortaleza.
Somente um arcônida, ou o próprio Rhodan, podiam penetrar na base, graças ao padrão característico das suas ondas encefálicas.
E com isto tinha se chegado a um ponto morto, que só poderia ser superado por Thora ou Rhodan, mas nunca por Bell.
No momento talvez fosse até bom que Bell não soubesse disso. Sua raiva daquele cérebro positrônico teria atingido proporções incomensuráveis.
A nave esférica girava em torno de Vênus a uma altura constante. Não podia baixar mais, porque aquele anteparo energético a impedia de fazê-lo. Ver, também não se via nada, já que os aparelhos eram incapazes de perfurar a densa camada de nuvens. Apenas Wuriu Sengu, com sua visão raio-X, conseguia enxergar a superfície do planeta. A sua faculdade de poder trespassar a matéria sólida com o olhar proporcionou-lhe a oportunidade de ver selvas, pântanos, mares e cordilheiras, mas isso em nada contribuía para sair do impasse.
— Agora eu tenho certeza — murmurou Bell, desesperado — que algo aconteceu a Rhodan. Se a culpa for daquele cérebro positrônico, vou transformá-lo em sucata com estas minhas mãos!
Ralf Marten sacudiu a cabeça.
— É um propósito meio difícil de realizar, porque ninguém, repito, ninguém pode pousar em Vênus no momento. O planeta encontra-se totalmente isolado. Não sei o que aconteceu, mas sei que as instalações automáticas da base são de uma confiabilidade a toda prova. Não há poder no mundo que possa impedi-las de cumprir rigorosamente com o seu dever.
— Dever! — gemeu Bell, nervoso. — O que esse monturo idiota de lata entende de deveres? Era sua maldita obrigação ajudar a nós e a Rhodan. Em vez disso... bolas!
Chamou Seiko na central radiofônica.
— Precisa emitir constantemente e procurar estabelecer uma ligação com Rhodan. Deve estar lá embaixo, entre selvas, pântanos e sáurios.
Com um suspiro, que denotava sua profunda aflição, recostou-se na poltrona do piloto e se entregou aos seus pensamentos sombrios.
E por baixo da nave rodava, com infinita lentidão, o planeta encoberto, que se recusou a revelar os seus segredos.

* * *

Durante a descida do platô notaram os primeiros indícios da aurora.
Longe, no leste, Rhodan vislumbrou um tênue brilho na escuridão impenetrável. Os primeiros raios lançaram-se do horizonte para as camadas superiores das nuvens, tingindo-as num tom róseo. Mas a luminosidade se alastrava muito lentamente e, no momento, era impossível definir a posição do sol atrás daquela faixa de claridade incipiente.
Isto ainda levaria horas.
Durante a marcha através da escuridão da noite venusiana, Okura os havia alertado constantemente contra todos os obstáculos que encontrava e, assim, conseguiram chegar até aqui em segurança. Não havia sinal de possíveis perseguidores, e era mais do que provável que só daqui a algumas horas a sua fuga seria descoberta.
Isso servia aos propósitos de Rhodan. Não tinha a menor intenção de se intrometer na briga daquelas tropas de invasão desbaratadas, as quais, no íntimo, já considerava como os primeiros colonos venusianos. Mas não deixaria de alertar Tomisenkow; se conseguisse chegar até ele. E isto, pensou Rhodan, ainda era meio incerto.
Entre os dois platôs, estendia-se a baixada com seus pântanos traiçoeiros. Rabov disse que a travessia era menos perigosa à noite, porque assim que o dia raiasse os sáurios despertavam e saíam do seu esconderijo à procura de alimento. Disse, ainda, que na grande maioria eram herbívoros, o que, porém, não os impedia de atacarem outros seres vivos, se neles vissem concorrentes ou intrusos indesejáveis.
Rhodan e seus companheiros confiavam plenamente nas suas infalíveis armas energéticas e tranqüilizaram Rabov, que portava apenas a pistola de serviço, com a qual, realmente, não poderia enfrentar aqueles gigantes pré-históricos. Víveres não constituíam preocupação, porque ainda possuíam algumas provisões e alcançariam o acampamento de Tomisenkow dentro de vinte horas, na pior das hipóteses. E, se a água escasseasse, poderiam se reabastecer no rio que atravessava a baixada.
Quando chegaram ao local, onde Rabov os havia capturado de surpresa, já havia claridade suficiente para poder reconhecer a vizinhança imediata. E não ficaram muito satisfeitos com o que viram.
A queda d’água precipitava-se num rio, que corria velozmente e desembocava num imenso lago. Ao longo das margens desse lago, explicou Rabov, serpenteava o caminho através da baixada. A margem era constituída por mata cerrada, da qual se levantava um denso nevoeiro que se mesclava com as nuvens baixas. A leste, uma mancha difusa pairava na neblina mormacenta — o sol.
Havia movimento no lago. Aqui e acolá, via-se um remoinho e depois apareciam os enormes corpos de sáurios dos mais diversos tipos que, de uma maneira geral, apresentavam grande semelhança com aqueles que, em priscas eras, tinham povoado a Terra. Alguns permaneciam na água rasa e começavam a pastar embaixo da superfície. Estes eram os menos perigosos.
Outros, porém, nadavam ou caminhavam pesadamente até a margem, galgavam a terra firme e, bamboleantes, desapareciam na floresta, onde se dedicavam a devorar pequenas árvores sem a menor dificuldade.
Rhodan havia assistido àquela movimentação com olhos semicerrados. Soltou um suspiro e disse a Marshall:
— Até que enfim vai poder verificar se sáurios pensam, e o que eles pensam. Acredita que os cérebros deles são capazes de emitir correntes de pensamentos?
— E por que não? — respondeu o telepata, pensativo. — Tenho para mim que os pensamentos deles não devem lá ser coisa muito sensata ou lógica, mas seria muita presunção negar-lhes qualquer capacidade de pensar. Todo ser vivo pensa, até a formiga. Só o homem tem a pretensão de achar que é o único ser racional. Isto o distingue do animal, mas de forma alguma no sentido positivo. Bem, nós astronautas somos diferentes daqueles que nunca tiraram o pé da Terra. Se tínhamos algum preconceito, o perdemos pelo contato com o universo. Sabemos que a raça dominante de um planeta pode ter o aspecto de um réptil, e isto fez nascer em nós o respeito pelo animal terrestre. Involuntariamente, não vemos num cachorro apenas o animal mas, sim, um verdadeiro ser vivo, que só se distingue de nós, pelo fato de pensar de maneira diferente.
— Quer dizer que vê um parentesco entre a nossa capacidade de aceitar raças estranhas e extraterrenas e o amor que dedicamos ao animal da Terra? — espantou-se Rhodan, apesar de estar começando a imaginar qual seria a conexão.
— Perfeitamente — disse Marshall, em tom convicto. — Pode ser atrevimento de minha parte, mas vou mais longe ainda. Na minha opinião, apenas quem ama verdadeiramente os animais está em condições de avançar universo adentro e estabelecer contato com os habitantes de planetas estranhos. Somente um homem desses possui a compreensão necessária para não recuar horrorizado diante de formas de vida as mais impossíveis. Ao contrário, vai aceitá-las como são e reconhecer que têm os mesmos direitos; fato que, algum dia, poderá ser decisivo no estabelecimento da paz em todo o universo.
Rhodan não deu resposta. Olhou para a selva mormacenta lá embaixo; sabia que outro não tinha sido o aspecto das planícies na Terra, milhões de anos atrás. Naquela era, o animal havia sido o soberano do planeta, porque o homem só apareceu muito mais tarde. Devia a sua existência ao animal, assim como o animal à planta. Sucedendo-se, um substituía o outro, e todos eram interdependentes. Um não existiria se não tivesse havido o outro. E nem um podia passar sem o outro.
E apesar disso, todos viviam da luta entre si...
Rhodan arrancou-se dos pensamentos.
— Não vai haver problemas; não há sáurio que resista aos nossos irradiadores de impulsos. Só espero não ter que matar muitos. Eles pertencem a esse mundo, e esse mundo é deles. Vamos indo.
Rabov ia na frente, seguido de Rhodan, enquanto Marshall e Okura formavam a retaguarda. Alcançaram rapidamente a margem do extenso lago pantanoso, mas Rabov se manteve suficientemente afastado para não terem que atravessar terreno molhado demais. Debaixo das gigantescas árvores, o chão ainda se apresentava relativamente seco, era praticamente impossível que aqui topassem com algum sáurio.
Tudo estava correndo satisfatoriamente, até que contornaram a última enseada, deixando o lago para trás. Não tinham escolha. Teriam que atravessar um capinzal de uns cinco quilômetros de largura, onde só em alguns pontos espalhados se erguia uma árvore solitária. Aqui, o capim atingia uma altura de cinco metros, o que lhes tolhia inteiramente a visão. O chão era úmido e cedia. Caminhavam como que por cima de uma esponja gigantesca, e nem de longe se sentiam tão seguros quanto na selva.
Rabov apontou em direção ao alvo, que se destacava das névoas arroxeadas como um bloco de cor escura.
— Esta é a trilha que costumávamos percorrer; mas só à noite. Daqui a pouco voltamos a pisar em terreno seco.
Apressou os passos para sair o mais depressa possível da zona perigosa. Rhodan o seguiu, vigilante, de arma na mão.
De repente, Rabov emitiu um grito agudo, arrancou a pistola do cinto e disparou o pente inteiro na floresta de capim à sua frente. Depois recuou e esbarrou contra Rhodan, que teve dificuldade para se manter em pé.
Okura esticou o braço e apontou para a frente, onde os colmos do capim subitamente se separaram. Rhodan pensou que o sangue fosse lhe congelar nas veias quando viu o monstro que se arrastava em direção a eles, sem se importar com os projéteis de Rabov, que haviam ricocheteado em sua pele. Devia ter uns dez metros de comprimento e se assemelhava a um dragão pré-histórico. Deslocava-se sobre quatro patas e nas costas ostentava uma crista, constituída por placas ósseas. Os olhos na pequena cabeça brilhavam com uma expressão traiçoeira. Da boca larga do réptil, pendiam tufos de capim e raízes de árvores.
— Um estegossauro — murmurou Rhodan, indeciso. — A rigor, é um herbívoro inofensivo. Se não estivéssemos exatamente no seu caminho...
— Atire logo — implorou Rabov, tremendo como vara verde. — Vai nos esmagar! Eles atacam os homens, eu já vi isso mais de uma vez!
Marshall se afastou um pouco para o lado e ergueu a arma. Rhodan olhou para ele e sacudiu a cabeça.
— Aguarde, Marshall.
Okura parecia compreender que, apesar da situação, Rhodan queria ganhar tempo para fazer uma experiência. Por isso, também se afastou da trilha, mantendo-se quase oculto no capim que a margeava. Rhodan acenou quase imperceptivelmente, nas não desviou o olhar do estegossauro.
O enorme animal arrastava o corpo pesado através do capim, aproximando-se cada vez mais. Seguia os movimentos dos homens com olhos ágeis, porém não fez qualquer menção de atacá-los. Rhodan havia agarrado Rabov pela mão, puxando-o para perto de si. A poucos metros de distância, o sáurio passou pelos homens, sem lhes dedicar maior atenção. Esmagou o capim à sua frente como um rolo compressor, deixando atrás de si uma verdadeira estrada de uns quatro ou cinco metros de largura, pela qual arrastava a cauda couraçada. Segundos depois, voltou a pastar pacificamente.
Quando Rhodan se virou com um sorriso triunfante para Marshall, viu a expressão de espanto no rosto deste.
— Pensou! — murmurou Marshall, ainda aturdido. — Esse bicho pensou!
— E o que foi que pensou?
Marshall sacudiu a cabeça.
— Pensou com tanta clareza que cheguei a acreditar que um homem estivesse diante de mim!
— Diga logo o que o bicho pensou, Marshall! Será que o monstro o desnorteou?
— O que pensou foi o seguinte: “Será que vale a pena esmagar estas pragas nocivas?
— Pragas nocivas?
Marshall acenou.
— Sim, foi isso que ele pensou; e se referiu a nós!
Rhodan deu um sorriso fraco.
— Não é muito lisonjeiro, mas reforça a teoria a respeito da qual estávamos filosofando ainda há pouco. Que é impressionante, é. Mas vamos embora; não temos tempo a perder. De qualquer maneira, estou satisfeito que não foi preciso matá-lo. O bicho pensou, e por isso merece viver.
Percorreram alguns metros da estrada aberta pelo estegossauro; depois Rabov enveredou pela direita. Não tinha entendido uma única palavra da conversa e devia achar que os seus três companheiros haviam ficado birutas. Mas não se atreveu a fazer perguntas.
Pouco depois, chegaram àquele paredão quase a pique, e iniciaram a escalada. Seguiram por uma trilha bastante batida e duas horas depois alcançaram a beira do platô.
Rabov olhou cuidadosamente ao redor, mas parecia não encontrar o que estava procurando. Um pouco perplexo, virou-se para Rhodan.
— Não vejo as sentinelas. Isto é estranho. Normalmente havia dois homens postados aqui.
— O acampamento de Tomisenkow fica longe? — perguntou Rhodan; já havia recolocado a arma no cinto.
— Uns dez minutos, não mais do que isso.
— Então vamos.
O fato de não ter encontrado sentinelas parecia preocupar Rabov sobremaneira. Simplesmente não lhe entrava na cabeça que Tomisenkow tivesse relaxado de tal maneira sua habitual vigilância. Logo ele, que era a desconfiança personificada.
— Atrás daquelas rochas se encontram as primeiras cabanas — murmurou Rabov, e ia acrescentar mais alguma coisa, porém os acontecimentos que se precipitariam nos próximos segundos impediram que o fizesse.
Era como se o inferno tivesse explodido.
Um silvo agudo fez com que Rhodan e seus dois companheiros se jogassem ao solo, numa fração de segundo. Rabov, porém, não reagiu com a mesma rapidez. Onde estava, foi atingido pela saraivada de uma metralhadora, oculta entre os arbustos. Cambaleou durante uns dois ou três segundos, depois tombou pesadamente ao chão.
Agora estavam sem guia, e teriam que achar sozinhos o caminho que levava a Thora. Rhodan sabia disso. E não precisava se certificar. E sabia também que...
Uma dor lancinante varou-lhe o ombro direito. Era como se alguém o tivesse trespassado com um ferro em brasa. Também tinha recebido um tiro.
O general Tomisenkow devia ter concentrado suas tropas na aldeia, substituindo as sentinelas e postos avançados por uma instalação de defesa automática. E isto significava morte certa para quem tentasse se aproximar da aldeia.
Marshall já sabia o que tinha acontecido. Apesar das balas sibilantes, ergueu-se de um pulo e se aproximou de Rhodan para examiná-lo.
— Felizmente o tiro não afetou nenhum osso. Mas temos que sair daqui. Okura, ajude-me.
Rhodan gemia de dor, contudo tentou auxiliar Marshall e o japonês, quando o arrastaram alguns metros para trás. E, como por encanto, cessou de repente o matraquear das metralhadoras ocultas por toda parte. Rhodan e os companheiros já se encontravam fora da zona de bloqueio.
Rabov estava morto. Nunca mais necessitaria de ajuda. Ao menos, não precisava mais se decidir a favor de Wallerinski ou de Tomisenkow.
Marshall e Okura sentiram-se aliviados quando Rhodan declarou que estava em condições de caminhar sozinho. Por via das dúvidas ampararam-no, um de cada lado, e trataram de colocar distância entre eles e aquela traiçoeira armadilha mortal. Contra esta, nem mesmo os irradiadores de impulsos seriam eficazes, porque não se conseguia discernir alvo algum.
Longe, atrás deles, ouviram uma voz de comando e um tiro solitário. Alguns homens gritaram e depois fez-se novamente silêncio.
— Vamos ficar no platô? — quis saber Marshall.
Rhodan reprimiu suas dores.
— Por enquanto, podemos nos abrigar naquela floresta, à direita. Não consegue descobrir o que esses homens pretendem? Afinal, a distância não é tão grande assim.
— Vou deixar isso para mais tarde, quando tiver sossego suficiente para me concentrar — observou Marshall. — Primeiro, precisamos levá-lo a um lugar seguro e tratar do seu ferimento.
Rhodan resolveu não dar resposta. Sabia que podia confiar nos companheiros; além disso, precisava poupar suas forças.
Penetraram profundamente na floresta que, aqui, não era muito densa e finalmente encontraram uma gigantesca árvore, de tal maneira enleada por trepadeiras que seria fácil galgá-la. Rhodan praticamente dispensou auxílio, pois só precisou da mão esquerda para se alçar pouco a pouco. Vinte metros acima do solo da floresta, encontraram um galho bastante largo e. achatado, que se estendia quase na horizontal, perdendo-se no emaranhado dos galhos vizinhos. Uma verdadeira cortina de cipós pré-históricos oferecia proteção para todos os lados. Haviam encontrado uma cabana natural no alto da árvore e que, mais tarde, ainda poderiam reforçar por meio de galhos flexíveis.
O ferimento de Rhodan não era grave; a bala havia atravessado o ombro de lado a lado. Marshall aplicou um curativo e fez Rhodan tomar um remédio contra febre. Dez minutos depois, a respiração regular do ferido mostrou que tinha caído no profundo sono da convalescença. Mas Okura e Marshall continuavam intranqüilos.
— Bem, cá estamos — disse Okura, sussurrando, a fim de não acordar Rhodan. — Thora caiu nas mãos desse Tomisenkow, e nós estamos trepados nessa árvore como macacos indefesos, e esperamos que aconteça um milagre. E Bell? Deus sabe onde se encontra. Não deve estar se precipitando; também não tem noção que tudo saiu ao contrário. Mas, a essa altura, devia começar a se preocupar um pouco.
É claro que Okura não podia saber que Bell estava bem acima deles, girando em torno de Vênus no girino número cinco, igualmente à espera de um milagre que lhe permitisse o pouso nesse maldito planeta. O aparelho radiofônico estava em funcionamento ininterrupto, tentando estabelecer comunicação com alguém. O receptor permanecia mudo.
Com uma expressão melancólica, Marshall checou as provisões.
Constatou que eram bastante minguadas.
— Não dá para agüentar muito tempo — disse ele — a não ser que voltemos a caçar.
— Só daqui a três ou quatro dias Rhodan vai poder mexer novamente o braço — constatou Okura. — Ao menos até lá devíamos ficar na proteção dessa cabana.
— Ah! — resmungou Marshall e se acomodou. — Eu vou dormir. Vai ficar acordado?
— Se eu não ficar, quem fica? — respondeu Okura, com um sorriso cansado. Ajeitou-se da melhor maneira que pôde, com as costas apoiadas no tronco da árvore, e colocou o irradiador de impulsos sobre os joelhos.

* * *

Após algumas horas de sono e uma refeição reforçada, Rhodan recuperou a costumeira energia. Graças aos excelentes medicamentos, a ferida sarou, e já começara a cicatrizar. Em instante algum chegou a estar com febre.
Analisaram a situação.
Depois de terem considerado todos os pontos, Rhodan fez um resumo:
— ...portanto, é uma ilusão pensar que podemos estabelecer contato com Tomisenkow. Guarda Thora como a menina dos olhos, e não vai perder a oportunidade de fazer umas tantas exigências para libertá-la. De Bell, não temos notícia alguma. Já deve ter pousado na base há muito tempo; a não ser que o cérebro positrônico ativou a chave secreta X programada por mim. Nesse caso, é claro que não vai poder pousar; aliás, ninguém mais pode pousar em Vênus.
— Se for assim, como vão poder nos resgatar? — perguntou Okura, preocupado.
— Só resta uma única possibilidade: vou ter que alcançar a base a pé, para poder reprogramar o cérebro positrônico. Mas isso fica para depois. Antes, quero libertar Thora.
— Mas o senhor acabou de dizer... — começou Marshall, porém logo emudeceu. Devia ter vasculhado indiscretamente os pensamentos de Rhodan. — Tinha me esquecido dela! — murmurou, concluindo sua observação.
Okura olhou de um para o outro sem entender nada. Não sabia ler pensamentos e, assim, também não sabia a que Marshall estava se referindo. Rhodan notou a perplexidade do japonês e pôs-se a explicar do que se tratava.
— Quando, muitos anos atrás, pousamos pela primeira vez em Vênus, topamos com aquelas focas semi-inteligentes nas margens do mar pré-histórico. Nossos telepatas conseguiram se comunicar com elas, e acabamos por nos dar muito bem com esses seres. Houve até uma ocasião, em que pude auxiliá-los, prestando-lhes um grande favor. Talvez não tenham esquecido isto e estejam prontos a saldar sua dívida de gratidão. Seria um absurdo se quiséssemos todos os três empreender a longa marcha para aquele mar, que se situa no leste. E só um telepata pode se comunicar com estas focas e lhes explicar o que desejamos delas. Vamos discutir os detalhes mais tarde, mas acho difícil que encontremos uma solução melhor.
— Um telepata?! — gemeu Marshall e empalideceu um pouco. — Portanto, está se referindo a mim! Eu... marchar sozinho através dessa floresta?
Brincou nervosamente com a larga pulseira, que abrigava uma série de instrumentos minúsculos.
— Não acha melhor tentar estabelecer comunicação com Bell?
— Isso também, mas se a chave secreta X foi ativada, a tentativa não vai nos ajudar em nada. As focas conhecem o caminho para a base e, portanto, podem nos guiar. Não adianta estrebuchar, Marshall, não vai poder escapar ao seu destino. Okura e eu vamos permanecer aqui, aguardando o seu regresso. Se ocorrer algo de novo em relação a Tomisenkow, vamos deixar uma mensagem para você neste local.
— E as provisões? Vamos viver de quê?
— Tem a sua pistola e pode caçar — tranqüilizou-o Rhodan. — Nós vamos tentar fazer o mesmo com os irradiadores de impulsos.
— Não é necessário — asseverou Okura e puxou uma pesada pistola do bolso. — Não vi razão alguma — acrescentou, como que a se desculpar — para deixar a arma de Rabov cair nas mãos dos homens de Tomisenkow. Essa pistola nos garante mais carne do que podemos comer.
Rhodan acenou, satisfeito.
— Ótimo! Então está tudo decidido, Marshall. Sugiro que agora durma mais algumas horas. Depois vamos discutir os detalhes finais.

* * *

Já era dia em Vênus. A claridade havia atravessado o teto da floresta, removendo todos os véus ocultantes da noite. A cabana na árvore flutuava num mar de orquídeas multicoloridas, que pareciam enormes águas-vivas boiando num lago verde. Escaravelhos coloridos rastejavam, apressados, sobre os galhos e troncos. Mais acima, ouviam-se os grasnidos e gorjeios dos habitantes alados da selva.
Com certo desânimo, Marshall se despediu de Rhodan e Okura, e desceu do esconderijo. Lá embaixo, ainda parou por um instante, e acenou para os companheiros. Depois se virou e iniciou a longa marcha para leste, em direção àquele mar pré-histórico. Viram-no desaparecer na vegetação cerrada e, pouco depois, já não ouviam mais os passos cautelosos.
Agora Rhodan e Okura estavam sozinhos naquela cabana no alto da árvore.
Por enquanto, estavam condenados à inatividade. Teriam que aguardar o regresso de Marshall. Mas isso poderia levar vários dias. Seria dia claro por mais cento e vinte horas. Se Marshall conseguisse realizar sua tarefa dentro desse prazo, teriam dado um grande passo para a frente. Se não...
Okura brincava distraidamente com a pulseira de utilidade múltipla quando, de repente, ouviu uma voz baixa que emanava do alto-falante do minitransmissor:
— ...chamando Perry Rhodan; atenção, estamos chamando Perry Rhodan; responda Perry Rhodan!
Aquela voz estava se tornando cada vez mais alta, como se o emissor estivesse se aproximando a grande velocidade. Repetia essa mensagem sem cessar.
Rapidamente Okura ligou o rastreador e olhou quase verticalmente para cima. Uma expressão de dúvida se delineou no seu rosto. Rhodan deu um sorriso, que era um misto de contentamento e resignação.
— É a voz de Bell, Okura. Acuse o recebimento da mensagem!
Segundos depois, ouviram Bell soltar um grito alto, que denotava surpresa ao mesmo tempo que alívio.
— Com mil diabos, Rhodan, onde é que você está? Estou procurando você como uma agulha no palheiro. Por que você não entrou em contato antes?
— Calma Bell, uma coisa depois da outra. Onde você se encontra?
— A bordo do girino número cinco e não posso pousar. Aquele maldito cérebro positrônico...
— Bem que desconfiei que fosse isso! — interrompeu Rhodan e suspirou. — Aquela chave secreta foi ativada e ninguém pode pousar em Vênus. É, Bell, não tem remédio; você vai ter que voltar à Terra e aguardar o meu chamado. Vou tentar chegar à base. No momento, você não pode me ajudar!
— E Thora?
— Está em boas mãos — respondeu Rhodan, com um ligeiro traço de ironia.
— Não vou voltar para a Terra! — disse Bell, de repente. Sua voz já soava novamente mais baixa, porque a distância estava aumentando. — Vou circular por aí, até poder pousar. E fim do papo!
Quando Bell dizia fim do papo, nada mais podia alterar o seu ponto de vista. Rhodan sabia disso.
— Muito bem, por mim pode ficar orbitando em torno de Vênus o tempo que quiser. Okura e eu vamos brincar de Tarzan aqui na floresta, enquanto Marshall negocia com as focas venusianas. No momento, está tudo na mais perfeita ordem. Recomendações minhas aos mutantes!
A resposta de Bell veio tão débil que se tornou ininteligível; mas Okura estava pronto a jurar que tinha sido um palavrão.
Rhodan deu um sorriso meio forçado. Voltou a sentir dores. Recostou-se contra aquela cortina de cipós gigantes. Acima da sua cabeça pendia uma orquídea cor de sangue, do tamanho da cabeça de um homem.
— Vai ficar xingando o tempo todo ou eu não o conheço. Não há coisa que ele deteste mais do que ficar de mãos atadas, enquanto os outros estão mergulhados até o pescoço nas aventuras mais malucas.
— E nem pode assistir ao espetáculo! — disse Okura, sorrindo, e apontou para o alto, onde a eterna camada mormacenta pairava acima do teto da floresta.
Rhodan fechou os olhos e acenou.
Pensou no quanto tinha que realizar. Tarefas gigantescas o aguardavam. Havia iniciado a obra da sua vida ainda outro dia, mal tinha lançado a pedra fundamental. Em algum lugar da Via Láctea, o Grande Império estelar dos arcônidas estava começando a desmoronar. Talvez, neste preciso instante, a anos-luz de distância, novas frotas de invasão estivessem decolando, a fim de fazerem uma visita de surpresa à Terra.
No momento não podia agir. O destino tinha lhe tirado a responsabilidade das mãos. Mas Rhodan sabia que, algum dia, essa responsabilidade lhe seria restituída mil vezes mais pesada.
E enquanto os sáurios pastavam nas baixadas, enquanto Thora com mal reprimida raiva negociava o seu preço com Tomisenkow, enquanto Marshall percorria sozinho a solidão da selva e Bell orbitava em torno de Vênus com ira impotente, enquanto tudo isso acontecia, Perry Rhodan dormia o sono da convalescença definitiva; e lá estava Son Okura, atento e vigilante, para que ninguém perturbasse os sonhos do seu amo e senhor.
A hora da decisão, que parecia tão próxima, estava agora mais longe do que nunca, oculta nas brumas de um futuro remoto...


* * *
* *
*




Também os imortais podem cometer tolices!
Quando Thora fugiu, Perry Rhodan cometeu a tolice de segui-la com uma nave espacial que ainda não estava em condições de emitir o código de identificação exigido pela base de Vênus.
A conseqüência disso foi a imediata ativação da Chave Secreta X, que fez de Perry Rhodan um prisioneiro de Vênus.
Chave Secreta X é o título do próximo volume da série Perry Rhodan.

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