Deringhouse, porém, podia sentir tudo, menos felicidade. Era bem verdade
que também ouvia em seu cérebro os pensamentos tranqüilizantes, sentiu as
intenções benévolas em que os mesmos se inspiravam, mas o bloqueio hipnótico do
Supercrânio continuava presente. O comando de retornar a Marte percorreu os
nervos e atingiu as mãos, mas estas não conseguiam se mover. Tal qual o resto
do corpo, estavam condenadas à imobilidade, pois alguém as comprimira contra o
painel de controle.
A mesma coisa acontecia com os vinte e cinco membros restantes da
tripulação.
Deringhouse e Ivã ouviram quando a escotilha se abriu, embora fosse
totalmente impossível atingir os controles internos do lado de fora — e ainda
havia a circunstância de que a Good Hope-VII não dispunha de qualquer
suprimento energético. Deringhouse lembrou-se vagamente de que havia mutantes
cujos fluxos mentais conseguiam realizar as coisas mais inacreditáveis.
André Noir cuidou de Deringhouse assim que entrou na sala de comando. O aspecto
apavorante do monstro de duas cabeças não o demoveu de seu intento. Os dois
teleportadores penetraram nos alojamentos da tripulação e puseram-se a amarrar
os vinte e cinco homens. No momento não havia outra alternativa, pois o
Exército de Mutantes de Rhodan dispunha de apenas um hipno capaz de romper o
bloqueio do Supercrânio.
Nesse meio tempo Bell e Betty já haviam saído do destróier e foram se
encontrar com Rhodan no hangar da Stardust-III.
— Foi um serviço bem feito — apressou-se Rhodan em elogiar.
— Hum! — resmungou Bell num tom de inveja. — Betty também contribuiu para
o êxito da operação.
— Não me esqueci disso — disse Rhodan com um sorriso e colocou a mão
sobre o ombro da moça. — Ainda está em contato com Deringhouse?
— Não — para sua surpresa Betty sacudiu a cabeça. — Daqui por diante
deixo a tarefa por conta de Noir. Estou mantendo contato com Ivã. É um sujeito
estranho. Não consigo entendê-lo. De qualquer maneira é a pessoa que lida com
aquela arma terrível. O bloqueio hipnótico em torno de seu cérebro foi
eliminado quase totalmente. O Supercrânio não exerce mais qualquer influência
sobre ele.
— Neste caso, tudo bem — suspirou Bell, aliviado.
— De forma alguma — decepcionou-o Betty.
Rhodan sobressaltou-se.
— Por que não?
— Pelo que leio nos pensamentos de Ivã, ele ainda está em condições de
nos destruir. Mesmo que o imobilizássemos, não conseguiríamos impedir que ele o
fizesse.
— Por que não o faz?
Betty enrubesceu.
— Está curioso, curioso para me conhecer — declarou com a voz tímida.
Rhodan lançou um rápido olhar de advertência em direção a Bell.
— Está curioso para conhecê-la? Pois devemos corresponder quanto antes ao
seu desejo. Vamos até a Good Hope-VII para dar uma olhada no tal do Ivã.
Deixaram que os mutantes entrassem antes deles na comporta da nave.
Betty tornava-se cada vez mais inquieta. Captou os pensamentos confusos
de Noir e adivinhou que os mesmos se referiam a Ivã. Andou tão depressa que
Rhodan e Bell mal conseguiam manter passo com ela.
Betty chegou antes deles.
Parada ao lado de André Noir, fitou o gigante de duas cabeças, cujos
quatro olhos retribuíram seu olhar com uma expressão de assombro.
Cada um dos dois parceiros mentais imaginara que o outro fosse totalmente
diferente.
No rosto de Betty lia-se o susto juntamente com um medo terrível.
Acreditara que se defrontaria com um homem, talvez mesmo com um mutante. Nunca
pensaria que fosse um monstro de duas cabeças.
E Ivã? Desde o instante em que a voz telepática com a tonalidade tão
meiga penetrou pela primeira vez em sua mente, sentiu o desejo de conhecer o
dono da mesma. E agora via diante de si uma moça muito jovem.
Rhodan entrou, seguido de Bell e Gucky.
Com um rápido olhar compreendeu a situação. Sentiu o choque da jovem e
seu instinto adivinhou o perigo que poderia surgir se o monstro sentisse a
verdade. Ivã só perdera a vontade de desencadear outras explosões porque achara
que Betty era simpática.
Cumprimentou o mutante com um aceno de cabeça, sem deixar que seu rosto
revelasse qualquer emoção.
— O senhor é Ivã, não é? Meu nome é Perry Rhodan. Vim para negociar com o
senhor.
Não aludiu nem de leve ao que havia acontecido. Não mencionou o fato de
que conseguira fazer de Ivã e Deringhouse seus prisioneiros. Não deu sinal de
que o aspecto do monstro o assustara. Nada disso: apenas a gentileza e uma
atmosfera de igualdade de direitos.
A atenção de Ivã foi desviada de Betty.
— Meu nome é Ivã Ivanovitch Goratchim.
Ambas as cabeças confirmaram essas palavras com um ligeiro aceno.
— Meu senhor é... ou melhor, foi Clifford Monterny, o Supercrânio. Tenho
a impressão de que cometi vários erros.
— A culpa não foi sua, Ivã. Apenas utilizou uma arma contra alguém que o
senhor não conhece. Estava sob o domínio de um grande mutante, que infelizmente
tomou um caminho errado. Faço questão de ressaltar mais uma vez, Ivã, que a
culpa não foi sua, e ninguém o recriminará. O único culpado é o Supercrânio,
que será responsabilizado por tudo.
— Estou disposto a auxiliá-lo nessa tarefa — declarou Ivã, lançando um
olhar indagador sobre Betty. — Todas as faculdades que possuo estão à sua
disposição, desde que não se incomode com meu aspecto um tanto estranho...
— Dê uma olhada em Gucky — pediu, afastando-se para que o rato-castor
pudesse sair do seu esconderijo. — Ninguém dirá que tem o aspecto de um ser humano
normal, mas assim mesmo todos nós gostamos muito dele.
— Não é um ser humano — murmurou Ivã em tom amargo. — Mas eu devia ser
considerado como tal.
— O único fator decisivo são as qualidades de caráter — ressaltou Rhodan.
— Assim que o pensamento cósmico tenha entrado em voga, não mais serão
reconhecidas diferenças entre as raças apenas em virtude do aspecto exterior
das criaturas. O Supercrânio tem um aspecto humano, mas é um verdadeiro
monstro. Quanto ao senhor, Ivã, acredito que no fundo do coração é mais humano
que muita gente que exibe um rosto lindo e sabe dizer palavras bonitas.
O olhar dos dois rostos desviou-se e pousou em Betty, que já havia
compreendido o comando mental de Rhodan. Muito valente, engoliu em seco e
conseguiu esboçar um sorriso. Estendeu a mãozinha para Ivã.
— Fomos os primeiros que se tornaram amigos, Ivã, e vamos continuar
amigos. Se quiser chame-me de Betty.
Um sorriso feliz espalhou-se pelos rostos do homem; Rhodan sentiu-se
profundamente abalado. Percebeu a infelicidade que aquele ser tinha sentido até
então: era uma criatura rejeitada pelos homens, e que servira de instrumento
para as práticas abusivas do Supercrânio. Talvez fosse a primeira vez que
conhecia o respeito e a verdadeira amizade.
Ivã segurou a mãozinha de Betty com sua enorme pata, apertou-a
cautelosamente, executou um princípio de mesura e respondeu:
— Obrigado, Betty. Nunca me esquecerei de que somos amigos, mesmo que
eu... — interrompeu-se; por um instante parecia bastante confuso. Mas logo
prosseguiu em tom decidido: — Mesmo que eu seja diferente.
Perry receara que Betty não conseguisse disfarçar o espanto. Mas sempre
se insistira junto aos membros do Exército de Mutantes para que nunca julgassem
qualquer criatura por seu aspecto exterior, mas apenas pelas suas faculdades e
qualidades de caráter.
Gucky não agüentou mais. Comprimindo-se entre Betty e os outros
circunstantes, avançou em direção a Ivã, ergueu-se sobre as patas traseiras e
estendeu ambas as patas dianteiras para o gigante perplexo.
— Também devíamos ser amigos, mesmo que eu o tenha grudado na parede. Não
acha? Apenas fiz isso para que você não nos despedaçasse numa explosão.
Ivã pegou as patas, apertou-as suavemente e disse:
— Apesar de tudo poderia tê-los destruído, se quisesse. Mesmo a esta hora
ainda estaria em condições de fazê-lo sem sair do lugar.
As palavras do mutante duplo fizeram com que Rhodan se lembrasse da
tarefa mais urgente.
— Estou interessado em conhecer a arma do Supercrânio — disse,
dirigindo-se a Ivã. — Talvez tenhamos de recorrer à mesma, se ele a utilizar
mais uma vez contra nós.
Por um instante Ivã parecia bastante confuso; mas logo compreendeu. Um
sorriso de quem sabia mais que o outro, em que transparecia certo orgulho,
tomou conta de ambos os rostos.
— Não tenha receio, Perry Rhodan. O Supercrânio ficou sem sua arma; nunca
mais poderá utilizá-la contra o senhor.
Rhodan já não estava compreendendo mais nada. Apenas Betty, que
perscrutava os pensamentos do mutante, empalideceu de repente. Rhodan notou-o e
se assustou. O que significava isso? Fitou os olhos de Ivã, sem saber se devia
preferir os da cabeça da direita ou da esquerda. O mutante facilitou-lhe a
decisão. Acenou com a cabeça da direita.
— Por que não pode utilizar a arma contra nós?
— Porque a arma sou eu. Sei transformar em energia qualquer porção de
matéria que contenha cálcio ou carbono. Basta detoná-la.
— Como é que faz isso? — perguntou Rhodan. Também empalidecera um pouco,
pois dentro de sua mente passaram vertiginosamente centenas de maneiras pelas
quais esse monstro, com um único dos seus pensamentos, poderia destruir a ele e
a toda a Terra. Bell manteve-se imóvel.
— Não sei — confessou Ivã. — O senhor seria capaz de dizer como vê ou
cheira? O senhor ouve, mas não sabe como nem por quê. Simplesmente ouve, instintivamente
e sem nenhuma contribuição consciente. É possível que um dia a ciência encontre
uma explicação para minha faculdade. Vejo um objeto, sempre com os olhos,
concentro-me sobre ele... e logo o mesmo se transforma numa bomba atômica.
Rhodan recuperou o autocontrole.
— Sabe que de certa forma substitui o Supercrânio? Até hoje Clifford
Monterny foi considerado o homem mais perigoso do sistema solar. Mas acredito
que hoje é você, Ivã. Depende de você se o dom que lhe foi conferido será
empenhado em prol do bem, ou se servirá ao mal.
Ivã sorriu e olhou para André Noir, que acabara de voltar à sala de
comando.
— Não acha que já me decidi? Acredita que ainda estariam vivos se tivesse
optado pelo mal? Não tenha receio, Rhodan. Sempre ficarei do lado em que estiver
Betty. Na verdade, é a ela que devo minha libertação. Foram seus pensamentos
meigos que romperam o círculo que se apertava em torno de minha cabeça. Jamais
poderei esquecer o que ela fez por mim.
Betty acenou com a cabeça.
— Sei que você realmente pensa o que diz, Ivã. Sempre gostarei de vocês
dois, e quando disser Ivã também estarei me referindo a Ivanovitch.
Rhodan sentiu um alívio, não apenas porque sabia que Ivã estava de seu
lado, mas principalmente porque tinha todos os motivos para acreditar que, sem
o detonador, o Supercrânio estava praticamente indefeso. Para concluir,
pigarreou.
— Ficarei muito grato se fizer amizade também com os outros membros do
Exército de Mutantes. Precisamos de gente como o senhor para reconstituir a
história da Humanidade. Juntos, liquidaremos o inimigo comum.
— Isso mesmo! — chiou Gucky alegremente. De repente foi subindo, até que
flutuou no ar diretamente diante do rosto de Ivã. — Morte para o Supercrânio.
Eu o entregarei à Justiça.
André Noir se aproximou, empurrou o rato-castor para o lado com um gesto
brusco e estendeu a mão a Ivã.
— Seja bem-vindo em nosso meio, Ivã. Sei que conseguiu se livrar
definitivamente do bloqueio hipnótico do Supercrânio. É um dos nossos.
— Obrigado — disse Ivã comovido.
— Obrigado — também disse Ivanovitch, que até então ficara com a boca
calada.
O mutante bicéfalo estava de acordo consigo mesmo.
5
Há muitas semanas a nave Z-45 circulava em torno de Marte a uma distância
constante de quinze milhões de quilômetros. Só trazia a bordo uma tripulação de
dois homens, o tenente Bings, que era o comandante, e o sargento Adolfo, que
desempenhava as funções de telegrafista. Há vários anos os dois mantinham uma
estreita amizade, e haviam freqüentado juntos a Academia Espacial, onde se
submeteram aos exames. Mais tarde Rhodan os escolhera para servirem em sua
frota.
Bings tinha um hobby: era um colecionador apaixonado de borboletas. Só
por si essa atividade não tinha nada de extraordinário, embora fosse algo
incomum para um astronauta. Infelizmente seu amigo Adolfo também tinha um
hobby: tal qual seu amigo, colecionava borboletas. Evidentemente dessa
coincidência resultavam lutas apaixonadas, que sempre traziam o mesmo
resultado: o sargento Adolfo perdia um exemplar raro, que passava às mãos de Bings.
Ambos os homens guardavam seus tesouros a sete chaves. Sempre que um deles
conseguia incorporar um exemplar extraordinariamente belo à sua coleção, trazia
água à boca do outro, que por sua vez não dava sossego até que o novo espécime
lhe era apresentado, o que lhe aguçava ainda mais o apetite.
Há cinco anos os dois estavam sem suas coleções, que se encontravam em
seus aposentos em Terrânia, onde aguardavam seus admiradores constantes. Por
isso os dois amigos aproveitavam o tempo livre para, ao menos em teoria, levar
o outro a abandonar seus tesouros.
— Não faço muita questão de sua borboleta venusiana de olhos trêmulos —
disse Bings, lançando um olhar de tédio para a tela ligada. — Acontece que
falta na minha coleção. Um belo dia vou consegui-la, mas gostaria de recebê-la
agora.
— No momento é impossível — disse Adolfo, trazendo à sua lembrança a
realidade de sua situação. — Mas admitamos o caso de que mais tarde eu possa
dá-la a você. O que poderia oferecer em troca?
— Que tal a borboleta da couve em mutação, de que você sempre gostou
tanto? Como sabe, só existe um único exemplar.
— Você vive dizendo isso — resmungou o sargento Adolfo bastante
contrariado. — Acontece que gosto mais da minha borboleta venusiana.
— Ela não vale tanto assim — ponderou Bings com uma expressão de tédio no
rosto; até parecia que a conversa o cansava. — A qualquer momento posso ir
buscar o olho trêmulo em Vênus, ou pedir a alguém que o traga.
— Pois tente — sugeriu Adolfo e calou-se um tanto contrafeito. A
borboleta venusiana era seu maior orgulho, especialmente porque seu amigo Bings
não a possuía.
O tenente Bings pretendia começar novamente a derramar elogios sobre a
borboleta da couve em mutação; no entanto, estreitou os lábios e apontou para a
tela. Bem no meio da mesma via-se uma pequena mancha, que se deslocava
lentamente para a direita. Dirigiu-se apressadamente a Adolfo:
— A ampliação, rápido! Que nave será essa? É muito pequena para ser um
girino.
— Talvez seja uma borboleta da couve em mutação — resmungou o sargento em
tom irreverente e pôs-se a lidar com os instrumentos. O ponto móvel parecia
querer sair da tela pelo lado direito. Adolfo regulou a ampliação e o enfoque
setorial do ponto, que se tomou mais nítido. O planeta Marte com sua
luminosidade vermelha ficou à esquerda.
A nave, se é que se tratava de um veículo espacial, vinha de Marte.
— É um destróier — disse o tenente Bings em voz baixa, quando o quadro se
tornou mais nítido. — Será que é um dos nossos?
— O Supercrânio coleciona destróieres — observou Adolfo. — É bem possível
que seja ele. Desde que o girino número sete passou ao nosso lado sem dar um
pio não duvido de mais nada.
Encontravam-se numa posição em que Marte ficava entre eles e a Terra. Por
isso não era impossível que uma nave vinda da Terra, ao aproximar-se de Marte,
parecesse vir desse planeta. O comandante da Z-45 admitia essa possibilidade,
quando menos para não ter que dar razão ao seu sargento.
— Que tolice! O Supercrânio não se exporá inutilmente a um risco. Ficará
em Marte até o dia do juízo final, a não ser que nós lhe esquentemos as
caldeiras do inferno.
— Dizem que nas areias de Marte há besouros bem estranhos...
— Não se distraia; cuide do seu serviço — advertiu-o Bings em tom furioso
e fitou a tela, cuja objetiva seguia o ponto móvel, mantendo a mesma velocidade
que este. — A nave está tomando um curso que há de levá-la inevitavelmente para
Júpiter — disse em tom incrédulo. — Já não entendo mais nada.
— Quem está interessado em entender? — perguntou Adolfo sem aguardar
resposta. Realmente não recebeu nenhuma. Mais por tédio que por obrigação
passou a estudar as outras telas. De repente soltou um grito de espanto. — Que
coisa! Onde já se viu uma confusão dessas? Dentro de pouco tempo teremos por
aqui os mesmos problemas de tráfego que na Terra, onde já se tem de recorrer a
campos antigravitacionais para estacionar os automóveis no ar.
— O que houve? — indagou Bings.
— Aí vem outra nave — respondeu o sargento.
O tenente Bings estremeceu. Ficou sem saber a qual das duas naves
dedicaria sua atenção. Felizmente o dispositivo automático livrou-o do martírio
da escolha. Bastou que Adolfo comprimisse um botão para que ambas as telas
seguissem seus objetivos.
A segunda nave aproximava-se deles numa rota quase direta. Essa rota só
não se desenvolvia numa reta perfeita porque contornava o planeta Marte. Não
demoraram a descobrir que também era um destróier. Quando a nave se encontrava
a poucos quilômetros de distância, conseguiram ler o nome na proa: Z-13.
— Logo um treze! — suspirou o sargento Adolfo. — Não sou supersticioso,
mas...
— Cuide dessa nave! — recomendou Bings ao companheiro. — Consta da lista
das naves roubadas?
Não constava. Resolveram esperar. Os receptores estavam funcionando. A
tela de recepção se iluminou. Um rosto largo e redondo de olhos cinzentos e
boca sorridente surgiu na mesma.
— Somos nós — disse Bell e logo acrescentou: — Há algo de novo?
— Nada de especial — disse Bings em tom oficial, mas logo se lembrou
daquela nave. — Aliás, há uma coisa. Observamos um destróier que mantém a rota
para fora.
Na linguagem dos astronautas a expressão para fora significava para a
parte externa do sistema solar em relação à posição atual.
Bell fez um sinal para alguém que se encontrava a seu lado e disse:
— Iremos até aí. Preparem o passadiço de vácuo.
— Eu logo disse, esse maldito treze...
* * *
— Nossa missão não consiste em liquidar o Supercrânio — resumiu Bell,
lançando um olhar pensativo para o rosto do sargento Adolfo, que não exprimia
muito entusiasmo. — Tatiana conseguia, a grande distância, notar uma atividade
extraordinária em Marte. Graças às suas defesas naturais pode exercer
vigilância telepática sobre o Supercrânio, sem que este possa lhe impor seus
comandos hipnóticos. Quanto a nós, os capacetes de absorção oferecem uma
proteção razoável. Devíamos dar uma olhada em Marte para ver o que acontecia
por lá. O comunicado dos senhores confirmou nossas suposições. O Supercrânio
fugiu num destróier assim que tomou conhecimento da derrota sofrida na Terra. O
que devemos fazer? Persegui-lo ou regressar à Terra?
— Morte para o Supercrânio! — ressoou a voz de Gucky, vinda de um canto.
Sentado nas patas traseiras e apoiado sobre a cauda, roía alegremente uma
cenoura fresca que o tenente Bings lhe havia trazido do frigorífico. — É claro
que vamos persegui-lo e destruí-lo.
— Cale a boca! — ordenou Bell em tom furioso e segurou-se numa barra de
suporte, para que Gucky não tivesse a idéia de se vingar por essa espécie de
tutela. — Nossa missão consiste em investigar; apenas isso. Rhodan quer ter
plena certeza quanto à fidelidade de Ivã antes de empregá-lo contra o
Supercrânio.
— Podemos dar conta do Supercrânio — resmungou Gucky.
— Acontece que não temos ordem para isso — advertiu Bell e dirigiu-se a
Bings e Adolfo. — Só recebemos instruções para verificar o que está acontecendo
em Marte. Como já lhes disse, Tatiana...
— O senhor acredita que o destróier que acabamos de observar tem algo a
ver com o Supercrânio? — perguntou o sargento Adolfo.
Bell lançou um olhar perscrutador para Tatiana Michalovna, a telepata. A
jovem russa, que era uma das pessoas que vivera sob a influência hipnótica de
Monterny e fora libertada por Rhodan, fez que sim.
— Estou captando seus pensamentos. Estão carregados de raiva e pânico.
Giram em torno da fuga. O Supercrânio já vê Marte sob a forma de uma reluzente
estrela vermelha. Daí se conclui que se encontra no espaço. Sim, sargento,
acredito que esteja a bordo do destróier que está fugindo.
— O que estamos esperando? — gritou Gucky cheio de indignação. Sua voz
era tão forte e aguda que Bell pensou que seus tímpanos iriam estourar. Apesar
disso não deu atenção a essas palavras e mandou que o tenente Bings
estabelecesse contato pelo rádio.
Bings parecia desorientado, o que causou uma alegria secreta no sargento
Adolfo.
— Existe uma proibição de usar o rádio. Só em caso de emergência
podemos...
— Este é um caso de emergência! — berrou Bell. — Vamos logo!
Tatiana Michalovna sacudiu a cabeça de forma quase imperceptível. Nunca
vira Bell tão exaltado. E não havia a menor causa para tamanho nervosismo. Será
que tinha medo de um confronto direto com o Supercrânio? Ou fazia realmente
tanta questão de cumprir as instruções? Por um instante procurou ler seus
pensamentos, depois esboçou um sorriso de compreensão.
O tenente Bings fez um sinal a seu sargento. Adolfo ligou o comunicador
visual. Dentro de alguns segundos seu colega da Stardust-III apareceu na tela.
— Há uma mensagem urgente para Perry Rhodan. É estritamente pessoal.
— Um momento.
Dali a mais alguns segundos o rosto de Rhodan surgiu na tela.
— O que houve, Z-45?
— É o tenente Bings — Bings empurrou o sargento para o lado. — Reginald
Bell deseja entrar em contato com o senhor.
Bell, por sua vez, empurrou Bings para o lado.
— O Supercrânio acaba de sair de Marte e está fugindo em direção a Júpiter.
Devo persegui-lo? Só tem um destróier.
— Não sei se já posso contar com o Ivã.
Será preferível que eu os siga com os mutantes num dos girinos.
— Não há necessidade disso, Rhodan — asseverou Bell em tom enérgico. —
Daremos conta do recado. Tatiana está em contato com o Supercrânio; nós o
perseguiremos.
Rhodan refletiu por um instante; depois disse:
— Está bem. Persigam-no; mas tenham cuidado. Por enquanto não posso ir,
porque tenho de ajudar Betty a cuidar de Ivã. Acho que ainda seria muito
arriscado deixá-lo só. Boa sorte. De qualquer maneira serão dois destróieres
contra um.
A tela escureceu.
O sargento Adolfo parecia confuso no seu canto. Lançou um olhar de
censura para Bings.
— Maldito treze! — resmungou. — Bem que eu sabia!
O tenente Bings não deu atenção ao amigo. Dirigiu-se a Bell:
— O senhor vai com certa freqüência a Vênus, não vai? Será que
oportunamente poderia trazer uma borboleta de olhos trêmulos para mim?
Ao que tudo indicava, Bell nunca havia feito uma cara tão tola. Gucky
irrompeu numa gargalhada chilreante. Rebolava no chão. A cauda achatada bateu
contra as chapas de metal e o animal chiou:
— Uma borboleta de olhos trêmulos! O homem quer uma borboleta de olhos
trêmulos! Não quer mais nada, tenente?
Bings parecia ofendido. Não respondeu. Bell, um tanto desorientado,
disse:
— Quem sabe se essa borboleta não existe em Júpiter...
6
Clifford Monterny sentiu que seu contato telepático com o mutante Ivã
ficava cada vez mais fraco. Deu mais uma ordem desesperada de detonar tudo que
se encontrasse ao seu alcance, mas a única resposta foi um contra bloqueio
hipnótico que se interpôs entre ele e Ivã, isolando o cérebro deste.
O Supercrânio sabia que com isso perdera sua melhor arma, e com ela mais
um round da luta. Rhodan e seus
mutantes eram mais poderosos que ele.
Devia desistir?
Sacudiu lentamente a cabeça e mais uma vez passou os olhos sobre tudo
aquilo que no último ano construíra sob a superfície de Marte. Na sua maioria
os objetos ali existentes provinham de um destróier, até mesmo os geradores e
os respectivos micro-reatores. A nave não estava mais em condições de ser
usada.
Se resolvesse fugir, só poderia fazê-lo com um dos dois destróieres. Dos
homens que lhe restavam só poderia levar dois; os outros teriam de ficar para
trás.
E para onde poderia fugir?
Para encontrar uma relativa segurança teria que se aventurar na imensidão
do espaço situado além de Marte. Teria que procurar encontrar uma base
provisória naquele setor do universo. Depois disso, um belo dia talvez pudesse
voltar...
A idéia da vingança restituiu-lhe a energia de que precisava.
Levantou-se de um salto, desligou as telas que ainda reluziam e com isso
rompeu todo o contato com o mundo exterior.
Com um último relance de olhos despediu-se do esconderijo que até então
ocupara e saiu para o corredor. Parou diante de uma porta e abriu. Alguns
homens fitaram-no com os rostos curiosos.
Seus olhos brilharam. Teria vindo para avisá-los de que seu exílio havia
chegado ao fim?
Clifford Monterny leu seus pensamentos e decidiu responder aos mesmos.
Dessa forma o bloqueio hipnótico não seria tão afetado.
— Temos que tomar mais algumas providências; depois disso o tempo de
atividade em Marte terá chegado ao fim — disse com a voz firme. — Mas antes
disso preciso realizar um vôo de reconhecimento. Vocês ficarão aqui e
aguardarão meu regresso. Se alguém tentar se apoderar da fortaleza, vocês o
impedirão com todos os meios ao seu alcance. Wallers e Raggs, vocês irão
comigo. Vamos pegar a Z-35 para explorar a área.
Dois homens se levantaram. Um deles vestiu uma jaqueta, como se apenas
pretendesse dar um passeio. Ambos pegaram as máscaras de oxigênio. O hangar com
o destróier intacto e aquele do qual haviam sido retiradas peças também ficava
embaixo da superfície. Um corredor ligava-o ao quartel-general. Um e outro não
eram servidos pelos aparelhos de suprimento de ar.
O Supercrânio fechou cautelosamente a porta e, acompanhado dos dois
homens, dirigiu-se ao depósito. Vestiu um casaco de pele e também pegou uma
máscara de oxigênio. Por um instante pensou nos cinco destróieres capturados e
nos quinze homens de sua tripulação, que envergavam o uniforme da Terceira
Potência. Mas deu de ombros. Mesmo que tripulasse as naves com seus homens,
isso não aumentaria sua segurança. Com uma só nave a chance de não ser
descoberto era muito maior. O poder de fogo de seis destróieres era maior, mas
Monterny começou a se dar conta de que não era mais isso que importava.
E foi assim que os quinze tripulantes dos cinco destróieres capturados —
que pertenciam à Good Hope-VII e permaneciam intactos, de forma a poderem ser
utilizados a qualquer momento, num desfiladeiro próximo ao platô — continuaram
imóveis nos seus alojamentos, sem que soubessem que, de certa forma, eram
homens livres.
Monterny manipulou os controles da comporta primitiva que tinha por fim
evitar uma transferência excessivamente rápida do ar da fortaleza para a
atmosfera de Marte. Foi para o corredor com seus dois acompanhantes.
Atravessaram apressadamente o túnel derretido na pedra até chegarem ao hangar propriamente
dito. Entre este e a superfície só havia uma fina tela de arame. Musgos e
líquens espalhados sobre a mesma camuflavam a entrada.
O Supercrânio tangeu os dois homens para o interior da Z-35, mandou que
sentassem ao lado do radiador de popa e do radiador instalado na cabina e
fechou a comporta de ar.
Não havia mais nada que pudesse detê-los.
Os geradores emitiram um zumbido. O fluxo de energia ativou os campos
antigravitacionais e os propulsores de radiações. Uma vibração atravessou a
nave. Subitamente a popa levantou-se, os suportes telescópicos foram
encolhidos, a proa rompeu a rede de camuflagem e a profusão de estrelas da
noite marciana apareceu diante deles.
Desenvolvendo a aceleração máxima, o destróier disparou para o espaço,
passou a grande distância da nave Z-45 e dirigiu-se ao anel de asteróides que
separa Júpiter dos planetas interiores do sistema solar.
Essa faixa de planetóides pequenos e minúsculos cerca o Sol como um anel.
Alguns desses fragmentos de um antigo planeta não eram maiores que o punho de
um homem, mas outros eram pequenos astros capazes de abrigar e ocultar uma
nave. Sem se fazerem notar, percorriam o setor do espaço situado entre Marte e
Júpiter, davam uma volta em torno do Sol a cada dois ou três anos e nunca
voltavam exatamente ao mesmo lugar. Outros descreviam uma órbita perfeitamente
determinada e fácil de calcular. Eram os maiores dentre os asteróides e seu
diâmetro era de cem quilômetros ou mais.
Monterny não teria tido a menor dificuldade em passar por cima do perigoso
anel em que gravitavam os fragmentos, para após isso retornar ao plano espacial
interplanetário. Acontece que o caminho mais curto também era o mais seguro.
Além disso, depois de refletir melhor, chegou à conclusão de que o asilo numa
das luas de Júpiter não seria tão seguro como acreditara. Sua fuga devia ter
sido notada, e não seria difícil determinar a direção que havia tomado. Logo
pensariam em Júpiter. Face à gravitação excessiva do gigantesco planeta, só se
poderia cogitar de uma de suas luas. Com os recursos de que Rhodan dispunha não
demoraria muito até que os fugitivos fossem localizados.
Já os asteróides eram em grande parte desconhecidos e não constavam
separadamente dos mapas estelares.
Clifford Monterny sorriu gostosamente quando passou a doze quilômetros à
esquerda da Z-45. Sabia que a nave de Rhodan não poderia abandonar seu posto
sem mais nem menos. Sentiu-se absolutamente seguro. Mas os tripulantes da Z-45
comunicariam a Rhodan que o Supercrânio havia fugido em direção a Júpiter.
Antes de iniciar a perseguição, Rhodan dedicaria sua atenção ao esconderijo
abandonado de Marte. Enquanto isso ele, Monterny, encontraria outro esconderijo
num dos planetóides situados entre os dois planetas. Com o mecanismo desligado,
a descoberta através dos instrumentos ultra-sensíveis se tornaria impossível,
face ao elevado conteúdo de minério das rochas do asteróide.
Só reduziu a velocidade quando viu bem à frente da proa da Z-35 o brilho
da luz refletida pelos pequeninos planetas. Dali em diante teria de abrir caminho
bem devagar entre a profusão de fragmentos, até encontrar um asteróide que
servisse aos seus propósitos.
Monterny virou a proa da nave e seguiu a direção geral dos asteróides que
vinham ao seu encontro. Não seria tolo a ponto de procurar seu esconderijo bem
diante da porta de Rhodan. Naquela oportunidade nem desconfiava de que seu erro
era justamente este, pois de outra forma não teria hesitado: pousaria no
primeiro planetóide e nele instalaria seu esconderijo.
Acontece que Clifford Monterny, o todo-poderoso Supercrânio, era um hipno
e um telepata, mas não possuía o dom de uma clarividência infalível.
Por isso não sabia que iria ser justamente a penetração na órbita dos
asteróides, ainda mais contra a corrente dos fragmentos que deslizavam com
tamanha lentidão, que causaria sua desgraça.
* * *
A praga que Bell soltou depois de ter passado um bom tempo procurando em
vão não foi digno de sua pessoa. Tatiana também foi dessa opinião. A moça
operava o rádio e com isso também o rastreador ótico. A pequena porta para a
sala de telegrafia estava aberta, motivo por que havia uma ligação direta entre
a mesma e a sala de comando.
— Bell, você devia se envergonhar de pôr na boca uma palavra dessas. Não
seria suficiente pensá-la?
— Isso seria um puro desperdício de energia — disse Bell em tom
professoral, sem tirar os olhos da tela frontal. — Se solto uma praga, só o
faço para reduzir minha carga de nervosismo. Para conseguir isso, também devo
perceber a praga por meios acústicos. Logo, devo pronunciá-la em voz alta para
alcançar o efeito tranqüilizante. Quanto às suas orelhas supersensíveis, acho que
seria um sacrifício inútil apenas pensar as palavras sem proferi-las. O motivo
é simples. Você é telepata, e de qualquer maneira conheceria os termos do meu
desabafo.
Tatiana, perplexa, ouvira o discurso em silêncio. Sacudiu a cabeça.
— Muito grata pelo esforço de explicar seu comportamento segundo as leis
da lógica. Uma vez que sou telepata, sabia de qualquer maneira o que pretendia
dizer...
Como de costume, Gucky estava agachado num dos cantos da sala de comando
e brincava com uma cenoura ressequida. Deixou que flutuasse no centro da sala e
balançou-a suavemente por meio de seus fluxos mentais telecinéticos. No momento
em que Bell pretendia agarrá-la, ela se esquivou rapidamente e foi pousar na
poltrona do co-piloto, onde perrnaneceu de pé sobre a ponta.
— A cenoura é para comer, não para brincar! — gritou Bell em tom furioso
para o rato-castor. — Sabe perfeitamente que as brincadeiras telecinéticas
foram proibidas terminantemente.
— Estou treinando — procurou se desculpar Gucky. — No momento decisivo
quero estar em condições de dar o tratamento adequado ao Supercrânio.
— Teria sido preferível que o sujeito não tivesse escapado. Confiamos
demais em Tatiana e nos nossos instrumentos — resmungou Bell.
— Não poderia adivinhar que Monterny sabe isolar seus pensamentos. Os
modelos mentais de seus acompanhantes também estão protegidos parcialmente por
um bloqueio hipnótico. Estamos na dependência do acaso.
— Não a estou recriminando, Tatiana. Nós o encontraremos. Foi em direção
a Júpiter; a hipótese não oferece maiores dificuldades.
— Ou para os asteróides — disse a moça.
— É outra possibilidade — admitiu Bell e lançou os olhos pela janela; viu
a Z-45 a
uma distância regular. O tenente Bings havia abandonado seu posto na órbita de
Marte e teve de acompanhar Bell. Dois rastreadores envergavam mais que um só. O
contato radiofônico entre as duas naves era mantido por meio das ondas
ultracurtas.
De repente Bell virou lentamente a cabeça e encarou Tatiana.
— O que disse? Asteróides? Acredita que o Supercrânio tentará se esconder
no meio dos asteróides?
— Por que não? A idéia não seria nada má.
Bell confirmou com um aceno de cabeça.
— Se for assim, teremos muito para procurar.
— Rhodan não deve demorar muito. Com os instrumentos de um girino não
deverá ser difícil localizar um destróier em meio ao anel, por melhor que seja
seu esconderijo.
— Hum! — fez Bell num tom de ceticismo. — Prefiro confiar no acaso. Ele
tem me ajudado muito mais.
— Pois da minha parte prefiro uns bons instrumentos de busca e minha
capacidade de telepata — retrucou Tatiana e deixou que os rastreadores
percorressem o espaço. Na tela de imagem natural deslizava o setor de espaço
que se estendia diante da Z-13; todos os detalhes eram perfeitamente visíveis.
Os primeiros asteróides de grandes dimensões do círculo giravam preguiçosamente
na luz do sol que brilhava atrás da popa da nave. — Monterny não conseguirá
isolar seus pensamentos para sempre, pois com isso ficaria totalmente
desgastado. É bem possível que afrouxe os controles quando estiver dormindo.
— Vejo que você também confia no acaso — constatou Bell em tom de malícia
e esboçou um sorriso de escárnio. — Bem, talvez consigamos. E se isso acontecer?
Rhodan só nos incumbiu de perseguir o Supercrânio. Prefere liquidá-lo pessoalmente...
— Eu lhe mostro... — principiou Gucky, mas calou-se abruptamente quando
viu o brilho furioso nos olhos de Bell.
Com a cara mais inocente deste mundo, Gucky esboçou um sorriso com seu
dente roedor e deixou que sua cauda brincasse. Ao que parecia esquecera a
cenoura no assento do co-piloto. Perplexo, Bell notou que ela ainda continuava
em pé, como se uma mão invisível a segurasse. Será que o rato-castor não podia
apenas movimentar objetos por via telecinética, mas também sabia prendê-los a
determinado lugar, condenando-os à imobilidade? Talvez se encontrasse diante de
uma faculdade que ainda não havia aflorado à consciência de Gucky e era
desempenhada pelo subconsciente. Bell resolveu calar a boca e observar o animal
às escondidas. Se sua suposição fosse confirmada, possibilidades nunca antes
sonhadas se abririam diante deles.
Não pôde deixar de voltar a dedicar sua atenção à pilotagem do destróier,
já que os primeiros asteróides se aproximaram a ponto de causar preocupações.
Um pedaço bem grande, com um diâmetro de pelo menos cinqüenta quilômetros e de
formato bastante irregular, deslocava-se lentamente em direção ao Sol, no
sentido dos ponteiros do relógio. Era feito de rocha nua entrecortada por
grotas íngrimes, nas quais uma nave de pequenas dimensões poderia se esconder
perfeitamente, sem que houvesse a menor possibilidade de ser descoberta.
A Z-13 reduziu a velocidade. A Z-45 fez a mesma coisa. Bell chamou a
Z-45:
— Não observou nada, tenente Bings?
— Nada — respondeu prontamente o interlocutor. — É um mundo pequeno e
morto.
— Ninguém espera encontrar vida nos pequenos asteróides — disse Bell em
tom professoral. — Contorne esse bloco pela direita. Vamos nos encontrar no
outro lado.
A Z-45 não respondeu; desviou-se para a direita e desapareceu sob o
horizonte daquele pequeno mundo.
Bell desceu até ter a superfície entrecortada do planeta de rocha bem
debaixo da sua nave. Fez com que ele se desenrolasse diante de sua vista como
se fosse um mapa em baixo-relevo. Uma vez que não havia atmosfera, todos os
detalhes podiam ser percebidos nitidamente. Nenhuma pedra escapou ao olhar
perscrutador de Bell.
Tatiana se concentrou sobre fluxos cerebrais que pudessem estar presentes
e tentou captá-los. Estava convencida de que a uma distância tão reduzida não
poderia deixar de sentir o Supercrânio, por mais que procurasse se isolar.
Gucky não fez absolutamente nada. Quieto e tranqüilo, aguardava sua
chance.
Não havia ninguém no pequeno planeta. Para pesquisar as profundezas dos
principais desfiladeiros, Bell teria que pousar. Mas receava que com isso
perderia muito tempo. Por isso deu ordem de prosseguir na viagem quando o
tenente com a Z-45 surgiu no horizonte e anunciou que não tinha encontrado
nada.
Depois de realizar dez tentativas de localizar o Supercrânio num dos
asteróides, Bell suspirou apavorado:
— Pelo que sei, existem umas cinqüenta mil pedronas desse tipo em nosso sistema
solar. Se formos revistar uma por uma, ficaremos velhos antes de encontrar o
Supercrânio. Quem sabe se não estamos procurando na direção errada?
Tatiana sacudiu a cabeça.
— Clifford Monterny pensa logicamente, por isso irá em sentido contrário
ao deslocamento dos asteróides; é o que estamos fazendo.
— Por que vai fazer isso? — perguntou Bell.
— Porque dessa forma poderá voar a pequena velocidade e deixar que os
blocos de pedra se aproximem dele. Não levará tanto tempo para encontrar um
esconderijo.
Bell não viu nisso tanta lógica como Tatiana, mas não deixou de
reconhecer que a hipótese era perfeitamente razoável.
Sem dizer nada, aproximou-se do décimo primeiro asteróide que encontraram
no seu caminho.
* * *
Uma nave esférica pousou no platô de Marte.
O major Deringhouse fizera questão de dirigir pessoalmente a ação contra
a fortaleza do Supercrânio situada em Marte. Achou que era seu dever redimir-se
da falta involuntária por ele cometida.
Além dos vinte e cinco tripulantes, havia alguns membros do Exército de
Mutantes a bordo da Good Hope-VII. A missão de André Noir, o hipno, consistia
em libertar os homens que ainda se encontravam sob a influência hipnótica do
Supercrânio. Sabiam que Monterny havia fugido com uma única nave; dessa forma
não era difícil calcular quantos homens deixara em Marte. Betty Toufry, a mais
potente das telepatas, foi a primeira a estabelecer contato com os homens de
Monterny. Estes estavam sujeitos a um bloqueio hipnótico, mas não possuíam
qualquer tipo de isolamento mental, motivo por que não havia nenhuma
dificuldade em ler seus pensamentos.
— Receberam instruções para se defender — disse Betty com o rosto
desolado. — Noir, será que conseguiremos evitar uma luta insensata?
O hipno deu de ombros.
— Sengu deve apurar onde essa gente nos espera, caso já nos tenha visto.
Você me ajudará, para que possa me concentrar na direção exata. Depois
procurarei romper o bloqueio hipnótico do Supercrânio. Já conseguiu estabelecer
contato com os tripulantes de nossos destróieres que foram aprisionados?
— O bloqueio hipnótico deles é muito fraco. Talvez seja conveniente que o
senhor tente libertá-los. Poderiam representar uma boa ajuda para nós.
O major Deringhouse saiu da nave em companhia de Betty Toufry e André
Noir.
* * *
Sentados na sala de comando da Z-VII-1, o capitão Berner e o tenente Hill
passavam o tempo com conversas estranhas. Uma pessoa estranha que os ouvisse
ficaria mais que espantada.
— Se esta dor de cabeça não passar logo, acabo enlouquecendo — queixou-se
Hill, colocando a mão na testa. — Talvez já esteja.
— Eu também — disse Berner em tom indiferente. — Por exemplo, não sei por
que estamos aqui em Marte, esperando alguma coisa que não sabemos o que é. Até
então estava como que sujeito a um comando que me dirigia e me dava ordens. A
partir de ontem essa influência cessou. Mas a dor de cabeça continua, tal qual
em você. Tenho a impressão de que posso fazer e deixar de fazer o que me dá na
cabeça. Mas não tenho vontade, pois não sei o que quero fazer.
Hill sacudiu a cabeça.
— Comigo acontece a mesma coisa. E com os seus e os meus subordinados
também. Sei perfeitamente que o Supercrânio conseguiu nos agarrar. O método que
usou é chamado de bloqueio hipnótico, se não me engano. Esquecemo-nos de
colocar os capacetes de absorção. Sei de tudo isso, mas não tenho forças para
fazer qualquer coisa. Será que deve ser assim mesmo?
— Para o Supercrânio não deve, e para Rhodan também não.
— Quer dizer que somos hermafroditas mentais — disse Hill e pôs-se a rir,
como se acabasse de contar a melhor piada de todos os tempos.
Não achou nada de estranho naquilo que seu companheiro acabara de dizer.
Mas depois de algum tempo pôs a mão na cabeça e disse:
— Tenho a impressão de que essa pressão está ficando mais forte e ao
mesmo tempo vai diminuindo. Quero sair da nave. Tenho que sair. Vem comigo?
Hill não respondeu. Levantou-se sem dizer uma palavra e caminhou na
frente do companheiro. Os dois tripulantes seguiram-nos em silêncio.
Não mostraram qualquer dose de espanto ao constatarem que, lá no
desfiladeiro, os tripulantes dos outros destróieres também haviam saído de suas
naves e ficaram parados sem saberem o que fazer. Ao que parecia haviam
obedecido ao mesmo comando, que penetrara em seus cérebros, vindo do nada.
Três vultos surgiram na saída do desfiladeiro. Aproximavam-se devagar.
Hill sentiu perfeitamente que o comando vinha de um dos três. Aproximou-se do
homem juntamente com os companheiros.
“Estão livres do Supercrânio”,
disse de forma bem perceptível a voz em seu cérebro, enquanto a dor de cabeça
cessou como por encanto. Uma argola parecia se soltar, uma argola que até então
lhes apertara a cabeça. Tinha a impressão de que era a primeira vez que
respirava livremente depois de muitos dias.
Apressou os passos. De repente deu-se conta de que se livrara da força
que o dominava, força que o terrível Supercrânio colocara em sua mente e na de
seus companheiros. Estava livre; não mais podia ser obrigado a ser o servo
incondicional de Clifford Monterny.
Pararam diante do major Deringhouse, André Noir e Betty Toufry.
— Os senhores vão desculpar, mas...
— Não precisa dizer nada, tenente — disse Deringhouse com um gesto. —
Também passei por isso. Até cheguei a voar para a Terra e causei estragos
consideráveis no território de Terrânia — percebeu que o tenente Hill se
assustou. — Também eu fui libertado por Noir, que me restituiu a vida. Naquela oportunidade
conseguimos nos apoderar da arma mais perigosa do Supercrânio, que fugiu na
direção de Júpiter e está sendo perseguido.
O tenente Hill pretendia dar uma resposta, mas não teve tempo para isso.
Subitamente Betty Toufry deu um empurrão em Noir e Deringhouse e se atirou ao
chão.
— Abriguem-se! — gritou desesperadamente. — Haverá um ataque.
Os homens se espalharam e se agacharam atrás de blocos de pedra e
reentrâncias da rocha. Mal acabaram de fazê-lo e chamas surgiram ao seu lado.
Com um chiado agudo, o primeiro projétil ricocheteou acima deles.
André Noir rastejou para junto de Betty.
— Qual é a direção principal?
— À esquerda da metralhadora. Os homens do Supercrânio estão planejando
um ataque com armas manuais. Felizmente não dispõem de radiadores. Acontece que
não temos nenhuma arma. Se você não conseguir romper o bloqueio hipnótico antes
que consigam realizar seu intento...
Noir ignorou os projéteis explosivos que passavam pelo ar chiando e
concentrou-se sobre os atiradores invisíveis. Não foi muito fácil localizar um
espírito aprisionado, mas uma vez feito isso, o resto foi bastante rápido.
De uma hora para outra o fogo cessou.
Deringhouse e Hill continuaram deitados com os outros, mas Noir e Betty
levantaram-se sem demonstrar qualquer receio e caminharam em direção ao ninho
de metralhadora bem camuflado. De lá não saiu nenhum tiro. Em compensação três
vultos surgiram atrás das rochas. Logo foram seguidos por outros.
Eram os defensores da fortaleza de Monterny.
Seu bloqueio hipnótico se esfacelou quando foram submetidos ao tratamento
intensivo de Noir, que eliminou os últimos vestígios da vontade estranha. Dali
a dez minutos não havia em Marte qualquer homem que não fosse livre.
Não poderia se afirmar que Clifford Monterny havia recrutado seus
colaboradores entre o melhor material humano. Por outro lado, porém, Rhodan não
manifestara o desejo de incorporar os mesmos nos seus quadros. Seriam levados à
Terra e entregues aos governos dos países de que provinham. Até então foram
encaminhados a um recinto da Good Hope-VII, do qual não poderiam sair.
Já não havia qualquer impedimento para as comunicações radiofônicas. Deringhouse
informou Rhodan sobre as últimas ocorrências e explicou a maneira pela qual
haviam encontrado o esconderijo abandonado do Supercrânio. Finalmente pediu
licença para entrar em contato com Bell. Rhodan não demorou em concedê-la.
— Tenho assuntos urgentes a tratar. As negociações em torno da formação
de um governo mundial chegaram a uma fase decisiva. Não quero deixar de
comparecer às próximas sessões. Além disso, Ivã tem de ser vigiado até que
possamos confiar integralmente nele. Não tenho nada a opor caso você queira
participar da caçada. Procure remover o maior perigo que a Terra já enfrentou.
Se o Supercrânio conseguir se esconder e não for encontrado, retornará um belo
dia com algumas experiências a mais. No momento está fraco e desgastado.
7
O planetóide não tinha nome, e sua órbita nunca fora calculada por
qualquer homem. Seu diâmetro não ultrapassava oitenta quilômetros, e tinha um
formato quase quadrangular. Possuía um movimento de rotação extremamente veloz;
levava menos de uma hora para girar em torno do seu eixo. Sua superfície era
formada por uma profusão de montanhas íngremes e profundos desfiladeiros, nos
quais reinava uma eterna escuridão. As rochas mais elevadas eram iluminadas a
intervalos regulares pelo sol distante.
Com poucos minutos de intervalo as pontas das montanhas interceptavam os
raios solares, e por isso alguém que contemplasse o asteróide a grande
distância teria a impressão de que uma luz se acendia e apagava no mesmo.
Esse fenômeno trouxe consigo certas conseqüências.
De início o Supercrânio ficou intrigado com a luminosidade intermitente;
Redobrou sua vigilância. Mas quando o quadro ampliado do asteróide foi
projetado na tela, encontrou a explicação do fenômeno. Decidiu que esse
planetóide lhe serviria de esconderijo provisório. Nunca saberia explicar por
que escolhera justamente este.
Adaptou a velocidade da nave à do asteróide e começou a circular em torno
do mesmo. Ficou satisfeito ao constatar que havia muitos lugares adequados para
o pouso. Mesmo que uma das naves de Rhodan cruzasse acima do asteróide, ainda
era duvidoso que fosse descoberto. Se isso acontecesse, ainda poderia contar com
o excelente armamento do destróier e com o campo energético que o protegeria.
Não demorou em encontrar um desfiladeiro largo com rochas que sobressaíam
na parte superior.
O Supercrânio era um excelente piloto. Pousou sem maiores problemas.
Aguardou calmamente até que a vibração da nave cessasse e ordenou aos seus
acompanhantes que permanecessem em seus postos e dirigissem os raios dos
canhões sobre qualquer nave que se aproximasse. Depois se dirigiu à comporta de
ar, envergou o traje espacial e saiu da nave.
Sem que o soubesse, passou por aquilo que Bell sempre considerava uma
atração toda especial. Como um peixe na água, flutuava pelo vácuo quase livre
de gravidade. Sentiu-se livre e independente. O Supercrânio começou a dar-se
conta de que além da riqueza e do poder existiam outras coisas que faziam com
que valesse a pena viver. Ao chegar ao limiar da comporta deu um empurrão com a
perna e deslizou sobre o desfiladeiro, descendo lentamente. Quando tocou o solo
rochoso fez um movimento precipitado e subiu como uma pena carregada pelo
vento, chegando quase à extremidade superior do paredão de rocha. Só lentamente
retornou ao fundo do desfiladeiro.
Esqueceu a situação em que se encontrava. Uma verdadeira embriagues se
apossou de seu espírito. Com um forte empurrão subiu como um foguete para o
espaço salpicado de estrelas. Evidentemente acompanhou o movimento de rotação
do asteróide, motivo por que permaneceu praticamente acima do mesmo lugar. Mas
continuava a subir, embora mais devagar. Dali a pouco atingiria o ponto em que
a velocidade de seu corpo não mais seria suficiente para superar a reduzida
força gravitacional. Esta voltaria a puxá-la para baixo, mas em câmara lenta.
Lembrou-se de sua missão. Olhando para baixo, não viu a nave. As rochas
salientes encobriam a mesma. A camuflagem não poderia ser melhor.
Esperou pacientemente até que voltasse a descer. Teve uma sensação nunca
antes conhecida de superioridade e de verdadeira liberdade. Não podia
influenciar a direção da queda enquanto não usasse seu radiador manual, mas
isso não tinha a menor importância. Havia espaço de sobra; dispunha de um mundo
todo só para si.
Percebeu a ironia do destino e conformou-se com a mesma. Queria possuir o
mundo, e agora tinha o seu mundo. Era menor que a Terra e nele não havia
nenhuma vida, mas era um mundo cuja posse não seria contestada por ninguém. Era
exclusivamente dele.
Pousou suavemente no fundo do desfiladeiro, a mais de quinhentos metros
de sua nave. Desta vez resolveu tirar proveito da experiência que já havia
acumulado. Com um movimento cauteloso deu um empurrão em sentido oblíquo e,
depois de descrever uma parábola suave, atingiu o destróier sem se afastar do
solo mais que vinte metros. Atingiu-o com dois saltos. Com um terceiro salto
subiu à comporta de entrada.
Parou por um instante para controlar seus sentimentos. Eram sentimentos
que nunca antes haviam penetrado em sua mente. Ao flutuar livremente sobre um
mundo pequeno e vazio, certas cordas de seu ser começaram a vibrar, cordas que
até então nunca haviam soado. Quase chegou a esquecer o motivo de sua presença
no asteróide e o inimigo ameaçador que o perseguia.
Na extremidade do desfiladeiro, os raios do sol correram sobre a rocha
como se fossem um ser vivo e desapareceram nas sombras do desfiladeiro. Dali a
uma hora correriam pelo mesmo caminho, e voltariam a fazer a mesma coisa,
sempre e sempre.
Pela primeira vez o Supercrânio começou a compreender como o mundo podia
ser belo... até mesmo este mundo desolado e vazio. Seu espírito abriu-se e
absorveu o milagre com que se defrontava.
Naquele mesmo instante percebeu uma voz silenciosa e implacável em seu
cérebro.
“Clifford Monterny, finalmente o
encontramos! Talvez nunca o tivéssemos localizado, se afinal não tivesse se
transformado... num ser humano.”
O Supercrânio estremeceu. A proteção das ondas cerebrais. Esquecera-se
dela. Seus fluxos mentais corriam livremente pelo espaço, e um telepata acabara
de captá-los. Um dos telepatas de Rhodan.
Era tarde para voltar a se isolar.
“Quem é o senhor?”, foi sua
resposta mental.
“Não me conhece? Sou Tatiana
Michalovna.”
Com amargura no coração, o Supercrânio percebeu que Rhodan fora bastante
inteligente para mandar atrás dele uma telepata que não poderia ser
influenciada contra a vontade. Tatiana era capaz de instalar um bloco isolador
próprio sempre que isso se tornasse necessário. Não devia estar só.
“Ah, então é Tatiana? Já me traiu
uma vez. Será que isso não basta? Ainda quer me matar. Não acha que é muito
para você?”
“Nada disso, Supercrânio. Você até
pode escolher a forma de morrer. Apresse-se, pois não podemos perder muito
tempo.”
Pela primeira vez o Supercrânio teve uma idéia do que suas vítimas deviam
ter sofrido. Estava tendo o mesmo destino. Davam-lhe um prazo para morrer. Por
quê?
Só porque se esquecera por um instante do seu poder e da sua grandeza,
transformando-se num ser humano. Porque havia reconhecido a beleza de um pôr de
sol. Porque por dez segundos deixara de ser um monstro.
Será esta a vingança que se sofre por se ter sido mais humano?
— Já vou! — disse em voz alta e sabia que Tatiana o entendia.
Lançou mais um olhar para aquele mundo morto, que por alguns minutos fora
seu, virou-se lentamente e entrou na comporta de ar do destróier.
A escotilha pesada, que aqui se tornara leve, fechou-se sem o menor
ruído.
* * *
Bell notou a luminosidade intermitente.
Nem por isso interrompeu sua palestra com o major Deringhouse, que o
seguia na Good Hope-VII e havia pedido uma indicação da posição. Corrigiu o
curso da Z-13 e fez com que a Z-45 o seguisse.
— Então quer participar da caçada? — perguntou, enquanto refletia febrilmente
sobre o significado daquela luminosidade. — Não acha que seria recomendável
seguir na direção oposta?
— Por quê? — indagou Deringhouse numa atitude de espreita. Sabia muito
bem quem era Bell. — Descobriu uma pista por aí?
— Nada disso. Onde está no momento?
— Duzentos milhões de quilômetros atrás de você.
— Pois venha para cá. É possível que chegue na hora exata.
Evidentemente naquele instante Bell nem desconfiava de que suas palavras
se transformariam em realidade. Desligou a tela e transmitiu algumas instruções
ligeiras ao tenente Bings. Depois voltou a observar aquela estranha
luminosidade.
Só depois que a Z-13 se havia aproximado do asteróide, Bell reconheceu a
verdadeira natureza do fenômeno. Xingou-se de idiota por não se ter lembrado
antes dessa possibilidade. Nem mesmo o sorriso sofisticado de Tatiana conseguiu
perturbá-lo.
Tatiana estava novamente em recepção enquanto se moviam lentamente sobre
a superfície entrecortada do asteróide, que já devia ser o qüinquagésimo que
estava sendo examinado por eles.
Subitamente pensamentos estranhos começaram a cochichar em seu cérebro.
De início não acreditou que pudessem ser os pensamentos do Supercrânio,
pois eram bons e em parte belos. Um cérebro monstruoso como aquele nunca seria
capaz de concebê-los. Mas logo todas as dúvidas foram espantadas.
O Supercrânio se encontrava bem próximo dali. A estranha beleza do
planetóide morto comovera-o profundamente, e por isso se esquecera de isolar
seu cérebro.
— Clifford Monterny — disse Tatiana em tom frio. — Finalmente o
encontramos...
* * *
Ficaram aguardando a uma boa distância do asteróide. O tenente Bings
estava na Z-45, quase do lado oposto do mesmo, e mantinha contato visual com
Bell. Dessa forma a nave do Supercrânio não lhes escaparia se realizasse uma
tentativa de fuga.
Os dois homens que se encontravam na Z-45 estavam usando seus capacetes
de absorção, tal qual Bell na Z-13. Só Tatiana não possuía qualquer proteção
contra um eventual ataque mental do Supercrânio, mas dispunha do seu dom
natural. E Gucky sabia cercar o espírito de um bloqueio total.
— Não seria preferível prendê-lo? — sugeriu Bell em tom de gracejo.
O rato-castor procurou dar um brilho ameaçador aos olhos. Sua cauda
tremia nervosamente.
— Experimente — sugeriu Gucky de sua parte. Avaliou Bell com os olhos. —
Acho que você só está com medo de que eu liquide o Supercrânio sozinho.
— Que tolice! — disse Bell, enfurecido. — Mas se a coisa atingir você, e
você se puser a brincar como costuma fazer, poderemos contar com as piores
desgraças. Você sabe dirigir a nave contra minha vontade e além disso...
— O Supercrânio nada pode fazer contra mim — interrompeu-o Gucky
tranqüilamente. — Possuo dons de que nem você nem Rhodan suspeitam.
Bell deu de ombros e voltou a dedicar sua atenção ao astro que girava
constantemente. A Good Hope-VII ainda se encontrava a uma distância tão grande
que não poderia participar da ação.
Subitamente sentiu um zumbido martirizante na cabeça. De início pensou
que fosse simples coincidência, mas um ligeiro olhar para a tela que mostrava o
interior da Z-45 fez com que despertasse imediatamente. O tenente Bings e o
sargento Adolfo também revelavam sintomas inconfundíveis de um súbito mal-estar
acompanhado de dores de cabeça. Os olhos de Bings chegaram a ficar vidrados e
fixaram-se em algum ponto situado no infinito.
— Tatiana! — gemeu Bell com grande esforço, reunindo as últimas forças da
vontade que se apagava. — É o Supercrânio! Está tentando...
A russa já o havia percebido. Não sentiu os incômodos que costumam surgir
no início do processo de instalação de um bloqueio hipnótico, mas os comandos
telepáticos do Supercrânio chegaram a ela, embora não produzissem qualquer
efeito em sua mente.
Seus olhos localizaram a nave do Supercrânio, que disparou da superfície
do planetóide numa velocidade tresloucada e tomou rumo contrário à sua órbita.
Ao que parecia, o Supercrânio não pretendia perder tempo com a destruição de
seus inimigos. Prosseguiu na sua fuga para um destino desconhecido.
Bell permaneceu imóvel no assento. Não reagiu quando Tatiana gritou para
ele.
Gucky continuava sentado no seu canto; sorria. E o fez com um deboche que
Bell teria ficado furioso se o visse. Mas Bell não via mais nada. Seu cérebro
havia sido colocado fora de ação.
Gucky se aproximou a passo balouçante e, num salto elegante, colocou-se
no assento vago do co-piloto. Com um gesto de pedantismo empurrou para o lado a
cenoura que continuava de pé e olhou pela janela. A nave em que o Supercrânio
estava fugindo ainda era visível a olho nu. Corria vertiginosamente pela órbita
dos asteróides. Era de recear que dali a pouco desaparecesse naquela confusão
aparente.
— Pois bem! — resmungou o rato-castor e estreitou os olhos aparentemente
inofensivos num gesto de extrema concentração.
Não podia mover diretamente o destróier do Supercrânio, pois seu peso era
excessivo para isso. Mas uma concentração bastante intensa permitia-lhe
manipular seus controles. Porém, com o tempo, o cansaço se tornaria
insuportável. Por isso recorreu ao processo já duas vezes consagrado:
teleportou-se e colocou fora de ação o reator que supria a nave de energia.
Para isso separou os dois elementos propulsores. Mantendo a mesma velocidade, o
destróier do Supercrânio se precipitou para o interior do círculo de
asteróides. Gucky regressou.
* * *
O major Deringhouse empalideceu ao receber o chamado de Tatiana.
— Não posso libertar Bell do bloqueio hipnótico e não sei dirigir um
destróier. Gucky também não sabe. Estamos girando em torno de um asteróide.
Enquanto isso o Supercrânio foge. Felizmente não pode dirigir sua nave.
Relatou em poucas palavras a maneira pela qual Gucky interviera nos
acontecimentos e concluiu:
— Você tem que intervir quanto antes. É possível que o Supercrânio dê
novas ordens a Bell, e nesse caso não poderei fazer nada.
— Sua posição?
Tatiana indicou-a.
— Muito bem. Tentarei um hipersalto. Dentro de um minuto estarei aí.
Um hipersalto!
Tatiana não sabia o que vinha a ser isso, embora já tivesse ouvido a
palavra. A nave se deslocava para a quinta dimensão e no mesmo instante voltava
a se materializar na quarta. O fator tempo era excluído por completo.
Antes que pudesse pensar no assunto, viu que entre ela e a Z-45, bem
perto do asteróide, a nave esférica surgia em meio ao espaço. No início as
estrelas apagaram-se num setor circular do universo, e logo se verificou a
materialização da Good Hope-VII.
Poucos segundos depois a rigidez do olhar de Bell desapareceu. Seu
cérebro voltou a funcionar normalmente, mas não se lembrava do que lhe
acontecera. Em poucas palavras Tatiana o informou a esse respeito, enquanto o
hipno André Noir, que se encontrava a bordo da Good Hope-VII, pôs-se a chamar o
tenente Bings e o sargento Adolfo de volta para a realidade.
Gucky estava acomodado no assento do co-piloto e esboçou um sorriso
alegre.
Bell lançou um olhar estranho sobre ele e, com um gesto abrupto, pegou os
controles da nave. A Z-13 descreveu uma curva repentina e passou a se deslocar
na direção em que o Supercrânio desaparecia no espaço.
O girino número sete e o destróier Z-45 seguiram-no.
— O Supercrânio não pode dirigir sua nave? — procurou certificar-se Bell.
Gucky confirmou com um aceno de cabeça. — E não pode acelerar?
— Está sem energia — chiou a voz estridente de Gucky. — Dentro de poucas
horas estará morto, porque o ar de sua nave não será renovado.
Na tela frontal um ponto luminoso caminhava entre os asteróides que se
moviam lentamente. Bell ampliou a imagem. Era o destróier do Supercrânio.
Tatiana disse:
— Não vale a pena se aproximar. Se ele notar nossa presença, tentará
novamente instalar um bloqueio hipnótico...
De repente um relampejo ofuscante surgiu bem ao longe, diante da Z-13.
Entre os pontinhos luminosos formados pelos asteróides surgiu um pequeno
sol branco, muito luminoso, que logo se apagou. Quando os olhos voltaram a se
acostumar à escuridão do espaço, o pontinho luminoso que representava o
destróier do Supercrânio havia desaparecido.
Bell acelerou e só reduziu a velocidade quando chegou ao pequenino
asteróide que penetrara na trajetória imutável da nave desgovernada. Seu
diâmetro devia ser de cerca de três quilômetros. Sua massa era tamanha que o
impacto não pudera modificar sua órbita. Continuava a caminhar tranqüilamente
pelo espaço.
Mas em sua superfície havia uma enorme cratera, cujo interior continuava
em incandescência.
Sem dizer uma palavra, Bell contemplou o túmulo do supercrânio. Tatiana,
que captara aqueles poucos pensamentos do monstro, murmurou:
— Seu último desejo foi cumprido. Queria um mundo que pudesse dominar
sozinho. Ele já tem este mundo. Ninguém lhe disputará a posse.
Falando de dentro da tela, o major Deringhouse disse:
— Com isso o capítulo Supercrânio está encerrado. Convém que informemos
Rhodan. Ficará satisfeito em saber que poderá se dedicar a missões mais
importantes que o combate contra esse brutal reformador do mundo.
— Estragador do mundo — resmungou Bell, retificando as palavras de Deringhouse.
Mas acabou concordando com um aceno de cabeça. — Pois bem, cuide disso.
Lançou um olhar para o mapa estelar estendido diante dele e disse em tom
pensativo.
— Vá logo com a Z-45. Irei depois. Deringhouse demonstrou ligeiro
espanto.
Também Tatiana parecia estranhar a atitude de Bell. Apenas o tenente
Bings, que se encontrava na Z-45, passou a demonstrar muito Interesse. Um
brilho curioso surgiu em seus olhos.
Gucky estava roendo sua cenoura. Ao que parecia, não se importava em dar
qualquer volta que desse na cabeça de Bell.
— O que pretende fazer? — perguntou Deringhouse.
Bell piscou em direção à outra tela, onde estava projetada a imagem do
tenente Bings.
— Ainda tenho que cumprir uma promessa feita a mim mesmo. O Supercrânio
está morto. Logo, não posso deixar de cumpri-la. Sabe o que vem a ser uma
borboleta venusiana de olhos trêmulos?
O major Deringhouse sacudiu a cabeça como quem não entende nada.
— Não faço a menor idéia — disse em tom desolado.
— Pois recomendo-lhe que tome uma aula de zoologia extraterrena — disse
Bell e interrompeu a comunicação visual.
Por isso não ouviu o grito alegre de colecionador emitido pelo tenente
Bings.
A Z-13 descreveu uma curva e tomou o curso do distante planeta Vênus.
Dentro de poucos segundos desapareceu em meio à profusão de estrelas.
* * *
* *
*
O Supercrânio está morto! Todos os homens submetidos ao domínio desse mutante
dotado de forças hipnóticas quase insuperáveis e transformados em receptores de
ordens automatizados podem respirar aliviados.
Mas a atuação maléfica do Supercrânio ainda trará conseqüências
involuntárias e inesperadas, narradas em Cilada Cósmica, o próximo volume da
série Perry Rhodan.

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