sábado, 3 de novembro de 2012

P-022 - A Fuga de Thora - Clark Darlton [parte 1]


Tradução
A. F. IMMERGUT

Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN










Terceira Potência entrou na posse de um fabuloso legado — a tecnologia dos arcônidas. Dispõe, portanto, dos meios para exercer uma pressão irresistível e conseguir, em curto prazo, a almejada unificação política da Terra. Mas Perry Rhodan julga imprudente seguir o caminho da coação, pois ele — que a essa altura já se tornou imortal — encara as coisas agora sob um ângulo de visão bem diferente que muitos outros — Thora, por exemplo.
Ela, a arcônida, chegou ao fim da paciência e quer retornar a Árcon, custe o que custar. Perry Rhodan, porém, não lhe concede permissão para partir, já que só tenciona estabelecer contato com Árcon à frente de uma Terra unida. E então Thora empreende a fuga...






= = = = = = = = = =  Personagens Principais:  = = = = = = = = = =

Perry Rhodan — Chefe da Terceira Potência.

Reginald Bell — Ministro da segurança da Terceira Potência.

Coronel Freyt — Substituto de Rhodan na Terra.

Son Okura, John Marshall e Tanaka Seiko — Membros do Exército de Mutantes da Terceira Potência.

Thora — Arcônida que foge em direção a Vênus.

General Tomisenkow — Comandante de uma expedição do Bloco Oriental perdida em Vênus.

Sargento Rabov — Um sobrevivente da expedição do general Tomisenkow.

Wallerinski — Líder dos pacifistas.





1



Três monstros metálicos, prateados e reluzentes, esticavam as proas cônicas ameaçadoramente no céu perenemente azul do continente asiático. No seu aspecto externo assemelhavam-se àquelas naves espaciais que tinham rompido uma nova era ao realizarem os primeiros vôos entre a Terra e a Lua.
Mas a semelhança era apenas externa.
Produzidas pelo estaleiro espaçonáutico da Terceira Potência, as três naves representavam um novo tipo de destróier: maiores do que os caças espaciais comuns, contavam com uma tripulação de três homens e eram capazes de atingir a velocidade da luz. Seu armamento consistia em canhões de radiação de longo alcance e podiam se envolver em anteparos energéticos que nenhuma potência da Terra tinha condições de despedaçar.
Os três destróieres eram os primeiros exemplares de sua classe e até agora só tinham realizado um único vôo experimental. E como nenhuma deficiência havia sido constatada durante este teste, o maior estaleiro da Terra iniciaria, em breve, a produção em série deste novo modelo.
O extenso campo de provas da Terceira Potência estava deserto sob o calor inclemente do sol da tarde. Na distância cintilavam os arranha-céus de Terrânia, inicialmente chamada de Galáxia, a futura capital da Terra unida. À esquerda, localizava-se o estaleiro, um complexo imenso e aparentemente desordenado, onde extensos galpões se alternavam com construções cupulares.
Com passos mecânicos e regulares, as sentinelas marchavam em torno dos três destróieres. Não olhavam nem para a direita nem para a esquerda, como se soubessem que o seu serviço de patrulha não fazia sentido algum, pois era impossível que alguém chegasse tão perto das naves sem a devida autorização. E não havia intrusos ou estranhos na área deste estaleiro; disso se encarregavam as barreiras eletrônicas.
As sentinelas não trajavam uniformes. Sua vestimenta consistia num tecido metálico curioso, que emitia um brilho prateado à luz do sol. E seus olhos não eram olhos orgânicos e sim lentes de cristal. Não eram homens. Eram robôs.
Com reações desprovidas de qualquer sentimento, obedeciam à ordem de vigiar aquelas três naves espaciais, novinhas em folha. Tinham que ficar de olho em alguém que jamais conseguiria se aproximar. Mas, se os seus cérebros positrônicos registravam este absurdo com espanto ou não, ninguém poderia dizer.
O lago salgado de Goshun ficava à direita, estendendo sua superfície lisa como um espelho até o horizonte. Deste lado, o perigo de uma aproximação indébita era menor ainda, pois o lago se situava inteiramente dentro da zona de bloqueio.
E mesmo assim esta calma era ilusória.
Enquanto a Humanidade em peso se preparava para comemorar o décimo aniversário do primeiro vôo lunar, e os homens, num clima de expectativa crescente, não desviavam o olhar dos televisores, alguém tomou uma resolução. Estava farto de esperar que certas promessas fossem cumpridas, e decidiu agir.
Vindo do sul, um carro se aproximou do campo de provas, deslizando a cem quilômetros por hora pela pista lisa de concreto, limpa e isenta de poeira. Não reduziu a velocidade quando chegou perto da primeira barreira. Os tateadores eletrônicos examinaram o veículo e os ocupantes... e liberaram a passagem.
As duas barreiras seguintes reagiram da mesma forma.
O carro, um elegante modelo esportivo, se dirigiu em linha reta aos três foguetes, reduzindo gradualmente a velocidade. Duas das sentinelas-robô tinham alterado o trajeto da sua ronda mecânica e se aproximaram do carro. Os braços esquerdos, dobrados num ângulo curioso, ocultavam armas energéticas que ninguém conseguia ver. Bastaria o menor impulso para transformar essas criaturas metálicas, aparentemente inofensivas, em máquinas mortíferas, capazes de cuspir energia letal.
Mas este impulso não veio.
Os tateadores eletrônicos examinaram o padrão encefálico daquele ser humano, que tinha descido do carro, e deram-no como “aprovado”. Apresentava as características exigidas. Os dois robôs baixaram os braços e franquearam o caminho. Com um sorriso irônico — ao menos assim parecia — o desconhecido passou pelos robôs e parou a poucos metros deles.
E lá estavam elas, as três naves espaciais. Prontas para partir. Com trinta metros de altura, ainda podiam ser consideradas gigantes — limitada a comparação a outras naves terrenas. O seu interior abrigava tremendas reservas de energia e agregava propulsores fantásticos, que nenhum cérebro humano havia concebido. Com essas naves podia-se atravessar o sistema solar em questão de horas e, se assim se desejasse, alcançar a estrela mais próxima dentro de quatro anos e meio.
Os robôs retomaram o trajeto da sua ronda interrompida. O desconhecido, ou melhor, o seu padrão encefálico não significava qualquer perigo no sentido da programação. O estranho podia passar. Sim, podia fazer até mais do que isso, sem disparar o impulso específico que significava “perigo” para aqueles cérebros positrônicos.
Durante longos minutos, aquele vulto alto ficou parado na solidão do deserto, observando, pensativo, as três naves. O uniforme justo acentuava a esbeltez do corpo e, com um pouco mais de acuidade, podia-se reconhecer que o desconhecido... era uma mulher. Um boné ocultava o cabelo longo e claro, que o sol fazia cintilar em tom quase branco. Os olhos avermelhados revelavam determinação. Mas também uma tristeza mal velada.
Com um último olhar, a mulher contemplou o lago salgado, o enorme estaleiro e a distante cidade de Terrânia. Depois, se dirigiu lentamente à mais próxima das três naves espaciais.
Era o destróier C, designado abreviadamente por D.C.
A escotilha de entrada de D.C. estava fechada, mas uma estreita escada metálica a ligava ao solo. Ao pé dessa escada estava um dos robôs, que nem se mexeu quando a mulher se aproximou e parou diante dele. O braço esquerdo pendia frouxo e imóvel ao lado do corpo. Um brilho morto emanava daquelas lentes de cristal.
A mulher leu a designação na pequena plaqueta que o robô ostentava no peito.
— Ocupe o seu lugar, R.17 — disse ela, num idioma duro e desconhecido. — Vamos decolar para um vôo experimental.
Em vez de se mexer, o robô respondeu, na mesma língua:
— Não recebi nenhuma ordem para realizar um vôo desses.
A mulher fez um gesto impaciente.
— Eu, Thora de Árcon, estou lhe dando esta ordem agora!
R. 17 não reagiu da maneira esperada.
— A ordem de Perry Rhodan prevalece, Thora.
Os olhos da mulher brilharam de raiva. Era como se lançasse chispas de fogo contra o robô renitente.
— Perry Rhodan é um homem, R.17, e eu sou uma arcônida. Portanto a minha ordem vale mais que a de Rhodan.
— Vale mais também que uma ordem de Crest?
Por um instante a mulher vacilou, depois lançou a cabeça na nuca, num gesto de irritação.
— Crest está sob a influência de Rhodan, portanto ele não conta. Por que você pergunta?
— Porque, de acordo com as disposições de Crest, temos que obedecer a todas as ordens de Rhodan, seja qual for o seu teor. Por isso, não podemos agir contra as ordens de Rhodan. Isto é lógico, ou não?
A mulher refletiu durante alguns segundos, depois acenou lentamente.
— Sim, isto soa lógico; você sempre age logicamente, R.17?
— A lógica é a base da minha existência.
— Muito bem — disse a mulher e olhou, pensativa, para os traços quase humanos do robô. — Então responda-me algumas perguntas.
— Com prazer, Thora de Árcon.
— Perry Rhodan chegou a proibir expressamente um novo vôo experimental de D.C.?
— Não.
— Ele, além disso, proibiu que eu participe de tal vôo experimental?
— Não.
Ela acenou, satisfeita.
— Portanto, você agiria contra uma proibição, se levasse essa nave para Vênus, por exemplo?
— Dentro dessas limitações, não.
— Está vendo? — disse Thora e soltou um suspiro de alívio — então você também não vai infringir qualquer regulamento se fizer o que eu estou lhe pedindo.
Parecia que uma expressão de dúvida tinha aparecido no rosto de R.17.
— Mas eu não recebi nenhuma ordem de Rhodan para esse vôo.
— E isso era necessário? — Thora mostrou-se surpresa. — Você está recebendo esta ordem agora, e de mim. Você não está proibido de receber ordens minhas, ou está?
— Não estou, não.
Thora sorriu. O sorriso não teve qualquer influência sobre as regiões psíquicas do robô. Mas a lógica irrefutável daquela pergunta, sim.
— Não, não estou proibido de aceitar ordens suas — repetiu R.17.
— Então podemos partir?
R.17 ainda estava vacilante. Desde que isso fosse possível, não devia se sentir muito bem dentro da sua pele metálica. Mas também não encontrou qualquer argumento lógico que lhe permitisse recusar taxativamente o cumprimento das exigências de Thora. A mulher pertencia àquela raça que o tinha construído. Rhodan era apenas um habitante desse planeta, que se chamava Terra, se bem que era um espécime singular desses habitantes. Por assim dizer, R.17 sentia-se mais chegado a Thora do que a Rhodan, muito embora tivesse que obedecer às ordens deste, em virtude do condicionamento a que Crest o havia submetido. E R.17 jamais deixaria de cumprir essa ordem que o obrigava a prestar obediência. Aliás, nem poderia fazê-lo sem provocar um curto-circuito, que o destruiria totalmente.
Por outro lado, se obedecesse a Thora, não estaria agindo diretamente contra ordens de Rhodan. E, portanto, não estaria correndo perigo.
R.17 acenou.
— Sim, podemos partir. A disposição reza que nenhum estranho deve se aproximar desta nave. Thora de Árcon não é uma estranha.
— Muito bem, então não vamos perder mais tempo. Programe o curso para o planeta Vênus e decole o mais depressa que puder. Quero verificar em quanto tempo podemos alcançar a nossa base no segundo planeta deste sistema. Saber disso pode ser muito útil num caso de emergência.
Meio pesadão, o robô galgou lentamente a escada e abriu a escotilha. Thora esperou, impaciente, que desaparecesse no interior da nave para depois segui-lo apressadamente. Um aperto de botão, e a pesada comporta externa se fechou. O elevador antigravitacional levou Thora e R.17 em poucos segundos para a central de comando, que se situava na proa do destróier.
Sentaram-se nos assentos giratórios.
Enquanto o robô estava calculando o curso, os propulsores começaram a zumbir em regime de aquecimento. E, em algum lugar no interior do destróier, o possante reator iniciou a produção das inconcebíveis quantidades de energia, necessárias para liberar a nave da força de atração da Terra e, mais tarde, projetá-la através do espaço com a velocidade da luz. O automático gerou os campos de gravitação artificiais, que neutralizariam qualquer empuxo devido à aceleração majorada. Aos poucos, todo o complicado mecanismo de uma tecnologia inimaginável entrou em serviço.
Thora pôs-se a esperar. Sabia que seu intento tinha dado certo. Somente mais alguns minutos e esse planeta odiado desapareceria como uma bola azul no mar do infinito. Vênus não passava de uma escala, porque seria loucura rematada querer alcançar a pátria, a mais de trinta mil anos-luz de distância, com uma nave que mal alcançava a velocidade da luz. Mas em Vênus existia uma hiperestação radiofônica e, com auxílio dela, seria possível requisitar de Árcon o envio de uma nave de resgate. R.17 acenou para Thora.
— Está tudo pronto, vamos decolar. Observe a tela de imagem para se inteirar do desempenho de D.C. Rhodan proibiu expressamente voar à velocidade máxima. Autorizou-a apenas para um caso de emergência. Mesmo assim, devemos chegar em Vênus dentro de hora e meia. No momento, o planeta se encontra do outro lado do Sol.
— E qual é a distância?
— Duzentos e trinta e oito milhões de quilômetros.
— E a que velocidade podemos voar?
— A setenta e cinco por cento da velocidade da luz.
Thora não respondeu e continuou a esperar. R.17 agarrou uma alavanca e puxou-a para a frente. Nada parecia acontecer, mas a imagem na tela se modificou rapidamente.
D.C. decolou sem recorrer aos pulso-propulsores. Os projetores antigravitacionais neutralizaram a atração da Terra e os campos repulsores locomoveram a massa da nave espacial, agora desprovida de peso.
O chão embaixo da nave se afastou repentinamente e caiu no infinito. Em velocidade alucinante, edifícios, estradas, rios, cordilheiras e desertos lançavam-se, de todos os lados, em direção ao centro do campo de pouso. O campo de visão se ampliou até que, de repente, o terreno desapareceu, cedendo lugar a uma superfície roxa e escura.
O universo!
Em menos de dez segundos, o destróier havia atravessado a atmosfera da Terra e agora se lançava vertiginosamente espaço adentro.
Por um instante Thora acreditou ter vislumbrado um ponto brilhante no canto direito da tela. Mas sumiu tão fugaz quanto havia aparecido, de maneira que ela não se preocupou mais com essa aparição. Depois, praticamente na direção do vôo, avistou o Sol, cujo brilho intenso estava sendo absorvido por possantes jogos de filtro.
A esta altura, a Terra já tinha se reduzido a um globo, que rodava pacificamente através do céu estrelado. Ficou cada vez menor até que se tornou apenas uma estrela bastante luminosa.
Thora soltou um suspiro. Olhou para o piloto-robô.
R.17 retribuiu o olhar.
— Parece ser uma nave muito boa — constatou.
— Sim, é uma nave muito boa, mas não suficientemente boa para aquilo que eu tenho em mente, R.17.
O robô não fez perguntas. Manteve-se em silêncio e controlou o curso, calculando e corrigindo.
Estavam perigosamente perto do Sol...

* * *

Já fazia alguns anos que esta estação orbital tripulada girava em torno da Terra.
A tarefa que lhe cabia realizar, em conjunto com duas outras estações, era a de garantir a recepção dos programas da televisão terrena em qualquer parte do mundo. As três estações pairavam a uma altura em que sua velocidade orbital correspondia exatamente à da rotação da Terra. Assim, permaneciam constantemente acima do mesmo ponto da superfície terrestre.
O telegrafista Adams tinha plena consciência da sua responsabilidade quando estabeleceu a ligação com as duas outras estações, a fim de preparar a transmissão do programa de Terra Television.
Hoje fazia mais um ano que a primeira expedição espaçonáutica tripulada havia decolado da América sob o comando do major Perry Rhodan — um homem inteiramente desconhecido até aquela data. A Stardust — era este o nome daquela nave espacial pioneira — pousou na Lua, descobriu a nave naufragada da expedição espacial dos arcônidas e retornou à Terra com Crest, o chefe dessa malograda expedição. E foi assim — o próprio Adams sabia disso — que toda essa história tinha começado.
Mas Adams sabia também que essa história não terminaria tão cedo.
Com um intervalo de segundos, as estações II e I confirmaram o estabelecimento do contato. Adams chamou a Terra. A grande estação transmissora em Terrânia acusou o recebimento da mensagem. Estava tudo pronto para a transmissão, que o mundo inteiro iria ver e ouvir.
O telegrafista Adams recostou-se confortavelmente na sua poltrona. Não tinha mais muito o que fazer, pois, desse momento em diante, tudo se processaria automaticamente. Mas nem por isso Adams deixaria de assistir a essa transmissão. Pois era o próprio Perry Rhodan que, dentro de instantes, iria dirigir a palavra à Humanidade.
Um turbilhão de estrelas apareceu no monitor, transformando-se gradativamente na imagem familiar da Via Láctea, que rodava lentamente através do nada.
Era o símbolo de Terrânia, a capital da Terceira Potência.
Em seguida, a tela apresentou as feições marcantes de um homem. As profundas rugas no rosto e em torno da boca faziam-no parecer mais velho do que devia ser.
— Aqui fala o coronel Michael Freyt, de Terrânia. Ao ensejo de mais um aniversário do primeiro vôo tripulado à Lua, vai lhes dirigir a palavra Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência e amigo dos arcônidas. Peço a sua atenção para este importante pronunciamento.
O rosto de Freyt desapareceu e foi substituído por um outro. Ouviu-se o ligeiro estalo que acompanhava a ligação das instalações de tradução simultânea. Assim que fossem pronunciadas as palavras de Perry Rhodan já estariam sendo traduzidas para todos os idiomas do mundo.
“É até curioso”, constatou o telegrafista Adams, pensativo, “como esse Freyt e Rhodan são parecidos. Bem que podiam passar por irmãos. O mesmo vulto esguio, os mesmos olhos cinzentos, as mesmas rugas em torno da boca e do nariz. Até mesmo o olhar é igual, penetrante e objetivo! Mas Rhodan é o mais moço dos dois, ou será que me engano? Já não deve ser tão jovem, mas não aparenta. Gostaria de saber, como ele consegue. E o uniforme lhe assenta muito bem. Faz anos que ele despiu a farda de um piloto de provas americano e passou a envergar esse uniforme aí. Um rebuliço e tanto, aquele, na época...”
Mas infelizmente Adams perdeu as palavras introdutórias de Perry Rhodan, pois uma campainha de alarma ressoou através da central da estação radiofônica e o arrancou das suas recordações. Levantou-se de um pulo da poltrona e saiu correndo em direção à porta.
Alarma na estação sempre significava perigo.
Mas o caso parecia não ser tão grave assim. O telegrafista de serviço havia captado o eco de um objeto na sua tela de radar. Porém, esse objeto não se identificou e passou com incrível velocidade quase rente à estação, desaparecendo na direção da Lua. E só podia ter vindo da Terra.
— Não se identificou, não foi? — disse Adams, algo surpreso. — Já consultou Terrânia?
— Ainda não.
— Então faça isso ligeirinho! — recomendou Adams. Consolou-se com o fato de que mesmo os discursos mais interessantes invariavelmente começavam com introduções enfadonhas. Certamente não perderia grande coisa, se aguardasse mais um pouco.
A resposta de Terrânia veio imediatamente.
— Daqui nenhuma nave decolou. Forneça dados.
Fornecer dados! Essa era boa. A nave — se é que era uma nave — tinha passado com tamanha velocidade que nada, ou quase nada, pôde ser constatado. Talvez a filmagem automática pudesse jogar luz nesse mistério. O filme estava acabando de sair do revelador.
Mostrou uma nave de uns trinta metros de comprimento e diâmetro reduzido. Assemelhava-se a um torpedo. Velocidade: impossível de ser determinada, mas certamente não inferior a cem quilômetros por segundo.
Adams sacudiu a cabeça, enquanto o seu colega transmitia os dados. Se realmente existisse uma nave dessas, só podia ter sido produzida nos estaleiros misteriosos de Perry Rhodan. E desses se sabia muito pouco. Sabia-se apenas que...
A resposta de Terrânia foi surpreendente:
— Procurem imediatamente obter novos dados da estação lunar. Principalmente quanto ao curso presumível da nave. Estamos também interessados em saber a velocidade com que passou nas proximidades da Lua. Obrigado pela sua ajuda. Aguardamos novas comunicações. De nossa parte, já começamos a investigar o caso.
Isso foi tudo.
O operador de radar olhou para Adams.
— Bem, que acha disso? História estranha, não é?
Adams acenou lentamente com a cabeça.
— Tudo que se relaciona com esse Rhodan é estranho. Só gostaria de saber se essa nave partiu contrariando ordens.
Virou-se e voltou à sua sala, sem tomar conhecimento da expressão espantada do seu colega.
Chegou a tempo de ouvir Perry Rhodan dizer da tela do televisor:
— ...e assim, com o auxílio dos arcônidas, criamos a Terceira Potência que até agora conseguiu apaziguar todos os conflitos entre os dois blocos de poder remanescentes da Terra. Sim, porque após os últimos acontecimentos, não podemos mais considerar o Bloco Oriental como uma potência mundial; temos como certo que, mais dia, menos dia, será anexada pela Federação Asiática. Mas, como as relações políticas entre a Federação Asiática e a OTAN são bastante harmoniosas, não está mais tão longe o dia em que a idéia de um governo mundial possa se transformar em realidade.
“Os senhores todos sabem que o estabelecimento de um governo mundial ocupa lugar de destaque entre os meus objetivos políticos. Os arcônidas, que naufragaram na Lua, tornaram-se nossos aliados. E isto porque, apesar do seu tremendo potencial tecnológico, se viram obrigados a aceitar o auxílio da Terra. Como conseqüência imediata dessa aliança, vi colocado em minhas mãos um poder que me permitiria facilmente implantar o governo mundial pela força. Mas continuo convicto que este seria o caminho errado. O governo mundial, como eu o imagino, deve nascer espontaneamente e ter as condições para uma evolução natural, como qualquer organismo em crescimento; e, podem acreditar, isso vai acontecer dentro de bem pouco tempo. Assim como as diversas nações tiveram que renunciar ao seu orgulho mesquinho para poder se aliar às organizações orientais ou ocidentais, algum dia os dois grandes blocos de poder vão reconhecer que somente uma Terra unida poderá exercer um papel histórico na galáxia.
“Muita coisa foi realizada nesses últimos anos. Graças ao apoio tecnológico dos arcônidas, eles mesmos soberanos de um imenso império estelar a mais de trinta mil anos-luz de distância, a Terceira Potência conseguiu construir uma frota espacial capaz de proteger nosso planeta contra qualquer agressão externa. Já mantemos um vivo intercâmbio comercial com uma raça extraterrena. Há alguns anos, conseguimos repelir uma invasão procedente do universo. No deserto de Gobi, foi erguida a mais moderna metrópole do mundo: Terrânia, a antiga Galáxia. A Terra abandonou, portanto, o seu tradicional isolacionismo e se tornou um fator que os próprios arcônidas não vão poder desprezar... no dia em que descobrirem a Terra.
“Acabo de abordar um assunto que, pela sua importância, precisa ser esclarecido com toda franqueza. Só há dois arcônidas que sabem da existência da Terra: Crest, o cientista-chefe da malograda expedição que encontramos na Lua, e Thora, a comandante daquela expedição. Até hoje, fui bem sucedido nos meus esforços de impedir que esses dois arcônidas estabelecessem contato com Árcon, seu planeta de origem. O meu empenho nesse sentido tem uma explicação muito simples: se os arcônidas, em Árcon, soubessem da existência da Terra, considerariam da maior importância incorporar o nosso planeta ao seu império, porque, aos seus olhos, somos subdesenvolvidos e carentes de apoio político e tecnológico.
“Crest e Thora prometeram adiar o seu retorno a Árcon até que a Terra estivesse pronta para receber os arcônidas. Mas a Terra só estará pronta para este encontro no dia em que puder recepcionar a delegação do Grande Império arcônida como um planeta forte e unido. Mas não haverá uma Terra unida se não houver um governo mundial. Creio que todos compreenderam por que venho dedicando uma atenção toda especial a este problema.
“Há anos que a Terceira Potência está empenhada nos preparativos para a implantação de um governo mundial. E vai chegar o dia em que todas as nações da Terra terão à sua disposição a inconcebível tecnologia arcônida, atualmente em nossas mãos. A General Cosmic Company, fundada por mim, tornou-se sem dúvida alguma o maior fator de poder político-econômico do nosso mundo. Não constitui exagero afirmar que a G.C.C. controla a produção da Terra. Nós determinamos o valor monetário e de câmbio. E posso relevar que a G.C.C. um dia vai introduzir uma nova moeda mundial; dispõe dos meios para isto.
“Depende apenas de vocês e de seus governos para que tudo isso se torne realidade o mais breve possível. Pois o dia X não pode continuar a ser uma data imprevisível do futuro. Entretanto, não pretendo recorrer à força, faço questão de reiterar isto mais uma vez, se bem que não teria a menor dificuldade em implantar o governo mundial por coação.
“Porém não posso mais esperar muito tempo por uma razão bem simples: a cada dia que passa, Crest e Thora pedem com mais insistência que lhes conceda permissão para reverem a pátria. E não posso continuar a me opor a esse justo anseio porque, em nome da Humanidade, eu assumi uma dívida de gratidão com os arcônidas. Sem o fabuloso auxílio tecnológico que recebemos deles, hoje ainda nos encontraríamos nos umbrais da navegação espacial e deveríamos nos dar por felizes se, anos após o vôo pioneiro à Lua, conseguíssemos enviar os primeiros foguetes a Vênus. Portanto, como viram, é bastante exíguo o prazo de que os senhores dispõem para chegar a um acordo político. Mas, assim que o governo mundial tiver sido empossado, vamos poder enfrentar Árcon... e também o desafio representado por uma galáxia inteira.
“Agora passo a esboçar, em linhas gerais, como imagino a constituição de um governo mundial...”
O telegrafista Adams esticou as pernas um pouco mais. Honestamente, não estava muito interessado nos pormenores da organização desse projetado governo mundial. Certo, a idéia em si não era ruim, mas, se os políticos dos dois blocos de poder a topariam, era outra questão. Afinal a rebelião do Bloco Oriental contra Rhodan havia revelado sobejamente quão pouco conformados os políticos do mundo estavam em ter que aceitarem a supremacia tecnológica da Terceira Potência. Seja como for, os militares do Bloco Oriental haviam sofrido uma derrota decisiva em Vênus. Os exércitos desembarcados tinham se perdido nos pântanos e selvas do planeta virginal e foram dados como desaparecidos. E a base de Rhodan havia repelido todo agressor automaticamente, empregando as armas de comando positrônico.
Adams deu um suspiro. Talvez seu colega já soubesse algo de novo a respeito daquela nave misteriosa. Por uns instantes, Adams voltou a prestar atenção no discurso, e ouviu Rhodan dizer que cogitava colocar a frota de caças espaciais existente sob o comando do governo mundial. Adams levantou-se e dirigiu-se à central de radar.
Chegou na hora certa.
Na tela do aparelho que ligava a estação com Terrânia, via-se o rosto excitado de um homem um pouco corpulento, que lutava para recuperar o fôlego. Como um peixe fora d’água, constatou Adams. Depois tentou se lembrar quem era aquele homem. Não lhe era estranho, já o tinha visto alguma vez. Ora, com mil diabos, esse não era Reginald Bell, o amigo de Rhodan? Membro da tripulação do primeiro vôo à Lua e atual ministro da segurança da Terceira Potência?!
Enquanto fechava a porta atrás de si, examinou aquele rosto com mais atenção.
A imagem na tela tridimensional e colorida reproduzia as feições de Bell com fidelidade impressionante.
— Ande ligeiro, sua pata choca! — ofegou Bell, irado. — Eu preciso saber o curso dessa nave que você observou. Será que o raio daquela estação lunar ainda não enviou resposta?
— Acabou de chegar — disse o colega de Adams, tranqüilamente, e consultou um bloco de apontamentos. — Mas por que este rebuliço todo? Será que a nave não teve autorização para decolar?
— Vá a...
Reginald Bell quase que se engasgou ao cortar bruscamente a sua observação que tanto prometia. Mais calmo e objetivo, prosseguiu:
— Logo vai saber se teve ou não autorização. Agora as informações, se não for pedir demais.
— A nave foi localizada e examinada pelos raios tateadores das instalações da Lua, apesar da enorme velocidade que estava desenvolvendo. O curso não sofreu qualquer alteração. Continua orientado mais ou menos em direção ao Sol.
— Em direção ao Sol? — gemeu o homem na tela de imagem. — O que será que essa mulher biruta pretende fazer no Sol?
— Quem? — perguntou o operador de radar, todo ouvidos.
Bell ignorou a pergunta e comentou:
— Por mim pode ficar lá, assando até se tornar digerível! Bloco de gelo de uma figa! Sol!
O telegrafista arreganhou os dentes.
— Posso chamar sua atenção para o fato — disse ele — de que na direção do Sol não existe apenas o Sol.
— O que quer dizer com isso? — berrou Bell, enfurecido, para uma fração de segundos depois se tornar lívido. Como por encanto, o rubor da sua face se transformou num cinza-pálido. — Não apenas o Sol... Caramba! Você tem razão! Por que não disse isso logo? Obrigado pela informação, oportunamente vou lhe mostrar minha gratidão.
— Então diga-me o que está se passando — implorou o operador de radar, exasperado; mas a tela já estava escura.
Bell tinha se despedido à sua maneira.
Adams encolheu os ombros.
— Não leve isso tão a sério, John. Dizem por aí que esse Reginald Bell é esquisito como quê.
O telegrafista ainda não se conformou.
— Que diabo de nave terá sido essa? Parece que a sua decolagem levantou um bocado de poeira!
— A nave nem tanto — vaticinou Adams. — Creio que quem levantou mesmo a poeira foi aquela mulher que Bell citou. Também não é vantagem levantar tanta poeira. Afinal, a nave partiu do deserto de Gobi!
— Piada infame! — comentou o operador de radar, furioso. — Se eu tivesse a menor noção da realidade, poderia ganhar um montão de dinheiro. Eu conheço um pasquim...
Adams franziu a testa e voltou para sua própria central. A transmissão continuava perfeita e Adams se sentou aliviado na poltrona.
Perry Rhodan ainda estava falando.
— ...e hoje, nesta data, não vivemos mais na ilusão de sermos as únicas inteligências no universo. Não estamos sozinhos, muito pelo contrário. Estamos na mesma situação dos habitantes de uma ilha isolada no Pacífico, que até agora se julgaram os únicos homens sobre a face da Terra, e de repente são obrigados a constatar que estão circundados ou mesmo cercados por enormes continentes, povoados por milhões e milhões de pessoas. Haveria algo mais natural para esses homens do que esquecerem suas desavenças mesquinhas e se unirem para enfrentar o desconhecido?
Perry Rhodan fez uma pausa.
No mundo inteiro não houve um único telespectador que tivesse estranhado essa pausa, porque não existe homem que consiga falar ininterruptamente. Mas Adams não se encontrava na Terra e sim na estação orbital III. Além disso, ele sabia daquela nave misteriosa que tinha causado um rebuliço tão grande no ministério da segurança da Terceira Potência. E mais ainda. Adams também sabia que Rhodan dispunha de um exército de mutantes, em cujas fileiras militavam, entre outros, excelentes telepatas.
E Adams não possuía apenas essas informações, possuía também uma rara facilidade de combinar fatos...
Não era possível retirar Rhodan sem mais nem menos de frente das câmaras de televisão; afinal de contas, estava se dirigindo ao mundo. Mas era preciso colocá-lo a par do ocorrido, se fosse importante. E era importante; o comportamento de Bell tinha demonstrado.
Portanto...
Não, realmente não foi difícil para o telegrafista Adams concatenar corretamente os acontecimentos que se desenrolavam na tela.
Perry Rhodan silenciava e parecia estar refletindo. Olhava para um ponto imaginário à sua frente com os olhos ligeiramente cerrados. Era como se estivesse ouvindo uma voz que estava se dirigindo a ele do invisível. Uma ruga profunda apareceu na sua testa. Por um momento, uma expressão de mau humor brilhou nos seus lábios. Dirigiu o olhar novamente para as lentes das câmaras e o tom da sua voz se manteve inalterado quando disse:
— Mas ainda há muitos problemas a resolver, e eu só posso pedir a todos que confiem em mim. Confiem também nos arcônidas, aconteça o que acontecer. Basta que um deles resolva entrar em contato com Árcon para que o perigo de sermos descobertos aumente tremendamente. Pois esta mensagem poderia, por um acaso, revelar a nossa existência a uma das numerosas raças belicosas do universo. E desnecessário salientar o que isso significaria para uma Terra desunida.
“Finalizando, desejo lembrar mais uma vez a todos que hoje não comemoramos apenas mais um aniversário do início da verdadeira navegação espacial, mas também a consolidação definitiva da paz. A Terceira Potência ama a paz. Mas ao mesmo tempo é a sua defensora mais intransigente e, como tal, não hesitará um instante sequer, em empregar, sem a menor contemplação, todo seu poderio para defendê-la, toda vez que se veja ameaçada em qualquer parte do mundo.”
Após esse final um pouco abrupto, Rhodan se inclinou ligeiramente perante o seu auditório invisível e depois se dirigiu rapidamente para uma porta nos fundos, pela qual desapareceu. Esta porta permaneceu nas telas de imagem ainda durante algum tempo, antes que o coronel Freyt aparecesse para anunciar que em breve o ministro da segurança da Terceira Potência, Reginald Bell, ia dirigir a palavra ao mundo, abordando questões de defesa no caso de uma invasão.
Freyt ainda pediu que os telespectadores desculpassem um pequeno intervalo, uma vez que Bell estava sendo retido por alguns assuntos internos.
O telegrafista Adams efetuou as ligações necessárias e depois pôs-se a esperar.
Tinha a impressão de ter se tornado testemunha de acontecimentos sumamente importantes e de conseqüências ainda imprevisíveis.

* * *

A esta altura, o Sol já era uma imensa bola de gás incandescente, que passava rapidamente à esquerda da nave espacial. As enormes protuberâncias que projetava no universo pareciam querer agarrar o destróier C, mas este era rápido demais para poder ser alcançado pelas turbulentas massas gasosas. Deslocava-se a uma velocidade próxima à da luz.
O robô R.17 ocupava, praticamente imóvel, o assento diante dos controles, a maioria dos quais havia transferido para o comando automático. Só vez por outra procedia a uma ligeira correção do curso, que era influenciado pela tremenda força gravitacional do Sol. R.17 manteve-se em silenciosa expectativa.
Ao passarem pela estação lunar, R.17 havia cumprido a ordem recebida, e anunciado o nome de Thora como comandante do destróier. Mas antes que a estação pudesse responder, já tinha desaparecido no negrume do vazio total.
Desta vez, Thora não admitiria que ninguém a impedisse de realizar o seu intento. Durante dez anos — se computado o curioso lapso de tempo em Peregrino, o planeta da vida eterna — tinha se submetido à vontade férrea de Rhodan. Mas acabou chegando à conclusão que Rhodan nem pensava em permitir que ela e Crest retornassem a Árcon.
Antes de mais nada, Rhodan queria ver implantado o seu ambicionado governo mundial, a fim de não passar por vexame diante dos arcônidas. É claro que perseguia esse objetivo sob o pretexto barato da eterna ameaça de uma invasão.
Bem, se Rhodan não estava disposto a lhe conceder a permissão, paciência, agiria por conta própria para exercer o seu direito inalienável de rever a pátria. Chegar a Vênus já era meio caminho andado, pois lá existia um meio pelo qual poderia se comunicar com o distante planeta Árcon. Era o emissor hiperespacial, que levaria as suas palavras através do universo com velocidade superior à da luz.
E Árcon enviaria uma nave para resgatá-la.
E o seu cativeiro chegaria ao fim...
Neste ponto, algumas dúvidas se infiltraram nos pensamentos de Thora. Não tinha segredado o seu plano a Crest, e ele tinha todo o direito de conhecê-lo. Mas Crest estava do lado de Rhodan. Portanto, teve que agir sozinha.
Todavia...
Segundos transformaram-se em minutos. O Sol diminuía cada vez mais na esteira da nave, enquanto que à frente, em meio às miríades de estrelas, Vênus despontava como um ponto fulgurante que crescia vertiginosamente, transformando-se num disco e, finalmente, num globo branco.
Com olhos ardentes, Thora fitou o planeta que se aproximava. Lá se encontrava o objeto dos seus anseios: a gigantesca estação radiofônica estelar dos colonos arcônidas desaparecidos dez mil anos atrás. No entanto, o fabuloso automatismo da base que haviam construído ainda hoje se encontrava em perfeitas condições de funcionamento.
E isto incluía as terríveis armas defensivas, criadas por uma tecnologia inconcebível, e que protegiam a estação radiofônica e o cérebro positrônico.
Thora conhecia a localização exata da base. Construído de acordo com um projeto arcônida, o destróier apresentava todos os requisitos para ser identificado como nave dos arcônidas pelos raios tateadores da instalação de bloqueio da fortaleza. Não encontraria qualquer obstáculo para pousar. Thora sabia quão estarrecedor era o armamento desta fortaleza, e de que meios o gigantesco cérebro positrônico dispunha para se defender.
Afastou todas as dúvidas e receios do pensamento e disse a R.17:
— Precisamos desacelerar.
— Já estamos desacelerando — respondeu o robô. — Só que não reparou nisso. É que os campos de força neutralizam qualquer alteração. Mas veja, a imagem de Vênus está aumentando apenas lentamente.
Tinha razão.
Aquela esfera luminosa já estava bem próxima, mas na realidade só crescia vagarosamente. A densa camada de nuvens ocultava a superfície, mas Thora se lembrava muito bem que aquilo que no momento não podia ver era um mundo primitivo. Enormes superfícies de água e mares pré-históricos cobriam uma grande parte do planeta Vênus e, assim, se constituía para os homens num imenso labirinto de água, pântanos e selvas gigantescas. E nesses pântanos sem fim viviam enormes sáurios, que somente há poucos séculos tinham conquistado a terra firme.
A selva era praticamente impenetrável. Mesmo com o auxílio dos meios da técnica mais moderna, ali era praticamente impossível percorrer trechos maiores a pé. Quem caísse nessa selva estava perdido. Sucumbiria em breve, vítima dos sáurios, dos pântanos ou das plantas carnívoras.
Para seres humanos a atmosfera venusiana era respirável. Apesar do alto teor de dióxido de carbono, continha oxigênio suficiente para alimentar a corrente sangüínea. Nas camadas superiores a percentagem de impurezas de origem vulcânica e de gases nobres aumentava consideravelmente. E a camada de nuvens, que quase sempre pairava a grande altura, transformava Vênus numa estufa enorme, na qual a vegetação proliferava exuberantemente.
Um dia completo em Vênus tinha a duração de dez dias terrestres. Isto equivalia, portanto, a cento e vinte horas de claridade, seguida de igual período de noite escura. O ano planetário durava 224,7 dias terrestres.
A força gravitacional e a velocidade de liberação eram ligeiramente inferiores às verificadas na Terra. O Sol estava a cento e oito milhões de quilômetros, e fornecia energia calorífica superabundante.
Não era um mundo muito hospitaleiro mas, há milhões de anos, não tinha sido outro o aspecto da Terra. Algum dia, Vênus seria habitado; talvez fossem até os descendentes dos homens que, num futuro remoto, transformariam este planeta fértil num paraíso.
Mas, no momento, Vênus era tudo, menos um paraíso. “O planeta do inferno”, assim Bell o tinha chamado certa vez numa conversa com Thora. Casualmente, a arcônida se lembrou dessa denominação, quando o destróier penetrou nas camadas superiores da atmosfera e começou a baixar lentamente.
A velocidade já era bem reduzida. Vagarosamente as nuvens claras e esfarrapadas deslizavam diante das vigias. Parecia que se deslocavam para cima.
Na tela de radar se delineavam os contornos de enormes e altas cordilheiras. E no planalto de uma dessas cordilheiras localizava-se a base dos antigos arcônidas; e esta base abrigava o cérebro positrônico e a hiperestação radiofônica.
O robô R.17 reassumiu o controle da nave. Orientou-se pelos instrumentos e determinou a posição do alvo. Nenhuma instrução havia sido gravada no seu cérebro que o proibisse de pousar nas proximidades da base venusiana.
De repente, não havia mais nuvens embaixo do destróier. Era como se D.C. tivesse mergulhado num mar de gás e agora estivesse flutuando no fundo. O sol ficou reduzido a uma mancha clara que brilhava através das massas gasosas, nas quais originava violentos turbilhões, mas que só raramente atingiam a superfície do planeta.
Thora olhou para baixo e se arrepiou.
Tinham atravessado um oceano e estavam se aproximando da costa. A visão era surpreendentemente clara e lá longe, no horizonte, amontoavam-se altas cordilheiras, encimadas por cumes achatados. Do sopé até a metade da altura ainda havia vegetação. Daí para cima, só se via a rocha desnuda. De frestas escuras emergia uma cintilação branca. Thora sabia que eram imensas quedas d’água, que alimentavam sem cessar os pantanais nas selvas.
As selvas...
Além das cordilheiras e dos mares, não se via outra coisa senão selvas. Estendiam-se em todas as direções por baixo do destróier... um tapete verde, do qual despontavam algumas rochas isoladas, e rasgado em alguns trechos por vastas superfícies de água, que brilhavam num tom esverdeado e traiçoeiro. Aqui e ali, esta superfície de aspecto tóxico era agitada e uma enorme cabeça aparecia, oscilando indecisa na extremidade de um pescoço longo e esbelto, para, em seguida, desaparecer novamente dentro d’água.
A nave continuou a baixar.
— O alvo está a oitocentos quilômetros de distância — disse R.17 calmamente e sem qualquer emoção. — Vamos pousar ou voltar?
— Vamos pousar... é claro! — respondeu Thora. A sua voz também soava calma, se bem que no seu íntimo rugia uma tempestade difícil de ser amainada. Dentro de poucas horas saberia ao certo se era mais forte e inteligente que Rhodan... ou não.
— Algum sinal dos raios tateadores da estação?
R.17 lançou um olhar aos instrumentos.
— Por enquanto, não.
Ainda estamos muito longe”, pensou Thora.
Lembrou-se que a zona de bloqueio se estendia num raio de quinhentos quilômetros em torno da fortaleza, incessantemente controlada pelo cérebro positrônico, que examinava todo objeto que se aproximava. Quem fosse reconhecido, mas não tivesse a devida autorização, ficava apenas proibido de tentar o pouso dentro da zona de bloqueio. Mas, se o intruso revelasse ser um estranho, era imediatamente abatido, sem qualquer aviso prévio. Thora sabia que não corria esse perigo, porque o padrão das suas ondas encefálicas a identificaria como arcônida. Mais importante, porém, era o fato de que o destróier era uma nave de características inteiramente arcônidas. O emissor de códigos, que fazia parte do seu sofisticado equipamento, se encarregaria de responder corretamente às perguntas do cérebro positrônico.
— Faltam seiscentos quilômetros — disse R.17, mecanicamente.
Thora olhou de relance para o armário embutido da central. Continha todas as armas de fogo necessárias para o caso de um pouso de emergência em território desconhecido. Encolheu os ombros num gesto displicente. Não precisaria de uma arma. Também, para quê?
— Estamos chegando perto da zona de bloqueio — comentou R.17.
Thora empertigou-se na poltrona e olhou, fascinada, através da vigia para a superfície do fumegante inferno de Vênus. Nada havia se modificado desde a última vez que tinha estado aqui. A nave deslizou por cima de um lago circundado por rochas íngremes, cobertas até o cume por uma vegetação rala.
Atrás dessas rochas se encontrava um daqueles numerosos platôs elevados; eram imensos planaltos que se estendiam bem acima do nível dos pântanos. Nesses platôs, as condições de vida eram razoavelmente suportáveis.
— Desça mais um pouco! — ordenou Thora, mas não sabia por que o disse.
O robô obedeceu sem proferir palavra. Mas a altura não tinha menor influência sobre os raios tateadores da fortaleza. Agarraram aquela nave que, para eles, era estranha e exigiram o código de identificação... mas não receberam nenhuma resposta. E tudo isso se processou de forma inteiramente automática e sem qualquer indício visível. Os instrumentos de D.C. apenas indicaram que a nave havia sido localizada. Mais nada.
Por isso, o que aconteceu em seguida, se constituiu numa surpresa completa.
Na borda do platô, um trecho de rocha deslizou para o lado. Da fresta negra emergiu um cano reluzente, que parecia envolto em espirais coruscantes. Ergueu-se devagar até apontar ameaçadoramente para aquela nave que voava a baixa altitude. A quinhentos quilômetros de distância, correntes de impulsos percorriam complicados aparelhos, abriam e fechavam contatos; ativaram relês e originaram, finalmente, um comando positrônico. Um emissor radiofônico se encarregou de transmitir este comando imediatamente para o canhão desintegrador na zona de bloqueio.
Nem de longe R.17 e Thora tinham contado com a possibilidade de serem derrubados por meio de um tiro direto. O raio energético aniquilador dissolveu o campo estrutural cristalino da nave e sublimou toda a matéria.
Automaticamente, R.17 apertou o botão do dispositivo de ejeção.
A proa do destróier tinha sido decepada como que por um corte de navalha, de modo que praticamente toda a central de comando ficou exposta. Como por um milagre, o abastecimento de energia ainda funcionava. Mas o mecanismo estava emperrado.
Desesperada, Thora agarrou-se aos encostos da poltrona. A nave estava ligeiramente adernada e cambaleava em direção àquele inferno verde. Através da vigia, que se encontrava abaixo dela, Thora vislumbrou que ainda iriam pousar naquele platô... se é que essa queda brusca pudesse ser chamada de pouso.
Talvez as copas das árvores pudessem amortecer o impacto.
Por quê?”, perguntou Thora a si mesma nos últimos segundos de lucidez, “por que este cérebro-robô mandou nos abater, por quê?
Depois, o choque violento parecia lhe cravar as pernas no corpo. A dor lancinante ainda lhe atravessou o cérebro antes que perdesse os sentidos de vez. R.17 bateu com a testa nos instrumentos de controle...

2



Reginald Bell se encontrava no centro de operações do Ministério da Segurança da Terceira Potência. Todos os fios da vasta rede de comunicações convergiam para as suas mãos. Em toda a volta da sua mesa cintilavam as lâmpadas de aviso, brilhavam as telas de imagem, zumbiam os videofones. E os comunicados se sucediam sem cessar.
Todos se referiam à inesperada fuga de Thora.
John Marshall, o telepata do Exército de Mutantes, estava em pé ao lado de Bell.
A poucos instantes, havia enviado a sua mensagem mental para Rhodan e agora acabava de receber a confirmação. Com um gesto distraído, enxugou o suor da testa.
John Marshall era australiano e tinha descoberto relativamente tarde que possuía o dom de poder ler os pensamentos de terceiros. Por uma compulsão automática, havia se aliado a Perry Rhodan, tornando-se um dos seus mais importantes colaboradores. A causa da sua faculdade extra-sensorial residia no efeito produzido pela radiatividade cada vez mais intensa da atmosfera da Terra. O número de mutantes já era bastante grande, mas poucas pessoas sabiam disso. Mesmo entre os próprios mutantes, havia muitos que levaram anos até descobrirem as suas capacidades excepcionais.
— Daqui a pouco ele está aí — disse John Marshall a Bell.
Crest, o arcônida, preferiu se manter um pouco afastado nos fundos da sala. Seu vulto alto erguia-se acima das telas de imagem. O cabelo branco destacava-se das paredes escuras, enquanto os olhos albinos emitiam um brilho avermelhado.
Para ele, o incidente com Thora era mais do que embaraçoso. É claro que, no íntimo, podia compreender os motivos que a levaram a fugir. Mas considerava imperdoável que ela tivesse agido de maneira tão leviana. Sua atitude irresponsável ameaçava o sucesso do Projeto Terra.
A raça dos arcônidas tinha atingido — e até atravessado — o ponto culminante da sua evolução. A continuar essa estagnação, essa passividade, o império dos arcônidas, erigido durante milênios, estaria fadado a desmoronar. Decadentes e prepotentes por natureza, os arcônidas algum dia se tornariam vítimas do seu próprio poderio.
Crest havia compreendido isso claramente. Via nos habitantes da Terra os futuros herdeiros do Grande Império arcônida. Estava plenamente convicto que, se algum dia o império fosse entregue a esses homens decididos e que não recuavam diante de nada, estaria em boas mãos. Ao menos melhor do que nas mãos daqueles seres que também pertenciam ao império colonial dos arcônidas, mas que, apesar da sua inteligência, não tinham nada em comum com o homem. Sem dúvida o império estaria mais bem cuidado nas mãos dos terranos do que, por exemplo, nas nadadeiras dos habitantes das Plêiades ou nas asas dos pterodátilos do sistema Rígel. Sem falar, evidentemente, nos tópsidas.
Crest estava procurando sucessores para os arcônidas e acreditava tê-los encontrado nos terranos. Havia submetido Perry Rhodan e Reginald Bell a um treinamento hipnopédico, transmitindo-lhes todo o saber do universo. Sistematicamente, Crest preparava Rhodan para a tarefa que teria de cumprir. No fundo do seu coração, o arcônida denominava o seu plano de Projeto Terra.
E agora a concretização desse plano corria perigo por causa da atitude de Thora.
A porta se abriu e Perry Rhodan entrou na central. Deu um aceno ligeiro a Crest e Marshall, e dirigiu-se a Bell:
— Algo de novo?
— Uma porção de coisas, Rhodan; nem sei por onde começar.
— Sugiro que comece do início. Mas seja breve, não temos muito tempo.
— Thora partiu uma hora atrás com o destróier C. Passou pela Lua na direção de Vênus, sempre emitindo o sinal de identificação. Deve ter levado o piloto-robô a bordo. Não foi detida. Se aumentou a velocidade suficientemente, já deve ter pousado em Vênus.
Rhodan cerrou os olhos.
— Não é difícil entendê-la, Bell. Esperamos demais para cumprir a nossa promessa. Foi apenas a ânsia de rever Árcon, que a levou a fugir.
Crest pigarreou.
— É muito nobre de sua parte, Rhodan, querer desculpar Thora, mas precisamos encarar a realidade. Sejam quais forem os seus motivos, ela não agiu corretamente; cometeu uma injustiça. Se ela conseguir penetrar naquela fortaleza, vai pôr em funcionamento a hiperestação radiofônica. Como ex-comandante da nossa expedição, pode fazê-lo. Agora, pense o senhor mesmo nas conseqüências que isso poderá acarretar.
Rhodan se lembrou, com um arrepio, da invasão dos Deformadores Individuais que havia conseguido rechaçar. A mensagem radiofônica que Thora tencionava enviar de Vênus se irradiaria sem perda de tempo por todo o universo. E bastava que fosse captada por alguma raça estranha e belicosa para que a situação se tornasse extremamente grave. Os seres inteligentes, que casualmente interceptassem essa mensagem, tratariam logo de determinar a direção da sua origem. E qual não seria a sua surpresa ao constatar que existia um sistema habitado neste trecho remoto da Via Láctea! E Inevitavelmente, a Terra seria descoberta. Uma Terra despreparada e desunida, pronta para ser colonizada, no sentido interestelar.
As conseqüências eram imprevisíveis.
— Gostaria de saber o que ela fez para enganar as sentinelas-robô — murmurou Rhodan, pensativo — já tem algum relatório?
— Já! — esbravejou Bell e bateu numa pilha de anotações. — As sentinelas declararam que tudo se passou de maneira inteiramente oficial. Thora se aproximou, falou com o piloto do destróier e depois partiu com ele. Declararam, ainda, que não a impediram de decolar porque não tinham recebido qualquer ordem nesse sentido.
— Claro que não tinham essa ordem! — rosnou Rhodan. — Também, quem teria imaginado que Thora fosse quebrar sua palavra!
Desta vez foi Crest quem a defendeu.
— Ela devia estar supondo que jamais retornaria a Árcon, se não agisse dessa maneira.
— Quer me parecer — respondeu Rhodan, com um ligeiro sorriso — que este não tenha sido o único motivo da fuga de Thora. Lembre-se apenas do planeta da vida eterna. O imortal me concedeu a permissão e me proporcionou os meios para obter uma prolongação da vida. Autorizou-me, ainda, a concedê-la a qualquer terrano que eu julgasse digno. Essa permissão não incluía os arcônidas, porque essa raça já tinha atingido e ultrapassado o ápice da sua evolução. Isso significa que os terranos ainda se encontram no ramo ascendente do desenvolvimento. Thora é orgulhosa e prepotente, Crest. Não conseguiu suportar essa humilhação e quis se vingar à maneira dela. Queria me mostrar que era mais forte do que eu. Só que não tem a menor noção do que está causando com isto. O seu desejo de voltar para Árcon é perfeitamente compreensível, mas a sua estupidez é imperdoável.
— O que vai fazer agora, Rhodan?
Bell ergueu a cabeça; estava interessado na resposta. No mínimo tão interessado quanto Crest. Rhodan disse, com vagar:
— Vou seguir Thora com o destróier A. Agora mesmo. Vou levar John Marshall e Son Okura comigo. Bell, chame um carro. Não preciso de mais nada. Afinal, o equipamento necessário encontra-se a bordo.
Crest fez um gesto de desaprovação, mas depois baixou a mão lentamente e sacudiu a cabeça, resignado. Na convivência com Rhodan já se havia habituado a muita coisa. Esses homens tomavam as suas decisões com uma rapidez... inacreditável!
Bell encarou Rhodan.
— E eu? — perguntou, com a cara de uma criança que não tinha recebido o seu presente de Natal. — Por acaso vou ficar aqui, chupando o dedo?
— Não é uma má idéia — respondeu Rhodan, como que aceitando a sugestão. — Mas fique tranqüilo; você vai nos seguir com o destróier B, assim que for possível. Infelizmente não podemos cancelar as solenidades programadas sem mais nem menos; por isso você vai ter que me substituir. Se não me engano, o coronel Freyt já anunciou o seu discurso na televisão. Espero que você esteja suficientemente preparado.
— Eu? Fazer um discurso na televisão?! — indignou-se Bell, o sangue lhe afluindo ao rosto. — Para falar sobre quê?
— Ora, sobre o que poderia ser? Questões de defesa, evidentemente. Você vai falar sobre as possibilidades de defesa da Terra no caso de uma invasão interestelar. Um tema bastante atual. Assim que as solenidades estiverem encerradas, você parte. Está claro, Bell?
Bell acenou sombriamente.
— Está claro, sim.
Empertigou-se na poltrona e fitou firmemente os olhos cor de aço de Rhodan.
— Mas uma coisa eu lhe digo. Se por causa desse discurso eu chegar tarde para tomar parte naquela algazarra lá em Vênus, você vai ver o que é bom!
— Avise Son Okura — disse Rhodan, sem tomar conhecimento da ameaça de Bell.
— Por que logo Okura? — perguntou Bell, enquanto estabelecia a ligação com o posto de comando do Exército de Mutantes. — Qual a utilidade dele nessa missão?
— Ele é o nosso perceptor de freqüências, como você sabe. Os olhos dele são capazes de reparar todas as ondas invisíveis e, em especial, os raios infravermelhos. Esta faculdade torna Okura um auxiliar indispensável na escuridão. Lembre-se que a noite em Vênus dura cinco dias terrestres. Além disso, Okura tem o raro dom de poder ver radiação de calor. Com isso, consegue reconhecer a impressão calorífica de um objeto que já foi removido há horas. Não há melhor colaborador nessa aventura que Son Okura.
Bell transmitiu suas instruções pelo rádio e depois acenou.
— Sim, é verdade. Mas o fraco dele são as pernas. É uma negação para andar, quanto mais para correr. Aí, um teleportador seria melhor.
— Esse vai com você. Nos destróieres só há lugar para três homens. Até o piloto-robô eu não vou poder levar.
— Por que você não pega uma nave maior?
Rhodan refletiu durante um instante.
— Você está me dando uma boa idéia. Não vai me seguir com o outro destróier e, sim, com uma nave auxiliar. Pode enchê-la de mutantes. Mas estou quase certo que não serão necessários — Rhodan sorriu. — Até que você chegue, já acabou tudo.
Bell respirou com dificuldade, à cata de uma resposta apropriada. Mas ao olhar para Crest pensou duas vezes. Lembrou-se, que o arcônida nunca tinha achado muita graça nas suas pilhérias meio esquisitas.
Portanto, desistiu de dar uma resposta. Limitou-se a encolher os ombros e a dizer, sarcasticamente: — Vamos ver.
* * *

Enquanto Bell discursava diante das câmaras de televisão, o destróier A estava se projetando espaço adentro. O curso tinha sido programado. Comandada pelo piloto automático, a nave atingiria em breve a velocidade da luz e depois seria novamente desacelerada.
Rhodan estava sentado na poltrona do piloto. O assento à sua direita era ocupado por Marshall, enquanto Okura, o japonês franzino, se encolhia na poltrona à esquerda. Ignorando a existência de lentes de contato e causando sério desgosto aos inovadores fanáticos, o japonês usava óculos, lentes grossas montadas numa armação fina. Era uma verdadeira ironia do destino: justamente o homem que conseguia ver todas as ondas luminosas invisíveis tinha que recorrer a óculos para poder reconhecer os objetos iluminados pela luz normal. Mas a visão de Okura realmente não era das melhores. Estava trabalhando como opticista numa fábrica de máquinas fotográficas, quando os caçadores de talentos de Bell o descobriram, convidando-o a se incorporar ao Exército de Mutantes de Rhodan.
— Será que Thora vai pousar junto à estação? — perguntou Marshall.
— Suponho que sim — respondeu Rhodan, sério. — O objetivo dela é inteirar Árcon da existência da Terra, para que venham apanhá-la. O transmissor se encontra na estação; portanto, ela vai tentar pousar lá.
— Quando me tornei mutante, fui treinado aqui em Vênus — disse Okura, com aquele seu jeito tranqüilo e discreto. — É uma droga de lugar, se me permitem a expressão.
— Não temos opção, Okura — disse Rhodan, acenando. — Por outro lado, creio que não vamos ter muita ocasião de nos expor aos perigos dessa selva. Assim que pousarmos junto da estação, vou dar a minha contra-ordem ao cérebro positrônico. Se Thora ainda não chegou ao transmissor, pode ser detida.
— Só faço votos que não cheguemos tarde demais — murmurou Marshall e cerrou os dentes. — Nem é bom pensar no que poderia acontecer.
Rhodan manteve o olhar fixo em frente, onde Vênus começava a se delinear como um disco luminoso.
— Tem razão — concordou — é inimaginável o que poderia acontecer.
Depois silenciaram.
E tudo transcorreu rapidamente. Vênus tornou-se cada vez maior e depois o destróier penetrou na atmosfera. Determinaram a posição da estação e constataram que a noite venusiana estava para cair. Em breve ficaria escuro... durante cinco longos dias.
No momento, isso não causava maiores preocupações, mas, mesmo assim, Rhodan se sentiu aliviado por ter trazido Okura. Tinha sido uma decisão previdente, que mais tarde pagaria juros.
Rhodan consultou a marcação dos instrumentos.
— Mil e quinhentos quilômetros a oeste. Vamos baixar mais para poder ver alguma coisa. Se ao menos eu soubesse onde Thora se encontra nesse momento!
A selva deslizou rapidamente por baixo da nave em direção a leste, onde já estava escurecendo. Sobrevoaram um pequeno mar pré-histórico, depois uma cordilheira bastante alta e novamente selvas e pântanos. Aos poucos, tornava-se cada vez mais difícil distinguir a paisagem que passava por baixo deles.
— Faltam oitocentos quilômetros. Bem longe, à sua frente, o horizonte ficou difuso e se mesclou à camada de nuvens. Por trás dessa massa leitosa pairava uma mancha vermelha, o sol poente. Somente daqui a cinco dias voltaria a nascer.
— Só mais seiscentos quilômetros — disse Rhodan. — Dentro de cinco minutos atingimos a zona de bloqueio.
Marshall acenou, automaticamente.
— Também não temos o que recear.
Foi nisso que Marshall se enganou. Tanto, quanto Thora antes dele.
Mais uma vez a instalação eletrônica de vigilância da estação dos arcônidas entrou em silencioso funcionamento. Mais uma vez os raios tateadores se lançaram sob o recém-chegado e o examinaram. A ultimação de fornecer o sinal de identificação foi ignorada. A intimação foi repetida, mas o destróier A não respondeu.
Rhodan tinha esquecido que as instalações codificadoras dos três destróieres ainda não haviam sido preparadas positronicamente. Que isso lhe tivesse escapado na pressa de seguir Thora, era compreensível; mas era totalmente imperdoável, se consideradas as conseqüências, mesmo levando em conta que tinha sido o mesmo fato que impedira Thora de alcançar o seu alvo.
Rhodan não conseguiu realizar uma única manobra de esquiva, pois ficou ofuscado pelo raio desintegrador que, subitamente, rompeu a escuridão. Um forte abalo fez estremecer o corpo metálico e arrancou Rhodan do assento. O horizonte girou diante da vigia e a nave começou a tombar.
Felizmente o raio só tinha atingido a popa, destruindo o sistema propulsor. A proa e a central de comando continuavam intactas.
Num gesto automático, o punho de Rhodan golpeou o botão de dispositivo de ejeção.
Ao contrário do que havia ocorrido com o destróier de Thora, o dispositivo funcionou e lançou a central de comando completa para fora da nave. Graças aos protetores antigravitacionais embutidos, a cabina se manteve em posição horizontal. Os jatos de emergência entraram imediatamente em ação, fazendo-a deslizar para o lado, afastando-a da zona de bloqueio. Por isso não foi alvo de novo disparo.
Muito lentamente o teto verde da selva se aproximou.
Vislumbraram a cintilação traiçoeira das poças pantanosas. Um rasgo na parede traseira permitiu que o repentino silêncio na cabina fosse rompido pelo bramido abafado de um sáurio. Lá embaixo, no pântano, divisaram indistintamente algo que se movia, lerdo e pesadão. Okura estremeceu.
— Essas bestas — gemeu — já farejaram a sua presa.
— Suponho — objetou Marshall — que só está falando simbolicamente!
O japonês não deu resposta. Conhecia o planeta Vênus.
O agregado de emergência da central de comando, agora separada da nave, fez os pequenos reatores arcônidas trabalharem sem cessar. As torrentes de corpúsculos que produziam eram suficientes para reduzir drasticamente a velocidade da queda. A cabina baixava muito mais devagar do que se estivesse presa a um pára-quedas.
Olhando para o lado, Rhodan viu algo que despencava, cambaleante. Era o resto do seu destróier, que não teve a mesma boa sorte de cair para fora da zona de bloqueio. Por isso, recebeu um novo disparo, que o atingiu no meio. Num abrir e fechar de olhos a matéria foi transformada em gás.
A cabina continuou a descer lentamente.
— Tomara que a gente não caia no meio de um desses lagos! — murmurou Okura preocupado. Devia ter um verdadeiro pavor dos sáurios.
— Essa cabina foi feita para flutuar — tranqüilizou Rhodan e lançou um olhar crítico ao redor. — Só espero que não falte alguma arma naquele armário. O destróier ainda não estava pronto para entrar em operação. A prova disso é que fomos derrubados. A instalação codificadora estava incompleta. Se o nosso arsenal também não estiver completo...
— E também não dispomos de um transmissor.
— Só temos os rádios nas pulseiras de múltipla utilidade. Mas são fracos demais para podermos alcançar a Terra.
Encontravam-se agora a uns cem metros de altura e já conseguiam divisar o presumível local do pouso. A paisagem não apresentava aspectos muito contrastantes. Não viam nenhum daqueles traiçoeiros lagos pantanosos, somente o teto alto e irregular daquela floresta virginal.
— Não pode nos acontecer grande coisa, ao menos durante o pouso — constatou Rhodan, tranqüilizando os companheiros. — Agora, o que vai acontecer depois...
Deixou em aberto as diversas possibilidades.
As copas mais altas estavam chegando cada vez mais perto. Rhodan sabia muito bem que, quando as atingissem, ainda poderiam estar bem longe do chão propriamente dito. Os troncos dessas enormes árvores primitivas não raro apresentavam um diâmetro de quinze metros e alturas até cento e cinqüenta metros, eram verdadeiros gigantes. Entre elas proliferavam os parasitas da selva tropical, também sensivelmente maiores que seus congêneres na Terra.
O chão da cabina tocou os primeiros galhos e afundou lentamente no leito relativamente fofo das copas. Os reatores ainda estavam funcionando, reduzindo a velocidade da queda.
E depois a cabina parou de baixar.
Jazia, um pouco adernada, no meio daquele mar verde onde havia afundado. O crepúsculo começou a baixar, tingindo as nuvens eternas de negro. O crepúsculo no oeste reluzia como se um imenso incêndio estivesse consumindo este mundo.
Rhodan resolveu não esperar mais e desligou os agregados.
Bruscamente, a cabina recobrou o seu peso normal, carregando os galhos nos quais se apoiava. Alguns não resistiram à súbita sobrecarga, e quebraram. Os outros cederam e a cabina começou a escorregar.
Antes que Rhodan pudesse tomar qualquer contramedida, a cabina inteira tombou para o fundo, capotando e se chocando violentamente por várias vezes contra troncos e galhos. Finalmente, após longos segundos, a queda foi sustada por alguns galhos bem mais grossos que resistiram ao impacto. Surpreendentemente, a central de comando havia chegado ao repouso em posição quase normal.
Somente agora tinham pousado, de fato, em Vênus.
Quando, minutos mais tarde, John Marshall voltou a si e sentiu a forte dor na testa, começou a desconfiar que o fim da perseguição a Thora estava mais longe do que nunca. Ergueu-se e viu que Okura estava inclinado sobre Rhodan, examinando a sua cabeça. Captou os pensamentos do japonês e ficou sabendo, o que se havia passado.
Okura se virou.
— Pelo visto se machucou bastante.
Bateu em cheio com o rosto. Está todo ensangüentado. Só espero que não seja grave...
Marshall se recuperou rapidamente. Ainda ligeiramente zonzo, dirigiu-se a Okura, apoiando-se na parede. Rhodan estava esticado no chão da cabina, respirando fracamente. A pancada devia ter sido violenta.
O japonês cambaleou ligeiramente quando se levantou. O chão estava inclinado e era preciso se habituar a este fato. Okura encontrou ligaduras e medicamentos no pequeno armário embutido da farmácia de bordo. Aplicaram uma injeção revigorante a Rhodan e conseguiram fazê-lo ingerir um remédio contra febre. Quando começou a respirar mais profundamente, os dois homens juntaram as poltronas e colocaram Rhodan sobre esta cama improvisada, entregando-o ao sono benéfico.
Okura ainda medicou o ferimento de Marshall, e só depois tratou de si mesmo.
— É claro que eu fui atingido nas pernas — disse ele, com resignação — é de amargar. Logo no meu ponto fraco. Sempre caminhei com dificuldade, quanto mais agora. Receio que vou ser um fardo durante uma marcha através da selva.
Marshall empalideceu.
— Não pode estar falando sério! Acredita mesmo que precisamos descer naquele inferno lá embaixo? Cheio de sáurios e aranhas gigantes e sei lá o que mais vive nessa mata? Não, nem dez cavalos vão me arrancar desta árvore. Aqui estamos relativamente seguros.
— Concordo — disse o japonês com um sorriso afável. — Na penitenciária também se encontra uma segurança relativa; só que lá ao menos não se perde tempo e nem se morre de fome.
John Marshall não soube o que responder.
Desviou o olhar de Rhodan e olhou através da vigia para aquele crepúsculo difuso e esverdeado.
Podia jurar que uma sombra enorme estava se deslocando lá embaixo. Um bramido prolongado rompeu o silêncio da selva.
Apesar do calor Marshall começou a sentir um frio gélido.

* * *

Quando, horas mais tarde, Perry Rhodan se mirou no espelho, levou um susto.
Um corte profundo, que ainda sangrava, atravessava-lhe a fronte de lado a lado. Sem aquele organoplasma especial dos arcônidas levaria semanas para cicatrizar. O olho direito, fortemente inchado, desfigurava-lhe as feições, a ponto de torná-lo quase irreconhecível.
Recostou-se com um suspiro e deixou que o japonês lhe enfaixasse novamente a testa.
— Meus melhores amigos não me reconheceriam — murmurou. — Sei que Bell vai ter um motivo para ficar me gozando.
— Vou quebrar os ossos dele todinhos se ele se atrever a fazer isso! — ameaçou Marshall.
Rhodan deu um sorriso fraco.
— Duvido que o consiga, pois estão por demais protegidos por aquelas grossas camadas de banha.
Rhodan esperou que a bandagem fosse completada e depois acrescentou: — Qual é a nossa situação, e o que vamos fazer?
Son Okura retrocedeu meio passo e submeteu sua obra a um exame crítico.
— O seu ferimento não é grave. Mas o fato é que estamos presos no meio desta selva, sem qualquer possibilidade de comunicação com a Terra. Perdemos a nave espacial e, com isso, qualquer meio de estabelecer contato com a cúpula energética da fortaleza venusiana. Portanto, não podemos contar com o auxílio de ninguém. Nossa única chance consiste em alcançarmos a base, ou esperar que Bell nos encontre por uma mera casualidade.
— Mas temos os minitransmissores — observou Marshall.
— Não vão nos adiantar grande coisa, porque seu alcance é muito limitado. Quando a central foi ejetada da nave, ficamos separados dos aparelhos radiofônicos. Que isso nos sirva de lição. Daqui por diante um transmissor vai fazer parte do equipamento obrigatório de todas as cabinas de salvamento ejetáveis. Quanto a Bell, é claro que só podemos entrar em contato com ele se a sua nave passar ao alcance dos nossos minitransmissores. Mas, esperar que isso aconteça, é confiar demais no acaso. Não seria uma temeridade ficar aguardando que ocorra o improvável, enquanto Thora mobiliza todos os horrores do universo? Rhodan acenou, concordando.

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