O edifício
da prefeitura era formado por dois pavimentos. Deu uma volta e viu uma
ambulância estacionada, numa área dos fundos do prédio. Pelo letreiro,
Deringhouse descobriu que o veículo vinha de Uspenskij.
Isso era de
admirar, já que a cidade de Karaganda, muito maior, ficava mais próxima.
Deringhouse
entrou no edifício e examinou o pavimento térreo. Não ouviu nenhuma voz e por
isso abriu uma das portas que havia no hall de entrada. A porta rangeu.
Deringhouse viu uma sala semi-deserta. Só havia uma mesa; atrás dela, um homem
assustado se levantou de um salto e com uma expressão de culpa no rosto
esfregou os olhos para espantar o sono.
Parecia não
se perturbar muito com o fato de não ter visto ninguém que pudesse ter aberto a
porta. Suspirou, voltou a sentar e murmurou uma expressão de alívio.
Deringhouse recuou, deixando a porta aberta. O homem poderia acreditar que o
vento a tivesse aberto. Mas, se ela se fechasse por si, ficaria espantado.
Nesse
instante Deringhouse ouviu vozes vindas do andar de cima. Subiu a escada de
dois em dois degraus sem se incomodar com o ranger produzido por seus pés. As
vozes eram muito altas.
No andar
superior havia um hall igual ao do térreo; apenas tinha alguns metros quadrados
a menos. As vozes vinham de uma sala cuja porta estava aberta. Um homem de uniforme
e outro que parecia um camponês estavam conversando.
Deringhouse
parou diante da porta.
— O conselho
faz questão de interrogar o homem hoje de noite — anunciou o camponês — sejam
quais forem as condições em que se encontre. Falou coisas tão estranhas que
talvez tenhamos de avisar o serviço secreto.
O homem de
uniforme ergueu os ombros.
— Só posso
dizer que o homem está em péssimas condições físicas e mentais. Se for
submetido a um interrogatório hoje de noite, provavelmente não resistirá. Mas,
se não puder agir de outra forma, paciência.
“É um médico”, constatou Deringhouse. “Deve ser a pessoa que veio na ambulância de
Uspenskij.”
— Obrigado —
respondeu o camponês. Parecia aliviado. — O senhor poderia ter me causado
maiores dificuldades. Mas compreende que...
O médico o
interrompeu com um gesto.
—
Compreendo. O senhor pode melhorar sua fama na cidade se descobrir um inimigo
do Estado e conseguir prendê-lo e entregá-lo ao serviço secreto. Por que acha
que alguma coisa não está em ordem com esse homem?
O camponês
respondeu sem hesitar.
— Algumas
pessoas o viram descer lá fora, de pára-quedas e assento ejetável. Estava inconsciente.
Ao ser colocado na maca, abriu os olhos. E a primeira coisa que disse foi o
seguinte: “Parem com essa bobagem. Vocês
não podem sair vitoriosos dessa luta; o inimigo é poderoso demais.”
— Por certo
estava aludindo à nave espacial inimiga que sobrevoou esta região, não é
verdade? — disse o médico.
O camponês
acenou violentamente com a cabeça.
— Contou
algumas coisas confusas sobre uma gigantesca bola de fogo e sobre vários aviões
de caça que teriam entrado nas bolas de fogo produzidas por seus próprios
foguetes e explodido. Será que uma coisa dessas pode ser verdade? Quem afirma
uma coisa dessas é um traidor e um sabotador, não é mesmo?
O médico se
mostrou cauteloso.
— Depois
saberemos — respondeu.
Deringhouse
não estava interessado em saber como prosseguiria a palestra. Provavelmente
estariam falando de um dos pilotos de caça que participaram do ataque à
Stardust-III. Ao que parecia o homem estava extraindo da série de
acontecimentos a única solução aceitável, e por isso estava prestes a ser
imprensado entre as engrenagens do serviço secreto.
Onde
estaria?
Sem ser
notado pelos dois homens que conversavam numa sala de porta aberta, Deringhouse
abriu cautelosamente uma série de outras portas. Finalmente entrou numa sala
escurecida, da qual saía o ruído de uma respiração irregular.
Havia
cortinas diante das janelas para impedir a entrada da luz ofuscante. Deringhouse
fechou a porta e esperou até que os olhos se acostumassem à penumbra.
Num dos
cantos havia uma cama de campanha bastante primitiva. Sobre a cama estava
estendido um homem. Dormia e parecia precisar do sono. O rosto estava arranhado
e desfigurado. Apesar disso parecia simpático.
Deringhouse
gravou o rosto na memória e saiu da sala com a mesma cautela com que havia
entrado. Voltou ao pavimento térreo e, depois de espiar por vários buracos de
fechadura, encontrou uma sala um pouco maior, em que cadeiras e bancos se
misturavam desordenadamente. Era a sala de reuniões. Por enquanto sabia o
suficiente. Saiu do edifício da prefeitura. Para passar o tempo que faltava até
o anoitecer, furtou alguns comestíveis da única loja existente na aldeia, tirou
um jarro de água límpida do poço e matou a fome e a sede com sua presa de
guerra.
Chegou à
sala de reuniões muito antes das oito. Ocupou um lugar seguro em cima de um dos
armários encostados à parede, onde ninguém esbarraria nele. Os membros do
conselho não pareciam ser muito pontuais. Às oito horas só havia dois homens,
além de Deringhouse. Os quatorze restantes foram chegando entre as oito e as
oito e vinte.
O homem
ferido que Deringhouse vira de tarde entrou carregado em sua cama de campanha.
Não se percebia qualquer melhora considerável de seu estado. Mas estava
acordado e se mostrava bastante interessado.
Os homens o
fitaram com uma curiosidade indisfarçada. Finalmente o homem que de tarde
conversara com o médico militar abriu a reunião.
E logo
passou à ordem do dia.
— Este homem
— disse, apontando para o ferido — é, ao que lhe consta, o único sobrevivente
do ataque que a 23a esquadrilha de caças de Karaganda
desfechou contra a nave espacial inimiga que hoje sobrevoou esta região. As
declarações que prestou a respeito do ataque são tão estranhas que achei
conveniente que ele as repetisse diante de vocês. Depois deliberaremos sobre o
que devemos fazer face às suas declarações.
“Que idiota”, pensou Deringhouse. “Depois de ter ouvido isso, o homem não
voltará a manifestar sua opinião.”
O camponês,
que devia ser o prefeito da aldeia, se voltou para o ferido.
— Comece a
falar! — ordenou. — Indique seu nome e posto e informe tudo que julgar
importante. O senhor se encontra diante do Conselho Municipal da aldeia de
Plachowskoje que, conforme sabe, terá que deliberar a seu respeito, já que
desceu no território desta aldeia.
O ferido se
apoiou sobre os cotovelos. Via-se que isso lhe exigia um grande esforço.
— Meu nome é
Jaroslav Afimovitch Welinskij — principiou com a voz fraca. — Sou capitão e comandante
do 5o esquadrão da 23a esquadrilha de
caças, estacionados em Karaganda-Leste. Pelas quatorze e quinze decolei da
base, em companhia dos meus companheiros de esquadrilha, a fim de atacar e
destruir a nave inimiga que se aproximava da cidade de Karaganda. Nossa missão
foi um fracasso. A maior parte, ou melhor, todos os nossos aviões foram
destruídos.
Forneceu uma
descrição minuciosa da bola de fogo que havia observado, e relatou como os
caças se tornaram vítimas dos foguetes por eles mesmos disparados. Concluiu com
estas palavras:
— Parecia
que para o inimigo isso não passava de uma brincadeira. Não teve de fazer o
menor esforço para destruir nossa esquadrilha. Não precisou mexer um dedo. A
parede de fogo que espalhou em torno de si provocou a explosão dos foguetes e,
com eles, dos nossos caças. Na minha opinião seria uma irresponsabilidade lutar
contra um inimigo destes. Não dispomos de nada comparável com os recursos de
que ele dispõe. Quem quisesse resistir estaria agindo com o mesmo senso de um
menino que pretendesse deter um tanque pesado com as mãos.
O protesto
foi súbito e violento, como se viesse por encomenda. Welinskij ouviu os piores
insultos; as palavras traidor e sabotador foram as mais suaves.
Deringhouse
admirou a coragem daquele homem. Tudo seria muito mais fácil para ele se
tivesse relatado a ocorrência em termos menos fortes. Face ao intenso
treinamento hipnótico a que fora submetido, Deringhouse sabia o que esperava o
capitão: seria denunciado aos serviços de segurança e encaminhado a um dos
postos para ser submetido a um interrogatório bastante minucioso.
A decisão de
Deringhouse estava tomada.
Mas antes de
executá-la queria saber o que aconteceria em seguida.
O chefe do
conselho formulou a proposta que todos esperavam: a transmissão de um aviso
imediato aos serviços de segurança.
Welinskij
não manifestou qualquer oposição. Até o fim respondeu a todas as perguntas com
a maior tranqüilidade e objetividade. Depois de hora e meia de interrogatório,
as forças o abandonaram. Desmaiou e deixou-se cair na cama.
Foi levado
para fora. O chefe do conselho usou o telefone para transmitir o aviso. Das
palavras que foram proferidas Deringhouse concluiu que o aviso foi encaminhado
ao posto do serviço de segurança sediado em Akmolinsk, não ao de Karaganda.
Ao que
parecia, conheciam a notícia de que naquela cidade remava um espírito
revolucionário depois que a Stardust-III ali permaneceu por uma hora. Via-se
que os camponeses de Plachowskoje continuavam fiéis ao governo.
* * *
Pela
meia-noite o silêncio da grande planície foi interrompido pelos estalos e
chiados produzidos pelos rotores de um helicóptero. Um veículo fracamente
iluminado desceu do céu nublado e aterrizou na estrada, junto às primeiras
casas da aldeia.
O prefeito,
mais dois membros do conselho e dois camponeses que carregavam a maca em que se
encontrava Welinskij estavam à espera. Welinskij havia acordado.
Deringhouse
estava invisível, parado à beira da estrada. Observou o jovem capitão e
procurou descobrir como o mesmo se sentia. Mas Welinskij não revelava a menor
emoção.
O
helicóptero dispunha de um amplo compartimento de carga. Deringhouse não teve a
menor dificuldade em entrar sem ser notado e se acocorar junto à cama de
campanha de Welinskij.
Ouviu as
pessoas conversarem por algum tempo do lado de fora. Mas logo o motor voltou a
chiar, os rotores bateram e o aparelho se levantou com um forte solavanco.
“Até aqui tudo bem”, pensou Deringhouse.
É verdade
que pretendia ir a Karaganda, mas parece que os acontecimentos tomaram outra
direção. Será que a modificação se revelaria útil à sua missão?
Ficou
quebrando a cabeça a respeito e chegou à conclusão de que pouco importava o
ponto em que iniciaria sua marcha propriamente dita.
De qualquer
maneira teria de ir a Moscou, e tanto fazia que partisse de Akmolinsk ou de
Karaganda.
O vôo para
Akmolinsk não durou mais de trinta minutos. Apesar do barulho causado pelo
helicóptero Welinskij adormecera. Só despertou quando sua maca foi retirada do
compartimento de carga.
Deringhouse
saiu atrás dela, e foi então que aconteceu o primeiro incidente.
A porta do
compartimento ficava cerca de metro e meio acima do solo. Os homens que
aguardavam o helicóptero conversavam em altas vozes; por isso Deringhouse
acreditava que não haveria o menor risco em saltar para fora. Mas não percebeu
que, próximo à porta, havia um tipo de encaixe. Ao saltar, ficou com o pé
direito preso ali. Tombou para a frente e caiu sobre o ombro do homem que se
encontrava mais próximo ao helicóptero.
De início
houve uma tremenda confusão. O homem foi atirado para a frente pela força do
impacto e arrastou mais algumas pessoas.
Mas logo
todos se viraram, de pistola na mão. À luz das lâmpadas que iluminavam o campo
de pouso, Deringhouse viu seus rostos decididos e perplexos.
— O que foi
isso? — perguntou um deles.
— Alguém
saltou sobre as minhas costas — disse o homem sobre o qual Deringhouse havia
caído.
— Deixe de
bobagens — disse outro. — Não há ninguém aqui além de nós!
— Pois eu
lhe digo...
O homem se
aproximou cautelosamente da porta e olhou para dentro. O compartimento de carga
estava escuro.
— Há alguém
aí dentro? — perguntou em voz alta. — Saia!
Não houve
resposta. Deringhouse já se levantara e se colocara de pé junto à cabina do
piloto. Viu que Welinskij observava tudo com o maior interesse.
— Eu lhe
disse que não há ninguém — disse um dos homens que permaneceram de pé.
Mas seu
companheiro não se perturbou. Deringhouse não pôde deixar de reconhecer que era
um rapaz corajoso. Entrou imediatamente no compartimento de carga e revistou-o.
Quando voltou, tinha o rosto ainda mais perplexo.
— É verdade,
não há ninguém — disse com a voz baixa.
Os outros
riram.
Pegaram a maca
de Welinskij e saíram com ela. O homem sobre cujos ombros Deringhouse caíra
voltou a cabeça mais de uma vez, lançando olhares desconfiados para o
helicóptero.
* * *
Welinskij
passou uma noite desassossegada. Sua cama fora colocada num cubículo com cheiro
de mofo que ficava num galpão do campo de pouso. Ninguém se incomodou com ele.
Aproveitou o tempo para dormir um pouco.
Pelas sete
da manhã serviram-lhe um café reforçado e perguntaram se já estava em condições
de levantar.
Experimentou
e conseguiu, embora dali a cinco minutos já visse manchas coloridas diante dos
olhos.
Foi levado
por um longo corredor que dava para outra sala do mesmo galpão. Um major estava
sentado atrás de uma escrivaninha.
Welinskij
fez continência. O major retribuiu. Os dois homens que haviam acompanhado
Welinskij se retiraram.
— Sente-se —
disse o major. — Acho que ainda não está muito bom das pernas.
Welinskij
sentou; estava surpreso com tamanha gentileza.
— O senhor
vai contar a história mais uma vez — disse o major com um sorriso. — Tenho
diante de mim o relatório vindo de Plachowskoje, mas não estou entendendo bem.
Welinskij
voltou a relatar tudo. Pela terceira vez contou a história por ele vivida.
O major o
escutou com muita atenção. Assim que Welinskij terminou, perguntou:
— E daí?
Welinskij
estava perplexo.
— Por causa
destas declarações — explicou — aquela gente de Plachowskoje fez de mim um
traidor e sabotador e me encaminhou ao serviço de segurança.
O major
pareceu se divertir com esse fato.
— Meu Deus!
— disse, rindo. — Se eu tivesse passado pelo que o senhor passou, teria contado
exatamente a mesma coisa. Não vejo onde está a sabotagem ou a traição.
Welinskij
não acreditou no que estava ouvindo.
— Está
falando sério? — perguntou em tom hesitante, se inclinando para a frente.
O major fez
que sim.
— Sem
dúvida.
— Quer dizer
que posso voltar para Karaganda?
— Não pode,
não.
Welinskij se
assustou. Não permitiam que voltasse. Quer dizer que havia alguma coisa.
— Seu caso
foi muito comentado — prosseguiu o major. — O Conselho Supremo nos enviou um
homem de confiança, que vai levar o senhor a Moscou. O conselho pede que relate
os acontecimentos em sessão secreta. Evidentemente fará isso como homem livre.
Não há motivo para acusá-lo de traição, sabotagem ou derrotismo.
Os ouvidos
de Welinskij começaram a zumbir. Mal ouviu a pergunta:
— O senhor
concorda?
— Sim...
sim, naturalmente.
O major
preencheu um formulário. Entregou-o a Welinskij e disse:
— Vá até o
galpão C e bata à porta da sala número vinte e cinco. Ali encontrará o homem
que deverá levá-lo a Moscou. Mostre-lhe este bilhete. Boa viagem!
Welinskij se
sentia confuso. Agradeceu e se retirou. Subitamente esquecera a fraqueza que
sentia; estava curioso para ver o homem que o levaria a Moscou.
Viajariam
por terra? Por que não iriam...
Quando
encontrou o galpão C esqueceu a pergunta. Atravessou o corredor e encontrou a
porta com o número vinte e cinco. Bateu.
— Entre! —
disse alguém.
Welinskij
entrou.
Na sala
havia uma mesa e uma cadeira. Sobre a mesa, Welinskij viu um par de solas de
bota bem frisadas. Deu um passo para o lado e viu as pernas em que as botas
estavam enfiadas e o homem ao qual pertenciam essas pernas.
Seu aspecto
não tinha nada daquilo que Welinskij imaginara num elemento de comunicação do
Conselho Supremo. Não havia dúvida de que tinha menos de trinta anos. Os
cabelos estavam cortados à escovinha, e os olhos emitiam um brilho azulado.
O mais
estranho naquele homem era seu equipamento. Usava um traje que parecia uma
combinação de vestimenta de mergulhador, alpinista e mecânico. Welinskij nunca
vira coisa parecida. Com um certo respeito contemplou as coronhas das armas,
que sobressaíam dos coldres existentes na altura do quadril ou na parte
superior da coxa.
— Terminou a
inspeção? — perguntou o homem, tirando as pernas de cima da mesa.
Welinskij se
lembrou do que tinha a fazer. Ficou em posição de sentido e fez continência:
O louro —
Welinskij notou que tinha perto de dois metros de altura — fez um gesto
displicente.
— Sim, já
sei. O prenome é Jaroslav Afimovitch. Capitão-comandante do 5o
esquadrão da 23a esquadrilha de caças, estacionada em
Karaganda-Leste. Correto?
—
Perfeitamente — respondeu Welinskij, perplexo.
— Sou Lub —
disse o louro. — Veja bem: não digo que meu nome é Lub. Esqueci meu verdadeiro
nome. Os homens que importam me conhecem como Lub. O senhor também me chamará
assim.
— Está bem —
respondeu Welinskij.
— Iremos
juntos a Moscou — prosseguiu Lub.
—
Perfeitamente. Permita que lhe faça uma pergunta?
—
Naturalmente.
— Por que
não vamos de avião? Chegaríamos mais cedo.
Lub deu um
sorriso de escárnio.
— É um rapaz
esperto, não é? Acontece que iremos por terra.
Welinskij
logo formou sua opinião. Nunca vira um homem mais descontraído e lacônico que
Lub. Não seria fácil tirar dele alguma coisa que não quisesse revelar.
Apesar disso
Welinskij o achou simpático, até muito simpático.
Lub não se
demorou muito no aeroporto. Todos pareciam conhecê-lo, pois ninguém lhe pedia
que se identificasse. Welinskij o seguiu.
Às dez horas
embarcaram num dos modernos trens elétricos da Estrada de Ferro Transiberiana,
que os levaria a Moscou, passando por Magnitogorsk e Kufbychev.
— É mais
confortável — explicou Lub em termos lacônicos. — Mandei reservar um
compartimento só para nós. Até pode dormir.
No momento
Welinskij não tinha disposição para isso. Enquanto o trem atravessava a
paisagem numa velocidade de trezentos quilômetros por hora, voltou a examinar Lub.
Viu que este o percebia e formulou uma pergunta, para se antecipar a uma
observação irônica:
— Que terno
é esse?
Lub sorriu.
— É um traje
especial — respondeu. — Não deixa passar balas ou outras coisas desagradáveis. Além
disso, pode executar uma série de truques. Oportunamente lhe mostrarei.
Ao que
parecia quis fugir a outras perguntas, pois ligou o televisor que se achava
instalado neste como em todos os demais compartimentos do trem sumamente
confortável. Um programa insosso se desenrolou diante deles... até o momento em
que Perry Rhodan interferiu na rede terrena de televisão e transmitiu sua
advertência dirigida ao governo do Bloco Oriental.
Welinskij
acompanhou a alocução com os olhos atentos. Mas Lub se reclinou num canto e fez
como se achasse aquilo muito tedioso. Quando Rhodan terminou e o programa
anterior voltou ao ar, Welinskij disse:
— Será que
Strelnikov concordará? Será que tomará em consideração os ensinamentos dos
últimos dias?
Lub deu de
ombros.
— Como vou
saber?
Welinskij se
exaltou.
— Será que
isso não o comove? Todo mundo deve refletir se vale a pena se engalfinhar com
um inimigo destes, ou se é preferível entrar em negociações para salvar a
pátria.
Lub sacudiu
a cabeça.
— Pois eu,
por princípio, não quebro a cabeça sobre estas coisas.
Welinskij
achou que a atitude de Lub era repugnante, mas não disse mais uma palavra a
este respeito.
Às onze e
meia o trem parou em Atbassar, uma pequena localidade onde a parada do trem não
era prevista. Lub sorriu.
— Sabe por
que o trem parou? — perguntou a Welinskij.
— Para não
se encontrar em qualquer lugar no meio da linha quando faltar energia — disse o
capitão com toda franqueza.
Lub fez que
sim. Depois disse:
— Venha
comigo; vamos descer. Welinskij se assustou.
— Por quê?
— Depois
explico.
Welinskij
obedeceu. Quando desceram foram abordados pelo condutor.
— Aqui a
descida não é permitida. Fiquem no trem.
— Não vou
ficar coisa alguma — resmungou Lub. — Quero esticar as pernas.
O condutor
não tinha qualquer objeção. Lub marchou em companhia de Welinskij pela
plataforma arenosa. Examinaram a cabana do guarda-trilhos e contornaram-na.
— Fique aqui
mesmo! — ordenou Lub de repente. — Voltarei logo.
Welinskij
obedeceu. Lub voltou a contornar a cabana e retornou dali a dois minutos.
— Tudo em
ordem — disse com um sorriso. — Vamos andando.
— Para onde?
— perguntou Welinskij perplexo.
Lub apontou
para os telhados achatados da pequena localidade, que sobressaíam em meio à
névoa que cobria a planície.
— Para lá.
Gosto de aproveitar os intervalos que me são impostos. Conheço pouca coisa
desta terra imensa. Gostaria de ver Atbassar.
— Vamos
voltar em tempo? — perguntou Welinskij, preocupado.
Lub deu de
ombros.
— Não sei —
respondeu.
Foram
andando, e fizeram-no sem rebuços. Todo mundo os via, inclusive o solícito condutor,
mas ninguém procurou detê-los. Foi outra coisa que deixou Welinskij admirado.
Atbassar
ficava cerca de seis quilômetros da estação. Ainda não haviam percorrido a
metade da estrada poeirenta e esburacada, quando o chiado dos jatos de um avião
se fez ouvir, vindo do leste. Lub levantou o braço e olhou para o relógio.
Welinskij o viu estremecer.
— Que
idiota! — disse por entre os dentes. — Por que não aterrizou?
Pararam.
Welinskij
não saberia dizer o que havia de errado naquele avião. Mas percebeu-o assim que
o ponteiro de segundos do relógio de Lub saltou para o número doze.
De um
instante para outro o ruído vigoroso dos jatos cessou, já que o suprimento de
energia das bombas de combustível, compressores, ativadores e outros
componentes importantes do mecanismo foi interrompido. O chiado se transformou
num uivo, e este acabou num miserável apito. Um minuto depois das doze, a
máquina, que antes era um ponto brilhante no azul do céu, estava transformada
numa grande mancha cinzenta.
Lub não
respondeu.
O avião
passou em disparada por cima da aldeia de Atbassar.
As asas
estreitas, concebidas para um deslocamento em alta velocidade, não davam
sustentação ao avião. Sua queda foi semelhante à de uma pedra achatada.
Tudo
terminou numa labareda ofuscante que surgiu bem além da aldeia de Atbassar, e
num estrondo abafado que segundos depois percorreu a planície.
— Que Deus
tenha compaixão deles! — disse Lub e voltou a se descontrair.
Quando
reiniciaram a marcha, os joelhos de Welinskij estavam trêmulos.
Pela uma e meia
chegaram à aldeia. Lub ordenou:
— É
preferível que espere aqui. Quero dar uma olhada.
Welinskij
estava tão deprimido que não se encontrava em condições de formular qualquer
objeção. Sentou na beira da estrada e esperou. Lub foi andando.
Só se
sobressaltou uma vez em sua atitude cismarenta. Foi quando, ao meio-dia e meia
em ponto, os motores dos tratores entraram em funcionamento com um rugido e
transportou uma caravana de enfermeiros e voluntários — mas também de curiosos
— em direção ao local em que o avião havia caído.
“Provavelmente Lub não vai encontrar ninguém
na aldeia”, pensou Welinskij;
mas em face do desastre que testemunhara isso não o preocupou.
Meia hora
depois se aproximou aos solavancos uma daquelas carroças motorizadas que, nos
últimos anos, vinham sendo usadas pelos camponeses. Lub estava à direção e,
quando parou diante de Welinskij, sorriu alegremente como se acabasse de fazer
um bom negócio.
— Suba! —
disse.
Welinskij
subiu e sentou perto de Lub.
— Onde
arranjou isso? — perguntou.
— Comprei —
foi a resposta.
— Onde
pretende ir?
— A
Kosgorodok.
Welinskij
quase ficou sem fôlego.
— O que
vamos fazer em Kosgorodok? Não pretendia me levar a Moscou?
Lub fez que
sim.
— Sei que
estou pedindo muito — disse. — Mas vamos fazer um acordo. Em Kosgorodok eu lhe
digo exatamente o que está havendo. Em compensação você promete que não fará
mais perguntas. Combinado?
Welinskij
refletiu.
— De acordo
— disse depois de algum tempo.
Pelo que
dizia Lub, Kosgorodok ficava a pouco mais de duzentos quilômetros de Atbassar.
Só chegariam no fim da tarde, isso se não houvesse nenhum enguiço no veículo.
4
O coronel Freyt
fez-se anunciar. Rhodan fez com que entrasse imediatamente.
— Já temos a
concordância dos governos da Federação Asiática e do bloco da OTAN — disse
Freyt. — O Bloco Oriental ainda não acusou o recebimento de nossa nota, nem deu
qualquer resposta.
Rhodan
acenou com a cabeça.
— Isso era
de esperar. Estaremos em três, Freyt. Conseguiu combinar dia e hora?
— Sim
senhor. Amanhã, dia 16 de junho, se possível às quatorze horas, tempo local.
— Ótimo. Já
confirmou?
— Sim
senhor. Fui eu que sugeri esse dia e hora.
Rhodan
levantou as sobrancelhas, num gesto zombeteiro.
— Houve
alguma objeção?
— Nenhuma —
respondeu Freyt com um sorriso.
— Isso
representa um bom atestado da nossa reputação.
Freyt se
retirou e Rhodan voltou a mergulhar nas suas meditações.
O que
realmente o incomodava na situação atual da política terrena não eram os
desvios de que o Bloco Oriental se fizera culpado. Os recursos técnicos e
psicológicos da Terceira Potência poderiam vencer qualquer atitude deste tipo
dentro de poucas horas.
O principal
motivo de suas preocupações era a imaturidade humana que se revelava na conduta
dos Estados do Bloco Oriental.
Rhodan não
era o tipo de homem que se entregava a ilusões. Estava firmemente convencido de
que conseguiria abrir os olhos da Humanidade não só através da instalação da
Terceira Potência, levada a efeito apesar de todos os obstáculos e hostilidade,
mas também através de uma abundância de informações sobre os acontecimentos
desenrolados na cidade de Galáxia, que fez fluir para todos os países da Terra
através de numerosos canais. Convencera-se de que, recorrendo a um material
ilustrativo adequado, conseguiria dentro de um tempo muito reduzido transformar
o homem num terreno, isto é, num ser com uma visão realista de sua verdadeira
terra natal; o homem se transformaria numa partícula de pó tão impregnada do
pensamento galático que consideraria ridículas quaisquer disputas
particularistas em sua minúscula pátria, e não perderia tempo com elas.
Mas, qual a
realidade atual?
Por ocasião
do primeiro vôo tripulado à Lua realizada pelo homem, Rhodan encontrou no
satélite de nosso planeta os representantes de uma raça humanóide desconhecida.
Vinham de um mundo que eles chamavam de Árcon, e que ficava a trinta e quatro
mil anos-luz da Terra. Haviam pousado na Lua com uma nave exploradora e Crest,
o chefe científico da expedição, sofria de leucemia.
Rhodan
aproveitou a oportunidade. Retornou à Terra em companhia de Crest, a quem
prometera a cura, e fez de sua nave, pousada no deserto de Gobi, o centro da
Terceira Potência.
Crest foi
curado e manifestou sua gratidão, colocando à disposição de Rhodan os recursos
criados pela tecnologia arcônida. Rhodan se defendeu dos ataques desfechados
pelos blocos de potências terrenas e consolidou seu pequeno Estado. Recorreu ao
campo de absorção de nêutrons, uma invenção dos arcônidas, para impedir uma
guerra que teria significado o fim da Humanidade.
A nave
exploradora arcônida era comandada por uma mulher chamada Thora. Era a mulher
mais bela e fascinante que Rhodan já vira. Mas, na opinião da comandante, os
homens não passavam de um bando de criaturas semi-selvagens, e foi assim que
ela os tratou. No entanto essa humanidade miserável conseguiu, num esforço
inaudito e sem que Rhodan o soubesse, destruir a nave arcônida. Quando isso
aconteceu, Thora não se encontrava a bordo, e Crest já se radicara na Terra.
Thora e Crest sobreviveram à catástrofe, e o produto mais importante de sua
civilização que conseguiram salvar foi uma nave auxiliar esférica de sessenta
metros de diâmetro, que não poderia realizar a viagem de volta ao seu mundo
natal.
Os arcônidas
não tiveram outra alternativa senão colaborar com a Humanidade. Precisavam de
um veículo apto a enfrentar as condições reinantes no espaço. Para obtê-lo foi
criada a General Cosmic Company, dirigida pelo mutante Homer G. Adams.
Surgiram
muitos perigos. Alguns deles ameaçavam a Terceira Potência, vindos de um ou de
alguns dos blocos de potências roídos pela inveja; outros punham em risco toda
a Terra, provocados por inteligências extraterrenas, que haviam encontrado a
pista do cruzador destruído e esperavam encontrar em nosso planeta uma presa
fácil e abundante.
Sobreviveram
a tudo. No sistema Vega, situado a uma distância de vinte e sete anos-luz,
ajudaram uma raça desesperada na sua luta contra um grupo de invasores
reptilóides. Depois da vitória, encontraram indicações que lhes revelaram
pistas do mundo em cuja busca a nave exploradora dos arcônidas se lançara ao
espaço: o planeta da vida eterna.
Um poderoso
desconhecido fez seu jogo com eles. Conduziu-os a armadilhas e os libertou das
mesmas, para que provassem que eram dignos de se tornarem seus herdeiros.
Encontraram
o mundo do desconhecido. Era um planeta artificial, que percorria uma
trajetória também artificial, realizando no curso de vários séculos um
movimento de translação em torno de mais de uma dezena de sistemas solares.
Deram a esse planeta o nome de Peregrino. Encontraram o desconhecido e com ele
o segredo da vida eterna. Mas ficaram sabendo que a vida eterna só caberia a
Rhodan e aos homens que o mesmo julgasse dignos de receberem essa dádiva.
O grande
relógio da história galáctica assinalava o fim do tempo dos arcônidas. A vida
eterna não seria para eles. Crest e Thora encontraram o mundo que procuravam,
mas essa descoberta não lhes trouxe qualquer vantagem.
Rhodan e os
terranos seriam os homens do futuro.
Retornaram
do planeta Peregrino, depois de terem ficado longe da Terra por alguns meses,
segundo sua contagem de tempo.
Mas durante
a permanência no planeta Peregrino, onde prevalecia um tempo diferente, a Terra
vivera quatro anos e meio. Nesses quatro anos e meio as pessoas ambiciosas
haviam se acostumado à idéia de que Rhodan nunca mais regressaria para intervir
na política terrena.
A Federação
Asiática e o bloco da OTAN se mantiveram na linha de cooperação interestatal já
adotada. Mas no Bloco Oriental houvera uma revolução que fez vir à tona os
elementos menos recomendáveis.
Dali em
diante a discórdia voltou a reinar e, por um triz, teria causado a guerra.
Rhodan se
levantou e olhou pela janela.
Contemplou a
área verde da cidade. A chuva artificial criara um grande jardim em meio ao
deserto.
Era preciso
que fizesse os homens compreenderem que teriam de obedecer até que sua
inteligência estivesse madura para a missão que a Humanidade tinha que cumprir.
* * *
Ao chegarem
perto de Kosgorodok, que não passava de uma aldeia à margem de um reluzente
lago salgado, Welinskij e Lub se instalaram numa cabana desabitada. Ao que
parecia ninguém notou sua presença. Ninguém se interessou por eles.
Mais uma vez
Welinskij recebeu ordem para esperar enquanto Lub foi à aldeia. Demorou mais
que das outras vezes, só voltando ao escurecer.
Welinskij se
assustou quando viu na claridade da porta que outro homem acompanhava Lub. Não
saberia dizer por que se assustou. Afinal, estava com a consciência tranqüila!
Na cabana
não havia luz elétrica, mas Lub trouxera uma vela. Acendeu-a e colocou-a no
chão de terra batida. Welinskij viu que o recém-chegado envergava um uniforme
de policial e voltou a se assustar.
Além do
policial, Lub trouxera outras coisas: um pão achatado e aromático e vários
tipos de lingüiça. Colocou tudo isso no chão e disse:
— Daqui a
pouco vamos comer. Mas antes disso este homem nos contará uma coisa.
Sentaram em
torno da vela. O policial não se fez de rogado. Pôs-se a falar:
— O povo de
Plachowskoje entregou um derrotista e sabotador ao serviço de segurança de
Akmolinsk. Realmente o homem chegou a Akmolinsk, mas desapareceu de forma
misteriosa. Apareceu um homem que, não se sabe como, conseguiu convencer o
chefe do serviço de segurança, um major, de que vinha de Moscou e fora
incumbido de levar o preso para lá. O major entregou o preso. Quando foi
interrogado a este respeito, não soube dar qualquer explicação satisfatória. Além
disso, se recusou a admitir que o preso realmente fosse um derrotista. Também
não soube explicar essa opinião. Há um detalhe muito importante. O preso foi
transportado de helicóptero de Plachowskoje para Akmolinsk. Estava ferido e foi
carregado em maca. Quando foi descarregado em Akmolinsk, um dos homens que
carregavam a maca recebeu um esbarrão por trás e caiu ao chão. Acontece que
ninguém viu o homem que fez isso, e o mesmo nunca foi encontrado.
“Outros
elementos do serviço secreto seguiram a pista do desconhecido e do sabotador. Em
Akmolinsk os dois tomaram o Expresso Transiberiano com destino a Moscou. Em
Atbassar o trem fez uma parada em virtude da advertência sobre a interrupção do
fornecimento de energia proferida por Rhodan. O condutor do trem e o
guarda-linha são unânimes em afirmar que ninguém saiu do trem durante a parada.
Mas alguns passageiros declaram que viram dois homens caminharem em direção à
aldeia de Atbassar. Um deles usava trajes esquisitíssimos. É a última notícia
que se teve dos dois. Não apareceram em Atbassar. Estão sendo procurados em
toda a região.”
O policial
se levantou sem que ninguém mandasse. Virou-se, abriu a porta e desapareceu na
escuridão. A porta foi fechada atrás dele.
Welinskij
notou perfeitamente que o homem se movia como um boneco.
Sentiu que
Lub o olhava e virou a cabeça.
— Então? —
perguntou Lub.
— Isto é
uma... uma... — gaguejou Welinskij.
— É o quê? —
perguntou Lub com a voz tranqüila.
— Faz isso
para me intimidar — explodiu Welinskij. — Logo percebi que não é o homem pelo
qual quer passar. Pretende me impedir de fazer aquilo que é meu dever. O sabotador
é o senhor, não eu. É um traidor da...
Lub o
interrompeu com um gesto. Nem chegou a se aborrecer.
— Deixe de
conversa — disse com toda calma. — Quer insinuar que subornei o policial para
que o mesmo imaginasse uma história?
— Isso
mesmo. E...
— Pois vá
até a aldeia. Kosgorodok conta com dois policiais. Procure o outro e diga quem
é. Talvez ele seja bastante inteligente para reconhecê-lo sem uma apresentação.
Espere para ver o que fará com você.
Welinskij se
levantou.
— É isso
mesmo que vou fazer — asseverou em tom áspero. — Depois disso mandarei o
policial até aqui, para que tome conta do senhor.
Lub soltou
uma gargalhada.
— Seu
idiota!
Welinskij
saiu.
Mas só deu
alguns passos na escuridão. Afinal, por que estava desconfiando de Lub? E se o
policial tivesse dito a verdade? Pois ele mesmo não se surpreendera com o curso
inesperado que os acontecimentos tomaram em Akmolinsk?
“E se tudo
que o policial dissera fosse verdade?...”
Outras
indagações surgiram na mente de Welinskij. Só Lub poderia dar a resposta.
Teria
subornado o major em Akmolinsk? Que tolice! Nenhum major se deixaria subornar
com tanta facilidade.
Mas...
Welinskij
deu meia-volta. Voltou a entrar na cabana e, antes que Lub pudesse fazer uma
observação sarcástica, disse:
— Está
bem... voltei. Deve ser um grande triunfo para o senhor. Mas lhe prometo que
irei imediatamente à polícia sem me importar com o que poderá acontecer depois,
a não ser que forneça uma explicação plausível sobre tudo que aconteceu desde
hoje de manhã.
Lub o
encarou.
— Belas
palavras, patriota! — respondeu. — Eu lhe prometi que em Kosgorodok saberia
tudo, não prometi? Talvez não goste do que vai ouvir. Mas ao pensar a respeito
use a cabeça e não o sentimento. Sente-se!
Welinskij
obedeceu prontamente.
— Para
começar do princípio — iniciou Lub — meu verdadeiro nome é Conrad Ezechiel
Deringhouse. A responsabilidade pelo segundo nome, e também pelos outros, cabe
a meus pais...
* * *
Se
Strelnikov não demonstrou muita sabedoria política, ao menos deu provas de sua
capacidade de reconhecer uma nova situação e reagir à mesma, quando nas
primeiras horas da manhã do dia 15 de junho transmitiu suas instruções ao
Conselho Supremo.
Já se
conformara com a idéia de que não convinha subestimar as forças do inimigo, e
se conduziu de acordo com a mesma. Determinou que de nenhuma reunião do
conselho deviam participar mais de cem membros. Era pouco menos de um terço da
totalidade dos seus componentes.
Dessa forma
evitaria que Rhodan conseguisse dominar todo o conselho de uma só vez, através
de seus inexplicáveis recursos hipnóticos. O voto de um terço dos membros era
necessário para instaurar o debate sobre qualquer problema, e nem isso Rhodan
poderia fazer de um golpe.
Strelnikov
adotou, sem qualquer subterfúgio, métodos de governo ditatoriais. Dava as
ordens e, aos demais membros do conselho, só cabia cumpri-las.
Enviou três
divisões a Komsomolsk para reprimir a revolta que eclodira naquela cidade.
E fez outra
coisa. Interessou-se pelas estranhas notícias que falavam de um capitão da
força aérea que desaparecera de Akmolinsk. Havia a participação de um desconhecido
ainda mais suspeito; ninguém sabia quem era ou de onde vinha.
Strelnikov
tinha certeza quase absoluta de que se tratava de um dos agentes de Rhodan. Por
isso mobilizou todos os recursos para prendê-lo. Sabia que Rhodan fazia muita
questão do bem-estar das pessoas que com ele colaboravam, motivo por que o
prisioneiro teria um valor inestimável como refém.
Era bem
verdade que, pelas informações recebidas até então, era de supor que aquele
homem dispunha de duas faculdades: impor sua vontade aos outros e se tornar
invisível.
Das
primeiras vezes que essa afirmativa foi formulada diante dele, Strelnikov disse
que era tolice. Mas, quando os mesmos acontecimentos foram relatados pelas mais
diversas pessoas com que os dois se encontravam no caminho, a conclusão que se
impunha era exatamente essa, e Strelnikov se conformou com ela.
Dali em
diante a polícia e os serviços de segurança receberam instruções de procurarem
localizar o capitão Welinskij, vigiá-lo e aguardar até que o estranho
aparecesse em sua companhia. Todos foram avisados de que não deveriam atacar o
desconhecido pela frente.
Strelnikov
nem imaginava que com todas essas instruções — desde a proibição das reuniões
do Conselho Supremo em sua totalidade até a ordem de perseguir Welinskij — fez
exatamente aquilo que Rhodan e Deringhouse esperavam dele.
Era esta a
guerra psicológica num sentido mais elevado.
* * *
Depois das
explanações de Deringhouse, a discussão teve um fim tranqüilo. Deringhouse
disse:
— Se tiver
vontade de sair correndo para fazer minha caveira em qualquer delegacia de
polícia, não demorarei em agarrá-lo. Estamos entendidos?
A ameaça era
desnecessária. Deringhouse expusera sua missão e suas idéias com a maior
franqueza, sem recorrer a qualquer meio para converter Welinskij à sua opinião.
Este
acreditou na sinceridade de Deringhouse e foi de opinião que o plano por ele
exposto só poderia ser considerado justo e razoável, até mesmo por um patriota.
Saíram de
Kosgorodok e prosseguiram na direção oeste. Viajaram de trem, roubaram helicópteros,
andaram alguns quilômetros a pé e percorreram algumas centenas de quilômetros
de automóvel.
Nesse meio
tempo, já no dia 17 de junho, haviam chegado a Magnitogorsk. Haviam percorrido
quase metade do trecho de Akmolinsk para Moscou.
Deringhouse
se dirigira a Magnitogorsk com uma intenção bem definida. Tinha certeza de que
os setores responsáveis sabiam, ou desconfiavam, de que ele e Welinskij se
encontravam naquela cidade, e pretendia lhes dar um osso duro de roer.
De
Magnitogorsk saía uma pequena estrada de ferro em direção a Bajmak, que ficava
cerca de cem quilômetros ao sul. Qualquer um diria que Bajmak era um lugarejo
insignificante, e ninguém saberia dizer por que se deram ao trabalho de
construir uma estrada de ferro para lá.
Só
Deringhouse e mais umas poucas pessoas sabiam. Em Bajmak era extraído o minério
de urânio mais rico que existia na Terra. Até se falava em veios de urânio puro
que afloravam nas galerias da mina. Era evidente que o governo se esforçava
para guardar o maior sigilo sobre a jazida. Oficialmente dizia-se que em Bajmak
haviam sido localizadas jazidas de estanho de proporções reduzidas.
Deringhouse
e Welinskij compraram passagem e tomaram o trem para Bajmak. Mais ou menos a
meio caminho o trem parou num desvio e deixou passar um comboio carregado de
minério. Deringhouse fitou atentamente os
carros cobertos de lona. Subitamente, Welinskij puxou-o pelo braço.
— Olhe! —
chiou, apontando para a frente do carro.
Olhando
pelas portas envidraçadas, que permitiam a visão de todos os carros, Deringhouse
viu, dois carros adiante, um homem uniformizado que examinava os documentos dos
passageiros. Virou a cabeça e, do lado oposto, a uma distância igual, viu outro
policial.
Abriu a
janela e olhou para fora. Perto da locomotiva e no fim da composição havia um
terceiro e um quarto policial.
— É o fim —
disse Welinskij.
Não poderiam
sair dessa. O traje de Deringhouse chamaria a atenção de qualquer um e, mesmo
que ele se tornasse invisível, Welinskij não dispunha de qualquer documento que
o habilitasse a viajar para Bajmak. Além disso, todos os policiais deviam
conhecer seu rosto de cor.
Mas
Deringhouse não perdeu a calma.
Encontravam-se
no terceiro carro a partir da locomotiva. Welinskij viu que seu companheiro
enfiou a mão no bolso e passou a mexer numa arma que chamava de projetor
mental.
No vagão em
que viajavam havia poucos passageiros; apenas três operários sonolentos
sentados num banco próximo à porta traseira.
O policial
os despertou e pediu seus documentos. Depois de examiná-los, se dirigiu a Deringhouse
e Welinskij.
— Não temos
documentos — respondeu Deringhouse.
O policial
ficou perplexo. Depois de algum tempo disse:
— Vocês não
podem estar sem documentos. Vamos logo, mostrem!
Deringhouse
deu de ombros.
— Não tenho
documentos, e meu amigo também não.
O policial
ficou de olhos semicerrados e franziu a testa.
— Escute
aqui! — disse, esticando as palavras. — Que traje é esse?
Deringhouse
passou os olhos pela sua roupa e respondeu:
— É um traje
de alpinista. Acabo de comprar.
— Como é seu
nome?
— Lub.
— Só isso?
— Só.
— Como se
chama seu amigo?
Deringhouse
deixou a resposta a cargo de Welinskij. Este fez o que se esperava dele, embora
a contragosto: se assustou e só depois de uma demora altamente suspeita se
lembrou de um nome. E por cima de tudo o nome foi este:
— Popoff!
Na Rússia
este nome é tão freqüente como Silva entre nós.
O policial
logo percebeu a situação com que se defrontava.
— Ah! —
exclamou. — Esperem aí! Fiquem sentadinhos!
Com um passo
rápido se dirigiu à janela e abriu-a. O apito soou. Os policiais postados de
ambos os lados do trem responderam.
O policial
que realizara o controle de documentos a partir do carro da frente descera
depois de ter concluído o trabalho no segundo carro.
Deringhouse
endireitou o corpo e comprimiu o acionador do projetor mental contra o metal
plastificado do vagão. Transmitiu a ordem com o máximo de concentração. Só se
descontraiu quando o trem se pôs em movimento com um solavanco.
O policial
gritou alguma coisa para seu colega. Ao que parecia ainda não percebera que o
trem se pusera em movimento. Deringhouse se colocou atrás dele, enlaçou-o pelos
joelhos, levantou-o e empurrou-o pela janela. A velocidade do trem ainda era
muito reduzida. O policial não se machucaria na queda.
Os outros
policiais demoraram em compreender o que estava acontecendo. O trem ganhou
velocidade. Nada lhes restou senão gritar e sacudir os punhos.
Deringhouse
soltou uma gostosa gargalhada. Não teve a menor dificuldade em tranqüilizar os
três trabalhadores por meio do projetor mental. Depois se dirigiu a Welinskij.
— Da próxima
vez avise o que pretende fazer — queixou-se este. — Assim poderei me preparar.
Deringhouse
continuou a rir.
— Você foi
formidável! Agiu exatamente como alguém que tem a impressão de que foi
descoberto.
— Dentro de
dois minutos o pessoal de Bajmak saberá que estamos para chegar. E então?
— Que
saibam! — respondeu Deringhouse. — Era isso mesmo que eu queria.
Welinskij o
olhou com uma expressão de perplexidade, mas Deringhouse não lhe forneceu
qualquer explicação.
— Assumi um
único risco neste jogo — disse. — Não sabia se conseguiria influenciar o
maquinista sem poder vê-lo. Mas você viu, consegui.
* * *
Thora nunca
julgara necessário se fazer anunciar a Rhodan; mas desta vez ela agira assim.
Durante os trinta segundos que se passaram, desde o anúncio até o momento em
que Thora entrou em seu gabinete, Rhodan procurou imaginar que conseqüência o
choque sofrido no planeta Peregrino devia ter provocado no espírito da
arcônida, pois de repente soube se adaptar aos modos terrenos.
A figura
ereta surgiu na porta. Era bela, de uma beleza desconcertante, com seu cabelo
muito claro, quase branco, e o brilho vermelho irradiado por seus olhos. Mas
ainda se notavam os vestígios da decepção e das provocações que experimentara
no planeta Peregrino.
Rhodan
convidou-a a sentar.
— Fico
satisfeito em vê-la — disse em tom amável. — Faz bastante tempo que não me
visita.
Thora ergueu
as sobrancelhas.
— Sempre se
leva algum tempo para vencer um choque deste — respondeu. Aliviado, Rhodan percebeu
que ela zombava de si mesma.
A arcônida
tomou lugar à frente de seu interlocutor.
— Vim por um
motivo egoísta — confessou. — Gostaria de saber, para me distrair um pouco, o
que faz o mundo.
Rhodan
relatou os fatos minuciosamente e em tom de conversa.
— Não o
compreendo — disse Thora em tom de espanto, assim que Rhodan concluiu seu
relato. — No início usa vassoura de ferro e agora prefere enfrentar o Bloco
Oriental com um único agente, quando um ataque concentrado resolveria tudo em
poucas horas. E a solução seria muito mais convincente.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Thora, não
entende a psicologia terrena — disse em tom professoral. — Na minha opinião,
Deringhouse não corre o menor perigo. Nada pode lhe acontecer, a não ser que
faça uma tolice. Por outro lado posso mostrar à Humanidade em geral, e ao povo
do Bloco Oriental em particular, que, para a Terceira Potência, uma revolução
desse tipo nem chega a representar um acontecimento que justifique o uso de
armas pesadas ou o lançamento de bombas.
Lançou um
olhar indagador para Thora.
— Compreende
o que quero dizer? Inclinou o corpo para a frente. — A Humanidade deve
compreender que Rhodan só precisa fazer isto — passou a mão por cima da mesa —
para remover quaisquer dificuldades. Espere aí! — disse, adiantando-se a uma
objeção de Thora. — Não quero brilhar à custa dos outros. Apenas quero obrigar
a Humanidade a se unir. É este o meu objetivo. Mas não pretendo usar a força;
prefiro recorrer a um método especial, para fazer com que a própria Humanidade
acabe compreendendo. Se aceitasse suas sugestões, a lembrança que ficaria dos
acontecimentos seria a de que os homens foram obrigados pela força bruta a
unir-se. E é isso que eu quero evitar.
Thora não
soube o que responder. Depois de algum tempo voltou a falar:
— Tem razão,
como sempre.
Depois de
mais alguns minutos de silêncio perguntou:
— Quais são
as perspectivas de voltarmos a Árcon?
A pergunta
representou uma surpresa para Rhodan; mas sua mente reagiu instantaneamente.
Desde os primeiros dias de sua cooperação com a Terra, Crest e Thora só estavam
empenhados em sua volta para Árcon. E, mesmo quando já existiam recursos para
isso, Rhodan ficou adiando a realização desse desejo de uma oportunidade para
outra, por motivos de segurança terrena. Sentiu que não poderia continuar assim
por muito tempo.
— Eu lhe
prometi que viajaríamos para Árcon assim que a Terra estivesse em segurança —
respondeu.
Conforme era
de esperar, Thora não demorou a formular outra pergunta:
— Quando
será isso?
— Aguardemos
a conferência que se realizará hoje — consolou-a Rhodan. — Se conseguirmos uma
união, mesmo imperfeita, poderemos decolar dentro de algumas semanas.
Sabia que não
era nada disso. A Terra estaria longe de ser um lugar seguro, mesmo que a
conferência que se iniciava fosse coroada de êxito. Mas, consolando Thora,
evitou uma discussão acalorada.
— Está bem —
suspirou Thora. — Depois de tamanha espera agüentaremos mais algumas semanas.
* * *
Deringhouse
fez o trem parar poucos quilômetros antes de Bajmak e desceu juntamente com
Welinskij. Os que pretenderam impedi-lo foram influenciados hipnoticamente para
adotarem uma atitude mais razoável.
Afastaram-se
dos trilhos cerca de duzentos metros e, andando paralelamente aos mesmos, se
aproximaram de Bajmak, ocultos pela vegetação. De um lugar elevado viram que o
trem no qual haviam viajado, ao chegar a Bajmak, foi recebido por metade de um
batalhão de policiais. Por cerca de quinze minutos reinou uma terrível
confusão. Depois disso a tropa policial se dividiu em vários grupos, que se
deslocaram para o norte, avançando de ambos os lados da linha férrea.
— Estão à
nossa procura — disse Deringhouse.
Prosseguiram
em sua marcha. Por um motivo que de início lhes parecia inexplicável os
policiais nunca se afastavam mais de cinqüenta metros dos trilhos. Dessa forma
nunca encontrariam os sabotadores. Posteriormente
Deringhouse veio a saber que, em virtude de suas armas superiores, os policiais
receberam ordem para não penetrarem em qualquer área onde a visão não fosse
perfeita. O comandante do destacamento policial de Bajmak não estava
interessado em enviar duzentos policiais para o interior do matagal, e meia
hora depois ver duzentos sabotadores saírem de lá.
Welinskij e
Deringhouse atingiram o lugarejo meia hora depois, vindos do sul. Como ninguém
os esperasse de lá, conseguiram se aproximar a cem metros do edifício em que
funcionava a administração da pretensa mina de estanho sem serem notados.
Passaram o tempo que faltava até o escurecer num matagal grande e denso, sem
que qualquer dos grupos de policiais que patrulhavam a área os descobrisse.
Só depois
das dez horas puseram mãos ao trabalho, do qual por enquanto só Deringhouse
tinha uma idéia clara. Welinskij só sabia que no momento adequado devia ser
visto por alguém. E Deringhouse não ocultou o fato de que isso representaria a
parte mais difícil do trabalho.
— Não se
esqueça — avisou ao companheiro. — Eu estou protegido contra as balas, mas você
não. Não assuma qualquer risco.
Aproximaram-se
cautelosamente do complexo de edifícios. Atrás da maior parte das janelas a luz
já se apagara. Só um dos barracos continuava iluminado por uma desagradável luz
fluorescente branco-azulada. Deringhouse indicou o lugar em que Welinskij
deveria ficar.
— Aqui
estará protegido — cochichou. — Voltarei em tempo. Só se mostre o suficiente
para que um policial medianamente competente consiga gravar seu rosto.
Welinskij
ficou nervoso.
— A quem vou
me mostrar? Que diabo!
— A qualquer
pessoa. Daqui a pouco haverá gente de sobra nesta área.
* * *
Frunse, um
georgiano, naquela noite de plantão no barraco de vigilância, estava
tranqüilamente sentado à mesa que ficava perto da janelinha com o pequeno
guichê. Para vencer o sono procurou afundar na leitura de um jornal.
Frunse não
era um homem muito instruído, mas possuía uma vontade de ferro. Não falava o
russo muito bem, e a leitura do jornal se tornava ainda mais difícil. Mas foi
atravessando tenazmente os textos e desviou a idéia de sono de sua mente até
vencê-la definitivamente.
Estava
entretido na leitura de uma notícia sobre uma estranha mortandade do gado
verificada na Sibéria ocidental quando a porta se abriu. Frunse atirou o jornal
sobre a mesa e fitou a porta. Estava absolutamente certo de que ninguém se
aproximara do barraco. Havia um único caminho que conduzia à porta, e apesar do
esforço exigido pela leitura teria percebido se alguém o utilizasse.
A porta
tinha fecho automático; não poderia se abrir por si, nem permanecer aberta por
tanto tempo.
Frunse se
levantou. Sentia um pouco de medo, mas precisava ver o que havia com a porta.
Nesse instante ela voltou a se fechar. Depois de hesitar um instante, Frunse
voltou à sua cadeira. Uma porta fechada não o preocupava, e o que passou já
pertencia ao passado. Mas estava tão irritado que levou alguns minutos fitando
os espaços vazios do recinto, como se alguma coisa pudesse estar escondida por
ali.
Depois
voltou a pegar o jornal.
Pouco depois
voltou a se sobressaltar. Ouvira um ruído. Olhou por cima do jornal, mas não
viu nada. Só quando voltou a ouvir o mesmo ruído percebeu a direção de onde
vinha.
O vigia se
ergueu lentamente. Alguns segundos preciosos se passaram antes que
compreendesse que aquilo não era obra de um fantasma, mas de alguém que sabia
perfeitamente o que queria. Atrás das duas chapas que acabavam de ser retiradas
ficava o labirinto de fios do equipamento de segurança, cujo painel central
fora instalado na mesa de Frunse. Não entendia nada dos detalhes técnicos da
instalação; mas sabia que qualquer invasor, inclusive um sabotador, poderia
penetrar nos edifícios da administração e nas galerias sem ser impedido ou
mesmo notado se a instalação fosse destruída ou danificada.
Isso não
podia acontecer!
Com dois
saltos enormes se colocou diante da parede. Estendeu a mão para agarrar o
invisível. Mas em vez de agarrá-lo sentiu uma pancada violenta, que o atirou
para o lado oposto da sala. Por algum tempo ficou estendido no chão, ofegante.
O medo e a
raiva lutaram em sua mente. Olhando para cima, viu que as pontas dos fios
embutidos na parede se moviam, ligações eram desfeitas e outras estabelecidas.
Não compreendia, mas tinha certeza de que o invisível arruinaria as instalações
de tal forma que alguns dias se passariam antes que pudessem ser reparadas.
Frunse
rastejou cautelosamente em direção à sua mesa. Apoiando-se em um dos pés,
ergueu o corpo, abriu a gaveta e retirou a pistola. Por baixo da mesa fez
pontaria em direção ao lugar em que supunha estar o invisível e, num acesso de
raiva e coragem, apertou o gatilho.
A descarga
provocou um estrondo naquele recinto pequeno. Mas o efeito foi totalmente
diferente do que esperava: o estrondo da explosão foi superado pelo ruído
metálico do impacto do projétil contra a parede. Seguiu-se um uivo cortante e o
estilhaçar do vidro. Ao se voltar, apavorado, percebeu que o tiro disparado
para a frente quebrara a vidraça atrás dele.
Mas Frunse
era um homem duro, e o fato tranqüilizador de que o estranho nem tomava
conhecimento dos seus esforços, mas continuava a trabalhar calmamente, diminuiu
o medo de que se sentia possuído. Inclinou-se sobre a mesa e levantou o fone.
Discou apressadamente os três algarismos da polícia e gritou:
— Aqui
entrou um invisível que está destruindo as instalações do equipamento de
segurança.
Deixou cair
o fone e voltou a se abrigar atrás da mesa.
O telefonema
também não perturbou o invisível. Pelo estalo dos fios partidos e pelo crepitar
das faíscas, Frunse percebeu que continuava a trabalhar.
“Você não perde por esperar”, pensou com
o ânimo furioso. “Logo será agarrado.”
Mas não
tinha nenhuma idéia clara sobre a maneira pela qual a polícia poderia ser mais
bem sucedida contra o inimigo invisível do que ele o fora.
Soltou um
grito quando, pouco antes do momento em que, pelos seus cálculos, a polícia
devia aparecer, os estalos e o crepitar cessaram subitamente e no mesmo
instante a porta voltou a se abrir.
— Nãããoo! —
gritou Frunse. — Está escapando!
Passou por
baixo da mesa e correu à porta. Mas era evidente que na escuridão não via mais
do invisível do que vira na sala bem iluminada.
* * *
Welinskij
ouviu as pisadas de muitos pés. Poucos minutos antes ouvira o tiro disparado no
barraco e o uivo da bala que ricocheteava.
As pisadas
se aproximaram. Vinham da estrada e entraram no caminho que dava para o
barraco. Pouco depois os vultos dos policiais em desabalada carreira surgiram
na escuridão.
— Nãããoo! —
gritou alguém do interior do barraco, no mesmo instante em que Welinskij saía
do seu esconderijo. — Está escapando!
Os policiais
se aproximaram. Num rápido exame, Welinskij contou oito deles. A escuridão era quase
completa, mas viram-no. O grupo estacou. Depois que pelos seus cálculos fora
visto o suficiente, Welinskij desapareceu no matagal. Alguém gritou:
— Sigam-no!
Vamos! É ele!
Mas do lado
do barraco ouviu-se a voz lamurienta de alguém que falava um péssimo russo:
— É aqui,
seus idiotas! Foi daqui que ele desapareceu!
Welinskij
correu pelo matagal. Estava a quase cinqüenta metros dos policiais quando estes
se refizeram da confusão. Dois deles continuaram a persegui-lo. Os outros
correram em direção ao barraco.
Subitamente
Welinskij percebeu que alguém o segurava pela mão. Assustou-se. Mas Deringhouse
ainda pretendia tomar outras iniciativas.
— Abrace-me
por trás — ordenou a Welinskij.
Este
obedeceu.
— Agora
realizaremos um pequeno vôo, para nos afastarmos daqui o mais rápido e o mais
longe possível. Neste traje está embutido um gerador que, ligado à potência
máxima, produz um campo antigravitacional capaz de suportar nós dois. Para isso
devemos dispensar a invisibilidade. Mas de noite isso não será tão perigoso.
Antes que
pudesse proferir uma palavra, Welinskij teve a sensação de quem se encontra num
elevador que desce em alta velocidade. Seu estômago parecia se levantar um
pouco. Assim que se recuperou do susto, viu as luzes da mina bem abaixo do
lugar em que estava.
— Não tenha
medo — tranqüilizou-o Deringhouse. — Não é muito confortável, mas é melhor que
fugir a pé.
— Mas se eu
o soltar... — disse Welinskij, falando com dificuldade.
— Nesse caso
não acontecerá nada — explicou Deringhouse. — Continuará a voar comigo. Só se
der socos ou pontapés em mim será desviado, e assim que abandonar a gravisfera
artificial cairá. Portanto, é preferível que continue comigo.
Riu. Mas
Welinskij não estava com vontade de rir. Em seu interior o medo do
desconhecido, do nunca visto, lutava contra a admiração provocada por esse
produto de uma tecnologia incrivelmente desenvolvida.
Depois de
algum tempo se acostumou à sensação estranha da ausência parcial de gravidade e
começou a se interessar pelo que se passava em torno dele. Pelos contornos
pouco nítidos das colinas do sul da cadeia dos Urais, que desfilavam abaixo
deles, calculou em duzentos metros a altitude em que voavam e em cem
quilômetros por hora a velocidade. A força do deslocamento do ar fora reduzida
bastante pelo campo de gravitação artificial. Welinskij não sentia qualquer
incômodo, mesmo quando olhava por cima do ombro de Deringhouse.
Pelo que
notava, se deslocavam na direção oeste.
5
Embora, na
qualidade de perito-militar, o marechal Sirov participasse do Conselho Supremo
apenas como um adido, viu-se diminuído como os demais quatrocentos e quinze
membros com direito de voto: foi reduzido à simples condição de um receptor de
ordens.
Mantinha-se
escondido e mudava diariamente de esconderijo.
Todos os
dias, sempre numa hora diferente, entre as oito da manhã e o meio-dia, Sirov
recebia um chamado telefônico e uma voz desconhecida lhe transmitia as notícias
mais recentes. Sempre que fossem importantes ele as transmitia através de mais
de vinte canais diferentes, cujo emaranhado geralmente lhe era desconhecido,
fazendo-as chegar aos seus subordinados, a fim de que estes tomassem as
providências que se fizessem necessárias.
Pelo menos
três vezes por dia Sirov recebia um telefonema de um homem que, segundo
supunha, era o secretário-geral Strelnikov. Este formulava sugestões de como se
devia reagir a esta ou aquela situação e esperava que Sirov considerasse essas
sugestões como ordens; o que o marechal fazia com a melhor boa vontade.
Naquele dia,
em 18 de junho, Sirov recebeu, logo depois da transmissão das últimas notícias,
um chamado de alguém que falava com a voz disfarçada.
— Grande
vitória — disse a voz.
— Grande
êxito — respondeu Sirov. Eram as senhas combinadas para que Sirov recebesse
como ordens tudo que lhe fosse dito em forma de sugestão.
— Temos
novidades a respeito do agente de Rhodan — prosseguiu a voz. — Ontem de noite
apareceu em Bajmak, na área de Magnitogorsk, pela forma usual e
incompreensível. Demonstrou muita autoconfiança. O capitão Welinskij estava com
ele. Safou-se mal e mal de um controle realizado num trem. Na noite do mesmo
dia o sistema de segurança da mina de urânio foi danificado de tal forma que o
pessoal terá que trabalhar pelo menos dois ou três dias para repará-lo.
Naquela voz
notava-se um tom de triunfo. De início Sirov ficou admirado com isso; mas logo
compreendeu.
— Daí se
pode concluir sem a menor dúvida — prosseguiu a voz — que Welinskij e aquele
agente tentarão atacar a mina, e isso antes que as instalações de segurança
tenham sido reparadas. Portanto, sabemos que nas próximas vinte e quatro horas,
ou ainda nas próximas quarenta e oito horas, os dois permanecerão em Bajmak.
Sirov
compreendeu.
— Quero que
mande seus melhores elementos para lá — disse a voz. — Os dois não devem
escapar!
— Entendido
— respondeu Sirov. — Providenciarei imediatamente.
— Muito bem.
Por enquanto só tivemos conhecimento de um agente que Rhodan introduziu em
nosso território. Tudo indica que realmente não haja outro. Logo, parece que no
momento não há nenhum perigo para Moscou.
Isso
representava certo alívio, não só para Strelnikov.
A palestra
terminou com o estalo do fone. Sirov baixou o gancho e discou rapidamente uma
seqüência de algarismos que sabia de cor. Transmitiu as instruções de
Strelnikov e todas as informações adicionais, e insistiu na necessidade de que
Welinskij e o agente fossem capturados de qualquer maneira.
No curso do
telefonema Sirov ouviu um ligeiro chiado no pequeno apartamento que ocupava
naquele dia. Interrompeu a palestra e se virou. Podia ver a área fronteira à
porta; não havia ninguém. Disse para si mesmo que algum ruído da rua devia ter
chegado até lá e continuou a falar ao telefone.
Quando
terminou o telefonema, ficou sentado mais algum tempo diante do telefone,
mergulhado em pensamentos e olhando para a janela encortinada. Depois se
levantou para pegar o maço de cigarros que se encontrava no bolso do paletó.
Quando ia se
afastando da escrivaninha, ele os viu, os dois.
Um deles era Welinskij. Sirov vira muitos
retratos dele e o reconheceu imediatamente. O outro devia ser o agente da
Terceira Potência. Era alto e magro, tinha o cabelo louro cortado à escovinha e
seu rosto exibia um sorriso irritante.

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