quinta-feira, 1 de novembro de 2012

P-021 - A Guerra Atômica Que Não Houve - Kurt Mahr [parte 2]


O edifício da prefeitura era formado por dois pavimentos. Deu uma volta e viu uma ambulância estacionada, numa área dos fundos do prédio. Pelo letreiro, Deringhouse descobriu que o veículo vinha de Uspenskij.
Isso era de admirar, já que a cidade de Karaganda, muito maior, ficava mais próxima.
Deringhouse entrou no edifício e examinou o pavimento térreo. Não ouviu nenhuma voz e por isso abriu uma das portas que havia no hall de entrada. A porta rangeu. Deringhouse viu uma sala semi-deserta. Só havia uma mesa; atrás dela, um homem assustado se levantou de um salto e com uma expressão de culpa no rosto esfregou os olhos para espantar o sono.
Parecia não se perturbar muito com o fato de não ter visto ninguém que pudesse ter aberto a porta. Suspirou, voltou a sentar e murmurou uma expressão de alívio. Deringhouse recuou, deixando a porta aberta. O homem poderia acreditar que o vento a tivesse aberto. Mas, se ela se fechasse por si, ficaria espantado.
Nesse instante Deringhouse ouviu vozes vindas do andar de cima. Subiu a escada de dois em dois degraus sem se incomodar com o ranger produzido por seus pés. As vozes eram muito altas.
No andar superior havia um hall igual ao do térreo; apenas tinha alguns metros quadrados a menos. As vozes vinham de uma sala cuja porta estava aberta. Um homem de uniforme e outro que parecia um camponês estavam conversando.
Deringhouse parou diante da porta.
— O conselho faz questão de interrogar o homem hoje de noite — anunciou o camponês — sejam quais forem as condições em que se encontre. Falou coisas tão estranhas que talvez tenhamos de avisar o serviço secreto.
O homem de uniforme ergueu os ombros.
— Só posso dizer que o homem está em péssimas condições físicas e mentais. Se for submetido a um interrogatório hoje de noite, provavelmente não resistirá. Mas, se não puder agir de outra forma, paciência.
É um médico”, constatou Deringhouse. “Deve ser a pessoa que veio na ambulância de Uspenskij.
— Obrigado — respondeu o camponês. Parecia aliviado. — O senhor poderia ter me causado maiores dificuldades. Mas compreende que...
O médico o interrompeu com um gesto.
— Compreendo. O senhor pode melhorar sua fama na cidade se descobrir um inimigo do Estado e conseguir prendê-lo e entregá-lo ao serviço secreto. Por que acha que alguma coisa não está em ordem com esse homem?
O camponês respondeu sem hesitar.
— Algumas pessoas o viram descer lá fora, de pára-quedas e assento ejetável. Estava inconsciente. Ao ser colocado na maca, abriu os olhos. E a primeira coisa que disse foi o seguinte: “Parem com essa bobagem. Vocês não podem sair vitoriosos dessa luta; o inimigo é poderoso demais.”
— Por certo estava aludindo à nave espacial inimiga que sobrevoou esta região, não é verdade? — disse o médico.
O camponês acenou violentamente com a cabeça.
— Contou algumas coisas confusas sobre uma gigantesca bola de fogo e sobre vários aviões de caça que teriam entrado nas bolas de fogo produzidas por seus próprios foguetes e explodido. Será que uma coisa dessas pode ser verdade? Quem afirma uma coisa dessas é um traidor e um sabotador, não é mesmo?
O médico se mostrou cauteloso.
— Depois saberemos — respondeu.
Deringhouse não estava interessado em saber como prosseguiria a palestra. Provavelmente estariam falando de um dos pilotos de caça que participaram do ataque à Stardust-III. Ao que parecia o homem estava extraindo da série de acontecimentos a única solução aceitável, e por isso estava prestes a ser imprensado entre as engrenagens do serviço secreto.
Onde estaria?
Sem ser notado pelos dois homens que conversavam numa sala de porta aberta, Deringhouse abriu cautelosamente uma série de outras portas. Finalmente entrou numa sala escurecida, da qual saía o ruído de uma respiração irregular.
Havia cortinas diante das janelas para impedir a entrada da luz ofuscante. Deringhouse fechou a porta e esperou até que os olhos se acostumassem à penumbra.
Num dos cantos havia uma cama de campanha bastante primitiva. Sobre a cama estava estendido um homem. Dormia e parecia precisar do sono. O rosto estava arranhado e desfigurado. Apesar disso parecia simpático.
Deringhouse gravou o rosto na memória e saiu da sala com a mesma cautela com que havia entrado. Voltou ao pavimento térreo e, depois de espiar por vários buracos de fechadura, encontrou uma sala um pouco maior, em que cadeiras e bancos se misturavam desordenadamente. Era a sala de reuniões. Por enquanto sabia o suficiente. Saiu do edifício da prefeitura. Para passar o tempo que faltava até o anoitecer, furtou alguns comestíveis da única loja existente na aldeia, tirou um jarro de água límpida do poço e matou a fome e a sede com sua presa de guerra.
Chegou à sala de reuniões muito antes das oito. Ocupou um lugar seguro em cima de um dos armários encostados à parede, onde ninguém esbarraria nele. Os membros do conselho não pareciam ser muito pontuais. Às oito horas só havia dois homens, além de Deringhouse. Os quatorze restantes foram chegando entre as oito e as oito e vinte.
O homem ferido que Deringhouse vira de tarde entrou carregado em sua cama de campanha. Não se percebia qualquer melhora considerável de seu estado. Mas estava acordado e se mostrava bastante interessado.
Os homens o fitaram com uma curiosidade indisfarçada. Finalmente o homem que de tarde conversara com o médico militar abriu a reunião.
E logo passou à ordem do dia.
— Este homem — disse, apontando para o ferido — é, ao que lhe consta, o único sobrevivente do ataque que a 23a esquadrilha de caças de Karaganda desfechou contra a nave espacial inimiga que hoje sobrevoou esta região. As declarações que prestou a respeito do ataque são tão estranhas que achei conveniente que ele as repetisse diante de vocês. Depois deliberaremos sobre o que devemos fazer face às suas declarações.
Que idiota”, pensou Deringhouse. “Depois de ter ouvido isso, o homem não voltará a manifestar sua opinião.
O camponês, que devia ser o prefeito da aldeia, se voltou para o ferido.
— Comece a falar! — ordenou. — Indique seu nome e posto e informe tudo que julgar importante. O senhor se encontra diante do Conselho Municipal da aldeia de Plachowskoje que, conforme sabe, terá que deliberar a seu respeito, já que desceu no território desta aldeia.
O ferido se apoiou sobre os cotovelos. Via-se que isso lhe exigia um grande esforço.
— Meu nome é Jaroslav Afimovitch Welinskij — principiou com a voz fraca. — Sou capitão e comandante do 5o esquadrão da 23a esquadrilha de caças, estacionados em Karaganda-Leste. Pelas quatorze e quinze decolei da base, em companhia dos meus companheiros de esquadrilha, a fim de atacar e destruir a nave inimiga que se aproximava da cidade de Karaganda. Nossa missão foi um fracasso. A maior parte, ou melhor, todos os nossos aviões foram destruídos.
Forneceu uma descrição minuciosa da bola de fogo que havia observado, e relatou como os caças se tornaram vítimas dos foguetes por eles mesmos disparados. Concluiu com estas palavras:
— Parecia que para o inimigo isso não passava de uma brincadeira. Não teve de fazer o menor esforço para destruir nossa esquadrilha. Não precisou mexer um dedo. A parede de fogo que espalhou em torno de si provocou a explosão dos foguetes e, com eles, dos nossos caças. Na minha opinião seria uma irresponsabilidade lutar contra um inimigo destes. Não dispomos de nada comparável com os recursos de que ele dispõe. Quem quisesse resistir estaria agindo com o mesmo senso de um menino que pretendesse deter um tanque pesado com as mãos.
O protesto foi súbito e violento, como se viesse por encomenda. Welinskij ouviu os piores insultos; as palavras traidor e sabotador foram as mais suaves.
Deringhouse admirou a coragem daquele homem. Tudo seria muito mais fácil para ele se tivesse relatado a ocorrência em termos menos fortes. Face ao intenso treinamento hipnótico a que fora submetido, Deringhouse sabia o que esperava o capitão: seria denunciado aos serviços de segurança e encaminhado a um dos postos para ser submetido a um interrogatório bastante minucioso.
A decisão de Deringhouse estava tomada.
Mas antes de executá-la queria saber o que aconteceria em seguida.
O chefe do conselho formulou a proposta que todos esperavam: a transmissão de um aviso imediato aos serviços de segurança.
Welinskij não manifestou qualquer oposição. Até o fim respondeu a todas as perguntas com a maior tranqüilidade e objetividade. Depois de hora e meia de interrogatório, as forças o abandonaram. Desmaiou e deixou-se cair na cama.
Foi levado para fora. O chefe do conselho usou o telefone para transmitir o aviso. Das palavras que foram proferidas Deringhouse concluiu que o aviso foi encaminhado ao posto do serviço de segurança sediado em Akmolinsk, não ao de Karaganda.
Ao que parecia, conheciam a notícia de que naquela cidade remava um espírito revolucionário depois que a Stardust-III ali permaneceu por uma hora. Via-se que os camponeses de Plachowskoje continuavam fiéis ao governo.

* * *

Pela meia-noite o silêncio da grande planície foi interrompido pelos estalos e chiados produzidos pelos rotores de um helicóptero. Um veículo fracamente iluminado desceu do céu nublado e aterrizou na estrada, junto às primeiras casas da aldeia.
O prefeito, mais dois membros do conselho e dois camponeses que carregavam a maca em que se encontrava Welinskij estavam à espera. Welinskij havia acordado.
Deringhouse estava invisível, parado à beira da estrada. Observou o jovem capitão e procurou descobrir como o mesmo se sentia. Mas Welinskij não revelava a menor emoção.
O helicóptero dispunha de um amplo compartimento de carga. Deringhouse não teve a menor dificuldade em entrar sem ser notado e se acocorar junto à cama de campanha de Welinskij.
Ouviu as pessoas conversarem por algum tempo do lado de fora. Mas logo o motor voltou a chiar, os rotores bateram e o aparelho se levantou com um forte solavanco.
Até aqui tudo bem”, pensou Deringhouse.
É verdade que pretendia ir a Karaganda, mas parece que os acontecimentos tomaram outra direção. Será que a modificação se revelaria útil à sua missão?
Ficou quebrando a cabeça a respeito e chegou à conclusão de que pouco importava o ponto em que iniciaria sua marcha propriamente dita.
De qualquer maneira teria de ir a Moscou, e tanto fazia que partisse de Akmolinsk ou de Karaganda.
O vôo para Akmolinsk não durou mais de trinta minutos. Apesar do barulho causado pelo helicóptero Welinskij adormecera. Só despertou quando sua maca foi retirada do compartimento de carga.
Deringhouse saiu atrás dela, e foi então que aconteceu o primeiro incidente.
A porta do compartimento ficava cerca de metro e meio acima do solo. Os homens que aguardavam o helicóptero conversavam em altas vozes; por isso Deringhouse acreditava que não haveria o menor risco em saltar para fora. Mas não percebeu que, próximo à porta, havia um tipo de encaixe. Ao saltar, ficou com o pé direito preso ali. Tombou para a frente e caiu sobre o ombro do homem que se encontrava mais próximo ao helicóptero.
De início houve uma tremenda confusão. O homem foi atirado para a frente pela força do impacto e arrastou mais algumas pessoas.
Mas logo todos se viraram, de pistola na mão. À luz das lâmpadas que iluminavam o campo de pouso, Deringhouse viu seus rostos decididos e perplexos.
— O que foi isso? — perguntou um deles.
— Alguém saltou sobre as minhas costas — disse o homem sobre o qual Deringhouse havia caído.
— Deixe de bobagens — disse outro. — Não há ninguém aqui além de nós!
— Pois eu lhe digo...
O homem se aproximou cautelosamente da porta e olhou para dentro. O compartimento de carga estava escuro.
— Há alguém aí dentro? — perguntou em voz alta. — Saia!
Não houve resposta. Deringhouse já se levantara e se colocara de pé junto à cabina do piloto. Viu que Welinskij observava tudo com o maior interesse.
— Eu lhe disse que não há ninguém — disse um dos homens que permaneceram de pé.
Mas seu companheiro não se perturbou. Deringhouse não pôde deixar de reconhecer que era um rapaz corajoso. Entrou imediatamente no compartimento de carga e revistou-o. Quando voltou, tinha o rosto ainda mais perplexo.
— É verdade, não há ninguém — disse com a voz baixa.
Os outros riram.
Pegaram a maca de Welinskij e saíram com ela. O homem sobre cujos ombros Deringhouse caíra voltou a cabeça mais de uma vez, lançando olhares desconfiados para o helicóptero.

* * *

Welinskij passou uma noite desassossegada. Sua cama fora colocada num cubículo com cheiro de mofo que ficava num galpão do campo de pouso. Ninguém se incomodou com ele. Aproveitou o tempo para dormir um pouco.
Pelas sete da manhã serviram-lhe um café reforçado e perguntaram se já estava em condições de levantar.
Experimentou e conseguiu, embora dali a cinco minutos já visse manchas coloridas diante dos olhos.
Foi levado por um longo corredor que dava para outra sala do mesmo galpão. Um major estava sentado atrás de uma escrivaninha.
Welinskij fez continência. O major retribuiu. Os dois homens que haviam acompanhado Welinskij se retiraram.
— Sente-se — disse o major. — Acho que ainda não está muito bom das pernas.
Welinskij sentou; estava surpreso com tamanha gentileza.
— O senhor vai contar a história mais uma vez — disse o major com um sorriso. — Tenho diante de mim o relatório vindo de Plachowskoje, mas não estou entendendo bem.
Welinskij voltou a relatar tudo. Pela terceira vez contou a história por ele vivida.
O major o escutou com muita atenção. Assim que Welinskij terminou, perguntou:
— E daí?
Welinskij estava perplexo.
— Por causa destas declarações — explicou — aquela gente de Plachowskoje fez de mim um traidor e sabotador e me encaminhou ao serviço de segurança.
O major pareceu se divertir com esse fato.
— Meu Deus! — disse, rindo. — Se eu tivesse passado pelo que o senhor passou, teria contado exatamente a mesma coisa. Não vejo onde está a sabotagem ou a traição.
Welinskij não acreditou no que estava ouvindo.
— Está falando sério? — perguntou em tom hesitante, se inclinando para a frente.
O major fez que sim.
— Sem dúvida.
— Quer dizer que posso voltar para Karaganda?
— Não pode, não.
Welinskij se assustou. Não permitiam que voltasse. Quer dizer que havia alguma coisa.
— Seu caso foi muito comentado — prosseguiu o major. — O Conselho Supremo nos enviou um homem de confiança, que vai levar o senhor a Moscou. O conselho pede que relate os acontecimentos em sessão secreta. Evidentemente fará isso como homem livre. Não há motivo para acusá-lo de traição, sabotagem ou derrotismo.
Os ouvidos de Welinskij começaram a zumbir. Mal ouviu a pergunta:
— O senhor concorda?
— Sim... sim, naturalmente.
O major preencheu um formulário. Entregou-o a Welinskij e disse:
— Vá até o galpão C e bata à porta da sala número vinte e cinco. Ali encontrará o homem que deverá levá-lo a Moscou. Mostre-lhe este bilhete. Boa viagem!
Welinskij se sentia confuso. Agradeceu e se retirou. Subitamente esquecera a fraqueza que sentia; estava curioso para ver o homem que o levaria a Moscou.
Viajariam por terra? Por que não iriam...
Quando encontrou o galpão C esqueceu a pergunta. Atravessou o corredor e encontrou a porta com o número vinte e cinco. Bateu.
— Entre! — disse alguém.
Welinskij entrou.
Na sala havia uma mesa e uma cadeira. Sobre a mesa, Welinskij viu um par de solas de bota bem frisadas. Deu um passo para o lado e viu as pernas em que as botas estavam enfiadas e o homem ao qual pertenciam essas pernas.
Seu aspecto não tinha nada daquilo que Welinskij imaginara num elemento de comunicação do Conselho Supremo. Não havia dúvida de que tinha menos de trinta anos. Os cabelos estavam cortados à escovinha, e os olhos emitiam um brilho azulado.
O mais estranho naquele homem era seu equipamento. Usava um traje que parecia uma combinação de vestimenta de mergulhador, alpinista e mecânico. Welinskij nunca vira coisa parecida. Com um certo respeito contemplou as coronhas das armas, que sobressaíam dos coldres existentes na altura do quadril ou na parte superior da coxa.
— Terminou a inspeção? — perguntou o homem, tirando as pernas de cima da mesa.
Welinskij se lembrou do que tinha a fazer. Ficou em posição de sentido e fez continência:
O louro — Welinskij notou que tinha perto de dois metros de altura — fez um gesto displicente.
— Sim, já sei. O prenome é Jaroslav Afimovitch. Capitão-comandante do 5o esquadrão da 23a esquadrilha de caças, estacionada em Karaganda-Leste. Correto?
— Perfeitamente — respondeu Welinskij, perplexo.
— Sou Lub — disse o louro. — Veja bem: não digo que meu nome é Lub. Esqueci meu verdadeiro nome. Os homens que importam me conhecem como Lub. O senhor também me chamará assim.
— Está bem — respondeu Welinskij.
— Iremos juntos a Moscou — prosseguiu Lub.
— Perfeitamente. Permita que lhe faça uma pergunta?
— Naturalmente.
— Por que não vamos de avião? Chegaríamos mais cedo.
Lub deu um sorriso de escárnio.
— É um rapaz esperto, não é? Acontece que iremos por terra.
Welinskij logo formou sua opinião. Nunca vira um homem mais descontraído e lacônico que Lub. Não seria fácil tirar dele alguma coisa que não quisesse revelar.
Apesar disso Welinskij o achou simpático, até muito simpático.
Lub não se demorou muito no aeroporto. Todos pareciam conhecê-lo, pois ninguém lhe pedia que se identificasse. Welinskij o seguiu.
Às dez horas embarcaram num dos modernos trens elétricos da Estrada de Ferro Transiberiana, que os levaria a Moscou, passando por Magnitogorsk e Kufbychev.
— É mais confortável — explicou Lub em termos lacônicos. — Mandei reservar um compartimento só para nós. Até pode dormir.
No momento Welinskij não tinha disposição para isso. Enquanto o trem atravessava a paisagem numa velocidade de trezentos quilômetros por hora, voltou a examinar Lub. Viu que este o percebia e formulou uma pergunta, para se antecipar a uma observação irônica:
— Que terno é esse?
Lub sorriu.
— É um traje especial — respondeu. — Não deixa passar balas ou outras coisas desagradáveis. Além disso, pode executar uma série de truques. Oportunamente lhe mostrarei.
Ao que parecia quis fugir a outras perguntas, pois ligou o televisor que se achava instalado neste como em todos os demais compartimentos do trem sumamente confortável. Um programa insosso se desenrolou diante deles... até o momento em que Perry Rhodan interferiu na rede terrena de televisão e transmitiu sua advertência dirigida ao governo do Bloco Oriental.
Welinskij acompanhou a alocução com os olhos atentos. Mas Lub se reclinou num canto e fez como se achasse aquilo muito tedioso. Quando Rhodan terminou e o programa anterior voltou ao ar, Welinskij disse:
— Será que Strelnikov concordará? Será que tomará em consideração os ensinamentos dos últimos dias?
Lub deu de ombros.
— Como vou saber?
Welinskij se exaltou.
— Será que isso não o comove? Todo mundo deve refletir se vale a pena se engalfinhar com um inimigo destes, ou se é preferível entrar em negociações para salvar a pátria.
Lub sacudiu a cabeça.
— Pois eu, por princípio, não quebro a cabeça sobre estas coisas.
Welinskij achou que a atitude de Lub era repugnante, mas não disse mais uma palavra a este respeito.
Às onze e meia o trem parou em Atbassar, uma pequena localidade onde a parada do trem não era prevista. Lub sorriu.
— Sabe por que o trem parou? — perguntou a Welinskij.
— Para não se encontrar em qualquer lugar no meio da linha quando faltar energia — disse o capitão com toda franqueza.
Lub fez que sim. Depois disse:
— Venha comigo; vamos descer. Welinskij se assustou.
— Por quê?
— Depois explico.
Welinskij obedeceu. Quando desceram foram abordados pelo condutor.
— Aqui a descida não é permitida. Fiquem no trem.
— Não vou ficar coisa alguma — resmungou Lub. — Quero esticar as pernas.
O condutor não tinha qualquer objeção. Lub marchou em companhia de Welinskij pela plataforma arenosa. Examinaram a cabana do guarda-trilhos e contornaram-na.
— Fique aqui mesmo! — ordenou Lub de repente. — Voltarei logo.
Welinskij obedeceu. Lub voltou a contornar a cabana e retornou dali a dois minutos.
— Tudo em ordem — disse com um sorriso. — Vamos andando.
— Para onde? — perguntou Welinskij perplexo.
Lub apontou para os telhados achatados da pequena localidade, que sobressaíam em meio à névoa que cobria a planície.
— Para lá. Gosto de aproveitar os intervalos que me são impostos. Conheço pouca coisa desta terra imensa. Gostaria de ver Atbassar.
— Vamos voltar em tempo? — perguntou Welinskij, preocupado.
Lub deu de ombros.
— Não sei — respondeu.
Foram andando, e fizeram-no sem rebuços. Todo mundo os via, inclusive o solícito condutor, mas ninguém procurou detê-los. Foi outra coisa que deixou Welinskij admirado.
Atbassar ficava cerca de seis quilômetros da estação. Ainda não haviam percorrido a metade da estrada poeirenta e esburacada, quando o chiado dos jatos de um avião se fez ouvir, vindo do leste. Lub levantou o braço e olhou para o relógio. Welinskij o viu estremecer.
— Que idiota! — disse por entre os dentes. — Por que não aterrizou?
Pararam.
Welinskij não saberia dizer o que havia de errado naquele avião. Mas percebeu-o assim que o ponteiro de segundos do relógio de Lub saltou para o número doze.
De um instante para outro o ruído vigoroso dos jatos cessou, já que o suprimento de energia das bombas de combustível, compressores, ativadores e outros componentes importantes do mecanismo foi interrompido. O chiado se transformou num uivo, e este acabou num miserável apito. Um minuto depois das doze, a máquina, que antes era um ponto brilhante no azul do céu, estava transformada numa grande mancha cinzenta.
Lub não respondeu.
O avião passou em disparada por cima da aldeia de Atbassar.
As asas estreitas, concebidas para um deslocamento em alta velocidade, não davam sustentação ao avião. Sua queda foi semelhante à de uma pedra achatada.
Tudo terminou numa labareda ofuscante que surgiu bem além da aldeia de Atbassar, e num estrondo abafado que segundos depois percorreu a planície.
— Que Deus tenha compaixão deles! — disse Lub e voltou a se descontrair.
Quando reiniciaram a marcha, os joelhos de Welinskij estavam trêmulos.
Pela uma e meia chegaram à aldeia. Lub ordenou:
— É preferível que espere aqui. Quero dar uma olhada.
Welinskij estava tão deprimido que não se encontrava em condições de formular qualquer objeção. Sentou na beira da estrada e esperou. Lub foi andando.
Só se sobressaltou uma vez em sua atitude cismarenta. Foi quando, ao meio-dia e meia em ponto, os motores dos tratores entraram em funcionamento com um rugido e transportou uma caravana de enfermeiros e voluntários — mas também de curiosos — em direção ao local em que o avião havia caído.
Provavelmente Lub não vai encontrar ninguém na aldeia”, pensou Welinskij; mas em face do desastre que testemunhara isso não o preocupou.
Meia hora depois se aproximou aos solavancos uma daquelas carroças motorizadas que, nos últimos anos, vinham sendo usadas pelos camponeses. Lub estava à direção e, quando parou diante de Welinskij, sorriu alegremente como se acabasse de fazer um bom negócio.
— Suba! — disse.
Welinskij subiu e sentou perto de Lub.
— Onde arranjou isso? — perguntou.
— Comprei — foi a resposta.
— Onde pretende ir?
— A Kosgorodok.
Welinskij quase ficou sem fôlego.
— O que vamos fazer em Kosgorodok? Não pretendia me levar a Moscou?
Lub fez que sim.
— Sei que estou pedindo muito — disse. — Mas vamos fazer um acordo. Em Kosgorodok eu lhe digo exatamente o que está havendo. Em compensação você promete que não fará mais perguntas. Combinado?
Welinskij refletiu.
— De acordo — disse depois de algum tempo.
Pelo que dizia Lub, Kosgorodok ficava a pouco mais de duzentos quilômetros de Atbassar. Só chegariam no fim da tarde, isso se não houvesse nenhum enguiço no veículo.

4



O coronel Freyt fez-se anunciar. Rhodan fez com que entrasse imediatamente.
— Já temos a concordância dos governos da Federação Asiática e do bloco da OTAN — disse Freyt. — O Bloco Oriental ainda não acusou o recebimento de nossa nota, nem deu qualquer resposta.
Rhodan acenou com a cabeça.
— Isso era de esperar. Estaremos em três, Freyt. Conseguiu combinar dia e hora?
— Sim senhor. Amanhã, dia 16 de junho, se possível às quatorze horas, tempo local.
— Ótimo. Já confirmou?
— Sim senhor. Fui eu que sugeri esse dia e hora.
Rhodan levantou as sobrancelhas, num gesto zombeteiro.
— Houve alguma objeção?
— Nenhuma — respondeu Freyt com um sorriso.
— Isso representa um bom atestado da nossa reputação.
Freyt se retirou e Rhodan voltou a mergulhar nas suas meditações.
O que realmente o incomodava na situação atual da política terrena não eram os desvios de que o Bloco Oriental se fizera culpado. Os recursos técnicos e psicológicos da Terceira Potência poderiam vencer qualquer atitude deste tipo dentro de poucas horas.
O principal motivo de suas preocupações era a imaturidade humana que se revelava na conduta dos Estados do Bloco Oriental.
Rhodan não era o tipo de homem que se entregava a ilusões. Estava firmemente convencido de que conseguiria abrir os olhos da Humanidade não só através da instalação da Terceira Potência, levada a efeito apesar de todos os obstáculos e hostilidade, mas também através de uma abundância de informações sobre os acontecimentos desenrolados na cidade de Galáxia, que fez fluir para todos os países da Terra através de numerosos canais. Convencera-se de que, recorrendo a um material ilustrativo adequado, conseguiria dentro de um tempo muito reduzido transformar o homem num terreno, isto é, num ser com uma visão realista de sua verdadeira terra natal; o homem se transformaria numa partícula de pó tão impregnada do pensamento galático que consideraria ridículas quaisquer disputas particularistas em sua minúscula pátria, e não perderia tempo com elas.
Mas, qual a realidade atual?
Por ocasião do primeiro vôo tripulado à Lua realizada pelo homem, Rhodan encontrou no satélite de nosso planeta os representantes de uma raça humanóide desconhecida. Vinham de um mundo que eles chamavam de Árcon, e que ficava a trinta e quatro mil anos-luz da Terra. Haviam pousado na Lua com uma nave exploradora e Crest, o chefe científico da expedição, sofria de leucemia.
Rhodan aproveitou a oportunidade. Retornou à Terra em companhia de Crest, a quem prometera a cura, e fez de sua nave, pousada no deserto de Gobi, o centro da Terceira Potência.
Crest foi curado e manifestou sua gratidão, colocando à disposição de Rhodan os recursos criados pela tecnologia arcônida. Rhodan se defendeu dos ataques desfechados pelos blocos de potências terrenas e consolidou seu pequeno Estado. Recorreu ao campo de absorção de nêutrons, uma invenção dos arcônidas, para impedir uma guerra que teria significado o fim da Humanidade.
A nave exploradora arcônida era comandada por uma mulher chamada Thora. Era a mulher mais bela e fascinante que Rhodan já vira. Mas, na opinião da comandante, os homens não passavam de um bando de criaturas semi-selvagens, e foi assim que ela os tratou. No entanto essa humanidade miserável conseguiu, num esforço inaudito e sem que Rhodan o soubesse, destruir a nave arcônida. Quando isso aconteceu, Thora não se encontrava a bordo, e Crest já se radicara na Terra. Thora e Crest sobreviveram à catástrofe, e o produto mais importante de sua civilização que conseguiram salvar foi uma nave auxiliar esférica de sessenta metros de diâmetro, que não poderia realizar a viagem de volta ao seu mundo natal.
Os arcônidas não tiveram outra alternativa senão colaborar com a Humanidade. Precisavam de um veículo apto a enfrentar as condições reinantes no espaço. Para obtê-lo foi criada a General Cosmic Company, dirigida pelo mutante Homer G. Adams.
Surgiram muitos perigos. Alguns deles ameaçavam a Terceira Potência, vindos de um ou de alguns dos blocos de potências roídos pela inveja; outros punham em risco toda a Terra, provocados por inteligências extraterrenas, que haviam encontrado a pista do cruzador destruído e esperavam encontrar em nosso planeta uma presa fácil e abundante.
Sobreviveram a tudo. No sistema Vega, situado a uma distância de vinte e sete anos-luz, ajudaram uma raça desesperada na sua luta contra um grupo de invasores reptilóides. Depois da vitória, encontraram indicações que lhes revelaram pistas do mundo em cuja busca a nave exploradora dos arcônidas se lançara ao espaço: o planeta da vida eterna.
Um poderoso desconhecido fez seu jogo com eles. Conduziu-os a armadilhas e os libertou das mesmas, para que provassem que eram dignos de se tornarem seus herdeiros.
Encontraram o mundo do desconhecido. Era um planeta artificial, que percorria uma trajetória também artificial, realizando no curso de vários séculos um movimento de translação em torno de mais de uma dezena de sistemas solares. Deram a esse planeta o nome de Peregrino. Encontraram o desconhecido e com ele o segredo da vida eterna. Mas ficaram sabendo que a vida eterna só caberia a Rhodan e aos homens que o mesmo julgasse dignos de receberem essa dádiva.
O grande relógio da história galáctica assinalava o fim do tempo dos arcônidas. A vida eterna não seria para eles. Crest e Thora encontraram o mundo que procuravam, mas essa descoberta não lhes trouxe qualquer vantagem.
Rhodan e os terranos seriam os homens do futuro.
Retornaram do planeta Peregrino, depois de terem ficado longe da Terra por alguns meses, segundo sua contagem de tempo.
Mas durante a permanência no planeta Peregrino, onde prevalecia um tempo diferente, a Terra vivera quatro anos e meio. Nesses quatro anos e meio as pessoas ambiciosas haviam se acostumado à idéia de que Rhodan nunca mais regressaria para intervir na política terrena.
A Federação Asiática e o bloco da OTAN se mantiveram na linha de cooperação interestatal já adotada. Mas no Bloco Oriental houvera uma revolução que fez vir à tona os elementos menos recomendáveis.
Dali em diante a discórdia voltou a reinar e, por um triz, teria causado a guerra.
Rhodan se levantou e olhou pela janela.
Contemplou a área verde da cidade. A chuva artificial criara um grande jardim em meio ao deserto.
Era preciso que fizesse os homens compreenderem que teriam de obedecer até que sua inteligência estivesse madura para a missão que a Humanidade tinha que cumprir.

* * *

Ao chegarem perto de Kosgorodok, que não passava de uma aldeia à margem de um reluzente lago salgado, Welinskij e Lub se instalaram numa cabana desabitada. Ao que parecia ninguém notou sua presença. Ninguém se interessou por eles.
Mais uma vez Welinskij recebeu ordem para esperar enquanto Lub foi à aldeia. Demorou mais que das outras vezes, só voltando ao escurecer.
Welinskij se assustou quando viu na claridade da porta que outro homem acompanhava Lub. Não saberia dizer por que se assustou. Afinal, estava com a consciência tranqüila!
Na cabana não havia luz elétrica, mas Lub trouxera uma vela. Acendeu-a e colocou-a no chão de terra batida. Welinskij viu que o recém-chegado envergava um uniforme de policial e voltou a se assustar.
Além do policial, Lub trouxera outras coisas: um pão achatado e aromático e vários tipos de lingüiça. Colocou tudo isso no chão e disse:
— Daqui a pouco vamos comer. Mas antes disso este homem nos contará uma coisa.
Sentaram em torno da vela. O policial não se fez de rogado. Pôs-se a falar:
— O povo de Plachowskoje entregou um derrotista e sabotador ao serviço de segurança de Akmolinsk. Realmente o homem chegou a Akmolinsk, mas desapareceu de forma misteriosa. Apareceu um homem que, não se sabe como, conseguiu convencer o chefe do serviço de segurança, um major, de que vinha de Moscou e fora incumbido de levar o preso para lá. O major entregou o preso. Quando foi interrogado a este respeito, não soube dar qualquer explicação satisfatória. Além disso, se recusou a admitir que o preso realmente fosse um derrotista. Também não soube explicar essa opinião. Há um detalhe muito importante. O preso foi transportado de helicóptero de Plachowskoje para Akmolinsk. Estava ferido e foi carregado em maca. Quando foi descarregado em Akmolinsk, um dos homens que carregavam a maca recebeu um esbarrão por trás e caiu ao chão. Acontece que ninguém viu o homem que fez isso, e o mesmo nunca foi encontrado.
“Outros elementos do serviço secreto seguiram a pista do desconhecido e do sabotador. Em Akmolinsk os dois tomaram o Expresso Transiberiano com destino a Moscou. Em Atbassar o trem fez uma parada em virtude da advertência sobre a interrupção do fornecimento de energia proferida por Rhodan. O condutor do trem e o guarda-linha são unânimes em afirmar que ninguém saiu do trem durante a parada. Mas alguns passageiros declaram que viram dois homens caminharem em direção à aldeia de Atbassar. Um deles usava trajes esquisitíssimos. É a última notícia que se teve dos dois. Não apareceram em Atbassar. Estão sendo procurados em toda a região.”
O policial se levantou sem que ninguém mandasse. Virou-se, abriu a porta e desapareceu na escuridão. A porta foi fechada atrás dele.
Welinskij notou perfeitamente que o homem se movia como um boneco.
Sentiu que Lub o olhava e virou a cabeça.
— Então? — perguntou Lub.
— Isto é uma... uma... — gaguejou Welinskij.
— É o quê? — perguntou Lub com a voz tranqüila.
— Faz isso para me intimidar — explodiu Welinskij. — Logo percebi que não é o homem pelo qual quer passar. Pretende me impedir de fazer aquilo que é meu dever. O sabotador é o senhor, não eu. É um traidor da...
Lub o interrompeu com um gesto. Nem chegou a se aborrecer.
— Deixe de conversa — disse com toda calma. — Quer insinuar que subornei o policial para que o mesmo imaginasse uma história?
— Isso mesmo. E...
— Pois vá até a aldeia. Kosgorodok conta com dois policiais. Procure o outro e diga quem é. Talvez ele seja bastante inteligente para reconhecê-lo sem uma apresentação. Espere para ver o que fará com você.
Welinskij se levantou.
— É isso mesmo que vou fazer — asseverou em tom áspero. — Depois disso mandarei o policial até aqui, para que tome conta do senhor.
Lub soltou uma gargalhada.
— Seu idiota!
Welinskij saiu.
Mas só deu alguns passos na escuridão. Afinal, por que estava desconfiando de Lub? E se o policial tivesse dito a verdade? Pois ele mesmo não se surpreendera com o curso inesperado que os acontecimentos tomaram em Akmolinsk?
“E se tudo que o policial dissera fosse verdade?...”
Outras indagações surgiram na mente de Welinskij. Só Lub poderia dar a resposta.
Teria subornado o major em Akmolinsk? Que tolice! Nenhum major se deixaria subornar com tanta facilidade.
Mas...
Welinskij deu meia-volta. Voltou a entrar na cabana e, antes que Lub pudesse fazer uma observação sarcástica, disse:
— Está bem... voltei. Deve ser um grande triunfo para o senhor. Mas lhe prometo que irei imediatamente à polícia sem me importar com o que poderá acontecer depois, a não ser que forneça uma explicação plausível sobre tudo que aconteceu desde hoje de manhã.
Lub o encarou.
— Belas palavras, patriota! — respondeu. — Eu lhe prometi que em Kosgorodok saberia tudo, não prometi? Talvez não goste do que vai ouvir. Mas ao pensar a respeito use a cabeça e não o sentimento. Sente-se!
Welinskij obedeceu prontamente.
— Para começar do princípio — iniciou Lub — meu verdadeiro nome é Conrad Ezechiel Deringhouse. A responsabilidade pelo segundo nome, e também pelos outros, cabe a meus pais...

* * *

Se Strelnikov não demonstrou muita sabedoria política, ao menos deu provas de sua capacidade de reconhecer uma nova situação e reagir à mesma, quando nas primeiras horas da manhã do dia 15 de junho transmitiu suas instruções ao Conselho Supremo.
Já se conformara com a idéia de que não convinha subestimar as forças do inimigo, e se conduziu de acordo com a mesma. Determinou que de nenhuma reunião do conselho deviam participar mais de cem membros. Era pouco menos de um terço da totalidade dos seus componentes.
Dessa forma evitaria que Rhodan conseguisse dominar todo o conselho de uma só vez, através de seus inexplicáveis recursos hipnóticos. O voto de um terço dos membros era necessário para instaurar o debate sobre qualquer problema, e nem isso Rhodan poderia fazer de um golpe.
Strelnikov adotou, sem qualquer subterfúgio, métodos de governo ditatoriais. Dava as ordens e, aos demais membros do conselho, só cabia cumpri-las.
Enviou três divisões a Komsomolsk para reprimir a revolta que eclodira naquela cidade.
E fez outra coisa. Interessou-se pelas estranhas notícias que falavam de um capitão da força aérea que desaparecera de Akmolinsk. Havia a participação de um desconhecido ainda mais suspeito; ninguém sabia quem era ou de onde vinha.
Strelnikov tinha certeza quase absoluta de que se tratava de um dos agentes de Rhodan. Por isso mobilizou todos os recursos para prendê-lo. Sabia que Rhodan fazia muita questão do bem-estar das pessoas que com ele colaboravam, motivo por que o prisioneiro teria um valor inestimável como refém.
Era bem verdade que, pelas informações recebidas até então, era de supor que aquele homem dispunha de duas faculdades: impor sua vontade aos outros e se tornar invisível.
Das primeiras vezes que essa afirmativa foi formulada diante dele, Strelnikov disse que era tolice. Mas, quando os mesmos acontecimentos foram relatados pelas mais diversas pessoas com que os dois se encontravam no caminho, a conclusão que se impunha era exatamente essa, e Strelnikov se conformou com ela.
Dali em diante a polícia e os serviços de segurança receberam instruções de procurarem localizar o capitão Welinskij, vigiá-lo e aguardar até que o estranho aparecesse em sua companhia. Todos foram avisados de que não deveriam atacar o desconhecido pela frente.
Strelnikov nem imaginava que com todas essas instruções — desde a proibição das reuniões do Conselho Supremo em sua totalidade até a ordem de perseguir Welinskij — fez exatamente aquilo que Rhodan e Deringhouse esperavam dele.
Era esta a guerra psicológica num sentido mais elevado.

* * *

Depois das explanações de Deringhouse, a discussão teve um fim tranqüilo. Deringhouse disse:
— Se tiver vontade de sair correndo para fazer minha caveira em qualquer delegacia de polícia, não demorarei em agarrá-lo. Estamos entendidos?
A ameaça era desnecessária. Deringhouse expusera sua missão e suas idéias com a maior franqueza, sem recorrer a qualquer meio para converter Welinskij à sua opinião.
Este acreditou na sinceridade de Deringhouse e foi de opinião que o plano por ele exposto só poderia ser considerado justo e razoável, até mesmo por um patriota.
Saíram de Kosgorodok e prosseguiram na direção oeste. Viajaram de trem, roubaram helicópteros, andaram alguns quilômetros a pé e percorreram algumas centenas de quilômetros de automóvel.
Nesse meio tempo, já no dia 17 de junho, haviam chegado a Magnitogorsk. Haviam percorrido quase metade do trecho de Akmolinsk para Moscou.
Deringhouse se dirigira a Magnitogorsk com uma intenção bem definida. Tinha certeza de que os setores responsáveis sabiam, ou desconfiavam, de que ele e Welinskij se encontravam naquela cidade, e pretendia lhes dar um osso duro de roer.
De Magnitogorsk saía uma pequena estrada de ferro em direção a Bajmak, que ficava cerca de cem quilômetros ao sul. Qualquer um diria que Bajmak era um lugarejo insignificante, e ninguém saberia dizer por que se deram ao trabalho de construir uma estrada de ferro para lá.
Só Deringhouse e mais umas poucas pessoas sabiam. Em Bajmak era extraído o minério de urânio mais rico que existia na Terra. Até se falava em veios de urânio puro que afloravam nas galerias da mina. Era evidente que o governo se esforçava para guardar o maior sigilo sobre a jazida. Oficialmente dizia-se que em Bajmak haviam sido localizadas jazidas de estanho de proporções reduzidas.
Deringhouse e Welinskij compraram passagem e tomaram o trem para Bajmak. Mais ou menos a meio caminho o trem parou num desvio e deixou passar um comboio carregado de minério. Deringhouse fitou atentamente os carros cobertos de lona. Subitamente, Welinskij puxou-o pelo braço.
— Olhe! — chiou, apontando para a frente do carro.
Olhando pelas portas envidraçadas, que permitiam a visão de todos os carros, Deringhouse viu, dois carros adiante, um homem uniformizado que examinava os documentos dos passageiros. Virou a cabeça e, do lado oposto, a uma distância igual, viu outro policial.
Abriu a janela e olhou para fora. Perto da locomotiva e no fim da composição havia um terceiro e um quarto policial.
— É o fim — disse Welinskij.
Não poderiam sair dessa. O traje de Deringhouse chamaria a atenção de qualquer um e, mesmo que ele se tornasse invisível, Welinskij não dispunha de qualquer documento que o habilitasse a viajar para Bajmak. Além disso, todos os policiais deviam conhecer seu rosto de cor.
Mas Deringhouse não perdeu a calma.
Encontravam-se no terceiro carro a partir da locomotiva. Welinskij viu que seu companheiro enfiou a mão no bolso e passou a mexer numa arma que chamava de projetor mental.
No vagão em que viajavam havia poucos passageiros; apenas três operários sonolentos sentados num banco próximo à porta traseira.
O policial os despertou e pediu seus documentos. Depois de examiná-los, se dirigiu a Deringhouse e Welinskij.
— Não temos documentos — respondeu Deringhouse.
O policial ficou perplexo. Depois de algum tempo disse:
— Vocês não podem estar sem documentos. Vamos logo, mostrem!
Deringhouse deu de ombros.
— Não tenho documentos, e meu amigo também não.
O policial ficou de olhos semicerrados e franziu a testa.
— Escute aqui! — disse, esticando as palavras. — Que traje é esse?
Deringhouse passou os olhos pela sua roupa e respondeu:
— É um traje de alpinista. Acabo de comprar.
— Como é seu nome?
— Lub.
— Só isso?
— Só.
— Como se chama seu amigo?
Deringhouse deixou a resposta a cargo de Welinskij. Este fez o que se esperava dele, embora a contragosto: se assustou e só depois de uma demora altamente suspeita se lembrou de um nome. E por cima de tudo o nome foi este:
— Popoff!
Na Rússia este nome é tão freqüente como Silva entre nós.
O policial logo percebeu a situação com que se defrontava.
— Ah! — exclamou. — Esperem aí! Fiquem sentadinhos!
Com um passo rápido se dirigiu à janela e abriu-a. O apito soou. Os policiais postados de ambos os lados do trem responderam.
O policial que realizara o controle de documentos a partir do carro da frente descera depois de ter concluído o trabalho no segundo carro.
Deringhouse endireitou o corpo e comprimiu o acionador do projetor mental contra o metal plastificado do vagão. Transmitiu a ordem com o máximo de concentração. Só se descontraiu quando o trem se pôs em movimento com um solavanco.
O policial gritou alguma coisa para seu colega. Ao que parecia ainda não percebera que o trem se pusera em movimento. Deringhouse se colocou atrás dele, enlaçou-o pelos joelhos, levantou-o e empurrou-o pela janela. A velocidade do trem ainda era muito reduzida. O policial não se machucaria na queda.
Os outros policiais demoraram em compreender o que estava acontecendo. O trem ganhou velocidade. Nada lhes restou senão gritar e sacudir os punhos.
Deringhouse soltou uma gostosa gargalhada. Não teve a menor dificuldade em tranqüilizar os três trabalhadores por meio do projetor mental. Depois se dirigiu a Welinskij.
— Da próxima vez avise o que pretende fazer — queixou-se este. — Assim poderei me preparar.
Deringhouse continuou a rir.
— Você foi formidável! Agiu exatamente como alguém que tem a impressão de que foi descoberto.
— Dentro de dois minutos o pessoal de Bajmak saberá que estamos para chegar. E então?
— Que saibam! — respondeu Deringhouse. — Era isso mesmo que eu queria.
Welinskij o olhou com uma expressão de perplexidade, mas Deringhouse não lhe forneceu qualquer explicação.
— Assumi um único risco neste jogo — disse. — Não sabia se conseguiria influenciar o maquinista sem poder vê-lo. Mas você viu, consegui.

* * *

Thora nunca julgara necessário se fazer anunciar a Rhodan; mas desta vez ela agira assim. Durante os trinta segundos que se passaram, desde o anúncio até o momento em que Thora entrou em seu gabinete, Rhodan procurou imaginar que conseqüência o choque sofrido no planeta Peregrino devia ter provocado no espírito da arcônida, pois de repente soube se adaptar aos modos terrenos.
A figura ereta surgiu na porta. Era bela, de uma beleza desconcertante, com seu cabelo muito claro, quase branco, e o brilho vermelho irradiado por seus olhos. Mas ainda se notavam os vestígios da decepção e das provocações que experimentara no planeta Peregrino.
Rhodan convidou-a a sentar.
— Fico satisfeito em vê-la — disse em tom amável. — Faz bastante tempo que não me visita.
Thora ergueu as sobrancelhas.
— Sempre se leva algum tempo para vencer um choque deste — respondeu. Aliviado, Rhodan percebeu que ela zombava de si mesma.
A arcônida tomou lugar à frente de seu interlocutor.
— Vim por um motivo egoísta — confessou. — Gostaria de saber, para me distrair um pouco, o que faz o mundo.
Rhodan relatou os fatos minuciosamente e em tom de conversa.
— Não o compreendo — disse Thora em tom de espanto, assim que Rhodan concluiu seu relato. — No início usa vassoura de ferro e agora prefere enfrentar o Bloco Oriental com um único agente, quando um ataque concentrado resolveria tudo em poucas horas. E a solução seria muito mais convincente.
Rhodan sacudiu a cabeça.
— Thora, não entende a psicologia terrena — disse em tom professoral. — Na minha opinião, Deringhouse não corre o menor perigo. Nada pode lhe acontecer, a não ser que faça uma tolice. Por outro lado posso mostrar à Humanidade em geral, e ao povo do Bloco Oriental em particular, que, para a Terceira Potência, uma revolução desse tipo nem chega a representar um acontecimento que justifique o uso de armas pesadas ou o lançamento de bombas.
Lançou um olhar indagador para Thora.
— Compreende o que quero dizer? Inclinou o corpo para a frente. — A Humanidade deve compreender que Rhodan só precisa fazer isto — passou a mão por cima da mesa — para remover quaisquer dificuldades. Espere aí! — disse, adiantando-se a uma objeção de Thora. — Não quero brilhar à custa dos outros. Apenas quero obrigar a Humanidade a se unir. É este o meu objetivo. Mas não pretendo usar a força; prefiro recorrer a um método especial, para fazer com que a própria Humanidade acabe compreendendo. Se aceitasse suas sugestões, a lembrança que ficaria dos acontecimentos seria a de que os homens foram obrigados pela força bruta a unir-se. E é isso que eu quero evitar.
Thora não soube o que responder. Depois de algum tempo voltou a falar:
— Tem razão, como sempre.
Depois de mais alguns minutos de silêncio perguntou:
— Quais são as perspectivas de voltarmos a Árcon?
A pergunta representou uma surpresa para Rhodan; mas sua mente reagiu instantaneamente. Desde os primeiros dias de sua cooperação com a Terra, Crest e Thora só estavam empenhados em sua volta para Árcon. E, mesmo quando já existiam recursos para isso, Rhodan ficou adiando a realização desse desejo de uma oportunidade para outra, por motivos de segurança terrena. Sentiu que não poderia continuar assim por muito tempo.
— Eu lhe prometi que viajaríamos para Árcon assim que a Terra estivesse em segurança — respondeu.
Conforme era de esperar, Thora não demorou a formular outra pergunta:
— Quando será isso?
— Aguardemos a conferência que se realizará hoje — consolou-a Rhodan. — Se conseguirmos uma união, mesmo imperfeita, poderemos decolar dentro de algumas semanas.
Sabia que não era nada disso. A Terra estaria longe de ser um lugar seguro, mesmo que a conferência que se iniciava fosse coroada de êxito. Mas, consolando Thora, evitou uma discussão acalorada.
— Está bem — suspirou Thora. — Depois de tamanha espera agüentaremos mais algumas semanas.

* * *

Deringhouse fez o trem parar poucos quilômetros antes de Bajmak e desceu juntamente com Welinskij. Os que pretenderam impedi-lo foram influenciados hipnoticamente para adotarem uma atitude mais razoável.
Afastaram-se dos trilhos cerca de duzentos metros e, andando paralelamente aos mesmos, se aproximaram de Bajmak, ocultos pela vegetação. De um lugar elevado viram que o trem no qual haviam viajado, ao chegar a Bajmak, foi recebido por metade de um batalhão de policiais. Por cerca de quinze minutos reinou uma terrível confusão. Depois disso a tropa policial se dividiu em vários grupos, que se deslocaram para o norte, avançando de ambos os lados da linha férrea.
— Estão à nossa procura — disse Deringhouse.
Prosseguiram em sua marcha. Por um motivo que de início lhes parecia inexplicável os policiais nunca se afastavam mais de cinqüenta metros dos trilhos. Dessa forma nunca encontrariam os sabotadores. Posteriormente Deringhouse veio a saber que, em virtude de suas armas superiores, os policiais receberam ordem para não penetrarem em qualquer área onde a visão não fosse perfeita. O comandante do destacamento policial de Bajmak não estava interessado em enviar duzentos policiais para o interior do matagal, e meia hora depois ver duzentos sabotadores saírem de lá.
Welinskij e Deringhouse atingiram o lugarejo meia hora depois, vindos do sul. Como ninguém os esperasse de lá, conseguiram se aproximar a cem metros do edifício em que funcionava a administração da pretensa mina de estanho sem serem notados. Passaram o tempo que faltava até o escurecer num matagal grande e denso, sem que qualquer dos grupos de policiais que patrulhavam a área os descobrisse.
Só depois das dez horas puseram mãos ao trabalho, do qual por enquanto só Deringhouse tinha uma idéia clara. Welinskij só sabia que no momento adequado devia ser visto por alguém. E Deringhouse não ocultou o fato de que isso representaria a parte mais difícil do trabalho.
— Não se esqueça — avisou ao companheiro. — Eu estou protegido contra as balas, mas você não. Não assuma qualquer risco.
Aproximaram-se cautelosamente do complexo de edifícios. Atrás da maior parte das janelas a luz já se apagara. Só um dos barracos continuava iluminado por uma desagradável luz fluorescente branco-azulada. Deringhouse indicou o lugar em que Welinskij deveria ficar.
— Aqui estará protegido — cochichou. — Voltarei em tempo. Só se mostre o suficiente para que um policial medianamente competente consiga gravar seu rosto.
Welinskij ficou nervoso.
— A quem vou me mostrar? Que diabo!
— A qualquer pessoa. Daqui a pouco haverá gente de sobra nesta área.

* * *

Frunse, um georgiano, naquela noite de plantão no barraco de vigilância, estava tranqüilamente sentado à mesa que ficava perto da janelinha com o pequeno guichê. Para vencer o sono procurou afundar na leitura de um jornal.
Frunse não era um homem muito instruído, mas possuía uma vontade de ferro. Não falava o russo muito bem, e a leitura do jornal se tornava ainda mais difícil. Mas foi atravessando tenazmente os textos e desviou a idéia de sono de sua mente até vencê-la definitivamente.
Estava entretido na leitura de uma notícia sobre uma estranha mortandade do gado verificada na Sibéria ocidental quando a porta se abriu. Frunse atirou o jornal sobre a mesa e fitou a porta. Estava absolutamente certo de que ninguém se aproximara do barraco. Havia um único caminho que conduzia à porta, e apesar do esforço exigido pela leitura teria percebido se alguém o utilizasse.
A porta tinha fecho automático; não poderia se abrir por si, nem permanecer aberta por tanto tempo.
Frunse se levantou. Sentia um pouco de medo, mas precisava ver o que havia com a porta. Nesse instante ela voltou a se fechar. Depois de hesitar um instante, Frunse voltou à sua cadeira. Uma porta fechada não o preocupava, e o que passou já pertencia ao passado. Mas estava tão irritado que levou alguns minutos fitando os espaços vazios do recinto, como se alguma coisa pudesse estar escondida por ali.
Depois voltou a pegar o jornal.
Pouco depois voltou a se sobressaltar. Ouvira um ruído. Olhou por cima do jornal, mas não viu nada. Só quando voltou a ouvir o mesmo ruído percebeu a direção de onde vinha.
O vigia se ergueu lentamente. Alguns segundos preciosos se passaram antes que compreendesse que aquilo não era obra de um fantasma, mas de alguém que sabia perfeitamente o que queria. Atrás das duas chapas que acabavam de ser retiradas ficava o labirinto de fios do equipamento de segurança, cujo painel central fora instalado na mesa de Frunse. Não entendia nada dos detalhes técnicos da instalação; mas sabia que qualquer invasor, inclusive um sabotador, poderia penetrar nos edifícios da administração e nas galerias sem ser impedido ou mesmo notado se a instalação fosse destruída ou danificada.
Isso não podia acontecer!
Com dois saltos enormes se colocou diante da parede. Estendeu a mão para agarrar o invisível. Mas em vez de agarrá-lo sentiu uma pancada violenta, que o atirou para o lado oposto da sala. Por algum tempo ficou estendido no chão, ofegante.
O medo e a raiva lutaram em sua mente. Olhando para cima, viu que as pontas dos fios embutidos na parede se moviam, ligações eram desfeitas e outras estabelecidas. Não compreendia, mas tinha certeza de que o invisível arruinaria as instalações de tal forma que alguns dias se passariam antes que pudessem ser reparadas.
Frunse rastejou cautelosamente em direção à sua mesa. Apoiando-se em um dos pés, ergueu o corpo, abriu a gaveta e retirou a pistola. Por baixo da mesa fez pontaria em direção ao lugar em que supunha estar o invisível e, num acesso de raiva e coragem, apertou o gatilho.
A descarga provocou um estrondo naquele recinto pequeno. Mas o efeito foi totalmente diferente do que esperava: o estrondo da explosão foi superado pelo ruído metálico do impacto do projétil contra a parede. Seguiu-se um uivo cortante e o estilhaçar do vidro. Ao se voltar, apavorado, percebeu que o tiro disparado para a frente quebrara a vidraça atrás dele.
Mas Frunse era um homem duro, e o fato tranqüilizador de que o estranho nem tomava conhecimento dos seus esforços, mas continuava a trabalhar calmamente, diminuiu o medo de que se sentia possuído. Inclinou-se sobre a mesa e levantou o fone. Discou apressadamente os três algarismos da polícia e gritou:
— Aqui entrou um invisível que está destruindo as instalações do equipamento de segurança.
Deixou cair o fone e voltou a se abrigar atrás da mesa.
O telefonema também não perturbou o invisível. Pelo estalo dos fios partidos e pelo crepitar das faíscas, Frunse percebeu que continuava a trabalhar.
Você não perde por esperar”, pensou com o ânimo furioso. “Logo será agarrado.”
Mas não tinha nenhuma idéia clara sobre a maneira pela qual a polícia poderia ser mais bem sucedida contra o inimigo invisível do que ele o fora.
Soltou um grito quando, pouco antes do momento em que, pelos seus cálculos, a polícia devia aparecer, os estalos e o crepitar cessaram subitamente e no mesmo instante a porta voltou a se abrir.
— Nãããoo! — gritou Frunse. — Está escapando!
Passou por baixo da mesa e correu à porta. Mas era evidente que na escuridão não via mais do invisível do que vira na sala bem iluminada.

* * *

Welinskij ouviu as pisadas de muitos pés. Poucos minutos antes ouvira o tiro disparado no barraco e o uivo da bala que ricocheteava.
As pisadas se aproximaram. Vinham da estrada e entraram no caminho que dava para o barraco. Pouco depois os vultos dos policiais em desabalada carreira surgiram na escuridão.
— Nãããoo! — gritou alguém do interior do barraco, no mesmo instante em que Welinskij saía do seu esconderijo. — Está escapando!
Os policiais se aproximaram. Num rápido exame, Welinskij contou oito deles. A escuridão era quase completa, mas viram-no. O grupo estacou. Depois que pelos seus cálculos fora visto o suficiente, Welinskij desapareceu no matagal. Alguém gritou:
— Sigam-no! Vamos! É ele!
Mas do lado do barraco ouviu-se a voz lamurienta de alguém que falava um péssimo russo:
— É aqui, seus idiotas! Foi daqui que ele desapareceu!
Welinskij correu pelo matagal. Estava a quase cinqüenta metros dos policiais quando estes se refizeram da confusão. Dois deles continuaram a persegui-lo. Os outros correram em direção ao barraco.
Subitamente Welinskij percebeu que alguém o segurava pela mão. Assustou-se. Mas Deringhouse ainda pretendia tomar outras iniciativas.
— Abrace-me por trás — ordenou a Welinskij.
Este obedeceu.
— Agora realizaremos um pequeno vôo, para nos afastarmos daqui o mais rápido e o mais longe possível. Neste traje está embutido um gerador que, ligado à potência máxima, produz um campo antigravitacional capaz de suportar nós dois. Para isso devemos dispensar a invisibilidade. Mas de noite isso não será tão perigoso.
Antes que pudesse proferir uma palavra, Welinskij teve a sensação de quem se encontra num elevador que desce em alta velocidade. Seu estômago parecia se levantar um pouco. Assim que se recuperou do susto, viu as luzes da mina bem abaixo do lugar em que estava.
— Não tenha medo — tranqüilizou-o Deringhouse. — Não é muito confortável, mas é melhor que fugir a pé.
— Mas se eu o soltar... — disse Welinskij, falando com dificuldade.
— Nesse caso não acontecerá nada — explicou Deringhouse. — Continuará a voar comigo. Só se der socos ou pontapés em mim será desviado, e assim que abandonar a gravisfera artificial cairá. Portanto, é preferível que continue comigo.
Riu. Mas Welinskij não estava com vontade de rir. Em seu interior o medo do desconhecido, do nunca visto, lutava contra a admiração provocada por esse produto de uma tecnologia incrivelmente desenvolvida.
Depois de algum tempo se acostumou à sensação estranha da ausência parcial de gravidade e começou a se interessar pelo que se passava em torno dele. Pelos contornos pouco nítidos das colinas do sul da cadeia dos Urais, que desfilavam abaixo deles, calculou em duzentos metros a altitude em que voavam e em cem quilômetros por hora a velocidade. A força do deslocamento do ar fora reduzida bastante pelo campo de gravitação artificial. Welinskij não sentia qualquer incômodo, mesmo quando olhava por cima do ombro de Deringhouse.
Pelo que notava, se deslocavam na direção oeste.

5



Embora, na qualidade de perito-militar, o marechal Sirov participasse do Conselho Supremo apenas como um adido, viu-se diminuído como os demais quatrocentos e quinze membros com direito de voto: foi reduzido à simples condição de um receptor de ordens.
Mantinha-se escondido e mudava diariamente de esconderijo.
Todos os dias, sempre numa hora diferente, entre as oito da manhã e o meio-dia, Sirov recebia um chamado telefônico e uma voz desconhecida lhe transmitia as notícias mais recentes. Sempre que fossem importantes ele as transmitia através de mais de vinte canais diferentes, cujo emaranhado geralmente lhe era desconhecido, fazendo-as chegar aos seus subordinados, a fim de que estes tomassem as providências que se fizessem necessárias.
Pelo menos três vezes por dia Sirov recebia um telefonema de um homem que, segundo supunha, era o secretário-geral Strelnikov. Este formulava sugestões de como se devia reagir a esta ou aquela situação e esperava que Sirov considerasse essas sugestões como ordens; o que o marechal fazia com a melhor boa vontade.
Naquele dia, em 18 de junho, Sirov recebeu, logo depois da transmissão das últimas notícias, um chamado de alguém que falava com a voz disfarçada.
— Grande vitória — disse a voz.
— Grande êxito — respondeu Sirov. Eram as senhas combinadas para que Sirov recebesse como ordens tudo que lhe fosse dito em forma de sugestão.
— Temos novidades a respeito do agente de Rhodan — prosseguiu a voz. — Ontem de noite apareceu em Bajmak, na área de Magnitogorsk, pela forma usual e incompreensível. Demonstrou muita autoconfiança. O capitão Welinskij estava com ele. Safou-se mal e mal de um controle realizado num trem. Na noite do mesmo dia o sistema de segurança da mina de urânio foi danificado de tal forma que o pessoal terá que trabalhar pelo menos dois ou três dias para repará-lo.
Naquela voz notava-se um tom de triunfo. De início Sirov ficou admirado com isso; mas logo compreendeu.
— Daí se pode concluir sem a menor dúvida — prosseguiu a voz — que Welinskij e aquele agente tentarão atacar a mina, e isso antes que as instalações de segurança tenham sido reparadas. Portanto, sabemos que nas próximas vinte e quatro horas, ou ainda nas próximas quarenta e oito horas, os dois permanecerão em Bajmak.
Sirov compreendeu.
— Quero que mande seus melhores elementos para lá — disse a voz. — Os dois não devem escapar!
— Entendido — respondeu Sirov. — Providenciarei imediatamente.
— Muito bem. Por enquanto só tivemos conhecimento de um agente que Rhodan introduziu em nosso território. Tudo indica que realmente não haja outro. Logo, parece que no momento não há nenhum perigo para Moscou.
Isso representava certo alívio, não só para Strelnikov.
A palestra terminou com o estalo do fone. Sirov baixou o gancho e discou rapidamente uma seqüência de algarismos que sabia de cor. Transmitiu as instruções de Strelnikov e todas as informações adicionais, e insistiu na necessidade de que Welinskij e o agente fossem capturados de qualquer maneira.
No curso do telefonema Sirov ouviu um ligeiro chiado no pequeno apartamento que ocupava naquele dia. Interrompeu a palestra e se virou. Podia ver a área fronteira à porta; não havia ninguém. Disse para si mesmo que algum ruído da rua devia ter chegado até lá e continuou a falar ao telefone.
Quando terminou o telefonema, ficou sentado mais algum tempo diante do telefone, mergulhado em pensamentos e olhando para a janela encortinada. Depois se levantou para pegar o maço de cigarros que se encontrava no bolso do paletó.
Quando ia se afastando da escrivaninha, ele os viu, os dois.
Um deles era Welinskij. Sirov vira muitos retratos dele e o reconheceu imediatamente. O outro devia ser o agente da Terceira Potência. Era alto e magro, tinha o cabelo louro cortado à escovinha e seu rosto exibia um sorriso irritante.

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