— O soldado Lvov cometeu um erro. Correu à
frente do grupo por conta própria. Não gosto de pôr a culpa nos mortos.
— Quer dizer que Lvov está morto?
— Sim, general. Encontramos seu cadáver na
praia.
— Quer dizer que aquele homem solitário do
grupo de Rhodan foi o elemento mais capaz. Será que nem com uma superioridade
de doze para um e com todas as vantagens estratégicas o senhor está em
condições de cumprir uma missão destas?
A benevolência desapareceu por completo do
rosto de Tomisenkow.
— Por que veio até aqui, tenente? Para
anunciar seu fracasso?
— Vim pedir reforços, general. Atingimos o
mar e, para estarmos seguros, devemos controlar pelo menos dez quilômetros de
costa. Além disso, julgo necessário que cada grupo seja composto ao menos de
três homens. Precisamos dessa superioridade, que na verdade nunca passará de
uma inferioridade.
— O que quer dizer com essa frase
contraditória, tenente?
Tanjev voltou a hesitar.
— General, o senhor sabe perfeitamente o
que andam contando por aí...
— É aquela história do gigante e do
feiticeiro, não é? — disse Tomisenkow em tom áspero. — Não venha me dizer que
vai falar seriamente nos termos das fantasias propagadas pelas revistas de
fim-de-semana. Se o grupo comandado pelo senhor é composto de gente ingênua,
mandarei recolhê-lo ao acampamento e o substituirei por uma tropa composta de
gente adulta.
— Às ordens, general! Cumpriremos nosso
dever. Mas acho que os reforços são indispensáveis.
— Por causa dos dez quilômetros de costa?
— Sim, general — respondeu Tanjev em tom
submisso.
— Muito bem; o senhor os receberá.
Tomisenkow escreveu um bilhete.
— Apresente isto ao coronel Popolzak e
escolha os melhores elementos. Espero que da próxima vez que se apresente possa
comunicar uma ação bem sucedida. Obrigado.
— Obrigado, general. Mais uma pergunta. A
suspensão das comunicações pelo rádio continua de pé? Num caso urgente uma
mensagem radiofônica será mais apropriada...
— Pode retirar-se, tenente — interrompeu
Tomisenkow. — Darei novas instruções quando julgar conveniente. A suspensão
continua de pé. Tenho motivos para isto.
Dali a uma hora o tenente Tanjev saiu do
quartel-general, acompanhado de vinte e cinco soldados.
Durante essa hora o general não quis falar
com ninguém. As informações de Tanjev levaram-no a refletir, embora não o
reconhecesse perante os outros. Ele mesmo achara instintivamente que havia algo
de verdadeiro naqueles boatos que nunca silenciavam. Mas não havia nada de
tangível. Era apenas o milagre dos êxitos de Perry Rhodan e da Terceira
Potência, que já se prolongavam por dez anos. Devia haver alguma explicação
para o fato.
Pensou em Thora, a arcônida aprisionada. E
no robô R.17, que nunca saía de seu lado.
Sua mão se fechou. Deu uma pancada na mesa
de lona e despedaçou-a. Nem por isso sua exaltação diminuiu.
Dirigiu-se à saída da barraca.
— Coronel Popolzak — gritou em meio ao
amanhecer de Vênus.
O coronel engatinhou para fora da barraca
vizinha.
— Às ordens, general.
— Venha cá! Preciso de cinco homens de
absoluta confiança.
— Pois não. Logo os mandarei.
— Deixe-me terminar! Não quero ver estes
homens. Ninguém deve vê-los. Daqui a pouco darei um passeio com a prisioneira,
fora do acampamento.
Tomisenkow explicou mais alguns detalhes e
dirigiu-se à cabana que abrigava Thora e seu robô.
— Olá, miss Thora. Posso entrar?
— Ah, é o general. Desde quando resolveu
praticar a cortesia?
Saiu da cabana e, num gesto de desafio,
atirou seu longo cabelo branco para a nuca. Tomisenkow evitou o olhar
zombeteiro de suas pupilas avermelhadas. Esse tipo de duelo com aquela mulher
sempre o deixara irritado.
— Quero convidar a distinta senhora para
um passeio. Acho que concordará em desfrutarmos juntos esta linda manhã de
Vênus.
— Vamos — respondeu Thora numa
surpreendente concordância. — Deve ter um estoque daqueles assuntos com que
costuma me entreter de forma tão agradável.
Tomisenkow sabia perfeitamente que até
então nenhum dos assuntos por ele abordados havia sido do agrado da arcônida. E
o assunto a ser tratado hoje seria ainda mais desagradável. A malícia voltou a
animá-lo.
— Aguarde a surpresa, madame.
— Estou certa de que conseguirá
surpreender-me, general. Por exemplo, esse canhão que traz nas costas...
Tomisenkow trazia um fuzil a tiracolo.
— Talvez tenhamos que penetrar em terreno
difícil. Não preciso explicar à senhora, que conhece perfeitamente as condições
reinantes em Vênus, que certos animais podem se tornar bastante perigosos.
— Na minha opinião o R.17 será suficiente.
— Talvez seja suficiente para proteger a
senhora. Mas estou convencido de que não moverá um dedo se alguma coisa
acontecer a mim. Por isso, peço-lhe que deixe por minha conta a escolha da
maneira pela qual vou proteger minha pessoa.
As sentinelas postadas na saída do
acampamento fizeram continência quando Thora, o general e R.17 passaram diante
deles.
— Por que vamos nos afastar tanto? —
perguntou a arcônida de repente. Estaria desconfiando de alguma coisa?
Tomisenkow conseguiu esboçar um sorriso.
— Não se preocupe, madame. Não nos
afastaremos do acampamento mais que a distância de um tiro. Se estiver
entrevendo a idéia de fugir com o auxílio de seu amigo artificial, ou mesmo de
fazer algum mal à minha pessoa, deixe que eu a previna em tempo. Quero lhe
falar a sós.
— Isso poderia ser feito na barraca do
senhor.
— Deixe a decisão por minha conta. E
procure se concentrar para dizer a verdade, no seu próprio interesse.
— Devo interpretar isso como uma ameaça?
— Sinta-se ameaçada enquanto não obedecer
às minhas ordens. Conte alguma coisa sobre seus mutantes.
— Sobre quem?
— Sobre seus mutantes. Refiro-me àquelas
pessoas misteriosas, sobre as quais a imprensa mundial andou publicando uma
porção de tolices. Acontece que deve haver algo de verdadeiro em tudo aquilo.
Sabe perfeitamente que dependemos um do outro. O próprio Rhodan dificilmente
terá uma chance na selva de Vênus. Deixou sua superioridade técnica em casa. E
antes que atinja a fortaleza do norte seu corpo apodrecerá nos pântanos.
— No entanto, o senhor acredita nos
mutantes. Admitamos a hipótese de que estes realmente existem. Neste caso a
superioridade de Rhodan não seria imensa? Mesmo sem os recursos tecnológicos?
Ainda acontece que o senhor se engana ao acreditar que Rhodan veio a este
planeta em minha companhia.
— Rhodan está aqui! — disse Tomisenkow em
tom áspero. — Não adianta negar.
— O que acabo de lhe dizer é a verdade,
general. O que adiantaria ratificar a mesma? Ao que parece está mais bem
informado sobre o paradeiro de Rhodan do que eu. Se ainda se encontra na Terra,
ele me tirará daqui antes que se passe mais um dia de Vênus.
— Pois antes que esse dia de Vênus chegue
ao fim, teremos atingido as montanhas do norte. E assim que estivermos de posse
da fortaleza, tenho todo o planeta sob meu controle. Se os planos secretos da
senhora prevêem outra coisa, só posso ter pena, madame. Se unir-se a mim,
levará o tipo de vida que lhe agrada. A outra alternativa seria continuar a ser
minha prisioneira para sempre. E posso lhe assegurar que disponho de meios para
tornar sua vida bastante desagradável.
— Não tenho a menor dúvida. Toda vez que
me diz uma coisa desagradável, suas palavras correspondem à verdade. Acho que
devemos voltar, general. Nossa palestra é inútil.
— E os mutantes?
— Conheço os mutantes da Terceira Potência
— disse Thora. — Alguns deles sabem ler pensamentos. Outros podem influenciar
os pensamentos de alguém. Os chamados teleportadores transferem-se de um lugar
para outro por força do pensamento. A qualquer momento encontram-se no lugar em
que querem estar. Se eu fosse uma teleportadora, poderia chegar à fortaleza de
Vênus dentro de dois segundos.
— Rhodan é um mutante?
— Isso seria novidade para mim. Por que
diz isso?
— Enviei uma patrulha que o vem
perseguindo há dias. Rhodan já atingiu a grande baía do mar do norte. Está numa
armadilha. Admitamos que não seja um mutante. Neste caso posso ter certeza de pôr
as mãos nele dentro de dois dias terrestres.
Thora não deixou perceber quão
profundamente a notícia que Tomisenkow acabara de dar-lhe a comovia. Embora ao
sair da Terra praticamente tivesse fugido de Rhodan, acreditava que este seria
o homem mais indicado para libertá-la. Depois que seus planos se frustraram com
a queda sobre a selva de Vênus, já estava arrependida no seu íntimo da sua ação
precipitada.
— Se acredita que ele se instalou em algum
lugar da costa do mar do norte, vá buscá-lo. Não posso impedi-lo.
Naquele instante um tiro foi disparado nas
proximidades. Uma bala ricocheteou e, assobiando, foi bater contra a rocha.
— Proteja-se! — gritou o general, mas
correu mais uns vinte metros antes de se atirar ao solo.
Thora desapareceu imediatamente. Mas o
robô continuava de pé e enviou um breve raio energético para a floresta, que
logo começou a arder.
Seguiu-se uma salva de tiros de armas
manuais.
Era evidente que o ataque se dirigia
exclusivamente contra a arcônida, pois o fogo se concentrou sobre o lugar em
que se abrigara.
No mesmo instante o robô saltou para a
frente.
Ninguém acreditaria que pudesse ser tão
ágil. Seu corpo foi cercado por uma camada tremeluzente, que parecia de ar
quente.
“Será
um campo energético?”, foi a pergunta que acudiu a Tomisenkow.
Pouco importava! Segurou o fuzil por baixo
do braço e colocou um projétil superdimensional no cano; parecia uma granada de
fuzil.
R.17 havia procurado um abrigo. A floresta
foi coberta por um fogo energético ininterrupto. Logo depois os tiros das armas
convencionais cessaram. O general completou a pontaria. Puxou o gatilho. O
campo energético do robô revelou-se impotente contra a granada atômica.
R.17 volatilizou-se numa ligeira nuvem
incandescente.
Poucos segundos depois Tomisenkow
encontrava-se ao lado de Thora.
— Paço votos de que a senhora tenha
passado sã e salva por tudo isso, madame. Posso ajudar?
O tom de voz e as palavras do general
deixaram a arcônida ainda mais confusa. Não conseguiu dissimular o choque. R.17
ainda representava um certo apoio moral para ela, mesmo como prisioneira. O
ataque parecera verdadeiro. Mas quando ouviu as palavras de Tomisenkow percebeu
que se deixara cair numa armadilha.
Ignorou a mão que se estendia em seu
auxílio e levantou-se sozinha.
— O senhor é um homem ordinário! Thora
estava furiosa.
Isso fez com que Tomisenkow gozasse seu
triunfo com mais intensidade. E nem desconfiava de que na boca daquela mulher a
palavra homem representava uma
ofensa muito grave.
— Vamos voltar, madame. Imagino que a
perda de seu protetor metálico deve tê-la atingido profundamente e que a
continuação do passeio não constituirá um bom descanso. Vá para a cama e
descanse um pouco.
— Isso o senhor me paga, general.
— Por que justamente eu?
— O senhor não vai querer negar que essa
manobra infame foi tramada pelo senhor.
— É claro que não. A senhora dá provas de
sua elevada inteligência por ter descoberto isso tão depressa. Saiba perder
esportivamente, madame.
Thora cuspiu diante dele. Vira algum homem
fazer isso e pouco se importou com o fato de que um gesto desse tipo não ficava
muito bem para uma dama. Aliás, não tinha o menor interesse em guardar as formalidades
terrenas. Quando se enfurecia, perdia toda inibição.
Tomisenkow já conhecia sua prisioneira há
bastante tempo; sabia que, enquanto ela se encontrasse nesse estado, não seria
fácil conversar com ela. Sem dizer uma palavra deu-lhe as costas e se dirigiu
ao acampamento. Cem metros atrás dele Thora passou pela sentinela. Um soldado
seguiu-a a certa distância para verificar se realmente se recolhia à sua
cabana.
O general mobilizou um grupo que se pôs a
controlar o incêndio da floresta. O estoque de extintores a seco era muito
reduzido, mas foi suficiente para manter o fogo sob controle. A flora suculenta
de Vênus não era um combustível muito eficiente. Naquele planeta não se
conheciam secas prolongadas que permitissem o resseca-mento das florestas e das
estepes.
Tomisenkow era de uma obstinação
proverbial. Voltou a se dirigir a Thora para perguntar sobre os mutantes.
— Fora, seu bárbaro! — gritou Thora e
respirou profundamente para amontoar novos insultos sobre o russo. Mas o
sorriso zombeteiro que seu rosto exibia tirou-lhe a fala. Deu-lhe as costas e
não disse mais uma palavra.
O general usou uma linguagem mais gentil.
— Em certa oportunidade a senhora me
ameaçou, dizendo que o R.17 poderia destruir toda a tropa sob meu comando.
Levei suas palavras a sério. Será que vai me dizer que tudo não passava de um
blefe inocente?
Thora não respondeu.
— Pois bem, seja o que quiser! — resmungou
Tomisenkow. — Não acredite que continuarei disposto por toda vida a prestar
contas à senhora. A senhora me ameaçou, e eu nunca ocultei o fato de que para
mim o robô representava um obstáculo. Fui mais rápido, e a senhora se encontra
sob meu poder, mais que antes. Ainda dispõe de duas horas para descansar.
Depois levantaremos o acampamento e marcharemos na direção nordeste. A
fortaleza de Vênus cairá. Não tenha a menor dúvida. E quem assumirá a herança
de seus antepassados arcônidas serei eu, só eu. Com a senhora ou sem a senhora,
pouco importa.
Não obteve resposta. Depois de algum tempo
saiu, dando de ombros.
Ao passar pela praça central do
acampamento, viu a tábua negra colocada junto aos alojamentos da companhia de
prontidão. Popolzak mandara afixar outro papel em que estavam escritos os nomes
dos cinco homens tombados no combate contra o R.17.
Tomisenkow procurou reprimir a indagação
sobre a finalidade dessa ação. Quando entrou em sua barraca sentia dor de
cabeça.
* * *
Dali a cinco horas terrestres seu pequeno
exército se encontrava em marcha. A gravitação pouco intensa de Vênus tornava
mais fácil aos homens carregar os preciosos equipamentos e os mantimentos que
conseguiram salvar do pouso malogrado. Não era muito, se comparado com aquilo
de que precisariam nos próximos meses. Tanto mais avarentos seriam no trato do
que lhes restava. Quem deixasse para trás qualquer coisa, por desleixo ou
comodidade, era chamado a prestar contas. Neste ponto as ordens de Tomisenkow
eram inequívocas.
Há meses fora realizado um levantamento da
situação. Dali em diante as vistorias e os controles eram realizados a curtos
intervalos. Todo fósforo, todo pacote de alimento desidratado, todo cartucho
era registrado. Quem disparasse um tiro tinha que dar contas e apresentar um
relatório.
As unidades de vanguarda e de retaguarda
eram as que conduziam menos carga. Deviam ser dotadas de maior grau de
mobilidade. De cada vez que Tomisenkow fazia sua tropa empreender uma marcha
mais prolongada, para transferir seu quartel-general mais um pedaço para o
nordeste, voltava a surgir a indagação se sua disposição otimista se
justificava face à força de combate de seu exército.
Nas baixadas pantanosas da selva não havia
possibilidade de manter a coluna bem unida. Às vezes a vegetação era tão
espessa que tinha de ser removida por meio de granadas atômicas. Tratava-se de
armas limpas, cujo processo de
fusão nuclear não causava qualquer radiação perigosa. Mas sempre havia o perigo
de um incêndio na floresta. Assim a utilização das granadas atômicas tinha de
ser reduzida a um mínimo, face à pequena reserva de substâncias extintoras de
que dispunham.
O caminho aberto pelas primeiras unidades
tinha que ser utilizado pelo restante da tropa. Por isso muitas vezes a coluna
se estendia por vários quilômetros.
Vista a situação sob esse ângulo, Tomisenkow
não tinha por que se orgulhar com o fato de que ainda dispunha de cerca de meio
regimento. Durante a marcha sempre deixava um flanco exposto ao ataque até
mesmo de um inimigo mais fraco. E seria uma arrogância dizer que um inimigo
como Perry Rhodan era fraco.
Por isso Tomisenkow sempre se mantinha nas
proximidades de Thora. E ele o fez com tamanha pertinácia que esta recuperou a
fala. Deu a entender sem rebuços que não gostava de sua companhia.
— Infelizmente não posso considerar seus
sentimentos. Preciso de um refém de que possa lançar mão se Rhodan atacar. E se
tiver a idéia de tirá-la à força, devo ter a possibilidade de matá-la antes que
isso aconteça.
Tamanha franqueza chocou Thora, que se
refugiou na altivez que lhe era peculiar.
Eram cento e treze horas quando uma
patrulha comunicou ter achado uma carabina automática russa. Um cabo apresentou
a arma ao general.
— Descobrimos uma fogueira a cerca de três
quilômetros ao sul, general.
— Uma fogueira?
— Sim, general, uma fogueira apagada. A
lenha carbonizada já estava fria. Esta carabina estava oculta sob o capim,
embaixo de uma árvore. O pessoal deve tê-la esquecido.
— E são nossos patrícios. É uma vergonha
ver como essa gente se perde quando não é mantida sob controle. É o senhor que
comanda a patrulha?
— Sim, general.
Antes que o cabo pudesse se dirigir ao
coronel que marchava a cinqüenta metros dali, uma salva abafada de armas de
infantaria soou na selva próxima.
— Procurem uma cobertura! — gritou alguém.
A ordem era desnecessária. Num reflexo instintivo os homens atiraram-se ao chão
e viraram-se para a direita. Enquanto caíam os fuzis foram empunhados
automaticamente.
Depois do primeiro ataque, o silêncio
passou a reinar. Até mesmo os pássaros de Vênus, que cantavam nas copas das
árvores, suspenderam seu concerto. Alguns se afastavam, batendo ruidosamente as
asas.
Outros estariam enfiando as cabeças sob as
penas.
Alguns tiros foram disparados nas fileiras
do grupo.
— Que diabo! — gritou Popolzak. — Só
atirem quando virem alguma coisa. Todo tiro deve acertar o alvo.
A resposta veio em forma de uma rajada de
metralhadora disparada pelo inimigo desconhecido.
— São uns idiotas — resmungou Tomisenkow,
com o nariz dois centímetros acima do solo. — Com esta vegetação não conseguem
atingir um homem por um tiro direto a uma distância de vinte metros. E esta
folhagem gosmenta come as balas como o mata-borrão come a tinta. Oh, desculpe,
madame!
Só agora o general percebeu que mantinha
Thora apertada contra o chão. Enquanto a mão direita segurava a coronha da
carabina automática, o braço esquerdo enleava a nuca da arcônida como se fosse uma
tenaz.
— Se machuquei a senhora não foi por
querer. A senhora é muito preciosa para que possa me arriscar a perdê-la dessa
forma. Aqueles rebeldes são os que menos estão em condições de dizer quando a
senhora deve morrer. São piores que assaltantes. Posso ajudar em alguma coisa?
— Solte-me e dê-me uma arma. Sei lidar com
ela.
— Não tenho a menor dúvida — disse
Tomisenkow, esticando as palavras. Num gesto hesitante pôs a mão para trás.
Subitamente segurou uma pistola de seis tiros e passou-a a Thora.
— Tenha cuidado, madame. Está carregada e
só se presta a uma luta corpo a corpo.
— Para mim basta — disse com uma expressão
indefinível no rosto.
4
Son Okura, o visor de freqüências que
tinha dificuldades de andar, e Perry Rhodan, chefe da Terceira Potência, não
formavam a equipe mais adequada para uma marcha a pé em Vênus. Ainda mais
quando o objetivo ficava a nada menos de quinhentos quilômetros em linha reta,
e havia como obstáculo um braço de mar de trezentos e cinqüenta quilômetros de
largura, que um belo dia também teria de ser vencido.
Desde o início a dificuldade de andar de
que padecia Son Okura teve que ser incluída nos cálculos. A ferida no ombro de
Rhodan só surgira posteriormente, quando os dois homens e John Marshall se
viram envolvidos num combate entre os rebeldes e os pacifistas do tenente
Wallerinski. Nem por isso Rhodan perdeu o bom humor. Tratava-se de uma
perfuração direta na altura da axila. Nenhum osso e nenhum músculo importante
havia sido atingido. Os medicamentos arcônidas apressaram a cura, mas apesar de
tudo as pontadas e as coceiras que sentia a toda hora convenceram Rhodan de que
ainda não se encontrava em plena forma.
— Deve se tratar!
As advertências de Okura eram obstinadas.
Voltara a construir uma cabana numa árvore, fechando o chão e as paredes com
trepadeiras e folhas largas. Para baixo a camuflagem era completa.
— Estas cabanas montadas em árvores servem
para gente que saiba viver, mas não para pessoas que querem ir para a frente —
resmungou Rhodan, contrariado.
— Acho que estamos de acordo: resolvemos
andar seguros. Aliás, na situação desvantajosa em que nos encontramos, não
temos outra alternativa.
— Tenho minhas dúvidas; é bem possível que
estejamos participando de uma corrida. Se Tomisenkow e Thora chegarem antes de
nós à fortaleza escavada na rocha, ninguém nos garante que não entrarão. Como arcônida, Thora é portadora de
um cérebro reconhecido.
— Acredita que ela nos trairia?
— Tanto faz que haja traição ou não. Os
homens do Bloco Oriental a têm nas mãos. Podem forçá-la.
— OK — disse Okura com um sorriso. — Estou
convencido de que ganharemos a corrida. Com toda lentidão, ainda somos mais
rápidos que o general Tomisenkow. Não conseguirá arrastar seu exército pela
selva com a mesma rapidez dos corpos inválidos. Depois do patrulhamento que
realizei ontem, tenho certeza de que os remanescentes do exército de Tomisenkow
estão bem próximos. Isso significa que já recuperamos algum terreno e tenho
certeza de que chegaremos à costa antes dele. Quanto a Marshall, não há dúvida
de que não precisamos nos preocupar com ele.
— Gostaria de ter seu otimismo — disse
Perry Rhodan. — Acontece que não devemos pensar apenas em termos táticos, mas
também em termos estratégicos. Você se esquece das relações mais importantes
entre os fatos.
— Não compreendo.
— Até aqui pensamos apenas nos homens com
que nos encontramos diretamente. Mas vamos começar do início para descobrir as
causas e o sentido de tudo aquilo.
— A causa de nossa presença neste planeta
é a fuga de Thora.
— Muito bem. Agora pense nos russos.
— O Bloco Oriental invadiu o planeta Vênus
sob o comando do general Tomisenkow. E nós lhes atrapalhamos os planos. A
divisão de Tomisenkow está praticamente aniquilada. Ao que tudo indica só um
pequeno grupo de homens continua a obedecer suas ordens.
— Continue. Mas não pense apenas nos
desertores. Deve haver mais gente na superfície de Vênus.
Son Okura refletiu.
— Gente do Bloco Oriental?
Perry Rhodan fez que sim.
— É claro que sim, meu caro.
— Está aludindo à frota de abastecimento?
Bem, já me lembrei disso. Deve estar lembrado de nosso encontro com o sargento
Rabov, que foi morto durante um combate. Contou muita coisa, mas nunca aludiu
ao pouso da frota de abastecimento.
— Pois é justamente isso! Provavelmente o
próprio Tomisenkow não sabe nada a respeito disso. Mas tenho para mim que essa
frota deve ter pousado. O Bloco Oriental mandou duzentas unidades. Destruímos
trinta e quatro quando o campo energético de nossa nave atravessou, por
coincidência, o centro da frota. É possível que outras naves tenham sido
destruídas durante o pouso. Mas aposto que mais de cem veículos espaciais
conseguiram descer em Vênus.
Son Okura empalideceu.
— Santo Deus! Isso significaria...
Não foi necessário terminar a frase. Ambos
sabiam o que isso significava. Em algum ponto de Vênus devia haver outra tropa,
que dispunha de um equipamento muito melhor.
— Não há dúvida de que a frota de
abastecimento se destinava ao general. O fato de que até hoje não se apresentou
a ele — prosseguiu Rhodan em tom indiferente — apenas prova que também este
clube declarou sua independência. A independência parece grassar em Vênus como
uma epidemia.
Não falaram mais no assunto, embora fosse
muito interessante. Seus planos previam um repouso de seis horas. E no momento
a restauração das forças era mais importante que todas as especulações
estratégicas. Durante a marcha teriam tempo para as mesmas.
* * *
Dormiram o tempo previsto e puseram-se a
caminho. Okura já não saberia dizer quantas cabanas construíra nas árvores de
Vênus. Tornara-se mestre nessa arte. As construções iam ficando cada vez
melhores e mais belas. Apesar disso tinham de ser abandonadas para sempre.
Falavam nesses pequenos aspectos
sentimentais quando enjoavam de conversar sobre os grandes problemas.
Geralmente calavam-se de vez depois que os primeiros quilômetros de marcha
chamavam à sua lembrança o fato de que o planeta Vênus com suas selvas
representava uma provação interminável.
No dia seguinte — por uma questão de
hábito costumavam contar o tempo pelo calendário terrestre — ouviram tiros.
Rhodan, que ia à frente, parou imediatamente. Antes que pudesse dizer qualquer
coisa, ouviu-se outra salva.
— É uma batalha. Pelos meus cálculos é bem
ao norte.
— Só pode ser no norte, pois é lá que
Tomisenkow se encontra.
Seguiu-se a detonação de uma bomba ou de
uma granada. Depois disso o silêncio voltou a reinar. Esperaram mais quinze
minutos. Mas o tiroteio não se repetiu.
— O que acha, Son?
— Devem ter montado acampamento. Numa
posição defensiva vai ser fácil para eles repelir os ataques de Wallerinski.
— Quem sabe se foi Wallerinski.
Formularam outras suposições, que não se
aproximavam da verdade. Não sabiam que o general Tomisenkow acabara de destruir
o robô R.17.
— Vamos ficar mais à esquerda — decidiu
Rhodan. — Estamos a uma distância muito grande do pessoal do Bloco Oriental. A
prudência não deve ser exagerada.
— A prudência nunca pode ser exagerada —
declarou Okura.
A lição fez o chefe sorrir.
— É claro que não. Ainda existe a
possibilidade de que alguém possa precisar de nós. Thora, por exemplo.
O plano de Rhodan foi executado. Depois de
percorridos outros dez quilômetros, uma cabana foi construída numa árvore e
ocupada imediatamente. Antes de dormir fizeram as tentativas rotineiras de
estabelecer contato pelo rádio com Bell. Operavam obstinadamente as antenas
escamoteáveis do tamanho de uma agulha. Mas tal qual nos dias anteriores, a
Good Hope-V não respondeu.
— A chave secreta X — resmungou Rhodan. — Parece que é muito
eficiente.
— Ou então Bell já regressou à Terra.
— Prometeu exatamente o contrário. Seja
como for, dependemos exclusivamente de nós mesmos. Boa noite, Son.
— Boa noite, chefe.
* * *
Desta vez o tiroteio os despertou. Okura
logo sentiu a mão de Rhodan, que se colocara em seu braço num gesto de
advertência.
— Fique quietinho, rapaz! Estão bem à
frente da nossa porta.
Realmente parecia que os tiros estavam
sendo disparados bem embaixo da árvore. Mas era uma ilusão. A abóbada de
folhas, formada pelas árvores de cerca de cinqüenta metros de altura, produzia
efeitos acústicos perturbadores.
Espiaram pelas folhas da cabana.
— Não vejo nada — disse Okura.
— Com a visibilidade de que dispomos isso
seria muito difícil — resmungou Rhodan em tom nervoso. — Gostaria de saber...
ora, é lá!
Apontou com o dedo. Seu companheiro já
havia visto o movimento. Eram homens que se deslocavam entre a vegetação
rasteira, a uns cem metros de distância.
Mais alguns tiros foram disparados. De
início eram isolados. Mas logo se seguiu uma salva.
— A batalha está sendo travada mais à
esquerda, pelo menos a quinhentos metros daqui. Mas aquilo que se mexeu lá
embaixo foi um homem.
— É claro que foi. Vi uma cabeça.
— Muito bem. Vou dar uma espiada.
— Fique aqui, chefe; será...
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
— Não farão coisa alguma comigo. Sei me
cuidar. Fique aqui e mantenha nossa posição.
Aconteça o que acontecer, não se traia com um tiro. Aquilo que fica por
ali quando muito é o alojamento de um grupo de rebeldes. Mas quem sabe se essa
gente não tem alguma comida para nós. Temos necessidade premente de um
reabastecimento de munições e mantimentos.
Son Okura estava acostumado a obedecer.
Limitou-se a confirmar com um aceno de cabeça.
Perry Rhodan desceu pela borda da
plataforma. Se não descesse muito depressa, o risco de ser descoberto não seria
grande. A folhagem densa das trepadeiras que parasitavam as árvores
fornecia-lhe uma excelente cobertura, que descia até o solo.
Teve que descer uns vinte metros. Para
aliviar o ombro direito, colocou quase todo o peso do corpo sobre a mão
esquerda.
Chegou ao solo sem ser visto, e aqui a
visibilidade ainda era menor. Mas lembrava-se da direção que devia seguir e foi
avançando. A batalha certamente desviaria a atenção daquela gente. Nos
alojamentos dos rebeldes ninguém consideraria a possibilidade de que alguém
pudesse se encontrar nas suas costas. Um perigo maior que o dos soldados
desertores poderia provir dos animais de Vênus, e Rhodan teve bastante juízo
para dedicar sua atenção também à vizinhança imediata.
Ao que parecia o destino resolvera
ajudá-lo. Conseguiu se desviar das lagartas, dos besouros e das borboletas que
dançavam no ar. Poderiam ser venenosas, mas não se interessavam por ele. Um
ataque partido dali seria pura coincidência.
As trepadeiras representavam um obstáculo
mais difícil. Às vezes formavam uma verdadeira cerca viva. Teve que se espremer
entre elas, e por vezes via-se obrigado a dar ao seu corpo a configuração de
uma cobra. Se quisesse cortar aquela vegetação resistente, gastaria muito
tempo. Além disso, as plantas poderiam estar submetidas a uma espécie de tensão
estática. Nos dias anteriores Rhodan via várias vezes uma trepadeira cortada
chicotear o ar com um silvo, como a corda retesada de um arco de atirar. O
barulho poderia traí-lo. E se um homem recebesse um impacto pouco feliz, isso
poderia significar a morte.
Quando se encontrava a uns trinta metros
do acampamento, fez uma pausa prolongada. As mãos e o rosto estavam arranhados.
Pegou o lenço e enxugou o suor que lhe penetrava nos olhos; viu que havia
sangue misturado ao mesmo.
Apenas uns arranhões e alguns pedaços de
pele esfolada, foi o comentário silencioso que a descoberta provocou nele. Mas
atrás desse comentário ocultava-se uma pergunta menos animadora. A selva
misteriosa de Vênus poderia ser tratada com tamanho desdém? Era bem verdade que
nos últimos anos, os botânicos haviam esclarecido muita coisa a respeito da
flora de Vênus. Mas só uma fração reduzida das espécies existentes pôde ser
classificada e determinada segundo seus componentes químicos. Qualquer espinho
aparentemente inofensivo podia trazer em si o germe da morte.
Rhodan fez um esforço para se libertar
dessas idéias. Concentrou-se sobre os homens que se encontravam à sua frente.
Há anos falava um russo excelente; por
isso não teve a menor dificuldade em acompanhar a conversa daqueles homens. Era
verdade que se mostravam bastante lacônicos. Apenas mencionaram que estavam
cansados e achavam que o ataque de Wallerinski contra a tropa de Tomisenkow era
muito arriscado. O resto da conversa foi conduzido em voz tão baixa que Rhodan
não compreendeu nada.
Teria que chegar mais perto.
Seus movimentos tornaram-se mais
cautelosos e já não avançava tão depressa. A intensidade do combate que se
travava à distância aumentara ainda mais e dificilmente os rebeldes voltariam
num breve espaço de tempo, a não ser que Wallerinski sofresse uma derrota grave
e fosse levado de roldão pelas tropas de Tomisenkow.
Finalmente Rhodan viu uma pequena clareira.
Ou melhor, um lugar em que o capim havia sido pisado. Não tinha mais de vinte
metros de diâmetro. Mas acima desse lugar as copas das árvores fechavam-se numa
cobertura espessa, não deixando penetrar mais luz que em qualquer outro lugar.
As flores coloridas em forma de orquídeas que as trepadeiras ostentavam
pareciam abandonadas naquela semi-escuridão.
Rhodan viu cinco homens.
Quatro deles dormiam, ou ao menos estavam
estendidos no capim. O quinto, sentado, recostara-se a uma árvore e fumava um
cachimbo.
O equipamento que aqueles homens vigiavam
provocou a inveja de Rhodan. Pareciam dispor de uma grande profusão de armas
manuais; além de algumas caixas, cujas inscrições eram bastante reveladoras,
havia ao menos umas quarenta ou cinqüenta carabinas automáticas jogadas embaixo
de uma árvore, bem perto do lugar em que Rhodan se encontrava.
— O presidente não devia ter tanta pressa
com suas concepções — disse um dos homens deitados no capim. — Afinal, a idéia
de impor a paz pela força nada tem de original.
— Você tem umas idéias esquisitas — disse
outro. — Enquanto Tomisenkow não quiser a paz, nós temos que lhe dar uma lição.
— Quer dizer que só poderemos ser
verdadeiros pacifistas quando todo mundo for?
— Que bobagem! Já somos verdadeiros
pacifistas. Até parece que você andou dormindo durante as aulas.
O homem que fumava cachimbo fez um gesto
aborrecido.
— Parem com essa conversa de adolescentes.
No momento só importa o que o presidente consegue fazer. Esse tiroteio já está
demorando demais. Quando um ataque não dá certo no primeiro instante, vejo as
coisas pretas.
— Igor, você ainda vai se dar mal com esse
tipo de conversa. O presidente sabe o que quer. Deposito toda confiança nele.
— O presidente se sentirá muito orgulhoso
com isso, Mitja. Mas sei perfeitamente que para ele você não passa de um
sabe-tudo. E o presidente não gosta desse tipo de gente.
— Pense o que quiser. Ele gosta de mim
conforme desejo. Se está aludindo aos bons conselhos que lhe dei, posso lhe
assegurar que Wallerinski ficou muito grato. O projeto da armadilha nas árvores
será executado assim que chegarmos ao rio.
— Não diga! Você conseguiu convencê-lo?
Por que resolveu atacar o general hoje?
— Pergunte a ele! De qualquer maneira meus
conhecimentos táticos bastam para que eu saiba que, por aqui, uma armadilha nas
árvores seria um jogo de loteria. Mas no rio o general não poderá deixar de
usar a passagem situada acima das cataratas. Conforme deve estar lembrado, do
lado oposto existe um desfiladeiro bem profundo. Terá que passar por lá. Basta
que no momento exato nos encontremos em cima das árvores e...
— Calem a boca! — queixou-se outro dos
homens. — Se cada um de vocês quiser gritar mais que o outro, o barulho fará
com que as patrulhas de Tomisenkow estejam aqui antes dos nossos companheiros.
Mitja, você está de sentinela. Abra os olhos e os ouvidos. E os outros vão
ficar deitados. Se não estiverem gostando, contem ao presidente. Mas não me
causem problemas.
O último dos interlocutores parecia ser um
oficial subalterno. De qualquer maneira possuía certa autoridade. Perry Rhodan
não gostou nem um pouco. Enquanto os homens conversavam, se distraíam. Mas
agora o menor ruído poderia revelar sua presença.
De outro lado, porém, o barulho produzido
pelas criaturas que habitavam a floresta ainda poderia ser usado como cortina
sonora. Bastava aguardar o bater das asas de um pássaro ou o chamado de algum
bicho que se encontrasse numa árvore para que Rhodan pudesse se mover sem ser
ouvido. Apenas, a operação progredia mais lentamente do que fora planejada.
Com uma trepadeira da grossura de um dedo
fez uma espécie de laço. Havia uma alça na ponta. Fez o artefato avançar
centímetro por centímetro, até enfiar a alça por cima do cano de uma carabina.
Com um puxão fechou a alça, que encontrou apoio no dispositivo de mira. Demorou
uma infinidade até que conseguisse se apossar da arma. E ainda lhe faltava um
suprimento suficiente de munições e mantimentos.
A presa seguinte que escolheu foi uma
caixinha com a inscrição “extrato de
carne”. O laço teria que ser um pouco maior. Conseguiu aproximá-lo do
objetivo. Mas quando deu o puxão final, a caixa tombou ruidosamente.
A sentinela se levantou imediatamente.
— Stoj! — soou seu comando, embora não pudesse ver Rhodan. No mesmo
instante os outros soldados puseram-se de pé e num gesto automático pegaram as
armas.
Rhodan percebeu imediatamente que diante
dessa bateria de carabinas prontas para disparar não teria a menor chance de
fugir. Para compensar a inferioridade de forças teria que recorrer à
inteligência e ao blefe.
Levantou-se calmamente, apontando o cano
da carabina recém-capturada para o chão.
— Levante as mãos! — foi a ordem que
recebeu.
Evidentemente não tomou conhecimento dessa
ordem. Aparentemente contrariado, passou por cima de uma raiz e chegou mais
perto das cinco sentinelas.
— Pare imediatamente!
Rhodan fez exatamente isso. Seu rosto
exibiu um sorriso matreiro e a expressão de um superior insatisfeito.
— Quem está no comando? — indagou em tom
autoritário, num russo impecável.
Sua atitude autoconfiante deixou os cinco
perplexos. Nenhum deles se lembrou de repetir a ordem de levantar as mãos.
— Que diabo! Será que todo mundo perdeu a
fala? — esbravejou Rhodan, prosseguindo na aplicação da mesma receita. — Que
tiroteio é esse? Será que estes guerreiros de salão pertencem ao seu grupo?
Finalmente um dos homens do Bloco Oriental
pôs-se a falar.
— Meu nome é Ilja Iljuchin, senhor.
— Não tem nenhuma graduação?
— As graduações foram abolidas desde que o
presidente Wallerinski...
— Cale a boca!
Perry usou um tom cada vez mais arrogante,
pois esperava que uma voz de comando retumbante não deixaria de produzir algum
efeito.
— Fiquem sabendo que sou o comissário
Danov, R. O. Danov. O governo do Bloco Oriental, formado há trinta dias,
desembarcou unidades pesadas em Vênus, para restabelecer a paz e a ordem. A
breve palestra que mantive com os senhores me deu a impressão de que na divisão
de Tomisenkow surgiram costumes bastante estranhos, que dificilmente contarão
com a boa compreensão do governo. Recomendo-lhes que procurem se lembrar
imediatamente do seu juramento e dos seus deveres.
— Não pertencemos à divisão de Tomisenkow,
comissário.
Rhodan viu Mitja dar um soco nas costelas
do interlocutor. Mas nem por isso a confissão de amotinamento poderia ser
retirada.
— Mais tarde falaremos sobre os detalhes.
Por enquanto façam parar esse tiroteio estúpido. Qual foi o nome que disse há
pouco? Wallerinski?
— Tenente Wallerinski, comissário.
— Muito bem! Esses dois aí seguirão
imediatamente para informá-lo sobre a nova situação. A partir de hoje os
comissários detêm todo poder de comando em Vênus. Quero que o tenente e seus companheiros
estejam aqui o mais tardar dentro de trinta minutos. O que estão esperando?!
Rhodan olhara instintivamente para os dois
pacifistas que lhe pareciam ter um caráter mais independente. Precisava se
livrar deles por algum tempo. Obedeceram.
Sem esboçar o menor protesto, puseram-se a
caminho em direção ao norte. Quando desapareceram entre a vegetação, Rhodan
ainda tinha três inimigos diante de si. Essa alteração favorável da relação de
forças deixou-o mais otimista.
— Soltem as carabinas. Enquanto não
tiverem renovado seu juramento, não posso concordar que usem armas.
Por alguns segundos parecia que Rhodan
estava forçando a situação, que os três pacifistas estavam percebendo o blefe.
Os homens hesitaram. Mas logo teve início um jogo de que mal chegou a ter
consciência.
Rhodan ainda mantinha o cano da arma
abaixado. O aspecto que oferecia aos pacifistas não se tornaria mais
convincente se, ao erguer a pesada carabina, esta lhe caísse da mão. O ombro
ferido ainda não suportaria tamanho esforço.
Mas seus olhos não haviam sido afetados. A
potência daquele olhar, que não podia ser confundida com a hipnose corriqueira,
mas antes representava o resultado de um treinamento hipnótico arcônida,
continuava intacta.
A hesitação daqueles homens poderia se
tornar perigosa.
— Larguem as armas! — voltou a ordenar.
Proferiu estas palavras sem deixar se
arrastar ao tom de berreiro de um oficial subalterno. Mal chegou a levantar a
voz, mas esta não deixou de produzir o efeito desejado.
Os pacifistas obedeceram.
— Meia-volta volver!
Estas palavras foram proferidas no tom
incisivo de um comando de pátio de quartel.
Mais uma vez os pacifistas, perplexos,
obedeceram.
Rhodan abaixou-se, apanhou as armas e
atirou-as para trás de si. Todas, com exceção de uma. Tratava-se de uma pistola
leve, que conseguia manter erguida apesar das dores que sentia no ombro.
— Meia-volta volver! — foi o comando que
soou a seguir. Mais uma vez fitou os três homens de frente. Desta vez a pistola
conferia-lhe uma superioridade total. Até a experiência seguinte foi coroada de
êxito, muito embora uma pessoa menos treinada para uma obediência cadavérica
naquela oportunidade já lhe estaria causando problemas. Mas para aqueles homens
Rhodan era o comissário R. O. Danov. Fizeram-lhe o favor de se amarrar uns aos
outros com cipós finos, mas muito resistentes. Perry cuidou do resto.
Amarrou-os a três árvores diferentes, com o rosto voltado para o norte, e ainda
lhes colocou uma mordaça.
Depois de terem sido submetidos a esse
tratamento, os três pacifistas poderiam chegar à conclusão de terem caído num golpe
atrevido. Mas essa conclusão chegou cinco minutos depois da hora.
Por mais algum tempo ouviram ruídos atrás
de si, e esses ruídos davam a entender que o estranho inimigo se mantinha
ocupado com seus pertences. Depois de algum tempo o ruído dos passos e das
trepadeiras tiradas do caminho às pressas se afastou.
Se não fossem as mordaças, a essa hora uma
praga dramática sairia dos lábios dos três homens logrados.
* * *
Ao chegar à sua árvore, Perry Rhodan dispôs-se
a transmitir o sinal convencionado para cima. Mas Son Okura já se encontrava a
seu lado.
— Quando ouvi que você falava em voz alta,
percebi que tinha sido descoberto. Foi por isso que desci.
— Pois terá que subir de novo para apanhar
nossa bagagem. Temos que desaparecer o mais rápido possível. Deixe para lá;
mais tarde explico.
O visor de freqüências arregalou os olhos
para as duas carabinas pesadas, as pistolas e a sacola com conservas. Mas logo
se pôs em movimento e foi buscar as bugigangas que se encontravam na cabana.
— Temos que levar tudo isto — disse Rhodan
em tom indiferente. — Quanto antes. Dentro de vinte minutos Wallerinski encontrará
três homens amarrados em seu acampamento, e se a essa hora não nos encontrarmos
a uma distância razoável, nossa situação poderá se tornar bem difícil.
— Agüentarei alguns quilômetros — disse o
pequeno Okura em tom confiante e pegou mais de metade da bagagem.
Encontravam-se numa baixada. Às vezes a
floresta era tão densa que até parecia que fora montada por um gigante, segundo
um modelo sofisticado. Por maiores que fossem os esforços, o deslocamento não
poderia ser muito rápido. Apesar disso, cada passo que conseguiam dar
representava mais um pedaço de segurança reconquistada. A selva venusiana tinha
muita vitalidade e, segundo as concepções humanas, corria à frente do tempo.
Certa vez Reginald Bell afirmara que
bastava olhar atentamente durante dois minutos para ver o crescimento das
plantas. Isso correspondia à verdade. Dali a meia hora terrestre os
perseguidores dificilmente reconheceriam o caminho aberto por Rhodan e Okura.
* * *
— Minha munição acabou — fungou Thora
perto do general. Este passou-lhe dois pentes de balas.
— São os únicos que ainda tenho comigo.
Quando tiverem acabado terá de rastejar duzentos metros para atingir nosso
grupo de abastecimento, se é que este ainda se encontra em nosso poder. Só
atire quando o inimigo estiver perfeitamente visível.
— Como queira, general.
A batalha já se prolongava por quinze
minutos. Mais de trinta homens estavam reunidos em torno do general, assumindo
uma formação defensiva.
Nenhum dos pacifistas de Wallerinski se
arriscara a se aproximar dessa fortaleza em miniatura a menos de cinqüenta
metros.
A ordem de economizar a munição não se
dirigia apenas a Thora. Tomisenkow mandou que a mesma fosse transmitida de
homem para homem.
— Só atirem quando tiverem certeza
absoluta de que vão acertar. Não poderei arrancar munição do ar.
Ninguém pensou em levantar ou abandonar a
posição defensiva. O contato com o restante da tropa havia sido interrompido.
Mas o tiroteio ininterrupto que vinha de várias direções provava que, em outros
pontos, posições semelhantes haviam sido instaladas. Tomisenkow estava
convencido de que Wallerinski já não mantinha um controle exato da situação. Por
duas vezes ouvira a voz do tenente ambicioso, que afinava de raiva, dar suas
ordens ao longe.
— Ouça, madame. O presidente está ficando
rouco de tanto gritar. É um presidente. Ouviu bem? Um rapazola desses quer ser
presidente! Vênus está transformado num hospício. Olhe! É assim que se faz.
Aposto como nem estava prestando atenção. Ali à esquerda, perto das três
orquídeas roxas, está um morto. É um pacifista que resolveu brincar de
guerra...
Tomisenkow encerrou suas palavras com uma
risada áspera.
Dali a uma hora estava rouco como seu
inimigo. Só cochichava quando transmitia suas ordens nervosas.
De repente Wallerinski suspendeu o
combate. Suas ordens foram ouvidas nas posições de Tomisenkow.
— Pode ser uma armadilha — disse Thora.
Os outros partilharam a suspeita
manifestada por ela e aguardaram mais algum tempo. Depois disso, o general
despachou mensageiros para a frente e para trás e ordenou à tropa que se
mantivesse bem unida. Os oficiais foram convocados para uma conferência. Os
soldados e sargentos tiveram que recolher os mortos.
Era uma atividade cansativa, que atrasou a
marcha por algumas horas. Mas não era a única desvantagem que sofriam.
— O senhor ainda passará por muitas
decepções neste planeta — dissera Thora há pouco tempo. E agora lembrou-se dessas
palavras.
Encontraram mais de cinqüenta mortos. Mais
da metade pertencia ao grupo de Wallerinski. Mas nem por isso a tropa de
Tomisenkow ficou completa.
— Estão faltando vinte e sete homens —
declarou Tomisenkow durante a conferência de oficiais. — Pode dar alguma
explicação, coronel?
Popolzak deu de ombros.
— Provavelmente alguns mortos não foram
encontrados.
— Mas não podem ter sido vinte e sete.
— Talvez o resto se tenha unido a
Wallerinski. O senhor estaria em condições de dizer com quem cada um dos seus
homens simpatiza?
— Ora essa, coronel! Que falas heréticas
são estas? Parece que até o senhor já foi infectado por este planeta.
— Todos estamos infectados, senhor
general. Cada um segundo sua predisposição individual. O senhor também não
escapou.
— Queira se explicar melhor!
— O senhor vive na ilusão de que ainda
comanda uma tropa disciplinada. Carrega pela selva uma burocracia que mesmo em
condições normais seria considerada uma superorganização. O que há atrás disso?
Tudo está apenas no papel. E é com esses papéis cobertos de relatórios,
prestações de contas e relações de objetos que o senhor se diverte na sua
barraca de comando. Mas do lado de fora as coisas são bem diferentes. Os homens
estão esfarrapados, não ligam para qualquer disciplina assim que se encontram
fora das suas vistas e maldizem seu modo irrealístico de ver as coisas. Se este
resto miserável de uma divisão aero-transportada ainda se encontra com o
senhor, isso é devido somente ao instinto gregário dos homens. Se pudessem, já
teriam fugido há tempo. Mas para onde quer que corram, o inferno se abrirá
diante deles. Só ficam por medo e pelo instinto de auto-conservação. Mas não
acredite que ainda pensam que o senhor é capaz de nos levar a um paraíso. Mesmo
seus planos com a fortaleza de Vênus soam como uma fala impregnada de sonho e
de lenda.
Depois da longa fala de Popolzak reinou um
silêncio total.
O general empalidecera até a raiz dos
cabelos. Sua resposta aniquiladora não veio.
— É verdade? — perguntou depois de algum
tempo.
Falava muito baixo e, todos sabiam, ele
não o fazia apenas para poupar suas cordas vocais cansadas.
Suas palavras não despertaram qualquer
eco. Ninguém se atreveu a comentar o problema.
— Está bem — disse Tomisenkow depois de
algum tempo. — Refletirei sobre suas palavras, coronel. Acho que a esta hora
todos estamos tão nervosos que não podemos dar um tratamento objetivo ao tema.
A tropa prosseguiu em sua marcha.
Às cento e quarenta e três horas atingiram
o rio e usaram a passagem que ficava acima das cataratas. O amplo desfiladeiro
representava um convite para prosseguir na marcha.
De repente um cabo trouxe um bilhete que
um soldado encontrara pregado a uma árvore.
— Não passe pelo desfiladeiro. general —
leu Tomisenkow. — Os pacifistas instalaram-se nas árvores e planejaram um
ataque maciço.
— Que diabo! Quem iria me escrever uma
careta dessas?
Thora foi a única que poderia responder à
pergunta, pois conhecia a letra. Mas preferiu não fazê-lo.
5
John Marshall sentia que havia chegado ao
fim das suas forças.
Metade de uma manhã em Vênus representa
muito mais que um dia inteiro na Terra. E durante todo esse tempo Marshall
sempre voltara a se esforçar para despertar a atenção das focas.
Sabia que residiam na margem oposta do
braço de mar. Essa distância, que era superior a trezentos e cinqüenta
quilômetros, poderia induzir dúvidas até mesmo no otimista mais inveterado.
Mas, de outro lado, o mar era o habitat natural dessas semi-inteligências
animais. Não era de supor que nadassem muito longe e se aproximassem da margem
em que Marshall se encontrava?
Por que não o ouviam?
Teriam seguido um instinto nômade e
procurado outra região? Mas quando um bando de focas desse tipo abandona certa
área, esta passa a ser ocupada por outro bando da mesma espécie. Em meio à
vitalidade de Vênus não poderia existir um vácuo biológico.
John Marshall se afastara bastante. A dois
quilômetros a oeste do ponto em que havia atingido o mar, uma península rasa
penetrava profundamente na água. Não passava de um banco de areia. A vegetação
cessava depois de cem metros. As pegadas das botas de Marshall formavam um
rastro de um quilômetro, que parecia conduzir a uma solidão sem esperança, a um
beco sem saída.
Encontrava-se na ponta da península.
Estava cercado de água de três lados. O mar estendia-se até o horizonte. A
cadeia montanhosa do norte escondia-se atrás da curvatura da terra.
Por que as focas não o ouviam?
A intensidade de seus chamados telepáticos
foi se tornando cada vez menor. Intercalou pausas cada vez mais longas, para
recuperar as forças. Mas não era apenas a debilidade física que reduzia seu
poder de concentração: a depressão psíquica o afetava muito mais profundamente.
Por que não o ouviam?
A pergunta incessantemente repetida levou
a novo choque, quando subitamente acreditou ter encontrado uma resposta. As
freqüências não combinam! O emissor e o receptor devem estar sintonizados
segundo os princípios mais elementares da física. Marshall se lembrou do
primeiro encontro com as focas. Naquela oportunidade precisaram de uma bateria
completa de instrumentos para possibilitar o contato entre os animais e os
homens. A linguagem das focas era transmitida pela faixa do ultra-som e por
isso mesmo não era perceptível ao ouvido humano. Tornava-se necessário
transformar o ultra-som através de um conversor de freqüências: após isso a
linguagem das focas tornava-se inteligível através de um analisador cerebral e
de um codificador positrônico.
Por alguns segundos, Marshall parecia
perplexo. Logo se deu conta de que não concluíra seu raciocínio sobre o
problema. Afinal, não era possível que Perry Rhodan fosse um idiota para
mandá-lo sozinho para a selva a fim de executar uma tarefa que não tinha as
menores perspectivas de êxito.
“Sou
um ótimo telepata”, foi esta a idéia que Rhodan impôs à sua mente. “Por isso posso dispensar esses recursos
tecnológicos. As ondas de pensamento sempre são ondas de pensamento, a
freqüência não muda. Isso aplica-se às focas e a mim. Têm de me ouvir. A não
ser que sejam tão fleumáticas que resolveram ignorar meu pedido de socorro.”
Estendera-se na areia para ter um descanso
total de pelo menos trinta minutos. Não mexeria um dedo. Não pensaria em nada.
Quando os trinta minutos haviam passado,
cavou um buraco com a mão e enterrou os objetos que trazia consigo. O buraco se
encheu de água. Mas as conservas e a carabina pesada eram imunes à umidade.
Aliviado da bagagem foi entrando mar
adentro, até que conseguiu mergulhar completamente. Sabia do perigo que corria.
A água gosmenta e viscosa, totalmente diferente da que conhecemos na Terra,
corria quase como o óleo. Estava muito mais impregnada de algas e
microorganismos que o nosso mar e poderia lhe reservar surpresas de que a
ciência humana não desconfiava. Mas Marshall não tinha outra alternativa.
A água transmite as ondas sonoras com
maior rapidez e intensidade que o ar. Por que a mesma coisa não poderia
acontecer com as ondas emitidas por um cérebro telepático?
Mergulhou completamente e se concentrou.
Procurou usar um vocabulário bem simples, para que as focas não tivessem
dificuldade em compreendê-lo.
Durante as pausas que fazia punha a cabeça
fora da água para respirar.
Repetiu o jogo cinco vezes. Da última vez,
os projéteis disparados por uma carabina automática atingiram a água perto
dele, obrigando-o a voltar a mergulhar imediatamente.
No mesmo instante esqueceu as focas. Atrás
dele havia homens que eram muito mais perigosos que o mundo selvagem de Vênus
com seus mistérios.
Uma vez embaixo da água, avançou para a
direita até que os pulmões vazios o forçaram a vir à tona. Deitou de costas,
para poder respirar sem pôr a cabeça toda fora da água. Seus olhos revirados
captaram um grupo de seis homens, que se aproximavam pela península sem
demonstrar a menor preocupação de se abrigar. Tinham consciência de sua
superioridade. Ao que tudo indicava, já vinham observando Marshall há bastante
tempo: provavelmente teriam percebido que deixou suas armas na ponta da
península. Talvez acreditassem mesmo que já o haviam liquidado. Não atiravam
mais e não corriam, apenas andavam apressadamente.
A altura do banco de areia ainda oferecia
alguma proteção: desde que Marshall se comprimisse bem ao solo, não seria
visto. Era evidente que não poderia permanecer na água nem mais um segundo. Se
os homens do Bloco Oriental chegassem antes dele ao lugar em que se encontrava
sua bagagem, não teria a menor chance.
Enquanto se encontrava na água,
deslocou-se por meio de movimentos rítmicos dos pés até sentir chão firme
embaixo das costas. Depois disso, girou o corpo para ficar de barriga para
baixo e rastejou para a frente.
Ao abrir o buraco em que enterrara sua
bagagem, formara involuntariamente um monte de areia, que agora poderia salvar
sua vida.
Rastejou um pouco para a esquerda, até que
o monte de areia ficasse exatamente na linha de visão dos seis homens. Depois
voltou a rastejar para a frente e atingiu suas armas e sua bagagem sem ser
visto.
Os seis homens se encontravam a pouco mais
de duzentos metros.
Enterrou-se mais um pouco no chão molhado
e segurou as duas armas que trazia consigo: a pesada carabina automática que
havia apresado e o radiador de impulsos facilmente manejável. Quando sentiu a
coronha encostada ao seu ombro teve uma sensação de alívio.
Respirar três vezes... apontar.
O cano descansava sobre o monte de areia.
A pontaria era fácil.
Puxou o gatilho. No último instante atirou
o cano para cima: não queria atingir ninguém. Seria um tiro de advertência. A
decência exigia que ele o desse.
Será que a decência compensaria nessa luta
implacável?
Marshall não sabia. Nem por isso estava
arrependido do que havia feito.
Seus inimigos se assustaram. Se eles
tivessem se virado e corrido, Marshall nunca teria concebido a idéia de fazer
pontaria sobre suas costas. Mas a opinião daqueles seis homens era diferente.
Jogaram-se ao chão e iniciaram o ataque.
A série de impactos produzidos pelas armas
de infantaria atirou a sujeira para o alto. Marshall logo percebeu que o
pequeno monte de areia que tinha diante de si não poderia substituir um abrigo
subterrâneo. Não devia ter mais nenhuma consideração, se estivesse interessado
em sair vivo daquela armadilha.
Os homens queriam matá-lo. Seus
pensamentos eram idênticos aos do homem que teve que matar poucas horas antes.
Marshall largou a carabina e pegou o
radiador de impulsos. Não via os inimigos.
Abriu um fogo ininterrupto de dez
segundos, formado exclusivamente por energia térmica. A energia desprendida
pela arma bastaria para incendiar uma parede de aço. E as chances do homem
seriam muito menores num inferno desses.
Os seis homens deviam estar mortos. Apesar
disso Marshall esperou mais uma hora antes de fazer qualquer movimento.
Já eram sete os homens que tivera que
eliminar. Era evidente que com isso não liquidara o grupo inimigo. Ao que
parecia haviam colocado toda uma tropa de choque no seu encalço. A floresta poderia
ocultar uma companhia inteira.
Suas suspeitas logo se confirmaram. Um
tiro isolado soou ao longe. Na costa surgiram dois homens que corriam
apressadamente por um desfiladeiro.
A demonstração feita com a arma de
impulsos térmicos tornara o inimigo mais cauteloso. Mas este não tinha
necessidade de assumir qualquer risco. Marshall estava preso na armadilha. A
península de cerca de oitocentos metros de comprimento só se ligava à terra
firme por uma estreita faixa de terra. Se tentasse escapar por ali, se transformaria
no alvo de atiradores de elite escondidos na floresta. E se atirasse às cegas
para a floresta estaria fazendo a maior tolice que se poderia imaginar. Diante
da selva de Vênus, até um radiador arcônida de impulsos térmicos não passava de
um brinquedo ridículo.
John Marshall não teve outra alternativa
senão melhorar sua posição atual. Deitado de lado, abriu com a carabina sulcos
profundos na areia. Aos poucos foi se formando uma cavidade achatada, na qual
se abrigaria deitado. A água que foi se infiltrando não deveria incomodá-lo.
Também o monte de areia foi reforçado, não
tanto em altura, mas principalmente em largura. Sua massa devia ser suficiente
para resistir ao projétil disparado por uma arma pesada de infantaria. Nem
poderia pensar na possibilidade do inimigo se equipar com lança-granadas ou
canhões leves.
Quem dera que as focas chegassem! Bem que
estava precisando de um aliado. Mas será que ajudariam um homem a lutar contra
outros homens? Sem dúvida, se este homem fosse um telepata.
O que lhe inspirava maiores esperanças era
a lembrança de Perry Rhodan, que pretendia segui-lo lentamente em companhia de
Son Okura. Onde estariam a esta hora?
Marshall apalpou a pulseira, que além de
outros equipamentos continha um mini-transmissor. As comunicações pelo rádio
haviam sido proibidas. Mas Rhodan permitira o uso do emissor em caso de
emergência. Portanto, a decisão caberia ao próprio Marshall.
Será que o considerariam um covarde se expedisse
um pedido de socorro? Hesitou alguns minutos. Por fim, num gesto decidido,
puxou a rodinha que ativava o mini-transmissor. Com a unha puxou a antena. O
aparelho já estava regulado para a freqüência combinada.

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