Perry Rhodan olhou em volta. Atlan sorriu,
Marshall e Noir estavam encafuados em suas poltronas, com os olhos arregalados de
medo. Ali el Jagat parecia ainda inconsciente, começando neste instante a querer
voltar a si. O corpo inerte de Natan foi o único que nada sofreu com a terrível
manobra.
— Não sei o que aconteceu — disse Rhodan, tentando
fazer com que sua voz acalmasse o ambiente de terror. — Mas de qualquer maneira,
conseguimos suportar o pior e aqui estamos.
Atlan, pensativo, soltou o fecho magnético
do cinturão de segurança, deixou-o bem frouxo e respondeu:
— É a alternância de um espaço para o outro.
Provavelmente, o raio transportador do transmissor fictício é um meio um tanto impróprio
para chegarmos a este espaço intermediário. Santo Deus, para mim, a impressão era
de que uma bomba iria explodir no momento decisivo.
Perry Rhodan não pôde prestar muita atenção
nas palavras de Atlan. A seus pés, estava o planeta tão importante para ele. Era
como ele o tinha ainda na cabeça. Ele, ser eterno, já devia ter notado que tinha
hóspedes. Rhodan estava esperando que Ele se manifestasse.
Mas a gargalhada borbulhante que finalmente
se fez ouvir não deixou tempo a Perry para refletir melhor. Antes que o eco desta
gargalhada chegasse ao seu cérebro, sentira uma coisa diferente: as turbinas da
gazela pararam.
A reação de Rhodan foi instantânea!
Dois movimentos rapidíssimos: um aperto de
botão para reforçar o envoltório de proteção e um empurrão leve na alavanca que
provocava um campo de gravitação artificial. Só depois de ter feito isto, ele I
passou a pensar nos controles das turbinas. Apertou a chave geral de controle, que
acenderia todas as lâminas dos aparelhos que estivessem em funcionamento normal.
Num relance de vista, Rhodan constatou que somente uma única lâmpada não acendera.
Toda a aparelhagem estava intacta com exceção
apenas de um único setor.
Era o setor de produção de energia para os
motores de propulsão. Alguém ou alguma coisa devia ter sugado toda a energia da
nave, enquanto ela “lutava” na transição
do espaço de Einstein para o espaço intermediário.
Rhodan estava tranqüilo. Ainda havia uma série
de geradores a bordo, e, se tivesse um pouco de tempo, haveria de ligar entre si
o aparelho de antigravitação e os geradores do envoltório de proteção de tal maneira
que, ao invés de fornecerem sua energia para o campo de gravitação ou para o envoltório
de proteção, haveriam de encaminhá-la toda para os motores de propulsão. Com os
recursos que lhe estavam à disposição, haveria de conseguir isto em três ou quatro
dias.
Quanto ainda lhe restava?
Consultou o calendário.
Ao ler os números da data, que eram fosforescentes,
teve vontade de dar um salto e de estrangular o relógio, pois estava certo de que
alguém havia falsificado a marcação de tempo. Lembrou-se ainda de que, antes de
a gazela deixar o bojo da Drusus, ele mesmo havia examinado o funcionamento do relógio.
Neste meio tempo, ninguém teria tido a possibilidade de mexer no relógio. O que
estava vendo, estava correto, embora não soubesse explicar como isto tinha acontecido.
O calendário indicava 15 horas e 32 minutos.
A data era 30 de abril de 2.042.
* * *
O choque contra o chão do planeta não fora
assim tão ruim como Reginald Bell o imaginara. Houve, realmente, um estrondo muito
forte. Bell teve a impressão de estar sendo imprensado contra o estofamento de sua
poltrona. Foi tomado por uma ligeira sensação de dor.
Bell se levantou resmungando e olhou para a
tela. A primeira coisa que observou foi que lá fora ficara mais claro.
Tentou se lembrar de que tamanho era a imagem
quando ele olhou para a tela pela última vez. O alcance da vista não tinha mais
do que cem metros de extensão. Agora, porém, havia se ampliado pelo menos para um
quilômetro. Somente além deste limite é que os contornos começavam a sumir na escuridão.
O céu brilhava agora num vermelho muito intenso.
Entrementes, o tenente também já se levantara.
Parecia confuso, mas a convicção de que havia acontecido algo que ele realmente
compreendia, fê-lo voltar à antiga segurança.
— Podemos fazer uma vistoria nos aparelhos,
senhor — disse o Tenente Tompetch. Se soubermos o que está falhando, haveremos de
resolver tudo num instante.
— Você é um rapaz inteligente, Tompetch. Mas
eu já testei tudo durante a queda. Você não vai acreditar, mas alguém sugou toda
a nossa energia de propulsão, como quem suga toda a água de uma esponja. E aproveitando
a comparação: a esponja está agora tão seca que não se consegue mais tirar uma gota
nem com uma prensa hidráulica.
— Mas o campo antigravitacional e o envoltório
de proteção...
— ...estão em ordem, perfeitos. Provavelmente
são um tipo de energia que não interessa ao sugador. Estou compreendendo o que você
quer dizer: podemos mudar as ligações e assim voar com o campo antigravitacional
e o envoltório. E é isto que vamos fazer. Antes, porém, quero examinar alguma coisa
por aqui.
Tompetch apontou com o dedo para a tela panorâmica:
— Você quer dizer lá fora? — Bell fez que sim
com a cabeça.
— Naturalmente. Temos de descobrir muita coisa
ainda. Por exemplo, como está funcionando a instalação do rádio, quanto ao transmissor
lá fora e o receptor aqui dentro da nave. Pois, afinal de contas, não é o fisiotron
que me deve procurar, mas eu é que preciso encontrá-lo. Mais cedo ou mais tarde,
isto tem que acontecer.
Examinou bem seu uniforme de expedição, dando
muita atenção ao capacete pressurizado que até então estava dependurado nas costas,
como se fosse um equipamento sobressalente. O tenente acompanhava estes preparativos
com muita curiosidade.
— Eu pensava que o planeta Peregrino fosse
um mundo muito agradável no tocante à gravitação, à composição atmosférica e à pressão
do ar. O senhor receia algo de anormal no planeta?
— Você está vendo bem que sua superfície se
encontra em estado de atrofia ou encurtamento. Imagine só se todas as moléculas
do ar que se aglomeram num centímetro cúbico fossem comprimidas para dentro de um
espaço que tivesse apenas a metade deste volume?
— Santo Deus! Não me tinha lembrado disso.
Então a gravidade também aumentaria não é verdade?
— Deveria aumentar — explicou Bell — se ela
não fosse artificial. O dono deste planeta regula a gravidade a seu bel-prazer.
Resoluto, Bell puxou o capacete para cima da
cabeça e esperou até que ele, por si mesmo, se encaixasse na peça do uniforme em
volta do pescoço.
— Vou descer agora da gazela — sua voz saía
abafada, através do alto-falante externo. — Fique perto do receptor e preste atenção
para ver como você me consegue ouvir.
Tompetch fez um gesto de que estava compreendendo
tudo. Ficou ali, atento, enquanto Bell desaparecia pela escotilha.
Bell já havia reparado na tela panorâmica do
interior da gazela que a aterrissagem de emergência fora realizada numa região que
Ele, o senhor do planeta Peregrino, idealizara para imitar uma natureza exótica
de qualquer parte do Universo.
Bell nunca vira plantas tão esquisitas assim,
como aquelas em volta da nave, sobressaindo do capim rasteiro. Embora estas plantas
lhe fossem completamente estranhas, pôde observar nelas as conseqüências da atrofia
ou do encurtamento. Este fenômeno se abatera sobre todo o planeta, e o estava transformando
suas paisagens em formações grotescas.
Bell deu com uma árvore que tinha muita semelhança
com a nossa amoreira comum. Seu tronco que, em circunstâncias normais poderia ser
redondo e ter uns trinta centímetros de diâmetro, apresentava agora uma forma elíptica.
O eixo da elipse continuava sendo de trinta centímetros, mas seu lado mais estreito
não passava de dez centímetros. Seus galhos se dirigiam todos num só sentido, ou
para a esquerda ou para a direita. Nos outros dois lados estavam muito encolhidos,
não alcançando nem a metade do tamanho normal.
O mesmo fenômeno se repetia em outras coisas.
Não muito distante da gazela, Bell viu uma pedra no chão, lisa como um disco de
gramofone. Apanhou-a, virando-a num ângulo de noventa graus. Aí aconteceu o seguinte:
toda a superfície começou a encolher.
Por conseguinte, podia-se afirmar que o encolhimento
obedecia a uma certa direção. Esta direção coincidia, como Bell averiguou logo,
com o eixo norte-sul do planeta. Poderia ser um mero acaso. Mas enquanto pensava
nisto, veio-lhe à cabeça a idéia de que poderia aproveitar este fenômeno para seus
objetivos. Mas ainda preocupado infantilmente com o que aconteceu à pedra em forma
de disco, esta idéia tão importante acabou desaparecendo. Passou para os meandros
do subconsciente. Quando, cinco minutos depois, tentou se lembrar do que havia pensado,
já era tarde, a boa idéia tinha mesmo evaporado.
Fez algumas experiências de comunicação via
rádio com seu auxiliar a bordo. Notou de início que as coisas já não eram como antes.
Apesar de estar apenas a uns cinqüenta metros da nave, ouvia Tompetch com grande
dificuldade e concomitantemente o tenente lhe comunicou que a ligação estava horrível.
Bell chegou um pouco mais perto da gazela e o som melhorou. Afastou-se novamente
uns metros e o som piorou, chegando mesmo a sumir, quando atingiu cem metros.
Começou então a calcular, pois o assunto lhe
interessava muito. Tompetch ia lhe dando informações sobre as condições de recepção,
registradas por um medidor de watts. Por meio destes dados, Bell foi constatando
uma certa regularidade. Chegou a formular o seguinte teorema: se chamarmos a distância
entre o transmissor e o receptor de r,
então, em condições normais dos transmissores eletromagnéticos, a potência de irradiação
chegada ao receptor era de l/r2.
Se o transmissor estivesse a vinte metros do
receptor, então a potência de onda recebida seria apenas de um quarto do que haveria
de receber, caso o transmissor estivesse somente a dez metros.
Aqui, porém, a situação era outra. Havia de
fato uma relação de funcionamento entre o transmissor e o receptor, no tocante à
potência de recepção, mas esta relação era de l/r6.
Se a distância fosse duplicada, a potência
de recepção baixaria de um vinte e cinco avôs. Era um fato novo, estarrecedor. Talvez
a própria energia irradiada era sugada por alguma, coisa existente no ar. O fenômeno
tinha uma estranha semelhança com o desaparecimento da energia de propulsão dos
reatores. Bell se deu ao capricho de formular uma hipótese bem fundamentada, que
explicasse cabalmente os fatos. Mas não lhe foi possível, pois não dispunha dos
informes necessários e rigorosamente calculados. Voltou aborrecido na direção da
nave, passando de novo por aquela espécie de amoreira-selvagem, cujo tronco fora
reduzido a oito centímetros.
Levantou o braço e olhou para o barômetro,
que, juntamente com outros medidores, estava embutido no plástico do uniforme. A
pressão do ar atingia no momento a 2,8 atmosferas.
* * *
Foi a primeira vez que Perry Rhodan se aborreceu
com a ruidosa gargalhada. Enquanto a gazela descia numa velocidade reduzida de salto
por pára-quedas, a risada enervante do Ser do planeta Peregrino lhe furava os tímpanos,
deixando-o vermelho de irritação.
Comprimiu as mãos contra os ouvidos, mas foi
inútil. O ruído continuava transmitido por via telepática. Andou de um lado para
o outro como se houvesse uma direção determinada de onde provinha o ruído, gritando
a todo pulmão, num acesso de ira:
— Pare com isto, estúpido! Não há nenhum motivo
para rir.
E a gargalhada cessou de repente. Rhodan não
estava bem certo se era esta a maneira adequada de falar com Ele. Mas isto pouco
lhe interessava. Não precisava e nem queria ouvir mais esta risada boba.
Percebeu que seus companheiros olhavam-no atônitos.
Quase no mesmo momento, “ouviu” uma voz
longínqua, mas nítida:
— Um
pouco nervoso, meu amigo? — a transmissão soava curiosa e afável ao mesmo tempo.
Portanto, Ele não se agastara por ter sido chamado de estúpido. — Eu, no seu lugar, também ficaria nervoso. Você
ainda está a quatro mil quilômetros do fisiotron e só tem trinta horas para alcançá-lo.
Como é que você vai conseguir chegar até lá?
— Não sei ainda — respondeu Rhodan em voz alta,
pois tinha a experiência de que os pensamentos ficavam mais claros quando eram expressos
por palavras bem articuladas. — Não tenho a menor idéia. Mas fique tranqüilo, velho
amigo, chegarei lá na hora certa.
Mais uma vez, a gargalhada estrondosa invadiu
os sentidos de Rhodan.
— Estou
me divertindo como um rei — disse Ele. — Nunca presenciei uma situação como esta. Já preguei algum susto em pessoas
esquisitas que me queriam prender numa dimensão de tempo diferente da minha. Naturalmente
este susto me custou um grande número de “eiris”.
— Um grande número de quê? — perguntou Rhodan.
— De
“eiris” — respondeu Ele prontamente. — Chamamos
assim a energia de estabilização espaço-tempo.
— Ah! Sim... — disse Rhodan, embora não tivesse
compreendido patavina.
— É claro
que depois arranjei novas energias — continuou Ele. — Mas já que você e seus amigos aqui estão, não preciso mais delas. Vocês
conseguiram tudo que era necessário para colocar a mim e a meu mundo na órbita certa.
Rhodan ainda não estava compreendendo nada
e o confessou abertamente.
— Você
não precisa compreender nada, meu amigo — disse Ele, todo feliz. — Aconteceu tudo espontaneamente. Foi suficiente
vocês chegarem aqui.
Neste exato momento, a gazela pousou em terra
firme. O solavanco não foi tão grande, mas alguém deu um grito de dor. A seguir,
tudo voltou à calma de há poucos segundos. Rhodan não perdeu sua serenidade, — Temos
aqui no planeta uma outra nave — disse ele ao Ser. — Que sabe a respeito desta espaçonave?
— Absolutamente
nada — respondeu Ele. — Esta segunda nave
não se acha em meu plano de tempo. Deve estar no espaço normal, com seus tripulantes.
— Quer dizer então que não estão neste mundo?
— Não
estou dizendo isto. Estão neste mundo sim — Ele começou a rir novamente. — Às vezes sinto vontade de me encolerizar, pelo
fato de que não posso me distrair vendo como esta gente se arranja num espaço que
lhes é estranho.
— Por tudo que é mais sagrado! — exclamou Rhodan.
— Gostaria de poder compreendê-lo.
— Não
procure compreender nada, meu amigo. Pense apenas que você tem somente trinta horas
de prazo, trinta horas que passam depressa. Faça alguma coisa, se não deseja morrer.
Com isso acabou o diálogo. Rhodan não conseguiu
mais falar com Ele. Gostaria muito de perguntar por Natan, que também devia estar
em algum lugar do planeta Peregrino.
Deu um giro em sua poltrona, ficando de frente
para seu pessoal.
— Sei que não vai ter muito sentido, mas se
fizermos um grande esforço, haveremos de comutar os dois transformadores — disse,
com um sorriso forçado.
Olhou para John Marshall, o grande telepata,
chefe dos mutantes. Marshall correspondeu a seu olhar. Rhodan não parecia muito
alegre, mas compreendia que não podia jogar fora toda esperança.
Ouviu-se então a voz fria e pausada de Atlan:
— Creio, meu amigo, que não tem mesmo sentido
nos esforçarmos pelos geradores. É tarde demais e não nos sobra tempo para fazermos
toda esta mudança. O salto da Drusus para cá nos custou tempo e toda a energia de
propulsão. Acho que nós devemos nos preocupar em descobrir primeiramente como foi
que isto aconteceu. Se descobrirmos isto, poderemos talvez achar o caminho para
refazer o prejuízo mais depressa, do que através da mudança total dos geradores.
Olhou para Rhodan com muita atenção, dando
a entender que esperava uma resposta. Estava sério, e seu rosto exprimia preocupação
de um modo como nunca se notara antes.
— Talvez... — respondeu Rhodan. — Mas não podemos
construir nada sobre um talvez. Temos de agir, mesmo que pareça completamente sem
sentido. Quem sabe conseguiremos uma ligação de emergência, que...
— Quem sabe... — interrompeu-o ironicamente
Atlan. — Você está repetindo o meu talvez.
Perry Rhodan fez um gesto de ira.
— Com os diabos! Quero arranjar alguma coisa
para minhas mãos terem o que fazer, é tudo. Não posso ficar aqui sentado pensando
a vida toda. Isto não é comigo. Mas se você acha que poderá encontrar uma solução
por este lado, almirante, ninguém o vai impedir.
Neste momento, Ali ei Jagat deu um salto de
sua poltrona. Rhodan olhou-o espantado e reparou que estava pálido como cera, com
os olhos fixos na tela. Acompanhou o olhar de Jagat e conseguiu ver na grande tela,
entre as árvores, uma figura estranha que se tornava cada vez mais nítida. Usava
uma couraça da Idade Média e no antebraço esquerdo trazia um escudo de combate,
na mão direita, uma longa espada. Esta figura estava montada num cavalo, resguardado
com placas de ferro no peito e na cabeça. Parou o cavalo bem diante da comporta
da gazela. Pegou uma lança e bateu com toda força a chapa de aço da comporta. Simultaneamente,
os microfones externos captaram uma voz encolerizada:
— Quem é que se atreve a penetrar nos domínios
do Conde Llandrindod sem ser convidado? Fora com ele! Terá que me dar contas de
seu atrevimento.
No mesmo momento, ecoou a gargalhada do Ser
de Peregrino, que se divertia com o incidente.
* * *
Subitamente, Reginald Bell se lembrou da idéia
que tivera quando percorrera a vegetação em volta da gazela. Foi tão repentino o
salto da memória, que a ferramenta, que tinha na mão para a execução de umas experiências,
lhe escapou e caiu no chão. E batendo com a mão na cabeça, Bell exclamou:
— Como sou burro! Não poderia ter esquecido
isto.
Olhou depois para Tompetch, dizendo:
— Venha para cá. Tenho uma idéia luminosa!
Tompetch obedeceu meio confuso. Bell subiu
pelo aposento estreito do conjunto de propulsão, abriu a escotilha e apontou, ainda
antes de o tenente avistar, para aquilo que ele pensava, na tela panorâmica.
— Lá, está vendo? Veja bem, depois me diga
o que você pensa. Sei que o caso parece meio doido, mas aposto que neste caminho
chegaremos mais cedo ao nosso objetivo.
Mike Tompetch olhou para a tela e procurou
descobrir o que Bell tentava explicar.
Ficaram meia hora no compartimento das máquinas
de propulsão e neste intervalo a paisagem lá fora se transformou de uma maneira
incrível. Aumentara ainda mais a proporção de encolhimento. As árvores e a vegetação
rasteira se achataram, diminuindo tanto de tamanho, que pareciam figuras recortadas
por crianças. O quadro geral parecia uma fotografia tirada com teleobjetiva muito
possante.
Na parte superior da tela, Tompetch viu, bem
abaixo do céu avermelhado, uma faixa estreita, também vermelha, que somente podia
distinguir-se pela cintilação mais intensa.
O tenente olhava sem compreender.
— Então, o que você me diz de tudo isto? —
perguntou Bell com ar de triunfo.
— Só posso dizer que o processo de atrofiamento
continua.
E outra coisa ele não podia dizer porque não
sabia.
— Está mesmo diminuindo cada vez mais? Cuidado,
tenente, que sua inteligência também não diminua. Que é que você está vendo na parte
superior da tela?
Tompetch estava hesitante.
— Estou quebrando a cabeça com isto há mais
tempo, senhor.
— Desista! — foi o conselho de Bell. — É o
mar do norte.
— O mar do norte?
Bell fez que sim com a cabeça.
— Perfeitamente, o mar do norte. Estamos bem
próximos do litoral sul deste continente. Qual é a largura assinalada aí no mapa?
O tenente ainda tinha o número na cabeça:
— Dois mil e quinhentos quilômetros.
— Ótimo! E qual é agora a distância entre nós
e o litoral norte, poderia me dizer? A julgar, naturalmente, pelo que estamos vendo
na tela.
— De dois a três quilômetros, suponho eu, não
mais.
— Muito bem, está exato, de dois a três quilômetros.
O que me diz então do fator de encurtamento?
— Está entre oitocentos e trinta e mil duzentos
e cinqüenta.
Bell concordou também com este cálculo de Tompetch.
— Mas fique prestando atenção na faixa de maior
cintilação, enquanto lhe conto uma coisa. Tenho a convicção de que você vai ver
como ela se aproxima.
Enquanto Bell estava contando, os olhos de
Tompetch estavam firmes na tela.
— Este sistema, como você sabe, se encontra
em rotação. Uma semi-esfera do grupo de rotação de cinco dimensões possui a singular
propriedade de encurtar os eixos das coordenadas. Uma rotação se dá num espaço pentadimensional,
ou seja, de cinco dimensões, portanto, durante a rotação nem todos os eixos sofrem
o efeito do encurtamento, ou, se o sofrem, este encurtamento varia então de rotação
para rotação.
“Possivelmente, estamos agora numa fase bem
favorável. O fator de encurtamento atinge no momento cerca de mil. Isto quer dizer
então que mil quilômetros na realidade se transformam em apenas um para nós. Você
pode imaginar o que vai acontecer se este fator continuar em crescimento? Se, por
exemplo, atingir a dois milhões e meio?”
Tompetch se assustou.
— Aconteceria que... que...
Bell continuou a frase apenas iniciada!
— Aconteceria que este continente não teria
mais do que um metro de largura para nós. E a distância daqui até o litoral sul
não passaria de dois metros. Bastaria que déssemos três passos. E, com apenas um
desses, atravessaríamos, um rio de sessenta centímetros de largura, que na realidade
é um mar de mil e quinhentos quilômetros de largura.
O Tenente Tompetch parecia perplexo. Estava-se
vendo que acompanhava os cálculos, mas não estava crendo muito no fenômeno. Bell
lhe bateu suavemente nos ombros e disse em tom paternal:
— Continue sentado em chão firme. As coisas
não são tão simples assim. Nesse tempo todo, a pressão atmosférica deve ter subido
por alguns milhares de atmosferas e o ar vai endurecer como uma pasta mole. Temos
que nos preparar para isto. Precisamos de um gerador de campo que nos proteja contra
a pressão demasiada. Os trajes espaciais somente não vão agüentar. Vamos, que está
esperando? Mãos à obra.
5
— Llandrindod! — exclamou Atlan, sorrindo.
— O velho espadachim! Eu queria...
E saiu correndo. Perry Rhodan, que naturalmente
já sabia que uma das manias do Ser de Peregrino era recolher figuras estranhas e
rocambolescas da Terra, principalmente da Antigüidade e da Idade Média, para povoar
seu mundo artificial, acompanhou-o calmo e bem-humorado.
O súbito aparecimento de um cavaleiro medieval
diante de uma nave espacial de reconhecimento atrapalhou os cálculos da tripulação.
No momento, quebravam a cabeça para descobrir como transformar um gerador antigravitacional
em fornecedor de energia para propulsão. E aquele não era propriamente o instante
ideal para brincadeiras.
Atlan já havia aberto a comporta, quando Rhodan
ali chegou. Embora existisse uma proibição de que as duas comportas, a interna e
a externa, se abrissem num só movimento, não havia necessidade de tanta cautela
aqui neste planeta, onde a atmosfera era mais ou menos idêntica à da Terra.
O Conde Llandrindod, quando a comporta externa
se abriu, recuou dois passos com seu cavalo, Atlan ficou parado no degrau de descida.
Com voz tonitruante, procurando imitar as palavras e o sotaque arcaico do inglês
medieval, assim falou:
— Quem se achega assim da minha casa voadora,
para bater desta feita no meu umbral? Quem é este charlatão?
Rhodan tinha certeza de que o Conde Llandrindod
jamais ouvira, em toda sua vida, palavra tão ofensiva.
— Vil — gritou ele, levantando o escudo a ajeitando
a lança. — Vou lhe mostrar quem é o charlatão. Defenda-se, poltrão!
Estava para esporear o cavalo e se abater sobre
Atlan. Mas, neste momento, o arcônida ergueu os braços para o ar e começou a gargalhar
bem forte. Llandrindod perdeu sua segurança e deixou cair um pouco o escudo.
— Meu bom rapaz de Llandrindod! — exclamou
Atlan, rindo. — Você ficou maluco! Ou será que com o correr dos anos, está ficando
cego, a ponto de não conhecer seu melhor amigo?
A viseira foi levantada e se pôde ver os olhos
desconfiados e um tanto oblíquos, que examinaram demoradamente o arcônida. Para
os moldes da Idade Média, Atlan devia estar vestido bem comicamente. Um sorriso
transformou seu rosto sisudo... tinha reconhecido o arcônida.
— Deus me seja benigno! — exclamou o Conde
Llandrindod. — Se você for Peyrefitte de Sherwood, meu amigo, então deve estar vestido
de cigano, que nosso rei teria o prazer de envenenar ou de tocar para fora do país.
Você é mesmo Sherwood?
Atlan desceu os degraus da comporta.
— Sou eu mesmo — afirmou. — Desça de teu corcel
e venha me cumprimentar como convém a um bom amigo.
Llandrindod deixou cair lança e escudo, apeou
do cavalo e caminhou para o arcônida com passo firme e vagaroso. Quanto mais perto
chegava, mais certo estava de realmente ter diante de si o velho amigo de outrora.
Os passos tornaram-se mais rápidos e acabou
tropeçando, mas foi cair felizmente nos braços firmes do arcônida.
— Louvado seja Deus, Sherwood — disse admirado.
— Não pensava mais encontrá-lo. Onde andou este tempo todo?
— Por toda parte — respondeu Atlan. — Estive
entre os franceses, entre os turcos, entre os russos...
— Tão longe assim. Foi de lá que você trouxe
isto aí? — perguntou apontando para a gazela.
— Sim. Isto pode se locomover através do ar.
— Através do ar? — repetiu o cavaleiro medieval,
não acreditando no que ouvia.
— Perfeitamente. Dentro dele mora uma força
que lhe possibilita andar pelo ar como um passarinho. Mas esta força agora desapareceu.
Por este motivo, não pode mais se levantar do chão.
Llandrindod começou a rir. Ria a valer, espontaneamente,
como se tudo fosse muito interessante e cômico. De repente, parece que lhe veio
uma grande idéia. Parou de rir e olhou para Atlan perplexo.
— Uma força misteriosa, não é?
— Perfeitamente, meu amigo. Llandrindod coçou
a cabeça pensativo.
— Eu vi sua força, Sherwood.
Atlan não estava compreendendo.
— Você viu a força? Uma força ninguém pode
ver.
— Eu também pensava assim — explicou Llandrindod.
— É verdade que ela não estava muito nítida, mas que Deus me castigue se eu não
vi esta força. Estava flutuando sobre a vegetação. A princípio parecia uma neblina
bem fraca. Só se conseguia vê-la, olhando com atenção. Depois, parece que ela me
descobriu. Começou a se concentrar e, de repente, ela tomou a forma da minha pessoa.
Não perdi tempo. Ergui o escudo, peguei a lança com a mão direita e avancei contra
ela.
“Ela não me atingiu, mas eu acertei-lhe uns
golpes. Mas não adiantou nada. A lança a atravessou como se atravessasse uma simples
camada de ar. Quando parei o cavalo e olhei para trás, não se via mais nada. Foi
como se o diabo a tivesse levado. Será mesmo que esta foi a sua força?”
Atlan não respondeu. Podia muito bem ser que
Llandrindod tivesse visto e encontrado qualquer outra das muitas criaturas que Ele,
o ser do planeta havia trazido para seu mundo artificial. O próprio Conde Llandrindod
era uma destas criaturas. Persistia também a hipótese, talvez mais próxima da verdade,
de que o ente visto pelo conde fosse Natan.
— Temos que encontrar esta neblina, meu amigo.
Onde foi mesmo que você a viu?.
Llandrindod apontou para trás.
— Aqui deste lado, não mais do que uma hora
daqui, a meio caminho do castelo Llandrindod.
O conde olhou longamente para Atlan e seu olhar
continha desconfiança. Podia-se ver em seu rosto que a história da força misteriosa
não lhe agradava muito.
— Diga-me uma coisa, Sherwood — começou ele
titubeante — você não está penetrando no terreno da magia negra?
Atlan abanou a cabeça.
— Não, Llandrindod, vou lhe explicar uma coisa:
lá com os turcos, persas, russos e outros povos do Oriente há muito mais coisas
do que podemos imaginar. Não são coisas do demônio e podemos aproveitá-las para
nosso benefício. Você quer me fazer um favor?
O conde parecia mais calmo e fez-lhe um sinal
afirmativo.
— Meu amigo Llandrindod, volte para trás, para
onde você viu a neblina ou a força. Nós o seguiremos para poder apanhá-la. Você
quer esperar um pouco por nós?
Llandrindod concordou mais uma vez. Dirigiu-se
a seu cavalo e montou.
— Fico esperando aqui — disse ele ao arcônida
— e depois de pegarmos a força, você vai me mostrar sua casa voadora. Faremos uma
festa para celebrar nosso encontro, não na sua casa voadora, que me é estranha,
mas no meu castelo.
Dizendo isto, virou o cavalo e foi troteando.
Atlan voltou pensativo para a comporta da gazela. Encontrou Rhodan de pé junto da
comporta interna e levou um susto.
— Era Llandrindod — disse um pouco sem jeito
e confuso. — Um velho cavaleiro meio inglês, meio galês. Ajudou o Rei Eduardo I
a conquistar o País de Gales. Eu o vi pela última vez no ano mil trezentos e cinco.
Atlan olhou para Rhodan e este notou que o
arcônida estava com uma vontade louca de contar toda a história da conquista do
País de Gales e seu papel de Conde de Sherwood.
Sentia necessidade de dar expansão à sua memória
fotográfica e desenrolar mais um capítulo da história da Humanidade perante os ouvidos
atentos da tripulação. Sentia sempre esta força irresistível de falar de seu longo
passado, sempre que qualquer imagem forte mexesse com sua memória. Só com muita
força de vontade, conseguia dominar sua ânsia de transmitir, o que a memória descobria
nas cinzas do passado. Seus relatos se tornavam horas muito agradáveis para os ouvintes.
Mas agora a situação era outra. Não podiam
perder nem fração de hora, por mais interessante que fosse a aventura do Conde de
Sherwood.
Rhodan pegou o arcônida pelo braço e o levou
pelo corredor principal para a sala de comando.
— Este cavaleiro sabia alguma coisa de importante?
— perguntou logo, para desviar a atenção de Atlan.
O arcônida conseguiu se controlar.
— Sim — respondeu ele. — Viu uma coisa que
pode ser muito bem a existência de Natan como espírito. Aqui na redondeza, a quatro
ou cinco quilômetros. Eu pedi que ele fosse caminhando de olhos atentos e lhe disse
que nós iríamos atrás.
— Acho que no momento temos que nos preocupar
mais com as turbinas de propulsão, do que com Natan — sugeriu Rhodan.
Quando estavam entrando na sala de comando,
o telepata John Marshall estava vendo na tela algo muito esquisito. Do lado do sul
vinha uma figura, que a princípio parecia um homem. Pelo menos tinha a mesma estatura
de um homem. Depois, porém, Marshall notou que se tratava de uma formação alongada
que crescia a cada instante. E atingia agora mais de um quilômetro de extensão.
Crescia ininterruptamente a uma velocidade de cinco metros por segundo.
O telepata não conseguia ver o que era realmente.
Parecia uma enorme barra que alguém empurrava do sul para o norte. Não se podia
dizer ao certo o comprimento desta barra. A altura devia ser de um metro e oitenta
e a largura de uns oitenta centímetros. Em compensação, o corte transversal não
era retangular nem de qualquer outra forma geométrica regular. No entanto, parecia
apresentar um conjunto simétrico.
Por algum tempo, Marshall ficou observando
o corte transversal, o que lhe era fácil, pois estava vendo a barra quase de frente
e chegou a uma conclusão surpreendente: parecia mesmo com a figura de um homem.
Delineava-se bem a cabeça, dois braços ligeiramente separados do tronco, de forma
a se poder ver um intervalo entre eles. Duas pernas levemente esticadas. A princípio,
Marshall julgou ver um homem apenas na face frontal da barra. O que ele pretendia,
era muito difícil descobrir, ainda mais que este era o planeta Peregrino, o mundo
artificial, às vezes muito “distante”
do normal.
Mas, de repente, o telepata começou a perceber
pensamentos na barra, muito lentos mas compreensíveis. Eram coisas tão características,
que John Marshall logo percebeu de quem podiam vir.
Quando Perry Rhodan e o arcônida pisaram na
sala de comando, Marshall se dirigiu a eles.
— Tenho uma comunicação importante para lhe
fazer, senhor — disse apontando para a tela. — Bell se aproxima de nós de uma maneira
muito esquisita.
* * *
Reginald Bell teria que constatar muito cedo
que a contração de um planeta inteiro não podia deixar de ser perigosa para quem
o havia conhecido como um todo invariável. Não sentira isto antes, mas quando viu
que a primeira montanha se precipitava contra ele, percebeu então as conseqüências
desta contração ou atrofia.
Bell estava de pé diante da espaçonave para
ver como as coisas se desenrolavam.
Nos últimos minutos, o fator de encurtamento
ou contração havia aumentado muito. Podia-se ver a olho nu como a superfície do
planeta se contraía — aliás só numa direção. A largura e a altura das coisas ficavam
as mesmas, somente seu comprimento é que se alterava, até níveis grotescos. A pressão
do ar não subia, como Bell imaginara, na mesma proporção do fator de distorção.
Enquanto este último andava pela escala de um para dez mil, a pressão do ar havia
subido apenas vinte vezes. Os pequenos geradores de campo, para proteção contra
pressão excessiva, que foram montados pelo Tenente Tompetch, não chegaram ainda
a ser usados.
Com a distorção de um para dez mil, o litoral
sul do mar do norte distava deles apenas duzentos e cinqüenta metros. O litoral
do oceano equatorial, que conforme o mapa, devia estar a vinte quilômetros da gazela,
estava ali, a dois metros. Bell sabia agora, que ele próprio haveria de parecer
para os habitantes do planeta como um monstro disforme de cinco quilômetros, o que
naturalmente o inquietava bastante.
Seu corte transversal estaria certo, mas seu
achatamento exagerado lhe daria a forma de uma barra muito alongada. Portando, um
homem-barra, como ele mesmo se intitulava. As botas de seu traje espacial, que para
seus olhos eram de quarenta centímetros, haveriam de parecer, nas dimensões de contração
deste planeta, ter um comprimento de quatro quilômetros. No entanto, a altura, como
também a largura, permaneceriam inalteradas.
Quando a escala da distorção atingisse um para
cem mil, o mar do norte estaria apenas a vinte e cinco metros deles e as pontas
das botas de Bell estariam tocando o litoral do oceano equatorial.
Mas os interesses de Bell não estavam no sul,
mas no norte. No primeiro movimento que fez sentiu logo que o ar lhe impedia os
movimentos. A pressão era agora de cinqüenta atmosferas. Mas o ar se comportava
como se fosse líquido.
Bell tinha que fazer um esforço incrível I
somente para se virar. Ele mesmo não chegou a reparar como seu corpo se modificou.
As botas que há pouco chegavam até o litoral do oceano, voltaram ao tamanho normal,
assim que Bell terminou sua meia-volta e tornaram a crescer desmesuradamente quando
completou a volta inteira. Do mesmo modo, seus ombros cresciam e depois se contraíam
e caso se deitasse no chão, no sentido norte-sul, teria um comprimento de cento
e oitenta quilômetros.
Depois ficou parado, com os olhos fixos no
norte, vendo que o mar se transformara numa poça d’água. Viu o litoral do continente
do norte que surgia de uma penumbra avermelhada e os edifícios da grande cidade,
construída nos rochedos do litoral. Viu também como a água vermelha do rio ia de
encontro às margens íngremes e depois fluíam para o mar. O esquisito em tudo isto
é que estava vendo uma coisa que, pelo mapa, distava dele quatro mil quilômetros.
Constatou, com um certo mal-estar, que quanto
mais olhava para as construções da cidade, mais transparentes elas ficavam. Chegou
a recear que fossem desaparecer totalmente, caso a distorção da contração ainda
continuasse.
Quando a pressão do ar chegou a cem atmosferas,
e a distância até a cidade era de apenas alguns metros, ouviu o alarme interno do
traje espacial. Gritou para Tompetch para que ligasse os geradores do campo de proteção.
Exatamente no momento em que o tenente estava
respondendo, viu que o morro do litoral sul do mar do norte, cuja aproximação ele
já vinha observando, não iria apenas passar a seu lado, mas atropelá-lo...
Certamente o morro não era nenhum monstro,
mas seu flanco leste, que corria suavemente para a planície, era suficiente para
cortar toda esperança de fuga de Bell e de Tompetch. Ficou parado, fascinado com
o fenômeno do morro andante, progredindo em sua direção. Esperou para ver o que
ia acontecer. O céu irradiava uma luz avermelhada. Em suas dimensões normais, o
morro teria alguns quilômetros de extensão, mas com a distorção de um para um milhão,
devia medir correspondentemente também alguns milímetros.
Bell teve um calafrio só ao pensar que a contração,
em que o planeta Peregrino se encontrava, pudesse ter influências na constituição
molecular da matéria e que, agora, o flanco do morro apesar de reduzido a poucos
milímetros, conservasse a mesma força de antes, isto é, continuasse na impossibilidade
de ser transposto.
Era, porém, totalmente impossível tentar um
desvio. Olhou em torno e viu Tompetch subindo na comporta. Estava com um dos geradores
preso na cintura e conseguia se mover com facilidade, graças à proteção de seu campo
magnético. Ao invés disso, Bell tinha que se mover como se estivesse dentro de uma
lama pegajosa, de tão pesado que o ar ficara. Ainda teve tempo de alertar Tompetch:
— Cuidado com o morro! Ele se aproxima de nós.
Viu ainda como Tompetch olhou com calma para
a ameaça inesperada e aguardou firme seu destino, sem desviar os olhos daquilo que
iria esmagá-lo. O morro estava quase rente a eles, questão de poucos centímetros.
Era uma estrutura lisa de rochedo, porém muito delgada.
Mas não era a montanha que vinha ao seu encontro,
mas eles é que eram impelidos contra ela!
Bell se recurvou para frente, a fim de abrandar
o impacto com os ombros. Sentiu uma dor imensa no ombro direito. Por um momento,
teve a impressão de que seus ossos estavam sendo triturados. Mas, de repente, descobriu
triunfante uma fenda que corria de alto a baixo na muralha de pedra.
Recurvou-se para trás e teve vontade de xingar
aquele ar horrível, pastoso, que o impedia de caminhar melhor. Lançou-se mais uma
vez para frente, mas a dor foi agora menor. Bell ouviu um ruído que lembrava o latido
de um cão. No mesmo instante, a fenda se ampliou e a muralha de pedra partiu ao
meio, começando a cair. Os pedaços eram finos demais.
E, na montanha, se abriu uma brecha, pelo menos
três vezes maior que o corpo .de Bell. Ele ainda ficou olhando para a muralha, que
apesar de delgada, tinha mais de duzentos metros de altura.
Bell sorria feliz com o que acontecera. A muralha
estava agora cortada em dois trechos. Em circunstâncias normais, ele e seu ajudante
seriam atingidos pelos enormes blocos de pedra. Mas, devido ao fenômeno da contração,
esses blocos não passavam agora de fragmentos de poucos milímetros de espessura,
não podendo feri-los com gravidade.
Preocupado, procurou por Tompetch. Estava parado
ali perto, sem correr nenhum perigo. O campo magnético de proteção fez com que ele
não precisasse se utilizar dos ombros, como fizera Bell. Na hora do choque, Tompetch
se jogou para frente e, no mesmo instante, se abriu uma segunda fenda na muralha.
Minutos depois o morro atingiu a gazela, mas
já então Bell não tinha mais receio, pois a espaçonave era um milhão de vezes mais
resistente do que ele. Realmente, a delgada parede do morro se partiu em dois ao
tocar na gazela.
Bell tentava imaginar o que se passava neste
momento no planeta Peregrino, isto é, lá onde os habitantes fantasmagóricos desse
mundo artificial estavam sentindo os efeitos da contração, que eles mesmos não percebiam.
Veriam três coisas disformes: Barras quilométricas, que eram na realidade dois homens
e uma formação de vários quilômetros de extensão, a nave gazela. Estes objetos estavam
num crescimento rápido. Destroçavam tudo que lhes estava no caminho: árvores, arbustos,
casas e até mesmo morros. Neste momento, o planeta devia estar convertido num verdadeiro
caos. Cada movimento daqueles três objetos — verdadeiros monstros em relação com
a contração geral — provocava um tufão de enormes proporções. Árvores que ainda
estavam de pé, eram arrancadas do chão e levadas pelo planeta afora. Se existissem
seres humanos ali, certamente seriam também lançados para longe. O mar começou a
se agitar, dando impressão de que suas águas estavam fervendo.
E eles mesmos, os três monstros, não percebiam
nada. E não podiam notar mesmo, pois uma árvore de dez metros de copa, parecia para
eles com menos de um centésimo de milímetro. Mesmo que as árvores fossem muitas
vezes maiores, não lhes seria mais de uma sombra sem valor, cujo contato não podiam
sentir.
Por uns instantes, Bell estava ali parado,
remoendo estas idéias, tentando medir a desgraça que ele mesmo estava causando.
Seu consolo era que os seres do planeta Peregrino eram em geral seres fantasmagóricos,
criados ao bel-prazer do senhor supremo deste mundo. Com a mesma facilidade com
que eram destruídos, podiam ser criados novamente. Portanto, praticamente, nada
se perdia.
E também não havia propriamente uma morte,
quando uma rocha ou uma árvore se abatia sobre alguém. Tudo era sombra, até mesmo
seus corpos.
A voz tranqüila de Tompetch o veio arrancar
destas divagações.
— Ligue seu gerador, senhor, a pressão do ar
subiu a cento e vinte atmosferas.
Bell tentou se virar, mas não conseguiu. Tompetch
notou seu apuro e aproximou-se. Bell, muito assustado, reparou que alguns minutos
mais tarde nem conseguiria mais levantar os braços para pegar o gerador. O ar se
havia transformado em algo semipastoso e pesado. Com muito custo afivelou o gerador
na cintura do seu traje espacial. Teve então a sensação de que aquela carga de chumbo
que comprimia todo o seu corpo havia caído por terra. Experimentou levantar o braço
e viu que não sentia mais nenhuma dificuldade.
Por trás do morro, apareceu o mar do norte.
A ponta da bota de Bell já estava ultrapassando o litoral. Do outro lado do córrego,
pois era esta a impressão que dava o antigo mar, via-se o litoral íngreme do continente
norte. A cidade no topo do morro não era mais que uma sombra. Pela contração progressiva,
Bell achava que não iria mais identificá-la. Se o mar a norte se havia transformado
num regato de poucos centímetros, o que seria então da cidade?
No meio destes pensamentos, ouviu um grito.
Olhou para o lado e deu com o semblante tranqüilo de Tompetch, olhando distraído
para o mar estrangulado. Além disso, a voz que ouvira era muito diferente da do
tenente.
— Puxa vida! — disse ele mal-humorado.
No mesmo instante, a voz voltou a se manifestar:
— Apresente-se, Bell, estou em ligação com
você. Quem está falando é John Marshall.
A resposta de Bell foi uma risada. Virou o
rosto, como se estivesse vendo o semblante de Marshall em qualquer lugar e respondeu:
— Puxa, já era mesmo tempo de vocês se manifestarem.
* * *
Ao monstro que se avolumava dos lados do sul,
acrescentaram-se ainda, no correr dos próximos minutos, mais dois outros. Um destes
dois se assemelhava muito com os pensamentos irradiados por Reginald Bell e, ao
se aproximar, Marshall reconheceu que se tratava de Mike Tompetch. A terceira sombra,
ou ser fantasmagórico, não irradiava nenhum pensamento. Embora nada tivesse de sua
forma primitiva, Marshall não teve dúvida de que era a gazela com que Bell e Tompetch
vieram para o planeta.
O que para John Marshall foi uma coisa assustadora,
os demais acharam muito natural. O arcônida Atlan, por exemplo, disse friamente:
— Não há motivo de terror, nem mesmo de espanto,
meus amigos. Tínhamos que contar com algo semelhante, não é verdade? Este planeta
gira numa região de instabilidade, onde os eixos das coordenadas de seu espaço estão
sujeitos, alternadamente, à contração e portanto à distorção. Naturalmente quem
vive nesta região não nota nada deste fenômeno. Provavelmente, nós nos tornamos
parte deste espaço intermediário através dos raios transportadores. Para nós, o
planeta Peregrino continua o mesmo. Nem percebemos que ele não está mais em ligação
com o resto do Universo.
“Para Bell e Tompetch, o negócio é outro. Desceram
numa parte do planeta que estava no espaço normal, na hora da aterrissagem. Continuaram
parte do espaço normal e sentem todo o grotesco ou toda a grandeza do fenômeno da
contração ou enrugamento. Por sua vez, podemos constatar através de Bell e Tompetch
o que se passa no planeta Peregrino.”
Atlan olhou para Rhodan e continuou:
— Seria bom se pudéssemos transmitir umas informações
úteis a Bell. Seria de bom alvitre avisá-lo de que em poucos instantes ou, no máximo,
em meia hora, vai lhe bastar apenas um passo para chegar à sua cidade, se ele já
não estiver lá. Seria necessário, acho eu...
Perry o interrompeu, levado por suas preocupações.
— Como está a ligação? — perguntou ele a Marshall.
— Você consegue acompanhar bem seus pensamentos?
— Relativamente bem, chefe. Mas ele está pensando
muito lentamente.
— Bem, de qualquer maneira, tente alcançá-lo.
Marshall ligou seu minicomunicador e procurou
encontrar a freqüência alterada de Bell. Não notou como as grotescas figuras cresciam
sempre mais, como Bell, Tompetch e a gazela passaram deformados ao lado da nave
de Rhodan, continuando para o sul. Gritou várias vezes:
— Comunique-se, Bell!
Captou o sentimento de espanto de Bell e finalmente
ouviu sua voz:
— Puxa, já era mesmo tempo de vocês se manifestarem.
No mesmo instante, alguém lhe gritou:
— Diga-lhe que deve ter mais cuidado com seus
movimentos. Cada vez que ele vira a cabeça, irrompe um tufão por sobre a região.
Marshall transmitiu a mensagem ao pé da letra.
Bell prometeu ter mais cuidado daí por diante, em seus movimentos.
Depois disso, Marshall ficou aguardando novas
ordens de Rhodan.
* * *
— Na cidade deve existir — começou Marshall
— uma estação de onde o planeta recebe energia sem necessidade de fios. Procurem
encontrar esta estação e pô-la em funcionamento. Se esta já estiver em funcionamento,
obtenham o fornecimento necessário, para que vocês possam vir para cá onde estamos.
Nossa energia de propulsão foi sugada. Encontramo-nos completamente sem possibilidade
de nos mover. Se conseguirmos esta estação, está tudo arranjado. A estação está,
com toda certeza, nesta cidade. Compreendido?
— Sim, compreendi. Você fala depressa demais,
mas consegui acompanhar. Parece que vocês não compreendem minhas dificuldades. Vejam
só: como vou conseguir achar uma estação que possa fornecer energia, se o edifício
todo não tem um milésimo de um milímetro? E como posso apertar um botão se cada
um de meus dedos mede mais de quinze quilômetros?
— Espere um pouco, vou explicar isto aqui ao
pessoal técnico, respondeu Marshall.
Após alguns segundos, veio de novo a voz de
John Marshall.
— O fenômeno da contração ou de encurtamento
em breve atingirá seu ponto máximo e depois regredirá, tomando de novo seu tamanho
normal, ou falando em outras palavras, o planeta Peregrino retornará às dimensões
que estão no mapa. Aí então tudo voltará ao normal. Lembre-se que no momento seu
tempo corre três vezes mais lento do que o tempo deste mundo. O fator não é constante,
pode se alterar nos dois sentidos.
— Está tudo certo — respondeu Bell. — Mas me
diga só uma coisa: Quanto tempo temos ainda?
— Conforme nossos cálculos, vinte e uma horas
— foi a resposta de Marshall. — São agora três horas do dia primeiro de maio.
* * *
A situação ainda era esta: O mar do norte continuava
a ser uma pequena poça d’água, com pouco mais de meio metro de largura. Se Bell
desse um passo pequeno, já estaria do outro lado, isto é, no continente do norte.
Mas estava hesitando muito em dar este passo,
sabendo que isto causaria grande agitação na atmosfera, movimentando seu corpo de
mil quilômetros de comprimento.
Levantou bem devagar o pé direito. Guardara
bem na memória o local onde estava a cidade. Não conseguia mais vê-la, pois seus
edifícios, de tão microscópicos, haviam desaparecido. Tinha, porém, certeza de que
não prejudicaria ninguém, pelo menos não intencionalmente. As conseqüências do pé-de-vento,
que sua passada provocaria, não as podia imaginar.
Mike Tompetch faria também os mesmos movimentos
que Bell. Seguindo seu chefe, levantou o pé, transpondo todo o peso do corpo para
a perna esquerda, inclinou-se em câmara lenta para frente. Depois que o centro de
gravidade do corpo atingiu o meio do mar, começou a conduzir o pé direito para frente.
Veio então o momento trágico.
Não estava mais se agüentando sobre o pé esquerdo
e tinha que descer com o outro pé, com mais velocidade do que queria. Desesperado,
olhou para Bell. Mas a situação de seu chefe não era melhor que a dele. Ambos perderam
o equilíbrio no mesmo momento. O tufão que agora varreria o planeta seria muito
forte.
Depois, Bell não tendo mais coragem de virar
o rosto para trás, olhou apenas com o canto do olho e viu a gazela parada ali mesmo,
tão perto que esticando o braço podia tocá-la. Quando acabasse a contração, já estaria
a quatro mil quilômetros deles.
— Estamos a cinco quilômetros a oeste da cidade
— explicou a Tompetch. — Temos pois que caminhar um pouco. A contração só atua do
norte para o sul. Do oeste para o leste, não há alteração nenhuma. Caminhemos com
cautela. Não temos tempo de sobra, mas também não queremos transformar o planeta
num deserto. Se levarmos duas horas para atingir a cidade, teremos agido com bom
senso.
Puseram-se a caminho, com muito cuidado.
* * *
Uma cena tão grotesca assim, Perry Rhodan jamais
tinha visto. As duas barras enormes, que outra coisa não eram senão Bell e seu tenente,
apesar de toda cautela, provocavam grande agitação na atmosfera. Rhodan então deu
ordem para que o fenômeno fosse filmado. Dispositivos ultra vermelhos proporcionavam
uma filmagem normal, embora os olhos dos espectadores quase não conseguissem ver
os movimentos feitos sob densa poeira.
Rhodan olhou novamente para o relógio. Tinham
ainda dezenove horas.
* * *
Durante a caminhada para a cidade, se deu o
clímax da contração e, daí para frente, seria a lenta volta ao normal. Foi com estupefação
que Bell constatou que o movimento de volta ao normal ia bem mais rápido do que
o aumento da contração.
Uma hora e meia após o ponto máximo da contração,
na região do continente norte, a cidade começou a crescer diante de seus olhos.
Os contornos dos edifícios, até então reduzidos a uma espessura inimaginavelmente
delgada, dilatavam-se, quebravam a luz do sol, produzindo um lindo efeito de cores
para os olhos dos dois viandantes.
Meia hora depois, quando já estavam entrando
na cidade, o mar do norte já estava tão amplo, que não conseguiam mais ver sua gazela.
E pouco tempo depois, desaparecia também o litoral sul do mar do norte.
Apesar disso, seus ombros ainda estavam largos
demais para penetrarem na cidade. As ruas pareciam estreitas para eles. Tiveram
que esperar.
* * *
Natan chegou à cidade, depois de longa “caminhada”. Achou-a impressionante e, ao
mesmo tempo, acabrunhadora. A saudade de seu amigo, e dos outros estranhos, a sensação
da interminável solidão, quase se transformaram em pânico para ele. Estava crente
que se tudo isto não terminasse logo, sua existência como espírito terminaria num
curto-circuito.
Deitou na praça central da cidade e esperou.
A cidade ainda estava vazia e silenciosa. Não havia nada com que se distrair.
* * *
Quando a marcha regressiva da contração chegou
a um ponto que possibilitava o movimento de Bell e de Tompetch pelas ruas da cidade,
eles não sabiam que dia era. Mas estavam cientes de que não tinham tempo a perder.
Tinham que achar em breve a estação de fornecimento de energia.
Bell queria entrar em contato com John Marshall
para saber em que local da cidade deviam procurar a usina elétrica.
Mas não foi mais possível. Àquela hora, Marshall
já estava no espaço intermediário, enquanto ele e Tompetch viviam agora no espaço
normal.
De repente, Tompetch apontou para um edifício,
cuja torre central rasgava o céu avermelhado e cuja abóbada estava guarnecida com
figuras tais que se podia pensar em antenas de radiação dirigida. Bell achou que
ele tinha razão. A entrada para a torre era pelo lado oeste. Os ombros de Bell ainda
estavam um tanto largos, obrigando-o a virar o corpo para passar pelo portão.
A quantidade de peças elétricas e eletrônicas,
de todos os tipos, deixou Bell, a princípio, confuso. Levou uma boa meia hora para
reconhecer pelas formas dos aparelhos e pelo tipo de suas ligações, para que fim
serviriam. Experimentando muitas instalações, levantou a alavanca de contato de
uma delas e viu com satisfação que uma série de lâmpadas se acenderam. Ao mesmo
tempo, apareceu numa tela uma imagem que parecia um mapa da região, confeccionado
numa espécie de plástico. Começou a mexer em diversos botões e descobriu um que
regulava a tela.
Não foi necessário muito exercício para que
Bell, girando o mapa plástico chegasse a descobrir o local do pouso da gazela de
Rhodan.
— Podemos começar agora — disse ele mais calmo
para o Tenente Tompetch.
Depois colocou o capacete espacial para trás,
para não ser mais incomodado em seu trabalho. A pressão do ar estava quase normal.
* * *
Ele, o senhor de Peregrino, se apresentou de novo
com sua risada barulhenta.
—
Parabéns, meu amigo, mais uma vez você teve sorte.
Rhodan entendeu com isto que o Ser queria dizer
que Bell descobrira a usina elétrica e a colocara em funcionamento.
Rhodan não teve mais dúvidas. Satisfeito, deu
a partida nas turbinas de propulsão. A gazela subiu para o espaço. Das três figuras
fantasmagóricas, não se via mais nada.
—
E você ainda terá uma grande surpresa!
Era de novo a voz do Ser do planeta. Rhodan
não lhe deu muita importância. Mais importante para ele, era chegar à cidade no
litoral do continente do norte. Eram quatorze horas e quarenta e cinco minutos.
Sobravam apenas dez horas para salvar a imortalidade.
* * *
O céu ficara de novo mais claro, quando Bell
e Tompetch deixaram a torre e se dirigiram para a praça, onde havia a grande galeria.
Caminhavam por ruas desertas da cidade gigantesca, que estava morta e parada — com
exceção do vulto que saiu de repente da sombra de uma casa.
Reginald Bell se lembrou dele — o homem de
roupas esfarrapadas, com a cartucheira caída na barriga e os dois polegares enganchados
nela.
— Alô, onde vão estas duas figuras? — perguntou
ele.
Era a mesma voz que ouvira há mais de sessenta
anos, no mesmo lugar.
— Para onde estão indo vocês? Conhecem esta
cidade? Sabem qual é a distância entre Dodge e Wichita? Queria ir até lá.
Bell fez cara de quem não estava gostando muito
daquele encontro e respondeu:
— Trinta e oito milhas, estranho. Você não
tem um cavalo?
A figura abanou a cabeça.
— Não. Foi abatido pelos vermelhos. Estou agora
procurando outro, mas quem vai achar um cavalo nesta cidade miserável?
Dizendo isto, a figura desapareceu subitamente,
como se nunca tivesse estado ali.
A praça ficou vazia de novo e Bell sentou-se
no chão. Não sabia que horas eram, nem quando terminaria o prazo. Sabia apenas que
não entraria no fisiotron, antes de Perry Rhodan. Era o segundo homem do Império
Solar e jamais queria ser mais do que isto.
Mike Tompetch não tinha tantos cuidados assim.
Andava de um lado para o outro, contemplando as construções da cidade. Ouviu, de
repente, o zunido característico da gazela, que se aproximava da cidade, depois
de ter atravessado o mar.
Bell levantou-se e abanou as mãos para saudar
os companheiros.
* * *
Às dezesseis horas do dia primeiro de maio
de 2.042, Perry Rhodan entrou no fisiotron. O robô Homunk surgiu dos fundos da galeria
e encaminhou Rhodan para as instalações de terapia. Homunk não soube explicar se
as condições peculiares do planeta Peregrino podiam influenciar na eficácia da ducha
celular. E se o robô não sabia, era sinal de que também Ele, o senhor do planeta,
estava diante de um enigma.
Às dezessete horas e vinte e quatro minutos,
estava terminado o tratamento de Rhodan.
Homunk ainda levou uns instantes até recarregar
os aparelhos e chegou então a vez de Reginald Bell. Bell também se preocupara com
as influências do fenômeno da contração sobre os efeitos da ducha celular. Era de
opinião, de que, numa situação como esta, a ducha não garantiria, ou melhor, não
impediria o desgaste das células do organismo, pelo menos para ele, Bell.
Com Rhodan, o caso era diferente, pois, através
do salto pelos raios transportadores, ele pertencia a este espaço, que era o do
planeta Peregrino. Ele, Rhodan, não havia passado pelas alterações da contração
do planeta.
Bell se sentiu aliviado ao constatar que a
reação de seu organismo ao tratamento do fisiotron fora a mesma que há sessenta
e dois anos. Rhodan veio ao seu encontro e, em silêncio, lhe apertou a mão. Havia
alegria nos seus olhos.
— Como é? Conseguimos, não é? Para mais sessenta
e dois anos.
— Será que conseguimos mesmo? — perguntou Bell
cético. — Você acha que o efeito será o mesmo da outra vez?
Rhodan procurou o robô, mas Homunk já havia
se retirado para os fundos da galeria.
— Não, Bell, não estou bem certo disso. Mas
podemos tomar nossas medidas de precaução.
— Precaução, como assim? — perguntou Bell.
— Perfeitamente. O prazo expira dentro de quatro
horas e meia. Conforme o que Homunk me explicou, se a ducha não foi valida, o envelhecimento
começará à meia-noite. Nós ficaremos aqui, acamparemos ao lado do fisiotron. Assim
que notarmos os primeiros sintomas do envelhecimento...
— Ah! Compreendo — Bell sorriu feliz e bateu
amigavelmente nos ombros de Rhodan. — É uma idéia excelente, rapaz!
* * *
Depois de ficar parado na praça muitas horas,
sem que nada acontecesse, Natan resolveu andar pela cidade, olhando os enormes edifícios.
Não gostou. Sentia saudades da grande espaçonave, que era muito mais agradável do
que esta cidade morta.
Em sua desolação, não reparou que a gazela
havia descido na praça. Continuava perambulando pelas ruas, quando o sol artificial
já estava para se pôr.
Perry e Bell estavam diante da gazela, contemplando
o céu avermelhado.
— Esquisito — disse Rhodan — estamos em dois
espaços diferentes. Você continuou no Universo de Einstein, enquanto eu me encontro
no mesmo espaço intermediário do planeta Peregrino. Você está vendo o céu vermelho
e meio escuro, eu o vejo claro e azul. E apesar disso, podemos conversar um com
o outro, ver e apalpar as coisas.
Bell não disse nada.
— Parece — disse Rhodan depois de curto intervalo
— que a vida orgânica está em condições de superar certos limites da natureza. É
um mistério que...
Parou de falar, quando notou que uma sombra
saía da rua e entrava na praça. Constatou que aquela névoa indecisa tomava as formas
de uma figura humana e vinha flutuando em sua direção.
— Natan! — exclamou Rhodan. — Natan está aqui
de novo.
No mesmo instante, reboou a gargalhada do Ser
do planeta, sobre toda a grande praça. Veio tão depressa, que Rhodan se assustou.
—
Preste atenção. É agora que algo vai acontecer.
Rhodan viu como a existência como espírito
de Natan desapareceu pela comporta aberta da gazela. Bell deu um passo rápido para
frente e perguntou atônito:
— O que que Ele está dizendo? Que significa...
Não terminou a frase.
O fim do mundo começou inesperadamente. Bell
sentiu-se atirado para o lado, como se tivesse recebido um estrondoso pontapé de
um gigante. Logo depois, sofreu a mesma dor aguda da desmaterialização, que havia
experimentado há pouco no fisiotron. Estava tudo escuro e ele estava morrendo.
Sim, morrendo de medo.
Esperava rebentar-se em pedaços a qualquer
momento.
Ao invés disso, porém, a dor cessou de repente.
Bell se viu deitado no chão da grande praça, olhando para um céu que agora estava
tão azul como o céu do Arizona. E no meio do céu, estava o sol artificial do planeta.
* * *
— Cheguei a saber alguns segundos antes de
acontecer — disse Atlan — não tive, porém, tempo para lhe comunicar, administrador.
Rhodan respondeu apenas com um sinal da cabeça.
Estava ainda com os reflexos da dor, a mesma dor que sentiu na transição da gazela
com os raios transportadores.
— Eu disse desde o princípio — continuou Atlan
— que o espaço de meio tempo, em que se encontra este planeta, era uma formação
muito instável. Bastaria um movimento leve para alterá-lo e fazê-lo voltar à estabilidade.
Mas, felizmente, isto já aconteceu. O planeta Peregrino está no espaço normal. Sabemos,
desde alguns segundos, que temos contato normal com a Drusus. Não está a mais de
dez minutos-luz do planeta Peregrino. A volta ao espaço normal nos custou um dia
e meio. Estamos agora no dia três de maio, nove horas da manhã.
“A energia de que o planeta Peregrino necessitava
para sair da instabilidade do espaço intermediário não era pequena. Tirou-a dos
mecanismos de propulsão das duas gazelas. Mais ainda: a energia sugada das naves
não foi suficiente para provocar a reviravolta no ambiente do planeta. Quem forneceu
a energia faltante foi a instalação que Bell e Tompetch descobriram e ativaram na
cidade.
“E finalizando: Quando a energia necessária
para a inversão do espaço intermediário estava quase toda reunida, faltava ainda
um nadazinho para provocar o transbordamento. E quem o forneceu? Foi Natan, quando,
cansado e desolado, voltou a seu corpo, deixando neste mundo a energia que trazia
consigo para manter sua existência como espírito.
“Isto é um resumo de toda história. Haveremos
de calcular tudo com exatidão e dureza, quando desvendarmos a teoria do espaço intermediário.”
Virou-se para o lado e sorriu para Ali el Jagat.
Este correspondeu ao sorriso.
— E também iremos dar toda atenção, teórica
e prática à dimensão do tempo relativo dos druufs.
Rhodan levantou-se, deu um passo à frente,
tropeçando no corpo de Natan, que mais parecia uma vaca-marinha. Natan não escondia
sua alegria de estar de volta. Rolava feliz no chão, soltando guinchos de alegria,
que não eram ouvidos, por serem emitidos em vibrações de ultra-som.
Rhodan olhava para a tela panorâmica. A vinte
metros da comporta da gazela, via-se o grande portão que dava para a galeria do
fisiotron.
“Que
mundo extraordinário é este!”, pensou Rhodan, o administrador.
* * *
* *
*
Em Últimos Dias de Atlântida, título do próximo livro da série, lances
estupendos acontecem. E Atlan, o arcônida imortal, vai reviver um pouco da mitologia
da Terra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário