Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Sua arma é a velocidade — A cavalgada do
cruzador rápido Califórnia...
Na Terra registra-se o ano 2.043 e, com isso,
aproxima-se o momento em que, segundo os matemáticos, deve ter início a
estabilização dos dois planos temporais, representados pelo Universo dos druufs
e pelo Universo einsteiniano...
O estado de alarma é dado na base solar de
Fera Cinzenta! A Frota Espacial Terrana assume suas posições de combate.
A ordem: penetrar naquele Universo...
Vermelho!
= = = = = = = Personagens
Principais: = = = = = = =
Atlan — O imortal que fica
apavorado com a leviandade dos terranos.
Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.
Primeiro-Tenente
Baldur Sikermann — O homem que domina os controles da nave Califórnia.
Dr. Sköldson — O médico-chefe que
não encontra entre os tripulantes da Califórnia nenhuma vítima para sua
injeção.
Fellmer Lloyd — O mutante que
deixa de procurar o médico por causa de uma placa.
1
Eram ativos como as abelhas e
obstinados como um lobo faminto, que se encontra na pista de um alce.
Trabalhavam assiduamente, sem
demonstrar um fervor excessivo. Os movimentos eram precisos, os cálculos
exatos, e cada um sabia de cor onde devia pôr a mão.
Faziam seu trabalho numa excelente
disposição de ânimo que, por si só, removia as dificuldades e levava as
relações entre os cientistas, oficiais e tripulantes a um nível excelente de
descontração. O observador estranho poderia até ser levado a acreditar que se
tratava de uma grande família.
Era um amontoado, uma atividade
febril, um retumbar, martelar e chiar que só se via e ouvia num dos grandes
estaleiros espaciais.
Fiquei profundamente
impressionado.
Há uma hora o engenheiro-chefe do
estaleiro XIV me pedira encarecidamente que abandonasse a cúpula polar superior
do novo supercouraçado espacial, a nave Kublai Khan, uma vez que perturbava o
serviço de seus colaboradores.
Um tanto irritado, saí do recinto.
Afinal, havia sido eu quem refletira por dias a fio sobre a melhor maneira de
retirar o transmissor fictício do velho couraçado Ganymed e instalá-lo no posto
de armamentos da Kublai Khan.
Mas quando cheguei à pequena
comporta de passageiros, situada mil e duzentos metros abaixo da cúpula, meus
ressentimentos já se haviam dissipado.
Uma coisa não se poderia negar a
esses bárbaros: eram honestos! Era acostumado a submeter meus atos e
sentimentos a uma rigorosa autocrítica e, por isso, constatei depois de alguma
reflexão que realmente perturbara o trabalho dos homens no estaleiro.
O cientista foi feito para indicar
determinada rota ao especialista. Um vez concluídos meus estudos, minha
presença se tornara dispensável. Os engenheiros da equipe de Michels não
precisavam de conselhos para prender o transmissor em suas bases e montar as
instalações de força.
E foi assim que ainda estava
sentado na mesma caixa de plástico, que trinta minutos antes escolhera para
descansar.
Dali via perfeitamente os flancos
abaulados do gigante esférico de mil e quinhentos metros de diâmetro, ao qual
fora dado o nome Kublai Khan. Ao que parecia, Perry Rhodan fazia uma ótima
idéia do grande chefe mongol, que chegara a criar um império mundial.
Com um sorriso no rosto, deixei
que meus pensamentos vagassem pelo passado. Conhecera muito bem o tal do Khan,
mas Rhodan não sabia disso. Naquela época nem sonhara com a possibilidade de
que um dia ajudaria a equipar uma gigantesca nave que traria seu nome.
Por certo, os terranos estavam
muito ligados à sua história. Se dependesse dos homens que trabalhavam no
estaleiro, teria de reuni-los ao menos quatro vezes por semana para contar
histórias de minha longa vida. Mas nem pensava em aceder a esse desejo, pois
não me esquecera dos sofrimentos que nessas oportunidades me eram impostos por
meu segundo cérebro. Assim que o setor de memória funcionasse a plena potência,
o fluxo normal dos meus processos normais estaria interrompido.
O ativador celular demonstrou sua
presença por uma pulsação quase imperceptível. Um tanto surpreso, franzi a
testa. Esse aparelho misterioso, do tamanho de um ovo, começava a funcionar
quando meus tecidos celulares precisavam de certos estímulos. Estava apenas
esgotado? Ou será que, mais uma vez, meu organismo passava por um processo que
os biólogos terranos identificariam pela expressão “regeneração tempestiva de células que já deviam estar mortas?”
Era provável que jamais
conseguiria decifrar o mistério do micro-ativador, que há uns dez mil anos me
conservava a juventude e o vigor. O único ser, que poderia esclarecer-me a esse
respeito, estava “desaparecido” desde
o momento em que ocorrera o desastre com o planeta artificial Peregrino.
Aquilo acreditara poder descansar
por um instante de sua dimensão temporal. Eu tinha uma idéia bem nítida daquilo
que uma inteligência imaterial deveria entender por um instante. Talvez esse
instante demorasse mais de cinqüenta anos!...
A coluna de apoio mais próxima da
Kublai Khan ficava a uns cem metros de distância. Aquela construção gigantesca,
com o diâmetro de uma torre, obstruía a visão para o abismo tenebroso que se
abria embaixo da calota polar. Homens e materiais desapareciam em quantidades
inacreditáveis por lá.
Provavelmente haviam passado pela
mesma experiência que eu. Deveriam ter levado semanas ou até meses para vencer
a claustrofobia. Afinal, não era nenhuma brincadeira ter alguns milhões de
toneladas de aço de Árcon bem em cima da cabeça da gente. Bastaria que uma das
colunas de apoio vergasse, ou afundasse no solo de concreto, para que houvesse
um acidente de conseqüências gravíssimas.
Assustei-me ao ver subitamente uma
sombra. Alguém se aproximara por trás. No último instante, o setor lógico de
minha mente me avisou de que por aqui não havia inimigos ou atacantes. Meu
corpo retesado descontraiu-se.
— Olá! — disse com uma lentidão
proposital. — Será que viu um fantasma? A gente não deve aproximar-se que nem
um felino de uma pessoa nervosa.
Virei a cabeça.
O engenheiro Michels, chefe do
estaleiro XIV, soltou uma estrondosa gargalhada. Seu cabelo louro-claro saía
sob o boné, e o macacão dava a impressão de ter sido posto de molho num
recipiente com óleo queimado.
Fungou ao levantar o pé e
colocá-lo sobre a caixa de plástico alongada. Enxugou o suor que lhe corria
pela testa.
— Que vida de cachorro, não é? —
observou. — Querem que a gente faça tanta coisa.
— É verdade — respondi ao acaso.
Estava tramando alguma coisa; eu
sentia. Às vezes, esses terranos desenvolviam um senso de humor capaz de levar
um arcônida à beira da loucura. E essa característica sempre me surpreendia,
embora já vivesse há tanto tempo entre os homens.
Mais cinco aproximaram-se. Atrás
deles, uma plataforma antigravitacional de carga planou silenciosamente. Um
deles dirigia o veículo com gestos descuidados. Mantinha o pequeno aparelho de
teledireção na mão como se fosse um brinquedo.
Assim que me viram, os
recém-chegados começaram a rir, como que a um comando. Com um leve mal-estar
perguntei-me qual poderia ser o motivo de tamanha alegria. Mais uma vez,
lamentei não ser um telepata.
Michels estava de pé a meu lado e
me proporcionava uma sombra agradável. Faltava pouco para o meio-dia. O céu
azul e límpido do antigo deserto de Gobi estendia-se acima de minha cabeça.
Do lugar em que me encontrava, não
via os arranha-céus da cidade de Terrânia. A silhueta da Kublai Khan era imensa
e enchia todo o campo de visão.
— Que coisa! — disse um tenente
muito jovem do Serviço de Segurança.
Era um dos cinco membros do
comando de transporte.
Fitei-o prolongadamente e comecei
a bater nervosamente com as solas grossas das botas contra a caixa de plástico.
Depois de algum tempo, Michels disse em voz baixa:
— Almirante, o senhor permite que
o informe de que está sentado bem em cima do detonador de uma bomba catalítica
de quinhentos megatons? Se Sua Excelência quisesse ter a bondade de abandonar
esse local tão perigoso para o descanso...
Quando dei conta de mim, já estava
correndo. Ouvi as gargalhadas estrondosas dos homens atrás de mim. Essa gente
nem parecia ter nervos!
Agora já compreendia por que
aqueles oficiais armados me olharam de forma tão estranha, quando pouco antes
sentei naquela maldita caixa. E esses rapazes nem pensaram em avisar-me de que
estava cometendo um engano apavorante. Ainda cabia outra consideração. Como é
que se coloca um recipiente de plástico com um conteúdo tão perigoso em um
ponto qualquer do estaleiro?
“É a fase final do aprovisionamento, seu idiota!”, foi a mensagem
lacônica transmitida por meu segundo cérebro.
De qualquer maneira só parei de
correr quando aquela gente maluca não me via mais. Ofegante, encostei-me contra
o quadro de comando de um aparelho robotizado de controle de material, que
fazia mais uma verificação de todas as mercadorias entregues, a fim de detectar
eventuais erros de fabricação.
Dali a poucos instantes, fui
expulso mais uma vez. Cheguei à conclusão de que o estaleiro realmente não era
meu lugar. Só vira uma aglomeração como esta durante a grande guerra, há dez
mil anos. Naquela época, meu povo lutava pela sobrevivência das raças
humanóides. O inimigo encarniçado foram os respiradores de metano do setor das
nebulosas da Via Láctea.
Isso já fazia muito tempo. Hoje,
os problemas eram outros. Mais uma vez, a Galáxia estava tumultuada, mas desta
vez não se tratava de nenhum ataque de seres que respiravam gases venenosos. Os
seres vindos de outra dimensão temporal foram designados por algum tempo como
os uuns. Além de Rhodan, pouca gente
conhecia a origem desse nome. Certos animais encontrados assim que se penetrou
pela primeira vez na outra dimensão temporal emitiram sons abafados que soavam
como “uum”.
No mesmo momento, um tenente
leviano da Frota Solar teve a denominação na ponta da língua. Neste ponto os
humanos costumavam ser muito rápidos. Mais tarde, por intermédio de um robô
aprisionado, ficamos informados que os verdadeiros donos da outra dimensão eram
os druufs.
Estava sacudindo os últimos
resquícios de contrariedade e pretendia chamar meu carro voador, quando o
pequeno videofone de pulso emitiu o sinal de chamada.
O General Deringhouse — um dos colaboradores
mais antigos de Rhodan, que se conservara jovem em virtude da ducha celular
aplicada no planeta Peregrino — surgiu na minúscula tela. Em seu rosto
notava-se uma estranha indiferença.
— Mensagem do chefe, Sir — disse
em tom lacônico. — Poderia comparecer imediatamente ao quartel-general do
Serviço de Defesa? Pode? O.K. Muito obrigado.
Perplexo, fitei a tela que se
apagava. Deringhouse desligara imediatamente. Fora um convite muito estranho.
Sabia que Rhodan se encontrava no
sistema de Mirta, com grandes contingentes da frota solar. Nos últimos dez
meses, uma base da frota solar fora instalada no planeta Fera Cinzenta, que era
o sétimo mundo do sistema que girava em torno do sol distante.
Sabíamos perfeitamente que, dentro
em breve, ocorreria uma invasão temporal dos druufs nas proximidades dessa
estrela, mas desta vez não pretendíamos aguardar de braços cruzados até que o
desastre chegasse.
Já sabia muito bem qual era o
aspecto dos mundos despovoados da Via Láctea... Neles acontecera aquilo que já vira
dez mil anos antes, quando exercia as funções de comandante de uma esquadrilha
arcônida.
Dali a dez minutos, meu veículo
pousou na cobertura do grande edifício. Um robusto oficial com cabelos louros
cortados à escovinha e olhos azuis e francos me foi apresentado após a
conferência. Durante esta, os dirigentes do Império Solar me informaram em
palavras lacônicas que, nas proximidades do sistema de Marte, foram avistadas
gigantescas zonas de superposição.
O homem, que acabara de conhecer,
era um coronel chamado Marcus Everson. Um olhar para os distintivos deixou-me
ciente de que tinha diante de mim experimentado oficial das forças espaciais,
consagrado em inúmeras missões.
— Muito prazer, almirante — disse
Everson.
— Neste momento, o Coronel Everson
é investido no comando da Kublai Khan — disse Deringhouse em tom apressado. —
Peça que Marcus lhe conte o que aconteceu durante o vôo de regresso do planeta
Epan. E olhe que sua tarefa consistia unicamente em trazer o agente cósmico
Goldstein.
Everson sorriu.
— Por pouco um homem que usava o nome
de Mataal e alegava ser um nativo do planeta Epan não se apodera de minha nave.
Conhece alguma raça galáctica cujos membros se pareçam com grandes morcegos?
São dotados da capacidade de realizar o reagrupamento das moléculas. Esse nosso
“amigo” conseguiu pôr fora de ação um
por um dos meus tripulantes. Mas acabou cometendo um erro fatal. Acho que é só
isto...
Everson fez um suspense, mas
manteve-se calado. Parecia pensativo. Imaginei perfeitamente o que deveria ter
acontecido a bordo da pequena nave.
— Michels comunica que a
instalação do transmissor fictício já foi concluída — disse Deringhouse. —
Pedimos-lhe que decole imediatamente com a Kublai Khan. Neste momento, a nave
está sendo levada para fora do estaleiro. Acho que ficará satisfeito com
Everson no comando, Atlan. Conhece nossos supergigantes.
Bastou lançar-lhe um olhar para
convencer-me em definitivo de que ficaria satisfeito. Everson acompanhara a
ascenção da antiga Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan. Naquele tempo,
eu ainda era de opinião que deveria fazer alguma coisa para dar uma lição à
Humanidade.
Os tempos estavam mudados. Os três
mundos de Árcon, onde ficava minha distante terra natal, estavam sendo
governados por um supercomputador, cuja programação evidentemente não era
adequada ao exercício de uma política galáctica racional e humana.
Dali a alguns minutos, quando
conversava com o coronel sobre as possibilidades de utilização da Kublai Khan,
recebemos uma mensagem de rádio vinda das profundezas da Via Láctea. O impulso
condensado e codificado vinha do setor de Mirta, situado a 6.562 anos-luz da
Terra.
Assim que a mensagem foi
decifrada, vi Deringhouse empalidecer. Estendeu-me a fita de plástico sem dizer
uma palavra e com uma expressão de insegurança no rosto.
Ocorreu caso Potomaque. Estado de
emergência a partir de 1o de agosto de 2.043, 24 horas. Leis
de exceção em vigor a partir de hoje. Impedir decolagem frota mercante, segundo
instrução A-3, até segunda ordem. Atlan voltará à base. Ass. Rhodan, chefe da
Frota Espacial e Administrador do Império Solar.
Levei alguns segundos para digerir
a informação. Então chegara a hora! Nossos cálculos estatísticos sobre o grau
de probabilidade de superposição total no sistema de Mirta revelaram-se
corretos.
Coloquei a fita de plástico sobre
a mesa e fitei um por um os oficiais presentes. As leis de exceção trariam
certas conseqüências desagradáveis para os habitantes do planeta Terra. Ainda
haveria numerosas indagações, que, por questões de sigilo oficial, não poderiam
obter respostas verídicas.
Em meio a tais reflexões, disse
lentamente:
— Então é o caso Potomaque? Isso
significa que as frentes se estabilizam. Senhores, torna-se necessário que
tomem certas providências destinadas a evitar que, em amplos círculos da
população, passem a ser considerados como instrumentos dóceis de um grande
ditador. Divirta-se, Deringhouse!
Deringhouse olhou-me com certa
insegurança, mas logo voltou a controlar-se.
— Conseguiremos — disse com a voz
tranqüila. — Isso já era esperado. Faça o favor de decolar imediatamente,
almirante. No sistema de Mirta, precisarão mais do senhor do que em Terrânia.
Por aqui saberemos manejar as coisas.
Dali a vinte minutos, desci do meu
planador aéreo. As paredes gigantescas do supercouraçado ergueram-se à minha
frente. A Kublai Khan estava pronta para decolar.
O imediato do gigante espacial
apresentou-se na comporta inferior. Fui recebido com o cerimonial pomposo,
introduzido a pedido de Rhodan. Talvez isso não fosse tão errado, pois ajudava
a disciplina. Na antiga frota arcônida, vigoravam disposições semelhantes.
Observei atentamente as unidades
completamente equipadas da esquadrilha de defesa interplanetária, que se
encontravam sob o comando do próprio Deringhouse. Entre as naves que permaneceriam
por ali, para defender o sistema solar, encontravam-se as mais velhas das
supergigantes, a Titan e a General Pounder. Além disso, havia numerosos
cruzadores da classe Sol e várias unidades leves e pesadas das novas séries. O
que a Terra conseguira criar no espaço relativamente curto de setenta anos não
podia ser desprezado.
Ouvi o ruído surdo de alguns
cruzadores da classe Estado que decolavam. Antes que fôssemos atingidos pelas
ondas cálidas de compressão, já me encontrava no elevador antigravitacional da
comporta inferior. Acima de minha cabeça, abriu-se o ventre da Kublai Khan, um
veículo espacial dotado das conquistas mais recentes da tecnologia.
Marcus Everson, o comandante, fez
continência, encostando a mão ao boné de serviço. Na grande sala de comando da supernave
reinava a atmosfera excitante, formada por uma atividade aparentemente inútil,
que me fascinava toda vez que penetrava ali.
As informações vindas da sala de
máquinas sucederam-se em rápida seqüência. Bem abaixo de nós, os reatores
monstruosos das numerosas unidades energéticas começaram a rumorejar. Era um
ruído capaz de agitar todos os nervos de um homem da minha estatura mental.
Fascinado, fitei as grandes telas
da galeria panorâmica. Por enquanto as instalações do maior espaçoporto terrano
brilhavam nas superfícies tridimensionais, mas, instantes depois, o quadro
modificou-se por completo.
O único sinal da decolagem da
Kublai Khan era o trovejar potente das unidades propulsoras, que funcionavam a
dois por cento de sua potência máxima. O empuxo foi suficiente para fazer a
esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro penetrar no céu azul do meio-dia.
Sabia que no espaçoporto todos se
haviam abrigado. As ondas de compressão produzidas pelas grandes naves tinham
uma triste fama, muito embora todo comandante fosse bastante cauteloso para
levantar vôo com o mínimo possível de potência. E com uma nave do tamanho da
Kublai Khan, tal cautela teria de ser redobrada. Por isso mesmo, os
supercouraçados costumavam decolar sempre das pistas mais afastadas.
Os gigantescos mecanismos de
absorção de pressão neutralizaram as tremendas energias geradas pela força da
inércia. Nem sequer senti os efeitos da lei natural que quase causara a morte
de Perry Rhodan, por ocasião do primeiro vôo tripulado à Lua. Apoiada sobre
colunas de impulso, a gigantesca bola de aço corria, leve e facilmente, em
direção a seu elemento: o espaço livre.
Suspirei aliviado e recostei-me na
poltrona articulada.
Então chegara a hora! Os seres que
destruíram minha esquadrilha, dez mil anos atrás, receberiam uma amarga lição.
Minha luta não fora em vão.
Durante a ligeira seqüência de idéias, meu setor de memória começou a funcionar
imediatamente. Até parecia que meu segundo cérebro apenas esperava um impulso
da parte consciente de minha mente, para dar início a mais uma dolorosa
narração.
Com um tremendo esforço, procurei
vencer a crise que se iniciava. No momento seria um absurdo relatar coisas que
se haviam passado há tanto tempo. O velho Império Arcônida deixara de existir
na sua forma originária. Minhas energias pertenciam aos habitantes da Terra,
daquela mesma Terra que ainda chegara a conhecer sob outra conformação
geológica.
O rugido dos dezoito conjuntos
propulsores cresceu. Depois de cruzar a órbita da Lua, a Kublai Khan aumentou a
velocidade. Mais uma vez, não senti a pressão provocada pela aceleração. Os
novos aparelhos de absorção eram excelentes.
Vi um sorriso nos lábios de Marcus
Everson. Aquele homem inspirava confiança. Chegava a apresentar certa
semelhança com meu antigo mestre, o Capitão Tarts, comandante da Tosoma.
2
Everson era mesmo um sujeito
maluco.
Não havia nenhuma necessidade de
vencer toda essa distância numa única transição. Vencemos num único salto a
distância apreciável de 6.562 anos-luz, fato que provocou uma dor de
rematerialização bastante intensa.
Uma viagem pelo hiperespaço da
quinta dimensão, que pode ser compreendida em termos subjetivos, mas nunca
chegou a ser inteiramente explicada em termos práticos, muitas vezes deixava as
pessoas fortes totalmente arrasadas, enquanto conferia uma sensação de força a
indivíduos aparentemente fracos. Ninguém sabia prever a reação de cada
indivíduo durante o processo de desmaterialização.
Senti-me totalmente abalado,
física e mentalmente esgotado.
Um engenheiro nervoso procurava
controlar o funcionamento do novo neutralizador de vibrações. Tratava-se de um
aparelho criado para absorver as vibrações e impedir a localização goniométrica
da nave.
Lancei um olhar para a tela
diagramática dos controles automáticos. A linha verde e recortada era perfeita
e uniforme, o que provava que Everson fora bem sucedido.
— Isso poderia ter acabado mal,
não poderia? — perguntou.
A resposta do engenheiro foi
proferida em voz tão baixa que ninguém conseguiu entendê-la. Mas, ao que
parecia, não dissera nenhuma gentileza.
Everson riu numa atitude de
indiferença. Mais uma vez, tive oportunidade de constatar que o intercâmbio
entre superiores e subordinados era franco e descontraído.
Com um gemido, ergui-me da
poltrona. Naquele instante viam-se cinco planetas nas telas da galeria
panorâmica. Bem à nossa frente, estava a bola incandescente de um estranho sol
que, segundo os dados apurados, só poderia ser a estrela Mirta.
Cambaleei em direção aos painéis
de controle e acomodei-me na poltrona do substituto do comandante. Antes que
desse conta de mim, a Kublai Khan estava pousando.
Conhecia o planeta Fera Cinzenta
por causa de uma tarefa destinada a capturar traidores fugidos. Por pouco, na
ocasião, o computador-regente de Árcon não teve conhecimento da posição galáctica
da Terra. Graças à intervenção de um homem arrojado, conseguimos impedir a
provável destruição dos mundos solares.
Assim que penetramos nas camadas
mais densas da atmosfera e ouvimos o uivar produzido pelo deslocamento das
massas de ar, recebemos também as primeiras mensagens de rádio emitidas, ao que
parece, por uma potente estação instalada na superfície do planeta.
A mensagem foi transmitida em
ondas ultracurtas comuns, que se deslocavam à velocidade da luz, o que era
sinal de que já se tornava possível dispensar o hiper-rádio, que facilitava a
localização goniométrica.
O rosto de Rhodan surgiu numa das
telas.
Levantou a mão a título de
cumprimento. Não gostei de seu sorriso. Parecia uma contração rotineira e
indiferente dos lábios, onde não havia a menor cordialidade.
Seu rosto estreito tornara-se
ainda mais magro. Fazia meses que não o via, já que a tarefa de instalar o
precioso transmissor fictício no interior da Kublai Khan me mantivera
totalmente ocupado.
— Sejam bem-vindos — disse Rhodan.
Tive a impressão de que seus pensamentos estavam num lugar muito diferente. —
Pouse na pista três. A linha de aproximação lhe será indicada. Peço evitar
qualquer demonstração desnecessária de “fogos
de artifício”. As ondas de impulsos também emitem certa dose de radiações
de choque, que, conforme as circunstâncias, podem ser detectadas pelos
instrumentos de medição da quinta dimensão.
A observação deixou-me abalado.
Desde quando existia esse risco de localização goniométrica?
— Mas isso só acontece quando o
goniômetro se encontra a uma distância inferior a quatro horas-luz — respondi
com a voz tensa.
O sorriso que Rhodan passou a
exibir parecia triste.
— É o que você diz, arcônida. É
provável que algumas naves inimigas se encontrem na periferia deste sistema
estelar. Por isso peço que, na medida do possível, durante o pouso, sejam
utilizados apenas os campos antigravitacionais. É só. Daqui a pouco nos
veremos. Desligo.
A tela apagou-se. Ouvi Marcus
Everson soltar um assobio estridente. Seu rosto largo perdera a expressão de
auto-satisfação.
— O senhor compreende isto? —
perguntou em tom indiferente.
A mão direita comprimia a chave de
sistema de intercomunicação. A troca de mensagens com a central energética não me
permitiu responder.
— Todas as unidades ativarão os
campos antigravitacionais — disse o comandante com a voz calma. — O chefe não
que saber de ondas de impulsos. Peço confirmação.
Marcus repetiu a pergunta.
Contemplei as telas que exibiam as
paisagens já conhecidas do antigo planeta colonial. Rhodan mandara
transformá-lo numa base avançada da Frota Espacial. O custo chegou a
aproximadamente setenta bilhões de solares, que era a unidade monetária do
pequeno reino estelar.
No momento em que as instalações
surpreendentemente extensas do espaçoporto surgiram embaixo de nós, e a Kublai
Khan foi reduzindo seu movimento pendular sob a ação dos campos
antigravitacionais, compreendi a ordem de Perry.
— O senhor acha possível que o
computador-regente não tenha percebido nada do surgimento das frentes de superposição?
— perguntei em tom apreensivo. — Não? Pois bem; aí está a solução. Pelo que
conheço da máquina, a mesma, graças à sua programação unilateral e à “falta de idéias”, mais uma vez recorreu
ao velho meio já consagrado. Enviou uma frota gigantesca que deverá atacar e
procurar forçar o novo inimigo a submeter-se ao domínio de Árcon.
“O cérebro positrônico nunca
compreenderá que os tempos mudaram. Por sua própria natureza mecânica é
totalmente incapaz de compreender a existência de outra dimensão temporal. Face
a isso, temos de contar com o aparecimento de algumas naves de reconhecimento.
É claro que Rhodan não está interessado em que a base de Fera Cinzenta seja
descoberta logo após sua instalação. O senhor pode imaginar perfeitamente o que
isso significa.”
Everson não disse mais nada.
Dali a alguns minutos, os
mecanismos de propulsão situados na protuberância equatorial da Kublai Khan
começaram a trovejar.
O ruído doeu em nossos ouvidos. Os
homens da sala de comando lançaram-nos um olhar apavorado.
— Desliguem! Que diabo! — gritou
Everson.
Já estava tudo terminado. As
placas de apoio das colunas hidráulicas tocaram o pavimento de plástico
blindado do novo espaçoporto. O rumorejar cessou. Aguardamos com a respiração
contida os últimos ruídos.
— Isso ainda pode ficar divertido
— disse alguém em tom apreensivo.
Olhei para trás. As palavras
haviam sido ditas por um jovem oficial que ostentava as insígnias da
recém-criada Academia Lunar.
Caminhei lentamente em direção à
escotilha da sala de comando. Sabia que Rhodan já nos esperava.
O procedimento de um cérebro
eletrônico-positrônico, dotado de controle individual semi-orgânico, só pode
ser previsto por alguém que tenha informações razoavelmente exatas sobre a
respectiva programação.
Não sabia o que meus antepassados
colocaram há cerca de cinco mil anos nos setores de armazenamento de dados do
gigantesco computador. Mas uma coisa era certa: o computador-regente achava-se
num estado de enorme confusão. Ao que parecia, seu mecanismo se encontrava em
desordem, motivo por que ordenava medidas que poderiam ser consideradas normais
numa guerra colonial comum, travada entre diversas inteligências da Via Láctea.
Mas parecia totalmente errado aplicar os mesmos princípios numa luta contra
inteligências que nem sequer provinham do Universo einsteiniano.
* * *
Encontrávamo-nos a bordo do novo
cruzador Califórnia, a menos de dez anos-luz do planeta Fera Cinzenta.
Tratava-se do sétimo mundo do sol Mirta, e dessa forma nem sequer havíamos
atingido os limites do gigantesco sistema. Ainda tínhamos pela frente as
órbitas dos planetas exteriores. Eram gigantescos mundos gasosos, frios e
desabitados, que não pareciam preencher a menor finalidade. Um total de
quarenta e nove corpos celestes gravitavam em torno de Mirta, mas apenas dois
deles eram habitados.
Às dez horas-luz foram vencidas em
queda livre, independentemente da utilização dos propulsores. Pouco depois da
decolagem, alguém me mostrara qual era a capacidade de aceleração dos novos
cruzadores da classe Estado.
Em pleno espaço interplanetário do
sol Mirta, realizamos uma emocionante manobra de frenagem. A desaceleração
chegara a mil quilômetros por segundo ao quadrado.
A Califórnia era uma nave de
reconhecimento ultra-rápida, cuja blindagem e armamento haviam sido grandemente
sacrificados em virtude dos propulsores superdimensionados.
Ao que parecia, na Califórnia fora
aplicado o velho princípio dos construtores de unidades navais: mais rápida que
as naves mais potentes, e mais potente que as unidades mais velozes.
Já examinara as salas de máquinas
do veículo espacial. A rigor, a nave poderia ser considerada uma bomba voadora,
ou um gigantesco mecanismo de propulsão fracamente protegido, que bastaria
perfeitamente para tanger um gigantesco couraçado pelo espaço.
No entanto, a Califórnia
representava mais alguma coisa...
Suas finalidades eram
perfeitamente definidas e, por isso mesmo, limitadas. Poderia surgir com uma
rapidez espantosa, atacar e voltar a desaparecer. Só o futuro mostraria se
deixara atrás de si danos de monta. Senti-me bastante impressionado pela nave
esférica de cem metros de diâmetro. Ela transmitia uma sensação de segurança,
desde que na ponte de comando se encontrasse um comandante que não fizesse
questão de dar provas de seu arrojado heroísmo. Nesse caso, os campos
defensivos bastante débeis do cruzador não resistiriam por muito tempo.
Estávamos na espaçosa sala de
comando, cujos instrumentos de localização eram outro sinal de poderio do
cruzador. Jamais vira tipos mais eficientes.
As telas da galeria panorâmica,
cujas dimensões pareciam excessivas para um cruzador, mostravam uma série de
ocorrências que quase me deixou sem fôlego. Nelas fervilhava e brilhava o
poderio da Via Láctea.
Meu segundo cérebro emitiu
pulsações fortes e dolorosas, pois manifestava a tendência de levar-me a contar
histórias. Começava a ser tomado por uma lembrança muito viva dos
acontecimentos desenrolados durante a chamada guerra do metano, travada há dez
mil anos da contagem de tempo terrana. Tive de esforçar-me ao máximo para resistir
à tendência. Não queria contar, mas realizar uma experiência consciente.
Reginald Bell, o representante de
Rhodan, encostara o corpo na poltrona do comandante. Pitava as telas com os
olhos semicerrados. Essas telas funcionavam segundo o princípio dos impulsos de
velocidade superior à da luz e da interpretação dos ecos.
Não podíamos ver as naves que se
encontravam a vinte anos-luz de distância como se estivessem à nossa frente. No
entanto, o tamanho e o formato das manchas verdes e luminosas permitiam uma
conclusão sobre o número de naves espaciais de todos os tipos, reunidas na
área. Não havia ninguém a bordo que não fosse capaz de conceber um quadro
nítido com base nos ecos.
— São pelo menos mil unidades da
classe Stardust — disse Bell. — É inconcebível! O computador deve ter lançado mão
de tudo que se encontrava nos hangares subterrâneos de Árcon III, não é?
Olhei o homem gordo e baixo com um
sorriso irônico no rosto. Bell tinha uma idéia errônea do poderio do Grande
Império.
— O senhor está enganado! —
observei sem o menor triunfo na voz.
Rhodan virou seu rosto expressivo.
— Está enganado?
Confirmei com um gesto triste.
— Não se deve subestimar a
capacidade de um império estelar que possui mais de cem mil planetas
industriais. Em todos eles há estaleiros espaciais, e em todos os estaleiros estão
sendo construídas naves. É verdade que se constrói segundo um esquema
preestabelecido, mas sempre se constrói. Se visse cem mil naves à minha frente,
não me espantaria nem um pouco.
Rhodan lançou-me um olhar de incredulidade,
enquanto Bell deu uma risada angustiosa.
— Que loucura! — afirmou.
Sabia mais que isso, mas preferi
ficar calado. Seria inútil tentar explicar aos terranos até onde ia a
potencialidade do Império.
A central de localização deu o
sinal de chamada. John Marshall, chefe do poderoso Exército de Mutantes, estava
no aparelho.
— São cerca de trinta mil unidades
de diversos tamanhos — anunciou. — E o que está havendo não são simples
combates, mas verdadeiras batalhas que estão sendo travadas com uma fúria
inacreditável. Nunca vi ondas de choque como estas.
Os dedos de Rhodan começaram a
brincar nervosamente com as teclas do controle de fogo. A Califórnia era uma
nave relativamente pequena, e por isso não possuía uma sala especial para o
controle de armamentos.
— Trinta mil, não é? — repetiu em
tom automático. — O que acha disso?
Levei alguns segundos para
compreender que essas palavras haviam sido dirigidas a mim. Olhava fixamente
para os rastreadores estruturais. Nas telas diagramáticas, via-se um chamejar
constante, mas este não provinha exclusivamente das inúmeras transições
realizadas pelas estranhas naves.
Mantendo-se constantemente
visível, a suave linha ondulante indicava algo que se parecia com um abalo
estrutural. No entanto, não se tratava das ondas de choque produzidas pelos
abalos energéticos de plano superior, mas da superposição ameaçadora de dois
planos espaço-temporais quase incompreensíveis.
Já dispúnhamos da interpretação
dos dados. Não havia a menor dúvida de que desta vez não se tratava de uma
frente relativista, mas de uma chamada zona de descarga, que se mantinha
estável há 36 horas, tempo-padrão.
— Quero saber sua opinião — disse
Rhodan em tom obstinado.
Só se viam vagamente os contornos
dos rostos dos homens que nos cercavam. Havíamos desligado todas as luzes, para
facilitar a observação das hiperimagens.
— Minha opinião? — disse com a voz
embargada. — Bem, minha opinião é a seguinte: vocês já conhecem minhas
experiências passadas. Acontece que os últimos cálculos demonstram que a dimensão
temporal dos druufs, que mantém uma relação de um para setenta e dois mil com a
nossa, não admite a idéia de passado, no sentido em que acabei de empregar o
termo. Desde o momento em que travamos a batalha em defesa do sistema solar
terrano, para essa gente não se passaram mais de dois meses. Formulo estas
observações preliminares para deixar clara nossa situação.
Rhodan parecia tranqüilo. Voltara
a colocar uma máscara: a máscara do auto-domínio absoluto.
— Como vão continuar as coisas?
— O tempo das frentes relativistas
com a característica típica do rapto temporal já passou. Naquele tempo, numa
situação semelhante, vi formações energéticas com o aspecto de funil, em pleno
espaço aparentemente vazio. Tratava-se de zonas de descarga, por meio das quais
se realizava a compensação da diferença do conteúdo energético dos dois
Universos. Os funis correspondiam a condutores de primeira qualidade, que
estabeleciam o equilíbrio das forças. Tratava-se de um fenômeno natural, que
não era dirigido por seres pensantes. Acontece que, no caso presente, as coisas
parecem bem piores.
Fiquei calado por um instante, a
fim de observar mais detidamente o fenômeno da curva representativa das ondas
de choque, que quase estava tomando a configuração de uma reta.
— Se considerarmos a diferença de
um para setenta e dois mil nas dimensões temporais e o deslocamento de massa
que se verifica nos pontos de concentração materialmente estáveis, situados no
plano dos druufs, chegaremos à conclusão de que os fenômenos já verificados foram
apenas um precursor daquilo que vemos agora. Infelizmente ainda não podemos
realizar a observação ótica do fenômeno, uma vez que a luz comum ainda não teve
tempo de percorrer a distância de vinte anos-luz. Se isso já tivesse
acontecido, vocês veriam as aberturas de funis luminosos vermelhos, que se confundem
umas com as outras até assumirem progressivamente a forma de uma fenda longa e
relativamente estreita no negrume do Universo einsteiniano.
“É esta a nova zona de descarga,
que se mantém estável, e que, segundo nosso cálculo de tempo inteiramente
arbitrário, teve início há cerca de dez mil anos. A esta altura, já devemos ter
compreendido que essa contagem de tempo não tem validade para outros mundos. Ao
que parece, bárbaro, você poderá dispensar daqui em diante a complicada
aparelhagem destinada à criação de um campo de refração. Daqui em diante você
poderá atravessar livremente essa zona, desde que eles o deixem passar.”
Não pude deixar de proferir a
observação sarcástica contida na frase final, embora não tivesse a menor
intenção de ofender meus amigos. E Rhodan não se sentiu ofendido. Sua resposta
foi proferida em tom irônico.
— Muito obrigado pela informação,
almirante. Já havíamos descoberto isso. Quando pousarmos, encontraremos as
primeiras sondas robotizadas, que foram enviadas a estas áreas antes de sua
chegada. Elas nos permitirão a obtenção de imagens óticas normais. A finalidade
deste vôo consistiu exclusivamente em verificar quais as medidas tomadas pelo
computador-regente face ao perigo repentino. É claro que enviou uma frota
gigantesca. Não conhece outras alternativas.
Engoli minha raiva e lancei um
olhar furioso para o mutante Wuriu Sengu, que acabara de soltar uma risada de
deboche.
— Quais são as chances que você
vê, bárbaro? — perguntei em tom irônico.
Rhodan bocejou, cobrindo a boca
com a mão.
— Eu?
Levantou devagar e chamou a sala
de máquinas. Dali a alguns instantes, os propulsores da Califórnia rugiram e a
nave aumentou a velocidade.
Essa máquina voadora de alta
potência era uma construção tão ousada que mesmo um engenheiro arrojado a
consideraria maluca.
— Olharemos cautelosamente por aí,
seremos amigos de todo mundo e apertaremos as mãos de todos, desde que os seres
que encontrarmos pela frente tenham mãos. Quanto a você, meu caro, será um dos
tripulantes da nave comandada por mim. Passaremos pela fenda do espaço
einsteiniano e penetraremos no plano dos druufs. O quê? Você disse alguma
coisa?
Não; não dissera nada. Rhodan
sorriu para mim, endireitou a fivela do cinto com as armas e desapareceu na
sala de computação.
Mais uma vez, perguntei-me por que
esse homem se tornara tão importante. Naquele momento, tinha o aspecto de um
aventureiro arrojado e dotado dos reduzidos dotes mentais de um cavaleiro da
corte do Rei Artur. Mas logo refleti melhor.
Perry Rhodan, um antigo major e
piloto espacial da legendária Força Espacial dos Estados Unidos, no fundo, era
um jogador genial, que sabia lançar seus trunfos com verdadeira mestria. E, se
por acaso não os possuísse, começava a blefar.
Naquele instante, não tinha nenhum
ás, mas assim mesmo teve a audácia de pôr na mesa a carta denominada “domínio da Via Láctea”.
Também me levantei da minha
poltrona, lancei mais um olhar para as superfícies luminosas das telas de
observação ótica dos setores adjacentes à nave e, dirigindo-me a Bell, disse:
— O senhor realmente acreditará
que, com alguns supercouraçados e cruzadores, conseguirá subjugar grandes
reinos estelares?
Antes de proferir sua resposta
franca, passou as mãos pelos cabelos ruivos e curtos:
— Não me leve a mal, meu velho,
mas o senhor está esclerosado.
Foi a resposta que deu a uma
pergunta séria. Gucky, o rato gigante com cauda de castor, soltou alguns pios
fortes.
Com uma expressão de perplexidade,
fitei o dente roedor colocado à mostra e senti um calafrio pela espinha. Não
foi por causa do dente. Não foi mesmo!
Se pensava nos intentos de Rhodan
e na resposta que acabara de receber de seu substituto, não me sentia muito à
vontade. O que estariam pensando estes selvagens? Estive a ponto de lembrar-lhes
que, sem o auxílio de meu venerável povo, a esse tempo teriam criado, quando
muito, um ridículo reator termal para propulsionar suas naves. Talvez tivessem
mesmo seguido a pista da propulsão com base em fótons. Mas era absolutamente
certo que não teriam a menor idéia de um conjunto propulsor capaz de imprimir à
nave velocidade superior à da luz.
Preferi não dizer nada e dirigi-me
à comporta. Quer dizer que eu era para Bell um indivíduo esclerosado. Eu lhes
mostraria que um almirante da frota arcônida sabe lidar com as situações mais
difíceis.
3
A nova base espacial de Mirta VII
parecia um formigueiro!
Os terranos, que num assomo de
megalomania haviam dado a seu minúsculo sistema planetário o nome de Império
Solar, estavam prestes a, num atrevimento por vezes proposital, fazer frente à
maior potência da Via Láctea.
Chegavam ao ponto de instalar uma
base praticamente ao alcance dos canhões de uma grande frota espacial.
Esperavam que não fosse descoberta.
As intenções de Rhodan eram evidentes.
Queria ser amigo de todo mundo, estender a mão a todos, a fim de transformar-se
no poder que agiria atrás dos bastidores. Guiar-se-ia pelo velho princípio de
que, quando dois brigam, um terceiro fica feliz.
Ninguém poderia levar a mal que,
ao avaliar todos esses fatores, me sentisse martirizado pelas dúvidas. Se desta
vez Rhodan não estava arriscando demais, não queria chamar-me Atlan.
Mesmo ele, que costumava
raciocinar com tamanha precisão, ultimamente dera para subestimar o
computador-regente de Árcon. E, o que me deixava mais nervoso, era o fato de
que os outros seres da Galáxia eram considerados, por assim dizer, como fatores
desprezíveis.
A autoconfiança entre aqueles
seres era um mal que tinha sua origem única e exclusivamente na existência dos
mutantes. Confiavam demais nessa gente. Esqueciam-se de que outras
inteligências também são capazes de aprender com a experiência. Face a todos
esses dados, deduzi que os homens, que haviam se elevado tecnologicamente,
ainda não tinham atingido a verdadeira maturidade. Os primeiros êxitos
registrados por Rhodan foram o resultado de um efeito-surpresa quase infinito.
Sentia que um golpe doloroso estava iminente. Sem dúvida era uma loucura
rematada pretender, com alguns poucos couraçados e cruzadores, fazer frente a um
Império, cuja indústria funcionava há milênios em função das guerras galácticas.
Houve outros homens que fizeram
algumas advertências. Rhodan reconhecia a validade dos meus argumentos, mas
acreditava que saberia enfrentar os perigos que sem dúvida haviam de surgir.
Quem dera que ao menos não tivesse instalado sua base justamente no planeta
Fera Cinzenta!
Face a tudo isso, surgiram algumas
divergências sérias entre mim e Rhodan, mas nossas relações não adquiriram um
matiz inamistoso. De resto, não era de meu feitio bancar constantemente a
Cassandra. Afinal, o problema era deles.
* * *
Os terranos já haviam conseguido
construir os misteriosos transmissores fictícios de matéria, com base nos
planos de que dispunham. Até então, a fabricação sempre se tornara impossível
em virtude da falta das necessárias micro-usinas energéticas, uma vez que esses
transmissores não podiam funcionar sem suprimento energético próprio. Só em
casos raríssimos podia-se recorrer a fontes de energia estacionárias, ou seja,
imóveis, que face às exigências técnicas não podiam possuir condutores mais
longos.
Até aquele momento, não se
conseguira desvendar o motivo lógico do problema. Para que um transmissor
funcionasse perfeitamente, tornava-se necessário que o suprimento de energia
proviesse da base do aparelho. Provavelmente isso decorria de fenômenos de
desmaterialização da quinta dimensão, cuja criação só se tornava possível
mediante o campo de força ligado a uma fonte de energia.
As grandes naves do Império Solar
possuíam ao menos um desses aparelhos transportadores. Assim tornava-se
possível trasladar pessoas e objetos a grandes distâncias de uma nave para
outra, sem que houvesse necessidade de realizar as complicadas manobras de
abordagem.
O grande bárbaro de olhos
cinzentos não poderia atender pelo nome de Perry Rhodan se o novo equipamento
não tivesse sido enquadrado imediatamente num planejamento global. E, o modo
pelo qual ele o fez, levava-me cada vez para mais perto de uma psicose de
angústia.
Estava namorando a idéia de
desistir do auxílio voluntário, que vinha prestando à Terra, e seguir meu
próprio caminho, quando recebi um chamado do quartel-general planetário,
instalado num abrigo de grande profundidade. Naquele momento, encontrava-me a
bordo da Drusus, a nave capitania da frota solar, onde tivera uma palestra
prolongada com o Tenente Sikermann.
Ao receber o chamado,
encontrava-me na pequena cantina, situada ao lado da sala de observação. O
rosto de Rhodan apareceu na tela.
— “Vossa Alteza” já conseguiu acalmar-se? — disse a título de
cumprimento.
— Vá para o inferno, homem
primitivo — respondi em tom furioso. — A menos de vinte anos-luz daqui, estão
mais de trinta mil naves espaciais. Já está provado que os druufs, que penetram
em nossa dimensão temporal, sofreram uma terrível derrota. Nenhuma de suas
naves conseguiu sair mais de dois minutos-luz da fenda de descarga. Talvez isso
sirva para provar-lhe o poderio enorme do Grande Império, muito embora, no
momento, Árcon seja dirigido por uma máquina. Será que você realmente acredita
que com os mutantes conseguirá tirar do seu caminho tamanha quantidade de
unidades de grande poder de fogo? Eles têm uma grande área de influência.
Ninguém é invencível, nem eles nem você. Acho que já está na hora de alguém lhe
dizer isso claramente. O que deseja?
Permaneceu calado por um instante.
Depois exibiu seu rosto de jogador de pôquer.
— Suas objeções foram aceitas,
almirante. Não estou disposto a arriscar as poucas naves de que disponho. Mas,
assim mesmo, pretendo participar do jogo, com sua licença.
— Deixe de ironia. Recomendo-lhe
que guarde cuidadosamente os poucos trunfos de que dispõe. É bem possível que
ainda vá precisar deles para salvar a pele.
Eram palavras duras para alguém
que estava habituado a registrar êxitos fulminantes. Mas Rhodan não se abalou.
— Também aceito essa ponderação,
arcônida. Os resultados das medições realizadas pelas sondas teleguiadas acabam
de ser interpretados. Não há dúvida de que a zona de descarga pode ser
atravessada sem que se torne necessário criar um campo de refração. Isso
significa alguma coisa para você?
— Pretende penetrar na outra
dimensão temporal? — perguntei.
— Exatamente — confirmou Rhodan. —
A Califórnia está pronta para decolar e plenamente equipada. Resolvemos que,
por enquanto, em hipótese alguma, participaremos ativamente dos atos de
beligerância entre o computador-regente e os druufs. Ficaremos em segundo
plano, na posição de observadores, até que saibamos com quem estamos lidando.
— É a coisa mais razoável que você
disse nestes últimos dias.
Rhodan riu. Logo fiquei mais
tranqüilo.
Não era louco a ponto de aparecer
de repente na frente de combate!
— Decolaremos dentro de meia hora.
Se quiser pode subir a bordo.
— Seu hipócrita! — exclamei. —
Você quer que eu suba a bordo.
— Eu disse isso?
Rhodan desligou. Virei-me para o
comandante da Drusus. Baldur Sikermann tossia embaraçado.
— Quem dera que vocês tivessem
sido tragados por uma frente relativista oito mil anos antes da viragem dos
tempos — observei em tom frio. — Nesse caso, teriam evitado muito
aborrecimento. Desculpe, tenente, mas você me está deixando nervoso. Será que
também faz parte do “clube”?
O rosto largo de Sikermann surgiu
atrás da mão. Sabia que era um oficial muito competente e um homem extremamente
arrojado. Pertencia à classe de homens que sabem usar a inteligência no momento
apropriado.
— Queira desculpar, almirante.
Acontece que cheguei mesmo a ser designado para comandar a Califórnia.
Respirei profundamente. De
repente, compreendi que Rhodan tinha a intenção de lançar seus melhores
elementos naquela missão. Se Sikermann tinha de deixar a Drusus, a fim de
comandar um cruzador de importância um tanto secundária, as coisas não estavam
nada boas. Provavelmente a elite da raça humana iria reunir-se a bordo da
pequena nave.
Seria inútil formular outras
perguntas. Já tinha certeza de que Rhodan pretendia atravessar a zona de
descarga, a fim de verificar na dimensão temporal dos druufs o que realmente
estava em jogo.
Não havia nada a objetar contra
isso. Dali a dez minutos, passei pela comporta inferior e saí da
nave-capitânia. Uma noite escura e tempestuosa pesava sobre o planeta Fera
Cinzenta. Vez ou outra, uma estrela olhava pelas nuvens. No grande espaçoporto
reinava o silêncio. Há algumas horas fora emitida uma proibição de decolagem,
uma vez que nas imediações do sistema haviam sido localizadas estranhas naves
espaciais.
Caminhei a pé em direção à nave
Califórnia, quase irreconhecível em meio à escuridão. As máquinas do pequeno
cruzador já estavam funcionando.
Diante da escotilha da comporta
inferior, que estava aberta, dois guardas armados me detiveram. Totalmente
perplexo, fitei os canos fluorescentes das armas energéticas. Depois de algum
tempo, consegui dizer:
— Será que alguém ficou louco por aqui?
Pediram a senha. Naturalmente eu a
conhecia. Levei alguns segundos para divertir-me com a designação antiquada. O
termo palavra-código não soaria muito melhor, embora fosse mais moderno.
Um sargento do comando de
patrulhas espaciais fitou-me com um ar sombrio. Levou algum tempo para baixar a
arma mortífera.
— O senhor é imprudente, almirante
— disse em tom de advertência. — Recebemos ordem para atirar.
— Não diga!
— Isso mesmo. Ninguém pode
aproximar-se a menos de cinqüenta metros do cruzador sem uma autorização
especial.
— Será que a bordo da nave existem
superbombons ou petiscos galácticos? — perguntei em tom irônico.
O sargento não pôde deixar de rir.
— Não é bem isso, almirante.
Apenas temos um transmissor de matéria!
Um transmissor? Quando finalmente
pude entrar na nave, encontrava-me numa atitude pensativa. O que havia de
extraordinário nisso? Qualquer nave de grandes dimensões possuía esse aparelho.
Mergulhado nos meus pensamentos,
dirigi-me ao camarote. Evidentemente haviam reservado meu aposento, do que
concluí que Rhodan calculara com minha presença.
— Que patife! — balbuciei.
Dali a quinze minutos, Rhodan
apareceu. Estava acompanhado de Reginald Bell e de John Marshall, um mutante
simpático e retraído.
Num gesto quase inconsciente
reforcei meu bloqueio individual, a fim de resguardar-me da espionagem cerebral
desse homem. Marshall logo esboçou um sorriso. Percebera meu gesto de defesa.
— Ninguém está interessado em ler
seus pensamentos — disse Rhodan em tom irônico. — Para que tanta desconfiança?
Limitei-me a fazer um gesto. Afinal,
estava acostumado a controlar meus impulsos cerebrais. Examinei a figura de
Rhodan. Ao vê-lo diante de mim, percebi claramente que, apesar da nossa
amizade, mundos inteiros nos separavam.
— Pretendo romper a frente de
combate — principiou sem o menor intróito. — Mas desejo não ser localizado. Os
resultados da interpretação das medições realizadas pelas sondas são
espantosos. Segundo estes, a dimensão temporal do plano dos druufs
modificou-se, passando de um para setenta e dois mil para um para dois. Isso
significa que nossos movimentos serão apenas duas vezes mais rápidos que os dos
desconhecidos.
Fiquei muito surpreso. Isso
representava uma modificação profunda da situação preexistente.
— Acho que com isso podemos
considerar superada sua teoria segundo a qual, para os druufs, apenas se
passaram dois meses desde os acontecimentos que se desenrolaram há dez mil
anos. A não ser que o processo de adaptação das duas dimensões temporais seja
muito recente. Mas sempre deveremos contar com um deslocamento. Além do
esclarecimento desses aspectos, naturalmente estou interessado em conhecer o
fenômeno propriamente dito. Seria inútil formularmos uma série de indagações
antes de termos examinado a situação.
Essas palavras pareciam razoáveis
e não demonstravam o atrevimento de poucos dias atrás.
Não gastamos muitas palavras no
assunto. Também eu estava interessado em verificar a situação.
— Estou curioso para ver como são
esses indivíduos. É altamente provável que desta vez tenhamos de nos defrontar
com os verdadeiros donos do Universo estranho. Segundo os cálculos realizados
com base na lei das massas, o sistema natal dos druufs deve ficar nas
imediações da zona de transição. Mais alguma dúvida?
Não; não tinha mais nenhuma
dúvida. Apenas perguntei pela carga de transmissores de que me falara o guarda.
Os olhos de Rhodan começaram a
brilhar. Era sinal de que tramava mais alguma coisa.
— Se tivermos oportunidade,
instalaremos uma base do outro lado. Seria formidável se o transmissor nos
permitisse passar despercebidamente de uma zona temporal para outra.
Confirmei com um gesto distraído.
Ao que tudo indicava, essa idéia arrojada ocupava sua imaginação vivaz.
Também refleti sobre a idéia, que
de repente nem me parecia tão absurda. O transmissor de matéria funcionava com
base no espaço de cinco dimensões. O objeto a ser transportado sofria uma
desmaterialização no aparelho transmissor e, reduzido a um feixe de impulsos,
era irradiado pelo mesmo.
Num receptor perfeitamente
ajustado ocorreria o fenômeno inverso. Dessa forma seria praticamente
impossível localizar uma transferência realizada pelo transmissor, quanto mais
interferir na mesma.
— Isso não seria nada mau, não é?
— disse Bell em voz baixa, antes de sair do camarote atrás de Rhodan.
Nem chegaram a perguntar se nessas
condições estava disposto a participar da missão. Rhodan parecia conhecer-me
muito bem.
Dali a alguns minutos, cheguei à
sala de comando. Sikermann ocupava a poltrona do piloto. Ao que parecia Rhodan
e Bell não pretendiam interferir nos assuntos diretamente ligados à pilotagem
da nave.
No momento em que a nave se
desprendia do solo, com os propulsores ligados quase na posição zero, lá fora
rugia uma violenta tempestade. Era como se o planeta Fera Cinzenta nos desse um
feroz adeus.
A Califórnia só aumentou a velocidade
quando as camadas mais densas da atmosfera de Mirta VII já haviam sido deixadas
para trás. Os dados registrados pelo equipamento de localização pareciam
satisfatórios. As naves desconhecidas, observadas há pouco tempo, haviam
desaparecido. Ao que tudo indicava, os tripulantes consideraram o sistema de
Mirta pouco interessante sob o ponto de vista tático.
Rhodan ofereceu-me um caneco com
café. Olhou-me com uma expressão tão irônica que o sangue me subiu à cabeça.
Não precisávamos de palavras para entender-nos.
— Aguarde, homem das cavernas —
falei em tom zangado. — Um dia eles o descobrirão... E já lhe posso dizer o que
acontecerá depois disso. Sabe lá de quantos supercouraçados do tipo da Drusus
dispõe o regente? Os dois transmissores fictícios lhe adiantarão muito pouco.
Se vinte unidades equivalentes abrirem seu fogo cruzado contra você, haverá
possibilidade de utilizar sua superarma umas seis ou sete vezes. Com isso
sobrariam pelo menos treze naves. Você não terá possibilidade de disparar o
oitavo tiro, pois antes disso será destruído. Deixe que um velho almirante
arcônida lhe ensine alguma coisa. Já enfrentei mais combates do que você e...
— Você derramou seu café — disse
Rhodan, esquivando-se ao assunto.
Fitei-o com uma expressão
pensativa. Parecia que ultimamente descobrira as fronteiras de seu poder.
Lembrei-me do que dizia a Enciclopédia Terrana, que registrava a ascensão de
Rhodan.
Desde aqueles tempos remotos,
entre os anos de 1.971 e 1.985, ele já sabia até onde poderia chegar. Procurara
e encontrara um caminho que lhe permitisse remover as resistências políticas à
instalação de um governo mundial.
Agora encontrava-se em situação
semelhante. Apenas, desta vez, tinha de contar com fatores totalmente diversos.
Teria de enfrentar impérios galácticos. Não havia a menor dúvida de que os
desconhecidos, vindos da outra dimensão temporal, representavam um poder
equivalente ao do Grande Império. Isto eu poderia até afirmar.
A Califórnia voltou a acelerar
loucamente à razão de 106 km/seg. Prestei atenção ao tremendo rugido dos
conjuntos propulsores que, uma vez atingida a velocidade crítica, cresceu ainda
mais. Quatro dos cinco grandes depósitos da nave continham exclusivamente
tanques com reservas de matéria físsil. Consumíamos cerca de quarenta e cinco
toneladas de bismuto por hora, matéria que, uma vez injetada nos conversores de
impulsos, produzia um meio de apoio bastante condensado.
Assim que alcançamos a velocidade
aproximada da luz, passamos à transição. Observei os engenheiros da equipe de
controle, que realizaram mais uma verificação do neutralizador de freqüência.
Se houvesse qualquer falha no funcionamento desse aparelho, a Califórnia seria
inevitavelmente localizada pela frota de bloqueio arcônida.
Um homem levantou a mão. Rhodan
respondeu com um ligeiro aceno de cabeça.
A hora chegara.
A transição teve início com uma
dor violenta, seguida pelo murmúrio do hiperespaço de cinco dimensões!
4
Éramos apenas um vírus no sangue
de um gigante. Antes de lutar contra esses microorganismos, o biólogo precisa
identificá-los. Só depois disso poderá produzir o respectivo antídoto.
No nosso caso, a Califórnia era um
vírus, e o gigante correspondia à maior concentração de unidades espaciais que
vira nos últimos dez mil anos.
Saímos do hiperespaço à velocidade
da luz e seguimos imediatamente a rota que nos levaria ao destino. Na área
altamente relativista da velocidade próxima à muralha da luz, não se tornava
possível a queda livre, independente do empuxo fornecida pelos propulsores.
Para mantermos 98,8 por cento da velocidade da luz, nossos propulsores teriam
de trabalhar ininterruptamente a plena potência.
O corpo esférico do cruzador
ligeiro vibrava e retumbava que nem um sino. Até então, nem mesmo os
construtores terranos haviam conseguido construir uma nave silenciosa, livre
das perturbações produzidas pelas ressonâncias.
Os corpúsculos emitidos em
compactas ondas pelos propulsores de impulsos prestavam-se perfeitamente a uma
rápida localização goniométrica. Isso ainda era acrescido do fluxo de plasma da
massa de apoio, que tinha de ser expelida para possibilitar a manutenção de uma
velocidade tão elevada.
No setor vermelho do cruzador que
se deslocava vertiginosamente, as fúrias do inferno pareciam estar às soltas.
Mais ou menos em 10 graus vermelho vertical e 22 graus vermelho horizontal,
sóis pareciam explodir e mundos submergiam. Uma catástrofe da natureza parecia
estar em pleno andamento.
Não podíamos observar diretamente
a luminosidade ofuscante dos inúmeros canhões de impulsos. Mas cada disparo era
registrado na tela de localização energética, sob a forma de um ressalto na
curva de eco.

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