terça-feira, 10 de setembro de 2013

P-075 - O Universo Vermelho - K. H. Scheer [parte 1]


Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN





Sua arma é a velocidade — A cavalgada do cruzador rápido Califórnia...





Na Terra registra-se o ano 2.043 e, com isso, aproxima-se o momento em que, segundo os matemáticos, deve ter início a estabilização dos dois planos temporais, representados pelo Universo dos druufs e pelo Universo einsteiniano...
O estado de alarma é dado na base solar de Fera Cinzenta! A Frota Espacial Terrana assume suas posições de combate.
A ordem: penetrar naquele Universo... Vermelho!







= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

AtlanO imortal que fica apavorado com a leviandade dos terranos.

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Primeiro-Tenente Baldur SikermannO homem que domina os controles da nave Califórnia.

Dr. SköldsonO médico-chefe que não encontra entre os tripulantes da Califórnia nenhuma vítima para sua injeção.

Fellmer LloydO mutante que deixa de procurar o médico por causa de uma placa.


1



Eram ativos como as abelhas e obstinados como um lobo faminto, que se encontra na pista de um alce.
Trabalhavam assiduamente, sem demonstrar um fervor excessivo. Os movimentos eram precisos, os cálculos exatos, e cada um sabia de cor onde devia pôr a mão.
Faziam seu trabalho numa excelente disposição de ânimo que, por si só, removia as dificuldades e levava as relações entre os cientistas, oficiais e tripulantes a um nível excelente de descontração. O observador estranho poderia até ser levado a acreditar que se tratava de uma grande família.
Era um amontoado, uma atividade febril, um retumbar, martelar e chiar que só se via e ouvia num dos grandes estaleiros espaciais.
Fiquei profundamente impressionado.
Há uma hora o engenheiro-chefe do estaleiro XIV me pedira encarecidamente que abandonasse a cúpula polar superior do novo supercouraçado espacial, a nave Kublai Khan, uma vez que perturbava o serviço de seus colaboradores.
Um tanto irritado, saí do recinto. Afinal, havia sido eu quem refletira por dias a fio sobre a melhor maneira de retirar o transmissor fictício do velho couraçado Ganymed e instalá-lo no posto de armamentos da Kublai Khan.
Mas quando cheguei à pequena comporta de passageiros, situada mil e duzentos metros abaixo da cúpula, meus ressentimentos já se haviam dissipado.
Uma coisa não se poderia negar a esses bárbaros: eram honestos! Era acostumado a submeter meus atos e sentimentos a uma rigorosa autocrítica e, por isso, constatei depois de alguma reflexão que realmente perturbara o trabalho dos homens no estaleiro.
O cientista foi feito para indicar determinada rota ao especialista. Um vez concluídos meus estudos, minha presença se tornara dispensável. Os engenheiros da equipe de Michels não precisavam de conselhos para prender o transmissor em suas bases e montar as instalações de força.
E foi assim que ainda estava sentado na mesma caixa de plástico, que trinta minutos antes escolhera para descansar.
Dali via perfeitamente os flancos abaulados do gigante esférico de mil e quinhentos metros de diâmetro, ao qual fora dado o nome Kublai Khan. Ao que parecia, Perry Rhodan fazia uma ótima idéia do grande chefe mongol, que chegara a criar um império mundial.
Com um sorriso no rosto, deixei que meus pensamentos vagassem pelo passado. Conhecera muito bem o tal do Khan, mas Rhodan não sabia disso. Naquela época nem sonhara com a possibilidade de que um dia ajudaria a equipar uma gigantesca nave que traria seu nome.
Por certo, os terranos estavam muito ligados à sua história. Se dependesse dos homens que trabalhavam no estaleiro, teria de reuni-los ao menos quatro vezes por semana para contar histórias de minha longa vida. Mas nem pensava em aceder a esse desejo, pois não me esquecera dos sofrimentos que nessas oportunidades me eram impostos por meu segundo cérebro. Assim que o setor de memória funcionasse a plena potência, o fluxo normal dos meus processos normais estaria interrompido.
O ativador celular demonstrou sua presença por uma pulsação quase imperceptível. Um tanto surpreso, franzi a testa. Esse aparelho misterioso, do tamanho de um ovo, começava a funcionar quando meus tecidos celulares precisavam de certos estímulos. Estava apenas esgotado? Ou será que, mais uma vez, meu organismo passava por um processo que os biólogos terranos identificariam pela expressão “regeneração tempestiva de células que já deviam estar mortas?
Era provável que jamais conseguiria decifrar o mistério do micro-ativador, que há uns dez mil anos me conservava a juventude e o vigor. O único ser, que poderia esclarecer-me a esse respeito, estava “desaparecido” desde o momento em que ocorrera o desastre com o planeta artificial Peregrino.
Aquilo acreditara poder descansar por um instante de sua dimensão temporal. Eu tinha uma idéia bem nítida daquilo que uma inteligência imaterial deveria entender por um instante. Talvez esse instante demorasse mais de cinqüenta anos!...
A coluna de apoio mais próxima da Kublai Khan ficava a uns cem metros de distância. Aquela construção gigantesca, com o diâmetro de uma torre, obstruía a visão para o abismo tenebroso que se abria embaixo da calota polar. Homens e materiais desapareciam em quantidades inacreditáveis por lá.
Provavelmente haviam passado pela mesma experiência que eu. Deveriam ter levado semanas ou até meses para vencer a claustrofobia. Afinal, não era nenhuma brincadeira ter alguns milhões de toneladas de aço de Árcon bem em cima da cabeça da gente. Bastaria que uma das colunas de apoio vergasse, ou afundasse no solo de concreto, para que houvesse um acidente de conseqüências gravíssimas.
Assustei-me ao ver subitamente uma sombra. Alguém se aproximara por trás. No último instante, o setor lógico de minha mente me avisou de que por aqui não havia inimigos ou atacantes. Meu corpo retesado descontraiu-se.
— Olá! — disse com uma lentidão proposital. — Será que viu um fantasma? A gente não deve aproximar-se que nem um felino de uma pessoa nervosa.
Virei a cabeça.
O engenheiro Michels, chefe do estaleiro XIV, soltou uma estrondosa gargalhada. Seu cabelo louro-claro saía sob o boné, e o macacão dava a impressão de ter sido posto de molho num recipiente com óleo queimado.
Fungou ao levantar o pé e colocá-lo sobre a caixa de plástico alongada. Enxugou o suor que lhe corria pela testa.
— Que vida de cachorro, não é? — observou. — Querem que a gente faça tanta coisa.
— É verdade — respondi ao acaso.
Estava tramando alguma coisa; eu sentia. Às vezes, esses terranos desenvolviam um senso de humor capaz de levar um arcônida à beira da loucura. E essa característica sempre me surpreendia, embora já vivesse há tanto tempo entre os homens.
Mais cinco aproximaram-se. Atrás deles, uma plataforma antigravitacional de carga planou silenciosamente. Um deles dirigia o veículo com gestos descuidados. Mantinha o pequeno aparelho de teledireção na mão como se fosse um brinquedo.
Assim que me viram, os recém-chegados começaram a rir, como que a um comando. Com um leve mal-estar perguntei-me qual poderia ser o motivo de tamanha alegria. Mais uma vez, lamentei não ser um telepata.
Michels estava de pé a meu lado e me proporcionava uma sombra agradável. Faltava pouco para o meio-dia. O céu azul e límpido do antigo deserto de Gobi estendia-se acima de minha cabeça.
Do lugar em que me encontrava, não via os arranha-céus da cidade de Terrânia. A silhueta da Kublai Khan era imensa e enchia todo o campo de visão.
— Que coisa! — disse um tenente muito jovem do Serviço de Segurança.
Era um dos cinco membros do comando de transporte.
Fitei-o prolongadamente e comecei a bater nervosamente com as solas grossas das botas contra a caixa de plástico. Depois de algum tempo, Michels disse em voz baixa:
— Almirante, o senhor permite que o informe de que está sentado bem em cima do detonador de uma bomba catalítica de quinhentos megatons? Se Sua Excelência quisesse ter a bondade de abandonar esse local tão perigoso para o descanso...
Quando dei conta de mim, já estava correndo. Ouvi as gargalhadas estrondosas dos homens atrás de mim. Essa gente nem parecia ter nervos!
Agora já compreendia por que aqueles oficiais armados me olharam de forma tão estranha, quando pouco antes sentei naquela maldita caixa. E esses rapazes nem pensaram em avisar-me de que estava cometendo um engano apavorante. Ainda cabia outra consideração. Como é que se coloca um recipiente de plástico com um conteúdo tão perigoso em um ponto qualquer do estaleiro?
É a fase final do aprovisionamento, seu idiota!”, foi a mensagem lacônica transmitida por meu segundo cérebro.
De qualquer maneira só parei de correr quando aquela gente maluca não me via mais. Ofegante, encostei-me contra o quadro de comando de um aparelho robotizado de controle de material, que fazia mais uma verificação de todas as mercadorias entregues, a fim de detectar eventuais erros de fabricação.
Dali a poucos instantes, fui expulso mais uma vez. Cheguei à conclusão de que o estaleiro realmente não era meu lugar. Só vira uma aglomeração como esta durante a grande guerra, há dez mil anos. Naquela época, meu povo lutava pela sobrevivência das raças humanóides. O inimigo encarniçado foram os respiradores de metano do setor das nebulosas da Via Láctea.
Isso já fazia muito tempo. Hoje, os problemas eram outros. Mais uma vez, a Galáxia estava tumultuada, mas desta vez não se tratava de nenhum ataque de seres que respiravam gases venenosos. Os seres vindos de outra dimensão temporal foram designados por algum tempo como os uuns. Além de Rhodan, pouca gente conhecia a origem desse nome. Certos animais encontrados assim que se penetrou pela primeira vez na outra dimensão temporal emitiram sons abafados que soavam como “uum”.
No mesmo momento, um tenente leviano da Frota Solar teve a denominação na ponta da língua. Neste ponto os humanos costumavam ser muito rápidos. Mais tarde, por intermédio de um robô aprisionado, ficamos informados que os verdadeiros donos da outra dimensão eram os druufs.
Estava sacudindo os últimos resquícios de contrariedade e pretendia chamar meu carro voador, quando o pequeno videofone de pulso emitiu o sinal de chamada.
O General Deringhouse — um dos colaboradores mais antigos de Rhodan, que se conservara jovem em virtude da ducha celular aplicada no planeta Peregrino — surgiu na minúscula tela. Em seu rosto notava-se uma estranha indiferença.
— Mensagem do chefe, Sir — disse em tom lacônico. — Poderia comparecer imediatamente ao quartel-general do Serviço de Defesa? Pode? O.K. Muito obrigado.
Perplexo, fitei a tela que se apagava. Deringhouse desligara imediatamente. Fora um convite muito estranho.
Sabia que Rhodan se encontrava no sistema de Mirta, com grandes contingentes da frota solar. Nos últimos dez meses, uma base da frota solar fora instalada no planeta Fera Cinzenta, que era o sétimo mundo do sistema que girava em torno do sol distante.
Sabíamos perfeitamente que, dentro em breve, ocorreria uma invasão temporal dos druufs nas proximidades dessa estrela, mas desta vez não pretendíamos aguardar de braços cruzados até que o desastre chegasse.
Já sabia muito bem qual era o aspecto dos mundos despovoados da Via Láctea... Neles acontecera aquilo que já vira dez mil anos antes, quando exercia as funções de comandante de uma esquadrilha arcônida.
Dali a dez minutos, meu veículo pousou na cobertura do grande edifício. Um robusto oficial com cabelos louros cortados à escovinha e olhos azuis e francos me foi apresentado após a conferência. Durante esta, os dirigentes do Império Solar me informaram em palavras lacônicas que, nas proximidades do sistema de Marte, foram avistadas gigantescas zonas de superposição.
O homem, que acabara de conhecer, era um coronel chamado Marcus Everson. Um olhar para os distintivos deixou-me ciente de que tinha diante de mim experimentado oficial das forças espaciais, consagrado em inúmeras missões.
— Muito prazer, almirante — disse Everson.
— Neste momento, o Coronel Everson é investido no comando da Kublai Khan — disse Deringhouse em tom apressado. — Peça que Marcus lhe conte o que aconteceu durante o vôo de regresso do planeta Epan. E olhe que sua tarefa consistia unicamente em trazer o agente cósmico Goldstein.
Everson sorriu.
— Por pouco um homem que usava o nome de Mataal e alegava ser um nativo do planeta Epan não se apodera de minha nave. Conhece alguma raça galáctica cujos membros se pareçam com grandes morcegos? São dotados da capacidade de realizar o reagrupamento das moléculas. Esse nosso “amigo” conseguiu pôr fora de ação um por um dos meus tripulantes. Mas acabou cometendo um erro fatal. Acho que é só isto...
Everson fez um suspense, mas manteve-se calado. Parecia pensativo. Imaginei perfeitamente o que deveria ter acontecido a bordo da pequena nave.
— Michels comunica que a instalação do transmissor fictício já foi concluída — disse Deringhouse. — Pedimos-lhe que decole imediatamente com a Kublai Khan. Neste momento, a nave está sendo levada para fora do estaleiro. Acho que ficará satisfeito com Everson no comando, Atlan. Conhece nossos supergigantes.
Bastou lançar-lhe um olhar para convencer-me em definitivo de que ficaria satisfeito. Everson acompanhara a ascenção da antiga Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan. Naquele tempo, eu ainda era de opinião que deveria fazer alguma coisa para dar uma lição à Humanidade.
Os tempos estavam mudados. Os três mundos de Árcon, onde ficava minha distante terra natal, estavam sendo governados por um supercomputador, cuja programação evidentemente não era adequada ao exercício de uma política galáctica racional e humana.
Dali a alguns minutos, quando conversava com o coronel sobre as possibilidades de utilização da Kublai Khan, recebemos uma mensagem de rádio vinda das profundezas da Via Láctea. O impulso condensado e codificado vinha do setor de Mirta, situado a 6.562 anos-luz da Terra.
Assim que a mensagem foi decifrada, vi Deringhouse empalidecer. Estendeu-me a fita de plástico sem dizer uma palavra e com uma expressão de insegurança no rosto.
Ocorreu caso Potomaque. Estado de emergência a partir de 1o de agosto de 2.043, 24 horas. Leis de exceção em vigor a partir de hoje. Impedir decolagem frota mercante, segundo instrução A-3, até segunda ordem. Atlan voltará à base. Ass. Rhodan, chefe da Frota Espacial e Administrador do Império Solar.
Levei alguns segundos para digerir a informação. Então chegara a hora! Nossos cálculos estatísticos sobre o grau de probabilidade de superposição total no sistema de Mirta revelaram-se corretos.
Coloquei a fita de plástico sobre a mesa e fitei um por um os oficiais presentes. As leis de exceção trariam certas conseqüências desagradáveis para os habitantes do planeta Terra. Ainda haveria numerosas indagações, que, por questões de sigilo oficial, não poderiam obter respostas verídicas.
Em meio a tais reflexões, disse lentamente:
— Então é o caso Potomaque? Isso significa que as frentes se estabilizam. Senhores, torna-se necessário que tomem certas providências destinadas a evitar que, em amplos círculos da população, passem a ser considerados como instrumentos dóceis de um grande ditador. Divirta-se, Deringhouse!
Deringhouse olhou-me com certa insegurança, mas logo voltou a controlar-se.
— Conseguiremos — disse com a voz tranqüila. — Isso já era esperado. Faça o favor de decolar imediatamente, almirante. No sistema de Mirta, precisarão mais do senhor do que em Terrânia. Por aqui saberemos manejar as coisas.
Dali a vinte minutos, desci do meu planador aéreo. As paredes gigantescas do supercouraçado ergueram-se à minha frente. A Kublai Khan estava pronta para decolar.
O imediato do gigante espacial apresentou-se na comporta inferior. Fui recebido com o cerimonial pomposo, introduzido a pedido de Rhodan. Talvez isso não fosse tão errado, pois ajudava a disciplina. Na antiga frota arcônida, vigoravam disposições semelhantes.
Observei atentamente as unidades completamente equipadas da esquadrilha de defesa interplanetária, que se encontravam sob o comando do próprio Deringhouse. Entre as naves que permaneceriam por ali, para defender o sistema solar, encontravam-se as mais velhas das supergigantes, a Titan e a General Pounder. Além disso, havia numerosos cruzadores da classe Sol e várias unidades leves e pesadas das novas séries. O que a Terra conseguira criar no espaço relativamente curto de setenta anos não podia ser desprezado.
Ouvi o ruído surdo de alguns cruzadores da classe Estado que decolavam. Antes que fôssemos atingidos pelas ondas cálidas de compressão, já me encontrava no elevador antigravitacional da comporta inferior. Acima de minha cabeça, abriu-se o ventre da Kublai Khan, um veículo espacial dotado das conquistas mais recentes da tecnologia.
Marcus Everson, o comandante, fez continência, encostando a mão ao boné de serviço. Na grande sala de comando da supernave reinava a atmosfera excitante, formada por uma atividade aparentemente inútil, que me fascinava toda vez que penetrava ali.
As informações vindas da sala de máquinas sucederam-se em rápida seqüência. Bem abaixo de nós, os reatores monstruosos das numerosas unidades energéticas começaram a rumorejar. Era um ruído capaz de agitar todos os nervos de um homem da minha estatura mental.
Fascinado, fitei as grandes telas da galeria panorâmica. Por enquanto as instalações do maior espaçoporto terrano brilhavam nas superfícies tridimensionais, mas, instantes depois, o quadro modificou-se por completo.
O único sinal da decolagem da Kublai Khan era o trovejar potente das unidades propulsoras, que funcionavam a dois por cento de sua potência máxima. O empuxo foi suficiente para fazer a esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro penetrar no céu azul do meio-dia.
Sabia que no espaçoporto todos se haviam abrigado. As ondas de compressão produzidas pelas grandes naves tinham uma triste fama, muito embora todo comandante fosse bastante cauteloso para levantar vôo com o mínimo possível de potência. E com uma nave do tamanho da Kublai Khan, tal cautela teria de ser redobrada. Por isso mesmo, os supercouraçados costumavam decolar sempre das pistas mais afastadas.
Os gigantescos mecanismos de absorção de pressão neutralizaram as tremendas energias geradas pela força da inércia. Nem sequer senti os efeitos da lei natural que quase causara a morte de Perry Rhodan, por ocasião do primeiro vôo tripulado à Lua. Apoiada sobre colunas de impulso, a gigantesca bola de aço corria, leve e facilmente, em direção a seu elemento: o espaço livre.
Suspirei aliviado e recostei-me na poltrona articulada.
Então chegara a hora! Os seres que destruíram minha esquadrilha, dez mil anos atrás, receberiam uma amarga lição.
Minha luta não fora em vão. Durante a ligeira seqüência de idéias, meu setor de memória começou a funcionar imediatamente. Até parecia que meu segundo cérebro apenas esperava um impulso da parte consciente de minha mente, para dar início a mais uma dolorosa narração.
Com um tremendo esforço, procurei vencer a crise que se iniciava. No momento seria um absurdo relatar coisas que se haviam passado há tanto tempo. O velho Império Arcônida deixara de existir na sua forma originária. Minhas energias pertenciam aos habitantes da Terra, daquela mesma Terra que ainda chegara a conhecer sob outra conformação geológica.
O rugido dos dezoito conjuntos propulsores cresceu. Depois de cruzar a órbita da Lua, a Kublai Khan aumentou a velocidade. Mais uma vez, não senti a pressão provocada pela aceleração. Os novos aparelhos de absorção eram excelentes.
Vi um sorriso nos lábios de Marcus Everson. Aquele homem inspirava confiança. Chegava a apresentar certa semelhança com meu antigo mestre, o Capitão Tarts, comandante da Tosoma.


2



Everson era mesmo um sujeito maluco.
Não havia nenhuma necessidade de vencer toda essa distância numa única transição. Vencemos num único salto a distância apreciável de 6.562 anos-luz, fato que provocou uma dor de rematerialização bastante intensa.
Uma viagem pelo hiperespaço da quinta dimensão, que pode ser compreendida em termos subjetivos, mas nunca chegou a ser inteiramente explicada em termos práticos, muitas vezes deixava as pessoas fortes totalmente arrasadas, enquanto conferia uma sensação de força a indivíduos aparentemente fracos. Ninguém sabia prever a reação de cada indivíduo durante o processo de desmaterialização.
Senti-me totalmente abalado, física e mentalmente esgotado.
Um engenheiro nervoso procurava controlar o funcionamento do novo neutralizador de vibrações. Tratava-se de um aparelho criado para absorver as vibrações e impedir a localização goniométrica da nave.
Lancei um olhar para a tela diagramática dos controles automáticos. A linha verde e recortada era perfeita e uniforme, o que provava que Everson fora bem sucedido.
— Isso poderia ter acabado mal, não poderia? — perguntou.
A resposta do engenheiro foi proferida em voz tão baixa que ninguém conseguiu entendê-la. Mas, ao que parecia, não dissera nenhuma gentileza.
Everson riu numa atitude de indiferença. Mais uma vez, tive oportunidade de constatar que o intercâmbio entre superiores e subordinados era franco e descontraído.
Com um gemido, ergui-me da poltrona. Naquele instante viam-se cinco planetas nas telas da galeria panorâmica. Bem à nossa frente, estava a bola incandescente de um estranho sol que, segundo os dados apurados, só poderia ser a estrela Mirta.
Cambaleei em direção aos painéis de controle e acomodei-me na poltrona do substituto do comandante. Antes que desse conta de mim, a Kublai Khan estava pousando.
Conhecia o planeta Fera Cinzenta por causa de uma tarefa destinada a capturar traidores fugidos. Por pouco, na ocasião, o computador-regente de Árcon não teve conhecimento da posição galáctica da Terra. Graças à intervenção de um homem arrojado, conseguimos impedir a provável destruição dos mundos solares.
Assim que penetramos nas camadas mais densas da atmosfera e ouvimos o uivar produzido pelo deslocamento das massas de ar, recebemos também as primeiras mensagens de rádio emitidas, ao que parece, por uma potente estação instalada na superfície do planeta.
A mensagem foi transmitida em ondas ultracurtas comuns, que se deslocavam à velocidade da luz, o que era sinal de que já se tornava possível dispensar o hiper-rádio, que facilitava a localização goniométrica.
O rosto de Rhodan surgiu numa das telas.
Levantou a mão a título de cumprimento. Não gostei de seu sorriso. Parecia uma contração rotineira e indiferente dos lábios, onde não havia a menor cordialidade.
Seu rosto estreito tornara-se ainda mais magro. Fazia meses que não o via, já que a tarefa de instalar o precioso transmissor fictício no interior da Kublai Khan me mantivera totalmente ocupado.
— Sejam bem-vindos — disse Rhodan. Tive a impressão de que seus pensamentos estavam num lugar muito diferente. — Pouse na pista três. A linha de aproximação lhe será indicada. Peço evitar qualquer demonstração desnecessária de “fogos de artifício”. As ondas de impulsos também emitem certa dose de radiações de choque, que, conforme as circunstâncias, podem ser detectadas pelos instrumentos de medição da quinta dimensão.
A observação deixou-me abalado. Desde quando existia esse risco de localização goniométrica?
— Mas isso só acontece quando o goniômetro se encontra a uma distância inferior a quatro horas-luz — respondi com a voz tensa.
O sorriso que Rhodan passou a exibir parecia triste.
— É o que você diz, arcônida. É provável que algumas naves inimigas se encontrem na periferia deste sistema estelar. Por isso peço que, na medida do possível, durante o pouso, sejam utilizados apenas os campos antigravitacionais. É só. Daqui a pouco nos veremos. Desligo.
A tela apagou-se. Ouvi Marcus Everson soltar um assobio estridente. Seu rosto largo perdera a expressão de auto-satisfação.
— O senhor compreende isto? — perguntou em tom indiferente.
A mão direita comprimia a chave de sistema de intercomunicação. A troca de mensagens com a central energética não me permitiu responder.
— Todas as unidades ativarão os campos antigravitacionais — disse o comandante com a voz calma. — O chefe não que saber de ondas de impulsos. Peço confirmação.
Marcus repetiu a pergunta.
Contemplei as telas que exibiam as paisagens já conhecidas do antigo planeta colonial. Rhodan mandara transformá-lo numa base avançada da Frota Espacial. O custo chegou a aproximadamente setenta bilhões de solares, que era a unidade monetária do pequeno reino estelar.
No momento em que as instalações surpreendentemente extensas do espaçoporto surgiram embaixo de nós, e a Kublai Khan foi reduzindo seu movimento pendular sob a ação dos campos antigravitacionais, compreendi a ordem de Perry.
— O senhor acha possível que o computador-regente não tenha percebido nada do surgimento das frentes de superposição? — perguntei em tom apreensivo. — Não? Pois bem; aí está a solução. Pelo que conheço da máquina, a mesma, graças à sua programação unilateral e à “falta de idéias”, mais uma vez recorreu ao velho meio já consagrado. Enviou uma frota gigantesca que deverá atacar e procurar forçar o novo inimigo a submeter-se ao domínio de Árcon.
“O cérebro positrônico nunca compreenderá que os tempos mudaram. Por sua própria natureza mecânica é totalmente incapaz de compreender a existência de outra dimensão temporal. Face a isso, temos de contar com o aparecimento de algumas naves de reconhecimento. É claro que Rhodan não está interessado em que a base de Fera Cinzenta seja descoberta logo após sua instalação. O senhor pode imaginar perfeitamente o que isso significa.”
Everson não disse mais nada.
Dali a alguns minutos, os mecanismos de propulsão situados na protuberância equatorial da Kublai Khan começaram a trovejar.
O ruído doeu em nossos ouvidos. Os homens da sala de comando lançaram-nos um olhar apavorado.
— Desliguem! Que diabo! — gritou Everson.
Já estava tudo terminado. As placas de apoio das colunas hidráulicas tocaram o pavimento de plástico blindado do novo espaçoporto. O rumorejar cessou. Aguardamos com a respiração contida os últimos ruídos.
— Isso ainda pode ficar divertido — disse alguém em tom apreensivo.
Olhei para trás. As palavras haviam sido ditas por um jovem oficial que ostentava as insígnias da recém-criada Academia Lunar.
Caminhei lentamente em direção à escotilha da sala de comando. Sabia que Rhodan já nos esperava.
O procedimento de um cérebro eletrônico-positrônico, dotado de controle individual semi-orgânico, só pode ser previsto por alguém que tenha informações razoavelmente exatas sobre a respectiva programação.
Não sabia o que meus antepassados colocaram há cerca de cinco mil anos nos setores de armazenamento de dados do gigantesco computador. Mas uma coisa era certa: o computador-regente achava-se num estado de enorme confusão. Ao que parecia, seu mecanismo se encontrava em desordem, motivo por que ordenava medidas que poderiam ser consideradas normais numa guerra colonial comum, travada entre diversas inteligências da Via Láctea. Mas parecia totalmente errado aplicar os mesmos princípios numa luta contra inteligências que nem sequer provinham do Universo einsteiniano.

* * *

Encontrávamo-nos a bordo do novo cruzador Califórnia, a menos de dez anos-luz do planeta Fera Cinzenta. Tratava-se do sétimo mundo do sol Mirta, e dessa forma nem sequer havíamos atingido os limites do gigantesco sistema. Ainda tínhamos pela frente as órbitas dos planetas exteriores. Eram gigantescos mundos gasosos, frios e desabitados, que não pareciam preencher a menor finalidade. Um total de quarenta e nove corpos celestes gravitavam em torno de Mirta, mas apenas dois deles eram habitados.
Às dez horas-luz foram vencidas em queda livre, independentemente da utilização dos propulsores. Pouco depois da decolagem, alguém me mostrara qual era a capacidade de aceleração dos novos cruzadores da classe Estado.
Em pleno espaço interplanetário do sol Mirta, realizamos uma emocionante manobra de frenagem. A desaceleração chegara a mil quilômetros por segundo ao quadrado.
A Califórnia era uma nave de reconhecimento ultra-rápida, cuja blindagem e armamento haviam sido grandemente sacrificados em virtude dos propulsores superdimensionados.
Ao que parecia, na Califórnia fora aplicado o velho princípio dos construtores de unidades navais: mais rápida que as naves mais potentes, e mais potente que as unidades mais velozes.
Já examinara as salas de máquinas do veículo espacial. A rigor, a nave poderia ser considerada uma bomba voadora, ou um gigantesco mecanismo de propulsão fracamente protegido, que bastaria perfeitamente para tanger um gigantesco couraçado pelo espaço.
No entanto, a Califórnia representava mais alguma coisa...
Suas finalidades eram perfeitamente definidas e, por isso mesmo, limitadas. Poderia surgir com uma rapidez espantosa, atacar e voltar a desaparecer. Só o futuro mostraria se deixara atrás de si danos de monta. Senti-me bastante impressionado pela nave esférica de cem metros de diâmetro. Ela transmitia uma sensação de segurança, desde que na ponte de comando se encontrasse um comandante que não fizesse questão de dar provas de seu arrojado heroísmo. Nesse caso, os campos defensivos bastante débeis do cruzador não resistiriam por muito tempo.
Estávamos na espaçosa sala de comando, cujos instrumentos de localização eram outro sinal de poderio do cruzador. Jamais vira tipos mais eficientes.
As telas da galeria panorâmica, cujas dimensões pareciam excessivas para um cruzador, mostravam uma série de ocorrências que quase me deixou sem fôlego. Nelas fervilhava e brilhava o poderio da Via Láctea.
Meu segundo cérebro emitiu pulsações fortes e dolorosas, pois manifestava a tendência de levar-me a contar histórias. Começava a ser tomado por uma lembrança muito viva dos acontecimentos desenrolados durante a chamada guerra do metano, travada há dez mil anos da contagem de tempo terrana. Tive de esforçar-me ao máximo para resistir à tendência. Não queria contar, mas realizar uma experiência consciente.
Reginald Bell, o representante de Rhodan, encostara o corpo na poltrona do comandante. Pitava as telas com os olhos semicerrados. Essas telas funcionavam segundo o princípio dos impulsos de velocidade superior à da luz e da interpretação dos ecos.
Não podíamos ver as naves que se encontravam a vinte anos-luz de distância como se estivessem à nossa frente. No entanto, o tamanho e o formato das manchas verdes e luminosas permitiam uma conclusão sobre o número de naves espaciais de todos os tipos, reunidas na área. Não havia ninguém a bordo que não fosse capaz de conceber um quadro nítido com base nos ecos.
— São pelo menos mil unidades da classe Stardust — disse Bell. — É inconcebível! O computador deve ter lançado mão de tudo que se encontrava nos hangares subterrâneos de Árcon III, não é?
Olhei o homem gordo e baixo com um sorriso irônico no rosto. Bell tinha uma idéia errônea do poderio do Grande Império.
— O senhor está enganado! — observei sem o menor triunfo na voz.
Rhodan virou seu rosto expressivo.
— Está enganado?
Confirmei com um gesto triste.
— Não se deve subestimar a capacidade de um império estelar que possui mais de cem mil planetas industriais. Em todos eles há estaleiros espaciais, e em todos os estaleiros estão sendo construídas naves. É verdade que se constrói segundo um esquema preestabelecido, mas sempre se constrói. Se visse cem mil naves à minha frente, não me espantaria nem um pouco.
Rhodan lançou-me um olhar de incredulidade, enquanto Bell deu uma risada angustiosa.
— Que loucura! — afirmou.
Sabia mais que isso, mas preferi ficar calado. Seria inútil tentar explicar aos terranos até onde ia a potencialidade do Império.
A central de localização deu o sinal de chamada. John Marshall, chefe do poderoso Exército de Mutantes, estava no aparelho.
— São cerca de trinta mil unidades de diversos tamanhos — anunciou. — E o que está havendo não são simples combates, mas verdadeiras batalhas que estão sendo travadas com uma fúria inacreditável. Nunca vi ondas de choque como estas.
Os dedos de Rhodan começaram a brincar nervosamente com as teclas do controle de fogo. A Califórnia era uma nave relativamente pequena, e por isso não possuía uma sala especial para o controle de armamentos.
— Trinta mil, não é? — repetiu em tom automático. — O que acha disso?
Levei alguns segundos para compreender que essas palavras haviam sido dirigidas a mim. Olhava fixamente para os rastreadores estruturais. Nas telas diagramáticas, via-se um chamejar constante, mas este não provinha exclusivamente das inúmeras transições realizadas pelas estranhas naves.
Mantendo-se constantemente visível, a suave linha ondulante indicava algo que se parecia com um abalo estrutural. No entanto, não se tratava das ondas de choque produzidas pelos abalos energéticos de plano superior, mas da superposição ameaçadora de dois planos espaço-temporais quase incompreensíveis.
Já dispúnhamos da interpretação dos dados. Não havia a menor dúvida de que desta vez não se tratava de uma frente relativista, mas de uma chamada zona de descarga, que se mantinha estável há 36 horas, tempo-padrão.
— Quero saber sua opinião — disse Rhodan em tom obstinado.
Só se viam vagamente os contornos dos rostos dos homens que nos cercavam. Havíamos desligado todas as luzes, para facilitar a observação das hiperimagens.
— Minha opinião? — disse com a voz embargada. — Bem, minha opinião é a seguinte: vocês já conhecem minhas experiências passadas. Acontece que os últimos cálculos demonstram que a dimensão temporal dos druufs, que mantém uma relação de um para setenta e dois mil com a nossa, não admite a idéia de passado, no sentido em que acabei de empregar o termo. Desde o momento em que travamos a batalha em defesa do sistema solar terrano, para essa gente não se passaram mais de dois meses. Formulo estas observações preliminares para deixar clara nossa situação.
Rhodan parecia tranqüilo. Voltara a colocar uma máscara: a máscara do auto-domínio absoluto.
— Como vão continuar as coisas?
— O tempo das frentes relativistas com a característica típica do rapto temporal já passou. Naquele tempo, numa situação semelhante, vi formações energéticas com o aspecto de funil, em pleno espaço aparentemente vazio. Tratava-se de zonas de descarga, por meio das quais se realizava a compensação da diferença do conteúdo energético dos dois Universos. Os funis correspondiam a condutores de primeira qualidade, que estabeleciam o equilíbrio das forças. Tratava-se de um fenômeno natural, que não era dirigido por seres pensantes. Acontece que, no caso presente, as coisas parecem bem piores.
Fiquei calado por um instante, a fim de observar mais detidamente o fenômeno da curva representativa das ondas de choque, que quase estava tomando a configuração de uma reta.
— Se considerarmos a diferença de um para setenta e dois mil nas dimensões temporais e o deslocamento de massa que se verifica nos pontos de concentração materialmente estáveis, situados no plano dos druufs, chegaremos à conclusão de que os fenômenos já verificados foram apenas um precursor daquilo que vemos agora. Infelizmente ainda não podemos realizar a observação ótica do fenômeno, uma vez que a luz comum ainda não teve tempo de percorrer a distância de vinte anos-luz. Se isso já tivesse acontecido, vocês veriam as aberturas de funis luminosos vermelhos, que se confundem umas com as outras até assumirem progressivamente a forma de uma fenda longa e relativamente estreita no negrume do Universo einsteiniano.
“É esta a nova zona de descarga, que se mantém estável, e que, segundo nosso cálculo de tempo inteiramente arbitrário, teve início há cerca de dez mil anos. A esta altura, já devemos ter compreendido que essa contagem de tempo não tem validade para outros mundos. Ao que parece, bárbaro, você poderá dispensar daqui em diante a complicada aparelhagem destinada à criação de um campo de refração. Daqui em diante você poderá atravessar livremente essa zona, desde que eles o deixem passar.”
Não pude deixar de proferir a observação sarcástica contida na frase final, embora não tivesse a menor intenção de ofender meus amigos. E Rhodan não se sentiu ofendido. Sua resposta foi proferida em tom irônico.
— Muito obrigado pela informação, almirante. Já havíamos descoberto isso. Quando pousarmos, encontraremos as primeiras sondas robotizadas, que foram enviadas a estas áreas antes de sua chegada. Elas nos permitirão a obtenção de imagens óticas normais. A finalidade deste vôo consistiu exclusivamente em verificar quais as medidas tomadas pelo computador-regente face ao perigo repentino. É claro que enviou uma frota gigantesca. Não conhece outras alternativas.
Engoli minha raiva e lancei um olhar furioso para o mutante Wuriu Sengu, que acabara de soltar uma risada de deboche.
— Quais são as chances que você vê, bárbaro? — perguntei em tom irônico.
Rhodan bocejou, cobrindo a boca com a mão.
— Eu?
Levantou devagar e chamou a sala de máquinas. Dali a alguns instantes, os propulsores da Califórnia rugiram e a nave aumentou a velocidade.
Essa máquina voadora de alta potência era uma construção tão ousada que mesmo um engenheiro arrojado a consideraria maluca.
— Olharemos cautelosamente por aí, seremos amigos de todo mundo e apertaremos as mãos de todos, desde que os seres que encontrarmos pela frente tenham mãos. Quanto a você, meu caro, será um dos tripulantes da nave comandada por mim. Passaremos pela fenda do espaço einsteiniano e penetraremos no plano dos druufs. O quê? Você disse alguma coisa?
Não; não dissera nada. Rhodan sorriu para mim, endireitou a fivela do cinto com as armas e desapareceu na sala de computação.
Mais uma vez, perguntei-me por que esse homem se tornara tão importante. Naquele momento, tinha o aspecto de um aventureiro arrojado e dotado dos reduzidos dotes mentais de um cavaleiro da corte do Rei Artur. Mas logo refleti melhor.
Perry Rhodan, um antigo major e piloto espacial da legendária Força Espacial dos Estados Unidos, no fundo, era um jogador genial, que sabia lançar seus trunfos com verdadeira mestria. E, se por acaso não os possuísse, começava a blefar.
Naquele instante, não tinha nenhum ás, mas assim mesmo teve a audácia de pôr na mesa a carta denominada “domínio da Via Láctea”.
Também me levantei da minha poltrona, lancei mais um olhar para as superfícies luminosas das telas de observação ótica dos setores adjacentes à nave e, dirigindo-me a Bell, disse:
— O senhor realmente acreditará que, com alguns supercouraçados e cruzadores, conseguirá subjugar grandes reinos estelares?
Antes de proferir sua resposta franca, passou as mãos pelos cabelos ruivos e curtos:
— Não me leve a mal, meu velho, mas o senhor está esclerosado.
Foi a resposta que deu a uma pergunta séria. Gucky, o rato gigante com cauda de castor, soltou alguns pios fortes.
Com uma expressão de perplexidade, fitei o dente roedor colocado à mostra e senti um calafrio pela espinha. Não foi por causa do dente. Não foi mesmo!
Se pensava nos intentos de Rhodan e na resposta que acabara de receber de seu substituto, não me sentia muito à vontade. O que estariam pensando estes selvagens? Estive a ponto de lembrar-lhes que, sem o auxílio de meu venerável povo, a esse tempo teriam criado, quando muito, um ridículo reator termal para propulsionar suas naves. Talvez tivessem mesmo seguido a pista da propulsão com base em fótons. Mas era absolutamente certo que não teriam a menor idéia de um conjunto propulsor capaz de imprimir à nave velocidade superior à da luz.
Preferi não dizer nada e dirigi-me à comporta. Quer dizer que eu era para Bell um indivíduo esclerosado. Eu lhes mostraria que um almirante da frota arcônida sabe lidar com as situações mais difíceis.


3



A nova base espacial de Mirta VII parecia um formigueiro!
Os terranos, que num assomo de megalomania haviam dado a seu minúsculo sistema planetário o nome de Império Solar, estavam prestes a, num atrevimento por vezes proposital, fazer frente à maior potência da Via Láctea.
Chegavam ao ponto de instalar uma base praticamente ao alcance dos canhões de uma grande frota espacial. Esperavam que não fosse descoberta.
As intenções de Rhodan eram evidentes. Queria ser amigo de todo mundo, estender a mão a todos, a fim de transformar-se no poder que agiria atrás dos bastidores. Guiar-se-ia pelo velho princípio de que, quando dois brigam, um terceiro fica feliz.
Ninguém poderia levar a mal que, ao avaliar todos esses fatores, me sentisse martirizado pelas dúvidas. Se desta vez Rhodan não estava arriscando demais, não queria chamar-me Atlan.
Mesmo ele, que costumava raciocinar com tamanha precisão, ultimamente dera para subestimar o computador-regente de Árcon. E, o que me deixava mais nervoso, era o fato de que os outros seres da Galáxia eram considerados, por assim dizer, como fatores desprezíveis.
A autoconfiança entre aqueles seres era um mal que tinha sua origem única e exclusivamente na existência dos mutantes. Confiavam demais nessa gente. Esqueciam-se de que outras inteligências também são capazes de aprender com a experiência. Face a todos esses dados, deduzi que os homens, que haviam se elevado tecnologicamente, ainda não tinham atingido a verdadeira maturidade. Os primeiros êxitos registrados por Rhodan foram o resultado de um efeito-surpresa quase infinito. Sentia que um golpe doloroso estava iminente. Sem dúvida era uma loucura rematada pretender, com alguns poucos couraçados e cruzadores, fazer frente a um Império, cuja indústria funcionava há milênios em função das guerras galácticas.
Houve outros homens que fizeram algumas advertências. Rhodan reconhecia a validade dos meus argumentos, mas acreditava que saberia enfrentar os perigos que sem dúvida haviam de surgir. Quem dera que ao menos não tivesse instalado sua base justamente no planeta Fera Cinzenta!
Face a tudo isso, surgiram algumas divergências sérias entre mim e Rhodan, mas nossas relações não adquiriram um matiz inamistoso. De resto, não era de meu feitio bancar constantemente a Cassandra. Afinal, o problema era deles.

* * *

Os terranos já haviam conseguido construir os misteriosos transmissores fictícios de matéria, com base nos planos de que dispunham. Até então, a fabricação sempre se tornara impossível em virtude da falta das necessárias micro-usinas energéticas, uma vez que esses transmissores não podiam funcionar sem suprimento energético próprio. Só em casos raríssimos podia-se recorrer a fontes de energia estacionárias, ou seja, imóveis, que face às exigências técnicas não podiam possuir condutores mais longos.
Até aquele momento, não se conseguira desvendar o motivo lógico do problema. Para que um transmissor funcionasse perfeitamente, tornava-se necessário que o suprimento de energia proviesse da base do aparelho. Provavelmente isso decorria de fenômenos de desmaterialização da quinta dimensão, cuja criação só se tornava possível mediante o campo de força ligado a uma fonte de energia.
As grandes naves do Império Solar possuíam ao menos um desses aparelhos transportadores. Assim tornava-se possível trasladar pessoas e objetos a grandes distâncias de uma nave para outra, sem que houvesse necessidade de realizar as complicadas manobras de abordagem.
O grande bárbaro de olhos cinzentos não poderia atender pelo nome de Perry Rhodan se o novo equipamento não tivesse sido enquadrado imediatamente num planejamento global. E, o modo pelo qual ele o fez, levava-me cada vez para mais perto de uma psicose de angústia.
Estava namorando a idéia de desistir do auxílio voluntário, que vinha prestando à Terra, e seguir meu próprio caminho, quando recebi um chamado do quartel-general planetário, instalado num abrigo de grande profundidade. Naquele momento, encontrava-me a bordo da Drusus, a nave capitania da frota solar, onde tivera uma palestra prolongada com o Tenente Sikermann.
Ao receber o chamado, encontrava-me na pequena cantina, situada ao lado da sala de observação. O rosto de Rhodan apareceu na tela.
— “Vossa Alteza” já conseguiu acalmar-se? — disse a título de cumprimento.
— Vá para o inferno, homem primitivo — respondi em tom furioso. — A menos de vinte anos-luz daqui, estão mais de trinta mil naves espaciais. Já está provado que os druufs, que penetram em nossa dimensão temporal, sofreram uma terrível derrota. Nenhuma de suas naves conseguiu sair mais de dois minutos-luz da fenda de descarga. Talvez isso sirva para provar-lhe o poderio enorme do Grande Império, muito embora, no momento, Árcon seja dirigido por uma máquina. Será que você realmente acredita que com os mutantes conseguirá tirar do seu caminho tamanha quantidade de unidades de grande poder de fogo? Eles têm uma grande área de influência. Ninguém é invencível, nem eles nem você. Acho que já está na hora de alguém lhe dizer isso claramente. O que deseja?
Permaneceu calado por um instante. Depois exibiu seu rosto de jogador de pôquer.
— Suas objeções foram aceitas, almirante. Não estou disposto a arriscar as poucas naves de que disponho. Mas, assim mesmo, pretendo participar do jogo, com sua licença.
— Deixe de ironia. Recomendo-lhe que guarde cuidadosamente os poucos trunfos de que dispõe. É bem possível que ainda vá precisar deles para salvar a pele.
Eram palavras duras para alguém que estava habituado a registrar êxitos fulminantes. Mas Rhodan não se abalou.
— Também aceito essa ponderação, arcônida. Os resultados das medições realizadas pelas sondas teleguiadas acabam de ser interpretados. Não há dúvida de que a zona de descarga pode ser atravessada sem que se torne necessário criar um campo de refração. Isso significa alguma coisa para você?
— Pretende penetrar na outra dimensão temporal? — perguntei.
— Exatamente — confirmou Rhodan. — A Califórnia está pronta para decolar e plenamente equipada. Resolvemos que, por enquanto, em hipótese alguma, participaremos ativamente dos atos de beligerância entre o computador-regente e os druufs. Ficaremos em segundo plano, na posição de observadores, até que saibamos com quem estamos lidando.
— É a coisa mais razoável que você disse nestes últimos dias.
Rhodan riu. Logo fiquei mais tranqüilo.
Não era louco a ponto de aparecer de repente na frente de combate!
— Decolaremos dentro de meia hora. Se quiser pode subir a bordo.
— Seu hipócrita! — exclamei. — Você quer que eu suba a bordo.
— Eu disse isso?
Rhodan desligou. Virei-me para o comandante da Drusus. Baldur Sikermann tossia embaraçado.
— Quem dera que vocês tivessem sido tragados por uma frente relativista oito mil anos antes da viragem dos tempos — observei em tom frio. — Nesse caso, teriam evitado muito aborrecimento. Desculpe, tenente, mas você me está deixando nervoso. Será que também faz parte do “clube”?
O rosto largo de Sikermann surgiu atrás da mão. Sabia que era um oficial muito competente e um homem extremamente arrojado. Pertencia à classe de homens que sabem usar a inteligência no momento apropriado.
— Queira desculpar, almirante. Acontece que cheguei mesmo a ser designado para comandar a Califórnia.
Respirei profundamente. De repente, compreendi que Rhodan tinha a intenção de lançar seus melhores elementos naquela missão. Se Sikermann tinha de deixar a Drusus, a fim de comandar um cruzador de importância um tanto secundária, as coisas não estavam nada boas. Provavelmente a elite da raça humana iria reunir-se a bordo da pequena nave.
Seria inútil formular outras perguntas. Já tinha certeza de que Rhodan pretendia atravessar a zona de descarga, a fim de verificar na dimensão temporal dos druufs o que realmente estava em jogo.
Não havia nada a objetar contra isso. Dali a dez minutos, passei pela comporta inferior e saí da nave-capitânia. Uma noite escura e tempestuosa pesava sobre o planeta Fera Cinzenta. Vez ou outra, uma estrela olhava pelas nuvens. No grande espaçoporto reinava o silêncio. Há algumas horas fora emitida uma proibição de decolagem, uma vez que nas imediações do sistema haviam sido localizadas estranhas naves espaciais.
Caminhei a pé em direção à nave Califórnia, quase irreconhecível em meio à escuridão. As máquinas do pequeno cruzador já estavam funcionando.
Diante da escotilha da comporta inferior, que estava aberta, dois guardas armados me detiveram. Totalmente perplexo, fitei os canos fluorescentes das armas energéticas. Depois de algum tempo, consegui dizer:
— Será que alguém ficou louco por aqui?
Pediram a senha. Naturalmente eu a conhecia. Levei alguns segundos para divertir-me com a designação antiquada. O termo palavra-código não soaria muito melhor, embora fosse mais moderno.
Um sargento do comando de patrulhas espaciais fitou-me com um ar sombrio. Levou algum tempo para baixar a arma mortífera.
— O senhor é imprudente, almirante — disse em tom de advertência. — Recebemos ordem para atirar.
— Não diga!
— Isso mesmo. Ninguém pode aproximar-se a menos de cinqüenta metros do cruzador sem uma autorização especial.
— Será que a bordo da nave existem superbombons ou petiscos galácticos? — perguntei em tom irônico.
O sargento não pôde deixar de rir.
— Não é bem isso, almirante. Apenas temos um transmissor de matéria!
Um transmissor? Quando finalmente pude entrar na nave, encontrava-me numa atitude pensativa. O que havia de extraordinário nisso? Qualquer nave de grandes dimensões possuía esse aparelho.
Mergulhado nos meus pensamentos, dirigi-me ao camarote. Evidentemente haviam reservado meu aposento, do que concluí que Rhodan calculara com minha presença.
— Que patife! — balbuciei.
Dali a quinze minutos, Rhodan apareceu. Estava acompanhado de Reginald Bell e de John Marshall, um mutante simpático e retraído.
Num gesto quase inconsciente reforcei meu bloqueio individual, a fim de resguardar-me da espionagem cerebral desse homem. Marshall logo esboçou um sorriso. Percebera meu gesto de defesa.
— Ninguém está interessado em ler seus pensamentos — disse Rhodan em tom irônico. — Para que tanta desconfiança?
Limitei-me a fazer um gesto. Afinal, estava acostumado a controlar meus impulsos cerebrais. Examinei a figura de Rhodan. Ao vê-lo diante de mim, percebi claramente que, apesar da nossa amizade, mundos inteiros nos separavam.
— Pretendo romper a frente de combate — principiou sem o menor intróito. — Mas desejo não ser localizado. Os resultados da interpretação das medições realizadas pelas sondas são espantosos. Segundo estes, a dimensão temporal do plano dos druufs modificou-se, passando de um para setenta e dois mil para um para dois. Isso significa que nossos movimentos serão apenas duas vezes mais rápidos que os dos desconhecidos.
Fiquei muito surpreso. Isso representava uma modificação profunda da situação preexistente.
— Acho que com isso podemos considerar superada sua teoria segundo a qual, para os druufs, apenas se passaram dois meses desde os acontecimentos que se desenrolaram há dez mil anos. A não ser que o processo de adaptação das duas dimensões temporais seja muito recente. Mas sempre deveremos contar com um deslocamento. Além do esclarecimento desses aspectos, naturalmente estou interessado em conhecer o fenômeno propriamente dito. Seria inútil formularmos uma série de indagações antes de termos examinado a situação.
Essas palavras pareciam razoáveis e não demonstravam o atrevimento de poucos dias atrás.
Não gastamos muitas palavras no assunto. Também eu estava interessado em verificar a situação.
— Estou curioso para ver como são esses indivíduos. É altamente provável que desta vez tenhamos de nos defrontar com os verdadeiros donos do Universo estranho. Segundo os cálculos realizados com base na lei das massas, o sistema natal dos druufs deve ficar nas imediações da zona de transição. Mais alguma dúvida?
Não; não tinha mais nenhuma dúvida. Apenas perguntei pela carga de transmissores de que me falara o guarda.
Os olhos de Rhodan começaram a brilhar. Era sinal de que tramava mais alguma coisa.
— Se tivermos oportunidade, instalaremos uma base do outro lado. Seria formidável se o transmissor nos permitisse passar despercebidamente de uma zona temporal para outra.
Confirmei com um gesto distraído. Ao que tudo indicava, essa idéia arrojada ocupava sua imaginação vivaz.
Também refleti sobre a idéia, que de repente nem me parecia tão absurda. O transmissor de matéria funcionava com base no espaço de cinco dimensões. O objeto a ser transportado sofria uma desmaterialização no aparelho transmissor e, reduzido a um feixe de impulsos, era irradiado pelo mesmo.
Num receptor perfeitamente ajustado ocorreria o fenômeno inverso. Dessa forma seria praticamente impossível localizar uma transferência realizada pelo transmissor, quanto mais interferir na mesma.
— Isso não seria nada mau, não é? — disse Bell em voz baixa, antes de sair do camarote atrás de Rhodan.
Nem chegaram a perguntar se nessas condições estava disposto a participar da missão. Rhodan parecia conhecer-me muito bem.
Dali a alguns minutos, cheguei à sala de comando. Sikermann ocupava a poltrona do piloto. Ao que parecia Rhodan e Bell não pretendiam interferir nos assuntos diretamente ligados à pilotagem da nave.
No momento em que a nave se desprendia do solo, com os propulsores ligados quase na posição zero, lá fora rugia uma violenta tempestade. Era como se o planeta Fera Cinzenta nos desse um feroz adeus.
A Califórnia só aumentou a velocidade quando as camadas mais densas da atmosfera de Mirta VII já haviam sido deixadas para trás. Os dados registrados pelo equipamento de localização pareciam satisfatórios. As naves desconhecidas, observadas há pouco tempo, haviam desaparecido. Ao que tudo indicava, os tripulantes consideraram o sistema de Mirta pouco interessante sob o ponto de vista tático.
Rhodan ofereceu-me um caneco com café. Olhou-me com uma expressão tão irônica que o sangue me subiu à cabeça. Não precisávamos de palavras para entender-nos.
— Aguarde, homem das cavernas — falei em tom zangado. — Um dia eles o descobrirão... E já lhe posso dizer o que acontecerá depois disso. Sabe lá de quantos supercouraçados do tipo da Drusus dispõe o regente? Os dois transmissores fictícios lhe adiantarão muito pouco. Se vinte unidades equivalentes abrirem seu fogo cruzado contra você, haverá possibilidade de utilizar sua superarma umas seis ou sete vezes. Com isso sobrariam pelo menos treze naves. Você não terá possibilidade de disparar o oitavo tiro, pois antes disso será destruído. Deixe que um velho almirante arcônida lhe ensine alguma coisa. Já enfrentei mais combates do que você e...
— Você derramou seu café — disse Rhodan, esquivando-se ao assunto.
Fitei-o com uma expressão pensativa. Parecia que ultimamente descobrira as fronteiras de seu poder. Lembrei-me do que dizia a Enciclopédia Terrana, que registrava a ascensão de Rhodan.
Desde aqueles tempos remotos, entre os anos de 1.971 e 1.985, ele já sabia até onde poderia chegar. Procurara e encontrara um caminho que lhe permitisse remover as resistências políticas à instalação de um governo mundial.
Agora encontrava-se em situação semelhante. Apenas, desta vez, tinha de contar com fatores totalmente diversos. Teria de enfrentar impérios galácticos. Não havia a menor dúvida de que os desconhecidos, vindos da outra dimensão temporal, representavam um poder equivalente ao do Grande Império. Isto eu poderia até afirmar.
A Califórnia voltou a acelerar loucamente à razão de 106 km/seg. Prestei atenção ao tremendo rugido dos conjuntos propulsores que, uma vez atingida a velocidade crítica, cresceu ainda mais. Quatro dos cinco grandes depósitos da nave continham exclusivamente tanques com reservas de matéria físsil. Consumíamos cerca de quarenta e cinco toneladas de bismuto por hora, matéria que, uma vez injetada nos conversores de impulsos, produzia um meio de apoio bastante condensado.
Assim que alcançamos a velocidade aproximada da luz, passamos à transição. Observei os engenheiros da equipe de controle, que realizaram mais uma verificação do neutralizador de freqüência. Se houvesse qualquer falha no funcionamento desse aparelho, a Califórnia seria inevitavelmente localizada pela frota de bloqueio arcônida.
Um homem levantou a mão. Rhodan respondeu com um ligeiro aceno de cabeça.
A hora chegara.
A transição teve início com uma dor violenta, seguida pelo murmúrio do hiperespaço de cinco dimensões!


4



Éramos apenas um vírus no sangue de um gigante. Antes de lutar contra esses microorganismos, o biólogo precisa identificá-los. Só depois disso poderá produzir o respectivo antídoto.
No nosso caso, a Califórnia era um vírus, e o gigante correspondia à maior concentração de unidades espaciais que vira nos últimos dez mil anos.
Saímos do hiperespaço à velocidade da luz e seguimos imediatamente a rota que nos levaria ao destino. Na área altamente relativista da velocidade próxima à muralha da luz, não se tornava possível a queda livre, independente do empuxo fornecida pelos propulsores. Para mantermos 98,8 por cento da velocidade da luz, nossos propulsores teriam de trabalhar ininterruptamente a plena potência.
O corpo esférico do cruzador ligeiro vibrava e retumbava que nem um sino. Até então, nem mesmo os construtores terranos haviam conseguido construir uma nave silenciosa, livre das perturbações produzidas pelas ressonâncias.
Os corpúsculos emitidos em compactas ondas pelos propulsores de impulsos prestavam-se perfeitamente a uma rápida localização goniométrica. Isso ainda era acrescido do fluxo de plasma da massa de apoio, que tinha de ser expelida para possibilitar a manutenção de uma velocidade tão elevada.
No setor vermelho do cruzador que se deslocava vertiginosamente, as fúrias do inferno pareciam estar às soltas. Mais ou menos em 10 graus vermelho vertical e 22 graus vermelho horizontal, sóis pareciam explodir e mundos submergiam. Uma catástrofe da natureza parecia estar em pleno andamento.

Não podíamos observar diretamente a luminosidade ofuscante dos inúmeros canhões de impulsos. Mas cada disparo era registrado na tela de localização energética, sob a forma de um ressalto na curva de eco.

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