sábado, 7 de setembro de 2013

P-072 - Os Embaixadores de Aurigel - Kurt Mahr [parte 2]

— Mullon, você tem toda razão. É isso que vão fazer. Vão agir com muita cautela, porque não nos podem matar, pois com isso provocariam um ataque de nossa força espacial. Poderão, porém, simular ou provocar um acidente, que pareça tão verdadeiro que ninguém os responsabilizará.
— Que devemos fazer, então? — perguntou O’Bannon.
— Isso vai depender da situação — disse Chellich, bem calmo. — Por enquanto, as coisas não estão tão desenvolvidas assim. Milligan, já preparou o texto?
— Perfeitamente, há muito tempo.
— E como é ele?
Milligan arredondou os lábios em ponta, e em tom de voz fina e alta, tipo flautim, soltou o seguinte:
Eejnii-hee-lii-weeú.
— Não, em in... quer dizer, em francês.
— Atenção! Os estrangeiros planejam dominar Heeninniy.
— Tem certeza de que a frase está correta na língua deles?
— Ora essa! — protestou Milligan. — Há seis dias que estou estudando dia e noite esta língua e vocês acham que não sou capaz de decorar estas quatro ou cinco palavras?
— Desculpe, Milligan, minha pergunta não foi no sentido pejorativo. Em seis dias não se pode aprender muita coisa de uma língua difícil assim. Pergunto apenas: você tem certeza de que as palavras são estas?
— Naturalmente — respondeu Milligan. — Aliás, eu copiei o texto de cartazes na cidade.
— Copiou? Onde?
— Há na cidade muitos cartazes onde está escrito: “Atenção! Os guerrilheiros planejam escravizar Heeninniy.” Preciso apenas trocar “guerrilheiros” e “escravizar” por “estrangeiros” e “dominar”. E nisso não há dificuldade alguma.
Chellich teve sua atenção desviada para qualquer coisa.
— Estes cartazes se relacionam com o quê?
— Ah! Queria mesmo tocar neste assunto com você. Parece que há em Peep uma oposição bem forte. Os da oposição dão a si mesmos o nome de “guerrilheiros” e desejam introduzir no planeta uma ordem democrática. Pelo menos, foi isto que me explicou meu amigo peepsie. Naturalmente, a oposição é ilegal e dá muita dor de cabeça a Iij-Juur-Eelie, que por isso é obrigado a fazer propaganda, como se vê por aí nos cartazes.
Chellich concordou.
— Isto nos poderá até ser muito útil — disse ele em voz baixa, falando mais para si mesmo. — Mas vamos, faça o cartaz quanto antes, não temos tempo a perder.

* * *

Embora o desejasse intimamente, Sua Excelência não tivera coragem de tolher a liberdade de movimento dos visitantes. Colocou à disposição deles diversos andares numa das torres do palácio real, dando a cada um certo número de serviçais. Além disso, o parque de viaturas do palácio estava sempre à disposição deles. Os motoristas estavam instruídos para explicarem aos visitantes o manejo dos vagonetes aéreos, caso quisessem andar sem o motorista.
O único sinal mais evidente de que se tratava mesmo de uma visita oficial eram as horas de refeição. Sua Excelência fazia questão de alimentar-se em companhia dos visitantes, com toda pompa da regia hospitalidade. Logo após estes banquetes, seguia-se um tipo de conversação amistosa em que se expunham mutuamente os pontos de vista, externando cada um seus desejos. Sua Excelência e seus auxiliares graduados davam então conselhos e sugestões de como consegui-los mais facilmente.
Fora disso, os estrangeiros não tinham nenhum outro compromisso, estavam totalmente livres — para maior preocupação de Iij-Juur-Eelie, o Rei-Presidente.
Podiam fazer o que queriam e aproveitavam bem o seu tempo. Sua Excelência não estava realmente preocupado com os visitantes pretenderem espionar sua terra, pois, conforme o relatório de Gii-Yeep, estava convencido de que, por serem muito mais avançados, não tinham nada para espionar.
Mas seu grande cuidado e anseio era convencer os visitantes a fazerem uma tournée pelo planeta e naturalmente — dentro das previsões — deixá-los no deserto central de Eenee, enquanto os técnicos espionariam a espaçonave, a Fair Lady. Por enquanto era muito cedo, os estrangeiros ainda estavam interessados em perambularem pelas escuras ruelas da cidade. Seria para ele muito mais fácil, caso pudesse dar a ordem ou exigir uma visita ao interior do planeta.
A curta mensagem transmitida pelo rádio o deixou perturbado. Seria possível que, em algum lugar de Feejnee ou em alguma de suas luas, estava escondida a frota espacial dos estrangeiros, aguardando o momento para a invasão?
Era crescente a inquietação. Conseqüentemente, passou a considerar os visitantes como inimigos.
A partir daí, roído de ódio e pavor, passou a observar cada passo dos visitantes. Queria até mandar instalar microfones escondidos nos alojamentos dos visitantes, mas acabou desistindo, levado pelo pensamento de que os estrangeiros dominavam uma técnica mais avançada e seriam capazes de descobrir tudo, considerando o fato como traição aos princípios de hospitalidade.
A solução era, então, contar com as notícias do Serviço Secreto de Gii-Yeep, cuja milícia formava uma rede cerrada de espionagem em torno dos visitantes. Mas estas notícias não traziam nada de novo, pois os visitantes, pelo menos aparentemente, não faziam outra coisa senão bater ruas e admirar a vida da cidade.
E assim estava correndo o tempo.
Um dos guardas do Serviço de Segurança, disfarçado, acompanhava os visitantes. Andavam por uma ruela de casas comerciais, e finalmente entraram numa casa de “uuhee” e agora, quatro horas depois, ainda não haviam saído de lá. Sua Excelência sorriu feliz com o pensamento de que o “uuhee” lhes subisse à cabeça.
Não sabia, no entanto, da capacidade de beber de seus hóspedes, pois o “uuhee” não passava de uma espécie de cerveja fraca.
Chellich e seus nove companheiros levaram uma hora observando as instalações comerciais. As lojas dos peepsies não se localizavam no andar térreo, como na Terra. Estavam em geral no alto, nas grandes torres. Quanto mais alto se localizava, mais distinta era a loja e mais caros seu preços. Para que surgisse realmente uma rua ou um quarteirão comercial, era necessário uma infinidade de pontes entre as torres; pontes estas que valiam por pequenas ruas, onde também se instalavam as butiques.
O modo de comprar e vender se assemelhava muito com o que acontece na Terra nos bazares do Extremo Oriente. As mercadorias eram apregoadas e o freguês não comprava sem antes pechinchar alguns minutos. Mas não era um simples pechinchar, muitas vezes se transformava em discussão, em xingatório e em briga.
A Chellich e a seus companheiros foram cedidos pequenos transladores eletrônicos que traduziam os sons estranhos para o francês, de modo que podiam acompanhar, em parte, a conversa dos nativos. E com o dinheiro abundante que lhes dera Sua Excelência compraram muitas lembranças do misterioso planeta Peep. O estranho era que os peepsies não davam muita importância aos estrangeiros. Chellich achava isto ótimo, porque assim podiam andar mais à vontade, o que lhes facilitava o trabalho.
Durante o passeio pelas ruas do centro da cidade, Milligan tinha a incumbência de ficar de sobreaviso a respeito de qualquer agente secreto.
De repente Milligan chamou a atenção de Chellich para dois sujeitos que os estavam seguindo. De vez em quando, eles olhavam, como que por acaso, para o grupo dos estrangeiros. Chellich pediu que Milligan descrevesse estes dois tipos. Não conseguiu, porém, distingui-los no meio da multidão. Para ele, Chellich, todos aqueles “homens” de cabeça pontiaguda e de rosto mirrado eram iguais. Deixou, pois, que o próprio Milligan cuidasse de protegê-los dos espiões.
No final da rua, havia no interior de uma torre um enorme salão com uma série de cantinas para refeições ligeiras. Chellich e seus companheiros entraram numa destas cantinas, que por sinal estava quase lotada. Acharam uma mesa livre e tiveram de sentar nas cadeiras altas demais, portanto incômodas para eles.
Milligan, o único entre eles que dominava alguma coisa da língua dos nativos, viu na entrada a palavra “uuhee”. Devia ser uma bebida maravilhosa, era necessário experimentá-la. Os peepsies presentes, já estavam bem altos, isto é, bem embriagados. O barulho ali dentro era ensurdecedor. Milligan propôs que se experimentasse a célebre bebida dos nativos.
O modo do atendimento era também interessante. Cada um gritava o que queria, na direção de uma espécie de balcão, atrás do qual estavam dois homens que repetiam o grito do freguês, assim que o ouviam. Depois que a encomenda estava pronta, gritavam de novo seu nome. O freguês então se levantava e vinha apanhá-la no balcão, passando numa caixa registradora. Mas já que eram muitos os que pediam a mesma coisa, havia constantemente muita confusão e mesmo briga, principalmente porque os peepsies já tinham bebido bastante.
Milligan arredondou os lábios e caprichou bastante para falar, corretamente, na língua deles “dez vezes uma porção de uuhee”. Seu semblante se iluminou de contentamento, quando o homem lá dentro repetiu sua encomenda. A bebida era servida em taças opacas e colocadas no balcão. Aí é que o homem gritava a segunda vez: “dez vezes uma porção de uuhee”. Milligan, O’Bannon e Wolve se levantaram para apanhar as “taças”, que deviam ter meio litro cada uma.
A curiosidade sobre o gosto da bebida estava no semblante dos terranos. A impressão geral era de como uma bebida tão fraca pudesse embebedar os peepsies tão facilmente. Alguém falou bem alto sua impressão:
— Cerveja de terceira classe, quase sem álcool, especial para cosmonautas.
O fato de os peepsies se embebedarem tão facilmente deve se explicar pelo motivo de o álcool produzir muito maior efeito quanto menor for a pressão ambiente.
— Poderemos fazer uma experiência a respeito — propôs O’Bannon.
— Acho melhor não — respondeu Chellich, sorrindo. — Agentes bêbados nunca dão certo.
E dizendo isto, virou-se para trás, dando de cara com um peepsie. Olhou-o com muita insistência, e em contraste com os dois agentes secretos, tinha uma expressão calma, estranhamente calma. Chellich o fitou firme, ao que o peepsie desviou os olhos. O que os terranos estavam falando, coisas sem valor, sobre o gosto desajeitado da bebida, não podia ser assunto de espionagem. Momentos depois, Chellich fitou de novo o “homem” da mesa de trás e constatou que o nativo o acompanhava ainda com o olhar.
Na primeira oportunidade, Chellich se dirigiu a Milligan:
— Olhe bem aquela mesa na segunda fila, na direção da porta. Não será um dos “homens” que nos estavam seguindo?
Disfarçando, Milligan olhou para trás.
— Aquele de semblante tranqüilo?
— Exatamente.
— Não, não é nenhum dos nossos dois espiões. Quem sabe já é um terceiro?
Mas isto não dava sentido para Chellich, pois, pelo que se lembrava, aquele “homem” já estava ali, quando os terranos chegaram. Que pretendia ele, se não era nenhum espião?
Mais uma vez, Chellich fixou os olhos naquele “homem” esquisito. E desta vez, o solitário não desviou os olhos, mas piscou uma, duas vezes, tendo o cuidado de que ninguém descobrisse seus sinais. Notava-se que ele tinha alguma coisa especial para falar, mas evitava de toda maneira ser percebido por sua gente.
Chellich imitou seu gesto e, quanto podia, repetiu ou retribuiu as duas piscadelas do peepsie, que esboçou então um frágil início de sorriso, concentrando agora seu olhar na taça de “uuhee”, disfarçadamente.
No momento, Chellich não sabia como se devia portar.
Conservou dentro de si tudo que sentia. Não seria mesmo possível comunicar a nove homens juntos uma novidade tão sensacional, sem que todos virassem de uma só vez a cabeça para o lado e ficassem olhando de onde vinha a novidade. Tinha-se que evitar a todo custo chamar atenção do público.
Instantes depois, o “homem” se levantou. Chellich o observava com muita atenção e viu como ele moveu rapidamente os dedos da mão direita para lhe mostrar um pedaço de papel, que escondia na mão. Com a mesma rapidez, dobrou de novo os dedos e veio na direção de Chellich.
A pouca distância dele, virou para a esquerda, talvez para escapar do largo corredor que dividia o local em duas partes. Neste instante, tropeçou no pé de uma cadeira que lhe estava no caminho. Parecia que ia cair. Chellich foi então ao seu encontro para ampará-lo na queda. O peepsie se agarrou na roupa de Chellich e se aprumou novamente, fazendo uma reverência para agradecer o amparo do estranho e dizendo algumas palavras, que foram traduzidas na mesma hora pelo translador que Chellich trazia.
— Muito obrigado.
Depois, como se nada tivesse acontecido, o peepsie continuou seu caminho, passou pelo grande corredor e desapareceu.
Chellich sabia que o pedacinho de papel, que o peepsie mostrara na mão direita, devia estar agora no seu bolso. Não fora sem razão que o homem simulara a queda e se agarrara nele.
Será que alguém havia percebido o truque do peepsie?
Parecia que não. A gritaria dos bêbados continuava e ninguém dava maior atenção à mesa dos terranos.
Mesmo assim, Chellich deixou o papelzinho onde estava e só, duas horas depois, quando já tinham deixado aquele recinto e já estavam descendo num elevador, em direção aos seus vagonetes, foi que ele tirou o papel do bolso para entregá-lo a Milligan, a fim de decifrá-lo.
Ficou um tanto surpreso ao constatar que não havia necessidade de decifrar o texto, pois estava redigido na mesma grafia que Chellich e seus colegas haviam inventado em Fera Cinzenta e que estava também sendo usada durante sua estada em Peep. Seu teor era o seguinte:

“Favor dirigir-se aeroporto. Saída sul, ao pôr do sol de hoje.”

O francês estava estropiado, mas dava para entender. Chellich teria que se encontrar na saída sul do aeroporto com alguém, provavelmente o mesmo peepsie da cantina. Para que e com que finalidade? A princípio, Chellich não quis se preocupar muito com isto.
Guardou o bilhetinho assim que o elevador parou. Ali era o grande parque de estacionamento, em que os peepsies deixavam seus vagonetes, enquanto faziam suas compras. Eram ao todo quinze elevadores que ligavam o parque do estacionamento com os andares superiores da torre. No momento, o trânsito não era intenso e não havia fila para os elevadores.
— Milligan — disse Chellich em voz bem baixa — pegue um cartaz, volte e cole-o no interior da cabina do elevador, com muito jeito para não ser notado.
Milligan já estava preparado para isto. Voltou ao elevador e esperou até que a porta fechasse e o carro subisse. Tirou do bolso um dos cartazes já preparado e o colou na chapa de aço interna, durante a subida. Foi um trabalho rápido e fácil, pois o dorso do cartaz já estava com a camada de cola. Foi só estendê-lo na parede do elevador. Parou num andar onde não havia ninguém, saltou e pegou outro carro.
Poucos segundos depois estava de novo embaixo, no estacionamento. Chellich já havia encontrado seus vagonetes e estavam para sair dali.
— Foi tudo bem? — perguntou Chellich.
— Naturalmente — respondeu Milligan. — O primeiro já está afixado e ninguém sabe quem foi, nem de onde veio.
— Ao menos, é o que esperamos.




5



No correr da tarde, colocaram mais nove cartazes, com o que se esgotara o estoque do momento. Não foram observados e Sua Excelência haveria de quebrar a cabeça!
Quem é que estava violando tão ostensivamente as leis da hospitalidade e por que razão o fazia?
Chellich podia estar muito contente com o resultado daquele dia. Acreditava que os cartazes provocariam enorme confusão e haveriam de ajudar os peepsies a esquecer um pouco Fera Cinzenta. Esta era a única pretensão do grupo de terranos em Peep.
Mas o dia ainda não tinha terminado, e seu ponto alto seria certamente o encontro com o misterioso peepsie no setor sul do aeroporto. Quem sabe estaria aí mais um fator para fazer a “pedra rolar” mais depressa?
Chellich estava resolvido a manter o assunto em segredo. Se o tal peepsie pertencesse ao grupo dos chamados “guerrilheiros”, então estaria aí uma rara e importante oportunidade.
Cerca de uma hora antes do pôr do sol, o cortejo dos vagonetes aéreos chegou ao palácio real. Chellich e os seus se recolheram aos aposentos. Milligan foi encarregado de explicar a Sua Excelência, na hora do jantar, que Chellich talvez não viesse a tempo, por estar ocupado na espaçonave.
Meia hora após o retorno da cidade, Chellich deixou o palácio novamente. Entretanto, havia confiado exclusivamente a Mullon que ele iria ter um encontro com um “homem” que lhe queria dizer alguma coisa importante. Mullon fez questão de acompanhá-lo e Chellich não tinha nada contra, pois não estava excluída a hipótese de se tratar de uma cilada.

* * *

— Feejnee está a novecentos milhões de quilômetros — disse Wee-Nii — e a cada segundo se afasta mais quatro quilômetros, Excelência.
— Sei disso — respondeu secamente Iij-Juur-Eelie.
Sabia que poderia causar má impressão a seu comando, então acrescentou em tom mais amigável:
— Pelo menos, é o que calculava. Acho que temos de pensar de novo, almirante. Aqui não podemos nos preocupar com os riscos. Uma de nossas naves tem de voar para Feejnee. Não o convoquei ao palácio para perguntar se é possível ou não, mas porque desejo saber qual é a chance de sucesso que podemos ter.
Wee-Nii se recostou na poltrona e aproveitou este curto instante para lamentar a pobre tripulação que Sua Majestade ia mandar na segunda de suas três naves para Feejnee.
— Acho mais do que evidente que os estrangeiros disponham de uma vasta cadeia de radiofonia — continuou Sua Excelência — se existe de fato uma base em Feejnee ou em algum de seus satélites. Agora eu lhe pergunto: existe, apesar de tudo, uma possibilidade de localizarmos esta base e de construirmos em sua proximidade uma contrabase, sem que os estrangeiros percebam?
Wee-Nii demorou um pouco a responder.
— Para uma resposta satisfatória, teria de saber que tipos de aparelhos de radiogoniometria e demais rastreadores os estrangeiros possuem e qual seu raio de ação.
— Bem, isto você não sabe, por enquanto, nem eu — continuou Sua Excelência um tanto ríspido. — Imagine a situação mais desfavorável e faça seus cálculos dentro destas limitações.
Wee-Nii começou a calcular. Por mais que tentasse afastá-lo, sempre lhe surgia na cabeça o fantasma de que a chance de êxito num empreendimento assim estava na base de um para cem mil. E teve a coragem de dizer isto a Iij-Juur-Eelie.
Não é necessário dizer que Sua Excelência se enfureceu com isso.
— Você não está compreendendo que se trata de nossa sobrevivência? E mesmo que as chances fossem ainda mais reduzidas, teríamos de tentar. Então?
— Se a espaçonave dos estrangeiros transmitir mais um rádio — explicou Wee-Nii, fazendo grande esforço para não perder a calma — deveríamos então estar de prontidão para determinar com exatidão a direção do rádio. Novecentos milhões de quilômetros não é tanto assim. Deve ser possível descobrir se esta base se localiza em Feejnee ou em uma de suas luas, e na Ultima hipótese, em qual destas luas.
“Assim que estivermos de posse destas informações, poderemos tentar nos aproximar do inimigo em Feejnee ou numa de suas luas. Esta seria a única possibilidade. Quanto à chance de sucesso, já fui bem claro...”
— Claro demais, pela terceira vez — interveio Sua Excelência mal-humorado. — Deixe, pois, uma das duas naves em condições de decolagem imediata, instrua sua tripulação e leve toda munição de que dispusermos.
— Armas e munições? — perguntou Wee-Nii assustado.
— Claro, armas. Ou você acha que os nossos devem voar para Feejnee para dar um abraço nos estrangeiros e lhes dizer bom-dia?
— Vossa... Vossa Excelência está pensando num ataque? — disse Wee-Nii, horrorizado.
Sua Excelência franziu a testa e comprimiu os olhos:
— Realmente, eu não sabia — disse ele, não se controlando mais — a quem dar ordens. Mas pode deixar, o comandante da nave logo receberá as instruções diretamente de mim. Entendido?
Wee-Nii se curvou respeitosamente.
— Está bem, Excelência.
— Mais uma pergunta: Sey-Wuun já se comunicou?
— Ainda não, Excelência.
— Esquisito! Que terá acontecido a ele? Wee-Nii fez um gesto indeciso:
— Talvez chuva de meteoros contra a nave, ou mesmo ataque dos nativos primitivos.
— Bobagem! Você mesmo os chama de primitivos e no entanto acredita que possam atacar com sucesso nossa nave!
— Excelência, esta expressão “nativos primitivos” foi invenção do Capitão Sey-Wuun. Formou-se um conceito, sem se conhecer a verdadeira extensão deste primitivismo.
— Bem, e o senhor, o que pretende fazer?
— Pedir-lhe uma subvenção adicional, Excelência — respondeu prontamente Wee-Nii, com muita franqueza. — A Força Aérea não tem mais condições de cuidar de seu sustento.
— Isto você tem que tirar da cabeça — disse Iij-Juur-Eelie com incrível calma. — No momento, cada um recebe uma libra de trigo com uma porção de diijeeh. E o tesouro nacional, como você sabe, está mesmo na lona, ou na maré vazante, como se diz na marinha. Vocês meteram na cabeça este projeto e agora terão que levá-lo até o fim. Mande uma outra nave para Weelie-Wee, se a primeira não voltar.
Wee-Nii se curvou novamente:
— Era exatamente esta autorização que eu tencionava pedir.
— Para até quando vocês têm provisões? — queria saber Sua Excelência, o Rei-Presidente.
— Mais ou menos para duzentos dias.
— E quanto tempo precisa a nave para a viagem de ida e volta, mais a estada para o carregamento?
— Pelo menos cento e oitenta dias, Excelência.
— Então você está vendo que é possível. E para lhe ser mais claro ainda: o tesouro nacional não dispõe mais de nenhuma reserva que possa colocar à disposição da Frota Espacial. Vocês têm de fazer alguma coisa por conta própria.
Wee-Nii ainda acreditava que as coisas mudariam, assim que se precisasse da Frota Espacial contra os estrangeiros. Mas não deixou extravasar seu pensamento. Iij-Juur-Eelie fez-lhe um aceno com a mão, indicando que não havia mais nada a tratar.
Wee-Nii se levantou e saiu, depois de ter feito as três reverências, como era de praxe.

* * *

No portão norte do aeroporto, o guarda de serviço informou que nas próximas horas não haveria aterrissagem nem decolagem e que se podia chegar sem perigo com os vagonetes aéreos até a Fair Lady. Chellich disparou então para o sul. Entrementes estava escurecendo rapidamente e já que a pequena viatura não tinha lanternas nem farol, estava certo de que ninguém do posto de vigia do portão norte haveria de notar que ele não se dirigiu para a grande espaçonave Fair Lady, mas tomou a direção do setor sul.
Fazia meia hora que o sol se escondera no poente. Chellich, porém, achara prudente ainda não ir ao encontro do estranho. O peepsie haveria de esperar, se tivesse realmente algo importante a comunicar. Ainda lhe custou um pouco encontrar a saída sul, pois não estava diretamente oposta ao portão norte. Junto da entrada havia uma pequena guarita, porém, de boa altura e, quando Chellich parou, surgiu um peepsie uniformizado. Chellich abriu a janelinha do vagonete, dizendo:
— Hóspede de Sua Excelência! — esperou até que o translador tivesse traduzido sua frase.
O rapaz de uniforme abriu o portão, cumprimentando com reverência profunda. A viatura disparou.
No banco de trás estava sentado Mullon, olhando para fora.
— Não se vê ninguém.
— Nada de estranho nisto — respondeu
Chellich. — É claro que o peepsie não vai querer falar conosco perto do posto policial.
Dobrou para a direita, estacionando a viatura no lado interno do espaçoporto. Nos últimos metros diminuiu a velocidade, para que Mullon pudesse observar melhor. Mas não deu certo. Não viram nada.
— Não vamos desanimar — disse Chellich. — Vamos procurar do outro lado.
Fez uma ampla curva com o vagonete, escapando assim de ser visto por um dos guardas e conduziu a viatura novamente para o outro lado de um posto policial, e dirigiu-se outra vez ao campo de pouso.
— Se nós não o encontrarmos agora, voltaremos para casa — disse Chellich.
O portão com a guarita ao seu lado já estava se delineando no escuro e ainda não havia sinais do estranho. Chellich receava dar na vista se continuasse a andar de um lado para o outro e assim foi reto na direção da saída.
Pela segunda vez, o sentinela saiu de sua guarita estranhamente alta e fez a reverência perante o hóspede real.
— Acho que nos perdemos e vamos voltar para a cidade pelo portão norte.
O sentinela esperou paciente até que o translador lhe desse a frase em sua língua. Depois soltou uns sons agudos como flautim, muito sibilantes, que Chellich a princípio julgava ser apenas a confirmação de sua primeira frase. Até que veio o som do translador:
— Se o senhor veio para cá porque combinou encontro com alguém, então talvez eu possa ajudá-lo.
Chellich olhou para cima, fitando o peepsie, que aguardava de pé, ao lado da viatura. Tentou se lembrar da fisionomia do estranho que lhe metera o pedacinho de papel no bolso, no início da tarde.
Seria a mesma fisionomia do guarda? Seriam idênticos os dois “homens”?
Com os diabos!... como é difícil distinguir algum traço diferente na fisionomia desta gente!”, pensou admirado.
— Sim...!? — respondeu Chellich meio indeciso.
— Acho que deve ser muito difícil para o senhor — argumentou o sentinela — distinguir duas pessoas da minha raça ou reconhecer uma delas. Se quiser acreditar em mim, sou o homem que hoje à tarde lhe colocou o bilhetinho no bolso do casaco.
— Não há nada para acreditar. Se você sabe da história do bilhetinho no meu bolso, então você é a tal pessoa, ou um confidente dela. Que posso, pois, fazer por você?
O peepsie fez um movimento de mão, dizendo:
— Quer deixar a viatura aqui ao lado do portão?
— Não. Qual é a outra sugestão que você dá?
— Leve-o para o lado, solte o ar do motor. Quando o guarda da ronda passar por aqui, finja que está consertando alguma coisa aí.
— Boa idéia — acudiu Chellich.
Tocou o carro para o lado. Já um pouco afastado do portão de entrada, deixou escapar o ar, isto é, desligou a turbina que produzia o colchão de ar, dando a impressão de que estivesse enguiçado. Saltou da viatura e veio com Mullon para o portão.
Como era de se esperar de sua raça orgulhosa, cheia de si, o peepsie não sentiu nenhuma dificuldade em iniciar o diálogo. Estava completamente à vontade, quando começou:
— O senhor deve ter ouvido falar dos “guerrilheiros”. É assim que nos chamam. O que nos interessa é a liberdade de três bilhões de homens. Soubemos que os senhores pertencem a uma raça estranha e poderosa e lhes queríamos pedir que não dessem apoio ao nosso regime atual.
Chellich ouviu calmamente a tradução e respondeu:
— Você nos está julgando muito a par da situação aqui em seu mundo, meu amigo. Fomos recebidos muito cordialmente por Iij-Juur-Eelie. Mas não sabemos nada dos conflitos internos deste grande mundo e não podemos ter a pretensão de exercer influência sobre nenhuma facção.
O sentinela se sentiu na obrigação de dar maiores explicações:
— A forma de governo de Heeninniy — continuou o estranho peepsie — está expressa na constituição. Ela estabelece que o Rei-Presidente é o chefe da nação e os negócios do Estado são geridos por um conselho de ministros. No entanto todo este conselho de ministros está praticamente preso nas mãos de Iij-Juur-Eelie. Não se toma nenhuma resolução, nada se faz, sem que seja por iniciativa dele. Não pode haver oposição no parlamento, pois Sua Excelência, há muitos anos, estabeleceu um decreto-lei mandando acrescentar à constituição uma cláusula que impede qualquer oposição. De acordo com a constituição, nosso governo devia ser pela representação popular, mas na realidade o povo tem que ser uma pessoa só, Iij-Juur-Eelie. Quem não quiser se submeter a este regime ditatorial é considerado criminoso. É contra esta tirania que lutamos e se o senhor não tiver dúvidas de que estou lhe dizendo a verdade, certamente concordará conosco que esta luta é legítima.
Os pensamentos de Chellich se desenrolavam rápidos. A idéia de se aproveitar dos “guerrilheiros” para provocar mais inquietação em Peep era antipática e traiçoeira. Mas, afinal de contas, estavam também em jogo oito mil homens em Fera Cinzenta.
O peepsie soltou um som alongado que parecia um suspiro.
— O que acha que nós podemos fazer por vocês? — perguntou diretamente Chellich.
— É difícil dizer. Não que nós não precisemos de sua ajuda, não. Mas o que vocês, como hóspedes, poderão fazer, sem se exporem à ira do tirano?
Chellich teve uma boa idéia:
— Há alguma possibilidade de mantermos contato mais constante?
— Certamente. O senhor já deve ter perguntado a si mesmo de onde é que nós conhecemos sua escrita e sua língua. Sua Excelência possui um serviço secreto. Com muito sacrifício, alguns dos nossos conseguiram entrar para essa polícia. Quando o senhor quiser sair e solicitar acompanhante, então em geral se consegue que um dos nossos esteja de prontidão.
— Certo, mas precisamos então de uma senha ou de um sinal para nos identificarmos.
— Sim, mas isto é muito fácil. Quando um dos nossos se sentar no carro dizendo: “Espero que tenhamos uma viagem bem divertida”, o senhor responderá: “Eu também espero que a viagem seja mesmo divertida.” Saberá então com quem está viajando.
Chellich começou a sorrir.
— Formidável. Mas para ajudá-los, precisamos possuir informações suficientes. Será que sua gente nos poderá transmiti-las?
— É claro. Somos-lhe muito gratos por nos querer ajudar e haveremos de fazer tudo para lhes facilitar a missão.
Chellich achou por bem interromper aí o encontro. Prometeu ao “guerrilheiro” que iria pensar bem no melhor modo de lhes ser útil. Agradeceu, muito comovido, a confiança do pobre peepsie.
Chellich e Mullon voltaram ao carro, ligaram o ar da turbina e atravessaram todo o aeroporto no sentido oblíquo, saindo pelo portão norte. Entraram na cidade sem que ninguém suspeitasse de nada. À noite, a visão ainda era mais acabrunhadora do que com a luz do dia, pois toda a vida da cidade se desenrolava no interior das torres. E mais ainda pelo motivo de as ruas não terem iluminação, a não ser os sinais de trânsito nos cruzamentos.
Chellich fez o percurso todo sem dizer uma palavra. Mullon também não sentia necessidade de se comunicar. Até que explodiu de repente:
— Não me agrada nada esta história, Chellich. Os “guerrilheiros” parecem “rapazes” honestos. Temos o direito de açulá-los contra seus irmãos, somente por causa de oito mil terranos?
Chellich olhou para ele estupefato:
— Não o estou reconhecendo — disse Chellich com uma ponta de ironia. — Então você acha que devemos perder a oportunidade?
— Não sei o que você pretende, que oportunidade é esta de que fala. Vamos supor que seu plano provoque uma revolução. Isto significa derramamento de sangue, talvez milhares de peepsies mortos, até que a revolução tenha vencido ou perdido. Temos o direito de entregarmos à morte centenas de milhares de gente daqui deste planeta por causa de oito mil terranos, que nem estão ameaçados de morte? Que só temem por sua liberdade?
— Já pensei nisto tudo, Mullon. Devo-lhe dizer que suas ponderações são dignas de qualquer homem sensato. Creio, porém, que seus cálculos estão incorretos. Fera Cinzenta é um planeta independente, corre o perigo de ser subjugado pelos peepsies de uma maneira ilegal e violenta. Fera Cinzenta quer apenas se defender. Já que é um mundo sem outros recursos, não está havendo uma guerra direta, mas tão-somente atuação clandestina de alguns agentes. Infelizmente, não temos opção, não podemos escolher os meios nesta guerra clandestina ou não declarada. Temos de agarrar qualquer oportunidade que se nos apresente.
— Você está coerente, mas eu não consigo estar em paz com minha consciência.
E depois de alguns instantes:
— Gostaria de beber alguma coisa agora. Esta história dos peepsies está me estragando a vida.

* * *

Chegando ao palácio, foi-lhes comunicado que Sua Excelência houvera por bem transferir a hora do jantar, até que os dois mais eminentes membros da delegação do planeta Aurigel estivessem de volta de suas atividades na espaçonave. Sua Excelência consideraria uma grande honra, se, meia hora após o retorno dos dois hóspedes, todos se encontrassem no salão, para o jantar.
Conforme a opinião de Chellich, esta aparente deferência tinha de significar alguma coisa. Não era nada cortês, deixar que oito pessoas esperassem com fome, só porque ele e Mullon estivessem ocupados na cidade. Iij-Juur-Eelie devia ter uma “surpresa”, pois desejava encontrar todos reunidos à mesa.
Como logo se constatou, eram dois os motivos. Primeiro, Sua Excelência exortou os hóspedes que, em seu esforço para conhecerem Heeninniy, não se detivessem apenas na capital.
— O país inteiro está à vossa disposição — assegurou com ênfase. — Entrego-lhes um dos meus aparelhos particulares para o momento em que quiserem conhecer todo o planeta. Aconselho mesmo um vôo através de todo o nosso mundo.
Em seguida passou a falar das maravilhas de seu país, que na sua opinião deviam ser visitadas, sem querer, contudo, influir na livre escolha de seus hóspedes.
Chellich acreditava já estar a par do motivo daquele convite. Tinha quase certeza de que Sua Excelência queria a todo custo conhecer os segredos da Fair Lady e, principalmente, o sistema de propulsão das turbinas e sua técnica. Num vôo em volta do planeta, forçaria um acidente, obrigando os hóspedes a se ausentarem da capital e de sua espaçonave, por mais dias.
Chellich estava meio indiferente quanto a esta proposta. Não queria dizer sim, antes de consultar um dos “guerrilheiros”, isto é, um de seus novos amigos do serviço secreto, sobre que tipos de preparativos estavam fazendo para o tal “acidente”.
O segundo motivo pelo qual queria ter todos reunidos à mesa era o seguinte:
— Para os meus irmãos de raça, a aparição repentina e inesperada de vocês produziu naturalmente um choque. Vocês devem compreender: Uma raça vive milênios sozinha em seu mundo, sem suspeitar da existência de outras raças inteligentes. Um dia, quando esta raça isolada chega ao ponto de pretender conquistar o espaço, desce em seu solo uma nave estranha. A técnica desta nave recém-chegada é naturalmente de uma raça mais adiantada. Os estrangeiros desta nave superior se comportam como se viagens de centenas de anos-luz fossem coisa rotineira para eles, enquanto que para a raça isolada uma viagem de alguns milhões de quilômetros já é uma grande aventura. Os senhores podem, então, imaginar a reação da raça isolada perante a visita. Sentem-se ludibriados em seus sonhos e esperanças. A psicologia poderá facilmente explicar que é mesmo necessário e natural que esta raça isolada crie então em seu íntimo uma espécie de ressentimento contra estes estrangeiros.
Com os grandes olhos ressaltados, como se quisesse registrar o grau de penetração de suas sábias palavras, Sua Excelência percorreu sua seleta audiência.
— Vossa Excelência tenciona dizer que ressentimentos de repulsa se desenvolvem contra nós? — perguntou Chellich.
Iij-Juur-Eelie fez um gesto:
— Sim. E realmente lamento ter de lhes dizer isto. Mas é voz geral do povo que os senhores vieram para cá com o único intuito de obterem informações e assim prepararem uma futura invasão de nosso planeta.
— O que, naturalmente, como Vossa Excelência bem o sabe, é completamente falso — retrucou Chellich.
Sua Excelência, melosamente, não poupou palavras para explicar a seus queridos hóspedes que ele não compartilhava dos boatos completamente sem base e mesmo nocivos ao sentimento de hospitalidade e mais ainda, os condenava.
— Provavelmente, estes boatos são espalhados por aí pela oposição. Mas, seja quem for o responsável, os senhores compreendem agora que prestariam um grande serviço à política interna do país, se, atendendo a meu convite e sugestão, se afastassem por uns dias da capital, a fim de conhecerem também outros pontos agradáveis.
Até que enfim, os gatos saíram do saco, isto é, as cartas estavam na mesa”, pensou Chellich admirado pelo fato de que o anfitrião falasse tão abertamente da oposição hostil do povo.
Seria bem mais diplomático não mencionar estas coisas. Suas palavras haveriam de produzir um mal-estar nos terranos e lhes seria difícil, com meios próprios, averiguar se esta animosidade contra eles existia de fato, ou era um cavalo de Tróia de Sua Excelência. Mas, de qualquer maneira, estava evidente que Iij-Juur-Eelie se utilizava destas circunstâncias para dar alguma lógica a seu plano, isto é, afastar os hóspedes bem para longe de sua espaçonave.
— Considerando os fatores alegados por Sua Excelência — começou Chellich — seria talvez melhor mesmo aceitarmos a sugestão. Vamos pensar a respeito e amanhã de manhã dar-lhe-emos uma resposta. Antes de tudo, porém, queremos agradecer as gentilezas. Posso, para finalizar, lhe fazer ainda uma pergunta?
— Naturalmente, por favor!
— Como foi que se constatou que, entre o povo, há ressentimento contra nós?
— Nossos homens encontraram, em vários pontos da cidade, cartazes confeccionados à mão, onde se dizia: “Atenção! Os estrangeiros planejam dominar Heeninniy.

* * *

Na mesma noite, Sheldrake e Krahl, partindo da Fair Lady, se dirigiram para a parte central do espaçoporto, a fim de darem mais um motivo para aumentar a desconfiança dos peepsies.
Deixaram a nave terrana sem serem percebidos e caminharam um quilômetro rumo ao centro do campo de pouso. Cavaram um buraco no chão, que não tinha mais de meio metro de profundidade. Acreditavam que o buraco estava mais ou menos no meio do aeroporto. Uma caixa de plástico, do formato de uma maleta de mão, foi ali colocada e coberta de terra. O local foi bem pisoteado para não deixar nenhum vestígio.

* * *

Nesta mesma noite, se deu mais um fato importante. Fij-Gul, o assistente de Wee-Nii, que, na noite anterior, fizera mais uma visita clandestina à Fair Lady, começou a alimentar uma terrível suspeita. Devia ser alguma coisa com relação aos estrangeiros...
Alguma coisa neles, ou em suas afirmações, não estava combinando bem. Mas, o que seria?
Depois de ter refletido muito a respeito, levantou-se no meio da noite e dirigiu-se ao Arquivo da Força Aérea, localizado numa torre no setor sul da cidade. Encontravam-se também neste arquivo os poucos relatórios do capitão do primeiro vôo para Weelie-Wee. Anexado a estes relatórios, lá estava também um translador, onde se havia registrado a língua dos primitivos colonizadores de Weelie-Wee.
Havia ainda um outro translador, com o registro da língua dos estrangeiros que no momento eram hóspedes de Sua Excelência. Fij-Gul, que, como oficial do estado-maior, tinha livre acesso ao arquivo e às suas instalações armou os dois transladores em seu escritório, arranjou papel e um lápis e começou seus estudos lingüísticos.
Inicialmente pronunciou algumas frases simples nos transladores e procurou ouvir os sons na língua estrangeira. Constatou assim que não havia nenhuma semelhança fonética entre as duas. Isto não o deixou muito satisfeito, pois fora ao arquivo com a convicção de que iria fazer uma descoberta sensacional.
Começou então a pronunciar palavras soltas, comparando a tradução de cada uma, na convicção de que descobriria uma semelhança, mais facilmente nas palavras do que nas frases.
Mas mesmo com este método, parecia não conseguir nada. Até que pronunciou a palavra “povo”, para ser traduzida nos dois transladores. Recebeu então de um aparelho uma sucessão de fonemas, soando mais ou menos com “piipl” e do outro com o som de “pöpl”. Não restava dúvida quanto à semelhança entre as duas palavras.
E Fij-Gul ficou sabendo, de repente, o que o havia feito errar. Não devia comparar meramente os sons entre si, mas a estrutura morfológica das palavras, ou seja, os sons consonantais. A palavra “povo” tinha em ambas as línguas as consoantes p e pl. A única coisa que variava era a vogal entre elas.
Entusiasmado com sua descoberta, Fij-Gul experimentou a palavra “população”, provando mais uma vez a veracidade de sua pesquisa. Julgando-se meramente o som, as palavras nada tinham em comum. Mas uma delas tinha as consoantes, ou os fonemas /p/, /pl/ e /ss/, além de um timbre nasal no fim, enquanto a outra língua apresentava /p/, /pj/, /Ish/ e um índice de nasalização final.
Muito estimulado, Fij-Gul continuou pesquisando e mesmo que as semelhanças não fossem tantas, encontrou, no decorrer da noite, pelo menos vinte palavras que entre as duas línguas tinham estrutura consonantal semelhantes.
A empolgação chegou a tal ponto que queria, naquelas horas da madrugada, se dirigir à casa do Almirante Wee-Nii, para lhe falar de suas descobertas lingüísticas.
Antes de fazê-lo, porém, se pôs a pensar o que o almirante iria dizer de tudo aquilo. Chegou então a concluir que a sua descoberta não era suficiente para incriminar os estrangeiros. Desvendara, com grande esforço, que vinte palavras com a mesma significação nas duas línguas tinham a mesma seqüência de fonemas consonantais. Isto talvez não fosse suficiente para afirmar que as duas línguas eram da mesma família.
E mesmo que ele, ou um filólogo pudesse comprovar uma origem comum, que adiantaria isto? Nada.
Os primitivos colonizadores de Weelie-Wee podiam muito bem, há séculos atrás, ido a Aurigel, e terem-se radicado ali. Nem por isso tinha de haver necessariamente uma ligação entre Weelie-Wee e Aurigel. Podia mesmo ser que os colonos nem soubessem da existência dos estrangeiros.

Positivamente, não havia nenhum motivo de despertar Wee-Nii antes do nascer do sol. Meio desiludido, Fij-Gul voltou para sua residência e procurou descontar um pouco o sono perdido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html