sábado, 7 de setembro de 2013

P-074 - O pavor - William Voltz [parte 1]

Autor
WILLIAN VOLTZ



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN






Um fantasma parece ter embarcado na nave K-262...



Perry Rhodan quer saber se seu velho adversário e pretenso aliado, o computador-regente de Árcon, criou bases secretas ou colocou agentes em outros planetas. Para cumprir tal projeto, o administrador do Império Solar envia várias expedições de investigação pela Galáxia.
Durante as expedições, uma com destino a Epan passa por momentos de pavor inimaginável...






= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

Coronel Marcus EversonComandante da K-262.

Walt ScoobeyImediato da K-262.

GoldsteinUm jovem telepata que realiza sua primeira ação no planeta Epan.

MataalUm gladiador de Epan.

Cadete RamirezA primeira vítima do pavor invisível.






1



O cheiro de suor, sangue, sujeira, animais e terra úmida revolvida; uma massa de espectadores formada por pequenos funcionários, grandes dignitários, mercadores, contrabandistas, operários, soldados e nobres; o rugido da luta, o tinir das armas, os gritos dos animais feridos, as exclamações exaltadas do público... Era este o “espetáculo” na arena de Rapmaag.
Sob o disfarce de um epanense e se parecendo com uma estátua de anão de “tamanho descomunal”, Walt Scoobey tocou no braço de Marcus Everson.
— Como vamos localizar nosso contato em meio a esta multidão? — perguntou.
Deixou os olhos rondar sobre o círculo da arena, cuja massa ondulante oferecia um quadro bastante colorido. Havia poucos lugares vagos.
O Coronel Marcus Everson, um homem de um metro e noventa, que no seu disfarce não apresentava um aspecto muito melhor que o de seu companheiro, olhou cautelosamente em torno.
— Ele entrará em contato conosco — respondeu. — Será conveniente falar em voz baixa. Em hipótese alguma devemos chamar a atenção de quem quer que seja. Tomara que Goldstein não se esqueça disso.
Um toque de fanfarra impediu-o de prosseguir em suas explicações. Os jogos iriam começar. Seis robustos soldados arrastaram uma jaula para dentro da área principal do estádio. Na jaula via-se um animal parecido com um sáurio.
— Será que realmente haverá um idiota que se disponha a lutar contra esse monstro? — perguntou Scoobey em tom incrédulo.
Sua voz foi sufocada pelo uivo da multidão.
Alguns ajudantes apareceram na pista de luta, a fim de desatrelar os animais de tração e levá-los para fora da arena.
Assim que todos se colocaram em segurança, alguém que se encontrava no limite da clareira abriu a jaula usando uma longa corda. O pescoço do monstro parecia uma cobra. O berreiro do povo ávido de sensação parecia deixá-lo perturbado.
Os guardas espetaram o monstro com longas varas. Conseguiram o que queriam. Cego de raiva, o monstro saiu da jaula. Nuvens de poeira vermelha levantaram-se. Sempre que o animal se aproximava da borda da arena, os espectadores das primeiras filas fugiam apavorados.
Uma porta abriu-se logo abaixo do camarote do rei. Um epanense, que quase chegava a ser do tamanho de Everson, entrou na arena, recebido por uma verdadeira onda de aplausos. Para os padrões epanenses era grande. Mantinha os olhos oblíquos semicerrados, a fim de proteger-se da poeira. As grandes orelhas salientes estavam cobertas pelo cabelo. O gladiador usava um colete de couro. Na mão direita, segurava uma espada de lâmina larga.
— Será que pretende enfrentar o monstro com esse palito? — perguntou Scoobey fora de si. — Isso é suicídio!
Everson completou sem a menor comoção:
— E bastante lamentável, Walt. Aquele sujeito maluco é nosso contato. Nos levará para junto de Goldstein.
Scoobey ficou nervoso. Sua mão apalpou um lugar embaixo da larga capa colorida, que substituía o uniforme espacial do Império Solar. Com um gesto rápido, Everson segurou seu braço.
— Guarde a arma! — ordenou. — Seu disparo pode nos denunciar!
Scoobey voltou a tirar a mão de baixo das vestes.
— Tem certeza de que o homem que vai arriscar a vida lá embaixo é nosso contato?
Everson acenou resolutamente com a cabeça.
— Está vendo o cinto dele? Nele foram bordadas algumas meias-luas. Meia-lua na arena, é esta a indicação que nos foi dada.
O gladiador epanense cumprimentou o rei. Colocou-se no centro da arena, esperando que o gigantesco inimigo o avistasse. Na parte visível de seu corpo havia numerosas cicatrizes.
Um grito prolongado de desafio saiu da boca do lutador. Os olhos pequenos e estúpidos do animal fitaram-no. O pescoço de cobra virou-se abruptamente. Com a cabeça estendida para a frente, o monstro precipitou-se sobre o homem solitário. Toneladas de carne e músculo fizeram o chão estremecer. Quando a fera partiu para o epanense, ameaçando derrubá-lo, um grito de pavor soou na tribuna.
O homem desviou-se com um salto fantástico. O animal passou por ele, pois não conseguiu controlar imediatamente o impulso daquela enorme massa. O epanense levantou-se no mesmo instante. O inimigo veio parar junto ao muro que limitava a arena, a fim de iniciar outro ataque. O epanense, que lutava pela vida, correu em direção ao muro.
Everson ouviu Scoobey gemer baixinho. Com o corpo inclinado para a frente, o oficial mantinha a cabeça apoiada em ambas as mãos.
— Você não acha que isso é uma coisa desumana? — disse Scoobey.
— Tudo é feito espontaneamente — objetou Everson. — Ninguém é obrigado a lutar contra vontade. Um gladiador ganha mais que um ministro. Provavelmente também gozam de maior popularidade. E, para isso, arriscam o maior valor que possuem: a vida.
— Goldstein já deveria ter entrado em contato conosco — disse Scoobey com a voz impaciente. — Está usando a mesma máscara que nós. Muitas vezes não consigo compreender esses mutantes.
Everson sorriu. Conhecia a mentalidade de Scoobey. Se ninguém o tranqüilizasse, o oficial seria como uma banana de dinamite que ameaçasse explodir a qualquer momento.
— Goldstein ainda é jovem. Esta é sua primeira missão. Além disso, os telepatas costumam ser sensíveis e prudentes. Olhe!
O grito de Everson fora causado pela cena que se desenrolava na arena. Seu contato achava-se de costas contra o muro, com o corpo ligeiramente abaixado. Mantinha a espada um tanto erguida, e fitava tranqüilamente o monstro que se aproximava. A fera investiu cegamente contra a pequena criatura que se atrevia a enfrentá-lo. O epanense colocou-se na proteção do ângulo morto formado pelo muro. E dali desferiu o primeiro golpe. Atacando obliquamente e de baixo para cima, atingiu o pescoço do animal.
Louco de susto e de dor, o monstro esbarrou na parede de barro. O grito estridente dos espectadores encheu o estádio. Everson perguntou a si mesmo por que os lugares mais caros eram justamente os das fileiras de baixo, se estes tornavam-se os mais perigosos.
O epanense, um homem frio e audacioso, contornou o gigantesco animal. Esquivou-se habilmente às chicotadas desferidas pela cauda. O animal perdeu-o de vista. Nuvens de poeira vermelha subiam da arena. O revestimento amarelo do camarote real assumiu uma tonalidade escura. A multidão voltou a gritar. Everson confessou a contragosto que, embora a luta apelasse para os instintos mais animalescos, nela havia algo de excitante.
O gladiador lutava com resolução e prudência. Aproveitava-se habilmente da lerdeza do monstro. Suas armas eram a inteligência e alguns feixes de nervos de aço. A espada que trazia na mão era apenas o instrumento de execução.
— Está conseguindo! — exclamou Scoobey em tom exaltado. — Por todos os planetas! Ninguém acreditará nesta história. Todo mundo me chamará de mentiroso.
Everson lançou-lhe um olhar triste.
Teve de esforçar-se para não dizer que Scoobey contava histórias muito mais incríveis aos cadetes da Academia Espacial, com o rosto mais sério deste mundo.
O duelo aproximava-se do fim. Os movimentos do monstro ficavam cada vez mais lentos. Sangrava em muitos lugares. O epanense continuava a mover-se com a precisão de uma máquina. Everson teve a impressão de que o fim da luta tornava-se um espetáculo degradante; sentiu-se enojado.
Finalmente o gigantesco animal caiu na poeira, e seu sangue deu uma coloração escura ao solo. O vencedor, radiante, colocou-se diante do camarote real, ergueu o braço a título de cumprimento. O rei levantou-se. Era uma pequena figura arredondada, de braços curtos e movimentos apressados. Aplausos frenéticos envolveram o vencedor.
Everson sentiu um gosto desagradável na boca. Centenas de epanenses tomaram a arena de assalto. O gladiador foi carregado nos ombros pela multidão delirante.
— Acabou — disse Scoobey. — O que vamos fazer?
— Será difícil entrar em contato com ele — admitiu Everson. — Os fãs não o largarão tão cedo. Acho que foi a atração principal do espetáculo de hoje. Vamos dar uma olhada nas proximidades do lugar em que está o rei.
— Por quê? — perguntou Scoobey. Rugas de impaciência surgiram em sua testa. — Quer oferecer uma ovação àquele gorducho?
Everson lançou um olhar para o camarote real. Todas as “eminências” se haviam levantado. A maior parte dos homens, que rodeavam o rei, era muito mais alta que ele. Everson perguntou a si mesmo o que diria o homem mais poderoso de Epan se soubesse da presença de três homens vindos de um planeta situado a mais de dez mil anos-luz. Que pensamentos lhe viriam à cabeça se visse a nave girino pousada nas proximidades da cidade, numa área deserta?
— Coloque-se no lugar do agente de uma potência estrangeira — disse Everson em resposta à pergunta do companheiro. — Onde procuraria ficar?
— É claro que o senhor tem razão — concordou Scoobey. — Alguém que queira tomar pé neste planeta não irá relacionar-se com o simples homem de rua. Goldstein já teve tempo de sobra para descobrir se por aqui já surgiram agentes de alguma raça estranha de astronautas.
Everson ergueu-se lentamente. Mesmo sob o disfarce epanense, sua figura era imponente. As grandes conquistas dos arcônidas na área da biologia e os extraordinários produtos farmacêuticos faziam com que esse homem de oitenta e cinco anos parecesse um robusto cinqüentão. O coronel tinha chance de atingir a idade de cento e quarenta anos.
— Bem, vamos tentar a sorte — decidiu Everson.
Abriu caminho em direção à saída. Um pequeno epanense de corpo ressequido interpôs-se em seu caminho.
— Querem ir embora logo depois da luta de Mataal? — perguntou. Sua voz parecia de pássaro, e nela havia um tom odiento.
Everson, que realizara um hipnotreinamento do dialeto epanense, tal qual Goldstein e Scoobey, respondeu em tom amável:
— Ficamos entusiasmados com a coragem de Mataal. Nossa terra fica ao norte, nas proximidades de Aplaag. Mas as arenas de lá não oferecem nada que se compare aos espetáculos daqui. Esse Mataal é formidável.
Um sorriso esboçou-se no rosto flácido do epanense. Em seus olhos, via-se um brilho orgulhoso. Everson inclinou a cabeça para o homenzinho e colocou algumas moedas em seu bolso.
— Temos de voltar logo para Aplaag, amigo. Mas gostaríamos de cumprimentar Mataal. Acho que o senhor nos poderá ajudar.
O homem lançou-lhe um olhar astuto e sacudiu a cabeça.
— Não posso sair daqui — disse em tom triste. — Preciso controlar os ingressos. Se abandonar meu posto, perderei o emprego.
Era um homem que mandava numa pequenina área, por isso sentia-se orgulhoso e importante. Num gesto significativo, bateu no bolso em que Everson colocara as moedas. O coronel colocou mais algumas.
— Tenho uma idéia — disse o homenzinho imediatamente. — Volte à arena. A entrada das salas dos gladiadores fica pouco antes da escadaria destinada ao público. Quem está vigiando essa entrada é Orgabaas, um amigo de minha esposa.
Scoobey deu uma cutucada em Everson e sorriu.
— Deixe isso para lá! — disse o coronel em tom indignado.
— Orgabaas os ajudará — prometeu o epanense. — Naturalmente... — voltou a bater no bolso.
Everson agradeceu e arrastou Scoobey. Voltaram pelo caminho já percorrido e encontraram a entrada que lhes fora indicada. Um velho epanense de pernas tortas e pele muito amarela fechou-lhes o caminho.
— Aonde pensam que vão? — perguntou em tom áspero.
Sem dizer uma palavra, Everson deixou cair algumas moedas nas mãos do homem. A expressão indignada de seu rosto desapareceu.
— Metade da Galáxia é subornável — constatou Scoobey em tom amargurado.
Mais uma vez, Everson tomou a palavra:
— Queremos falar com Mataal. Somos de Aplaag e gostaríamos de travar conhecimento com o grande lutador.
Sem dizer uma palavra, Orgabaas apontou para uma porta. Everson mandou que seu imediato esperasse e entrou sem bater. Sentiu-se envolvido por um cheiro acre de tinta fresca. A sala estava repleta de epanenses. Mataal achava-se em meio àquela multidão. Todos falavam ao mesmo tempo. Everson afastou um grupo de jovens epanenses para penetrar na sala.
Subitamente viu Mataal. O gladiador estava deitado numa esteira azul. Tirara o colete de couro. Tinha os olhos fechados. Em torno dele, os fanáticos estavam de pé, agachados, deitados ou ajoelhados e gesticulavam que nem uns loucos.
Everson fez uso de seus fortes braços para avançar até a esteira. Com um sorriso amável, inclinou-se sobre Mataal.
— Meia-lua na arena — cochichou ao ouvido do epanense.
Mataal abriu os olhos oblíquos. Eram negros e imperscrutáveis. Everson teve a impressão de que sua imagem se refletiria nesses olhos, desde que se aproximasse bastante. Enfrentou o olhar indagador. As vozes tornaram-se mais fortes. Todos acharam que era chegado o momento em que poderiam importunar o lutador com seus desejos ou perguntas. Mas...
— Meus amigos — disse Mataal com uma voz que, embora fosse suave, penetrava em todos os cantos da sala. — Façam o favor de retirar-se.
Everson ficou espantado ao ver que a sala se esvaziou num instante. Depois que o último dos fãs havia desaparecido, Mataal disse:
— São como crianças. Não acha?
Sua voz era agradável e revelava um elevado grau de cultura. Esse homem deveria ter possibilidade de ganhar dinheiro sem arriscar a vida.
Everson não estava disposto a envolver-se numa discussão sobre os fãs de Mataal.
— Onde está Goldstein? — perguntou em tom lacônico.
Mataal colocou as mãos sobre os ombros do coronel. Everson sentiu a força inacreditável daqueles braços.
— Eu o levarei para junto dele — disse o epanense em tom solícito. — Acontece que o senhor nem imagina em que estado se encontra o rapaz.
Essas palavras guardavam um significado funesto, que deixou Everson apavorado.
— Está doente? — perguntou com a voz embargada.
— Devo confessar que não sei — respondeu Mataal. — Acho que está mudado, mas ele não fala sobre o que lhe aconteceu. Depois de sua chegada, muitas vezes desapareceu por vários dias. Não sei qual é a tarefa que o senhor lhe confiou, mas há alguns dias, quando voltou, parecia bastante perturbado. Está quieto e indiferente. Nestes últimos dias, não saiu mais de minha casa.
Everson refletiu intensamente.
O que poderia ter acontecido com o jovem mutante? Teria entrado em contato com agentes de outras potências?
— Goldstein disse alguma coisa que leve a concluir que seu estranho comportamento tem algo a ver com uma terceira pessoa?
— Ele não fala sobre isso — repetiu Mataal. — O senhor verá com seus próprios olhos. Garanto-lhe que nada falta a seu amigo, e que está gozando de todas as regalias de hóspede — depois de ligeira pausa, acrescentou: — Se desejar, podemos ir agora.
Everson fez um gesto afirmativo, e Mataal passou por ele, dirigindo-se à porta. Assim que abriu-a, Walt Scoobey entrou.
— Olá! — disse, olhando Mataal de lado. — Um verdadeiro exército passou por aqui. Será que toda aquela gente estava lá dentro?
— Walt — disse Everson a meia voz, deixando de lado a língua epanense. — Este homem acaba de contar que alguma coisa não está em ordem com Goldstein. Pelo que diz, o mutante parece bastante mudado.
Scoobey cocou as orelhas artificialmente aumentadas. Para demonstrar a admiração que sentiam por Mataal, os espectadores acorriam de todos os lados. Com a ajuda de Orgabaas, o lutador conseguiu abrir caminho. Saíram juntos da arena e Mataal levou-os à cidade.
As construções pelas quais passavam, feitas de barro, madeira ou pedra bruta, eram mais ou menos suntuosas, segundo as posses dos donos. O meio de transporte consistia em carros ovais puxados por animais semelhantes a cavalos. Muitas vezes, Mataal recebia cumprimentos respeitosos.
Caminhavam lado a lado sem dizer uma palavra.
Mataal parou diante de uma casa que se distinguia pelo tamanho descomunal.
— É aqui que eu moro — disse em tom orgulhoso.
Caminhou à frente dos outros. Alguns criados com vestes coloridas abriram as portas. Mataal sorria.
— É o sinal do êxito do lutador — disse. — Não preciso de cartaz de propaganda.
Foram ao pátio interno e entraram num aposento decorado com muito bom gosto.
Mataal olhou para Everson e depois para Scoobey.
— Aceitam um refresco?
— Queremos ver Goldstein — disse Everson em tom impaciente.
Com um sorriso condescendente, Mataal levou-os a um pequeno aposento, muito limpo, no qual havia uma cama baixa de madeira onde um jovem estava deitado. Tinha os olhos muito abertos.
Quando eles entraram, não se moveu. Não fez absolutamente nada.
Era Goldstein.
Na porta, Mataal disse com a voz baixa:
— É claro que não é nenhum epanense; os senhores também não são.




2



O jovem mutante jazia à frente de Everson. Parecia abobalhado. Os lóbulos das orelhas artificiais estavam exageradamente afastados da cabeça. A pele amarela estava desbotando. Talvez Goldstein não se preocupara com o fato de que a cor natural de sua pele voltara a aparecer. A peruca estava reduzida a alguns feixes de fios vermelhos.
Essas impressões deixaram Everson tão abalado que só compreendeu todo o alcance das palavras de Mataal, quando Scoobey olhou para Goldstein e praguejou baixinho. Os nervos estomacais de Everson contraíram-se.
Quem era esse Mataal que, segundo parecia, não tinha a menor dificuldade em resolver qualquer enigma ou problema? Será que também era um telepata? Por acaso disporia de forças paranormais, que lhe permitiam enfrentar os gigantescos animais na arena?
— Mais alguém sabe disso? — perguntou Everson em tom contrariado.
Mataal fez um gesto negativo com as mãos.
— Não sou nenhum tagarela. Além de mim, ninguém sabe.
Everson percebeu que só lhe restava uma possibilidade. Mataal conhecia sua identidade. Se quisessem evitar que a espalhasse, teriam de levá-lo à nave girino. Mais do que isso, Mataal teria de acompanhá-los à Terra. Sua descoberta representava um perigo enorme. Se caísse nas mãos de algum agente de uma potência galáctica, levaria apenas alguns segundos para contar tudo. Mas Perry Rhodan fazia questão absoluta de que as missões dos agentes do Império Solar fossem mantidas em segredo...
— Mataal — principiou Everson em tom tranqüilo — preciso explicar-lhe uma porção de coisas. Acontece que o senhor não me compreenderia. Seu horizonte, visto sob um ângulo relativista, é tão restrito que não seria capaz de assimilar tudo. Viemos de outro sistema solar, situado nos confins da Galáxia. Posso garantir que os objetivos de nossa missão são justos.
— Conheço Goldstein — disse Mataal. — E agora já conheço os senhores. Isso me basta. Confio nos senhores.
Everson voltou a olhar para o mutante.
— Parece morto — observou Scoobey em tom preocupado.
O coronel sentiu uma onda de compaixão apossar-se de sua mente. Admirava esses homens que, a muitos anos-luz de seu mundo, defendiam uma posição ímpar, a fim de cumprir uma missão que visava à existência e ao desenvolvimento de todas as raças.
Everson foi ao outro lado da cama, para que o rapaz pudesse vê-lo. Os olhos do mutante pareciam fitar alguma coisa situada a grande distância.
— Goldstein! — exclamou o coronel. — Aqui fala Marcus Everson. Walt Scoobey está a meu lado. O senhor nos reconhece?
— Reconheço — respondeu o telepata com a voz débil.
Por alguns segundos, seus olhos retornaram à realidade daquela sala. Parecia um boneco ao qual se precisava dar corda para despertá-lo para a vida. Havia alguma coisa no mutante que dava a Everson a certeza de que não se sentia muito entusiasmado com a chegada deles. Em sua postura havia um protesto mudo, uma rejeição sensível, não expressa em palavras.
O Goldstein que estava deitado ali era outro Goldstein, um Goldstein completamente mudado.
Everson perguntou:
— O que houve?
— Nada — respondeu o mutante em voz baixa. — Realmente não houve nada.
Everson lançou um olhar rápido para Mataal. O epanense mantinha-se a seu lado numa atitude quase indiferente; fitava Goldstein. Seus olhos escuros estavam semicerrados. O silêncio naquele quarto era tamanho que Everson ouvia a respiração dos outros. Talvez Goldstein estivesse com medo de falar enquanto Mataal se encontrasse no quarto.
— O senhor se importaria de deixar-nos a sós por um instante? — pediu o coronel.
Sem dizer uma palavra, o gladiador saiu. Assim que se encontrava do lado de fora, Everson ouviu que chamou um criado. Mas, naquele instante, não tinha tempo para refletir sobre as intenções do epanense.
— Então? — perguntou. — Já está disposto a falar?
— Tudo bem — asseverou Goldstein, fazendo um esforço tremendo para dar um tom enérgico. — Não encontrei o menor indício de que neste planeta existam membros de outra raça de astronautas. Em Epan, não existe qualquer agente estrangeiro. Com algumas raras exceções, os nativos são inofensivos e decadentes. Acho que nunca conseguirão desenvolver uma tecnologia avançada. Podemos voltar tranqüilamente à Terra.
— O senhor contou a Mataal que não somos epanenses? — interveio Scoobey.
— Mataal é muito inteligente. Além disso, está farejando um negócio.
É uma resposta pouco precisa para uma pergunta direta”, pensou Everson. Em voz alta perguntou:
— Por que está tão apático? Sente-se doente?
— Não — respondeu Goldstein em tom áspero. — Não estou doente. Quem foi que lhe disse que estou?
Estava pálido e magro, e falou como uma pessoa debilitada por uma enfermidade prolongada. Teve dificuldade em articular as palavras.
— Não sei o que é. Deve ser as condições climáticas.
Everson sabia que em Epan o verão e o inverno se sucediam com uma rapidez enorme.
Mas será que isso poderia ser motivo da modificação havida com Goldstein?
A expressão de perplexidade surgida no rosto de Scoobey provava que este também não sabia o que pensar. Pouco importava o que acontecera ao rapaz em Epan; de qualquer maneira, teria de ser levado de volta à Terra o mais rápido possível. Os especialistas de Terrânia logo descobririam o que havia com ele.
O instinto seguro da desgraça próxima, que Everson adquirira nos longos anos de serviço, fez-se ouvir em sua mente. O mutante teria de ser retirado desse ambiente.
— Mataal! — gritou em tom enérgico.
Everson impressionou-se com a tranqüilidade e autoconfiança que o epanense demonstrou ao voltar. Lamentou-se de não possuir dons telepáticos que lhe permitissem penetrar nos pensamentos daquele homem.
— Levaremos Goldstein à nossa espaçonave — disse Everson. — Vamos voltar ao nosso mundo.
Um brilho frio surgiu nos olhos oblíquos. Everson sentiu-se como se fosse o animal estúpido da arena, que ficou entregue à arma desse indivíduo frio.
— Eu os levarei para fora da cidade — disse o epanense em tom cortês.
Everson fez um esforço.
— O senhor irá um pouco mais longe — disse em tom frio. — Terá de acompanhar-nos à Terra.
A risada de Mataal parecia despreocupada. Limitou-se a dizer uma única palavra:
— Não!
— Vire-se! — gritou Everson.
Mataal viu que Scoobey estava atrás dele. O oficial apontava-lhe o paralisador.
— Temos duas possibilidades — principiou Everson. — Podemos paralisá-lo com esta arma, ou então podemos matá-lo. Nunca se esqueça de que não recuaremos diante de nada. Nosso povo está envolvido num jogo cósmico no qual um pequeno erro poderá acarretar sua destruição. A missão é tão importante que não podemos ter consideração pela vida de qualquer indivíduo. Procure compreender depressa.
No íntimo, Everson não pôde deixar de admirar aquele ser estranho. A tranqüilidade com que recebeu aquelas palavras só encontrava par na calma demonstrada durante a luta na arena.
— O senhor já mostrou seus trunfos — disse Mataal e fez um gesto em direção a Walt Scoobey. — Agora é minha vez. É claro que poderão matar-me, mas nesse caso não sairão vivos desta casa. Quando o senhor me pediu que saísse para conversar à vontade com Goldstein, avisei meus criados de que, haja o que houver, acompanharei meus hóspedes para fora da casa. O senhor compreende? Se o senhor me paralisar com essa arma, terá de enfrentar outro problema. Como poderia levar o corpo imóvel do homem mais popular da cidade, desculpe a imodéstia, até a nave espacial? E se não me matar ou imobilizar, terão de contar com a possibilidade de que eu informe à primeira pessoa com que me encontre quem é o senhor e que estou sendo obrigado a acompanhá-lo.”
Sorriu. Sua segurança era assombrosa. Prosseguiu num tom irônico:
— E tem mais: para os senhores, é preferível que ninguém os reconheça. Se usarem essa arma, provocarão suspeitas. A arma mais moderna por aqui é a besta.
A inteligência refinada daquele homem, a segurança com que sabia avaliar a situação, e a lógica com que tirava as conclusões, poderiam conduzir ao fracasso da missão. Um bárbaro primitivo, sob os padrões da Terra, causava-lhes problemas!
— Muito bem — interveio Scoobey — assumiremos o risco.
Encostou o paralisador às costas de Mataal.
— O senhor irá à nossa frente. Nós lhe indicaremos o caminho. Se der um pio, farei uso da arma. Diremos aos homens com que nos encontrarmos que somos seus amigos. Afirmaremos que a luta na arena o deixou tão exausto que acabou desmaiando. Somos seus amigos e estamos levando-o a um médico conhecido, que se encontra na cidade conosco. Então, Mataal, vamos?
O epanense caminhou em direção à porta sem oferecer a menor resistência. Scoobey seguiu-o. Havia uma expressão resoluta em seu rosto. Everson olhou para Goldstein, que permaneceu imóvel na cama.
— Vamos, homem! — gritou o coronel. — Mexa-se!
Goldstein desceu apaticamente do leito. Seu aspecto era amedrontador. Os olhos estavam afundados nas órbitas, e mal conseguia manter-se de pé.
— Procure controlar-se! — disse Everson em tom áspero.
Logo se arrependeu dessas palavras. Tinha certeza de que Goldstein estava fazendo o possível.
Quando saíram do quarto, um dos criados se encontrava junto à porta. A expressão de seu rosto não anunciava qualquer perigo. Apesar disso, Everson suspirou aliviado quando deixaram a casa.

* * *

Mataal andava dois metros à frente de Goldstein e Scoobey. Everson mantinha-se ligeiramente ao lado. Um veículo aproximou-se deles. O epanense sentado na carroça oval estalou a língua e bateu com o chicote para fazer o animal andar mais depressa. No momento em que a carroça se encontrava ao lado de Mataal, o gladiador soltou um grito rouco e, com um salto desesperado, saltou na direção do veículo.
A carroça parou.
Everson ouviu Scoobey praguejar. Contornou e subiu na “charrete”, para deixar Mataal no ângulo de tiro do oficial. O carroceiro levantou-se e bateu com o chicote. Atingiu Everson nas costas. A força do golpe derrubou o coronel.
Mataal conseguiu entrar na carroça. Scoobey, que não podia arriscar-se a atirar, já que poderia atingir Everson, saltou atrás dele. Mais uma vez, o carroceiro fez uso do chicote. Era um homem pequeno e robusto, que lutava com uma obstinação silenciosa. A cada vez que brandia o chicote, seus lábios abriam-se, mostrando duas fileiras de cacos de dentes escuros.
Scoobey desviou-se das chicotadas e abraçou as pernas do lutador.
Everson levantou-se gemendo. Suas costas ardiam. Puxou para trás o braço levantado do carroceiro. O homem perdeu o equilíbrio e caiu ao chão juntamente com Everson. A poeira levantou-se e ardeu nos olhos de Everson. Este rezou aos céus para que não aparecessem outros epanenses. Seu adversário era pequeno e ágil.
— Rápido, coronel! — disse a voz ofegante de Scoobey. — O sujeito vai fugir.
Mataal agora apertava o pequeno oficial contra o parapeito da carroça e tentava atirá-lo para fora.
Everson desferiu um tremendo golpe em seu adversário, colocando-o fora de ação. Depois atirou-se sobre Mataal, que se dispunha a pegar as rédeas e tanger o animal. O epanense empurrou-o violentamente para trás. Everson bateu com a cabeça em algum lugar da carroça. Viu Scoobey ajoelhado com o paralisador na mão. Círculos vermelhos dançavam à frente de seus olhos. Sentiu o corpo inundado pelas dores.
— O animal, Walt! — gritou com grande esforço. — Atire contra o animal.
A carroça, que começava a movimentar-se, reduziu a velocidade. Scoobey, que ainda trazia a arma em punho, aproximou-se. Atingidos pelo paralisador, Mataal e o animal desmaiaram.
— Teremos de carregar Mataal — disse Everson, esfregando o crânio dolorido. — O carroceiro pode ficar deitado aqui. Levará algum tempo para recuperar os sentidos. E não saberá contar muita coisa.
Scoobey fez que sim. Em sua testa surgiram rugas de preocupação.
— O rapaz... — disse.
Everson olhou para trás. Goldstein continuava no mesmo lugar. Não interviera na luta.



3



O sussurro dos aparelhos eletrônicos transformou-se num forte zumbido. Everson abriu os olhos e procurou penetrar pela semi-escuridão.
Sabia que um ruído indefinível o despertara...
Perplexo, notou que, por sentir-se nervoso, seu coração palpitava fortemente. Sacudiu a cabeça e ligou a luz.
O minúsculo recinto apresentava certo conforto. E esperando que o nervosismo fosse cessar sob o efeito da luz, Everson sentiu-se decepcionado, pois continuou agitado. Vestiu-se e saiu do camarote. O girino identificado pelo prefixo K-262, que os tripulantes chamavam carinhosamente de Fauna, encontrava-se em queda livre.
Everson deixou que o corrimão da escada da sala de comando lhe passasse sob a mão. O nervosismo diminuiu um pouco. Grande parte dos quinze tripulantes encontrava-se nos camarotes. Antes da próxima transição, o quadro mudaria de supetão, pois todos teriam de estar a postos.
Scoobey, um telegrafista e o cadete Ramirez estavam na sala de comando.
— Olá, coronel! — exclamou Scoobey.
— Por que não está descansando?
A pergunta não deixava de ter sua justificativa, pois o imediato estava em condições de cuidar do serviço de rotina.
— Quero falar com Mataal e Goldstein — respondeu Everson. — Talvez o rapaz já esteja melhor.
Scoobey sorriu e esteve prestes a dar uma resposta, quando, no corredor que ficava abaixo deles, uma porta de camarote abriu-se violentamente.
Gerald Finney, um técnico esbelto, de cabelos negros, olhou-os com uma expressão de perplexidade. Everson inclinou-se sobre o corrimão.
— O que houve com o senhor, Finney?
Na testa do homem via-se uma pequena cicatriz, perfeitamente curada. Everson viu-a brilhar sob a forma dum triângulo branco.
— Não sei — gaguejou.
Evidentemente estava à procura de uma desculpa.
— Por que está andando por aí na sua hora de descanso? — perguntou Everson em tom áspero. — Diga logo!
— Fiquei com sede — respondeu o técnico apressadamente e engoliu em seco.
— Suba para cá! — ordenou o coronel.
Finney apressou-se em cumprir a ordem. Everson fitou-o atentamente. E então viu: Finney estava com medo!
— O que houve realmente?
Os olhos do homem procuravam um ponto que pudessem fitar sem provocar suspeitas. Everson notou que os lábios de Finney tremiam.
— Tive um pesadelo — disse Finney. — Não pense que foi a loucura espacial. Como sabe, já estou no cosmo há muito tempo. Foi mesmo um pesadelo.
— Com o que andou sonhando? — perguntou Everson em tom insistente. Seus pensamentos recuaram alguns minutos, até o momento em que sentira palpitações enquanto estava na cama.
— Foi um sonho muito infantil, coronel — disse o homem. — Tive a impressão... eh... de que havia alguém bem perto de mim.
O telegrafista deu uma risadinha.
— O senhor costuma ter esse tipo de alucinação? — perguntou Everson.
Finney sacudiu resolutamente a cabeça.
— Foi a primeira vez.
— Quero que o Dr. Morton o examine — disse Everson, concluindo a palestra. — Não deixe de me avisar se isso se repetir.
— Não estou doente — asseverou Finney. — Um sonho não é nenhuma doença! Por que tenho de falar com o Dr. Morton?
— Faça o que mandei — ordenou Everson. — Retire-se.
Finney saiu desolado. Everson seguiu-o com os olhos, até que Scoobey surgisse a seu lado.
— Não pense que sou um monstro que tem a mania de comandar — disse Everson, que leu a desaprovação no rosto de Scoobey.
— Não vou perguntar por que fez isso — disse o oficial em tom sério.
— Quer saber por que estou aqui em cima, Walt? Tive o mesmo sonho que deixou Finney tão agitado. Além disso, tive a impressão de ter ouvido um ruído. Um ruído estranho, que não combina com a gama de ruídos da nave.
Um sorriso embaraçado surgiu no rosto de Scoobey. O coronel não era homem de correr atrás de fantasmas. Sua experiência espacial, aliada às suas qualidades humanas e à audácia, fizeram com que, nos seus longos anos de serviço, se transformasse num modelo para os cadetes de Terrânia.
Apesar disso, Scoobey estava convencido de que Everson não avaliava corretamente a situação em que se encontravam. Se duas pessoas sonhavam simultaneamente com a mesma coisa, isso só poderia ser obra do acaso.
Everson acordara poucos instantes antes de Finney. Apavorado, Scoobey olhou para baixo.
O camarote de Finney ficava bem mais perto que o de Everson.
Durante todo o tempo, pudera observar o corredor que se estendia junto à parede interna da K-262. Se alguém tivesse estado com Finney, eles o teriam visto. Scoobey cerrou os olhos. Não poderia permitir que Everson o enervasse. Talvez a luta em Epan cansara demais o coronel. Scoobey não pôde impedir que, em sua mente, surgisse a seguinte pergunta: Será que o tratamento especial da medicina arcônida, a que Everson se submetera, porventura mantinha jovem apenas o corpo, sem influenciar o espírito?
— Verificaremos a eventual ocorrência de fatos semelhantes — disse Everson. — Peço-lhes que redobrem a atenção. Indague sobre os sonhos dos tripulantes, mesmo que estes não compreendam o sentido da pergunta.
— Sim senhor — disse Scoobey em tom contrariado. — Não se preocupe.
Everson desceu pela escada. Passou pelo estreito passadiço circular, e chegou à porta na qual havia um letreiro que proibia a entrada dos tripulantes. Bateu com o punho contra a placa de metal leve.
— Entre — disse uma voz abafada. Everson abriu. Sentado sobre a cama, com as pernas encolhidas, Mataal fitou-o com uma expressão sombria.
— Como se sente? — perguntou Everson.
— Como um prisioneiro — respondeu o epanense. — Talvez pior.
— Por certo, pior — reforçou Everson. — Estamos no espaço, Mataal. Portanto, o senhor não pode sair da nave. Ramirez é um bom professor de línguas?
— Prefiro ficar só — respondeu Mataal em arcônida.
Everson não pôde deixar de sorrir.
— Saiu do quarto nestes últimos minutos? — perguntou em tom cauteloso.
O corpo de Mataal ficou um pouco tenso.
— Não — disse. — Por que faz essa pergunta?
O coronel fez um gesto de indiferença.
— Procure conformar-se com sua situação — recomendou ao epanense. — Não há nenhum motivo de desespero. Na Terra encontrará amigos, e um dia poderá voltar para Epan.
Mataal não se dignou a responder.
— Pense um pouco — prosseguiu Everson em tom comedido. — O senhor está tendo uma oportunidade sem par de testemunhar um espetáculo cósmico. Ao acompanhar-nos, o senhor está dando um salto de alguns séculos. Provavelmente sua raça talvez demorará mais que isso para dominar a navegação espacial. Pelo que informa Goldstein, muitos epanenses se encontram num estado de decadência. Mataal, o senhor é um homem inteligente e corajoso. Por isso, pode contar com meu respeito e amizade. Era só o que lhe queria dizer no momento.
Deixou a sós o epanense para falar com Goldstein.
O jovem telepata estava sentado à mesa, escrevendo. Olhando por cima dos ombros do mutante, Everson leu um bilhete com os nomes dos tripulantes da nave. O nome de Everson ocupava o primeiro lugar.
O coronel perguntou a si mesmo por que Goldstein se dava a esse trabalho, mas preferiu não perturbar a mente do jovem com uma pergunta a esse respeito.
— Vejo que está melhorando — disse.
O telepata, que estava muito pálido, sorriu. Dobrou cuidadosamente a folha escrita, rasgou-a em pedacinhos e atirou-os ao chão.
Depois fitou Everson. Tinha os olhos muito arregalados.
— Coronel — cochichou. — Há alguém a bordo.
Uma onda fria de pavor subiu pelo corpo de Everson. Mais uma vez, era a sensação indefinível que anunciava o perigo.
Será que Goldstein ficara louco?
Nos olhos do mutante via-se um brilho doentio. Os lábios estavam rachados e ressequidos. Um riso histérico ressoou nos ouvidos de Everson. Apavorado, o coronel recuou alguns passos.
— Há alguém a bordo — uivou Goldstein com o rosto desfigurado. — Eu lhes trouxe uma bela surpresa, uma surpresa maluca. Carreguei a morte para dentro da Fauna.
Everson empurrou-o para cima da cama revolvida. Num gesto resoluto, ligou o microfone que se encontrava sobre a mesa.
— Doutor! — exclamou. — Dr. Morton! Aqui fala o comandante. Faça o favor de vir imediatamente ao camarote de Goldstein. O rapaz está ficando maluco.
Dali a um segundo, o pequeno alto-falante deu um estalido. Ouviu-se a voz áspera do médico de bordo.
— Já estou a caminho.
Pouco depois, o Dr. Morton entrou apressadamente. Suas vestes eram desleixadas como sempre. A camisa esvoaçava por cima da calça. A barba parecia ter sido “tratada” com uma ceifadeira. As calças do médico eram seguras por suspensórios, que apresentavam uma cor indefinível e estavam retorcidos várias vezes por cima do ombro. Os olhos eram de um azul incrível. Sobressaíam clara e alegremente em meio às hirsutas sobrancelhas negras. Mas, ao fitar Goldstein, tornou-se sério.
— Está com febre — disse o médico.
— A morte está a bordo — gritou Goldstein. — Por que não acreditam no que estou dizendo? Afinal, sou telepata. Eu sinto. Façam alguma coisa!
Scoobey surgiu na porta.
— Quem está berrando? — perguntou. — O que aconteceu?
Everson apontou para o mutante.
— É mais um que está vendo fantasmas.
O Dr. Morton preparou uma injeção. Scoobey observou-o com uma expressão de desconfiança.
— Isso o acalmará — disse Morton e aplicou-lhe a agulhada.
— Muito obrigado, doutor — disse Everson. — Walt, volte ao seu trabalho.
Quando Scoobey não podia mais ouvi-lo, o Dr. Morton disse:
— As coisas não estão boas?
Everson confirmou com um gesto.
Goldstein estava estendido rígido na cama.
O médico afastou-se. Seus passos ressoaram no passadiço de alumínio. Assim que o ruído cessou, Everson sentiu-se dominado pelo desânimo.

* * *

Gonzáles Ramirez entrou no camarote e suspirou aliviado. Era um rapaz magro, de estatura mediana, que havia pouco prestara os exames finais na Academia Espacial. Até então, só fizera trabalhos de rotina. Porém sempre existia alguma diferença entre ficar numa sala de aula da Academia ou trabalhar no espaço.
Ramirez sentou-se numa confortável cadeira. Descansaria algumas horas e voltaria para junto de Mataal, a fim de ensinar a língua arcônida ao epanense. Muito alegre, Gonzáles lembrou-se das dificuldades que essa língua cheia de vogais lhe causara há poucos anos.
Tirou o casaco. Viu a pele morena dos braços. Teve uma vaga lembrança de dias quentes de verão, areias escaldantes, gritos estridentes de crianças de olhos negros e do cheiro das tortillas. Imaginava-se no México.
Sem querer, Ramirez estalou a língua. Recostou-se confortavelmente na cadeira. O México era o passado: um mundo quente e colorido situado em algum lugar do planeta Terra. E o futuro? Os dedos de Ramirez tatearam o mapa estelar, preso à parede por pequenos estiletes. Aquilo era o futuro. Parecia satisfeito. Ficou sonhando de olhos abertos.
Ouviu alguém abrir a porta do camarote. Levantou-se de um salto.
Será que dormira?
Mas não havia ninguém no recinto. Talvez o visitante tivesse saído para não despertá-lo. Levantou-se apressadamente para verificar.
Porém o longo corredor estava vazio.
Lembrou-se das alucinações de Finney, e das palavras que este dissera a Everson. Depois balbuciou:
— Pensei que houvesse alguém por perto.
Sorriu. Deixou-se impressionar por Finney. Dirigiu-se à cama e alisou as cobertas. Pretendia dormir um pouco antes de voltar a falar com Mataal.
Gonzáles Ramirez, o galã da Academia, ajeitou-se e fechou os olhos.
Subitamente ouviu a porta abrir-se. Ouviu nitidamente e com plena consciência. Seu corpo contraiu-se.
Porém manteve os olhos fechados e procurou convencer-se de que se enganara. Há instantes olhara pela porta do camarote e não vira ninguém. Deveria fechar firmemente os olhos e acreditar que se enganara.
Mexeu-se de um lado para outro. Esforçou-se obstinadamente para pensar em sua terra natal. Areias escaldantes, a gritaria das crianças e o vento cálido que soprava sobre as montanhas. A voz da mãe que lhe recomendava que sempre se conduzisse com decência e a voz potente do pai, que costumava ficar sentado na varanda ao sol do entardecer.
De repente, ouviu a porta ser fechada.
Soltou um grito de pavor e abriu os olhos. Seu coração palpitava fortemente. O suor gotejou em sua testa. Tremia por todo o corpo. Passou a língua pelos lábios ressequidos.
Não viu nada; o camarote estava vazio.
Saiu apressadamente da cama e vestiu o casaco. Não havia a menor dúvida de que estava ficando pouco. Que nem Finney!
Finney? Seria possível que dois homens sadios e normais apresentassem simultaneamente os mesmos sintomas de loucura? Ramirez esteve a ponto de procurar o Dr. Morton, mas desistiu de seu intento. Alguém iria gracejar.
Pensariam que ele era um cadete inexperiente, no qual poderiam meter medo. Sabia que os velhos astronautas gostavam de divertir-se à custa dos calouros. Apenas esperavam que corresse para junto do Dr. Morton, todo assustado, e se submetesse a um exame. O “espetáculo” apresentado por Finney fazia parte da gozação e, ao que parecia, até o comandante participava da brincadeira.
Mas não se deixaria enganar tão facilmente. Mais calmo, voltou para a cama.
Não teve de esperar muito tempo até que ouvisse novamente o ruído na fechadura.
É melhor fingir-me de surdo”, pensou. “Esses espertalhões vão acabar desanimando se me encontrarem dormindo tranqüilamente.”
A porta fechou-se abruptamente. O cadete teve de esforçar-se para não sorrir. Apoiou-se no travesseiro. Em tom de deboche fez:
— Buuuuh!
Depois abriu os olhos. Mas já era tarde...

* * *

O Coronel Marcus Everson subiu à sala de comando, apoiando-se ao corrimão da escada. O girino estava prestes a realizar a primeira transição. Com os cabelos desgrenhados, Scoobey corria entre as calculadoras eletrônicas, a fim de conferir as coordenadas.
— Tudo preparado, coronel! — gritou para Everson.
— Ligar neutralizador de freqüência — ordenou Everson.
Esse instrumento de alta precisão servia para evitar que qualquer estação pudesse medir a transição de uma nave espacial. Seu equivalente era o rastreador estrutural, que permitia determinar a posição exata de uma nave no momento em que a mesma saía do hiperespaço. Era um dos tantos benefícios que o Império Solar devia a seu fundador, Perry Rhodan.
— Neutralizador de freqüência funcionando — gritou Fashong, um pequeno astronauta chinês com voz gutural.
Everson acomodou-se em sua poltrona. O braço de apoio virou-se. O dispositivo hidráulico que movia as barras telescópicas da poltrona emitiu um leve chiado. Todas as instalações da nave despertaram para a vida.
— Paralisar os aparelhos de rádio — ordenou Everson.
— Telerrádio paralisado — confirmou Maria Landi, oficial-chefe do setor de rádio.
— Rádio de bordo paralisado — anunciou Ralf Zimmermann.
Os minutos seguintes passaram-se entre as ordens de Everson e as confirmações de suas execuções. Scoobey fez sua poltrona girar em direção a Everson.
— Ramirez está ausente — cochichou.
Everson examinou os homens que o cercavam. Sentiu a falta do cadete. Ramirez não tinha qualquer tarefa específica durante o salto, mas sua presença era indispensável. Devia colher experiências, para um dia poder conduzir as naves pelo espaço.
— Será responsabilizado pelo ato de indisciplina — disse Everson em tom contrariado. — Provavelmente ainda está em companhia de Mataal e deixou-se envolver em discussões grandiosas.
“Prosseguir! — disse com a voz forte. — Scoobey, verifique as máquinas robotizadas.”
Nenhum cérebro humano seria capaz de resolver os problemas matemáticos extremamente complexos que os computadores eletrônicos solucionavam numa questão de segundos. Everson sabia perfeitamente em que extensão o homem dependia dessas máquinas. Talvez um dia poderia ser capaz de mover-se entre as estrelas sem o auxílio das mesmas. Everson lembrou-se dos mutantes teleportadores, que abriram novas perspectivas.
Será que o fato de a Humanidade não ter avançado nesse terreno era devido exclusivamente à falta de uma melhor compreensão do Universo? Será que a astronáutica técnica era apenas uma obra fragmentária?
Everson não encontrou respostas a estas perguntas.
Concentrou-se apenas na tarefa que tinha diante de si.
— K-262 preparada para a transição — gritou Scoobey com a voz rouca.
Os homens no interior da esfera de sessenta metros de diâmetro pareceram encolher-se. O salto, que os levava do Universo em direção ao para-espaço, onde o tempo e o espaço perdiam todo significado, nunca deixava de ser fascinante.
— Cento e oitenta segundos para a transição — anunciou Fashong.
Everson deixou que um minuto se passasse.
— Verifique as máquinas, Walt — ordenou.
Os olhos treinados do imediato abrangeram todos os controles.
— Sessenta segundos para a transição — disse Fashong com a tranqüilidade típica do asiático.
— Então, Scoobey? — perguntou Everson.
— Tudo em ordem — foi a resposta.
— Fashong e os outros?
O coronel aguardou a confirmação de todos. Depois deu a última ordem anterior ao salto.
— Iniciar a contagem regressiva, Fashong!
Dali a dez segundos, a Fauna rompeu a estrutura espaço-temporal, mobilizando um volume de energia suficiente para pulverizar uma lua. Num espaço de tempo que não era mensurável por qualquer poder do Universo, o vôo da pequena nave transformou-se no deslizar de uma entidade fantasmagórica. Um tempo zero e uma eternidade se passaram. Todos os pontos de referência perderam a validade. O irreal ocupou o espaço. As moléculas e os átomos desfizeram-se, deslocaram-se, dilataram-se e voltaram a reunir-se que nem um gigantesco caleidoscópio que sempre oferece quadros novos ao observador.
Logo que o salto findou, Everson ordenou:
— Verificar posição!
Recebeu a confirmação de que a primeira transição fora bem sucedida. A K-262 encontrava-se exatamente no setor previsto. Mais dois saltos colocariam a nave nas proximidades do Sol.
Everson encolheu os apoios telescópicos de sua poltrona e desceu.
— Assuma, Walt — gritou para Scoobey.
— Não se esqueça de Ramirez — disse o pequeno oficial.
Everson confirmou com um gesto.
Resolveu não chamar o mexicano pelo sistema de intercomunicação. Seria preferível falar com ele pessoalmente. Teria de moderar o entusiasmo que o cadete sentia por Mataal. Não era possível que o “gladiador” chegasse ao ponto de fazê-lo esquecer.
Sem apressar-se, o coronel chegou ao camarote de Mataal e entrou imediatamente. O epanense estava dormindo. Ergueu-se devagar.
— Já está de volta? — perguntou em tom contrariado.
— Ramirez esteve aqui?
— Por enquanto não — respondeu Mataal. — Mas já que me acordou, pode pedir que venha cá. Infelizmente não tenho permissão para sair daqui.
Everson não deu atenção às palavras um tanto agressivas de seu interlocutor. Estava preocupado com o cadete.
Onde estaria?
O coronel andou apressado pelo passadiço. Bateu energicamente à porta do camarote de Ramirez. Não aconteceu nada. Everson praguejou contra todos os cadetes e abriu violentamente a porta. Seu grito de espanto ficou preso na garganta.
Ramirez achava-se estendido no chão, perto da cama. Esta estava desarrumada, como se tivesse havido uma luta violenta. Everson suspirou aliviado ao constatar que o rapaz estava vivo.
Os olhos do mexicano apresentavam uma rigidez cadavérica. Os cabelos estavam arrepiados.
— Ramirez — perguntou Everson — o que houve?
O cadete não pôde responder. Seu corpo estava contorcido. Everson obrigou-se a refletir calmamente. Pela segunda vez no espaço de poucas horas usou o microfone para chamar o Dr. Morton.
Lembrou-se das palavras de Goldstein:
“— Eu trouxe a morte para dentro da nave.”
Será que realmente falara sério? Teria o mutante trazido uma doença contagiosa a bordo da nave girino?
Everson sacudiu a cabeça. O planeta Epan fora cuidadosamente analisado...
O Dr. Morton não se fez esperar. Sem dizer uma palavra, empurrou o comandante para o lado e inclinou-se sobre Ramirez.
— Ainda está vivo? — perguntou ao médico.
Este confirmou com um gesto.
— O que será, doutor?
— Está totalmente paralisado. Conheço diversos venenos que provocam esse efeito. Veja!
Moveu as mãos diante dos olhos de Ramirez. Este não apresentou qualquer reação.
— Acha que alguém o envenenou? — perguntou Everson.
— É claro que não. Ajude-me, coronel; vamos colocá-lo na cama.
Levantaram o corpo do cadete. O médico respirava pesadamente, enquanto fazia o exame.
— Será que sofreu algum choque? — perguntou o coronel. — Ou acredita se tratar de uma doença desconhecida?
O Dr. Morton coçou a barba. Seus olhos já não espelhavam nenhuma alegria.
— Os motivos podem ser vários — disse. — Será preferível colocarmos este camarote sob quarentena. Permita que submeta o epanense a um exame rigoroso. Ramirez esteve muitas vezes em contato com ele.
— Faça o que acha que deve ser feito. Enquanto isso, reunirei a tripulação — disse Everson.
Deixou que o médico ficasse a sós com Ramirez. Dali a pouco, sua voz foi ouvida em todos os cantos da nave.
— Todos os homens, inclusive os que estão de folga, devem comparecer à sala de comando. Espero-os dentro de três minutos.
Scoobey aproximou-se dele. A presença do imediato deixou Everson um pouco mais aliviado. A atividade e a agilidade de Scoobey sempre irradiavam certo otimismo.
— O que houve com Ramirez? — perguntou Scoobey com a voz preocupada.
— Está totalmente paralítico. Mataal afirma que o cadete não esteve com ele.
Fashong, o chinês, apareceu na sala de comando e se enfileirou entre os outros, mantendo-se numa atitude de expectativa. Everson esperou que todos chegassem. O médico foi o último. O jaleco amassado e desajeitado ressaltou-se ainda mais em meio àqueles homens bem uniformizados. Everson sentiu olhares curiosos pousados nele.

— Suponho que todos estejam informados sobre o que se passou em Epan — principiou o coronel em tom tranqüilo. — Todos sabem em que estado se encontra Goldstein. O Dr. Morton poderá fornecer os detalhes. Vimo-nos obrigados a introduzir um nativo epanense no girino. Por uma questão psicológica ainda não pude apresentá-lo aos senhores. Peço-lhes que compreendam as novas impressões a que esse homem está exposto. Um confronto excessivamente repentino com nossa civilização poderia produzir danos graves em sua personalidade. Foi este o motivo de minha cautela, que muitos interpretaram como um jogo de mistérios.

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