Autor
WILLIAN VOLTZ
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Um fantasma
parece ter embarcado na nave K-262...
Perry Rhodan quer saber se
seu velho adversário e pretenso aliado, o computador-regente de Árcon, criou
bases secretas ou colocou agentes em outros planetas. Para cumprir tal projeto,
o administrador do Império Solar envia várias expedições de investigação pela
Galáxia.
Durante as expedições, uma
com destino a Epan passa por momentos de pavor inimaginável...
= = = = = = = Personagens Principais: =
= = = = = =
Coronel Marcus Everson — Comandante da K-262.
Walt Scoobey — Imediato da K-262.
Goldstein — Um jovem telepata que realiza sua primeira
ação no planeta Epan.
Mataal — Um gladiador de Epan.
Cadete Ramirez — A primeira vítima do pavor invisível.
1
O cheiro de suor, sangue, sujeira, animais
e terra úmida revolvida; uma massa de espectadores formada por pequenos
funcionários, grandes dignitários, mercadores, contrabandistas, operários,
soldados e nobres; o rugido da luta, o tinir das armas, os gritos dos animais
feridos, as exclamações exaltadas do público... Era este o “espetáculo” na arena de Rapmaag.
Sob o disfarce de um epanense e se
parecendo com uma estátua de anão de “tamanho
descomunal”, Walt Scoobey tocou no braço de Marcus Everson.
— Como vamos localizar nosso contato em
meio a esta multidão? — perguntou.
Deixou os olhos rondar sobre o círculo da
arena, cuja massa ondulante oferecia um quadro bastante colorido. Havia poucos
lugares vagos.
O Coronel Marcus Everson, um homem de um
metro e noventa, que no seu disfarce não apresentava um aspecto muito melhor
que o de seu companheiro, olhou cautelosamente em torno.
— Ele entrará em contato conosco —
respondeu. — Será conveniente falar em voz baixa. Em hipótese alguma devemos
chamar a atenção de quem quer que seja. Tomara que Goldstein não se esqueça
disso.
Um toque de fanfarra impediu-o de
prosseguir em suas explicações. Os jogos iriam começar. Seis robustos soldados
arrastaram uma jaula para dentro da área principal do estádio. Na jaula via-se
um animal parecido com um sáurio.
— Será que realmente haverá um idiota que
se disponha a lutar contra esse monstro? — perguntou Scoobey em tom incrédulo.
Sua voz foi sufocada pelo uivo da
multidão.
Alguns ajudantes apareceram na pista de
luta, a fim de desatrelar os animais de tração e levá-los para fora da arena.
Assim que todos se colocaram em segurança,
alguém que se encontrava no limite da clareira abriu a jaula usando uma longa
corda. O pescoço do monstro parecia uma cobra. O berreiro do povo ávido de
sensação parecia deixá-lo perturbado.
Os guardas espetaram o monstro com longas
varas. Conseguiram o que queriam. Cego de raiva, o monstro saiu da jaula.
Nuvens de poeira vermelha levantaram-se. Sempre que o animal se aproximava da
borda da arena, os espectadores das primeiras filas fugiam apavorados.
Uma porta abriu-se logo abaixo do camarote
do rei. Um epanense, que quase chegava a ser do tamanho de Everson, entrou na
arena, recebido por uma verdadeira onda de aplausos. Para os padrões epanenses
era grande. Mantinha os olhos oblíquos semicerrados, a fim de proteger-se da
poeira. As grandes orelhas salientes estavam cobertas pelo cabelo. O gladiador
usava um colete de couro. Na mão direita, segurava uma espada de lâmina larga.
— Será que pretende enfrentar o monstro
com esse palito? — perguntou Scoobey fora de si. — Isso é suicídio!
Everson completou sem a menor comoção:
— E bastante lamentável, Walt. Aquele
sujeito maluco é nosso contato. Nos levará para junto de Goldstein.
Scoobey ficou nervoso. Sua mão apalpou um
lugar embaixo da larga capa colorida, que substituía o uniforme espacial do
Império Solar. Com um gesto rápido, Everson segurou seu braço.
— Guarde a arma! — ordenou. — Seu disparo
pode nos denunciar!
Scoobey voltou a tirar a mão de baixo das
vestes.
— Tem certeza de que o homem que vai
arriscar a vida lá embaixo é nosso contato?
Everson acenou resolutamente com a cabeça.
— Está vendo o cinto dele? Nele foram bordadas
algumas meias-luas. Meia-lua na arena, é esta a indicação que nos foi dada.
O gladiador epanense cumprimentou o rei.
Colocou-se no centro da arena, esperando que o gigantesco inimigo o avistasse.
Na parte visível de seu corpo havia numerosas cicatrizes.
Um grito prolongado de desafio saiu da
boca do lutador. Os olhos pequenos e estúpidos do animal fitaram-no. O pescoço
de cobra virou-se abruptamente. Com a cabeça estendida para a frente, o monstro
precipitou-se sobre o homem solitário. Toneladas de carne e músculo fizeram o
chão estremecer. Quando a fera partiu para o epanense, ameaçando derrubá-lo, um
grito de pavor soou na tribuna.
O homem desviou-se com um salto
fantástico. O animal passou por ele, pois não conseguiu controlar imediatamente
o impulso daquela enorme massa. O epanense levantou-se no mesmo instante. O
inimigo veio parar junto ao muro que limitava a arena, a fim de iniciar outro
ataque. O epanense, que lutava pela vida, correu em direção ao muro.
Everson ouviu Scoobey gemer baixinho. Com o
corpo inclinado para a frente, o oficial mantinha a cabeça apoiada em ambas as
mãos.
— Você não acha que isso é uma coisa
desumana? — disse Scoobey.
— Tudo é feito espontaneamente — objetou
Everson. — Ninguém é obrigado a lutar contra vontade. Um gladiador ganha mais
que um ministro. Provavelmente também gozam de maior popularidade. E, para
isso, arriscam o maior valor que possuem: a vida.
— Goldstein já deveria ter entrado em
contato conosco — disse Scoobey com a voz impaciente. — Está usando a mesma máscara
que nós. Muitas vezes não consigo compreender esses mutantes.
Everson sorriu. Conhecia a mentalidade de
Scoobey. Se ninguém o tranqüilizasse, o oficial seria como uma banana de
dinamite que ameaçasse explodir a qualquer momento.
— Goldstein ainda é jovem. Esta é sua
primeira missão. Além disso, os telepatas costumam ser sensíveis e prudentes.
Olhe!
O grito de Everson fora causado pela cena
que se desenrolava na arena. Seu contato achava-se de costas contra o muro, com
o corpo ligeiramente abaixado. Mantinha a espada um tanto erguida, e fitava
tranqüilamente o monstro que se aproximava. A fera investiu cegamente contra a
pequena criatura que se atrevia a enfrentá-lo. O epanense colocou-se na
proteção do ângulo morto formado pelo muro. E dali desferiu o primeiro golpe.
Atacando obliquamente e de baixo para cima, atingiu o pescoço do animal.
Louco de susto e de dor, o monstro
esbarrou na parede de barro. O grito estridente dos espectadores encheu o
estádio. Everson perguntou a si mesmo por que os lugares mais caros eram
justamente os das fileiras de baixo, se estes tornavam-se os mais perigosos.
O epanense, um homem frio e audacioso,
contornou o gigantesco animal. Esquivou-se habilmente às chicotadas desferidas
pela cauda. O animal perdeu-o de vista. Nuvens de poeira vermelha subiam da
arena. O revestimento amarelo do camarote real assumiu uma tonalidade escura. A
multidão voltou a gritar. Everson confessou a contragosto que, embora a luta
apelasse para os instintos mais animalescos, nela havia algo de excitante.
O gladiador lutava com resolução e
prudência. Aproveitava-se habilmente da lerdeza do monstro. Suas armas eram a
inteligência e alguns feixes de nervos de aço. A espada que trazia na mão era
apenas o instrumento de execução.
— Está conseguindo! — exclamou Scoobey em
tom exaltado. — Por todos os planetas! Ninguém acreditará nesta história. Todo
mundo me chamará de mentiroso.
Everson lançou-lhe um olhar triste.
Teve de esforçar-se para não dizer que
Scoobey contava histórias muito mais incríveis aos cadetes da Academia
Espacial, com o rosto mais sério deste mundo.
O duelo aproximava-se do fim. Os
movimentos do monstro ficavam cada vez mais lentos. Sangrava em muitos lugares.
O epanense continuava a mover-se com a precisão de uma máquina. Everson teve a
impressão de que o fim da luta tornava-se um espetáculo degradante; sentiu-se
enojado.
Finalmente o gigantesco animal caiu na
poeira, e seu sangue deu uma coloração escura ao solo. O vencedor, radiante,
colocou-se diante do camarote real, ergueu o braço a título de cumprimento. O
rei levantou-se. Era uma pequena figura arredondada, de braços curtos e
movimentos apressados. Aplausos frenéticos envolveram o vencedor.
Everson sentiu um gosto desagradável na
boca. Centenas de epanenses tomaram a arena de assalto. O gladiador foi
carregado nos ombros pela multidão delirante.
— Acabou — disse Scoobey. — O que vamos
fazer?
— Será difícil entrar em contato com ele —
admitiu Everson. — Os fãs não o largarão tão cedo. Acho que foi a atração
principal do espetáculo de hoje. Vamos dar uma olhada nas proximidades do lugar
em que está o rei.
— Por quê? — perguntou Scoobey. Rugas de
impaciência surgiram em sua testa. — Quer oferecer uma ovação àquele gorducho?
Everson lançou um olhar para o camarote
real. Todas as “eminências” se haviam
levantado. A maior parte dos homens, que rodeavam o rei, era muito mais alta
que ele. Everson perguntou a si mesmo o que diria o homem mais poderoso de Epan
se soubesse da presença de três homens vindos de um planeta situado a mais de
dez mil anos-luz. Que pensamentos lhe viriam à cabeça se visse a nave girino
pousada nas proximidades da cidade, numa área deserta?
— Coloque-se no lugar do agente de uma
potência estrangeira — disse Everson em resposta à pergunta do companheiro. —
Onde procuraria ficar?
— É claro que o senhor tem razão —
concordou Scoobey. — Alguém que queira tomar pé neste planeta não irá
relacionar-se com o simples homem de rua. Goldstein já teve tempo de sobra para
descobrir se por aqui já surgiram agentes de alguma raça estranha de
astronautas.
Everson ergueu-se lentamente. Mesmo sob o
disfarce epanense, sua figura era imponente. As grandes conquistas dos
arcônidas na área da biologia e os extraordinários produtos farmacêuticos
faziam com que esse homem de oitenta e cinco anos parecesse um robusto
cinqüentão. O coronel tinha chance de atingir a idade de cento e quarenta anos.
— Bem, vamos tentar a sorte — decidiu
Everson.
Abriu caminho em direção à saída. Um
pequeno epanense de corpo ressequido interpôs-se em seu caminho.
— Querem ir embora logo depois da luta de
Mataal? — perguntou. Sua voz parecia de pássaro, e nela havia um tom odiento.
Everson, que realizara um hipnotreinamento
do dialeto epanense, tal qual Goldstein e Scoobey, respondeu em tom amável:
— Ficamos entusiasmados com a coragem de
Mataal. Nossa terra fica ao norte, nas proximidades de Aplaag. Mas as arenas de
lá não oferecem nada que se compare aos espetáculos daqui. Esse Mataal é
formidável.
Um sorriso esboçou-se no rosto flácido do
epanense. Em seus olhos, via-se um brilho orgulhoso. Everson inclinou a cabeça
para o homenzinho e colocou algumas moedas em seu bolso.
— Temos de voltar logo para Aplaag, amigo.
Mas gostaríamos de cumprimentar Mataal. Acho que o senhor nos poderá ajudar.
O homem lançou-lhe um olhar astuto e
sacudiu a cabeça.
— Não posso sair daqui — disse em tom
triste. — Preciso controlar os ingressos. Se abandonar meu posto, perderei o
emprego.
Era um homem que mandava numa pequenina
área, por isso sentia-se orgulhoso e importante. Num gesto significativo, bateu
no bolso em que Everson colocara as moedas. O coronel colocou mais algumas.
— Tenho uma idéia — disse o homenzinho
imediatamente. — Volte à arena. A entrada das salas dos gladiadores fica pouco
antes da escadaria destinada ao público. Quem está vigiando essa entrada é
Orgabaas, um amigo de minha esposa.
Scoobey deu uma cutucada em Everson e
sorriu.
— Deixe isso para lá! — disse o coronel em
tom indignado.
— Orgabaas os ajudará — prometeu o
epanense. — Naturalmente... — voltou a bater no bolso.
Everson agradeceu e arrastou Scoobey.
Voltaram pelo caminho já percorrido e encontraram a entrada que lhes fora
indicada. Um velho epanense de pernas tortas e pele muito amarela fechou-lhes o
caminho.
— Aonde pensam que vão? — perguntou em tom
áspero.
Sem dizer uma palavra, Everson deixou cair
algumas moedas nas mãos do homem. A expressão indignada de seu rosto
desapareceu.
— Metade da Galáxia é subornável —
constatou Scoobey em tom amargurado.
Mais uma vez, Everson tomou a palavra:
— Queremos falar com Mataal. Somos de
Aplaag e gostaríamos de travar conhecimento com o grande lutador.
Sem dizer uma palavra, Orgabaas apontou
para uma porta. Everson mandou que seu imediato esperasse e entrou sem bater.
Sentiu-se envolvido por um cheiro acre de tinta fresca. A sala estava repleta
de epanenses. Mataal achava-se em meio àquela multidão. Todos falavam ao mesmo
tempo. Everson afastou um grupo de jovens epanenses para penetrar na sala.
Subitamente viu Mataal. O gladiador estava
deitado numa esteira azul. Tirara o colete de couro. Tinha os olhos fechados.
Em torno dele, os fanáticos estavam de pé, agachados, deitados ou ajoelhados e
gesticulavam que nem uns loucos.
Everson fez uso de seus fortes braços para
avançar até a esteira. Com um sorriso amável, inclinou-se sobre Mataal.
— Meia-lua na arena — cochichou ao ouvido
do epanense.
Mataal abriu os olhos oblíquos. Eram
negros e imperscrutáveis. Everson teve a impressão de que sua imagem se
refletiria nesses olhos, desde que se aproximasse bastante. Enfrentou o olhar
indagador. As vozes tornaram-se mais fortes. Todos acharam que era chegado o
momento em que poderiam importunar o lutador com seus desejos ou perguntas.
Mas...
— Meus amigos — disse Mataal com uma voz
que, embora fosse suave, penetrava em todos os cantos da sala. — Façam o favor
de retirar-se.
Everson ficou espantado ao ver que a sala
se esvaziou num instante. Depois que o último dos fãs havia desaparecido,
Mataal disse:
— São como crianças. Não acha?
Sua voz era agradável e revelava um
elevado grau de cultura. Esse homem deveria ter possibilidade de ganhar
dinheiro sem arriscar a vida.
Everson não estava disposto a envolver-se
numa discussão sobre os fãs de Mataal.
— Onde está Goldstein? — perguntou em tom
lacônico.
Mataal colocou as mãos sobre os ombros do
coronel. Everson sentiu a força inacreditável daqueles braços.
— Eu o levarei para junto dele — disse o
epanense em tom solícito. — Acontece que o senhor nem imagina em que estado se
encontra o rapaz.
Essas palavras guardavam um significado
funesto, que deixou Everson apavorado.
— Está doente? — perguntou com a voz
embargada.
— Devo confessar que não sei — respondeu
Mataal. — Acho que está mudado, mas ele não fala sobre o que lhe aconteceu.
Depois de sua chegada, muitas vezes desapareceu por vários dias. Não sei qual é
a tarefa que o senhor lhe confiou, mas há alguns dias, quando voltou, parecia
bastante perturbado. Está quieto e indiferente. Nestes últimos dias, não saiu
mais de minha casa.
Everson refletiu intensamente.
O que poderia ter acontecido com o jovem mutante?
Teria entrado em contato com agentes de outras potências?
— Goldstein disse alguma coisa que leve a
concluir que seu estranho comportamento tem algo a ver com uma terceira pessoa?
— Ele não fala sobre isso — repetiu
Mataal. — O senhor verá com seus próprios olhos. Garanto-lhe que nada falta a
seu amigo, e que está gozando de todas as regalias de hóspede — depois de
ligeira pausa, acrescentou: — Se desejar, podemos ir agora.
Everson fez um gesto afirmativo, e Mataal
passou por ele, dirigindo-se à porta. Assim que abriu-a, Walt Scoobey entrou.
— Olá! — disse, olhando Mataal de lado. —
Um verdadeiro exército passou por aqui. Será que toda aquela gente estava lá
dentro?
— Walt — disse Everson a meia voz,
deixando de lado a língua epanense. — Este homem acaba de contar que alguma
coisa não está em ordem com Goldstein. Pelo que diz, o mutante parece bastante
mudado.
Scoobey cocou as orelhas artificialmente
aumentadas. Para demonstrar a admiração que sentiam por Mataal, os espectadores
acorriam de todos os lados. Com a ajuda de Orgabaas, o lutador conseguiu abrir
caminho. Saíram juntos da arena e Mataal levou-os à cidade.
As construções pelas quais passavam,
feitas de barro, madeira ou pedra bruta, eram mais ou menos suntuosas, segundo
as posses dos donos. O meio de transporte consistia em carros ovais puxados por
animais semelhantes a cavalos. Muitas vezes, Mataal recebia cumprimentos
respeitosos.
Caminhavam lado a lado sem dizer uma
palavra.
Mataal parou diante de uma casa que se
distinguia pelo tamanho descomunal.
— É aqui que eu moro — disse em tom
orgulhoso.
Caminhou à frente dos outros. Alguns
criados com vestes coloridas abriram as portas. Mataal sorria.
— É o sinal do êxito do lutador — disse. —
Não preciso de cartaz de propaganda.
Foram ao pátio interno e entraram num
aposento decorado com muito bom gosto.
Mataal olhou para Everson e depois para
Scoobey.
— Aceitam um refresco?
— Queremos ver Goldstein — disse Everson
em tom impaciente.
Com um sorriso condescendente, Mataal
levou-os a um pequeno aposento, muito limpo, no qual havia uma cama baixa de
madeira onde um jovem estava deitado. Tinha os olhos muito abertos.
Quando eles entraram, não se moveu. Não
fez absolutamente nada.
Era Goldstein.
Na porta, Mataal disse com a voz baixa:
— É claro que não é nenhum epanense; os
senhores também não são.
2
O jovem mutante jazia à frente de Everson.
Parecia abobalhado. Os lóbulos das orelhas artificiais estavam exageradamente
afastados da cabeça. A pele amarela estava desbotando. Talvez Goldstein não se
preocupara com o fato de que a cor natural de sua pele voltara a aparecer. A
peruca estava reduzida a alguns feixes de fios vermelhos.
Essas impressões deixaram Everson tão
abalado que só compreendeu todo o alcance das palavras de Mataal, quando
Scoobey olhou para Goldstein e praguejou baixinho. Os nervos estomacais de
Everson contraíram-se.
Quem era esse Mataal que, segundo parecia,
não tinha a menor dificuldade em resolver qualquer enigma ou problema? Será que
também era um telepata? Por acaso disporia de forças paranormais, que lhe
permitiam enfrentar os gigantescos animais na arena?
— Mais alguém sabe disso? — perguntou
Everson em tom contrariado.
Mataal fez um gesto negativo com as mãos.
— Não sou nenhum tagarela. Além de mim,
ninguém sabe.
Everson percebeu que só lhe restava uma
possibilidade. Mataal conhecia sua identidade. Se quisessem evitar que a
espalhasse, teriam de levá-lo à nave girino. Mais do que isso, Mataal teria de
acompanhá-los à Terra. Sua descoberta representava um perigo enorme. Se caísse
nas mãos de algum agente de uma potência galáctica, levaria apenas alguns
segundos para contar tudo. Mas Perry Rhodan fazia questão absoluta de que as
missões dos agentes do Império Solar fossem mantidas em segredo...
— Mataal — principiou Everson em tom tranqüilo
— preciso explicar-lhe uma porção de coisas. Acontece que o senhor não me
compreenderia. Seu horizonte, visto sob um ângulo relativista, é tão restrito
que não seria capaz de assimilar tudo. Viemos de outro sistema solar, situado
nos confins da Galáxia. Posso garantir que os objetivos de nossa missão são
justos.
— Conheço Goldstein — disse Mataal. — E
agora já conheço os senhores. Isso me basta. Confio nos senhores.
Everson voltou a olhar para o mutante.
— Parece morto — observou Scoobey em tom
preocupado.
O coronel sentiu uma onda de compaixão
apossar-se de sua mente. Admirava esses homens que, a muitos anos-luz de seu
mundo, defendiam uma posição ímpar, a fim de cumprir uma missão que visava à
existência e ao desenvolvimento de todas as raças.
Everson foi ao outro lado da cama, para
que o rapaz pudesse vê-lo. Os olhos do mutante pareciam fitar alguma coisa
situada a grande distância.
— Goldstein! — exclamou o coronel. — Aqui
fala Marcus Everson. Walt Scoobey está a meu lado. O senhor nos reconhece?
— Reconheço — respondeu o telepata com a
voz débil.
Por alguns segundos, seus olhos retornaram
à realidade daquela sala. Parecia um boneco ao qual se precisava dar corda para
despertá-lo para a vida. Havia alguma coisa no mutante que dava a Everson a
certeza de que não se sentia muito entusiasmado com a chegada deles. Em sua
postura havia um protesto mudo, uma rejeição sensível, não expressa em
palavras.
O Goldstein que estava deitado ali era
outro Goldstein, um Goldstein completamente mudado.
Everson perguntou:
— O que houve?
— Nada — respondeu o mutante em voz baixa.
— Realmente não houve nada.
Everson lançou um olhar rápido para
Mataal. O epanense mantinha-se a seu lado numa atitude quase indiferente;
fitava Goldstein. Seus olhos escuros estavam semicerrados. O silêncio naquele
quarto era tamanho que Everson ouvia a respiração dos outros. Talvez Goldstein
estivesse com medo de falar enquanto Mataal se encontrasse no quarto.
— O senhor se importaria de deixar-nos a
sós por um instante? — pediu o coronel.
Sem dizer uma palavra, o gladiador saiu.
Assim que se encontrava do lado de fora, Everson ouviu que chamou um criado.
Mas, naquele instante, não tinha tempo para refletir sobre as intenções do
epanense.
— Então? — perguntou. — Já está disposto a
falar?
— Tudo bem — asseverou Goldstein, fazendo
um esforço tremendo para dar um tom enérgico. — Não encontrei o menor indício
de que neste planeta existam membros de outra raça de astronautas. Em Epan, não
existe qualquer agente estrangeiro. Com algumas raras exceções, os nativos são
inofensivos e decadentes. Acho que nunca conseguirão desenvolver uma tecnologia
avançada. Podemos voltar tranqüilamente à Terra.
— O senhor contou a Mataal que não somos
epanenses? — interveio Scoobey.
— Mataal é muito inteligente. Além disso,
está farejando um negócio.
“É
uma resposta pouco precisa para uma pergunta direta”, pensou Everson. Em
voz alta perguntou:
— Por que está tão apático? Sente-se
doente?
— Não — respondeu Goldstein em tom áspero.
— Não estou doente. Quem foi que lhe disse que estou?
Estava pálido e magro, e falou como uma
pessoa debilitada por uma enfermidade prolongada. Teve dificuldade em articular
as palavras.
— Não sei o que é. Deve ser as condições
climáticas.
Everson sabia que em Epan o verão e o
inverno se sucediam com uma rapidez enorme.
Mas será que isso poderia ser motivo da
modificação havida com Goldstein?
A expressão de perplexidade surgida no
rosto de Scoobey provava que este também não sabia o que pensar. Pouco
importava o que acontecera ao rapaz em Epan; de qualquer maneira, teria de ser
levado de volta à Terra o mais rápido possível. Os especialistas de Terrânia
logo descobririam o que havia com ele.
O instinto seguro da desgraça próxima, que
Everson adquirira nos longos anos de serviço, fez-se ouvir em sua mente. O
mutante teria de ser retirado desse ambiente.
— Mataal! — gritou em tom enérgico.
Everson impressionou-se com a
tranqüilidade e autoconfiança que o epanense demonstrou ao voltar. Lamentou-se
de não possuir dons telepáticos que lhe permitissem penetrar nos pensamentos
daquele homem.
— Levaremos Goldstein à nossa espaçonave —
disse Everson. — Vamos voltar ao nosso mundo.
Um brilho frio surgiu nos olhos oblíquos.
Everson sentiu-se como se fosse o animal estúpido da arena, que ficou entregue
à arma desse indivíduo frio.
— Eu os levarei para fora da cidade —
disse o epanense em tom cortês.
Everson fez um esforço.
— O senhor irá um pouco mais longe — disse
em tom frio. — Terá de acompanhar-nos à Terra.
A risada de Mataal parecia despreocupada.
Limitou-se a dizer uma única palavra:
— Não!
— Vire-se! — gritou Everson.
Mataal viu que Scoobey estava atrás dele.
O oficial apontava-lhe o paralisador.
— Temos duas possibilidades — principiou
Everson. — Podemos paralisá-lo com esta arma, ou então podemos matá-lo. Nunca
se esqueça de que não recuaremos diante de nada. Nosso povo está envolvido num
jogo cósmico no qual um pequeno erro poderá acarretar sua destruição. A missão
é tão importante que não podemos ter consideração pela vida de qualquer
indivíduo. Procure compreender depressa.
No íntimo, Everson não pôde deixar de
admirar aquele ser estranho. A tranqüilidade com que recebeu aquelas palavras
só encontrava par na calma demonstrada durante a luta na arena.
— O senhor já mostrou seus trunfos — disse
Mataal e fez um gesto em direção a Walt Scoobey. — Agora é minha vez. É claro
que poderão matar-me, mas nesse caso não sairão vivos desta casa. Quando o
senhor me pediu que saísse para conversar à vontade com Goldstein, avisei meus
criados de que, haja o que houver, acompanharei meus hóspedes para fora da
casa. O senhor compreende? Se o senhor me paralisar com essa arma, terá de
enfrentar outro problema. Como poderia levar o corpo imóvel do homem mais
popular da cidade, desculpe a imodéstia, até a nave espacial? E se não me matar
ou imobilizar, terão de contar com a possibilidade de que eu informe à primeira
pessoa com que me encontre quem é o senhor e que estou sendo obrigado a
acompanhá-lo.”
Sorriu. Sua segurança era assombrosa.
Prosseguiu num tom irônico:
— E tem mais: para os senhores, é
preferível que ninguém os reconheça. Se usarem essa arma, provocarão suspeitas.
A arma mais moderna por aqui é a besta.
A inteligência refinada daquele homem, a
segurança com que sabia avaliar a situação, e a lógica com que tirava as
conclusões, poderiam conduzir ao fracasso da missão. Um bárbaro primitivo, sob
os padrões da Terra, causava-lhes problemas!
— Muito bem — interveio Scoobey —
assumiremos o risco.
Encostou o paralisador às costas de
Mataal.
— O senhor irá à nossa frente. Nós lhe
indicaremos o caminho. Se der um pio, farei uso da arma. Diremos aos homens com
que nos encontrarmos que somos seus amigos. Afirmaremos que a luta na arena o
deixou tão exausto que acabou desmaiando. Somos seus amigos e estamos levando-o
a um médico conhecido, que se encontra na cidade conosco. Então, Mataal, vamos?
O epanense caminhou em direção à porta sem
oferecer a menor resistência. Scoobey seguiu-o. Havia uma expressão resoluta em
seu rosto. Everson olhou para Goldstein, que permaneceu imóvel na cama.
— Vamos, homem! — gritou o coronel. —
Mexa-se!
Goldstein desceu apaticamente do leito.
Seu aspecto era amedrontador. Os olhos estavam afundados nas órbitas, e mal
conseguia manter-se de pé.
— Procure controlar-se! — disse Everson em
tom áspero.
Logo se arrependeu dessas palavras. Tinha
certeza de que Goldstein estava fazendo o possível.
Quando saíram do quarto, um dos criados se
encontrava junto à porta. A expressão de seu rosto não anunciava qualquer
perigo. Apesar disso, Everson suspirou aliviado quando deixaram a casa.
* * *
Mataal andava dois metros à frente de
Goldstein e Scoobey. Everson mantinha-se ligeiramente ao lado. Um veículo
aproximou-se deles. O epanense sentado na carroça oval estalou a língua e bateu
com o chicote para fazer o animal andar mais depressa. No momento em que a
carroça se encontrava ao lado de Mataal, o gladiador soltou um grito rouco e,
com um salto desesperado, saltou na direção do veículo.
A carroça parou.
Everson ouviu Scoobey praguejar. Contornou
e subiu na “charrete”, para deixar
Mataal no ângulo de tiro do oficial. O carroceiro levantou-se e bateu com o
chicote. Atingiu Everson nas costas. A força do golpe derrubou o coronel.
Mataal conseguiu entrar na carroça.
Scoobey, que não podia arriscar-se a atirar, já que poderia atingir Everson,
saltou atrás dele. Mais uma vez, o carroceiro fez uso do chicote. Era um homem
pequeno e robusto, que lutava com uma obstinação silenciosa. A cada vez que
brandia o chicote, seus lábios abriam-se, mostrando duas fileiras de cacos de
dentes escuros.
Scoobey desviou-se das chicotadas e
abraçou as pernas do lutador.
Everson levantou-se gemendo. Suas costas
ardiam. Puxou para trás o braço levantado do carroceiro. O homem perdeu o
equilíbrio e caiu ao chão juntamente com Everson. A poeira levantou-se e ardeu
nos olhos de Everson. Este rezou aos céus para que não aparecessem outros
epanenses. Seu adversário era pequeno e ágil.
— Rápido, coronel! — disse a voz ofegante
de Scoobey. — O sujeito vai fugir.
Mataal agora apertava o pequeno oficial
contra o parapeito da carroça e tentava atirá-lo para fora.
Everson desferiu um tremendo golpe em seu
adversário, colocando-o fora de ação. Depois atirou-se sobre Mataal, que se
dispunha a pegar as rédeas e tanger o animal. O epanense empurrou-o violentamente
para trás. Everson bateu com a cabeça em algum lugar da carroça. Viu Scoobey
ajoelhado com o paralisador na mão. Círculos vermelhos dançavam à frente de
seus olhos. Sentiu o corpo inundado pelas dores.
— O animal, Walt! — gritou com grande
esforço. — Atire contra o animal.
A carroça, que começava a movimentar-se,
reduziu a velocidade. Scoobey, que ainda trazia a arma em punho, aproximou-se.
Atingidos pelo paralisador, Mataal e o animal desmaiaram.
— Teremos de carregar Mataal — disse
Everson, esfregando o crânio dolorido. — O carroceiro pode ficar deitado aqui.
Levará algum tempo para recuperar os sentidos. E não saberá contar muita coisa.
Scoobey fez que sim. Em sua testa surgiram
rugas de preocupação.
— O rapaz... — disse.
Everson olhou para trás. Goldstein
continuava no mesmo lugar. Não interviera na luta.
3
O sussurro dos aparelhos eletrônicos
transformou-se num forte zumbido. Everson abriu os olhos e procurou penetrar
pela semi-escuridão.
Sabia que um ruído indefinível o
despertara...
Perplexo, notou que, por sentir-se
nervoso, seu coração palpitava fortemente. Sacudiu a cabeça e ligou a luz.
O minúsculo recinto apresentava certo
conforto. E esperando que o nervosismo fosse cessar sob o efeito da luz,
Everson sentiu-se decepcionado, pois continuou agitado. Vestiu-se e saiu do
camarote. O girino identificado pelo prefixo K-262, que os tripulantes chamavam
carinhosamente de Fauna, encontrava-se em queda livre.
Everson deixou que o corrimão da escada da
sala de comando lhe passasse sob a mão. O nervosismo diminuiu um pouco. Grande
parte dos quinze tripulantes encontrava-se nos camarotes. Antes da próxima
transição, o quadro mudaria de supetão, pois todos teriam de estar a postos.
Scoobey, um telegrafista e o cadete
Ramirez estavam na sala de comando.
— Olá, coronel! — exclamou Scoobey.
— Por que não está descansando?
A pergunta não deixava de ter sua
justificativa, pois o imediato estava em condições de cuidar do serviço de
rotina.
— Quero falar com Mataal e Goldstein —
respondeu Everson. — Talvez o rapaz já esteja melhor.
Scoobey sorriu e esteve prestes a dar uma
resposta, quando, no corredor que ficava abaixo deles, uma porta de camarote
abriu-se violentamente.
Gerald Finney, um técnico esbelto, de
cabelos negros, olhou-os com uma expressão de perplexidade. Everson inclinou-se
sobre o corrimão.
— O que houve com o senhor, Finney?
Na testa do homem via-se uma pequena
cicatriz, perfeitamente curada. Everson viu-a brilhar sob a forma dum triângulo
branco.
— Não sei — gaguejou.
Evidentemente estava à procura de uma
desculpa.
— Por que está andando por aí na sua hora
de descanso? — perguntou Everson em tom áspero. — Diga logo!
— Fiquei com sede — respondeu o técnico
apressadamente e engoliu em seco.
— Suba para cá! — ordenou o coronel.
Finney apressou-se em cumprir a ordem.
Everson fitou-o atentamente. E então viu: Finney estava com medo!
— O que houve realmente?
Os olhos do homem procuravam um ponto que
pudessem fitar sem provocar suspeitas. Everson notou que os lábios de Finney
tremiam.
— Tive um pesadelo — disse Finney. — Não
pense que foi a loucura espacial. Como sabe, já estou no cosmo há muito tempo.
Foi mesmo um pesadelo.
— Com o que andou sonhando? — perguntou
Everson em tom insistente. Seus pensamentos recuaram alguns minutos, até o
momento em que sentira palpitações enquanto estava na cama.
— Foi um sonho muito infantil, coronel —
disse o homem. — Tive a impressão... eh... de que havia alguém bem perto de mim.
O telegrafista deu uma risadinha.
— O senhor costuma ter esse tipo de
alucinação? — perguntou Everson.
Finney sacudiu resolutamente a cabeça.
— Foi a primeira vez.
— Quero que o Dr. Morton o examine — disse
Everson, concluindo a palestra. — Não deixe de me avisar se isso se repetir.
— Não estou doente — asseverou Finney. —
Um sonho não é nenhuma doença! Por que tenho de falar com o Dr. Morton?
— Faça o que mandei — ordenou Everson. —
Retire-se.
Finney saiu desolado. Everson seguiu-o com
os olhos, até que Scoobey surgisse a seu lado.
— Não pense que sou um monstro que tem a
mania de comandar — disse Everson, que leu a desaprovação no rosto de Scoobey.
— Não vou perguntar por que fez isso —
disse o oficial em tom sério.
— Quer saber por que estou aqui em cima,
Walt? Tive o mesmo sonho que deixou Finney tão agitado. Além disso, tive a
impressão de ter ouvido um ruído. Um ruído estranho, que não combina com a gama
de ruídos da nave.
Um sorriso embaraçado surgiu no rosto de
Scoobey. O coronel não era homem de correr atrás de fantasmas. Sua experiência
espacial, aliada às suas qualidades humanas e à audácia, fizeram com que, nos
seus longos anos de serviço, se transformasse num modelo para os cadetes de
Terrânia.
Apesar disso, Scoobey estava convencido de
que Everson não avaliava corretamente a situação em que se encontravam. Se duas
pessoas sonhavam simultaneamente com a mesma coisa, isso só poderia ser obra do
acaso.
Everson acordara poucos instantes antes de
Finney. Apavorado, Scoobey olhou para baixo.
O camarote de Finney ficava bem mais perto
que o de Everson.
Durante todo o tempo, pudera observar o
corredor que se estendia junto à parede interna da K-262. Se alguém tivesse
estado com Finney, eles o teriam visto. Scoobey cerrou os olhos. Não poderia
permitir que Everson o enervasse. Talvez a luta em Epan cansara demais o
coronel. Scoobey não pôde impedir que, em sua mente, surgisse a seguinte
pergunta: Será que o tratamento especial da medicina arcônida, a que Everson se
submetera, porventura mantinha jovem apenas o corpo, sem influenciar o
espírito?
— Verificaremos a eventual ocorrência de
fatos semelhantes — disse Everson. — Peço-lhes que redobrem a atenção. Indague
sobre os sonhos dos tripulantes, mesmo que estes não compreendam o sentido da
pergunta.
— Sim senhor — disse Scoobey em tom
contrariado. — Não se preocupe.
Everson desceu pela escada. Passou pelo
estreito passadiço circular, e chegou à porta na qual havia um letreiro que
proibia a entrada dos tripulantes. Bateu com o punho contra a placa de metal
leve.
— Entre — disse uma voz abafada. Everson
abriu. Sentado sobre a cama, com as pernas encolhidas, Mataal fitou-o com uma
expressão sombria.
— Como se sente? — perguntou Everson.
— Como um prisioneiro — respondeu o
epanense. — Talvez pior.
— Por certo, pior — reforçou Everson. —
Estamos no espaço, Mataal. Portanto, o senhor não pode sair da nave. Ramirez é
um bom professor de línguas?
— Prefiro ficar só — respondeu Mataal em
arcônida.
Everson não pôde deixar de sorrir.
— Saiu do quarto nestes últimos minutos? —
perguntou em tom cauteloso.
O corpo de Mataal ficou um pouco tenso.
— Não — disse. — Por que faz essa
pergunta?
O coronel fez um gesto de indiferença.
— Procure conformar-se com sua situação —
recomendou ao epanense. — Não há nenhum motivo de desespero. Na Terra
encontrará amigos, e um dia poderá voltar para Epan.
Mataal não se dignou a responder.
— Pense um pouco — prosseguiu Everson em
tom comedido. — O senhor está tendo uma oportunidade sem par de testemunhar um
espetáculo cósmico. Ao acompanhar-nos, o senhor está dando um salto de alguns
séculos. Provavelmente sua raça talvez demorará mais que isso para dominar a
navegação espacial. Pelo que informa Goldstein, muitos epanenses se encontram
num estado de decadência. Mataal, o senhor é um homem inteligente e corajoso.
Por isso, pode contar com meu respeito e amizade. Era só o que lhe queria dizer
no momento.
Deixou a sós o epanense para falar com
Goldstein.
O jovem telepata estava sentado à mesa,
escrevendo. Olhando por cima dos ombros do mutante, Everson leu um bilhete com
os nomes dos tripulantes da nave. O nome de Everson ocupava o primeiro lugar.
O coronel perguntou a si mesmo por que
Goldstein se dava a esse trabalho, mas preferiu não perturbar a mente do jovem
com uma pergunta a esse respeito.
— Vejo que está melhorando — disse.
O telepata, que estava muito pálido,
sorriu. Dobrou cuidadosamente a folha escrita, rasgou-a em pedacinhos e
atirou-os ao chão.
Depois fitou Everson. Tinha os olhos muito
arregalados.
— Coronel — cochichou. — Há alguém a
bordo.
Uma onda fria de pavor subiu pelo corpo de
Everson. Mais uma vez, era a sensação indefinível que anunciava o perigo.
Será que Goldstein ficara louco?
Nos olhos do mutante via-se um brilho
doentio. Os lábios estavam rachados e ressequidos. Um riso histérico ressoou
nos ouvidos de Everson. Apavorado, o coronel recuou alguns passos.
— Há alguém a bordo — uivou Goldstein com
o rosto desfigurado. — Eu lhes trouxe uma bela surpresa, uma surpresa maluca.
Carreguei a morte para dentro da Fauna.
Everson empurrou-o para cima da cama
revolvida. Num gesto resoluto, ligou o microfone que se encontrava sobre a
mesa.
— Doutor! — exclamou. — Dr. Morton! Aqui
fala o comandante. Faça o favor de vir imediatamente ao camarote de Goldstein.
O rapaz está ficando maluco.
Dali a um segundo, o pequeno alto-falante
deu um estalido. Ouviu-se a voz áspera do médico de bordo.
— Já estou a caminho.
Pouco depois, o Dr. Morton entrou
apressadamente. Suas vestes eram desleixadas como sempre. A camisa esvoaçava
por cima da calça. A barba parecia ter sido “tratada” com uma ceifadeira. As calças do médico eram seguras por
suspensórios, que apresentavam uma cor indefinível e estavam retorcidos várias
vezes por cima do ombro. Os olhos eram de um azul incrível. Sobressaíam clara e
alegremente em meio às hirsutas sobrancelhas negras. Mas, ao fitar Goldstein,
tornou-se sério.
— Está com febre — disse o médico.
— A morte está a bordo — gritou Goldstein.
— Por que não acreditam no que estou dizendo? Afinal, sou telepata. Eu sinto.
Façam alguma coisa!
Scoobey surgiu na porta.
— Quem está berrando? — perguntou. — O que
aconteceu?
Everson apontou para o mutante.
— É mais um que está vendo fantasmas.
O Dr. Morton preparou uma injeção. Scoobey
observou-o com uma expressão de desconfiança.
— Isso o acalmará — disse Morton e
aplicou-lhe a agulhada.
— Muito obrigado, doutor — disse Everson.
— Walt, volte ao seu trabalho.
Quando Scoobey não podia mais ouvi-lo, o
Dr. Morton disse:
— As coisas não estão boas?
Everson confirmou com um gesto.
Goldstein estava estendido rígido na cama.
O médico afastou-se. Seus passos ressoaram
no passadiço de alumínio. Assim que o ruído cessou, Everson sentiu-se dominado
pelo desânimo.
* * *
Gonzáles Ramirez entrou no camarote e
suspirou aliviado. Era um rapaz magro, de estatura mediana, que havia pouco
prestara os exames finais na Academia Espacial. Até então, só fizera trabalhos
de rotina. Porém sempre existia alguma diferença entre ficar numa sala de aula
da Academia ou trabalhar no espaço.
Ramirez sentou-se numa confortável
cadeira. Descansaria algumas horas e voltaria para junto de Mataal, a fim de
ensinar a língua arcônida ao epanense. Muito alegre, Gonzáles lembrou-se das
dificuldades que essa língua cheia de vogais lhe causara há poucos anos.
Tirou o casaco. Viu a pele morena dos
braços. Teve uma vaga lembrança de dias quentes de verão, areias escaldantes, gritos
estridentes de crianças de olhos negros e do cheiro das tortillas. Imaginava-se no México.
Sem querer, Ramirez estalou a língua.
Recostou-se confortavelmente na cadeira. O México era o passado: um mundo
quente e colorido situado em algum lugar do planeta Terra. E o futuro? Os dedos
de Ramirez tatearam o mapa estelar, preso à parede por pequenos estiletes.
Aquilo era o futuro. Parecia satisfeito. Ficou sonhando de olhos abertos.
Ouviu alguém abrir a porta do camarote.
Levantou-se de um salto.
Será que dormira?
Mas não havia ninguém no recinto. Talvez o
visitante tivesse saído para não despertá-lo. Levantou-se apressadamente para
verificar.
Porém o longo corredor estava vazio.
Lembrou-se das alucinações de Finney, e
das palavras que este dissera a Everson. Depois balbuciou:
— Pensei que houvesse alguém por perto.
Sorriu. Deixou-se impressionar por Finney.
Dirigiu-se à cama e alisou as cobertas. Pretendia dormir um pouco antes de
voltar a falar com Mataal.
Gonzáles Ramirez, o galã da Academia,
ajeitou-se e fechou os olhos.
Subitamente ouviu a porta abrir-se. Ouviu
nitidamente e com plena consciência. Seu corpo contraiu-se.
Porém manteve os olhos fechados e procurou
convencer-se de que se enganara. Há instantes olhara pela porta do camarote e
não vira ninguém. Deveria fechar firmemente os olhos e acreditar que se
enganara.
Mexeu-se de um lado para outro.
Esforçou-se obstinadamente para pensar em sua terra natal. Areias escaldantes,
a gritaria das crianças e o vento cálido que soprava sobre as montanhas. A voz
da mãe que lhe recomendava que sempre se conduzisse com decência e a voz
potente do pai, que costumava ficar sentado na varanda ao sol do entardecer.
De repente, ouviu a porta ser fechada.
Soltou um grito de pavor e abriu os olhos.
Seu coração palpitava fortemente. O suor gotejou em sua testa. Tremia por todo
o corpo. Passou a língua pelos lábios ressequidos.
Não viu nada; o camarote estava vazio.
Saiu apressadamente da cama e vestiu o
casaco. Não havia a menor dúvida de que estava ficando pouco. Que nem Finney!
Finney? Seria possível que dois homens
sadios e normais apresentassem simultaneamente os mesmos sintomas de loucura?
Ramirez esteve a ponto de procurar o Dr. Morton, mas desistiu de seu intento.
Alguém iria gracejar.
Pensariam que ele era um cadete inexperiente,
no qual poderiam meter medo. Sabia que os velhos astronautas gostavam de
divertir-se à custa dos calouros. Apenas esperavam que corresse para junto do
Dr. Morton, todo assustado, e se submetesse a um exame. O “espetáculo” apresentado por Finney fazia parte da gozação e, ao que
parecia, até o comandante participava da brincadeira.
Mas não se deixaria enganar tão
facilmente. Mais calmo, voltou para a cama.
Não teve de esperar muito tempo até que
ouvisse novamente o ruído na fechadura.
“É
melhor fingir-me de surdo”, pensou. “Esses
espertalhões vão acabar desanimando se me encontrarem dormindo tranqüilamente.”
A porta fechou-se abruptamente. O cadete
teve de esforçar-se para não sorrir. Apoiou-se no travesseiro. Em tom de
deboche fez:
— Buuuuh!
Depois abriu os olhos. Mas já era tarde...
* * *
O Coronel Marcus Everson subiu à sala de
comando, apoiando-se ao corrimão da escada. O girino estava prestes a realizar
a primeira transição. Com os cabelos desgrenhados, Scoobey corria entre as
calculadoras eletrônicas, a fim de conferir as coordenadas.
— Tudo preparado, coronel! — gritou para
Everson.
— Ligar neutralizador de freqüência —
ordenou Everson.
Esse instrumento de alta precisão servia
para evitar que qualquer estação pudesse medir a transição de uma nave
espacial. Seu equivalente era o rastreador estrutural, que permitia determinar
a posição exata de uma nave no momento em que a mesma saía do hiperespaço. Era
um dos tantos benefícios que o Império Solar devia a seu fundador, Perry
Rhodan.
— Neutralizador de freqüência funcionando
— gritou Fashong, um pequeno astronauta chinês com voz gutural.
Everson acomodou-se em sua poltrona. O
braço de apoio virou-se. O dispositivo hidráulico que movia as barras
telescópicas da poltrona emitiu um leve chiado. Todas as instalações da nave
despertaram para a vida.
— Paralisar os aparelhos de rádio —
ordenou Everson.
— Telerrádio paralisado — confirmou Maria
Landi, oficial-chefe do setor de rádio.
— Rádio de bordo paralisado — anunciou
Ralf Zimmermann.
Os minutos seguintes passaram-se entre as
ordens de Everson e as confirmações de suas execuções. Scoobey fez sua poltrona
girar em direção a Everson.
— Ramirez está ausente — cochichou.
Everson examinou os homens que o cercavam.
Sentiu a falta do cadete. Ramirez não tinha qualquer tarefa específica durante
o salto, mas sua presença era indispensável. Devia colher experiências, para um
dia poder conduzir as naves pelo espaço.
— Será responsabilizado pelo ato de
indisciplina — disse Everson em tom contrariado. — Provavelmente ainda está em
companhia de Mataal e deixou-se envolver em discussões grandiosas.
“Prosseguir! — disse com a voz forte. —
Scoobey, verifique as máquinas robotizadas.”
Nenhum cérebro humano seria capaz de
resolver os problemas matemáticos extremamente complexos que os computadores
eletrônicos solucionavam numa questão de segundos. Everson sabia perfeitamente
em que extensão o homem dependia dessas máquinas. Talvez um dia poderia ser
capaz de mover-se entre as estrelas sem o auxílio das mesmas. Everson lembrou-se
dos mutantes teleportadores, que abriram novas perspectivas.
Será que o fato de a Humanidade não ter
avançado nesse terreno era devido exclusivamente à falta de uma melhor
compreensão do Universo? Será que a astronáutica técnica era apenas uma obra
fragmentária?
Everson não encontrou respostas a estas
perguntas.
Concentrou-se apenas na tarefa que tinha
diante de si.
— K-262 preparada para a transição —
gritou Scoobey com a voz rouca.
Os homens no interior da esfera de
sessenta metros de diâmetro pareceram encolher-se. O salto, que os levava do
Universo em direção ao para-espaço, onde o tempo e o espaço perdiam todo
significado, nunca deixava de ser fascinante.
— Cento e oitenta segundos para a
transição — anunciou Fashong.
Everson deixou que um minuto se passasse.
— Verifique as máquinas, Walt — ordenou.
Os olhos treinados do imediato abrangeram
todos os controles.
— Sessenta segundos para a transição —
disse Fashong com a tranqüilidade típica do asiático.
— Então, Scoobey? — perguntou Everson.
— Tudo em ordem — foi a resposta.
— Fashong e os outros?
O coronel aguardou a confirmação de todos.
Depois deu a última ordem anterior ao salto.
— Iniciar a contagem regressiva, Fashong!
Dali a dez segundos, a Fauna rompeu a
estrutura espaço-temporal, mobilizando um volume de energia suficiente para
pulverizar uma lua. Num espaço de tempo que não era mensurável por qualquer
poder do Universo, o vôo da pequena nave transformou-se no deslizar de uma
entidade fantasmagórica. Um tempo zero e uma eternidade se passaram. Todos os
pontos de referência perderam a validade. O irreal ocupou o espaço. As
moléculas e os átomos desfizeram-se, deslocaram-se, dilataram-se e voltaram a
reunir-se que nem um gigantesco caleidoscópio que sempre oferece quadros novos
ao observador.
Logo que o salto findou, Everson ordenou:
— Verificar posição!
Recebeu a confirmação de que a primeira
transição fora bem sucedida. A K-262 encontrava-se exatamente no setor
previsto. Mais dois saltos colocariam a nave nas proximidades do Sol.
Everson encolheu os apoios telescópicos de
sua poltrona e desceu.
— Assuma, Walt — gritou para Scoobey.
— Não se esqueça de Ramirez — disse o
pequeno oficial.
Everson confirmou com um gesto.
Resolveu não chamar o mexicano pelo
sistema de intercomunicação. Seria preferível falar com ele pessoalmente. Teria
de moderar o entusiasmo que o cadete sentia por Mataal. Não era possível que o “gladiador” chegasse ao ponto de fazê-lo
esquecer.
Sem apressar-se, o coronel chegou ao
camarote de Mataal e entrou imediatamente. O epanense estava dormindo.
Ergueu-se devagar.
— Já está de volta? — perguntou em tom
contrariado.
— Ramirez esteve aqui?
— Por enquanto não — respondeu Mataal. —
Mas já que me acordou, pode pedir que venha cá. Infelizmente não tenho
permissão para sair daqui.
Everson não deu atenção às palavras um
tanto agressivas de seu interlocutor. Estava preocupado com o cadete.
Onde estaria?
O coronel andou apressado pelo passadiço.
Bateu energicamente à porta do camarote de Ramirez. Não aconteceu nada. Everson
praguejou contra todos os cadetes e abriu violentamente a porta. Seu grito de
espanto ficou preso na garganta.
Ramirez achava-se estendido no chão, perto
da cama. Esta estava desarrumada, como se tivesse havido uma luta violenta.
Everson suspirou aliviado ao constatar que o rapaz estava vivo.
Os olhos do mexicano apresentavam uma
rigidez cadavérica. Os cabelos estavam arrepiados.
— Ramirez — perguntou Everson — o que
houve?
O cadete não pôde responder. Seu corpo
estava contorcido. Everson obrigou-se a refletir calmamente. Pela segunda vez
no espaço de poucas horas usou o microfone para chamar o Dr. Morton.
Lembrou-se das palavras de Goldstein:
“—
Eu trouxe a morte para dentro da nave.”
Será que realmente falara sério? Teria o
mutante trazido uma doença contagiosa a bordo da nave girino?
Everson sacudiu a cabeça. O planeta Epan
fora cuidadosamente analisado...
O Dr. Morton não se fez esperar. Sem dizer
uma palavra, empurrou o comandante para o lado e inclinou-se sobre Ramirez.
— Ainda está vivo? — perguntou ao médico.
Este confirmou com um gesto.
— O que será, doutor?
— Está totalmente paralisado. Conheço
diversos venenos que provocam esse efeito. Veja!
Moveu as mãos diante dos olhos de Ramirez.
Este não apresentou qualquer reação.
— Acha que alguém o envenenou? — perguntou
Everson.
— É claro que não. Ajude-me, coronel;
vamos colocá-lo na cama.
Levantaram o corpo do cadete. O médico
respirava pesadamente, enquanto fazia o exame.
— Será que sofreu algum choque? —
perguntou o coronel. — Ou acredita se tratar de uma doença desconhecida?
O Dr. Morton coçou a barba. Seus olhos já
não espelhavam nenhuma alegria.
— Os motivos podem ser vários — disse. —
Será preferível colocarmos este camarote sob quarentena. Permita que submeta o
epanense a um exame rigoroso. Ramirez esteve muitas vezes em contato com ele.
— Faça o que acha que deve ser feito.
Enquanto isso, reunirei a tripulação — disse Everson.
Deixou que o médico ficasse a sós com
Ramirez. Dali a pouco, sua voz foi ouvida em todos os cantos da nave.
— Todos os homens, inclusive os que estão
de folga, devem comparecer à sala de comando. Espero-os dentro de três minutos.
Scoobey aproximou-se dele. A presença do
imediato deixou Everson um pouco mais aliviado. A atividade e a agilidade de
Scoobey sempre irradiavam certo otimismo.
— O que houve com Ramirez? — perguntou
Scoobey com a voz preocupada.
— Está totalmente paralítico. Mataal
afirma que o cadete não esteve com ele.
Fashong, o chinês, apareceu na sala de
comando e se enfileirou entre os outros, mantendo-se numa atitude de expectativa.
Everson esperou que todos chegassem. O médico foi o último. O jaleco amassado e
desajeitado ressaltou-se ainda mais em meio àqueles homens bem uniformizados.
Everson sentiu olhares curiosos pousados nele.
— Suponho que todos estejam informados
sobre o que se passou em Epan — principiou o coronel em tom tranqüilo. — Todos
sabem em que estado se encontra Goldstein. O Dr. Morton poderá fornecer os
detalhes. Vimo-nos obrigados a introduzir um nativo epanense no girino. Por uma
questão psicológica ainda não pude apresentá-lo aos senhores. Peço-lhes que
compreendam as novas impressões a que esse homem está exposto. Um confronto
excessivamente repentino com nossa civilização poderia produzir danos graves em
sua personalidade. Foi este o motivo de minha cautela, que muitos interpretaram
como um jogo de mistérios.

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