terça-feira, 10 de setembro de 2013

P-075 - O Universo Vermelho - K. H. Scheer [parte 3]

A disenteria de Lloyd só podia ser infecciosa. A limpeza impecável reinante nas naves e o estado excelente das instalações sanitárias colocavam para trás até mesmo aquilo que vira nas unidades de meu povo.
Estive a ponto de perguntar a Lloyd por que não se apresentara ao médico assim que surgiram os primeiros sintomas da doença. Mas preferi não fazê-lo. Não adiantaria falar sobre coisas que não podiam ser remediadas. Naquela hora já deveria estar sendo torturado pelas auto-recriminações.
Sem dizer uma palavra, Rhodan começou a quebrar algumas pedras pontudas que se encontravam na cumeeira do “dique”. Observei-o.
Durante a breve palestra que mantivera com Lloyd, esquecera totalmente minhas dores. E, a essa hora, já não eram tão fortes, pois não me impediam de executar qualquer movimento.
— Darei uma olhada lá fora, para ver como está nossa camuflagem — disse. — Você ficará aqui. O.K.?
Fez um ligeiro sinal para Lloyd, que se mantinha deitado a nosso lado.
Rhodan atravessou a estreita fenda. O material de seu traje espacial era resistente. Dificilmente se rasgaria. Observei-o tranqüilamente enquanto caminhava por entre as rochas.
Minha mão segurava a pesada arma térmica automática, que os terranos costumam chamar de radiador de impulsos. Na situação em que nos encontrávamos, qualquer resistência seria inútil. Apesar disso, estava firmemente decidido a dar-lhe cobertura, se houvesse algum ataque.
Lá fora, o sol escaldante já alcançara o lugar em que se encontrava nossa base. As poucas sombras restantes desapareceram, e, dali a alguns minutos, senti-me ofuscado ao contemplar a ampla paisagem do deserto.
Rhodan desapareceu ao longe. Vista daqui, aquela área parecia um profundo abismo onde era impossível enxergar nitidamente.
— Tudo bem, almirante — comunicou o telepata.
Comprimiu seu capacete ainda mais fortemente contra o meu.
Fiz um sinal para Lloyd. Talvez um pouco de atividade mental até lhe fizesse bem, pois lhe faria esquecer os sofrimentos.
Dali a uns três minutos ouvi o sinal de meu receptor. Rhodan estava chamando pelo rádio.
— Você está louco? — interrompi-o assim que proferiu as primeiras palavras. — Poderão fazer a localização goniométrica.
— Que nada! Estou transmitindo com 0,2 watts. Além disso não vejo nada que pudesse captar a transmissão. Estou a cerca de um quilômetro, dentro da área de sombra. Como são as coisas vistas do outro lado?
— Do meu lado?
— É claro que sim!
— Que linguagem grosseira — observei. — Fique tranqüilo; não o vemos e nem a qualquer outra coisa que esteja no lugar onde você se encontra. O sol ofusca tremendamente. Para mim, por aí só existe a noite.
— Excelente. Em compensação, visto daqui, o paredão de rocha é um quadro confuso e apagado. Da parede da caverna não se vê nada; só consigo identificar o local de entrada por determinados sinais. Aposto que não nos encontrarão.
— Se você continuar transmitindo, eles logo nos encontrarão.
— O.K. Já vou parar, seu pessimista. Não, não fique nervoso. Realmente poderíamos ter decolado um dia antes. Assim teríamos evitado tudo isto. Lloyd, como vai? Quer sair um pouco? Isso talvez possa distraí-lo.
— Prefiro não sair, Sir — disse Fellmer em voz baixa. — Sinto-me muito mal. Será que poderia ajudar-me a conseguir um pouco de oxigênio?
Senti que empalidecera. Oxigênio? Por que estaria pedindo oxigênio? Havia uma norma estrita segundo a qual o sistema de regeneração de alta pressão devia ser carregado e verificado todos os dias. Será que negligenciara essa norma primária? Não, não era possível.
A reação de Rhodan também foi de espanto.
— Oxigênio? Não, Lloyd, isso não é possível. O regenerador fica sob o revestimento do traje. Não conseguiremos alcançá-lo. O que houve? Está com falta de ar?
Virei a cabeça para ver o doente. No momento em que sentiu meu olhar, ficou muito embaraçado. Desconfiei de alguma coisa.
— Não senhor — gaguejou Lloyd. — Meu aparelho está em ordem. Será que posso arriscar-me a soltar o enchimento pressurizado de meu traje pela válvula de regulagem? Depois faria a recarga com o suprimento das garrafas.
— Está certo; mas por quê?
— Não se faça de criança — intervim em tom grosseiro. — Seu ar está gasto; procure compreender. Quando surge uma disenteria e simultaneamente ocorre a falha das instalações sanitárias, isso pode acontecer. Está bem, Lloyd, solte o gás. O suprimento de oxigênio de seu traje normalmente daria para oito dias, tempo terrano. Prepare-se para ter oxigênio apenas para quatro dias. Comece logo! Ponha para fora esse ar envenenado.
Ajudei-o a abrir a válvula de regulagem na parte traseira do capacete. A pressão baixou rapidamente. Assim que a zona de perigo foi atingida, injetei o oxigênio das supergarrafas no circuito regenerador. Os recipientes de aço de Árcon estavam aferidos para uma pressão de dez mil atus.
Rhodan praguejava baixinho e em tom amargurado. Suas palavras não se dirigiam contra Lloyd, mas contra a situação em que nos encontrávamos. Interrompi-o em tom mordaz:
— É interessante que alguém ainda ache que tem de praguejar. Parece que, durante suas alegres expedições de conquista espacial, vocês nunca passaram por uma como esta, não é? Depois dos êxitos iniciais, vocês ainda conhecerão muitos reveses. Tenho plena certeza do que estou afirmando.
— Cale-se, arcônida.
— Não pude deixar de dizer isto. Procure voltar à galeria. Na minha opinião, a qualquer momento poderá aparecer uma nave dos druufs.
Rhodan não disse mais nada, pois não havia mesmo o que dizer. Em compensação vi-o de repente, quando saía da sombra. Uma luminosidade ofuscante surgira no firmamento sombrio.
— Não está com medo, mas sabe correr — falei em tom irônico.
Lloyd soltou uma risadinha. Achei-o muito simpático.
Rhodan apareceu fungando e com as pernas cambaleantes. Arrastei-o rudemente pela abertura. Seu rosto estava coberto de suor. Comprimi um botão e desliguei seu transmissor.
Dali a alguns minutos, um monstro negro, banhado pela luz forte do sol, desceu sobre as colunas chamejantes feitas das partículas de impulsos. Ouvia-se perfeitamente o rugido profundo do mecanismo propulsor. O impacto dos raios de empuxo fez a montanha estremecer. Lancei um olhar preocupado para o revestimento das paredes. Mas estas nem sequer apresentavam as fendas características de solicitação excessiva.
No momento em que a nave dos druufs mergulhou na sombra da Cordilheira da Esperança, apenas percebi-lhe vagamente os contornos. Pousaram na área de penumbra, tal qual esperávamos. Nenhuma criatura dotada de mediano bom senso desceria justamente sob os raios escaldantes do sol.
— Ainda bem! — disse Rhodan em voz baixa. — Agora vão dar uma olhada.
Também dei uma olhada; apenas, minha atenção foi dedicada ao aparelho de múltiplas finalidades que trazia no pulso.
Estávamos sendo atingidos em cheio pelos raios do sol. Dentro de alguns minutos, a temperatura subira para 68 graus centígrados. Lá fora o calor devia ser ainda maior.
Nossos trajes protetores estavam equipados para proteger-nos de temperaturas até quinhentos graus por meio da simples reflexão e do funcionamento do sistema de condicionamento.
Se as coisas ficassem piores que isso, não haveria outra alternativa senão ativar o campo energético defensivo, mas este, sem dúvida, possibilitaria nossa localização. Fazia votos de que não fôssemos obrigados a recorrer a esse equipamento. Bastava que o microrreator destinado ao suprimento de energia estivesse em funcionamento.
O corpo de Fellmer Lloyd contorceu-se sob os efeitos de mais um ataque de cólicas intestinais. Assim praticamente se tornara inútil como telepata. Segui o olhar de Rhodan, mas tive de notar que a luz verde do transmissor de matéria continuava apagada.
Trocamos um olhar indagador. O que teria acontecido com a Califórnia? Será que não conseguira atravessar a barreira? Se conseguiu, por que a Drusus ainda não chegara?
Num movimento muito lento, Rhodan tirou o radiador de impulsos do cinto. No momento em que a luz vermelha de carregamento da arma se acendeu, compreendi que não estava disposto a tornar-se prisioneiro dos druufs sem lutar. Aliás, nem tínhamos certeza de que esses seres conhecessem o aprisionamento de inimigos.
Durante a grande guerra do metano, travada há dez mil anos, poucos prisioneiros foram capturados. Nenhuma das partes dispunha de meios que permitissem criar condições adequadas de vida para os inimigos subjugados. Se o inimigo respirasse oxigênio, ou se nós respirássemos metano, as coisas teriam sido melhores.
Ficamos à espera. Da grande nave, que se erguia uns trezentos metros em direção ao céu da área de penumbra, só se via a ponta em semi-esfera. A nave dos druufs repousava sobre as largas aletas de popa que, segundo tudo indicava, só haviam sido escamoteadas pouco antes do pouso.
— Gostaria de conhecer o hiperpropulsor dessa gente! — disse Rhodan em tom tranqüilo.
O bárbaro mantinha uma calma admirável. Naquele momento eu não me interessava nem um pouco por esse aparelho. Estava refletindo — atividade que, segundo as palavras de um homem inteligente, é a própria arte da inteligência.
Na planície branca tudo continuava imóvel. À medida que fixávamos o olhar, os contornos da nave estranha se destacavam na sombra da zona intermediária. Aos poucos, a vista se acostumava à estranha iluminação.
Fellmer Lloyd estava quase inconsciente. O último ataque pusera-o fora de ação. Os dotes telepáticos de Rhodan eram tão reduzidos que não permitiam qualquer conclusão precisa. Esforçava-se para captar os pensamentos dos druufs, mas não conseguiu identificar os impulsos cerebrais que chegaram à sua mente.
— De qualquer maneira são totalmente inumanos — constatou depois de algum tempo. — Não sei o que fazer? Quando será que essa gente vai aparecer?
Vieram dali a quinze minutos. Provavelmente, antes disso, haviam dado uma busca rigorosa com seus instrumentos de localização.
Foram bastante inteligentes para desistirem desde logo de andar a pé sob aquele sol escaldante. Apenas vimos vários veículos achatados, de forma elíptica que, segundo tudo indicava, se locomoviam sobre campos magnéticos. Não dispunham de rodas ou esteiras.
Mais uma vez, me convenci de que esses seres deviam ter desenvolvido uma tecnologia bastante avançada. Era claro que sabiam perfeitamente o que os esperava em seu próprio sistema solar. Por isso usavam o tipo de aparelhamento que melhor se prestava às tarefas que teriam de executar.
Prendemos a respiração quando três dos veículos deslizantes passaram lentamente pela abertura de nossa caverna. Vi as antenas giratórias e as lentes vermelhas das objetivas, que provavelmente faziam parte de um sistema de imagens óticas.
Muito tensos, ficamos com as armas engatilhadas até que tivessem passado. Dali a três horas, a nave estranha decolou com um ruído trovejante. Assim que o silêncio voltou a reinar, suspirei aliviado. Rhodan voltou a colocar a arma no cinto.
— O.K., então foi isso — disse. — Não voltarão. Provavelmente eu também não teria tido a idéia de que bem embaixo de meu nariz houvesse uma pequena base de uma raça desconhecida. É um atrevimento, não é?
Não pude deixar de concordar.
Passamos a cuidar do mutante. Seu ar respirável já estava poluído de novo. Se as coisas continuassem assim, o suprimento de oxigênio de Lloyd não duraria muito. Lançamos um olhar ansioso para o transmissor. Mas a luz verde não se acendera, o que demonstrava que ninguém havia ajustado um aparelho receptor.
Dirigi-me ao local de pouso da nave dos druufs. Tinha a esperança de encontrar alguns objetos esquecidos.
Mas não descobri nada além da superfície vitrificada, que ainda se mantinha incandescente.


8



Durante 72 horas passamos acordados ou em cochilos, esperando sempre que a luz verde do transmissor se acendesse. Não havia nada que tanto preenchesse a escala dos nossos desejos ardentes como o surgimento daquela luz de controle.
Ainda havia a doença de Lloyd. Esta não só representava uma ameaça indireta à sua vida, mas constituía uma carga adicional. Seu ar pressurizado teve de ser renovado muitas vezes. Não encontramos nenhuma possibilidade de limpar os gases impregnados de toxinas. O regenerador de ar não previa uma hipótese como esta. Sem dúvida tratava-se de um erro de nosso traje.
O ar de Fellmer Lloyd não daria para mais de doze horas. Se até lá não pudesse tirar seu traje, estaria irremediavelmente perdido.
Há dois segundos a lâmpada finalmente começara a tremeluzir. E agora brilhava tão fortemente como se nunca tivesse ficado apagada.
Não perdemos tempo. Se a Drusus finalmente conseguira romper a barreira, até os segundos deveriam ser contados.
Rhodan e eu erguemo-nos de sopetão do leito improvisado, montado por meio do material abandonado. Lloyd repousava apaticamente a nosso lado. Seu rosto estava pálido e flácido. Parecia ter perdido todas as energias.
— Levante-se, Lloyd! — gritou Rhodan. — Lloyd, a luz de controle está acesa. A Drusus ligou para a recepção. Venha!
O exemplo de Lloyd demonstrou que, conforme o caso, a criatura humana sabe mobilizar reservas imensas de energia. Até parecia que, no interior do mutante, estivesse sendo ligado um motor de enorme desempenho energético, que até então ficara parado.
Subitamente seus olhos clarearam. Olhei pelo visor de seu capacete e vi um rosto de traços duros, com rugas profundas entre a boca e o nariz.
— O.K. — limitou-se a dizer.
Naquele instante era a concentração em pessoa. Percebi que guardara para esse momento todas as energias orgânicas restantes.
Sem precisar de auxílio, correu para os fundos da galeria, onde o transmissor de elevada potência quase chegava até o teto.
Rhodan havia colocado em funcionamento o sistema de suprimento de energia. Já estava tudo preparado. Bastava mover algumas chaves para que o aparelho entrasse em funcionamento.
As coordenadas de transporte foram fixadas com uma precisão de três casas decimais. Nos últimos três dias verificáramos e corrigíramos constantemente as tolerâncias no dispositivo de entrada.
Rhodan foi o primeiro a subir à grande plataforma metálica que ficava numa grade circular. As traves da grade chegavam bem acima de nossas cabeças, e nela se apoiava a cúpula polar que emitia um brilho semelhante ao do cobre.
Era ali que o campo de desmaterialização desceria sobre nós. Com as mãos trêmulas enfiei os pés de Lloyd nos contatos das presilhas do solo. Bastou comprimir um botão para fechar a entrada.
Pela primeira vez compreendi por que esse tipo de transmissor foi construído de modo a depender de um suprimento de energia autônomo. Na situação em que nos encontrávamos, não poderíamos contar com outra fonte de energia.
Rhodan fez as ligações preliminares. Demorou apenas alguns segundos até que o leve zumbido que saía da base do aparelho se transformasse num ruído trovejante.
Uma parede energética vermelho-pálida desceu pela grade e entrou em contato com o campo luminoso que se formara junto aos pólos do piso.
Nossos sentidos ainda funcionavam. Mas no momento que antecede um salto de transmissor, o raciocínio é encoberto por angústias dificilmente controláveis, que irrompem das profundezas do subconsciente.
O sentimento natural do indivíduo rebelava-se contra a desmaterialização. Quanto mais desenvolvido o instinto de autoconservação, mais difícil se tornava controlar a angústia da desmaterialização.
Colocáramos Lloyd entre nós. O campo energético luminoso parecia incendiar a caverna.
Rhodan aparentou uma calma tocante. Esforcei-me para também parecer calmo. Nunca realizara um salto de transmissor por uma distância de dois anos-luz, muito menos com um instrumento montado na superfície.
Lembrei-me da instabilidade física do Universo dos druufs. Se enfrentáramos tamanhas dificuldades com uma simples transição, o que não poderia acontecer num processo de transporte físico-mecânico?
Rhodan talvez pensasse nos mesmos problemas. Sempre que seu rosto assumia um ar tão indiferente como nessa hora, refletia intensamente sobre assuntos importantes.
A campainha soou dentro de três segundos, que me pareceram uma verdadeira eternidade. Lloyd fitou-me. Seus olhos escuros pareciam chispar. Fazia um esforço total para controlar-se.
Meu sorriso deve ter sido um pouco desanimado. Comprimi o acionador do mecanismo de salto, que ficava do meu lado.
Os últimos pensamentos fugazes, que me acudiram à mente, foram dedicados ao desempenho energético do transmissor. Não seria possível localizá-lo com um rastreador estrutural comum, porque seu funcionamento não causava ondas de choque estruturais. Mas se haviam inventado um aparelho adequado...
A dor da desmaterialização foi tão intensa que ouvi meu próprio grito. Parecia que um cirurgião iniciara uma operação antes que a anestesia estivesse completa.
A última impressão transmitida por meus sentidos foi a figura contorcida de Rhodan. No momento em que teve início o processo de desmaterialização, seu corpo tornou-se quadrado e alargou-se.
Depois senti apenas a dor lancinante. Ao que parecia, o Universo dos druufs ainda não se estabilizara inteiramente.
Finalmente não houve mais nada. Era possível que a tessitura dos nervos muito sensíveis fosse a última a dissolver-se. Na verdade, um organismo dissociado nos átomos que o compõem não deve sentir mais nada...
Porém, tem-se a impressão de cair no interior de uma espiral de fogo.

* * *

A dor ardente de todos os nervos parecia ter acompanhado o processo de transporte fictício. Assim que este teve início no aparelho receptor, ao choque costumeiro de rematerialização juntou-se o remanescente do processo de dissolução.
Não via nada, embora já tivesse voltado a existir fisicamente!
Devíamos estar na plataforma há algum tempo, em estado de semi-inconsciência, ou então alguma coisa não estava em ordem com o aparelho.
Fiquei aliviado ao perceber que conseguia mover as mãos e os braços. Alguém tateou em minha direção.
Era Fellmer Lloyd, que me apertava fortemente. Compreendi que estava mais ou menos bem. Névoas vermelhas passavam diante dos meus olhos. Por aqui tudo parecia ser vermelho. Aos poucos, comecei a odiar essa cor.
Tive a impressão de ouvir alguém chamar ou gritar. Levei algum tempo para ouvir meu nome. Dali a pouco consegui enxergar. O rosto de Lloyd foi surgindo em meio à névoa. Depois vi Rhodan sentado no chão do transmissor. Com movimentos inseguros, Perry procurava desprender os contatos dos pés.
Não; aquilo nem eram contatos. E também não nos encontrávamos numa plataforma redonda como a de qualquer transmissor terrano.
O que tocávamos com as grossas solas de aço plastificado parecia ser feito de pedra polida. Em meu cérebro surgiu uma dor surda e opressiva, que recrudesceu fortemente assim que o setor lógico de minha mente despertou, para logo a seguir desaparecer de súbito.
Erro de salto. Ambiente estranho, que não se identifica com o da nave terrana”, anunciou meu segundo cérebro.
Finalmente despertei da estranha rigidez. Os ruídos que acreditara serem sons trovejantes eram causados por minha unidade energética individual. O gravômetro de capacete indicava uma compensação de 0.95G. Isso significava que nos encontrávamos num mundo ou numa nave onde a gravidade chegava a 1.95G.
Esse fato indiscutível me fez acordar de vez. Afinal, não é uma característica exclusivamente humana de, numa situação imprevista, pegar antes de tudo e quase inconscientemente a arma. Antes que Fellmer Lloyd compreendesse o que estava acontecendo, segurava meu radiador de impulsos.
— O que houve? — perguntou em tom apressado. A voz que saía do capacete pressurizado soava abafada.
Rhodan seguiu meu exemplo. Também parecia ter-se recuperado da estranha debilidade.
Só depois olhei em torno.
Encontrávamo-nos num recinto muito grande, escassamente iluminado, com teto abaulado e sem emenda. À nossa frente, uma abertura em arco levava para o ar livre. Mas lá a escuridão era ainda mais forte que no interior do recinto.
A instalação existente na sala consistia unicamente em alguns conjuntos de gigantescas máquinas, dispostas ao longo das paredes, e no aparelho em que nos encontrávamos naquele momento.
Tratava-se de uma “prisão” sem teto visível. Nossos pés tocavam a pedra nua, que não nos transmitia a sensação de conforto nem de segurança.
Bem acima de nossas cabeças, junto ao teto abaulado, uma esfera metálica vermelha e incandescente pairava no ar. Era dali que saía a luz repugnante. A “prisão” era cercada por uma área circular de cerca de dez metros de diâmetro, mas as respectivas barras ficavam tão longe umas das outras que poderíamos passar sem qualquer esforço.
Uma das características de Perry Rhodan consistia em, numa situação complexa como aquela, fazer observações que nada tinham a ver com as primeiras impressões que investiam sobre a mente.
— Temos ar respirável! — disse em voz tão alta que consegui entendê-lo perfeitamente. — Lloyd, abra o capacete. Isso é uma chance para você.
Lancei um olhar rápido para o analisador automático. Até então as reações do mesmo sempre haviam sido precisas. Realmente, por aqui havia oxigênio, nitrogênio e uma quantidade surpreendente de gases raros. O teor de hélio e argônio quase chegava a ser excessivo. Era bem verdade que o barômetro indicava 830 milibares. Lloyd poderia arriscar-se a poupar seu ar engarrafado, que começava a ficar escasso.
Mantinha-se de pé a meu lado, em atitude apática. Bati com a mão no fecho magnético de seu capacete. Este abriu-se silenciosamente. Um fluxo de ar poluído e venenoso foi expelido do traje.
O mutante aproveitou o momento para reunir as últimas reservas de energia, a fim de transmitir uma notícia alarmante.
— Viemos parar entre os druufs. Alguém se aproxima, vindo de fora. Sinto perfeitamente impulsos mentais estranhos. Não percebo com nitidez o que o desconhecido está pensando. Seus pensamentos são muito estranhos, totalmente inumanos. Até parece um animal semi-inteligente que esteja sendo controlado por meio de campos corporais superpostos. É só, Sir!
Também abri meu capacete. Fiquei surpreendido com a boa qualidade do ar, mas tive de acostumar-me à elevada pressão externa. Senti um zumbido nos ouvidos. Cutuquei-os com os dedos, abri fortemente a boca e finalmente limpei os olhos incrustados. Para um arcônida, era muito agradável manter-se por um tempo prolongado no interior de um traje espacial, pois o estado de excitação aumenta o teor de umidade de nossos olhos.
Rhodan foi o primeiro a passar pela grade. Com alguns saltos, colocou-se junto à entrada, abrigando-se atrás da base do caixilho da porta.
Gritei apressadamente atrás dele que cuidasse do seu gravômetro. Só então percebeu que nos encontrávamos submetidos à gravitação de 1.95G.
Lloyd arrastou-se atrás de mim. Sua capacidade de resistência quase chegara ao fim. Depois que percebi o cheiro exalado por seu traje, compreendi o que ele já sofrera.
Estacou atrás de Rhodan e encostou-se à parede. Quanto a mim, procurei abrigar-me do outro lado da entrada.
— Onde será que viemos parar? — cochichou Rhodan.
Ergui levemente os olhos.
— Não estou tão interessado em saber onde viemos parar; o que gostaria de saber é por que viemos parar aqui? — retruquei, também aos cochichos. — A regulagem do transmissor estava em perfeitas condições; não há a menor dúvida. E a luz verde estava acesa. Logo, a outra estação devia estar em recepção, e isso exatamente em nossa hiperfreqüência.
— Pois a outra estação foi esta — disse Rhodan, lançando um olhar contrariado para o aparelho disforme.
— Como pode afirmar isso? Existem milhões de possibilidades — respondi em tom exaltado. — Alguma coisa não está certa.
— Foi de certa forma o que aconteceu com nossa transição realizada em pleno sistema dos druufs. Por aqui devem existir energias superpostas das quais não temos a menor idéia. E possível que esta máquina tenha sido ligada para um fim totalmente diverso. Ligamos o contato do salto e fomos captados por ela. Tenho certeza absoluta de que as freqüências não foram idênticas. Apesar disso, fomos atingidos por elas e capturados no local errado. Uma coisa é certa: a Drusus ainda não apareceu. É uma coincidência diabólica.
Meu fígado revoltou-se, se é que no meu caso essa expressão tipicamente terrana poderia ter aplicação. Segundo os resultados de nossas investigações não poderia haver nenhuma coincidência.
— Aproxima-se — anunciou Lloyd, que mais uma vez parecia olhar rigidamente através da parede. — Não posso interpretar-lhe o conteúdo mental. Trata-se antes de um grupo de impulsos, que, no presente caso, exprime expectativa. O que estará esperando?
Rhodan refletiu por um instante.
— Espera aquilo que este transmissor deveria trazer. O aparelho foi ligado por algum motivo. Houve uma estranha superposição de campos energéticos, e por isso recebemos o sinal verde. Quer dizer que esta gente também domina a técnica da irradiação na quinta dimensão. É interessante!
— Não acredito que este aparelho seja capaz de muita coisa. Antes, parece um conjunto experimental...
Rhodan manteve-se cético. Nenhum de nós sabia exatamente do que se tratava. Por outro lado, não podíamos realizar um exame detido, pois para tanto nos faltava o tempo e os instrumentos.
— Cuidado! — cochichou Lloyd.
Subitamente também vi uma arma de radiações em sua mão, mas esta estava equipada com um dispositivo de choque.
— Experimente o choque — disse Rhodan apressadamente. — Se não resolver a situação, ainda poderemos recorrer às armas de impulsos.
Lá fora, no corredor quase completamente escuro, soou o ruído de passos pesados que se arrastavam. Parecia que alguém desenvolvia uma força desnecessária ao colocar os pés no chão.
A gravitação é de 1,95G; isso é apenas um efeito natural”, informou meu segundo cérebro.
Será que, tal qual eu, Rhodan também imaginava que provavelmente encontraríamos pela frente criaturas enormes e musculosas?
Segundo as experiências já colhidas, nos planetas habitados em que a gravitação é elevada sempre surgiram inteligências de constituição muito estável. Afinal, aqueles seres teriam de deslocar-se com certa facilidade e respirar sem esforço.
Dali a alguns segundos, vimos o druuf!
Olhamos cautelosamente para o outro lado da porta. Nos fundos do corredor vimos uma sombra escura e apagada de formato quadrático. Fiquei muitíssimo espantado.
Lentamente, lentamente demais para as nossas concepções, aquele ser de pelo menos três metros de altura caminhava em direção ao lugar em que estávamos. Minha surpresa só durou até que me lembrasse da diferença entre as dimensões temporais reinantes em nosso Universo e no plano temporal dos druufs.
Cochichei apressadamente para meus companheiros:
— Não se esqueçam de que é duas vezes mais lento que nós. Para seus padrões, ele provavelmente se desloca com uma rapidez apreciável. Pelo que diz Lloyd, se encontra numa disposição de expectativa. Geralmente a pessoa que está nessas condições apressa o passo. Quer dizer que, quanto à velocidade de locomoção, possuímos certa vantagem sobre essa gente.
Finalmente o druuf foi atingido pela luz que saía do recinto em que estávamos. Só então pudemos vê-lo perfeitamente.
Apesar da estranha configuração de seu corpo, examinei-o com calma. Lloyd soltou um gemido de pavor, enquanto Rhodan se manteve em silêncio.
Numa situação como esta, o treinamento arcônida em psicologia de raças estranhas a que eu fora submetido representava uma grande vantagem. Já não me espantava com as criaturas que a natureza, aparentemente pródiga, criava numa imensa variedade.
— Santo Deus! — foram as únicas palavras que o mutante conseguiu proferir.
Depois calou-se sob os efeitos de meu olhar recriminador. A altura do druuf chegava a uns três metros, e sua largura era equivalente à altura. Foi-se aproximando sobre as pernas disformes que antes pareciam um par de colunas. As pernas eram apenas duas, o que já representava um fator tranqüilizador. Havia dois braços muito robustos, que terminavam em estranhos órgãos preênseis finos e articulados, que pelo aspecto exterior correspondiam aproximadamente à forma humanóide.
Mas era este o único elemento de semelhança com as criaturas humanas...
O que infundia pavor era a cabeça redonda de cerca de cinqüenta centímetros de diâmetro, na qual havia quatro olhos enormes que agora refletiam a luz. Dois deles estavam no lugar “costumeiro”, enquanto os outros dois se encontravam no lugar onde ficam as têmporas humanas.
Não havia nariz ou orelhas. Além disso, não existia nenhum cabelo. A boca triangular e estreita incutiu-me uma certa idéia. Sem dúvida, esses seres descendiam de insetos. Dali resultava a incapacidade de Lloyd apreender-lhes os pensamentos por meio de sua capacidade telepática.
Ainda bem que o druuf nos dera oportunidade de examinar seu corpo grosseiro e monstruoso. Se não fosse a horrível cabeça, seu aspecto nem seria tão amedrontador, apesar do tamanho descomunal.
Acontece que eu conhecia os homens, e também sabia definir meus sentimentos. Muito embora a inteligência nos dissesse constantemente que não devemos julgar um ser pelo aspecto exterior, mas sim pelo espírito, nosso instinto sempre se rebela diante de uma visão como esta.
E, o que maior desconfiança nos causava era um ser estranho que apresentava sinais evidentes de descender de insetos ou lagartos.
Num caso desses, o sentimento humano não acompanhava a inteligência. A repugnância, desconfiança e ódio, que surgiam numa oportunidade como esta, só podiam ser reprimidos pela força da inteligência, desde que o intelecto dispusesse de força suficiente para isso.
Olhei discretamente para Rhodan. Conforme esperara, parecia lutar com seus sentimentos. Evidentemente estaria dizendo a si mesmo que o druuf não poderia ser responsabilizado pelo seu aspecto exterior. Provavelmente, na opinião daquele ser estranho, éramos também figuras monstruosas.
Rhodan conseguiu controlar-se muito depressa, mas o rosto de Lloyd ainda continuava a retratar a repugnância. Talvez isso ocorresse devido a suas faculdades especiais. Afinal, captava muito melhor que nós a essência propriamente dita do druuf.
Voltamos a abrigar-nos, pois o sentido visual do desconhecido devia ser excelente. Deslocava-se na escuridão com a mesma segurança com que nós nos movemos à luz do sol.
— Faça boa pontaria, Lloyd — disse apressadamente. — Não sabe falar como nós. Provavelmente sua base de comunicação é outra. Não deve ter tempo para emitir um pedido de socorro.
Lloyd confirmou com o rosto enojado. Os passos retumbantes cessaram por um instante. O druuf entrou tateando pela porta. Só agora compreendi por que era tão larga e alta.
Comprimi meu corpo contra a parede lisa. Rhodan também se abrigou. Quando as pernas-coluna entraram em meu campo de visão, percebi que essa raça tem pele marrom-escura semelhante ao couro, que parece uma blindagem elástica. A roupa apertada do druuf era quase totalmente transparente. Não compreendi por que achavam necessário recorrer a um envoltório artificial para cobrir o corpo.
Lloyd hesitou em disparar seu tiro de radiações. Estive a ponto de intervir com minha arma de impulsos. Mas percebi que o mutante tentava captar os impulsos do “monstro” numa posição mais próxima.
Naquele instante, o druuf parou de repente.
Vi que os olhos laterais também se viraram para a frente. Com o corpo rígido fitava a grade feita de barras metálicas brilhantes. Percebi que notava a falta daquilo que esperara encontrar ali. Estava na hora de Lloyd intervir.
No momento em que pretendia passar ao ataque ouvi o estando forte da arma de choque. Minha intervenção tornou-se desnecessária, pois o gigantesco corpo tombou que nem uma árvore derrubada.
O druuf caiu pesadamente. Segurei o crânio esférico, a fim de impedir que sofresse qualquer lesão.
Rhodan saiu de trás de seu abrigo. Os grandes olhos do desconhecido estavam muito arregalados.
Lloyd aproximou-se lentamente e a passos cambaleantes. Seu rosto estava desfigurado. Ao que tudo indicava, outro ataque de disenteria estava iminente.
— Resolvi esperar mais um pouco — disse em voz hesitante. — Pensou em alguma coisa que não entendi. Parece que se tratava de alguma carga. Sua mente estava ocupada com uma caixa ou coisa que o valha. Eu...
Subitamente Lloyd ficou calado. Gemeu e dobrou os joelhos. Arrastei-o rapidamente e deitei-o junto à entrada.
Os sofrimentos experimentados pelo mutante eram horríveis. A idéia de uma possível infecção passou pela minha cabeça, pois, com a abertura do traje espacial, seria perfeitamente possível. Mas, no momento, isso não importava.
Dirigi-me a Rhodan. O mutante disse num gemido:
— Cuidado, Sir. Este sujeito deve ter transmitido algum impulso de advertência. Não foi uma mensagem puramente telepática.
Sem dizer uma palavra, Rhodan apontou para as minúsculas saliências que havia na parte superior dianteira do crânio. Naquele instante, pendiam frouxamente para baixo.
— São tentáculos ou antenas, conforme se queira — disse. — Será que os druufs se comunicam por meio de freqüências ultra-curtas?
— Comunicação pelo ultra-som? — respondi em tom nervoso. — É possível. Conheço seres que usam esse tipo de comunicação em vez dos órgãos de fala. Ou melhor, para eles, os respectivos órgãos são usados para a fala assim como as cordas vocais o são para nós. Já que Lloyd não captou qualquer impulso telepático, deve ser isso mesmo. Dessa forma a voz do druuf só será compreensível por meio de algum aparelho auxiliar. O que acontecerá agora?
Quando mudei de assunto de modo abrupto, Rhodan estremeceu levemente. Apontou para a grade.
— Você poderia pôr isso a funcionar? Prefiro minha residência de Hades.
Sem uma série de experiências minuciosas, não saberia manipular o estranho aparelho. Nem sequer fazia a menor idéia sobre a respectiva fonte de energia.
— Seria inútil tentar.
Rhodan levantou-se lentamente. Fitou o corpo do gigante escuro, que se tornara rígido como ferro.
— Ele poderia matar-nos, apertando os braços — constatou em tom objetivo. — Está bem. Vamos colocá-lo em lugar seguro. Uma vez que tombou com facilidade, seu sistema nervoso deve ser muito sensível. Pelo que calculo, a paralisia durará pelo menos duas horas. Até lá nossa situação deve estar decidida. Em outras palavras, não há necessidade de amarrá-lo.
— Isso nunca aconteceria a um herói de romance — respondi, embora não estivesse disposto a ironizar. — Vamos olhar por aí, até que eles nos peguem. Lloyd, fique deitado aqui na entrada. Defenda-se com a arma de choques conforme e até quando puder. Como se sente?
— Miseravelmente mal, almirante. Nunca imaginei que uma coisa destas pudesse existir. Desejo-lhes tudo de bom. Sinto outra série de impulsos cerebrais estranhos. Desta vez vêm em grande quantidade. Essa gente não tem pressa de aparecer.
Verificamos nossas potentes armas de impulsos. O mutante era o único que possuía arma de choque.
— Sir, tire este monstro daqui! — gritou Lloyd em tom histérico.
Arrastamos o corpo gigantesco do druuf para o interior da sala. A “figura” era por demais anormal. Mas Rhodan resmungou:
— Não fique fazendo fita, homem! Ele apenas é um pouco diferente.
— Seja como for, Sir, sempre que o vejo não posso deixar de pensar no inferno. Ninguém vai entrar aqui!
Preferi não informá-lo de que as coisas seriam muito fáceis para os druufs.
O que poderia fazer com sua arma de choque? Era bem verdade que, apesar das armas de impulsos, nossas chances não eram muito melhores.
Fez-nos mais um sinal. Depois fomos saindo. Seria inútil andar abaixado no longo corredor para escapar aos olhos dos desconhecidos.
Por isso caminhamos eretos.
Rhodan sabia que o jogo estava definitivamente perdido. Até então, ninguém nos molestara ou atacara. Mas era certo que, se não acontecesse um milagre, nunca mais sairíamos dali.
Rhodan disse em tom indiferente:
— Acho que estamos bem abaixo da superfície do planeta. A gravitação é tremenda. Talvez tenhamos “pousado” no número dezesseis do sistema dos druufs, ou seja, no planeta principal, onde você constatou tantas fontes de energia. Lá na frente há máquinas.
Também já ouvira o ruído surdo. Caminhamos mais uns cem metros e vimos diante de nós uma gigantesca sala, que possuía numerosas saídas. Ao que parecia, por aqui as portas eram desconhecidas.
A finalidade dos mecanismos à nossa frente era evidente. Os druufs construíam seus reatores atômicos de forma mais ou menos semelhante à dos nossos. No entanto, não vimos qualquer conversor acoplado aos mesmos.
As máquinas instaladas nessa sala eram gigantescas. Utilizavam-se condutores sem fio, cuja luz ultra-azul representava a primeira iluminação razoável que víamos. O vermelho sombrio havia desaparecido.
Examinamos a grande unidade energética sem dizer uma palavra. Dali a alguns segundos, até mesmo Rhodan com suas reduzidas capacidades telepáticas sentiu a aproximação dos druufs.
— São impulsos temíveis — afirmou. — Não é de admirar que Lloyd tenha enlouquecido. Se fôssemos sensatos, jogaríamos fora as armas e ficaríamos de braços erguidos na porta, esperando essa gente.
Pisquei o olho e vi uma expressão matreira em seu rosto.
— Somos; sensatos?
Rhodan lançou-me um olhar sombrio e sacudiu a cabeça.
— O senhor poderá abrigar-se ali. Ficarei atrás da base do reator que está à minha direita.
Rhodan foi ao local indicado sem dizer uma única palavra.
Procurei um lugar apropriado e tentei avaliar a situação. Pouco atrás de mim começava o corredor pelo qual havíamos vindo. Quando o atravessamos, não notamos qualquer abertura.
Portanto, poderíamos resistir por algum tempo. Posteriormente voltaríamos à sala onde se encontrava a grade energética. Lá provavelmente nos esperaria o fim inevitável.
Se conseguíssemos encontrar algum conhecido, ou ao menos alguém que nos desse alguns esclarecimentos sobre a tecnologia totalmente diversa dos druufs, provavelmente poderíamos arriscar uma escapada. Mas, na situação em que nos encontrávamos, não nos restava outra alternativa senão ficar na ratoeira e esperar pelo que estava por vir.
Se tivesse certeza de conseguir manobrar uma das naves espaciais dessa raça, teríamos uma pequena chance de fuga.
Preferi não brincar mais com essa idéia!
Estávamos indefesos diante do que nos esperava e não teríamos outra alternativa senão pôr as mãos para o alto.
Mas não queríamos fazer isto. Se os druufs fossem humanóides, talvez valesse a pena assumir o risco. Caso eles fizessem questão de apoderarem-se de nossos corpos sadios para realizar suas experiências, que viessem buscá-los, e isso no lugar por nós escolhido.
Lancei um olhar para Rhodan, que também encontrara um bom local de refúgio.
Era claro que nossa resistência era insensata. Fatalmente haveria de chegar a hora em que conseguiriam pôr as mãos em nós. A rigor, não se deve fazer uma coisa da qual se sabe de antemão que está condenada ao fracasso.
Mas, quanta coisa não se faz sem uma finalidade específica!?
Para nós, poderia valer muito respirar por mais uma hora, em liberdade, esse ar surpreendentemente bom. Isso não era de desprezar!


9



—Tínhamos de vigiar ao todo quatro entradas. A quinta dava para o corredor que começava atrás de mim. Há poucos instantes fundira a entrada à minha direita com os raios de minha arma térmica, transformando-a num bolo escaldante de pedras, sob o qual foram atirados os corpos metálicos de dois robôs de formato estranho.
Os druufs não haviam penetrado na linha de fogo. De outro lado, também não realizaram qualquer tentativa séria de expulsar-nos de nossa posição. Ao que tudo indicava, os robôs por eles enviados nem sequer eram máquinas destinadas especificamente ao combate. Tive a impressão de que, de propósito, haviam utilizado algumas máquinas de reparos, a fim de sondar nossas reações.
Bem, nossa opinião foi expressa de forma bastante enfática: abrir fogo sem cessar.
Com isso minha consciência, que queria que enviasse aos druufs uma declaração oficial de guerra, ficou tranqüilizada. Afinal Rhodan e eu representávamos uma grande entidade estatal, cujas leis estabeleciam distinção nítida entre homicídio e ato de guerra.
Quer dizer que os druufs já sabiam como estava a situação. Dependia deles tomar as providências que julgassem adequadas.
A coronha isolada de meu radiador de impulsos já estava morna. Na câmara de fusão em miniatura, uma pequenina carga catalítica aguardava a fagulha elétrica que produziria a ignição. Uma fração da energia liberada seria absorvida pelo microconversor, que geraria a eletricidade necessária para que os campos energéticos fossem dirigidos para a câmara de reação e o cano direcional. Se não fosse assim, uma pequena bomba atômica explodiria na minha mão direita, pois, no processo de fusão a frio, a carga catalítica começava a reagir a uma temperatura pouco inferior a quatro mil graus.
Meu alvo, que era a entrada situada mais à direita, ficava a cerca de cem metros do lugar em que me encontrava. Apesar disso, o calor liberado pelo disparo já começava a atingir-nos.
Nuvens de fumaça malcheirosa espalharam-se pela sala. As máquinas foram desligadas pouco depois do momento em que abri fogo. Dessa forma, ouvimos perfeitamente o borbulhar e o chiar da lava incandescente. Ao que tudo indicava, o cheiro penetrante vinha dos robôs que fervilhavam.
Rhodan foi o primeiro a começar a tossir. Fitei-o com os olhos lacrimejantes e, num acesso de humor fúnebre, gritei:
— Que heróis não somos! Chegamos a empestear o ar que para nós é tão precioso!
Rhodan interrompeu-me com um gesto e resistiu a outro acesso de tosse. Depois gritou:
— Você já compreendeu que não querem danificar a unidade energética? Se a usina em que nos encontramos for muito importante, estaremos muito bem guardados em seu interior.
Soltei uma risada de escárnio pelo seu otimismo. Mas, afinal estes bárbaros eram assim mesmo. Só desistiriam depois que o mundo desabasse à sua frente.
Pouco antes do primeiro disparo, arrisquei-me a chamar Fellmer Lloyd pelo rádio de capacete. A resposta foi imediata. Comunicou que conseguira limpar seu traje espacial. Mas as instalações sanitárias estavam danificadas, motivo por que os reparos só poderiam ser realizados com ferramentas especiais. De resto estaca passando mais ou menos bem.
Tinha certeza de que sé sentia muito mal. Era, claro que, na situação que nos encontrávamos, preferia não nos dizer isso. O druuf, que sofrera o choque, continuava duro. Esse fato me convenceu de que realmente o sistema nervoso desses gigantes era muito sensível.
Olhei para o teto, onde devia haver as aberturas dos dutos do equipamento de climatização. Descobri algumas aberturas, mas a fumaça, que começava a tornar-se insuportável, não estava sendo aspirada pelas mesmas. Face a isso, tive certeza de que os druufs haviam desligado o sistema de renovação de ar.
Ficara escuro. A iluminação do pavilhão consistia unicamente nas esferas brilhantes vermelhas, que também aqui pairavam logo abaixo do teto. Acreditei tratar-se de antenas.
O grito de advertência de Rhodan soou em meio às minhas reflexões. Baixei a cabeça com tamanha violência que meu queixo bateu na saliência da base do reator atrás da qual me abrigara.
Furioso, ajoelhei-me e levantei a arma. Desta vez, os robôs estavam aparecendo ao mesmo tempo nas três entradas ainda não derretidas.
Ouvi o trovejar surdo da arma de Rhodan. O raio incandescente ofuscou-me. Quase não consegui enxergar. Só apertei o gatilho quando a cruz da minha mira cobria um robô esférico, que se aproximava velozmente pelo corredor largo, existente entre os grandes reatores.
No momento em que foi atingido pelo raio energético, encontrava-se a uns cinqüenta metros de distância. O disparo produziu uma ressonância dolorosa no meu ouvido. Vi o corpo esférico explodir.
Um relâmpago fulgurante subiu ao teto. Antes que fosse atingido pela onda de compressão, atirei-me ao solo e segurei a base do reator. Seguiu-se uma série de estouros tão fortes que até parecia que todo esse mundo desconhecido estava prestes a explodir.
Rhodan voltou a disparar. Percebi os raios energéticos luminosos cobrindo metodicamente as duas entradas que ficavam de seu lado. Voltei a ocupar meu posto e vi que, da entrada situada de meu lado, saíam novas levas de máquinas esféricas.
Disparei duas vezes. Do outro lado surgiu o caos. Mas antes que outra máquina detonasse, os robôs recuaram tão depressa que não consegui visar mais nenhum alvo.
Cobri os contornos da entrada com um tiro prolongado; a mesma também se desfez numa massa borbulhante.
Estava na hora de fechar o capacete. O calor já se tornava insuportável e as nuvens de fumaça eram tão densas que mal conseguíamos respirar. A cobertura de minha cabeça emitiu um clique e se ajustou ao fecho magnético. O suprimento de oxigênio começou a funcionar automaticamente.
— Então é isso — disse a voz de Rhodan, vinda pelo alto-falante.
— Tem certeza de que não há nenhum robô escondido por aqui? — perguntei.
— Tenho certeza quase absoluta. Pelo que consegui notar durante a confusão, não há nenhum. Acho que vamos recuar para a sala com a grade energética.
— Que idéia maluca! Vamos resistir na usina de energia enquanto for possível. Se para os druufs as máquinas são tão importantes que preferem não destruí-las, então...
A palestra foi interrompida pela voz de Lloyd.
— O ar por aqui está ficando muito poluído, Sir — disse com a voz tranqüila. — Tentei fechar os “portos,” mas não consegui.
Compreendi aquilo que ele disse em sentido figurado. Se fosse obrigado a fechar seu capacete, teria de recorrer mais uma vez ao suprimento de oxigênio das suas garrafas. Conforme constatamos logo após a rematerialização, seu suprimento de ar daria para umas seis horas.
Apenas via a sombra de Rhodan. Mais adiante, o robô que explodira estava ardendo.
— Está bem; vamos andando — respondi em tom de desânimo. Mas teremos de derreter a entrada que ficará atrás de nós, para evitar que a fumaça penetre lá dentro. O.K., bárbaro, cuide dessa parte. Irei para onde está Lloyd.
— Acho surpreendente que os druufs não chamem pelo rádio para pedir que capitulemos — respondeu, esquivando-se às minhas palavras. — Estou transmitindo com cinco watts. Devem ser capazes de captar minha transmissão.
— Não tenha a menor dúvida. Mas dificilmente saberão fazer qualquer coisa com a língua inglesa. Talvez conheçam o arcônida.
— Não diga!
— Será que você acredita realmente que é o centro do Universo? Por que não iriam conhecer o arcônida? Bilhões dos nossos foram levados para o plano temporal dos druufs. Estou perfeitamente lembrado das frentes de superposição. Face a isso, os quadráticos talvez tenham criado algo parecido com uma máquina tradutora. Pelo que me consta, até hoje nenhuma população de língua inglesa foi atingida pela zona de superposição.
Passou a falar em arcônida, mas isso também não adiantou nada.
— O ar está ficando cada vez mais poluído! — disse Lloyd.
Rhodan caminhou lentamente em direção à porta que ficava à nossa retaguarda. Depois de lançar mais um olhar para as máquinas fracamente iluminadas, segui-o. Por um instante brinquei com a idéia de inutilizá-las, mas logo compreendi que a destruição não me serviria para nada.
Quando nos encontrávamos a um metro da passagem, o mutante começou a berrar.
— Sir, alguém está passando pelo teto do corredor. Atlan, chefe, não estão ouvindo? Já estão entrando. Estão atrás de vocês. Estou captando perfeitamente impulsos cerebrais. Conheço as intenções deles!
Já estávamos disparando pelo corredor que devia ter uns cinqüenta metros em linha reta.
Ligamos os potentes holofotes de nossos capacetes, cujo feixe de luz mergulhava o trecho de caminho que tínhamos pela frente numa forte luminosidade.
Mais ou menos no centro do túnel, havia uma abertura no teto. Mas antes que pudessem abrir fogo contra nós, já havíamos passado.
Gritamos para Lloyd, a fim de evitar que ele nos confundisse com os inimigos. A seguir, entramos cambaleantes na sala com a grade energética.
O mutante ainda não fechara o capacete, embora, mesmo no lugar em que se encontrava, o ar já estivesse cheio de finas nuvens de fumaça.
Também virei meu capacete pára trás. Rhodan atirou-se ao chão a meu lado, ao abrigo das robustas colunas que ladeavam a entrada. Respirava pesadamente.
— Foi duro, não foi? — perguntou Fellmer.
Virei-me e examinei atentamente seu rosto. Estava pálido, mas naquele momento parecia ter um instante de descanso.
— Como vai?
Fellmer não gostava de dar mostras de fraqueza.
— Não é nada agradável, almirante. Quanto tempo ainda falta?
Queria saber quanto tempo faltava até que nossa situação se tornasse insustentável. Mas eu não estava em condições de esclarecê-lo a este respeito.
— Aos poucos, acabarão perdendo a paciência — constatou Rhodan. — Se estivesse no lugar deles, não permitiria que isso acontecesse em minha casa. Atlan, nós nos entregaremos no último instante. Entendido?
Aquilo soara como uma ordem. Acontece que eu não estava disposto nem era obrigado a aceitar ordens, a não ser que me encontrasse a bordo de uma nave da frota solar que estivesse em batalha, quando então, evidentemente, haveria uma graduação hierárquica.
Lancei-lhe um olhar perscrutador.
— Ainda pensarei sobre isso, meu caro. Não estou interessado em sofrer a vivissecção que esses descendentes de insetos talvez pretendam realizar.
O rosto de Lloyd mudou de cor. Rhodan cerrou os dentes, fazendo-os ranger fortemente.
— Mesmo assim devemos assumir este risco! — disse, insistindo em seu ponto de vista. — Dessa forma, ainda teremos uma chance de escapar.
— Tolice! Se nos encontrássemos no Universo einsteiniano e encurralados por uma raça conhecida, ainda diria que sim. Mas aqui...
Sacudi a cabeça e voltei a olhar para a entrada. Lá fora estava tudo em silêncio.
Estive a ponto de levar mais um comprimido de alimento concentrado do depósito do capacete à boca, quando os druufs fizeram nova tentativa. Da abertura do teto saiu uma forte luminosidade. Ouviu-se um rumorejar surdo. Prendemos a respiração e ficamos escutando.
— Até parece um tanque que está andando — cochichou Lloyd.
— Ou então como robôs pesados dotados de campos defensivos — acrescentei. — Se utilizarem esse tipo de máquina, podemos jogar fora nossas armas portáteis. O.K.? Pensem bem se querem entregar-se ou não. Quanto a mim, só decidirei no último instante.
Mais uma vez, o rosto de Fellmer mudou de cor. Engolindo em seco e lutando com as náuseas, virou o rosto para outro lado. Dali a pouco, contorcia o corpo junto à parede.
A pedra ia caindo do teto do corredor. Tratava-se de rocha natural entremeada pelo material de revestimento. Estavam ampliando a abertura. Na minha opinião isso era um absurdo.
Por que não mandavam suas tropas, ou fosse lá o que fosse, pelo pavilhão dos reatores?
Preferi não refletir mais sobre isso. Pouco importava a direção de que vinham.
Fiquei com a arma engatilhada, regulada mais uma vez na potência máxima. O polegar da mão esquerda repousava sobre o botão que acionava o mecanismo automático de fechamento do capacete.
Subitamente Rhodan tocou-me com o pé. Seu rosto revelava uma tensão extraordinária. Olhei-o.
— Você não ouve? Alguém me chama pelo nome.
— Hein?
— É o que acabo de dizer. Alguém me chama pelo nome. Trata-se de uma mensagem telepática.
Com um sorriso inseguro voltou-se para o mutante.
— Lloyd, ouviu?
— Ouvi, sim senhor, mas a mensagem é muito fraca — disse Fellmer. — Alguém o está chamando pelo nome de Perry Rhodan. Diz que o perigo se aproxima e que sente muito ter-nos capturado involuntariamente com seu transmissor. Mas, apesar de tudo, foi bom, pois só assim conseguiu vencer suas resistências internas. Ele não sabe quem é o senhor...
Poucas vezes vi um rosto tão espantado. Rhodan parecia fora de si. Para mim aquilo não passava de uma brincadeira de mau gosto.
— Santo Deus! Quem pode conhecer meu nome por aqui? E que formulações místicas são estas? O sujeito deve saber quem sou!
— Isso mesmo! — reforcei sem o menor senso de humor. — Trata-se de um truque dos druufs; apenas isso.
— Acabo de receber outra mensagem! — exclamou Lloyd. — Ele quer que nos coloquemos novamente atrás das grades. Diz que faria a ligação inversa. É isto mesmo, usou a expressão ligação inversa. Mas ainda não sabe dizer de onde conhece seu nome ou por que quer ajudar-nos.
Desta vez, fiquei aborrecido de verdade.
— Preste atenção! — gritei para Rhodan. — Alguma coisa está passando pelo buraco.
Reconheci as pernas grosseiras de um gigantesco robô. Era feito à semelhança e imagem dos druufs. Isso provava se tratar de uma máquina de guerra. Qualquer inteligência que constrói robôs vale-se das suas características anatômicas para construir esses artefatos armados.
Não perdi tempo. A arma de radiações emitiu um rugido. O raio energético atingiu as pernas balouçantes, e foi refletido pelas mesmas.
O segundo disparo de minha arma fundiu o teto, mas naquele momento a máquina já descia lentamente.
Ondas de pressão superaquecidas passavam ruidosamente pela abertura do recinto. Não tivemos necessidade de acionar as chaves, porque o dispositivo térmico fechou automaticamente nossos capacetes. Arrisquei o terceiro ataque, mas o robô apenas cambaleou ligeiramente para trás.
Sem que tivesse havido qualquer comunicação entre nós, saltamos para dentro do grande pavilhão. No momento em que a máquina estava a ponto de entrar, o portão desmoronou sob a ação de nosso fogo atômico. O ar, que até então ainda era respirável, começou a ferver. Os projetores de campos defensivos de nossos trajes entraram em funcionamento. Era uma rematada loucura recorrer a armas térmicas num ambiente como este.
— Outra mensagem — disse Lloyd pelo rádio de capacete. — Diz que não devemos perder mais tempo. Quer que entremos, pois ligar-nos-á imediatamente de volta. Outros robôs se aproximam. Santo Deus, o senhor ao menos poderia experimentar!
Não sabia se estas palavras foram dirigidas a mim ou a Rhodan. Lancei um olhar para a “jaula” energética. Não confiava mais nela.
Nesse instante, as grossas barras de metal começaram a brilhar. Devia ser o calor, ou então realmente alguém acabara de ligar o aparelho parecido com um transmissor.
— Acabo enlouquecendo! — disse Rhodan fora de si. — Será que há alguma coisa atrás...?
— Isso será uma aventura — ironizei, apesar da situação desesperadora em que nos encontrávamos. — Quem sabe o que acontecerá depois que entrarmos ali?
Lloyd passou por nós, cambaleando. Aproximou-se lentamente das barras de metal e ultrapassou-as.
Por um momento contemplamos estupefatos o quadro. Não, não aconteceu nada.
Um trovejar soou na abertura soterrada. Alguém estava removendo as rochas incandescentes com algum aparelho.
— Falta um minuto, arcônida!
Os olhos de Rhodan chisparam fogo. Finalmente levantou-se devagar e também caminhou em direção à grade. Segui-o de perto.
Lloyd prestou atenção ao que se passava em sua mente.
— Ele nos deseja muitas felicidades — disse o mutante. — Repete que tudo foi fruto de um equívoco. Quer acrescentar que...
Não consegui ouvir as palavras que se seguiram. Uma força tremenda apoderou-se de meu corpo.


10



Nosso subterrâneo no planeta Hades continuava escuro e sem ar.
Reencontramo-nos no transmissor, mas não sabíamos que estiváramos inconscientes por tanto tempo.
Lloyd ainda não recuperara os sentidos. Rhodan gemeu de dor. Levamos muito tempo sem dizer uma palavra, pois não encontrávamos explicações para o fenômeno.
Minha lógica recusava-se a absorver acontecimentos tão inacreditáveis. A salvação na hora mais difícil parecia uma nota dissonante.
De qualquer maneira, naquele mundo desconhecido devia haver alguém que conhecia Rhodan.
Quem seria? Tratava-se de uma pessoa seqüestrada pelo campo relativista do plano dos druufs?
A tentativa de prosseguir no raciocínio me dava tonturas.
Subitamente Rhodan chamou pelo rádio de capacete.
— O ar de Lloyd dá para menos de cinco minutos — ouvi-o dizer com a voz embargada. — Isso significa que ficamos inconscientes por mais de cinco horas.
A notícia deixou-me profundamente abalado. Então era por isso que o mutante ainda não tinha recuperado os sentidos.
Gritamos e o sacudimos fortemente para acordá-lo. Não deixamos de notar a luz verde do transmissor, que continuava acesa. Apenas não era mais uma luz constante, mas acendia-se a intervalos irregulares.
Levei alguns segundos para compreender o sentido da mensagem. Alguém estava transmitindo sinais morse pelo aparelho, ligando-o e desligando-o num ritmo determinado.
Rhodan começou a soletrar.
— D-R-U-S-... Ora essa, isso quer dizer Drusus! — berrou com tamanha força que senti os ouvidos doerem. — É a Drusus; chegaram.
Gritando sempre, saltou para a frente e bateu sobre a chave que acionava o mecanismo do transmissor. Fizemos força juntos para empurrar os pés de Lloyd para dentro dos contatos.
Assim que conseguimos, o levantamos pelos braços e o apoiamos com nossos corpos. Depois apertei rapidamente o botão de contato...
Desta vez a dor da desmaterialização representou uma bênção para mim. Pouco me importava o que aconteceria depois. Antes de nos desfazermos, colhi uma última impressão do rosto de Rhodan. Estava radiante no sentido literal da palavra.

* * *

Acordamos entre as cobertas brancas, que sem dúvida deviam pertencer à excelente clínica de bordo da Drusus.
Não vimos Lloyd. Ergui-me sobre os cotovelos e olhei em torno, perplexo.
Um homem corpulento, de cabelo louro-claro e jaleco muito grande fitou-me.
— Olá, doutor. Está por aqui de novo? — perguntei.
O médico encheu as bochechas e, em vez de responder a meu cumprimento, disse:
— Por todos os santos do firmamento, onde foi que Lloyd arranjou essa disenteria bacilar? Estava quase sufocado quando o retiramos do transmissor.
Tive certeza de que estávamos em segurança. Falar primeiro sobre a pessoa mais doente, era uma atitude típica do Dr. Sköldson.
— Não faço a menor idéia, doutor; realmente não faço. Pelo que diz Lloyd, talvez seja da água de uma nascente de Fera Cinzenta?
— O quê? A água daqui?
A observação deixou-me sobressaltado.
— A água daqui? Será que estamos no planeta Fera Cinzenta?
— Onde o senhor pensa que está? Afinal, dormiu quatorze horas. A Drusus pousou há bastante tempo, isso depois que ficamos cruzando durante uma eternidade no espaço dos druufs, unicamente por causa dos senhores. Bem, então ele acha que foi a água da nascente...
Pôs a mão no queixo sem barba e fitou-me prolongadamente.
— Se é assim, não compreendo por que não veio falar comigo antes da decolagem de emergência. Naquela oportunidade, a infecção já devia ter revelado seus sintomas.
— É verdade, doutor. Talvez tivesse sido preferível o senhor não ter pendurado na porta da clínica de bordo da Califórnia aquela placa que dizia: “Entrada somente permitida de quatro.” Os terranos possuem um orgulho muito estranho.
Desta vez ficou realmente perplexo, mas não teve tempo de esboçar uma resposta.
Uma matilha ruidosa de homens entrou na sala. Na frente, vinha Reginald Bell, seguido de perto por Sikermann, o gigante louro. Não pude constatar quem mais apareceu.
Uma torrente de perguntas foi despejada sobre nós. Rhodan respondia num estado de semi-sonolência.
Perguntei por que a Drusus demorara tanto.
Uma expressão séria surgiu no rosto de Bell.
— O salto com a Califórnia foi bem sucedido, e conseguimos romper as linhas inimigas sem maiores problemas. Não ficamos inconscientes, do que se conclui que a teoria da compensação progressiva é correta. Acontece que, depois disso, não conseguimos atravessar as linhas de bloqueio da frota robotizada. Até pouco tempo atrás, mais de cinqüenta mil naves encontravam-se diante da fenda da zona de descarga. Para romper essas linhas, a Drusus teria de arriscar uma batalha. Preferimos não tentar a batalha, pois conhecíamos as reservas de ar de que vocês dispunham. É claro que, se tivéssemos sabido algo da doença de Lloyd e das conseqüências da mesma, teríamos aparecido imediatamente. Mas, da forma pela qual vimos as coisas, o risco parecia excessivo face ao resultado.
Ficamos informados de que a solução do enigma era muito simples. Contávamos com a possibilidade da ocorrência de problemas insolúveis por ocasião do hipersalto.
— Como vai Lloyd? — perguntou Rhodan com a voz cansada.
Também se sentia muito mal.
— Muito bem — respondeu Sköldson. — A disenteria já foi debelada. Dentro de alguns dias estará totalmente recuperado. Aplicamos algumas vacinas nos senhores. Estava mesmo na hora.
— E a frota arcônida?
— Foi retirada juntamente com boa parte das naves dos saltadores. No momento os druufs não estão atacando — respondeu Bell em tom impaciente. — O que aconteceu com vocês? Levei quase seis horas telegrafando o nome da nave pelo receptor do transmissor fictício. Afinal, havíamos combinado isso.
— Combinado? — perguntei em tom de espanto. — Como? Não sabíamos disso.
— Logo depois da decolagem da Califórnia eu os avisei pelo rádio.
— Seu engraçadinho! — disse Rhodan em tom indignado. — Mal e mal conseguimos ouvir que vocês galgaram romper as linhas dos atacantes. Depois não entendemos mais nada.
Bell deixou cair o queixo.
Mas atrás, o rato-castor Gucky soltou gritos estridentes. Parecia divertir-se a valer com a gafe que seu grande amigo acabara de cometer.
Não lhe demos atenção. As palavras de Fellmer, que nos transmitia a mensagem telepática de um desconhecido, ainda soavam em nossos ouvidos.
— Perdemos algum dos homens da Califórnia? — perguntou Rhodan.
Em torno de nós, os homens fitaram-se com uma expressão de perplexidade. Não, a tripulação estava completa.
— Desista, Perry — pedi em voz baixa. — Provavelmente nunca saberemos.
— O que houve mesmo? — gritou Bell.
— Mais tarde contarei — respondeu Rhodan em tom sonolento. — Mais tarde. Mas ainda hei de descobrir. Eu lhe dou minha palavra.
O Dr. Sköldson expulsou os curiosos, usando palavras ásperas e fazendo valer sua autoridade incontestável de médico-chefe da Drusus.
Quanto a mim, fiquei refletindo por mais algum tempo no sentido de nossa missão. Bem, pelo menos já sabíamos com quem estávamos lidando.
Foram estas as inteligências que há um tempo imenso destruíram minha frota. Obrigaram-me a passar alguns milênios em estado de hibernação bioquímica.
Foram os culpados de eu ter vagado pelo planeta Terra, então ainda bárbaro e inculto, desde os tempos do apogeu do Império Romano. Sempre estive empenhado em transmitir ensinamentos aos terranos, a fim de reunir os meios que me possibilitassem ao menos a construção de um hiper-transmissor.
Foi inútil. Ninguém pôde fazer nada por mim, e não me era possível fabricar de uma hora para outra um transformador de campo de quinta dimensão.
Agora já sabia onde procurar os culpados. Uma coisa era certa: tinha uma boa conta a ajustar com eles.
Adormeci com estes pensamentos.
Estava na hora de reunir as forças para as tarefas que estavam por vir. A base espacial instalada por Rhodan no planeta Fera Cinzenta, do sistema de Mirta, continuava a ser uma idéia maluca. Talvez conseguisse avisá-lo de que, por ocasião da descoberta, que sem dúvida era iminente, já não estávamos neste mundo.
Talvez!





* * *
* *
*








Pela primeira vez Perry Rhodan viu-se no verdadeiro e perigoso Universo Druufiniano, mas conseguiu salvar-se graças a um amigo desconhecido. Quem seria este amigo?

Em Sob as Estrelas de Druufon, título do próximo livro, surpresas e mais surpresas acontecem...

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