A disenteria de Lloyd só podia ser
infecciosa. A limpeza impecável reinante nas naves e o estado excelente das
instalações sanitárias colocavam para trás até mesmo aquilo que vira nas
unidades de meu povo.
Estive a ponto de perguntar a
Lloyd por que não se apresentara ao médico assim que surgiram os primeiros
sintomas da doença. Mas preferi não fazê-lo. Não adiantaria falar sobre coisas
que não podiam ser remediadas. Naquela hora já deveria estar sendo torturado
pelas auto-recriminações.
Sem dizer uma palavra, Rhodan
começou a quebrar algumas pedras pontudas que se encontravam na cumeeira do “dique”. Observei-o.
Durante a breve palestra que
mantivera com Lloyd, esquecera totalmente minhas dores. E, a essa hora, já não
eram tão fortes, pois não me impediam de executar qualquer movimento.
— Darei uma olhada lá fora, para
ver como está nossa camuflagem — disse. — Você ficará aqui. O.K.?
Fez um ligeiro sinal para Lloyd,
que se mantinha deitado a nosso lado.
Rhodan atravessou a estreita
fenda. O material de seu traje espacial era resistente. Dificilmente se
rasgaria. Observei-o tranqüilamente enquanto caminhava por entre as rochas.
Minha mão segurava a pesada arma
térmica automática, que os terranos costumam chamar de radiador de impulsos. Na
situação em que nos encontrávamos, qualquer resistência seria inútil. Apesar
disso, estava firmemente decidido a dar-lhe cobertura, se houvesse algum
ataque.
Lá fora, o sol escaldante já
alcançara o lugar em que se encontrava nossa base. As poucas sombras restantes
desapareceram, e, dali a alguns minutos, senti-me ofuscado ao contemplar a ampla
paisagem do deserto.
Rhodan desapareceu ao longe. Vista
daqui, aquela área parecia um profundo abismo onde era impossível enxergar
nitidamente.
— Tudo bem, almirante — comunicou
o telepata.
Comprimiu seu capacete ainda mais fortemente
contra o meu.
Fiz um sinal para Lloyd. Talvez um
pouco de atividade mental até lhe fizesse bem, pois lhe faria esquecer os
sofrimentos.
Dali a uns três minutos ouvi o
sinal de meu receptor. Rhodan estava chamando pelo rádio.
— Você está louco? — interrompi-o
assim que proferiu as primeiras palavras. — Poderão fazer a localização
goniométrica.
— Que nada! Estou transmitindo com
0,2 watts. Além disso não vejo nada que pudesse captar a transmissão. Estou a
cerca de um quilômetro, dentro da área de sombra. Como são as coisas vistas do
outro lado?
— Do meu lado?
— É claro que sim!
— Que linguagem grosseira —
observei. — Fique tranqüilo; não o vemos e nem a qualquer outra coisa que
esteja no lugar onde você se encontra. O sol ofusca tremendamente. Para mim,
por aí só existe a noite.
— Excelente. Em compensação, visto
daqui, o paredão de rocha é um quadro confuso e apagado. Da parede da caverna
não se vê nada; só consigo identificar o local de entrada por determinados
sinais. Aposto que não nos encontrarão.
— Se você continuar transmitindo,
eles logo nos encontrarão.
— O.K. Já vou parar, seu
pessimista. Não, não fique nervoso. Realmente poderíamos ter decolado um dia
antes. Assim teríamos evitado tudo isto. Lloyd, como vai? Quer sair um pouco?
Isso talvez possa distraí-lo.
— Prefiro não sair, Sir — disse
Fellmer em voz baixa. — Sinto-me muito mal. Será que poderia ajudar-me a
conseguir um pouco de oxigênio?
Senti que empalidecera. Oxigênio?
Por que estaria pedindo oxigênio? Havia uma norma estrita segundo a qual o
sistema de regeneração de alta pressão devia ser carregado e verificado todos
os dias. Será que negligenciara essa norma primária? Não, não era possível.
A reação de Rhodan também foi de
espanto.
— Oxigênio? Não, Lloyd, isso não é
possível. O regenerador fica sob o revestimento do traje. Não conseguiremos
alcançá-lo. O que houve? Está com falta de ar?
Virei a cabeça para ver o doente.
No momento em que sentiu meu olhar, ficou muito embaraçado. Desconfiei de
alguma coisa.
— Não senhor — gaguejou Lloyd. —
Meu aparelho está em ordem. Será que posso arriscar-me a soltar o enchimento pressurizado
de meu traje pela válvula de regulagem? Depois faria a recarga com o suprimento
das garrafas.
— Está certo; mas por quê?
— Não se faça de criança —
intervim em tom grosseiro. — Seu ar está gasto; procure compreender. Quando
surge uma disenteria e simultaneamente ocorre a falha das instalações
sanitárias, isso pode acontecer. Está bem, Lloyd, solte o gás. O suprimento de
oxigênio de seu traje normalmente daria para oito dias, tempo terrano. Prepare-se
para ter oxigênio apenas para quatro dias. Comece logo! Ponha para fora esse ar
envenenado.
Ajudei-o a abrir a válvula de
regulagem na parte traseira do capacete. A pressão baixou rapidamente. Assim
que a zona de perigo foi atingida, injetei o oxigênio das supergarrafas no
circuito regenerador. Os recipientes de aço de Árcon estavam aferidos para uma
pressão de dez mil atus.
Rhodan praguejava baixinho e em
tom amargurado. Suas palavras não se dirigiam contra Lloyd, mas contra a
situação em que nos encontrávamos. Interrompi-o em tom mordaz:
— É interessante que alguém ainda
ache que tem de praguejar. Parece que, durante suas alegres expedições de
conquista espacial, vocês nunca passaram por uma como esta, não é? Depois dos
êxitos iniciais, vocês ainda conhecerão muitos reveses. Tenho plena certeza do
que estou afirmando.
— Cale-se, arcônida.
— Não pude deixar de dizer isto.
Procure voltar à galeria. Na minha opinião, a qualquer momento poderá aparecer
uma nave dos druufs.
Rhodan não disse mais nada, pois
não havia mesmo o que dizer. Em compensação vi-o de repente, quando saía da
sombra. Uma luminosidade ofuscante surgira no firmamento sombrio.
— Não está com medo, mas sabe
correr — falei em tom irônico.
Lloyd soltou uma risadinha.
Achei-o muito simpático.
Rhodan apareceu fungando e com as
pernas cambaleantes. Arrastei-o rudemente pela abertura. Seu rosto estava
coberto de suor. Comprimi um botão e desliguei seu transmissor.
Dali a alguns minutos, um monstro
negro, banhado pela luz forte do sol, desceu sobre as colunas chamejantes
feitas das partículas de impulsos. Ouvia-se perfeitamente o rugido profundo do
mecanismo propulsor. O impacto dos raios de empuxo fez a montanha estremecer.
Lancei um olhar preocupado para o revestimento das paredes. Mas estas nem
sequer apresentavam as fendas características de solicitação excessiva.
No momento em que a nave dos
druufs mergulhou na sombra da Cordilheira da Esperança, apenas percebi-lhe
vagamente os contornos. Pousaram na área de penumbra, tal qual esperávamos. Nenhuma
criatura dotada de mediano bom senso desceria justamente sob os raios
escaldantes do sol.
— Ainda bem! — disse Rhodan em voz
baixa. — Agora vão dar uma olhada.
Também dei uma olhada; apenas,
minha atenção foi dedicada ao aparelho de múltiplas finalidades que trazia no
pulso.
Estávamos sendo atingidos em cheio
pelos raios do sol. Dentro de alguns minutos, a temperatura subira para 68
graus centígrados. Lá fora o calor devia ser ainda maior.
Nossos trajes protetores estavam
equipados para proteger-nos de temperaturas até quinhentos graus por meio da
simples reflexão e do funcionamento do sistema de condicionamento.
Se as coisas ficassem piores que
isso, não haveria outra alternativa senão ativar o campo energético defensivo,
mas este, sem dúvida, possibilitaria nossa localização. Fazia votos de que não
fôssemos obrigados a recorrer a esse equipamento. Bastava que o microrreator
destinado ao suprimento de energia estivesse em funcionamento.
O corpo de Fellmer Lloyd
contorceu-se sob os efeitos de mais um ataque de cólicas intestinais. Assim
praticamente se tornara inútil como telepata. Segui o olhar de Rhodan, mas tive
de notar que a luz verde do transmissor de matéria continuava apagada.
Trocamos um olhar indagador. O que
teria acontecido com a Califórnia? Será que não conseguira atravessar a
barreira? Se conseguiu, por que a Drusus ainda não chegara?
Num movimento muito lento, Rhodan
tirou o radiador de impulsos do cinto. No momento em que a luz vermelha de
carregamento da arma se acendeu, compreendi que não estava disposto a tornar-se
prisioneiro dos druufs sem lutar. Aliás, nem tínhamos certeza de que esses
seres conhecessem o aprisionamento de inimigos.
Durante a grande guerra do metano,
travada há dez mil anos, poucos prisioneiros foram capturados. Nenhuma das
partes dispunha de meios que permitissem criar condições adequadas de vida para
os inimigos subjugados. Se o inimigo respirasse oxigênio, ou se nós
respirássemos metano, as coisas teriam sido melhores.
Ficamos à espera. Da grande nave,
que se erguia uns trezentos metros em direção ao céu da área de penumbra, só se
via a ponta em semi-esfera. A nave dos druufs repousava sobre as largas aletas
de popa que, segundo tudo indicava, só haviam sido escamoteadas pouco antes do
pouso.
— Gostaria de conhecer o
hiperpropulsor dessa gente! — disse Rhodan em tom tranqüilo.
O bárbaro mantinha uma calma
admirável. Naquele momento eu não me interessava nem um pouco por esse
aparelho. Estava refletindo — atividade que, segundo as palavras de um homem
inteligente, é a própria arte da inteligência.
Na planície branca tudo continuava
imóvel. À medida que fixávamos o olhar, os contornos da nave estranha se
destacavam na sombra da zona intermediária. Aos poucos, a vista se acostumava à
estranha iluminação.
Fellmer Lloyd estava quase
inconsciente. O último ataque pusera-o fora de ação. Os dotes telepáticos de
Rhodan eram tão reduzidos que não permitiam qualquer conclusão precisa.
Esforçava-se para captar os pensamentos dos druufs, mas não conseguiu
identificar os impulsos cerebrais que chegaram à sua mente.
— De qualquer maneira são
totalmente inumanos — constatou depois de algum tempo. — Não sei o que fazer?
Quando será que essa gente vai aparecer?
Vieram dali a quinze minutos.
Provavelmente, antes disso, haviam dado uma busca rigorosa com seus
instrumentos de localização.
Foram bastante inteligentes para
desistirem desde logo de andar a pé sob aquele sol escaldante. Apenas vimos
vários veículos achatados, de forma elíptica que, segundo tudo indicava, se
locomoviam sobre campos magnéticos. Não dispunham de rodas ou esteiras.
Mais uma vez, me convenci de que
esses seres deviam ter desenvolvido uma tecnologia bastante avançada. Era claro
que sabiam perfeitamente o que os esperava em seu próprio sistema solar. Por
isso usavam o tipo de aparelhamento que melhor se prestava às tarefas que
teriam de executar.
Prendemos a respiração quando três
dos veículos deslizantes passaram lentamente pela abertura de nossa caverna. Vi
as antenas giratórias e as lentes vermelhas das objetivas, que provavelmente
faziam parte de um sistema de imagens óticas.
Muito tensos, ficamos com as armas
engatilhadas até que tivessem passado. Dali a três horas, a nave estranha
decolou com um ruído trovejante. Assim que o silêncio voltou a reinar, suspirei
aliviado. Rhodan voltou a colocar a arma no cinto.
— O.K., então foi isso — disse. —
Não voltarão. Provavelmente eu também não teria tido a idéia de que bem embaixo
de meu nariz houvesse uma pequena base de uma raça desconhecida. É um
atrevimento, não é?
Não pude deixar de concordar.
Passamos a cuidar do mutante. Seu
ar respirável já estava poluído de novo. Se as coisas continuassem assim, o
suprimento de oxigênio de Lloyd não duraria muito. Lançamos um olhar ansioso
para o transmissor. Mas a luz verde não se acendera, o que demonstrava que
ninguém havia ajustado um aparelho receptor.
Dirigi-me ao local de pouso da
nave dos druufs. Tinha a esperança de encontrar alguns objetos esquecidos.
Mas não descobri nada além da
superfície vitrificada, que ainda se mantinha incandescente.
8
Durante 72 horas passamos
acordados ou em cochilos, esperando sempre que a luz verde do transmissor se
acendesse. Não havia nada que tanto preenchesse a escala dos nossos desejos
ardentes como o surgimento daquela luz de controle.
Ainda havia a doença de Lloyd.
Esta não só representava uma ameaça indireta à sua vida, mas constituía uma
carga adicional. Seu ar pressurizado teve de ser renovado muitas vezes. Não
encontramos nenhuma possibilidade de limpar os gases impregnados de toxinas. O
regenerador de ar não previa uma hipótese como esta. Sem dúvida tratava-se de
um erro de nosso traje.
O ar de Fellmer Lloyd não daria
para mais de doze horas. Se até lá não pudesse tirar seu traje, estaria
irremediavelmente perdido.
Há dois segundos a lâmpada
finalmente começara a tremeluzir. E agora brilhava tão fortemente como se nunca
tivesse ficado apagada.
Não perdemos tempo. Se a Drusus
finalmente conseguira romper a barreira, até os segundos deveriam ser contados.
Rhodan e eu erguemo-nos de sopetão
do leito improvisado, montado por meio do material abandonado. Lloyd repousava
apaticamente a nosso lado. Seu rosto estava pálido e flácido. Parecia ter
perdido todas as energias.
— Levante-se, Lloyd! — gritou
Rhodan. — Lloyd, a luz de controle está acesa. A Drusus ligou para a recepção.
Venha!
O exemplo de Lloyd demonstrou que,
conforme o caso, a criatura humana sabe mobilizar reservas imensas de energia.
Até parecia que, no interior do mutante, estivesse sendo ligado um motor de
enorme desempenho energético, que até então ficara parado.
Subitamente seus olhos clarearam.
Olhei pelo visor de seu capacete e vi um rosto de traços duros, com rugas
profundas entre a boca e o nariz.
— O.K. — limitou-se a dizer.
Naquele instante era a
concentração em pessoa. Percebi que guardara para esse momento todas as
energias orgânicas restantes.
Sem precisar de auxílio, correu
para os fundos da galeria, onde o transmissor de elevada potência quase chegava
até o teto.
Rhodan havia colocado em
funcionamento o sistema de suprimento de energia. Já estava tudo preparado.
Bastava mover algumas chaves para que o aparelho entrasse em funcionamento.
As coordenadas de transporte foram
fixadas com uma precisão de três casas decimais. Nos últimos três dias
verificáramos e corrigíramos constantemente as tolerâncias no dispositivo de
entrada.
Rhodan foi o primeiro a subir à
grande plataforma metálica que ficava numa grade circular. As traves da grade
chegavam bem acima de nossas cabeças, e nela se apoiava a cúpula polar que
emitia um brilho semelhante ao do cobre.
Era ali que o campo de
desmaterialização desceria sobre nós. Com as mãos trêmulas enfiei os pés de
Lloyd nos contatos das presilhas do solo. Bastou comprimir um botão para fechar
a entrada.
Pela primeira vez compreendi por
que esse tipo de transmissor foi construído de modo a depender de um suprimento
de energia autônomo. Na situação em que nos encontrávamos, não poderíamos
contar com outra fonte de energia.
Rhodan fez as ligações
preliminares. Demorou apenas alguns segundos até que o leve zumbido que saía da
base do aparelho se transformasse num ruído trovejante.
Uma parede energética
vermelho-pálida desceu pela grade e entrou em contato com o campo luminoso que
se formara junto aos pólos do piso.
Nossos sentidos ainda funcionavam.
Mas no momento que antecede um salto de transmissor, o raciocínio é encoberto
por angústias dificilmente controláveis, que irrompem das profundezas do
subconsciente.
O sentimento natural do indivíduo
rebelava-se contra a desmaterialização. Quanto mais desenvolvido o instinto de
autoconservação, mais difícil se tornava controlar a angústia da
desmaterialização.
Colocáramos Lloyd entre nós. O
campo energético luminoso parecia incendiar a caverna.
Rhodan aparentou uma calma
tocante. Esforcei-me para também parecer calmo. Nunca realizara um salto de
transmissor por uma distância de dois anos-luz, muito menos com um instrumento
montado na superfície.
Lembrei-me da instabilidade física
do Universo dos druufs. Se enfrentáramos tamanhas dificuldades com uma simples transição,
o que não poderia acontecer num processo de transporte físico-mecânico?
Rhodan talvez pensasse nos mesmos
problemas. Sempre que seu rosto assumia um ar tão indiferente como nessa hora,
refletia intensamente sobre assuntos importantes.
A campainha soou dentro de três
segundos, que me pareceram uma verdadeira eternidade. Lloyd fitou-me. Seus
olhos escuros pareciam chispar. Fazia um esforço total para controlar-se.
Meu sorriso deve ter sido um pouco
desanimado. Comprimi o acionador do mecanismo de salto, que ficava do meu lado.
Os últimos pensamentos fugazes,
que me acudiram à mente, foram dedicados ao desempenho energético do
transmissor. Não seria possível localizá-lo com um rastreador estrutural comum,
porque seu funcionamento não causava ondas de choque estruturais. Mas se haviam
inventado um aparelho adequado...
A dor da desmaterialização foi tão
intensa que ouvi meu próprio grito. Parecia que um cirurgião iniciara uma
operação antes que a anestesia estivesse completa.
A última impressão transmitida por
meus sentidos foi a figura contorcida de Rhodan. No momento em que teve início
o processo de desmaterialização, seu corpo tornou-se quadrado e alargou-se.
Depois senti apenas a dor
lancinante. Ao que parecia, o Universo dos druufs ainda não se estabilizara
inteiramente.
Finalmente não houve mais nada.
Era possível que a tessitura dos nervos muito sensíveis fosse a última a
dissolver-se. Na verdade, um organismo dissociado nos átomos que o compõem não
deve sentir mais nada...
Porém, tem-se a impressão de cair
no interior de uma espiral de fogo.
* * *
A dor ardente de todos os nervos
parecia ter acompanhado o processo de transporte fictício. Assim que este teve
início no aparelho receptor, ao choque costumeiro de rematerialização juntou-se
o remanescente do processo de dissolução.
Não via nada, embora já tivesse
voltado a existir fisicamente!
Devíamos estar na plataforma há
algum tempo, em estado de semi-inconsciência, ou então alguma coisa não estava
em ordem com o aparelho.
Fiquei aliviado ao perceber que
conseguia mover as mãos e os braços. Alguém tateou em minha direção.
Era Fellmer Lloyd, que me apertava
fortemente. Compreendi que estava mais ou menos bem. Névoas vermelhas passavam diante
dos meus olhos. Por aqui tudo parecia ser vermelho. Aos poucos, comecei a odiar
essa cor.
Tive a impressão de ouvir alguém
chamar ou gritar. Levei algum tempo para ouvir meu nome. Dali a pouco consegui
enxergar. O rosto de Lloyd foi surgindo em meio à névoa. Depois vi Rhodan
sentado no chão do transmissor. Com movimentos inseguros, Perry procurava
desprender os contatos dos pés.
Não; aquilo nem eram contatos. E
também não nos encontrávamos numa plataforma redonda como a de qualquer
transmissor terrano.
O que tocávamos com as grossas
solas de aço plastificado parecia ser feito de pedra polida. Em meu cérebro
surgiu uma dor surda e opressiva, que recrudesceu fortemente assim que o setor
lógico de minha mente despertou, para logo a seguir desaparecer de súbito.
“Erro de salto. Ambiente estranho, que não se identifica com o da nave
terrana”, anunciou meu segundo cérebro.
Finalmente despertei da estranha
rigidez. Os ruídos que acreditara serem sons trovejantes eram causados por
minha unidade energética individual. O gravômetro de capacete indicava uma
compensação de 0.95G. Isso significava que nos encontrávamos num mundo ou numa
nave onde a gravidade chegava a 1.95G.
Esse fato indiscutível me fez
acordar de vez. Afinal, não é uma característica exclusivamente humana de, numa
situação imprevista, pegar antes de tudo e quase inconscientemente a arma.
Antes que Fellmer Lloyd compreendesse o que estava acontecendo, segurava meu
radiador de impulsos.
— O que houve? — perguntou em tom
apressado. A voz que saía do capacete pressurizado soava abafada.
Rhodan seguiu meu exemplo. Também
parecia ter-se recuperado da estranha debilidade.
Só depois olhei em torno.
Encontrávamo-nos num recinto muito
grande, escassamente iluminado, com teto abaulado e sem emenda. À nossa frente,
uma abertura em arco levava para o ar livre. Mas lá a escuridão era ainda mais
forte que no interior do recinto.
A instalação existente na sala
consistia unicamente em alguns conjuntos de gigantescas máquinas, dispostas ao
longo das paredes, e no aparelho em que nos encontrávamos naquele momento.
Tratava-se de uma “prisão” sem teto visível. Nossos pés
tocavam a pedra nua, que não nos transmitia a sensação de conforto nem de
segurança.
Bem acima de nossas cabeças, junto
ao teto abaulado, uma esfera metálica vermelha e incandescente pairava no ar.
Era dali que saía a luz repugnante. A “prisão”
era cercada por uma área circular de cerca de dez metros de diâmetro, mas as
respectivas barras ficavam tão longe umas das outras que poderíamos passar sem
qualquer esforço.
Uma das características de Perry
Rhodan consistia em, numa situação complexa como aquela, fazer observações que
nada tinham a ver com as primeiras impressões que investiam sobre a mente.
— Temos ar respirável! — disse em
voz tão alta que consegui entendê-lo perfeitamente. — Lloyd, abra o capacete.
Isso é uma chance para você.
Lancei um olhar rápido para o
analisador automático. Até então as reações do mesmo sempre haviam sido
precisas. Realmente, por aqui havia oxigênio, nitrogênio e uma quantidade
surpreendente de gases raros. O teor de hélio e argônio quase chegava a ser
excessivo. Era bem verdade que o barômetro indicava 830 milibares. Lloyd
poderia arriscar-se a poupar seu ar engarrafado, que começava a ficar escasso.
Mantinha-se de pé a meu lado, em
atitude apática. Bati com a mão no fecho magnético de seu capacete. Este
abriu-se silenciosamente. Um fluxo de ar poluído e venenoso foi expelido do
traje.
O mutante aproveitou o momento
para reunir as últimas reservas de energia, a fim de transmitir uma notícia
alarmante.
— Viemos parar entre os druufs.
Alguém se aproxima, vindo de fora. Sinto perfeitamente impulsos mentais
estranhos. Não percebo com nitidez o que o desconhecido está pensando. Seus
pensamentos são muito estranhos, totalmente inumanos. Até parece um animal
semi-inteligente que esteja sendo controlado por meio de campos corporais
superpostos. É só, Sir!
Também abri meu capacete. Fiquei
surpreendido com a boa qualidade do ar, mas tive de acostumar-me à elevada
pressão externa. Senti um zumbido nos ouvidos. Cutuquei-os com os dedos, abri
fortemente a boca e finalmente limpei os olhos incrustados. Para um arcônida,
era muito agradável manter-se por um tempo prolongado no interior de um traje
espacial, pois o estado de excitação aumenta o teor de umidade de nossos olhos.
Rhodan foi o primeiro a passar pela
grade. Com alguns saltos, colocou-se junto à entrada, abrigando-se atrás da
base do caixilho da porta.
Gritei apressadamente atrás dele
que cuidasse do seu gravômetro. Só então percebeu que nos encontrávamos
submetidos à gravitação de 1.95G.
Lloyd arrastou-se atrás de mim.
Sua capacidade de resistência quase chegara ao fim. Depois que percebi o cheiro
exalado por seu traje, compreendi o que ele já sofrera.
Estacou atrás de Rhodan e
encostou-se à parede. Quanto a mim, procurei abrigar-me do outro lado da entrada.
— Onde será que viemos parar? —
cochichou Rhodan.
Ergui levemente os olhos.
— Não estou tão interessado em
saber onde viemos parar; o que gostaria de saber é por que viemos parar aqui? —
retruquei, também aos cochichos. — A regulagem do transmissor estava em
perfeitas condições; não há a menor dúvida. E a luz verde estava acesa. Logo, a
outra estação devia estar em recepção, e isso exatamente em nossa
hiperfreqüência.
— Pois a outra estação foi esta —
disse Rhodan, lançando um olhar contrariado para o aparelho disforme.
— Como pode afirmar isso? Existem
milhões de possibilidades — respondi em tom exaltado. — Alguma coisa não está
certa.
— Foi de certa forma o que
aconteceu com nossa transição realizada em pleno sistema dos druufs. Por aqui
devem existir energias superpostas das quais não temos a menor idéia. E
possível que esta máquina tenha sido ligada para um fim totalmente diverso.
Ligamos o contato do salto e fomos captados por ela. Tenho certeza absoluta de
que as freqüências não foram idênticas. Apesar disso, fomos atingidos por elas
e capturados no local errado. Uma coisa é certa: a Drusus ainda não apareceu. É
uma coincidência diabólica.
Meu fígado revoltou-se, se é que
no meu caso essa expressão tipicamente terrana poderia ter aplicação. Segundo
os resultados de nossas investigações não poderia haver nenhuma coincidência.
— Aproxima-se — anunciou Lloyd,
que mais uma vez parecia olhar rigidamente através da parede. — Não posso
interpretar-lhe o conteúdo mental. Trata-se antes de um grupo de impulsos, que,
no presente caso, exprime expectativa. O que estará esperando?
Rhodan refletiu por um instante.
— Espera aquilo que este
transmissor deveria trazer. O aparelho foi ligado por algum motivo. Houve uma
estranha superposição de campos energéticos, e por isso recebemos o sinal
verde. Quer dizer que esta gente também domina a técnica da irradiação na
quinta dimensão. É interessante!
— Não acredito que este aparelho
seja capaz de muita coisa. Antes, parece um conjunto experimental...
Rhodan manteve-se cético. Nenhum
de nós sabia exatamente do que se tratava. Por outro lado, não podíamos
realizar um exame detido, pois para tanto nos faltava o tempo e os
instrumentos.
— Cuidado! — cochichou Lloyd.
Subitamente também vi uma arma de
radiações em sua mão, mas esta estava equipada com um dispositivo de choque.
— Experimente o choque — disse
Rhodan apressadamente. — Se não resolver a situação, ainda poderemos recorrer
às armas de impulsos.
Lá fora, no corredor quase
completamente escuro, soou o ruído de passos pesados que se arrastavam. Parecia
que alguém desenvolvia uma força desnecessária ao colocar os pés no chão.
“A gravitação é de 1,95G; isso é apenas um efeito natural”, informou
meu segundo cérebro.
Será que, tal qual eu, Rhodan
também imaginava que provavelmente encontraríamos pela frente criaturas enormes
e musculosas?
Segundo as experiências já
colhidas, nos planetas habitados em que a gravitação é elevada sempre surgiram
inteligências de constituição muito estável. Afinal, aqueles seres teriam de
deslocar-se com certa facilidade e respirar sem esforço.
Dali a alguns segundos, vimos o
druuf!
Olhamos cautelosamente para o
outro lado da porta. Nos fundos do corredor vimos uma sombra escura e apagada
de formato quadrático. Fiquei muitíssimo espantado.
Lentamente, lentamente demais para
as nossas concepções, aquele ser de pelo menos três metros de altura caminhava
em direção ao lugar em que estávamos. Minha surpresa só durou até que me
lembrasse da diferença entre as dimensões temporais reinantes em nosso Universo
e no plano temporal dos druufs.
Cochichei apressadamente para meus
companheiros:
— Não se esqueçam de que é duas
vezes mais lento que nós. Para seus padrões, ele provavelmente se desloca com
uma rapidez apreciável. Pelo que diz Lloyd, se encontra numa disposição de
expectativa. Geralmente a pessoa que está nessas condições apressa o passo.
Quer dizer que, quanto à velocidade de locomoção, possuímos certa vantagem
sobre essa gente.
Finalmente o druuf foi atingido
pela luz que saía do recinto em que estávamos. Só então pudemos vê-lo
perfeitamente.
Apesar da estranha configuração de
seu corpo, examinei-o com calma. Lloyd soltou um gemido de pavor, enquanto
Rhodan se manteve em silêncio.
Numa situação como esta, o
treinamento arcônida em psicologia de raças estranhas a que eu fora submetido
representava uma grande vantagem. Já não me espantava com as criaturas que a natureza,
aparentemente pródiga, criava numa imensa variedade.
— Santo Deus! — foram as únicas
palavras que o mutante conseguiu proferir.
Depois calou-se sob os efeitos de
meu olhar recriminador. A altura do druuf chegava a uns três metros, e sua
largura era equivalente à altura. Foi-se aproximando sobre as pernas disformes
que antes pareciam um par de colunas. As pernas eram apenas duas, o que já representava
um fator tranqüilizador. Havia dois braços muito robustos, que terminavam em
estranhos órgãos preênseis finos e articulados, que pelo aspecto exterior
correspondiam aproximadamente à forma humanóide.
Mas era este o único elemento de
semelhança com as criaturas humanas...
O que infundia pavor era a cabeça
redonda de cerca de cinqüenta centímetros de diâmetro, na qual havia quatro
olhos enormes que agora refletiam a luz. Dois deles estavam no lugar “costumeiro”, enquanto os outros dois se
encontravam no lugar onde ficam as têmporas humanas.
Não havia nariz ou orelhas. Além
disso, não existia nenhum cabelo. A boca triangular e estreita incutiu-me uma
certa idéia. Sem dúvida, esses seres descendiam de insetos. Dali resultava a
incapacidade de Lloyd apreender-lhes os pensamentos por meio de sua capacidade
telepática.
Ainda bem que o druuf nos dera
oportunidade de examinar seu corpo grosseiro e monstruoso. Se não fosse a
horrível cabeça, seu aspecto nem seria tão amedrontador, apesar do tamanho
descomunal.
Acontece que eu conhecia os
homens, e também sabia definir meus sentimentos. Muito embora a inteligência
nos dissesse constantemente que não devemos julgar um ser pelo aspecto
exterior, mas sim pelo espírito, nosso instinto sempre se rebela diante de uma
visão como esta.
E, o que maior desconfiança nos
causava era um ser estranho que apresentava sinais evidentes de descender de
insetos ou lagartos.
Num caso desses, o sentimento
humano não acompanhava a inteligência. A repugnância, desconfiança e ódio, que
surgiam numa oportunidade como esta, só podiam ser reprimidos pela força da
inteligência, desde que o intelecto dispusesse de força suficiente para isso.
Olhei discretamente para Rhodan.
Conforme esperara, parecia lutar com seus sentimentos. Evidentemente estaria
dizendo a si mesmo que o druuf não poderia ser responsabilizado pelo seu
aspecto exterior. Provavelmente, na opinião daquele ser estranho, éramos também
figuras monstruosas.
Rhodan conseguiu controlar-se
muito depressa, mas o rosto de Lloyd ainda continuava a retratar a repugnância.
Talvez isso ocorresse devido a suas faculdades especiais. Afinal, captava muito
melhor que nós a essência propriamente dita do druuf.
Voltamos a abrigar-nos, pois o
sentido visual do desconhecido devia ser excelente. Deslocava-se na escuridão
com a mesma segurança com que nós nos movemos à luz do sol.
— Faça boa pontaria, Lloyd — disse
apressadamente. — Não sabe falar como nós. Provavelmente sua base de
comunicação é outra. Não deve ter tempo para emitir um pedido de socorro.
Lloyd confirmou com o rosto
enojado. Os passos retumbantes cessaram por um instante. O druuf entrou
tateando pela porta. Só agora compreendi por que era tão larga e alta.
Comprimi meu corpo contra a parede
lisa. Rhodan também se abrigou. Quando as pernas-coluna entraram em meu campo
de visão, percebi que essa raça tem pele marrom-escura semelhante ao couro, que
parece uma blindagem elástica. A roupa apertada do druuf era quase totalmente
transparente. Não compreendi por que achavam necessário recorrer a um
envoltório artificial para cobrir o corpo.
Lloyd hesitou em disparar seu tiro
de radiações. Estive a ponto de intervir com minha arma de impulsos. Mas
percebi que o mutante tentava captar os impulsos do “monstro” numa posição mais próxima.
Naquele instante, o druuf parou de
repente.
Vi que os olhos laterais também se
viraram para a frente. Com o corpo rígido fitava a grade feita de barras
metálicas brilhantes. Percebi que notava a falta daquilo que esperara encontrar
ali. Estava na hora de Lloyd intervir.
No momento em que pretendia passar
ao ataque ouvi o estando forte da arma de choque. Minha intervenção tornou-se
desnecessária, pois o gigantesco corpo tombou que nem uma árvore derrubada.
O druuf caiu pesadamente. Segurei
o crânio esférico, a fim de impedir que sofresse qualquer lesão.
Rhodan saiu de trás de seu abrigo.
Os grandes olhos do desconhecido estavam muito arregalados.
Lloyd aproximou-se lentamente e a
passos cambaleantes. Seu rosto estava desfigurado. Ao que tudo indicava, outro
ataque de disenteria estava iminente.
— Resolvi esperar mais um pouco —
disse em voz hesitante. — Pensou em alguma coisa que não entendi. Parece que se
tratava de alguma carga. Sua mente estava ocupada com uma caixa ou coisa que o
valha. Eu...
Subitamente Lloyd ficou calado.
Gemeu e dobrou os joelhos. Arrastei-o rapidamente e deitei-o junto à entrada.
Os sofrimentos experimentados pelo
mutante eram horríveis. A idéia de uma possível infecção passou pela minha
cabeça, pois, com a abertura do traje espacial, seria perfeitamente possível.
Mas, no momento, isso não importava.
Dirigi-me a Rhodan. O mutante
disse num gemido:
— Cuidado, Sir. Este sujeito deve
ter transmitido algum impulso de advertência. Não foi uma mensagem puramente
telepática.
Sem dizer uma palavra, Rhodan
apontou para as minúsculas saliências que havia na parte superior dianteira do
crânio. Naquele instante, pendiam frouxamente para baixo.
— São tentáculos ou antenas,
conforme se queira — disse. — Será que os druufs se comunicam por meio de
freqüências ultra-curtas?
— Comunicação pelo ultra-som? —
respondi em tom nervoso. — É possível. Conheço seres que usam esse tipo de
comunicação em vez dos órgãos de fala. Ou melhor, para eles, os respectivos
órgãos são usados para a fala assim como as cordas vocais o são para nós. Já
que Lloyd não captou qualquer impulso telepático, deve ser isso mesmo. Dessa
forma a voz do druuf só será compreensível por meio de algum aparelho auxiliar.
O que acontecerá agora?
Quando mudei de assunto de modo
abrupto, Rhodan estremeceu levemente. Apontou para a grade.
— Você poderia pôr isso a
funcionar? Prefiro minha residência de Hades.
Sem uma série de experiências
minuciosas, não saberia manipular o estranho aparelho. Nem sequer fazia a menor
idéia sobre a respectiva fonte de energia.
— Seria inútil tentar.
Rhodan levantou-se lentamente.
Fitou o corpo do gigante escuro, que se tornara rígido como ferro.
— Ele poderia matar-nos, apertando
os braços — constatou em tom objetivo. — Está bem. Vamos colocá-lo em lugar
seguro. Uma vez que tombou com facilidade, seu sistema nervoso deve ser muito
sensível. Pelo que calculo, a paralisia durará pelo menos duas horas. Até lá
nossa situação deve estar decidida. Em outras palavras, não há necessidade de
amarrá-lo.
— Isso nunca aconteceria a um herói
de romance — respondi, embora não estivesse disposto a ironizar. — Vamos olhar
por aí, até que eles nos peguem. Lloyd, fique deitado aqui na entrada.
Defenda-se com a arma de choques conforme e até quando puder. Como se sente?
— Miseravelmente mal, almirante.
Nunca imaginei que uma coisa destas pudesse existir. Desejo-lhes tudo de bom.
Sinto outra série de impulsos cerebrais estranhos. Desta vez vêm em grande
quantidade. Essa gente não tem pressa de aparecer.
Verificamos nossas potentes armas
de impulsos. O mutante era o único que possuía arma de choque.
— Sir, tire este monstro daqui! —
gritou Lloyd em tom histérico.
Arrastamos o corpo gigantesco do
druuf para o interior da sala. A “figura”
era por demais anormal. Mas Rhodan resmungou:
— Não fique fazendo fita, homem!
Ele apenas é um pouco diferente.
— Seja como for, Sir, sempre que o
vejo não posso deixar de pensar no inferno. Ninguém vai entrar aqui!
Preferi não informá-lo de que as
coisas seriam muito fáceis para os druufs.
O que poderia fazer com sua arma
de choque? Era bem verdade que, apesar das armas de impulsos, nossas chances
não eram muito melhores.
Fez-nos mais um sinal. Depois
fomos saindo. Seria inútil andar abaixado no longo corredor para escapar aos
olhos dos desconhecidos.
Por isso caminhamos eretos.
Rhodan sabia que o jogo estava
definitivamente perdido. Até então, ninguém nos molestara ou atacara. Mas era
certo que, se não acontecesse um milagre, nunca mais sairíamos dali.
Rhodan disse em tom indiferente:
— Acho que estamos bem abaixo da superfície
do planeta. A gravitação é tremenda. Talvez tenhamos “pousado” no número dezesseis do sistema dos druufs, ou seja, no
planeta principal, onde você constatou tantas fontes de energia. Lá na frente
há máquinas.
Também já ouvira o ruído surdo.
Caminhamos mais uns cem metros e vimos diante de nós uma gigantesca sala, que
possuía numerosas saídas. Ao que parecia, por aqui as portas eram
desconhecidas.
A finalidade dos mecanismos à
nossa frente era evidente. Os druufs construíam seus reatores atômicos de forma
mais ou menos semelhante à dos nossos. No entanto, não vimos qualquer conversor
acoplado aos mesmos.
As máquinas instaladas nessa sala
eram gigantescas. Utilizavam-se condutores sem fio, cuja luz ultra-azul
representava a primeira iluminação razoável que víamos. O vermelho sombrio
havia desaparecido.
Examinamos a grande unidade
energética sem dizer uma palavra. Dali a alguns segundos, até mesmo Rhodan com
suas reduzidas capacidades telepáticas sentiu a aproximação dos druufs.
— São impulsos temíveis — afirmou.
— Não é de admirar que Lloyd tenha enlouquecido. Se fôssemos sensatos,
jogaríamos fora as armas e ficaríamos de braços erguidos na porta, esperando
essa gente.
Pisquei o olho e vi uma expressão
matreira em seu rosto.
— Somos; sensatos?
Rhodan lançou-me um olhar sombrio
e sacudiu a cabeça.
— O senhor poderá abrigar-se ali.
Ficarei atrás da base do reator que está à minha direita.
Rhodan foi ao local indicado sem
dizer uma única palavra.
Procurei um lugar apropriado e
tentei avaliar a situação. Pouco atrás de mim começava o corredor pelo qual
havíamos vindo. Quando o atravessamos, não notamos qualquer abertura.
Portanto, poderíamos resistir por
algum tempo. Posteriormente voltaríamos à sala onde se encontrava a grade
energética. Lá provavelmente nos esperaria o fim inevitável.
Se conseguíssemos encontrar algum
conhecido, ou ao menos alguém que nos desse alguns esclarecimentos sobre a
tecnologia totalmente diversa dos druufs, provavelmente poderíamos arriscar uma
escapada. Mas, na situação em que nos encontrávamos, não nos restava outra
alternativa senão ficar na ratoeira e esperar pelo que estava por vir.
Se tivesse certeza de conseguir
manobrar uma das naves espaciais dessa raça, teríamos uma pequena chance de
fuga.
Preferi não brincar mais com essa
idéia!
Estávamos indefesos diante do que
nos esperava e não teríamos outra alternativa senão pôr as mãos para o alto.
Mas não queríamos fazer isto. Se
os druufs fossem humanóides, talvez valesse a pena assumir o risco. Caso eles
fizessem questão de apoderarem-se de nossos corpos sadios para realizar suas
experiências, que viessem buscá-los, e isso no lugar por nós escolhido.
Lancei um olhar para Rhodan, que
também encontrara um bom local de refúgio.
Era claro que nossa resistência
era insensata. Fatalmente haveria de chegar a hora em que conseguiriam pôr as
mãos em nós. A rigor, não se deve fazer uma coisa da qual se sabe de antemão
que está condenada ao fracasso.
Mas, quanta coisa não se faz sem
uma finalidade específica!?
Para nós, poderia valer muito respirar
por mais uma hora, em liberdade, esse ar surpreendentemente bom. Isso não era
de desprezar!
9
—Tínhamos de vigiar ao todo quatro
entradas. A quinta dava para o corredor que começava atrás de mim. Há poucos
instantes fundira a entrada à minha direita com os raios de minha arma térmica,
transformando-a num bolo escaldante de pedras, sob o qual foram atirados os
corpos metálicos de dois robôs de formato estranho.
Os druufs não haviam penetrado na
linha de fogo. De outro lado, também não realizaram qualquer tentativa séria de
expulsar-nos de nossa posição. Ao que tudo indicava, os robôs por eles enviados
nem sequer eram máquinas destinadas especificamente ao combate. Tive a
impressão de que, de propósito, haviam utilizado algumas máquinas de reparos, a
fim de sondar nossas reações.
Bem, nossa opinião foi expressa de
forma bastante enfática: abrir fogo sem cessar.
Com isso minha consciência, que
queria que enviasse aos druufs uma declaração oficial de guerra, ficou
tranqüilizada. Afinal Rhodan e eu representávamos uma grande entidade estatal,
cujas leis estabeleciam distinção nítida entre homicídio e ato de guerra.
Quer dizer que os druufs já sabiam
como estava a situação. Dependia deles tomar as providências que julgassem
adequadas.
A coronha isolada de meu radiador
de impulsos já estava morna. Na câmara de fusão em miniatura, uma pequenina
carga catalítica aguardava a fagulha elétrica que produziria a ignição. Uma
fração da energia liberada seria absorvida pelo microconversor, que geraria a
eletricidade necessária para que os campos energéticos fossem dirigidos para a
câmara de reação e o cano direcional. Se não fosse assim, uma pequena bomba
atômica explodiria na minha mão direita, pois, no processo de fusão a frio, a
carga catalítica começava a reagir a uma temperatura pouco inferior a quatro
mil graus.
Meu alvo, que era a entrada
situada mais à direita, ficava a cerca de cem metros do lugar em que me
encontrava. Apesar disso, o calor liberado pelo disparo já começava a
atingir-nos.
Nuvens de fumaça malcheirosa
espalharam-se pela sala. As máquinas foram desligadas pouco depois do momento
em que abri fogo. Dessa forma, ouvimos perfeitamente o borbulhar e o chiar da
lava incandescente. Ao que tudo indicava, o cheiro penetrante vinha dos robôs
que fervilhavam.
Rhodan foi o primeiro a começar a
tossir. Fitei-o com os olhos lacrimejantes e, num acesso de humor fúnebre,
gritei:
— Que heróis não somos! Chegamos a
empestear o ar que para nós é tão precioso!
Rhodan interrompeu-me com um gesto
e resistiu a outro acesso de tosse. Depois gritou:
— Você já compreendeu que não
querem danificar a unidade energética? Se a usina em que nos encontramos for
muito importante, estaremos muito bem guardados em seu interior.
Soltei uma risada de escárnio pelo
seu otimismo. Mas, afinal estes bárbaros eram assim mesmo. Só desistiriam
depois que o mundo desabasse à sua frente.
Pouco antes do primeiro disparo,
arrisquei-me a chamar Fellmer Lloyd pelo rádio de capacete. A resposta foi
imediata. Comunicou que conseguira limpar seu traje espacial. Mas as
instalações sanitárias estavam danificadas, motivo por que os reparos só
poderiam ser realizados com ferramentas especiais. De resto estaca passando
mais ou menos bem.
Tinha certeza de que sé sentia
muito mal. Era, claro que, na situação que nos encontrávamos, preferia não nos
dizer isso. O druuf, que sofrera o choque, continuava duro. Esse fato me
convenceu de que realmente o sistema nervoso desses gigantes era muito
sensível.
Olhei para o teto, onde devia
haver as aberturas dos dutos do equipamento de climatização. Descobri algumas
aberturas, mas a fumaça, que começava a tornar-se insuportável, não estava
sendo aspirada pelas mesmas. Face a isso, tive certeza de que os druufs haviam
desligado o sistema de renovação de ar.
Ficara escuro. A iluminação do
pavilhão consistia unicamente nas esferas brilhantes vermelhas, que também aqui
pairavam logo abaixo do teto. Acreditei tratar-se de antenas.
O grito de advertência de Rhodan
soou em meio às minhas reflexões. Baixei a cabeça com tamanha violência que meu
queixo bateu na saliência da base do reator atrás da qual me abrigara.
Furioso, ajoelhei-me e levantei a
arma. Desta vez, os robôs estavam aparecendo ao mesmo tempo nas três entradas
ainda não derretidas.
Ouvi o trovejar surdo da arma de
Rhodan. O raio incandescente ofuscou-me. Quase não consegui enxergar. Só
apertei o gatilho quando a cruz da minha mira cobria um robô esférico, que se
aproximava velozmente pelo corredor largo, existente entre os grandes reatores.
No momento em que foi atingido
pelo raio energético, encontrava-se a uns cinqüenta metros de distância. O
disparo produziu uma ressonância dolorosa no meu ouvido. Vi o corpo esférico
explodir.
Um relâmpago fulgurante subiu ao
teto. Antes que fosse atingido pela onda de compressão, atirei-me ao solo e
segurei a base do reator. Seguiu-se uma série de estouros tão fortes que até
parecia que todo esse mundo desconhecido estava prestes a explodir.
Rhodan voltou a disparar. Percebi
os raios energéticos luminosos cobrindo metodicamente as duas entradas que
ficavam de seu lado. Voltei a ocupar meu posto e vi que, da entrada situada de
meu lado, saíam novas levas de máquinas esféricas.
Disparei duas vezes. Do outro lado
surgiu o caos. Mas antes que outra máquina detonasse, os robôs recuaram tão
depressa que não consegui visar mais nenhum alvo.
Cobri os contornos da entrada com
um tiro prolongado; a mesma também se desfez numa massa borbulhante.
Estava na hora de fechar o
capacete. O calor já se tornava insuportável e as nuvens de fumaça eram tão
densas que mal conseguíamos respirar. A cobertura de minha cabeça emitiu um
clique e se ajustou ao fecho magnético. O suprimento de oxigênio começou a
funcionar automaticamente.
— Então é isso — disse a voz de
Rhodan, vinda pelo alto-falante.
— Tem certeza de que não há nenhum
robô escondido por aqui? — perguntei.
— Tenho certeza quase absoluta.
Pelo que consegui notar durante a confusão, não há nenhum. Acho que vamos
recuar para a sala com a grade energética.
— Que idéia maluca! Vamos resistir
na usina de energia enquanto for possível. Se para os druufs as máquinas são
tão importantes que preferem não destruí-las, então...
A palestra foi interrompida pela
voz de Lloyd.
— O ar por aqui está ficando muito
poluído, Sir — disse com a voz tranqüila. — Tentei fechar os “portos,” mas não consegui.
Compreendi aquilo que ele disse em
sentido figurado. Se fosse obrigado a fechar seu capacete, teria de recorrer
mais uma vez ao suprimento de oxigênio das suas garrafas. Conforme constatamos
logo após a rematerialização, seu suprimento de ar daria para umas seis horas.
Apenas via a sombra de Rhodan.
Mais adiante, o robô que explodira estava ardendo.
— Está bem; vamos andando —
respondi em tom de desânimo. Mas teremos de derreter a entrada que ficará atrás
de nós, para evitar que a fumaça penetre lá dentro. O.K., bárbaro, cuide dessa
parte. Irei para onde está Lloyd.
— Acho surpreendente que os druufs
não chamem pelo rádio para pedir que capitulemos — respondeu, esquivando-se às
minhas palavras. — Estou transmitindo com cinco watts. Devem ser capazes de
captar minha transmissão.
— Não tenha a menor dúvida. Mas
dificilmente saberão fazer qualquer coisa com a língua inglesa. Talvez conheçam
o arcônida.
— Não diga!
— Será que você acredita realmente
que é o centro do Universo? Por que não iriam conhecer o arcônida? Bilhões dos
nossos foram levados para o plano temporal dos druufs. Estou perfeitamente
lembrado das frentes de superposição. Face a isso, os quadráticos talvez tenham
criado algo parecido com uma máquina tradutora. Pelo que me consta, até hoje
nenhuma população de língua inglesa foi atingida pela zona de superposição.
Passou a falar em arcônida, mas
isso também não adiantou nada.
— O ar está ficando cada vez mais
poluído! — disse Lloyd.
Rhodan caminhou lentamente em direção
à porta que ficava à nossa retaguarda. Depois de lançar mais um olhar para as
máquinas fracamente iluminadas, segui-o. Por um instante brinquei com a idéia
de inutilizá-las, mas logo compreendi que a destruição não me serviria para
nada.
Quando nos encontrávamos a um
metro da passagem, o mutante começou a berrar.
— Sir, alguém está passando pelo
teto do corredor. Atlan, chefe, não estão ouvindo? Já estão entrando. Estão
atrás de vocês. Estou captando perfeitamente impulsos cerebrais. Conheço as
intenções deles!
Já estávamos disparando pelo
corredor que devia ter uns cinqüenta metros em linha reta.
Ligamos os potentes holofotes de
nossos capacetes, cujo feixe de luz mergulhava o trecho de caminho que tínhamos
pela frente numa forte luminosidade.
Mais ou menos no centro do túnel,
havia uma abertura no teto. Mas antes que pudessem abrir fogo contra nós, já
havíamos passado.
Gritamos para Lloyd, a fim de
evitar que ele nos confundisse com os inimigos. A seguir, entramos cambaleantes
na sala com a grade energética.
O mutante ainda não fechara o
capacete, embora, mesmo no lugar em que se encontrava, o ar já estivesse cheio
de finas nuvens de fumaça.
Também virei meu capacete pára
trás. Rhodan atirou-se ao chão a meu lado, ao abrigo das robustas colunas que
ladeavam a entrada. Respirava pesadamente.
— Foi duro, não foi? — perguntou
Fellmer.
Virei-me e examinei atentamente
seu rosto. Estava pálido, mas naquele momento parecia ter um instante de
descanso.
— Como vai?
Fellmer não gostava de dar mostras
de fraqueza.
— Não é nada agradável, almirante.
Quanto tempo ainda falta?
Queria saber quanto tempo faltava
até que nossa situação se tornasse insustentável. Mas eu não estava em
condições de esclarecê-lo a este respeito.
— Aos poucos, acabarão perdendo a
paciência — constatou Rhodan. — Se estivesse no lugar deles, não permitiria que
isso acontecesse em minha casa. Atlan, nós nos entregaremos no último instante.
Entendido?
Aquilo soara como uma ordem.
Acontece que eu não estava disposto nem era obrigado a aceitar ordens, a não
ser que me encontrasse a bordo de uma nave da frota solar que estivesse em
batalha, quando então, evidentemente, haveria uma graduação hierárquica.
Lancei-lhe um olhar perscrutador.
— Ainda pensarei sobre isso, meu
caro. Não estou interessado em sofrer a vivissecção que esses descendentes de
insetos talvez pretendam realizar.
O rosto de Lloyd mudou de cor.
Rhodan cerrou os dentes, fazendo-os ranger fortemente.
— Mesmo assim devemos assumir este
risco! — disse, insistindo em seu ponto de vista. — Dessa forma, ainda teremos
uma chance de escapar.
— Tolice! Se nos encontrássemos no
Universo einsteiniano e encurralados por uma raça conhecida, ainda diria que
sim. Mas aqui...
Sacudi a cabeça e voltei a olhar
para a entrada. Lá fora estava tudo em silêncio.
Estive a ponto de levar mais um
comprimido de alimento concentrado do depósito do capacete à boca, quando os
druufs fizeram nova tentativa. Da abertura do teto saiu uma forte luminosidade.
Ouviu-se um rumorejar surdo. Prendemos a respiração e ficamos escutando.
— Até parece um tanque que está
andando — cochichou Lloyd.
— Ou então como robôs pesados
dotados de campos defensivos — acrescentei. — Se utilizarem esse tipo de
máquina, podemos jogar fora nossas armas portáteis. O.K.? Pensem bem se querem
entregar-se ou não. Quanto a mim, só decidirei no último instante.
Mais uma vez, o rosto de Fellmer
mudou de cor. Engolindo em seco e lutando com as náuseas, virou o rosto para
outro lado. Dali a pouco, contorcia o corpo junto à parede.
A pedra ia caindo do teto do
corredor. Tratava-se de rocha natural entremeada pelo material de revestimento.
Estavam ampliando a abertura. Na minha opinião isso era um absurdo.
Por que não mandavam suas tropas,
ou fosse lá o que fosse, pelo pavilhão dos reatores?
Preferi não refletir mais sobre
isso. Pouco importava a direção de que vinham.
Fiquei com a arma engatilhada,
regulada mais uma vez na potência máxima. O polegar da mão esquerda repousava
sobre o botão que acionava o mecanismo automático de fechamento do capacete.
Subitamente Rhodan tocou-me com o
pé. Seu rosto revelava uma tensão extraordinária. Olhei-o.
— Você não ouve? Alguém me chama
pelo nome.
— Hein?
— É o que acabo de dizer. Alguém
me chama pelo nome. Trata-se de uma mensagem telepática.
Com um sorriso inseguro voltou-se
para o mutante.
— Lloyd, ouviu?
— Ouvi, sim senhor, mas a mensagem
é muito fraca — disse Fellmer. — Alguém o está chamando pelo nome de Perry
Rhodan. Diz que o perigo se aproxima e que sente muito ter-nos capturado
involuntariamente com seu transmissor. Mas, apesar de tudo, foi bom, pois só
assim conseguiu vencer suas resistências internas. Ele não sabe quem é o
senhor...
Poucas vezes vi um rosto tão
espantado. Rhodan parecia fora de si. Para mim aquilo não passava de uma
brincadeira de mau gosto.
— Santo Deus! Quem pode conhecer
meu nome por aqui? E que formulações místicas são estas? O sujeito deve saber
quem sou!
— Isso mesmo! — reforcei sem o
menor senso de humor. — Trata-se de um truque dos druufs; apenas isso.
— Acabo de receber outra mensagem!
— exclamou Lloyd. — Ele quer que nos coloquemos novamente atrás das grades. Diz
que faria a ligação inversa. É isto mesmo, usou a expressão ligação inversa.
Mas ainda não sabe dizer de onde conhece seu nome ou por que quer ajudar-nos.
Desta vez, fiquei aborrecido de
verdade.
— Preste atenção! — gritei para
Rhodan. — Alguma coisa está passando pelo buraco.
Reconheci as pernas grosseiras de
um gigantesco robô. Era feito à semelhança e imagem dos druufs. Isso provava se
tratar de uma máquina de guerra. Qualquer inteligência que constrói robôs
vale-se das suas características anatômicas para construir esses artefatos
armados.
Não perdi tempo. A arma de
radiações emitiu um rugido. O raio energético atingiu as pernas balouçantes, e
foi refletido pelas mesmas.
O segundo disparo de minha arma
fundiu o teto, mas naquele momento a máquina já descia lentamente.
Ondas de pressão superaquecidas
passavam ruidosamente pela abertura do recinto. Não tivemos necessidade de
acionar as chaves, porque o dispositivo térmico fechou automaticamente nossos
capacetes. Arrisquei o terceiro ataque, mas o robô apenas cambaleou
ligeiramente para trás.
Sem que tivesse havido qualquer
comunicação entre nós, saltamos para dentro do grande pavilhão. No momento em
que a máquina estava a ponto de entrar, o portão desmoronou sob a ação de nosso
fogo atômico. O ar, que até então ainda era respirável, começou a ferver. Os
projetores de campos defensivos de nossos trajes entraram em funcionamento. Era
uma rematada loucura recorrer a armas térmicas num ambiente como este.
— Outra mensagem — disse Lloyd
pelo rádio de capacete. — Diz que não devemos perder mais tempo. Quer que
entremos, pois ligar-nos-á imediatamente de volta. Outros robôs se aproximam.
Santo Deus, o senhor ao menos poderia experimentar!
Não sabia se estas palavras foram
dirigidas a mim ou a Rhodan. Lancei um olhar para a “jaula” energética. Não confiava mais nela.
Nesse instante, as grossas barras
de metal começaram a brilhar. Devia ser o calor, ou então realmente alguém
acabara de ligar o aparelho parecido com um transmissor.
— Acabo enlouquecendo! — disse
Rhodan fora de si. — Será que há alguma coisa atrás...?
— Isso será uma aventura —
ironizei, apesar da situação desesperadora em que nos encontrávamos. — Quem
sabe o que acontecerá depois que entrarmos ali?
Lloyd passou por nós, cambaleando.
Aproximou-se lentamente das barras de metal e ultrapassou-as.
Por um momento contemplamos
estupefatos o quadro. Não, não aconteceu nada.
Um trovejar soou na abertura
soterrada. Alguém estava removendo as rochas incandescentes com algum aparelho.
— Falta um minuto, arcônida!
Os olhos de Rhodan chisparam fogo.
Finalmente levantou-se devagar e também caminhou em direção à grade. Segui-o de
perto.
Lloyd prestou atenção ao que se
passava em sua mente.
— Ele nos deseja muitas
felicidades — disse o mutante. — Repete que tudo foi fruto de um equívoco. Quer
acrescentar que...
Não consegui ouvir as palavras que
se seguiram. Uma força tremenda apoderou-se de meu corpo.
10
Nosso subterrâneo no planeta Hades
continuava escuro e sem ar.
Reencontramo-nos no transmissor,
mas não sabíamos que estiváramos inconscientes por tanto tempo.
Lloyd ainda não recuperara os
sentidos. Rhodan gemeu de dor. Levamos muito tempo sem dizer uma palavra, pois
não encontrávamos explicações para o fenômeno.
Minha lógica recusava-se a
absorver acontecimentos tão inacreditáveis. A salvação na hora mais difícil
parecia uma nota dissonante.
De qualquer maneira, naquele mundo
desconhecido devia haver alguém que conhecia Rhodan.
Quem seria? Tratava-se de uma
pessoa seqüestrada pelo campo relativista do plano dos druufs?
A tentativa de prosseguir no
raciocínio me dava tonturas.
Subitamente Rhodan chamou pelo
rádio de capacete.
— O ar de Lloyd dá para menos de
cinco minutos — ouvi-o dizer com a voz embargada. — Isso significa que ficamos
inconscientes por mais de cinco horas.
A notícia deixou-me profundamente
abalado. Então era por isso que o mutante ainda não tinha recuperado os
sentidos.
Gritamos e o sacudimos fortemente
para acordá-lo. Não deixamos de notar a luz verde do transmissor, que
continuava acesa. Apenas não era mais uma luz constante, mas acendia-se a
intervalos irregulares.
Levei alguns segundos para
compreender o sentido da mensagem. Alguém estava transmitindo sinais morse pelo
aparelho, ligando-o e desligando-o num ritmo determinado.
Rhodan começou a soletrar.
— D-R-U-S-... Ora essa, isso quer
dizer Drusus! — berrou com tamanha força que senti os ouvidos doerem. — É a
Drusus; chegaram.
Gritando sempre, saltou para a
frente e bateu sobre a chave que acionava o mecanismo do transmissor. Fizemos
força juntos para empurrar os pés de Lloyd para dentro dos contatos.
Assim que conseguimos, o
levantamos pelos braços e o apoiamos com nossos corpos. Depois apertei
rapidamente o botão de contato...
Desta vez a dor da
desmaterialização representou uma bênção para mim. Pouco me importava o que
aconteceria depois. Antes de nos desfazermos, colhi uma última impressão do
rosto de Rhodan. Estava radiante no sentido literal da palavra.
* * *
Acordamos entre as cobertas
brancas, que sem dúvida deviam pertencer à excelente clínica de bordo da
Drusus.
Não vimos Lloyd. Ergui-me sobre os
cotovelos e olhei em torno, perplexo.
Um homem corpulento, de cabelo
louro-claro e jaleco muito grande fitou-me.
— Olá, doutor. Está por aqui de
novo? — perguntei.
O médico encheu as bochechas e, em
vez de responder a meu cumprimento, disse:
— Por todos os santos do
firmamento, onde foi que Lloyd arranjou essa disenteria bacilar? Estava quase
sufocado quando o retiramos do transmissor.
Tive certeza de que estávamos em
segurança. Falar primeiro sobre a pessoa mais doente, era uma atitude típica do
Dr. Sköldson.
— Não faço a menor idéia, doutor;
realmente não faço. Pelo que diz Lloyd, talvez seja da água de uma nascente de
Fera Cinzenta?
— O quê? A água daqui?
A observação deixou-me
sobressaltado.
— A água daqui? Será que estamos
no planeta Fera Cinzenta?
— Onde o senhor pensa que está?
Afinal, dormiu quatorze horas. A Drusus pousou há bastante tempo, isso depois
que ficamos cruzando durante uma eternidade no espaço dos druufs, unicamente
por causa dos senhores. Bem, então ele acha que foi a água da nascente...
Pôs a mão no queixo sem barba e
fitou-me prolongadamente.
— Se é assim, não compreendo por
que não veio falar comigo antes da decolagem de emergência. Naquela
oportunidade, a infecção já devia ter revelado seus sintomas.
— É verdade, doutor. Talvez
tivesse sido preferível o senhor não ter pendurado na porta da clínica de bordo
da Califórnia aquela placa que dizia: “Entrada
somente permitida de quatro.” Os terranos possuem um orgulho muito
estranho.
Desta vez ficou realmente
perplexo, mas não teve tempo de esboçar uma resposta.
Uma matilha ruidosa de homens
entrou na sala. Na frente, vinha Reginald Bell, seguido de perto por Sikermann,
o gigante louro. Não pude constatar quem mais apareceu.
Uma torrente de perguntas foi
despejada sobre nós. Rhodan respondia num estado de semi-sonolência.
Perguntei por que a Drusus
demorara tanto.
Uma expressão séria surgiu no
rosto de Bell.
— O salto com a Califórnia foi bem
sucedido, e conseguimos romper as linhas inimigas sem maiores problemas. Não
ficamos inconscientes, do que se conclui que a teoria da compensação
progressiva é correta. Acontece que, depois disso, não conseguimos atravessar
as linhas de bloqueio da frota robotizada. Até pouco tempo atrás, mais de
cinqüenta mil naves encontravam-se diante da fenda da zona de descarga. Para
romper essas linhas, a Drusus teria de arriscar uma batalha. Preferimos não
tentar a batalha, pois conhecíamos as reservas de ar de que vocês dispunham. É
claro que, se tivéssemos sabido algo da doença de Lloyd e das conseqüências da
mesma, teríamos aparecido imediatamente. Mas, da forma pela qual vimos as
coisas, o risco parecia excessivo face ao resultado.
Ficamos informados de que a
solução do enigma era muito simples. Contávamos com a possibilidade da
ocorrência de problemas insolúveis por ocasião do hipersalto.
— Como vai Lloyd? — perguntou
Rhodan com a voz cansada.
Também se sentia muito mal.
— Muito bem — respondeu Sköldson.
— A disenteria já foi debelada. Dentro de alguns dias estará totalmente
recuperado. Aplicamos algumas vacinas nos senhores. Estava mesmo na hora.
— E a frota arcônida?
— Foi retirada juntamente com boa
parte das naves dos saltadores. No momento os druufs não estão atacando —
respondeu Bell em tom impaciente. — O que aconteceu com vocês? Levei quase seis
horas telegrafando o nome da nave pelo receptor do transmissor fictício.
Afinal, havíamos combinado isso.
— Combinado? — perguntei em tom de
espanto. — Como? Não sabíamos disso.
— Logo depois da decolagem da
Califórnia eu os avisei pelo rádio.
— Seu engraçadinho! — disse Rhodan
em tom indignado. — Mal e mal conseguimos ouvir que vocês galgaram romper as
linhas dos atacantes. Depois não entendemos mais nada.
Bell deixou cair o queixo.
Mas atrás, o rato-castor Gucky
soltou gritos estridentes. Parecia divertir-se a valer com a gafe que seu
grande amigo acabara de cometer.
Não lhe demos atenção. As palavras
de Fellmer, que nos transmitia a mensagem telepática de um desconhecido, ainda
soavam em nossos ouvidos.
— Perdemos algum dos homens da
Califórnia? — perguntou Rhodan.
Em torno de nós, os homens
fitaram-se com uma expressão de perplexidade. Não, a tripulação estava
completa.
— Desista, Perry — pedi em voz
baixa. — Provavelmente nunca saberemos.
— O que houve mesmo? — gritou
Bell.
— Mais tarde contarei — respondeu
Rhodan em tom sonolento. — Mais tarde. Mas ainda hei de descobrir. Eu lhe dou
minha palavra.
O Dr. Sköldson expulsou os
curiosos, usando palavras ásperas e fazendo valer sua autoridade incontestável
de médico-chefe da Drusus.
Quanto a mim, fiquei refletindo
por mais algum tempo no sentido de nossa missão. Bem, pelo menos já sabíamos
com quem estávamos lidando.
Foram estas as inteligências que
há um tempo imenso destruíram minha frota. Obrigaram-me a passar alguns
milênios em estado de hibernação bioquímica.
Foram os culpados de eu ter vagado
pelo planeta Terra, então ainda bárbaro e inculto, desde os tempos do apogeu do
Império Romano. Sempre estive empenhado em transmitir ensinamentos aos
terranos, a fim de reunir os meios que me possibilitassem ao menos a construção
de um hiper-transmissor.
Foi inútil. Ninguém pôde fazer
nada por mim, e não me era possível fabricar de uma hora para outra um
transformador de campo de quinta dimensão.
Agora já sabia onde procurar os
culpados. Uma coisa era certa: tinha uma boa conta a ajustar com eles.
Adormeci com estes pensamentos.
Estava na hora de reunir as forças
para as tarefas que estavam por vir. A base espacial instalada por Rhodan no
planeta Fera Cinzenta, do sistema de Mirta, continuava a ser uma idéia maluca.
Talvez conseguisse avisá-lo de que, por ocasião da descoberta, que sem dúvida
era iminente, já não estávamos neste mundo.
Talvez!
* * *
* *
*
Pela primeira vez Perry Rhodan viu-se no
verdadeiro e perigoso Universo Druufiniano, mas conseguiu salvar-se graças a um
amigo desconhecido. Quem seria este amigo?
Em Sob
as Estrelas de Druufon, título do próximo livro, surpresas e mais surpresas
acontecem...

Nenhum comentário:
Postar um comentário