sábado, 7 de setembro de 2013

P-070 - Últimos Dias de Atlântida - K. H. Scheer [parte 2]

Meus campos isoladores suportaram a carga, embora os dois conversores termais trabalhassem com uma tensão inicial de três milhões de volts. Aquilo que acontecia no pé do fisiotron ficava muito além de minha capacidade de imaginação. Nos pólos de entrada, apenas encontrei alguns fios pequenos, motivo por que com a maior boa vontade não teria arriscado submetê-los a uma carga superior a mil volts com uma intensidade máxima de oitenta ampères.
O que esses fios estavam recebendo e, ao que parecia, levando adiante sem maiores problemas, eram verdadeiras forças primitivas face às dimensões do aparelho.
Bell, que ainda há pouco víamos nitidamente, transformou-se de uma hora para outra numa figura sem contornos nítidos. Dali a um milésimo de segundo só vimos uma espiral energética que pulsava numa luminosidade vermelha e se mantinha no centro das linhas de força criadas no interior do fisiotron.
Fui o último a saltar da plataforma. Com mais alguns saltos, coloquei-me ao lado de Rhodan. No momento em que cheguei, o robô efetuou sua ligação.
Um forte ribombo me fez estremecer. Quando olhei para a ducha celular, esta estava praticamente irreconhecível. Um campo abobadado pálido envolvia completamente a plataforma antigravitacional.
Levamos cinco minutos para encontrar a regulagem adequada. No momento em que atingimos o valor máximo para o isolamento na quarta dimensão, um espaço intermediário instável e quase natural devia reinar no interior do campo de deflexão.
Rhodan acompanhou tranqüilamente o ponteiro dos segundos de seu relógio.
— Se as coisas derem certo, deveremos observar um deslocamento de fases. Provavelmente o fenômeno se estenderá no tempo.
Dali em diante, formou-se um silêncio carregado de tensão. Os homens do comando especial mantinham-se à espreita de qualquer perigo que pudesse surgir de uma hora para outra, enquanto nós nos esforçávamos para reprimir o nervosismo que ameaçava dominar o ambiente.
Bell teria de permanecer uns noventa minutos na ducha. Era sua única chance.
No momento em que os contornos começaram a apagar-se para aqueles lados, ouvi a respiração rápida e pesada de Rhodan no alto-falante. Homunk controlava os comandos do fisiotron.
Dali a trinta minutos, parecia que a enorme ducha celular era formada apenas por um tecido finíssimo. Visto de lado, o aparelho parecia muito mais largo. Não havia dúvida de que se tratava do espaço intermediário que poucos dias antes havíamos sentido tão nitidamente em nosso próprio corpo.
Crest, em cujo rosto se viam nitidamente os sinais do cansaço e da tensão das últimas horas, juntou-se ao grupo. Parecia nervoso. Ouvimos sua voz nos capacetes pressurizados, em cujas lâminas de visão surgiam constantemente os vapores cristalizados. Apalpei nervosamente as peças metálicas de meu traje espacial. Não era nenhum prazer permanecer numa atmosfera de cloro.
Crest leu o diagrama da calculadora portátil. De acordo com o mesmo, a diferença entre as dimensões temporais era apenas de um para 4,26374. Essa cifra deixou-me ainda mais preocupado. Nossos movimentos seriam apenas quatro vezes mais rápidos que os de algum eventual inimigo.
Uma vez apurados esses dados, começamos a imaginar qual devia ser a verdadeira fúria da tormenta que sentíamos. A velocidade do vento que, segundo nossas medições, era de cerca de setenta e um quilômetros por hora, devia corresponder, na dimensão temporal desse planeta, a aproximadamente duzentos e oitenta e cinco km/h. Conforme ensinava a experiência, nosso organismo tende para o ajuste. Ainda não se sabia perfeitamente por que era assim. O que causava uma perplexidade ainda maior era o fato incontestável de que havia um planeta do plano dos druufs em que a relação era de um para quatro. Dali poderiam resultar importantes problemas matemáticos, de que no momento não poderíamos ocupar-nos.
Quando Rhodan acabou de examinar o diagrama elaborado por Crest, o alarma surgiu de um instante para outro. Isso aconteceu exatamente cinqüenta e seis minutos depois do momento em que Bell entrara no fisiotron.
Rhodan parecia estarrecido. Fitamo-nos por alguns segundos, antes que alguém rompesse o silêncio.
— O que acha, almirante? Já esteve numa situação como esta?
Meu segundo cérebro, que praticamente se identificava com minha memória fotográfica, anunciou sua presença com uma dolorosa nitidez. A tendência anormal e doentia de contar histórias surgiu em minha mente.
Recorri a todo o poder de autocontrole de que dispunha, para reprimir essa tendência. Em palavras apressadas comuniquei a Rhodan que, dez mil anos antes, me vira numa situação muito semelhante a esta, e disse que providências tomara.
— Rodes Aurin! — chamou Rhodan.
Seu rosto apareceu nas minúsculas telas dos videofones de pulso, cujas saídas de alto-falantes haviam sido acopladas aos capacetes.
— Localização do rastreador estrutural, Sir — anunciou o oficial de combate da Drusus. — Cinco ondas de choque simultâneas. Mas a amplitude não é variável como acontece numa penetração normal no espaço einsteiniano. Trata-se de unidades energéticas remanescentes, praticamente constantes. Parece que alguém está saindo sem interrupção do hiperespaço, não num salto, mas tranqüila e uniformemente. Não se trata de um abalo estrutural como qualquer outro.
Perry Rhodan fitou-me com uma expressão de perplexidade. Lembrei-me perfeitamente de um acontecimento que representara o começo de nosso fim.
— Atacar; atacar imediatamente — disse em tom apressado. — Não percam tempo. As medições do rastreador são corretas, por mais estranhas que possam parecer. Os seres, que vocês chamam de druufs, dominam a navegação espacial à velocidade superior à da luz de outra forma que vocês. Não pulam pela quinta dimensão como nós, mas voam através da mesma. Será que me fiz entendido?
— Não inteiramente. Voam como?
— Porque não saltam no verdadeiro sentido da palavra — respondi em tom nervoso. — Daquela vez isso também foi um mistério para mim, até que de repente houve um estouro. Vencem o hiperespaço num vôo extenso realizado numa velocidade alguns milhões de vezes superior à da luz. Face à alteração das leis físicas que se verifica no paraespaço e do plano de referência que ali prevalece, isso parece uma coisa corriqueira. Com esse sistema de deslocamento, à velocidade superior à da luz, a estrela-referência sempre permanece visível.
“Além disso, esse processo não causa nenhuma desmaterialização, ao contrário da modalidade violenta do salto por nós utilizada. Os druufs se vêem, por exemplo, de uma distância definida. Esta serve de base ao cálculo do excedente de velocidade na quinta dimensão e à determinação da velocidade. Trata-se de um vôo como qualquer outro, apenas alguns milhões de vezes mais rápido que o permitido pelas leis do espaço einsteiniano.
“Na quinta dimensão, a velocidade atingível é bilhões de vezes superior à do nosso Universo. Não sabemos como os druufs saem do hiperespaço. Acredito que eles o façam por meio de um salto-choque brevíssimo que, nem de longe, pode ser comparado com as nossas transições. Limitam-se a penetrar no mesmo, orientam-se e saem correndo. Os trechos pontudos do diagrama dos nossos rastreadores estruturais indicam a ocorrência de ondas de choque. A linha em que se verifica uma ondulação constante corresponde à velocidade de aproximação. Daqui a pouco, haverá mais um choque quase imperceptível, mas quando isso acontecer já estarão aqui.”
— Aurin, isso é exato? O senhor notou uma curva íngreme no trajeto inicial? — perguntou Rhodan pelo rádio.
— Sim senhor; é exatamente isso — respondeu o capitão em tom nervoso. — Acho que uma luz está nascendo em meu espírito. Tem alguma ordem, Sir?
Rhodan voltou a fitar-me. Percebeu como minha mente fervilhava. As recordações penetravam cada vez mais intensamente em meu espírito. Meu segundo cérebro, ativado em Árcon, não conhecia compaixão. Num gesto de simpatia, Crest bateu no meu ombro. Pertencia a uma das famílias dominantes e, por isso, evidentemente também tivera a vantagem duvidosa da ativação cerebral, realizada com permissão do Estado. Um arcônida normal nunca era submetido a esse processo. A vitalização dos setores ociosos do cérebro só era permitida a pessoas de grandes méritos ou àquelas que ocupavam posições elevadas.
Rhodan não perdeu tempo. E quando um terrano toma uma decisão, muita coisa costuma acontecer...
Antes que recuperasse o autocontrole, alguns monstros azuis brilhantes saíram do campo de refração. Pensei se tratar de quatro unidades que estivessem em condições de decolar. Mas, de repente, surgiram as quarenta unidades que a Drusus trazia a bordo.
Notei um sorriso feliz no rosto de Rhodan. Ao que parecia, nem mesmo ele sabia que seu representante, o Tenente Sikermann, tivera a cautela de desembarcar os quarenta girinos.
Atrás das potentes naves de sessenta metros, uma verdadeira “matilha” de destróieres de três tripulantes, capazes de desenvolver a velocidade da luz, atravessaram o campo. As coisas ainda poderiam ficar “divertidas”.
As tripulações recém-chegadas ainda dispunham da vantagem de sua dimensão temporal. Com isso, desenvolveriam, pelo menos durante uma hora, velocidade quatro vezes superior à da nave mais moderna dos druufs.
Abriguei-me ao notar que os pilotos, que aparentemente haviam enlouquecido, seguiam em direção ao alvo com uma enorme aceleração.
Ouvia-se um forte ribombo. Assim deverá ser o fim do mundo. Constantemente novas levas de destróieres cruzavam à baixa velocidade o campo de refração. Para nosso azar, ficávamos bem abaixo da linha obrigatória de saída. Os arrojados rapazes dirigiam suas máquinas para o alto no momento exato em que chegavam ao lugar onde nos encontrávamos.
Rhodan havia lançado pelo menos duas esquadrilhas de combate. Assim que o cortejo tresloucado havia passado, Aurin perguntou preocupado:
— Será que isso basta, Sir?
Respirei profundamente.
A risada de Rhodan deixou-me nervoso. Ao que parecia não acreditava que os misteriosos druufs fossem invencíveis. Dali a pouco dirigiu-se a mim.
— Muito bem, arcônida, seguimos seu conselho. Bell precisará de mais vinte e nove minutos. Até lá teremos de manter o front. Quais são nossas chances?
Procurei um lugar para sentar. Quando os bárbaros terranos acordavam, um homem do meu tipo sempre levava um choque nervoso.
Mantive-me em silêncio até que estivesse montado o aparelho de hipercomunicação, vindo do outro lado. A tela estava dividida em quatro setores. Dali a alguns segundos, vimos os rostos dos oficiais que comandavam a operação. Era claro que os tenentes Stepan Potkin, David Stern e Marcel Rous estavam entre eles. Ao que parecia, dirigiam os grupos de destróieres.
— Nós os localizamos, Sir — anunciou Potkin com a maior tranqüilidade. — Os rastreadores estruturais estão funcionando. Para chegarem aqui, terão de sair do hiperespaço. Devemos agir, assim que puserem o nariz para fora?
— Claro que sim — respondeu Rhodan. — Face aos acontecimentos mais recentes, o estado de guerra existe entre nós e os druufs. Não existe a menor dúvida de que fomos localizados pelos desconhecidos. Ao que parece inventaram um método que lhes permite constatar imediatamente a presença de um campo de refração. Provavelmente a criação deste produz uma forte onda de choque na quinta dimensão. Avance para o espaço e entre em formação de leque. As unidades que penetrarem em nosso espaço devem ser detidas, custe o que custar. Ainda preciso de exatamente vinte e cinco minutos.
A essa hora já recuperara o autocontrole. Estava perfeitamente familiarizado com a situação. Com a maior calma, observei:
— Preste atenção, bárbaro! Diga a seus homens que, se necessário, sigam o inimigo bem de perto, para que, livres de corpúsculos, as ondas geradas pelo mecanismo de propulsão possam ser utilizadas como canais dos raios energéticos disparados pelas armas. Se os campos defensivos dos druufs ainda forem os mesmos, sua reação a uma forte corrente de impulsos será bastante débil.
Rhodan não perdeu tempo. Da minha parte, tive mais uma oportunidade de colocar à disposição dos terranos as experiências que colhera dez mil anos atrás.
Dali a três minutos, as unidades terra-nas entraram em combate. Os aparelhos de hipercomunicação emitiam estrondos e estalos, como se duas frotas gigantescas se encontrassem. Os microfones das naves auxiliares e dos destróieres transmitiam fielmente os ruídos, que no interior das naves, que vibravam sob o efeito dos mesmos, deviam ser quase insuportáveis.
Já conhecia o retumbar igual ao badalar de um sino que se seguia aos tiros de costado e aos bombardeios prolongados. As células circulares dos girinos eram corpos de ressonância que produziam um efeito mais desagradável que os outros.
Olhamos para cima, mas a olho nu não se via nada. O combate era travado nas profundezas do espaço. Vez por outra, vinham notícias transmitidas por algum comandante. Segundo essas notícias, até então só havia sido constatada a presença de seis unidades inimigas.
...quatro das naves longas e finas já foram destruídas. Não foram encontrados sobreviventes; as naves inimigas eram tripuladas por robôs. Os dois telepatas a bordo das naves auxiliares K-18 e K-6 não conseguiram captar qualquer impulso mental.
— Tanto melhor — disse Rhodan, olhando para o relógio. — Só faltam quatro minutos.
Estávamos impacientes. Vivia perguntando a mim mesmo o que Bell, no interior do fisiotron, estaria sentindo nesse momento. Provavelmente nada.
Quando o tempo de aplicação chegou ao fim e Homunk desligou a ducha celular, olhamos ansiosamente para a plataforma antigravitacional. O campo defensivo desapareceu. Os contornos voltaram a surgir nitidamente diante dos nossos olhos.
Subitamente Gucky, que se encontrava a meu lado e segurava minha mão esquerda, soltou um grito agudo:
— Está vivo — gritou o rato-castor. — Estou captando seus pensamentos. Ele acredita que só esteve um segundo no interior do aparelho.
Recuei diante da luminosidade à minha frente. Gucky desapareceu de um momento para outro, mas logo reapareceu dentro do fisiotron desligado, onde abraçou o homem obeso.
Rhodan limitou-se a olhar-me. Nós nos entendíamos perfeitamente, mesmo sem palavras. De qualquer maneira, havíamos conseguido alguma coisa, pois Bell parecia são e salvo. Mas ainda não sabíamos quais os efeitos que a ducha celular poderia ter produzido sobre o estranho processo de rejuvenescimento.
Rhodan parecia escutar para dentro de si mesmo. Como soubesse que o mesmo possuísse dons telepáticos reduzidos, preferi não perturbá-lo. Depois de alguns segundos, disse com uma ligeira exaltação na voz:
— Segundo a mensagem transmitida por Gucky, Bell está perfeitamente bem. O rosto de menino voltou a transformar-se no que era antes. Você é capaz de compreender uma coisa dessas?
Não tive tempo de exprimir em palavras minha incompreensão total do fenômeno. Bem acima de nossas cabeças, um monstro mergulhou na densa atmosfera de cloro do planeta. No mesmo instante, ouvimos a mensagem do chefe da esquadrilha.
Vi o rosto liso e bem cuidado de Van Aafen surgir na tela. O major era frio, um tanto reservado e pedante como sempre. Era um excelente cosmonauta, e parecia nem ter nervos.
— Cuidado, Sir — anunciou. — Uma nave pesada do inimigo conseguiu romper nossas linhas. Vou atrás dela com oito girinos. Talvez seja conveniente procurar um abrigo.
Ele o disse no tom de quem se entretém numa conversa domingueira.
Abrigamo-nos.
A aproximadamente um quilômetro do lugar em que nos encontrávamos, um traço ofuscante cortou a atmosfera esverdeada. Um forte ribombo atingiu-nos. A onda de compressão me atirou a alguns metros no chão liso da plataforma.
Ouvimos um trovão infernal. Após isso, houve outro furacão, que me levantou violentamente. Havíamos sido atingidos pela periferia do vácuo produzido por uma nave espacial que se deslocava em alta velocidade.
Os acontecimentos foram tão rápidos que meu cérebro não conseguiu acompanhá-los. Alguns vultos apagados passaram a grande altitude. Uma forte luminosidade rompeu a semi-escuridão. Subitamente um sol atômico abriu-se à grande distância.
Senti-me ofuscado e fechei os olhos. Esperei pelo que estava para vir. Alguém segurou meus tornozelos, em busca de apoio. Estávamos com o corpo comprimido contra a plataforma, quando a frente escaldante nos atingiu. O fim do mundo não poderia ser pior. Dali a alguns minutos, não saberia dizer como resisti ao inferno.
Um tanto confuso, levantei-me e ajudei Rhodan a erguer-se do chão. Nossos veículos antigravitacionais estavam quase tombados. A tormenta atômica atingira-os e os atirara a mais de cinqüenta metros pelo terreno pouco acidentado.
— Foram pelo menos cem megatons — constatou Rhodan com um gemido. Parecia ter luxado o pulso esquerdo. — Será que isso ainda voa?
— Pelo amor de Deus, Sir — disse um dos tripulantes. — Os aparelhos precisam ser levados de volta, especialmente o fisiotron.
Procuramos localizar Bell. Estava na outra plataforma e abanava os braços para nós. Ao que parecia, por lá as coisas estavam em ordem.
Quando já estávamos examinando o mecanismo de propulsão, recebemos a mensagem do major. De início ouvi Rhodan praguejar, e depois ouvi as palavras de Van Aafen.
— Sinto muito; parece que foi perto demais. Não pudemos evitar a explosão da nave robotizada. Solicito novas instruções.
— Quero que o diabo o carregue aos pedacinhos — respondeu Rhodan. — O senhor poderia ter esperado dois minutos para abrir fogo contra o inimigo. Nesse caso, já se encontraria a mais alguns milhares de quilômetros. Está bem; esqueça. Espere até que as duas plataformas de carga estejam em segurança. Depois siga-nos com toda a esquadrilha. Os destróieres protegerão a retaguarda. As pequenas naves poderão atravessar o campo de refração bem mais depressa que seus girinos. Entendido?
— Perfeitamente, Sir. Permite que pergunte como vai Mr. Bell?
— Permito — respondeu Rhodan em tom irônico. — Está satisfeitíssimo com a onda de compressão causada pelo senhor. Quanto ao mais está passando bem. Transmita esta notícia aos tripulantes das outras naves.
— Queira transmitir minhas congratulações, Sir — disse Aafen no tom formalista que lhe era peculiar.
Rhodan deu uma risada e prometeu atender ao pedido.
Mais uma vez, constatei que, a bordo dessas naves, havia homens admiráveis e ótimos amigos. Dali a dez minutos, nossa plataforma levantou-se do solo. Fi-la atravessar o campo de refração à velocidade máxima e só desliguei os propulsores suplementares quando o gigantesco abaulamento do corpo da Drusus surgiu à nossa frente.
Dali a pouco, Rhodan apareceu com a outra plataforma. Sua mensagem radiofônica ainda atingira a esquadrilha de combate. Os primeiros girinos estavam voltando ao Universo normal no momento em que suspirei aliviado e tirei o capacete pressurizado.
O planeta de cloro fora um lugar nada agradável.


3



Teldje van Aafen perguntou-me em tom muito cortês como os velhos comandantes de cruzadores da frota arcônida costumavam redigir os comentários de suas experiências.
No início, senti-me um tanto espantado, mas acabei dando a informação solicitada. Ao que parecia, nem mesmo Perry Rhodan estava disposto a dispensar a guerra de papéis, embora por experiência fizesse o possível para em cada caso liquidar o mais depressa possível esse problema enfadonho de qualquer estadista ou comandante. O imediato da nave Drusus também parecia sentir-se um tanto chateado por ter de elaborar um relatório detalhado das experiências colhidas em combate.
Não sofremos nenhuma perda, fato que provava a extrema precisão revelada pelos pilotos terranos durante o ataque. É claro que foram favorecidos pela dimensão temporal.
Naquele momento, estava ocupado na interpretação dos dados reunidos por Crest. Rhodan retardou o regresso do supercouraçado, uma vez que nos sentimos obrigados a reparar os danos causados ao pavilhão onde estava instalada a ducha celular.
Cerca de vinte e quatro horas se haviam passado desde o momento em que regressamos do plano temporal dos druufs. Um exército de robôs estava montando o fisiotron e os reatores.
Antes da decolagem da nave, seria realizado um teste com o equipamento.
Compreendia a disposição psíquica de Rhodan. As dúvidas eram imensas. Sabia tão bem quanto eu que o problema surgido com os druufs teria de ser resolvido imediata e totalmente.
Algumas mensagens de hiper-rádio, expedidas pelos serviços terranos de segurança, eram alarmantes. Em alguns mundos estranhos voltaram a acontecer coisas terríveis que não podíamos impedir. Raças inteligentes da Galáxia haviam desaparecido da noite para o dia. Grandes planetas foram praticamente despovoados. Já conhecíamos esse tipo de acontecimento, mas ainda não compreendíamos a finalidade daquilo. O que se poderia ganhar com o seqüestro de milhões e mesmo bilhões de seres pensantes?
Há várias semanas refletia sobre isso. A solução já se desenhava em minha mente, mas ainda não sabia se minhas suposições eram corretas. A súbita modificação da dimensão temporal de um dos planetas dos druufs parecia indicar que por lá fora atingido um estágio decisivo. Alguém parecia estar empenhado em igualizar as leis que regiam as duas dimensões. Será que para isso precisavam de matéria orgânica viva? Seria este o motivo do seqüestro de inúmeras inteligências humanóides?
Rhodan soltara um assobio forte e desafinado quando há poucas horas lhe submeti o resultado de minhas reflexões. Agora voltara a ficar só no grande centro de computação do supercouraçado.
Tudo indicava que com Reginald Bell tudo estava bem. Quem contemplasse atentamente seu rosto, ainda notaria os sinais de um pequeno rejuvenescimento. Mas, de qualquer maneira, o estranho processo fora detido. Em seu tecido celular acontecera alguma coisa que não conseguíamos compreender. Sem dúvida chegara a um estado de verdadeira estabilidade, que também se verificava em Perry Rhodan.
Pelas doze horas, dirigi-me à grande cantina dos oficiais da Drusus. Homunk, o robô perfeito, mandara abastecer-nos com legumes frescos. Estava tudo na mais perfeita ordem, ainda mais que os druufs não haviam encontrado um meio de penetrar em nossa dimensão temporal. Provavelmente a adaptação estrutural por meio de um campo de retração se tornaria muito mais difícil do outro lado.
Mas havia um acontecimento que me deixava preocupado. Ficaria satisfeito se no mesmo instante tivéssemos abandonado o planeta Peregrino.
Sentei no lugar de costume e aguardei a chegada dos oficiais da nave. Foram vindo um após o outro; Rhodan e Bell foram os últimos a chegar.
Rhodan parecia distraído. Com gestos mecânicos foi consumindo sua refeição. No momento em que a transportadora automática retirou a sobremesa do poço central e a distribuiu pelos lugares da mesa, disse de repente, em voz alta:
— Gucky diz que há cerca de duas horas captou impulsos telepáticos muito fracos, impulsos estes que só podem ter sido irradiados pelo ser coletivo. John Marshall confirmou a informação.
De repente, um silêncio total passou a reinar na cantina. Lancei os olhos para o rato-castor, que estava sentado sobre uma cadeira especial, junto a Rhodan.
— É verdade! — confirmou com sua voz chilreante. — O Ser deu sinal de vida.
— Qual foi a mensagem? — perguntei em tom curioso.
Gucky parecia extremamente sério. Seu grande dente roedor não apareceu.
— Não consegui ouvi-lo. Até mesmo para mim, a mensagem telepática foi praticamente incompreensível. Disse que desejava retirar-se por alguns dias de seu tempo.
— Seu tempo? Santo Deus! — disse Bell. — Vocês têm uma idéia de quanto poderá demorar isso? Pelo que dizem, o Ser vive mais tempo que o sol. Se Ele fala em alguns dias e acrescenta expressamente que se trata de dias de sua contagem de tempo, podemos sair tranqüilamente e voltar dentro de cinqüenta anos no mínimo. Segundo seus padrões, isso talvez represente três minutos. Aos poucos começo a compreender o verdadeiro significado do termo relativo.
Senti-me dominado por um profundo desânimo. Ainda desta vez, minha curiosidade não seria satisfeita. Aliás, a curiosidade não representava um simples desejo de saber, mas exprimia uma necessidade premente de acalmar meu sistema nervoso ultra-sensível.
Senti-me atraído pelos grandes olhos de Gucky. Com um sorriso distraído, disse em voz baixa:
— Não, meu filho, não tente. Não sou suscetível a qualquer tipo de influência sugestiva. Ele lhe disse ou pediu mais alguma coisa?
— Foi justamente por isso que eu o olhei. Ele disse que a volta do planeta da zona intermediária para nosso plano temporal lhe causou certas dificuldades. Perdeu grande parte de sua substância psíquica. Nossa experiência com Bell transferiu parte do mundo artificial para a mesma dimensão. Dessa forma, conseguiu regressar, mas por enquanto não está em condições de entrar em contato conosco. Você compreende o que significa isso?
Sim, compreendia mais ou menos. A expressão substância psíquica designava o volume espiritual do ser coletivo. Provavelmente o choque da irrupção produzira uma redução de sua vontade e energias mentais, que, em última análise, constituíam o fundamento do poderio imenso daquele ser misterioso.
Limitei-me a fazer um gesto afirmativo. Não tinha mais nada a dizer.
— Foi só isso?
O rato-castor lançou um olhar inseguro para John Marshall, que era o chefe do Exército de Mutantes.
— Sabemos perfeitamente que o senhor está muito interessado em obter um esclarecimento — disse o homem esbelto e louro. — Pelo que entendi, a mensagem ligeira, que dava sinais evidentes de esgotamento, não incluía qualquer informação específica para o senhor, a não ser que uma frase, que para mim representa um enigma, tivesse essa finalidade.
— Que frase foi essa? — perguntei em tom exaltado.
O telepata estabeleceu um contato silencioso com o rato-castor. Após isso, ouvi o teor exato da frase. Era uma manifestação típica de um ser do qual apenas sabíamos que era feito de uma aglomeração misteriosa de inúmeras inteligências. Marshall disse em tom pensativo:
— O presente do robô não foi apenas um ato de altruísmo, pois minha existência também dependia do poder de um homem que encontrara a arma.
Assim que Marshall silenciou, tive a impressão de afundar no chão duro.
Ele sabia que eu estava esperando uma informação. Apesar de seu enorme cansaço, não se esquecera de fornecer uma indicação aos telepatas de Rhodan. Perry lançou-me um olhar indagador.
— Você sabe o que vem a ser isso?
Um choque elétrico parecia martirizar meu cérebro. Senti que não poderia resistir por muito tempo aos impulsos poderosos de meu segundo cérebro. As lembranças tomaram conta de mim. De repente, tive a impressão de não estar a bordo do couraçado terrano, mas num continente que há muito deixara de existir.
Senti uma súbita fraqueza. Marshall acabara de proferir a palavra-chave que ativara minha memória fotográfica.
Lancei as mãos em torno, à procura de apoio, até que alguém me segurou fortemente pelo braço.
— Está começando de novo? — perguntou uma voz preocupada. — O que houve, Atlan? Se você acha que tem de contar alguma coisa, fale logo. O que significa essa mensagem?
— Meu ativador celular — disse com um gemido. A dor de cabeça me torturava. — Ele me concedeu a imortalidade relativa para proteger-se a si mesmo. Já vejo claro. Empenhei tudo que me restava para defender a Terra. Naquela época, eu já sabia que esse planeta se transformaria num centro dos acontecimentos. Havia uma identidade com a constelação cósmica que deu causa a uma superposição das duas dimensões temporais. Esta superposição adquiriu uma estabilidade provisória. Para Ele aquela situação deveria revestir-se de uma importância extraordinária. Não foi por acaso que obtive a vida eterna. É uma vergonha!
A mão de Rhodan cingiu mais fortemente o meu braço.
— Conte — ouvi-o dizer com a voz tão fraca como se estivesse a alguns metros de distância. — Será um alívio para você e uma lição para nós. Relate tudo; ligarei você com os alto-falantes de todos os setores da nave.
No momento em que desisti da resistência, consciente aos impulsos expedidos por meu segundo cérebro, as dores de cabeça desapareceram como que por encanto. Senti-me libertado de algo que me oprimia; tive a impressão de que minha caixa craniana se dilatava.
O rosto marcante de Rhodan desmanchou-se. À minha frente surgiram anéis vermelhos, entre os quais foi surgindo aos poucos a cabeça branca do velho Tarts. Em seu rosto havia um sorriso tranqüilizador, que fez desaparecer todas as dores.
Minha inteligência consciente acabara de ser desligada. Pensava e agia exclusivamente sob o comando de meu setor de memória, que registrara e gravara todas as experiências de minha vida.
Usei a língua inglesa, motivo por que mais uma vez preferi não traduzir em concepções arcônidas os dados técnicos, a graduação dos oficiais e as indicações cosmo náuticas de tempo e distância. Muitos dos tripulantes não os entenderiam, pois só os dirigentes terranos dominavam a língua ar-cônida.
Pouco importava que um comandante de nave de primeira classe fosse designado como vere’athor ou como capitão.
Ainda ouvi Rhodan dizer o seguinte:
— Estamos ansiosos para saber por que você está tão bem informado sobre a tecnologia da navegação hiperespacial dos druufs. Como soube que não transitam, mas voam na verdadeira acepção da palavra? Atlan, você ainda ouve o que estou dizendo? Marshall, chame o Dr. Sköldson. Ele está pálido como cera. Ande depressa. Atlan, o que houve...?
Esforcei-me para esboçar um sorriso tranqüilizador. Minha palidez era perfeitamente natural, já que a ativação do setor lógico de meu cérebro causava uma grave perturbação na circulação sangüínea da pele do rosto.
Iniciei meu relato. O presente desapareceu diante de mim. Para meu segundo cérebro só existia o passado.
Alguém aproximou-se. Era Inkar, comandante do cruzador imperial Paito...


4



— ...de forma que Sua Majestade, o Imperador Gonozal VII de Árcon, houve por bem fazer do sistema da estrela Larsaf uma base avançada da frota do Grande Império. Pelo presente ordena-se ao Almirante Atlan, chefe do grupo de cruzadores do setor das nebulosas, Príncipe de Cristal da estirpe majestosa de Gonozal, que defenda a estrela Larsaf com todos os meios que estão ao seu alcance e procure evitar que o inimigo não-arcônida penetre no sistema. Além disso, Sua Majestade ordena pessoalmente ao Almirante Atlan que promova o desenvolvimento da jovem colônia, na medida em que as inteligências primitivas estejam dispostas a receber esse tipo de apoio e sempre que as necessidades bélicas não exijam um tratamento especial. Assinado: Umtar, Chefe do Planejamento Colonial do Grande Conselho de Árcon.
O comandante do cruzador, muito jovem — na verdade, jovem demais para uma posição militar tão elevada — deixou cair a faixa de plástico. Acabara de ler em voz alta as instruções por ele trazidas.
Lá fora, no novo espaçoporto de Atlântida, o cruzador ligeiro Matoni, utilizado no serviço de correios, já estava sendo preparado para a decolagem. O Capitão Ursaf recebera ordens de regressar assim que tivesse entregue a mensagem.
Estava de pé atrás de minha escrivaninha, duro como uma estátua. Minha garganta estava ressequida. O estilo empolado das ordens demonstrava que estas haviam sido elaboradas no laboratório de matrizes do planeta de cristal. O teor da mensagem atingiu-me com a força de uma pancada.
O Capitão Tarts — meu mestre, já idoso, que exercia as funções de comandante da Tosoma, nave capitania da esquadrilha — manifestou sua opinião por meio de um sorriso malicioso.
— “...na medida em que as inteligências primitivas estejam dispostas a receber esse tipo de apoio e sempre que as necessidades bélicas não exijam um tratamento especial” — repetiu em tom zombeteiro. — Será que não têm mais nada a dizer? Onde está o reforço de naves de guerra e material, solicitado há muito tempo? E o que é feito dos canhões de conversão, cuja construção só se tornou possível em virtude dos planos conseguidos pelo Almirante Atlan? Ao que parece, em Árcon já se esqueceram de que a célebre esquadrilha comandada por Atlan consiste apenas em duas naves e que nem se pode cogitar da penetração dos metanianos, não-arcônidas, no sistema de Larsaf. “Afinal, estamos a trinta e quatro mil anos-luz do centro dos combates. Os metanianos têm coisa mais importante a fazer; não irão interessar-se por esta estrelinha minúscula, cujos planetas não oferecem o menor interesse científico ou econômico. Os custos do transporte seriam mais elevados que o valor das mercadorias que poderiam ser retiradas daqui. Sob o ponto de vista estratégico, a construção de uma base da frota neste setor representaria um verdadeiro absurdo. Por aqui não há nada para conquistar ou defender. Além do mais, não dispomos de recursos que nos permitam transformar o terceiro planeta e especialmente a Atlântida num espaçoporto de reparos. O material de que dispomos mal e mal é suficiente para a manutenção das poucas máquinas agrícolas que nos restam.
“Como podemos harmonizar estes fatos com a mensagem rebuscada de alguns membros do Conselho, que dificilmente estão informados sobre as condições aqui reinantes? Ao que parece, as coisas não andam bem no Grande Império.”
Não fiz nada para aplacar a cólera plenamente justificada de Tarts. Na verdade, em Árcon já havíamos sido registrados como uma perda. Bastava contemplar atentamente o jovem Capitão Ursaf para convencer-me de quanto as coisas haviam mudado no império estelar.
Já pertencia à geração da guerra. Corporificava o tipo do comandante formado às pressas, do qual se esperava que conseguisse sair são e salvo das primeiras batalhas, a fim de colher experiências.
Segundo as estatísticas, menos de oito por cento desses homens resistiam ao batismo de fogo. No entanto, o Império já não se podia dar ao luxo de submeter os tripulantes e os comandantes das naves à necessária aprendizagem. Isso exigia muito tempo, e o tempo era escasso.
O número enorme de naves de todos os tipos, perdidas nas lutas, podia ser substituído pela produção inteiramente robotizada dos Sistemas Solares Unidos. Mas os seres pensantes, que conduziriam as naves recém-construídas durante o combate, teriam de nascer e ser treinados depois de atingida a maturidade psíquica e orgânica.
Nossas perdas deviam ser terríveis. A guerra contra os respiradores de metano, monstruosos seres não-arcônidas vindos das profundezas da Via Láctea, enfraquecera consideravelmente o Grande Império.
Há cinco anos o grupo de cruzadores por mim comandado participara ativamente dos combates. Depois de algum tempo, recebi instruções para manter a ordem num minúsculo sistema solar, situado a trinta e quatro mil anos-luz de distância. Um funcionário inescrupuloso foi demitido por mim e enviado para Árcon, onde seria julgado.
Pouco depois, recebi novamente ordens para dirigir-me ao sistema da estrela de Larsaf, uma vez que os colonos do planeta número II haviam enviado um pedido de socorro.
Quando cheguei ao sistema e minhas tripulações, experimentadas em muitas lutas, tiveram de combater um inimigo invisível e irreal, o quartel-general da frota espacial quase já se havia esquecido de que eu existia.
Antigamente, isso nunca poderia ter acontecido. Mas hoje em dia, tinham de cuidar de coisas mais importantes. Mandei evacuar o segundo planeta, uma vez que nossos colonos desapareciam pura e simplesmente. Até então sempre fomos derrotados nas lutas de defesa que travamos.
Seres terríveis, que não tinham qualquer relação com os respiradores de metano, aproveitavam um fenômeno tremendo da natureza para atingir seus objetivos. No curso dos meses, descobrimos que neste setor espacial estava ocorrendo um fato extremamente raro. Dois universos diferentes, o nosso e um outro, começavam a sobrepor-se nas áreas periféricas. A diferença entre os dois universos consistia na diversidade das dimensões temporais. Era um fenômeno tão relativista que mal podia ser interpretado em termos matemáticos.
Mandei os colonos para casa. Meu grupo de cruzadores foi destruído. Estávamos diante de uma difícil situação.
Caminhei lentamente em direção às amplas janelas de meu gabinete e lancei os olhos para a capital de Atlântida. Meu mestre, Tarts, designara o Continente por nós colonizado pelo meu nome.
Esforcei-me para afastar o gosto amargo que sentia na boca. Não consegui. Os oficiais de meu grupo de combate que se encontravam presentes mantiveram-se em silêncio. Imaginavam o que se passava dentro de mim.
O mensageiro sentiu-se obrigado a acrescentar o seguinte:
— Alteza, o Império luta pela sua existência. Ninguém imagina o que está acontecendo em todos os planetas do Império. A frota está sendo destruída. Já nos vemos obrigados a colocar povos colonizados a bordo das naves, o que certamente contribui para baixar o nível do pessoal. Recebi ordens de transmitir-lhe verbalmente que o envio dos cruzadores ligeiros e pesados e couraçados solicitados é impossível. Temos necessidade premente de todas as unidades no setor das nebulosas. Talvez possamos conseguir dez cruzadores ligeiros, mas o senhor mesmo teria de conseguir as respectivas tripulações. Os homens treinados incumbidos do transporte das unidades teriam de voltar imediatamente para Árcon.
Virei-me lentamente. O rosto enrugado de Tarts estava estarrecido. Inkar, o comandante jovem e esquentado do cruzador pesado Paito, trazia uma resposta áspera na ponta da língua. Fiz um gesto para que se calasse.
— Será que terei de colocar os bárbaros da idade da pedra que habitam este planeta diante dos controles de artilharia? — perguntei em tom cansado e deprimido. — Ainda disponho da nave capitania Tosoma e do cruzador pesado Paito. O poder de combate das duas unidades é bastante restrito, já que as circunstâncias nos obrigaram a retirar alguns dos mecanismos propulsores das mesmas. Transformamos estes em armas, já que nosso inimigo não pode ser combatido com canhões comuns. Está na hora de Árcon compreender que nos vemos diante de uma interseção de duas dimensões temporais diferentes. E, na outra dimensão, também existem seres inteligentes.
“O perigo representado pelos metanianos é real e compreensível pela inteligência. O que está acontecendo no setor de Larsaf poderá, um dia destes, atingir toda a Via Láctea. As forças da natureza estão do lado dos desconhecidos. Dentro de uns trinta dias do tempo local, o planeta número três estará em oposição ao de número dois. Quando isso acontecer, estaremos na chamada zona de superposição. Mandei transformar Atlântida numa fortaleza. Temos boas possibilidades de êxito, desde que recebamos o necessário apoio.
O comandante do cruzador manteve-se calado. Evidentemente não podia emitir qualquer pronunciamento sobre o assunto. Era mesmo absurdo apresentar-lhe meus argumentos. Não poderia modificar os fatos.
Tomei uma decisão.
— Decole imediatamente, Ursaf. Meu relatório dirigido ao Imperador está pronto. Ordeno-lhe que a mensagem seja entregue a Sua Majestade em pessoa. Não estou interessado em que uma nota de importância vital seja engavetada por algum funcionário subalterno. Se dentro de quinze dias, tempo-padrão, não receber nenhuma resposta de meu venerável tio, abandonarei a colônia Atlântida e retornarei ao sistema de Árcon com as duas naves que me restam.
No seio da frota, a disciplina era tão rígida que Ursaf nunca se atreveria a ponderar que estava recusando o cumprimento de uma ordem. Mas não era difícil imaginar o que estava pensando.
Um brilho sinistro surgiu nos olhos avermelhados de Tarts. Compreendera perfeitamente. É claro que nunca abandonaria Atlântida, mas na situação em que nos encontrávamos o único recurso que nos restava era uma ameaça frontal. Ursaf inclinou a cabeça e colocou a mão direita sobre o peito.
De meu gabinete via a imensidão do mar. O Capitão Feltif, nosso competente engenheiro, mandara construir a sede de meu governo nas encostas de uma cordilheira litorânea. Bem abaixo do lugar em que me encontrava, grandes veleiros entravam no amplo porto por nós construído. Os nativos do terceiro planeta estavam criando uma civilização própria.
Fiz um sinal para que o mensageiro se aproximasse e chamei sua atenção para o cenário distante.
— Convém informar o Imperador de que seria uma lástima abandonarmos os frutos de nosso trabalho. Larsa II, o segundo planeta, teve de ser evacuado às pressas. Cerca de quatorze mil arcônidas encontram-se neste continente, incluídos os tripulantes de minhas naves. Fiz o que estava a meu alcance para enfrentar a catástrofe que se aproxima. Mandem as naves e o armamento solicitados por mim. Dentro de trinta dias, o caso estará liquidado. Logo após, estarei à disposição do Império com um poderoso grupo de combate.
Mais uma vez, Ursaf manteve-se calado. Apesar de ser muito jovem; parecia saber exatamente o que estava sendo planejado no planeta de cristal.
— Até poderei concordar em não lhe tirar seu cruzador novinho em folha — acrescentei em tom irônico.
O mensageiro esboçou um sorriso de embaraço, e o velho Tarts fungou de surpresa.
— Que idéia! — disse em tom entusiasmado. — Resta saber como é que ele poderia voltar.
— É justamente isso — disse Inkar em tom indignado. — É uma vergonha! Estamos aqui com os motores gastos, estaleiros insuficientes e um montão de sucata retirada dos depósitos de um mundo colonial evacuado. Quando os depósitos de lá foram reabastecidos, ninguém se lembrou das unidades da frota. Vemo-nos obrigados a realizar os reparos mais urgentes, em condições extremamente difíceis. Faça o favor de explicar isso a Sua Majestade.
Ursaf espalmou as mãos, num gesto de submissão. Seria inútil continuar a amontoar sugestões e recriminações sobre ele.
Tarts entregou-lhe a mensagem destinada a meu venerável tio. Tive um pressentimento doloroso: provavelmente Ursaf seria o último soldado que Árcon nos enviaria.
Pouco menos de uma hora depois dessa cena, encontrava-me com meus oficiais no grande espaçoporto, assistindo à decolagem da Matoni. Era uma nave de cem metros e possuía um excelente armamento.
Com um rugido, a nave esférica desapareceu no céu azul do terceiro planeta. Mais uma vez, os nativos radicados em Atlântida cairiam de joelhos e estenderiam as mãos ao céu, entoando cânticos. Para eles, éramos deuses. Mas tornava-se bastante duvidoso que esses deuses fossem capazes de defender Atlântida.
Passei os olhos pelos meus oficiais. Assim que tive conhecimento da chegada do mensageiro, mandei convocá-los.
Seria supérfluo perguntar qual a opinião deles. Já tinha conhecimento de seus desapontamentos. Eram os velhos rostos, já conhecidos, embora muitos dos meus antigos companheiros já não estivessem ali.
O Capitão Cerbus, chefe do meu grupo de cruzadores, fora morto durante a primeira batalha de defesa, há mais de um ano. Com ele, mais de quarenta comandantes e dez mil especialistas altamente qualificados haviam perdido a vida.
Será que valeria a pena defender esse pequeno sistema solar? Não sabíamos nem quem seriam os terríveis inimigos!
Ainda havia outras coisas, que nos deixaram mais que perplexos. Depois das duras lutas travadas no segundo planeta, um robô me entregara um aparelho do tamanho de um ovo que, segundo suas instruções, deveria trazer constantemente no peito, junto ao coração.
Não conseguira descobrir de onde viera essa nave dirigida por robôs. Pelo que diziam, os misteriosos impulsos estimulantes do chamado ativador celular me confeririam a imortalidade relativa. Não acreditei muito nas informações fornecidas pelo complicado mecanismo, cujo construtor só deu sinal de sua presença por meio de uma estrondosa gargalhada. Apesar disso, passei a trazer o objeto metálico no peito. Face ao reduzido tempo até então decorrido, ainda não pudera constatar se realmente detinha ou retardava o processo de envelhecimento. De qualquer maneira, sentia-me jovem, ágil e disposto como antes.
Mas meus problemas pessoais assumiam importância secundária. O que estava em jogo era a existência de quatorze mil arcônidas, alguns milhões de nativos e uma colônia jovem, mas admirável.
Atlântida era um continente ilhado, com cerca de dois mil quilômetros de comprimento. Apreciávamos bastante o clima tropical e o ar puro das regiões mais elevadas. No espaço de quatro anos, havíamos criado uma colônia-modelo, e chegamos a transmitir alguns conhecimentos às aldeias situadas ao leste e ao oeste de Atlântida.
Inkar fora por mim designado como chefe das terras do ocidente. Com um sorriso, comunicou-me que os nativos daquelas bandas fizeram dele uma espécie de rei divino. Era chamado simplesmente de Inka. E o emblema solar de minha venerável família foi eleito como sinal da divindade.
No último ano, mais de quinhentos dos meus soldados e colonos haviam solicitado permissão de casamento. Concedi a permissão, pois vi que aqueles homens deviam sentir-se abandonados e solitários. Mais do que a situação exigia.
Ao que tudo indicava, os casamentos eram bem feitos, embora Tarts me tivesse dito várias vezes que, na verdade, eu infringira a lei. Os seres inteligentes do nível B não deveriam misturar-se com os arcônidas. Fiz referência expressa à cláusula que previa o estado de necessidade e mandei que as mulheres nativas fossem avisadas dos dispositivos relativos ao divórcio. Segundo resolução da Divisão de Colonização, qualquer casamento entre um arcônida e uma mulher terrana perdia a validade jurídica assim que os cônjuges tivessem que deixar o respectivo planeta.
Tive esperanças de rechaçar o inimigo medonho vindo das profundezas de outra dimensão temporal e conservar a nova pátria dos meus colonos. Nesse caso, a mistura com os nativos semelhantes aos arcônidas era permitida e mesmo recomendável. Caberia aos nossos homens transmitir os necessários ensinamentos às esposas e educar os eventuais descendentes para a elevada cultura e tecnologia de nosso povo. Dessa maneira, surgia uma nova raça. Tinha certeza absoluta de que, um dia, essa visão generosa traria seus frutos.
Se um almirante experimentado era incumbido da administração de todo um planeta, deveria gozar da maior liberdade de ação.
Um forte uivo trouxe-me de volta à realidade. Uma nave auxiliar do couraçado Tosoma, de sessenta metros de diâmetro, preparava-se para pousar.
— Acho que esse sujeito ficou louco! — exclamou Tarts em tom de perplexidade. No mesmo instante, eu e meus oficiais atiramo-nos ao chão, em busca de abrigo.
Esperei até que a onda quente passasse por cima de nós.
Ao levantar a cabeça, vi que a nave caía numa rota insegura e cambaleante, para bater no solo junto à imensa Tosoma. Era a TO-4, cujo comandante recebera ordens de realizar um vôo de reconhecimento próximo à órbita do segundo planeta.
Três dos grossos suportes quebraram-se durante a aterrissagem. Era um sinal de que as instalações antigravitacionais da nave auxiliar não se encontravam em bom estado. Pousara à maneira antiga, apoiada sobre o próprio raio de partículas, se é que essa quase-queda ainda poderia merecer o nome de pouso. A TO-4 encontrava-se a pouco menos de um quilômetro do lugar em que estávamos.
Muito chocado, olhei para o local de impacto.
Usei um planador antigravitacional, para entrar em atividade.
Tarts e Inkar já estavam sentados no veiculo aberto. Sem dizer uma palavra, levantei-me e entrei. O motorista agiu imediatamente. Antes que pudéssemos dizer uma palavra, o veículo já corria em direção do local da queda.
O rosto de Tarts estava circunspecto. Quando vimos a gigantesca abertura no corpo da nave, com as bordas infladas em forma de bolha, compreendemos por que sua tripulação realizara um pouso tão maluco.
Da comporta de carga inferior da Tosoma, uma nave de oitocentos metros de diâmetro, já saíam os corpos de aço dos robôs de salvamento. No interior da nave auxiliar, parecia haver fogo. Era ao menos o que indicavam as nuvens de fumaça negra.
Inkar falou em tom indiferente:
— A nave foi atingida por uma arma térmica; não resta a menor dúvida. Quem a deixou nesse estado?
Corri em direção da nave. Robôs ágeis penetravam pelas comportas abertas. Apesar disso, demorou alguns minutos até que aparecessem os primeiros sobreviventes. A tripulação da TO-4 era de quinze homens.
Aguardamos em silêncio que as máquinas completassem seu trabalho. O equipamento de extinção de fogo da Tosoma também foi colocado em ação. O incêndio, que grassava na segunda sala de geradores da nave, foi sufocado.
Só onze dos tripulantes foram resgatados. Três deles estavam mortos, e os outros haviam sofrido ferimentos leves ou graves.
Esperei até que o médico-chefe da Tosoma me desse um sinal. O Tenente Kehene, comandante da nave auxiliar, sofrerá queimaduras graves, mas já não estava sentindo dores. Um banho de plasma logo curaria seus ferimentos. Podia arriscar-me a submetê-lo a um ligeiro interrogatório.
Ajoelhei ao lado da maça em que estava deitado e deixei cair a capa que embaraçava meus movimentos. Não era a primeira vez que me via diante de um homem nesse estado. As queimaduras de seu corpo não eram produzidas pelas armas energéticas.
— TO-4 de volta do vôo de patrulhamento, Alteza — disse Kehene, respirando com dificuldade. — Mais uma vez, uma frente relativa de energia cobria o segundo planeta. Mantive a distância de segurança indicada e limitei-me a observar o que estava acontecendo. Desta vez, o outro plano temporal desenvolvia uma velocidade de quase cinqüenta quilômetros por segundo, o que representa muito mais do que aquilo a que nos acostumamos. Estava medindo as diversas fases, quando de repente apareceu a abertura no espaço.
Um médico aplicou mais uma injeção calmante. A massa plástica do uniforme estava colada à pele queimada.
Fiquei espantado.
— Uma abertura no espaço...?
— Foi isso mesmo, Alteza — asseverou o jovem comandante. — Parecia um gigantesco funil cuja abertura se ampliava cada vez mais. O fenômeno se processava aproximadamente a dez por cento da velocidade da luz. Nos lugares em que se verificava a ampliação do funil, as estrelas se apagavam. Ficavam encobertas por uma luminosidade vermelho-escura, que, vez por outra, passava para o preto. Nossos medidores de ondas de choque registraram ligeiros abalos estruturais, e de repente apareceram.
— Quem? — perguntou Tarts em voz alta e respirando pesadamente.
— Quatro naves espaciais desconhecidas, de formato longo e cilíndrico. Os rastreadores energéticos registraram a presença de mecanismos de propulsão na base de impulsos. Obtivemos hiperecos bem nítidos. Isso prova que desta vez não se tratava de sombras imateriais. As quatro unidades saíram da abertura do funil a que já me referi. Retirei-me imediatamente a toda velocidade, mas eram rápidas demais... No momento em que as observei, desenvolviam metade da velocidade da luz, enquanto eu me encontrava praticamente imóvel, em posição de espera. Abriram fogo com seus canhões térmicos, que produziram um efeito semelhante ao dos nossos radiadores de impulsos.
“Realizei as manobras de desvio em conformidade com os cálculos de probabilidade de impacto realizados pelo computador positrônico acoplado aos localizadores energéticos. Por três vezes consegui desviar-me de suas salvas. Porém atingiram-me num disparo em ângulo, em plena curva de manobra. A TO-4 ficou avariada na área da protuberância equatorial. O antígravo e o equipamento de rádio foram inutilizados, tal qual os propulsores três e um.
“Só escapei porque as três unidades restantes se retiraram subitamente para o interior do funil. No momento em que batia em retirada, o fenômeno estava desaparecendo. O vôo de regresso e o pouso foram muito difíceis, Alteza. Metade dos tripulantes morreu.”
Kehene chegara ao fim das suas forças. Fechou os olhos; parecia esgotado. Foi levado imediatamente à clínica de bordo da Tosoma. Nossos olhos acompanharam os robôs médicos, até o momento em que estes desapareceram com o ferido na comporta inferior da nave-couraçado.
A equipe técnica da nave capitania já se encontrava diante do que sobrara da nave auxiliar tão preciosa. A Tosoma só levara a bordo quatro naves desse tipo. A TO-4 era a única que ainda estava intacta.
Lembrei-me de Grun, um físico e matemático genial, que há cerca de um ano mandara para Árcon documentos extremamente importantes, relativos a uma nova arma. Naquela oportunidade, manifestara a opinião de que haveria de chegar o dia em que seriam verificadas uma estabilização temporária e uma superposição constante das áreas periféricas dos campos temporais.
Não julguei necessário esperar pelos técnicos, pois imaginava perfeitamente o que estes encontrariam nos instrumentos da pequena nave. As suposições de Grun se haviam confirmado. E agora tínhamos de conformarmo-nos com esse fato. Foi justamente por isso que solicitei os reforços.
Se, daqui em diante, o inimigo estivesse em condições de penetrar no nosso Universo sem recorrer a qualquer dispositivo técnico especial, poderia perfeitamente haver uma batalha regular. Minha nave, a Tosoma, pertencia às unidades mais antigas de sua classe. Durante as batalhas no setor das nebulosas recebera maior número de impactos do que uma nave geralmente pode suportar.
O cruzador pesado de Inkar era de construção recente. Pertencia à grande classe dos quinhentos metros da série Fusuf. Essas naves me permitiriam derrotar povos inteiros, desde que estes não se encontrassem em nível intelectual superior ao grau G.
Mas agora via-me com os restos de uma esquadrilha diante de um inimigo cuja técnica espacial apresentava várias novidades. Era engenheiro de energia de alto grau. Por isso podia imaginar perfeitamente o que significava o fenômeno observado pelo Tenente Kehene. Se as naves desconhecidas conseguiam sair do hiperespaço superdimensional sem provocar grandes abalos estruturais, seus construtores possuíam uma tecnologia de vôos à velocidade superior à da luz bem mais simples que a nossa. Mas ainda restava conhecer a interpretação dos dados colhidos na TO-4.
Tarts mantinha-se rígido à minha frente. Seu rosto estava transformado numa máscara.
— Tem alguma ordem, Alteza?
— Para você continuo a ser Atlan, amigo — disse em tom distraído. A seguir, contemplei meu corpo de oficiais. Todos estavam presentes, e apresentavam aquele brilho peculiar nos olhos.
Mais à esquerda, a gigantesca Paito repousava sobre as colunas de suporte que antes pareciam torres. Era um verdadeiro milagre eu ter ficado justamente com as duas unidades mais poderosas de minha esquadrilha. Não poderíamos contar com qualquer auxílio de Árcon; teríamos de agir imediatamente. Meus experimentados oficiais aguardavam ordens.
Meu olhar caiu sobre Kosol, o novo chefe da divisão matemática. Ao lado dele, vi o Capitão Feltif, elaborador de projetos de colonização. Fora ele quem criara as oito posições de defesa em Atlântida. Os propulsores retirados dos cruzadores Titsina e Volop haviam sido transformados em armas estacionárias de impulsos da quinta dimensão.
Nos grandes continentes situados a leste e oeste de Atlântida, os especialistas haviam construído castelos de pedra, silos em forma de pirâmide e outros alojamentos de emergência. Se houvesse um ataque, os nativos inteligentes seriam evacuados da zona equatorial.
Os veículos aéreos estavam de prontidão para, se necessário, retirar as guarnições das posições de artilharia das zonas que, segundo se esperava, seriam atingidas pela superposição dos planos temporais. Uma cúpula submarina fora construída para os colonos arcônidas de Atlântida. Lá, se necessário, dez mil pessoas poderiam ser abrigadas por um breve espaço de tempo. No segundo planeta do sistema de Larsaf, constatamos que os peixes e outros animais aquáticos não foram atingidos pela frente relativista, desde que se encontrassem a grande profundidade. Para nós, essa descoberta era muito valiosa.
Mas os preparativos previam apenas uma passagem normal da frente de ondulações. Se o inimigo desconhecido conseguisse penetrar em nosso espaço, a situação seria bem mais grave. Nesse caso, ocorreria uma luta de vida e morte.
Voltei a contemplar a parede parcialmente derretida da nave auxiliar. Depois dirigi-me às pessoas que me cercavam.
— A Tosoma e a Paito ficarão de prontidão, com os comandantes a bordo. Realizaremos um vôo armado de reconhecimento nas proximidades da órbita de Larsa II. Feltif, envie seus comandos de superfície às respectivas posições de combate. Ligue os canhões de impulso em ponto morto. Tarts, prepare o envio de uma mensagem dirigida a Sua Majestade; o texto será fornecido oportunamente. Os nativos serão evacuados. Infelizmente, as famílias terão de ser separadas, sempre que os cônjuges arcônidas sejam tripulantes das naves ou pertençam às guarnições de artilharia.

Vi Inkar, o jovem comandante, estremecer quase imperceptivelmente. Vivia num casamento feliz, motivo por que a ordem que acabara de receber constituía uma dura provação para ele.

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