sábado, 7 de setembro de 2013

P-072 - Os Embaixadores de Aurigel - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN





A quarta aventura dos colonos de Fera Cinzenta.



Oito mil degredados da Terra vivem em Fera Cinzenta, o oitavo planeta do sistema Mirta, totalmente afastado das rotas comerciais ou científicas das espaçonaves interestelares. Estes degredados começaram a se estabelecer em seu novo mundo, fazendo grandes progressos. Notaram, porém, que a nova pátria não pertencia exclusivamente a eles. Há, nos montes, os mungos, uma raça semi-inteligente de macacos e nas matas virgens da parte mais baixa do planeta habitam os anões azuis, estranhos seres dotados de extraordinárias forças paramecânicas e parapsíquicas.
Mas, vida inteligente também existe no décimo segundo planeta do sistema Mirta: os assim chamados peepsies, que, numa inesperada invasão, quase destruíram a colônia da Terra. Conseguindo, então, com muito sacrifício, colocar em condições de funcionamento o encouraçado espacial inimigo Fair Lady, os degredados da colônia resolvem fazer uma visita de agradecimento aos peepsies, para cortar pela raiz qualquer nova tentativa de invasão por parte dos habitantes do décimo segundo planeta.
Os terranos surgem como Os Embaixadores de Aurigel.
No entanto sua missão toma um desfecho completamente inesperado...




= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

MullonLíder dos colonos exilados.

ChellichCalmo, frio e calculista.

Iij-Juur-EelieRei-Presidente do planeta Peep. Ditador egoísta.

Gii-YeepChefe do serviço secreto da ditadura.

Wee-NiiAlmirante da Força Aérea de Peep.

Fij-GulFaz uma descoberta lingüística.



1



— Estou preocupado — disse Wee-Nii com sua voz estridente. — Por que razão a nave não envia mais nenhuma comunicação?
Wee-Nii tinha quase dois metros e meio de altura e era demasiadamente magro. Toda sua aparência indicava à primeira vista que devia pertencer à classe privilegiada da nobreza. Além de alto, era esbelto, e essa aparência permitia-se apenas aos nobres que, em toda sua vida, não precisavam saber o que era um trabalho braçal. Aos outros, os que tinham que trabalhar, a natureza não permitia um crescimento que chegasse aos dois metros e o diâmetro da cintura não poderia ter menos de sessenta centímetros.
O homem com quem Wee-Nii acabara de falar tinha a mesma estatura que ele: Fij-Gul, oficial da Força Aérea de Sua Excelência, o Rei-Presidente, relativamente mais jovem e visivelmente menos inclinado a participar dos cuidados de Wee-Nii.
— Que pode ter acontecido? — foi a pergunta meio irônica de Fij-Gul. — Simplesmente um enguiço no transmissor de bordo ou algo semelhante. Acho que não é motivo para medo ou preocupação.
Wee-Nii fez um gesto indeciso com as mãos de dedos finos.
— “Achar que” não nos vai adiantar nada — continuou ele pensativo. — Temos de saber e não “achar que”. É exatamente o que nos falta: certeza. O Capitão Sey-Wuun fez apenas referências sobre os habitantes deste planeta. Achou-os completamente indefesos e despreparados. Disse mesmo que seria muito fácil encontrar no meio deles traidores que, por qualquer vantagem que se lhes ofereça, estão dispostos a cooperar conosco. Mais do que isto, não sabemos.
— Com exceção do fato de que não temos mais trigo — completou Fij-Gul.
O almirante concordou com entusiasmo.
— Isto é verdade. Sua Excelência deve ter tido motivos imperiosos para reduzir tão drasticamente os gêneros alimentícios da Força Aérea. Caso Sey-Wuun não regresse dentro de dez dias, temos que pedir a Sua Excelência novos suprimentos, pois nossa gente não tem mais o que comer.
Fij-Gul foi até a janela e ficou olhando para a cidade, com suas torres altas e pontiagudas, e as ruas sinuosas e esburacadas.
— Sey-Wuun haverá de voltar, não se preocupe — tentava ele encorajar seu superior. — O que aqueles seres primitivos poderão fazer contra ele?
Wee-Nii estalou os dedos finos e alongados.
— Não sabemos nem sequer se eles são tão primitivos assim. Sey-Wuun viu os destroços de uma grande espaçonave nas imediações da cidade. O agente, que ele contratou lá, lhe garantiu que era um antigo couraçado espacial, com o qual os estranhos chegaram até Weelie-Wee. Sey-Wuun mandou investigar, mas sua gente não conseguiu muita coisa. Depois, os nossos destruíram uma boa parte da nave ali parada, para que os estranhos não pudessem mais se utilizar dela futuramente. Mas... não sei não. De qualquer maneira ficaria contente, caso Sey entrasse em contato conosco.
Fij-Gul talvez tinha alguma idéia especial, quando perguntou:
— Se ele não der mais sinais de si, que deveremos fazer?
Wee-Nii dava uma impressão de abatido.
— É também o que me pergunto. O montante de nossa Força Aérea, para fins espaciais, consta de três espaçonaves tão boas como a nave que está nas mãos de Sey-Wuun. Caso tenha acontecido alguma coisa a ele, e sua espaçonave não volte mais, restarão ainda duas naves. Acha que devemos mandar uma delas para Weelie-Wee e corrermos também o risco de ser destruída pelos estranhos ou talvez até capturada?
Fij-Gul fez um gesto de negação.
— Acho que não podemos responsabilizar os estranhos, se Sey-Wuun não voltar. Ouvi o relatório e, segundo sua opinião, vivem em Weelie-Wee alguns milhares de pobres loucos, vegetando nas piores condições de vida. Se aconteceu alguma coisa à cosmonave, deve ter sido somente em vôo. Um meteorito ou algo semelhante. Nesta situação, acho mais do que natural enviarmos uma outra espaçonave para Weelie-Wee, não é verdade?
Wee-Nii deu um longo suspiro:
— Gostaria que você estivesse certo, Fij-Gul. Tenho, porém, receio de que em sua cabeça, o desejo seja o pai do pensamento. O desejo de receber um comando independente, de ter em suas mãos uma espaçonave de longo alcance. Tenho razão?
Fij-Gul tinha a peculiaridade de saber disfarçar completamente, quando se sentia embaraçado.
— Não pretendo esconder que um tal comando foi sempre a maior aspiração de minha vida. Independente disso, meus argumentos são objetivos e bem pensados. Conforme tudo que sei dos estranhos, não estão em condições de destruir, nem de atacar uma cosmonave da Força Aérea de Sua Excelência, fortemente armada e com tripulação completa.
— Ao menos, conforme o que eu sei — concordou Wee-Nii pensativo e com uma ponta de ironia ao mesmo tempo. — Se soubesse que você tem razão, que o que você diz corresponde aos fatos, não hesitaria em confiar a você uma de nossas espaçonaves, e mandá-lo para Weelie-Wee. O pior é que eu não sei como andam as coisas por lá...

* * *

— Claro que é um nome bobo — concedeu Chellich. — Mas temos de ser coerentes. Se chamamos os habitantes de peepsies, temos então de chamar sua pátria de Peep, não é verdade?
Arrastando-se com cuidado, saiu de baixo da caixa de comando, limpando algumas gotas de óleo que lhe caíram na testa, durante o trabalho de reparar os contatos elétricos.
— Para mim, é indiferente — dizia O’Bannon. — Apenas penso que será muito cômico, quando um dia surgir no catálogo o nome Peep. Certamente vão imaginar que, ao escolhermos este nome, nós estávamos bêbados.
— Bobagem! Pensem o que quiserem — disse Chellich, entrando novamente para baixo da caixa de comando. — Independente disso, alguma coisa para beber não seria nada mal.
— Acho que eu posso lhe arranjar — ofereceu O’Bannon. — Mullon tem na sua mochila.
— Não precisa mais não — soou a voz de Chellich, vinda de baixo da caixa — já está quase pronto. Depois desço com vocês para a cantina.
— Pronto? — perguntou O’Bannon sem acreditar. — Quer dizer que já podemos voar?
— Em tão boas condições, como nunca esteve. Vamos voar com isso para Peep e fazer uma surpresa aos nossos amigos.
— Você é um cara formidável — disse O’Bannon.
— Eu, não! Formidáveis são os peepsies.
— Quem?
— Os peepsies — confirmou Chellich. Depois voltou a mergulhar para baixo da caixa do controle geral de toda a fiação elétrica, e explicou:
— Os peepsies estavam com barras de ferro na mão, e bateram a torto e a direito, sem ter a mínima noção de onde estavam as partes mais sensíveis da nave. Acho que não entendem nada dos princípios de propulsão das naves. Fizeram uns buracos e amassões, mas não causaram maiores prejuízos. Por isso é que está indo tão depressa.
— Estou compreendendo — disse O’Bannon — de qualquer maneira você merece seu bom trago.

* * *

Mullon alojou o helicóptero sob a eclusa de carga. Este setor era realmente o único que ainda estava em perfeito funcionamento na gigantesca Adventurous, depois que a explosão da bomba atômica abalou seriamente a imensa cosmonave. No interior dos escombros não havia mais perigo de irradiações. Mullon e Chellich tiveram a precaução de percorrer suas múltiplas dependências com medidores sensíveis, antes de penetrarem na nave auxiliar, para consertá-la e antes de dispensarem os trajes anti-radiação.
Logo depois do primeiro exame superficial, Chellich afirmou que os danos causados pelos peepsies eram de pouca monta e seriam sanados em dez dias. Este era o oitavo, e Chellich prometera que naquele dia mesmo ficaria tudo pronto.
No interior da enorme eclusa, cuja comporta estava sempre fechada, devido à poeira radiativa que o vento agitava lá fora, havia como iluminação somente uma lâmpada portátil, colocada por Chellich nas proximidades da entrada, para facilitar a movimentação do helicóptero.
A claridade da lâmpada não iluminava muito bem o bojo esférico da nave auxiliar, que deslizava em corrediças para o interior da eclusa. Do helicóptero, Mullon vislumbrava apenas uma grande sombra escura, causando uma impressão assustadora.
Enquanto Mullon esperava a descida de Chellich e de O’Bannon, lembrou-se das palavras do Capitão Blailey. Era o homem que estava nas montanhas com uma nave de reconhecimento da frota terrana, nave esta do tipo gazela, com instruções dos escalões superiores para que nada acontecesse de mal aos colonos terranos. Suas palavras foram estas:
— Para lhes ser franco, acho o plano de vocês meio arriscado. Mas se vocês realmente estão numa situação de emergência, então devem tentar fazer coisas não indicadas em condições normais. Mesmo assim, se forem prudentes, poderão ser bem sucedidos. Não contem, porém, com o apoio da Terra. Se lhes acontecer algo no planeta dos peepsies, ninguém vai chorar por vocês. A Terra deseja estabelecer neste planeta uma base espacial e, mais dia menos dia, as supernaves da Terra estarão descendo no planeta dos peepsies. Mas não será naturalmente para socorrer vocês.
Há quinze dias atrás, Mullon se alegrara muito ao ouvir estas palavras. Tinha sido, até então, um motivo de inquietação para ele a presença do Capitão Blailey e sua gazela, espreitando no fundo das montanhas, para entrar em ação em caso de necessidade.
Estava mais do que evidente que a campanha contra os peepsies era assunto meramente dos colonos e ninguém, nem mesmo com a melhor das intenções, devia se intrometer no negócio.
Mullon não desconhecia que havia um pouco de vaidade pessoal, pueril mesmo, em tudo isso. Os demais, principalmente Chellich, pensavam também assim, portanto não tinha motivos de se envergonhar. As ponderações do Capitão Blailey deram-lhe mais firmeza. A gazela não iria atacar, pelo menos não em Peep, onde, na pior das hipóteses, se trataria somente da morte de dez homens, pois Mullon não tinha intenção de levar mais do que isto. Haviam de fazer seu jogo sozinhos.
Quando viu Chellich e O’Bannon saírem da penumbra da nave auxiliar, despertou de seus pensamentos. A passos rápidos, chegaram até o helicóptero e, mesmo de longe, O’Bannon gritou:
— Abra a garrafa, Horace, estamos com sede.
— Exatamente você que não fez nada, heim? — disse Mullon bem-humorado.
Olhou para a expressão de Chellich, constatando que parecia muito satisfeito. Seu semblante irradiava alegria, apesar de seu rosto estar sujo de graxa e óleo.
— Tudo em ordem? — perguntou a O’Bannon, enquanto lhe passava a garrafa.
— Felizmente, só basta subirmos e sair voando.
Mullon levantou a mão, como para retificar alguma coisa:
— Ainda não! Primeiro temos que terminar nossas bombas “rolantes”.
Chellich ria, nadando em otimismo:
— Tenho plena confiança em Wolley e em seu pessoal. Fez grandes progressos nos últimos dias.

* * *

Wolley se lamentava um pouco:
— É bom para nós que em Fera Cinzenta não haja imprensa. Não gostaria que os repórteres desandassem a nos criticar, quando alguém lhes explicasse que um foguete nosso tem que ser feito com explosivo nuclear.
Chellich e Mullon se divertiam com os comentários.
— Sou um mecânico de mão-cheia — disse Wolley. — Pelo menos é o que todo mundo diz por aí. Mas este conserto aqui... confesso que o fiz com muito prazer.
O “negócio” não tinha de fato nenhuma semelhança com foguete, mas devia ser considerado como tal. Ao invés de ter uma fuselagem alongada, mais ou menos em forma de um torpedo, seu bojo parecia um grande tonel de lixo. Não havia leme traseiro, nem estabilizadores laterais. Num dos dois lados, numa espécie de balde velho, estavam alojadas as bombas. O outro estava aberto. Se alguém olhasse lá para dentro, veria com pouca nitidez um pequeno motor acionado por bateria e um dispositivo semelhante a um ventilador.
— O principal — falou Chellich, batendo amigavelmente nos ombros de Wolley — é que a turbina cumpra seu dever. Não se preocupe com o resto. O “negócio” é para ser usado em pleno espaço e lá ninguém dá importância a estas bobagens. Não há necessidade de objeto voador ter uma linha aerodinâmica.
A primeira pessoa que Chellich e Mullon foram procurar, após seu regresso dos escombros da Adventurous, foi o Dr. Ashbury, antigo médico, que agora, por motivos imperiosos, se transferira para o ramo científico da Química. Ashbury era o homem que podia produzir a quantidade de gás explosivo de que o foguete “barril de lixo” de Wolley precisava para atingir um alvo com determinada velocidade.
Fabricar gás, não era difícil. Ashbury decompunha o ar em seus componentes e depositava separadamente em recipientes adequados o oxigênio e o hidrogênio. Muito mais complicado era levar estes gases para o foguete e mantê-los sob determinada pressão.
Depois da visita ao Dr. Ashbury, Mullon propôs que fossem juntos jantarem na casa dele, e simultaneamente se informassem sobre os progressos que o “grupo de ação” havia feito.
Quando chegaram à casa de Mullon, tiveram a surpresa de ver, através da vidraça, a senhora Fraudy, esposa de Mullon, andando para lá e para cá no quarto, com os braços levantados. Ao penetrarem na porta, ainda ouviram sua voz em tom didático:
— Depois de expressões que contenham sentimentos de crença, desejo, dúvida e outras coisas semelhantes, empregasse o subjuntivo, sub-jun-ti-vo. Será possível que os senhores não querem compreender isto?
Surpreso, Mullon abriu a porta do quarto e constatou que além de Fraudy não havia mais ninguém no quarto. Chellich começou a rir.
— Os alunos já levaram tanta descompostura, que preferiram abandonar a sala de aula — disse ele.
A senhora Fraudy virou-se, de rosto vermelho e com as mãos apoiadas na cintura.
— Ah! Que surpresa, vocês aqui. Estou praticando minhas aulas. Estes cabeças-duras estão sempre errando e eu não tenho coragem de dizer-lhes palavras ásperas, como fazem em geral os professores nas escolas.
Mullon perguntou sorrindo:
— São muito fracos?
— Não são propriamente — emendou a senhora Fraudy. — Em quinze dias de aula já aprenderam mais que as crianças da Terra, em seis meses. Têm um entusiasmo muito grande, mas realmente não se pode aprender francês perfeitamente em quatro semanas.
— Também não é necessário aprenderem perfeitamente — disse Chellich. — Para que os peepsies consigam entender uma língua diferente da sua, torna-se necessário que apenas dois ou três falem bem.
A senhora Fraudy olhou para o marido e mudou de assunto.
— Os senhores querem jantar outra vez conosco, não é? — perguntou sem muita cortesia.
Chellich fez um gesto afirmativo.
— Vocês trabalharam bastante para merecerem um bom jantar?
— Naturalmente, eu consertei uma nave inteira.
— De tal modo que possa voar de novo?
— Exatamente — respondeu Chellich.
Fraudy ficou séria de repente.
— Sei que deveria me alegrar com isso — disse ela. — Mas não consigo. Quem é que me garante que tudo está bem feito?
Mullon se levantou e lhe pousou a mão nos ombros:
— Eu lhe garanto. Você vai ver. Dentro de dois meses estaremos de volta e, neste meio tempo, teremos provocado tamanha confusão entre os peepsies, que perderão, de uma vez por todas, a vontade de voltarem para Fera Cinzenta.

* * *
Desde a explosão da bomba atômica e da destruição da espaçonave dos peepsies, havia já três meses. Só então que foi possível reunir os treze homens para o início da expedição. Um sem-número de coisas tinham de ser feitas antes.
Os reparos na nave auxiliar, que recebera o nome de Fair Lady, os aborrecimentos de Wolley com os foguetes tipo tonel de lixo e as preocupações do Dr. Ashbury com o acondicionamento da mistura explosiva de oxigênio e de hidrogênio — todos esses problemas eram apenas uma fração das coisas que tinham de ser resolvidas.
A cidade dos colonos de Greenwich, no Rio Green, estava agora equipada com duas bombas atômicas, cujo material físsil tinha sido retirado dos reatores da grande máquina voadora deixada pelos peepsies. Outros quatro reatores ajudaram Wolley a confeccionar os foguetes que a Fair Lady levaria a bordo.
Instalaram também um sistema permanente de comunicação via rádio com a gazela do Capitão Blailey, de maneira que este último estivesse sempre a par dos acontecimentos, apesar de Greenwich, oficialmente, não ter nenhum contato direto com a operação contra os peepsies. No entanto, o Capitão Blailey haveria de atacar, em caso de perigo iminente para a cidade.
Criou-se igualmente uma nova escrita, pois Chellich supunha que os peepsies, além de conhecerem mais ou menos a língua de Greenwich, possuíam também uma grafia própria e portanto estranhariam muito ao verem no nome da nave seus próprios caracteres cuneiformes. Até mesmo os membros da tripulação foram treinados para usarem em suas comunicações escritas a nova grafia.
O Dr. Ashbury, mesmo depois de terminar a difícil tarefa de encher os tanques de combustível com oxigênio e hidrogênio, numa determinada pressão, não parava de trabalhar. Chellich precisava para sua expedição de muito material químico, com severas especificações quanto à qualidade, quantidade e eficácia. Sendo assim o doutor não tinha descanso.
Parecia, e era mesmo, um milagre que tudo isto fosse feito no curto período de um trimestre. Milagre do trabalho e da cooperação. Decisivo em tudo isto foi o fato de que a dedicação da colônia conseguiu restabelecer e recuperar tudo aquilo que fora quebrado ou danificado, quando da aterrissagem forçada da Adventurous ou do ataque destruidor dos peepsies. Esta dedicação não mediu esforços, e nem mediu as conseqüências perigosas da missão, isto é, levar a nave a um planeta vizinho e com isto ter de enfrentar uma raça estranha e numerosa.
O que a população de Greenwich sentia era uma reação justificada contra os peepsies que julgaram poder reduzir à condição de escravos oito mil terranos, cônscios de sua dignidade humana.
Na véspera da partida, Chellich, Mullon, O’Bannon e Milligan se reuniram para um último exame.
Cada um deles tinha uma missão específica na restauração da cosmonave e nos preparativos para o grande empreendimento, e agora fariam um balanço geral do que e como foi feito. Quando o último deles terminou seu relatório, parecia claro que nada fora esquecido.
No dia seguinte, na manhã do dia 16 de agosto do ano 2.041, tempo de Fera Cinzenta, a Fair Lady decolou.



2



Uju-Riel foi o primeiro a ver a estranha espaçonave.
Surgiu de repente na tela de seu radar um ponto minúsculo e de movimentos rápidos, que Uju-Riel supôs ser interferência “parasita”, pois para ele não havia espaçonave que se deslocasse tão rápido assim.
Mas interferências “parasitas” são, em geral, coisas que desaparecem logo. No entanto, aquele ponto inquieto atravessou a face superior da tela, numa linha oblíqua e desapareceu no lado esquerdo. Uju-Riel ficou espantado e tentou medir a velocidade do estranho objeto. Primeiramente, o radar constatou uma altitude de trezentos quilômetros e o ponto levara seis segundos para atravessar toda a tela, portanto, previa-se uma velocidade de vinte quilômetros por segundo.
Esta velocidade, porém, só era possível em supernaves interplanetárias. Das três que existiam neste planeta, uma estava sob o comando do Capitão Sey-Wuun de caminho para Weelie-Wee. As duas outras, como Uju-Riel bem sabia, estavam de prontidão nos espaçoportos de Sielij e de Heejii.
Depois de curta hesitação, Uju-Riel deu o alarme. Anunciou que fora visto um objeto estranho a trezentos quilômetros de altitude, com uma velocidade de cerca de vinte quilômetros por segundo, do nordeste para o sudoeste.
Fez questão de comunicar isto, antes que acontecesse qualquer dano ao planeta.
Já que todos sabiam que seria impossível ser a espaçonave comandada pelo Capitão Sey-Wuun, pois era muito cedo para sua chegada, a maioria começou a levar na brincadeira o alarme.
Mas, meia hora mais tarde, o objeto apareceu novamente no radar de Uju-Riel, e desta vez tão perto, que mesmo outros rastreadores mais fracos conseguiram captá-lo. Além disso, foi captada também pelo posto central de vigilância eletromagnética uma indecifrável mensagem de rádio, que, sem dúvida alguma, provinha do mesmo objeto voador. Desta forma, houve uma reabilitação de Uju-Riel, enquanto seus superiores estavam agora em maus lençóis.
O Almirante Wee-Nii estendeu o alarme geral para toda a Força Aérea de Sua Excelência, o Rei-Presidente, ordenando que os comandantes dos aeroportos mantivessem seus aparelhos de prontidão.
Neste ínterim, Sua Excelência foi colocado ao corrente dos acontecimentos e aguardavam-se suas ordens. Mas Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência, o Rei-Presidente, somente daria ordens depois que o almirante da Frota Real lhe fornecesse todos os informes sobre o estranho aparelho, ou melhor, sobre a mensagem via rádio, por enquanto indecifrada, nas mãos dos maiores peritos do planeta. Sua Excelência queria saber também por que, até o momento, não tinha chegado nenhum informe sobre se a estranha nave tinha ou não demonstrado qualquer atitude hostil. Por fim, pretendia ainda informar-se sobre o tamanho do estranho objeto voador.
Não se sabe se foi por este último ponto de vista que Iij-Juur-Eelie resolveu dar ordem de não se empreender nada contra os estranhos, pelo contrário, que se pusesse em funcionamento o radiofarol nas proximidades da capital para dar sinais de aterrissagem.
Quem sabe o estrangeiro compreenderia estes sinais e desceria no aeroporto da capital?
Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência o Rei-Presidente, foi magistral no disfarce de suas preocupações. Sua dignidade de Rei-Presidente o exigia.
Um almirante, no entanto, podia estar preocupado e consolado ao mesmo tempo, era o que pensava Wee-Nii. O estranho seria certamente uma visita do grande espaço. Para Wee-Nii, seria esta a primeira vez que seu planeta receberia uma visita do Universo, de outros mundos. Seria mesmo a primeira vez que veriam seres de outra raça.
Como qualquer outro, também Wee-Nii tinha idéias próprias de como receber condignamente um visitante do grande Universo.
Primeiramente, troca de radio mensagens a fim de preparar a visita.
Depois, o envio de espaçonave, que deveria se dirigir para o ponto de referência e inspecionar a nave visitante, enquanto se manteria em Heeninniy, a pátria de Wee-Nii, a primeira fase do alarme.
E finalmente, a recepção da nave visitante, comboiada por naves de Sua Excelência, e o desembarque no aeroporto com discursos e demais festejos. Tudo deveria ser acompanhado pelo rádio e televisão.
Mas, não houve nada disto!
O estranho aparelho apareceu em Heeninniy como um ladrão em altas horas da noite. Os funcionários do radar ficaram atônitos. Mostrou aos responsáveis que o sistema de alarme não funcionava, pois do contrário o teriam descoberto e, por fim, deu uma volta completa em torno do planeta, como se pretendesse primeiro sondar o ambiente onde iria aterrissar.
Wee-Nii era suficientemente inteligente para compreender que a mentalidade do estranho visitante não seria obrigatoriamente a mesma que a dele. Poder-se-iam encontrar muitas outras explicações para o modo esquisito como esta nave penetrava em território alheio, sem nenhuma preparação, de uma maneira inconvencional e mesmo bárbara. Talvez, no país do visitante, as chegadas de povos estranhos fossem coisas do dia-a-dia, dispensando assim qualquer formalidade, que na mentalidade de Wee-Nii e dos habitantes de Heeninniy seria indispensável.
Era inútil perder mais tempo com estes pensamentos. Mas era bom ficar de olhos abertos e pronto para tudo.
Fij-Gul já estava acostumado com o fato de que Wee-Nii se preocupava seriamente com tudo, houvesse ou não razão para tal, daí o motivo de não levar tão a sério sua exortação para ficar de olhos abertos e pronto para o que desse e viesse.

* * *

— Olhem aqui um sinal — disse o jovem grumete que Chellich colocara na radio escuta.
Seu francês ainda estava meio “cru”, talvez porque fosse o primeiro dia em que estava expressando-se nesta língua. Chellich estudou o sinal na tela do oscilógrafo e constatou que não tinha nenhuma modulação. Era apenas um impulso eletromagnético, repetido em intervalos de cinco segundos.
— Procure saber de onde vem — ordenou Chellich. — Já que não há nada por perto, acho que o sinal é para nós. Devem ter recebido nossa mensagem e nos estão dando um aviso para aterrissagem.
Confirmou-se em breve esta suposição.
Sheldrake, o grumete, descobriu logo que o sinal provinha de um irradiador direcional. O transmissor devia estar nas proximidades daquela monstruosa aglomeração de torres pontiagudas, que Chellich e Mullon já haviam identificado na primeira volta em torno do planeta.
— Portanto, um radiofarol — concluiu Chellich. — Bem, então vamos aterrissar.
A quarenta quilômetros de altitude, sobre uma pista relativamente grande, na periferia da extensa cidade, a Fair Lady estabilizou-se. Chellich envolveu a nave com um campo de gravitação artificial.
Muito otimista, Chellich julgava que se devia deixar um pouco de tempo para que os habitantes da cidade pudessem preparar uma pequena recepção.
A Fair Lady cobrira a distância entre Fera Cinzenta e Peep em poucas horas. A maior parte do trajeto fora transposto em alta velocidade. E Chellich estava pensando se não era exatamente esta alta velocidade da espaçonave que iria fazer com que os peepsies perdessem todo o receio de que a nave estava chegando de Fera Cinzenta. A nave enviada pelos peepsies, para trazer a última colheita de trigo, teria ficado normalmente dois meses lá — primeiro, porque a colheita ainda não havia começado e segundo, para tomar novas providências, a fim de descarregar outras máquinas e sabe Deus o que mais...
A distância de Fera Cinzenta até Peep era de setecentos milhões de quilômetros. Uma nave dos peepsies necessitava, no mínimo, de dois meses para vencer tal distância. Se os habitantes de Peep ainda receassem que a Fair Lady tinha vindo de Fera Cinzenta, estariam então calculando que ela havia partido numa época em que a espaçonave dos peepsies ainda estava lá. E, naturalmente, haveriam de achar isto muito improvável.
Chellich não acreditava que os peepsies contassem com a perda de sua grande nave.
Certamente haveriam de pensar que o transmissor estava enguiçado ou alguma outra coisa impedia o capitão de se comunicar com sua terra. Uma mensagem dizendo que a espaçonave tinha sido capturada em Fera Cinzenta, ou destruída, seria impossível chegar até eles. Uma raça tão orgulhosa e cheia de si, não iria jamais aceitar uma hipótese desta.
Não, não havia, por enquanto, nenhum motivo de preocupação. Mesmo quando, com o tempo, os peepsies começassem a desconfiar, ainda seria muito cedo para se preocupar com isto.
Chellich voltou sua atenção para a cidade que estava sob a Fair Lady. Em sua circunvolução pelo planeta, tinha visto muitos núcleos urbanos deste tipo. Mas teria sido necessário o uso de uma teleobjetiva para descobrir se estas colunas singulares e pontiagudas eram realmente habitadas. Tinham uma certa semelhança com a construção dos “formigueiros” da Terra ou com... as estalagmites...
Os peepsies não pareciam ter muito senso para a estética arquitetônica. As casas-estalagmites eram o fruto de uma arquitetura utilitária, que não conhecia nem mesmo o uso da proporção. Chellich se perguntava como se podia viver em casas assim.
Ao atingir a altura de oito quilômetros, Chellich observou uma espécie de procissão que abandonava a cidade na extremidade sul e se dirigia para o lado norte do espaço-porto.
— A alta comissão de recepção já está a caminho. — Comentou e, depois ordenou: — Vamos descer um pouco mais depressa.
O campo de gravitação que segurava a Fair Lady, garantindo-a contra uma queda brusca, foi diminuído. Muito mais rápido do que antes, a nave caía rumo à pista do aeroporto, produzindo um vácuo atrás de si.

* * *

Iij-Juur-Eelie julgava ter motivos suficientes para uma suntuosa recepção aos estranhos. Realmente, os observatórios astronômicos de Heeninniy, equipados com receptores de alta capacidade, haviam registrado sinais sobre os quais os cientistas afirmavam que provinham dos transmissores dos estranhos.
Os observatórios selecionaram duas espécies de sinais, com toda precisão, chegando à conclusão de que, em volta de Heeninniy, deviam existir pelo menos dois mundos habitados por seres inteligentes.
Acontece, porém, que Iij-Juur-Eelie era um homem de grande previsão...
Existindo nas redondezas raças estranhas, um dia mais ou um dia menos, quando a navegação espacial dos estranhos atingisse um certo grau de evolução, haveriam de buscar contato. Já que existiam, provavelmente, duas raças estranhas, era muito conveniente manter boas relações ao menos com uma delas. Pois, uma confederação de três, como provava a ciência política, não teria muita estabilidade. Facilmente surgiriam discrepâncias e quem não se fortalecesse com seu aliado, levava desvantagem.
Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência o Rei-Presidente, tinha, pois a intenção de impressionar os visitantes com suas gentilezas. Ao voltarem para seu mundo, haveriam de comunicar a seu governo que teriam em Heeninniy um aliado muito importante.
Sua Excelência sabia muito pouca coisa a respeito da aventura que seu Capitão Sey-Wuun havia iniciado há alguns meses num dos planetas, chamado Weelie-Wee.
Segundo o relatório de Sey-Wuun, não se tratava de uma raça unida, mas de uma horda de colonizadores muito primitivos. Ainda conforme as declarações de Sey-Wuun, nenhum dos dois tipos de sinais, captados pelos observatórios astronômicos, podia vir de lá, pois os bandos primitivos de Weelie-Wee não dispunham de transmissores muito potentes.
Desta forma, Sua Excelência não se preocupou mais com a questão Weelie-Wee.
Era assunto da Força Aérea que recebera de Sua Excelência a incumbência de cuidar, ela mesma, do suprimento de víveres para seu pessoal, pois o fornecimento de gêneros alimentícios para quase três bilhões de habitantes de Heeninniy estava cada vez mais difícil.
Sua Excelência mandou erguer ao lado do aeroporto uma espécie de tribuna, em cujo ponto mais alto ele mesmo ficaria. À volta do Rei-Presidente e abaixo dele sentariam os demais dignitários do reino: Almirantes da Força Aérea, entre eles o Almirante-Comandante Wee-Nii, altas patentes militares e finalmente os elementos de maior hierarquia da Administração Civil. Um amplo cordão de isolamento protegia o enorme palanque, cordão este constituído exclusivamente pela polícia secreta, pois Sua Excelência não estava muito convencido do amor filial de todos os seus súditos.
Sua Excelência era notório por sua teimosia e mesmo pela maneira inescrupulosa como exercia o poder que a constituição lhe outorgava, chegando, às vezes, às raias do exagero. Além disso, era corrente o boato de que ele não ligava muito para a constituição e mandava como um rei absoluto, autoritário, e não como um Rei-Presidente, dentro das normas legais.
Consciente de que aquele aparato todo não deixaria de causar profunda impressão nos estranhos, esperava Iij-Juur-Eelie a aterrissagem da misteriosa espaçonave, aparentemente com calma e dignidade, mas no íntimo cheio de curiosidade e nervosismo. Já estava observando que a espaçonave visitante era, pelo menos, tão grande como as três naves de sua Frota Real, aliás as únicas do Reino, porém, certamente, muito mais potente.
De repente, passou por sua augusta cabeça o incômodo pensamento de que, talvez, tivesse de tratar com gente que não estava à procura de novas alianças, mas que vinha para fazer exigências: submissão política, pagamento de tributos ou quem sabe lá o quê...
Tentou expulsar estes pensamentos maléficos e resolveu simplesmente esperar.

* * *

Chellich estava muito bem e muito contente com sua nova indumentária. Os trajes que as mulheres de Gray Beast cortaram e confeccionaram eram realmente muito dignos e, o que era muito mais importante, não deixava perceber nenhuma semelhança com a moda da Terra, que os peepsies já conheciam desde a sua visita a Fera Cinzenta.
A Fair Lady aterrissou com um impressionante ruído e atrás dela se formou uma coluna de vento, que, para o prazer de Chellich e de seus companheiros, varreu sem cerimônia os augustos semblantes das altas autoridades e levantou nos ares, numa mistura de cores, os longos trajes da assistência no palanque.
Sheldrake, Loewy e Krahl já estavam agachados em seus esconderijos. Chellich já lhes havia dito que não deviam sair do esconderijo em que estavam, a não ser depois de cientes de que ninguém, além deles, se encontrava na espaçonave. Tudo isto era para impedir qualquer sabotagem.
A delegação que deixou a nave, poucos minutos após a aterrissagem, era apenas de dez homens, envoltos em vestes apertadas, chegando até os tornozelos, dando a seus portadores a aparência de monges tibetanos. Suas armas estavam discretamente escondidas.
Logo de início se averiguou ser muito difícil andar com a dignidade que o momento exigia, devido à gravitação do planeta que chegava apenas a 0,7. É verdade que Chellich já estava acostumado com esta variação e assim dominou bem a situação, não deixando transparecer seu esforço. Mas os outros nove, incluindo Mullon, tiveram de fazer grande sacrifício para se manterem de pé e não darem passadas de mais de um metro.
E ainda de sobra, vinha a pressão do ar que não chegava a 0,53 atmosferas, isto é, não mais do que a pressão que se sente nos picos de montanhas da Terra com mais de cinco mil metros de altura. Isto lhes provocava o cansaço e o zumbido no ouvido. Qualquer movimento mais rápido, como levantar um braço depressa, para não se perder o equilíbrio, deixava a vista turva e sobrecarregava excessivamente os pulmões.
O palanque estava armado a cento e cinqüenta metros do local de aterrissagem da Fair Lady. Para percorrer o pequeno trajeto, a comitiva de Chellich levou dez minutos.
Chellich parou próximo do palanque, olhando para o peepsie sentado no ponto mais alto, que devia ser a maior autoridade da cidade, ou de todo o reino.
Ergueu os braços para a saudação. Isto lhe custou um esforço notável, começando a respirar ofegantemente. Mas seu esforço foi recompensado. Sua Excelência compreendeu o gesto e ergueu também os braços.
Foi uma visão meio grotesca, aqueles braços longos e ressecados, com a diminuta palma da mão e os seis dedos, tipo garras de ave de rapina se levantando para a cabeça completamente calva, que terminava numa curva quase pontiaguda.
Chellich tirou uma folha de papel do bolso interno de seu casaco, desenrolou-a calmamente e iniciou uma alocução de saudação, que ele mesmo redigira antes da aterrissagem. Começou dizendo ser um enviado do planeta Aurigel que girava em torno do sol mais próximo do sistema Peep. Este sol vizinho distava de Peep sete anos-luz.
Ninguém dos peepsies compreendeu uma única palavra de tudo que ele disse. Mas Chellich reparou que muitos dos homens uniformizados que estavam nas laterais do palanque estavam com pequenos gravadores. Provavelmente, estas gravações serviriam, mais tarde, para reconstruírem o quanto possível a língua estrangeira por meio de transladores eletrônicos; transladores estes que os peepsies já tinham usado em Fera Cinzenta. Assim surgiria um caminho para uma futura compreensão mútua.
Quando Chellich terminou sua alocução, Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência o Rei-Presidente, se levantou, pronunciou com ênfase uma série de frases e depois, com passos lentos, desceu os degraus do palanque. Todos que estavam sentados se levantaram solenemente. Iij-Juur-Eelie veio ao encontro de Chellich, abriu os braços, colocando a mão direita no ombro de Chellich, iniciando uma leve inclinação.
Já que Sua Excelência tinha pelo menos dois metros e sessenta de altura, a situação ficou um pouco embaraçosa para Chellich que, com seu um metro e oitenta e cinco, não conseguiu colocar sua mão no ombro de Sua Excelência. Contentou-se então com uma profunda inclinação.
Depois disso, Iij-Juur-Eelie se virou para o lado esquerdo, dirigindo-se para fora do palanque, fazendo sinal a Chellich que ficasse a seu lado. Atrás de Chellich e do Rei-Presidente, vieram os colegas de Chellich e as demais pessoas que estavam no palanque.
Chellich constatou que a poucos metros do palanque estava postada uma fila de viaturas, todas diferentes dos modelos conhecidos. Provavelmente seriam pequenos objetos voadores, pois não conseguiu ver rodas de tipo algum. Assim que Sua Excelência se aproximou do primeiro deles, o aparelho se elevou uns vinte centímetros do solo, soltando pelos dois lados de seu bojo oval uma certa quantidade de poeira.
A primeira viatura, se assim podia ser chamada, recebeu Sua Excelência e Chellich. Seus companheiros foram acompanhados pelos altos funcionários nos demais vagonetes voadores. Obedecendo ao toque de uma cometa ou instrumento semelhante, a fila de vagonetes seguiu rumo da cidade.
Chellich não achou inconveniente ou falta de respeito olhar pela janela e apreciar a cidade lá embaixo. Não sabia uma palavra da língua dos peepsies e Sua Excelência também não tinha outro meio de se comunicar, a não ser por um constante sorriso.
Chellich compreendeu logo por que razão os peepsies tinham que usar este tipo de vagonetes voadores. Pois de ruas ou estradas, como se usava na Terra, não havia sinais em Peep. O espaço que havia entre as torres, tipo estalagmites, era relativamente amplo, mas muito irregular e cheio de buracos. Dava a impressão de que, quando os peepsies construíram a cidade, mal se deram ao trabalho de capinar a rua, sem calçá-la ou prepará-la de qualquer maneira.
Outra impressão singular davam as torres, quando Chellich as viu de bem perto. Sua altura média era de quatrocentos metros, se bem que houvesse um grande número de torres de seiscentos ou setecentos metros. Estas verdadeiras estalagmites pareciam ter sido feitas em camadas. As paredes externas eram interrompidas por janelas redondas em filas irregulares, como se cada um escolhesse o local onde desejava luz, ar, ou mesmo uma vista diferente.
Havia edifícios de colorações bem estranhas, dando a entender que a obra tinha sido construída em diversas etapas, com grandes intervalos de tempo entre si. Havia também torres quase cilíndricas que aos oitenta ou cem metros terminavam em amplos terraços ou plataformas.
Quem sabe estes terraços ou plataformas receberiam mais tarde algumas dezenas de andares?
Por cima das quase-ruas, oscilavam às vezes pontes ou passagens entre uma torre e outra, onde havia muitos peepsies olhando curiosos o cortejo lá embaixo. Chellich reparou também que os uniformizados, que comboiavam dos dois lados a comitiva real e os tripulantes da Fair Lady, olhavam com muita atenção para estes peepsies postados nas pontes ou passagens, temendo naturalmente um atentado.
Nas tais quase-ruas não havia muitos pedestres, nem tantas viaturas. Talvez o trecho por onde passava o cortejo fora fechado ao trânsito, pois, pelos cálculos de Chellich, a cidade devia ter seus quatro milhões de habitantes e era um pouco difícil que, com uma concentração urbana assim, as ruas do centro ficassem tão vazias desta forma.
Depois de um trajeto de quase uma hora, a comitiva tomou a direção de uma calçada que levava para fora da cidade. Calçada esta que era margeada por árvores altas, parecidas com o álamo. A calçada terminava, depois de uns cinco quilômetros, diante de uma torre exageradamente alta, cujos lados formavam por sua vez outras tantas torres, ligadas entre si por pontes em todas as alturas, largas ou estreitas. Tinha-se a impressão de que todas estas torres, nove ao todo, estavam unidas intimamente e pertenciam a um só conjunto. Provavelmente seria a residência do homem que estava ao lado de Chellich.
Ao pé da primeira torre, abria-se um amplo portão, por onde os vagonetes entraram suavemente passando para uma galeria feericamente iluminada. As outras viaturas vinham atrás, como Chellich constatou, numa rápida olhada. Usando vistosos uniformes, criados surgiam de todos os cantos e se postavam junto aos vagonetes.
Tinham chegado ao palácio real, conforme tudo indicava.





3



— Tenho uma missão para você — disse o Almirante Wee-Nii, três dias, tempo Peep, depois da chegada da Fair Lady, a seu ajudante Fij-Gul. — E não sei se ela vai lhe agradar.
Fij-Gul ouvia com muita atenção.
— Descobriu-se na corte de Sua Excelência — continuou Wee-Nii — que a espaçonave dos estranhos acha-se vazia e sem nenhuma vigilância. Você está incumbido de fazer uma inspeção lá.
— Será que há motivos de suspeita, contra os estranhos? — perguntou surpreso Fij-Gul.
Wee-Nii fez um gesto negativo.
— Primeiramente temos de ser sempre desconfiados com todos os estranhos e, em segundo lugar, você não deve se preocupar com isso, como eu também não devo. Ordens são ordens e esta aqui vem da Primeira Câmara Real. Portanto, escolha sua gente, equipe-se com microcâmaras e... mãos à obra. Quanto mais cedo começar, será melhor.
— Mas — objetou Fij-Gul — não tenho a menor noção de como se abre a comporta. Os estranhos a fecharam, quando de lá saíram.
— Não é mais problema, Fij-Gul, nossos técnicos não estiveram este tempo todo dormindo. Portanto, diga-me quando você vai querer entrar na espaçonave e, até lá, encontrará as escotilhas já abertas.
Fij-Gul já ia se retirando através de uma cortina que fazia às vezes de porta, quando lhe veio uma idéia importante:
— E se os estranhos me surpreenderem lá dentro, que devo fazer?
Wee-Nii fez uma cara de quem já havia pensado no assunto.
— Então você cairá na desgraça do rei, pelo menos durante a estada dos hóspedes. Naturalmente a Câmara Presidencial não saberá nada disto e se você for surpreendido, tem que dizer que agiu por conta própria. Explique isto também à sua gente.
Fij-Gul cumprimentou e saiu.
Estava preocupado. Não era o tipo de missão de que gostava. Preferia que dessem esta incumbência a outrem.

* * *

— Não — afirmou Sheldrake com convicção — nunca tive uma tarefa tão interessante assim. Nunca o tempo me passou tão depressa como aqui na Fair Lady.
Depois, bocejou longamente, sem colocar a mão na frente da boca, pois com a esquerda segurava as cartas do baralho e com a direita empurrava um pedacinho de madeira para o centro da mesa.
— Toma lá um dez — disse ele.
— Oba! Isto não é um dez, é um dois — opôs-se Krahl.
Sheldrake retirou o pedacinho de madeira, com cara de desconfiado.
— É uma desgraça a gente não ter dinheiro de verdade — disse ele aborrecido, empurrando o pedacinho de madeira para o canto da mesa, junto com os outros. — Mas esta aqui é um dez legítimo.
Loewy sacudiu a cabeça e jogou as cartas na mesa viradas para baixo. Krahl franziu a testa.
— Bom, o jogo não é a dinheiro, poderia ficar jogando o tempo todo, não há nada a perder. Mas eu paro aqui.
— Está certo — disse Sheldrake e começou a contar o que havia ganho.
Eram pedacinhos de madeira de tamanho e cor diferentes.
— Se eu estivesse na Terra e o jogo fosse a dinheiro, estaria agora bem rico. Uma nova jogada?
Loewy e Krahl sacudiram a cabeça.
— Chega, Fred, vamos inventar outra coisa melhor.
— Você quer coisa melhor do que pôquer? — protestou Sheldrake. — Então você pode...
Foi interrompido. Um ruído intranqüilizante, uma espécie de zumbido encheu de repente o pequeno compartimento. Sheldrake olhou para cima, para o pequeno aparelho de alarme fixado na parede, não estava gostando daquele sinal.
— Temos visita — disse laconicamente. — Voltem para seus lugares, rapazes.
Loewy e Krahl se levantaram, afastando-se. Sheldrake foi atrás deles e fechou por fora a portinhola de entrada para o pequeno compartimento, onde estiveram jogando baralho e fumando. A portinhola era de tal maneira camuflada que desaparecia na parede.
Loewy e Krahl ganharam o corredor escuro. Sheldrake dobrou à esquerda. Procurou analisar a causa do ruído. Antes analisou a si mesmo e chegou à conclusão de que estava completamente calmo, sem medo. Isto lhe fez muito bem. Apalpou a arma que sempre trazia no bolso lateral. Entrou depois numa bifurcação do corredor, que conduzia ao posto de radiocomunicação. Encontrou ali ligada, como de costume, a tela que controlava toda a sala de comando. Percebeu isto pela leve cintilação que surgia de vez em quando na microtela. É claro que a tela estava escura, pois também a sala de comando o estava, naquele momento.
Sheldrake fechou os olhos e prendeu a respiração, para ouvir melhor. Não sabia quem havia aberto a comporta. Mas, considerando que foi o próprio Chellich quem instalou o alarme e explicou a todos o que fizera, estava praticamente excluído se tratar de alguém da tripulação da Fair Lady.
São os curiosos peepsies que andam por aí, querendo ver a nave que veio de longe”, pensava Sheldrake.
Apesar de ficar muito tempo com os ouvidos atentos, não escutou mais nada. Os invasores deviam, pois, se mover com extrema cautela. Sheldrake abriu de novo os olhos e fixou a pequena tela. Estava esperando que a luz se acendesse na sala de comando, sabendo de antemão que iria levar um susto, quando ou se isto acontecesse.

* * *

Wee-Nii tinha mantido sua palavra. Estava aberta a comporta da espaçonave dos estrangeiros. Mas, nem mesmo assim, Fij-Gul se sentia à vontade.
E se os estrangeiros não tivessem dito a verdade? Se houvesse alguém encarregado de guardar a nave, para que ninguém penetrasse nela sem autorização?
Seria ele, Fij-Gul, o único culpado. Teria que pagar o pato. Estava, por isso, muito transtornado e nervoso. O próprio Wee-Nii havia de dizer que estranhava muito que seu auxiliar, Fij-Gul, tivesse cometido a loucura de invadir a nau dos visitantes com um punhado de gente sua, infringindo sem apelação todas as leis da hospitalidade!
Seria rebaixado e removido para os cafundós-do-judas daquele planeta. Será que mais tarde, depois que os visitantes tivessem voltado à sua pátria, haveriam de repô-lo no seu cargo, com todas as honras e indenizações, como prometera seu chefe Wee-Nii?
Não se podia saber. Promessas, às vezes não passam de promessas. As decisões de Sua Excelência eram muitas vezes imprevisíveis.
Com uma exclamação de impaciência e de mau humor, que lhe escapou em surdina dos lábios, avançou para a grande comporta. O farolete de mão tremia nervoso nas paredes metálicas da nave. Antes de chegar ali com os cinco homens, havia aprendido e praticado como se abria esta comporta. Achou num instante o botão responsável pela abertura.
Esperou até que seus homens estivessem todos ao lado dele, para então abri-la. No momento em que a comporta se fechou com um ruído seco de metal, acendeu-se a luz.
Fij-Gul estremeceu de medo, pois ninguém lhe dissera que a iluminação era automática. Talvez mesmo seu mandante não soubesse disso. Agindo com prudência, Fij-Gul aguardou uns segundos e aguçou os ouvidos. Ao notar que nada se mexia, ficou mais tranqüilo. Não havia mesmo ninguém dentro da espaçonave.
Abriu a escotilha interna e não se surpreendeu mais vendo tudo iluminado. No meio do corredor havia uma esteira transportadora, que no entanto não estava ligada. Fez um aceno para seus homens, penetrou cauteloso no corredor. Foi ficando mais corajoso com o tempo. Quando o corredor principal tinha alguma bifurcação, parava para olhar e escutar. Tranqüilizou-se, pois realmente não se ouvia o menor ruído.
Quem sabe os estrangeiros tinham dito mesmo a verdade”, pensou. “A nave está de fato vazia.
Para Fij-Gul parecia muito provável que informações e mais detalhes sobre a viagem dos estrangeiros, se é que existiam, deviam se encontrar na sala de comando ou no salão principal no centro da nave.
E realmente não se enganou neste ponto.
Depois de procurar por uns trinta minutos, em que ele e os seus se sentiram mal com a alta pressão reinante no interior da nave, chegou a um recinto arredondado, para seus conceitos, muito pequeno e baixo, cheio de quadros de comando, telas de todos os tipos, mostradores, alto-falantes e muita coisa mais, cuja função ignorava.
Fij-Gul não tinha uma noção precisa do que devia propriamente procurar. Achou alguns recipientes, semelhantes a armários, abriu-os e constatou estarem cheios de mapas. Nestes mapas havia por sua vez coisas escritas, na grafia esquisita dos estrangeiros. Fij-Gul não conhecia esta escrita, não tinha pois possibilidade alguma de saber o que era e o que não era importante. Achou portanto melhor fotografar tudo que lhe vinha às mãos e não perdeu tempo.
Neste ínterim, seus homens reviravam outros armários e acharam todos vazios, com exceção de um. Fij-Gul se alegrou com isso, pois quanto menos coisas houvesse para fotografar, mais cedo podia cair fora.
Ia estendendo os mapas sobre a mesa e fotografando um por um com uma câmara miniatura.

* * *

Sheldrake se assustou realmente, quando a luz se acendeu. Viu seis peepsies penetrarem na sala de comando e esperava que não dessem pela pequena câmara fotográfica colocada pouco acima da entrada, com um amplo raio de visibilidade sobre todo o aposento, atingindo até o último canto.
Sheldrake ouviu um dos peepsies, o mais alto, que soltava sons esquisitos, apontando para um e outro lado. Sabia que havia também um gravador ligado para captar toda a conversa deles e que mais tarde seria possível traduzir tudo aquilo para o inglês. Lamentou não ter um aparelho daquele, ali onde estava, pois lhe interessava muito saber o que eles procuravam tão ansiosamente.
Observou como o maior deles, aparentemente o chefe do grupo, tirava mapa por mapa do armário, colocava estendido na mesa e fotografava, com uma microcâmara. Sabia que aqueles mapas foram deixados no armário de propósito por Chellich, para enganar os peepsies, ficando assim muito contente com o que via. Se os peepsies conseguissem traduzir todos aqueles documentos, chegariam à conclusão de que tinham que olhar com muito respeito para aquela gente do planeta Aurigel.
Depois de vinte minutos, tudo estava terminado. Haviam fotografado tudo. O oficial de Sua Excelência olhou para trás e Sheldrake teve a impressão de que ele se sentia feliz por haver terminado sua tarefa. Com um gesto nervoso, deu a entender que deviam sair, ficou para trás e fechou a comporta. Neste momento, a tela de Sheldrake se apagou.
Cinco minutos, após, soou o intercomunicador. Sheldrake atendeu e ouviu a voz de Krahl:
— Tudo em ordem, Fred. Já estão lá fora.
Sheldrake sorriu contente.
— Então, vamos voltar ao pôquer, minha gente.
Pouco depois estavam sentados no pequeno recinto. Loewy olhou para o relógio.
— Que tal se fizéssemos nossa comunicação de rádio?
Sheldrake tirou o cigarro da boca.
— Espere mais um pouco, por favor. Não tão depressa assim, do contrário vão concluir imediatamente que nosso rádio se prende à invasão da espaçonave.
Krahl não gostou muito da opinião de Sheldrake:
— Acho que seu raciocínio peca pela base. Como vão concluir alguma coisa, se os peepsies não têm a mínima noção de nosso código de rádio e não sabem o que fazer com nossas comunicações?
— Você é muito fantasista — disse Sheldrake num gesto de repulsa. — Acha que uma raça de alta civilização não tem noção alguma de códigos de transmissão? Seria, mais ou menos, como dizer que os americanos não sabem como construir um automóvel. Além disso, pode confiar cegamente em Chellich, ele sabe o que está fazendo.

* * *

O Serviço Secreto de Sua Excelência trabalhava a todo vapor. O montante dos documentos, fornecido por um desconhecido oficial da Força Aérea, formava uma pilha de duzentas e vinte e três folhas, cuja escrita tinha que ser decifrada e traduzida.
Sua Excelência pessoalmente havia dado a ordem de que a tradução e a interpretação deveriam estar prontas já na manhã do dia seguinte. Não se podia protestar contra a ordem, embora o chefe do serviço secreto estivesse convencido de que não podia haver ordem mais insensata do que esta.
As pesquisas sobre a escrita dos estrangeiros estavam ainda muito atrasadas. Seu princípio básico era diametralmente oposto ao do sistema gráfico dos povos de Heeninniy. E isso dificultava seus estudos. Tinha um sinal gráfico para cada fonema ou som, enquanto que a escrita de Heeninniy, altamente desenvolvida, era figurativa, usando para cada conceito completo, um pequeno desenho esquematizado.
Gii-Yeep, chefe do serviço secreto, cancelou todas as licenças que havia dado um dia antes a seus funcionários e lhes tornou bem claro que seriam demitidos sumariamente, se não cumprissem ao pé da letra as ordens de Sua Excelência.
Gii-Yeep não arredou pé do escritório. Assim, conseguiram fazer o que lhes parecia uma loucura inominável, uma exigência impossível. Logo após o raiar do sol, na manhã seguinte, a tradução estava completa. Perfazia, na escrita estenográfica de Heeninniy cerca de setenta folhas do mesmo tamanho do original.
O que Gii-Yeep tinha agora em suas mãos, quando de seu local de trabalho subterrâneo se dirigia para a torre residencial de Sua Excelência, não era nada menos que uma descrição exata do planeta Aurigel, de suas relações políticas com outros povos, de seus planos de expansão e de seu poderio militar e técnico. Quem estudasse cuidadosamente estes dados, ficaria tão bem informado como se tivesse sido introduzido em todos os segredos do planeta, durante longas horas, pelo próprio presidente de Aurigel.
Foi um trabalho e tanto”, pensava
Gii-Yeep e já estava antevendo os elogios que haveria de receber.
Não seria, porém, motivo de muita alegria, quando soubessem do enorme poderio militar do planeta Aurigel. Gii-Yeep não era político, mas se o fosse, agora haveria de concordar que a nação Heeninniy não podia fazer outra coisa nos próximos quinhentos anos do que se submeter amigavelmente à supremacia do poderoso povo de Aurigel.
Gii-Yeep já estava sendo esperado por Sua Excelência no palácio real.
— Tudo pronto? — perguntou diretamente Iij-Juur-Eelie.
— Perfeitamente, Excelência — respondeu respeitosamente.
— Bom trabalho! Que contêm todas estas folhas? Leia para mim, por favor.
Gii-Yeep obedeceu. Enquanto lia, Iij-Juur-Eelie estava sentado comodamente numa poltrona, com suas longas pernas esticadas. De repente, porém, Gii-Yeep constatou que seu soberano intranqüilizou-se... Os olhos piscavam nervosamente e os dedos compridos de ave de rapina estavam em constante tamborilar.
— O que você diz de tudo isto? — perguntou Iij-Juur-Eelie assim que Gii-Yeep terminou a leitura.
— Primeiramente, Excelência, que estes estrangeiros estão muito mais avançados do que nós — respondeu Gii-Yeep.
— No domínio da técnica, possivelmente — concordou Sua Excelência. — Mas acho que ainda não pretendem nada contra Heeninniy.
— Pelo menos estes documentos não insinuam isto — disse Gii-Yeep.
— Bem, temos tempo de sobra.
Gii-Yeep olhou surpreso.
— Tempo? Tempo para quê?
— Se nós conseguirmos saber, por exemplo — continuou sua Excelência — qual é o equipamento bélico de sua espaçonave. Se soubermos qual o princípio de sua energia de propulsão e como funcionam suas armas, tudo isto nos adiantaria muito, não é?
Gii-Yeep se apressou em concordar:
— Certamente, Excelência.
— Nossos técnicos são inteligentes, Gii-Yeep. Se lhes dermos alguns dias ou mesmo algumas semanas, conseguirão aprender tudo de que nós precisamos. Não há nada mais fácil do que recuperar um avanço técnico de outra raça, se se tem material suficiente de pesquisa para isto.
Levantou-se mais rápida e agilmente do que se suporia para sua idade.
— Aliás, os estrangeiros não haverão de gostar que outras pessoas fiquem fuçando em sua espaçonave — disse Iij-Juur-Eelie em voz baixa. — Temos que... oh!... eu sei, Gii-Yeep. Quando uma cosmonave cai em pleno deserto de Eenee, de tal modo que toda a aparelhagem de rádio fique destruída, quanto tempo precisam os passageiros para voltarem de novo até a civilização?
Gii-Yeep arregalou os olhos:
— Pelo menos dez dias — respondeu perplexo — se conseguirem sobreviver.
— Oh! Sim, nós cuidaremos disso. Não poderá acontecer nada de sério aos visitantes. Mas, nós não podemos ser responsáveis pela queda de uma nave em nosso deserto. Afinal, nossa técnica não está tão desenvolvida como a deles, não é?
Gii-Yeep começou a refletir sobre o plano, e quanto mais pensava, mais estranho lhe parecia tudo. Debruçou-se sobre os dados traduzidos e chegou à conclusão de que eles, os visitantes, não seriam tapeados assim tão facilmente. E se, ao perceberem o atentado, chamassem sua força espacial para Heeninniy?
Gii-Yeep ousou expor suas preocupações, embora soubesse que Sua Excelência poderia se irritar. Iij-Juur-Eelie, porém, estava de bom humor e, um tanto eufórico, não o levou a mal. Também não deu maior atenção às ponderações de seu súdito.
Com palavras de elogio, Gii-Yeep foi dispensado por Sua Excelência. Mas antes de deixar o palácio real, como já esperava, foi instruído de que se preparasse para executar o plano delineado por Sua Excelência, dentro de poucos dias.
Isto lhe veio roubar parte de seu contentamento do trabalho heróico, realizado em tempo recorde, e do elogio real. A outra parte lhe foi tirada, quando voltou a seu gabinete de trabalho e recebeu da sentinela do dia a comunicação de que, há meia hora, fora captada uma mensagem de rádio, que provavelmente só poderia ter saído da nave dos visitantes. A mensagem fora transmitida num grau de potência muito elevado e constava de poucas palavras. Por isso, foi possível ao pessoal de Gii-Yeep, neste meio tempo, decifrar seu conteúdo, que era o seguinte:

“Provavelmente fácil colheita.”

Gii-Yeep achava que só havia uma interpretação para a palavra “colheita”. Mas o que mais o irritava era o fato de que a espaçonave pudesse irradiar alguma mensagem, quando todos os visitantes estavam hospedados no palácio. Por este motivo, entrou em contato com o Comitê Presidencial e ficou sabendo que os visitantes gozavam de plena liberdade de locomoção, aliás, sem acompanhamento.
Isso o deixou mais aliviado, pois, como chefe do serviço secreto, estava a par da missão noturna do jovem Fij-Gul e teria que lamentar, caso o oficial da Força Aérea tivesse sido vítima de um truque dos estrangeiros, porque os visitantes podiam muito bem ter deixado um vigia escondido na nave.
Só momentos depois, lembrou-se de perguntar para que direção se dirigia a mensagem dos três vocábulos.
A resposta foi, ao menos para Gii-Yeep, muito significativa. A direção era Feejnee, o mundo vizinho de Heeninniy, um gigantesco planeta inabitável, com oito luas. No momento, Feejnee distava de Heeninniy novecentos milhões de quilômetros.



4



— Deu certo — disse O’Bannon. — Havia alguém perto de nossa nave, na hora que Sheldrake transmitiu a mensagem de rádio.
Chellich sorriu contente.
— Provavelmente já a devem ter decifrado. Foi redigida, de propósito, em código simples. E acho que não lhes será necessário quebrar muito a cabeça para entenderem o que quer dizer “fácil colheita”.
Mullon meneou a cabeça, negativamente:
— Não acredito, não. Pelo que tenho observado, a mentalidade deles não difere muito da nossa. Pensam nos mesmos moldes que nós. Basta que nós imaginemos o que faríamos em determinada situação, para saber o que os peepsies vão fazer.
— Então podemos começar logo — aparteou Milligan. — O que eles irão fazer agora, depois de terem nas mãos todos os dados sobre Aurigel e de terem interpretado o rádio de Sheldrake?
Mullon refletiu um pouco. Respondeu depois:
— Sabem agora que nossa técnica lhes é superior, pelo menos, por meio milênio. São uma raça muito cheia de si... e antes de tudo estão numa situação de penúria, já que seu planeta é pequeno demais para três bilhões de habitantes. Acho que eles vão tentar se apropriar dos supostos segredos de nossa técnica.
— De que maneira? — queria saber Chellich.
— Examinando nossa espaçonave e fuçando tudo.
— Não se atreverão a fazer isto — afirmou O’Bannon.
— Naturalmente têm que inventar qualquer meio para chegar a isso. Por exemplo, alguma coisa que nos afaste por alguns dias da Fair Lady.

Chellich se levantou.

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