Autor
KURT MAHR
Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
A quarta
aventura dos colonos de Fera Cinzenta.
Oito mil degredados da Terra
vivem em Fera Cinzenta, o oitavo planeta do sistema Mirta, totalmente afastado
das rotas comerciais ou científicas das espaçonaves interestelares. Estes
degredados começaram a se estabelecer em seu novo mundo, fazendo grandes
progressos. Notaram, porém, que a nova pátria não pertencia exclusivamente a
eles. Há, nos montes, os mungos, uma raça semi-inteligente de macacos e nas
matas virgens da parte mais baixa do planeta habitam os anões azuis, estranhos
seres dotados de extraordinárias forças paramecânicas e parapsíquicas.
Mas, vida inteligente também
existe no décimo segundo planeta do sistema Mirta: os assim chamados peepsies,
que, numa inesperada invasão, quase destruíram a colônia da Terra. Conseguindo,
então, com muito sacrifício, colocar em condições de funcionamento o
encouraçado espacial inimigo Fair Lady, os degredados da colônia resolvem fazer
uma visita de agradecimento aos peepsies, para cortar pela raiz qualquer nova
tentativa de invasão por parte dos habitantes do décimo segundo planeta.
Os terranos surgem como Os
Embaixadores de Aurigel.
No entanto sua missão toma
um desfecho completamente inesperado...
= = = = = = = Personagens Principais: =
= = = = = =
Mullon — Líder dos colonos exilados.
Chellich — Calmo, frio e calculista.
Iij-Juur-Eelie
— Rei-Presidente do planeta Peep. Ditador
egoísta.
Gii-Yeep — Chefe do serviço secreto da ditadura.
Wee-Nii — Almirante da Força Aérea de Peep.
Fij-Gul — Faz uma descoberta lingüística.
1
— Estou preocupado — disse Wee-Nii com sua
voz estridente. — Por que razão a nave não envia mais nenhuma comunicação?
Wee-Nii tinha quase dois metros e meio de
altura e era demasiadamente magro. Toda sua aparência indicava à primeira vista
que devia pertencer à classe privilegiada da nobreza. Além de alto, era
esbelto, e essa aparência permitia-se apenas aos nobres que, em toda sua vida,
não precisavam saber o que era um trabalho braçal. Aos outros, os que tinham
que trabalhar, a natureza não permitia um crescimento que chegasse aos dois
metros e o diâmetro da cintura não poderia ter menos de sessenta centímetros.
O homem com quem Wee-Nii acabara de falar tinha
a mesma estatura que ele: Fij-Gul, oficial da Força Aérea de Sua Excelência, o
Rei-Presidente, relativamente mais jovem e visivelmente menos inclinado a
participar dos cuidados de Wee-Nii.
— Que pode ter acontecido? — foi a
pergunta meio irônica de Fij-Gul. — Simplesmente um enguiço no transmissor de
bordo ou algo semelhante. Acho que não é motivo para medo ou preocupação.
Wee-Nii fez um gesto indeciso com as mãos
de dedos finos.
— “Achar
que” não nos vai adiantar nada — continuou ele pensativo. — Temos de saber
e não “achar que”. É exatamente o que
nos falta: certeza. O Capitão Sey-Wuun fez apenas referências sobre os
habitantes deste planeta. Achou-os completamente indefesos e despreparados.
Disse mesmo que seria muito fácil encontrar no meio deles traidores que, por
qualquer vantagem que se lhes ofereça, estão dispostos a cooperar conosco. Mais
do que isto, não sabemos.
— Com exceção do fato de que não temos
mais trigo — completou Fij-Gul.
O almirante concordou com entusiasmo.
— Isto é verdade. Sua Excelência deve ter
tido motivos imperiosos para reduzir tão drasticamente os gêneros alimentícios
da Força Aérea. Caso Sey-Wuun não regresse dentro de dez dias, temos que pedir
a Sua Excelência novos suprimentos, pois nossa gente não tem mais o que comer.
Fij-Gul foi até a janela e ficou olhando
para a cidade, com suas torres altas e pontiagudas, e as ruas sinuosas e
esburacadas.
— Sey-Wuun haverá de voltar, não se
preocupe — tentava ele encorajar seu superior. — O que aqueles seres primitivos
poderão fazer contra ele?
Wee-Nii estalou os dedos finos e
alongados.
— Não sabemos nem sequer se eles são tão
primitivos assim. Sey-Wuun viu os destroços de uma grande espaçonave nas
imediações da cidade. O agente, que ele contratou lá, lhe garantiu que era um
antigo couraçado espacial, com o qual os estranhos chegaram até Weelie-Wee.
Sey-Wuun mandou investigar, mas sua gente não conseguiu muita coisa. Depois, os
nossos destruíram uma boa parte da nave ali parada, para que os estranhos não
pudessem mais se utilizar dela futuramente. Mas... não sei não. De qualquer
maneira ficaria contente, caso Sey entrasse em contato conosco.
Fij-Gul talvez tinha alguma idéia
especial, quando perguntou:
— Se ele não der mais sinais de si, que
deveremos fazer?
Wee-Nii dava uma impressão de abatido.
— É também o que me pergunto. O montante
de nossa Força Aérea, para fins espaciais, consta de três espaçonaves tão boas
como a nave que está nas mãos de Sey-Wuun. Caso tenha acontecido alguma coisa a
ele, e sua espaçonave não volte mais, restarão ainda duas naves. Acha que
devemos mandar uma delas para Weelie-Wee e corrermos também o risco de ser
destruída pelos estranhos ou talvez até capturada?
Fij-Gul fez um gesto de negação.
— Acho que não podemos responsabilizar os
estranhos, se Sey-Wuun não voltar. Ouvi o relatório e, segundo sua opinião,
vivem em Weelie-Wee alguns milhares de pobres loucos, vegetando nas piores
condições de vida. Se aconteceu alguma coisa à cosmonave, deve ter sido somente
em vôo. Um meteorito ou algo semelhante. Nesta situação, acho mais do que
natural enviarmos uma outra espaçonave para Weelie-Wee, não é verdade?
Wee-Nii deu um longo suspiro:
— Gostaria que você estivesse certo,
Fij-Gul. Tenho, porém, receio de que em sua cabeça, o desejo seja o pai do
pensamento. O desejo de receber um comando independente, de ter em suas mãos
uma espaçonave de longo alcance. Tenho razão?
Fij-Gul tinha a peculiaridade de saber
disfarçar completamente, quando se sentia embaraçado.
— Não pretendo esconder que um tal comando
foi sempre a maior aspiração de minha vida. Independente disso, meus argumentos
são objetivos e bem pensados. Conforme tudo que sei dos estranhos, não estão em
condições de destruir, nem de atacar uma cosmonave da Força Aérea de Sua
Excelência, fortemente armada e com tripulação completa.
— Ao menos, conforme o que eu sei —
concordou Wee-Nii pensativo e com uma ponta de ironia ao mesmo tempo. — Se
soubesse que você tem razão, que o que você diz corresponde aos fatos, não
hesitaria em confiar a você uma de nossas espaçonaves, e mandá-lo para
Weelie-Wee. O pior é que eu não sei como andam as coisas por lá...
* * *
— Claro que é um nome bobo — concedeu
Chellich. — Mas temos de ser coerentes. Se chamamos os habitantes de peepsies,
temos então de chamar sua pátria de Peep, não é verdade?
Arrastando-se com cuidado, saiu de baixo
da caixa de comando, limpando algumas gotas de óleo que lhe caíram na testa,
durante o trabalho de reparar os contatos elétricos.
— Para mim, é indiferente — dizia O’Bannon.
— Apenas penso que será muito cômico, quando um dia surgir no catálogo o nome
Peep. Certamente vão imaginar que, ao escolhermos este nome, nós estávamos
bêbados.
— Bobagem! Pensem o que quiserem — disse
Chellich, entrando novamente para baixo da caixa de comando. — Independente
disso, alguma coisa para beber não seria nada mal.
— Acho que eu posso lhe arranjar —
ofereceu O’Bannon. — Mullon tem na sua mochila.
— Não precisa mais não — soou a voz de
Chellich, vinda de baixo da caixa — já está quase pronto. Depois desço com
vocês para a cantina.
— Pronto? — perguntou O’Bannon sem
acreditar. — Quer dizer que já podemos voar?
— Em tão boas condições, como nunca
esteve. Vamos voar com isso para Peep e fazer uma surpresa aos nossos amigos.
— Você é um cara formidável — disse O’Bannon.
— Eu, não! Formidáveis são os peepsies.
— Quem?
— Os peepsies — confirmou Chellich. Depois
voltou a mergulhar para baixo da caixa do controle geral de toda a fiação
elétrica, e explicou:
— Os peepsies estavam com barras de ferro
na mão, e bateram a torto e a direito, sem ter a mínima noção de onde estavam
as partes mais sensíveis da nave. Acho que não entendem nada dos princípios de
propulsão das naves. Fizeram uns buracos e amassões, mas não causaram maiores
prejuízos. Por isso é que está indo tão depressa.
— Estou compreendendo — disse O’Bannon —
de qualquer maneira você merece seu bom trago.
* * *
Mullon alojou o helicóptero sob a eclusa
de carga. Este setor era realmente o único que ainda estava em perfeito
funcionamento na gigantesca Adventurous, depois que a explosão da bomba atômica
abalou seriamente a imensa cosmonave. No interior dos escombros não havia mais
perigo de irradiações. Mullon e Chellich tiveram a precaução de percorrer suas
múltiplas dependências com medidores sensíveis, antes de penetrarem na nave
auxiliar, para consertá-la e antes de dispensarem os trajes anti-radiação.
Logo depois do primeiro exame superficial,
Chellich afirmou que os danos causados pelos peepsies eram de pouca monta e
seriam sanados em dez dias. Este era o oitavo, e Chellich prometera que naquele
dia mesmo ficaria tudo pronto.
No interior da enorme eclusa, cuja
comporta estava sempre fechada, devido à poeira radiativa que o vento agitava
lá fora, havia como iluminação somente uma lâmpada portátil, colocada por
Chellich nas proximidades da entrada, para facilitar a movimentação do
helicóptero.
A claridade da lâmpada não iluminava muito
bem o bojo esférico da nave auxiliar, que deslizava em corrediças para o interior
da eclusa. Do helicóptero, Mullon vislumbrava apenas uma grande sombra escura,
causando uma impressão assustadora.
Enquanto Mullon esperava a descida de
Chellich e de O’Bannon, lembrou-se das palavras do Capitão Blailey. Era o homem
que estava nas montanhas com uma nave de reconhecimento da frota terrana, nave
esta do tipo gazela, com instruções dos escalões superiores para que nada
acontecesse de mal aos colonos terranos. Suas palavras foram estas:
— Para lhes ser franco, acho o plano de
vocês meio arriscado. Mas se vocês realmente estão numa situação de emergência,
então devem tentar fazer coisas não indicadas em condições normais. Mesmo
assim, se forem prudentes, poderão ser bem sucedidos. Não contem, porém, com o
apoio da Terra. Se lhes acontecer algo no planeta dos peepsies, ninguém vai
chorar por vocês. A Terra deseja estabelecer neste planeta uma base espacial e,
mais dia menos dia, as supernaves da Terra estarão descendo no planeta dos
peepsies. Mas não será naturalmente para socorrer vocês.
Há quinze dias atrás, Mullon se alegrara
muito ao ouvir estas palavras. Tinha sido, até então, um motivo de inquietação
para ele a presença do Capitão Blailey e sua gazela, espreitando no fundo das
montanhas, para entrar em ação em caso de necessidade.
Estava mais do que evidente que a campanha
contra os peepsies era assunto meramente dos colonos e ninguém, nem mesmo com a
melhor das intenções, devia se intrometer no negócio.
Mullon não desconhecia que havia um pouco
de vaidade pessoal, pueril mesmo, em tudo isso. Os demais, principalmente
Chellich, pensavam também assim, portanto não tinha motivos de se envergonhar.
As ponderações do Capitão Blailey deram-lhe mais firmeza. A gazela não iria
atacar, pelo menos não em Peep, onde, na pior das hipóteses, se trataria
somente da morte de dez homens, pois Mullon não tinha intenção de levar mais do
que isto. Haviam de fazer seu jogo sozinhos.
Quando viu Chellich e O’Bannon saírem da
penumbra da nave auxiliar, despertou de seus pensamentos. A passos rápidos,
chegaram até o helicóptero e, mesmo de longe, O’Bannon gritou:
— Abra a garrafa, Horace, estamos com
sede.
— Exatamente você que não fez nada, heim?
— disse Mullon bem-humorado.
Olhou para a expressão de Chellich,
constatando que parecia muito satisfeito. Seu semblante irradiava alegria,
apesar de seu rosto estar sujo de graxa e óleo.
— Tudo em ordem? — perguntou a O’Bannon,
enquanto lhe passava a garrafa.
— Felizmente, só basta subirmos e sair
voando.
Mullon levantou a mão, como para retificar
alguma coisa:
— Ainda não! Primeiro temos que terminar
nossas bombas “rolantes”.
Chellich ria, nadando em otimismo:
— Tenho plena confiança em Wolley e em seu
pessoal. Fez grandes progressos nos últimos dias.
* * *
Wolley se lamentava um pouco:
— É bom para nós que em Fera Cinzenta não
haja imprensa. Não gostaria que os repórteres desandassem a nos criticar,
quando alguém lhes explicasse que um foguete nosso tem que ser feito com
explosivo nuclear.
Chellich e Mullon se divertiam com os
comentários.
— Sou um mecânico de mão-cheia — disse
Wolley. — Pelo menos é o que todo mundo diz por aí. Mas este conserto aqui...
confesso que o fiz com muito prazer.
O “negócio”
não tinha de fato nenhuma semelhança com foguete, mas devia ser considerado
como tal. Ao invés de ter uma fuselagem alongada, mais ou menos em forma de um
torpedo, seu bojo parecia um grande tonel de lixo. Não havia leme traseiro, nem
estabilizadores laterais. Num dos dois lados, numa espécie de balde velho,
estavam alojadas as bombas. O outro estava aberto. Se alguém olhasse lá para
dentro, veria com pouca nitidez um pequeno motor acionado por bateria e um
dispositivo semelhante a um ventilador.
— O principal — falou Chellich, batendo
amigavelmente nos ombros de Wolley — é que a turbina cumpra seu dever. Não se
preocupe com o resto. O “negócio” é
para ser usado em pleno espaço e lá ninguém dá importância a estas bobagens.
Não há necessidade de objeto voador ter uma linha aerodinâmica.
A primeira pessoa que Chellich e Mullon
foram procurar, após seu regresso dos escombros da Adventurous, foi o Dr.
Ashbury, antigo médico, que agora, por motivos imperiosos, se transferira para
o ramo científico da Química. Ashbury era o homem que podia produzir a
quantidade de gás explosivo de que o foguete “barril de lixo” de Wolley precisava para atingir um alvo com
determinada velocidade.
Fabricar gás, não era difícil. Ashbury
decompunha o ar em seus componentes e depositava separadamente em recipientes
adequados o oxigênio e o hidrogênio. Muito mais complicado era levar estes
gases para o foguete e mantê-los sob determinada pressão.
Depois da visita ao Dr. Ashbury, Mullon
propôs que fossem juntos jantarem na casa dele, e simultaneamente se
informassem sobre os progressos que o “grupo
de ação” havia feito.
Quando chegaram à casa de Mullon, tiveram
a surpresa de ver, através da vidraça, a senhora Fraudy, esposa de Mullon,
andando para lá e para cá no quarto, com os braços levantados. Ao penetrarem na
porta, ainda ouviram sua voz em tom didático:
— Depois de expressões que contenham
sentimentos de crença, desejo, dúvida e outras coisas semelhantes, empregasse o
subjuntivo, sub-jun-ti-vo. Será
possível que os senhores não querem compreender isto?
Surpreso, Mullon abriu a porta do quarto e
constatou que além de Fraudy não havia mais ninguém no quarto. Chellich começou
a rir.
— Os alunos já levaram tanta
descompostura, que preferiram abandonar a sala de aula — disse ele.
A senhora Fraudy virou-se, de rosto
vermelho e com as mãos apoiadas na cintura.
— Ah! Que surpresa, vocês aqui. Estou
praticando minhas aulas. Estes cabeças-duras estão sempre errando e eu não
tenho coragem de dizer-lhes palavras ásperas, como fazem em geral os
professores nas escolas.
Mullon perguntou sorrindo:
— São muito fracos?
— Não são propriamente — emendou a senhora
Fraudy. — Em quinze dias de aula já aprenderam mais que as crianças da Terra,
em seis meses. Têm um entusiasmo muito grande, mas realmente não se pode
aprender francês perfeitamente em quatro semanas.
— Também não é necessário aprenderem
perfeitamente — disse Chellich. — Para que os peepsies consigam entender uma
língua diferente da sua, torna-se necessário que apenas dois ou três falem bem.
A senhora Fraudy olhou para o marido e
mudou de assunto.
— Os senhores querem jantar outra vez
conosco, não é? — perguntou sem muita cortesia.
Chellich fez um gesto afirmativo.
— Vocês trabalharam bastante para
merecerem um bom jantar?
— Naturalmente, eu consertei uma nave
inteira.
— De tal modo que possa voar de novo?
— Exatamente — respondeu Chellich.
Fraudy ficou séria de repente.
— Sei que deveria me alegrar com isso —
disse ela. — Mas não consigo. Quem é que me garante que tudo está bem feito?
Mullon se levantou e lhe pousou a mão nos
ombros:
— Eu lhe garanto. Você vai ver. Dentro de
dois meses estaremos de volta e, neste meio tempo, teremos provocado tamanha
confusão entre os peepsies, que perderão, de uma vez por todas, a vontade de
voltarem para Fera Cinzenta.
* * *
Desde a explosão da bomba atômica e da
destruição da espaçonave dos peepsies, havia já três meses. Só então que foi
possível reunir os treze homens para o início da expedição. Um sem-número de
coisas tinham de ser feitas antes.
Os reparos na nave auxiliar, que recebera
o nome de Fair Lady, os aborrecimentos de Wolley com os foguetes tipo tonel de
lixo e as preocupações do Dr. Ashbury com o acondicionamento da mistura
explosiva de oxigênio e de hidrogênio — todos esses problemas eram apenas uma
fração das coisas que tinham de ser resolvidas.
A cidade dos colonos de Greenwich, no Rio
Green, estava agora equipada com duas bombas atômicas, cujo material físsil
tinha sido retirado dos reatores da grande máquina voadora deixada pelos
peepsies. Outros quatro reatores ajudaram Wolley a confeccionar os foguetes que
a Fair Lady levaria a bordo.
Instalaram também um sistema permanente de
comunicação via rádio com a gazela do Capitão Blailey, de maneira que este
último estivesse sempre a par dos acontecimentos, apesar de Greenwich,
oficialmente, não ter nenhum contato direto com a operação contra os peepsies.
No entanto, o Capitão Blailey haveria de atacar, em caso de perigo iminente
para a cidade.
Criou-se igualmente uma nova escrita, pois
Chellich supunha que os peepsies, além de conhecerem mais ou menos a língua de
Greenwich, possuíam também uma grafia própria e portanto estranhariam muito ao
verem no nome da nave seus próprios caracteres cuneiformes. Até mesmo os
membros da tripulação foram treinados para usarem em suas comunicações escritas
a nova grafia.
O Dr. Ashbury, mesmo depois de terminar a
difícil tarefa de encher os tanques de combustível com oxigênio e hidrogênio,
numa determinada pressão, não parava de trabalhar. Chellich precisava para sua
expedição de muito material químico, com severas especificações quanto à
qualidade, quantidade e eficácia. Sendo assim o doutor não tinha descanso.
Parecia, e era mesmo, um milagre que tudo
isto fosse feito no curto período de um trimestre. Milagre do trabalho e da
cooperação. Decisivo em tudo isto foi o fato de que a dedicação da colônia
conseguiu restabelecer e recuperar tudo aquilo que fora quebrado ou danificado,
quando da aterrissagem forçada da Adventurous ou do ataque destruidor dos
peepsies. Esta dedicação não mediu esforços, e nem mediu as conseqüências
perigosas da missão, isto é, levar a nave a um planeta vizinho e com isto ter
de enfrentar uma raça estranha e numerosa.
O que a população de Greenwich sentia era
uma reação justificada contra os peepsies que julgaram poder reduzir à condição
de escravos oito mil terranos, cônscios de sua dignidade humana.
Na véspera da partida, Chellich, Mullon, O’Bannon
e Milligan se reuniram para um último exame.
Cada um deles tinha uma missão específica
na restauração da cosmonave e nos preparativos para o grande empreendimento, e
agora fariam um balanço geral do que e como foi feito. Quando o último deles
terminou seu relatório, parecia claro que nada fora esquecido.
No dia seguinte, na manhã do dia 16 de
agosto do ano 2.041, tempo de Fera Cinzenta, a Fair Lady decolou.
2
Uju-Riel foi o primeiro a ver a estranha
espaçonave.
Surgiu de repente na tela de seu radar um
ponto minúsculo e de movimentos rápidos, que Uju-Riel supôs ser interferência “parasita”, pois para ele não havia
espaçonave que se deslocasse tão rápido assim.
Mas interferências “parasitas” são, em geral, coisas que desaparecem logo. No entanto,
aquele ponto inquieto atravessou a face superior da tela, numa linha oblíqua e
desapareceu no lado esquerdo. Uju-Riel ficou espantado e tentou medir a
velocidade do estranho objeto. Primeiramente, o radar constatou uma altitude de
trezentos quilômetros e o ponto levara seis segundos para atravessar toda a
tela, portanto, previa-se uma velocidade de vinte quilômetros por segundo.
Esta velocidade, porém, só era possível em
supernaves interplanetárias. Das três que existiam neste planeta, uma estava
sob o comando do Capitão Sey-Wuun de caminho para Weelie-Wee. As duas outras,
como Uju-Riel bem sabia, estavam de prontidão nos espaçoportos de Sielij e de
Heejii.
Depois de curta hesitação, Uju-Riel deu o
alarme. Anunciou que fora visto um objeto estranho a trezentos quilômetros de
altitude, com uma velocidade de cerca de vinte quilômetros por segundo, do
nordeste para o sudoeste.
Fez questão de comunicar isto, antes que
acontecesse qualquer dano ao planeta.
Já que todos sabiam que seria impossível
ser a espaçonave comandada pelo Capitão Sey-Wuun, pois era muito cedo para sua
chegada, a maioria começou a levar na brincadeira o alarme.
Mas, meia hora mais tarde, o objeto
apareceu novamente no radar de Uju-Riel, e desta vez tão perto, que mesmo outros
rastreadores mais fracos conseguiram captá-lo. Além disso, foi captada também
pelo posto central de vigilância eletromagnética uma indecifrável mensagem de
rádio, que, sem dúvida alguma, provinha do mesmo objeto voador. Desta forma,
houve uma reabilitação de Uju-Riel, enquanto seus superiores estavam agora em
maus lençóis.
O Almirante Wee-Nii estendeu o alarme
geral para toda a Força Aérea de Sua Excelência, o Rei-Presidente, ordenando
que os comandantes dos aeroportos mantivessem seus aparelhos de prontidão.
Neste ínterim, Sua Excelência foi colocado
ao corrente dos acontecimentos e aguardavam-se suas ordens. Mas Iij-Juur-Eelie,
Sua Excelência, o Rei-Presidente, somente daria ordens depois que o almirante
da Frota Real lhe fornecesse todos os informes sobre o estranho aparelho, ou
melhor, sobre a mensagem via rádio, por enquanto indecifrada, nas mãos dos
maiores peritos do planeta. Sua Excelência queria saber também por que, até o
momento, não tinha chegado nenhum informe sobre se a estranha nave tinha ou não
demonstrado qualquer atitude hostil. Por fim, pretendia ainda informar-se sobre
o tamanho do estranho objeto voador.
Não se sabe se foi por este último ponto
de vista que Iij-Juur-Eelie resolveu dar ordem de não se empreender nada contra
os estranhos, pelo contrário, que se pusesse em funcionamento o radiofarol nas
proximidades da capital para dar sinais de aterrissagem.
Quem sabe o estrangeiro compreenderia
estes sinais e desceria no aeroporto da capital?
Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência o Rei-Presidente,
foi magistral no disfarce de suas preocupações. Sua dignidade de Rei-Presidente
o exigia.
Um almirante, no entanto, podia estar
preocupado e consolado ao mesmo tempo, era o que pensava Wee-Nii. O estranho
seria certamente uma visita do grande espaço. Para Wee-Nii, seria esta a
primeira vez que seu planeta receberia uma visita do Universo, de outros
mundos. Seria mesmo a primeira vez que veriam seres de outra raça.
Como qualquer outro, também Wee-Nii tinha
idéias próprias de como receber condignamente um visitante do grande Universo.
Primeiramente, troca de radio mensagens a
fim de preparar a visita.
Depois, o envio de espaçonave, que deveria
se dirigir para o ponto de referência e inspecionar a nave visitante, enquanto
se manteria em Heeninniy, a pátria de Wee-Nii, a primeira fase do alarme.
E finalmente, a recepção da nave
visitante, comboiada por naves de Sua Excelência, e o desembarque no aeroporto
com discursos e demais festejos. Tudo deveria ser acompanhado pelo rádio e
televisão.
Mas, não houve nada disto!
O estranho aparelho apareceu em Heeninniy
como um ladrão em altas horas da noite. Os funcionários do radar ficaram
atônitos. Mostrou aos responsáveis que o sistema de alarme não funcionava, pois
do contrário o teriam descoberto e, por fim, deu uma volta completa em torno do
planeta, como se pretendesse primeiro sondar o ambiente onde iria aterrissar.
Wee-Nii era suficientemente inteligente
para compreender que a mentalidade do estranho visitante não seria
obrigatoriamente a mesma que a dele. Poder-se-iam encontrar muitas outras
explicações para o modo esquisito como esta nave penetrava em território
alheio, sem nenhuma preparação, de uma maneira inconvencional e mesmo bárbara.
Talvez, no país do visitante, as chegadas de povos estranhos fossem coisas do
dia-a-dia, dispensando assim qualquer formalidade, que na mentalidade de
Wee-Nii e dos habitantes de Heeninniy seria indispensável.
Era inútil perder mais tempo com estes
pensamentos. Mas era bom ficar de olhos abertos e pronto para tudo.
Fij-Gul já estava acostumado com o fato de
que Wee-Nii se preocupava seriamente com tudo, houvesse ou não razão para tal,
daí o motivo de não levar tão a sério sua exortação para ficar de olhos abertos
e pronto para o que desse e viesse.
* * *
— Olhem aqui um sinal — disse o jovem
grumete que Chellich colocara na radio escuta.
Seu francês ainda estava meio “cru”, talvez porque fosse o primeiro dia
em que estava expressando-se nesta língua. Chellich estudou o sinal na tela do
oscilógrafo e constatou que não tinha nenhuma modulação. Era apenas um impulso
eletromagnético, repetido em intervalos de cinco segundos.
— Procure saber de onde vem — ordenou
Chellich. — Já que não há nada por perto, acho que o sinal é para nós. Devem
ter recebido nossa mensagem e nos estão dando um aviso para aterrissagem.
Confirmou-se em breve esta suposição.
Sheldrake, o grumete, descobriu logo que o
sinal provinha de um irradiador direcional. O transmissor devia estar nas
proximidades daquela monstruosa aglomeração de torres pontiagudas, que Chellich
e Mullon já haviam identificado na primeira volta em torno do planeta.
— Portanto, um radiofarol — concluiu
Chellich. — Bem, então vamos aterrissar.
A quarenta quilômetros de altitude, sobre
uma pista relativamente grande, na periferia da extensa cidade, a Fair Lady
estabilizou-se. Chellich envolveu a nave com um campo de gravitação artificial.
Muito otimista, Chellich julgava que se
devia deixar um pouco de tempo para que os habitantes da cidade pudessem
preparar uma pequena recepção.
A Fair Lady cobrira a distância entre Fera
Cinzenta e Peep em poucas horas. A maior parte do trajeto fora transposto em
alta velocidade. E Chellich estava pensando se não era exatamente esta alta
velocidade da espaçonave que iria fazer com que os peepsies perdessem todo o
receio de que a nave estava chegando de Fera Cinzenta. A nave enviada pelos
peepsies, para trazer a última colheita de trigo, teria ficado normalmente dois
meses lá — primeiro, porque a colheita ainda não havia começado e segundo, para
tomar novas providências, a fim de descarregar outras máquinas e sabe Deus o
que mais...
A distância de Fera Cinzenta até Peep era
de setecentos milhões de quilômetros. Uma nave dos peepsies necessitava, no
mínimo, de dois meses para vencer tal distância. Se os habitantes de Peep ainda
receassem que a Fair Lady tinha vindo de Fera Cinzenta, estariam então
calculando que ela havia partido numa época em que a espaçonave dos peepsies
ainda estava lá. E, naturalmente, haveriam de achar isto muito improvável.
Chellich não acreditava que os peepsies
contassem com a perda de sua grande nave.
Certamente haveriam de pensar que o
transmissor estava enguiçado ou alguma outra coisa impedia o capitão de se
comunicar com sua terra. Uma mensagem dizendo que a espaçonave tinha sido capturada
em Fera Cinzenta, ou destruída, seria impossível chegar até eles. Uma raça tão
orgulhosa e cheia de si, não iria jamais aceitar uma hipótese desta.
Não, não havia, por enquanto, nenhum
motivo de preocupação. Mesmo quando, com o tempo, os peepsies começassem a
desconfiar, ainda seria muito cedo para se preocupar com isto.
Chellich voltou sua atenção para a cidade
que estava sob a Fair Lady. Em sua circunvolução pelo planeta, tinha visto
muitos núcleos urbanos deste tipo. Mas teria sido necessário o uso de uma
teleobjetiva para descobrir se estas colunas singulares e pontiagudas eram
realmente habitadas. Tinham uma certa semelhança com a construção dos “formigueiros” da Terra ou com... as
estalagmites...
Os peepsies não pareciam ter muito senso
para a estética arquitetônica. As casas-estalagmites eram o fruto de uma
arquitetura utilitária, que não conhecia nem mesmo o uso da proporção. Chellich
se perguntava como se podia viver em casas assim.
Ao atingir a altura de oito quilômetros, Chellich
observou uma espécie de procissão que abandonava a cidade na extremidade sul e
se dirigia para o lado norte do espaço-porto.
— A alta comissão de recepção já está a
caminho. — Comentou e, depois ordenou: — Vamos descer um pouco mais depressa.
O campo de gravitação que segurava a Fair
Lady, garantindo-a contra uma queda brusca, foi diminuído. Muito mais rápido do
que antes, a nave caía rumo à pista do aeroporto, produzindo um vácuo atrás de
si.
* * *
Iij-Juur-Eelie julgava ter motivos
suficientes para uma suntuosa recepção aos estranhos. Realmente, os
observatórios astronômicos de Heeninniy, equipados com receptores de alta
capacidade, haviam registrado sinais sobre os quais os cientistas afirmavam que
provinham dos transmissores dos estranhos.
Os observatórios selecionaram duas
espécies de sinais, com toda precisão, chegando à conclusão de que, em volta de
Heeninniy, deviam existir pelo menos dois mundos habitados por seres
inteligentes.
Acontece, porém, que Iij-Juur-Eelie era um
homem de grande previsão...
Existindo nas redondezas raças estranhas,
um dia mais ou um dia menos, quando a navegação espacial dos estranhos
atingisse um certo grau de evolução, haveriam de buscar contato. Já que
existiam, provavelmente, duas raças estranhas, era muito conveniente manter
boas relações ao menos com uma delas. Pois, uma confederação de três, como
provava a ciência política, não teria muita estabilidade. Facilmente surgiriam
discrepâncias e quem não se fortalecesse com seu aliado, levava desvantagem.
Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência o
Rei-Presidente, tinha, pois a intenção de impressionar os visitantes com suas
gentilezas. Ao voltarem para seu mundo, haveriam de comunicar a seu governo que
teriam em Heeninniy um aliado muito importante.
Sua Excelência sabia muito pouca coisa a
respeito da aventura que seu Capitão Sey-Wuun havia iniciado há alguns meses
num dos planetas, chamado Weelie-Wee.
Segundo o relatório de Sey-Wuun, não se
tratava de uma raça unida, mas de uma horda de colonizadores muito primitivos.
Ainda conforme as declarações de Sey-Wuun, nenhum dos dois tipos de sinais,
captados pelos observatórios astronômicos, podia vir de lá, pois os bandos
primitivos de Weelie-Wee não dispunham de transmissores muito potentes.
Desta forma, Sua Excelência não se
preocupou mais com a questão Weelie-Wee.
Era assunto da Força Aérea que recebera de
Sua Excelência a incumbência de cuidar, ela mesma, do suprimento de víveres
para seu pessoal, pois o fornecimento de gêneros alimentícios para quase três
bilhões de habitantes de Heeninniy estava cada vez mais difícil.
Sua Excelência mandou erguer ao lado do
aeroporto uma espécie de tribuna, em cujo ponto mais alto ele mesmo ficaria. À
volta do Rei-Presidente e abaixo dele sentariam os demais dignitários do reino:
Almirantes da Força Aérea, entre eles o Almirante-Comandante Wee-Nii, altas
patentes militares e finalmente os elementos de maior hierarquia da
Administração Civil. Um amplo cordão de isolamento protegia o enorme palanque,
cordão este constituído exclusivamente pela polícia secreta, pois Sua Excelência
não estava muito convencido do amor filial de todos os seus súditos.
Sua Excelência era notório por sua
teimosia e mesmo pela maneira inescrupulosa como exercia o poder que a
constituição lhe outorgava, chegando, às vezes, às raias do exagero. Além
disso, era corrente o boato de que ele não ligava muito para a constituição e
mandava como um rei absoluto, autoritário, e não como um Rei-Presidente, dentro
das normas legais.
Consciente de que aquele aparato todo não
deixaria de causar profunda impressão nos estranhos, esperava Iij-Juur-Eelie a
aterrissagem da misteriosa espaçonave, aparentemente com calma e dignidade, mas
no íntimo cheio de curiosidade e nervosismo. Já estava observando que a
espaçonave visitante era, pelo menos, tão grande como as três naves de sua
Frota Real, aliás as únicas do Reino, porém, certamente, muito mais potente.
De repente, passou por sua augusta cabeça
o incômodo pensamento de que, talvez, tivesse de tratar com gente que não
estava à procura de novas alianças, mas que vinha para fazer exigências:
submissão política, pagamento de tributos ou quem sabe lá o quê...
Tentou expulsar estes pensamentos
maléficos e resolveu simplesmente esperar.
* * *
Chellich estava muito bem e muito contente
com sua nova indumentária. Os trajes que as mulheres de Gray Beast cortaram e
confeccionaram eram realmente muito dignos e, o que era muito mais importante,
não deixava perceber nenhuma semelhança com a moda da Terra, que os peepsies já
conheciam desde a sua visita a Fera Cinzenta.
A Fair Lady aterrissou com um
impressionante ruído e atrás dela se formou uma coluna de vento, que, para o
prazer de Chellich e de seus companheiros, varreu sem cerimônia os augustos
semblantes das altas autoridades e levantou nos ares, numa mistura de cores, os
longos trajes da assistência no palanque.
Sheldrake, Loewy e Krahl já estavam
agachados em seus esconderijos. Chellich já lhes havia dito que não deviam sair
do esconderijo em que estavam, a não ser depois de cientes de que ninguém, além
deles, se encontrava na espaçonave. Tudo isto era para impedir qualquer
sabotagem.
A delegação que deixou a nave, poucos
minutos após a aterrissagem, era apenas de dez homens, envoltos em vestes
apertadas, chegando até os tornozelos, dando a seus portadores a aparência de
monges tibetanos. Suas armas estavam discretamente escondidas.
Logo de início se averiguou ser muito
difícil andar com a dignidade que o momento exigia, devido à gravitação do
planeta que chegava apenas a 0,7. É verdade que Chellich já estava acostumado
com esta variação e assim dominou bem a situação, não deixando transparecer seu
esforço. Mas os outros nove, incluindo Mullon, tiveram de fazer grande
sacrifício para se manterem de pé e não darem passadas de mais de um metro.
E ainda de sobra, vinha a pressão do ar
que não chegava a 0,53 atmosferas, isto é, não mais do que a pressão que se
sente nos picos de montanhas da Terra com mais de cinco mil metros de altura.
Isto lhes provocava o cansaço e o zumbido no ouvido. Qualquer movimento mais
rápido, como levantar um braço depressa, para não se perder o equilíbrio,
deixava a vista turva e sobrecarregava excessivamente os pulmões.
O palanque estava armado a cento e
cinqüenta metros do local de aterrissagem da Fair Lady. Para percorrer o
pequeno trajeto, a comitiva de Chellich levou dez minutos.
Chellich parou próximo do palanque,
olhando para o peepsie sentado no ponto mais alto, que devia ser a maior
autoridade da cidade, ou de todo o reino.
Ergueu os braços para a saudação. Isto lhe
custou um esforço notável, começando a respirar ofegantemente. Mas seu esforço
foi recompensado. Sua Excelência compreendeu o gesto e ergueu também os braços.
Foi uma visão meio grotesca, aqueles
braços longos e ressecados, com a diminuta palma da mão e os seis dedos, tipo
garras de ave de rapina se levantando para a cabeça completamente calva, que
terminava numa curva quase pontiaguda.
Chellich tirou uma folha de papel do bolso
interno de seu casaco, desenrolou-a calmamente e iniciou uma alocução de
saudação, que ele mesmo redigira antes da aterrissagem. Começou dizendo ser um
enviado do planeta Aurigel que girava em torno do sol mais próximo do sistema
Peep. Este sol vizinho distava de Peep sete anos-luz.
Ninguém dos peepsies compreendeu uma única
palavra de tudo que ele disse. Mas Chellich reparou que muitos dos homens
uniformizados que estavam nas laterais do palanque estavam com pequenos
gravadores. Provavelmente, estas gravações serviriam, mais tarde, para
reconstruírem o quanto possível a língua estrangeira por meio de transladores
eletrônicos; transladores estes que os peepsies já tinham usado em Fera
Cinzenta. Assim surgiria um caminho para uma futura compreensão mútua.
Quando Chellich terminou sua alocução,
Iij-Juur-Eelie, Sua Excelência o Rei-Presidente, se levantou, pronunciou com
ênfase uma série de frases e depois, com passos lentos, desceu os degraus do
palanque. Todos que estavam sentados se levantaram solenemente. Iij-Juur-Eelie
veio ao encontro de Chellich, abriu os braços, colocando a mão direita no ombro
de Chellich, iniciando uma leve inclinação.
Já que Sua Excelência tinha pelo menos
dois metros e sessenta de altura, a situação ficou um pouco embaraçosa para
Chellich que, com seu um metro e oitenta e cinco, não conseguiu colocar sua mão
no ombro de Sua Excelência. Contentou-se então com uma profunda inclinação.
Depois disso, Iij-Juur-Eelie se virou para
o lado esquerdo, dirigindo-se para fora do palanque, fazendo sinal a Chellich
que ficasse a seu lado. Atrás de Chellich e do Rei-Presidente, vieram os colegas
de Chellich e as demais pessoas que estavam no palanque.
Chellich constatou que a poucos metros do
palanque estava postada uma fila de viaturas, todas diferentes dos modelos
conhecidos. Provavelmente seriam pequenos objetos voadores, pois não conseguiu
ver rodas de tipo algum. Assim que Sua Excelência se aproximou do primeiro
deles, o aparelho se elevou uns vinte centímetros do solo, soltando pelos dois
lados de seu bojo oval uma certa quantidade de poeira.
A primeira viatura, se assim podia ser
chamada, recebeu Sua Excelência e Chellich. Seus companheiros foram
acompanhados pelos altos funcionários nos demais vagonetes voadores. Obedecendo
ao toque de uma cometa ou instrumento semelhante, a fila de vagonetes seguiu
rumo da cidade.
Chellich não achou inconveniente ou falta
de respeito olhar pela janela e apreciar a cidade lá embaixo. Não sabia uma
palavra da língua dos peepsies e Sua Excelência também não tinha outro meio de
se comunicar, a não ser por um constante sorriso.
Chellich compreendeu logo por que razão os
peepsies tinham que usar este tipo de vagonetes voadores. Pois de ruas ou
estradas, como se usava na Terra, não havia sinais em Peep. O espaço que havia
entre as torres, tipo estalagmites, era relativamente amplo, mas muito
irregular e cheio de buracos. Dava a impressão de que, quando os peepsies
construíram a cidade, mal se deram ao trabalho de capinar a rua, sem calçá-la
ou prepará-la de qualquer maneira.
Outra impressão singular davam as torres,
quando Chellich as viu de bem perto. Sua altura média era de quatrocentos
metros, se bem que houvesse um grande número de torres de seiscentos ou
setecentos metros. Estas verdadeiras estalagmites pareciam ter sido feitas em
camadas. As paredes externas eram interrompidas por janelas redondas em filas
irregulares, como se cada um escolhesse o local onde desejava luz, ar, ou mesmo
uma vista diferente.
Havia edifícios de colorações bem
estranhas, dando a entender que a obra tinha sido construída em diversas
etapas, com grandes intervalos de tempo entre si. Havia também torres quase
cilíndricas que aos oitenta ou cem metros terminavam em amplos terraços ou
plataformas.
Quem sabe estes terraços ou plataformas
receberiam mais tarde algumas dezenas de andares?
Por cima das quase-ruas, oscilavam às
vezes pontes ou passagens entre uma torre e outra, onde havia muitos peepsies
olhando curiosos o cortejo lá embaixo. Chellich reparou também que os
uniformizados, que comboiavam dos dois lados a comitiva real e os tripulantes
da Fair Lady, olhavam com muita atenção para estes peepsies postados nas pontes
ou passagens, temendo naturalmente um atentado.
Nas tais quase-ruas não havia muitos
pedestres, nem tantas viaturas. Talvez o trecho por onde passava o cortejo fora
fechado ao trânsito, pois, pelos cálculos de Chellich, a cidade devia ter seus
quatro milhões de habitantes e era um pouco difícil que, com uma concentração
urbana assim, as ruas do centro ficassem tão vazias desta forma.
Depois de um trajeto de quase uma hora, a
comitiva tomou a direção de uma calçada que levava para fora da cidade. Calçada
esta que era margeada por árvores altas, parecidas com o álamo. A calçada
terminava, depois de uns cinco quilômetros, diante de uma torre exageradamente
alta, cujos lados formavam por sua vez outras tantas torres, ligadas entre si
por pontes em todas as alturas, largas ou estreitas. Tinha-se a impressão de
que todas estas torres, nove ao todo, estavam unidas intimamente e pertenciam a
um só conjunto. Provavelmente seria a residência do homem que estava ao lado de
Chellich.
Ao pé da primeira torre, abria-se um amplo
portão, por onde os vagonetes entraram suavemente passando para uma galeria
feericamente iluminada. As outras viaturas vinham atrás, como Chellich
constatou, numa rápida olhada. Usando vistosos uniformes, criados surgiam de todos
os cantos e se postavam junto aos vagonetes.
Tinham chegado ao palácio real, conforme
tudo indicava.
3
— Tenho uma missão para você — disse o
Almirante Wee-Nii, três dias, tempo Peep, depois da chegada da Fair Lady, a seu
ajudante Fij-Gul. — E não sei se ela vai lhe agradar.
Fij-Gul ouvia com muita atenção.
— Descobriu-se na corte de Sua Excelência
— continuou Wee-Nii — que a espaçonave dos estranhos acha-se vazia e sem
nenhuma vigilância. Você está incumbido de fazer uma inspeção lá.
— Será que há motivos de suspeita, contra
os estranhos? — perguntou surpreso Fij-Gul.
Wee-Nii fez um gesto negativo.
— Primeiramente temos de ser sempre
desconfiados com todos os estranhos e, em segundo lugar, você não deve se
preocupar com isso, como eu também não devo. Ordens são ordens e esta aqui vem
da Primeira Câmara Real. Portanto, escolha sua gente, equipe-se com
microcâmaras e... mãos à obra. Quanto mais cedo começar, será melhor.
— Mas — objetou Fij-Gul — não tenho a
menor noção de como se abre a comporta. Os estranhos a fecharam, quando de lá
saíram.
— Não é mais problema, Fij-Gul, nossos
técnicos não estiveram este tempo todo dormindo. Portanto, diga-me quando você
vai querer entrar na espaçonave e, até lá, encontrará as escotilhas já abertas.
Fij-Gul já ia se retirando através de uma
cortina que fazia às vezes de porta, quando lhe veio uma idéia importante:
— E se os estranhos me surpreenderem lá
dentro, que devo fazer?
Wee-Nii fez uma cara de quem já havia
pensado no assunto.
— Então você cairá na desgraça do rei,
pelo menos durante a estada dos hóspedes. Naturalmente a Câmara Presidencial
não saberá nada disto e se você for surpreendido, tem que dizer que agiu por
conta própria. Explique isto também à sua gente.
Fij-Gul cumprimentou e saiu.
Estava preocupado. Não era o tipo de
missão de que gostava. Preferia que dessem esta incumbência a outrem.
* * *
— Não — afirmou Sheldrake com convicção —
nunca tive uma tarefa tão interessante assim. Nunca o tempo me passou tão
depressa como aqui na Fair Lady.
Depois, bocejou longamente, sem colocar a
mão na frente da boca, pois com a esquerda segurava as cartas do baralho e com
a direita empurrava um pedacinho de madeira para o centro da mesa.
— Toma lá um dez — disse ele.
— Oba! Isto não é um dez, é um dois —
opôs-se Krahl.
Sheldrake retirou o pedacinho de madeira,
com cara de desconfiado.
— É uma desgraça a gente não ter dinheiro
de verdade — disse ele aborrecido, empurrando o pedacinho de madeira para o
canto da mesa, junto com os outros. — Mas esta aqui é um dez legítimo.
Loewy sacudiu a cabeça e jogou as cartas
na mesa viradas para baixo. Krahl franziu a testa.
— Bom, o jogo não é a dinheiro, poderia
ficar jogando o tempo todo, não há nada a perder. Mas eu paro aqui.
— Está certo — disse Sheldrake e começou a
contar o que havia ganho.
Eram pedacinhos de madeira de tamanho e
cor diferentes.
— Se eu estivesse na Terra e o jogo fosse
a dinheiro, estaria agora bem rico. Uma nova jogada?
Loewy e Krahl sacudiram a cabeça.
— Chega, Fred, vamos inventar outra coisa
melhor.
— Você quer coisa melhor do que pôquer? —
protestou Sheldrake. — Então você pode...
Foi interrompido. Um ruído
intranqüilizante, uma espécie de zumbido encheu de repente o pequeno
compartimento. Sheldrake olhou para cima, para o pequeno aparelho de alarme fixado
na parede, não estava gostando daquele sinal.
— Temos visita — disse laconicamente. —
Voltem para seus lugares, rapazes.
Loewy e Krahl se levantaram, afastando-se.
Sheldrake foi atrás deles e fechou por fora a portinhola de entrada para o
pequeno compartimento, onde estiveram jogando baralho e fumando. A portinhola
era de tal maneira camuflada que desaparecia na parede.
Loewy e Krahl ganharam o corredor escuro.
Sheldrake dobrou à esquerda. Procurou analisar a causa do ruído. Antes analisou
a si mesmo e chegou à conclusão de que estava completamente calmo, sem medo.
Isto lhe fez muito bem. Apalpou a arma que sempre trazia no bolso lateral.
Entrou depois numa bifurcação do corredor, que conduzia ao posto de
radiocomunicação. Encontrou ali ligada, como de costume, a tela que controlava
toda a sala de comando. Percebeu isto pela leve cintilação que surgia de vez em
quando na microtela. É claro que a tela estava escura, pois também a sala de
comando o estava, naquele momento.
Sheldrake fechou os olhos e prendeu a
respiração, para ouvir melhor. Não sabia quem havia aberto a comporta. Mas,
considerando que foi o próprio Chellich quem instalou o alarme e explicou a
todos o que fizera, estava praticamente excluído se tratar de alguém da
tripulação da Fair Lady.
“São
os curiosos peepsies que andam por aí, querendo ver a nave que veio de longe”,
pensava Sheldrake.
Apesar de ficar muito tempo com os ouvidos
atentos, não escutou mais nada. Os invasores deviam, pois, se mover com extrema
cautela. Sheldrake abriu de novo os olhos e fixou a pequena tela. Estava
esperando que a luz se acendesse na sala de comando, sabendo de antemão que
iria levar um susto, quando ou se isto acontecesse.
* * *
Wee-Nii tinha mantido sua palavra. Estava
aberta a comporta da espaçonave dos estrangeiros. Mas, nem mesmo assim, Fij-Gul
se sentia à vontade.
E se os estrangeiros não tivessem dito a
verdade? Se houvesse alguém encarregado de guardar a nave, para que ninguém
penetrasse nela sem autorização?
Seria ele, Fij-Gul, o único culpado. Teria
que pagar o pato. Estava, por isso, muito transtornado e nervoso. O próprio
Wee-Nii havia de dizer que estranhava muito que seu auxiliar, Fij-Gul, tivesse
cometido a loucura de invadir a nau dos visitantes com um punhado de gente sua,
infringindo sem apelação todas as leis da hospitalidade!
Seria rebaixado e removido para os
cafundós-do-judas daquele planeta. Será que mais tarde, depois que os
visitantes tivessem voltado à sua pátria, haveriam de repô-lo no seu cargo, com
todas as honras e indenizações, como prometera seu chefe Wee-Nii?
Não se podia saber. Promessas, às vezes
não passam de promessas. As decisões de Sua Excelência eram muitas vezes
imprevisíveis.
Com uma exclamação de impaciência e de mau
humor, que lhe escapou em surdina dos lábios, avançou para a grande comporta. O
farolete de mão tremia nervoso nas paredes metálicas da nave. Antes de chegar
ali com os cinco homens, havia aprendido e praticado como se abria esta
comporta. Achou num instante o botão responsável pela abertura.
Esperou até que seus homens estivessem
todos ao lado dele, para então abri-la. No momento em que a comporta se fechou
com um ruído seco de metal, acendeu-se a luz.
Fij-Gul estremeceu de medo, pois ninguém
lhe dissera que a iluminação era automática. Talvez mesmo seu mandante não
soubesse disso. Agindo com prudência, Fij-Gul aguardou uns segundos e aguçou os
ouvidos. Ao notar que nada se mexia, ficou mais tranqüilo. Não havia mesmo
ninguém dentro da espaçonave.
Abriu a escotilha interna e não se
surpreendeu mais vendo tudo iluminado. No meio do corredor havia uma esteira
transportadora, que no entanto não estava ligada. Fez um aceno para seus
homens, penetrou cauteloso no corredor. Foi ficando mais corajoso com o tempo.
Quando o corredor principal tinha alguma bifurcação, parava para olhar e
escutar. Tranqüilizou-se, pois realmente não se ouvia o menor ruído.
“Quem
sabe os estrangeiros tinham dito mesmo a verdade”, pensou. “A nave está de fato vazia.”
Para Fij-Gul parecia muito provável que
informações e mais detalhes sobre a viagem dos estrangeiros, se é que existiam,
deviam se encontrar na sala de comando ou no salão principal no centro da nave.
E realmente não se enganou neste ponto.
Depois de procurar por uns trinta minutos,
em que ele e os seus se sentiram mal com a alta pressão reinante no interior da
nave, chegou a um recinto arredondado, para seus conceitos, muito pequeno e
baixo, cheio de quadros de comando, telas de todos os tipos, mostradores,
alto-falantes e muita coisa mais, cuja função ignorava.
Fij-Gul não tinha uma noção precisa do que
devia propriamente procurar. Achou alguns recipientes, semelhantes a armários,
abriu-os e constatou estarem cheios de mapas. Nestes mapas havia por sua vez
coisas escritas, na grafia esquisita dos estrangeiros. Fij-Gul não conhecia
esta escrita, não tinha pois possibilidade alguma de saber o que era e o que
não era importante. Achou portanto melhor fotografar tudo que lhe vinha às mãos
e não perdeu tempo.
Neste ínterim, seus homens reviravam
outros armários e acharam todos vazios, com exceção de um. Fij-Gul se alegrou
com isso, pois quanto menos coisas houvesse para fotografar, mais cedo podia
cair fora.
Ia estendendo os mapas sobre a mesa e
fotografando um por um com uma câmara miniatura.
* *
*
Sheldrake se assustou realmente, quando a
luz se acendeu. Viu seis peepsies penetrarem na sala de comando e esperava que
não dessem pela pequena câmara fotográfica colocada pouco acima da entrada, com
um amplo raio de visibilidade sobre todo o aposento, atingindo até o último
canto.
Sheldrake ouviu um dos peepsies, o mais
alto, que soltava sons esquisitos, apontando para um e outro lado. Sabia que
havia também um gravador ligado para captar toda a conversa deles e que mais
tarde seria possível traduzir tudo aquilo para o inglês. Lamentou não ter um
aparelho daquele, ali onde estava, pois lhe interessava muito saber o que eles
procuravam tão ansiosamente.
Observou como o maior deles, aparentemente
o chefe do grupo, tirava mapa por mapa do armário, colocava estendido na mesa e
fotografava, com uma microcâmara. Sabia que aqueles mapas foram deixados no
armário de propósito por Chellich, para enganar os peepsies, ficando assim
muito contente com o que via. Se os peepsies conseguissem traduzir todos
aqueles documentos, chegariam à conclusão de que tinham que olhar com muito
respeito para aquela gente do planeta Aurigel.
Depois de vinte minutos, tudo estava
terminado. Haviam fotografado tudo. O oficial de Sua Excelência olhou para trás
e Sheldrake teve a impressão de que ele se sentia feliz por haver terminado sua
tarefa. Com um gesto nervoso, deu a entender que deviam sair, ficou para trás e
fechou a comporta. Neste momento, a tela de Sheldrake se apagou.
Cinco minutos, após, soou o
intercomunicador. Sheldrake atendeu e ouviu a voz de Krahl:
— Tudo em ordem, Fred. Já estão lá fora.
Sheldrake sorriu contente.
— Então, vamos voltar ao pôquer, minha
gente.
Pouco depois estavam sentados no pequeno
recinto. Loewy olhou para o relógio.
— Que tal se fizéssemos nossa comunicação
de rádio?
Sheldrake tirou o cigarro da boca.
— Espere mais um pouco, por favor. Não tão
depressa assim, do contrário vão concluir imediatamente que nosso rádio se
prende à invasão da espaçonave.
Krahl não gostou muito da opinião de
Sheldrake:
— Acho que seu raciocínio peca pela base. Como
vão concluir alguma coisa, se os peepsies não têm a mínima noção de nosso
código de rádio e não sabem o que fazer com nossas comunicações?
— Você é muito fantasista — disse
Sheldrake num gesto de repulsa. — Acha que uma raça de alta civilização não tem
noção alguma de códigos de transmissão? Seria, mais ou menos, como dizer que os
americanos não sabem como construir um automóvel. Além disso, pode confiar
cegamente em Chellich, ele sabe o que está fazendo.
* * *
O Serviço Secreto de Sua Excelência trabalhava
a todo vapor. O montante dos documentos, fornecido por um desconhecido oficial
da Força Aérea, formava uma pilha de duzentas e vinte e três folhas, cuja
escrita tinha que ser decifrada e traduzida.
Sua Excelência pessoalmente havia dado a
ordem de que a tradução e a interpretação deveriam estar prontas já na manhã do dia seguinte. Não
se podia protestar contra a ordem, embora o chefe do serviço secreto estivesse
convencido de que não podia haver ordem mais insensata do que esta.
As pesquisas sobre a escrita dos
estrangeiros estavam ainda muito atrasadas. Seu princípio básico era
diametralmente oposto ao do sistema gráfico dos povos de Heeninniy. E isso
dificultava seus estudos. Tinha um sinal gráfico para cada fonema ou som,
enquanto que a escrita de Heeninniy, altamente desenvolvida, era figurativa,
usando para cada conceito completo, um pequeno desenho esquematizado.
Gii-Yeep, chefe do serviço secreto,
cancelou todas as licenças que havia dado um dia antes a seus funcionários e
lhes tornou bem claro que seriam demitidos sumariamente, se não cumprissem ao
pé da letra as ordens de Sua Excelência.
Gii-Yeep não arredou pé do escritório.
Assim, conseguiram fazer o que lhes parecia uma loucura inominável, uma
exigência impossível. Logo após o raiar do sol, na manhã seguinte, a tradução
estava completa. Perfazia, na escrita estenográfica de Heeninniy cerca de
setenta folhas do mesmo tamanho do original.
O que Gii-Yeep tinha agora em suas mãos,
quando de seu local de trabalho subterrâneo se dirigia para a torre residencial
de Sua Excelência, não era nada menos que uma descrição exata do planeta
Aurigel, de suas relações políticas com outros povos, de seus planos de
expansão e de seu poderio militar e técnico. Quem estudasse cuidadosamente
estes dados, ficaria tão bem informado como se tivesse sido introduzido em
todos os segredos do planeta, durante longas horas, pelo próprio presidente de
Aurigel.
“Foi
um trabalho e tanto”, pensava
Gii-Yeep e já estava antevendo os elogios
que haveria de receber.
Não seria, porém, motivo de muita alegria,
quando soubessem do enorme poderio militar do planeta Aurigel. Gii-Yeep não era
político, mas se o fosse, agora haveria de concordar que a nação Heeninniy não
podia fazer outra coisa nos próximos quinhentos anos do que se submeter
amigavelmente à supremacia do poderoso povo de Aurigel.
Gii-Yeep já estava sendo esperado por Sua
Excelência no palácio real.
— Tudo pronto? — perguntou diretamente
Iij-Juur-Eelie.
— Perfeitamente, Excelência — respondeu
respeitosamente.
— Bom trabalho! Que contêm todas estas
folhas? Leia para mim, por favor.
Gii-Yeep obedeceu. Enquanto lia,
Iij-Juur-Eelie estava sentado comodamente numa poltrona, com suas longas pernas
esticadas. De repente, porém, Gii-Yeep constatou que seu soberano
intranqüilizou-se... Os olhos piscavam nervosamente e os dedos compridos de ave
de rapina estavam em constante tamborilar.
— O que você diz de tudo isto? — perguntou
Iij-Juur-Eelie assim que Gii-Yeep terminou a leitura.
— Primeiramente, Excelência, que estes
estrangeiros estão muito mais avançados do que nós — respondeu Gii-Yeep.
— No domínio da técnica, possivelmente —
concordou Sua Excelência. — Mas acho que ainda não pretendem nada contra
Heeninniy.
— Pelo menos estes documentos não insinuam
isto — disse Gii-Yeep.
— Bem, temos tempo de sobra.
Gii-Yeep olhou surpreso.
— Tempo? Tempo para quê?
— Se nós conseguirmos saber, por exemplo —
continuou sua Excelência — qual é o equipamento bélico de sua espaçonave. Se
soubermos qual o princípio de sua energia de propulsão e como funcionam suas
armas, tudo isto nos adiantaria muito, não é?
Gii-Yeep se apressou em concordar:
— Certamente, Excelência.
— Nossos técnicos são inteligentes,
Gii-Yeep. Se lhes dermos alguns dias ou mesmo algumas semanas, conseguirão
aprender tudo de que nós precisamos. Não há nada mais fácil do que recuperar um
avanço técnico de outra raça, se se tem material suficiente de pesquisa para
isto.
Levantou-se mais rápida e agilmente do que
se suporia para sua idade.
— Aliás, os estrangeiros não haverão de
gostar que outras pessoas fiquem fuçando em sua espaçonave — disse
Iij-Juur-Eelie em voz baixa. — Temos que... oh!... eu sei, Gii-Yeep. Quando uma
cosmonave cai em pleno deserto de Eenee, de tal modo que toda a aparelhagem de
rádio fique destruída, quanto tempo precisam os passageiros para voltarem de
novo até a civilização?
Gii-Yeep arregalou os olhos:
— Pelo menos dez dias — respondeu perplexo
— se conseguirem sobreviver.
— Oh! Sim, nós cuidaremos disso. Não
poderá acontecer nada de sério aos visitantes. Mas, nós não podemos ser
responsáveis pela queda de uma nave em nosso deserto. Afinal, nossa técnica não
está tão desenvolvida como a deles, não é?
Gii-Yeep começou a refletir sobre o plano,
e quanto mais pensava, mais estranho lhe parecia tudo. Debruçou-se sobre os
dados traduzidos e chegou à conclusão de que eles, os visitantes, não seriam
tapeados assim tão facilmente. E se, ao perceberem o atentado, chamassem sua
força espacial para Heeninniy?
Gii-Yeep ousou expor suas preocupações,
embora soubesse que Sua Excelência poderia se irritar. Iij-Juur-Eelie, porém,
estava de bom humor e, um tanto eufórico, não o levou a mal. Também não deu
maior atenção às ponderações de seu súdito.
Com palavras de elogio, Gii-Yeep foi
dispensado por Sua Excelência. Mas antes de deixar o palácio real, como já
esperava, foi instruído de que se preparasse para executar o plano delineado
por Sua Excelência, dentro de poucos dias.
Isto lhe veio roubar parte de seu
contentamento do trabalho heróico, realizado em tempo recorde, e do elogio
real. A outra parte lhe foi tirada, quando voltou a seu gabinete de trabalho e
recebeu da sentinela do dia a comunicação de que, há meia hora, fora captada
uma mensagem de rádio, que provavelmente só poderia ter saído da nave dos
visitantes. A mensagem fora transmitida num grau de potência muito elevado e
constava de poucas palavras. Por isso, foi possível ao pessoal de Gii-Yeep,
neste meio tempo, decifrar seu conteúdo, que era o seguinte:
“Provavelmente fácil
colheita.”
Gii-Yeep achava que só havia uma
interpretação para a palavra “colheita”.
Mas o que mais o irritava era o fato de que a espaçonave pudesse irradiar
alguma mensagem, quando todos os visitantes estavam hospedados no palácio. Por
este motivo, entrou em contato com o Comitê Presidencial e ficou sabendo que os
visitantes gozavam de plena liberdade de locomoção, aliás, sem acompanhamento.
Isso o deixou mais aliviado, pois, como
chefe do serviço secreto, estava a par da missão noturna do jovem Fij-Gul e
teria que lamentar, caso o oficial da Força Aérea tivesse sido vítima de um
truque dos estrangeiros, porque os visitantes podiam muito bem ter deixado um
vigia escondido na nave.
Só momentos depois, lembrou-se de
perguntar para que direção se dirigia a mensagem dos três vocábulos.
A resposta foi, ao menos para Gii-Yeep,
muito significativa. A direção era Feejnee, o mundo vizinho de Heeninniy, um
gigantesco planeta inabitável, com oito luas. No momento, Feejnee distava de
Heeninniy novecentos milhões de quilômetros.
4
— Deu certo — disse O’Bannon. — Havia
alguém perto de nossa nave, na hora que Sheldrake transmitiu a mensagem de
rádio.
Chellich sorriu contente.
— Provavelmente já a devem ter decifrado.
Foi redigida, de propósito, em código simples. E acho que não lhes será
necessário quebrar muito a cabeça para entenderem o que quer dizer “fácil colheita”.
Mullon meneou a cabeça, negativamente:
— Não acredito, não. Pelo que tenho
observado, a mentalidade deles não difere muito da nossa. Pensam nos mesmos
moldes que nós. Basta que nós imaginemos o que faríamos em determinada
situação, para saber o que os peepsies vão fazer.
— Então podemos começar logo — aparteou
Milligan. — O que eles irão fazer agora, depois de terem nas mãos todos os
dados sobre Aurigel e de terem interpretado o rádio de Sheldrake?
Mullon refletiu um pouco. Respondeu
depois:
— Sabem agora que nossa técnica lhes é
superior, pelo menos, por meio milênio. São uma raça muito cheia de si... e
antes de tudo estão numa situação de penúria, já que seu planeta é pequeno
demais para três bilhões de habitantes. Acho que eles vão tentar se apropriar
dos supostos segredos de nossa técnica.
— De que maneira? — queria saber Chellich.
— Examinando nossa espaçonave e fuçando
tudo.
— Não se atreverão a fazer isto — afirmou O’Bannon.
— Naturalmente têm que inventar qualquer
meio para chegar a isso. Por exemplo, alguma coisa que nos afaste por alguns
dias da Fair Lady.
Chellich se levantou.

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