Quase todos estavam transformados em
bonecos, encontrando-se sob o poder do inimigo invisível, que os dirigia
segundo sua vontade! Everson lançou um olhar para os quatro homens que ainda
lhe restavam; um deles devia ser o criminoso
Seria o Dr. Morton? O médico era uma
verdadeira capacidade e não teria a menor dificuldade em provocar paralisias
desse tipo. Acontece que Everson não conseguia conceber uma idéia precisa sobre
o como. Ou seria Fashong? Era um chinês ágil, que sempre mostrava um rosto
indiferente. Que motivo poderia ter para agir dessa forma?
Poul Weiss? Everson sacudiu a cabeça. Não
acreditava que aquele homem tivesse algo a ver com aquilo. E o mesmo acontecia
com Scoobey, que estava encolhido em sua poltrona, muito cansado, cochilando
com os olhos entreabertos.
Mataal estava sob os efeitos da injeção
aplicada pelo Dr. Morton. Seria inútil aplicar-lhe outra dose, pois a inocência
do epanense era evidente. E todos os outros tripulantes achavam-se paralisados.
Com exceção de Goldstein. Mas esse rapaz estava louco.
As chances de descobrir o culpado não eram
muito grandes.
Será que havia mais alguma coisa a bordo?
Everson lembrou-se das palavras confusas
de Goldstein.
O mutante não dissera em suas fantasias
que a morte subira a bordo juntamente com ele? Será que eram apenas os pressentimentos
sombrios de um homem dotado de faculdades paranormais? Ou haveria realmente um
inimigo desconhecido a bordo?
Ao levantar-se, Everson teve a sensação de
que estava sendo observado por olhos desconfiados. Os companheiros deviam
desconfiar dele, tal qual ele desconfiava dos mesmos.
O coronel aproximou-se lentamente de
Goldstein. O telepata mantinha os olhos fechados. Sua respiração era apressada;
parecia exaltado. Everson inclinou-se sobre ele.
— Goldstein — disse em voz baixa. —
Goldstein, você me ouve?
O mutante abriu os olhos, que apresentavam
um brilho febril enquanto fitavam Everson.
— Calma, rapaz — disse Everson. — Quero
conversar com você.
Goldstein ergueu-se abruptamente. Fitou os
homens paralisados. Virou o corpo e apoiou-se sobre os cotovelos.
— Todos estão paralisados — disse
apontando nervosamente os corpos. — Daqui a pouco, todos estarão deitados
assim; todos.
— Conte-me alguma coisa sobre isso — pediu
Everson em tom insistente.
Goldstein agarrou-se ao comandante. Este
sacudiu-o num gesto animador.
— Estamos sendo observados — cochichou o
telepata com a voz chorosa. Seus olhos corriam nervosamente de um lado para
outro. — Se eu disser alguma coisa, ele nos matará.
— Ninguém o matará. De quem está falando?
Diga quem está nos observando; fale logo, Goldstein!
As últimas palavras quase chegaram a soar
como um grito.
Um sorriso abobado surgiu no rosto de
Goldstein. Por um momento Everson teve uma sensação estranha; parecia que
deixara de notar um pormenor decisivo. Não conseguia segurar os pensamentos,
estes se desfaziam como se alguém os apagasse com um pano.
— É o Dr. Morton — disse Goldstein com a
voz de criança que revela a “novidade”
que ouviu de um adulto. — O Dr. Morton me matará — gritou em tom estridente.
Everson afastou-se do mutante. O Dr.
Morton levantou-se com o rosto pálido. Havia uma expressão séria nos seus olhos
azuis quando os mesmos se dirigiram sobre Everson. O coronel tirou o
paralisador.
— O senhor está louco — gritou o médico. —
Goldstein está fora de si. Vai acreditar num louco?
— É um telepata — disse Everson. — Pode
ser um telepata louco, mas sabe ler pensamentos. E desconfia do senhor, doutor.
O senhor é a única pessoa a bordo que poderia colocar-nos numa situação como
esta. Seus conhecimentos podem colocar os doentes nesse estado. Ainda mais que
o senhor não foi atingido pela paralisia.
O médico barbudo recuou alguns passos.
Levantou os braços, num gesto de acusação contra Everson.
— Agora já vejo tudo — gritou. — Foi o
senhor que fez tudo isso. Que esperto! Se o senhor me eliminar, ninguém mais
poderá impedir sua atuação — fez um sinal para Scoobey e Weiss. — Ele é o
culpado; não tenham a menor dúvida.
Num gesto decidido Everson levantou o
paralisador.
— Segurem-no! — berrou o médico, louco de
raiva. — Segurem-no, antes que seja tarde. Não estão percebendo seu jogo
diabólico?
Mais tarde, Everson não saberia dizer por
que resolvera atirar. Morton cambaleou e caiu.
— Está apenas paralisado — disse Everson
em tom indiferente.
— Não parecia sentir-se culpado — disse
Fashong em voz baixa.
— Parecia sentir-se menos culpado que eu?
— perguntou Everson.
— Não adianta nada desconfiarmos
constantemente uns dos outros — respondeu o chinês em tom tranqüilo. — Devemos
conformar-nos com o fato de que fomos derrotados. Se tentarmos entrar em
contato com o inimigo, talvez descubramos quem é ele.
— Nosso inimigo só pode ser um louco —
disse Everson. — Impede nossa última transição e, com isso, ele mesmo se
condena à morte.
Mataal se recuperava lentamente dos
efeitos da injeção. Everson ajudou-o a levantar-se. O epanense notou que o
número dos homens paralizados aumentara.
— Ao que parece sua situação não melhorou
— falou com certa ironia. — Ainda suspeitam de mim?
Everson sacudiu a cabeça.
— Acho que minha idéia não é nada má —
disse Fashong em tom obstinado. — Devemos entrar em contato com nosso inimigo
fantasmagórico; não temos outra alternativa. Vamos capitular.
— Quem vai resolver quando capitularemos
sou eu, Fashong — esbravejou Everson. — Além disso, nosso “amigo” só aparecerá quando ele achar que já chegou a hora.
Scoobey, que se mantivera em silêncio por
muito tempo, ergueu-se de sua poltrona. Falou como um homem que refletira
detidamente sobre um problema e acabara de encontrar a melhor solução.
— Tenho outro plano, coronel — disse. —
Vamos destruir a nave.
Esperou que alguém o contradissesse.
Quando viu que ninguém se dispunha a falar, prosseguiu:
— Faremos a Fauna explodir no espaço. O
Comandante Everson poderá confirmar que isso é possível. É bem verdade que
todos morreriam, mas a mesma coisa aconteceria com nosso inimigo. Com uma ação
dessas, poderíamos atraí-lo para fora do esconderijo. Terá de fazer alguma
coisa, a não ser que queira morrer conosco. Não poderá prosseguir na tática que
tem adotado. Antes de mais nada, terá de desistir de nos colocar fora de ação
um após o outro, pois meu plano não lhe deixaria tempo para isso. Obrigaríamos
o inimigo a pôr as cartas na mesa.
— Concordo com sua idéia — exclamou Poul
Weiss em tom apaixonado.
Fashong mostrou-se mais cauteloso:
— Isso parece um tanto definitivo. Seu
plano não nos deixaria outra alternativa senão morrermos todos, ou... bem, é
justamente sobre esse ou que não sabemos nada.
— Também sou de opinião que não devemos
arriscar a nave — disse Everson. — Ainda temos uma chance de resolver a
situação de outra maneira.
Com dois passos. Scoobey colocou-se ao
lado de Mataal e levantou-lhe o braço.
— Será que este homem não tem o direito de
participar da decisão? Afinal, sua vida está tão ameaçada quanto a nossa. Vamos
dar-lhe a oportunidade de manifestar sua opinião. É o mínimo que podemos fazer.
— Está bem — disse Everson. — Perguntarei
a Mataal.
Relatou em língua epanense o que havia
acontecido.
— Destrua a nave — disse Mataal. — Nunca
ninguém derrotou um inimigo por meio da inatividade.
Seus dentes brilharam e o rosto amarelo
desfigurou-se numa furiosa resolução. Everson tinha certeza de que para Mataal
o desconhecido era um monstro que poderia ser vencido na arena com a espada.
— Você ganhou — disse Everson,
dirigindo-se ao imediato. — Mataal também concorda. Ainda vamos perguntar ao
Dr. Morton. Não demorará em recuperar os sentidos.
Scoobey aproximou-se do médico e tocou-o
com a ponta do pé.
— O senhor está sem sorte, coronel — disse
com a voz débil. — Aqui temos outra prova de que não podemos esperar mais. O
doutor está paralisado. Pretende manter-se inativo ate que estejamos todos
paralisados, coronel?
Everson sentiu vontade de investir com os
punhos contra alguma coisa.
— O estado de Morton faz com que as
suspeitas recaiam sobre mim — admitiu. — Por isso concordo com sua idéia.
Scoobey sorriu.
— Muito bem — disse em tom satisfeito. — O
senhor sabe o que deve fazer, coronel. Não podemos executar o plano aqui em
cima. Devemos ir até os propulsores. Sugiro que saiamos juntos da sala de
comando. Vamos logo.
Quatro serranos de inteligência superior a
média e um gladiador epanense fitaram-se. Em seus olhares, havia uma
concordância muda. Scoobey caminhou à frente dos demais.
Não chegaram longe...
Seus olhos presenciaram um espetáculo incrível.
A escada, que constituía o único caminho para as outras partes da nave,
dissolveu-se à sua frente. Desapareceu sem mais nem menos, afinou, tornou-se
transparente, ficou reduzida a uma visão bastante vaga e desfez-se de todo.
— Parece que nosso procedimento não
agradou ao desconhecido — disse Weiss em tom seco, olhando por cima da amurada.
No momento, não tinham qualquer
possibilidade de sair da sala de comando. Esta se transformara numa prisão,
onde estavam à mercê do implacável inimigo.
Uma risada horrível arrancou-os de suas
reflexões. Estremeceram apavorados. Era Goldstein.
— Vamos dar-lhe uma injeção — disse
Scoobey.
— Ele se acalmará logo — disse Everson. —
Deve ser um ligeiro ataque.
Que possibilidades lhes restavam? O que
poderiam fazer?
Everson sentiu-se totalmente exausto.
Via-se diante do inimigo como quem está privado de toda substância. A aparência
dos outros não era diferente. Só o epanense, que parecia não compreender o que
estava acontecendo, não se mostrou abalado.
Everson examinou atentamente o lugar em
que poucos minutos antes se encontrara a escada de alumínio.
Como se poderia explicar o desaparecimento
da mesma?
Será que ainda lhes restava alguma chance?
* * *
Goldstein foi-se recuperando aos poucos do
cansaço. O esforço que tivera de fazer para dissolver em poucos instantes a
escada de acesso representara uma carga sobre-humana.
Não quis deixar passar essa oportunidade
de dar uma demonstração de sua força. Teria de convencer Everson de que era
invencível. O moral do pequeno grupo teria de esfacelar-se peça por peça.
Goldstein tinha certeza de que conseguiria.
— Se amarrarmos todas as cobertas, um de
nós poderá descer — sugeriu Poul Weiss.
— Isso não adiantará nada — objetou
Everson. — A corda que fabricarmos terá a mesma sorte da escada.
Fashong disse:
— Gostaria que minha proposta fosse
considerada, coronel.
“Se
conhecermos o inimigo, será mais fácil surpreendê-lo”, pensou o chinês. “Será que Everson ainda não compreendeu?”
Goldstein não teve a menor dificuldade em
acompanhar esses pensamentos. O chinês seria o próximo a ser colocado fora de
ação. A resolução férrea do asiático e sua capacidade de conceber um raciocínio
preciso, até mesmo numa situação como esta, poderiam representar um apoio para
Everson; e Goldstein não gostava disso.
— Como pretende fazer isso, Fashong? —
perguntou Everson. — Quer que use o sistema de intercomunicação de bordo para
manifestar minha disposição de negociar? Não me parece que nosso adversário
esteja dialogando conosco.
— Minhas palavras poderão parecer uma
imodéstia — respondeu Fashong. — Notei que o inimigo age de acordo com certo
esquema. Começou por colocar fora de combate os homens menos importantes e
depois foi atingindo os outros. Nós quatro, é claro que Mataal deve ser
excluído, formamos a elite dirigente da nave. Isso não pode ser simples
coincidência.
“Não
há dúvida de que o chinês não demorará em descobrir a verdade”, pensou
Goldstein.
Fashong se colocara na pista como um cão
de caça. Goldstein quase chegou a sentir uma ligeira simpatia pelo navegador,
que sabia defender-se sem recorrer a qualquer capacidade paranormal.
— Qual é a finalidade que pode haver nessa
seqüência? — perguntou o coronel.
Fashong prosseguiu:
— Em condições normais, seria de supor que
um indivíduo dotado de raciocínio lógico colocaria fora de ação em primeiro
lugar as pessoas mais importantes, pois haveria maior certeza de que estas
poderiam opor-lhe alguma resistência. Se não age assim é porque pretende fazer
alguma coisa conosco, ou quer exercer pressão sobre nós. Quer nos obrigar a
desistir. Por que não fazemos a vontade do personagem misterioso, coronel?
Everson levantou a voz ao responder:
— Aconteça o que acontecer, nunca
desistirei.
O chinês aproximou-se da mesa do
navegador. Escreveu algumas palavras num pedaço de papel e entregou-o ao
comandante.
“Parece
que podemos capitular”, leu Goldstein nos pensamentos de Everson. “Está na hora de desistirmos do jogo.”
Everson amassou o papel e inclinou-se
sobre o microfone.
— Estamos dispostos a negociar — disse,
falando devagar. — Seja quem for nosso inimigo, queremos que apareça a fim de
que possamos chegar a acordo.
Goldstein soltou uma risadinha de
escárnio. Suas energias paranormais entraram em ação. A caneta moveu-se sobre a
mesa de navegação, como se tivesse sido tocada pela mão de um fantasma.
Goldstein dirigiu o bilhete escrito cuidadosamente pela sala de comando. O
papel foi-se aproximando de Everson.
— Olhe, coronel! — gritou Weiss
O bilhete ainda flutuava, quando Everson
pegou-o.
Leu-o em voz alta:
—
Vão para o inferno!
— Diria que é uma expressão tipicamente
humana — observou Fashong em tom de satisfação.
Goldstein sabia que não dispunha de muito
tempo. Não poderia esperar tanto como fizera com Inoshiro. Sondou
cuidadosamente o cérebro do chinês. Bastaria realizar uma pequena modificação;
não precisaria fazer mais nada.
— Isso representa um progresso enorme —
resmungou Everson em tom sarcástico.
Fashong falou apressadamente;
— Os fatos só permitem uma conclusão.
Goldstein conhecia as palavras que se
seguiriam antes que Fashong as pronunciasse. Mas ninguém mais as ouviria.
Subitamente, o astronauta franzino
estremeceu. Everson soltou um grito e colocou-se a seu lado.
— Fale! — disse em tom exaltado. — Fale
logo, Fashong!
Fashong abriu a boca, mas nenhuma palavra
lhe passou pelos lábios. Parecia querer apontar em determinada direção, mas o
braço endureceu a meio caminho e caiu pesadamente. Everson sentiu o pequeno
corpo amolecer em seus braços.
— Ele sabia — disse o coronel. —
Reconheceu o inimigo, mas não pôde dizer-nos quem é. Ficou paralisado que nem
os outros.
— Mas ainda conseguiu dizer uma coisa —
observou Scoobey. — Mencionou que a expressão “vão para o inferno” é tipicamente humana. Dali se conclui que um de
nós três é o criminoso — fitou Weiss e Everson, como se quisesse gravar seus
rostos. — Aliás, deve ser um de vocês, pois sei que não sou eu.
Everson foi recuando para um canto. O
paralisador surgiu em sua mão.
— Scoobey ou Weiss — disse. — A escolha
ficou bastante reduzida.
Weiss soltou uma estrondosa gargalhada.
— É inacreditável! — exclamou. — Vocês
podem achar que sou um idiota, mas tenho a impressão de que é um de vocês.
“Agora
vão atacar-se uns aos outros”, pensou Goldstein muito satisfeito.
O que aconteceria quando o próximo homem
fosse colocado fora de ação?
O mutante pensava em Scoobey. Everson e
Weiss se anulariam mutuamente. O coronel possuía uma arma. Isso significava que
não precisaria preocupar-se com Everson. O astronauta seria o último. Mataal,
que estava sentado tranqüilamente no chão, não contava. Uma ligeira visão dos
pensamentos do epanense apenas mostrou saudades.
Sem que o quisesse, Fashong colocou os
três homens numa pista errada. Cada um deles estava convencido que o autor dos
crimes só podia ser um dos outros dois. Everson desconfiava principalmente de
Weiss; Scoobey acreditava que o culpado fosse Everson, e Weiss estava
convencido de que deveria cuidar-se principalmente de Scoobey.
Muito divertido, Goldstein observou os
três homens cansados que trocavam olhares desconfiados. Everson segurava
fortemente o paralisador, e Scoobey fez questão de ficar com as costas livres.
Weiss estava sentado no chão e pensava que dificilmente teria uma oportunidade
de defender-se.
— Acho que estamos procedendo como
crianças — disse Weiss. — O comandante acha que pode defender-se com essa arma
— um sorriso de desprezo surgiu em seu rosto. — O senhor sabe perfeitamente que
isso é impossível. Em quem vai atirar quando lhe acontecer o que acaba de
suceder com Fashong?
Everson não respondeu. Scoobey moveu a
poltrona para cima. Ficou a dois metros do chão. Weiss levantou os olhos para
ele.
— O senhor se sente mais seguro aí em
cima? — perguntou ao imediato.
— Minha posição fica mais “esclarecida” — respondeu Scoobey fazendo
tom de mistério.
Estavam metidos numa armadilha. Goldstein
nem se esforçou para reprimir a sensação de triunfo que se apossava de sua
mente. Ele, um mutante jovem e inexperiente, fazia pouco das velhas raposas do
espaço. Sua capacidade extraordinária lhe permitia brincar com eles como se
fossem bolinhas de gude que podia fazer rolar na direção que quisesse. Devia
deixar Everson arrasado a ponto de levá-lo a executar prontamente qualquer
ordem que lhe fosse dada. Os outros seguiriam os passos de seu superior.
Se depois dessa “massagem psicológica” Everson não quisesse mostrar-se razoável, não
haveria outra alternativa senão matá-lo. Com a morte de Everson, a nave
perderia seu dirigente intelectual, mas Scoobey era um substituto à altura.
Assim que Goldstein libertasse os astronautas da paralisia de que estavam
acometidos, eles se lembrariam com verdadeiro pavor do que lhes acontecera e
não se arriscariam a atacá-lo.
O acaso colocara nas mãos de Goldstein a
K-262, e com ela uma excelente oportunidade de experimentar suas capacidades
paranormais e desenvolvê-las. Não seria fácil abalar o ânimo de Rhodan.
Goldstein conhecia o poder desse homem, mas tinha plena consciência de suas
faculdades que, convenientemente desenvolvidas, fariam dele um homem
invencível.
Um sorriso de desprezo surgiu em seu
rosto. Não era um absurdo que um homem que não dispunha de capacidades
paranormais desenvolvidas pudesse investir-se nas funções de dirigente do
Império Solar? Goldstein tinha certeza de que o Exército de Mutantes apenas
esperava surgir algum homem bem poderoso de dentro de suas fileiras. E logo que
esse surgisse, assumiria o lugar de Rhodan. Ele, Goldstein, seria esse homem.
Fitou a longa fileira de doentes com uma
expressão pensativa. Ali estavam estendidos, mudos e com o corpo rígido. Seus
pensamentos não estavam paralisados. Giravam em torno do medo, do ódio e do
pavor provocado pelos planos de Goldstein. Agora, que estavam indefesos, “amarrados” ao solo, já conheciam o
inimigo. Mas seus lábios, que ansiavam para gritar o que sabiam, permaneceram
mudos. As línguas recusavam-se a obedecer.
Goldstein penetrou mais profundamente em
suas mentes. Tinham a intenção de submeter-se à vontade do mutante. A
disposição estava presente, apenas faltava despertá-la e intensificá-la. Eles
se submeteriam, cheios de ódio e cólera, mas obedeceriam.
O telepata estremeceu ao experimentar a
sensação de sua força. Suas idéias tinham algo de embriagante. Sentiu um
profundo desprezo por aqueles homens que se comunicavam lentamente por meio da
palavra falada e viviam no ambiente que os cercava sem compreendê-lo. Ele
enxergava mais longe Eles eram uns primitivos; não passavam de uma espécie
inferior de animal. Para eles, um pedaço de madeira não as sumia nenhum
significado; apenas viam o tamanho, o formato e a cor. Já ele admirava a
textura fina da madeira, a estrutura e o agrupamento das moléculas. Possuía um
sentido adicional, que tateava a estrutura íntima das pequeninas partes.
Conhecia suas qualidades, sabia modificá-las, destruí-las e reconstruí-las.
Por isso era mais que eles. Ultrapassava-os
no terreno espiritual, da mesma maneira que eles ultrapassavam o macaco
— Olá, coronel! — a voz forte de Weiss
irrompeu em meio aos pensamentos de Goldstein, — O senhor está adormecendo.
Everson, que se recostara, empurrou o
corpo para a frente. Teve de esforçar-se para manter os olhos abertos. Passou a
mão pelo rosto, como se, com isso, pudesse espantar o cansaço.
“Não
posso dormir”, diziam os pensamentos de Everson captados por Goldstein. “Agora não posso dormir.”
Scoobey lançou um olhar de espreita pela
braçadeira de sua poltrona.
— Não está cansado, Poul? — perguntou. —
Até acho você bem disposto.
— Assim, me torno suspeito, não é? —
perguntou Weiss em tom irônico. — Um homem que não esteja tão indisposto deve
ter uma boa explicação para seu excelente estado — Weiss bocejou fortemente. —
Se não estivesse com tanto medo, dormiria — disse.
“Não
durma agora, meu velho”, pensou o coronel intensamente.
Weiss realizou um grande esforço para
manter-se afastado da parede que o convidava a encostar-se.
Pareciam agora não suspeitarem uns dos
outros.
Goldstein observava aquela gente, que para
ele não passava de um bando de macacos. O comandante, que começava a cambalear
de cansaço. Scoobey, pendurado na poltrona, exausto. Weiss que, de tanto medo e
raiva, desenvolvera uma espécie de humor sinistro. Mataal pensava intensamente
na terra natal, da qual estava separado por distâncias incomensuráveis. Esses
pensamentos tornaram-se desagradáveis para Goldstein, pois reforçavam a
sensação estranha que se espalhava em seu íntimo. Não os perseguiu mais.
— Precisamos descobrir um método de nos
mantermos acordados — disse o imediato.
— Para quê? — perguntou Weiss. —
Indique-me um método que me permita dormir tranqüilo, e veja o que farei.
Olhou para Scoobey com certa esperança no
rosto.
— Tem alguma sugestão, Walt? — perguntou
Everson em tom áspero.
— Temos de conversar — disse Scoobey. —
Devemos falar uns com os outros; só assim poderemos vencer o cansaço.
— Não contem comigo — objetou Weiss.
— Ninguém lhe pediu que participasse, Poul
— respondeu o coronel.
“Era
assim que falavam os macacos. Rosnavam na sua linguagem simiesca e procuravam
estabelecer algum tipo de comunicação”, pensou o mutante.
Weiss deixou-se cair no chão e fechou os
olhos. Resolvera dormir.
— Pois bem, Walt — disse Everson. — Vamos
começar.
Goldstein não demorou muito. Já possuía
certa prática e sabia por onde começar. Scoobey caiu molemente sobre a
braçadeira da poltrona.
— Comece — repetiu Everson.
Olhou para cima. A parte superior do corpo
de Scoobey estava pendurada sobre a braçadeira.
— Walt! — gritou o Coronel. — Será que
você adormeceu?
Moveu a chave e fez a poltrona descer. O
corpo de Scoobey balançava ligeiramente. Everson aproximou-se. Seu rosto
transformou-se numa máscara. Goldstein recuou instintivamente sob a violência
de sua torrente de idéias.
— Weiss! — gritou o coronel com a voz
rouca.
Weiss abriu os olhos e viu Everson
abaixado ao lado da poltrona. Olhou para Everson e Scoobey,
— Quer dizer que foi o senhor — disse num
tom que quase chegava a ser de alívio. — Por que me poupou?
O paralisador surgiu na mão de Everson. A
postura do coronel era selvagem e seus olhos exprimiam uma elevada dose de
raiva recalcada. Weiss sorriu debilmente. O sorriso ainda perdurou depois que
Everson disparou e o corpo de Weiss foi empurrado para trás sob o efeito
paralisante da arma. O técnico cambaleou e tombou.
— Terminou — disse Everson em voz baixa,
falando em epanense.
Mataal não respondeu. O coronel fez a
poltrona de Scoobey subir novamente.
— Ele quis ficar lá — disse, dirigindo-se
a Mataal. — Somos as únicas pessoas nesta nave que ainda podem mover-se. Nós, e
Goldstein — completou.
9
Goldstein tirou a coberta de cima do corpo
e levantou-se.
— Agora o senhor já sabe, Everson —
constatou.
— Já — confirmou o coronel. — Deveria ter
descoberto há muito tempo.
Goldstein fez um gesto de desprezo. Seus
gestos espelhavam a arrogância.
— Pare de brincar com a arma — ordenou. —
Nunca conseguirá apertar o gatilho. Nem tente avançar de punhos erguidos contra
mim. Sim, estou lendo esse plano maluco em seus pensamentos. Antes de
atingir-me, o senhor se juntará aos camaradas que se encontram a meus pés.
— O que deseja de mim? — perguntou
Everson.
Com uma cortesia zombeteira, o mutante
apontou para a poltrona de comando.
— Não quer sentar, coronel? — passou entre
as pessoas paralisadas e esperou até que Everson se tivesse acomodado.
— Quero a Fauna — disse, lançando um olhar
de espreita para Everson.
Agora, que conhecia o inimigo, Everson já
não sentia medo.
— Certa vez você usou a seguinte frase: Vá para o inferno.
Goldstein riu.
— Além de tola, sua reação é irrefletida,
meu caro coronel. Vamos rememorar os fatos. Assim sua atitude pouco inteligente
logo se modificará.
— Será? Não mudarei de opinião, nem agora,
nem depois — asseverou Everson. — Fale quanto quiser.
— Preste atenção, coronel — um tom de
escárnio continuava a vibrar na voz de Goldstein. — Ali estão estendidos onze
homens paralisados. Dois outros encontram-se na frente da terceira câmara de
reação dos propulsores. Quanto a Weiss, o senhor fez o trabalho por mim. Acho
que o senhor está interessado em que seus homens voltem a entrar em ação.
Everson, é bom que saiba que só tenho duas alternativas. Ou consigo apoderar-me
da nave, ou terei de morrer. Nesta última hipótese, não irei só. Refletiu um
instante. — Está vendo a caneta sobre a mesa do navegador? — perguntou.
Everson olhou na direção indicada e o
mutante fez a caneta flutuar lentamente pelo ar.
— Como vejo, além da telepatia o senhor
domina a telecinese — disse Everson. — O senhor já nos ofereceu várias
demonstrações.
Goldstein fez um gesto para que Everson se
calasse. A caneta começou a mudar de forma. Tornou-se comprida e pontuda como
um estilete. Sem que o quisesse, Everson deixou-se fascinar pelo que estava
acontecendo. Subitamente o corpo reformado cortou o ar como uma flecha.
Espetou-se no chão ao lado de Landi.
Goldstein retirou o objeto. Pesou-o
cuidadosamente na mão.
— Everson, o senhor é um homem inteligente
— disse. — O que acaba de ser feito com esta caneta também pode acontecer com
objetos maiores, inclusive com seres vivos, Há pouco falei que eventualmente
teremos de morrer juntos, caso o senhor não queira ser razoável. O que eu quis
dizer é que o senhor verá um após outro morrer. Começarei com Ramirez.
Seguir-se-ão Short...
— Você nunca conseguirá levar isso a cabo
— disse Everson. O suor começou a porejar em seu rosto pálido. — Você só pode
estar louco, Goldstein. Só mesmo um alienado poderia conceber um plano desses.
Goldstein fez o estilete recém-criado
girar sobre a mão. Depois atirou-o para longe.
— Não faça drama — disse. — Quer ser
responsável pela morte de seus camaradas? Cumpra minhas ordens, e o resto se
arranjará. Libertarei os homens da paralisia em que se encontram, e eles não
nos criarão problemas.
— O que pretende fazer depois disso? —
perguntou Everson com um pressentimento sombrio.
— Isso não é da sua conta. Seu trabalho
consistirá em levar a nave a um lugar em que possa preparar-me para minhas
novas tarefas.
Everson procurou controlar os pensamentos
tumultuados. Sabia que, para um telepata, estes não representavam nenhum
segredo. O mutante os lia como quem lê um livro aberto. Se Everson se lembrasse
de alguma coisa, Goldstein saberia imediatamente e poderia reagir em tempo.
Esse indivíduo era bastante cruel para realizar sua ameaça de matar brutalmente
toda a tripulação. Numa amarga autocrítica o coronel lembrou-se do erro que
cometera. Se tivesse descoberto antes o jogo de Goldstein, teria tido várias
possibilidades de reagir. Agora já não havia lugar para qualquer tipo de ação.
— Weiss está recuperando os sentidos —
disse a voz clara de Goldstein. — Impeça-o de adotar um procedimento do qual
possa arrepender-se.
Everson ajudou Weiss a levantar. O
astronauta sacudiu a cabeça e empurrou o comandante.
— Não se incomode — disse.
Depois viu Goldstein.
— Tenha cuidado, Poul — disse Everson em
tom de advertência. — Ele nos tem na mão.
— Já começo a compreender — disse Weiss. —
Esse frangote nos fez de bobos. Devia levar uma boa sova.
Poul Weiss, que era um homem com coração
de leão, fez menção de passar das palavras aos atos.
— Espere aí! — gritou Everson. — Acho que
o senhor ainda não compreendeu, Poul. Goldstein quer que lhe entreguemos a
nave. Pretende usá-la em seu proveito. Vai matar-nos se não trabalharmos sob
seu comando.
Weiss praguejou barbaramente e atirou-se
para a frente. Estava a três metros de Goldstein. Everson viu a sombra da
poltrona de comando passar à sua frente. Quando Weiss quase estava chegando ao
mutante, foi atingido pelo móvel. A violência do golpe atirou-o para o outro
lado da sala de comando. Ficou estendido, respirando pesadamente. Os olhos de
Goldstein chispavam.
— Está ferido — disse Everson em tom
amargo e inclinou-se sobre Weiss para examiná-lo.
— E daí? — perguntou Goldstein, enquanto
seu rosto se contorcia numa careta de indiferença. — Ele quis assim. Foi
avisado.
— Será que o senhor não tem nem um pouco
de sentimento? — gritou Everson em tom furioso.
— Acha que vou ter sentimento por um
macaco?
Goldstein acompanhou o coronel com os
olhos, enquanto levantava Weiss do chão e o colocava cautelosamente na
poltrona. Weiss gemia baixinho.
— Goldstein — disse Everson em tom
insistente. — Procure raciocinar. Por enquanto ninguém foi morto. Ainda está em
tempo de voltar atrás. O caminho que está seguindo o levará à desgraça. O
senhor não escapará à vingança de Rhodan, esteja onde estiver. Não pode brincar
conosco sem levar o castigo que merece.
— Cale-se — gritou o mutante. — Não
pretendo esconder-me. Não tenho necessidade de fugir de Rhodan. Quem dera que o
senhor conseguisse compreender, Everson. Sou mais poderoso que Rhodan. As
provas que lhe ofereci não bastam? Não esperarei muito tempo. Ramirez será o
primeiro; não se esqueça.
Everson cerrou os lábios. Weiss soltou
outro gemido.
— Sente dores? — perguntou Everson.
— Escute — cochichou Weiss com grande
esforço. — Haja o que houver, o senhor não pode entregar-lhe a Fauna. Goldstein
nunca deverá chegar à Terra.
— Quer que eu o veja matar um por um? —
perguntou Everson em tom de desespero.
Weiss comprimiu as mãos contra o peito.
— Sem a nave não poderá fazer nada —
gemeu. — Precisa do girino. Não permita que se apodere dele.
Everson sacudiu-o.
— Indique-me uma alternativa, Poul. Como
posso impedir que quatorze homens sejam mortos à minha frente?
— Já basta — disse Goldstein em tom
penetrante.
Encontrava-se de pé, junto ao estrado da
sala de comando. Seu rosto magro, com os olhos febris, tinha um aspecto
apavorante. Os cabelos desgrenhados cobriam sua testa.
— O senhor já falou bastante — prosseguiu.
— Reflita sobre a decisão que vai tomar — e dirigiu um olhar para Scoobey. —
Será que precisa que ele o ajude?
— Não — disse Everson.
Da mesma forma que Weiss, Scoobey
insistiria em que a pequena nave não fosse entregue a Goldstein. Não se davam
conta das terríveis conseqüências que decorreriam de tal decisão. Everson
percebeu que só lhe restava uma resposta. Sua decisão não poderia colocar em
perigo a vida dos tripulantes. Depois que Goldstein os libertasse da paralisia,
deveria surgir uma chance de colocar o mutante fora de ação.
Everson sentiu-se tomado de incertezas.
Não havia a menor dúvida de que Goldstein agiria com a maior cautela. Nesse
caso Everson não conseguiria dominar o mutante. Mas o coronel confiava em
Rhodan e seu Exército de Mutantes. Mesmo Goldstein teria de falhar face a uma
tropa especializada como esta.
Everson tinha certeza de que vira algumas
amostras do poder de Goldstein, mas que isso ainda não era tudo.
— Isso mesmo, coronel — observou
Goldstein. — O senhor está com a razão.
Everson não tomou conhecimento da
observação e prosseguiu em suas reflexões.
Goldstein precisaria dos tripulantes para
levar a nave à Terra. E não conseguiria pousar sem ser observado.
— Quem lhe disse que pretendo ir
imediatamente à Terra? — perguntou Goldstein.
— Quer dizer que o senhor está guardando
nosso planeta para depois — concluiu o coronel. — Ainda tem de esperar,
Goldstein. As faculdades especiais que, segundo tudo indica, descobriu em Epan,
ainda não estão suficientemente desenvolvidas. Todos os mutantes levaram algum
tempo para completar sua formação.
— O senhor sabe raciocinar muito bem —
disse o mutante em tom de escárnio. — Acontece que minhas faculdades
paranormais bastam para dominar esta nave. A evolução de minhas capacidades
ainda está na fase inicial. Nem mesmo eu sei qual será o resultado final.
Everson acenou com a cabeça e disse:
— Isso o deixa preocupado, não é verdade?
Você se embriaga na sensação do poder que está para adquirir. Você está doente,
meu filho. Seu espírito está perturbado.
— O senhor jamais conseguirá ofender-me —
retrucou Goldstein. — O senhor se impressionaria com qualquer coisa que lhe
fosse dita por um macaco?
— O senhor deve conhecer a velha história
do cientista e do macaco — prosseguiu o comandante. — O homem trancou um
chimpanzé num quarto, juntamente com alguns aparelhos, para ver o que o animal
faria com os mesmos. No momento em que o cientista espiou pelo buraco da
fechadura viu apenas os olhos do macaco. O símio desejava saber o que o homem
pretendia fazer.
— Será que com isso o chimpanzé conseguiu
sair do quarto? — perguntou Goldstein em tom de deboche.
Ao que parecia, esperava a resposta do
coronel. Mas Everson manteve-se em silêncio. O que sentia pelo mutante era uma
mistura de medo, ódio e desprezo.
Para um homem dotado das qualidades de
Everson, a atitude de Goldstein era praticamente incompreensível. As concepções
de Goldstein moviam-se num plano existencial específico, situado além do bem e
do mal, que só o próprio mutante poderia conhecer. Nele não se podiam aplicar
os padrões normais, pois era uma pessoa anormal. Tratava-se de uma nova espécie
de homem, de uma espécie que poderia surgir com uma freqüência cada vez maior.
Everson sentiu-se apavorado ao pesar as
probabilidades de que poderiam surgir outros mutantes ávidos de poder. Esse
estágio da evolução dos mutantes devia ser mantido sob observação e controlado.
Everson reconheceu o trabalho previdente que Rhodan realizara nesse setor, e a
essa hora já compreendia certas coisas que antes só o faziam sacudir a cabeça.
— Fico satisfeito ao notar que reflete tão
intensamente — disse Goldstein. — Acho, todavia, que se afasta do problema que
temos de resolver. Estou aguardando uma resposta à minha pergunta.
— Dê-me mais um pouco de tempo — disse
Everson. — O senhor sabe perfeitamente que ainda não consegui tomar uma decisão.
— Procurarei forçar as coisas um pouco —
anunciou Goldstein.
O coronel afastou-se de Weiss.
— Olhe para o cadete — disse Goldstein.
Everson viu que a rigidez abandonava
lentamente o corpo de Ramirez, que amoleceu, muito cansado, e foi-se levantando
aos poucos. Os olhos de Ramirez exprimiam um medo profundo. Com o corpo melo
levantado, fitou Goldstein. Sempre que este se movia, girava a cabeça, como se
estivesse sob hipnose.
— Gomo vê, posso libertar os homens da
paralisia assim que desejar — observou Goldstein.
— O que pretende fazer com o rapaz?
— Está na hora de o senhor decidir — disse
Goldstein em voz estridente e maligna. — Se hesitar mais, Ramirez pagara por
isso.
Ramirez soltou uma exclamação. Parecia o
queixume de um animal... O som deixou o comandante mais abalado que quaisquer
palavras.
— Deixe Ramirez em paz — disse Everson. —
Pode ficar com a nave. Não posso esconder-lhe meus pensamentos. Por isso sabe
que apenas espero uma oportunidade de destruí-lo.
Para surpresa de Everson, o mutante não
fez nenhuma observação sarcástica. Aproximou-se tranqüilamente da mesa do
navegador.
— Vejo que está começando a agir
razoavelmente — disse. — Já podemos conversar sobre o que eu quero. Não procure
enganar-me, pois eu descobrirei.
— Pois formule suas exigências — disse o
coronel.
— O senhor está sendo esperado na Terra
num momento determinado? — perguntou o mutante.
Antes que Everson pudesse pronunciar a
resposta, sabia que Goldstein já tomara conhecimento dela.
— É claro que não — disse Everson. — Mas
chegará o tempo em que Rhodan quererá saber onde estamos.
— O senhor acompanhou quase desde o início
a transformação da Terceira Potência no Império Solar, coronel. O que acha que
Rhodan fará depois de algum tempo para descobrir o que aconteceu com o senhor e
sua nave?
— Existem diversas possibilidades —
respondeu Everson. — Provavelmente irão supor que houve problemas em Epan e
mandarão uma nave de reconhecimento para lá.
— Em outras palavras, a Fauna será menos
procurada no lugar em que se encontrará dentro em breve: nas proximidades da
Terra — constatou Goldstein.
— É possível — admitiu Everson a
contragosto. — Mas será impossível pousarmos sem sermos detectados. O sistema
de busca e alerta é tão denso que nem mesmo um inseto poderia atravessá-lo sem
ser registrado.
— Sei disso — respondeu Goldstein em tom
de desprezo. — Caberá ao senhor encontrar um refúgio para que esta nave fique
suficientemente próxima da Terra e, ao mesmo tempo, não seja descoberta. Quero
que Rhodan nos procure em Epan. Com isso ganharei tempo.
Um sorriso de escárnio surgiu em seus
lábios.
— Não tente nenhum truque, Everson.
Por um instante Everson pensara em pousar
em Vênus, onde seriam encontrados de qualquer maneira, mas Goldstein logo
descobrira o plano e advertira o coronel com um sorriso de superioridade.
— Assim que tivermos encontrado um lugar
adequado, poderei dispensar seus serviços por algum tempo — prosseguiu
Goldstein, explicando seus planos. — Em determinado momento, o senhor irá à
presença de Rhodan para apresentar-lhe minhas exigências. Aguardarei a resposta
de Rhodan. Por enquanto não importa qual seja o teor das minhas exigências. No
momento, a tarefa mais importante consiste em descobrir uma base de operações
adequada.
— Será que o senhor acha que posso dirigir
a nave sozinho? Preciso dos tripulantes.
Goldstein fez um gesto de concordância.
— Devolverei seus homens. Mas, antes
disso, terei de adotar algumas medidas de segurança, para proteger-me contra um
ataque maciço. Se todos investirem contra mim ao mesmo tempo, minha situação
poderá tornar-se crítica, e nesse caso talvez não possa tomar maiores
considerações na escolha dos meios de defesa. Além das armas espalhadas pela
nave, o senhor e Scoobey têm um paralisador. Os senhores atirarão os mesmos
sobre a amurada.
“Não se preocupe com Finney e Wolkow; eu
os trarei para cá, mesmo sem a escada. Instalar-me-ei atrás dos aparelhos de
rádio. A mesa do navegador fica bem à minha frente, motivo por que só um homem
poderá aproximar-se de mim de cada vez. Acho que isso bastará. Não acredito que
seus homens demonstrarão muito espírito de iniciativa, mas tenho de tomar
minhas precauções para qualquer eventualidade. Qualquer pessoa que me atacar
será paralisada. Explique isso aos tripulantes, coronel. Assim saberão
conter-se e obedecer. Não pretendo assumir o menor risco. Em hipótese alguma,
meus planos poderão fracassar por causa de um erro ridículo. Estou decidido a
tudo para atingir meu objetivo.”
— Não tenho a menor dúvida — disse Everson
em tom irônico. Atirou o paralisa-dor para longe. — O que será feito de Mataal?
— Isso não importa — disse Goldstein. —
Provavelmente morrerá. Não consegue adaptar-se ao ambiente. Seu espírito está
doente de tristeza e saudades.
Everson dirigiu-se a Mataal, que se
mantinha agachado em seu canto que nem uma estátua.
— Lamento que isso tenha acontecido —
disse em tom de compaixão. — Não pretendia causar-lhe tanto mal.
Os olhos negros e oblíquos fitaram-no com
uma expressão de desespero mudo.
— Quer voltar a seu camarote? — perguntou
Everson. — Goldstein não terá nenhuma objeção e encontrará um meio de levá-lo
para lá.
Mataal limitou-se a sacudir a cabeça.
— Não perca mais tempo com esse selvagem —
interveio Goldstein em tom impaciente. — Sua pessoa não assume a menor
importância.
Everson teve de controlar-se para não
soltar um palavrão. Só lhe restava uma possibilidade. Teria de esperar até que
o mutante cometesse um erro.
— É claro que o sistema de comunicações
continuará paralisado — anunciou Goldstein.
Esteve a ponto de acrescentar mais alguma
coisa, mas viu pelo canto dos olhos que Ramirez se levantava e cambaleava em
direção a Everson que nem um bêbedo. O cadete segurou fortemente o braço do
comandante.
— Não, coronel! — sua voz estava reduzida
a um sopro. — Sinto muito que tenha fraquejado por um momento. Não lhe entregue
a nave. Se quiser matar-nos, também terá de morrer, pois sem nós não poderá
fazer nada com o girino. Talvez seja nossa última chance de deter a ação desse
criminoso.
O riso irritante de Goldstein produziu uma
verdadeira dissonância na sala de comando. O mutante não interrompeu Ramirez.
Mas agora, que viu o cadete apoiar-se em Everson, disse:
— Este rapaz quer transformar-se num
mártir, Everson. O que acha disso?
Com um gesto suave, Everson desprendeu-se
do cadete. Ouviu que mais ao longe Weiss praguejava em termos incompreensíveis.
Goldstein levantou ambos os braços. Ao que
tudo indicava, a situação o divertia bastante.
— Não diga nada, coronel — disse. — Já
conheço sua resposta, e devo reconhecer que a mesma é razoável. Não quer criar
mártires. No meio da tripulação, ainda aparecerão outros idiotas. Ainda bem que
o senhor não é um deles.
Everson fitou-o com os olhos chamejantes.
Engoliu a ofensa sem dizer uma palavra, pois acreditava saber por que Goldstein
a proferira. No fundo era fácil compreender o mutante.
— Infelizmente me vejo forçado a
interromper suas reflexões psicológicas — disse Goldstein. — É que temos de
cuidar dos homens paralisados. Destruirei qualquer pessoa que se interponha no
meu caminho! — exclamou em tom enfático.
“Não
tenho a menor dúvida”, pensou Everson com a alma amargurada.
10
Tinham os rostos desfigurados pelo ódio
mal disfarçado. Trabalhavam em silêncio e a contragosto. Aquele ódio grupal
concentrava-se sobre o homem que, com um ligeiro sorriso nos lábios, achava-se
de pé entre os aparelhos de rádio e a mesa do navegador, distribuindo ordens.
Era um rapaz magro e desleixado, cujos movimentos relaxados quase chegavam a dar-lhe
um ar de menino Era ele que adivinhava todos os pensamentos do grupo.
Dois metros acima da cabeça de Goldstein,
pairava um pesado bloco de metal, sustentado por forças invisíveis. O mutante
ameaçara deixar cair esse bloco de metal sobre qualquer pessoa que se atrevesse
a aproximar-se dele sem ordens expressas. Esse pseudo-corpo era algo mais que
um dispositivo de segurança destinado a proteger Goldstein. Era o símbolo da
derrota. Desde o momento em que o mutante libertara os tripulantes da
paralisia, aquilo pairava sobre suas cabeças. Em tom de deboche avisara-os de
que poderia voltar a paralisá-los a qualquer momento. Já não precisava sondar
as posições de seus tendões nervosos, pois a essa altura as conhecia muito bem.
Seus sentidos paranormais permitiam-lhe penetrar em seus cérebros e colocá-los
fora de ação dentro de poucos segundos.
Apesar disso, há uma hora haviam feito uma
tentativa para dominar o mutante debochado. Dealcour e Landi viram uma chance.
Encontravam-se lado a lado, junto ao painel de controle. Até mesmo Everson só
percebeu a intenção deles, quando esta se exprimiu em atos.
— Atacar! — berrou Dealcour de repente.
Landi saltou sobre Goldstein que nem um
tigre. Soltando um brado guerreiro, a fim de motivar os outros astronautas,
Dealcour seguiu-o. Mas antes que estes pudessem concluir o ataque, a ação já
havia chegado ao fim. Dealcour e Landi caíram ao chão à frente do mutante.
— Levem-nos daqui — ordenou Goldstein com
a voz fria. — Logo recuperarão os sentidos. Será que realmente esperavam
conseguir alguma coisa com meios tão grosseiros?
Esperou que Dealcour e o operador de rádio
fossem retirados de junto de seus pés.
— Já existe outro plano para derrotar-me —
disse. — Scoobey, o senhor realmente acredita que esperarei até que eletrifique
a sala de comando?
O imediato respondeu em tom odiento:
— Se chegar à conclusão de que poderá dar
certo, assumirei o risco.
— Deixe de bobagens, Walt — interveio
Everson. — Você só arriscaria nossa vida sem a menor vantagem. Ele se colocaria
em segurança, antes que pudesse começar a executar seu plano. Desista.
— Isso não impede o nobre comandante de
também acalentar uma idéia — observou Goldstein. — E o Dr. Morton é simplório a
ponto de acreditar que existe uma chance para ele com seu pó paralisante.
Isso acontecera há uma hora. Dali em
diante, tudo correra sem novidades. Estavam preparando a terceira transição.
Goldstein ordenara algumas modificações. Queria evitar aproximar-se demais da
Terra.
Everson sabia que, depois de pousarem,
dificilmente teriam uma chance de dominar Goldstein. Se é que havia alguma
possibilidade de surpreendê-lo, essa possibilidade só existiria no interior da
nave, onde estavam comprimidos num espaço extremamente reduzido. Se não
conseguissem colocar fora de ação aquela medonha criatura, Everson não
realizaria o pouso. Tinha certeza de que Goldstein sabia de suas intenções. Mas
até então o mutante não emitira uma palavra sobre o que pretendia fazer, caso
isso acontecesse. Será que encontrara uma possibilidade de pilotar a Fauna sem o
auxílio dos tripulantes?
Em condições normais nem haveria como
pensar nisso, mas, ao que parecia, não havia nada que fosse impossível para
Goldstein.
Quem realizou a próxima tentativa foi
Stanford. O biólogo, que só lidava com o instrumental da nave durante a
transição, retirara uma pesada chave do painel de controle. Everson viu esse
objeto, atirado com violência, passar à sua frente, em direção a Goldstein.
Por um instante teve a impressão de que o
mutante fora surpreendido e seria atingido pelo objeto. Mas Everson logo
percebeu que Goldstein apenas brincara com eles, para fazer nascer-lhes falsas
esperanças.
Abaixou-se instantaneamente e a barra
redonda passou por cima de sua cabeça. Diminuindo de velocidade, passou pela
sala de comando. Everson notou que a desaceleração fora artificial. O projétil
atirado por Stanford descreveu uma ampla curva e voltou que nem um bumerangue.
O biólogo acompanhou seu vôo com o rosto pálido.
Subitamente o objeto aumentou de
velocidade. Goldstein soltou uma risada feroz.
— Deite, Stanford! — berrou Everson, que
desconfiava do que estava para vir.
O astronauta atirou-se ao chão. Uma sombra
escura veio em sua direção.
“Isso
despedaçará a cabeça dele”, pensou Everson apavorado.
Mas nada disso aconteceu. A chave parou
acima da cabeça de Stanford e desceu lentamente, até comprimir-se suavemente
contra a nuca do biólogo.
— Levante-se, Stanford — gritou Goldstein
num debochado tom de animação. — Recoloque a chave no lugar.
Qualquer ataque estaria fadado ao
fracasso, porque Goldstein já o perceberia durante a fase da concepção. O
mutante mantinha-os sob um controle ininterrupto.
— Stanford foi mais inteligente que os
outros — disse Goldstein. — Pensou que poderia ocultar seu plano, concebendo
outro plano na superfície de sua mente. Ficou refletindo constantemente como
faria para saltar sobre mim. Dessa forma quis ocultar a idéia propriamente
dita. Garanto-lhes que detectarei qualquer plano, por mais refinado que seja, e
por mais que procurem disfarçá-lo em suas mentes.
Muito abatido, Stanford voltou a seu
lugar. A idéia da duplicação do pensamento não fora nada má, mas nem por isso
conseguira ocultar seu plano de Goldstein. Qualquer ataque só poderia ser bem
sucedido se fosse lançado numa ação fulminante, sem qualquer reflexão, independentemente
de qualquer atividade cerebral anterior.
“Acontece
que isso é impossível”, pensou Everson com o espírito resignado.
O cérebro humano não era capaz de
interromper à vontade seus processos mentais. E uma das peculiaridades do homem
consiste em que este pensa com maior intensidade justamente naquilo que quer
eliminar de sua mente. Enquanto não resolvessem esse problema, não poderiam
derrotar o mutante. Fosse qual fosse o ângulo sob o qual o coronel examinava a
situação, esta continuava extremamente difícil. No fim de qualquer caminho, via
o triunfo inevitável do mutante.
* * *
O pseudo-corpo mantido acima de sua cabeça
oscilou levemente. Goldstein estabilizou-o e voltou a dirigir-se aos homens.
Contara com certa resistência. Mas
sentia-se surpreendido com a obstinação que demonstravam em perseguir o
objetivo de eliminá-lo.
Goldstein sabia perfeitamente que a carga
a que estavam submetidas suas faculdades paranormais era infinitamente superior
à que se verificara no início, quando podia agir com toda calma. Era bem
verdade que se tornaram mais fortes e eram capazes de resistir a cargas
extraordinárias, mas não tinha certeza sobre se essa capacidade subsistiria por
muito tempo. Mas não tinha outra alternativa, pois precisava dos astronautas
para pilotar a nave. Conhecia o plano de Everson, que pretendia sabotar o
pouso.
No momento oportuno, colocaria o coronel
fora de ação e recorreria a Scoobey que, apesar de seu espírito de revolta, era
mais fácil de surpreender. O mutante sabia que o espírito conciliatório que
Everson demonstrara até então baseava-se na confiança de que ele, Goldstein,
cometeria algum erro.
O mutante controlou cautelosamente um
segundo pseudo-corpo, que mantinha escondido sob o estrado da sala de comando,
a fim de, no momento oportuno, realizar suas experiências com este...
Bem no íntimo, Goldstein sentia uma
estranha inquietação. Essa inquietação não o abandonara desde o momento em que
percebera suas extraordinárias capacidades. Era uma sensação de que havia mais
alguma coisa, que não sabia, mas que devia descobrir de qualquer maneira.
Goldstein reprimiu o nervosismo. Devia
dedicar-se exclusivamente à sua tarefa. Apesar disso, sentiu-se atormentado
pelas dúvidas.
Que temor era este que sua mente concebia?
Surgira no mesmo instante em que se dera conta de suas faculdades paranormais.
Oportunamente tomaria algum tempo para procurar descobrir a origem do mal-estar
que sentia.
11
Uma sonolência benfazeja esteve a ponto de
dominar seu espírito semidesperto. Mas já dormira bastante. A lembrança do
longo tempo de descanso mal aproveitado doía em sua mente. Já se conformara com
isso, perdera todas as esperanças e a autoconfiança, quando a salvação veio
inesperadamente.
Seus pensamentos recuaram ainda mais.
Viu diante de si a gigantesca nave espacial,
no momento em que era destruída numa explosão. Lembrou-se de como cambaleara
pelo longo corredor...
Estava cercado de outros cientistas. A
maior parte deles sangrava pela boca, nariz e orelhas; estavam quase desmaiados
pela súbita descompressão.
Viu à sua frente uma cápsula salva-vidas.
Homens e mulheres corriam em direção à mesma. Cego de dor e tristeza, foi
cambaleando em direção à cápsula. Ao redor dele, as pessoas caíam ao chão e
gritavam por socorro, até que a falta de ar abafasse os sons. Tateando, sentiu
a escotilha da minúscula nave salva-vidas. Os olhos injetados de sangue só
conseguiam perceber algumas sombras. Penetrou no pequeno veículo espacial e,
reunindo as últimas forças, acionou a alavanca de catapultagem.
Quando recuperou os sentidos, alguns
destroços da grande nave exploradora pairavam a seu lado.
Foi salvo por uma tremenda coincidência. O
desastre acontecera nas proximidades de um sistema solar. Escolheu o único
planeta de oxigênio e pousou. Saiu da cápsula bastante confiante. Talvez esse
mundo fosse habitado por uma raça que conhecia a navegação espacial, e que
poderia ajudá-lo a voltar a seu mundo.
Sofreu uma amarga decepção. Os nativos do
planeta eram criaturas inteligentes, mas encontravam-se nos estágios iniciais
da civilização. Mesmo que interviesse no processo de desenvolvimento para
promover o avanço tecnológico, não conseguiria. Conformou-se com a idéia de
viver para sempre nesse planeta. Ativou suas potencialidades psicológicas, a
fim de estudar detidamente os hábitos dos nativos. Já que estava condenado a
ficar, queria levar uma vida relativamente boa. Bastaram algumas modificações
de sua estrutura celular para dar-lhe o aspecto de um epanense, que era o nome
dado aos habitantes desse mundo.
Também se atribuiu um nome: Mataal!
Mais tarde, passou a atuar como lutador de
arena. Os êxitos obtidos, graças às suas faculdades inesgotáveis, logo lhe
granjearam a popularidade. Procurou esquecer seu mundo, mas não conseguia
satisfazer-se com a vida primitiva de Epan.
Um belo dia Mataal sofreu um choque
tremendo; estabeleceu contato telepático com alguém.
“Será
que entre esses bárbaros existe algum telepata?”, pensou.
Mataal sentiu-se muito satisfeito.
Mas a realidade ultrapassou suas
expectativas...
Uma pequena nave espacial acabara de
pousar no planeta e largara um telepata nas proximidades da cidade. Era um
jovem pertencente a uma raça estranha, que se mascarara para adquirir o aspecto
de um epanense. O fato desse indivíduo usar máscara provava que sua raça
dominava a telepatia, mas não o processo de reagrupamento molecular ou celular.
Sua grande chance chegara. Com o auxílio
do telepata, conseguiria voltar a seu planeta. Mesmo que não conseguisse,
poderia desempenhar um papel de destaque entre aquela raça de telepatas. Estava
farto da vida primitiva, e ansiava por tarefas grandiosas que lhe permitissem
dar provas de seu valor.
Realizou um estudo cuidadoso do jovem.
Através de Goldstein soube dos motivos de sua presença no planeta. O saber
extenso desse jovem sobre o Império Solar em geral, e Perry Rhodan em
particular, espalhou-se à frente de Mataal. Tratava-se de uma raça jovem e
ambiciosa, que começava a espalhar-se pelo Universo.
Há vários milênios os indivíduos da
espécie de Mataal também já haviam sido fortes e numerosos. Agora a situação
era diferente. Partindo de um minúsculo sistema solar, os últimos membros de
sua raça realizavam uma espécie de expedição para o espaço incomensurável, a
fim de ampliar ainda mais seus conhecimentos. A raça de Mataal diminuía
constantemente, sem que pudesse fazer nada para impedi-lo. Mataal sabia que as
criaturas de sua estirpe estavam chegando ao fim de uma longa existência.
Justamente por isso, o terrano era sua
grande chance, pois lhe permitiria voltar a participar dos acontecimentos que
se desenrolavam no plano cósmico. Descobriu que, entre os terranos, os
indivíduos dotados de recursos psíquicos especiais eram pouco numerosos.
Mataal não precipitou os acontecimentos.
Começou a realizar um trabalho simples, destinado a preparar o telepata para
seus objetivos. Mataal se manteria num plano secundário. Enquanto Goldstein
trabalhasse para ele, poderia observar, aprender e elaborar seus planos.
Não teve a menor dificuldade em subir a
bordo da nave, quando esta veio recolher Goldstein. Ofereceu aos desconhecidos
o espetáculo de uma luta de vida e morte, antes de permitir que fosse
seqüestrado.
Goldstein, que àquela altura não passava
de um instrumento passivo nas mãos de Mataal, entrou em ação. Mataal fizera
todos os preparativos. O jovem telepata deveria acreditar que suas novas
faculdades já se encontravam latentes em seu espírito.
Mataal dirigiu-o suavemente para o caminho
desejado. Agindo habilmente e sem que o mutante desconfiasse de nada,
desenvolveu idéias megalomaníacas na mente do rapaz. Os problemas de
consciência foram cuidadosamente dispersados por Mataal, a fim de que se
evitassem conflitos existenciais.
Uma única vez, Goldstein conseguira
desvencilhar-se do domínio espiritual de Mataal. Estando absorto na observação
dos tripulantes, Mataal quase chegou a perceber tarde demais que Goldstein
procurava avisar o comandante.
Mataal penetrou mais profundamente na
mente do mutante, para eliminar a possibilidade da repetição desse tipo de
incidente. Enquanto Goldstein agia na convicção de conquistar a nave para si,
Mataal podia estudar discretamente a mentalidade dos homens. Teria de aprender,
aprender, aprender cada vez mais. Só depois disso, poderia pensar seriamente em
defrontar-se com essa raça, dominá-la e aproveitá-la para as finalidades que tinha
em vista.
Assim que surgiram os primeiros casos de
paralisia, as suspeitas recaíram nele. Contara com isso. Era o ponto crítico
que teria de ser vencido. Graças à sua calma e impassibilidade, conseguiu
aplacar as suspeitas. Quando o médico lhe aplicou uma injeção fez de conta que
desmaiara, e os outros caíram no logro.
Os homens começaram a culpar-se uns aos
outros. Mataal conheceu grande número de motivações humanas. Sem dúvida os
tipos caracterológicos encontrados no pequeno grupo permitiam conclusões sobre
toda a raça.
Que povo não devia ser este!
Nos pensamentos desses homens espelhava-se
a imagem de sua vida e morte, suas lutas, suas vitórias e derrotas. Mataal
soube de casos de alegria e tristeza, humor e seriedade, amor e ódio. Sentiu-se
fascinado por um estilo de vida tão marcado pelos sentimentos. Como puderam
experimentar uma evolução tão explosiva? Mataal acharia mais lógico que se
despedaçassem uns aos outros, pois cada um dos indivíduos à sua frente parecia
carregar ambições próprias.
Mataal nunca soube explicar como alguém
conseguira levar essa massa de individualistas a empenhar-se pelo mesmo
objetivo. Uma vez que o pensamento dos tripulantes não representava nenhum
mistério para ele, ficou sabendo que os arcônidas desempenharam um papel de
relevo no desenvolvimento da Humanidade.
As ajudas haviam sido prestadas de maneira
pouco espontânea, graças às hábeis manobras realizadas pelo legendário Perry
Rhodan, que andava constantemente na cabeça daqueles homens.
Perry Rhodan era o homem que estava
procurando! Só através dele poderia realizar seus planos ambiciosos.
Mataal sentia-se admirado: um
surpreendente naufrágio espacial daria à sua raça a possibilidade de voltar a
desempenhar um grande papel no desenrolar dos acontecimentos cósmicos.
Goldstein, que praticamente não sofria a
menor restrição em sua liberdade de movimentos, passou a modificar as
concepções que lhe foram sugeridas por Mataal. O mutante realizou experiências
com pseudos-corpos, a fim de experimentar o poder que exercia sobre os mesmos.
Isso representava mais um elemento que o ajudaria a compreender o comportamento
humano. Mataal não impedia que Goldstein cedesse a tais desejos, pois estes em
nada poderiam afetar sua atuação.
Depois que Goldstein paralisara quase
todos os astronautas, aproximou-se o momento em que o comandante não poderia
deixar de suspeitar do mutante. Mataal preparou-se para, se necessário,
intervir pessoalmente. Mas Goldstein não revelou o menor desembaraço ao
desempenhar o papel do megalomaníaco ávido de poder que Mataal lhe atribuíra.
Mataal sentiu o mal-estar que dominava o
subconsciente do rapaz. O comportamento de Goldstein não se harmonizava com seu
caráter. A constrição mental exercida por Mataal tornou-se cada vez mais
intensa, a fim de evitar que Goldstein se afastasse da trilha que lhe fora
traçada.
Os homens libertados da paralisia
começaram a combater Goldstein. Mataal viu que agira com muita sabedoria ao
utilizar o mutante, pois ele tinha maior capacidade de prever as reações
humanas. Mataal também saberia defender-se, mas não teria tempo para adquirir
novos conhecimentos.
Os pensamentos de Mataal voltaram ao
presente. O cansaço cedera. Sentiu-se disposto e ávido de ação.
Embaixo da sala de comando, pressentiu a
leve pulsação de outro pseudo-corpo que o mutante mantinha escondido. Mataal
tinha certeza de que os homens não lhe davam a menor atenção. Para eles, não
passava de um bárbaro, cheio de saudades. Não tiveram tempo para demonstrar sua
compaixão, pois estavam empenhados exclusivamente em conceber planos de ataque
contra Goldstein.
Era de admirar que não desistissem, apesar
dos insucessos que já tinham experimentado. Mataal teria de contar com a
possibilidade de que mais tarde iria defrontar-se com gente de ânimo igual, com
homens que jamais desistiriam, mas prosseguiriam na luta, mesmo que a situação
fosse desesperadora.
* * *
Goldstein retirou o pseudo-corpo
lentamente de baixo do estrado da sala de comando.
O que aconteceria se reunisse as duas
porções de matéria? Como se comportariam as respectivas massas no espaço, fora
da nave? Conseguiria manter o controle sobre as mesmas?
O mutante fez com que o segundo
pseudo-corpo se aproximasse. Embora os tripulantes desejassem, nada lhe
poderiam fazer.
Por algum tempo, nas proximidades do lugar
em que se encontrava, Goldstein manteve a porção de matéria formada pela
aglutinação de peças da antiga escada. Realizou um ligeiro exame dos
pensamentos dos homens e constatou que não havia qualquer perigo. Poderia
prosseguir tranqüilamente no seu trabalho.
O objeto artificial desapareceu. Goldstein
dirigiu-o para o envoltório externo da nave. Deteve-se. Talvez fosse preferível
realizar a experiência na comporta de ar.
Enquanto Goldstein se mantinha de pé atrás
da mesa de navegação, contemplando os arredores com os olhos bem atentos, o
pseudo-corpo flutuou para o interior da comporta. Uma fração da substância
paranormal de Goldstein acompanhava o bloco de matéria e dirigia seus
movimentos. Deu certo!
Goldstein levou a aglomeração de matéria
para o negrume do espaço infinito.
Depois veio o rompimento dos diques, que
liberou uma torrente de águas revoltas...
A parte do espírito de Goldstein, que
levara o pseudo-corpo para o espaço, permaneceu fora da nave... e fora do
domínio invisível exercido por Mataal.
Era um fenômeno estranho, que se parecia
com o primeiro tatear suave da planta que rompe a terra.
A primeira conseqüência foi um crescimento
doloroso do mal-estar de Goldstein. Sentiu-se terrivelmente cindido, como se
existisse de duas formas diferentes.
Seu espírito subdividiu-se em duas áreas,
bem distintas uma da outra.
A parte liberada de sua mente, que se
encontrava fora da nave, sustentada pelas energias paranormais, parecia querer
transmitir uma notícia importante. Por absurdo que pudesse parecer, o espírito
de Goldstein entrou em revolta, sua consciência fez esforços desesperados para
não receber a notícia.
O mal-estar cresceu e continuou a crescer.
Parecia perfurá-lo e comprimi-lo. A parte de sua mente, que se subtraíra ao
controle de Mataal, lutava com uma obstinação muda contra o domínio que ainda
era exercido sobre ele.
* * *
Só quando o segundo pseudo-corpo já se
encontrava fora da nave, Mataal percebeu o erro que cometera. Repentinamente
viu-se arrancado de sua posição segura. O pânico inundou sua alma. Só uma ação
fulminante poderia salvá-lo. O pavor, que lhe causava a idéia de numa questão
de segundos ter desperdiçado uma formidável oportunidade, ameaçava paralisá-lo.
A pressão paranormal irradiada pela massa
de matéria, que se mantinha no espaço livre, tornou-se cada vez mais intensa.
Sem que o soubesse, Goldstein atirava porções cada vez maiores de substância
paranormal para fora da nave. Dentro de mais alguns segundos, reconheceria a
verdadeira situação.
O pseudo-corpo teria de ser destruído.
Mataal reduziu a influência que exercia sobre o cérebro de Goldstein, para
concentrar todas as forças no ataque.
Foi o segundo erro por ele cometido.
Enquanto dedicava sua atenção ao que se passava do lado de fora da comporta de
ar, deu tempo a Goldstein para captar uma informação que a parte liberada de
sua mente lhe oferecia com tamanha obstinação.
* * *
A sensação desagradável de Goldstein
transformou-se numa terrível certeza. O sofrimento mental fê-lo choramingar. Os
homens que o cercavam espantaram-se. Entesaram os corpos, pois esperavam que o
mutante revelasse um momento de fraqueza.
Quando Mataal começou a dissolver o
pseudo-corpo no espaço, Goldstein estremeceu.
Naquele instante, um sino parecia
arrebentar em sua cabeça. Suspirou aliviado.
Viu tudo com uma terrível nitidez. O que
fizera? A que atos se deixara levar? Sentiu o ódio que o cercava.
Mataal não lhe deixou tempo para novas
reflexões. De repente o bloco de matéria voltou para o interior da K-262. Ao
mesmo tempo, voltou a sentir a pressão em seu cérebro.
Goldstein reconhecera o inimigo e começava
a dar-lhe combate. Deixou que parte de sua energia paranormal fluísse para o
pseudo-corpo que flutuava na sala de comando, a fim de, numa linha mais ampla,
enfrentar os ferozes ataques de Mataal.
Os astronautas nem desconfiaram do duelo
que se desenrolava à sua frente, mas invisível para seus olhos. O rosto do
jovem mutante desfigurou-se e o suor cobriu sua testa, mas ninguém disse uma
palavra.
O fato de por tanto tempo não ter passado
de um instrumento barato na mão de outra pessoa o fez sentir-se envergonhado.
O dique fora rompido por completo.
Um homem jovem e pertinaz acabara de
recuperar a liberdade e estava disposto a defendê-la. Uma fagulha surgira na
mente de Goldstein, transformou-se em chama, passou a um processo de combustão
constante e encheu todos os cantos de seu espírito consciente.
Precisava vencer Mataal!
* * *
O bloco de matéria artificialmente
aglutinada caiu ruidosamente na comporta de ar. Mataal levantou-se de um salto.
Os pensamentos de Goldstein investiram contra ele. Eram pensamentos carregados
de uma selvageria indomada. Mataal procurou reforçar seu domínio sobre a mente
do terrano, mas já era tarde.
— Mataal! — berrou Goldstein através da
sala de comando.
Os homens abaixaram-se como se
desconfiassem do que se passava.
— Mataal, já sei tudo.
Mataal começou a tremer. Fez um esforço
para conservar a calma. Teria de intervir pessoalmente. Os astronautas não
compreenderam os berros de Goldstein e mantiveram-se inativos.
Mataal teria de apagar as faculdades que
conferira a Goldstein no planeta de Epan. Depois ocuparia o lugar do mutante.
Isso lhe roubaria o tempo que dedicava às
observações, mas aumentaria consideravelmente sua margem de segurança.
Mataal revolveu impiedosamente os
respectivos setores. Agulhas incandescentes penetravam no cérebro de Goldstein.
A tensão mental desfez-se em violentas descargas. A loucura parecia atingir o
rapaz. Mas aquilo apenas durou alguns segundos. Goldstein logo se transformou
no simples telepata de antes.
Foi o terceiro erro de Mataal, e o mais
grave de todos.
E também foi seu último erro.
Enquanto Mataal sentia certo alívio, seu
fim se aproximava. De um instante para outro, o pseudo-corpo que se encontrava
suspenso sobre a mesa de navegação perdeu a substância paranormal que o
sustentava. Transformou-se num bloco de metal igual a qualquer outro, que, sob
os efeitos da gravitação artificial existente no interior da nave, pesava
várias centenas de quilos.
Transformou-se num bloco de matéria sem
vida, que caiu sobre Mataal e o soterrou. A vítima nem teve tempo para refletir
sobre as conseqüências de seu ato. Talvez fosse bom. Seu fim representava a
condenação final de uma raça horripilante ao definhamento lento e seguro.
* * *
A rigidez abandonou o corpo de Goldstein.
Este pôs o rosto entre as mãos e soluçou. Um esgotamento total ameaçava
dominá-lo. Diante de seus olhos, surgiram contornos apagados e sombras
convulsas. Ouviu a voz de Everson, que deu uma ordem.
Subitamente percebeu que alguém se
encontrava a seu lado. Fez um esforço tremendo e reconheceu o coronel.
— Já passou tudo, Goldstein — disse
Everson.
— Foi Mataal — cochichou Goldstein. — Não
tive culpa.
— Sei disso, meu filho — disse o
comandante. — Está tudo bem. Você deve estar muito cansado. Quando recuperar as
forças, talvez possa remover este bloco enorme da sala de comando, para que o
Dr. Morton possa examinar o cadáver dessa estranha criatura.
O olhar de Goldstein tornou-se mais claro.
Fitou o bloco de matéria que esmagara o corpo de Mataal. A cabeça ficara
intacta e não estava coberta. A morte trouxera-lhe uma terrível modificação. As
duras feições epanenses se haviam transformado num rosto horrível, com feições
de morcego. Parecia um rosto humanóide, desumano, sanguinário.
— Neste ponto não posso ajudá-lo, coronel
— disse Goldstein num tom que quase chegava a ser de felicidade. — Já não sou
capaz de mover a matéria.
— Que monstro! — gritou Weiss,
aproximando-se cautelosamente dos restos mortais de Mataal.
— Cale-se! — disse Goldstein em tom de recriminação.
— Afinal, o que é que o senhor entende disso? Não foi nenhum monstro. Eu fui
parte dele e compreendo seu comportamento. Pensava primeiro em sua raça e
depois em si mesmo. O senhor não compreende, Weiss? Não era mau, e muito menos
poderia ser chamado de monstro. Apenas era diferente...
* * *
* *
*
Em O Universo Vermelho,
próximo livro da série, Atlan, mais uma vez, é a figura central dos
acontecimentos emocionantes que se desenrolam junto à fronteira do universo dos
druufs...

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