sábado, 7 de setembro de 2013

P-069 - A Morte Espera no Semi-Espaço - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN




Num planeta situado no semi-espaço,
tornavam-se verdadeiros gigantes.




Para dois grandes líderes do Império Solar, o ano 2.042 era uma data decisiva. Era exatamente o ano em que Perry Rhodan e Reginald Bell deviam impreterivelmente se submeter a uma segunda ducha celular, se não quisessem, dentro de poucos dias, ter um fim verdadeiramente lastimável!
Levando em conta o fato de que a trajetória elíptica do planeta da imortalidade já tinha sido bem calculada, e o de que a terapia celular de outros homens de grande merecimento havia sido renovada sem nenhuma complicação, Perry Rhodan não viu razão para antecipar sua partida para o planeta Peregrino...
No entanto, a corrida desenfreada através das dimensões lhe veio mostrar o engano...
Para conseguir chegar ao planeta da imortalidade, dentro do prazo certo, era-lhe necessário passar pelo semi-espaço, ou espaço intermediário, pela região incerta e instável entre a quarta e a quinta dimensão. Mas, no semi-espaço, a morte espreitava...






= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar:

Reginald Bell — Que se torna um gigante.

Atlan — O arcônida imortal que fere as regras da lógica matemática,

Mike Tompetch — Auxiliar de Bell.

Ele ou Aquilo— Síntese mental do planeta Peregrino.

Natan — O afetivo ser do planeta Solitude.


1



Olhando para a tela verde-escura do aparelho de rastreamento, Perry Rhodan constatou que, no local onde devia estar um planeta, o espaço achava-se completamente vazio.
Ainda há pouco, o supercouraçado Drusus havia realizado uma transição de alguns anos-luz do local onde estava agora. Esta transição deveria ter terminado num âmbito de dez minutos-luz do local, onde, conforme os cálculos dos matemáticos, se encontraria no momento o misterioso planeta Peregrino. Neste planeta é que existia o fantástico fisiotron, conservador da juventude.
Só no Planeta Peregrino é que havia a tal instalação miraculosa, capaz de injetar nas células do corpo humano uma nova substância para protegê-las contra o envelhecimento. Ele, o senhor do planeta Peregrino, a conscientização acumulada de uma raça há muito extinta, tinha concedido a Rhodan o privilégio de se submeter ao tratamento da ducha celular, pela primeira vez, privilégio este que Rhodan podia outorgar a seus companheiros, caso julgasse conveniente. Isto exatamente há sessenta e dois anos.
Com toda clareza, o Ser lhe explicara sobre a necessidade da renovação do tratamento antes do término destes 62 anos, caso não quisesse envelhecer de uma hora para a outra. Os sessenta e dois anos expirariam dentro de oito dias.
Perry Rhodan perdera um tempo precioso procurando a posição do planeta Peregrino numa dimensão temporal errada. Somente agora, no último minuto, foi que lhe chegou às mãos a indicação da posição galáctica do planeta Peregrino. A espaçonave partira imediatamente.
Estudando-se a situação com calma, chegar-se-ia à conclusão clara de que o planeta Peregrino se encontrava, no máximo, a uma distância de dez minutos-luz, ou seja, a cento e oitenta milhões de quilômetros do supercouraçado Drusus. Assim diziam as informações do robô dos druufs, recentemente capturado, não restando nenhuma dúvida quanto à exatidão dos dados.
No entanto, apesar de Perry Rhodan haver ampliado o raio de alcance do aparelho de rastreamento para vinte e cinco minutos-luz, não via nada. O espaço continuava vazio e morto.

* * *

A sala de comando da Drusus estava completamente lotada.
Intensa atividade reinava em todos os setores de cujos aparelhos se pudesse esperar qualquer solução para o inquietante mistério do desaparecimento do planeta. Rastreadores, goniômetros de ondas curtas ou de hiper-rádio varriam a imensidão do espaço, mas não havia eco em parte alguma. Continuava o incompreensível desaparecimento do planeta Peregrino.
Entrementes, o setor de astronavegação comunicava que a transição tinha sido perfeita e que o supercouraçado se encontrava, com uma margem desprezível de erro, no local predeterminado. Parecia haver agora uma única explicação para tudo isto: Seriam então falsos os dados fornecidos pelo robô dos druufs, recentemente capturado?
Ou os próprios druufs não sabiam para onde tinha ido o planeta?
O primeiro pálido indicio do destino do mundo artificial veio de um lado de onde ninguém podia esperar.
Enquanto Perry ainda estava ocupado em ampliar para cinqüenta minutos-luz o raio de ação dos aparelhos indicadores dos campos gravitacionais, acendeu-se na tela do intercomunicador, colocada em frente ao piloto, uma luz vermelha. Num movimento quase mecânico da mão direita, Rhodan ligou, meio distraído, ou melhor, abstraído, o videofone. Ainda meio abstraído, olhou para o rosto que aparecia na tela.
— O setor de rastreamento estrutural, sargento Sullivan, Sir — anunciou o homem. — Os aparelhos registram algo que nunca observamos antes. Achei-o tão importante que quero transmitir-lhe diretamente.
Rhodan fez um gesto de anuência. Ainda lhe parecia improvável que exatamente os rastreadores estruturais pudessem descobrir qualquer coisa que tivesse relação com o desaparecimento do planeta Peregrino. Mas, na situação em que estava, não se podia dar ao luxo de deixar de lado qualquer indício, por menor que fosse.
— Descreva-me suas características, sargento, depois ligue o oscilograma cá para o intercomunicador. Ou será que não há oscilograma?
Pela fisionomia desanimada de Sullivan, podia-se supor que sua mensagem não era nada boa.
— O oscilógrafo parece estar quebrado. Rhodan sorriu.
— Mesmo assim, experimente.
O rosto de Sullivan desapareceu. Passaram-se alguns segundos até que o sargento conseguiu restabelecer o contato com o oscilógrafo. A tela iluminou-se de novo. Podia-se ver o emaranhado das coordenadas do painel do oscilógrafo e pela tela notava-se apenas um trançado confuso de linhas sinuosas e irregulares, em constante sobe-e-desce. O sargento Sullivan começou sua explicação.
— Sir, uma determinação normal da posição consiste num único feixe de ondas que ora é mais curto ou mais longo, dependendo da distância e do tamanho do objeto visado e também ainda de acordo com a velocidade residual com a qual o objeto se lança no contínuo quadridimensional. O feixe demonstra a estrutura de uma vibração amortecida: grandes amplitudes no início, depois um declínio exponencial.
“Mas isto não está acontecendo aqui, Sir, como está vendo. Encontramo-nos aqui diante de um processo sem amortecimento. As amplitudes das diversas vibrações estão, pelo menos, cem vezes menores que as da mais fraca onda já registrada. A determinação da posição começou há uns quinze minutos, e, de lá para cá, permanece inalterada. O tempo máximo de uma orientação normal, se posso me exprimir assim, fica em torno de alguns milésimos de segundo.
Rhodan ouviu tudo com atenção, estudando ao mesmo tempo aquele tipo irregular de onda. A explicação do sargento Sullivan foi completa. Rhodan não podia acrescentar mais nada ao quadro descrito.
— Sargento, você tem alguma sugestão, ou digamos, alguma idéia para explicar o surgimento deste fenômeno?
Sullivan hesitou um pouco na resposta:
— Não, senhor, não tenho nenhuma idéia. Apenas...
Rhodan aguardou com paciência até que Sullivan venceu sua hesitação.
— ...dá impressão, senhor, de que há alguma coisa no espaço em volta que deseja sair pelo hiperespaço afora, mas não chegou ainda a se decidir. Quem sabe, suas energias não são suficientes para isto, ou talvez o piloto queira primeiro fazer uma experiência, com muita cautela. Mais não posso dizer, Sir.
— Você tem razão. Poder-se-ia mesmo chegar a esta idéia — disse Rhodan em tom afável. — Sargento, leve as fotografias do oscilograma para os matemáticos e peça para eles fazerem a interpretação.
Dizendo isto, desligou a tela. O trançado confuso e esquisito desapareceu da tela, mas não da cabeça de Rhodan, onde começou a provocar pensamentos absurdos.
Mas, quanto mais refletia, menos absurdos se tornavam os pensamentos, não tinham realmente nada de impossível, principalmente se tomarmos em consideração que se tratava de um fenômeno jamais constatado em outro lugar, ou seja, a passagem de um planeta por uma dimensão temporal completamente diferente.
As idéias pululavam na cabeça de Rhodan. Mas, ao olhar para o calendário automático, percebeu que o tempo não seria suficiente para estudar detalhadamente cada uma delas, a fim de escolher a mais plausível.
Tinha de experimentá-las concretamente.

* * *

— Tenho receio — disse Rhodan — de que os problemas que surgiram com o desaparecimento do planeta Peregrino sejam um tanto obscuros. E para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de estudar as teorias sobre as diversas dimensões do tempo, os problemas podem tornar-se incompreensíveis. No entanto, a exigüidade do tempo não nos permite entrarmos agora no campo das teorias e longas explicações.
“O planeta Peregrino atravessou uma dimensão temporal estranha. Os druufs conseguiram prendê-lo, mas Ele, o invisível senhor do mundo artificial, foi capaz de pregar uma peça nos druufs, quer dizer: soube enganá-los. Assim, o planeta Peregrino, acompanhado de seu satélite, conseguiu escapar do plano temporal dos druufs, por um outro lado.
“Naturalmente este truque não deu um resultado perfeito e algo de especial deve ter acontecido ao planeta Peregrino, ao deixar o plano temporal que lhe era estranho. Não se encontra por aqui, neste espaço. Talvez tenha carregado um pedaço do plano temporal dos druufs, criando em torno de si uma instabilidade espacial. Não o sabemos ao certo, temos de averiguar.
“Os senhores estão vendo aqui um daqueles conjuntos de lentes, por meio dos quais nos foi sempre possível até hoje penetrar várias vezes em dimensão temporal estranha.”
Rhodan apontou para um pequeno aparelho com o formato de uma caixa retangular, que estava bem em frente, sobre a mesa. Mostrou também dois focos de luz de um brilho leitoso, pairando imóveis no ar, com a orla inferior bem rente ao chão.
— O Tenente Rous — continuou ele — se apresentou voluntariamente para executar esta experiência. Somente podemos desejar que ele seja bem sucedido e consiga atingir o planeta Peregrino desta maneira.
Marcel Rous deu alguns passos à frente. Vestia um conjunto espacial e já estava de capacete aparafusado.
Notava-se que ele não se sentia muito bem. O conjunto de lentes, também conhecido como campo de refração, criava uma espécie de ponte entre duas dimensões de tempo, nos casos em que houvesse um cruzamento de dois planos de tempos diferentes ou tivesse havido anteriormente.
— Se o planeta Peregrino levou uma parcela da dimensão temporal estranha e estiver no espaço adjacente, Rous haverá de desaparecer assim que ultrapassar o primeiro foco de luz e se materializar novamente no planeta. Em caso negativo, pois até hoje nenhum homem fez tal experiência, ninguém poderá dizer como atuará o campo de refração — comentou Rhodan.
Pela última vez, Rous apalpou a arma que trazia do lado direito. Fez uma saudação rápida e atravessou o foco de luz. Por um instante, Rhodan teve a impressão de que Rous havia desaparecido, mas depois viu primeiro uma perna, depois a outra e finalmente o corpo todo do tenente, do outro lado.
A experiência fracassara. A primeira idéia de Rhodan não foi certa. Rous estava perplexo. Via-se, através da viseira do capacete, o susto estampado em seu rosto.
Alguém começou a rir. Mais um se juntou a este até que a terrível tensão nervosa se desfez numa vibrante gargalhada. O próprio Rous começou a rir também, o que se ouvia nitidamente pelo alto-falante externo do capacete.
O único que não acompanhou o riso geral foi Rhodan. Estava olhando para o calendário.
Era o dia 24 de abril, pouco mais de duas horas da madrugada, horário da Terra. Sobravam-lhe ainda cento e noventa horas para descobrir o que estava se passando com o planeta Peregrino e para chegar até o fisiotron, o miraculoso aparelhamento que proporcionava a ducha celular.
Lembrou-se da segunda idéia. O planeta não estaria mais se movendo numa dimensão temporal estranha. Estaria no mesmo plano de tempo da Drusus, como a Terra e bilhões de estrelas que apareciam na tela. Se o planeta Peregrino não pudesse ser atingido por meio do campo de refração, então alguém com suas próprias forças o haveria de alcançar.
Os mutantes deviam entrar em ação.

* * *

Ras Tschubai sabia muito bem o que Rhodan estava exigindo dele. Até hoje não tremera diante de nenhuma missão, por mais arriscada que fosse.
Hoje, porém, sem que o pudesse explicar, um temor indefinido minava-lhe a força e intrepidez de sempre.
Rhodan deixou-lhe ampla liberdade para recusar a missão, isto é, o salto. Explicou-lhe friamente a situação, que a teoria da teleportação, se é que havia mesmo uma tal teoria, não tinha meios para afirmar ou negar o sucesso do salto intencionado.
Ninguém poderia prever o que aconteceria quando o corpulento e pesado africano mobilizasse suas forças mentais e tentasse atingir o planeta Peregrino num salto de teleportação.
Apesar de tudo, Ras Tschubai estava resolvido a tentar o salto. Já colocara o uniforme espacial e se apresentara na sala de comando. Os oficiais em volta pareciam querer incutir-lhe coragem e otimismo. Mas Ras sabia que isto de nada adiantava na hora do perigo.
Que poderiam fazer por ele?
O que seus dons paramecânicos dominavam, se desenrolava num espaço mais elevado, de cinco dimensões. Se lhe acontecesse alguma coisa por lá, estaria perdido. Continuaria um ser desmaterializado que por toda a eternidade vagaria num universo quase sem luz, onde não haveria nada, fora dele mesmo.
Ras Tschubai cerrou os olhos e se concentrou. Sabia onde tinha de procurar o planeta. Os técnicos dos rastreadores estruturais já haviam identificado de onde vinham os singulares e confusos sinais de instabilidade espacial.
Obrigou seus pensamentos a se dirigirem para lá, para onde devia pular.
Não era mais hora de ter medo e de desperdiçar a força da concentração em sentimentos bobos e negativos. Devia ver alguma coisa, no mínimo os contornos de seu objetivo, para iniciar o salto.
A escuridão diante de seus olhos começou a diminuir. Via círculos coloridos bailando ao longe, nas trevas, e via surgir uma mancha sem cor definida. Esta mancha lhe chamou a atenção, pois, se havia mesmo um objetivo, tinha de ser esta mancha esmaecida.
Impaciente, Ras Tschubai começou a tremer. Sentiu como o suor lhe escorria pela face e como a umidade era absorvida pela instalação de climatização do uniforme, ficando na pele apenas uma delgada camada de sal, que chegava a sentir quando franzia a testa. Com um pequeno afrouxamento da atenção concentrada, a mancha esmaecida desapareceu.
É inútil”, pensava ele desesperado, “não vou conseguir.”
Por uns instantes concentrou sua atenção nos círculos coloridos que bailavam antes da mancha esmaecida, e que não eram outra coisa senão uma ilusão de ótica, provocada pela compressão dos olhos.
Tentou acompanhar seu bailado naquele palco escuro, tentando calcular seu número. Isto o ocupou de tal maneira que chegou a esquecer o que lhe estava em volta. No momento em que deu de novo com a mancha esmaecida, viu-a mais ampla e mais clara que antes. Mirou-a fixamente e, quando reparou que nada mais o detinha, transmitiu ao cérebro o impulso de largada.
— Agora!
A mancha esmaecida, girando a uma velocidade incrível, veio ao encontro dele.
Ras Tschubai sentiu-se transportado pelo próprio espaço. A escuridão se afastava para as bordas da mancha e depois de uma pequena pausa, que não podia ser medida, o que havia diante dos olhos de Ras era apenas a mancha já bem clara, chegando mesmo a ofuscar.
Tschubai queria se materializar, botar os pés em terra firme e abrir os olhos, como ele sempre fazia ao término de um salto bem sucedido. Sabia que já tinha chegado ao fim, que estava onde pretendia estar, mas... ficou perplexo e não entendia o que estava se passando, pois tudo era tão diferente dos saltos normais...
Procurou “parar” e descer em chão firme. Mas não havia chão onde pudesse apoiar os pés.
Não havia mesmo nada para tocar. Era sempre a mesma mancha reluzente como um sol, para onde ele se precipitava. Levantou as mãos para proteger o rosto, mas não adiantou nada, pois tudo que ele via, continuava vendo mesmo de olhos fechados, através dos dons parapsicológicos de seu cérebro. Tinha vontade de gritar, sem se lembrar que ninguém poderia ouvi-lo no espaço infinito.
Mas, neste exato momento, toda a angústia terminou com uma forte explosão, que atingiu de cheio o corpulento africano, mandando-o para outra direção.
Conseguiu ver ainda que a mancha brilhante diminuía cada vez mais e desaparecia ao longe. Ouviu depois um forte ruído, como o de um impacto de qualquer coisa metálica, e sentiu que os pés se apoiavam em chão firme.
Foi então que desmaiou.

* * *

Quando voltou a si, ao tentar se levantar, constatou que não o podia fazer. Estava num compartimento que parecia ter sido construído sob medida para ele.
Muitos minutos se passaram até recuperar os sentidos e conseguir concatenar, com grande esforço da memória, os últimos acontecimentos. Lembrou-se da tentativa de atingir o planeta Peregrino por meio de um salto de teleportação. O salto foi bem dado e por algum instante teve a impressão de que estava tudo em ordem.
Depois, veio a tremenda explosão que o atirou para esta câmara estreita, que mais parecia um caixão de defunto.
Que tipo de câmara era esta? Câmara de quê? Estaria mesmo no planeta Peregrino, ou em outro lugar?
Procurou virar para o lado, mas nem isto conseguiu. Chegou a ter a impressão de que as paredes daquele caixão de defunto se estreitavam mais para estrangulá-lo.
O suor lhe escorria do rosto. Começou então a gritar, o que, aparentemente, lhe proporcionava algum alívio. Seus gritos lhe despertaram uma idéia interessante.
Independente do fato de estar no planeta Peregrino ou não, o capacete de seu uniforme abrigava um transmissor em condições de funcionar.
Se eu falar bem alto, devo ser ouvido na sala de comando da Drusus” pensou.
Tinha a certeza de que o receptor-transmissor estava ligado no momento em que se concentrava para o salto. Lembrou-se de ter ouvido o zunido alto e fino do pequeno aparelho. Ficou imóvel, parando mesmo de respirar para ouvir alguma coisa.
No princípio, pensava ouvir o mesmo zunido de antes. Era um ruído tal qual aquele que surgia quando se fechava o capacete do uniforme espacial. Picou, porém, indeciso. Segurou a respiração por mais tempo, para conseguir ouvir melhor. Mas a pressão do sangue aumentou demais nos ouvidos. Tentou se ajeitar, buscando conforto, se é que se pode falar em conforto naquele verdadeiro esquife, e continuou na escuta.
Depois de uns minutos, chegou à triste conclusão de que seu transmissor não funcionava mais. O zunido não existia mais. Devia ter acontecido alguma coisa com o aparelho transmissor, quando foi catapultado para o caixão de defunto, feito sob encomenda.
Era uma trágica realidade: o mundo exterior lhe estava completamente fechado. Não podia nem levantar o braço para acionar o transmissor de emergência no capacete.

* * *

Na sala de comando da Drusus, a tensão e a expectativa se transformaram, aos poucos, num cruciante nervosismo.
Ras Tschubai devia, conforme as instruções que recebera, voltar imediatamente, caso o salto fosse bem sucedido. No entanto, fazia mais de trinta minutos desde que Tschubai tinha sido visto pela última vez na cabina de comando e pior do que tudo: não dera nenhum sinal de si.
Reinava, na sala de comando da Drusus, um silêncio angustioso, destes momentos em que qualquer palavra é inútil.
Que aconteceu ao grande teleportador africano? Tinha ou não tinha atingido seu objetivo? Por que não voltara ainda? Teria chegado a um ponto de onde não havia mais retorno? Estes pensamentos deviam ser os mesmos para todos que ali estavam.
A bordo da Drusus não havia ninguém que pudesse fornecer um quadro aproximado da situação de Ras Tschubai. Teria ele realizado apenas uma teleportação só de ida, ou teria seu salto atingido uma zona de instabilidade, de onde não pudesse mais sair?
Eram seis horas da manhã do dia 24 de abril do ano 2.042. Restavam ainda cento e oitenta e seis horas para o término da imortalidade dos dois grandes terranos.
E a única coisa a fazer era esperar... nada mais que esperar.

* * *

Depois de longos e enlouquecedores segundos de pânico, Ras foi voltando paulatinamente ao trilho bem pisado do raciocínio lógico. Começou a se interessar pelo local onde se encontrava, procurando um caminho para sair do estranho caixão de defunto para onde fora arremessado. Foi só então que percebeu que, onde estava sua cabeça, devia haver um pequeno orifício, por onde entrava um tênue raio de luz. Até então, não tivera o cuidado de perguntar a si mesmo de que maneira chegava ali, naquele caixão fechado, a fraca réstia de luz. Aquela iluminação deficientíssima lhe possibilitou reconhecer que as paredes do diminuto compartimento eram de metal plastificado e, aliás, a composição molecular continha tantos componentes metálicos que o tornavam altamente condutor.
Procurou então se lembrar de todos os instrumentos ou instalações em que se empregava este tipo de metal plastificado azul. Foi então que lhe passou pela cabeça que o ferro plastificado, como era chamado geralmente este material azulado, era um produto de origem terrana, fabricado de acordo com a tecnologia arcônida.
Mas seria possível afirmar que este material estava sendo usado no planeta Peregrino? De maneira alguma.
Partindo deste raciocínio, Ras chegou bem depressa à conclusão de que ele não podia estar nesse planeta, mas sim que, após a explosão da mancha esmaecida, que tinha sido realmente o objetivo de sua teleportação, havia sido projetado de volta para a Drusus.
Esta descoberta o deixou bem mais aliviado.
Começou então a coordenar seus pensamentos, para se lembrar de qual setor da grande cosmonave fazia parte este compartimento que era no momento sua apertada prisão. Agora que seus olhos já se tinham adaptado melhor à escuridão, conseguiu ver na cobertura as estrias distribuídas em intervalos regulares e, ao virar a cabeça para o lado, notou que continuavam também nas paredes laterais.
Este tipo de estrias não lhe era estranho, estava se lembrando de tê-las visto freqüentemente, há muito tempo atrás. Sempre foi de praxe que os mutantes conhecessem bem as instalações técnicas das naves em que passavam grande parte de sua vida.
As estrias”, lembrou-se ele, “têm uma finalidade específica: subdividem os aposentos em câmaras diminutas, nos assim chamados ressonadores côncavos, cuja função é aparar os impactos e as vibrações de um hipercampo energético, que se abatem contra a espaçonave, e amortecê-los em contínuas reflexões nas paredes divisórias dos múltiplos ressonadores.
Num verdadeiro estalo cerebral, irrompeu na cabeça de Ras Tschubai uma certeza ululante.
Encontro-me no interior de um compensador estrutural, aquele aparelho ou instalação importante destinado a absorver os choques energéticos provocados no momento da transição e ao mesmo tempo com a finalidade vital de tornar impossível a determinação de posição ou de direção da espaçonave em salto de transição”, afirmou mentalmente.
Estava, pois, numa destas câmaras de ressonadores, onde se amorteciam milhares de quilowatt-horas, quando a Drusus entrava em transição ou penetrava novamente no espaço normal.
Bastaria que alguém tivesse a idéia de executar um hipersalto com a Drusus, e a vida do pobre Ras Tschubai estaria tão bem protegida como a de um homem atingido cem vezes consecutivas por descargas de raio.
Gemeu de dor, ao tentar virar-se um pouco. Quase perdeu os sentidos de tanta dor, misturada com um tremendo pavor. Sabia que não tinha nenhuma possibilidade de escapar dali por força própria. Nada podia fazer. Mesmo no estado de inatividade, os compensadores estruturais estavam envoltos num campo residual de cinco dimensões e estes campos residuais continuavam uma barreira intransponível, mesmo para o teleportador Ras Tschubai.

* * *

Perry Rhodan continuava remoendo uma idéia impertinente. Conhecia um dos grandes teoremas da paramecânica, um dos poucos que pairava absoluto acima de qualquer dúvida: “Saltos de teleportação e movimentos telecinéticos não podem alcançar nenhum objetivo que esteja num espaço de dimensão mais elevada do que o de onde partiram estes mesmos saltos ou movimentos.”
Em outras palavras: um teleportador, partindo do espaço normal, não pode jamais atingir um objetivo que esteja num espaço de cinco dimensões. O próprio Ras Tschubai já havia feito esta experiência, há muitos anos atrás, quando, em Ferrol, tentou penetrar no túnel do tempo. Foi cuspido para fora, com tremenda violência.
Será que o teorema da inatingibilidade dos espaços fora da dimensão conhecida tem alguma relação com a solução do enigma do desaparecimento de Ras Tschubai? Será que o planeta Peregrino teria penetrado no hiperespaço, não permitindo que o africano o alcançasse?”, pensava Rhodan.
A pergunta não tinha base científica, pois se o planeta estivesse no hiperespaço, Ras voltaria imediatamente para o ponto de partida de seu salto. Além disso, não seria possível continuar recebendo do planeta Peregrino aqueles sinais que a estação dos rastreadores estruturais ainda registrava. Portanto, o caso era mais complicado do que se imaginava.
Por outro lado, se o planeta estivesse no espaço normal, Tschubai o teria alcançado com facilidade e já estaria de volta. Sem falar no fato de que os rastreadores, naturalmente, já teriam detectado o planeta do mundo artificial.
Nada fazia sentido. Que enigma desagradável!
As idéias de Perry Rhodan se voltaram novamente para a explicação do sargento Sullivan.
...como se existisse lá uma coisa que gostaria muito de ir para o hiperespaço, mas não conseguia se decidir a respeito... Que havia de certo nisso? Será que entre o espaço normal e o hiperespaço existia uma dimensão contínua que pudesse ser a causa da estranha reação dos rastreadores estruturais e do desaparecimento de Ras Tschubai?
A idéia parecia um mero produto da fantasia. Imaginar-se um quadro onde as proporções fossem de quatro e meio ou de quatro vírgula três dimensões, era não só impossível, como também ridículo, parecia, pelo menos assim, pois sempre fora costume designar a seqüência das dimensões de tempo em números redondos ou inteiros.
Mas, impossível e ridículo ou não, havia a bordo gente que podia quebrar a cabeça com esta questão, utilizando-se da positrônica.
Deu as instruções a respeito, vendo como os matemáticos franziam a testa, como se a simples suposição de um espaço com quatro dimensões e meia lhes causasse dores físicas. Inculcou-lhes a importância do assunto, pedindo-lhes que usassem toda sua técnica para obter um resultado plausível.
Depois disso, pareceu-lhe que um enorme peso tinha-lhe saído dos ombros. E quanto mais Rhodan refletia, menos ridículo tudo lhe parecia. Continuou pensando no que podia fazer ainda para solucionar o mistério do planeta Peregrino...
Caso o planeta do mundo artificial estivesse mesmo numa interdimensão, que aconteceria então se a Drusus realizasse uma transição através dele?
Esta pergunta não tinha uma resposta clara. A única clareza era de que a grande nave passaria incólume se houvesse certeza de que o planeta Peregrino se encontrava ou no espaço normal ou no hiperespaço. O que havia entre estes dois pólos, livres de perigo, devia ser algo também sem perigo, pelo menos conforme as suposições de Rhodan.
Para não se expor a nenhum risco, ordenou ao posto de segurança que desse o máximo de carga ao envoltório de proteção da Drusus. O posto de comando também foi informado de que, neste setor do espaço, as dificuldades da determinação de posição seriam as mesmas que em outros saltos, em conseqüência dos abalos estruturais durante a transição.
Os compensadores estruturais estavam de prontidão para receber e absorver os choques energéticos na passagem do hiperespaço.

* * *

Ras Tschubai trabalhava agora num quase estado de transe hipnótico. É claro que o medo não diminuíra, mas também não impedia mais o raciocínio, pelo contrário, dava-lhe mais força para realizar coisas que jamais faria em circunstâncias normais. Seu subconsciente esperava para qualquer momento a descarga energética mortal, que, como ele sabia, haveria de penetrar pelo condutor oco, isto é, pelo mesmo orifício por onde lhe vinha a fraca claridade da câmara de ressonância.
Havia apenas um tênue fio de esperança para Ras Tschubai ser percebido pela Drusus e assim ser salvo. Para isso lhe seria indispensável uma coisa praticamente impossível: teria que conseguir levantar o braço esquerdo até que sua mão atingisse o contato de emergência do pequeno transmissor, colocado na metade esquerda do capacete, bem na região da orelha.
Depois de seu salto mal sucedido, Ras Tschubai, quando voltou a si, se viu deitado na diminuta câmara, como um defunto no caixão, isto é, de costas e com os braços esticados e espremidos para frente, no sentido dos pés.
Não tinha, pois, quase nenhuma possibilidade de se mover ali dentro. Ser-lhe-ia totalmente impossível levar a mão até o capacete. Já tentara se virar, mas inutilmente, pois a largura de seu corpo era o dobro da altura da câmara. Com muito cuidado, já havia conseguido trazer a mão direita até a barriga, na altura da fivela do cinto. Passar daí seria impossível porque o cotovelo esbarrava na impiedosa parede do lado direito. No entanto, parecia este o único jeito que lhe sobrava. Expeliu todo o ar do pulmão para fora, esperou até que a instalação automática de aeração o tivesse absorvido e até que o pesado uniforme do espaço cedesse um pouco, tomando a forma do ventre chupado. Fez com que a mão direita pousasse na borda superior do duro cinto plástico.
O suor lhe invadia, inclusive, os olhos, antes de ser absorvido pela instalação. Uma dor lancinante parecia lhe estraçalhar a articulação do cotovelo. Apesar disso, deixou a mão onde estava, depois respirou novamente. A dor no cotovelo aumentava, e os pulmões não tinham espaço suficiente para respirar.
Foi aí que Ras Tschubai teve uma idéia.
Será que ficaria impedido de erguer o braço, caso ele fraturasse o cotovelo ou o antebraço? Segurou a respiração o mais que pôde, depois soltou o ar e esperou novamente com impaciência que a instalação de seu uniforme reagisse e, com a barriga chupada, o espaço aumentasse. Empurrou então a mão mais para frente. Seu corpo estava todo banhado em suor e o zumbido fino do aparelho de aeração, que não conseguia evaporar tão depressa tanto suor, o incomodava como um enxame de abelhas. Não era qualquer um que poderia conseguir, com suas próprias forças e, em estado de plena consciência, quebrar o próprio braço.
Mas Tschubai sabia que não lhe restava outra alternativa.
A dor na articulação do cotovelo quase o fez perder os sentidos. Mas o desmaio veio, quando se ouviu um pequeno estalo de osso e uma onda de dor atroz lhe invadiu o corpo todo.
Porém no subconsciente, falou mais alto o instinto de conservação e logo depois ele voltou a si. Abriu os olhos e se viu num mundo cujos contornos estavam em confuso movimento, como que no meio de densa neblina. Sentia-se mal, mas sabia que ainda podia mover a mão direita, embora, em todo o braço, não sentisse outra coisa do que uma dor única e penetrante, e os dedos estavam dormentes.
Centímetro por centímetro, a mão quase sem tato foi subindo peito acima. Atingiu primeiro o fecho magnético do bolso superior esquerdo e logo depois o ombro esquerdo, continuando pelo pescoço. Era inacreditável com que facilidade a mão podia caminhar enormes distâncias, com o braço fraturado.
Apesar de toda a dor, houve alegria no rosto de Tschubai ao ouvir o ruído metálico da mão atingindo o capacete. Ajudou-o a suportar melhor o momento difícil. Continuou avante com a mão e depois se deteve por um instante, pois já havia passado pelo mais difícil e não queria se arriscar pela pressa a fazer algo errado e ou mesmo, num golpe desastrado, perder de novo os sentidos.
Ouviu de repente um ruído. Começou com um zumbido surdo, foi aumentando e se transformou num assobio claro. Seus olhos se turvaram. Alguém havia ligado o compensador da grande nave.

* * *

O africano ainda não voltara.
Eram exatamente oito e meia da manhã do dia 24 de abril de 2.042. Atlan, o arcônida, tinha se unido ao grupo dos matemáticos e estava ajudando muito na solução do misterioso acontecimento.
A Drusus estava preparada para o salto. Os dados para uma transição curta de poucos minutos-luz através do espaço já estavam no posto de comando e foram programados para o piloto automático. O envoltório de proteção tinha sido reforçado de tal maneira que não haveria nenhum risco, mesmo que o planeta Peregrino, pairando entre dois espaços diferentes, pudesse causar transtornos.
Já se achavam ligados os compensadores estruturais e prontos, portanto, para absorver o choque duplo e impedir a propagação das vibrações do impacto.
Rhodan estava prestes a dar a ordem de partida, pois todos já encontravam-se em seus postos e, nos alto-falantes, soavam os comandos de prontidão para o arranque imediato. Como sempre, ocorria a nervosa expectativa de todos para o choque que precede à desmaterialização.
Para iniciar o salto bastava apenas que Rhodan comprimisse o botão vermelho, que punha em movimento, ato contínuo, o complicado mecanismo do sistema de regulagem positrônica, enviando milhares de impulsos para os aparelhos de comando.
Rhodan já estava com a mão sobre a tecla que irradiava uma intensa luz vermelha, quando uma voz sumida repetia no alto-falante pouco acima dele:
— Não dê a partida... não dê a partida! Desligue os compensadores. Eu estou num deles. Socorro!
Rhodan retirou a mão, arrepiado, como se tivesse tocado num ferro em brasa. Incrédulo e assustado olhou para o alto-falante a três palmos de sua cabeça. Quem gritou por socorro não deu seu nome e sua voz estava tão desfigurada que não dava para distingui-la. Mas não havia dúvida: era a voz de Ras Tschubai.
Ras, o teleportador, estava preso numa câmara de um compensador estrutural. Rhodan cancelou a ordem de partida e de sua sala de comando desligou a instalação dos compensadores.


2



Desmontaram o compensador e retiraram o africano da câmara de ressonância, com um braço estranhamente deslocado ou até mesmo quebrado.
Provavelmente, o motivo pelo qual não conseguiu sair de sua prisão singular, apesar de seus dons paramecânicos, foi a existência de campos residuais com sua estrutura de cinco dimensões.
Ainda conforme o parecer do médico, Ras Tschubai teve uma crise de nervos. E isto não foi nada extraordinário, tendo-se em vista o quanto ele sofrerá. O pior de tudo era que não se podia saber dele o que lhe havia acontecido. Dr. Sköldson, chefe da divisão médica, se negava a permitir uma entrevista antes de decorridos quatro dias.
— O homem necessita de repouso absoluto, repouso e, mais uma vez, repouso.
Com estas palavras, o médico cortou sumariamente toda a esperança de se ouvir alguma coisa de Ras Tschubai.
Rhodan se conformou. A equipe de matemática foi informada sobre o último acontecimento. Apesar de Rhodan, a princípio, acreditar que a extraordinária aventura de Ras Tschubai nada tinha a ver com os cálculos que faziam os matemáticos, Atlan, também admirado do acontecido, mas de fisionomia mais alegre, mostrou a Rhodan que o mutante africano tinha fornecido uma prova muito importante:
— Isto é uma coisa fantástica, no verdadeiro sentido da palavra, administrador — disse ele entusiasmado. — Um homem dentro do compensador estrutural ajuda a matemática a ficar de pé.
Perry o fitou demoradamente nos olhos.
— Gostaria, finalmente, almirante, que o senhor me dissesse em que pé ela está agora. Já chegaram à conclusão de algo positivo?
Com um leve sorriso no rosto, o arcônida falou:
— Claro que sim, bárbaro. Não lhe quero, porém, dar esperanças vãs. Às onze e meia, eu o procurarei para lhe expor os primeiros resultados. Você ficará boquiaberto, pois o fenômeno é muito singular.

* * *

A ampliação do campo visual físico tridimensional para a continuidade espaço-tempo de quatro dimensões provocou uma verdadeira reviravolta nas ciências naturais.
A próxima ampliação para a visão pentadimensional, ou seja, de cinco dimensões, foi dada à Humanidade, por assim dizer como um presente, graças ao acaso feliz do encontro com os antiqüíssimos arcônidas.
A descoberta, entre as dimensões, do território de ninguém, descoberta esta que fora provocada por mero acaso, isto é, pelo desaparecimento do planeta Peregrino, foi algo sensacional somente pelo fato de que ninguém supunha a existência de um espaço intermediário. Este foi o nome que Atlan deu ao fenômeno.
— Administrador, você tem conhecimentos científicos suficientes para compreender — começou Atlan — que não me é possível apresentar esclarecimentos mais objetivos. O contínuo de Einstein é uma formação em nada objetiva e o hiperespaço o é ainda em maiores proporções. Como poderia, então, ser diferente o cruzamento entre ambos, isto é, o semi-espaço?
“Vamos dar um exemplo. Imaginemos o hiperespaço como uma formação de um sistema de coordenadas de cinco dimensões. Coloquemos então esta formação em rotação e atribuamos a uma das metades da esfera de cinco dimensões, que surge então como um corpo em rotação, uma característica extremamente singular: Esta metade distorce as coordenadas ou os eixos que nele se encontram. Reduz seu próprio tamanho e esta redução se dá na proporção da velocidade de rotação.
“Ao penetrar no hemisfério distorçor, o eixo ou a coordenada ainda tem seu comprimento primitivo, começando depois a diminuir. No momento em que transpõe a metade do trajeto através do hemisfério distorçor, o eixo desaparece completamente. Começa depois a crescer de novo, sendo que, no segundo em que sai do hemisfério distorçor, atinge novamente seu tamanho inicial. Já que se trata de um hemisfério e o sistema de coordenadas do hiperespaço se compõe de cinco eixos, a cada momento estão sempre em questão dois ou três eixos, nunca mais nem menos. O importante então é averiguar o sentido da rotação do sistema de coordenadas.
“Infelizmente isto é uma operação que não sabemos bem como resolver. Até agora só sabemos de uma coisa: Já que não foi visto em momento algum o planeta Peregrino, por outro lado, porém, julgando pelos sinais recebidos, aliás, constantemente pelos rastreadores estruturais, não pertencendo nunca por completo ao hiperespaço, o quinto eixo, isto é, o eixo j tem que se encontrar num estado de permanente distorção, sem jamais atingir seu tamanho completo e também sem jamais desaparecer de todo.
“Assim, o eixo não atingiria jamais seu comprimento total e o planeta se encontraria completamente no hiperespaço, e os rastreadores não receberiam mais sinais. Se o eixo desaparecesse por completo, então no mesmo momento surgiria na tela o planeta Peregrino, pois o desaparecimento do eixo j significa a volta ao Universo de Einstein.
“Esta é a situação do planeta Peregrino. Naturalmente a situação não é obrigatoriamente estável. Uma pequena circunstância pode fazer desaparecer o efeito do espaço intermediário. Não poderíamos, porém, dizer neste caso se o planeta cairia no hiperespaço ou voltaria ao espaço de Einstein. Talvez isto vá depender da natureza das circunstâncias.”
Acompanhado por grande número de seus oficiais, Perry Rhodan ouvira com atenção a complicada explicação. Rhodan percebia nas fisionomias de seus auxiliares uma sensação de decepção ou de mal-estar. Procurou compreender este sentimento, que ele mesmo sentia e que não podia descrever a não ser como: a reação de um homem que, esperando uma verdadeira elucidação, ouve uma coisa que não é, ou pelo menos não esclarece nem parte, nem toda a questão.
O quadro descrito foi realmente confuso e o exemplo proposto carecia de clareza. Ninguém sabia o que fazer com tudo aquilo. Seria a mesma coisa como querer somar metros com quilowatt-horas. Uma solução impossível, inútil e superconfusa.
Atlan notou o que se passava nele, Rhodan, e nos demais oficiais. Abaixando os olhos, muito sério, começou a falar:
— Sinto muito por tê-lo decepcionado. Mas, que se pode esperar dos matemáticos? Eles produzem uma coleção de fórmulas e não propriamente uma receita. Agora, o que se pode fazer com a coleção de fórmulas? Quem deve descobrir isto, não somos nós, e sim os matemáticos. Isto não é nosso trabalho. Agora chega a vez de vocês, os técnicos, quebrarem um pouco a cabeça. O que nos resta a fazer é lhes continuar fornecendo informações mais detalhadas. Todo o resto é tarefa de vocês.
Ao perceberem que a conversa se tornava mais reservada, os oficiais voltaram a seus lugares. Atlan se levantou e estendeu a mão a Rhodan.
— Gostaria que você soubesse de uma coisa — disse ele com muita calma. — Estou trabalhando o mais depressa que posso. Acho que vou tomar uma injeção para agüentar uns dias sem dormir. Quero ajudá-lo de qualquer maneira. Rhodan, você sabe que sou seu amigo.
Emocionado e sem dizer uma palavra, Rhodan apertou a mão do arcônida, que imediatamente se retirou. Rhodan o acompanhou com o olhar. Sabia que os cuidados que perturbavam o arcônida eram sinceros. O próprio Atlan possuía um ativador celular, que Ele, o desconhecido senhor do planeta Peregrino, lhe havia presenteado há mais de dez séculos, aparelho este que o dispensava do fisiotron do mundo artificial. Portanto, Atlan não tinha nenhuma necessidade de renovar a ducha celular até o dia primeiro de maio. O arcônida compreendia, pois, como era muito natural a suspeita que se podia levantar contra ele. Isto é, de que a solução do grande mistério do desaparecimento do planeta Peregrino fosse adiada de propósito, para que, depois de esgotado o prazo, quando Rhodan em poucas horas se transformasse num velho decrépito e caduco, ele, Atlan, entrasse como seu sucessor.

* * *

A declaração séria e sincera de Atlan foi o ponto de partida para que Rhodan se voltasse com mais atenção a um pensamento que há muitas semanas rodava por sua cabeça. E sempre procurava deixá-lo de lado, como coisa de menos importância, pois tinha muita coisa para fazer — ou porque tinha medo deste pensamento?
Estaria ele agindo corretamente, gastando semanas e mesmo meses inteiros à procura do fantasma da imortalidade, que, caso encontrasse, somente viria beneficiar a ele e a alguns de seus cooperadores? Teria ele o direito de, nesta procura do planeta Peregrino através do infinito, expor ao perigo não só a supernave Drusus, como os mil homens que nela estavam? Não seria mais racional se ater à ordem natural das coisas, como sempre foi na história da Humanidade, isto é, na sucessão das gerações, na substituição do velho pelo mais moço? Não conseguiria ele arranjar um sucessor, se retirar e terminar a vida como qualquer outro homem?
Estava agora com cento e seis anos. Mais da metade deste tempo fora vivido no comando da Humanidade terrana, criando o Império Solar e transformando a Terra num grande centro de poder — aliás, de localização desconhecida — de toda a Galáxia. Era, realmente, uma obra de que se podia orgulhar.
De uma hora para a outra, teve a impressão de que, até então, não gastara quase nenhum tempo para pensar em si mesmo.
Em que proporções, o vertiginoso progresso do Império Solar estava ligado à sua atuação pessoal? Quanto que ele mesmo representava para a Terra, em que dimensões ele se identificava com os bilhões de habitantes da Terra, que haviam confiado totalmente no seu governo? Que haveria de acontecer, se ele agora se retirasse, transmitisse seu cargo a um outro e morresse dentro de poucos dias?
Lembrou-se de Ele, o ser do planeta Peregrino, que lhe outorgara o privilégio da imortalidade, por assim dizer, num simples gesto de mão, como um mero presente. ; O desconhecido dissera na época que| queria dar aos terranos a mesma oportunidade que, há vinte mil anos atrás, havia concedido aos arcônidas — a possibilidade de conquistar a Galáxia, de penetrar Universo a dentro e fundar um reino poderoso e duradouro. Poder-se-ia admitir que, quando o Ser, no seu longo, ou melhor, infinito descortínio, lhe outorgou tal privilégio, não tinha em mente uma ação importantíssima?
Que aconteceria se Perry Rhodan deixasse seu cargo? Será que seria quebrada a continuidade do desenvolvimento?
Sem pecar por excesso de orgulho, Rhodan podia dizer com justiça que, no momento, não havia ninguém entre seus homens que estivesse em condições de tomar nas mãos as rédeas do Império Solar com a firmeza necessária.
Haveria uma quebra da unidade e o florescente Império Solar seria retalhado. Com isso, se tornaria presa fácil para quem quisesse... e não era poucos os de olho-grande contra o progresso vertiginoso da Terra nos últimos cinqüenta anos.
Rhodan pensava também na tripulação da Drusus.
Houve, em algum tempo, um indício, por menor que fosse, de que alguém desaprovasse ou criticasse os esforços e as tentativas para se atingir o planeta Peregrino, ou os riscos aí contidos? Ou, talvez, o Tenente Tompetch ou o Capitão Gorlat, por acaso, manifestaram alguma crítica a respeito das missões que executaram em Solitude, missões em que poderiam ter perdido a vida?
De maneira alguma.
Todos estavam convencidos da retidão de toda a sua conduta e de que a Terra precisava agora muito mais dele do que antes. Todos estavam dispostos a fazer o maior sacrifício para que ele atingisse, dentro do prazo estipulado, o planeta do mundo artificial. Não apenas porque tinham simpatia e amizade por ele, mas por se sentirem responsáveis perante os bilhões de habitantes do Império Solar.
E assim terminou o importante diálogo consigo mesmo, em que se perguntou, com franqueza e senso objetivo, se não seria melhor para a Terra que ele se retirasse e transmitisse a outro a direção do Império Solar.

* * *

Depois de pesar com frieza os fatos e depois de ter tomado sua resolução, passou a se preocupar como poderia contribuir para a solução do mistério do planeta Peregrino, antes que os matemáticos chegassem com seus cálculos complicados. O calendário automático apontava para vinte e uma horas e quarenta minutos do dia 24 de abril de 2.042. Sobravam-lhe portanto ainda cento e setenta e uma horas.
Rhodan se lembrou de que, enquanto conversava consigo mesmo sobre seu afastamento do governo do Império Solar, passou-lhe pela cabeça uma idéia furtiva. Fez um grande esforço para trazer esta idéia de volta... Afinal ela apareceu:
A inteligência de Solitude! O Ser de Solitude, o mundo da estranha dimensão de tempo, ser este que possuía o dom parapsicológico de separar o corpo do espírito. Era a inteligência que Reginald Bell dizia parecer-se com uma vaca-marinha da Terra.
Ficou admirado de que estes pensamentos não lhe ocorreram antes. O estranho ser, a quem Reginald Bell dera o nome de Natan, encontrava-se a bordo da Drusus. Tinha preferido abandonar sua terra, ou melhor seu mundo-pátria, e não mais voltar para lá, pelo menos não antes que se botasse um paradeiro no fantasma dos druufs. Estes haviam retalhado as inteligências de Solitude em seis pedaços, colocando-as presas em caixas e utilizando-as como instrumentos de alarme em postos avançados.
Natan, mais do que ninguém, poderia estar em condições de atingir o planeta Peregrino, partindo da Drusus. Naturalmente não com a matéria, mas utilizando-se de seu espírito móvel que podia se separar do corpo, levando uma vida independente.
Armado com um amplificador de telepatia, Perry Rhodan se pôs a caminho do conjunto de cabinas destinadas a Natan.
Foi encontrá-lo, com todo conforto se espojando numa bacia rasa colocada na maior de suas cabinas. Ele, ou melhor, seu corpo era uma espécie de cilindro cinzento.
Não se podia propriamente distinguir membros em seu corpo, não havia braços, nem pernas, nem olho, nem boca, nem nada que se encontra geralmente num ser vivo inteligente. Natan pulou logo para fora da “bacia” e ficou parado no chão coberto de terra e com uma camada de capim. Bem perto de Rhodan.
Perry, por sua vez, se acocorou no chão, colocou de lado o amplificador de telepatia e começou a passar a extremidade metálica sobre o corpo de Natan. Depois emitiu:
— Meu amigo, bom dia! Vim aqui para lhe pedir um grande favor.
Natan compreendeu tudo e Rhodan, de olhos fechados, viu uma figura que se erguia e dizia:
— Fala, meu amigo, terei muita alegria em poder ajudá-lo.
Então, Rhodan começou a expor seu plano a Natan.

* * *

Natan ainda não tinha passado muitas horas a bordo da supernave Drusus e ficara todo o tempo na cabina. Estava sentindo muita simpatia pelo ser que o chamava de amigo e que o havia libertado das mãos dos druufs.
Dos elevadores e demais meios de transporte, como as esteiras rolantes, Natan tinha muito medo. Este medo podia se tornar tão forte que lhe causava dores físicas. Sua raça era de seres alheios a qualquer tecnologia.
Quando tinham de se locomover, ou usavam as forças do próprio corpo ou transportavam seus espíritos para onde queriam, caso não fosse necessária a presença física. Eram seres sem maiores pretensões, dispondo, no entanto, de um espírito muito vivo e consideravam a função mais importante de sua vida refletir e brincar com os dons de sua mente.
Natan jamais vira coisa tão grande como aquela cosmonave, e seu medo fê-lo considerar a grande nave como seu inimigo. Sua mente, porém, lhe dizia que a espaço-nave era um ser inanimado e assim, não podia ser nem amigo, nem inimigo e que era apenas questão de tempo, pois em breve estaria acostumado com aquele ambiente diferente.
Seu amigo, o estranho, lhe pedira para vir com ele até o grande salão da nave, que ele chamava de sala de comando. Um bom número de outros amigos estavam presentes para verem como um espírito abandona o corpo e vai para onde quiser.
Seu amigo lhe havia explicado que devia procurar atingir um mundo que flutuava invisível em qualquer ponto do espaço diante da espaçonave Drusus. Em circunstâncias normais, Natan teria dito um não a este pedido, pois o mundo invisível não lhe interessava. Por que motivos haveria ele de procurá-lo? Mas o estranho era seu amigo e não se recusa um pedido de amigo.
As enormes placas metálicas com que os terranos fechavam os compartimentos de sua nave se afastaram quando Natan chegou ao posto de comando. Viu seu amigo na outra extremidade da sala, lhe acenando sorridente. Viu ainda um grande número de outros amigos, de pé ao lado de seu maior amigo.
Natan chegou até ao meio da sala e ali ficou deitado.
Já havia combinado tudo com Rhodan, tudo que ele iria fazer no espaço. Não havia mais nada para ser explicado. Natan relaxou seu enorme corpo e começou a desprender o espírito do seu invólucro material.
Ele mesmo não sentia nada, pois afinal, seu espírito era tudo, era com ele que pensava, que sentia, que se exprimia. O corpo participava apenas de processos mecânicos ou químicos. Natan sabia de tudo isto, embora não conhecesse propriamente a Mecânica e a Química.
Este corpo, ele o foi deixando para trás...
Concentrou-se no semblante de seu amigo e, com seu avançado dom de imitação, tomou suas formas físicas. Seu tamanho, de início era pequeno, pouco mais de um pé de altura. Mas bem nítidos eram nele os traços fisionômicos de Perry Rhodan. Depois foi crescendo e, com isso, se tornando transparente. Olhou em volta e ficou contente ao ver a expressão de estupefação no semblante dos circunstantes, quando formou uma cabeça bem semelhante à de seu amigo Rhodan, embora não tivesse o tempo suficiente para caprichar mais nos pequenos detalhes.
Depois, se pôs a caminho daquele mundo invisível que devia estar flutuando lá fora, na escuridão do espaço sem fim.

* * *

— Uma das mais originais formas de vida! — disse alguém, logo depois que Natan tinha saído, deixando ali seu corpo inerte, bem no meio da sala de comando.
— Nem tão original assim, como talvez se possa imaginar — disse Rhodan. — Extraordinário é, sem dúvida, seu dom de separar o espírito do corpo. Mas o que nos faz voltar tão chocantemente às recordações e ao medo de assombrações de nossa infância tem provavelmente uma explicação bem natural.
Todos olhavam atentos para Rhodan.
— É claro que o espírito é uma formação imaterial — continuou Rhodan. — O que vocês pensam que era uma espécie de névoa, se é que chegaram a este pensamento, não o era, realmente. O espírito não é propriamente outra coisa do que um campo, sobre cuja natureza pouco sabemos, aliás, um campo com inteligência inata. O que nós vimos foi tão-somente o efeito que este campo produziu em volta de si. Parece existirem aí forças que alteram, por exemplo, o índice de refração do ar. Desta maneira, o quadro se torna visível. O trecho da alteração no índice de refração nos aparece então como névoa.
“Chocante, porém, é a propriedade do campo de se refletir nos objetos que lhe estão em volta e mesmo de se identificar com eles. Vocês repararam que Natan tomou minhas formas, procurando formar um rosto igual ao meu. Estou convencido de que ele chegaria a uma perfeição total, caso tivesse mais tempo. Não queiram saber como eu e o Atlan nos assustamos quando vimos pela primeira vez, diante de nós, um espírito de Solitude.”
Ninguém perguntou nada. A explicação de Rhodan fora concisa e clara, mas o fenômeno em si continuava inconcebível. Quase todos continuavam olhando na direção para onde desaparecera o espírito de Natan, para dentro da escuridão do infinito, onde não havia nada que pudesse alterar o índice de refração e assim possibilitar a visão do seu espírito.

* * *

Foi a primeira vez que Natan se viu no espaço livre, mesmo assim não sentiu nada de extraordinário. No início, naturalmente, experimentou uma certa curiosidade, mas, depois que percebeu que não havia nada de mais em tudo aquilo, perdeu logo a curiosidade inicial. Movimentava-se na direção que lhe fora indicada, esperando que alguma coisa lhe surgisse à frente.
Não podia saber qual a velocidade de seu deslocamento, mas de qualquer forma fazia esforço para ir mais depressa. Depois de um certo tempo, sentiu uma espécie de onda ou correnteza que o atingiu, puxando-o para frente. Estranhou um pouco o fenômeno, pois em toda a sua existência como espírito separado do corpo jamais fora submetido a influências mecânicas.
Afinal de contas, no estado em que se achava, não havia nada de matéria nele, que pudesse ser sugada ou tocada por corrente de ar ou de qualquer outra coisa. Assim, a curiosidade lhe aflorou novamente, abafada logo depois por um vago pavor do que lhe estava à frente, do que o puxava, sem poder ser visto.
De repente, sentiu vontade de voltar para a grande espaçonave que havia desaparecido atrás dele e que parecia apenas mais uma estrela entre as muitas que, com suas luzes calmas, interrompiam o manto negro do espaço.
Agora, porém, seria muito tarde para voltar. A onda ou correnteza estava mais forte. Desistiu de tentar qualquer resistência e se deixou levar.
Viu subitamente emergir alguma coisa à sua frente, parecendo, no começo, uma mancha clara, sem contornos definidos. Natan observou que estava sendo puxado de encontro à mesma.
A mancha ia aumentando de tamanho, deixando ver cada vez mais nítidos seus contornos, parecendo uma coisa hemisférica de grandes proporções. Aproximava-se dela a uma velocidade que lhe incutia medo. Poucos instantes após, o corpo hemisférico estava tão volumoso que não podia ser abrangido com a vista. Em compensação, viu amplas planícies, aparentemente recobertas de capim, grandes florestas, rios, lagos e mares. Viu um conglomerado de formas regulares, que pareciam ser artificiais e, provavelmente, seriam o que seu amigo descrevera como cidades.
Viu também nuvens que passavam abaixo dele, bem lentamente. Mas estava vendo tudo isto como através de um véu. Não tinha uma visão completamente nítida. Devia haver alguma coisa entre ele e o chão lá embaixo.
No último instante ainda viu, mas não teve mais tempo de reagir: uma muralha transparente se abateu contra ele.
Era realmente uma parede, que julgara antes se tratar de um véu, que lhe prejudicava um pouco a visão. Foi tomado por um choque violento, quando encontrou-se com ela, sentindo que estava penetrando em algo resistente e macio ao mesmo tempo.
Tudo isso o deixou muito confuso.
Durante alguns segundos, teve a impressão de estar sendo aprisionado. De repente, porém, não havia mais nada em torno dele, a própria correnteza não existia mais. Natan olhou para o alto vendo bem perto de si o invólucro cintilante que acabara de atravessar.
Não sabia de que era feito aquilo, mas já que não lhe havia causado nenhum mal, não tinha maior importância para ele. Continuou sua descida, rumo ao solo.
Depois de percorrer a metade do trajeto, começou a sentir, inesperadamente, uma sensação de alegria, vinda de longe. Não sabia explicar o fenômeno, até que compreendeu que não era ele quem estava possuído de alegria, mas um outro alguém que lhe transmitia telepaticamente seu contentamento. Natan ouviu os gritos estridentes que ele e seus semelhantes costumavam emitir ao se sentirem possuídos de uma grande alegria. Confuso, procurou se explicar de que maneira teria algum membro de sua raça chegado até este mundo diferente.
Finalmente chegou à conclusão de que sempre que alguém transmitia sua alegria por via telepática — independente da verdadeira ressonância da expressão da alegria ou da gargalhada — seria ouvido constantemente em forma de gritos estridentes. Não havia nenhum ente de sua raça neste planeta. Mas devia existir ali alguém que estava alegre e queria transmitir seu contentamento.
Estava ansioso por saber o que iria acontecer, enquanto “caminhava” em direção ao planeta. Uma voz lhe interrompeu os devaneios.
— Meu pobre amigo — disse-lhe a voz possante — onde você foi cair? Não sabe que não conseguirá mais voltar? Deixou seu corpo para trás e nunca mais haverá de encontrá-lo.
Natan levou um susto, não propriamente pela idéia de ter de continuar sua existência como espírito sem corpo, mas pelo fato de que o estranho o conhecia.
— Como é que você sabe disso? — perguntou perplexo.
— Meu pobre amigo, não percebeu o campo de sucção que o puxou para cá?
Natan não podia saber o que era campo de sucção, mas de qualquer modo, entendeu o pensamento do estranho.
— Sim, percebi sim, mas que importância tem isto?
— Você não estava em condições de reagir?
— Não, era forte demais para mim.
— Está vendo? Como é então que pretende sair daqui? Você devia ter vencido o campo de sucção e voltado para o seu supercouraçado. Mas não conseguiu, não foi?
— Pode ser... Mas isto, no momento, não tem maior importância. Meu amigo me virá buscar, quando chegar a hora Quem é você?
— Sou o senhor deste mundo, não tenho nome.
— Você não pode desligar o campo de sucção?

— Não, não posso. Posso fazer muita coisa, mas o campo de sucção está fora de minha alçada. Pobre amigo, você terá que ficar aqui.

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