Autor
KURT MAHR
Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Num planeta situado no semi-espaço,
tornavam-se verdadeiros gigantes.
Para dois grandes líderes do Império Solar, o ano 2.042 era uma data
decisiva. Era exatamente o ano em que Perry Rhodan e Reginald Bell deviam impreterivelmente
se submeter a uma segunda ducha celular, se não quisessem, dentro de poucos dias,
ter um fim verdadeiramente lastimável!
Levando em conta o fato de que a trajetória elíptica do planeta da
imortalidade já tinha sido bem calculada, e o de que a terapia celular de outros
homens de grande merecimento havia sido renovada sem nenhuma complicação, Perry
Rhodan não viu razão para antecipar sua partida para o planeta Peregrino...
No entanto, a corrida desenfreada através das dimensões lhe veio mostrar
o engano...
Para conseguir chegar ao planeta da imortalidade, dentro do prazo certo,
era-lhe necessário passar pelo semi-espaço, ou espaço intermediário, pela região
incerta e instável entre a quarta e a quinta dimensão. Mas, no semi-espaço, a morte
espreitava...
= = = = = = = Personagens Principais: =
= = = = = =
Perry Rhodan
— Administrador do Império Solar:
Reginald Bell
— Que se torna um gigante.
Atlan — O arcônida imortal que fere as regras da
lógica matemática,
Mike Tompetch — Auxiliar de Bell.
Ele ou Aquilo—
Síntese mental do planeta Peregrino.
Natan — O afetivo ser do planeta Solitude.
1
Olhando para a tela verde-escura do aparelho
de rastreamento, Perry Rhodan constatou que, no local onde devia estar um planeta,
o espaço achava-se completamente vazio.
Ainda há pouco, o supercouraçado Drusus havia
realizado uma transição de alguns anos-luz do local onde estava agora. Esta transição
deveria ter terminado num âmbito de dez minutos-luz do local, onde, conforme os
cálculos dos matemáticos, se encontraria no momento o misterioso planeta Peregrino.
Neste planeta é que existia o fantástico fisiotron, conservador da juventude.
Só no Planeta Peregrino é que havia a tal instalação
miraculosa, capaz de injetar nas células do corpo humano uma nova substância para
protegê-las contra o envelhecimento. Ele, o senhor do planeta Peregrino, a conscientização
acumulada de uma raça há muito extinta, tinha concedido a Rhodan o privilégio de
se submeter ao tratamento da ducha celular, pela primeira vez, privilégio este que
Rhodan podia outorgar a seus companheiros, caso julgasse conveniente. Isto exatamente
há sessenta e dois anos.
Com toda clareza, o Ser lhe explicara sobre
a necessidade da renovação do tratamento antes do término destes 62 anos, caso não
quisesse envelhecer de uma hora para a outra. Os sessenta e dois anos expirariam
dentro de oito dias.
Perry Rhodan perdera um tempo precioso procurando
a posição do planeta Peregrino numa dimensão temporal errada. Somente agora, no
último minuto, foi que lhe chegou às mãos a indicação da posição galáctica do planeta
Peregrino. A espaçonave partira imediatamente.
Estudando-se a situação com calma, chegar-se-ia
à conclusão clara de que o planeta Peregrino se encontrava, no máximo, a uma distância
de dez minutos-luz, ou seja, a cento e oitenta milhões de quilômetros do supercouraçado
Drusus. Assim diziam as informações do robô dos druufs, recentemente capturado,
não restando nenhuma dúvida quanto à exatidão dos dados.
No entanto, apesar de Perry Rhodan haver ampliado
o raio de alcance do aparelho de rastreamento para vinte e cinco minutos-luz, não
via nada. O espaço continuava vazio e morto.
* * *
A sala de comando da Drusus estava completamente
lotada.
Intensa atividade reinava em todos os setores
de cujos aparelhos se pudesse esperar qualquer solução para o inquietante mistério
do desaparecimento do planeta. Rastreadores, goniômetros de ondas curtas ou de hiper-rádio
varriam a imensidão do espaço, mas não havia eco em parte alguma. Continuava o incompreensível
desaparecimento do planeta Peregrino.
Entrementes, o setor de astronavegação comunicava
que a transição tinha sido perfeita e que o supercouraçado se encontrava, com uma
margem desprezível de erro, no local predeterminado. Parecia haver agora uma única
explicação para tudo isto: Seriam então falsos os dados fornecidos pelo robô dos
druufs, recentemente capturado?
Ou os próprios druufs não sabiam para onde
tinha ido o planeta?
O primeiro pálido indicio do destino do mundo
artificial veio de um lado de onde ninguém podia esperar.
Enquanto Perry ainda estava ocupado em ampliar
para cinqüenta minutos-luz o raio de ação dos aparelhos indicadores dos campos gravitacionais,
acendeu-se na tela do intercomunicador, colocada em frente ao piloto, uma luz vermelha.
Num movimento quase mecânico da mão direita, Rhodan ligou, meio distraído, ou melhor,
abstraído, o videofone. Ainda meio abstraído, olhou para o rosto que aparecia na
tela.
— O setor de rastreamento estrutural, sargento
Sullivan, Sir — anunciou o homem. — Os aparelhos registram algo que nunca observamos
antes. Achei-o tão importante que quero transmitir-lhe diretamente.
Rhodan fez um gesto de anuência. Ainda lhe
parecia improvável que exatamente os rastreadores estruturais pudessem descobrir
qualquer coisa que tivesse relação com o desaparecimento do planeta Peregrino. Mas,
na situação em que estava, não se podia dar ao luxo de deixar de lado qualquer indício,
por menor que fosse.
— Descreva-me suas características, sargento,
depois ligue o oscilograma cá para o intercomunicador. Ou será que não há oscilograma?
Pela fisionomia desanimada de Sullivan, podia-se
supor que sua mensagem não era nada boa.
— O oscilógrafo parece estar quebrado. Rhodan
sorriu.
— Mesmo assim, experimente.
O rosto de Sullivan desapareceu. Passaram-se
alguns segundos até que o sargento conseguiu restabelecer o contato com o oscilógrafo.
A tela iluminou-se de novo. Podia-se ver o emaranhado das coordenadas do painel
do oscilógrafo e pela tela notava-se apenas um trançado confuso de linhas sinuosas
e irregulares, em constante sobe-e-desce. O sargento Sullivan começou sua explicação.
— Sir, uma determinação normal da posição consiste
num único feixe de ondas que ora é mais curto ou mais longo, dependendo da distância
e do tamanho do objeto visado e também ainda de acordo com a velocidade residual
com a qual o objeto se lança no contínuo quadridimensional. O feixe demonstra a
estrutura de uma vibração amortecida: grandes amplitudes no início, depois um declínio
exponencial.
“Mas isto não está acontecendo aqui, Sir, como
está vendo. Encontramo-nos aqui diante de um processo sem amortecimento. As amplitudes
das diversas vibrações estão, pelo menos, cem vezes menores que as da mais fraca
onda já registrada. A determinação da posição começou há uns quinze minutos, e,
de lá para cá, permanece inalterada. O tempo máximo de uma orientação normal, se
posso me exprimir assim, fica em torno de alguns milésimos de segundo.
Rhodan ouviu tudo com atenção, estudando ao
mesmo tempo aquele tipo irregular de onda. A explicação do sargento Sullivan foi
completa. Rhodan não podia acrescentar mais nada ao quadro descrito.
— Sargento, você tem alguma sugestão, ou digamos,
alguma idéia para explicar o surgimento deste fenômeno?
Sullivan hesitou um pouco na resposta:
— Não, senhor, não tenho nenhuma idéia. Apenas...
Rhodan aguardou com paciência até que Sullivan
venceu sua hesitação.
— ...dá impressão, senhor, de que há alguma
coisa no espaço em volta que deseja sair pelo hiperespaço afora, mas não chegou
ainda a se decidir. Quem sabe, suas energias não são suficientes para isto, ou talvez
o piloto queira primeiro fazer uma experiência, com muita cautela. Mais não posso
dizer, Sir.
— Você tem razão. Poder-se-ia mesmo chegar
a esta idéia — disse Rhodan em tom afável. — Sargento, leve as fotografias do oscilograma
para os matemáticos e peça para eles fazerem a interpretação.
Dizendo isto, desligou a tela. O trançado confuso
e esquisito desapareceu da tela, mas não da cabeça de Rhodan, onde começou a provocar
pensamentos absurdos.
Mas, quanto mais refletia, menos absurdos se
tornavam os pensamentos, não tinham realmente nada de impossível, principalmente
se tomarmos em consideração que se tratava de um fenômeno jamais constatado em outro
lugar, ou seja, a passagem de um planeta por uma dimensão temporal completamente
diferente.
As idéias pululavam na cabeça de Rhodan. Mas,
ao olhar para o calendário automático, percebeu que o tempo não seria suficiente
para estudar detalhadamente cada uma delas, a fim de escolher a mais plausível.
Tinha de experimentá-las concretamente.
* * *
— Tenho receio — disse Rhodan — de que os problemas
que surgiram com o desaparecimento do planeta Peregrino sejam um tanto obscuros.
E para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de estudar as teorias sobre
as diversas dimensões do tempo, os problemas podem tornar-se incompreensíveis. No
entanto, a exigüidade do tempo não nos permite entrarmos agora no campo das teorias
e longas explicações.
“O planeta Peregrino atravessou uma dimensão
temporal estranha. Os druufs conseguiram prendê-lo, mas Ele, o invisível senhor
do mundo artificial, foi capaz de pregar uma peça nos druufs, quer dizer: soube
enganá-los. Assim, o planeta Peregrino, acompanhado de seu satélite, conseguiu escapar
do plano temporal dos druufs, por um outro lado.
“Naturalmente este truque não deu um resultado
perfeito e algo de especial deve ter acontecido ao planeta Peregrino, ao deixar
o plano temporal que lhe era estranho. Não se encontra por aqui, neste espaço. Talvez
tenha carregado um pedaço do plano temporal dos druufs, criando em torno de si uma
instabilidade espacial. Não o sabemos ao certo, temos de averiguar.
“Os senhores estão vendo aqui um daqueles conjuntos
de lentes, por meio dos quais nos foi sempre possível até hoje penetrar várias vezes
em dimensão temporal estranha.”
Rhodan apontou para um pequeno aparelho com
o formato de uma caixa retangular, que estava bem em frente, sobre a mesa. Mostrou
também dois focos de luz de um brilho leitoso, pairando imóveis no ar, com a orla
inferior bem rente ao chão.
— O Tenente Rous — continuou ele — se apresentou
voluntariamente para executar esta experiência. Somente podemos desejar que ele
seja bem sucedido e consiga atingir o planeta Peregrino desta maneira.
Marcel Rous deu alguns passos à frente. Vestia
um conjunto espacial e já estava de capacete aparafusado.
Notava-se que ele não se sentia muito bem.
O conjunto de lentes, também conhecido como campo de refração, criava uma espécie
de ponte entre duas dimensões de tempo, nos casos em que houvesse um cruzamento
de dois planos de tempos diferentes ou tivesse havido anteriormente.
— Se o planeta Peregrino levou uma parcela
da dimensão temporal estranha e estiver no espaço adjacente, Rous haverá de desaparecer
assim que ultrapassar o primeiro foco de luz e se materializar novamente no planeta.
Em caso negativo, pois até hoje nenhum homem fez tal experiência, ninguém poderá
dizer como atuará o campo de refração — comentou Rhodan.
Pela última vez, Rous apalpou a arma que trazia
do lado direito. Fez uma saudação rápida e atravessou o foco de luz. Por um instante,
Rhodan teve a impressão de que Rous havia desaparecido, mas depois viu primeiro
uma perna, depois a outra e finalmente o corpo todo do tenente, do outro lado.
A experiência fracassara. A primeira idéia
de Rhodan não foi certa. Rous estava perplexo. Via-se, através da viseira do capacete,
o susto estampado em seu rosto.
Alguém começou a rir. Mais um se juntou a este
até que a terrível tensão nervosa se desfez numa vibrante gargalhada. O próprio
Rous começou a rir também, o que se ouvia nitidamente pelo alto-falante externo
do capacete.
O único que não acompanhou o riso geral foi
Rhodan. Estava olhando para o calendário.
Era o dia 24 de abril, pouco mais de duas horas
da madrugada, horário da Terra. Sobravam-lhe ainda cento e noventa horas para descobrir
o que estava se passando com o planeta Peregrino e para chegar até o fisiotron,
o miraculoso aparelhamento que proporcionava a ducha celular.
Lembrou-se da segunda idéia. O planeta não
estaria mais se movendo numa dimensão temporal estranha. Estaria no mesmo plano
de tempo da Drusus, como a Terra e bilhões de estrelas que apareciam na tela. Se
o planeta Peregrino não pudesse ser atingido por meio do campo de refração, então
alguém com suas próprias forças o haveria de alcançar.
Os mutantes deviam entrar em ação.
* * *
Ras Tschubai sabia muito bem o que Rhodan estava
exigindo dele. Até hoje não tremera diante de nenhuma missão, por mais arriscada
que fosse.
Hoje, porém, sem que o pudesse explicar, um
temor indefinido minava-lhe a força e intrepidez de sempre.
Rhodan deixou-lhe ampla liberdade para recusar
a missão, isto é, o salto. Explicou-lhe friamente a situação, que a teoria da teleportação,
se é que havia mesmo uma tal teoria, não tinha meios para afirmar ou negar o sucesso
do salto intencionado.
Ninguém poderia prever o que aconteceria quando
o corpulento e pesado africano mobilizasse suas forças mentais e tentasse atingir
o planeta Peregrino num salto de teleportação.
Apesar de tudo, Ras Tschubai estava resolvido
a tentar o salto. Já colocara o uniforme espacial e se apresentara na sala de comando.
Os oficiais em volta pareciam querer incutir-lhe coragem e otimismo. Mas Ras sabia
que isto de nada adiantava na hora do perigo.
Que poderiam fazer por ele?
O que seus dons paramecânicos dominavam, se
desenrolava num espaço mais elevado, de cinco dimensões. Se lhe acontecesse alguma
coisa por lá, estaria perdido. Continuaria um ser desmaterializado que por toda
a eternidade vagaria num universo quase sem luz, onde não haveria nada, fora dele
mesmo.
Ras Tschubai cerrou os olhos e se concentrou.
Sabia onde tinha de procurar o planeta. Os técnicos dos rastreadores estruturais
já haviam identificado de onde vinham os singulares e confusos sinais de instabilidade
espacial.
Obrigou seus pensamentos a se dirigirem para
lá, para onde devia pular.
Não era mais hora de ter medo e de desperdiçar
a força da concentração em sentimentos bobos e negativos. Devia ver alguma coisa,
no mínimo os contornos de seu objetivo, para iniciar o salto.
A escuridão diante de seus olhos começou a
diminuir. Via círculos coloridos bailando ao longe, nas trevas, e via surgir uma
mancha sem cor definida. Esta mancha lhe chamou a atenção, pois, se havia mesmo
um objetivo, tinha de ser esta mancha esmaecida.
Impaciente, Ras Tschubai começou a tremer.
Sentiu como o suor lhe escorria pela face e como a umidade era absorvida pela instalação
de climatização do uniforme, ficando na pele apenas uma delgada camada de sal, que
chegava a sentir quando franzia a testa. Com um pequeno afrouxamento da atenção
concentrada, a mancha esmaecida desapareceu.
“É inútil”,
pensava ele desesperado, “não vou conseguir.”
Por uns instantes concentrou sua atenção nos
círculos coloridos que bailavam antes da mancha esmaecida, e que não eram outra
coisa senão uma ilusão de ótica, provocada pela compressão dos olhos.
Tentou acompanhar seu bailado naquele palco
escuro, tentando calcular seu número. Isto o ocupou de tal maneira que chegou a
esquecer o que lhe estava em volta. No momento em que deu de novo com a mancha esmaecida,
viu-a mais ampla e mais clara que antes. Mirou-a fixamente e, quando reparou que
nada mais o detinha, transmitiu ao cérebro o impulso de largada.
— Agora!
A mancha esmaecida, girando a uma velocidade
incrível, veio ao encontro dele.
Ras Tschubai sentiu-se transportado pelo próprio
espaço. A escuridão se afastava para as bordas da mancha e depois de uma pequena
pausa, que não podia ser medida, o que havia diante dos olhos de Ras era apenas
a mancha já bem clara, chegando mesmo a ofuscar.
Tschubai queria se materializar, botar os pés
em terra firme e abrir os olhos, como ele sempre fazia ao término de um salto bem
sucedido. Sabia que já tinha chegado ao fim, que estava onde pretendia estar, mas...
ficou perplexo e não entendia o que estava se passando, pois tudo era tão diferente
dos saltos normais...
Procurou “parar” e descer em chão firme. Mas não havia chão onde pudesse apoiar
os pés.
Não havia mesmo nada para tocar. Era sempre
a mesma mancha reluzente como um sol, para onde ele se precipitava. Levantou as
mãos para proteger o rosto, mas não adiantou nada, pois tudo que ele via, continuava
vendo mesmo de olhos fechados, através dos dons parapsicológicos de seu cérebro.
Tinha vontade de gritar, sem se lembrar que ninguém poderia ouvi-lo no espaço infinito.
Mas, neste exato momento, toda a angústia terminou
com uma forte explosão, que atingiu de cheio o corpulento africano, mandando-o para
outra direção.
Conseguiu ver ainda que a mancha brilhante
diminuía cada vez mais e desaparecia ao longe. Ouviu depois um forte ruído, como
o de um impacto de qualquer coisa metálica, e sentiu que os pés se apoiavam em chão
firme.
Foi então que desmaiou.
* * *
Quando voltou a si, ao tentar se levantar,
constatou que não o podia fazer. Estava num compartimento que parecia ter sido construído
sob medida para ele.
Muitos minutos se passaram até recuperar os
sentidos e conseguir concatenar, com grande esforço da memória, os últimos acontecimentos.
Lembrou-se da tentativa de atingir o planeta Peregrino por meio de um salto de teleportação.
O salto foi bem dado e por algum instante teve a impressão de que estava tudo em
ordem.
Depois, veio a tremenda explosão que o atirou
para esta câmara estreita, que mais parecia um caixão de defunto.
Que tipo de câmara era esta? Câmara de quê?
Estaria mesmo no planeta Peregrino, ou em outro lugar?
Procurou virar para o lado, mas nem isto conseguiu.
Chegou a ter a impressão de que as paredes daquele caixão de defunto se estreitavam
mais para estrangulá-lo.
O suor lhe escorria do rosto. Começou então
a gritar, o que, aparentemente, lhe proporcionava algum alívio. Seus gritos lhe
despertaram uma idéia interessante.
Independente do fato de estar no planeta Peregrino
ou não, o capacete de seu uniforme abrigava um transmissor em condições de funcionar.
“Se eu
falar bem alto, devo ser ouvido na sala de comando da Drusus” pensou.
Tinha a certeza de que o receptor-transmissor
estava ligado no momento em que se concentrava para o salto. Lembrou-se de ter ouvido
o zunido alto e fino do pequeno aparelho. Ficou imóvel, parando mesmo de respirar
para ouvir alguma coisa.
No princípio, pensava ouvir o mesmo zunido
de antes. Era um ruído tal qual aquele que surgia quando se fechava o capacete do
uniforme espacial. Picou, porém, indeciso. Segurou a respiração por mais tempo,
para conseguir ouvir melhor. Mas a pressão do sangue aumentou demais nos ouvidos.
Tentou se ajeitar, buscando conforto, se é que se pode falar em conforto naquele
verdadeiro esquife, e continuou na escuta.
Depois de uns minutos, chegou à triste conclusão
de que seu transmissor não funcionava mais. O zunido não existia mais. Devia ter
acontecido alguma coisa com o aparelho transmissor, quando foi catapultado para
o caixão de defunto, feito sob encomenda.
Era uma trágica realidade: o mundo exterior
lhe estava completamente fechado. Não podia nem levantar o braço para acionar o
transmissor de emergência no capacete.
* * *
Na sala de comando da Drusus, a tensão e a
expectativa se transformaram, aos poucos, num cruciante nervosismo.
Ras Tschubai devia, conforme as instruções
que recebera, voltar imediatamente, caso o salto fosse bem sucedido. No entanto,
fazia mais de trinta minutos desde que Tschubai tinha sido visto pela última vez
na cabina de comando e pior do que tudo: não dera nenhum sinal de si.
Reinava, na sala de comando da Drusus, um silêncio
angustioso, destes momentos em que qualquer palavra é inútil.
Que aconteceu ao grande teleportador africano?
Tinha ou não tinha atingido seu objetivo? Por que não voltara ainda? Teria chegado
a um ponto de onde não havia mais retorno? Estes pensamentos deviam ser os mesmos
para todos que ali estavam.
A bordo da Drusus não havia ninguém que pudesse
fornecer um quadro aproximado da situação de Ras Tschubai. Teria ele realizado apenas
uma teleportação só de ida, ou teria seu salto atingido uma zona de instabilidade,
de onde não pudesse mais sair?
Eram seis horas da manhã do dia 24 de abril
do ano 2.042. Restavam ainda cento e oitenta e seis horas para o término da imortalidade
dos dois grandes terranos.
E a única coisa a fazer era esperar... nada
mais que esperar.
* * *
Depois de longos e enlouquecedores segundos
de pânico, Ras foi voltando paulatinamente ao trilho bem pisado do raciocínio lógico.
Começou a se interessar pelo local onde se encontrava, procurando um caminho para
sair do estranho caixão de defunto para onde fora arremessado. Foi só então que
percebeu que, onde estava sua cabeça, devia haver um pequeno orifício, por onde
entrava um tênue raio de luz. Até então, não tivera o cuidado de perguntar a si
mesmo de que maneira chegava ali, naquele caixão fechado, a fraca réstia de luz.
Aquela iluminação deficientíssima lhe possibilitou reconhecer que as paredes do
diminuto compartimento eram de metal plastificado e, aliás, a composição molecular
continha tantos componentes metálicos que o tornavam altamente condutor.
Procurou então se lembrar de todos os instrumentos
ou instalações em que se empregava este tipo de metal plastificado azul. Foi então
que lhe passou pela cabeça que o ferro plastificado, como era chamado geralmente
este material azulado, era um produto de origem terrana, fabricado de acordo com
a tecnologia arcônida.
Mas seria possível afirmar que este material
estava sendo usado no planeta Peregrino? De maneira alguma.
Partindo deste raciocínio, Ras chegou bem depressa
à conclusão de que ele não podia estar nesse planeta, mas sim que, após a explosão
da mancha esmaecida, que tinha sido realmente o objetivo de sua teleportação, havia
sido projetado de volta para a Drusus.
Esta descoberta o deixou bem mais aliviado.
Começou então a coordenar seus pensamentos,
para se lembrar de qual setor da grande cosmonave fazia parte este compartimento
que era no momento sua apertada prisão. Agora que seus olhos já se tinham adaptado
melhor à escuridão, conseguiu ver na cobertura as estrias distribuídas em intervalos
regulares e, ao virar a cabeça para o lado, notou que continuavam também nas paredes
laterais.
Este tipo de estrias não lhe era estranho,
estava se lembrando de tê-las visto freqüentemente, há muito tempo atrás. Sempre
foi de praxe que os mutantes conhecessem bem as instalações técnicas das naves em
que passavam grande parte de sua vida.
“As estrias”,
lembrou-se ele, “têm uma finalidade específica:
subdividem os aposentos em câmaras diminutas, nos assim chamados ressonadores côncavos,
cuja função é aparar os impactos e as vibrações de um hipercampo energético, que
se abatem contra a espaçonave, e amortecê-los em contínuas reflexões nas paredes
divisórias dos múltiplos ressonadores.”
Num verdadeiro estalo cerebral, irrompeu na
cabeça de Ras Tschubai uma certeza ululante.
“Encontro-me
no interior de um compensador estrutural, aquele aparelho ou instalação importante
destinado a absorver os choques energéticos provocados no momento da transição e
ao mesmo tempo com a finalidade vital de tornar impossível a determinação de posição
ou de direção da espaçonave em salto de transição”, afirmou mentalmente.
Estava, pois, numa destas câmaras de ressonadores,
onde se amorteciam milhares de quilowatt-horas, quando a Drusus entrava em transição
ou penetrava novamente no espaço normal.
Bastaria que alguém tivesse a idéia de executar
um hipersalto com a Drusus, e a vida do pobre Ras Tschubai estaria tão bem protegida
como a de um homem atingido cem vezes consecutivas por descargas de raio.
Gemeu de dor, ao tentar virar-se um pouco.
Quase perdeu os sentidos de tanta dor, misturada com um tremendo pavor. Sabia que
não tinha nenhuma possibilidade de escapar dali por força própria. Nada podia fazer.
Mesmo no estado de inatividade, os compensadores estruturais estavam envoltos num
campo residual de cinco dimensões e estes campos residuais continuavam uma barreira
intransponível, mesmo para o teleportador Ras Tschubai.
* * *
Perry Rhodan continuava remoendo uma idéia
impertinente. Conhecia um dos grandes teoremas da paramecânica, um dos poucos que
pairava absoluto acima de qualquer dúvida: “Saltos
de teleportação e movimentos telecinéticos não podem alcançar nenhum objetivo que
esteja num espaço de dimensão mais elevada do que o de onde partiram estes mesmos
saltos ou movimentos.”
Em outras palavras: um teleportador, partindo
do espaço normal, não pode jamais atingir um objetivo que esteja num espaço de cinco
dimensões. O próprio Ras Tschubai já havia feito esta experiência, há muitos anos
atrás, quando, em Ferrol, tentou penetrar no túnel do tempo. Foi cuspido para fora,
com tremenda violência.
“Será
que o teorema da inatingibilidade dos espaços fora da dimensão conhecida tem alguma
relação com a solução do enigma do desaparecimento de Ras Tschubai? Será que o planeta
Peregrino teria penetrado no hiperespaço, não permitindo que o africano o alcançasse?”,
pensava Rhodan.
A pergunta não tinha base científica, pois
se o planeta estivesse no hiperespaço, Ras voltaria imediatamente para o ponto de
partida de seu salto. Além disso, não seria possível continuar recebendo do planeta
Peregrino aqueles sinais que a estação dos rastreadores estruturais ainda registrava.
Portanto, o caso era mais complicado do que se imaginava.
Por outro lado, se o planeta estivesse no espaço
normal, Tschubai o teria alcançado com facilidade e já estaria de volta. Sem falar
no fato de que os rastreadores, naturalmente, já teriam detectado o planeta do mundo
artificial.
Nada fazia sentido. Que enigma desagradável!
As idéias de Perry Rhodan se voltaram novamente
para a explicação do sargento Sullivan.
...como se existisse lá uma coisa que gostaria
muito de ir para o hiperespaço, mas não conseguia se decidir a respeito... Que havia
de certo nisso? Será que entre o espaço normal e o hiperespaço existia uma dimensão
contínua que pudesse ser a causa da estranha reação dos rastreadores estruturais
e do desaparecimento de Ras Tschubai?
A idéia parecia um mero produto da fantasia.
Imaginar-se um quadro onde as proporções fossem de quatro e meio ou de quatro vírgula
três dimensões, era não só impossível, como também ridículo, parecia, pelo menos
assim, pois sempre fora costume designar a seqüência das dimensões de tempo em números
redondos ou inteiros.
Mas, impossível e ridículo ou não, havia a
bordo gente que podia quebrar a cabeça com esta questão, utilizando-se da positrônica.
Deu as instruções a respeito, vendo como os
matemáticos franziam a testa, como se a simples suposição de um espaço com quatro
dimensões e meia lhes causasse dores físicas. Inculcou-lhes a importância do assunto,
pedindo-lhes que usassem toda sua técnica para obter um resultado plausível.
Depois disso, pareceu-lhe que um enorme peso
tinha-lhe saído dos ombros. E quanto mais Rhodan refletia, menos ridículo tudo lhe
parecia. Continuou pensando no que podia fazer ainda para solucionar o mistério
do planeta Peregrino...
Caso o planeta do mundo artificial estivesse
mesmo numa interdimensão, que aconteceria então se a Drusus realizasse uma transição
através dele?
Esta pergunta não tinha uma resposta clara.
A única clareza era de que a grande nave passaria incólume se houvesse certeza de
que o planeta Peregrino se encontrava ou no espaço normal ou no hiperespaço. O que
havia entre estes dois pólos, livres de perigo, devia ser algo também sem perigo,
pelo menos conforme as suposições de Rhodan.
Para não se expor a nenhum risco, ordenou ao
posto de segurança que desse o máximo de carga ao envoltório de proteção da Drusus.
O posto de comando também foi informado de que, neste setor do espaço, as dificuldades
da determinação de posição seriam as mesmas que em outros saltos, em conseqüência
dos abalos estruturais durante a transição.
Os compensadores estruturais estavam de prontidão
para receber e absorver os choques energéticos na passagem do hiperespaço.
* * *
Ras Tschubai trabalhava agora num quase estado
de transe hipnótico. É claro que o medo não diminuíra, mas também não impedia mais
o raciocínio, pelo contrário, dava-lhe mais força para realizar coisas que jamais
faria em circunstâncias normais. Seu subconsciente esperava para qualquer momento
a descarga energética mortal, que, como ele sabia, haveria de penetrar pelo condutor
oco, isto é, pelo mesmo orifício por onde lhe vinha a fraca claridade da câmara
de ressonância.
Havia apenas um tênue fio de esperança para
Ras Tschubai ser percebido pela Drusus e assim ser salvo. Para isso lhe seria indispensável
uma coisa praticamente impossível: teria que conseguir levantar o braço esquerdo
até que sua mão atingisse o contato de emergência do pequeno transmissor, colocado
na metade esquerda do capacete, bem na região da orelha.
Depois de seu salto mal sucedido, Ras Tschubai,
quando voltou a si, se viu deitado na diminuta câmara, como um defunto no caixão,
isto é, de costas e com os braços esticados e espremidos para frente, no sentido
dos pés.
Não tinha, pois, quase nenhuma possibilidade
de se mover ali dentro. Ser-lhe-ia totalmente impossível levar a mão até o capacete.
Já tentara se virar, mas inutilmente, pois a largura de seu corpo era o dobro da
altura da câmara. Com muito cuidado, já havia conseguido trazer a mão direita até
a barriga, na altura da fivela do cinto. Passar daí seria impossível porque o cotovelo
esbarrava na impiedosa parede do lado direito. No entanto, parecia este o único
jeito que lhe sobrava. Expeliu todo o ar do pulmão para fora, esperou até que a
instalação automática de aeração o tivesse absorvido e até que o pesado uniforme
do espaço cedesse um pouco, tomando a forma do ventre chupado. Fez com que a mão
direita pousasse na borda superior do duro cinto plástico.
O suor lhe invadia, inclusive, os olhos, antes
de ser absorvido pela instalação. Uma dor lancinante parecia lhe estraçalhar a articulação
do cotovelo. Apesar disso, deixou a mão onde estava, depois respirou novamente.
A dor no cotovelo aumentava, e os pulmões não tinham espaço suficiente para respirar.
Foi aí que Ras Tschubai teve uma idéia.
Será que ficaria impedido de erguer o braço,
caso ele fraturasse o cotovelo ou o antebraço? Segurou a respiração o mais que pôde,
depois soltou o ar e esperou novamente com impaciência que a instalação de seu uniforme
reagisse e, com a barriga chupada, o espaço aumentasse. Empurrou então a mão mais
para frente. Seu corpo estava todo banhado em suor e o zumbido fino do aparelho
de aeração, que não conseguia evaporar tão depressa tanto suor, o incomodava como
um enxame de abelhas. Não era qualquer um que poderia conseguir, com suas próprias
forças e, em estado de plena consciência, quebrar o próprio braço.
Mas Tschubai sabia que não lhe restava outra
alternativa.
A dor na articulação do cotovelo quase o fez
perder os sentidos. Mas o desmaio veio, quando se ouviu um pequeno estalo de osso
e uma onda de dor atroz lhe invadiu o corpo todo.
Porém no subconsciente, falou mais alto o instinto
de conservação e logo depois ele voltou a si. Abriu os olhos e se viu num mundo
cujos contornos estavam em confuso movimento, como que no meio de densa neblina.
Sentia-se mal, mas sabia que ainda podia mover a mão direita, embora, em todo o
braço, não sentisse outra coisa do que uma dor única e penetrante, e os dedos estavam
dormentes.
Centímetro por centímetro, a mão quase sem
tato foi subindo peito acima. Atingiu primeiro o fecho magnético do bolso superior
esquerdo e logo depois o ombro esquerdo, continuando pelo pescoço. Era inacreditável
com que facilidade a mão podia caminhar enormes distâncias, com o braço fraturado.
Apesar de toda a dor, houve alegria no rosto
de Tschubai ao ouvir o ruído metálico da mão atingindo o capacete. Ajudou-o a suportar
melhor o momento difícil. Continuou avante com a mão e depois se deteve por um instante,
pois já havia passado pelo mais difícil e não queria se arriscar pela pressa a fazer
algo errado e ou mesmo, num golpe desastrado, perder de novo os sentidos.
Ouviu de repente um ruído. Começou com um zumbido
surdo, foi aumentando e se transformou num assobio claro. Seus olhos se turvaram.
Alguém havia ligado o compensador da grande nave.
* * *
O africano ainda não voltara.
Eram exatamente oito e meia da manhã do dia
24 de abril de 2.042. Atlan, o arcônida, tinha se unido ao grupo dos matemáticos
e estava ajudando muito na solução do misterioso acontecimento.
A Drusus estava preparada para o salto. Os
dados para uma transição curta de poucos minutos-luz através do espaço já estavam
no posto de comando e foram programados para o piloto automático. O envoltório de
proteção tinha sido reforçado de tal maneira que não haveria nenhum risco, mesmo
que o planeta Peregrino, pairando entre dois espaços diferentes, pudesse causar
transtornos.
Já se achavam ligados os compensadores estruturais
e prontos, portanto, para absorver o choque duplo e impedir a propagação das vibrações
do impacto.
Rhodan estava prestes a dar a ordem de partida,
pois todos já encontravam-se em seus postos e, nos alto-falantes, soavam os comandos
de prontidão para o arranque imediato. Como sempre, ocorria a nervosa expectativa
de todos para o choque que precede à desmaterialização.
Para iniciar o salto bastava apenas que Rhodan
comprimisse o botão vermelho, que punha em movimento, ato contínuo, o complicado
mecanismo do sistema de regulagem positrônica, enviando milhares de impulsos para
os aparelhos de comando.
Rhodan já estava com a mão sobre a tecla que
irradiava uma intensa luz vermelha, quando uma voz sumida repetia no alto-falante
pouco acima dele:
— Não dê a partida... não dê a partida! Desligue
os compensadores. Eu estou num deles. Socorro!
Rhodan retirou a mão, arrepiado, como se tivesse
tocado num ferro em brasa. Incrédulo e assustado olhou para o alto-falante a três
palmos de sua cabeça. Quem gritou por socorro não deu seu nome e sua voz estava
tão desfigurada que não dava para distingui-la. Mas não havia dúvida: era a voz
de Ras Tschubai.
Ras, o teleportador, estava preso numa câmara
de um compensador estrutural. Rhodan cancelou a ordem de partida e de sua sala de
comando desligou a instalação dos compensadores.
2
Desmontaram o compensador e retiraram o africano
da câmara de ressonância, com um braço estranhamente deslocado ou até mesmo quebrado.
Provavelmente, o motivo pelo qual não conseguiu
sair de sua prisão singular, apesar de seus dons paramecânicos, foi a existência
de campos residuais com sua estrutura de cinco dimensões.
Ainda conforme o parecer do médico, Ras Tschubai
teve uma crise de nervos. E isto não foi nada extraordinário, tendo-se em vista
o quanto ele sofrerá. O pior de tudo era que não se podia saber dele o que lhe havia
acontecido. Dr. Sköldson, chefe da divisão médica, se negava a permitir uma entrevista
antes de decorridos quatro dias.
— O homem necessita de repouso absoluto, repouso
e, mais uma vez, repouso.
Com estas palavras, o médico cortou sumariamente
toda a esperança de se ouvir alguma coisa de Ras Tschubai.
Rhodan se conformou. A equipe de matemática
foi informada sobre o último acontecimento. Apesar de Rhodan, a princípio, acreditar
que a extraordinária aventura de Ras Tschubai nada tinha a ver com os cálculos que
faziam os matemáticos, Atlan, também admirado do acontecido, mas de fisionomia mais
alegre, mostrou a Rhodan que o mutante africano tinha fornecido uma prova muito
importante:
— Isto é uma coisa fantástica, no verdadeiro
sentido da palavra, administrador — disse ele entusiasmado. — Um homem dentro do
compensador estrutural ajuda a matemática a ficar de pé.
Perry o fitou demoradamente nos olhos.
— Gostaria, finalmente, almirante, que o senhor
me dissesse em que pé ela está agora. Já chegaram à conclusão de algo positivo?
Com um leve sorriso no rosto, o arcônida falou:
— Claro que sim, bárbaro. Não lhe quero, porém,
dar esperanças vãs. Às onze e meia, eu o procurarei para lhe expor os primeiros
resultados. Você ficará boquiaberto, pois o fenômeno é muito singular.
* * *
A ampliação do campo visual físico tridimensional
para a continuidade espaço-tempo de quatro dimensões provocou uma verdadeira reviravolta
nas ciências naturais.
A próxima ampliação para a visão pentadimensional,
ou seja, de cinco dimensões, foi dada à Humanidade, por assim dizer como um presente,
graças ao acaso feliz do encontro com os antiqüíssimos arcônidas.
A descoberta, entre as dimensões, do território
de ninguém, descoberta esta que fora provocada por mero acaso, isto é, pelo desaparecimento
do planeta Peregrino, foi algo sensacional somente pelo fato de que ninguém supunha
a existência de um espaço intermediário. Este foi o nome que Atlan deu ao fenômeno.
— Administrador, você tem conhecimentos científicos
suficientes para compreender — começou Atlan — que não me é possível apresentar
esclarecimentos mais objetivos. O contínuo de Einstein é uma formação em nada objetiva
e o hiperespaço o é ainda em maiores proporções. Como poderia, então, ser diferente
o cruzamento entre ambos, isto é, o semi-espaço?
“Vamos dar um exemplo. Imaginemos o hiperespaço
como uma formação de um sistema de coordenadas de cinco dimensões. Coloquemos então
esta formação em rotação e atribuamos a uma das metades da esfera de cinco dimensões,
que surge então como um corpo em rotação, uma característica extremamente singular:
Esta metade distorce as coordenadas ou os eixos que nele se encontram. Reduz seu
próprio tamanho e esta redução se dá na proporção da velocidade de rotação.
“Ao penetrar no hemisfério distorçor, o eixo
ou a coordenada ainda tem seu comprimento primitivo, começando depois a diminuir.
No momento em que transpõe a metade do trajeto através do hemisfério distorçor,
o eixo desaparece completamente. Começa depois a crescer de novo, sendo que, no
segundo em que sai do hemisfério distorçor, atinge novamente seu tamanho inicial.
Já que se trata de um hemisfério e o sistema de coordenadas do hiperespaço se compõe
de cinco eixos, a cada momento estão sempre em questão dois ou três eixos, nunca
mais nem menos. O importante então é averiguar o sentido da rotação do sistema de
coordenadas.
“Infelizmente isto é uma operação que não sabemos
bem como resolver. Até agora só sabemos de uma coisa: Já que não foi visto em momento
algum o planeta Peregrino, por outro lado, porém, julgando pelos sinais recebidos,
aliás, constantemente pelos rastreadores estruturais, não pertencendo nunca por
completo ao hiperespaço, o quinto eixo, isto é, o eixo j tem que se encontrar num
estado de permanente distorção, sem jamais atingir seu tamanho completo e também
sem jamais desaparecer de todo.
“Assim, o eixo não atingiria jamais seu comprimento
total e o planeta se encontraria completamente no hiperespaço, e os rastreadores
não receberiam mais sinais. Se o eixo desaparecesse por completo, então no mesmo
momento surgiria na tela o planeta Peregrino, pois o desaparecimento do eixo j significa
a volta ao Universo de Einstein.
“Esta é a situação do planeta Peregrino. Naturalmente
a situação não é obrigatoriamente estável. Uma pequena circunstância pode fazer
desaparecer o efeito do espaço intermediário. Não poderíamos, porém, dizer neste
caso se o planeta cairia no hiperespaço ou voltaria ao espaço de Einstein. Talvez
isto vá depender da natureza das circunstâncias.”
Acompanhado por grande número de seus oficiais,
Perry Rhodan ouvira com atenção a complicada explicação. Rhodan percebia nas fisionomias
de seus auxiliares uma sensação de decepção ou de mal-estar. Procurou compreender
este sentimento, que ele mesmo sentia e que não podia descrever a não ser como:
a reação de um homem que, esperando uma verdadeira elucidação, ouve uma coisa que
não é, ou pelo menos não esclarece nem parte, nem toda a questão.
O quadro descrito foi realmente confuso e o
exemplo proposto carecia de clareza. Ninguém sabia o que fazer com tudo aquilo.
Seria a mesma coisa como querer somar metros com quilowatt-horas. Uma solução impossível,
inútil e superconfusa.
Atlan notou o que se passava nele, Rhodan,
e nos demais oficiais. Abaixando os olhos, muito sério, começou a falar:
— Sinto muito por tê-lo decepcionado. Mas,
que se pode esperar dos matemáticos? Eles produzem uma coleção de fórmulas e não
propriamente uma receita. Agora, o que se pode fazer com a coleção de fórmulas?
Quem deve descobrir isto, não somos nós, e sim os matemáticos. Isto não é nosso
trabalho. Agora chega a vez de vocês, os técnicos, quebrarem um pouco a cabeça.
O que nos resta a fazer é lhes continuar fornecendo informações mais detalhadas.
Todo o resto é tarefa de vocês.
Ao perceberem que a conversa se tornava mais
reservada, os oficiais voltaram a seus lugares. Atlan se levantou e estendeu a mão
a Rhodan.
— Gostaria que você soubesse de uma coisa —
disse ele com muita calma. — Estou trabalhando o mais depressa que posso. Acho que
vou tomar uma injeção para agüentar uns dias sem dormir. Quero ajudá-lo de qualquer
maneira. Rhodan, você sabe que sou seu amigo.
Emocionado e sem dizer uma palavra, Rhodan
apertou a mão do arcônida, que imediatamente se retirou. Rhodan o acompanhou com
o olhar. Sabia que os cuidados que perturbavam o arcônida eram sinceros. O próprio
Atlan possuía um ativador celular, que Ele, o desconhecido senhor do planeta Peregrino,
lhe havia presenteado há mais de dez séculos, aparelho este que o dispensava do
fisiotron do mundo artificial. Portanto, Atlan não tinha nenhuma necessidade de
renovar a ducha celular até o dia primeiro de maio. O arcônida compreendia, pois,
como era muito natural a suspeita que se podia levantar contra ele. Isto é, de que
a solução do grande mistério do desaparecimento do planeta Peregrino fosse adiada
de propósito, para que, depois de esgotado o prazo, quando Rhodan em poucas horas
se transformasse num velho decrépito e caduco, ele, Atlan, entrasse como seu sucessor.
* * *
A declaração séria e sincera de Atlan foi o
ponto de partida para que Rhodan se voltasse com mais atenção a um pensamento que
há muitas semanas rodava por sua cabeça. E sempre procurava deixá-lo de lado, como
coisa de menos importância, pois tinha muita coisa para fazer — ou porque tinha
medo deste pensamento?
Estaria ele agindo corretamente, gastando semanas
e mesmo meses inteiros à procura do fantasma da imortalidade, que, caso encontrasse,
somente viria beneficiar a ele e a alguns de seus cooperadores? Teria ele o direito
de, nesta procura do planeta Peregrino através do infinito, expor ao perigo não
só a supernave Drusus, como os mil homens que nela estavam? Não seria mais racional
se ater à ordem natural das coisas, como sempre foi na história da Humanidade, isto
é, na sucessão das gerações, na substituição do velho pelo mais moço? Não conseguiria
ele arranjar um sucessor, se retirar e terminar a vida como qualquer outro homem?
Estava agora com cento e seis anos. Mais da
metade deste tempo fora vivido no comando da Humanidade terrana, criando o Império
Solar e transformando a Terra num grande centro de poder — aliás, de localização
desconhecida — de toda a Galáxia. Era, realmente, uma obra de que se podia orgulhar.
De uma hora para a outra, teve a impressão
de que, até então, não gastara quase nenhum tempo para pensar em si mesmo.
Em que proporções, o vertiginoso progresso
do Império Solar estava ligado à sua atuação pessoal? Quanto que ele mesmo representava
para a Terra, em que dimensões ele se identificava com os bilhões de habitantes
da Terra, que haviam confiado totalmente no seu governo? Que haveria de acontecer,
se ele agora se retirasse, transmitisse seu cargo a um outro e morresse dentro de
poucos dias?
Lembrou-se de Ele, o ser do planeta Peregrino,
que lhe outorgara o privilégio da imortalidade, por assim dizer, num simples gesto
de mão, como um mero presente. ; O desconhecido dissera na época que| queria dar
aos terranos a mesma oportunidade que, há vinte mil anos atrás, havia concedido
aos arcônidas — a possibilidade de conquistar a Galáxia, de penetrar Universo a
dentro e fundar um reino poderoso e duradouro. Poder-se-ia admitir que, quando o
Ser, no seu longo, ou melhor, infinito descortínio, lhe outorgou tal privilégio,
não tinha em mente uma ação importantíssima?
Que aconteceria se Perry Rhodan deixasse seu
cargo? Será que seria quebrada a continuidade do desenvolvimento?
Sem pecar por excesso de orgulho, Rhodan podia
dizer com justiça que, no momento, não havia ninguém entre seus homens que estivesse
em condições de tomar nas mãos as rédeas do Império Solar com a firmeza necessária.
Haveria uma quebra da unidade e o florescente
Império Solar seria retalhado. Com isso, se tornaria presa fácil para quem quisesse...
e não era poucos os de olho-grande contra o progresso vertiginoso da Terra nos últimos
cinqüenta anos.
Rhodan pensava também na tripulação da Drusus.
Houve, em algum tempo, um indício, por menor
que fosse, de que alguém desaprovasse ou criticasse os esforços e as tentativas
para se atingir o planeta Peregrino, ou os riscos aí contidos? Ou, talvez, o Tenente
Tompetch ou o Capitão Gorlat, por acaso, manifestaram alguma crítica a respeito
das missões que executaram em Solitude, missões em que poderiam ter perdido a vida?
De maneira alguma.
Todos estavam convencidos da retidão de toda
a sua conduta e de que a Terra precisava agora muito mais dele do que antes. Todos
estavam dispostos a fazer o maior sacrifício para que ele atingisse, dentro do prazo
estipulado, o planeta do mundo artificial. Não apenas porque tinham simpatia e amizade
por ele, mas por se sentirem responsáveis perante os bilhões de habitantes do Império
Solar.
E assim terminou o importante diálogo consigo
mesmo, em que se perguntou, com franqueza e senso objetivo, se não seria melhor
para a Terra que ele se retirasse e transmitisse a outro a direção do Império Solar.
* * *
Depois de pesar com frieza os fatos e depois
de ter tomado sua resolução, passou a se preocupar como poderia contribuir para
a solução do mistério do planeta Peregrino, antes que os matemáticos chegassem com
seus cálculos complicados. O calendário automático apontava para vinte e uma horas
e quarenta minutos do dia 24 de abril de 2.042. Sobravam-lhe portanto ainda cento
e setenta e uma horas.
Rhodan se lembrou de que, enquanto conversava
consigo mesmo sobre seu afastamento do governo do Império Solar, passou-lhe pela
cabeça uma idéia furtiva. Fez um grande esforço para trazer esta idéia de volta...
Afinal ela apareceu:
A inteligência de Solitude! O Ser de Solitude,
o mundo da estranha dimensão de tempo, ser este que possuía o dom parapsicológico
de separar o corpo do espírito. Era a inteligência que Reginald Bell dizia parecer-se
com uma vaca-marinha da Terra.
Ficou admirado de que estes pensamentos não
lhe ocorreram antes. O estranho ser, a quem Reginald Bell dera o nome de Natan,
encontrava-se a bordo da Drusus. Tinha preferido abandonar sua terra, ou melhor
seu mundo-pátria, e não mais voltar para lá, pelo menos não antes que se botasse
um paradeiro no fantasma dos druufs. Estes haviam retalhado as inteligências de
Solitude em seis pedaços, colocando-as presas em caixas e utilizando-as como instrumentos
de alarme em postos avançados.
Natan, mais do que ninguém, poderia estar em
condições de atingir o planeta Peregrino, partindo da Drusus. Naturalmente não com
a matéria, mas utilizando-se de seu espírito móvel que podia se separar do corpo,
levando uma vida independente.
Armado com um amplificador de telepatia, Perry
Rhodan se pôs a caminho do conjunto de cabinas destinadas a Natan.
Foi encontrá-lo, com todo conforto se espojando
numa bacia rasa colocada na maior de suas cabinas. Ele, ou melhor, seu corpo era
uma espécie de cilindro cinzento.
Não se podia propriamente distinguir membros
em seu corpo, não havia braços, nem pernas, nem olho, nem boca, nem nada que se
encontra geralmente num ser vivo inteligente. Natan pulou logo para fora da “bacia” e ficou parado no chão coberto de
terra e com uma camada de capim. Bem perto de Rhodan.
Perry, por sua vez, se acocorou no chão, colocou
de lado o amplificador de telepatia e começou a passar a extremidade metálica sobre
o corpo de Natan. Depois emitiu:
— Meu amigo, bom dia! Vim aqui para lhe pedir
um grande favor.
Natan compreendeu tudo e Rhodan, de olhos fechados,
viu uma figura que se erguia e dizia:
— Fala, meu amigo, terei muita alegria em poder
ajudá-lo.
Então, Rhodan começou a expor seu plano a Natan.
* * *
Natan ainda não tinha passado muitas horas
a bordo da supernave Drusus e ficara todo o tempo na cabina. Estava sentindo muita
simpatia pelo ser que o chamava de amigo e que o havia libertado das mãos dos druufs.
Dos elevadores e demais meios de transporte,
como as esteiras rolantes, Natan tinha muito medo. Este medo podia se tornar tão
forte que lhe causava dores físicas. Sua raça era de seres alheios a qualquer tecnologia.
Quando tinham de se locomover, ou usavam as
forças do próprio corpo ou transportavam seus espíritos para onde queriam, caso
não fosse necessária a presença física. Eram seres sem maiores pretensões, dispondo,
no entanto, de um espírito muito vivo e consideravam a função mais importante de
sua vida refletir e brincar com os dons de sua mente.
Natan jamais vira coisa tão grande como aquela
cosmonave, e seu medo fê-lo considerar a grande nave como seu inimigo. Sua mente,
porém, lhe dizia que a espaço-nave era um ser inanimado e assim, não podia ser nem
amigo, nem inimigo e que era apenas questão de tempo, pois em breve estaria acostumado
com aquele ambiente diferente.
Seu amigo, o estranho, lhe pedira para vir
com ele até o grande salão da nave, que ele chamava de sala de comando. Um bom número
de outros amigos estavam presentes para verem como um espírito abandona o corpo
e vai para onde quiser.
Seu amigo lhe havia explicado que devia procurar
atingir um mundo que flutuava invisível em qualquer ponto do espaço diante da espaçonave
Drusus. Em circunstâncias normais, Natan teria dito um não a este pedido, pois o
mundo invisível não lhe interessava. Por que motivos haveria ele de procurá-lo?
Mas o estranho era seu amigo e não se recusa um pedido de amigo.
As enormes placas metálicas com que os terranos
fechavam os compartimentos de sua nave se afastaram quando Natan chegou ao posto
de comando. Viu seu amigo na outra extremidade da sala, lhe acenando sorridente.
Viu ainda um grande número de outros amigos, de pé ao lado de seu maior amigo.
Natan chegou até ao meio da sala e ali ficou
deitado.
Já havia combinado tudo com Rhodan, tudo que
ele iria fazer no espaço. Não havia mais nada para ser explicado. Natan relaxou
seu enorme corpo e começou a desprender o espírito do seu invólucro material.
Ele mesmo não sentia nada, pois afinal, seu
espírito era tudo, era com ele que pensava, que sentia, que se exprimia. O corpo
participava apenas de processos mecânicos ou químicos. Natan sabia de tudo isto,
embora não conhecesse propriamente a Mecânica e a Química.
Este corpo, ele o foi deixando para trás...
Concentrou-se no semblante de seu amigo e,
com seu avançado dom de imitação, tomou suas formas físicas. Seu tamanho, de início
era pequeno, pouco mais de um pé de altura. Mas bem nítidos eram nele os traços
fisionômicos de Perry Rhodan. Depois foi crescendo e, com isso, se tornando transparente.
Olhou em volta e ficou contente ao ver a expressão de estupefação no semblante dos
circunstantes, quando formou uma cabeça bem semelhante à de seu amigo Rhodan, embora
não tivesse o tempo suficiente para caprichar mais nos pequenos detalhes.
Depois, se pôs a caminho daquele mundo invisível
que devia estar flutuando lá fora, na escuridão do espaço sem fim.
* * *
— Uma das mais originais formas de vida! —
disse alguém, logo depois que Natan tinha saído, deixando ali seu corpo inerte,
bem no meio da sala de comando.
— Nem tão original assim, como talvez se possa
imaginar — disse Rhodan. — Extraordinário é, sem dúvida, seu dom de separar o espírito
do corpo. Mas o que nos faz voltar tão chocantemente às recordações e ao medo de
assombrações de nossa infância tem provavelmente uma explicação bem natural.
Todos olhavam atentos para Rhodan.
— É claro que o espírito é uma formação imaterial
— continuou Rhodan. — O que vocês pensam que era uma espécie de névoa, se é que
chegaram a este pensamento, não o era, realmente. O espírito não é propriamente
outra coisa do que um campo, sobre cuja natureza pouco sabemos, aliás, um campo
com inteligência inata. O que nós vimos foi tão-somente o efeito que este campo
produziu em volta de si. Parece existirem aí forças que alteram, por exemplo, o
índice de refração do ar. Desta maneira, o quadro se torna visível. O trecho da
alteração no índice de refração nos aparece então como névoa.
“Chocante, porém, é a propriedade do campo
de se refletir nos objetos que lhe estão em volta e mesmo de se identificar com
eles. Vocês repararam que Natan tomou minhas formas, procurando formar um rosto
igual ao meu. Estou convencido de que ele chegaria a uma perfeição total, caso tivesse
mais tempo. Não queiram saber como eu e o Atlan nos assustamos quando vimos pela
primeira vez, diante de nós, um espírito de Solitude.”
Ninguém perguntou nada. A explicação de Rhodan
fora concisa e clara, mas o fenômeno em si continuava inconcebível. Quase todos
continuavam olhando na direção para onde desaparecera o espírito de Natan, para
dentro da escuridão do infinito, onde não havia nada que pudesse alterar o índice
de refração e assim possibilitar a visão do seu espírito.
* * *
Foi a primeira vez que Natan se viu no espaço
livre, mesmo assim não sentiu nada de extraordinário. No início, naturalmente, experimentou
uma certa curiosidade, mas, depois que percebeu que não havia nada de mais em tudo
aquilo, perdeu logo a curiosidade inicial. Movimentava-se na direção que lhe fora
indicada, esperando que alguma coisa lhe surgisse à frente.
Não podia saber qual a velocidade de seu deslocamento,
mas de qualquer forma fazia esforço para ir mais depressa. Depois de um certo tempo,
sentiu uma espécie de onda ou correnteza que o atingiu, puxando-o para frente. Estranhou
um pouco o fenômeno, pois em toda a sua existência como espírito separado do corpo
jamais fora submetido a influências mecânicas.
Afinal de contas, no estado em que se achava,
não havia nada de matéria nele, que pudesse ser sugada ou tocada por corrente de
ar ou de qualquer outra coisa. Assim, a curiosidade lhe aflorou novamente, abafada
logo depois por um vago pavor do que lhe estava à frente, do que o puxava, sem poder
ser visto.
De repente, sentiu vontade de voltar para a
grande espaçonave que havia desaparecido atrás dele e que parecia apenas mais uma
estrela entre as muitas que, com suas luzes calmas, interrompiam o manto negro do
espaço.
Agora, porém, seria muito tarde para voltar.
A onda ou correnteza estava mais forte. Desistiu de tentar qualquer resistência
e se deixou levar.
Viu subitamente emergir alguma coisa à sua
frente, parecendo, no começo, uma mancha clara, sem contornos definidos. Natan observou
que estava sendo puxado de encontro à mesma.
A mancha ia aumentando de tamanho, deixando
ver cada vez mais nítidos seus contornos, parecendo uma coisa hemisférica de grandes
proporções. Aproximava-se dela a uma velocidade que lhe incutia medo. Poucos instantes
após, o corpo hemisférico estava tão volumoso que não podia ser abrangido com a
vista. Em compensação, viu amplas planícies, aparentemente recobertas de capim,
grandes florestas, rios, lagos e mares. Viu um conglomerado de formas regulares,
que pareciam ser artificiais e, provavelmente, seriam o que seu amigo descrevera
como cidades.
Viu também nuvens que passavam abaixo dele,
bem lentamente. Mas estava vendo tudo isto como através de um véu. Não tinha uma
visão completamente nítida. Devia haver alguma coisa entre ele e o chão lá embaixo.
No último instante ainda viu, mas não teve
mais tempo de reagir: uma muralha transparente se abateu contra ele.
Era realmente uma parede, que julgara antes
se tratar de um véu, que lhe prejudicava um pouco a visão. Foi tomado por um choque
violento, quando encontrou-se com ela, sentindo que estava penetrando em algo resistente
e macio ao mesmo tempo.
Tudo isso o deixou muito confuso.
Durante alguns segundos, teve a impressão de
estar sendo aprisionado. De repente, porém, não havia mais nada em torno dele, a
própria correnteza não existia mais. Natan olhou para o alto vendo bem perto de
si o invólucro cintilante que acabara de atravessar.
Não sabia de que era feito aquilo, mas já que
não lhe havia causado nenhum mal, não tinha maior importância para ele. Continuou
sua descida, rumo ao solo.
Depois de percorrer a metade do trajeto, começou
a sentir, inesperadamente, uma sensação de alegria, vinda de longe. Não sabia explicar
o fenômeno, até que compreendeu que não era ele quem estava possuído de alegria,
mas um outro alguém que lhe transmitia telepaticamente seu contentamento. Natan
ouviu os gritos estridentes que ele e seus semelhantes costumavam emitir ao se sentirem
possuídos de uma grande alegria. Confuso, procurou se explicar de que maneira teria
algum membro de sua raça chegado até este mundo diferente.
Finalmente chegou à conclusão de que sempre
que alguém transmitia sua alegria por via telepática — independente da verdadeira
ressonância da expressão da alegria ou da gargalhada — seria ouvido constantemente
em forma de gritos estridentes. Não havia nenhum ente de sua raça neste planeta.
Mas devia existir ali alguém que estava alegre e queria transmitir seu contentamento.
Estava ansioso por saber o que iria acontecer,
enquanto “caminhava” em direção ao planeta.
Uma voz lhe interrompeu os devaneios.
— Meu pobre amigo — disse-lhe a voz possante
— onde você foi cair? Não sabe que não conseguirá mais voltar? Deixou seu corpo
para trás e nunca mais haverá de encontrá-lo.
Natan levou um susto, não propriamente pela
idéia de ter de continuar sua existência como espírito sem corpo, mas pelo fato
de que o estranho o conhecia.
— Como é que você sabe disso? — perguntou perplexo.
— Meu pobre amigo, não percebeu o campo de
sucção que o puxou para cá?
Natan não podia saber o que era campo de sucção,
mas de qualquer modo, entendeu o pensamento do estranho.
— Sim, percebi sim, mas que importância tem
isto?
— Você não estava em condições de reagir?
— Não, era forte demais para mim.
— Está vendo? Como é então que pretende sair
daqui? Você devia ter vencido o campo de sucção e voltado para o seu supercouraçado.
Mas não conseguiu, não foi?
— Pode ser... Mas isto, no momento, não tem
maior importância. Meu amigo me virá buscar, quando chegar a hora Quem é você?
— Sou o senhor deste mundo, não tenho nome.
— Você não pode desligar o campo de sucção?
— Não, não posso. Posso fazer muita coisa,
mas o campo de sucção está fora de minha alçada. Pobre amigo, você terá que ficar
aqui.

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