terça-feira, 10 de setembro de 2013

P-075 - O Universo Vermelho - K. H. Scheer [parte 2]

A pouco menos de uma hora-luz, rugia a maior batalha realizada num “espaço” tão reduzido.
Os estalos e rugidos dos rastreadores estruturais indicavam que ali as transições das grandes naves espaciais eram constantes. E outras indicações dos instrumentos deixavam patente que seres estranhos, não-galácticos, usavam uma tecnologia de vôo à velocidade superior à da luz. Velocidade que era desconhecida de qualquer inteligência do Universo einsteiniano.
Mais uma vez, surgiram os misteriosos ecos de ondas de choque, que se revelavam em curvas sinuosas e jamais poderiam provir de uma transição. Esses fenômenos só poderiam surgir se alguém voasse pelo hiperespaço!
Nosso localizador de massas da quinta dimensão registrou a presença de um número incrível de naves. Ao que parecia, naquele instante, a frota de bloqueio do computador-regente estava rechaçando outro ataque dos druufs. Imaginava perfeitamente que os desconhecidos deveriam estar ansiosos para, depois da estabilização das zonas de superposição, verificar o que havia em nosso Universo.
Mas não deveriam ter contado com tamanha resistência. Provavelmente acreditavam que poderiam atravesssar à vontade a zona de superposição, e sem que ninguém os observasse.
Bem perto de nós, a menos de dez minutos-luz, o negrume do espaço foi interrompido por uma espécie de fogo-fátuo. Parecia que um pintor maluco acabara de manipular ao acaso um enorme pincel, iluminando em vários pontos a escuridão com manchas e traços vermelho-escuros.
Vez por outra, ainda se viam os conhecidos funis. Recordava-me deles em virtude de uma triste experiência. Mas a maior parte das aberturas já se haviam unido, formando uma fenda entrecortada.
Era dali que provinha a luminosidade deprimente. As indicações fornecidas pelas sondas teleguiadas haviam demonstrado que a zona de descarga era inconstante.
Via de regra, suas dimensões oscilavam entre 0,6 e 1,1 anos-luz. A largura variava entre 20 e 100 bilhões de quilômetros. Face a isso, e considerados os padrões cósmicos, tratava-se de uma minúscula fenda, que apenas permitiria a livre penetração no plano dos druufs.
Já colocáramos os trajes especiais arcônidas, uma vez que, numa situação como essa, os trajes espaciais comuns não nos pareciam suficientes. Colocamos os capacetes pressurizados sobre a cabeça e mantivemos os dedos nos botões de contato dos projetores de campos defensivos. Os micro-reatores instalados nas mochilas estavam funcionando. Dessa forma, havíamos feito o que estava ao nosso alcance para enfrentar adequadamente uma eventual ruptura do débil envoltório do cruzador.
O oficial de localização já desistira de anunciar as indicações recebidas. Um silêncio completo reinava a bordo da ultra-rápida nave Califórnia. No alto-falante de meu capacete só se ouvia a respiração de homens nervosos.
O rosto de Rhodan apresentava uma expressão séria e fechada. Ao que parecia, só agora se dera conta dos recursos imensos de que o computador-regente de Árcon podia dispor.
Vez por outra alguém praguejava em voz alta. Esses sons surgiam nos alto-falantes de capacete toda vez que havia uma catástrofe nas proximidades.
Não conseguíamos realizar a observação ótica das inúmeras naves. Só a hiperlocalização revelava que na escuridão do espaço estavam escondidos numerosos corpos de aço, de cujos flancos se desprendia o hálito atômico dos pesados canhões de impulsos e de desintegração.
Só víamos nitidamente as unidades destruídas. Se a luz chegasse a nós com suficiente rapidez, uma luminosidade ofuscante surgia nas telas óticas.
Nos poucos segundos decorridos, desde o momento em que voltamos a mergulhar no espaço comum, contáramos mais de duzentos sóis atômicos artificiais. Devia haver muito mais, pois nem todos poderiam ser observados diretamente. Fugíamos dos raios de luz.
A voz de Rhodan rompeu o silêncio, que já se tornava opressor:
— Atenção todos! Atingiremos a zona dentro de três minutos aproximadamente. Atem os cintos e só os soltem depois que a tivermos rompido. Devemos atravessá-la em poucos segundos. Não precisamos contar com nenhum ataque. Nossa nave é rápida demais para ficar exposta ao fogo de outro veículo espacial. Só se pode atirar com precisão quando o objeto não desenvolve mais da metade da velocidade da luz. Escaparemos a qualquer disparo de radiações. Quanto ao mais, peço-lhes que cuidem dos nervos. Se nossas sondas conseguiram atravessar a zona intermediária, nós também conseguiremos. Fim.
Passei os olhos pela sala de comando fracamente iluminada. Os homens mantinham-se imóveis atrás dos instrumentos, mas em todos eles ardia a excitação. Sabiam os efeitos que podem resultar da travessia de uma zona de descarga.
De repente nossos débeis campos defensivos tornaram-se visíveis nas telas óticas. Descargas azuladas ofuscaram nossos olhos. Naquele momento compreendemos que a afirmativa de Rhodan, segundo a qual não poderíamos ser atingidos, era ao menos leviana.
Ouviu-se uma série de terríveis estalos. O corpo da Califórnia, que já estava sendo solicitado ao máximo, começou a tinir.
— Foi um impacto ocasional involuntário. Voamos diretamente para dentro do raio — disse a voz forte de Rhodan, que foi interrompida por uma risada estridente.
Concluí que a mesma devia provir de Bell.
— Silêncio a bordo! — gritou Perry.
Ao que parecia, mesmo ele se sentia um pouco nervoso.
A fenda de descarga, que de longe parecera insignificante e inofensiva, transformara-se num abismo devorador. A vista já não conseguia abranger toda sua largura.
Antes que os homens ouvissem o grito de advertência de Sikermann, penetramos na luminosidade vermelha. Os inúmeros impulsos de localização apagaram-se tão depressa que até parecia que nunca houvera uma frota arcônida logo atrás de nós.
A última unidade energética, que ainda funcionava em ponto morto, começou a participar do rugido geral. Dali em diante, mal se entendiam as palavras transmitidas pelo sistema de rádio.
As ordens de Sikermann, emitidas em voz muito alta, submergiram em meio ao barulho infernal. Lá fora, nossos campos defensivos pareciam colidir com uma muralha energética invisível.
Cerca de seis segundos depois do momento em que mergulhamos, as luzes de advertência da unidade energética número três acenderam-se. Tratava-se da estação que acabara de ser ligada.
O rumorejar surdo tornou-se ainda mais forte, mas os campos defensivos chamejantes ficaram privados de seu suprimento de energia. A pequena tela mostrou um letreiro luminoso:

Aviso automático. Usina III transferida para neutralizadores de pressão.

As mãos de Sikermann passaram a desenvolver uma atividade febril. Era evidente que a Califórnia estava submetida a uma desaceleração involuntária, cuja intensidade devia ser tamanha... A energia necessária ao funcionamento dos neutralizadores já não podia ser fornecida exclusivamente pelo seu próprio gerador.
Vi que o rosto de Rhodan estava ligeiramente desfigurado. Da sala de máquinas veio a informação de que já fora atingida a capacidade máxima dos reatores. Sikermann mandou que os mesmos passassem a funcionar em regime de emergência.
Dentro de vinte segundos, a redução de velocidade tornou-se bem perceptível. Logo depois, a velocidade reduziu-se para 79 por cento luz.
Terríveis descargas bramiam junto ao envoltório esférico do cruzador. Penetráramos em alguma coisa que ultrapassava nossa compreensão e as possibilidades de nossa tecnologia. Parecia que a goela de um submundo se abrira, para deglutir a nave e os homens.
O mutante Ralf Marten foi atirado violentamente para fora do assento, pois num movimento instintivo colocou o braço na abertura de emergência dos cintos. Vi-o escorregar pela sala de comando, até que se detivesse junto a uma calculadora cosmonáutica.
Ninguém entendia as ordens e os comunicados. Quando liguei meu campo defensivo individual, uma fluorescência fantasmagórica rompeu a escuridão da sala de comando. Ao que parecia, o ar fora de nossos trajes de combate estava carregado, pois do contrário o campo individual não se tomaria visível.
Estamos no fim”, pensei. “Arriscamos demais.”
Naquele instante, a tremenda retumbância cessou subitamente. Apenas os reatores da nave, que funcionavam a plena potência, continuavam a emitir seu ruído característico.
Mais uma vez, o letreiro luminoso surgiu à minha frente.

Dispositivo automático de advertência — Gerador III religado para os campos defensivos.

Só agora tive tempo de passar os olhos pela sala de comando. Os tremendos abalos haviam colocado fora de ação cerca de trinta por cento das telas de comunicações.
Meu rádio, ligado ao volume máximo, parecia estourar-me o ouvido. A voz de Rhodan soou com uma potência apavorante.
Soltei um gemido e girei o regulador de volume para a esquerda. Com os outros devia ter acontecido a mesma coisa, pois durante o vôo todos haviam tentado captar alguma comunicação.
— ...passamos. Cuidem de Marten. Parece ter-se machucado na queda. De resto, tudo O.K.!
Bati com a mão espalmada sobre o fecho dos cintos e levantei-me com um gemido. Naquele instante, ouviu-se o comunicado vindo da central energética.
— A desaceleração foi de mil e oito quilômetros por segundo ao quadrado. Os neutralizadores trabalharam em regime de sobrecarga.
— Como poderia ter acontecido isso? — perguntou Rhodan, respirando com dificuldade. — Os dados captados pelas sondas diziam outra coisa.
Não tive necessidade de refletir para encontrar uma explicação plausível.
— São diferenças nas influências gravitacionais. A zona de compensação ainda é tão jovem que não se poderia ter estabilizado. Deveríamos ter esperado mais algumas semanas.
A equipe técnica da nave começou a reparar as avarias. Na altura da comporta inferior, havia uma rachadura no envoltório da nave. Fora disso, o casco da Califórnia parecia intacto.
— Olhem só! — disse Sikermann em tom de surpresa.
Virei a cabeça.
E o que vi nas telas teria levado qualquer outra pessoa a praguejar fortemente. No entanto, apenas senti meu coração pulsar mais lentamente.
— Preparar a nave para o combate! — ordenou Rhodan pelo sistema de intercomunicação do pequeno cruzador.
Enquanto as sereias começavam a uivar e os instrumentos indicavam que desenvolvíamos apenas metade da velocidade da luz, fitei as telas.
— Bem que poderíamos ter imaginado que os druufs também tivessem postado uma frota em seu universo — disse Reginald Bell. — Será que essa gente sabe “aceitar uma boa brincadeira?
Não souberam.
Provavelmente o senso de humor de Bell ficaria afetado pelos acontecimentos que começavam se desenrolar...
As longas naves em forma de bastão encontravam-se tão próximas que as distinguíamos nas telas do hiperlocalizador sob a forma de imagens em alto-relevo. Se não estivessem tão perto, a imagem consistiria, quando muito, num pontinho verde.
Sikermann trabalhava como um autômato. Suas mãos deslizaram rapidamente sobre as chaves de controle manual. Naquele momento, compreendi perfeitamente por que motivo Rhodan o investira temporariamente como comandante da nave Califórnia.
Uma nave, que media pelo menos trezentos metros de comprimento, atingiu-nos em cheio. Um vulcão energético irrompeu nos campos defensivos de nossa nave.
Os canhões e radiações do inimigo pegou-nos de surpresa...
Numa fração de milésimo de segundo, a Califórnia, uma nave tão bela por fora e tão fraca por dentro, se parecia com uma bola de aço que cuspia fogo. Seu débil armamento defensivo entregou os pontos ao primeiro ataque. É bem verdade que tivéramos azar ao colocar-nos diante dos canhões de uma nave aparentemente muito forte.
No momento em que ouvi o ruído infernal e a incandescência irradiada pela telas ameaçava cegar-me, perdi o apoio dos pés.
Uma tormenta varreu-me pelo soalho de plástico da sala de comando. Levei algum tempo para conseguir segurar-me no pé da poltrona do localizador.
Gritaria, berros, um estrondo real, foram estas as impressões registradas pelos meus sentidos. Sabia que recebêramos ao menos quatro impactos térmicos ao mesmo tempo; era demais para o pequeno cruzador, cuja força consistia exclusivamente em suas máquinas.
Dali a alguns segundos, a nave começou a girar em torno de seu eixo transversal. O espaço sombrio do Universo desconhecido com suas inúmeras estrelas transformou-se numa roda de fogo.
Já desistira de ter esperanças, quando finalmente as unidades energéticas da Califórnia voltaram a entrar em funcionamento. Só agora tornava-se possível recorrer a toda a força titânica dos propulsores, pois já não havia o perigo de que a força da inércia nos reduzisse a pó.
Uma dor aguda atravessou meu corpo. Os neutralizadores de pressão entraram em funcionamento com um atraso de cerca de um milésimo de segundo.
A forte luminosidade dos nossos campos defensivos estava cessando. Se os druufs acelerassem com a mesma rapidez que nós, não haveria salvação.
Acontece que nem de longe conseguiram acompanhar-nos. Afastamo-nos em velocidade tresloucada, antes que outras naves pudessem enquadrar-nos em sua mira.
Os mecanismos automáticos de estabilização fizeram cessar o giro do corpo da nave. Quando o processo foi concluído e a imagem se ajustou, consegui ver novamente o estranho espaço.
Enquanto nosso Universo era negro, aqui predominava o tom vermelho-escuro. A luminosidade das estrelas era idêntica à do nosso Universo, mas sua luz natural sofria uma distorção...
— Transição ligeira! — ordenei com um gemido. — Vamos logo! Temos que dar o fora daqui. Estamos entrando diretamente nas falanges do inimigo. Será que isto lhe servirá de lição, homem das cavernas? Nem sempre a audácia sai vencedora, e seus mutantes serão mortos pelo fogo dos canhões como qualquer outra criatura. Entre logo em transição!
Rhodan ouvira minhas palavras, que provavelmente eram desnecessárias. Sikermann já estava comprimindo o botão do chamado autômato de saltos de emergência.
Então teve início uma transição matematicamente incontrolável, que nos levaria a algum lugar. Podia-se realizar uma avaliação aproximada da distância que seria percorrida, mas não da direção.
A dor da desmaterialização surpreendeu-me enquanto estava deitado. Segundo as leis válidas em nosso Universo, a posição em que a pessoa se encontrava durante o salto era totalmente indiferente. No entanto, até neste ponto, o Universo dos druufs parecia oferecer algumas surpresas.
Antes que pudesse formular algo sobre a percepção desse fato, dei-me conta de que acabáramos de cometer mais um erro.
Qualquer homem inteligente deveria abster-se de transferir as leis do espaço einsteiniano para qualquer outra estrutura espaço-temporal. Foi um verdadeiro milagre termos desaparecido no hiperespaço.
Notei a falta do murmúrio e do farfalhar que surgia em toda transição, logo após a desmaterialização. Mas a dor continuou. Parecia que o sistema nervoso escapara ao processo de desmaterialização.
Quando iniciamos o mergulho no espaço druufiniano, ainda estávamos gritando. O que se seguiu depois excedeu minha capacidade de sofrimento. O desmaio provavelmente foi uma bênção.
Éramos uns idiotas!
De que servia a nave mais rápida, se o homem não conseguia acompanhar seu desempenho? Era o velho problema que, segundo ensinava a experiência, costumava ser negligenciado, pois a tecnologia amortecia o sentimento natural de medo do indivíduo.


5



Fui o primeiro a despertar a bordo da Califórnia. Meu organismo arcônida parecia recuperar-se depressa dos efeitos do choque.
Fiquei surpreso com isso. Em outras oportunidades notara-se que as reservas de energia do organismo de um terrano são bem maiores.
Ergui-me com um gemido. Diante dos meus olhos, um céu estrelado parecia girar loucamente. Meu subconsciente registrou as fortes batidas do ativador. Ao que parecia, o aparelho funcionava a plena força, a fim de transmitir os necessários estímulos às minhas células.
Depois de alguns segundos, comecei a sentir-me melhor. A visão clareou.
Rhodan estava estendido no chão, com o corpo contorcido. Sikermann, que desencadeara o impulso para o salto de emergência, estava pendurado nos cintos de segurança.
A sorte dos outros homens não foi melhor. Arrastei-me até a poltrona mais próxima e procurei refletir sobre o que poderia fazer. Não havia necessidade de cuidar dos homens inconscientes, já que nossos robôs médicos já saiam dos poços estreitos, situados ao longo do teto da sala de comando.
Perguntei-me se os estimulantes de circulação, aplicados aos doentes, os favoreceriam naquela situação em que nos encontrávamos. Se ignorávamos quase tudo sobre as leis físicas reinantes no espaço dos druufs, nossos conhecimentos fisiológicos e biológicos também poderiam revelar-se inúteis ou até nocivos num ambiente como este.
Procurei controlar-me e aproximei-me de Sikermann. Bati com a mão sobre o fecho de seus cintos de segurança. Sikermann caiu para a frente.
Retirei-o da poltrona de comando e tomei assento diante dos importantes elementos manuais.
A Califórnia deslocava-se em queda livre, desenvolvendo apenas metade da velocidade da luz. Uma vez realizada a transição de emergência, todas as máquinas se haviam desligado automaticamente.
Nas telas de visão global, brilhava uma gigantesca estrela vermelha, que tinha uma companheira verde. Essa estrela dupla não podia ficar a mais de dois anos-luz da zona de descarga, pois a transição ligeira não nos faria percorrer uma distância maior que essa.
Concluí que, ao menos, o mecanismo regulador de distância funcionara perfeitamente, embora tivesse havido alguns efeitos estranhos.
Prestei atenção às sinetas claras da aparelhagem astronáutica de localização de massas. Comprimi a chave e a grande tela de imagem especial iluminou-se. Transmitiu um modelo bastante nítido, produzido pelos ecos dos impulsos de rastreamento hiper-rápidos que haviam detectado e medido o astro.
Vi primeiramente oito planetas. As escalas que funcionavam simultaneamente registravam os dados apurados pelos medidores automáticos.
Raras vezes vira órbitas tão malucas e excêntricas!
Parte dos numerosos planetas desse sistema que, ao que tudo indicava, era de proporções gigantescas, passavam por vezes entre os dois sóis. Esse fato deveria produzir uma influência catastrófica sobre as condições meteorológicas.
Havia outros planetas que gravitavam em torno das duas estrelas, e suas órbitas me pareciam mais “favoráveis”. Dentro de dez minutos, o rastreador automático de massas constatou a presença de 58 planetas. Um fenômeno despertou minha atenção.
As medições gravosféricas levavam à conclusão de que muitos dos planetas possuíam numerosas luas. As telas diagramáticas de observação localizada apresentavam, constantemente, linhas em ângulo, que interrompiam a imagem nítida projetada pelos ecos.
Sem dúvida, as luas maiores tinham seus próprios satélites, que descreviam órbitas em sentido contrário.
O pior era que já penetráramos profundamente no sistema desconhecido. Ao que parecia, o salto nos havia levado para seu interior. O gigantesco sol vermelho já preenchia todo o setor verde das telas dianteiras.
Meu cérebro, ainda afetado pelo choque, começou a funcionar melhor sob a proteção de todo o potencial de força de vontade. Compreendi que provavelmente havíamos saltado por cima da zona de perigo.
Se minha avaliação dos rastreamentos de massas era correta, já havíamos deixado para trás as órbitas de mais de quarenta planetas.
O companheiro verde da estrela central saiu lentamente de trás da grande curvatura de seu irmão maior. A luz refletida nas telas era uma verdadeira curiosidade espectroanalítica. Só agora me dava conta plenamente de que não estávamos em casa.
Depois de algum tempo, o dispositivo automático de localização de energia também emitiu um zumbido insistente. Segundo a máquina, o planeta que começava a surgir na tela de informação era o de número 16 do sistema em que nos encontrávamos.
Nas imediações do corpo esférico, começou um relampejar ininterrupto. Se o autômato não tivesse perdido seu “bom senso” mecânico, o planeta número 16 devia ser o mundo principal da família. Ao menos, minha experiência indicava que um astro com aquela intensidade de energia sempre corresponde a um mundo habitado e altamente tecnificado.
É o ambiente dos druufs!”, anunciou meu segundo cérebro num laconismo excitante.
Não tinha o menor motivo de duvidar da conclusão a que chegara o setor lógico de minha mente. O relampejar e a luminosidade, que surgiam em torno da semi-esfera, só poderiam ser produzidos por naves que pousavam e decolavam. Os impulsos provinham de corpúsculos, que indicavam sem a menor dúvida a presença de propulsores em funcionamento. As coisas ainda poderiam ficar bem divertidas...
Atrás de mim, os robôs médicos continuavam a trabalhar. Suas injeções de alta pressão chiavam continuamente. Porém nem Rhodan nem os outros homens despertaram da estranha rigidez.
Chamei os outros setores pelo videofone. Mas a única resposta que recebi foi a das fitas automáticas, que me informaram em termos lacônicos de que a tripulação humana fora colocada fora de ação.
Dali em diante, meu raciocínio voltou a funcionar com a precisão de sempre. Não me arriscaria a realizar outro hipersalto para abandonar esse setor que, segundo tudo indicava, era bastante perigoso. Por enquanto tornava-se provável que a presença da Califórnia não tivesse sido detectada. Do contrário alguém já teria cuidado de nós.
Surgiu-me outra indagação.
Por que fomos sair justamente no interior do sistema dos druufs? Teria sido simples coincidência?
Enquanto refletia, o setor lógico de minha mente deu sinal de si:
Lei das massas do sistema dos druufs. Num salto descontrolado realizado sem programação, ocorre um desvio em direção à matéria estável rodeada de campos hipergravitacionais.”
Dali a alguns segundos, cheguei à conclusão de que não havia melhor lugar para a Califórnia esconder-se que a própria cova do leão. Já estava quase convencido de que, ao localizar o décimo sexto planeta, descobrira o mundo dos druufs. O número dos pousos e decolagens era tão grande que passava dos limites do tráfego normal de um espaçoporto. E, ao que tudo indicava, muita coisa estava acontecendo nas luas do número 16.
Pensei em colocar em funcionamento os conjuntos propulsores, que estavam parados, mas preferi não fazê-lo, pois lembrei-me dos dados fornecidos pelas sondas teleguiadas.
De acordo com esses dados, o velho fator tempo-velocidade se reduzira de um para dois. Se havíamos trazido nossa própria dimensão temporal, estaríamos viajando à velocidade máxima que as naves dos druufs conseguiam desenvolver, muito embora nossa nave se deslocasse a apenas metade da velocidade da luz.
Dessa forma os desconhecidos ficariam privados de um excelente objeto para seus instrumentos de localização. Provavelmente nossas ondas de impulsos provocariam no décimo sexto planeta os efeitos de uma bomba.
Havia outro motivo para deixar que as máquinas permanecessem em silêncio. Bem à nossa frente, a apenas trinta milhões de quilômetros, um planeta do tamanho aproximado de Marte interpôs-se em nossa trajetória.
Esperei que o dispositivo automático me fornecesse os dados solicitados.
Tratava-se de um dos planetas em que a velocidade de rotação e translação são idênticas; em outras palavras, a cada movimento completo de translação corresponde uma rotação completa. Dessa forma a face voltada aos dois sóis era sempre a mesma.
Naturalmente as condições climáticas desse planeta seriam extremamente desfavoráveis. Sem dúvida um mundo desse tipo permaneceria desabitado para sempre.
Era o número 13 do sistema dos druufs. Guardadas as proporções em relação às dimensões gigantescas da estrela vermelha, na face diurna, o calor devia ser insuportável.
Este e outros motivos fizeram-me corrigir a rota da Califórnia por meio de cautelosos impulsos dos propulsores auxiliares de plasma. Dali em diante, o aparelho automático de aproximação passou a executar o trabalho do primeiro-piloto. A única coisa a ser feita era ajustar as duas linhas verdes de tal maneira que seu ponto de interseção correspondia ao planeta perfeitamente reconhecível.
Com a mente preocupada, ouvi o rumorejar vindo das salas de máquinas da protuberância equatorial da nave. O conteúdo energético das partículas de plasma não era muito elevado. Talvez não fossem detectadas pelos goniômetros.
Recorri à ótica eletrônica e trouxe o número 13 para mais perto. No momento em que o planeta ocupou toda a tela, comecei a tremer. Ao que parecia, não possuía atmosfera. A temperatura média na face diurna era de cerca de 168 graus centígrados. Na face noturna, a temperatura deveria ficar próxima do zero absoluto.
No entanto, havia uma zona de penumbra cujas dimensões, face à intensa vibração do planeta, naturalmente estavam sujeitas a variações acentuadas. Pousaria ali, para esperar com calma e relativa segurança os efeitos da preocupante rigidez dos membros da tripulação. Seria insensato e irresponsável continuar a passear na área controlada pelas inteligências desconhecidas.
Minhas juntas doíam quando me levantei da poltrona do piloto. Os pequenos robôs médicos já haviam cessado suas atividades. Isso constituía sinal evidente de que nos encontrávamos diante de um fenômeno desconhecido.
Com um gemido inclinei-me sobre Rhodan. Fitei seus olhos arregalados. Tinha o rosto terrivelmente desfigurado. Meus conhecimentos médicos eram insuficientes para formular um diagnóstico preciso. Mas cheguei à conclusão de que talvez a rigidez não decorresse de um estado de inconsciência total. Já vira homens que, numa situação destas, conservavam a mobilidade espiritual, embora não pudessem mover um dedo.
A musculatura de Rhodan estava dura como uma tábua. Tinha o aspecto de alguém atingido pelo choque de uma arma fisiológica.
Inclinei-me ainda mais e disse em voz alta:
— Talvez você consiga ouvir-me e compreender minhas palavras. Devemos aguardar que a paralisia cesse por si? Pousarei no décimo terceiro planeta do sistema em que acabamos de penetrar. Trata-se de um corpo celeste desconhecido que gira em sintonia com o movimento de translação. O sistema de localização energética não acusa nada. Levarei a nave à zona de penumbra e procurarei escondê-la da melhor forma possível. Será que pode dar-me um sinal de ter entendido?
Fitei atentamente os olhos abertos, mas não notei qualquer reação.
Desesperado por dentro, embora por fora me mostrasse calmo e risonho, voltei a erguer-me. O piloto automático emitiu um sinal sonoro. Estava na hora de entrar na elipse de frenagem.
Desta vez não tive outra alternativa senão recorrer aos potentes mecanismos propulsores centrais da Califórnia. Os conjuntos, que funcionavam com base de plasma, não seriam capazes de eliminar, num tempo relativamente curto, a velocidade que correspondia à metade da da luz.
Assumi o risco porque não poderia deixar de fazê-lo. Os conversores de impulsos emitiram um rugido. A luz verde dos neutralizadores de pressão acendeu-se.
Desacelerei ao máximo, embora soubesse que devia provocar um fogo de artifício no sistema de localização energética de ao menos um observador atento.
Era possível que, com o movimento reinante no número 16, isso não despertasse a atenção de ninguém. Havia inúmeras possibilidades, mas não estava em condições de realizar a interpretação matemática das mesmas, uma vez que não dispunha dos respectivos valores-base.
O cruzador ligeiro parecia um monstro que chispava fogo ao precipitar-se em direção ao planeta escaldante, que batizei com o nome de Hades.
Deu-me a impressão de um submundo das lendas gregas. Se havia alguma coisa de que não gostava, eram as zonas de penumbra desses corpos celestes.
Pouco antes de chegar à superfície, a Califórnia alcançou a velocidade de aterrissagem. Descrevi uma única elipse, e durante a mesma, tive de constatar que Hades tinha vestígios de um envoltório atmosférico. Ao que tudo indicava, os gases se haviam depositado na face noturna, enquanto se evaporavam junto aos pontos de aquecimento, em virtude das modificações da área de penumbra.
Dessa forma, a faixa sombreada devia ser fustigada por tormentas violentíssimas. Era exatamente a pior das hipóteses que eu imaginara.
Tive de dedicar toda minha atenção à pilotagem da nave, pois tornava-se necessário equilibrar seu movimento pendular sob a influência do campo antigravitacional. Depois de algum tempo, consegui pousar por meio de um dos conjuntos auxiliares. Fomos parar numa ampla planície rochosa, que no momento ficava no centro da zona de penumbra.
No horizonte via-se a coroa chamejante da gigantesca estrela vermelha. Seu companheiro verde não assumia qualquer importância na área meteorológica. Sua energia não seria capaz de aumentar ainda mais a temperatura. Além disso Hades contornava ambos os sóis ao mesmo tempo. Dessa forma, também a estrela verde iluminava apenas a face diurna do planeta.
Quando, no curso de sua órbita, a mesma sobressaía no horizonte, surgia a luminosidade verde que me chamara a atenção por ocasião do pouso.
Acabara de pousar num planeta infernal. Depois que as placas de apoio dos suportes telescópicos penetraram no solo, comecei a recuperar o autocontrole.
Do lado de fora, o silêncio era total. A tempestade que observara antes já amainara. Tiritei de frio ao levantar-me da poltrona. As travessas e longarinas da Califórnia estalavam e crepitavam, conforme costuma acontecer numa nave forçada ao máximo. Ao que tudo indicava, o esfriamento era extremamente rápido.
— Perry, você me ouve?
Seu rosto permaneceu rígido como uma máscara de pedra. Se estivesse em condições de sentir e pensar, devia sofrer terrivelmente.


6



Tive de esperar mais algumas horas Até que os primeiros terranos acordassem. Rhodan foi o quinto a recuperar os sentidos. Os que mais sofreram foram os mutantes, cujos cérebros ligeiramente alterados, provavelmente, eram ainda mais sensíveis que os dos outros homens.
Toda a tripulação se encontrava a postos. Não houve nenhum caso fatal, mas o Dr. Sköldson, médico da Drusus, levado neste vôo, recomendou repouso total.
Depois de falar com ele, compreendi por que recuperara os sentidos tão depressa, tinha estrutura cerebral era diferente.
O médico garantiu que, durante a paralisia, os homens atacados pelo choque não sentiram nada. Mas ninguém se atreveu a perguntar o que aconteceria em futuras transições.
Não havia dúvida de que nos encontrávamos a cerca de dois anos-luz da zona de descarga. Antes do pouso, ainda a vira nitidamente sob a forma de uma linha reluzente. Se quiséssemos renunciar à transição, teríamos de viajar pouco mais de dois anos para atingir a abertura.
Face à dilatação verificada, apenas uns poucos dias se haviam passado para nós. Mas, num outro plano de referência, o tempo se teria mantido estável. Nem podíamos pensar no que aconteceria na base espacial Fera Cinzenta. Sem dúvida acreditariam que estávamos mortos.
Por isso nossa tarefa mais urgente consistia em encontrar uma proteção eficaz contra os perigos resultantes de outro hipersalto. Bell, que permanecera durante horas a fio no centro de computação, juntamente com o matemático Kenius, afirmou que as condições do Universo dos druufs se estabilizavam a cada dia que passava. A paralisia geral só teria surgido em virtude da perturbação do equilíbrio das forças naturais.
Não nos parecia que conseguiríamos encontrar um antídoto de caráter bioquímico. Por isso resolvemos permanecer o maior tempo possível em Hades. Cada hora que se passava faria avançar o processo de estabilização gradativa das diversas formas de energia.
Se necessário, teríamos de realizar a transição nas condições existentes. Caso as coisas não dessem certo, o salto seria efetuado por mim e, assim que acordasse, caber-me-ia a tarefa de tomar todas as providências para evitar que a Califórnia fosse destruída.
Mas, se eu pensara que esses sujeitos malucos do planeta Terra se deixariam abater pela situação nada brilhante, estava muito enganado!
O que fizeram assim que conseguiram colocar os pés no chão? Em vez de se manterem em resguardo, não pensaram em outra coisa senão iniciar a construção da chamada base de transmissores.
O Dr. Sköldson praguejou e correu por toda a nave, mas a tripulação conseguiu esquivar-se com tamanha habilidade, que não conseguiu agarrar nem um único dos homens. A arma de Sköldson, que não era outra coisa senão uma seringa com pelo menos quinhentos milímetros de calmante, não produziu nenhum efeito, porque não conseguiu encontrar uma única vítima.
Eu mesmo só consegui livrar-me da injeção por trazer na ponta da língua a ponderação de que meu organismo de arcônida era de constituição diferente.
Quando uma porta blindada que se fechava quase o cortou em dois, Sköldson resolveu desistir. Dali em diante, via-se sobre a porta da clínica de bordo uma enorme placa com os seguintes dizeres:
Entrada permitida somente de quatro.
Era a vingança do médico. Apenas, este teve o azar de que ninguém entrou de quatro em sua clínica. Tinha certeza de que essa gente preferiria fazer uma operação em si mesmo a ceder à exigência de Sköldson.
Normalmente se poderia rir a valer sobre esse incidente, que constituía uma amostra típica do comportamento dos astronautas terranos. Mas na situação desesperadora em que nos encontrávamos, não achei graça.
Era esta a situação há oito dias, tempo-padrão, depois do pouso no planeta Hades que, conforme já tivéramos oportunidade de perceber, tornava-se martirizante.

* * *

Só faltava instalar no espaço oco o grande transmissor, cujo alcance era pouco superior a dois anos-luz.
Não se podia negar que esses terranos tinham senso prático. Colocaram a Califórnia ao pé da grande cadeia de montanhas, com a qual procurara não entrar em contato durante o pouso.
Cordilheira da Esperança, foi esse o nome que Rhodan deu ao maciço que atravessava a zona de penumbra com seus oitenta quilômetros de largura. A leste do lugar em que nos encontrávamos, os picos se erguiam para dentro da luz implacável do sol, enquanto a oeste os cumes desapareciam na escuridão eterna da face gelada.
De qualquer maneira, a rocha natural não pôde resistir quando Rhodan em pessoa manipulou um canhão de impulsos de tamanho médio e fundiu uma abertura em forma de túnel nos flancos do complexo montanhoso.
Os gases produzidos pela evaporação da rocha foram ionizados. Depois os captamos por meio de campos magnéticos. Muito além da faixa de vibração, os vapores voltaram a solidificar-se e choveram ao solo sob o efeito da gravidade.
As paredes da abertura foram revestidas pelo processo de pistola de plástico blindado e providas de uma comporta de ar de dimensões relativamente reduzidas. É claro que, antes disso, o grande transmissor foi colocado na abertura, que media vinte metros de altura e quase cinqüenta metros de profundidade.
Naquele momento, os homens estavam camuflando a parede externa artificial. Mais uma vez a rocha natural foi gaseificada. Um raio de tração a captou em estado ionizado e a comprimiu contra o abaulamento de plástico blindado. Como a aderência fosse perfeita, surgiu um reboco tão irregular e de aspecto tão natural que só pude fazer um gesto de admiração. Esses pequenos bárbaros sabiam como defender-se. Era pena que sua leviandade não conhecia limites.
Pelos meus planos, já devíamos ter decolado no dia anterior para tentar o salto. É que o cuidadoso controle que levei a efeito parecia revelar que os cálculos de Bell tinham uma base aceitável.
Mas não. Não quiseram partir enquanto esse maldito transmissor não tivesse sido instalado.
A vibração do planeta era bem mais intensa do que supúnhamos. Há três dias notáramos que a extremidade superior do sol gigante sobressaía cada vez mais sobre a linha do horizonte.
Em conseqüência disso, a face diurna passou a estender-se na direção do lugar em que estávamos. Era um fenômeno inconveniente.
Ficava cada vez mais claro. Já se distinguiam perfeitamente os contornos das montanhas e ao ar livre liam-se trechos impressos em caracteres pequenos. E ainda pressentíamos o hálito escaldante que nos envolveria dentro de alguns dias. Não nos demos ao trabalho de realizar as observações minuciosas que se tornariam necessário para calcular a seqüência exata das oscilações. O planeta Hades não nos parecia suficientemente interessante para isso.
Bastava saber que seu diâmetro era de 6.385 quilômetros, e que a gravitação chegava a 0,35G. As condições seriam muito semelhantes às de Marte, se não fosse a lentidão de seu movimento de rotação em torno do próprio eixo.
Protegera-me atrás da Califórnia. Pouco acima do solo sempre havia vestígios tênues de gases, resultantes da evaporação das precipitações atmosféricas. Até chegamos a constatar a presença de oxigênio, mas sua percentagem era tão reduzida que não havia como aproveitá-lo.
Envergávamos os pesados trajes espaciais equipados com um gerador automático de campo defensivo. Dessa forma, a eliminação da gravidade nos permitia fazer vôos restritos. Além disso, estávamos protegidos contra o ambiente hostil.
O medidor de pulso indicou que a temperatura estava sujeita a fortes variações. O calor aumentava à medida que a extremidade superior do sol vermelho se erguia acima do horizonte.
Por ali, a poucos quilômetros do lugar em que nos encontrávamos, reinava um calor mortífero. Todas as substâncias, cujo ponto de fusão fosse baixo, entravam em ebulição, e o solo deserto era tão quente que só se podia pisá-lo com botas especiais e blindadas. Até então fizera uma única tentativa de submeter a um exame detido o deserto iluminado pelo olho mortífero do sol vermelho. Mas como as investigações praticamente não se revestissem de qualquer interesse, logo desisti das mesmas.
Quando o pequeno canhão de impulsos da Califórnia voltou a trovejar, recuei apressadamente. Ao que tudo indicava, Rhodan ainda não julgava suficiente o reboco de rocha, cuja grossura chegava a quase três metrôs. Há poucos minutos avisara-me pelo rádio de capacete que ainda havia um pequeno risco de que as substâncias estranhas fossem localizadas.
Esperei que o raio energético ofuscante se apagasse. Só depois fui à parede de rocha, muito bem camuflada, para passar pela minúscula comporta e penetrar no interior do túnel.
A instalação do transmissor já fora concluída. Um pequeno gerador de emergência forneceria luz e, se necessário, calor, mas o problema do suprimento de ar respirável ainda não fora solucionado. No dia seguinte seria montado o equipamento de oxigênio e de climatização, e também o equipamento de regeneração de ar.
Por isso as duas escotilhas de aço da comporta de ar ainda estavam abertas quando finalmente cheguei à parede de rocha. Face à reduzida gravitação do planeta, o peso do traje espacial ficou reduzido a tal ponto que quase não sentia a carga.
Fiquei espantado ao encontrar Rhodan e o mutante Fellmer Lloyd no interior da grande galeria. Eles estavam controlando os contatos do transmissor, cuja unidade energética autônoma e os elementos de regulagem nos deixavam bastante preocupados. Pretendia-se utilizar essa base para o recebimento de peças de novos transmissores, que poderiam ser montados ali mesmo. Se tudo corresse segundo os planos, seria perfeitamente possível que, um belo dia, os terranos possuíssem uma fortaleza oculta em pleno coração do sistema dos druufs.
— Será que vocês estão loucos? — gritei para dentro do microfone de meu capacete. — Talvez vocês se tenham esquecido, mas acontece que há cerca de dez minutos Reginald Bell atirou contra este morro com o canhão de radiações, a fim de obter material de camuflagem.
Rhodan virou o corpo para ver-me melhor. Lloyd, no qual a mutação só produzira a capacidade de percepção das vibrações cerebrais de outros seres, até que um treinamento adicional lhe conferisse o dom da telepatia, soltou uma gargalhada. Era um tipo moreno e apático, de olhos inteligentes e estatura baixa e robusta. Gostava dele porque nunca tentara romper meu bloqueio mental para sondar o conteúdo de minha mente.
— É verdade! — disse Rhodan em tom indiferente. — Acontece que aqui dentro não percebemos nada. Onde estão esses dorminhocos?
Respirei profundamente. Esse bárbaro talvez pensasse que outras pessoas também sabiam passar quarenta e oito horas sem dormir.
— Mandei-os para os camarotes, se é que você me dá licença a posterior!. Sabe lá como vai a saúde de seus homens? Afinal, eles não são robôs.
Seus olhos cansados e injetados de vermelho brilharam alegremente atrás do visor do capacete.
— Está bem — respondeu. — Amanhã o equipamento de aeração será instalado na caverna. Depois verificaremos a exatidão de sua teoria da compensação. Não quero passar mais uma vez por aquela paralisia! Você compreende?
Sim, compreendia muito bem. Levarei muito tempo para esquecer a terrível visão.
Vindos de fora, ouviram-se ruídos fracos. Os vestígios de ar conduziam o som permitindo que se pudesse detectar a presença de fontes de ruídos. Pelo rádio de capacete fomos advertidos de que não devíamos abandonar nossa posição. Os especialistas da nave estavam aplicando mais uma camada de rocha.
Dali a quinze minutos, estava tudo terminado. À frente da comporta aberta, surgira um dique formado pelos pingos de rocha, que quase chegava a impedir a entrada.
— É um trabalho caprichado e preciso — constatou Lloyd em tom satisfeito.
Fiquei encantado ao notar que os tripulantes da Califórnia nos haviam deixado uma pequena saída. Rhodan cometera uma leviandade imperdoável ao manter-se no interior da galeria durante a ação de camuflagem.
No momento em que Rhodan colocava no chão uma ferramenta especial, o inferno irrompeu do lado de fora. Uma onda de compressão atravessou a pequena abertura com tamanha violência que nos atirou para trás.
Antes que as dores vindas das costas me deixassem quase inconsciente, ainda ouvi o grito estridente de Lloyd. Apenas Cheguei a compreender que o ataque, que já não esperávamos mais, acabara de ocorrer. Apenas, viera de forma totalmente diversa da que esperávamos.
Ouvi a voz exaltada de Rhodan pelo rádio de capacete. O conteúdo da ordem enervou-me tanto quanto o volume excessivo da voz. Apenas sentia a dor.
— Decolem! Decolem imediatamente! Bell, Sikermann, subam com a nave e entrem imediatamente em transição. Esperaremos aqui até que a estação do transmissor da Drusus dê o sinal verde. Vamos logo! Decolem! Isto é uma ordem. Não podemos perder tempo. Estou dando ordem para decolar.
Voltou a gritar as mesmas palavras, até que de repente se ouviu o rugido profundo das potentes máquinas da nave. Ao que parecia, o cruzador não fora danificado, ou apenas sofrera avarias leves. Sikermann desenvolveu toda a potência dos propulsores ao decolar, o que quase fez desabar nosso pequeno túnel. O tremor de terra me fez gemer. Naquele momento, pouco me importava que a Califórnia decolasse sem nós ou não. Pensava apenas no ferimento que sofrerá com o forte impacto, e que talvez pudesse ser grave.
No ambiente em que nos encontrávamos, não havia a menor possibilidade de abrir o traje espacial hermeticamente fechado para tratar de ferimentos ou fraturas. Minhas reflexões ditadas pelo pânico foram interrompidas pela voz nervosa de Lloyd:
— Foram embora! Meu Deus, foram embora!
Rhodan ergueu-se lentamente. Lá fora, junto à comporta, via-se uma incandescência ofuscante. Ao que tudo indicava, haviam disparado contra o cruzador com um pequeno canhão de impulsos.
Apesar das dores que sentia, não pude abster-me de uma observação.
— Então, bárbaro, o que me diz? Tivemos uma bela surpresa, não é? Será que você poderia fazer o favor de verificar se por acaso fraturei a coluna?


7



— Quando eu o vejo assim, chega a estranhar que a mãe de meu filho também seja uma arcônida — disse Rhodan em voz alta.
A onda de choque provocada pelo tiro de radiação enchera o túnel com uma massa de gases comprimidos. Lá fora soprava uma brisa ligeira. Provavelmente o raio térmico escaldante acelerara o fenômeno já iniciado da evaporação dos gases, De qualquer maneira, consegui entender Rhodan, do que se concluía que havia um meio propagador de som.
Eu estava deitado de bruços. Fellmer Lloyd estava agachado junto à entrada da caverna e olhou para a planície rochosa ondulada, na qual há quinze minutos estivera a Califórnia.
Poucos segundos depois da decolagem de emergência, havíamos recebido uma mensagem pelas ondas normais de rádio. O cruzador devia ter disparado para o espaço com a aceleração louca que lhe era peculiar e, por isso, mal conseguimos ouvir a transmissão. Afinal, as ondas ultracurtas sofrem uma grave interferência das partículas expelidas pelos mecanismos de propulsão, e não possuíamos nenhum hiper-rádio.
Sikermann e Bell comunicaram que haviam conseguido romper o bloqueio. Arriscariam a transição. Passariam pela fresta e penetrariam no Universo einsteiniano, de onde voltariam de qualquer maneira com a Drusus.
Assim que ouvimos o último fragmento da mensagem, as comunicações de rádio foram interrompidas em definitivo. Sem dúvida, a Califórnia já saltara, pois não levava mais de cinco minutos para atingir a velocidade da luz.
Restava saber se Sikermann conseguiria fugir do plano temporal dos druufs. Provavelmente as tempestades gravitacionais no interior da zona de descarga já teriam amainado. Se tivéssemos muita sorte, a Drusus poderia chegar ao espaço dos druufs, dali a algumas horas. E, uma vez que trazia a bordo excelentes transmissores de elevada potência, provavelmente conseguiríamos escapar daquele inferno...
Os dedos de Rhodan voltaram a comprimir minhas costas. Não pude deixar de gemer baixinho.
Fellmer Lloyd virou a cabeça para nós. A luz, que penetrava pela abertura da caverna, permitiu-me ver seu rosto coberto de suor.
Procurei sorrir, para fortalecer o moral do homem que provavelmente estaria sofrendo muito mais que eu.
Rhodan cochichara ao meu ouvido que, há algumas horas, o mutante sofria um princípio de disenteria. Não avisara imediatamente da doença, porque o Dr. Sköldson continuava a insistir na norma de “andar de quatro”. Evidentemente fora uma loucura rematada não avisar imediatamente o médico sobre um assunto desagradável como este.
Depois da partida da Califórnia, Lloyd passou a contorcer-se em violentas cólicas intestinais. Senti-me deprimido e envergonhado ao mesmo tempo, ao ver que soubera dominar seu sofrimento com tamanha hombridade. Ao que parecia, já estava passando melhor. Ao menos esforçou-se para retribuir meu sorriso.
Mas, a essa hora, ainda não sabíamos que as instalações sanitárias do traje espacial de Fellmer não estavam funcionando. Provavelmente durante a queda esse equipamento vital sofrera avarias tão graves que já não podia executar suas importantes funções.
Nós não podíamos fazer nada pelo mutante. Ele dependia exclusivamente do estoque reduzido de medicamentos que se encontravam na cápsula de suprimento automático de seu capacete. Mas provavelmente entre esses remédios não havia nenhum medicamento para os intestinos.
Dali em diante, não movi nenhum músculo da face, até que Rhodan concluísse o exame. Tateou minhas costas através do material grosso de meu traje espacial, método que era bastante deficiente.
— O que é isso? Você conhece minha estrutura óssea?
— Mais ou menos. Uma vez que seu tórax não é normal, a sua placa óssea deve ir até, mais ou menos, a altura da costela inferior direita de um ser humano... Será que está fraturada aqui?
Bateu com o dedo no lugar a que se referira. Levantei-me com um grito.
Se apenas a placa dorsal estivesse rompida, as coisas não seriam tão ruins assim. A regeneração daquele tecido forte, mas altamente elástico, era extremamente rápida.
Provavelmente algumas horas de repouso seriam suficientes.
— Você seria um excelente médico — disse com um gemido, assim que consegui colocar-me de pé.
Caminhei cautelosamente em direção à comporta de ar, que, do lado de fora, estava encoberta por uma elevada parede. Só podíamos olhar para o exterior através de uma fenda estreita.
O soterramento, que antes era considerado uma desvantagem, agora representava uma vantagem considerável.
Se os druufs tivessem um pouquinho de inteligência, gostariam de saber o que viera fazer neste mundo a tripulação daquele cruzador desconhecido, que fugira tão depressa. Se além do mais não tivessem apreendido ou destruído a Califórnia, sem dúvida estariam interessados em obter outras indicações. E essas indicações só poderiam ser encontradas no lugar em que antes estivera a nave, ou seja, a menos de seiscentos metros da abertura da caverna, da qual 75 por cento haviam sido fechados pela rocha derretida.
Não nos entregamos a qualquer ilusão sobre o que poderia acontecer, caso resolvessem realizar uma investigação minuciosa. Em virtude da excelente camuflagem, em hipótese alguma, a grande parede de plástico poderia ser vista. E a localização da matéria estranha também me parecia impossível, a não ser que resolvessem colocar o respectivo aparelho junto à entrada do túnel. Mas isso seria um simples acaso.
Os lugares mais perigosos eram aqueles em que o material fora retirado para servir no revestimento da parede de plástico. Era bem verdade que esses lugares ficavam a uma distância regular. Neles existiam amplas superfícies vitrificadas, que permitiriam certas conclusões.
Se nos defrontássemos com seres humanos, a estes talvez ocorresse a idéia certa. Mas não tínhamos nenhuma certeza sobre a reação dos druufs. Talvez os mesmos não soubessem o que pensar diante do fenômeno das rochas fundidas expostas.
Era nossa única esperança, pois a realização da investigação tornava-se tão certa quanto a própria existência dos druufs.
Deitamos na comporta e subimos a forte rampa. A fenda não tinha mais de quarenta centímetros de largura. Com alguma dificuldade, se conseguiria ultrapassá-la. Mas nem por isso se poderia dizer que a mesma era visível do lado de fora. Provavelmente a fenda se encaixava com tamanha perfeição na parede rochosa entrecortada, que só uma pessoa que passasse por perto poderia notar alguma coisa. Nessas condições não tínhamos o menor interesse em entrar em contato com os druufs.
Comprimi meu capacete contra o de Fellmer Lloyd, a fim de usar o respectivo material como condutor de som e obter uma comunicação mais perfeita. Ouvi-o gemer baixinho. Seu corpo executava movimentos convulsivos. Provavelmente estava sofrendo mais um ataque de cólicas.
— Fique calmo, meu filho — gritei. — Daqui a algumas horas, a Drusus penetrará no espaço dos druufs. As instalações de nosso transmissor são perfeitas. Funcionará perfeitamente.
— Tomara, almirante — respondeu em tom hesitante.
Ouvi que respirava com dificuldade.
— Peço desculpas por ter falado num tom pouco otimista. Mas afinal sou apenas um ser humano e meu corpo...
— É claro; não há nada para desculpar — interrompi-o em tom constrangido.
Meu constrangimento não era provocado pela doença, que era tão natural como qualquer outra. Tinha sua origem no fato de aquele homem ter julgado necessário formular um pedido de desculpas.
— O senhor terá de agüentar, Lloyd. No momento estamos condenados à inatividade. No interior da caverna reina um vácuo quase perfeito. O que dizem os controles das suas instalações sanitárias? Faremos uma limpeza das mesmas. Fique deitado e acalme-se. Entendeu?
— Entendi, sim senhor. Farei o que o senhor acaba de dizer. Apenas receio que não haja mais nada para limpar, almirante.
Rhodan encostou seu capacete ao meu. Ainda não compreendera, mas ele já parecia desconfiar do que estava acontecendo...
Dali a alguns segundos, Lloyd confessou em tom hesitante que o aparelho se quebrara ou sofrera outro tipo de avaria durante a queda provocada pela onda de choque.
E foi assim que ouvimos a notícia catastrófica. A sintomatologia de sua doença poderia causar dentro de pouco tempo o envenenamento do ar respirável. Para produzir a necessária pressão externa, os aparelhos estavam cheios de gases intestinais, que trasmitiam ao corpo uma pressão de cerca de quinhentos milibares.
— Agüente, Lloyd, a Drusus não demorará a chegar — disse Rhodan a título de consolação.
Naquele momento não encontrei nenhuma palavra que pudesse trazer alívio.
O mutante virou a cabeça e esforçou-se para sorrir. Eu já sofrera uma disenteria bacilar, e por isso sabia perfeitamente o que esse homem devia estar sofrendo no seu envoltório hermeticamente fechado.
Comigo o desastre acontecera num acampamento de Wallenstein. Naquela oportunidade tratava-se de uma epidemia, e não dispúnhamos de qualquer meio para debelar o mal.
— Onde o senhor contraiu a infecção? — perguntou Rhodan. — Isso deve ter alguma causa.
— Talvez tenha sido a água de Fera Cinzenta, Sir — disse Lloyd com a voz débil.

A suposição podia perfeitamente ser correta. Caso Lloyd se tivesse deixado seduzir pela água límpida das fontes, havia uma boa probabilidade de ter contraído a infecção por lá. Caso ainda tivesse oportunidade, sugeriria aos membros da equipe médica da frota que incluíssem nas provisões dos trajes espaciais certos antibióticos de amplo espectro de ação.

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