A pouco menos de uma hora-luz,
rugia a maior batalha realizada num “espaço”
tão reduzido.
Os estalos e rugidos dos
rastreadores estruturais indicavam que ali as transições das grandes naves
espaciais eram constantes. E outras indicações dos instrumentos deixavam
patente que seres estranhos, não-galácticos, usavam uma tecnologia de vôo à
velocidade superior à da luz. Velocidade que era desconhecida de qualquer
inteligência do Universo einsteiniano.
Mais uma vez, surgiram os
misteriosos ecos de ondas de choque, que se revelavam em curvas sinuosas e
jamais poderiam provir de uma transição. Esses fenômenos só poderiam surgir se
alguém voasse pelo hiperespaço!
Nosso localizador de massas da
quinta dimensão registrou a presença de um número incrível de naves. Ao que
parecia, naquele instante, a frota de bloqueio do computador-regente estava
rechaçando outro ataque dos druufs. Imaginava perfeitamente que os
desconhecidos deveriam estar ansiosos para, depois da estabilização das zonas
de superposição, verificar o que havia em nosso Universo.
Mas não deveriam ter contado com
tamanha resistência. Provavelmente acreditavam que poderiam atravesssar à
vontade a zona de superposição, e sem que ninguém os observasse.
Bem perto de nós, a menos de dez
minutos-luz, o negrume do espaço foi interrompido por uma espécie de
fogo-fátuo. Parecia que um pintor maluco acabara de manipular ao acaso um
enorme pincel, iluminando em vários pontos a escuridão com manchas e traços
vermelho-escuros.
Vez por outra, ainda se viam os
conhecidos funis. Recordava-me deles em virtude de uma triste experiência. Mas
a maior parte das aberturas já se haviam unido, formando uma fenda
entrecortada.
Era dali que provinha a
luminosidade deprimente. As indicações fornecidas pelas sondas teleguiadas
haviam demonstrado que a zona de descarga era inconstante.
Via de regra, suas dimensões
oscilavam entre 0,6 e 1,1 anos-luz. A largura variava entre 20 e 100 bilhões de
quilômetros. Face a isso, e considerados os padrões cósmicos, tratava-se de uma
minúscula fenda, que apenas permitiria a livre penetração no plano dos druufs.
Já colocáramos os trajes especiais
arcônidas, uma vez que, numa situação como essa, os trajes espaciais comuns não
nos pareciam suficientes. Colocamos os capacetes pressurizados sobre a cabeça e
mantivemos os dedos nos botões de contato dos projetores de campos defensivos.
Os micro-reatores instalados nas mochilas estavam funcionando. Dessa forma,
havíamos feito o que estava ao nosso alcance para enfrentar adequadamente uma
eventual ruptura do débil envoltório do cruzador.
O oficial de localização já
desistira de anunciar as indicações recebidas. Um silêncio completo reinava a
bordo da ultra-rápida nave Califórnia. No alto-falante de meu capacete só se
ouvia a respiração de homens nervosos.
O rosto de Rhodan apresentava uma
expressão séria e fechada. Ao que parecia, só agora se dera conta dos recursos
imensos de que o computador-regente de Árcon podia dispor.
Vez por outra alguém praguejava em
voz alta. Esses sons surgiam nos alto-falantes de capacete toda vez que havia
uma catástrofe nas proximidades.
Não conseguíamos realizar a
observação ótica das inúmeras naves. Só a hiperlocalização revelava que na
escuridão do espaço estavam escondidos numerosos corpos de aço, de cujos
flancos se desprendia o hálito atômico dos pesados canhões de impulsos e de
desintegração.
Só víamos nitidamente as unidades
destruídas. Se a luz chegasse a nós com suficiente rapidez, uma luminosidade
ofuscante surgia nas telas óticas.
Nos poucos segundos decorridos,
desde o momento em que voltamos a mergulhar no espaço comum, contáramos mais de
duzentos sóis atômicos artificiais. Devia haver muito mais, pois nem todos
poderiam ser observados diretamente. Fugíamos dos raios de luz.
A voz de Rhodan rompeu o silêncio,
que já se tornava opressor:
— Atenção todos! Atingiremos a
zona dentro de três minutos aproximadamente. Atem os cintos e só os soltem
depois que a tivermos rompido. Devemos atravessá-la em poucos segundos. Não
precisamos contar com nenhum ataque. Nossa nave é rápida demais para ficar
exposta ao fogo de outro veículo espacial. Só se pode atirar com precisão
quando o objeto não desenvolve mais da metade da velocidade da luz. Escaparemos
a qualquer disparo de radiações. Quanto ao mais, peço-lhes que cuidem dos
nervos. Se nossas sondas conseguiram atravessar a zona intermediária, nós
também conseguiremos. Fim.
Passei os olhos pela sala de
comando fracamente iluminada. Os homens mantinham-se imóveis atrás dos
instrumentos, mas em todos eles ardia a excitação. Sabiam os efeitos que podem
resultar da travessia de uma zona de descarga.
De repente nossos débeis campos
defensivos tornaram-se visíveis nas telas óticas. Descargas azuladas ofuscaram
nossos olhos. Naquele momento compreendemos que a afirmativa de Rhodan, segundo
a qual não poderíamos ser atingidos, era ao menos leviana.
Ouviu-se uma série de terríveis
estalos. O corpo da Califórnia, que já estava sendo solicitado ao máximo,
começou a tinir.
— Foi um impacto ocasional
involuntário. Voamos diretamente para dentro do raio — disse a voz forte de
Rhodan, que foi interrompida por uma risada estridente.
Concluí que a mesma devia provir
de Bell.
— Silêncio a bordo! — gritou
Perry.
Ao que parecia, mesmo ele se
sentia um pouco nervoso.
A fenda de descarga, que de longe
parecera insignificante e inofensiva, transformara-se num abismo devorador. A
vista já não conseguia abranger toda sua largura.
Antes que os homens ouvissem o
grito de advertência de Sikermann, penetramos na luminosidade vermelha. Os
inúmeros impulsos de localização apagaram-se tão depressa que até parecia que
nunca houvera uma frota arcônida logo atrás de nós.
A última unidade energética, que
ainda funcionava em ponto morto, começou a participar do rugido geral. Dali em
diante, mal se entendiam as palavras transmitidas pelo sistema de rádio.
As ordens de Sikermann, emitidas
em voz muito alta, submergiram em meio ao barulho infernal. Lá fora, nossos
campos defensivos pareciam colidir com uma muralha energética invisível.
Cerca de seis segundos depois do
momento em que mergulhamos, as luzes de advertência da unidade energética
número três acenderam-se. Tratava-se da estação que acabara de ser ligada.
O rumorejar surdo tornou-se ainda
mais forte, mas os campos defensivos chamejantes ficaram privados de seu
suprimento de energia. A pequena tela mostrou um letreiro luminoso:
Aviso
automático. Usina III transferida para neutralizadores de pressão.
As mãos de Sikermann passaram a
desenvolver uma atividade febril. Era evidente que a Califórnia estava
submetida a uma desaceleração involuntária, cuja intensidade devia ser
tamanha... A energia necessária ao funcionamento dos neutralizadores já não
podia ser fornecida exclusivamente pelo seu próprio gerador.
Vi que o rosto de Rhodan estava
ligeiramente desfigurado. Da sala de máquinas veio a informação de que já fora
atingida a capacidade máxima dos reatores. Sikermann mandou que os mesmos
passassem a funcionar em regime de emergência.
Dentro de vinte segundos, a
redução de velocidade tornou-se bem perceptível. Logo depois, a velocidade
reduziu-se para 79 por cento luz.
Terríveis descargas bramiam junto
ao envoltório esférico do cruzador. Penetráramos em alguma coisa que
ultrapassava nossa compreensão e as possibilidades de nossa tecnologia. Parecia
que a goela de um submundo se abrira, para deglutir a nave e os homens.
O mutante Ralf Marten foi atirado
violentamente para fora do assento, pois num movimento instintivo colocou o
braço na abertura de emergência dos cintos. Vi-o escorregar pela sala de
comando, até que se detivesse junto a uma calculadora cosmonáutica.
Ninguém entendia as ordens e os
comunicados. Quando liguei meu campo defensivo individual, uma fluorescência
fantasmagórica rompeu a escuridão da sala de comando. Ao que parecia, o ar fora
de nossos trajes de combate estava carregado, pois do contrário o campo
individual não se tomaria visível.
“Estamos no fim”, pensei. “Arriscamos
demais.”
Naquele instante, a tremenda
retumbância cessou subitamente. Apenas os reatores da nave, que funcionavam a
plena potência, continuavam a emitir seu ruído característico.
Mais uma vez, o letreiro luminoso
surgiu à minha frente.
Dispositivo
automático de advertência — Gerador III religado para os campos defensivos.
Só agora tive tempo de passar os
olhos pela sala de comando. Os tremendos abalos haviam colocado fora de ação
cerca de trinta por cento das telas de comunicações.
Meu rádio, ligado ao volume
máximo, parecia estourar-me o ouvido. A voz de Rhodan soou com uma potência
apavorante.
Soltei um gemido e girei o
regulador de volume para a esquerda. Com os outros devia ter acontecido a mesma
coisa, pois durante o vôo todos haviam tentado captar alguma comunicação.
— ...passamos. Cuidem de Marten.
Parece ter-se machucado na queda. De resto, tudo O.K.!
Bati com a mão espalmada sobre o
fecho dos cintos e levantei-me com um gemido. Naquele instante, ouviu-se o
comunicado vindo da central energética.
— A desaceleração foi de mil e
oito quilômetros por segundo ao quadrado. Os neutralizadores trabalharam em
regime de sobrecarga.
— Como poderia ter acontecido
isso? — perguntou Rhodan, respirando com dificuldade. — Os dados captados pelas
sondas diziam outra coisa.
Não tive necessidade de refletir
para encontrar uma explicação plausível.
— São diferenças nas influências
gravitacionais. A zona de compensação ainda é tão jovem que não se poderia ter
estabilizado. Deveríamos ter esperado mais algumas semanas.
A equipe técnica da nave começou a
reparar as avarias. Na altura da comporta inferior, havia uma rachadura no
envoltório da nave. Fora disso, o casco da Califórnia parecia intacto.
— Olhem só! — disse Sikermann em
tom de surpresa.
Virei a cabeça.
E o que vi nas telas teria levado
qualquer outra pessoa a praguejar fortemente. No entanto, apenas senti meu
coração pulsar mais lentamente.
— Preparar a nave para o combate!
— ordenou Rhodan pelo sistema de intercomunicação do pequeno cruzador.
Enquanto as sereias começavam a
uivar e os instrumentos indicavam que desenvolvíamos apenas metade da
velocidade da luz, fitei as telas.
— Bem que poderíamos ter imaginado
que os druufs também tivessem postado uma frota em seu universo — disse
Reginald Bell. — Será que essa gente sabe “aceitar
uma boa brincadeira?”
Não souberam.
Provavelmente o senso de humor de
Bell ficaria afetado pelos acontecimentos que começavam se desenrolar...
As longas naves em forma de bastão
encontravam-se tão próximas que as distinguíamos nas telas do hiperlocalizador
sob a forma de imagens em alto-relevo. Se não estivessem tão perto, a imagem
consistiria, quando muito, num pontinho verde.
Sikermann trabalhava como um
autômato. Suas mãos deslizaram rapidamente sobre as chaves de controle manual.
Naquele momento, compreendi perfeitamente por que motivo Rhodan o investira
temporariamente como comandante da nave Califórnia.
Uma nave, que media pelo menos
trezentos metros de comprimento, atingiu-nos em cheio. Um vulcão energético
irrompeu nos campos defensivos de nossa nave.
Os canhões e radiações do inimigo
pegou-nos de surpresa...
Numa fração de milésimo de
segundo, a Califórnia, uma nave tão bela por fora e tão fraca por dentro, se
parecia com uma bola de aço que cuspia fogo. Seu débil armamento defensivo
entregou os pontos ao primeiro ataque. É bem verdade que tivéramos azar ao
colocar-nos diante dos canhões de uma nave aparentemente muito forte.
No momento em que ouvi o ruído
infernal e a incandescência irradiada pela telas ameaçava cegar-me, perdi o
apoio dos pés.
Uma tormenta varreu-me pelo soalho
de plástico da sala de comando. Levei algum tempo para conseguir segurar-me no
pé da poltrona do localizador.
Gritaria, berros, um estrondo
real, foram estas as impressões registradas pelos meus sentidos. Sabia que
recebêramos ao menos quatro impactos térmicos ao mesmo tempo; era demais para o
pequeno cruzador, cuja força consistia exclusivamente em suas máquinas.
Dali a alguns segundos, a nave
começou a girar em torno de seu eixo transversal. O espaço sombrio do Universo
desconhecido com suas inúmeras estrelas transformou-se numa roda de fogo.
Já desistira de ter esperanças,
quando finalmente as unidades energéticas da Califórnia voltaram a entrar em
funcionamento. Só agora tornava-se possível recorrer a toda a força titânica
dos propulsores, pois já não havia o perigo de que a força da inércia nos
reduzisse a pó.
Uma dor aguda atravessou meu
corpo. Os neutralizadores de pressão entraram em funcionamento com um atraso de
cerca de um milésimo de segundo.
A forte luminosidade dos nossos
campos defensivos estava cessando. Se os druufs acelerassem com a mesma rapidez
que nós, não haveria salvação.
Acontece que nem de longe
conseguiram acompanhar-nos. Afastamo-nos em velocidade tresloucada, antes que
outras naves pudessem enquadrar-nos em sua mira.
Os mecanismos automáticos de
estabilização fizeram cessar o giro do corpo da nave. Quando o processo foi
concluído e a imagem se ajustou, consegui ver novamente o estranho espaço.
Enquanto nosso Universo era negro,
aqui predominava o tom vermelho-escuro. A luminosidade das estrelas era
idêntica à do nosso Universo, mas sua luz natural sofria uma distorção...
— Transição ligeira! — ordenei com
um gemido. — Vamos logo! Temos que dar o fora daqui. Estamos entrando
diretamente nas falanges do inimigo. Será que isto lhe servirá de lição, homem
das cavernas? Nem sempre a audácia sai vencedora, e seus mutantes serão mortos
pelo fogo dos canhões como qualquer outra criatura. Entre logo em transição!
Rhodan ouvira minhas palavras, que
provavelmente eram desnecessárias. Sikermann já estava comprimindo o botão do
chamado autômato de saltos de emergência.
Então teve início uma transição
matematicamente incontrolável, que nos levaria a algum lugar. Podia-se realizar
uma avaliação aproximada da distância que seria percorrida, mas não da direção.
A dor da desmaterialização
surpreendeu-me enquanto estava deitado. Segundo as leis válidas em nosso
Universo, a posição em que a pessoa se encontrava durante o salto era
totalmente indiferente. No entanto, até neste ponto, o Universo dos druufs
parecia oferecer algumas surpresas.
Antes que pudesse formular algo
sobre a percepção desse fato, dei-me conta de que acabáramos de cometer mais um
erro.
Qualquer homem inteligente deveria
abster-se de transferir as leis do espaço einsteiniano para qualquer outra estrutura
espaço-temporal. Foi um verdadeiro milagre termos desaparecido no hiperespaço.
Notei a falta do murmúrio e do
farfalhar que surgia em toda transição, logo após a desmaterialização. Mas a
dor continuou. Parecia que o sistema nervoso escapara ao processo de
desmaterialização.
Quando iniciamos o mergulho no
espaço druufiniano, ainda estávamos gritando. O que se seguiu depois excedeu
minha capacidade de sofrimento. O desmaio provavelmente foi uma bênção.
Éramos uns idiotas!
De que servia a nave mais rápida,
se o homem não conseguia acompanhar seu desempenho? Era o velho problema que,
segundo ensinava a experiência, costumava ser negligenciado, pois a tecnologia
amortecia o sentimento natural de medo do indivíduo.
5
Fui o primeiro a despertar a bordo
da Califórnia. Meu organismo arcônida parecia recuperar-se depressa dos efeitos
do choque.
Fiquei surpreso com isso. Em
outras oportunidades notara-se que as reservas de energia do organismo de um
terrano são bem maiores.
Ergui-me com um gemido. Diante dos
meus olhos, um céu estrelado parecia girar loucamente. Meu subconsciente
registrou as fortes batidas do ativador. Ao que parecia, o aparelho funcionava
a plena força, a fim de transmitir os necessários estímulos às minhas células.
Depois de alguns segundos, comecei
a sentir-me melhor. A visão clareou.
Rhodan estava estendido no chão,
com o corpo contorcido. Sikermann, que desencadeara o impulso para o salto de
emergência, estava pendurado nos cintos de segurança.
A sorte dos outros homens não foi
melhor. Arrastei-me até a poltrona mais próxima e procurei refletir sobre o que
poderia fazer. Não havia necessidade de cuidar dos homens inconscientes, já que
nossos robôs médicos já saiam dos poços estreitos, situados ao longo do teto da
sala de comando.
Perguntei-me se os estimulantes de
circulação, aplicados aos doentes, os favoreceriam naquela situação em que nos
encontrávamos. Se ignorávamos quase tudo sobre as leis físicas reinantes no
espaço dos druufs, nossos conhecimentos fisiológicos e biológicos também poderiam
revelar-se inúteis ou até nocivos num ambiente como este.
Procurei controlar-me e
aproximei-me de Sikermann. Bati com a mão sobre o fecho de seus cintos de
segurança. Sikermann caiu para a frente.
Retirei-o da poltrona de comando e
tomei assento diante dos importantes elementos manuais.
A Califórnia deslocava-se em queda
livre, desenvolvendo apenas metade da velocidade da luz. Uma vez realizada a
transição de emergência, todas as máquinas se haviam desligado automaticamente.
Nas telas de visão global,
brilhava uma gigantesca estrela vermelha, que tinha uma companheira verde. Essa
estrela dupla não podia ficar a mais de dois anos-luz da zona de descarga, pois
a transição ligeira não nos faria percorrer uma distância maior que essa.
Concluí que, ao menos, o mecanismo
regulador de distância funcionara perfeitamente, embora tivesse havido alguns
efeitos estranhos.
Prestei atenção às sinetas claras
da aparelhagem astronáutica de localização de massas. Comprimi a chave e a
grande tela de imagem especial iluminou-se. Transmitiu um modelo bastante
nítido, produzido pelos ecos dos impulsos de rastreamento hiper-rápidos que
haviam detectado e medido o astro.
Vi primeiramente oito planetas. As
escalas que funcionavam simultaneamente registravam os dados apurados pelos
medidores automáticos.
Raras vezes vira órbitas tão
malucas e excêntricas!
Parte dos numerosos planetas desse
sistema que, ao que tudo indicava, era de proporções gigantescas, passavam por
vezes entre os dois sóis. Esse fato deveria produzir uma influência
catastrófica sobre as condições meteorológicas.
Havia outros planetas que
gravitavam em torno das duas estrelas, e suas órbitas me pareciam mais “favoráveis”. Dentro de dez minutos, o
rastreador automático de massas constatou a presença de 58 planetas. Um
fenômeno despertou minha atenção.
As medições gravosféricas levavam
à conclusão de que muitos dos planetas possuíam numerosas luas. As telas
diagramáticas de observação localizada apresentavam, constantemente, linhas em
ângulo, que interrompiam a imagem nítida projetada pelos ecos.
Sem dúvida, as luas maiores tinham
seus próprios satélites, que descreviam órbitas em sentido contrário.
O pior era que já penetráramos
profundamente no sistema desconhecido. Ao que parecia, o salto nos havia levado
para seu interior. O gigantesco sol vermelho já preenchia todo o setor verde
das telas dianteiras.
Meu cérebro, ainda afetado pelo
choque, começou a funcionar melhor sob a proteção de todo o potencial de força
de vontade. Compreendi que provavelmente havíamos saltado por cima da zona de
perigo.
Se minha avaliação dos
rastreamentos de massas era correta, já havíamos deixado para trás as órbitas
de mais de quarenta planetas.
O companheiro verde da estrela
central saiu lentamente de trás da grande curvatura de seu irmão maior. A luz
refletida nas telas era uma verdadeira curiosidade espectroanalítica. Só agora
me dava conta plenamente de que não estávamos em casa.
Depois de algum tempo, o
dispositivo automático de localização de energia também emitiu um zumbido insistente.
Segundo a máquina, o planeta que começava a surgir na tela de informação era o
de número 16 do sistema em que nos encontrávamos.
Nas imediações do corpo esférico,
começou um relampejar ininterrupto. Se o autômato não tivesse perdido seu “bom senso” mecânico, o planeta número 16
devia ser o mundo principal da família. Ao menos, minha experiência indicava
que um astro com aquela intensidade de energia sempre corresponde a um mundo
habitado e altamente tecnificado.
“É o ambiente dos druufs!”, anunciou meu segundo cérebro num
laconismo excitante.
Não tinha o menor motivo de
duvidar da conclusão a que chegara o setor lógico de minha mente. O relampejar
e a luminosidade, que surgiam em torno da semi-esfera, só poderiam ser
produzidos por naves que pousavam e decolavam. Os impulsos provinham de
corpúsculos, que indicavam sem a menor dúvida a presença de propulsores em
funcionamento. As coisas ainda poderiam ficar bem divertidas...
Atrás de mim, os robôs médicos
continuavam a trabalhar. Suas injeções de alta pressão chiavam continuamente.
Porém nem Rhodan nem os outros homens despertaram da estranha rigidez.
Chamei os outros setores pelo
videofone. Mas a única resposta que recebi foi a das fitas automáticas, que me
informaram em termos lacônicos de que a tripulação humana fora colocada fora de
ação.
Dali em diante, meu raciocínio
voltou a funcionar com a precisão de sempre. Não me arriscaria a realizar outro
hipersalto para abandonar esse setor que, segundo tudo indicava, era bastante
perigoso. Por enquanto tornava-se provável que a presença da Califórnia não
tivesse sido detectada. Do contrário alguém já teria cuidado de nós.
Surgiu-me outra indagação.
Por que fomos sair justamente no
interior do sistema dos druufs? Teria sido simples coincidência?
Enquanto refletia, o setor lógico
de minha mente deu sinal de si:
“Lei das massas do sistema dos druufs. Num salto descontrolado realizado
sem programação, ocorre um desvio em direção à matéria estável rodeada de
campos hipergravitacionais.”
Dali a alguns segundos, cheguei à
conclusão de que não havia melhor lugar para a Califórnia esconder-se que a
própria cova do leão. Já estava quase convencido de que, ao localizar o décimo
sexto planeta, descobrira o mundo dos druufs. O número dos pousos e decolagens
era tão grande que passava dos limites do tráfego normal de um espaçoporto. E,
ao que tudo indicava, muita coisa estava acontecendo nas luas do número 16.
Pensei em colocar em funcionamento
os conjuntos propulsores, que estavam parados, mas preferi não fazê-lo, pois
lembrei-me dos dados fornecidos pelas sondas teleguiadas.
De acordo com esses dados, o velho
fator tempo-velocidade se reduzira de um para dois. Se havíamos trazido nossa
própria dimensão temporal, estaríamos viajando à velocidade máxima que as naves
dos druufs conseguiam desenvolver, muito embora nossa nave se deslocasse a
apenas metade da velocidade da luz.
Dessa forma os desconhecidos
ficariam privados de um excelente objeto para seus instrumentos de localização.
Provavelmente nossas ondas de impulsos provocariam no décimo sexto planeta os
efeitos de uma bomba.
Havia outro motivo para deixar que
as máquinas permanecessem em silêncio. Bem à nossa frente, a apenas trinta
milhões de quilômetros, um planeta do tamanho aproximado de Marte interpôs-se
em nossa trajetória.
Esperei que o dispositivo
automático me fornecesse os dados solicitados.
Tratava-se de um dos planetas em
que a velocidade de rotação e translação são idênticas; em outras palavras, a
cada movimento completo de translação corresponde uma rotação completa. Dessa
forma a face voltada aos dois sóis era sempre a mesma.
Naturalmente as condições
climáticas desse planeta seriam extremamente desfavoráveis. Sem dúvida um mundo
desse tipo permaneceria desabitado para sempre.
Era o número 13 do sistema dos druufs.
Guardadas as proporções em relação às dimensões gigantescas da estrela
vermelha, na face diurna, o calor devia ser insuportável.
Este e outros motivos fizeram-me
corrigir a rota da Califórnia por meio de cautelosos impulsos dos propulsores
auxiliares de plasma. Dali em diante, o aparelho automático de aproximação
passou a executar o trabalho do primeiro-piloto. A única coisa a ser feita era
ajustar as duas linhas verdes de tal maneira que seu ponto de interseção
correspondia ao planeta perfeitamente reconhecível.
Com a mente preocupada, ouvi o
rumorejar vindo das salas de máquinas da protuberância equatorial da nave. O
conteúdo energético das partículas de plasma não era muito elevado. Talvez não
fossem detectadas pelos goniômetros.
Recorri à ótica eletrônica e
trouxe o número 13 para mais perto. No momento em que o planeta ocupou toda a
tela, comecei a tremer. Ao que parecia, não possuía atmosfera. A temperatura
média na face diurna era de cerca de 168 graus centígrados. Na face noturna, a
temperatura deveria ficar próxima do zero absoluto.
No entanto, havia uma zona de
penumbra cujas dimensões, face à intensa vibração do planeta, naturalmente
estavam sujeitas a variações acentuadas. Pousaria ali, para esperar com calma e
relativa segurança os efeitos da preocupante rigidez dos membros da tripulação.
Seria insensato e irresponsável continuar a passear na área controlada pelas
inteligências desconhecidas.
Minhas juntas doíam quando me
levantei da poltrona do piloto. Os pequenos robôs médicos já haviam cessado
suas atividades. Isso constituía sinal evidente de que nos encontrávamos diante
de um fenômeno desconhecido.
Com um gemido inclinei-me sobre
Rhodan. Fitei seus olhos arregalados. Tinha o rosto terrivelmente desfigurado.
Meus conhecimentos médicos eram insuficientes para formular um diagnóstico
preciso. Mas cheguei à conclusão de que talvez a rigidez não decorresse de um
estado de inconsciência total. Já vira homens que, numa situação destas,
conservavam a mobilidade espiritual, embora não pudessem mover um dedo.
A musculatura de Rhodan estava
dura como uma tábua. Tinha o aspecto de alguém atingido pelo choque de uma arma
fisiológica.
Inclinei-me ainda mais e disse em
voz alta:
— Talvez você consiga ouvir-me e
compreender minhas palavras. Devemos aguardar que a paralisia cesse por si?
Pousarei no décimo terceiro planeta do sistema em que acabamos de penetrar.
Trata-se de um corpo celeste desconhecido que gira em sintonia com o movimento
de translação. O sistema de localização energética não acusa nada. Levarei a
nave à zona de penumbra e procurarei escondê-la da melhor forma possível. Será
que pode dar-me um sinal de ter entendido?
Fitei atentamente os olhos
abertos, mas não notei qualquer reação.
Desesperado por dentro, embora por
fora me mostrasse calmo e risonho, voltei a erguer-me. O piloto automático
emitiu um sinal sonoro. Estava na hora de entrar na elipse de frenagem.
Desta vez não tive outra
alternativa senão recorrer aos potentes mecanismos propulsores centrais da
Califórnia. Os conjuntos, que funcionavam com base de plasma, não seriam
capazes de eliminar, num tempo relativamente curto, a velocidade que
correspondia à metade da da luz.
Assumi o risco porque não poderia
deixar de fazê-lo. Os conversores de impulsos emitiram um rugido. A luz verde dos
neutralizadores de pressão acendeu-se.
Desacelerei ao máximo, embora
soubesse que devia provocar um fogo de artifício no sistema de localização
energética de ao menos um observador atento.
Era possível que, com o movimento
reinante no número 16, isso não despertasse a atenção de ninguém. Havia
inúmeras possibilidades, mas não estava em condições de realizar a
interpretação matemática das mesmas, uma vez que não dispunha dos respectivos
valores-base.
O cruzador ligeiro parecia um
monstro que chispava fogo ao precipitar-se em direção ao planeta escaldante,
que batizei com o nome de Hades.
Deu-me a impressão de um submundo das
lendas gregas. Se havia alguma coisa de que não gostava, eram as zonas de
penumbra desses corpos celestes.
Pouco antes de chegar à superfície,
a Califórnia alcançou a velocidade de aterrissagem. Descrevi uma única elipse,
e durante a mesma, tive de constatar que Hades tinha vestígios de um envoltório
atmosférico. Ao que tudo indicava, os gases se haviam depositado na face
noturna, enquanto se evaporavam junto aos pontos de aquecimento, em virtude das
modificações da área de penumbra.
Dessa forma, a faixa sombreada
devia ser fustigada por tormentas violentíssimas. Era exatamente a pior das
hipóteses que eu imaginara.
Tive de dedicar toda minha atenção
à pilotagem da nave, pois tornava-se necessário equilibrar seu movimento
pendular sob a influência do campo antigravitacional. Depois de algum tempo,
consegui pousar por meio de um dos conjuntos auxiliares. Fomos parar numa ampla
planície rochosa, que no momento ficava no centro da zona de penumbra.
No horizonte via-se a coroa
chamejante da gigantesca estrela vermelha. Seu companheiro verde não assumia
qualquer importância na área meteorológica. Sua energia não seria capaz de
aumentar ainda mais a temperatura. Além disso Hades contornava ambos os sóis ao
mesmo tempo. Dessa forma, também a estrela verde iluminava apenas a face diurna
do planeta.
Quando, no curso de sua órbita, a
mesma sobressaía no horizonte, surgia a luminosidade verde que me chamara a
atenção por ocasião do pouso.
Acabara de pousar num planeta
infernal. Depois que as placas de apoio dos suportes telescópicos penetraram no
solo, comecei a recuperar o autocontrole.
Do lado de fora, o silêncio era
total. A tempestade que observara antes já amainara. Tiritei de frio ao levantar-me
da poltrona. As travessas e longarinas da Califórnia estalavam e crepitavam,
conforme costuma acontecer numa nave forçada ao máximo. Ao que tudo indicava, o
esfriamento era extremamente rápido.
— Perry, você me ouve?
Seu rosto permaneceu rígido como
uma máscara de pedra. Se estivesse em condições de sentir e pensar, devia
sofrer terrivelmente.
6
Tive de esperar mais algumas horas
Até que os primeiros terranos acordassem. Rhodan foi o quinto a recuperar os
sentidos. Os que mais sofreram foram os mutantes, cujos cérebros ligeiramente
alterados, provavelmente, eram ainda mais sensíveis que os dos outros homens.
Toda a tripulação se encontrava a
postos. Não houve nenhum caso fatal, mas o Dr. Sköldson, médico da Drusus,
levado neste vôo, recomendou repouso total.
Depois de falar com ele,
compreendi por que recuperara os sentidos tão depressa, tinha estrutura
cerebral era diferente.
O médico garantiu que, durante a
paralisia, os homens atacados pelo choque não sentiram nada. Mas ninguém se
atreveu a perguntar o que aconteceria em futuras transições.
Não havia dúvida de que nos
encontrávamos a cerca de dois anos-luz da zona de descarga. Antes do pouso,
ainda a vira nitidamente sob a forma de uma linha reluzente. Se quiséssemos
renunciar à transição, teríamos de viajar pouco mais de dois anos para atingir
a abertura.
Face à dilatação verificada,
apenas uns poucos dias se haviam passado para nós. Mas, num outro plano de
referência, o tempo se teria mantido estável. Nem podíamos pensar no que
aconteceria na base espacial Fera Cinzenta. Sem dúvida acreditariam que
estávamos mortos.
Por isso nossa tarefa mais urgente
consistia em encontrar uma proteção eficaz contra os perigos resultantes de
outro hipersalto. Bell, que permanecera durante horas a fio no centro de
computação, juntamente com o matemático Kenius, afirmou que as condições do
Universo dos druufs se estabilizavam a cada dia que passava. A paralisia geral
só teria surgido em virtude da perturbação do equilíbrio das forças naturais.
Não nos parecia que conseguiríamos
encontrar um antídoto de caráter bioquímico. Por isso resolvemos permanecer o
maior tempo possível em Hades. Cada hora que se passava faria avançar o
processo de estabilização gradativa das diversas formas de energia.
Se necessário, teríamos de
realizar a transição nas condições existentes. Caso as coisas não dessem certo,
o salto seria efetuado por mim e, assim que acordasse, caber-me-ia a tarefa de
tomar todas as providências para evitar que a Califórnia fosse destruída.
Mas, se eu pensara que esses
sujeitos malucos do planeta Terra se deixariam abater pela situação nada
brilhante, estava muito enganado!
O que fizeram assim que
conseguiram colocar os pés no chão? Em vez de se manterem em resguardo, não
pensaram em outra coisa senão iniciar a construção da chamada base de
transmissores.
O Dr. Sköldson praguejou
e correu por toda a nave, mas a tripulação conseguiu esquivar-se com tamanha
habilidade, que não conseguiu agarrar nem um único dos homens. A arma de Sköldson,
que não era outra coisa senão uma seringa com pelo menos quinhentos milímetros
de calmante, não produziu nenhum efeito, porque não conseguiu encontrar uma
única vítima.
Eu mesmo só consegui livrar-me da
injeção por trazer na ponta da língua a ponderação de que meu organismo de
arcônida era de constituição diferente.
Quando uma porta blindada que se
fechava quase o cortou em dois, Sköldson resolveu desistir. Dali em diante,
via-se sobre a porta da clínica de bordo uma enorme placa com os seguintes
dizeres:
Entrada permitida somente de
quatro.
Era a vingança do médico. Apenas,
este teve o azar de que ninguém entrou de quatro em sua clínica. Tinha certeza
de que essa gente preferiria fazer uma operação em si mesmo a ceder à exigência
de Sköldson.
Normalmente se poderia rir a valer
sobre esse incidente, que constituía uma amostra típica do comportamento dos
astronautas terranos. Mas na situação desesperadora em que nos encontrávamos,
não achei graça.
Era esta a situação há oito dias,
tempo-padrão, depois do pouso no planeta Hades que, conforme já tivéramos
oportunidade de perceber, tornava-se martirizante.
* * *
Só faltava instalar no espaço oco
o grande transmissor, cujo alcance era pouco superior a dois anos-luz.
Não se podia negar que esses terranos
tinham senso prático. Colocaram a Califórnia ao pé da grande cadeia de
montanhas, com a qual procurara não entrar em contato durante o pouso.
Cordilheira da Esperança, foi esse
o nome que Rhodan deu ao maciço que atravessava a zona de penumbra com seus
oitenta quilômetros de largura. A leste do lugar em que nos encontrávamos, os
picos se erguiam para dentro da luz implacável do sol, enquanto a oeste os
cumes desapareciam na escuridão eterna da face gelada.
De qualquer maneira, a rocha
natural não pôde resistir quando Rhodan em pessoa manipulou um canhão de
impulsos de tamanho médio e fundiu uma abertura em forma de túnel nos flancos
do complexo montanhoso.
Os gases produzidos pela
evaporação da rocha foram ionizados. Depois os captamos por meio de campos
magnéticos. Muito além da faixa de vibração, os vapores voltaram a
solidificar-se e choveram ao solo sob o efeito da gravidade.
As paredes da abertura foram
revestidas pelo processo de pistola de plástico blindado e providas de uma
comporta de ar de dimensões relativamente reduzidas. É claro que, antes disso,
o grande transmissor foi colocado na abertura, que media vinte metros de altura
e quase cinqüenta metros de profundidade.
Naquele momento, os homens estavam
camuflando a parede externa artificial. Mais uma vez a rocha natural foi
gaseificada. Um raio de tração a captou em estado ionizado e a comprimiu contra
o abaulamento de plástico blindado. Como a aderência fosse perfeita, surgiu um
reboco tão irregular e de aspecto tão natural que só pude fazer um gesto de
admiração. Esses pequenos bárbaros sabiam como defender-se. Era pena que sua
leviandade não conhecia limites.
Pelos meus planos, já devíamos ter
decolado no dia anterior para tentar o salto. É que o cuidadoso controle que
levei a efeito parecia revelar que os cálculos de Bell tinham uma base
aceitável.
Mas não. Não quiseram partir
enquanto esse maldito transmissor não tivesse sido instalado.
A vibração do planeta era bem mais
intensa do que supúnhamos. Há três dias notáramos que a extremidade superior do
sol gigante sobressaía cada vez mais sobre a linha do horizonte.
Em conseqüência disso, a face
diurna passou a estender-se na direção do lugar em que estávamos. Era um
fenômeno inconveniente.
Ficava cada vez mais claro. Já se
distinguiam perfeitamente os contornos das montanhas e ao ar livre liam-se
trechos impressos em caracteres pequenos. E ainda pressentíamos o hálito
escaldante que nos envolveria dentro de alguns dias. Não nos demos ao trabalho
de realizar as observações minuciosas que se tornariam necessário para calcular
a seqüência exata das oscilações. O planeta Hades não nos parecia
suficientemente interessante para isso.
Bastava saber que seu diâmetro era
de 6.385 quilômetros, e que a gravitação chegava a 0,35G. As condições seriam
muito semelhantes às de Marte, se não fosse a lentidão de seu movimento de rotação
em torno do próprio eixo.
Protegera-me atrás da Califórnia.
Pouco acima do solo sempre havia vestígios tênues de gases, resultantes da
evaporação das precipitações atmosféricas. Até chegamos a constatar a presença
de oxigênio, mas sua percentagem era tão reduzida que não havia como
aproveitá-lo.
Envergávamos os pesados trajes
espaciais equipados com um gerador automático de campo defensivo. Dessa forma,
a eliminação da gravidade nos permitia fazer vôos restritos. Além disso,
estávamos protegidos contra o ambiente hostil.
O medidor de pulso indicou que a
temperatura estava sujeita a fortes variações. O calor aumentava à medida que a
extremidade superior do sol vermelho se erguia acima do horizonte.
Por ali, a poucos quilômetros do
lugar em que nos encontrávamos, reinava um calor mortífero. Todas as
substâncias, cujo ponto de fusão fosse baixo, entravam em ebulição, e o solo
deserto era tão quente que só se podia pisá-lo com botas especiais e blindadas.
Até então fizera uma única tentativa de submeter a um exame detido o deserto
iluminado pelo olho mortífero do sol vermelho. Mas como as investigações
praticamente não se revestissem de qualquer interesse, logo desisti das mesmas.
Quando o pequeno canhão de
impulsos da Califórnia voltou a trovejar, recuei apressadamente. Ao que tudo
indicava, Rhodan ainda não julgava suficiente o reboco de rocha, cuja grossura
chegava a quase três metrôs. Há poucos minutos avisara-me pelo rádio de capacete
que ainda havia um pequeno risco de que as substâncias estranhas fossem
localizadas.
Esperei que o raio energético
ofuscante se apagasse. Só depois fui à parede de rocha, muito bem camuflada,
para passar pela minúscula comporta e penetrar no interior do túnel.
A instalação do transmissor já
fora concluída. Um pequeno gerador de emergência forneceria luz e, se
necessário, calor, mas o problema do suprimento de ar respirável ainda não fora
solucionado. No dia seguinte seria montado o equipamento de oxigênio e de
climatização, e também o equipamento de regeneração de ar.
Por isso as duas escotilhas de aço
da comporta de ar ainda estavam abertas quando finalmente cheguei à parede de
rocha. Face à reduzida gravitação do planeta, o peso do traje espacial ficou reduzido
a tal ponto que quase não sentia a carga.
Fiquei espantado ao encontrar
Rhodan e o mutante Fellmer Lloyd no interior da grande galeria. Eles estavam
controlando os contatos do transmissor, cuja unidade energética autônoma e os
elementos de regulagem nos deixavam bastante preocupados. Pretendia-se utilizar
essa base para o recebimento de peças de novos transmissores, que poderiam ser
montados ali mesmo. Se tudo corresse segundo os planos, seria perfeitamente
possível que, um belo dia, os terranos possuíssem uma fortaleza oculta em pleno
coração do sistema dos druufs.
— Será que vocês estão loucos? —
gritei para dentro do microfone de meu capacete. — Talvez vocês se tenham
esquecido, mas acontece que há cerca de dez minutos Reginald Bell atirou contra
este morro com o canhão de radiações, a fim de obter material de camuflagem.
Rhodan virou o corpo para ver-me
melhor. Lloyd, no qual a mutação só produzira a capacidade de percepção das
vibrações cerebrais de outros seres, até que um treinamento adicional lhe
conferisse o dom da telepatia, soltou uma gargalhada. Era um tipo moreno e
apático, de olhos inteligentes e estatura baixa e robusta. Gostava dele porque
nunca tentara romper meu bloqueio mental para sondar o conteúdo de minha mente.
— É verdade! — disse Rhodan em tom
indiferente. — Acontece que aqui dentro não percebemos nada. Onde estão esses
dorminhocos?
Respirei profundamente. Esse
bárbaro talvez pensasse que outras pessoas também sabiam passar quarenta e oito
horas sem dormir.
— Mandei-os para os camarotes, se
é que você me dá licença a posterior!. Sabe lá como vai a saúde de seus homens?
Afinal, eles não são robôs.
Seus olhos cansados e injetados de
vermelho brilharam alegremente atrás do visor do capacete.
— Está bem — respondeu. — Amanhã o
equipamento de aeração será instalado na caverna. Depois verificaremos a
exatidão de sua teoria da compensação. Não quero passar mais uma vez por aquela
paralisia! Você compreende?
Sim, compreendia muito bem.
Levarei muito tempo para esquecer a terrível visão.
Vindos de fora, ouviram-se ruídos
fracos. Os vestígios de ar conduziam o som permitindo que se pudesse detectar a
presença de fontes de ruídos. Pelo rádio de capacete fomos advertidos de que
não devíamos abandonar nossa posição. Os especialistas da nave estavam
aplicando mais uma camada de rocha.
Dali a quinze minutos, estava tudo
terminado. À frente da comporta aberta, surgira um dique formado pelos pingos
de rocha, que quase chegava a impedir a entrada.
— É um trabalho caprichado e
preciso — constatou Lloyd em tom satisfeito.
Fiquei encantado ao notar que os
tripulantes da Califórnia nos haviam deixado uma pequena saída. Rhodan cometera
uma leviandade imperdoável ao manter-se no interior da galeria durante a ação
de camuflagem.
No momento em que Rhodan colocava
no chão uma ferramenta especial, o inferno irrompeu do lado de fora. Uma onda
de compressão atravessou a pequena abertura com tamanha violência que nos
atirou para trás.
Antes que as dores vindas das
costas me deixassem quase inconsciente, ainda ouvi o grito estridente de Lloyd.
Apenas Cheguei a compreender que o ataque, que já não esperávamos mais, acabara
de ocorrer. Apenas, viera de forma totalmente diversa da que esperávamos.
Ouvi a voz exaltada de Rhodan pelo
rádio de capacete. O conteúdo da ordem enervou-me tanto quanto o volume
excessivo da voz. Apenas sentia a dor.
— Decolem! Decolem imediatamente!
Bell, Sikermann, subam com a nave e entrem imediatamente em transição.
Esperaremos aqui até que a estação do transmissor da Drusus dê o sinal verde. Vamos
logo! Decolem! Isto é uma ordem. Não podemos perder tempo. Estou dando ordem
para decolar.
Voltou a gritar as mesmas
palavras, até que de repente se ouviu o rugido profundo das potentes máquinas
da nave. Ao que parecia, o cruzador não fora danificado, ou apenas sofrera
avarias leves. Sikermann desenvolveu toda a potência dos propulsores ao
decolar, o que quase fez desabar nosso pequeno túnel. O tremor de terra me fez
gemer. Naquele momento, pouco me importava que a Califórnia decolasse sem nós
ou não. Pensava apenas no ferimento que sofrerá com o forte impacto, e que
talvez pudesse ser grave.
No ambiente em que nos
encontrávamos, não havia a menor possibilidade de abrir o traje espacial
hermeticamente fechado para tratar de ferimentos ou fraturas. Minhas reflexões
ditadas pelo pânico foram interrompidas pela voz nervosa de Lloyd:
— Foram embora! Meu Deus, foram
embora!
Rhodan ergueu-se lentamente. Lá
fora, junto à comporta, via-se uma incandescência ofuscante. Ao que tudo
indicava, haviam disparado contra o cruzador com um pequeno canhão de impulsos.
Apesar das dores que sentia, não
pude abster-me de uma observação.
— Então, bárbaro, o que me diz?
Tivemos uma bela surpresa, não é? Será que você poderia fazer o favor de
verificar se por acaso fraturei a coluna?
7
— Quando eu o vejo assim, chega a
estranhar que a mãe de meu filho também seja uma arcônida — disse Rhodan em voz
alta.
A onda de choque provocada pelo
tiro de radiação enchera o túnel com uma massa de gases comprimidos. Lá fora
soprava uma brisa ligeira. Provavelmente o raio térmico escaldante acelerara o
fenômeno já iniciado da evaporação dos gases, De qualquer maneira, consegui
entender Rhodan, do que se concluía que havia um meio propagador de som.
Eu estava deitado de bruços.
Fellmer Lloyd estava agachado junto à entrada da caverna e olhou para a
planície rochosa ondulada, na qual há quinze minutos estivera a Califórnia.
Poucos segundos depois da
decolagem de emergência, havíamos recebido uma mensagem pelas ondas normais de
rádio. O cruzador devia ter disparado para o espaço com a aceleração louca que
lhe era peculiar e, por isso, mal conseguimos ouvir a transmissão. Afinal, as
ondas ultracurtas sofrem uma grave interferência das partículas expelidas pelos
mecanismos de propulsão, e não possuíamos nenhum hiper-rádio.
Sikermann e Bell comunicaram que
haviam conseguido romper o bloqueio. Arriscariam a transição. Passariam pela
fresta e penetrariam no Universo einsteiniano, de onde voltariam de qualquer
maneira com a Drusus.
Assim que ouvimos o último
fragmento da mensagem, as comunicações de rádio foram interrompidas em
definitivo. Sem dúvida, a Califórnia já saltara, pois não levava mais de cinco
minutos para atingir a velocidade da luz.
Restava saber se Sikermann
conseguiria fugir do plano temporal dos druufs. Provavelmente as tempestades
gravitacionais no interior da zona de descarga já teriam amainado. Se
tivéssemos muita sorte, a Drusus poderia chegar ao espaço dos druufs, dali a
algumas horas. E, uma vez que trazia a bordo excelentes transmissores de
elevada potência, provavelmente conseguiríamos escapar daquele inferno...
Os dedos de Rhodan voltaram a
comprimir minhas costas. Não pude deixar de gemer baixinho.
Fellmer Lloyd virou a cabeça para
nós. A luz, que penetrava pela abertura da caverna, permitiu-me ver seu rosto
coberto de suor.
Procurei sorrir, para fortalecer o
moral do homem que provavelmente estaria sofrendo muito mais que eu.
Rhodan cochichara ao meu ouvido
que, há algumas horas, o mutante sofria um princípio de disenteria. Não avisara
imediatamente da doença, porque o Dr. Sköldson continuava a insistir na norma
de “andar de quatro”. Evidentemente
fora uma loucura rematada não avisar imediatamente o médico sobre um assunto
desagradável como este.
Depois da partida da Califórnia, Lloyd
passou a contorcer-se em violentas cólicas intestinais. Senti-me deprimido e
envergonhado ao mesmo tempo, ao ver que soubera dominar seu sofrimento com
tamanha hombridade. Ao que parecia, já estava passando melhor. Ao menos
esforçou-se para retribuir meu sorriso.
Mas, a essa hora, ainda não
sabíamos que as instalações sanitárias do traje espacial de Fellmer não estavam
funcionando. Provavelmente durante a queda esse equipamento vital sofrera
avarias tão graves que já não podia executar suas importantes funções.
Nós não podíamos fazer nada pelo
mutante. Ele dependia exclusivamente do estoque reduzido de medicamentos que se
encontravam na cápsula de suprimento automático de seu capacete. Mas
provavelmente entre esses remédios não havia nenhum medicamento para os
intestinos.
Dali em diante, não movi nenhum
músculo da face, até que Rhodan concluísse o exame. Tateou minhas costas
através do material grosso de meu traje espacial, método que era bastante
deficiente.
— O que é isso? Você conhece minha
estrutura óssea?
— Mais ou menos. Uma vez que seu
tórax não é normal, a sua placa óssea deve ir até, mais ou menos, a altura da
costela inferior direita de um ser humano... Será que está fraturada aqui?
Bateu com o dedo no lugar a que se
referira. Levantei-me com um grito.
Se apenas a placa dorsal estivesse
rompida, as coisas não seriam tão ruins assim. A regeneração daquele tecido
forte, mas altamente elástico, era extremamente rápida.
Provavelmente algumas horas de
repouso seriam suficientes.
— Você seria um excelente médico —
disse com um gemido, assim que consegui colocar-me de pé.
Caminhei cautelosamente em direção
à comporta de ar, que, do lado de fora, estava encoberta por uma elevada
parede. Só podíamos olhar para o exterior através de uma fenda estreita.
O soterramento, que antes era
considerado uma desvantagem, agora representava uma vantagem considerável.
Se os druufs tivessem um pouquinho
de inteligência, gostariam de saber o que viera fazer neste mundo a tripulação
daquele cruzador desconhecido, que fugira tão depressa. Se além do mais não
tivessem apreendido ou destruído a Califórnia, sem dúvida estariam interessados
em obter outras indicações. E essas indicações só poderiam ser encontradas no
lugar em que antes estivera a nave, ou seja, a menos de seiscentos metros da
abertura da caverna, da qual 75 por cento haviam sido fechados pela rocha derretida.
Não nos entregamos a qualquer
ilusão sobre o que poderia acontecer, caso resolvessem realizar uma
investigação minuciosa. Em virtude da excelente camuflagem, em hipótese alguma,
a grande parede de plástico poderia ser vista. E a localização da matéria
estranha também me parecia impossível, a não ser que resolvessem colocar o
respectivo aparelho junto à entrada do túnel. Mas isso seria um simples acaso.
Os lugares mais perigosos eram
aqueles em que o material fora retirado para servir no revestimento da parede
de plástico. Era bem verdade que esses lugares ficavam a uma distância regular.
Neles existiam amplas superfícies vitrificadas, que permitiriam certas conclusões.
Se nos defrontássemos com seres
humanos, a estes talvez ocorresse a idéia certa. Mas não tínhamos nenhuma
certeza sobre a reação dos druufs. Talvez os mesmos não soubessem o que pensar
diante do fenômeno das rochas fundidas expostas.
Era nossa única esperança, pois a
realização da investigação tornava-se tão certa quanto a própria existência dos
druufs.
Deitamos na comporta e subimos a
forte rampa. A fenda não tinha mais de quarenta centímetros de largura. Com
alguma dificuldade, se conseguiria ultrapassá-la. Mas nem por isso se poderia
dizer que a mesma era visível do lado de fora. Provavelmente a fenda se
encaixava com tamanha perfeição na parede rochosa entrecortada, que só uma
pessoa que passasse por perto poderia notar alguma coisa. Nessas condições não
tínhamos o menor interesse em entrar em contato com os druufs.
Comprimi meu capacete contra o de
Fellmer Lloyd, a fim de usar o respectivo material como condutor de som e obter
uma comunicação mais perfeita. Ouvi-o gemer baixinho. Seu corpo executava
movimentos convulsivos. Provavelmente estava sofrendo mais um ataque de cólicas.
— Fique calmo, meu filho — gritei.
— Daqui a algumas horas, a Drusus penetrará no espaço dos druufs. As
instalações de nosso transmissor são perfeitas. Funcionará perfeitamente.
— Tomara, almirante — respondeu em
tom hesitante.
Ouvi que respirava com
dificuldade.
— Peço desculpas por ter falado
num tom pouco otimista. Mas afinal sou apenas um ser humano e meu corpo...
— É claro; não há nada para
desculpar — interrompi-o em tom constrangido.
Meu constrangimento não era
provocado pela doença, que era tão natural como qualquer outra. Tinha sua
origem no fato de aquele homem ter julgado necessário formular um pedido de
desculpas.
— O senhor terá de agüentar,
Lloyd. No momento estamos condenados à inatividade. No interior da caverna
reina um vácuo quase perfeito. O que dizem os controles das suas instalações
sanitárias? Faremos uma limpeza das mesmas. Fique deitado e acalme-se.
Entendeu?
— Entendi, sim senhor. Farei o que
o senhor acaba de dizer. Apenas receio que não haja mais nada para limpar,
almirante.
Rhodan encostou seu capacete ao
meu. Ainda não compreendera, mas ele já parecia desconfiar do que estava
acontecendo...
Dali a alguns segundos, Lloyd
confessou em tom hesitante que o aparelho se quebrara ou sofrera outro tipo de
avaria durante a queda provocada pela onda de choque.
E foi assim que ouvimos a notícia
catastrófica. A sintomatologia de sua doença poderia causar dentro de pouco
tempo o envenenamento do ar respirável. Para produzir a necessária pressão
externa, os aparelhos estavam cheios de gases intestinais, que trasmitiam ao
corpo uma pressão de cerca de quinhentos milibares.
— Agüente, Lloyd, a Drusus não
demorará a chegar — disse Rhodan a título de consolação.
Naquele momento não encontrei
nenhuma palavra que pudesse trazer alívio.
O mutante virou a cabeça e
esforçou-se para sorrir. Eu já sofrera uma disenteria bacilar, e por isso sabia
perfeitamente o que esse homem devia estar sofrendo no seu envoltório hermeticamente
fechado.
Comigo o desastre acontecera num
acampamento de Wallenstein. Naquela oportunidade tratava-se de uma epidemia, e
não dispúnhamos de qualquer meio para debelar o mal.
— Onde o senhor contraiu a
infecção? — perguntou Rhodan. — Isso deve ter alguma causa.
— Talvez tenha sido a água de Fera
Cinzenta, Sir — disse Lloyd com a voz débil.
A suposição podia perfeitamente
ser correta. Caso Lloyd se tivesse deixado seduzir pela água límpida das
fontes, havia uma boa probabilidade de ter contraído a infecção por lá. Caso
ainda tivesse oportunidade, sugeriria aos membros da equipe médica da frota que
incluíssem nas provisões dos trajes espaciais certos antibióticos de amplo
espectro de ação.

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