— Van Aafen, você voará à Terra. Levará anotações
que informarão o Marechal Freyt sobre a nova situação, e as respectivas instruções.
Neste momento ordeno-lhe que entregue esses documentos nas mãos do marechal. Poderá
dispor de um cruzador que servirá de nave-correio.
Van Aafen inclinou a cabeça, num gesto de assentimento.
Perry Rhodan fixou os olhos no Capitão Aurin, que se encontrava a seu lado.
— O senhor terá um trabalho muito honroso,
Aurin — disse. — Cabe-lhe colocar toda a frota em estado de alarma. A ordem de apresentação
lhe será entregue dentro de... bem, digamos dentro de quarenta minutos. Até lá tome
todas as providências.
Rodes Aurin levantou-se, fez continência e
saiu.
— É tudo, senhores — concluiu Rhodan. — Muito
obrigado.
No mesmo instante ouviu-se o ruído das cadeiras
que eram arrastadas e dos passos que se afastavam.
Poucos segundos depois de Rhodan ter proferido
a última palavra, a pequena sala ficou vazia.
Um poderio imenso começava a movimentar-se.
O Império Solar dispunha-se a resguardar seu segredo. E preparava-se para enfrentar
um inimigo que atacaria assim que soubesse onde procurar a Terra. O planeta preparava-se
para dar uma demonstração de seu poder. Era um poder criado em menos de setenta
anos, que tinha a audácia de competir com o Império dez vezes milenar de Árcon.
* * *
Deixaram-no a sós com Oliver Roane. Desligaram
o intercomunicador e tomaram todas as providências para que ele, Chellich, não pudesse
ver da poltrona do piloto onde se encontravam. Suttney dissera-lhe que deveria realizar
a transição dentro de meia hora. Chellich gostaria de saber o que Suttney e Ronson
Lauer pretendiam fazer nesse intervalo. Mas, do jeito que estavam as coisas, não
tinha meios de descobrir.
Oliver Roane estava sentado atrás do tenente,
numa poltrona que se encontrava mais ou menos no centro da sala, e mantinha a pistola
apontada para ele. O painel do telecomunicador estava ao alcance de Roane, mas não
de Chellich. Este fechou os olhos e rememorou os movimentos que se tornariam necessários
para fazer com que o transmissor irradiasse um ligeiro sinal goniométrico. Estes
movimentos eram apenas dois. Teria de mover a grande chave que punha o aparelho
a funcionar e comprimir o botão, que lhe encaminharia o sinal codificado. Era só.
Um homem treinado não levaria mais de meio segundo para fazer esses movimentos.
Mas mesmo que levasse apenas um centésimo de
segundo e o movimento fosse apenas um, Chellich não poderia executá-lo. Roane prestava
atenção, e, por duas vezes, já demonstrara como sabia prestar atenção.
Chellich tremia de raiva.
Começou a brincar com o painel. Antes de sair,
Ronson Lauer o havia examinado atentamente e dissera que Chellich não poderia fazer
nada que os prejudicasse. A chave mestra, que dava início ao hipersalto, fora bloqueada
assim que os respectivos dados foram inseridos nos mecanismos propulsores. Só ficaria
livre depois de passado o tempo previsto de trinta minutos.
Oliver Roane não teve nenhuma objeção a que
Chellich começasse a manipular as teclas. Para espantar o tédio, Chellich abriu
o catálogo e examinou a folha em que se encontrava a estrela à qual se dirigiriam.
Não encontrou nada que chamasse a atenção e passou à folha seguinte. Viu que esta
era tão desinteressante como a anterior e passou à outra.
Esta tinha um trecho colorido em amarelo. E
a cor amarela significava que a respectiva área achava-se no campo de influência
dos arcônidas. A parte colorida estendia-se em formato de língua da extremidade
inferior da folha até o centro da tela. Chellich fez a ampliação e fez as respectivas
estrelas com os nomes e outros dados desfilarem diante de sua vista.
Todas as estrelas compreendidas na área de
influência de Árcon tinham nomes. Chellich leu: Galtha, Oone, Sophrum, Lo-wann,
Hayireko, Minnit e uma série de outros nomes de que nunca ouvira falar. Ficou refletindo
sobre como seriam os planetas iluminados pelo sol a que se dirigiriam e que seres
viviam no mesmo.
Mas continuou a girar o botão da calculadora
e, na parte superior, ultrapassou a área colorida da folha do catálogo. Os nomes
das estrelas foram-se tornando mais raros. Fora de sua área de influência os arcônidas
não se haviam dado ao trabalho de batizar todas as estrelas. Chellich leu: Na-aiwoon,
Joplat, Hoshan. Seguiram-se alguns centímetros em que só havia pontos sem nome.
Depois veio Latin-Oor.
Estacou. Latin-Oor. Lembrou-se de ter ouvido
esse nome há pouco tempo. Latin-Oor. Em que conexão ouvira estas palavras?
Latin-Oor. Chellich procurou rememorar. Latin-Oor
soava como o equivalente inglês de minério latino. Lembrou-se de ter pensado nisso,
quando ouvira o nome pela primeira vez.
Seguiu a pista de suas idéias. Minério. Ficou
perguntando a si mesmo se em Latin-Oor realmente havia minério, muito embora o nome
arcônida evidentemente nada tivesse a ver com a tradução de Chellich. Lembrara-se
de que, se em Latin-Oor existisse algum minério precioso, ali poderia ser instalada
uma base, a não ser... a não ser...
Sim; era isso! A não ser que a frota robotizada
de Árcon, que estava a caminho de Latin-Oor, iria transformar o planeta num inferno
chamejante.
Subitamente viu o quadro com toda nitidez!
Ao lado de outros oficiais, participara da
conferência e soubera através do Serviço de Informações Internas da Frota que o
Major Ostal conseguira colocar o computador-regente de Árcon numa pista falsa, fazendo-o
acreditar que a Terra ficava em algum setor do centro galático.
Segundo os dados falsos que Ostal fizera chegar
ao cérebro positrônico, o sol em torno do qual girava a Terra era Latin-Oor. Esse
sol tinha dois planetas semelhantes à Terra, que eram desabitados. O computador-regente
haveria de supor que um desses dois planetas era a Terra.
Quer dizer que a missão de Clyde Ostal fora
bem sucedida. O regente mordera a isca e pusera em marcha uma grande frota. Chellich
não se lembrava a qual dos dois planetas semelhantes à Terra aludiam as informações
de Ostal, se a Latin-Oor III ou a Latin-Oor IV. Mas tinha certeza absoluta de que
um deles seria cercado pela frota robotizada, que intimaria seus habitantes a capitularem
incondicionalmente.
Na oportunidade soltaram estrondosas gargalhadas
ao se lembrarem de que, ao notar que sua intimação para a rendição incondicional
ficaria sem resposta, a frota arcônida pousaria no planeta e teria de constatar
que em Latin-Oor III ou IV não existia uma única criatura inteligente.
Perguntaram se o choque que o regente sofreria
seria bastante forte para queimar algumas das suas válvulas.
E agora? Haveria alguma relação entre a frota
arcônida que avançava em direção a Latin-Oor e a situação em que se encontrava?
Gunter Chellich folheou o catálogo para trás.
Comparou os dados relativos ao sol escolhido por Ronson Lauer com aqueles de Latin-Oor.
A estrela a que Lauer pretendia chegar ficava pouco acima do plano do microfilme,
enquanto Latin-Oor ficava tão acima desse plano que quase chegava a penetrar na
folha anterior. A estrela escolhida por Lauer ficava entre os ângulos teta 89 graus
e 50 minutos e 90 graus 00 minutos.
A folha intermediária abrangia o ângulo de
teta 90 graus 00 minutos a 90 graus 10 minutos. Após isso, seguia-se a folha em
que estava registrado Latin-Oor, e que abrangia os ângulos teta 90 graus e 10 minutos
a 90 graus e 20 minutos. A distância vertical entre os dois sóis não era superior
a dez anos-luz. Acontece, porém, que havia uma ligeira diferença entre os ângulos
horizontais, motivo por que a distância total chegava a cerca de dezesseis anos-luz
ou cinco parsec.
Subitamente Chellich teve a impressão de que
algo lhe caía dos olhos. Lembrou-se de que, quando perguntara se devia dirigir a
nave a um destino determinado, Lauer lhe respondera mais ou menos assim:
“— ...o
principal é que não seja um lugar quente. A presença de naves terranas seria indesejável...”
“Então
era isso! A presença de naves terranas seria indesejável!”, refletiu. “Eu já devia ter percebido que Ronson Lauer colocara
certa ênfase no adjetivo.”
A presença de naves arcônidas não teria nada
de indesejável. Pelo contrário. Lauer estudara o catálogo e sabia que a estrela
à qual se dirigia ficava a apenas dezesseis anos-luz de Latin-Oor. Ele a escolhera
por desejar que houvesse naves arcônidas por perto, quando Suttney começasse a realizar
seus intentos.
Já não podia haver a menor dúvida sobre quais
seriam esses intentos. Suttney procurava aproximar-se dos arcônidas. Os arcônidas,
que naturalmente receariam as complicações, não iriam querer nada com ele, a não
ser que lhes trouxesse algo capaz de compensar o risco.
Eram os dados relativos à posição da Terra!
A partir desse instante, Gunter Chellich não
precisaria do intercomunicador para saber onde Lauer e Suttney se encontravam naquele
momento e o que estavam fazendo. Achavam-se no setor de armazenamento de dados e,
com base nas informações ali registradas, procuravam calcular os elementos relativos
à posição galáctica da Terra. O trabalho não era fácil.
Face às normas de segurança, a posição da Terra
não era registrada em lugar algum. E no catálogo galático não se encontraria nenhuma
estrela chamada Sol.
No entanto, seria perfeitamente possível calcular
a posição da Terra com base nas coordenadas de sóis próximos. Isso exigiria um bom
volume de conhecimentos astronômicos. Chellich não tinha a menor dúvida de que Ronson
Lauer possuía esses conhecimentos. No entanto, não possuía a menor prática de interpolação
de dados relativos a posições astronômicas. Mesmo que dispusesse de dados relativos
a todas as estrelas vizinhas ao sistema a que pertencia a Terra, levaria algumas
horas para desenvolver um programa que pudesse ser introduzido no computador positrônico.
Chellich calculou febrilmente o tempo de que
ainda poderia dispor.
Uma hora e meia se passaria até que Lauer conseguisse
reunir todos os dados, e outras três horas seriam consumidas na feitura da programação.
O resto seria apenas uma questão de segundos. O computador trabalhava muito depressa.
Seriam quatro horas e meia, a não ser que Suttney
resolvesse chamar as naves arcônidas em vez de irradiar a posição da Terra para
o espaço. Se quisesse aguardar a chegada dos arcônidas, mais algumas horas se passariam;
talvez umas quatro ou cinco.
Era bastante tempo. Apesar disso, Chellich
começou a ficar nervoso. Devia fazer alguma coisa para impedir a execução do plano
de Suttney. Devia dar um sinal aos homens que se encontravam em Fera Cinzenta, a
fim de que estes soubessem onde procurar a gazela. Mas não sabia como fazer isso.
Quatro horas e meia, ou mesmo mais, eram muito pouco tempo para encontrar uma idéia
que realmente fosse boa.
Virou a cabeça e olhou para Roane. Oliver Roane
continuava sentado no mesmo lugar. A pistola parecia grudada à mão. Fitava-o com
uma expressão estúpida. Chellich sorriu, mas no rosto de Roane não houve nenhuma
modificação.
— Não está com medo, Roane? — perguntou Chellich.
Os pensamentos de Chellich vagavam em outro
lugar. Teria de encontrar uma idéia que lhe permitisse estragar os planos de Suttney.
E, por estranho que parecesse, teve a impressão de que isso seria mais fácil, se
conversasse com alguém.
— Do senhor? — perguntou Roane em tom de escárnio.
— Não. Com medo de ser preso e fuzilado.
Uma expressão desagradável surgiu no rosto
de Oliver Roane quando este compreendeu o sentido das palavras de Chellich.
— Não seja idiota — respondeu em tom áspero.
— Ninguém nos prenderá.
O cérebro de Chellich trabalhava a toda força.
— Você acha que aquilo que Suttney pretende
fazer é correto? — perguntou, enquanto seu raciocínio maquinava outra idéia.
Roane soltou uma risada tola.
— É assim que o senhor costuma interrogar os
outros, não é? Pois o senhor nem sabe o que Suttney pretende fazer.
“Meu
Deus”, pensou Chellich, “este homem realmente
é tolo demais.”
— É claro que sei! — afirmou.
— He! he! he! — fez Roane.
— Pretende fixar-se num planeta desconhecido
e subjugar a população nativa — disse Chellich com o rosto mais sério deste inundo.
— O que poderia ser senão isso?
Os olhos de asno de Roane arregalaram-se. Inclinou-se
para a frente e fitou Chellich com uma expressão de incredulidade. Levou alguns
segundos para compreender o que o tenente acabara de dizer. E, nestes segundos,
Chellich chegou à conclusão de que sua idéia podia não ser genial, mas era aproveitável.
Oliver Roane pôs-se a rir. A sala de comando
“retumbava” sob o efeito das gargalhadas
provocadas pela idiotice de Chellich. Este aproveitou a oportunidade, girou a poltrona
para o lado e num movimento rapidíssimo comprimiu dois botões vizinhos.
Roane notou o movimento repentino. Interrompeu-se
em meio à gargalhada e fitou Chellich com os olhos semicerrados.
— O que foi que o senhor fez? — gritou e levantou-se.
— Nada de especial — respondeu Chellich em
tom indiferente. — Fiz uma regulagem melhor do ar condicionado. Estou sentindo calor.
* * *
O distribuidor número 255 do ponto de controle
XVII, situado na parte do circuito de regulagem que ligava o compensador estrutural
ao hiperpropulsor, estava acostumado a ser alimentado com impulsos triangulares
de conformação precisa, com uma altura de dois volts e uma base de 10-8
segundos de largura. A princípio, eram estes os únicos impulsos que conseguia absorver,
classificar e, finalmente, distribuir pelos vinte canais de saída que dele partiam.
Apenas em mais um outro caso esse distribuidor
poderia processar outro impulso, que era
o impulso quadrado de dez volts de altura e 10-7 de base. Recebera o
nome de impulso de alarma, e não era classificado, mas armazenado por ele e bloqueava
os vinte canais de saída. Porém o distribuidor 255 só tinha capacidade de absorver
esse impulso de alarma, depois de efetuada uma modificação no potencial da grade
catódica da primeira válvula.
Embora essa modificação não tivesse sido realizada,
o distribuidor 255 recebeu o impulso de alarma. Não quis aceitá-lo, pois seu instinto
eletrônico tinha boa margem de segurança.
Mas, na fração de segundo, durante a qual o
impulso aguardou diante do elemento de entrada para ser admitido, o potencial da
grade catódica da primeira válvula acabou sendo modificado. O distribuidor não teve
outra alternativa senão permitir a entrada do impulso, cuja potência era perigosamente
elevada. Infelizmente não teve tempo para bloquear os vinte canais de saída. Antes
que o distribuidor pudesse reagir ao impulso, este já havia saído.
Parte dos aparelhos ligados às saídas dos canais
deixou passar o impulso sem sofrer qualquer dano. Assim, por exemplo, extinguiu-se
ao chegar ao mecanismo direcional do compensador estrutural, porque este estava
bloqueado de outro lado. Acontece, porém, que em outros lugares, especialmente naqueles
dotados de elevada capacidade de indução, criou bastante confusão. Afinal, tinha
cinco vezes a potência normal dos impulsos destinados ao circuito de regulagem.
Logo, a auto-indução por ele causada foi cinco vezes mais elevada. E com isso derreteu
o começo de uma espula embutida numa folha de plástico.
A partir dali, o circuito de regulagem ficou
interrompido. Era verdade que a interrupção só se verificava naquele lugar. Acontece
que a instalação fora construída de maneira a proporcionar um máximo de segurança.
Por isso essa interrupção seria suficiente para deixar todo o sistema condutor fora
de ação.
* * *
Oliver Roane ficou desconfiado. Chellich notou
que refletia intensamente sobre o que deveria fazer.
— Foi mesmo apenas o ar condicionado?
Chellich fez que sim.
Roane ainda não havia chegado a qualquer conclusão.
Sabia perfeitamente que Suttney devia ser informado sobre o incidente. Mas, para
avisá-lo, teria de sair da sala de comando, já que o sistema de intercomunicação
fora desligado.
Roane, que se sentia bastante inseguro, olhou
em torno e procurou verificar se já notava alguma diferença na regulagem do sistema
de condicionamento de ar. Mas o calor continuava o mesmo.
Gunter Chellich, que já se voltara novamente
para seu painel, estava de costas para Roane. Parecia indiferente a tudo.
“Bem”,
pensou Roane, “direi a Suttney quando ele
voltar.”
Enquanto isso, Gunter Chellich examinava as
letras luminosas que se encontravam abaixo de dois botões coloridos:
“Impulso
de fechamento sistema distribuição compensador S. Os dois botões devem ser acionados
simultaneamente.”
Não fizera isso. Comprimira primeiro o botão
da esquerda e depois o da direita.
Não sabia que efeito poderia causar...
* * *
A frota terrana viajava pelo espaço. As naves
formavam uma larga rede de malhas. As gazelas e os girinos esforçavam-se para fechar
essas malhas. O General Deringhouse, um veterano dos primeiros tempos do Império
Solar, que se conservara jovem, dirigia a operação a bordo da Barbarossa, um supercouraçado
da classe Império. Uma única nave não obedecia as ordens de Deringhouse. Era a Drusus,
a nave capitania da frota terrana, comandada por Perry Rhodan.
O plano seguido na operação de busca fora preparado
pelos matemáticos. Havia uma série de maneiras pelas quais se poderia localizar
a pista da gazela desaparecida e, por isso, todos os aparelhos que estivessem em
condições de ver, rastrear, registrar Irrupções energéticas, analisar remanescentes
de combustíveis e constatar abalos do espaço einsteiniano tinham de trabalhar ininterruptamente.
Uma coisa parecia impossível: a nave não poderia
ser localizada em virtude do abalo estrutural causado por uma transição. Esta provocava
um choque energético. A energia liberada durante o processo era de estrutura bastante
complicada, mas sua disseminação se regulava pelas leis simples do espaço de cinco
dimensões. Sua presença podia ser constatada por meio dos rastreadores estruturais,
a não ser que a nave, que realizasse a transição, estivesse equipada com um compensador
estrutural, que absorvia o choque energético e fazia com que este se exaurisse num
espaço vazio, especialmente criado para esse fim, de maneira que nada ou quase nada
chegava ao mundo exterior.
Com isso só restavam os campos remanescentes,
que se espalhavam pelo espaço com uma potência dez mil vezes menor, em forma de
vibrações típicas para o veículo espacial e seu compensador. Esses campos remanescentes
só poderiam ser registrados por rastreadores ultra-sensíveis, criados pela raça
de microtécnicos dos swoons. Acontece que a nave em transição poderia neutralizar
até mesmo esses campos remanescentes desde que dispusesse de um neutralizador de
vibrações, também denominado absorçor. Esse aparelho não deixava escapar nem mesmo
os campos remanescentes. Captava-os e absorvia-os, fazendo com que nenhum vestígio
da transição, por menor que fosse, chegasse ao mundo exterior.
A gazela desaparecida estava equipada com ambos
aparelhos. Dispunha tanto do compensador estrutural como do neutralizador de vibrações.
Sua presença no hiperespaço tornava-se impossível de ser detectada.
Para Perry Rhodan havia uma esperança, caso
Chellich ainda estivesse vivo.
“Talvez
o tenente pudesse fazer surgir certas ‘ocorrências’ que se harmonizariam com o curso
normal e prefixado da operação de busca”, concluiu mentalmente.
3
No dia 8 de outubro de 2.042, o jornal Terrânia
Times publicou a seguinte nota:
Ao que parece, nosso noticiário sobre o desaparecimento de uma nave
de reconhecimento do tipo gazela, ocorrido em 2 de outubro, na nova base de Mirta
VII, e a maneira irresponsável pela qual o Ministério das Informações e Opinião
Pública fez chegar as notícias ao público provocaram um desassossego considerável
em boa parte da população.
Não há dúvida de que o incidente se reveste de maior gravidade do que
o Ministério das Informações e Opinião Pública quer admitir. E temos certeza de
que o público merece ser melhor informado, especialmente nos momentos de perigo.
De outro lado, porém, seria absurdo acreditar que, em virtude da perda da gazela,
uma guerra mortífera teria irrompido em algum ponto afastado da Galáxia ou que a
partida de grandes contingentes da frota da Terra e dos planetas solares possa ter
alguma relação com o desaparecimento de três desertores. Basta que façamos uma conta
bem simples. Uma gazela custa cerca de 45 milhões de solares. É o prejuízo que terá
de ser contabilizado em virtude de um veículo desse tipo. Acontece que a operação
que está em andamento já custou mil vezes essa quantia, ou seja, cerca de 45 bilhões
de solares.
Partilhamos a opinião de muitos dos nossos concidadãos, segundo os
quais nem tudo que se faz nos ministérios sediados nesta capital é correto. No entanto,
não acreditamos que o Governo possa ser acusado de falta de conhecimento na área
comercial ou matemática. Nem mesmo um idiota seria capaz de realizar uma operação,
cujo custo poderá ascender a um total de cem bilhões de solares, para recuperar
um objeto que não vale mais de quarenta e cinco milhões de solares.
Segundo informam nossos elementos de confiança, a operação em grande
escala, que vem sendo realizada pela frota, representa uma medida destinada a fortalecer
o ânimo de luta, que será repetida regularmente nos próximos anos. Pode-se ter esta
ou aquela opinião sobre o custo adicional que tal medida representará para a comunidade.
No entanto, não devemos deixar-nos assustar com boatos alarmantes.
* * *
— Algo de novo? — perguntou Suttney ao entrar
na sala de comando.
Oliver Roane levantou-se. Parecia contrariado.
— Não sei — respondeu em tom aborrecido. —
Ele girou alguma coisa e disse que era o condicionamento de ar.
Ronson Lauer encontrava-se na escotilha. Chellich
que os observava viu Lauer estremecer e fitá-lo, abaixando-se como um felino que
se prepara para o salto.
“É o
mais perigoso de todos”, pensou Chellich. “É ágil e inescrupuloso.”
Walter Suttney também se virou para ele e fitou-o
atentamente.
— O que fez, Chellich? — perguntou.
Gunter Chellich não respondeu. Suttney aproximou-se
mais alguns passos.
— Responda, Chellich! — ordenou em tom insistente.
— Foi mesmo o condicionador?
— Não — respondeu Chellich com a maior tranqüilidade,
ficando de olho em Ronson Lauer.
— Então, o que foi? — perguntou Suttney.
— Não sei — respondeu Chellich com a maior
tranqüilidade de que era capaz. — Só sei que apertei dois botões.
Pelo canto do olho viu Ronson Lauer pôr a mão
na arma que trazia num coldre.
— Por quê? — perguntou Suttney.
— Para ganhar tempo — respondeu Chellich e
levantou-se. — O que poderia ser?
Lauer aproximou-se silenciosamente, com a arma
na mão e uma expressão assassina nos olhos.
— Quanto mais tempo ficarmos aqui, melhor para
mim, não é? O motivo é exclusivamente este — completou Chellich depois de algum
tempo.
Pela primeira vez Walter Suttney mostrou-se
perturbado. Não compreendia como uma pessoa, que se encontrava em seu poder, agia
contra sua vontade e se atrevia a confessar isso. Oliver Roane encontrava-se atrás
dele, boquiaberto; ao que parecia, já não compreendia mais nada. Ronson Lauer aproximava-se
com passos de felino.
Gunter Chellich percebeu que as coisas começavam
a ficar pretas para ele. Reunindo o autocontrole que ainda lhe restava, disse:
— Tome cuidado, Suttney!
Suttney virou-se e Chellich prosseguiu.
— Ele quer matar a única pessoa que sabe dirigir
este veículo.
Walter Suttney viu Lauer aproximar-se e, pela
expressão dos olhos do mesmo, percebeu quais eram as intenções dele.
— Calma! — berrou. — Lauer, fique onde está
e guarde a arma!
Ronson Lauer estremeceu e parou.
— Ele nos traiu! — exclamou. — Por causa dele
poderemos ficar parados no espaço.
— Eu poderia matá-lo por isso — disse Suttney
em tom tranqüilo.
Chellich deliciou-se com seu triunfo.
— Não pode, não — respondeu. — A não ser que
queira ficar aqui para sempre. O senhor entende um pouco de técnica, e Lauer de
galatomatemática. Mas somando seus conhecimentos, ainda não serão capazes de pilotar
uma gazela.
Suttney já parecia ter pensado nisso, pois
não se mostrou nem um pouco surpreso. Acenou com a cabeça e disse:
— Então é assim que o senhor pensa.
Virando-se, perguntou:
— O que vamos fazer com ele?
Ronson Lauer fez um movimento violento com
o braço.
— Vamos, Oliver! Encarregue-se dele.
Suttney recuou um passo. Chellich viu que estava
sorrindo.
— Sim, talvez seja isso — confirmou Suttney.
— Guarde a pistola, Oliver, e mostre-lhe que não pode brincar conosco.
Oliver Roane deixou cair a pistola sobre a
poltrona. Depois levantou-se e foi-se aproximando lentamente.
Gunter Chellich também se levantou.
— Venha cá, pequenino! — disse Roane com um
sorriso de deboche. — Se ficar aí acabará caindo sobre o painel e quebrando tudo.
Chellich não saiu do lugar.
— Venha buscar-me! — disse em tom provocador.
Lauer afastou-se para o lado. Chellich parecia
dedicar sua atenção exclusivamente a Roane. Mas na realidade viu Lauer passar atrás
de duas poltronas e colocar-se às suas costas.
— Eu já disse; venha cá! — repetiu Roane em
tom de ameaça.
Naquele instante, Lauer exclamou em tom exultante:
— Eu o mando para você!
Chellich ouviu um passo bem às suas costas.
Afastou-se instantaneamente e deixou Lauer, que pretendia avançar com toda força,
correr para o vazio. Enquanto Lauer passava por ele, pegou na gola de seu traje
de serviço. Isso já representava metade do caminho. Segurando Lauer pela gola e
pelos fundilhos, deu dois ou três passos rápidos em direção a Roane e atirou Lauer
sobre ele. Tudo isso foi feito numa fração de segundo.
Chellich viu sua chance. Antes que Roane pudesse
recuperar-se da surpresa, colocou-se à sua frente e passou a trabalhá-lo com os
punhos.
Não se lembrara dos dedos, que Oliver Roane
ferira com um tiro de pistola térmica. Já não doíam, pois, graças a uma pomada regeneradora,
os mesmos foram logo cobertos por pedaços de pele fina. Mas, ao pegar o inimigo
quase inconsciente pela roupa, a fim de fazê-lo tombar com um último soco, Chellich
ficou com a mão presa num fecho magnético de metal e as feridas abriram-se...
Seu corpo foi inundado por uma dor cruciante.
Devido às lágrimas que lhe saíam dos olhos, não viu mais nada. Roane percebeu que
o inimigo o largara; ouviu-o gritar. Não sabia o que tinha acontecido, mas aproveitou
a chance. Cambaleante, Roane afastou-se da parede. Chellich percebeu que ele aproximava-se.
Procurou defender-se, mas a dor lhe tirara todas as forças. Duas pancadas desferidas
por Roane atingiram a cabeça desprotegida. Mal sentiu a terceira pancada. A dor,
que irradiava dos dedos, fazia-o esquecer-se das outras...
Depois foi o fim.
* * *
O desejo de ganhar tempo era tão intenso que,
mesmo durante o estado de inconsciência, não o esqueceu. Quando recuperou os sentidos
soube imediatamente o que havia acontecido e compreendeu que a coisa mais tola que
poderia fazer seria abrir os olhos e deixar que todos soubessem que já não estava
inconsciente.
Ouviu ruídos nas proximidades, mas a cabeça
zumbia tanto que não sabia do que se tratava. Depois de algum tempo reconheceu a
voz de Suttney.
— Por que foi intrometer-se? Alguém lhe deu
ordem para isso?
A resposta foi proferida por Lauer.
— Não recebo ordens de ninguém. Sei agir por
minha conta. Haja o que houver, ainda acertarei minhas contas com esse sujeito,
quando não precisarmos mais dele.
— Você vai deixá-lo em paz, Ronson! — disse
Suttney em tom tranqüilo e com uma raiva contida. — Não estamos interessados em
matar gente.
Depois de algum tempo, Lauer respondeu cheio
de ódio:
— Você acha? Realmente acredita que manda em
mim? Cuide de si mesmo quando chegar a hora.
Suttney não disse mais nada. Chellich ouviu
alguém dar alguns passos e acomodar-se numa poltrona. Devia ser Suttney. Ao que
parecia, o último incidente contribuíra para perturbar a harmonia entre os desertores.
Subitamente Chellich ouviu a voz de Suttney:
— Se, daqui a uma hora, ainda não tiver recuperado
os sentidos, jogaremos um balde de água em cima dele.
Chellich resolveu aproveitar muito bem a hora
que ainda lhe restava. Graças a seu miserável estado, não teve a menor dificuldade
em adormecer imediatamente.
* * *
A Drusus percorria a área previamente demarcada,
situada num enclave em que a matéria era escassa, a quarenta e cinco anos-luz da
azul estrela anã de Vollaal. Setenta e cinco por cento das naves auxiliares estavam
em viagem, vasculhando o setor espacial destinado à Drusus. Os veículos restantes
permaneceram a bordo, para poderem ser prontamente utilizados, caso surgisse algum
imprevisto.
A bordo da Drusus encontravam-se alguns dos
homens que, há alguns dias, haviam sido admitidos pela frota. Tratava-se de colonos
de Fera Cinzenta, que passaram a ser encarados com bastante desconfiança, depois
do seqüestro.
Um dos antigos colonos a bordo da Drusus era
Horace O. Mullon, ex-chefe dos Democratas Autênticos. Era o homem que derrotara
Hollander. Os assentamentos sobre Horace O. Mullon iam muito além dos dados registrados
pelos tribunais terranos. Foram colhidos, em conformidade com as Instruções de Chellich
e do Capitão Blailey, durante o tempo em que Mullon dirigia os destinos da colônia.
Esses assentamentos provocaram um interesse bastante intenso em Perry Rhodan. E
Mullon era o único que estava excluído da desconfiança geral. Ninguém acreditava
que um inimigo encarniçado de Hollander poderia unir-se aos adeptos do mesmo.
Graças ao interesse que Perry Rhodan lhe dedicava
— ou melhor, graças à visão de suas capacidades — Mullon não foi incluído no posto
mais baixo do pessoal da Frota. Obteve a graduação de suboficial, e ficou previsto
que seria promovido a tenente, independentemente do cumprimento das normas que regiam
as promoções, assim que não houvesse mais qualquer dúvida de que se afastara das
suas idéias revolucionárias e de crítica social. Apesar disso, seria um tenente
velho, pois contava mais de trinta e cinco anos. Mas não havia nada que impedisse
sua rápida progressão na escala hierárquica, pois possuía um excelente senso de
organização.
Quando, com os companheiros, recebeu ordem
de apresentar-se a bordo da Drusus, Horace O. Mullon acreditou que tinha chegado
o momento de dar provas de seu valor. A nave decolara com quase todas as unidades
estacionadas em Fera Cinzenta e, pelas aparências exteriores, chegava-se à conclusão
de que acabara de realizar uma transição a grande distância. Ao que tudo indicava,
acontecimentos importantes os aguardavam. Horace O. Mullon estava decidido a distinguir-se
no curso dos mesmos.
Dali a um dia descobriu do que realmente se
tratava. Uma gazela fora subtraída por Suttney, Lauer e Roane, pessoas que antigamente
pertenciam ao grupo de segurança de Hollander, na época em que este instaurou um
regime de terror em Greenwich. Além disso, Gunter Chellich, que era amigo de Mullon,
era um passageiro involuntário da gazela. Foi juntamente com ele que capturou Hollander
e esquentou o inferno para os peepsies.
Com isso, os planos de Mullon ficaram atrapalhados.
Já não estava interessado em distinguir-se. Não fazia a menor questão de ser tenente.
Imaginava a situação em que Chellich devia encontrar-se. Conhecia os três homens
que haviam roubado a gazela e sabia perfeitamente que Chellich não teria de esperar
nada de bom dos mesmos.
Gunter Chellich estaria perdido se não conseguissem
encontrar a gazela antes que os desertores realizassem seus planos. Tinham de encontrar
a gazela; Mullon não pensava em outra coisa.
Os colonos a bordo da Drusus constituíam parte
da 15a companhia, que, por enquanto, não recebera qualquer tarefa
específica. Encontravam-se a bordo para fins de treinamento. O trabalho era duro,
mas por enquanto sua finalidade consistia exclusivamente em fazer daquela gente
homens de verdade. Esse era o desejo do sargento Delacombe.
Horace O. Mullon obteve licença de Delacombe
para trabalhar no setor de localização. Aceitaram-no porque Chellich lhe ensinara
a manipular os respectivos instrumentos. Foi destacado para o setor de rastreamento
de matéria e, depois disso, raras vezes se afastava do seu posto.
A idéia de que precisava encontrar Chellich
era tão forte que o fez ficar a postos dia e noite.
Num espaço de setenta e duas horas, Mullon
só dormiu cinco horas. Quiseram arrastá-lo à cama, mas ele fez questão de que lhe
dessem um estimulante para que pudesse continuar debruçado sobre o aparelho.
Depois de três dias e meio, foi transferido
para o setor de rastreamento estrutural e de vibrações. O trabalho nos rastreadores
estruturais era mais fácil.
Mullon foi transferido para não sofrer um colapso
nervoso. Por enquanto ninguém desconfiava de que Mullon desejava justamente essa
transferência.
* * *
Gunter Chellich acordou sobressaltado, quando
a água fria desabou sobre ele. Rolou rapidamente para o lado e assim escapou ao
resto do conteúdo do balde que Ronson Lauer despejava sobre ele.
Lauer ficou aborrecido com a rapidez de sua
reação. Deu-lhe um pontapé e, assim que Chellich se levantou, deixou cair o balde
e segurou a arma, apontando-a contra Chellich.
— Venha! — gritou em tom furioso.
Depois do curto período de sono, Chellich sentia-se
muito melhor. A dor de cabeça cessara quase por completo e as pontas dos dedos coçavam.
Quando viu Ronson Lauer, começou a rir. Lauer
recebera o “primeiro golpe” de Roane,
e os sinais do desastre ainda eram perfeitamente visíveis.
A risada de escárnio do tenente fez com que
Lauer fervesse de raiva. Levantou a pistola e Chellich notou que seu dedo se curvava
em torno do gatilho.
— Você ainda perderá a vontade de rir, meu
caro! — exclamou.
— Chega! — gritou Suttney, que se encontrava
em lugar mais afastado. — Ronson, eu já lhe disse o que acho dessa sua atitude de
cão raivoso.
Chellich forçou-se a esboçar um sorriso de
superioridade. Virou-se e fez de conta que a arma apontada para ele não o incomodava
nem um pouco. Viu Suttney aproximar-se e, no mesmo instante, descobriu Oliver Roane,
que esticava as pernas e se mantinha profundamente reclinado numa poltrona. Respirava
pesadamente e três quartas partes de seu rosto estavam cobertas por ataduras que,
segundo tudo indicava, haviam sido colocadas por ele mesmo.
— Para o senhor também chega, Chellich — prosseguiu
Suttney. — Daqui em diante, não terá mais nenhuma oportunidade de causar-nos problemas.
Vá para seu lugar e descubra qual foi o dano que produziu.
Chellich obedeceu. Enquanto caminhava em direção
à poltrona do piloto, olhou para o relógio. Ficara deitado durante três horas, inconsciente
ou dormindo. Mas, ao que tudo indicava, essas três horas não foram suficientes para
que as naves empenhadas na operação de vasculhamento localizassem a gazela perdida.
Sentiu uma tensão que, só com grande dificuldade,
conseguiu ocultar ao sentar-se à frente do painel, a fim de fazer os preparativos
para a transição. Só sabia que comprimira dois botões na seqüência errada. Não tinha
a menor idéia das avarias que poderia ter causado. Nem sequer tinha certeza sobre
se houvera alguma avaria.
Porém, de uma coisa tinha certeza: o sistema
de regulagem era um mecanismo extremamente complicado. Não se tratava de um aparelho
de rádio, no qual se podem realizar manipulações contraditórias sem produzir o menor
dano. Caso o sistema de regulagem fosse manipulado de forma a contrariar as normas,
alguma coisa se estragaria.
Restava saber o que ficara estragado.
Enquanto Chellich fez o teste geral, suas mãos
tremiam. As luzes do pequeno painel luminoso, que eram mais de duzentas, acenderam-se,
mostrando que até lá tudo estava em ordem.
Mas duas luzinhas permaneceram apagadas. Chellich
leu os pequenos letreiros existentes embaixo das lâmpadas: Distribuidor no
255, Ponto de Controle XVII e indutividade 15 microhenry S-Compensador.
Suspirou aliviado — muito discretamente, para
que ninguém o ouvisse. Seu plano fora bem sucedido. Os reparos apenas demorariam
uma hora e meia, talvez menos. Suttney não desconfiaria de que apenas pretendia
ganhar tempo. E, principalmente, o distribuidor 255 e a espula inutilizada com a
indutividade 15 microhenry ficavam no mesmo compartimento em que estava instalado
o neutralizador de vibrações.
— Então, o que foi? — perguntou Suttney.
Chellich apontou para as lâmpadas de controle
que estavam apagadas.
— Um distribuidor e uma espula estão estragados.
— São difíceis de reparar?
— A espula nem pode ser reparada. Os reparos
do distribuidor deverão durar umas duas horas.
Suttney arregalou os olhos.
— Então o senhor quer dizer que, uma vez que
a espula não pode ser reparada, não poderemos sair mais do lugar?
Chellich sorriu e sacudiu a cabeça.
— Não, não é isso que eu quero dizer. A espula
é fabricada com metal volatilizado. Logo, não pode ser reparada. Mas pode ser substituída.
Temos muitas espulas no depósito de peças sobressalentes, se é que o senhor por
acaso não as jogou fora.
Suttney lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Pare de fazer piadas — disse em tom áspero.
— Quanto tempo durarão os reparos?
— Já disse que são duas horas — respondeu Chellich.
— E a espula?
— Precisarei de dois minutos para procurá-la
no depósito e de um minuto para colocá-la.
— Muito bem. Ponha-se a trabalhar. Precisa
de ferramentas?
— Preciso de várias — disse Chellich com um
sorriso.
— Pois vá procurá-las. E não acredite que poderá
atrapalhar-nos mais uma vez. Ronson vigiará seu trabalho. Ronson, vá com ele.
— Será um prazer — disse Lauer.
Uma vez no depósito de ferramentas, Chellich
pegou alguns instrumentos de medição, entre eles um oscilógrafo, que entregou a
Lauer para que este o carregasse, um pequeno aparelho automático de solda, um sortimento
de fios, pinças e material de solda e outras coisas. Enquanto procurava aquilo que
precisaria, procedia lenta e tranqüilamente. Não estava interessado em que os reparos
fossem concluídos muito depressa.
No depósito de peças sobressalentes, Chellich
foi pegar apenas uma espula, igual à avariada, e alguns elementos de ligação que
seriam utilizados no reparo do distribuidor.
Abriu a escotilha que dava do corredor para
o poço e desceu a escada. Ronson seguiu-o a uma distância de cinco degraus. Deixou
a escotilha bem aberta.
Pela parede do poço corria grande quantidade
de fios. De repente Chellich, que ainda não sabia como levar avante o resto de seu
plano sem que Lauer o percebesse, teve uma idéia. A maior parte dos fios era formada
por condutores de corrente contínua de tensão superior a dois mil volts. Se conseguisse
fazer com que Lauer encostasse o dedo a um ponto não isolado...
A escada terminava sete metros abaixo da escotilha.
Daqui em diante, o poço transformou-se numa galeria que corria em sentido horizontal,
em relação ao envoltório da nave. Chellich parou por um instante sob a escada. Viu
a pequena caixa negra onde se encontrava o distribuidor e procurou localizar o lugar
em que se achava a espula queimada. Viu o cilindro fino e reluzente do neutralizador
de vibrações, que, na verdade, constituía o objeto do seu interesse. O neutralizador
ficava a apenas meio metro da caixa do distribuidor.
— Vá andando! — ordenou Lauer em tom nervoso.
Chellich obedeceu. Passou pelo distribuidor
e colocou a bolsa de plástico com as ferramentas e peças sobressalentes entre este
e o cilindro do neutralizador.
— Tenho de trabalhar aqui, ali e lá — disse
em tom solícito a Lauer, apontando para o distribuidor, para certo ponto situado
nas proximidades do neutralizador e para o lugar em que supunha estar a espula.
— Acomode-se; procure um lugar que lhe permita ficar de olho em mim.
Ronson Lauer fitou-o com uma expressão de surpresa,
mas quando descobriu que Chellich estava escarnecendo dele, seu rosto ficou rubro
de raiva. Via-se que precisava esforçar-se para não perder o autocontrole.
Chellich começou a tirar as ferramentas. Sem
que Lauer o percebesse, prestou atenção ao lugar em que se acomodava. Empurrara
o oscilógrafo a um metro de distância e mantinha-se sentado no chão com as pernas
bem afastadas. Segurava a pistola.
A primeira coisa feita por Chellich foi deixar
descoberto um dos fios isolados assinalados em vermelho. Trabalhava com um alicate
de segurança e procedia com tamanha despreocupação que Lauer nem poderia desconfiar
de que estivesse mexendo num fio de alta-tensão. O resultado deixou-o satisfeito.
Removeu dez centímetros do isolamento de um cabo da grossura de um dedo. No momento
apropriado bastaria cortar o fio com um alicate e encostar a extremidade, não isolada,
a um lugar do qual a corrente pudesse propagar-se até Lauer.
Retirou o estojo do distribuidor. Percebeu
imediatamente o que havia acontecido. Em nenhum ponto do sistema de distribuição,
o oscilógrafo indicava qualquer impulso ou sinal de tensão elétrica. No momento
em que a espula se volatilizou, o distribuidor fechou a corrente, servindo de chave
de segurança. Três soldas haviam sido arrancadas e, ao que parecia, uma das minúsculas
válvulas não funcionava mais. Chellich pôs-se a trabalhar. Voltou a firmar as soldas,
retirou a válvula e substituiu-a por uma pequena resistência. Realizou mais um ensaio
e verificou que o distribuidor ainda não estava funcionando.
Gunter Chellich não teve outra alternativa
senão examinar ponto por ponto todos os circuitos do distribuidor.
O tempo foi passando.
Chellich virava a cabeça para olhar Lauer,
que parecia não se sentir muito à vontade. Por várias vezes viu-o olhar para trás,
mas sempre se assustava e voltava a virar o rosto em direção de Chellich, como se,
só então, se lembrasse de que não deveria tirar os olhos do mesmo por um segundo
sequer.
Mas não fez aquilo que Chellich estava esperando;
nunca encostou a pele a qualquer peça de metal.
Chellich viu que, próximo de Lauer, um tubo
solitário do sistema de refrigeração atravessava o poço na vertical. Era feito de
metal plastificado não revestido, motivo por que podia ser considerado um excelente
condutor de eletricidade. Quem dera que Lauer pegasse esse tubo uma única vez que
fosse... Havia uma travessa metálica que ligava o tubo à parede e se estendia até
perto do distribuidor no qual Chellich estava trabalhando.
Chellich começou a impacientar-se. Quarenta
e cinco minutos já se haviam passado. Resolveu pensar em outro plano, a não ser
que, nos trinta minutos seguintes, Lauer pusesse a mão no duto de refrigeração.
Prosseguiu nos trabalhos de reparo do distribuidor.
O pensamento de que esta seria sua última chance não lhe saía da cabeça. Estaria
perdido se não se aproveitasse da mesma. E, pior que isso, se o computador-regente
de Árcon descobrisse a posição da Terra, ninguém conseguiria impedir a guerra galáctica.
Começou a suar e, no seu íntimo, começou a
praguejar contra Ronson Lauer. Passou a olhar para este com uma freqüência cada
vez maior, até que Lauer o notasse e o advertisse:
— Fique com a cabeça virada para a frente.
Estamos com pressa. Se olhar mais uma vez para trás, atirarei.
— Não diga — retrucou Chellich com uma risada
contrariada. — Quer que o tiro derreta alguns fios lá atrás, não é? Se isso acontecer,
o senhor terá de procurar um meio de arranjar-se.
A desconfiança de Ronson Lauer, sempre presente,
manifestou-se imediatamente.
— Então quer se prevalecer disso? — gritou
em tom furioso. — Acha que não atirarei, com medo de danificar alguma coisa? Espere,
que eu lhe mostrarei o que sei fazer.
Subitamente a chance veio!
Ronson Lauer levantou-se. Mantinha a pistola
térmica apontada para baixo. Procurava um lugar do qual pudesse atirar contra Chellich,
sem danificar qualquer fio.
Não foi muito fácil levantar-se. Lauer segurou
o tubo, levantou-se e, mesmo quando já se encontrava de pé, não o soltou.
Chellich gritou.
— Não! Não atire!
Na verdade sua voz vibrava de triunfo. Enquanto
Lauer fazia pontaria com o máximo cuidado, Chellich arrastou-se para o lado e, com
um único movimento do alicate Isolado, cortou o fio do qual removera um tanto do
isolamento. Segurou a parte isolada do fio e saltou para trás do distribuidor. Lauer
perturbou-se. O cano da pistola acompanhou o alvo. Mas, de repente, o distribuidor
se interpunha na trajetória de tiro. Por maior que fosse a raiva de Lauer, não se
esquecia de que estaria perdido se destruísse um dos aparelhos vitais da nave.
Hesitou, e esta foi a chance de Gunter Chellich.
Num movimento rápido, mas cauteloso, fez avançar
a mão que agarrava o fio e encostou a extremidade desguarnecida contra a travessa
lateral que segurava o tubo.
No mesmo instante, Lauer soltou um grito selvagem
e apavorado. Continuou a gritar até que Chellich tirasse o fio da peça metálica.
Depois Ronson Lauer caiu ao chão, desmaiado.
Chellich só esperou meio segundo. Num movimento
seguro voltou a colocar o fio no lugar do qual o mesmo fora tirado. A seguir, passou
a trabalhar no neutralizador de freqüência.
Soltou os fios de entrada e de saída, ligou-os
aos contatos por outro pedaço de fio, cortou este ao meio e colocou uma resistência
que devia ter o tamanho aproximado da resistência interna do neutralizador.
Depois passou o novo fio por cima do neutralizador
e escondeu-o na parede.
Esse trabalho levou menos de um minuto. Assim
que terminou, voltou a sentar-se e procurou aguçar o ouvido.
Esperara que o grito de Ronson Lauer fosse
ouvido na sala de comando, e que Suttney não demorasse a aparecer na escotilha.
Mas, por enquanto, nada disso havia acontecido.
Chellich forçou o ouvido ao máximo, porém não
conseguiu escutar nada.
Com movimentos rápidos, mas cuidadosos, Chellich
ligou as duas pontas do fio de alta-tensão por meio de uma peça flexível de metal
plastificado. Depois voltou a colocar o isolamento, que apenas havia sido empurrado
para cima. Quando terminou o trabalho, certificou-se de que ninguém perceberia nada,
a não ser se soubessem haver algo a ser procurado nesse fio.
Ronson Lauer continuava inconsciente.
Chellich passou por cima do corpo imobilizado
e subiu pela escada. Gritava ininterruptamente:
— Ei, Suttney, Roane! Lauer desmaiou.
Ninguém ouviu seus gritos. Saiu pela escotilha
e dirigiu-se ao corredor principal. Correu em direção à sala de comando, sempre
gritando. A escotilha estava fechada, mas abriu-se assim que Chellich se aproximou.
Viu Suttney ocupado em renovar as ataduras do rosto de Roane.
— Santo Deus, será que todos ficaram surdos?
— gritou Chellich esbaforido. — Lauer desmaiou. Deve ter encostado em algum fio
de alta-tensão. Ajudem-me!
Walter Suttney lançou-lhe um olhar desconfiado.
— O senhor tem certeza de não ter mexido na
alta-tensão, para que Lauer levasse um choque? — perguntou.
Com muita habilidade, Chellich se fez de perplexo.
— Nunca poderia fazer uma coisa dessas — afirmou,
ainda fungando. — O senhor acha que eu disse a Lauer: prezado Ronson, encoste o
dedo aqui?
* * *
Horace O. Mullon encontrava-se numa espécie
de transe. Sua consciência já não controlava os movimentos do corpo. Agia inconscientemente,
manipulando os controles pela forma que aprendera, sem pensar a respeito.
Em quatro dias dormiu apenas cinco horas. Além
disso, comera pouco. O corpo recorria às últimas reservas de energia.
De qualquer maneira, deixaram-no à vontade.
Afinal, era ele mesmo quem desejava continuar no posto.
Lidava com o goniômetro de compensação. Ou
melhor, lidava com a antena do goniômetro, que efetuava uma rotação lenta, a cada
quinze minutos, vasculhando todos os ângulos do espaço. Sabia como funcionava a
antena. Haviam-no esclarecido a este respeito.
O campo energético de vibrações, captado pela
antena, se propagava na quinta dimensão.
Horace O. Mullon já havia permanecido dez horas
na frente da tela, sem que acontecesse coisa alguma. O vidro fosco verde com os
numerosos sistemas de coordenadas que se encontrava à sua frente estava apagado.
Vez por outra, com um intervalo de alguns minutos, surgia uma minúscula fagulha,
que logo se apagava. Mullon sabia se tratar de interferências cósmicas.
No entanto, o ângulo fortemente iluminado,
que surgiu de repente diante de seus olhos, representava um sinal!
No mesmo instante, Mullon despertou do transe.
Viu que o ângulo não avançava até a extremidade superior da tela. Sem olhar bateu
no botão que colocaria a antena na posição correta. O ângulo empalideceu e foi desaparecendo.
Mas, dali a alguns segundos, apareceu de novo. Era mais luminoso que antes e tão
grande que abrangia toda a extensão da tela.
— Localização! — gritou Mullon com a voz rouca.
— Localização no goniômetro de compensação! Nós a encontramos!
Depois tombou, caindo no chão, onde permaneceu
imóvel.
4
No dia 10 de outubro de 2.042, o jornal Terrânia
Daily News publicou a seguinte notícia:
Quase todas as unidades da Frota Espacial Terrana reuniram-se nas proximidades
do centro da Via Láctea, onde realizarão uma manobra de grandes proporções. Essa
manobra servirá para testar o ânimo de luta da frota. Na opinião do almirantado,
essa missão reveste-se da maior importância, uma vez que se trata da primeira manobra
de que participa toda a frota. Na operação será experimentada especialmente a cooperação
entre as naves de guerra e as de aprovisionamento. Continuamos a postos e dentro
de poucos dias traremos novas informações aos leitores.
No dia seguinte o jornal Terrânia Times manifestou-se:
Em vez de noticiar a manobra, que pouco interessa aos civis, o Ministério
das Informações e Opinião Pública devia dispor-se a dizer alguma coisa sobre o desaparecimento
da gazela e dos três desertores. Todos compreenderiam se, neste meio tempo, a frota
desistisse de perseguir os fugitivos. Seria uma decisão perfeitamente razoável face
à reduzida importância de que, segundo tudo indica, se reveste o acontecimento.
Por isso não se justifica que o seqüestro continue envolvido no véu do mistério.
* * *
Tudo correu bem. Ronson Lauer foi encontrado
no momento em que estava recuperando os sentidos. Felizmente não guardava a menor
lembrança do que acontecera no momento do desmaio. Naturalmente esforçou-se para
pôr toda a culpa em Chellich. Mas este permaneceu fiel à verdade. Disse que Lauer
quis atirar contra ele, motivo por que resolveu abrigar-se. Suttney parecia dar
mais crédito a seu relato que às acusações furiosas de Lauer. É bem verdade que
não o deixou perceber. Em virtude do nervosismo, Ronson Lauer começou a sentir-se
mal. Suttney e Chellich levaram-no para cima e foram a um camarote, onde o puseram
na cama.

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