sábado, 7 de setembro de 2013

P-073 - Os Três Desertores - Kurt Mahr [parte 2]

— Van Aafen, você voará à Terra. Levará anotações que informarão o Marechal Freyt sobre a nova situação, e as respectivas instruções. Neste momento ordeno-lhe que entregue esses documentos nas mãos do marechal. Poderá dispor de um cruzador que servirá de nave-correio.
Van Aafen inclinou a cabeça, num gesto de assentimento. Perry Rhodan fixou os olhos no Capitão Aurin, que se encontrava a seu lado.
— O senhor terá um trabalho muito honroso, Aurin — disse. — Cabe-lhe colocar toda a frota em estado de alarma. A ordem de apresentação lhe será entregue dentro de... bem, digamos dentro de quarenta minutos. Até lá tome todas as providências.
Rodes Aurin levantou-se, fez continência e saiu.
— É tudo, senhores — concluiu Rhodan. — Muito obrigado.
No mesmo instante ouviu-se o ruído das cadeiras que eram arrastadas e dos passos que se afastavam.
Poucos segundos depois de Rhodan ter proferido a última palavra, a pequena sala ficou vazia.
Um poderio imenso começava a movimentar-se. O Império Solar dispunha-se a resguardar seu segredo. E preparava-se para enfrentar um inimigo que atacaria assim que soubesse onde procurar a Terra. O planeta preparava-se para dar uma demonstração de seu poder. Era um poder criado em menos de setenta anos, que tinha a audácia de competir com o Império dez vezes milenar de Árcon.

* * *

Deixaram-no a sós com Oliver Roane. Desligaram o intercomunicador e tomaram todas as providências para que ele, Chellich, não pudesse ver da poltrona do piloto onde se encontravam. Suttney dissera-lhe que deveria realizar a transição dentro de meia hora. Chellich gostaria de saber o que Suttney e Ronson Lauer pretendiam fazer nesse intervalo. Mas, do jeito que estavam as coisas, não tinha meios de descobrir.
Oliver Roane estava sentado atrás do tenente, numa poltrona que se encontrava mais ou menos no centro da sala, e mantinha a pistola apontada para ele. O painel do telecomunicador estava ao alcance de Roane, mas não de Chellich. Este fechou os olhos e rememorou os movimentos que se tornariam necessários para fazer com que o transmissor irradiasse um ligeiro sinal goniométrico. Estes movimentos eram apenas dois. Teria de mover a grande chave que punha o aparelho a funcionar e comprimir o botão, que lhe encaminharia o sinal codificado. Era só. Um homem treinado não levaria mais de meio segundo para fazer esses movimentos.
Mas mesmo que levasse apenas um centésimo de segundo e o movimento fosse apenas um, Chellich não poderia executá-lo. Roane prestava atenção, e, por duas vezes, já demonstrara como sabia prestar atenção.
Chellich tremia de raiva.
Começou a brincar com o painel. Antes de sair, Ronson Lauer o havia examinado atentamente e dissera que Chellich não poderia fazer nada que os prejudicasse. A chave mestra, que dava início ao hipersalto, fora bloqueada assim que os respectivos dados foram inseridos nos mecanismos propulsores. Só ficaria livre depois de passado o tempo previsto de trinta minutos.
Oliver Roane não teve nenhuma objeção a que Chellich começasse a manipular as teclas. Para espantar o tédio, Chellich abriu o catálogo e examinou a folha em que se encontrava a estrela à qual se dirigiriam. Não encontrou nada que chamasse a atenção e passou à folha seguinte. Viu que esta era tão desinteressante como a anterior e passou à outra.
Esta tinha um trecho colorido em amarelo. E a cor amarela significava que a respectiva área achava-se no campo de influência dos arcônidas. A parte colorida estendia-se em formato de língua da extremidade inferior da folha até o centro da tela. Chellich fez a ampliação e fez as respectivas estrelas com os nomes e outros dados desfilarem diante de sua vista.
Todas as estrelas compreendidas na área de influência de Árcon tinham nomes. Chellich leu: Galtha, Oone, Sophrum, Lo-wann, Hayireko, Minnit e uma série de outros nomes de que nunca ouvira falar. Ficou refletindo sobre como seriam os planetas iluminados pelo sol a que se dirigiriam e que seres viviam no mesmo.
Mas continuou a girar o botão da calculadora e, na parte superior, ultrapassou a área colorida da folha do catálogo. Os nomes das estrelas foram-se tornando mais raros. Fora de sua área de influência os arcônidas não se haviam dado ao trabalho de batizar todas as estrelas. Chellich leu: Na-aiwoon, Joplat, Hoshan. Seguiram-se alguns centímetros em que só havia pontos sem nome. Depois veio Latin-Oor.
Estacou. Latin-Oor. Lembrou-se de ter ouvido esse nome há pouco tempo. Latin-Oor. Em que conexão ouvira estas palavras?
Latin-Oor. Chellich procurou rememorar. Latin-Oor soava como o equivalente inglês de minério latino. Lembrou-se de ter pensado nisso, quando ouvira o nome pela primeira vez.
Seguiu a pista de suas idéias. Minério. Ficou perguntando a si mesmo se em Latin-Oor realmente havia minério, muito embora o nome arcônida evidentemente nada tivesse a ver com a tradução de Chellich. Lembrara-se de que, se em Latin-Oor existisse algum minério precioso, ali poderia ser instalada uma base, a não ser... a não ser...
Sim; era isso! A não ser que a frota robotizada de Árcon, que estava a caminho de Latin-Oor, iria transformar o planeta num inferno chamejante.
Subitamente viu o quadro com toda nitidez!
Ao lado de outros oficiais, participara da conferência e soubera através do Serviço de Informações Internas da Frota que o Major Ostal conseguira colocar o computador-regente de Árcon numa pista falsa, fazendo-o acreditar que a Terra ficava em algum setor do centro galático.
Segundo os dados falsos que Ostal fizera chegar ao cérebro positrônico, o sol em torno do qual girava a Terra era Latin-Oor. Esse sol tinha dois planetas semelhantes à Terra, que eram desabitados. O computador-regente haveria de supor que um desses dois planetas era a Terra.
Quer dizer que a missão de Clyde Ostal fora bem sucedida. O regente mordera a isca e pusera em marcha uma grande frota. Chellich não se lembrava a qual dos dois planetas semelhantes à Terra aludiam as informações de Ostal, se a Latin-Oor III ou a Latin-Oor IV. Mas tinha certeza absoluta de que um deles seria cercado pela frota robotizada, que intimaria seus habitantes a capitularem incondicionalmente.
Na oportunidade soltaram estrondosas gargalhadas ao se lembrarem de que, ao notar que sua intimação para a rendição incondicional ficaria sem resposta, a frota arcônida pousaria no planeta e teria de constatar que em Latin-Oor III ou IV não existia uma única criatura inteligente.
Perguntaram se o choque que o regente sofreria seria bastante forte para queimar algumas das suas válvulas.
E agora? Haveria alguma relação entre a frota arcônida que avançava em direção a Latin-Oor e a situação em que se encontrava?
Gunter Chellich folheou o catálogo para trás. Comparou os dados relativos ao sol escolhido por Ronson Lauer com aqueles de Latin-Oor. A estrela a que Lauer pretendia chegar ficava pouco acima do plano do microfilme, enquanto Latin-Oor ficava tão acima desse plano que quase chegava a penetrar na folha anterior. A estrela escolhida por Lauer ficava entre os ângulos teta 89 graus e 50 minutos e 90 graus 00 minutos.
A folha intermediária abrangia o ângulo de teta 90 graus 00 minutos a 90 graus 10 minutos. Após isso, seguia-se a folha em que estava registrado Latin-Oor, e que abrangia os ângulos teta 90 graus e 10 minutos a 90 graus e 20 minutos. A distância vertical entre os dois sóis não era superior a dez anos-luz. Acontece, porém, que havia uma ligeira diferença entre os ângulos horizontais, motivo por que a distância total chegava a cerca de dezesseis anos-luz ou cinco parsec.
Subitamente Chellich teve a impressão de que algo lhe caía dos olhos. Lembrou-se de que, quando perguntara se devia dirigir a nave a um destino determinado, Lauer lhe respondera mais ou menos assim:
“— ...o principal é que não seja um lugar quente. A presença de naves terranas seria indesejável...”
Então era isso! A presença de naves terranas seria indesejável!”, refletiu. “Eu já devia ter percebido que Ronson Lauer colocara certa ênfase no adjetivo.
A presença de naves arcônidas não teria nada de indesejável. Pelo contrário. Lauer estudara o catálogo e sabia que a estrela à qual se dirigia ficava a apenas dezesseis anos-luz de Latin-Oor. Ele a escolhera por desejar que houvesse naves arcônidas por perto, quando Suttney começasse a realizar seus intentos.
Já não podia haver a menor dúvida sobre quais seriam esses intentos. Suttney procurava aproximar-se dos arcônidas. Os arcônidas, que naturalmente receariam as complicações, não iriam querer nada com ele, a não ser que lhes trouxesse algo capaz de compensar o risco.
Eram os dados relativos à posição da Terra!
A partir desse instante, Gunter Chellich não precisaria do intercomunicador para saber onde Lauer e Suttney se encontravam naquele momento e o que estavam fazendo. Achavam-se no setor de armazenamento de dados e, com base nas informações ali registradas, procuravam calcular os elementos relativos à posição galáctica da Terra. O trabalho não era fácil.
Face às normas de segurança, a posição da Terra não era registrada em lugar algum. E no catálogo galático não se encontraria nenhuma estrela chamada Sol.
No entanto, seria perfeitamente possível calcular a posição da Terra com base nas coordenadas de sóis próximos. Isso exigiria um bom volume de conhecimentos astronômicos. Chellich não tinha a menor dúvida de que Ronson Lauer possuía esses conhecimentos. No entanto, não possuía a menor prática de interpolação de dados relativos a posições astronômicas. Mesmo que dispusesse de dados relativos a todas as estrelas vizinhas ao sistema a que pertencia a Terra, levaria algumas horas para desenvolver um programa que pudesse ser introduzido no computador positrônico.
Chellich calculou febrilmente o tempo de que ainda poderia dispor.
Uma hora e meia se passaria até que Lauer conseguisse reunir todos os dados, e outras três horas seriam consumidas na feitura da programação. O resto seria apenas uma questão de segundos. O computador trabalhava muito depressa.
Seriam quatro horas e meia, a não ser que Suttney resolvesse chamar as naves arcônidas em vez de irradiar a posição da Terra para o espaço. Se quisesse aguardar a chegada dos arcônidas, mais algumas horas se passariam; talvez umas quatro ou cinco.
Era bastante tempo. Apesar disso, Chellich começou a ficar nervoso. Devia fazer alguma coisa para impedir a execução do plano de Suttney. Devia dar um sinal aos homens que se encontravam em Fera Cinzenta, a fim de que estes soubessem onde procurar a gazela. Mas não sabia como fazer isso. Quatro horas e meia, ou mesmo mais, eram muito pouco tempo para encontrar uma idéia que realmente fosse boa.
Virou a cabeça e olhou para Roane. Oliver Roane continuava sentado no mesmo lugar. A pistola parecia grudada à mão. Fitava-o com uma expressão estúpida. Chellich sorriu, mas no rosto de Roane não houve nenhuma modificação.
— Não está com medo, Roane? — perguntou Chellich.
Os pensamentos de Chellich vagavam em outro lugar. Teria de encontrar uma idéia que lhe permitisse estragar os planos de Suttney. E, por estranho que parecesse, teve a impressão de que isso seria mais fácil, se conversasse com alguém.
— Do senhor? — perguntou Roane em tom de escárnio.
— Não. Com medo de ser preso e fuzilado.
Uma expressão desagradável surgiu no rosto de Oliver Roane quando este compreendeu o sentido das palavras de Chellich.
— Não seja idiota — respondeu em tom áspero. — Ninguém nos prenderá.
O cérebro de Chellich trabalhava a toda força.
— Você acha que aquilo que Suttney pretende fazer é correto? — perguntou, enquanto seu raciocínio maquinava outra idéia.
Roane soltou uma risada tola.
— É assim que o senhor costuma interrogar os outros, não é? Pois o senhor nem sabe o que Suttney pretende fazer.
Meu Deus”, pensou Chellich, “este homem realmente é tolo demais.”
— É claro que sei! — afirmou.
— He! he! he! — fez Roane.
— Pretende fixar-se num planeta desconhecido e subjugar a população nativa — disse Chellich com o rosto mais sério deste inundo. — O que poderia ser senão isso?
Os olhos de asno de Roane arregalaram-se. Inclinou-se para a frente e fitou Chellich com uma expressão de incredulidade. Levou alguns segundos para compreender o que o tenente acabara de dizer. E, nestes segundos, Chellich chegou à conclusão de que sua idéia podia não ser genial, mas era aproveitável.
Oliver Roane pôs-se a rir. A sala de comando “retumbava” sob o efeito das gargalhadas provocadas pela idiotice de Chellich. Este aproveitou a oportunidade, girou a poltrona para o lado e num movimento rapidíssimo comprimiu dois botões vizinhos.
Roane notou o movimento repentino. Interrompeu-se em meio à gargalhada e fitou Chellich com os olhos semicerrados.
— O que foi que o senhor fez? — gritou e levantou-se.
— Nada de especial — respondeu Chellich em tom indiferente. — Fiz uma regulagem melhor do ar condicionado. Estou sentindo calor.

* * *

O distribuidor número 255 do ponto de controle XVII, situado na parte do circuito de regulagem que ligava o compensador estrutural ao hiperpropulsor, estava acostumado a ser alimentado com impulsos triangulares de conformação precisa, com uma altura de dois volts e uma base de 10-8 segundos de largura. A princípio, eram estes os únicos impulsos que conseguia absorver, classificar e, finalmente, distribuir pelos vinte canais de saída que dele partiam.
Apenas em mais um outro caso esse distribuidor poderia processar outro impulso, que era o impulso quadrado de dez volts de altura e 10-7 de base. Recebera o nome de impulso de alarma, e não era classificado, mas armazenado por ele e bloqueava os vinte canais de saída. Porém o distribuidor 255 só tinha capacidade de absorver esse impulso de alarma, depois de efetuada uma modificação no potencial da grade catódica da primeira válvula.
Embora essa modificação não tivesse sido realizada, o distribuidor 255 recebeu o impulso de alarma. Não quis aceitá-lo, pois seu instinto eletrônico tinha boa margem de segurança.
Mas, na fração de segundo, durante a qual o impulso aguardou diante do elemento de entrada para ser admitido, o potencial da grade catódica da primeira válvula acabou sendo modificado. O distribuidor não teve outra alternativa senão permitir a entrada do impulso, cuja potência era perigosamente elevada. Infelizmente não teve tempo para bloquear os vinte canais de saída. Antes que o distribuidor pudesse reagir ao impulso, este já havia saído.
Parte dos aparelhos ligados às saídas dos canais deixou passar o impulso sem sofrer qualquer dano. Assim, por exemplo, extinguiu-se ao chegar ao mecanismo direcional do compensador estrutural, porque este estava bloqueado de outro lado. Acontece, porém, que em outros lugares, especialmente naqueles dotados de elevada capacidade de indução, criou bastante confusão. Afinal, tinha cinco vezes a potência normal dos impulsos destinados ao circuito de regulagem. Logo, a auto-indução por ele causada foi cinco vezes mais elevada. E com isso derreteu o começo de uma espula embutida numa folha de plástico.
A partir dali, o circuito de regulagem ficou interrompido. Era verdade que a interrupção só se verificava naquele lugar. Acontece que a instalação fora construída de maneira a proporcionar um máximo de segurança. Por isso essa interrupção seria suficiente para deixar todo o sistema condutor fora de ação.

* * *

Oliver Roane ficou desconfiado. Chellich notou que refletia intensamente sobre o que deveria fazer.
— Foi mesmo apenas o ar condicionado?
Chellich fez que sim.
Roane ainda não havia chegado a qualquer conclusão. Sabia perfeitamente que Suttney devia ser informado sobre o incidente. Mas, para avisá-lo, teria de sair da sala de comando, já que o sistema de intercomunicação fora desligado.
Roane, que se sentia bastante inseguro, olhou em torno e procurou verificar se já notava alguma diferença na regulagem do sistema de condicionamento de ar. Mas o calor continuava o mesmo.
Gunter Chellich, que já se voltara novamente para seu painel, estava de costas para Roane. Parecia indiferente a tudo.
Bem”, pensou Roane, “direi a Suttney quando ele voltar.”
Enquanto isso, Gunter Chellich examinava as letras luminosas que se encontravam abaixo de dois botões coloridos:
Impulso de fechamento sistema distribuição compensador S. Os dois botões devem ser acionados simultaneamente.”
Não fizera isso. Comprimira primeiro o botão da esquerda e depois o da direita.
Não sabia que efeito poderia causar...

* * *

A frota terrana viajava pelo espaço. As naves formavam uma larga rede de malhas. As gazelas e os girinos esforçavam-se para fechar essas malhas. O General Deringhouse, um veterano dos primeiros tempos do Império Solar, que se conservara jovem, dirigia a operação a bordo da Barbarossa, um supercouraçado da classe Império. Uma única nave não obedecia as ordens de Deringhouse. Era a Drusus, a nave capitania da frota terrana, comandada por Perry Rhodan.
O plano seguido na operação de busca fora preparado pelos matemáticos. Havia uma série de maneiras pelas quais se poderia localizar a pista da gazela desaparecida e, por isso, todos os aparelhos que estivessem em condições de ver, rastrear, registrar Irrupções energéticas, analisar remanescentes de combustíveis e constatar abalos do espaço einsteiniano tinham de trabalhar ininterruptamente.
Uma coisa parecia impossível: a nave não poderia ser localizada em virtude do abalo estrutural causado por uma transição. Esta provocava um choque energético. A energia liberada durante o processo era de estrutura bastante complicada, mas sua disseminação se regulava pelas leis simples do espaço de cinco dimensões. Sua presença podia ser constatada por meio dos rastreadores estruturais, a não ser que a nave, que realizasse a transição, estivesse equipada com um compensador estrutural, que absorvia o choque energético e fazia com que este se exaurisse num espaço vazio, especialmente criado para esse fim, de maneira que nada ou quase nada chegava ao mundo exterior.
Com isso só restavam os campos remanescentes, que se espalhavam pelo espaço com uma potência dez mil vezes menor, em forma de vibrações típicas para o veículo espacial e seu compensador. Esses campos remanescentes só poderiam ser registrados por rastreadores ultra-sensíveis, criados pela raça de microtécnicos dos swoons. Acontece que a nave em transição poderia neutralizar até mesmo esses campos remanescentes desde que dispusesse de um neutralizador de vibrações, também denominado absorçor. Esse aparelho não deixava escapar nem mesmo os campos remanescentes. Captava-os e absorvia-os, fazendo com que nenhum vestígio da transição, por menor que fosse, chegasse ao mundo exterior.
A gazela desaparecida estava equipada com ambos aparelhos. Dispunha tanto do compensador estrutural como do neutralizador de vibrações. Sua presença no hiperespaço tornava-se impossível de ser detectada.
Para Perry Rhodan havia uma esperança, caso Chellich ainda estivesse vivo.
Talvez o tenente pudesse fazer surgir certas ‘ocorrências’ que se harmonizariam com o curso normal e prefixado da operação de busca”, concluiu mentalmente.


3



No dia 8 de outubro de 2.042, o jornal Terrânia Times publicou a seguinte nota:

Ao que parece, nosso noticiário sobre o desaparecimento de uma nave de reconhecimento do tipo gazela, ocorrido em 2 de outubro, na nova base de Mirta VII, e a maneira irresponsável pela qual o Ministério das Informações e Opinião Pública fez chegar as notícias ao público provocaram um desassossego considerável em boa parte da população.
Não há dúvida de que o incidente se reveste de maior gravidade do que o Ministério das Informações e Opinião Pública quer admitir. E temos certeza de que o público merece ser melhor informado, especialmente nos momentos de perigo. De outro lado, porém, seria absurdo acreditar que, em virtude da perda da gazela, uma guerra mortífera teria irrompido em algum ponto afastado da Galáxia ou que a partida de grandes contingentes da frota da Terra e dos planetas solares possa ter alguma relação com o desaparecimento de três desertores. Basta que façamos uma conta bem simples. Uma gazela custa cerca de 45 milhões de solares. É o prejuízo que terá de ser contabilizado em virtude de um veículo desse tipo. Acontece que a operação que está em andamento já custou mil vezes essa quantia, ou seja, cerca de 45 bilhões de solares.
Partilhamos a opinião de muitos dos nossos concidadãos, segundo os quais nem tudo que se faz nos ministérios sediados nesta capital é correto. No entanto, não acreditamos que o Governo possa ser acusado de falta de conhecimento na área comercial ou matemática. Nem mesmo um idiota seria capaz de realizar uma operação, cujo custo poderá ascender a um total de cem bilhões de solares, para recuperar um objeto que não vale mais de quarenta e cinco milhões de solares.
Segundo informam nossos elementos de confiança, a operação em grande escala, que vem sendo realizada pela frota, representa uma medida destinada a fortalecer o ânimo de luta, que será repetida regularmente nos próximos anos. Pode-se ter esta ou aquela opinião sobre o custo adicional que tal medida representará para a comunidade. No entanto, não devemos deixar-nos assustar com boatos alarmantes.

* * *

— Algo de novo? — perguntou Suttney ao entrar na sala de comando.
Oliver Roane levantou-se. Parecia contrariado.
— Não sei — respondeu em tom aborrecido. — Ele girou alguma coisa e disse que era o condicionamento de ar.
Ronson Lauer encontrava-se na escotilha. Chellich que os observava viu Lauer estremecer e fitá-lo, abaixando-se como um felino que se prepara para o salto.
É o mais perigoso de todos”, pensou Chellich. “É ágil e inescrupuloso.”
Walter Suttney também se virou para ele e fitou-o atentamente.
— O que fez, Chellich? — perguntou.
Gunter Chellich não respondeu. Suttney aproximou-se mais alguns passos.
— Responda, Chellich! — ordenou em tom insistente. — Foi mesmo o condicionador?
— Não — respondeu Chellich com a maior tranqüilidade, ficando de olho em Ronson Lauer.
— Então, o que foi? — perguntou Suttney.
— Não sei — respondeu Chellich com a maior tranqüilidade de que era capaz. — Só sei que apertei dois botões.
Pelo canto do olho viu Ronson Lauer pôr a mão na arma que trazia num coldre.
— Por quê? — perguntou Suttney.
— Para ganhar tempo — respondeu Chellich e levantou-se. — O que poderia ser?
Lauer aproximou-se silenciosamente, com a arma na mão e uma expressão assassina nos olhos.
— Quanto mais tempo ficarmos aqui, melhor para mim, não é? O motivo é exclusivamente este — completou Chellich depois de algum tempo.
Pela primeira vez Walter Suttney mostrou-se perturbado. Não compreendia como uma pessoa, que se encontrava em seu poder, agia contra sua vontade e se atrevia a confessar isso. Oliver Roane encontrava-se atrás dele, boquiaberto; ao que parecia, já não compreendia mais nada. Ronson Lauer aproximava-se com passos de felino.
Gunter Chellich percebeu que as coisas começavam a ficar pretas para ele. Reunindo o autocontrole que ainda lhe restava, disse:
— Tome cuidado, Suttney!
Suttney virou-se e Chellich prosseguiu.
— Ele quer matar a única pessoa que sabe dirigir este veículo.
Walter Suttney viu Lauer aproximar-se e, pela expressão dos olhos do mesmo, percebeu quais eram as intenções dele.
— Calma! — berrou. — Lauer, fique onde está e guarde a arma!
Ronson Lauer estremeceu e parou.
— Ele nos traiu! — exclamou. — Por causa dele poderemos ficar parados no espaço.
— Eu poderia matá-lo por isso — disse Suttney em tom tranqüilo.
Chellich deliciou-se com seu triunfo.
— Não pode, não — respondeu. — A não ser que queira ficar aqui para sempre. O senhor entende um pouco de técnica, e Lauer de galatomatemática. Mas somando seus conhecimentos, ainda não serão capazes de pilotar uma gazela.
Suttney já parecia ter pensado nisso, pois não se mostrou nem um pouco surpreso. Acenou com a cabeça e disse:
— Então é assim que o senhor pensa.
Virando-se, perguntou:
— O que vamos fazer com ele?
Ronson Lauer fez um movimento violento com o braço.
— Vamos, Oliver! Encarregue-se dele.
Suttney recuou um passo. Chellich viu que estava sorrindo.
— Sim, talvez seja isso — confirmou Suttney. — Guarde a pistola, Oliver, e mostre-lhe que não pode brincar conosco.
Oliver Roane deixou cair a pistola sobre a poltrona. Depois levantou-se e foi-se aproximando lentamente.
Gunter Chellich também se levantou.
— Venha cá, pequenino! — disse Roane com um sorriso de deboche. — Se ficar aí acabará caindo sobre o painel e quebrando tudo.
Chellich não saiu do lugar.
— Venha buscar-me! — disse em tom provocador.
Lauer afastou-se para o lado. Chellich parecia dedicar sua atenção exclusivamente a Roane. Mas na realidade viu Lauer passar atrás de duas poltronas e colocar-se às suas costas.
— Eu já disse; venha cá! — repetiu Roane em tom de ameaça.
Naquele instante, Lauer exclamou em tom exultante:
— Eu o mando para você!
Chellich ouviu um passo bem às suas costas. Afastou-se instantaneamente e deixou Lauer, que pretendia avançar com toda força, correr para o vazio. Enquanto Lauer passava por ele, pegou na gola de seu traje de serviço. Isso já representava metade do caminho. Segurando Lauer pela gola e pelos fundilhos, deu dois ou três passos rápidos em direção a Roane e atirou Lauer sobre ele. Tudo isso foi feito numa fração de segundo.
Chellich viu sua chance. Antes que Roane pudesse recuperar-se da surpresa, colocou-se à sua frente e passou a trabalhá-lo com os punhos.
Não se lembrara dos dedos, que Oliver Roane ferira com um tiro de pistola térmica. Já não doíam, pois, graças a uma pomada regeneradora, os mesmos foram logo cobertos por pedaços de pele fina. Mas, ao pegar o inimigo quase inconsciente pela roupa, a fim de fazê-lo tombar com um último soco, Chellich ficou com a mão presa num fecho magnético de metal e as feridas abriram-se...
Seu corpo foi inundado por uma dor cruciante. Devido às lágrimas que lhe saíam dos olhos, não viu mais nada. Roane percebeu que o inimigo o largara; ouviu-o gritar. Não sabia o que tinha acontecido, mas aproveitou a chance. Cambaleante, Roane afastou-se da parede. Chellich percebeu que ele aproximava-se. Procurou defender-se, mas a dor lhe tirara todas as forças. Duas pancadas desferidas por Roane atingiram a cabeça desprotegida. Mal sentiu a terceira pancada. A dor, que irradiava dos dedos, fazia-o esquecer-se das outras...
Depois foi o fim.

* * *

O desejo de ganhar tempo era tão intenso que, mesmo durante o estado de inconsciência, não o esqueceu. Quando recuperou os sentidos soube imediatamente o que havia acontecido e compreendeu que a coisa mais tola que poderia fazer seria abrir os olhos e deixar que todos soubessem que já não estava inconsciente.
Ouviu ruídos nas proximidades, mas a cabeça zumbia tanto que não sabia do que se tratava. Depois de algum tempo reconheceu a voz de Suttney.
— Por que foi intrometer-se? Alguém lhe deu ordem para isso?
A resposta foi proferida por Lauer.
— Não recebo ordens de ninguém. Sei agir por minha conta. Haja o que houver, ainda acertarei minhas contas com esse sujeito, quando não precisarmos mais dele.
— Você vai deixá-lo em paz, Ronson! — disse Suttney em tom tranqüilo e com uma raiva contida. — Não estamos interessados em matar gente.
Depois de algum tempo, Lauer respondeu cheio de ódio:
— Você acha? Realmente acredita que manda em mim? Cuide de si mesmo quando chegar a hora.
Suttney não disse mais nada. Chellich ouviu alguém dar alguns passos e acomodar-se numa poltrona. Devia ser Suttney. Ao que parecia, o último incidente contribuíra para perturbar a harmonia entre os desertores.
Subitamente Chellich ouviu a voz de Suttney:
— Se, daqui a uma hora, ainda não tiver recuperado os sentidos, jogaremos um balde de água em cima dele.
Chellich resolveu aproveitar muito bem a hora que ainda lhe restava. Graças a seu miserável estado, não teve a menor dificuldade em adormecer imediatamente.

* * *

A Drusus percorria a área previamente demarcada, situada num enclave em que a matéria era escassa, a quarenta e cinco anos-luz da azul estrela anã de Vollaal. Setenta e cinco por cento das naves auxiliares estavam em viagem, vasculhando o setor espacial destinado à Drusus. Os veículos restantes permaneceram a bordo, para poderem ser prontamente utilizados, caso surgisse algum imprevisto.
A bordo da Drusus encontravam-se alguns dos homens que, há alguns dias, haviam sido admitidos pela frota. Tratava-se de colonos de Fera Cinzenta, que passaram a ser encarados com bastante desconfiança, depois do seqüestro.
Um dos antigos colonos a bordo da Drusus era Horace O. Mullon, ex-chefe dos Democratas Autênticos. Era o homem que derrotara Hollander. Os assentamentos sobre Horace O. Mullon iam muito além dos dados registrados pelos tribunais terranos. Foram colhidos, em conformidade com as Instruções de Chellich e do Capitão Blailey, durante o tempo em que Mullon dirigia os destinos da colônia. Esses assentamentos provocaram um interesse bastante intenso em Perry Rhodan. E Mullon era o único que estava excluído da desconfiança geral. Ninguém acreditava que um inimigo encarniçado de Hollander poderia unir-se aos adeptos do mesmo.
Graças ao interesse que Perry Rhodan lhe dedicava — ou melhor, graças à visão de suas capacidades — Mullon não foi incluído no posto mais baixo do pessoal da Frota. Obteve a graduação de suboficial, e ficou previsto que seria promovido a tenente, independentemente do cumprimento das normas que regiam as promoções, assim que não houvesse mais qualquer dúvida de que se afastara das suas idéias revolucionárias e de crítica social. Apesar disso, seria um tenente velho, pois contava mais de trinta e cinco anos. Mas não havia nada que impedisse sua rápida progressão na escala hierárquica, pois possuía um excelente senso de organização.
Quando, com os companheiros, recebeu ordem de apresentar-se a bordo da Drusus, Horace O. Mullon acreditou que tinha chegado o momento de dar provas de seu valor. A nave decolara com quase todas as unidades estacionadas em Fera Cinzenta e, pelas aparências exteriores, chegava-se à conclusão de que acabara de realizar uma transição a grande distância. Ao que tudo indicava, acontecimentos importantes os aguardavam. Horace O. Mullon estava decidido a distinguir-se no curso dos mesmos.
Dali a um dia descobriu do que realmente se tratava. Uma gazela fora subtraída por Suttney, Lauer e Roane, pessoas que antigamente pertenciam ao grupo de segurança de Hollander, na época em que este instaurou um regime de terror em Greenwich. Além disso, Gunter Chellich, que era amigo de Mullon, era um passageiro involuntário da gazela. Foi juntamente com ele que capturou Hollander e esquentou o inferno para os peepsies.
Com isso, os planos de Mullon ficaram atrapalhados. Já não estava interessado em distinguir-se. Não fazia a menor questão de ser tenente. Imaginava a situação em que Chellich devia encontrar-se. Conhecia os três homens que haviam roubado a gazela e sabia perfeitamente que Chellich não teria de esperar nada de bom dos mesmos.
Gunter Chellich estaria perdido se não conseguissem encontrar a gazela antes que os desertores realizassem seus planos. Tinham de encontrar a gazela; Mullon não pensava em outra coisa.
Os colonos a bordo da Drusus constituíam parte da 15a companhia, que, por enquanto, não recebera qualquer tarefa específica. Encontravam-se a bordo para fins de treinamento. O trabalho era duro, mas por enquanto sua finalidade consistia exclusivamente em fazer daquela gente homens de verdade. Esse era o desejo do sargento Delacombe.
Horace O. Mullon obteve licença de Delacombe para trabalhar no setor de localização. Aceitaram-no porque Chellich lhe ensinara a manipular os respectivos instrumentos. Foi destacado para o setor de rastreamento de matéria e, depois disso, raras vezes se afastava do seu posto.
A idéia de que precisava encontrar Chellich era tão forte que o fez ficar a postos dia e noite.
Num espaço de setenta e duas horas, Mullon só dormiu cinco horas. Quiseram arrastá-lo à cama, mas ele fez questão de que lhe dessem um estimulante para que pudesse continuar debruçado sobre o aparelho.
Depois de três dias e meio, foi transferido para o setor de rastreamento estrutural e de vibrações. O trabalho nos rastreadores estruturais era mais fácil.
Mullon foi transferido para não sofrer um colapso nervoso. Por enquanto ninguém desconfiava de que Mullon desejava justamente essa transferência.

* * *

Gunter Chellich acordou sobressaltado, quando a água fria desabou sobre ele. Rolou rapidamente para o lado e assim escapou ao resto do conteúdo do balde que Ronson Lauer despejava sobre ele.
Lauer ficou aborrecido com a rapidez de sua reação. Deu-lhe um pontapé e, assim que Chellich se levantou, deixou cair o balde e segurou a arma, apontando-a contra Chellich.
— Venha! — gritou em tom furioso.
Depois do curto período de sono, Chellich sentia-se muito melhor. A dor de cabeça cessara quase por completo e as pontas dos dedos coçavam.
Quando viu Ronson Lauer, começou a rir. Lauer recebera o “primeiro golpe” de Roane, e os sinais do desastre ainda eram perfeitamente visíveis.
A risada de escárnio do tenente fez com que Lauer fervesse de raiva. Levantou a pistola e Chellich notou que seu dedo se curvava em torno do gatilho.
— Você ainda perderá a vontade de rir, meu caro! — exclamou.
— Chega! — gritou Suttney, que se encontrava em lugar mais afastado. — Ronson, eu já lhe disse o que acho dessa sua atitude de cão raivoso.
Chellich forçou-se a esboçar um sorriso de superioridade. Virou-se e fez de conta que a arma apontada para ele não o incomodava nem um pouco. Viu Suttney aproximar-se e, no mesmo instante, descobriu Oliver Roane, que esticava as pernas e se mantinha profundamente reclinado numa poltrona. Respirava pesadamente e três quartas partes de seu rosto estavam cobertas por ataduras que, segundo tudo indicava, haviam sido colocadas por ele mesmo.
— Para o senhor também chega, Chellich — prosseguiu Suttney. — Daqui em diante, não terá mais nenhuma oportunidade de causar-nos problemas. Vá para seu lugar e descubra qual foi o dano que produziu.
Chellich obedeceu. Enquanto caminhava em direção à poltrona do piloto, olhou para o relógio. Ficara deitado durante três horas, inconsciente ou dormindo. Mas, ao que tudo indicava, essas três horas não foram suficientes para que as naves empenhadas na operação de vasculhamento localizassem a gazela perdida.
Sentiu uma tensão que, só com grande dificuldade, conseguiu ocultar ao sentar-se à frente do painel, a fim de fazer os preparativos para a transição. Só sabia que comprimira dois botões na seqüência errada. Não tinha a menor idéia das avarias que poderia ter causado. Nem sequer tinha certeza sobre se houvera alguma avaria.
Porém, de uma coisa tinha certeza: o sistema de regulagem era um mecanismo extremamente complicado. Não se tratava de um aparelho de rádio, no qual se podem realizar manipulações contraditórias sem produzir o menor dano. Caso o sistema de regulagem fosse manipulado de forma a contrariar as normas, alguma coisa se estragaria.
Restava saber o que ficara estragado.
Enquanto Chellich fez o teste geral, suas mãos tremiam. As luzes do pequeno painel luminoso, que eram mais de duzentas, acenderam-se, mostrando que até lá tudo estava em ordem.
Mas duas luzinhas permaneceram apagadas. Chellich leu os pequenos letreiros existentes embaixo das lâmpadas: Distribuidor no 255, Ponto de Controle XVII e indutividade 15 microhenry S-Compensador.
Suspirou aliviado — muito discretamente, para que ninguém o ouvisse. Seu plano fora bem sucedido. Os reparos apenas demorariam uma hora e meia, talvez menos. Suttney não desconfiaria de que apenas pretendia ganhar tempo. E, principalmente, o distribuidor 255 e a espula inutilizada com a indutividade 15 microhenry ficavam no mesmo compartimento em que estava instalado o neutralizador de vibrações.
— Então, o que foi? — perguntou Suttney.
Chellich apontou para as lâmpadas de controle que estavam apagadas.
— Um distribuidor e uma espula estão estragados.
— São difíceis de reparar?
— A espula nem pode ser reparada. Os reparos do distribuidor deverão durar umas duas horas.
Suttney arregalou os olhos.
— Então o senhor quer dizer que, uma vez que a espula não pode ser reparada, não poderemos sair mais do lugar?
Chellich sorriu e sacudiu a cabeça.
— Não, não é isso que eu quero dizer. A espula é fabricada com metal volatilizado. Logo, não pode ser reparada. Mas pode ser substituída. Temos muitas espulas no depósito de peças sobressalentes, se é que o senhor por acaso não as jogou fora.
Suttney lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Pare de fazer piadas — disse em tom áspero. — Quanto tempo durarão os reparos?
— Já disse que são duas horas — respondeu Chellich.
— E a espula?
— Precisarei de dois minutos para procurá-la no depósito e de um minuto para colocá-la.
— Muito bem. Ponha-se a trabalhar. Precisa de ferramentas?
— Preciso de várias — disse Chellich com um sorriso.
— Pois vá procurá-las. E não acredite que poderá atrapalhar-nos mais uma vez. Ronson vigiará seu trabalho. Ronson, vá com ele.
— Será um prazer — disse Lauer.
Uma vez no depósito de ferramentas, Chellich pegou alguns instrumentos de medição, entre eles um oscilógrafo, que entregou a Lauer para que este o carregasse, um pequeno aparelho automático de solda, um sortimento de fios, pinças e material de solda e outras coisas. Enquanto procurava aquilo que precisaria, procedia lenta e tranqüilamente. Não estava interessado em que os reparos fossem concluídos muito depressa.
No depósito de peças sobressalentes, Chellich foi pegar apenas uma espula, igual à avariada, e alguns elementos de ligação que seriam utilizados no reparo do distribuidor.
Abriu a escotilha que dava do corredor para o poço e desceu a escada. Ronson seguiu-o a uma distância de cinco degraus. Deixou a escotilha bem aberta.
Pela parede do poço corria grande quantidade de fios. De repente Chellich, que ainda não sabia como levar avante o resto de seu plano sem que Lauer o percebesse, teve uma idéia. A maior parte dos fios era formada por condutores de corrente contínua de tensão superior a dois mil volts. Se conseguisse fazer com que Lauer encostasse o dedo a um ponto não isolado...
A escada terminava sete metros abaixo da escotilha. Daqui em diante, o poço transformou-se numa galeria que corria em sentido horizontal, em relação ao envoltório da nave. Chellich parou por um instante sob a escada. Viu a pequena caixa negra onde se encontrava o distribuidor e procurou localizar o lugar em que se achava a espula queimada. Viu o cilindro fino e reluzente do neutralizador de vibrações, que, na verdade, constituía o objeto do seu interesse. O neutralizador ficava a apenas meio metro da caixa do distribuidor.
— Vá andando! — ordenou Lauer em tom nervoso.
Chellich obedeceu. Passou pelo distribuidor e colocou a bolsa de plástico com as ferramentas e peças sobressalentes entre este e o cilindro do neutralizador.
— Tenho de trabalhar aqui, ali e lá — disse em tom solícito a Lauer, apontando para o distribuidor, para certo ponto situado nas proximidades do neutralizador e para o lugar em que supunha estar a espula. — Acomode-se; procure um lugar que lhe permita ficar de olho em mim.
Ronson Lauer fitou-o com uma expressão de surpresa, mas quando descobriu que Chellich estava escarnecendo dele, seu rosto ficou rubro de raiva. Via-se que precisava esforçar-se para não perder o autocontrole.
Chellich começou a tirar as ferramentas. Sem que Lauer o percebesse, prestou atenção ao lugar em que se acomodava. Empurrara o oscilógrafo a um metro de distância e mantinha-se sentado no chão com as pernas bem afastadas. Segurava a pistola.
A primeira coisa feita por Chellich foi deixar descoberto um dos fios isolados assinalados em vermelho. Trabalhava com um alicate de segurança e procedia com tamanha despreocupação que Lauer nem poderia desconfiar de que estivesse mexendo num fio de alta-tensão. O resultado deixou-o satisfeito. Removeu dez centímetros do isolamento de um cabo da grossura de um dedo. No momento apropriado bastaria cortar o fio com um alicate e encostar a extremidade, não isolada, a um lugar do qual a corrente pudesse propagar-se até Lauer.
Retirou o estojo do distribuidor. Percebeu imediatamente o que havia acontecido. Em nenhum ponto do sistema de distribuição, o oscilógrafo indicava qualquer impulso ou sinal de tensão elétrica. No momento em que a espula se volatilizou, o distribuidor fechou a corrente, servindo de chave de segurança. Três soldas haviam sido arrancadas e, ao que parecia, uma das minúsculas válvulas não funcionava mais. Chellich pôs-se a trabalhar. Voltou a firmar as soldas, retirou a válvula e substituiu-a por uma pequena resistência. Realizou mais um ensaio e verificou que o distribuidor ainda não estava funcionando.
Gunter Chellich não teve outra alternativa senão examinar ponto por ponto todos os circuitos do distribuidor.
O tempo foi passando.
Chellich virava a cabeça para olhar Lauer, que parecia não se sentir muito à vontade. Por várias vezes viu-o olhar para trás, mas sempre se assustava e voltava a virar o rosto em direção de Chellich, como se, só então, se lembrasse de que não deveria tirar os olhos do mesmo por um segundo sequer.
Mas não fez aquilo que Chellich estava esperando; nunca encostou a pele a qualquer peça de metal.
Chellich viu que, próximo de Lauer, um tubo solitário do sistema de refrigeração atravessava o poço na vertical. Era feito de metal plastificado não revestido, motivo por que podia ser considerado um excelente condutor de eletricidade. Quem dera que Lauer pegasse esse tubo uma única vez que fosse... Havia uma travessa metálica que ligava o tubo à parede e se estendia até perto do distribuidor no qual Chellich estava trabalhando.
Chellich começou a impacientar-se. Quarenta e cinco minutos já se haviam passado. Resolveu pensar em outro plano, a não ser que, nos trinta minutos seguintes, Lauer pusesse a mão no duto de refrigeração.
Prosseguiu nos trabalhos de reparo do distribuidor. O pensamento de que esta seria sua última chance não lhe saía da cabeça. Estaria perdido se não se aproveitasse da mesma. E, pior que isso, se o computador-regente de Árcon descobrisse a posição da Terra, ninguém conseguiria impedir a guerra galáctica.
Começou a suar e, no seu íntimo, começou a praguejar contra Ronson Lauer. Passou a olhar para este com uma freqüência cada vez maior, até que Lauer o notasse e o advertisse:
— Fique com a cabeça virada para a frente. Estamos com pressa. Se olhar mais uma vez para trás, atirarei.
— Não diga — retrucou Chellich com uma risada contrariada. — Quer que o tiro derreta alguns fios lá atrás, não é? Se isso acontecer, o senhor terá de procurar um meio de arranjar-se.
A desconfiança de Ronson Lauer, sempre presente, manifestou-se imediatamente.
— Então quer se prevalecer disso? — gritou em tom furioso. — Acha que não atirarei, com medo de danificar alguma coisa? Espere, que eu lhe mostrarei o que sei fazer.
Subitamente a chance veio!
Ronson Lauer levantou-se. Mantinha a pistola térmica apontada para baixo. Procurava um lugar do qual pudesse atirar contra Chellich, sem danificar qualquer fio.
Não foi muito fácil levantar-se. Lauer segurou o tubo, levantou-se e, mesmo quando já se encontrava de pé, não o soltou.
Chellich gritou.
— Não! Não atire!
Na verdade sua voz vibrava de triunfo. Enquanto Lauer fazia pontaria com o máximo cuidado, Chellich arrastou-se para o lado e, com um único movimento do alicate Isolado, cortou o fio do qual removera um tanto do isolamento. Segurou a parte isolada do fio e saltou para trás do distribuidor. Lauer perturbou-se. O cano da pistola acompanhou o alvo. Mas, de repente, o distribuidor se interpunha na trajetória de tiro. Por maior que fosse a raiva de Lauer, não se esquecia de que estaria perdido se destruísse um dos aparelhos vitais da nave.
Hesitou, e esta foi a chance de Gunter Chellich.
Num movimento rápido, mas cauteloso, fez avançar a mão que agarrava o fio e encostou a extremidade desguarnecida contra a travessa lateral que segurava o tubo.
No mesmo instante, Lauer soltou um grito selvagem e apavorado. Continuou a gritar até que Chellich tirasse o fio da peça metálica.
Depois Ronson Lauer caiu ao chão, desmaiado.
Chellich só esperou meio segundo. Num movimento seguro voltou a colocar o fio no lugar do qual o mesmo fora tirado. A seguir, passou a trabalhar no neutralizador de freqüência.
Soltou os fios de entrada e de saída, ligou-os aos contatos por outro pedaço de fio, cortou este ao meio e colocou uma resistência que devia ter o tamanho aproximado da resistência interna do neutralizador.
Depois passou o novo fio por cima do neutralizador e escondeu-o na parede.
Esse trabalho levou menos de um minuto. Assim que terminou, voltou a sentar-se e procurou aguçar o ouvido.
Esperara que o grito de Ronson Lauer fosse ouvido na sala de comando, e que Suttney não demorasse a aparecer na escotilha. Mas, por enquanto, nada disso havia acontecido.
Chellich forçou o ouvido ao máximo, porém não conseguiu escutar nada.
Com movimentos rápidos, mas cuidadosos, Chellich ligou as duas pontas do fio de alta-tensão por meio de uma peça flexível de metal plastificado. Depois voltou a colocar o isolamento, que apenas havia sido empurrado para cima. Quando terminou o trabalho, certificou-se de que ninguém perceberia nada, a não ser se soubessem haver algo a ser procurado nesse fio.
Ronson Lauer continuava inconsciente.
Chellich passou por cima do corpo imobilizado e subiu pela escada. Gritava ininterruptamente:
— Ei, Suttney, Roane! Lauer desmaiou.
Ninguém ouviu seus gritos. Saiu pela escotilha e dirigiu-se ao corredor principal. Correu em direção à sala de comando, sempre gritando. A escotilha estava fechada, mas abriu-se assim que Chellich se aproximou. Viu Suttney ocupado em renovar as ataduras do rosto de Roane.
— Santo Deus, será que todos ficaram surdos? — gritou Chellich esbaforido. — Lauer desmaiou. Deve ter encostado em algum fio de alta-tensão. Ajudem-me!
Walter Suttney lançou-lhe um olhar desconfiado.
— O senhor tem certeza de não ter mexido na alta-tensão, para que Lauer levasse um choque? — perguntou.
Com muita habilidade, Chellich se fez de perplexo.
— Nunca poderia fazer uma coisa dessas — afirmou, ainda fungando. — O senhor acha que eu disse a Lauer: prezado Ronson, encoste o dedo aqui?

* * *

Horace O. Mullon encontrava-se numa espécie de transe. Sua consciência já não controlava os movimentos do corpo. Agia inconscientemente, manipulando os controles pela forma que aprendera, sem pensar a respeito.
Em quatro dias dormiu apenas cinco horas. Além disso, comera pouco. O corpo recorria às últimas reservas de energia.
De qualquer maneira, deixaram-no à vontade. Afinal, era ele mesmo quem desejava continuar no posto.
Lidava com o goniômetro de compensação. Ou melhor, lidava com a antena do goniômetro, que efetuava uma rotação lenta, a cada quinze minutos, vasculhando todos os ângulos do espaço. Sabia como funcionava a antena. Haviam-no esclarecido a este respeito.
O campo energético de vibrações, captado pela antena, se propagava na quinta dimensão.
Horace O. Mullon já havia permanecido dez horas na frente da tela, sem que acontecesse coisa alguma. O vidro fosco verde com os numerosos sistemas de coordenadas que se encontrava à sua frente estava apagado. Vez por outra, com um intervalo de alguns minutos, surgia uma minúscula fagulha, que logo se apagava. Mullon sabia se tratar de interferências cósmicas.
No entanto, o ângulo fortemente iluminado, que surgiu de repente diante de seus olhos, representava um sinal!
No mesmo instante, Mullon despertou do transe. Viu que o ângulo não avançava até a extremidade superior da tela. Sem olhar bateu no botão que colocaria a antena na posição correta. O ângulo empalideceu e foi desaparecendo. Mas, dali a alguns segundos, apareceu de novo. Era mais luminoso que antes e tão grande que abrangia toda a extensão da tela.
— Localização! — gritou Mullon com a voz rouca. — Localização no goniômetro de compensação! Nós a encontramos!
Depois tombou, caindo no chão, onde permaneceu imóvel.


4



No dia 10 de outubro de 2.042, o jornal Terrânia Daily News publicou a seguinte notícia:

Quase todas as unidades da Frota Espacial Terrana reuniram-se nas proximidades do centro da Via Láctea, onde realizarão uma manobra de grandes proporções. Essa manobra servirá para testar o ânimo de luta da frota. Na opinião do almirantado, essa missão reveste-se da maior importância, uma vez que se trata da primeira manobra de que participa toda a frota. Na operação será experimentada especialmente a cooperação entre as naves de guerra e as de aprovisionamento. Continuamos a postos e dentro de poucos dias traremos novas informações aos leitores.

No dia seguinte o jornal Terrânia Times manifestou-se:

Em vez de noticiar a manobra, que pouco interessa aos civis, o Ministério das Informações e Opinião Pública devia dispor-se a dizer alguma coisa sobre o desaparecimento da gazela e dos três desertores. Todos compreenderiam se, neste meio tempo, a frota desistisse de perseguir os fugitivos. Seria uma decisão perfeitamente razoável face à reduzida importância de que, segundo tudo indica, se reveste o acontecimento. Por isso não se justifica que o seqüestro continue envolvido no véu do mistério.

* * *


Tudo correu bem. Ronson Lauer foi encontrado no momento em que estava recuperando os sentidos. Felizmente não guardava a menor lembrança do que acontecera no momento do desmaio. Naturalmente esforçou-se para pôr toda a culpa em Chellich. Mas este permaneceu fiel à verdade. Disse que Lauer quis atirar contra ele, motivo por que resolveu abrigar-se. Suttney parecia dar mais crédito a seu relato que às acusações furiosas de Lauer. É bem verdade que não o deixou perceber. Em virtude do nervosismo, Ronson Lauer começou a sentir-se mal. Suttney e Chellich levaram-no para cima e foram a um camarote, onde o puseram na cama.

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