sábado, 7 de setembro de 2013

P-073 - Os Três Desertores - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Um oficial da Força Espacial
Terrana é seqüestrado...



Oito mil terranos vivem em Fera Cinzenta, planeta do sistema Mirta. São degredados políticos que, sob a direção de Horace O. Mullon, conseguiram provar, após uma série de dificuldades, que, mesmo em condições adversas, estão aptos a sobreviver como colonos livres.
Acontece, porém, que os cálculos matemáticos revelam que, dentro de dez meses, o sistema Mirta sofrerá a superposição do outro plano temporal. Parte dos colonos é evacuada para Vênus, enquanto a outra passa a trabalhar na nova base espacial de Fera Cinzenta.
Entretanto, quando da seleção, os recrutadores falham...
E Os Três Desertores iniciam uma empresa sinistra...




= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

Perry RhodanQue mantém de prontidão 3.000 naves de sua frota solar.

Primeiro-Tenente ChellichQue merece ganhar o cometa azul.

Horace O. MullonQue só acorda quando a crise já passou.

Walter Suttney, Ronson Lauer e Oliver RoaneCuja deserção leva a Galáxia à beira da guerra total.


1



Terrânia Daily News, um jornal publicado pelo Ministério das Informações e Opinião Pública, publicou em sua edição de 3 de outubro de 2.042 a seguinte notícia:

Em Mirta VII, a mais nova das bases espaciais da frota espacial terrana, três desertores conseguiram fugir a bordo de uma nave de reconhecimento de longo alcance do tipo gazela. Os desertores saíram do sistema de Mirta, com destino ignorado. Extensas operações de busca estão em andamento.
É provável que a bordo da nave de reconhecimento se encontre, além dos desertores, o Primeiro-Tenente Chellich, cujo nome apareceu, recentemente, no noticiário relativo às ações de defesa levadas a efeito contra as agressões de uma raça humanóide que vive em Mirta XII. Supõe-se que o Primeiro-Tenente Chellich tenha sido obrigado a pilotar a nave.
Segundo informa o comando da frota, o incidente não assume maior importância. Nem o banco de dados da gazela, nem o Primeiro-Tenente Chellich ou qualquer dos desertores possuem informações que possam tornar-se importantes para nosso sistema de defesa.

* * *

Gunter Chellich teve um pesadelo. Virou-se de um lado para outro, começou a transpirar e, finalmente, ergueu o corpo e arregalou os olhos. Deparou-se com um cano de pistola.
De início acreditou que o quadro pertencesse ao sonho. Mas os olhos logo se adaptaram e penetraram na penumbra, enxergando o que havia no camarote, atrás da pistola.
Havia uma mão peluda, que segurava firmemente a arma, a mão pertencia a um braço e este, na perspectiva de Chellich, atingia uma altura espantosa e terminava num ombro que parecia pertencer ao corpo de um campeão de luta livre. O rosto do homem estava praticamente invisível sob a luz difusa da lâmpada negra. Mas pela largura dos ombros, Chellich concluiu que aquele homem não poderia ser outro senão Roane.
Oliver Roane era um dos colonos recentemente admitidos nos quadros da frota. Chellich perguntou a si mesmo quais seriam as intenções de Roane.
Penetrar numa gazela no meio da noite e despertar seu único ocupante com uma pistola de radiações não poderia ser uma simples brincadeira. Mas antes que Gunter Chellich pudesse concluir suas reflexões, Roane gritou:
— Levante! Vamos logo! Não temos tempo a perder. E não faça tolices. Acho que o senhor não tem dúvidas de que sei lidar com a pistola.
Sim, Chellich tinha plena certeza de que Roane sabia. Gemeu e sentou-se na beirada do leito. Espiou para cima pelo canto dos olhos.
Ainda sonolento, colocou os pés no chão e fez menção de levantar-se. Seus movimentos eram lentos e desajeitados, como os de um homem que ainda não conseguira adaptar-se a uma nova realidade. Por isso o robusto Roane experimentou uma surpresa total quando Chellich saltou que nem uma flecha. Seu ombro esquerdo atingiu a mão direita de Roane. Este soltou um grito de raiva e surpresa, e largou a pistola.
Chellich ouviu-a cair ruidosamente ao chão e sentiu que poderia vencê-lo.
Roane era muito mais forte que ele. Mas foi pego de surpresa e, além disso, Chellich havia recebido o treinamento duro da frota. Golpeou com o punho e atingiu o pescoço de Roane. Este cambaleou para trás e emitiu um gemido. Chellich seguiu-o imediatamente. Ouviu Roane bater com as costas contra a parede. Saltou com as duas pernas ao mesmo tempo, estendeu ambos os punhos e bateu violentamente no estômago de Roane.
Chellich ouviu-o “grasnar” e viu seu corpo tombar para a esquerda. Esbaforido, parou para verificar se Roane realmente estava liquidado, ou se apenas estava usando um truque. Mas antes que tivesse tempo de fazer a verificação, alguma coisa explodiu com uma forte luminosidade e de forma totalmente imprevista bem no seu cérebro.
Nem sentiu seu corpo bater com violência no chão.

* * *

— Que idiota! — ouviu alguém dizer quando recuperava os sentidos.
Embora a dor de cabeça martirizante tivesse afetado sua capacidade de raciocinar, compreendeu que se referiam a ele.
A voz que acabara de ouvir era de Roane. Uma segunda voz respondeu:
— A coisa poderia ter acabado mal se eu não tivesse aparecido tão depressa. Tomara que logo volte a si. Não podemos ficar aqui até que o dia amanheça. O sol deverá nascer daqui a uma hora e meia, o mais tardar.
Então foi isso! Enquanto liquidava Roane, o outro se aproximou de trás e me deu o golpe. Quem será?”, pensou.
Chellich teve a impressão de já ter ouvido aquela voz. Mas não soube associá-la ao rosto. Abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi Oliver Roane, que estava de costas para ele. Chellich achava-se deitado novamente na cama em que dormia quando Roane o atacou.
Não conseguiu ver o outro homem. Estava encoberto pela figura de Roane. Alguém acendera a luz. Chellich arriscou um ligeiro olhar para o lado e viu que no camarote tudo estava em ordem. Concluiu que Roane e seu cúmplice não haviam vindo para roubar alguma coisa.
Por que vieram então?”, indagou-se.
Gunter Chellich rememorou os fatos.
Há algumas semanas, uma vez superada a ventura dos peepsies, o Tenente Sikermann pousara com três cruzadores da frota espacial em Fera Cinzenta, ou melhor, Mirta VII. Explicou aos oito mil colonos que, por motivos de suma gravidade, Mirta VII passava a ser uma base da frota espacial terrana.
Aos colonos, condenados em processo regular à pena de degredo, em virtude de suas atividades revolucionárias, foi facultada a residência em Vênus, ou seja, nas imediações da Terra. A maioria aceitou e foi levada a Vênus, para o que teve de percorrer distância superior a seis mil anos-luz. Menos de mil continuaram em Fera Cinzenta. Tratava-se de técnicos e pessoas selecionadas, das quais se poderia supor que há muito deixaram de sentir a antiga insatisfação com o regime do administrador.
Essas pessoas foram incluídas nos quadros da Frota Espacial. O juramento fora prestado há poucos dias.
O próprio Chellich assumira o comando da gazela na qual viera meses depois, sob o comando do Capitão Blailey, a fim de controlar o desenvolvimento da colônia. Atualmente Blailey comandava uma esquadrilha de naves de reconhecimento estacionadas em Fera Cinzenta.
Os tripulantes costumavam passar as noites nos alojamentos recém-construídos. A bordo de todo veículo espacial que não fosse maior que uma gazela permanecia sempre um único homem.
Chellich lembrou-se disso com certa amargura, enquanto refletia para descobrir quem poderia trazer-lhe auxílio. Naturalmente os alojamentos não ficavam longe; os tripulantes poderiam chegar às suas unidades numa questão de segundos. Se conseguisse dar o alarma, estaria salvo. Acontecia, porém, que Roane e seu companheiro, fosse ele quem fosse, não lhe dariam oportunidade para isso.
Virou para o lado. Pelo ruído Roane percebeu que sua vítima acabara de recuperar os sentidos. Olhou para trás; com isso Chellich pôde ver seu companheiro. Era Suttney. Chellich sabia que Suttney era um dos homens que, há alguns meses, sob a direção de Hollander, procuraram semear a discórdia entre os colonos. Hollander fora condenado à morte. Os membros do bando, privados de seu líder, voltaram a integrar-se na comunidade colonial.
A presença de Suttney dava outro aspecto à coisa. Chellich sabia que não poderia esperar nada de bom de um ex-adepto de Hollander, pois ele mesmo tivera participação destacada na caçada que Hollander e seu bando fizeram para aniquilar Mullon.
Roane voltou a apontar a pistola. Assim que viu Chellich com os olhos abertos, recuou dois passos e apontou a arma para o peito do tenente.
— O senhor ainda pagará por isso! — gritou para o prisioneiro. — Mas não será agora. Temos muito tempo.
Chellich ergueu-se sobre os cotovelos.
— Há poucos dias o senhor não prestou um juramento? — perguntou, e ficou admirado ao notar que seu crânio dolorido quase não suportava o trovejar causado pela voz. — Isso quer dizer que o senhor está submetido às leis de guerra. Se o pegarem, Roane, será fuzilado.
Oliver Roane não era um homem que soubesse pensar depressa e por isso não pôde responder logo. Era apenas força física. Ao reconhecer Suttney, Chellich já se admirara por que Roane fora encarregado de lidar com ele. Suttney afastou-se para o lado, a fim de que Chellich pudesse vê-lo melhor, e disse:
— Não pretendemos deixar que nos peguem. E o senhor nos ajudará para que isso não aconteça.
— O que pretendem fazer? — perguntou Chellich em tom de espanto.
— Não acho que lhe devemos contar isso — respondeu Suttney em tom frio. — O que lhe interessa é fazer o que lhe é mandado. Caso não obedeça será incomodado.
Fitou Chellich por algum tempo, como se quisesse observar o efeito de suas palavras. Depois fez um gesto enérgico.
— Levante e venha comigo!
Chellich não viu nenhum motivo para não acatar a ordem. Levantou-se e praguejou contra a dor de cabeça. Suttney abriu a escotilha e saiu para o corredor. Chellich seguiu-o, e, por sua vez, foi seguido por Roane, que mantinha a pistola apontada para suas costas.
Suttney dirigiu-se à sala de comando. Ao primeiro relance de olhos, Chellich notou que os conjuntos principais da gazela estavam todos ligados. Aos poucos começou a desconfiar daquilo que Roane e Suttney queriam dele, mas ainda não saberia dizer com certeza o que tinham em vista.
Suttney parou ao lado da poltrona do piloto.
— Acho que não preciso dizer o que esperamos do senhor — disse. — Quando estivermos no espaço, continuaremos a conversar.
Chellich gritou em tom furioso:
— Nem penso nisso...
No mesmo instante levou uma pancada. Foi atingido na metade traseira do crânio, que já zumbia de dor. Por alguns segundos tudo ficou escuro à sua frente. Quando recuperou os sentidos, estava deitado perto da poltrona do piloto.
Roane fitava-o com uma expressão de escárnio.
— Se quiser outra dose, fique à vontade — disse.
Chellich reprimiu a vontade de levantar-se e saltar sobre Roane. Seria uma insensatez avançar contra uma pistola destravada.
— Então? — perguntou Suttney.
— O senhor está louco! — gritou Chellich. — Sabe lá o que acontecerá, se eu decolar agora? Dentro de dois ou três minutos, toda a frota estacionada em Fera Cinzenta estará no nosso encalço. Ou será que os senhores pretendem solicitar permissão de decolar segundo todas as regras?
Levantou-se e viu que o rosto de Suttney endurecera.
— Com isso não se deve brincar — disse baixinho e em tom de ameaça. — O senhor sabe perfeitamente quais são as potencialidades desta nave. Poderá perfeitamente realizar uma decolagem-relâmpago e passar à transição dentro de um minuto no máximo. Não procure contar lorotas. Sei o que uma gazela pode fazer.
Está bem”, pensou Chellich furioso. “Você sabe o que a gazela pode fazer... Sei perfeitamente que nunca fui um soldado-modelo, pois do contrário já seria capitão ou algo mais. Mas você não poderá fazer isso comigo, Suttney.”
Dirigiu-se à poltrona do piloto e sentou-se. Sentia-se mal, mas não tão mal que não pudesse rebelar-se contra a insolência de Suttney.
— Para onde vamos? — perguntou em tom contrariado. — Se quiser que eu faça uma transição, preciso saber para onde.
— Isso não é necessário — respondeu Suttney prontamente. — Poderemos levar avante nossos planos em qualquer ponto da Galáxia. Saia voando e tome cuidado para que o vôo não o leve até Andrômeda. É só!
Chellich refletiu. Fez um gesto afirmativo.
— Seja o que o senhor quiser. A responsabilidade será exclusivamente sua.
— Deixe isso por minha conta — respondeu Suttney numa ironia mordaz.
Chellich passou a mexer-se devagar. Estendeu a mão para comprimir um botão, mas parou a meio caminho, recuou com a mão, colocou-a na cabeça e soltou um gemido. Ficou engolindo em seco, como se sentisse náuseas e, com isso, foi ganhando tempo.
Levou noventa segundos para realizar as verificações de rotina. Nesses noventa segundos concebeu mil idéias, abandonou-as, concebeu mais quinhentas. Logo percebeu que nenhuma delas prestava. Não lhe ocorreu qualquer truque a que pudesse recorrer. Qualquer coisa que fizesse envolvia um risco mortal para ele. Assim que se deu conta disso, não teve mais a menor dúvida em assumir esse risco.
Restava saber se Suttney conhecia a finalidade de determinado botão, que se encontrava no grande painel. Esse botão não trazia qualquer indicação. Em compensação era grande e vermelho. Qualquer pessoa que estivesse sentada, uma única vez que fosse, diante do painel de uma gazela, não poderia deixar de conhecer as funções que desempenhava. Esse botão desencadeava o alarma na nave.
Enquanto o veículo estivesse estacionado no campo de pouso, esse alarma estava acoplado às instalações de superfície. Quando muito, vinte segundos se passariam desde o momento em que Chellich comprimisse esse botão até o momento em que o campo de pouso enxameasse de tropas. Depois já não haveria a menor possibilidade de decolar; Suttney e Roane acabariam presos.
Gunter Chellich tinha suas dúvidas. Talvez num caso desses preferissem matar seu prisioneiro e se suicidarem. Era um risco que teria de assumir.
O botão ficava na parte superior do quadro de comando. Fora instalado nessa posição para que ninguém pudesse tocá-lo por engano. Chellich teria de inclinar-se bem para a frente se quisesse atingi-lo. Preferiu não fazer isso de repente. Não precisava olhar para trás para saber que Roane continuava vigiando-o, ameaçando-o com a pistola.
Moveu uma série de chaves que ficavam pouco abaixo do botão de alarma. Por enquanto essas chaves não desempenhavam nenhuma função, porque os respectivos conjuntos ainda não haviam sido colocados em movimento. Sua mão foi subindo, e teve de inclinar o corpo cada vez mais para a frente.
Não se atreveu a olhar para trás. Se o fizesse, poderiam notar sua insegurança.
Fez uma pausa, fingindo que a dor de cabeça voltara a aumentar, e aguçou o ouvido. Nada se movia atrás dele. A única coisa que ouviu foi a respiração forte de Roane.
Recostou-se na poltrona, a fim de ganhar mais algum tempo. Pela última vez trabalhara na parte superior do painel. Por isso ninguém desconfiaria se voltasse a inclinar-se para a frente. Inclinou o corpo depois de ter respirado profundamente, moveu mais algumas chaves e, de súbito, fez a mão avançar.
O que se seguiu foi tão rápido que mais tarde não saberia distinguir a seqüência dos fatos. Uma dor cruciante atingiu sua mão antes que esta tocasse o botão de alarma. Depois ouviu um chiado na parte da parede mais próxima ao painel. Viu que da mesma saíam bolhas. Alguns pingos de metal plastificado caíram e endureceram antes que chegassem ao painel.
Chellich notou tudo isso com uma nitidez de sonâmbulo, pois a tremenda dor que sentia na mão começava a obscurecer-lhe a consciência. Compreendeu que Suttney percebera sua intenção e atirara contra seus dedos no momento em que pretendera comprimir o botão de alarma. A depressão e a raiva causadas pelo fracasso do plano não foram menos insuportáveis que a dor. Por alguns instantes, Chellich mergulhou numa espécie de penumbra, mas logo foi arrancado do torpor pela voz penetrante de Suttney.
— Chellich, o senhor vê que não estamos brincando! Comece a trabalhar e faça o que mandarmos.
Chellich desistiu em definitivo de qualquer resistência.
Já realizara tantas vezes os preparativos para a decolagem da gazela que até seria capaz de executá-los dormindo. Não teve necessidade de refletir sobre o que quer que fosse, e isso o deixou satisfeito. Seu cérebro estava repleto de vergonha pela derrota que acabara de sofrer e de raiva contra Suttney e Roane.
Colocou os mecanismos no desempenho máximo e reclinou-se com um gemido. Reconheceu que realmente perdera o jogo. Não havia dúvida de que a gazela estaria em condições de decolar sem que ninguém pudesse segui-la ou derrubá-la.
Suttney tinha razão: depois de acelerar ao máximo durante quarenta segundos, poderiam arriscar o hipersalto. E o veículo espacial estava equipado não apenas com os compensadores estruturais, mas também com os novos neutralizadores de vibrações, motivo por que nem mesmo durante a transição sua posição poderia ser determinada.
Quer dizer que o jogo estava perdido. Estaria mesmo?
Subitamente Gunter Chellich teve outra idéia. Era possível que Suttney e Roane entendessem alguma coisa das instalações técnicas de uma gazela, mas tinha certeza de que não entendiam nada de Galatonáutica. Não saberiam distinguir em que direção a gazela se deslocava. Talvez conseguisse levar o veículo espacial para uma rota de tráfego denso. E, quando as naves da Frota Espacial enchessem o espaço, restaria saber se Suttney e Roane não prefeririam ser presos a verem sua nave derrubada por um disparo de desintegrador pesado.
Não havia dúvida. As coisas poderiam ser arranjadas dessa maneira. Entre os homens incorporados à Frota Espacial havia um único que entendia de Galatonáutica. Era Ronson Lauer. Não se encontrava a bordo, embora, numa visão retrospectiva, Chellich o julgasse perfeitamente capaz de se associar a Suttney e Roane, se conhecesse os planos dos mesmos.
Mas o que importava era que Lauer não se encontrava a bordo. Chellich saberia enganar Suttney e Roane a qualquer hora do dia, em relação ao que dissesse respeito à rota da gazela.
A idéia deu-lhe novo ânimo.
Virou a cabeça.
— Podem sentar — disse, dirigindo-se a Suttney e Roane. — Vou decolar.
— Por quê? — perguntou Suttney em tom de espanto. — Esta nave dispõe de neutralizadores de pressão. Quer dizer que não precisamos, não é mesmo?
Chellich ficou devendo a resposta. Seria inútil tentar convencê-los a fazerem qualquer coisa que os obrigasse a tirarem os olhos de cima dele.
Baixou a alavanca do acelerador. Levou-a cautelosamente à primeira posição e, na tela escura, viu que a gazela reagia prontamente. Depois abriu a mão e levou a alavanca até o fim.
No interior da nave não se sentia nada. Mas as telas iluminaram-se subitamente. Desenvolvendo uma aceleração que bastou para, com o impacto da nave, ionizar as moléculas de ar, a gazela disparou pelas camadas densas da atmosfera do planeta, deixando atrás de si uma cauda de fogo.
Chellich observou cuidadosamente os instrumentos. Viu que fora da nave a pressão do ar diminuía rapidamente; o indicador luminoso do velocímetro subia pela escala. Assim que chegou ao fim, a escala foi trocada. A velocidade foi indicada em outros termos, e o indicador luminoso voltou a deslocar-se para a direita, desta vez mais devagar.
À direita do velocímetro, um pequeno cronômetro tiquetaqueava, indicando o tempo decorrido desde o momento da decolagem. Em outro lugar havia um aparelho que, combinando com o velocímetro, com o indicador de aceleração e com o cronômetro, realizava a integração dos dados por via positrônica e, dessa forma, apurava o caminho percorrido desde a decolagem.
Depois de quarenta segundos de viagem, o trecho percorrido era pouco inferior a quatrocentos mil quilômetros. Acelerando ao máximo, a gazela percorrera em quarenta segundos uma distância superior à que separa a Terra da Lua.
Estava na hora da transição. Chellich não teve tempo para calcular os dados precisos para o salto. Programou o mecanismo propulsor para um salto de duzentos anos-luz. Por enquanto não fazia a menor idéia quanto ao lugar em que terminaria a transição. Mas não teria nenhuma dificuldade em orientar-se assim que a nave retornasse ao espaço normal. Dirigindo-se a Suttney, disse:
— Vou saltar.
Num movimento rápido comprimiu um botão e realizou o hipersalto. Sentiu a dor breve e lancinante provocada pela desmaterialização. Por uma fração de segundo teve a impressão de que alguém lhe cobria os olhos com a mão.
Quando voltou a enxergar, o quadro na tela estava completamente mudado. A névoa luminosa formada por bilhões de estrelas distantes não sofrerá maiores alterações, mas a constelação dos sóis mais próximos, que se destacavam como pérolas contra o fundo escuro, estava modificada. O salto fora bem sucedido, e, desse momento em diante, tanto em Fera Cinzenta como em qualquer outro lugar ninguém sabia onde fora parar a gazela roubada.
A tensão reinante nas últimas horas diminuiu. Chellich conseguiu responder com a maior tranqüilidade à pergunta de Suttney, que desejava saber onde estavam.
— Estamos a duzentos anos-luz de Fera Cinzenta; é a única coisa que sei.
Não custarei a descobrir o resto”, pensou. “Você deve achar que duzentos anos-luz é muito pouco, não é, Suttney? Por aqui ainda não se sente seguro. Faremos outro salto, mais um. Um salto que nos transporte por uma distância de seis mil anos-luz, por exemplo. E quero ver se você saberá interpretar meus cálculos para descobrir onde terminará esse salto. A matemática galáctica é muito complicada, Suttney. Você não entende nada de cálculo, não é? Eu lhe direi que o salto nos levará para o centro da Galáxia. E você vai acreditar! Mas, ao descobrir que o sol, que surgirá à nossa frente, é o nosso sol, o sol que ilumina o planeta Terra, você ficará boquiaberto...
De uma hora para outra, as dores causadas pelos golpes de Roane passaram. Sentiu-se forte e disposto. Queria levar Suttney ao lugar em que devia estar: nas celas do Serviço de Segurança. E isso, o quanto antes.
Ouviu Suttney dizer:
— Acho que duzentos anos-luz são pouco. Vamos fazer mais um salto, pois não quero correr nenhum risco. Mas antes disso, quero mostrar-lhe alguma coisa, pois não desejo que você se entregue a ilusões.
Chellich ficou surpreso. Levantou os olhos para Suttney, e este apontou para a escotilha de entrada. Chellich acompanhou o movimento da mão e viu a escotilha abrir-se. Ao ver o homem que entrava na sala de comando, arregalou os olhos.
A mente deixou de funcionar por alguns segundos. Quando voltou a ter consciência de si, sua boca estava seca como se tivesse feito uma caminhada de alguns dias pelo deserto.
O homem que apareceu na escotilha era Ronson Lauer, o elemento que tinha conhecimentos de Galatonáutica.

* * *

A história do planeta Fera Cinzenta era curta, mas movimentada.
Aquele mundo surgiu pela primeira vez nos anais da Astronáutica há dois anos, quando a nave, que deveria levar oito mil revolucionários condenados ao degredo para Rigel III, teve de realizar um pouso de emergência, em virtude de um motim promovido pelos colonos, do qual resultaram avarias graves nos mecanismos propulsores. Depois do pouso de emergência, a nave, denominada Adventurous, estava destroçada. A tripulação teve de ficar em Fera Cinzenta juntamente com os colonos.
De início estes tiveram problemas criados por eles mesmos. Eram divididos em dois grupos rivais. Um, o dos democratas autênticos, era comandado por Horace O. Mullon; o outro, o dos filósofos da natureza, obedecia ao comando de Walter S. Hollander. Logo se tornou evidente que este último aspirava ao poder pessoal e absoluto. Numa primeira arremetida conseguiu sobrepujar o grupo de Mullon. Mas este revidou o golpe, reconquistou a cidade de Greenwich, a única que haviam construído até então, e prendeu Hollander juntamente com seus adeptos.
Hollander foi condenado à morte, em obediência ao direito promulgado pela Assembléia Popular de Greenwich. Seus parceiros tiveram de cumprir penas de trabalhos forçados. Mas logo aconteceram certas coisas que fizeram com que a execução da pena se interrompesse e até mesmo se tornasse impossível.
Nesse meio tempo, Mullon e algumas pessoas dotadas de interesses científicos tinham descoberto que Fera Cinzenta era habitado por duas espécies orgânicas notáveis: os mungos, uma raça de macacos semi-inteligentes que viviam nas montanhas, e os anões azuis, que eram figuras completamente não-humanóides com o aspecto de “panos azuis”. Quando reunidos em grandes massas, possuíam extraordinárias faculdades parapsicológicas e paramecânicas. Graças à sua habilidade política, Mullon conseguiu transformar ambas as raças nativas em amigos dos colonos.
Depois de algum tempo, a desgraça veio de fora. No sistema de Mirta, que possuía um total de quarenta e nove planetas de todos os tipos e tamanhos, existia mais um mundo habitado por seres inteligentes. Era Mirta XII.
Tratava-se de um pequeno planeta semelhante a Marte, habitado por criaturas humanóides de configuração bastante estranha. O tamanho dos peepsies, nome que os colonos deram a esses seres, era de cerca de dois metros. Usavam uma língua composta de assobios, chilreios e chiados. Foi dali que proveio o nome de peepsie.
Uns três bilhões de seres dessa raça habitavam o respectivo mundo. Este tornou-se muito apertado para eles e, como dispusessem de uma tecnologia adequada, examinaram “os arredores” e foram parar em Fera Cinzenta. Os oito mil colonos foram subjugados. Não tinham meios de defender-se contra os peepsies. Estes obrigaram-nos a cultivar o solo e semear e colher uma quantidade x de cereais, utilizando as máquinas, que foram descarregadas da nave dos peepsies. Esta saiu de Fera Cinzenta, deixando para trás um contingente de guardas formado por duzentos peepsies, a fim de supervisionar o andamento dos trabalhos.
Um dos antigos adeptos de Hollander, de nome Pashen, aliara-se aos peepsies para alcançar vantagens pessoais.
Gunter Chellich unira-se aos colonos antes da morte de Hollander. Era tripulante de uma gazela que, por ordem de Rhodan, pousara às escondidas nas montanhas situadas a oeste de Greenwich. De início não revelou sua origem perante os colonos. Gunter descobriu que as máquinas agrícolas dos peepsies eram movidas por pequenos reatores. Mandou retirar alguns desses reatores e aproveitou o respectivo material físsil, para fabricar uma bomba atômica. Os duzentos guardas foram dominados e, dali a dois meses, quando a nave dos peepsies voltou, esta se desmanchou no cogumelo atômico da bomba detonada.
Chellich, que neste meio tempo já havia revelado sua identidade, não tinha a menor dúvida de que dia menos dia, uma força dos peepsies apareceria em Fera Cinzenta, a não ser que os colonos tomassem alguma providência. A nave auxiliar da Adventurous, que escapara relativamente bem ao pouso forçado da nave-mãe e podia perfeitamente realizar vôos de até quinhentos anos-luz, foi preparada para outra missão. Um grupo de treze pessoas pôs-se a caminho de Mirta XII e, uma vez lá, se fez passar por uma embaixada de um planeta distante chamado Aurigel.
Chellich soube lançar indícios que logo convenceram os peepsies de que a raça de Aurigel planejava um ataque contra Mirta XII e a submissão total dos peepsies. Estes dedicaram sua atenção ao novo problema e por algum tempo se esqueceram de Fera Cinzenta.
Ao que tudo indicava, o plano de Chellich fora bem sucedido. Mas, em virtude de uma série de coincidências infelizes, ele se viu desmascarado no último instante. Foi preso juntamente com os companheiros e sem dúvida não teriam escapado à morte se não tivesse surgido outro milagre.
O milagre consistiu na chegada de três cruzadores da Frota Espacial Terrana, sob o comando do Tenente Sikermann. Os cientistas terranos haviam descoberto que, nos próximos dez meses, deveria ocorrer no sistema de Mirta um fenômeno de superposição de dois planos temporais diferentes, do mesmo tipo que ocorrera pela primeira vez no ano de 2.040, no sistema de Mirsal. Nesta ocasião Perry Rhodan se viu numa situação extremamente difícil. Face a isso, tornou-se necessário transformar Fera Cinzenta numa base da frota terrana, o que permitiria a adoção de providências para a penetração em grande escala na outra dimensão temporal.
Sikermann estava bem informado sobre a situação política do sistema de Mirta. Só disporia de tempo e calma para instalar a base de Fera Cinzenta, se conseguisse intimidar os peepsies. Atingiu esse objetivo por meio de uma demonstração bastante convincente do poder terrano. Assim Chellich e seus companheiros foram libertados e puderam regressar a Fera Cinzenta. O perigo fora afastado. Acontece que Fera Cinzenta deixara de ser uma “colônia livre”. A Terra acabara de pôr as mãos no planeta.
Nas semanas seguintes, verificou-se uma atividade extraordinária. As frotas de naves de transporte trouxeram o material necessário à construção da base. Uma comissão de juristas apareceu no planeta e apresentou uma oferta aos colonos: estes poderiam fixar-se em Vênus, nas proximidades da Terra. Os colonos aceitaram. Aqueles que tiveram participação proeminente nos crimes de Hollander, entre eles Pashen e Prominstester, voltaram a ser presos e foram submetidos a julgamento. O transporte dos restantes foi uma questão de dias. Nenhuma medida foi tomada contra os simples participantes.
Pouco menos de mil colonos, pertencentes ao grupo que antigamente se denominara de Associação dos Colonos Livres, permanecera em Fera Cinzenta. Alguém sugeriu que estes colonos, dotados de capacidades especializadas, fossem admitidos na frota. Os colonos concordaram, e o resto foi apenas uma formalidade. A nova base conseguira suas próprias guarnições.
Depois de algum tempo, Perry Rhodan apareceu, a fim de verificar o andamento dos trabalhos. De um dia para outro, Fera Cinzenta se transformara num dos pontos mais importantes da Galáxia. Dali seria desferido o golpe decisivo contra os druufs. Tratava-se da raça que vivia numa dimensão temporal estranha e costumava aproveitar os fenômenos de superposição dos dois planos para raptar mundos. Aquilo que acontecera em Fera Cinzenta estava esquecido. Os peepsies e os gigantescos animais cinzentos, que deram o nome ao planeta, já não despertavam o menor interesse.
Ninguém se dera ao trabalho de verificar a ideologia dos novos membros da frota. Fazia apenas dois anos que os juizes da Terra os haviam condenado ao degredo por causa de atividades revolucionárias, participação em associações secretas e outros delitos. Era bem verdade que a maior parte, especialmente o grupo de Horace O. Mullon, já reconhecera seus erros. Mas ainda havia alguns, entre os antigos adeptos de Walter S. Hollander, que continuavam a se aferrar às velhas idéias.
Estes foram admitidos sem maiores problemas ou indagações, tal qual os outros. E, quando envergaram seu uniforme, acharam que havia chegado o tempo de realizarem seus planos.

* * *

A decolagem da gazela causou um alarma geral. Poucos minutos depois do primeiro sinal, a esquadrilha do Capitão Blailey e os cruzadores espaciais anunciaram que estavam prontos para decolar.
Mas isso não adiantaria muito, enquanto não se soubesse para onde a gazela partira tão apressadamente.
Perry Rhodan apareceu na sede provisória do espaçoporto. O oficial de plantão, um jovem capitão, fez continência e ia começar uma série de explicações prolongadas. Rhodan fez um gesto amável e disse que já estava informado.
— Ainda não ordenou a chamada geral, não é? — perguntou.
— Não senhor — respondeu o capitão. — Ainda não tive tempo.
— Muito bem. Pois faça a chamada agora. Precisamos saber quem fugiu na gazela. Aliás, qual o oficial que se encontrava a bordo?
— O Tenente Chellich, Sir.
— Acredito que a gazela ainda não tenha entrado em contato conosco.
— Não senhor. Rhodan refletiu.
O tenente Chellich. Lembrava-se perfeitamente das informações que o superior imediato de Chellich, o Capitão Blailey, lhe fornecera durante a execução da missão de Fera Cinzenta. Chellich era um homem impetuoso, um homem em cujo peito dormiam reservas de energia física e psíquica de que ninguém suspeitava. E sabia usá-las, quando se fizesse necessário. Conforme costumava dizer o ex-degredado Horace O. Mullon, Chellich salvara o planeta Fera Cinzenta andando a sós. Tinha trinta e um anos. Um homem com as suas qualidades já deveria ser capitão ou até mesmo oficial do estado-maior.
Perry Rhodan julgara o caso como algo de singular e de suma importância para examinar, mais tarde, os assentamentos pessoais de Chellich.
Havia várias queixas de antigos superiores, que aludiam a um excesso de autoconfiança. Em outras palavras, isso significava que não sabia calar a boca quando tinha uma idéia melhor que a do superior hierárquico.
Rhodan conhecia uma série de casos semelhantes. Nem sempre a pessoa acusada de excesso de autoconfiança era a parte culpada. O Capitão Blailey não demonstrou a menor inclinação de se queixar de Chellich. Ao que tudo indicava, Blailey e Chellich eram dois tipos que se davam muito bem.
Não, Chellich não seria capaz de subtrair uma gazela. Teria agido sob coação, ou então estaria morto...
Um tanto pensativo, Perry Rhodan saiu do edifício-sede e voltou ao lugar onde residia o Tenente Sikermann, que lhe cedera alguns aposentos. Sikermann estava sentado em seu gabinete. Lá também estava Reginald Bell.
A grande tela que encimava a enorme escrivaninha emitia um brilho cinza-claro, o que constituía sinal de que estava pronta a entrar em atividade a qualquer momento, para estabelecer contato entre o escritório de Sikermann e qualquer lugar importante da Galáxia.
Assim que Rhodan entrou, Reginald Bell levantou-se. Sikermann também fez menção de levantar-se, mas Perry Rhodan acenou, pedindo que continuasse sentado.
— Por enquanto não há nada de novo — disse em tom calmo. — Só sabemos que a gazela desapareceu. Mais nada. Não sabemos por quê, nem para onde, nem com quem. Mas não demoraremos em obter esta última informação. Neste momento está sendo realizada a chamada geral.
Até parecia que estas palavras representavam uma senha. Uma tela iluminou-se, mostrando o busto de um jovem tenente que cumprimentou seus superiores com um gesto.
— Sou o Tenente Ratcliffe. Estou realizando uma chamada geral por ordem superior. Façam o favor de fornecer sua identidade.
— Tenente Sikermann, chefe da base.
Reginald Bell disse:
— Bell, vice-administrador.
Rhodan manteve-se em silêncio.
— E o senhor? — perguntou o tenente, dirigindo-se a Rhodan.
— Rhodan — respondeu este com um sorriso.
Ratcliffe voltou a agradecer e sua imagem desapareceu da tela.
Rhodan pôs-se a rir. Sikermann parecia perplexo. Sentia-se constrangido pelo episódio.
— Darei uma lição a esse jovem — exclamou em tom zangado. — Se quisesse, poderia afirmar não saber quanto são dois vezes dois. Mas perguntar o nome do senhor, Sir, isso já passa...
Rhodan parecia divertir-se com aquilo.
— Deixe para lá — disse, para tranqüilizar o tenente indignado. — Se eu estivesse no seu lugar, também teria tido o máximo prazer em agir dessa forma. Aliás, ele está com a razão. Tem de ouvir todos os nomes. Seria perfeitamente possível que um robô tivesse tomado meu lugar. E ele não poderia constatar isso. Precisa do timbre de minha voz a fim de mandar analisá-lo.
— Está bem — concordou Sikermann.
Não fez outras observações.
Os minutos foram passando, sem que ninguém dissesse uma única palavra. Perry Rhodan esforçou-se para adquirir uma visão de conjunto da situação, surgida após o roubo da gazela, mas não conseguiu formar um quadro razoavelmente nítido.
Meia hora passou-se. A tela voltou a iluminar-se e mostrou o capitão da administração do espaçoporto.
— Já temos o resultado, Sir — disse, dirigindo-se a Rhodan. — Além do Tenente Chellich, que se encontrava no interior da gazela, desapareceram três homens: Oliver Roane, Walter Suttney e Ronson Lauer. Todos pertencem ao grupo de colonos recém-admitidos nos quadros da frota.
— O que se sabe a respeito desses homens? — indagou Rhodan.
— Praticamente nada; apenas sabemos que foram adeptos de Hollander.
Perry Rhodan refletiu. Finalmente agradeceu e deu a entender que no momento não tinha outras instruções. A tela apagou-se.
Perry Rhodan levantou-se e foi à janela. Parou, olhando para o chão.
— Estamos num beco sem saída — constatou. — E num beco muito desagradável.
Reginald Bell não disse nada.
— O Major Ostal conseguiu um êxito apreciável — prosseguiu Rhodan. — Deu uma pista errada ao computador-regente de Árcon, que há anos não conhece outro objetivo senão descobrir a posição galáctica da Terra. Uma gigantesca frota de naves robotizadas está a caminho do planeta que, segundo os registros encontrados na nave de Ostal, seria a Terra. Esse planeta fica nas profundezas da Via Láctea. Qualquer dia o Regente perceberá que foi enganado.
Ficou em silêncio e fez como se não notasse o espanto no rosto de Sikermann.
Este não compreendia qual era a ligação entre a missão do Major Ostal e o desaparecimento da gazela.
— Mas não é isso o que importa — prosseguiu Rhodan. — O importante é sabermos até onde vai o interesse do regente em descobrir a posição da Terra e sua disposição de atacar assim que tenha obtido as respectivas informações.
Sikermann não pôde controlar-se por mais tempo.
— Por favor — principiou assim que Rhodan fez uma pausa. — Não consigo descobrir o que o roubo da gazela poderia ter a ver com a curiosidade do computador-regente.
Perry Rhodan lançou-lhe um olhar de surpresa.
— Pois é simples — respondeu. — O senhor sabe perfeitamente de que tipo de elementos Walter S. Hollander andava rodeado. A maior parte deles só tinha um objetivo em mente: enriquecer o quanto antes. E a revolução parecia o melhor caminho para isso. Entre os filósofos da natureza havia poucos que levavam seus belos ideais a sério. Logo, as pessoas que agora nos causam problemas pertencem ao primeiro tipo. Apenas procuram sua vantagem. Já imaginou onde?
Sikermann começava a compreender. Mas antes que tivesse tempo para responder, Rhodan deu as explicações.
— A gazela de Chellich é o veículo que enviamos a Fera Cinzenta há dois anos, a fim de supervisionar os colonos. Em seu computador positrônico estão armazenados todos os dados que assumem maior importância para certa potência da Galáxia, inclusive os que dizem respeito à posição da Terra.
Fez uma pausa e concluiu:
— Não tenho a menor dúvida de que Suttney e seus dois companheiros se dirigem a Árcon, onde pretendem revelar a posição da Terra ao computador-regente.


2



No dia 5 de outubro de 2.042, o Terrânia Times, um jornal independente, de tendências oposicionistas, publicou o seguinte editorial:

Fazemos referência à notícia relativa à fuga de três desertores da base espacial Mirta VII, publicada pelo Terrânia Daily News, edição de 3 de outubro. Nossos elementos de confiança constataram que, ao contrário do que noticia o referido periódico, em Mirta VII, onde no momento se encontra o administrador do Império Solar, Mr. Rhodan, vem sendo atribuída grande importância ao episódio.
Ao que parece, a situação criada pelo furto de uma nave de reconhecimento do tipo gazela vem sendo considerada tão séria que as autoridades julgaram conveniente censurar as notícias sobre o caso. Face a isso, daqui em diante, o público só vai receber as informações fornecidas pelo Ministério das Informações e Opinião Pública, que evidentemente serão adaptadas ao objetivo de tranqüilizar artificialmente a população.
Nossa opinião é a seguinte: caso realmente haja algum perigo, devemos confiar na energia mental dos homens da Terra e do Império Solar e nas suas capacidades de encarar o perigo de frente. Não se devem divulgar notícias que, ao primeiro relance de olhos, se apresentam como inteiramente tranqüilizadoras, mas manipuladas. Esse tipo de informação cria a desconfiança e gera confusão no momento em que o perigo se torna evidente, apesar de todas as tentativas de “ocultamento”. Pedimos às autoridades que usem de sinceridade.

* * *

No momento em que viu Ronson Lauer, Gunter Chellich compreendeu que o jogo estava perdido.
Aos poucos, foi recuperando a capacidade de raciocinar. Olhou para Lauer e para Suttney, que continuava parado ao lado de sua poltrona. De repente compreendeu a tática deste último.
Suttney sabe que eu não posso resistir às suas exigências”, pensou Chellich. “Mas eu posso confiar na inexperiência dele e de Roane no terreno da galatonáutica. Por isso prefiro crer na possibilidade de enganá-los a investir sem armas contra dois homens armados.
Por dedução, concluiu que Lauer fora mantido oculto, para que não houvesse problemas com a decolagem.
E agora está sendo apresentado, a fim de convencer-me de que eu devo desistir de meus planos”, imaginou pleno de certeza.
Ronson Lauer ficaria sentado a seu lado assim que os dados do segundo hipersalto começassem a ser calculados. E ele não se deixaria enganar.
— O senhor acaba de ouvir o que Suttney quer do senhor — disse, dando início à palestra. — Ligue o aparelho de leitura e escolha um setor no qual estejamos seguros. Vamos logo! O que está esperando?
Ronson Lauer era um homem pequeno e ágil. Era difícil calcular sua idade.
Deve estar entre os quarenta e os cinqüenta”, pensou Chellich.
Assumiu um ar petulante e demonstrava certo senso de humor, mas era um tipo de humor que não agradava a Chellich.
Este resolveu não tomar conhecimento da ordem de Lauer. Virou-se para Suttney, por considerá-lo o porta-voz do grupo. Lançou-lhe um olhar indagador.
— É isso mesmo — confirmou Suttney. — Lauer tem razão. Não podemos perder tempo. Comece a preparar o salto. O senhor já dispõe de assessoramento — disse, apontando para Lauer. — Dessa forma poderá trabalhar mais depressa, não é?
Chellich não viu motivo para responder a esta pergunta. Voltou a girar a poltrona, colocando-se de frente para o painel, e comprimiu o botão do aparelho de leitura. A tela do intercomunicador, que ficava acima do painel, começou a acender-se. Chellich leu tranqüilamente os dados atuais sobre a velocidade da gazela, enquanto a imagem adquiria contornos nítidos.
A gazela desenvolvia uma velocidade de mil e quinhentos quilômetros por segundo.
Nos arredores da nave, ou seja, num raio de dez horas-luz, não havia nenhuma porção de matéria suficientemente grande para provocar a reação do rastreador. Segundo uma medição de eixos paralelos não muito precisa, a estrela mais próxima ficava a três anos-luz.
A tela do intercomunicador mostrou o frontispício do catálogo galático. Chellich voltou a virar a cabeça e perguntou a Suttney:
— O senhor tem algum lugar específico em vista? Para onde vamos saltar?
Suttney apontou em direção a Lauer. Este se fez de desinteressado e respondeu no tom apressado que lhe era peculiar:
— Pouco importa. O principal é que não paremos em qualquer lugar “quente”. A proximidade de naves terranas é totalmente indesejável. Sugiro que sigamos aproximadamente em direção ao centro da Galáxia.
Chellich fez um gesto afirmativo. Puxou para perto de si um instrumento semelhante a uma pequena calculadora de mesa, no qual se viam várias teclas com algarismos e letras. Comprimiu uma série de teclas e um botão vermelho. O frontispício do catálogo desapareceu da tela, que passou a apresentar outra imagem. A mesma consistia, em essência, num ajuntamento confuso de pontos, algarismos e letras. Alguns pontos estavam ligados por linhas, geralmente apenas tracejadas. O quadro era encimado pelos seguintes dizeres: Mapa geral do setor 10-000-12.000 pc, 0 a 1 graus, 89 a 90 graus.
— Está bem — disse Ronson Lauer, sem que ninguém lhe tivesse perguntado. — É o que estamos procurando. Projete o mapa parcial onze mil a onze mil e cem, zero grau a zero grau e dez minutos, e noventa e oito graus e cinqüenta minutos a noventa e nove graus.
Chellich obedeceu. Seus dedos bateram habilmente o teclado da pequena calculadora, segundo a indicação que acabara de receber. A pressão das teclas deu início ao “processo de busca”.
Dali a alguns segundos, outro mapa surgiu na tela. Na extremidade superior deste lia-se a indicação fornecida por Ronson Lauer. Chellich viu que o mapa não tinha qualquer colorido além do fundo branco e dos pontos e linhas negras. Com isso, passou a sentir-se ainda mais inseguro. A área escolhida por Lauer realmente não estava submetida à influência de quem quer que fosse. Ao que tudo indicava, os três desertores pretendiam escolher um recanto em que pudessem passar tranqüilamente o resto dos seus dias.
Fitou a tela e esperou que Lauer dissesse alguma coisa. Deixou que os olhos vagassem pelos números que identificavam os pontos negros representativos das estrelas. Na verdade, sua mente não os absorveu. Estava curioso para ver qual, dos mais de dois mil pontos, Lauer escolheria.
O catálogo galático era um produto arcônida, como todos os catálogos estelares utilizados pela Astronáutica terrana. A elaboração de uma mapoteca dessa extensão e perfeição consumira mais de dez mil anos. Milhares de naves registradoras percorreram o cosmos para recolher os dados.
Nem por isso se poderia dizer que o catálogo registrava todas as estrelas que compunham a Galáxia. Pelos cálculos dos peritos terranos, dele deveriam constar de setenta e cinco a oitenta por cento dos astros. Só uns sete por cento desse total foram visitados por alguma nave. O resto era assinalado por meio de cifras e letras necessárias para que o observador do mapa conseguisse orientar-se.
A Terra reproduzira o catálogo de Árcon. E os nomes foram conservados. Apenas as medidas de extensão e de angulação foram substituídas segundo os padrões terranos, pois do contrário a interpretação dos mapas exigiria o domínio da matemática arcônida. A unidade de comprimento era o parsec ou pc. A unidade de ângulo era o grau. O ponto de referência do sistema de coordenadas em que se baseava o catálogo era Árcon. Muita gente do planeta Terra manifestou a opinião de que, neste ponto, o catálogo deveria ser modificado.
A Terra, que era uma potência jovem, em expansão, não tinha necessidade de usar um catálogo em que Árcon figurava como centro. Na verdade, o recalculo dos dados do catálogo em função de um novo centro, a Terra, não apresentaria maiores dificuldades, muito embora o trabalho fosse bastante volumoso.
As razões, que determinaram a manutenção do sistema de coordenadas de Árcon, foram totalmente diversas. A posição galáctica da Terra tinha de ser mantida em segredo, pois só assim o Império Solar poderia prosseguir tranqüilamente no seu processo de desenvolvimento. O inimigo em potencial dispunha de uma série de recursos e, por isso, a manutenção do segredo, em relação ao mapa, seria bastante difícil. Exigiria uma série de providências complicadas e dispendiosas. E seria totalmente impossível manter o segredo, caso existissem mapas onde a Terra, ou melhor, o sol terrano, servisse de ponto de origem das coordenadas. Com isso bastaria comparar algumas indicações do catálogo arcônida com as indicações correspondentes do catálogo terrano, para descobrir a posição da Terra. Assim Árcon foi mantido como centro do sistema de coordenadas.
Esse sistema era esférico-simétrico. O vetor do raio indicava a distância do respectivo objeto em relação ao ponto de origem das coordenadas, ou seja, em relação a Árcon. Essa indicação era feita em parsec. O ângulo phi era o formado com o eixo horizontal do sistema. O sistema estava ordenado de tal maneira que o centro geométrico da Galáxia ficava em noventa graus theta e zero grau phi. O comprimento do vetor do raio até o centro galático era de 10.986 parsec.
Cada folha do catálogo representava um setor da Galáxia. E os setores eram escolhidos de maneira a terem aproximadamente o mesmo conteúdo espacial. O microfilme do catálogo só admitia a representação bidimensional. Por isso as altitudes das diversas estrelas, em relação ao plano do filme, eram indicadas por cifras representativas de parsec.
Além disso, as estrelas traziam outras marcações, que eram as coordenadas necessárias à sua fixação no hiperespaço. E essas coordenadas eram transmitidas, através de um fator constante de conversão, em forma de volumes energéticos necessários, para que o propulsor da nave alcançasse a respectiva estrela por meio de uma transição, ou seja, por meio de um salto através do hiperespaço. Guardavam uma relação estreita com aquilo que os galatonautas costumavam chamar de dados do salto.
Ronson Lauer tomou sua decisão. Pegou o pequeno aparelho semelhante a uma calculadora, girou uma rodinha e colocou uma das duas mil estrelas no centro da tela. No momento em que o ponto negro, representativo da estrela, cobria a cruz traçada na tela, Lauer acionou outro botão, que fez com que o aparelho ampliasse a seção do catálogo, que coincidia com o centro da tela. As minúsculas indicações que se encontravam junto ao ponto tornaram-se legíveis.
— É este — disse Lauer em tom lacônico. — É do tipo do sol. É o que nos convém.
Gunter Chellich viu Lauer virar-se para Suttney. Este fez um gesto afirmativo e disse:
— Faça o que achar melhor.
Lauer apontou em direção à tela.
— Pois bem, Chellich; comece a calcular! — ordenou. — O senhor sabe perfeitamente como funciona isso: diferença entre a posição atual e o destino, dimensões do veículo, conversão por meio dos dados constantes do catálogo. Vamos logo! O que está esperando?
Chellich compreendeu que Lauer pretendia mostrar que era versado no assunto. Acontece que já sabia disso e achou esse tipo de exibicionismo um tanto ridículo.
Enquanto realizava os cálculos, de forma automática e com a mente distraída, Chellich ficou refletindo sobre o que três desertores esperariam encontrar nas proximidades de um sol sem nome, que ficava a pouco menos de vinte e cinco mil anos-luz do lugar onde se encontravam, numa área em que nem os terranos nem os arcônidas jamais puseram os pés.
Por enquanto tateava no escuro.

* * *

— Sabemos perfeitamente o que devemos fazer — disse Perry Rhodan. — Procuraremos a gazela desaparecida. Precisamos encontrá-la antes que esses três indivíduos possam fazer alguma desgraça. Confio no sentimento de insegurança, que mais dia menos dia os levará a cometer um erro que nos permita localizá-los... E ainda confio no Tenente Chellich, se é que o mesmo ainda está vivo. O mesmo encontrará um meio de dar-nos um sinal.
“No momento não há coisa mais importante a fazer senão procurar a nave desaparecida. Até a próxima superposição dos dois planos temporais ainda nos restam alguns meses. Quanto a isso, não precisamos, ter pressa. Podemos utilizar toda a frota nas operações de busca.
“Podemos incumbir os vinte mil micromecânicos da raça dos swoons de criar um aparelho que permita a localização de uma nave em transição, apesar do neutralizador de freqüência.”
Calou-se por um instante. Um sorriso surgiu em seu rosto.
— Verificamos que a descoberta do neutralizador, com a qual tanto nos rejubilamos, neste caso resultou numa desvantagem para nós. Equipamos a nave roubada com um aparelho que nos impede localizá-la. Quer dizer que precisamos encontrar um novo equipamento para tirar-nos da situação difícil em que nos achamos.
Interrompeu-se pela segunda vez. Olhou a fileira dos oficiais sentados a sua frente. Seu olhar ficou parado no Tenente Sikermann.
— Terei de recorrer a boa parte do seu pessoal, Sikermann — prosseguiu. — As naves estacionadas em Fera Cinzenta deverão ser integralmente guarnecidas. Você continuará a trabalhar na construção da base. Pense que, com os últimos acontecimentos, seu trabalho vai tornar-se da maior importância.

Seu olhar correu para o Major Van Aafen, ou Telfje, conforme era chamado pelos companheiros.

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