sábado, 7 de setembro de 2013

P-071 - Tigris Erra o Salto - Kurt Brand [parte 2]

Era um dos agentes mais antigos de Rhodan. No entanto, recorrera a desculpas esfarrapadas para subtrair-se aos últimos três controles mentais, que seriam realizados pelos telepatas de Rhodan... E foram “contemplados” com uma boa dose de azar: Allan D. Mercant teve de recorrer justamente a Mabdan, quando se tornou necessário voar para Ekhas.
A extrema urgência com que a operação se desenvolveu desde o início não permitia recorrer a um saltador mais seguro que pudesse substituir Mabdan.
Rhodan chamou Fellmer Lloyd.
— Assim que entrarmos na nave dos saltadores, controle Mabdan. Tenho certos receios bem fundamentados.
O mercador galático encostou a Mab I ao lado da nave de Rhodan. Este e seus três mutantes atravessaram o espaço que separava as duas naves, usando trajes de saltadores. Os peritos em máscaras da Lotus haviam criado verdadeiras obras-primas. Nem mesmo Rhodan se reconheceu ao olhar-se no espelho e, ao entrar na comporta da Mab I, era Alf Renning.
Um jovem saltador recebeu-os com um largo sorriso e, falando um intergaláctico carregado de gíria, convidou-os a comparecerem à presença do “Senhor”.
Sem desconfiar de nada, os quatro terranos entraram no camarote luxuosamente instalado. Fellmer Lloyd transmitiu uma mensagem telepática ao seu chefe:
— Este é Mabdan III.
O número, que se seguia ao nome do clã dos saltadores, indicava a graduação, e não era raro que esses números chegassem à casa dos cinqüenta.
Mabdan III recebeu-os com o rosto amável. Irradiava calma e segurança. O convite de tomar lugar foi dito em tom gentil, e Fellmer Lloyd, que se concentrava ao extremo para ler os pensamentos do saltador, não descobriu nada de alarmante.
Enquanto a palestra girava em torno de riscos, perigos e ganhos monetários, e Perry Rhodan empurrava uma soma considerável para o saltador, sem dizer uma palavra Lloyd captou outro impulso mental.
Vem do interior da nave, e é irresistível”, pensou.
Fellmer lançou um olhar para Kitai Ishibashi. Este estava contando uma piada sobre astronautas, que provocou o riso de Mabdan III, mas de repente o saltador ficou sério.
— O que foi que você disse por último, terrano? — perguntou apressadamente, enquanto seu rosto mudava de cor.
O japonês alto e magro exibiu um sorriso misterioso:
— Eu disse Mabdan III...
No mesmo instante, um radiador de impulsos surgiu na mão do saltador.
Desesperado, Fellmer Lloyd perguntou a si mesmo por que não previra este momento, enquanto se via diante daquele saltador robusto de cavanhaque.
Ishibashi não teve medo. No mesmo instante, o mercador galático perderia a chance de matar alguém com o radiador de impulsos. Já estava sendo tratado por Kitai. O japonês impunha cada vez mais intensamente sua vontade a Mabdan III. Tinha certeza de que seria bem sucedido; mas nem se deu conta de que já, por duas vezes, dera ordem sugestiva para que o saltador largasse a arma.
Mabdan III nem pensava em obedecer.
Seu sorriso traiçoeiro era enervante. Abriu a boca para dizer alguma coisa. Naquele instante, sentiu-se apavorado porque o ar começou a tremeluzir à sua frente, e o pavor transformou-se em pânico quando o menor dos terranos materializou-se à sua frente. Logo surgiu um punho que desferiu uma forte pancada em seu pulso, arrancando-lhe a arma de impulsos. O pequeno terrano mantinha-se ao lado de Kitai, controlando Mabdan III por meio da arma térmica.
Com um ligeiro salto de teleportação, Tako Kakuta modificara a situação.
Fellmer Lloyd, que parecia lerdo, agiu com uma rapidez surpreendente. Num instante acabou de desarmar Mabdan III, que estava totalmente perplexo. Atirou sobre a mesa um projetor hipnótico arcônida do último tipo e um paralisador.
No seu pânico, nem notou que Alf Renning lançara um olhar ligeiro e penetrante para seu magro companheiro. Ishibashi concentrou-se ao máximo para impor sua vontade ao saltador, mas suas investidas sempre davam no vazio.
— Eu também não consigo atingi-lo! — disse Fellmer Lloyd em inglês. — Não consigo captar claramente seu modelo de vibrações cerebrais, e suas irradiações sensitivas estão totalmente alteradas. Com elas, não se pode compor um quadro nítido.
Essas palavras foram dirigidas a Perry Rhodan que, desde o momento em que a arma de impulsos surgiu na mão do saltador, se mantivera imóvel. Apenas seu olhar caminhava de um lado para outro. Mais uma vez, fitou os olhos do saltador, que representavam um enigma.
Não conseguiu chegar à solução do enigma.
— Perigo no convés! — disse Fellmer Lloyd em tom de advertência. Encontrava-se atrás de Mabdan III, e segurava-lhe os braços nas costas.
Dali a um instante, as armas encontradas em poder de Mabdan III haviam sido distribuídas entre os homens. Lloyd foi o único que preferiu dispensá-las. Teve de ocupar-se com Mabdan III, prosseguindo nas suas tentativas de penetrar na mente do saltador.
— O perigo está chegando mais perto!
— falou para Rhodan e seus companheiros.
— São dois homens. Vêem buscar-nos.
Fellmer não conseguiu ler os pensamentos do saltador. Havia alguma coisa que os protegia da interferência de Lloyd.
A porta do camarote abriu-se lentamente. Os rostos de mais dois saltadores mudaram de cor quando se defrontaram com as armas apontadas para eles. Sem que ninguém dissesse uma palavra, deixaram cair os projetores hipnóticos.
— Ishibashi — disse Rhodan, enquanto fazia um gesto enérgico para os saltadores apavorados, mandando que entrassem de vez no camarote.
O sugestionador logo entrou em atividade. Mabdan III teve a impressão de estar sonhando ao assistir à modificação inexplicável que se processara no ânimo dos dois companheiros de nave. Subitamente sorriram para os terranos, trocaram palavras amáveis e sentaram-se confortavelmente.
— Mabdan III está bloqueado, senhores — disse Perry Rhodan sem outros comentários.
Kitai Ishibashi, o mais inteligente dos três mutantes, compreendeu imediatamente o que Rhodan quis dizer.
Alguém traíra a parte da ação no sistema de Naral que teria de contar com a cooperação do agente saltador Mabdan I. Numa hipótese dessas o setor competente do computador-regente desenvolvera uma ação rápida e eficaz.
Em vez de Mabdan I, que era um agente terrano, enviaram Mabdan III, desrespeitando a ordem de graduação dentro do respectivo clã.
Seu cérebro estava envolto por um bloqueio hipnótico, que não podia ser rompido por Kitai Ishibashi. As forças sugestivas do japonês tinham origem psíquica, enquanto a defesa hipnótica de Mabdan III era obra de uma máquina hipnótica arcônida, que, no desempenho de sua impiedosa missão, não sentia o menor escrúpulo em deformar o modelo das ondas cerebrais do saltador.
Mabdan III já não compreendia que sua vida psíquica se precipitaria para o abismo da loucura, a não ser que os mutantes conseguissem remover o bloqueio hipnótico que cercava sua mente.
Ainda refletindo sobre as palavras de Rhodan, Fellmer Lloyd estremeceu. Mais uma vez, captara um estranho modelo de ondas cerebrais, e, mais uma vez, este fora bastante confuso.
Começou a “tatear”.
Numa espécie de transe, explicou a Tako Kakuta a localização do camarote do qual provinha o estranho modelo de vibrações cerebrais.
Perry Rhodan não teve nada a objetar contra o salto de teleportação de Kakuta. Os dois mercadores encontravam-se sob o controle de Ishibashi. Kitai ordenou-lhes que não vissem aquilo que se passava no interior do camarote.
Num ligeiro tremeluzir, o delgado teleportador desapareceu do camarote de Mabdan III, que, mais uma vez, acreditou que aquilo era uma feitiçaria. Os outros dois saltadores pareciam nem tomar conhecimento do fenômeno. Sentados num canto, conversavam despreocupadamente.
Lloyd estabeleceu contato telepático com Kakuta.
Este chegara a um pequeno camarote situado no fim do grande convés. E, nesse camarote, jazia um homem inconsciente que apresentava uma espantosa semelhança com Mabdan III.
Fellmer Lloyd não teve necessidade de dizer nada. Perry Rhodan ligou-se ao contato telepático. E, através do intercâmbio mental com Kakuta, ambos acompanharam a experiência com que o teleportador se defrontou no pequeno camarote. Nas condições favoráveis em que se encontrava — estava bem ao lado de Lloyd — Rhodan conseguiu captar-lhe os pensamentos que relatavam o que acontecia com Kakuta.
— Já conheço este veneno. Não são os aras que fabricam esta droga temporária, que, segundo a dose, reduz todas as funções orgânicas a um mínimo por um prazo que vai até três meses? A pessoa respira apenas quatro vezes por minuto.
O contato telepático entre Fellmer Lloyd e Tako Kakuta sofreu uma interrupção temporária.
— Avise Kakuta de que deve voltar à sala de rádio, saltando juntamente com Ishibashi — ordenou Perry em inglês, dirigindo-se a Lloyd.
Quase no mesmo instante, o ar começou a “tremer” atrás de Mabdan III, e o teleportador pequeno e franzino estava de volta.
Kitai Ishibashi aproximou-se de Kakuta e aguardou novas ordens de Rhodan.
— Transmita imediatamente pelo rádio da Mab I uma mensagem de emergência condensada dirigida à Lotus. Peça que a nave venha o mais depressa possível. Ao encostar, deve manter-se em rigorosa prontidão. Devem mandar a esta nave um comando de dez homens com doze robôs de guerra.
Enquanto Rhodan ainda estava falando, Kitai Ishibashi colocou os braços em torno do débil teleportador. Não sentiu nem viu nada quando o companheiro desmaterializou-se juntamente com ele no camarote, para reaparecer na sala de rádio da nave cilíndrica.
Antes que os três saltadores de plantão na sala de rádio pudessem olhar para trás, Ishibashi derramou sobre eles suas forças sugestivas.
— Deixe-me sentar aqui, amigo — disse Kakuta, dirigindo-se ao saltador que estava à frente do hipertransmissor.
O jovem mercador galático cedeu seu lugar sem oferecer a menor resistência. E seus companheiros não se espantaram com isso. No momento em que Tako Kakuta expedia a mensagem, achavam-se entretidos numa conversa particular e riam de uma piada.
Pouco depois, voltaram a cuidar do seu serviço como se nada tivesse acontecido. Não sabiam que acabavam de receber a visita de dois desconhecidos. Ishibashi não recorrera às suas forças psíquicas para abrir uma lacuna em sua memória. Apenas preenchera a falha por meio de uma ilusão, que, para aqueles homens, não deixava de ser realidade.
Mabdan III, que continuava indefeso em sua poltrona, não desconfiava do que se passava às suas costas. As palavras que os terranos trocavam em língua inglesa eram incompreensíveis para ele.
Pela segunda vez, Kakuta teleportou-se para o pequeno camarote no qual jazia o saltador inconsciente. Recebeu ordens para tentar estabelecer a identidade do mesmo.
— Onde está Mabdan II? — perguntou Rhodan em tom áspero ao saltador cuja mente estava bloqueada. — Acabamos de encontrar o chefe de seu clã num pequeno camarote; está inconsciente. Dentro de alguns dias, os membros de seu clã lhe perguntarão por que se apresentou como seu patriarca. Meu caro, acredito que você terá algumas horas nada agradáveis pela frente. Então, saltador, onde está Mabdan II?
As advertências de Perry Rhodan não causaram a menor impressão naquele homem indefeso. Kitai Ishibashi disse ao chefe:
— Nada chega à mente dele, Sir. Tenho...
— Ah, é Perry Rhodan! — exclamou o saltador com o rosto desfigurado.
Ao menos em parte, Kitai Ishibashi procurou reparar o erro indesculpável que cometera ao chamar Rhodan de Sir. E enviou uma sugestão para que o teleportador agisse imediatamente.
— Kakuta, salte imediatamente para a sala de rádio. Procure verificar se existe algum hipertransmissor que irradia a conversa travada neste camarote. Rápido, Kakuta!
No momento em que Mabdan III o chamou pelo nome, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, mais uma vez se deu conta de que o gigantesco cérebro positrônico instalado em Árcon III só tinha um objetivo: descobrir a posição galáctica da Terra em quaisquer condições e mediante o emprego dos meios mais traiçoeiros. O computador-regente queria eliminar Perry Rhodan e transformar a Terra em colônia arcônida.
O cérebro gigante mandara reunir todos os dados que eventualmente poderiam levar à identificação de Perry Rhodan, e o título Sir, que costumava ser empregado na língua inglesa, era um desses dados.
Rhodan pensou mais longe. Admirou-se por ter Mabdan III revelado sua descoberta de forma tão tola. Mas, subitamente, Fellmer Lloyd o interrompeu em meio às reflexões:
— Sir... os modelos de vibrações cerebrais de Mabdan III! Nunca vi uma coisa dessas, nem mesmo num louco.
Fellmer Lloyd também foi interrompido.
Kakuta apareceu, depois de um ligeiro tremeluzir. Sangrava do lado esquerdo da cabeça. Mas não deu a menor atenção ao ferimento. A notícia a ser transmitida era mais importante que a própria vida:
— Cada palavra que é falada aqui é irradiada por um segundo hipertransmissor, que funciona na faixa do computador-regente. Agora as transmissões cessaram.
O japonês franzino pediu desculpas num gesto indescritível e exibiu a arma térmica a Perry Rhodan.
— Usei isto para terminar com as transmissões. Não tive outra alternativa. Mas, a esta hora, isso pouco nos adianta. Não compreendo por que Árcon ainda não apareceu com algumas dezenas de supercouraçados, para convidar-nos gentilmente a comparecermos a bordo.
— Pois eu não me admiro nem um pouco — respondeu Rhodan com um sorriso. — Afinal, ele conhece muito bem essa parte do Universo com os quatro sóis invisíveis...


5



A administração da prisão ekhônida, situada no hotel Estrela de Árcon, tinha concepções bastante rígidas sobre higiene, e sua aplicação sempre produzira ótimos resultados, especialmente quando se tratava de prisioneiros recém-chegados ao estabelecimento, vindos do espaço estelar.
Os aparelhos positrônicos permitiam que as radiografias fossem feitas com a maior rapidez, mas a desinfecção completa levava bastante tempo, apesar do uso dos excelentes produtos dos aras.
O Major Clyde Ostal e os homens de seu grupo não paravam de admirar-se.
Naquele instante, estavam sendo levados à sétima divisão. Ninguém se sentia muito à vontade. O elevador antigravitacional os conduziu ao setor de exames virospectroscópicos.
A Divisão Virospectroscópica ficava no último pavimento do gigantesco edifício.
Seis ekhônidas com armas de choque nas mãos entregaram-nos na porta de entrada. Tal qual acontecera nas divisões anteriores, não entraram logo nesse setor médico.
Quando o Tenente S. Seegers pretendia dirigir-lhe a palavra, o Major Clyde Ostal repeliu-o com um gesto apressado. Estavam em fila de dois. A pequena porta protegida por um potente campo energético fechou-se. O Major Ostal não deu atenção ao fato. Dedicava sua atenção a uma pequena entrada lateral, pela qual os médicos ekhônidas transitavam.
Mais uma vez, viu que essa porta lateral era aberta por alguém que se encontrava na sala. E, desta vez, permaneceu aberta por mais tempo. Um velho ekhônida parou na porta e gritou algumas palavras dirigidas para cima.
Lá em cima havia uma fita rolante.
— Aí vem Hasting — disse o Tenente Seegers, dirigindo-se a Ostal.
O Major compreendeu instantaneamente que, com a chegada de Hasting, que quebrara o braço na barreira energética da entrada da prisão, o grupo estava completo de novo.
O Tenente S. Seegers teve de fazer um esforço para dominar-se, quando o Major lhe cochichou em tom insistente:
— Traga Hasting para cá!
Ainda se encontravam na comprida ante-sala da Divisão Virospectroscópica, cujas paredes eram revestidas de plástico branco, recebendo iluminação indireta de todos os lados. Os ekhônidas, que passavam apressadamente pelo recinto, fitaram os terranos como se estes fossem bichos.
O Major Clyde Ostal olhou para a pequena porta lateral, que ainda era mantida aberta pelo velho ekhônida.
Tinha a impressão de ouvir o ruído típico de um táxi aéreo que decolava.
O Major Ostal sentiu uma mão pousada em seu ombro. O Tenente S. Seegers disse em voz baixa:
— Hasting está aqui, mas...
A pequena entrada lateral voltou a fechar-se. O velho ekhônida atravessou o recinto e desapareceu atrás de uma porta transparente, atrás da qual se via uma sala cheia de aparelhos reluzentes.
— Escutem! — a exclamação enérgica de Clyde Ostal, proferida a meia voz, fez com que todos aguçassem o ouvido. — Continuem a falar baixinho, mas prestem atenção!
“A pequena porta à nossa esquerda leva à cobertura com o heliporto. Assim que eu proferir a palavra Tigris, todos terão de providenciar para que nenhum arcônida tenha tempo nem para gritar. A ação não deve consumir mais de três segundos. Depois passem pela porta lateral, um por um. Existe uma fita rolante que leva à cobertura. Não sei o que vamos encontrar lá...”
O major constatou que na grande ante-sala só havia três ekhônidas.
Proferiu a palavra Tigris, que foi ouvida por aquele grupamento de homens nus. Mesmo sem vestimenta, o pessoal sabia ser perigoso. Não era por nada que Allan D. Mercant gozava da fama de buscar sempre métodos novos que permitiam um treinamento mais perfeito de seus homens e uma defesa mais eficaz contra os riscos com que se defrontavam quase constantemente.
Subitamente, três ekhônidas, que não desconfiavam de nada e eram apenas médicos a serviço da Justiça de Ekhas, viram uma turba de homens nus à sua frente. Ainda vislumbraram os punhos dos terranos. Mas, depois disso, não viram nem ouviram mais nada. Inconscientes, ficaram estendidos no chão.
Os trinta e três pares de pés descalços correram para a porta lateral que o Major Clyde Ostal abrira, encostando a mão esquerda à roseta central.
Quando Clyde se encontrava na fita rolante, que o levou rapidamente para a cobertura, olhou para trás. Seus homens o seguiam com perfeição, como se estivessem realizando um exercício de ordem unida.
Arrumados em fila dupla, passaram pela porta estreita. Ainda bem que a repentina sobrecarga não fez a fita rolante entrar em pane.
Clyde Ostal levou quatro segundos para chegar à cobertura. Sentiu-se ofuscado pela luz do sol amarelento de Naral. Olhou para os lados, com as pálpebras semicerradas. Esperava encontrar guardas fortemente armados no fim da fita rolante, e sentiu-se espantado por não vê-los.
— Tudo certo, major! — gritou alguém lá embaixo.
Dispunha apenas de quatro segundos. O último dos homens chegou à cobertura.
Ouviu-se um grito estridente, vindo da esquerda.
Naquele instante, alguns viajantes desembarcavam de um grande táxi aéreo, que se encontrava à esquerda.
À direita deles, a menos de vinte metros, encontrava-se um veículo do mesmo tipo, cuja escada rolante achava-se baixada, mas parada.
A porta da cabina estava aberta, e também a da carlinga do piloto.
— Deixem que gritem! — disse o Major Clyde Ostal para seus homens. — Vamos pegar o táxi da direita!
Três segundos já se haviam passado. Apenas oito homens ainda se encontravam sobre a fita rolante. Saiu correndo com os vinte e quatro restantes.
— Seegers! — gritou, e logo ouviu a resposta vinda da sua direita. — Seegers, venha comigo. Os outros entrarão na cabina.
Clyde Ostal tomou impulso, saltou. Ia agarrando todas as saliências encontradas. Depois puxou-se para dentro da carlinga do piloto.
O Tenente S. Seegers seguiu-o de perto e fechou a porta atrás de si.
— Os últimos estão chegando, major! Meu Deus, os ekhônidas que nos viram aqui na cobertura nunca se esquecerão de nós!
Alguém anunciou da cabina:
— Lotação completa, major!
No mesmo instante, a porta larga da cabina fechou-se ruidosamente e a escada rolante foi recolhida.
Ostal ligou imediatamente o motor e nem procurou saber se podia desde logo acelerar ao máximo ou não.
O motor uivou. O táxi aéreo desprendeu-se do solo e, apesar da decolagem vertical, acelerou rapidamente. Ainda se encontrava a menos de vinte metros da cobertura quando Clyde Ostal colocou o veículo no rumo da faixa escura situada bem além de Ent-Than que, segundo percebera durante o pouso da Tigris, era formada por matas.
S. Seegers estava sentado à frente do rádio. Apesar do ruído do motor, Ostal ouvia as transmissões. Até então ninguém falara em sua fuga nas diversas faixas de ondas ligadas por Seegers.

* * *

Naquele momento, os médicos da Divisão Virospectroscópica pensavam que os terranos estivessem sendo examinados no setor G 8, enquanto os doutores desse setor acreditavam que os 33 se encontrassem com os viroanalistas. Os três médicos inconscientes estavam jogados num canto da ante-sala, sem que ninguém lhes desse atenção. Estavam cobertos com os jalecos verdes.

* * *

O táxi aéreo acelerava cada vez mais. O oceano de casas de Ent-Than deslizou embaixo deles; os arrabaldes surgiram à sua frente.
O Major Clyde Ostal viu a mata distante aproximar-se com uma lentidão incrível. Ainda não estava convencido de que sua ação desesperada seria coroada de êxito. A sensação, que involuntariamente provocaram ao aparecerem nus na cobertura do maior hotel de Ent-Than, não deixaria de produzir seus reflexos.
— O rádio ainda não diz nada sobre nossa fuga — anunciou S. Seegers e sorriu como um menino que conseguiu praticar uma travessura incrível. — Major, será que os hóspedes do hotel não desconfiam de que os pavimentes superiores do Estrela de Árcon são uma prisão? Será que acreditam que somos uns selvagens malucos, que pretendem regressar ao planeta de origem?
— Deixe de brincadeiras! — advertiu Ostal. — Controle todas as faixas. Ainda não estamos sendo seguidos?
O major não poderia mesmo desconfiar de que a suposição do tenente fora cem por cento correta. Naquele momento, vindas de todos os lados, queixas indignadas desabavam sobre a direção do Hotel Estrela de Árcon. Os viajantes escandalizados queriam saber por que o hotel mais sofisticado de Ent-Than acolhera selvagens nus, e ainda lhes permitira que utilizassem um local de pouso destinado ao público.
A direção e seus robôs não sabiam o que fazer. Ninguém acreditou quando afirmavam ignorar os fatos e nada ter a ver com a estranha ocorrência. Mas ninguém se lembrou de entrar em contato com a administração da prisão, situada na parte superior do edifício. A prisão funcionava no local há duzentos anos, e até então nenhum prisioneiro conseguira fugir dali.
— Ainda não? — perguntou Ostal pela oitava vez.
— Não, major! — o Tenente S. Seegers não se recordava de ter respondido a uma pergunta com tamanha alegria.
A mata aproximou-se vertiginosamente e o arvoredo tornou-se cada vez mais denso. Depois de algum tempo, viram uma pequena clareira. O ruído do motor superaquecido cessou de repente. O mecanismo de frenagem chiou perigosamente mas teve força para deter a marcha do táxi aéreo.
O veículo pousou suavemente na vertical.
Com um forte ruído, a escada rolante foi descida. A porta da cabina abriu-se automaticamente. Trinta e um terranos saíram apressadamente do táxi e procuraram abrigar-se embaixo das árvores. Logo depois, o Tenente S. Seegers também saltou. O Major Ostal ainda tinha algo a fazer. Precisava livrar-se do táxi aéreo, que poderia trair sua presença.
Era um empreendimento temerário, mas Clyde não perdeu tempo.
O motor voltou a rugir. Ostal pousou a mão direita na alavanca de aceleração. Com um gesto tranqüilo, mas rápido, verificou a direção robotizada. O táxi tomaria o rumo leste e depois de um vôo de oito minutos cairia de três mil metros de altura, a não ser que, antes disso, uma nave policial dos ekhônidas se defrontasse com o veículo e constatasse não haver piloto nem passageiros.
Ostal ergueu-se na poltrona, virou o corpo para a porta que continuava aberta e empurrou a alavanca, colocando-a na posição máxima de aceleração.
Em meio ao rugido do motor maltratado, que numa decolagem vertical rasante fez estremecer o táxi, o major saltou.
A grama macia amorteceu a queda. Uma sombra passou acima dele, sobrevoou as copas das primeiras árvores e tomou o rumo leste, passando da vertical para um vôo ascendente de 15 graus.
Dali a um minuto, o silêncio fez-se presente. Não se ouvia mais o rugido do motor. De repente, alguém disse:
— Quero ver como vai acabar isto! O Major Ostal advertiu-o:
— Sargento Brack, não seria nada mau se o senhor passasse a pensar um pouco. Falar não adianta.
As mesmas palavras foram proferidas por Egg-or, chefe da Defesa Planetária de Ekhas, quando este, depois de um vôo vertiginoso iniciado no quartel-general da frota arcônida, chegou à sede do organismo por ele comandado e deixou que um dos sete milicianos lhe apresentasse o relatório.
Repreendeu o Chefe de Polícia de Ent-Than.
— Do-Man, já avisou as lojas de confecções de que, nesta noite, vários assaltos poderão ocorrer? Ainda não? Permite que lhe pergunte quando pretende fazer isso? A informação deve ser transmitida num raio de setecentos e cinqüenta quilômetros. Avise também as lojas de armamentos e de alimentos. Reflita para descobrir quem mais deve ser avisado. Muito obrigado, Do-Man!
Abatido, Do-Man saiu do gabinete. Os seis colegas, que não puderam retirar-se, sentiram inveja. Do-Man já estava livre, enquanto eles tinham tudo pela frente.
Mas Egg-or não era um homem que só sabia repreender seus colaboradores. Assim que a porta se fechou atrás de Do-Man, Egg-or acomodou-se em sua poltrona e principiou em tom tranqüilo:
— Precisamos prender os trinta e três terranos. Seus rostos há uma hora estão sendo exibidos ininterruptamente pela televisão. Seria fácil prendê-los, se não fossem terranos. Bem, eu...
Subitamente a tela à sua frente iluminou-se, e o rosto de Exwin, chefe do Setor de Controle do Espaçoporto de Ent-Than surgiu; parecia muito nervoso.
— Pois não — disse Egg-or e levantou o rosto.
Sabia que uma surpresa o aguardava. Mas não sabia se era uma surpresa agradável ou desagradável.
— Egg-or, há pouco menos de uma hora pousou a nave cilíndrica Mab I, que é a primeira nave do clã dos saltadores Mabdan. O controle dos documentos e da carga destinada a Ent-Than, não trouxe qualquer novidade. Mas, numa visita casual à sala de rádio, ficamos sabendo que a Mab I dispunha de um segundo hipertransmissor, que foi destruído durante o vôo para Ekhas.
“Egg-or, se as investigações realizadas por nossos funcionários tivessem conduzido a um resultado satisfatório, eu não teria chamado a esta hora. Acontece que nenhum dos tripulantes soube dar qualquer informação sobre a finalidade do aparelho e sobre o motivo de sua destruição.
“Depois mandei realizar um controle mais rigoroso da Mab I. Constatou-se que havia um excesso de pelo menos quatro pessoas, talvez seis, em relação às listas de ocupantes. Além disso, constatou-se a ausência de Mabdan I. Os tripulantes não puderam dar qualquer informação sobre o paradeiro do patriarca dos saltadores e alegam nada saber sobre a presença de outras pessoas a bordo. Todos asseveraram que, quando a Mab I iniciou sua viagem para o sistema de Naral. Mabdan I se encontrava a bordo.
“Então resolvi colocar a nave sob quarentena. Ainda está sendo revistada. Também destaquei quatro especialistas para examinarem o computador positrônico de bordo.”
À medida que Exwin falava, o nervosismo de Egg-or crescia.
Sua intuição lhe disse haver uma ligação entre a nave apresada, a Tigris, e a Mab I, que pousara há uma hora.
— Obrigado pelas informações, Exwin — disse. — Submeta os saltadores a rigorosos interrogatórios individuais. Destaque mais três ou quatro homens para o exame do computador de bordo. Já entrou em contato com o porto de origem da Mab I?
— Ainda não — respondeu Exwin.
— Pois faça-o imediatamente. Chame-me assim que houver outras informações, seja qual for a hora.
Egg-or desligou.
Com uma expressão pensativa, fitou seus colaboradores. Estes não se atreveram a dirigir-lhe a palavra. Todos eles sabiam que muitas vezes o chefe, sem sair da escrivaninha, resolvera problemas que todo o Serviço de Defesa, mesmo em estado de prontidão, não conseguia solucionar.
Egg-or era uma das poucas pessoas em que a intuição se equilibra com a inteligência. Era um dos que muitas vezes seguia a inspiração do momento, deixando para trás o intelecto.
— Pois bem — disse como alguém que desperta subitamente de um cochilo. — Os senhores sabem perfeitamente como devem agir. Façam tudo que estiver a seu alcance para que, até amanhã, os terranos sejam recapturados. Se não me encontrarem no meu gabinete, lá mesmo poderão obter informações sobre o lugar onde posso ser localizado.
Perplexos, os colaboradores retiraram-se do gabinete do chefe. Imaginavam que o encontro fosse muito diferente, e não puderam livrar-se da impressão de que o fim abrupto da palestra tinha alguma relação com o chamado de Exwin.
E tinha mesmo.
Egg-or dirigiu-se ao espaçoporto. Entrou no Serviço de Defesa Planetária no momento em que Exwin terminava uma palestra de hiper-rádio com Soral, situado a 4,7 anos-luz de Árcon.
Exwin, um ekhônida de tamanho descomunal, dava a impressão de ter chegado ao fim de suas forças.
Era a única pessoa que se encontrava na sala, além de Egg-or. Com um movimento cansado, desligou o microfone.
— Egg-or, o senhor ouviu com quem acabo de falar?
— Naturalmente; com Soral. A Mab I veio desse planeta?
Exwin fez que sim e aos poucos foi recuperando as forças. Devia ter sofrido um tremendo choque.
— Isso mesmo, Egg-or. A Mab I decolou de Soral, com destino a Ekhas. Mabdan I encontrava-se a bordo, gravemente enfermo. Como o comandante não estivesse em condições de desempenhar suas funções, estas foram atribuídas a Mabdan III, sem que seu clã fosse consultado ou sequer avisado. Egg-or, gostaria de descobrir onde estão Mabdan I e III. Nem mesmo os saltadores sabem!
— Os mercadores galácticos foram interrogados sobre o número de transições que realizaram durante o vôo para Ekhas?
— Foram. Todos informaram ter havido cinco transições. E esta informação foi confirmada pelo computador de bordo.
O alto-falante interrompeu-os com uma pergunta:
— Sassas poderia falar com o senhor? Exwin aproximou a boca do microfone.
— Mande Sassas entrar. Dirigindo-se a Egg-or, disse:
— Sassas e seus colegas examinaram o computador da Mab I.
Um ekhônida velho, de costas encurvadas, entrou na sala. Pela expressão de seu rosto concluía-se que as notícias que trazia não eram boas.
— Sente, Sassas — pediu Exwin. Sua voz exprimia impaciência.
Em virtude disso, o especialista foi diretamente ao assunto.
— Aqui — disse em tom nervoso, apontando para uma quantidade enorme de coordenadas que, vistas em conjunto, representavam uma curva colorida. — Foi aqui que a Mab I retornou ao nosso Universo, depois do quarto salto. Ponto de penetração: área interditada 00674 B-00001.
— 00001? — perguntou Egg-or em tom sobressaltado, enquanto Exwin ainda quebrava a cabeça. — Sassas, 00001 não é o...?
— Sim senhor, é o inferno solar, e como tal consta do catálogo de zonas interditadas sob o número 00674 B-00001.
— Sassas, deve haver algum engano! — objetou Egg-or em tom enérgico.
— É perfeitamente possível que eu me engane, senhor, mas um computador positrônico não erra. Estas coordenadas foram retiradas do computador da Mab I. Acontece que a nave dos saltadores não só penetrou no setor dos quatro sóis infernais, mas por ali cruzou mais ou menos ao acaso, durante mais de três horas, até que recebesse uma hipermensagem que se resumia a uma palavra: Árcon.
— Um momento — disse Egg-or e lançou um olhar de perplexidade para Exwin e Sassas. — O que diz o catálogo estelar sobre o setor do inferno solar? Não consta que por lá é impossível qualquer contato pelo hiper-rádio, bem como a astronavegação? Há algo de errado nisso, Sassas.
— Apenas estou repetindo as informações do computador da nave cilíndrica — repetiu Sassas em tom obstinado. — O mais estranho é que a Mab I saltou, numa única transição, do inferno solar ao nosso planeta, e isso, segundo dizem os funcionários encarregados do inquérito, sem que houvesse um comandante a bordo.
Egg-or dirigiu-se a Exwin.
— Volte a chamar Soral. A troca de comando da Mab I parece-me bastante suspeita. Nenhuma administração arcônida se atreveria a tentar mexer na estrutura dos clãs dos mercadores galácticos. E, pelo que dizem, as autoridades portuárias de Soral não só mexeram nessa estrutura, mas invadiram-na sem dar a mínima atenção à sagrada hierarquia. Posso acreditar em muita coisa, mas nisso não acredito! Vamos logo, Exwin, entre em contato com Soral. Não chame o espaçoporto, mas a administração arcônida.
Mas o contato pelo hiper-rádio não chegou a ser estabelecido.
O General Sutokk chamou do quartel- general. Seu rosto, que não agradara ao Major Clyde Ostal, quando o tinha visto na tela da Tigris, provocou uma sensação estranha em Egg-or.
— Quer dizer que, desta vez, as informações que recebi de sua repartição foram corretas, não é, Egg-or? — começou indagando. — Quer saber por que estou chamando? Ouvi algumas histórias estranhas relativas a uma nave dos saltadores. Já lhe ocorreu a idéia de que esse clã dos saltadores poderia estar colaborando com Perry Rhodan? Entregue-me os tripulantes da nave por algumas horas, e meus oficiais fornecerão a você excelentes confissões. Assim, nós ficaremos sabendo onde se encontram as quatro ou seis pessoas que entraram furtivamente em Ekhas a bordo da Mab I.
— Está pensando numa lavagem cerebral, general? — perguntou Egg-or em tom áspero.
— Naturalmente.
— Muito bem — respondeu Egg-or. — Ainda tenho de liquidar um assunto urgente. Depois lhe comunicarei minha decisão.
— Aguardo sua chamada, Egg-or — disse o general e desligou.
Egg-or não deu a menor atenção ao olhar indagador de Exwin.
— Exwin, preste atenção. Haja o que houver, nenhum terrano e nenhum saltador da Mab I será submetido à lavagem cerebral com o meu consentimento. Se a frota espacial de Árcon quiser cometer alguma arbitrariedade e você tiver conhecimento disso, reaja da forma que reagiria se quisessem submeter um filho seu à lavagem cerebral. Bem, agora chame o administrador de Soral.
Dali a poucos minutos, ouviu-se a resposta:
— Nos próximos nove dias, não será possível falar com o administrador do computador-regente.
Egg-or pegou o microfone:
— Nesse caso, ligue-me com o chefe de Defesa de Soral, com meu colega En-E.
A voz bocejante respondeu:
— Será que o senhor não sabe que já é meia-noite? Volte a chamar amanhã de manhã. Desligo.
Egg-or e Exwin praguejaram a valer, mas calaram-se um tanto assustados quando ouviram a risadinha de Sassas.
O especialista em computação esfregou as mãos de contentamento.
— Gostei de ouvir isso. Todos nós já estamos fartos dos arcônidas e de sua máquina.
— Não foi isso que nós dissemos — opôs-se Egg-or, procurando dominar a raiva.
— Não — confirmou Sassas. — Os senhores não disseram isso.
Piscou os olhos de contentamento.
— O general aguarda uma resposta — lembrou Exwin ao superior.
— Se voltar a chamar, diga-lhe que tive de sair com destino ignorado. Se o senhor quiser falar comigo, ou se surgir uma novidade importante, estarei na Mab I. Preciso dar uma olhada nos saltadores.
Egg-or mandou que o levassem à nave cilíndrica. A ampla rampa de carga estava abaixada, e quantidades imensas de mercadorias saiam da nave estelar numa fita rolante. Antes que o primeiro robô de trabalho pegasse cada volume, este passava por três controles duplos, que parariam automaticamente a fita se, em algum, estivesse escondido um ser humano.
Egg-or entrou na nave pela pequena rampa dianteira. Os especialistas do Serviço de Defesa continuavam a trabalhar na sala de comando e na sala de rádio. Os tripulantes estavam trancados no maior dos camarotes. Vez por outra, um deles era chamado para ser reinterrogado.
Os métodos usados pelos homens de Egg-or não chegavam a ser brutais. No entanto, só mesmo uma pessoa dotada de extraordinária força de vontade resistiria por muito tempo à contínua tensão psíquica.
Egg-or acompanhou com o rosto indiferente, como simples ouvinte, o interrogatório de um saltador muito jovem.
Segundo suas declarações, estivera de serviço na sala de rádio depois da segunda transição.
Nesse ponto, começou o interrogatório propriamente dito. Pergunta, resposta, pergunta, resposta — durante dez minutos, e depois novamente: pergunta, resposta, pergunta, resposta.
Vinte minutos já se haviam passado. Pergunta, resposta, pergunta, resposta. O jovem saltador estava próximo à exaustão total.
— Como feriu a mão direita? Responda imediatamente.
Pela primeira vez o mercador galático estacou, soltou uma risada forçada e perguntou em tom ligeiramente irônico:
— Que ferida? — examinou a mão direita e começou a gaguejar: — Isso está muito feio.
— Com quem foi que andou brigando?
— Eu? Faz três semanas que não brigo com ninguém.
— Acontece que o ferimento de sua mão foi provocado por um golpe. Será que você sofreu uma queimadura, quando o segundo hiper-rádio foi destruído com um radiador térmico? Quem foi que o destruiu? Responda logo, saltador.
— Um momento. Realmente aconteceu uma coisa. O que foi mesmo?
— Responda logo. Não me faça perder tempo.
— Deixe esse jovem refletir — interveio Egg-or.
Teve a impressão de que o rapaz realmente se esforçava para lembrar-se de alguma coisa.
Subitamente Egg-or estacou. Viu o saltador em luta com suas próprias recordações. Viu que se esforçava para arrancar do passado aquilo de que se esquecera.
Fizeram alguma coisa com esse mercador galático”, pensou.
Ficou profundamente decepcionado ao notar que o jovem saltador não sabia explicar como ferira a mão.
Neste meio tempo, Exwin não se mantivera inativo.
Solicitara e obtivera do grande arquivo da administração arcônida de Ekhas todos os dados sobre o terrível setor 00674 B-00001, também conhecido como o inferno solar. E os dados lhe pareceram tão importantes que resolveu entrar em contato com o chefe, que se encontrava a bordo da Mab I.
Muito tenso, Egg-or entrou na sala de rádio da nave cilíndrica, viu o rosto de Exwin na tela e, enquanto se acomodava numa poltrona, disse:
— Fale, Exwin!
Este ofereceu um resumo dos dados relativos ao inferno solar.
— Faça o favor de repetir o que o senhor acaba de dizer — disse Egg-or subitamente em tom nervoso e inclinou o corpo para a frente.
— Pois não. Os campos gravitacionais extremamente intensos mais a massa extraordinária de quanta e as radiações altamente concentradas podem exercer influência negativa sobre os circuitos elétricos do sistema nervoso de um arcônida. Caso haja uma permanência prolongada no setor 00674 B-00001, poderão ocorrer depressões e estados de angústia. A Oak-Oak, uma nave já desativada...
— Basta! — interrompeu Egg-or. — Isso é muito interessante. Assim se explica por que os tripulantes não sabem nada sobre o paradeiro dos dois Mabdans. A permanência no inferno solar provoca, além de depressões, estados de angústia e coisa que o valha, a perda da memória. Mas, nem por isso, sabemos onde estão Mabdan I e III, ou quem são os homens que saíram da Mab I assim que a nave pousou.
Alguém o interrompeu.
Um dos especialistas, que examinava o hiper-rádio, surpreendeu-o com a informação de que durante sua permanência no inferno solar a Mab I mantivera contato de rádio com outra espaçonave.
— Quero os detalhes! — disse Egg-or. Porém o cientista lamentou não poder fornecer outras informações. Lançou um olhar triste para as instalações de rádio da nave cilíndrica e disse:
— Este modelo antigo não possui qualquer centro de memória em que fiquem registradas as mensagens expedidas e recebidas. Já o modelo destruído por um raio térmico... Senhor, já lhe disseram que este tipo de hiper-rádio só costuma ser instalado nas naves de guerra do regente?
O contato com Exwin não fora interrompido; o chefe do setor espaçoporto acompanhara a palestra.
— Senhor — sugeriu a Egg-or — voltarei a chamar o planeta Soral e obrigarei aquele arcônida sonolento a ligar-me com quem de direito. Se o Serviço de Defesa de Soral não tiver competência para cuidar da Mab I, deverá haver outro organismo.
Egg-or fez um gesto de desânimo, que o obrigou a calar-se.
— Exwin, será que o senhor ainda não compreendeu que um verdadeiro arcônida é uma criatura indolente e irresponsável? Se nós não conseguirmos esclarecer o mistério, o caso se tornará um enigma para todo o sempre.
— Talvez possamos entrar em contato com o computador-regente.
Egg-or soltou uma gargalhada.
— Exwin, não proíbo que o faça, mas também não ordeno. Se eu fosse você, não faria nada disso. Acredita seriamente que o cérebro positrônico está informado sobre uma banalidade como esta? Vista sob um ângulo mais amplo, trata-se de uma insignificância. Só nós estamos quebrando a cabeça com isso.
Exwin parecia indignado.
— Senhor, recorri à polícia de estrangeiros para localizar quatro ou seis saltadores. Esclareci que um deles pode estar gravemente enfermo. Mas não foi possível encontrar os quatro mercadores galácticos, ou seis, que teriam vindo na Mab I. Até parece que há um feitiço...


6



O Hotel Estrela de Árcon era o maior de Ent-Than, muito embora um quinto do prédio servisse de prisão.
Perry Rhodan e seus três mutantes moravam na parte inferior do gigantesco edifício.
Saíram da Mab I poucos minutos após o pouso, sem adotarem qualquer cautela especial. Um táxi automático levou-os ao local de estacionamento dos táxis aéreos. Um desses veículos deixou-os na cobertura do Hotel Estrela de Árcon.
Foram registrados na recepção. Segundo os documentos que apresentaram, vinham de lugares diferentes. Nenhum deles declarou ter vindo na Mab I.
Os aposentos dos quatro terranos ficavam em três pavimentes diferentes. Dentro de trinta minutos, os mutantes deveriam apresentar-se a Perry Rhodan.
Antes de separar-se de Fellmer Lloyd, Perry Rhodan pediu ao telepata e localizador que recorresse a seu dom para localizar o Major Clyde Ostal e os tripulantes da Tigris.
Fellmer Lloyd gravara muito bem o modelo de vibrações cerebrais de Ostal. Mas por mais que procurasse, não encontrou a estrutura mental do major entre os milhares de modelos “tateados”.
Dali a meia hora, quando entrou no apartamento de Perry Rhodan, Kitai Ishibashi e Tako Kakuta já se encontravam presentes.
Lloyd compreendeu a pergunta telepática de Perry Rhodan.
Não — respondeu pela mesma forma. — Não consegui estabelecer contato.
Rhodan lançou-lhe um olhar pensativo. Não se esquecera do quadro com que se deparara no espaçoporto. A nave mercante Tigris estava pousada no setor reservado à frota arcônida. Todas as rampas haviam sido baixadas, e as comportas estavam abertas.
— Kakuta — disse, dirigindo-se ao teleportador franzino, cuja figura débil não se parecia com a de um mercador galático. — Gostaria de saber o que está acontecendo com a Tigris, e se ainda há algum tripulante a bordo. Não quero que assuma qualquer risco. Acha que dez minutos serão suficientes?
Kakuta, que, tal qual os outros três, possuía apenas fisionomia de um saltador, soltou uma risadinha.
— Voltarei pontualmente, Sir.
O ar começou a tremeluzir. As forças desenvolvidas pelo japonês fizeram-no abandonar o quarto, para ressurgir no lugar em que se concentrara: o camarote do Major Clyde Ostal, a bordo da Tigris.
Assim que o teleportador desapareceu, Fellmer Lloyd recebeu ordem de entrar em ação.
— Tente localizar no quartel-general das forças arcônidas o general-comandante. Precisamos descobrir o quanto antes onde está o Major Ostal e seus homens. Tenho a impressão de que estão nos procurando.
Fellmer Lloyd recostou-se confortavelmente na poltrona e fechou os olhos. Para ele, o mundo estava reduzido a modelos de vibrações cerebrais... Nem percebeu o que Perry Rhodan disse a Kitai Ishibashi, o sugestionador.
— Os tripulantes da Mab I nos causarão problemas, Ishibashi. Isso não representa nenhuma repreensão. Posso avaliar seu trabalho e dizer se foi ou não bem feito, mas sempre que se tem de realizar um serviço num prazo exíguo, deve-se contar com a possibilidade da ocorrência de panes de toda espécie. A captura da Tigris deve ter deixado os ekhônidas nervosos e ainda mais desconfiados. Passarão a submeter a um controle rigorosíssimo toda e qualquer nave que não seja de passageiros, e, durante esse controle, não poderão deixar de notar que a bordo da Mab I não há nenhum comandante.
— Posso influenciar as pessoas que estão examinando a Mab I.
— Já é tarde — disse Rhodan. — O número de pessoas que se ocupam com a nave dos mercadores galácticos já deve ter crescido muito e...
Kakuta, o teleportador, surgiu em meio a um tremeluzir. Sentou-se em sua poltrona como quem nunca tivesse saído dali. Rhodan e Ishibashi lançaram-lhe um olhar de expectativa. Fellmer Lloyd não via nem ouvia o que se passava em torno dele.
— Sir — principiou o japonês franzino. — Na sala de comando e de rádio da Tigris há uma quantidade enorme de cientistas da Defesa Planetária. O nome de seu chefe é Egg-or. Escutei-os falarem sobre ele. E, pelo que ouvi, concluí que morderam a isca.
Acreditam que, ao contrário do que antes supunham, saberão dentro de algumas horas onde fica o planeta Terra. Nenhum dos ekhônidas tem a menor desconfiança de que os dados, extraídos das máquinas com imensa dificuldade, possam ser falsos.
— Não descobriu nada sobre os tripulantes da Tigris? — indagou Rhodan.
— Absolutamente nada. Todos os ekhônidas se sentiam muito satisfeitos porque o trabalho seria concluído em breve. Ninguém falou dos nossos companheiros.
— Salte outra vez e tente localizar a nave do...
Nem tinha terminado de falar, o teleportador já havia desaparecido...
A seguir, Rhodan lançou um olhar atento para Fellmer Lloyd, que continuava sentado na poltrona, com os olhos fechados. Parecia ouvir atentamente.

— Ishibashi, não quero subestimar o Serviço de Defesa e a Polícia Aduaneira dos ekhônidas. Vá até a recepção e coloque uma “trava” nos cinco ou oito ekhônidas que trabalham lá.

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