Era um dos agentes mais antigos de Rhodan.
No entanto, recorrera a desculpas esfarrapadas para subtrair-se aos últimos três
controles mentais, que seriam realizados pelos telepatas de Rhodan... E foram “contemplados” com uma boa dose de azar: Allan
D. Mercant teve de recorrer justamente a Mabdan, quando se tornou necessário voar
para Ekhas.
A extrema urgência com que a operação se desenvolveu
desde o início não permitia recorrer a um saltador mais seguro que pudesse substituir
Mabdan.
Rhodan chamou Fellmer Lloyd.
— Assim que entrarmos na nave dos saltadores,
controle Mabdan. Tenho certos receios bem fundamentados.
O mercador galático encostou a Mab I ao lado
da nave de Rhodan. Este e seus três mutantes atravessaram o espaço que separava
as duas naves, usando trajes de saltadores. Os peritos em máscaras da Lotus haviam
criado verdadeiras obras-primas. Nem mesmo Rhodan se reconheceu ao olhar-se no espelho
e, ao entrar na comporta da Mab I, era Alf Renning.
Um jovem saltador recebeu-os com um largo sorriso
e, falando um intergaláctico carregado de gíria, convidou-os a comparecerem à presença
do “Senhor”.
Sem desconfiar de nada, os quatro terranos
entraram no camarote luxuosamente instalado. Fellmer Lloyd transmitiu uma mensagem
telepática ao seu chefe:
— Este é Mabdan III.
O número, que se seguia ao nome do clã dos
saltadores, indicava a graduação, e não era raro que esses números chegassem à casa
dos cinqüenta.
Mabdan III recebeu-os com o rosto amável. Irradiava
calma e segurança. O convite de tomar lugar foi dito em tom gentil, e Fellmer Lloyd,
que se concentrava ao extremo para ler os pensamentos do saltador, não descobriu
nada de alarmante.
Enquanto a palestra girava em torno de riscos,
perigos e ganhos monetários, e Perry Rhodan empurrava uma soma considerável para
o saltador, sem dizer uma palavra Lloyd captou outro impulso mental.
“Vem
do interior da nave, e é irresistível”, pensou.
Fellmer lançou um olhar para Kitai Ishibashi.
Este estava contando uma piada sobre astronautas, que provocou o riso de Mabdan
III, mas de repente o saltador ficou sério.
— O que foi que você disse por último, terrano?
— perguntou apressadamente, enquanto seu rosto mudava de cor.
O japonês alto e magro exibiu um sorriso misterioso:
— Eu disse Mabdan III...
No mesmo instante, um radiador de impulsos
surgiu na mão do saltador.
Desesperado, Fellmer Lloyd perguntou a si mesmo
por que não previra este momento, enquanto se via diante daquele saltador robusto
de cavanhaque.
Ishibashi não teve medo. No mesmo instante,
o mercador galático perderia a chance de matar alguém com o radiador de impulsos.
Já estava sendo tratado por Kitai. O japonês impunha cada vez mais intensamente
sua vontade a Mabdan III. Tinha certeza de que seria bem sucedido; mas nem se deu
conta de que já, por duas vezes, dera ordem sugestiva para que o saltador largasse
a arma.
Mabdan III nem pensava em obedecer.
Seu sorriso traiçoeiro era enervante. Abriu
a boca para dizer alguma coisa. Naquele instante, sentiu-se apavorado porque o ar
começou a tremeluzir à sua frente, e o pavor transformou-se em pânico quando o menor
dos terranos materializou-se à sua frente. Logo surgiu um punho que desferiu uma
forte pancada em seu pulso, arrancando-lhe a arma de impulsos. O pequeno terrano
mantinha-se ao lado de Kitai, controlando Mabdan III por meio da arma térmica.
Com um ligeiro salto de teleportação, Tako
Kakuta modificara a situação.
Fellmer Lloyd, que parecia lerdo, agiu com
uma rapidez surpreendente. Num instante acabou de desarmar Mabdan III, que estava
totalmente perplexo. Atirou sobre a mesa um projetor hipnótico arcônida do último
tipo e um paralisador.
No seu pânico, nem notou que Alf Renning lançara
um olhar ligeiro e penetrante para seu magro companheiro. Ishibashi concentrou-se
ao máximo para impor sua vontade ao saltador, mas suas investidas sempre davam no
vazio.
— Eu também não consigo atingi-lo! — disse
Fellmer Lloyd em inglês. — Não consigo captar claramente seu modelo de vibrações
cerebrais, e suas irradiações sensitivas estão totalmente alteradas. Com elas, não
se pode compor um quadro nítido.
Essas palavras foram dirigidas a Perry Rhodan
que, desde o momento em que a arma de impulsos surgiu na mão do saltador, se mantivera
imóvel. Apenas seu olhar caminhava de um lado para outro. Mais uma vez, fitou os
olhos do saltador, que representavam um enigma.
Não conseguiu chegar à solução do enigma.
— Perigo no convés! — disse Fellmer Lloyd em
tom de advertência. Encontrava-se atrás de Mabdan III, e segurava-lhe os braços
nas costas.
Dali a um instante, as armas encontradas em
poder de Mabdan III haviam sido distribuídas entre os homens. Lloyd foi o único
que preferiu dispensá-las. Teve de ocupar-se com Mabdan III, prosseguindo nas suas
tentativas de penetrar na mente do saltador.
— O perigo está chegando mais perto!
— falou para Rhodan e seus companheiros.
— São dois homens. Vêem buscar-nos.
Fellmer não conseguiu ler os pensamentos do
saltador. Havia alguma coisa que os protegia da interferência de Lloyd.
A porta do camarote abriu-se lentamente. Os
rostos de mais dois saltadores mudaram de cor quando se defrontaram com as armas
apontadas para eles. Sem que ninguém dissesse uma palavra, deixaram cair os projetores
hipnóticos.
— Ishibashi — disse Rhodan, enquanto fazia
um gesto enérgico para os saltadores apavorados, mandando que entrassem de vez no
camarote.
O sugestionador logo entrou em atividade. Mabdan
III teve a impressão de estar sonhando ao assistir à modificação inexplicável que
se processara no ânimo dos dois companheiros de nave. Subitamente sorriram para
os terranos, trocaram palavras amáveis e sentaram-se confortavelmente.
— Mabdan III está bloqueado, senhores — disse
Perry Rhodan sem outros comentários.
Kitai Ishibashi, o mais inteligente dos três
mutantes, compreendeu imediatamente o que Rhodan quis dizer.
Alguém traíra a parte da ação no sistema de
Naral que teria de contar com a cooperação do agente saltador Mabdan I. Numa hipótese
dessas o setor competente do computador-regente desenvolvera uma ação rápida e eficaz.
Em vez de Mabdan I, que era um agente terrano,
enviaram Mabdan III, desrespeitando a ordem de graduação dentro do respectivo clã.
Seu cérebro estava envolto por um bloqueio
hipnótico, que não podia ser rompido por Kitai Ishibashi. As forças sugestivas do
japonês tinham origem psíquica, enquanto a defesa hipnótica de Mabdan III era obra
de uma máquina hipnótica arcônida, que, no desempenho de sua impiedosa missão, não
sentia o menor escrúpulo em deformar o modelo das ondas cerebrais do saltador.
Mabdan III já não compreendia que sua vida
psíquica se precipitaria para o abismo da loucura, a não ser que os mutantes conseguissem
remover o bloqueio hipnótico que cercava sua mente.
Ainda refletindo sobre as palavras de Rhodan,
Fellmer Lloyd estremeceu. Mais uma vez, captara um estranho modelo de ondas cerebrais,
e, mais uma vez, este fora bastante confuso.
Começou a “tatear”.
Numa espécie de transe, explicou a Tako Kakuta
a localização do camarote do qual provinha o estranho modelo de vibrações cerebrais.
Perry Rhodan não teve nada a objetar contra
o salto de teleportação de Kakuta. Os dois mercadores encontravam-se sob o controle
de Ishibashi. Kitai ordenou-lhes que não vissem aquilo que se passava no interior
do camarote.
Num ligeiro tremeluzir, o delgado teleportador
desapareceu do camarote de Mabdan III, que, mais uma vez, acreditou que aquilo era
uma feitiçaria. Os outros dois saltadores pareciam nem tomar conhecimento do fenômeno.
Sentados num canto, conversavam despreocupadamente.
Lloyd estabeleceu contato telepático com Kakuta.
Este chegara a um pequeno camarote situado
no fim do grande convés. E, nesse camarote, jazia um homem inconsciente que apresentava
uma espantosa semelhança com Mabdan III.
Fellmer Lloyd não teve necessidade de dizer
nada. Perry Rhodan ligou-se ao contato telepático. E, através do intercâmbio mental
com Kakuta, ambos acompanharam a experiência com que o teleportador se defrontou
no pequeno camarote. Nas condições favoráveis em que se encontrava — estava bem
ao lado de Lloyd — Rhodan conseguiu captar-lhe os pensamentos que relatavam o que
acontecia com Kakuta.
— Já conheço este veneno. Não são os aras que
fabricam esta droga temporária, que, segundo a dose, reduz todas as funções orgânicas
a um mínimo por um prazo que vai até três meses? A pessoa respira apenas quatro
vezes por minuto.
O contato telepático entre Fellmer Lloyd e
Tako Kakuta sofreu uma interrupção temporária.
— Avise Kakuta de que deve voltar à sala de
rádio, saltando juntamente com Ishibashi — ordenou Perry em inglês, dirigindo-se
a Lloyd.
Quase no mesmo instante, o ar começou a “tremer” atrás de Mabdan III, e o teleportador
pequeno e franzino estava de volta.
Kitai Ishibashi aproximou-se de Kakuta e aguardou
novas ordens de Rhodan.
— Transmita imediatamente pelo rádio da Mab
I uma mensagem de emergência condensada dirigida à Lotus. Peça que a nave venha
o mais depressa possível. Ao encostar, deve manter-se em rigorosa prontidão. Devem
mandar a esta nave um comando de dez homens com doze robôs de guerra.
Enquanto Rhodan ainda estava falando, Kitai
Ishibashi colocou os braços em torno do débil teleportador. Não sentiu nem viu nada
quando o companheiro desmaterializou-se juntamente com ele no camarote, para reaparecer
na sala de rádio da nave cilíndrica.
Antes que os três saltadores de plantão na
sala de rádio pudessem olhar para trás, Ishibashi derramou sobre eles suas forças
sugestivas.
— Deixe-me sentar aqui, amigo — disse Kakuta,
dirigindo-se ao saltador que estava à frente do hipertransmissor.
O jovem mercador galático cedeu seu lugar sem
oferecer a menor resistência. E seus companheiros não se espantaram com isso. No
momento em que Tako Kakuta expedia a mensagem, achavam-se entretidos numa conversa
particular e riam de uma piada.
Pouco depois, voltaram a cuidar do seu serviço
como se nada tivesse acontecido. Não sabiam que acabavam de receber a visita de
dois desconhecidos. Ishibashi não recorrera às suas forças psíquicas para abrir
uma lacuna em sua memória. Apenas preenchera a falha por meio de uma ilusão, que,
para aqueles homens, não deixava de ser realidade.
Mabdan III, que continuava indefeso em sua
poltrona, não desconfiava do que se passava às suas costas. As palavras que os terranos
trocavam em língua inglesa eram incompreensíveis para ele.
Pela segunda vez, Kakuta teleportou-se para
o pequeno camarote no qual jazia o saltador inconsciente. Recebeu ordens para tentar
estabelecer a identidade do mesmo.
— Onde está Mabdan II? — perguntou Rhodan em
tom áspero ao saltador cuja mente estava bloqueada. — Acabamos de encontrar o chefe
de seu clã num pequeno camarote; está inconsciente. Dentro de alguns dias, os membros
de seu clã lhe perguntarão por que se apresentou como seu patriarca. Meu caro, acredito
que você terá algumas horas nada agradáveis pela frente. Então, saltador, onde está
Mabdan II?
As advertências de Perry Rhodan não causaram
a menor impressão naquele homem indefeso. Kitai Ishibashi disse ao chefe:
— Nada chega à mente dele, Sir. Tenho...
— Ah, é Perry Rhodan! — exclamou o saltador
com o rosto desfigurado.
Ao menos em parte, Kitai Ishibashi procurou
reparar o erro indesculpável que cometera ao chamar Rhodan de Sir. E enviou uma
sugestão para que o teleportador agisse imediatamente.
— Kakuta, salte imediatamente para a sala de
rádio. Procure verificar se existe algum hipertransmissor que irradia a conversa
travada neste camarote. Rápido, Kakuta!
No momento em que Mabdan III o chamou pelo
nome, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, mais uma vez se deu conta de
que o gigantesco cérebro positrônico instalado em Árcon III só tinha um objetivo:
descobrir a posição galáctica da Terra em quaisquer condições e mediante o emprego
dos meios mais traiçoeiros. O computador-regente queria eliminar Perry Rhodan e
transformar a Terra em colônia arcônida.
O cérebro gigante mandara reunir todos os dados
que eventualmente poderiam levar à identificação de Perry Rhodan, e o título Sir,
que costumava ser empregado na língua inglesa, era um desses dados.
Rhodan pensou mais longe. Admirou-se por ter
Mabdan III revelado sua descoberta de forma tão tola. Mas, subitamente, Fellmer
Lloyd o interrompeu em meio às reflexões:
— Sir... os modelos de vibrações cerebrais
de Mabdan III! Nunca vi uma coisa dessas, nem mesmo num louco.
Fellmer Lloyd também foi interrompido.
Kakuta apareceu, depois de um ligeiro tremeluzir.
Sangrava do lado esquerdo da cabeça. Mas não deu a menor atenção ao ferimento. A
notícia a ser transmitida era mais importante que a própria vida:
— Cada palavra que é falada aqui é irradiada
por um segundo hipertransmissor, que funciona na faixa do computador-regente. Agora
as transmissões cessaram.
O japonês franzino pediu desculpas num gesto
indescritível e exibiu a arma térmica a Perry Rhodan.
— Usei isto para terminar com as transmissões.
Não tive outra alternativa. Mas, a esta hora, isso pouco nos adianta. Não compreendo
por que Árcon ainda não apareceu com algumas dezenas de supercouraçados, para convidar-nos
gentilmente a comparecermos a bordo.
— Pois eu não me admiro nem um pouco — respondeu
Rhodan com um sorriso. — Afinal, ele conhece muito bem essa parte do Universo com
os quatro sóis invisíveis...
5
A administração da prisão ekhônida, situada
no hotel Estrela de Árcon, tinha concepções bastante rígidas sobre higiene, e sua
aplicação sempre produzira ótimos resultados, especialmente quando se tratava de
prisioneiros recém-chegados ao estabelecimento, vindos do espaço estelar.
Os aparelhos positrônicos permitiam que as
radiografias fossem feitas com a maior rapidez, mas a desinfecção completa levava
bastante tempo, apesar do uso dos excelentes produtos dos aras.
O Major Clyde Ostal e os homens de seu grupo
não paravam de admirar-se.
Naquele instante, estavam sendo levados à sétima
divisão. Ninguém se sentia muito à vontade. O elevador antigravitacional os conduziu
ao setor de exames virospectroscópicos.
A Divisão Virospectroscópica ficava no último
pavimento do gigantesco edifício.
Seis ekhônidas com armas de choque nas mãos
entregaram-nos na porta de entrada. Tal qual acontecera nas divisões anteriores,
não entraram logo nesse setor médico.
Quando o Tenente S. Seegers pretendia dirigir-lhe
a palavra, o Major Clyde Ostal repeliu-o com um gesto apressado. Estavam em fila
de dois. A pequena porta protegida por um potente campo energético fechou-se. O
Major Ostal não deu atenção ao fato. Dedicava sua atenção a uma pequena entrada
lateral, pela qual os médicos ekhônidas transitavam.
Mais uma vez, viu que essa porta lateral era
aberta por alguém que se encontrava na sala. E, desta vez, permaneceu aberta por
mais tempo. Um velho ekhônida parou na porta e gritou algumas palavras dirigidas
para cima.
Lá em cima havia uma fita rolante.
— Aí vem Hasting — disse o Tenente Seegers,
dirigindo-se a Ostal.
O Major compreendeu instantaneamente que, com
a chegada de Hasting, que quebrara o braço na barreira energética da entrada da
prisão, o grupo estava completo de novo.
O Tenente S. Seegers teve de fazer um esforço
para dominar-se, quando o Major lhe cochichou em tom insistente:
— Traga Hasting para cá!
Ainda se encontravam na comprida ante-sala
da Divisão Virospectroscópica, cujas paredes eram revestidas de plástico branco,
recebendo iluminação indireta de todos os lados. Os ekhônidas, que passavam apressadamente
pelo recinto, fitaram os terranos como se estes fossem bichos.
O Major Clyde Ostal olhou para a pequena porta
lateral, que ainda era mantida aberta pelo velho ekhônida.
Tinha a impressão de ouvir o ruído típico de
um táxi aéreo que decolava.
O Major Ostal sentiu uma mão pousada em seu
ombro. O Tenente S. Seegers disse em voz baixa:
— Hasting está aqui, mas...
A pequena entrada lateral voltou a fechar-se.
O velho ekhônida atravessou o recinto e desapareceu atrás de uma porta transparente,
atrás da qual se via uma sala cheia de aparelhos reluzentes.
— Escutem! — a exclamação enérgica de Clyde
Ostal, proferida a meia voz, fez com que todos aguçassem o ouvido. — Continuem a
falar baixinho, mas prestem atenção!
“A pequena porta à nossa esquerda leva à cobertura
com o heliporto. Assim que eu proferir a palavra Tigris, todos terão de providenciar
para que nenhum arcônida tenha tempo nem para gritar. A ação não deve consumir mais
de três segundos. Depois passem pela porta lateral, um por um. Existe uma fita rolante
que leva à cobertura. Não sei o que vamos encontrar lá...”
O major constatou que na grande ante-sala só
havia três ekhônidas.
Proferiu a palavra Tigris, que foi ouvida por
aquele grupamento de homens nus. Mesmo sem vestimenta, o pessoal sabia ser perigoso.
Não era por nada que Allan D. Mercant gozava da fama de buscar sempre métodos novos
que permitiam um treinamento mais perfeito de seus homens e uma defesa mais eficaz
contra os riscos com que se defrontavam quase constantemente.
Subitamente, três ekhônidas, que não desconfiavam
de nada e eram apenas médicos a serviço da Justiça de Ekhas, viram uma turba de
homens nus à sua frente. Ainda vislumbraram os punhos dos terranos. Mas, depois
disso, não viram nem ouviram mais nada. Inconscientes, ficaram estendidos no chão.
Os trinta e três pares de pés descalços correram
para a porta lateral que o Major Clyde Ostal abrira, encostando a mão esquerda à
roseta central.
Quando Clyde se encontrava na fita rolante,
que o levou rapidamente para a cobertura, olhou para trás. Seus homens o seguiam
com perfeição, como se estivessem realizando um exercício de ordem unida.
Arrumados em fila dupla, passaram pela porta
estreita. Ainda bem que a repentina sobrecarga não fez a fita rolante entrar em
pane.
Clyde Ostal levou quatro segundos para chegar
à cobertura. Sentiu-se ofuscado pela luz do sol amarelento de Naral. Olhou para
os lados, com as pálpebras semicerradas. Esperava encontrar guardas fortemente armados
no fim da fita rolante, e sentiu-se espantado por não vê-los.
— Tudo certo, major! — gritou alguém lá embaixo.
Dispunha apenas de quatro segundos. O último
dos homens chegou à cobertura.
Ouviu-se um grito estridente, vindo da esquerda.
Naquele instante, alguns viajantes desembarcavam
de um grande táxi aéreo, que se encontrava à esquerda.
À direita deles, a menos de vinte metros, encontrava-se
um veículo do mesmo tipo, cuja escada rolante achava-se baixada, mas parada.
A porta da cabina estava aberta, e também a
da carlinga do piloto.
— Deixem que gritem! — disse o Major Clyde
Ostal para seus homens. — Vamos pegar o táxi da direita!
Três segundos já se haviam passado. Apenas
oito homens ainda se encontravam sobre a fita rolante. Saiu correndo com os vinte
e quatro restantes.
— Seegers! — gritou, e logo ouviu a resposta
vinda da sua direita. — Seegers, venha comigo. Os outros entrarão na cabina.
Clyde Ostal tomou impulso, saltou. Ia agarrando
todas as saliências encontradas. Depois puxou-se para dentro da carlinga do piloto.
O Tenente S. Seegers seguiu-o de perto e fechou
a porta atrás de si.
— Os últimos estão chegando, major! Meu Deus,
os ekhônidas que nos viram aqui na cobertura nunca se esquecerão de nós!
Alguém anunciou da cabina:
— Lotação completa, major!
No mesmo instante, a porta larga da cabina
fechou-se ruidosamente e a escada rolante foi recolhida.
Ostal ligou imediatamente o motor e nem procurou
saber se podia desde logo acelerar ao máximo ou não.
O motor uivou. O táxi aéreo desprendeu-se do
solo e, apesar da decolagem vertical, acelerou rapidamente. Ainda se encontrava
a menos de vinte metros da cobertura quando Clyde Ostal colocou o veículo no rumo
da faixa escura situada bem além de Ent-Than que, segundo percebera durante o pouso
da Tigris, era formada por matas.
S. Seegers estava sentado à frente do rádio.
Apesar do ruído do motor, Ostal ouvia as transmissões. Até então ninguém falara
em sua fuga nas diversas faixas de ondas ligadas por Seegers.
* * *
Naquele momento, os médicos da Divisão Virospectroscópica
pensavam que os terranos estivessem sendo examinados no setor G 8, enquanto os doutores
desse setor acreditavam que os 33 se encontrassem com os viroanalistas. Os três
médicos inconscientes estavam jogados num canto da ante-sala, sem que ninguém lhes
desse atenção. Estavam cobertos com os jalecos verdes.
* * *
O táxi aéreo acelerava cada vez mais. O oceano
de casas de Ent-Than deslizou embaixo deles; os arrabaldes surgiram à sua frente.
O Major Clyde Ostal viu a mata distante aproximar-se
com uma lentidão incrível. Ainda não estava convencido de que sua ação desesperada
seria coroada de êxito. A sensação, que involuntariamente provocaram ao aparecerem
nus na cobertura do maior hotel de Ent-Than, não deixaria de produzir seus reflexos.
— O rádio ainda não diz nada sobre nossa fuga
— anunciou S. Seegers e sorriu como um menino que conseguiu praticar uma travessura
incrível. — Major, será que os hóspedes do hotel não desconfiam de que os pavimentes
superiores do Estrela de Árcon são uma prisão? Será que acreditam que somos uns
selvagens malucos, que pretendem regressar ao planeta de origem?
— Deixe de brincadeiras! — advertiu Ostal.
— Controle todas as faixas. Ainda não estamos sendo seguidos?
O major não poderia mesmo desconfiar de que
a suposição do tenente fora cem por cento correta. Naquele momento, vindas de todos
os lados, queixas indignadas desabavam sobre a direção do Hotel Estrela de Árcon.
Os viajantes escandalizados queriam saber por que o hotel mais sofisticado de Ent-Than
acolhera selvagens nus, e ainda lhes permitira que utilizassem um local de pouso
destinado ao público.
A direção e seus robôs não sabiam o que fazer.
Ninguém acreditou quando afirmavam ignorar os fatos e nada ter a ver com a estranha
ocorrência. Mas ninguém se lembrou de entrar em contato com a administração da prisão,
situada na parte superior do edifício. A prisão funcionava no local há duzentos
anos, e até então nenhum prisioneiro conseguira fugir dali.
— Ainda não? — perguntou Ostal pela oitava
vez.
— Não, major! — o Tenente S. Seegers não se
recordava de ter respondido a uma pergunta com tamanha alegria.
A mata aproximou-se vertiginosamente e o arvoredo
tornou-se cada vez mais denso. Depois de algum tempo, viram uma pequena clareira.
O ruído do motor superaquecido cessou de repente. O mecanismo de frenagem chiou
perigosamente mas teve força para deter a marcha do táxi aéreo.
O veículo pousou suavemente na vertical.
Com um forte ruído, a escada rolante foi descida.
A porta da cabina abriu-se automaticamente. Trinta e um terranos saíram apressadamente
do táxi e procuraram abrigar-se embaixo das árvores. Logo depois, o Tenente S. Seegers
também saltou. O Major Ostal ainda tinha algo a fazer. Precisava livrar-se do táxi
aéreo, que poderia trair sua presença.
Era um empreendimento temerário, mas Clyde
não perdeu tempo.
O motor voltou a rugir. Ostal pousou a mão
direita na alavanca de aceleração. Com um gesto tranqüilo, mas rápido, verificou
a direção robotizada. O táxi tomaria o rumo leste e depois de um vôo de oito minutos
cairia de três mil metros de altura, a não ser que, antes disso, uma nave policial
dos ekhônidas se defrontasse com o veículo e constatasse não haver piloto nem passageiros.
Ostal ergueu-se na poltrona, virou o corpo
para a porta que continuava aberta e empurrou a alavanca, colocando-a na posição
máxima de aceleração.
Em meio ao rugido do motor maltratado, que
numa decolagem vertical rasante fez estremecer o táxi, o major saltou.
A grama macia amorteceu a queda. Uma sombra
passou acima dele, sobrevoou as copas das primeiras árvores e tomou o rumo leste,
passando da vertical para um vôo ascendente de 15 graus.
Dali a um minuto, o silêncio fez-se presente.
Não se ouvia mais o rugido do motor. De repente, alguém disse:
— Quero ver como vai acabar isto! O Major Ostal
advertiu-o:
— Sargento Brack, não seria nada mau se o senhor
passasse a pensar um pouco. Falar não adianta.
As mesmas palavras foram proferidas por Egg-or,
chefe da Defesa Planetária de Ekhas, quando este, depois de um vôo vertiginoso iniciado
no quartel-general da frota arcônida, chegou à sede do organismo por ele comandado
e deixou que um dos sete milicianos lhe apresentasse o relatório.
Repreendeu o Chefe de Polícia de Ent-Than.
— Do-Man, já avisou as lojas de confecções
de que, nesta noite, vários assaltos poderão ocorrer? Ainda não? Permite que lhe
pergunte quando pretende fazer isso? A informação deve ser transmitida num raio
de setecentos e cinqüenta quilômetros. Avise também as lojas de armamentos e de
alimentos. Reflita para descobrir quem mais deve ser avisado. Muito obrigado, Do-Man!
Abatido, Do-Man saiu do gabinete. Os seis colegas,
que não puderam retirar-se, sentiram inveja. Do-Man já estava livre, enquanto eles
tinham tudo pela frente.
Mas Egg-or não era um homem que só sabia repreender
seus colaboradores. Assim que a porta se fechou atrás de Do-Man, Egg-or acomodou-se
em sua poltrona e principiou em tom tranqüilo:
— Precisamos prender os trinta e três terranos.
Seus rostos há uma hora estão sendo exibidos ininterruptamente pela televisão. Seria
fácil prendê-los, se não fossem terranos. Bem, eu...
Subitamente a tela à sua frente iluminou-se,
e o rosto de Exwin, chefe do Setor de Controle do Espaçoporto de Ent-Than surgiu;
parecia muito nervoso.
— Pois não — disse Egg-or e levantou o rosto.
Sabia que uma surpresa o aguardava. Mas não
sabia se era uma surpresa agradável ou desagradável.
— Egg-or, há pouco menos de uma hora pousou
a nave cilíndrica Mab I, que é a primeira nave do clã dos saltadores Mabdan. O controle
dos documentos e da carga destinada a Ent-Than, não trouxe qualquer novidade. Mas,
numa visita casual à sala de rádio, ficamos sabendo que a Mab I dispunha de um segundo
hipertransmissor, que foi destruído durante o vôo para Ekhas.
“Egg-or, se as investigações realizadas por
nossos funcionários tivessem conduzido a um resultado satisfatório, eu não teria
chamado a esta hora. Acontece que nenhum dos tripulantes soube dar qualquer informação
sobre a finalidade do aparelho e sobre o motivo de sua destruição.
“Depois mandei realizar um controle mais rigoroso
da Mab I. Constatou-se que havia um excesso de pelo menos quatro pessoas, talvez
seis, em relação às listas de ocupantes. Além disso, constatou-se a ausência de
Mabdan I. Os tripulantes não puderam dar qualquer informação sobre o paradeiro do
patriarca dos saltadores e alegam nada saber sobre a presença de outras pessoas
a bordo. Todos asseveraram que, quando a Mab I iniciou sua viagem para o sistema
de Naral. Mabdan I se encontrava a bordo.
“Então resolvi colocar a nave sob quarentena.
Ainda está sendo revistada. Também destaquei quatro especialistas para examinarem
o computador positrônico de bordo.”
À medida que Exwin falava, o nervosismo de
Egg-or crescia.
Sua intuição lhe disse haver uma ligação entre
a nave apresada, a Tigris, e a Mab I, que pousara há uma hora.
— Obrigado pelas informações, Exwin — disse.
— Submeta os saltadores a rigorosos interrogatórios individuais. Destaque mais três
ou quatro homens para o exame do computador de bordo. Já entrou em contato com o
porto de origem da Mab I?
— Ainda não — respondeu Exwin.
— Pois faça-o imediatamente. Chame-me assim
que houver outras informações, seja qual for a hora.
Egg-or desligou.
Com uma expressão pensativa, fitou seus colaboradores.
Estes não se atreveram a dirigir-lhe a palavra. Todos eles sabiam que muitas vezes
o chefe, sem sair da escrivaninha, resolvera problemas que todo o Serviço de Defesa,
mesmo em estado de prontidão, não conseguia solucionar.
Egg-or era uma das poucas pessoas em que a
intuição se equilibra com a inteligência. Era um dos que muitas vezes seguia a inspiração
do momento, deixando para trás o intelecto.
— Pois bem — disse como alguém que desperta
subitamente de um cochilo. — Os senhores sabem perfeitamente como devem agir. Façam
tudo que estiver a seu alcance para que, até amanhã, os terranos sejam recapturados.
Se não me encontrarem no meu gabinete, lá mesmo poderão obter informações sobre
o lugar onde posso ser localizado.
Perplexos, os colaboradores retiraram-se do
gabinete do chefe. Imaginavam que o encontro fosse muito diferente, e não puderam
livrar-se da impressão de que o fim abrupto da palestra tinha alguma relação com
o chamado de Exwin.
E tinha mesmo.
Egg-or dirigiu-se ao espaçoporto. Entrou no
Serviço de Defesa Planetária no momento em que Exwin terminava uma palestra de hiper-rádio
com Soral, situado a 4,7 anos-luz de Árcon.
Exwin, um ekhônida de tamanho descomunal, dava
a impressão de ter chegado ao fim de suas forças.
Era a única pessoa que se encontrava na sala,
além de Egg-or. Com um movimento cansado, desligou o microfone.
— Egg-or, o senhor ouviu com quem acabo de
falar?
— Naturalmente; com Soral. A Mab I veio desse
planeta?
Exwin fez que sim e aos poucos foi recuperando
as forças. Devia ter sofrido um tremendo choque.
— Isso mesmo, Egg-or. A Mab I decolou de Soral,
com destino a Ekhas. Mabdan I encontrava-se a bordo, gravemente enfermo. Como o
comandante não estivesse em condições de desempenhar suas funções, estas foram atribuídas
a Mabdan III, sem que seu clã fosse consultado ou sequer avisado. Egg-or, gostaria
de descobrir onde estão Mabdan I e III. Nem mesmo os saltadores sabem!
— Os mercadores galácticos foram interrogados
sobre o número de transições que realizaram durante o vôo para Ekhas?
— Foram. Todos informaram ter havido cinco
transições. E esta informação foi confirmada pelo computador de bordo.
O alto-falante interrompeu-os com uma pergunta:
— Sassas poderia falar com o senhor? Exwin
aproximou a boca do microfone.
— Mande Sassas entrar. Dirigindo-se a Egg-or,
disse:
— Sassas e seus colegas examinaram o computador
da Mab I.
Um ekhônida velho, de costas encurvadas, entrou
na sala. Pela expressão de seu rosto concluía-se que as notícias que trazia não
eram boas.
— Sente, Sassas — pediu Exwin. Sua voz exprimia
impaciência.
Em virtude disso, o especialista foi diretamente
ao assunto.
— Aqui — disse em tom nervoso, apontando para
uma quantidade enorme de coordenadas que, vistas em conjunto, representavam uma
curva colorida. — Foi aqui que a Mab I retornou ao nosso Universo, depois do quarto
salto. Ponto de penetração: área interditada 00674 B-00001.
— 00001? — perguntou Egg-or em tom sobressaltado,
enquanto Exwin ainda quebrava a cabeça. — Sassas, 00001 não é o...?
— Sim senhor, é o inferno solar, e como tal
consta do catálogo de zonas interditadas sob o número 00674 B-00001.
— Sassas, deve haver algum engano! — objetou
Egg-or em tom enérgico.
— É perfeitamente possível que eu me engane,
senhor, mas um computador positrônico não erra. Estas coordenadas foram retiradas
do computador da Mab I. Acontece que a nave dos saltadores não só penetrou no setor
dos quatro sóis infernais, mas por ali cruzou mais ou menos ao acaso, durante mais
de três horas, até que recebesse uma hipermensagem que se resumia a uma palavra:
Árcon.
— Um momento — disse Egg-or e lançou um olhar
de perplexidade para Exwin e Sassas. — O que diz o catálogo estelar sobre o setor
do inferno solar? Não consta que por lá é impossível qualquer contato pelo hiper-rádio,
bem como a astronavegação? Há algo de errado nisso, Sassas.
— Apenas estou repetindo as informações do
computador da nave cilíndrica — repetiu Sassas em tom obstinado. — O mais estranho
é que a Mab I saltou, numa única transição, do inferno solar ao nosso planeta, e
isso, segundo dizem os funcionários encarregados do inquérito, sem que houvesse
um comandante a bordo.
Egg-or dirigiu-se a Exwin.
— Volte a chamar Soral. A troca de comando
da Mab I parece-me bastante suspeita. Nenhuma administração arcônida se atreveria
a tentar mexer na estrutura dos clãs dos mercadores galácticos. E, pelo que dizem,
as autoridades portuárias de Soral não só mexeram nessa estrutura, mas invadiram-na
sem dar a mínima atenção à sagrada hierarquia. Posso acreditar em muita coisa, mas
nisso não acredito! Vamos logo, Exwin, entre em contato com Soral. Não chame o espaçoporto,
mas a administração arcônida.
Mas o contato pelo hiper-rádio não chegou a
ser estabelecido.
O General Sutokk chamou do quartel- general.
Seu rosto, que não agradara ao Major Clyde Ostal, quando o tinha visto na tela da
Tigris, provocou uma sensação estranha em Egg-or.
— Quer dizer que, desta vez, as informações
que recebi de sua repartição foram corretas, não é, Egg-or? — começou indagando.
— Quer saber por que estou chamando? Ouvi algumas histórias estranhas relativas
a uma nave dos saltadores. Já lhe ocorreu a idéia de que esse clã dos saltadores
poderia estar colaborando com Perry Rhodan? Entregue-me os tripulantes da nave por
algumas horas, e meus oficiais fornecerão a você excelentes confissões. Assim, nós
ficaremos sabendo onde se encontram as quatro ou seis pessoas que entraram furtivamente
em Ekhas a bordo da Mab I.
— Está pensando numa lavagem cerebral, general?
— perguntou Egg-or em tom áspero.
— Naturalmente.
— Muito bem — respondeu Egg-or. — Ainda tenho
de liquidar um assunto urgente. Depois lhe comunicarei minha decisão.
— Aguardo sua chamada, Egg-or — disse o general
e desligou.
Egg-or não deu a menor atenção ao olhar indagador
de Exwin.
— Exwin, preste atenção. Haja o que houver,
nenhum terrano e nenhum saltador da Mab I será submetido à lavagem cerebral com
o meu consentimento. Se a frota espacial de Árcon quiser cometer alguma arbitrariedade
e você tiver conhecimento disso, reaja da forma que reagiria se quisessem submeter
um filho seu à lavagem cerebral. Bem, agora chame o administrador de Soral.
Dali a poucos minutos, ouviu-se a resposta:
— Nos próximos nove dias, não será possível
falar com o administrador do computador-regente.
Egg-or pegou o microfone:
— Nesse caso, ligue-me com o chefe de Defesa
de Soral, com meu colega En-E.
A voz bocejante respondeu:
— Será que o senhor não sabe que já é meia-noite?
Volte a chamar amanhã de manhã. Desligo.
Egg-or e Exwin praguejaram a valer, mas calaram-se
um tanto assustados quando ouviram a risadinha de Sassas.
O especialista em computação esfregou as mãos
de contentamento.
— Gostei de ouvir isso. Todos nós já estamos
fartos dos arcônidas e de sua máquina.
— Não foi isso que nós dissemos — opôs-se Egg-or,
procurando dominar a raiva.
— Não — confirmou Sassas. — Os senhores não
disseram isso.
Piscou os olhos de contentamento.
— O general aguarda uma resposta — lembrou
Exwin ao superior.
— Se voltar a chamar, diga-lhe que tive de
sair com destino ignorado. Se o senhor quiser falar comigo, ou se surgir uma novidade
importante, estarei na Mab I. Preciso dar uma olhada nos saltadores.
Egg-or mandou que o levassem à nave cilíndrica.
A ampla rampa de carga estava abaixada, e quantidades imensas de mercadorias saiam
da nave estelar numa fita rolante. Antes que o primeiro robô de trabalho pegasse
cada volume, este passava por três controles duplos, que parariam automaticamente
a fita se, em algum, estivesse escondido um ser humano.
Egg-or entrou na nave pela pequena rampa dianteira.
Os especialistas do Serviço de Defesa continuavam a trabalhar na sala de comando
e na sala de rádio. Os tripulantes estavam trancados no maior dos camarotes. Vez
por outra, um deles era chamado para ser reinterrogado.
Os métodos usados pelos homens de Egg-or não
chegavam a ser brutais. No entanto, só mesmo uma pessoa dotada de extraordinária
força de vontade resistiria por muito tempo à contínua tensão psíquica.
Egg-or acompanhou com o rosto indiferente,
como simples ouvinte, o interrogatório de um saltador muito jovem.
Segundo suas declarações, estivera de serviço
na sala de rádio depois da segunda transição.
Nesse ponto, começou o interrogatório propriamente
dito. Pergunta, resposta, pergunta, resposta — durante dez minutos, e depois novamente:
pergunta, resposta, pergunta, resposta.
Vinte minutos já se haviam passado. Pergunta,
resposta, pergunta, resposta. O jovem saltador estava próximo à exaustão total.
— Como feriu a mão direita? Responda imediatamente.
Pela primeira vez o mercador galático estacou,
soltou uma risada forçada e perguntou em tom ligeiramente irônico:
— Que ferida? — examinou a mão direita e começou
a gaguejar: — Isso está muito feio.
— Com quem foi que andou brigando?
— Eu? Faz três semanas que não brigo com ninguém.
— Acontece que o ferimento de sua mão foi provocado
por um golpe. Será que você sofreu uma queimadura, quando o segundo hiper-rádio
foi destruído com um radiador térmico? Quem foi que o destruiu? Responda logo, saltador.
— Um momento. Realmente aconteceu uma coisa.
O que foi mesmo?
— Responda logo. Não me faça perder tempo.
— Deixe esse jovem refletir — interveio Egg-or.
Teve a impressão de que o rapaz realmente se
esforçava para lembrar-se de alguma coisa.
Subitamente Egg-or estacou. Viu o saltador
em luta com suas próprias recordações. Viu que se esforçava para arrancar do passado
aquilo de que se esquecera.
“Fizeram
alguma coisa com esse mercador galático”, pensou.
Ficou profundamente decepcionado ao notar que
o jovem saltador não sabia explicar como ferira a mão.
Neste meio tempo, Exwin não se mantivera inativo.
Solicitara e obtivera do grande arquivo da
administração arcônida de Ekhas todos os dados sobre o terrível setor 00674 B-00001,
também conhecido como o inferno solar. E os dados lhe pareceram tão importantes
que resolveu entrar em contato com o chefe, que se encontrava a bordo da Mab I.
Muito tenso, Egg-or entrou na sala de rádio
da nave cilíndrica, viu o rosto de Exwin na tela e, enquanto se acomodava numa poltrona,
disse:
— Fale, Exwin!
Este ofereceu um resumo dos dados relativos
ao inferno solar.
— Faça o favor de repetir o que o senhor acaba
de dizer — disse Egg-or subitamente em tom nervoso e inclinou o corpo para a frente.
— Pois não. Os campos gravitacionais extremamente
intensos mais a massa extraordinária de quanta e as radiações altamente concentradas
podem exercer influência negativa sobre os circuitos elétricos do sistema nervoso
de um arcônida. Caso haja uma permanência prolongada no setor 00674 B-00001, poderão
ocorrer depressões e estados de angústia. A Oak-Oak, uma nave já desativada...
— Basta! — interrompeu Egg-or. — Isso é muito
interessante. Assim se explica por que os tripulantes não sabem nada sobre o paradeiro
dos dois Mabdans. A permanência no inferno solar provoca, além de depressões, estados
de angústia e coisa que o valha, a perda da memória. Mas, nem por isso, sabemos
onde estão Mabdan I e III, ou quem são os homens que saíram da Mab I assim que a
nave pousou.
Alguém o interrompeu.
Um dos especialistas, que examinava o hiper-rádio,
surpreendeu-o com a informação de que durante sua permanência no inferno solar a
Mab I mantivera contato de rádio com outra espaçonave.
— Quero os detalhes! — disse Egg-or. Porém
o cientista lamentou não poder fornecer outras informações. Lançou um olhar triste
para as instalações de rádio da nave cilíndrica e disse:
— Este modelo antigo não possui qualquer centro
de memória em que fiquem registradas as mensagens expedidas e recebidas. Já o modelo
destruído por um raio térmico... Senhor, já lhe disseram que este tipo de hiper-rádio
só costuma ser instalado nas naves de guerra do regente?
O contato com Exwin não fora interrompido;
o chefe do setor espaçoporto acompanhara a palestra.
— Senhor — sugeriu a Egg-or — voltarei a chamar
o planeta Soral e obrigarei aquele arcônida sonolento a ligar-me com quem de direito.
Se o Serviço de Defesa de Soral não tiver competência para cuidar da Mab I, deverá
haver outro organismo.
Egg-or fez um gesto de desânimo, que o obrigou
a calar-se.
— Exwin, será que o senhor ainda não compreendeu
que um verdadeiro arcônida é uma criatura indolente e irresponsável? Se nós não
conseguirmos esclarecer o mistério, o caso se tornará um enigma para todo o sempre.
— Talvez possamos entrar em contato com o computador-regente.
Egg-or soltou uma gargalhada.
— Exwin, não proíbo que o faça, mas também
não ordeno. Se eu fosse você, não faria nada disso. Acredita seriamente que o cérebro
positrônico está informado sobre uma banalidade como esta? Vista sob um ângulo mais
amplo, trata-se de uma insignificância. Só nós estamos quebrando a cabeça com isso.
Exwin parecia indignado.
— Senhor, recorri à polícia de estrangeiros
para localizar quatro ou seis saltadores. Esclareci que um deles pode estar gravemente
enfermo. Mas não foi possível encontrar os quatro mercadores galácticos, ou seis,
que teriam vindo na Mab I. Até parece que há um feitiço...
6
O Hotel Estrela de Árcon era o maior de Ent-Than,
muito embora um quinto do prédio servisse de prisão.
Perry Rhodan e seus três mutantes moravam na
parte inferior do gigantesco edifício.
Saíram da Mab I poucos minutos após o pouso,
sem adotarem qualquer cautela especial. Um táxi automático levou-os ao local de
estacionamento dos táxis aéreos. Um desses veículos deixou-os na cobertura do Hotel
Estrela de Árcon.
Foram registrados na recepção. Segundo os documentos
que apresentaram, vinham de lugares diferentes. Nenhum deles declarou ter vindo
na Mab I.
Os aposentos dos quatro terranos ficavam em
três pavimentes diferentes. Dentro de trinta minutos, os mutantes deveriam apresentar-se
a Perry Rhodan.
Antes de separar-se de Fellmer Lloyd, Perry
Rhodan pediu ao telepata e localizador que recorresse a seu dom para localizar o
Major Clyde Ostal e os tripulantes da Tigris.
Fellmer Lloyd gravara muito bem o modelo de
vibrações cerebrais de Ostal. Mas por mais que procurasse, não encontrou a estrutura
mental do major entre os milhares de modelos “tateados”.
Dali a meia hora, quando entrou no apartamento
de Perry Rhodan, Kitai Ishibashi e Tako Kakuta já se encontravam presentes.
Lloyd compreendeu a pergunta telepática de
Perry Rhodan.
— Não
— respondeu pela mesma forma. — Não consegui
estabelecer contato.
Rhodan lançou-lhe um olhar pensativo. Não se
esquecera do quadro com que se deparara no espaçoporto. A nave mercante Tigris estava
pousada no setor reservado à frota arcônida. Todas as rampas haviam sido baixadas,
e as comportas estavam abertas.
— Kakuta — disse, dirigindo-se ao teleportador
franzino, cuja figura débil não se parecia com a de um mercador galático. — Gostaria
de saber o que está acontecendo com a Tigris, e se ainda há algum tripulante a bordo.
Não quero que assuma qualquer risco. Acha que dez minutos serão suficientes?
Kakuta, que, tal qual os outros três, possuía
apenas fisionomia de um saltador, soltou uma risadinha.
— Voltarei pontualmente, Sir.
O ar começou a tremeluzir. As forças desenvolvidas
pelo japonês fizeram-no abandonar o quarto, para ressurgir no lugar em que se concentrara:
o camarote do Major Clyde Ostal, a bordo da Tigris.
Assim que o teleportador desapareceu, Fellmer
Lloyd recebeu ordem de entrar em ação.
— Tente localizar no quartel-general das forças
arcônidas o general-comandante. Precisamos descobrir o quanto antes onde está o
Major Ostal e seus homens. Tenho a impressão de que estão nos procurando.
Fellmer Lloyd recostou-se confortavelmente
na poltrona e fechou os olhos. Para ele, o mundo estava reduzido a modelos de vibrações
cerebrais... Nem percebeu o que Perry Rhodan disse a Kitai Ishibashi, o sugestionador.
— Os tripulantes da Mab I nos causarão problemas,
Ishibashi. Isso não representa nenhuma repreensão. Posso avaliar seu trabalho e
dizer se foi ou não bem feito, mas sempre que se tem de realizar um serviço num
prazo exíguo, deve-se contar com a possibilidade da ocorrência de panes de toda
espécie. A captura da Tigris deve ter deixado os ekhônidas nervosos e ainda mais
desconfiados. Passarão a submeter a um controle rigorosíssimo toda e qualquer nave
que não seja de passageiros, e, durante esse controle, não poderão deixar de notar
que a bordo da Mab I não há nenhum comandante.
— Posso influenciar as pessoas que estão examinando
a Mab I.
— Já é tarde — disse Rhodan. — O número de
pessoas que se ocupam com a nave dos mercadores galácticos já deve ter crescido
muito e...
Kakuta, o teleportador, surgiu em meio a um
tremeluzir. Sentou-se em sua poltrona como quem nunca tivesse saído dali. Rhodan
e Ishibashi lançaram-lhe um olhar de expectativa. Fellmer Lloyd não via nem ouvia
o que se passava em torno dele.
— Sir — principiou o japonês franzino. — Na
sala de comando e de rádio da Tigris há uma quantidade enorme de cientistas da Defesa
Planetária. O nome de seu chefe é Egg-or. Escutei-os falarem sobre ele. E, pelo
que ouvi, concluí que morderam a isca.
Acreditam que, ao contrário do que antes supunham,
saberão dentro de algumas horas onde fica o planeta Terra. Nenhum dos ekhônidas
tem a menor desconfiança de que os dados, extraídos das máquinas com imensa dificuldade,
possam ser falsos.
— Não descobriu nada sobre os tripulantes da
Tigris? — indagou Rhodan.
— Absolutamente nada. Todos os ekhônidas se
sentiam muito satisfeitos porque o trabalho seria concluído em breve. Ninguém falou
dos nossos companheiros.
— Salte outra vez e tente localizar a nave
do...
Nem tinha terminado de falar, o teleportador
já havia desaparecido...
A seguir, Rhodan lançou um olhar atento para
Fellmer Lloyd, que continuava sentado na poltrona, com os olhos fechados. Parecia
ouvir atentamente.
— Ishibashi, não quero subestimar o Serviço
de Defesa e a Polícia Aduaneira dos ekhônidas. Vá até a recepção e coloque uma “trava” nos cinco ou oito ekhônidas que trabalham
lá.

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