sábado, 7 de setembro de 2013

P-070 - Últimos Dias de Atlântida - K. H. Scheer [parte 1]


Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN




A nave arcônida Tosoma trava sua luta final
— a quarta aventura de Atlan.



Atlan, o arcônida imortal, é o narrador.

Esteve presente, quando, depois de uma busca inesperada, o couraçado Drusus finalmente conseguiu pousar em Peregrino, o planeta da fonte da juventude.
Mesmo sem a interferência da misteriosa inteligência coletiva, conhecida como Ele ou Aquilo, os terranos conseguiram pôr em funcionamento a ducha revitalizadora. Perry teve a prioridade na aplicação do tratamento revitalizante. A ele seguiu-se Bell... No entanto, o inesperado acontece e faz Atlan rememorar os Últimos Dias de Atlântida.





= = = = = = =   Personagens Principais:   = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Reginald Bell — Que pretende matar-se antes de chegar ao estágio em que se transformará num bebê.

Gucky — Um rato-castor que teme pela vida do amigo.

Homunk — Uma maravilha da tecnologia dos robôs.

Atlan — Que revive o passado.

Tarts, Inkar, Ursaf e Cunor — Arcônidas mortos há milênios, que são “despertados” para uma nova vida pela memória fotográfica de Atlan.


1



Era um mundo sem horizontes, um astro em cuja construção foram utilizados recursos inimagináveis da tecnologia.
Seres de inteligência altamente desenvolvida haviam construído uma coisa que desde o momento que ali cheguei me arrancaram palavras de admiração.
Bem acima de minha cabeça, perto do campo defensivo quase invisível, a bola incandescente de um sol atômico artificial percorria a órbita previamente traçada. Em Peregrino, nome dado por Perry Rhodan ao planeta artificial, reinava a perfeição técnica e científica. Examinei as salas de várias centrais de comando. Depois tive a impressão de que o saber e a capacidade de meu venerável povo eram paupérrimos e superados.
Um povo galático antiqüíssimo gravara para sempre, nesse mundo artificial, tudo aquilo que nós, os arcônidas, esperávamos descobrir um dia.
Ao pensar em Árcon, meu mundo distante, mais uma vez me senti dominado pela tristeza. Mas um auto-exame crítico revelou que as saudades que sentia pelos três planetas já não eram tão intensas.
A menos de um quilômetro do lugar em que me encontrava, o gigantesco corpo de aço de uma nave espacial erguia-se para o céu azul do mundo sintético, envolto por uma gigantesca abóbada energética. Era a Drusus, um supercouraçado projetado por meu povo, mas construído na Terra.
Não houve nada que me convencesse tanto do progresso da raça humana, antigamente tão bárbara, como a construção dessa unidade mais moderna de sua frota. O diâmetro da esfera era de mil e quinhentos metros.
Provavelmente havia sido essa nave espacial e outras de sua espécie que tornaram menos ardente o desejo de regressar a meu mundo. Minha permanência prolongada no planeta Terra apagara as impressões que me enchiam a mente. As recordações de Árcon tomaram formas menos palpáveis.
Com os olhos semicerrados, fitei o astro rei artificial e fiquei refletindo sobre os estratagemas técnicos que mantinham o sol atômico em sua órbita. Evidentemente, encontrava-se dentro do campo energético abobadado que isolava o planeta Peregrino do vazio do espaço.
Com grande desprazer, rememorei os últimos dias. Peregrino havia sido atingido por uma interseção: o outro plano temporal. Os donos do espaço estranho fizeram o que estava a seu alcance para evitar que o mundo artificial lhes escapasse. E foi por isso que o ser coletivo recorreu à sua poderosa tecnologia, de que resultou um salto semelhante a uma transição, que levou seu mundo para fora da dimensão temporal dos druufs.
Perry Rhodan e eu tivemos de enfrentar o problema da localização daquele mundo, que já não se encontrava na dimensão normal. Na oportunidade, enfrentamos fenômenos físicos que meu cérebro se recusava a assimilar.
Senti-me vazio e desolado. Muita coisa caíra sobre nós. Aquilo que enfrentamos no espaço intermediário e instável, situado entre as dimensões compreensíveis, chegava a ser sobre-humano. Só mesmo um acaso que não constatamos no devido tempo, nem havia sido provocado por nós, fizera com que se preenchesse o conteúdo energético que, numa realidade dificilmente inteligível, contribuíra para a estabilização do espaço.
A lembrança dos problemas matemáticos me causava vertigens. Quando despertei do pesado sono tive de constatar que o Tenente Sikermann já pousara com a Drusus, que se mantinha à espera no Universo einsteiniano.
Voltei a contemplar a montanha de aço arcônida e plástico blindado. Do ponto em que me achava, a vista não abrangia toda a grandeza do couraçado. Tive a impressão de encontrar-me ao pé de uma montanha, cujo cume ficava numa distância inatingível. Mas, apesar do tamanho, aquele monstro de nave espacial voava cora uma espantosa segurança.
A ligeira batida sentida no peito fez com que me lembrasse de meu ativador celular que, durante o curso dos milênios, detivera o processo biológico de envelhecimento.
Quando fiquei sabendo que Perry Rhodan e alguns homens de sua equipe também haviam sido submetidos a um processo bioquímico de conservação celular, senti-me tomado por uma curiosidade angustiante. Ainda me lembrava do dia em que recebera o presente inconcebível do desconhecido.
Fazia muito tempo — quase dez mil anos do calendário terrano. Durante minha peregrinação pelos estágios da evolução da Terra quase me esqueci de pensar na origem do ativador celular. Só o aparecimento de Perry Rhodan fez com que me ocupasse novamente com o problema.
Havia estranhos paralelismos nos acontecimentos, que provavam sem dúvida que meu pequeno aparelho só poderia provir do estranho ser que concedera certo tipo de imortalidade a Rhodan.
Poucos dias antes, quando realizamos esforços desesperados para encontrar o planeta artificial, convencemo-nos de que essa imortalidade era bastante relativa. Era só nesse planeta que existia o chamado fisiotron, que poderia proporcionar ao organismo humano a necessária ativação celular.
No caso de Rhodan, a ducha celular — nome dado ao complicado processo — tinha uma eficácia de cerca de sessenta e dois anos. Uma vez decorrido esse prazo, as pessoas submetidas ao tratamento viam-se obrigadas a voltar para junto do fisiotron, pois do contrário seriam atingidas imediatamente pelo processo de envelhecimento.
Rhodan conseguira chegar ao planeta artificial no último instante. Ele e Reginald Bell penetraram na câmara de recarregamento, em cujo campo de desmaterialização verificou-se um fenômeno que não consegui compreender. De qualquer maneira, o fenômeno não estava ligado a um ato de criação, mas constituía tão-somente o produto de uma tecnologia bioquímica levada ao último estágio, e que se aproximara dos segredos da vida até as fronteiras do possível.
Um fato me causava espanto: eu nunca fui obrigado a comparecer em intervalos regulares ao planeta sintético a fim de receber a ducha celular. Apesar disso, não constatei o menor sinal de envelhecimento; parei no estágio da existência em que me encontrara ao receber o pequeno aparelho.
Era claro que procurava encontrar uma explicação para tudo isso. Viera na esperança de que o ser que dominava o planeta Peregrino me desse informações mais detalhadas. O problema puramente técnico despertara um interesse apenas secundário em minha mente. O que me parecia mais importante era o por quê...
Por que motivo o ser espiritual me entregara uma coisa que me permitiria conservar para sempre a juventude e a agilidade? Quando quis perguntar-lhe a este respeito, o planeta estava “ocupado”. Precisávamos libertar Peregrino do chamado espaço intermediário.
Uma vez libertado, Ele ou Aquilo não deu mais nenhum sinal de vida. O ser coletivo mantinha-se num silêncio total; até parecia que nunca esteve interessado em conversar com terranos e arcônidas.
As batidas em meu peito tornaram-se mais intensas. Um fluxo de impulsos revitalizantes parecia percorrer meu corpo. Só havia uma explicação logicamente plausível.
O ativador devia ser uma variante do grande fisiotron. Regulado para minhas vibrações individuais, entrava em funcionamento sempre que a divisão dos núcleos celulares e o metabolismo entrassem numa fase de instabilidade. Acontecia que nunca era desmaterializado, como acontecia com aqueles que eram submetidos à grande ducha. Por isso só podia tratar-se de uma série de impulsos-estímulo perfeitamente direcionados, que controlavam e regulavam os processos vitais de meu organismo. Não encontrei outra explicação.
Olhei para o relógio especial, inteiramente automático, que se encontrava em meu pulso. Na parte exterior da caixa à prova de água, liam-se as palavras Made in Terra.
Made in Terra — como soava isso! Tudo que trazia no corpo fora produzido na Terra. Até mesmo as platinas de almirante arcônida e o símbolo de minha família venerável haviam saído das fábricas terranas, por mãos humanas.
Com isso, minha caminhada longa e cheia de desvios pelos labirintos das primeiras fases da história da humanidade chegara ao fim. Rhodan, que há dois anos ainda considerara meu inimigo, transformara-se num amigo. Só faltava consolidar os laços de amizade e provar a Rhodan que desistira dos meus planos de fuga. Já sabia que nosso velho Império Arcônida estava sendo governado por um computador. Evidentemente, Rhodan sabia que em última análise eu pensava mais no meu povo que nos terranos, mas isso não afetou nosso bom relacionamento.
Vivera cerca de dez mil anos no planeta Terra. Chegara a hora de voltar ao lugar de nascimento. Rhodan me ajudaria; não havia a menor dúvida. Por isso mesmo, me cabia apoiar o soberano do Império Solar com todo saber e capacidade de que dispunha, isso naturalmente se ainda precisasse de auxílio. Já não podia contribuir muito para o desenvolvimento da ciência terrana, embora os antepassados remotos dos homens de hoje me tivessem venerado como se fosse um ser divino.
Encostei-me à parede compacta e lancei os olhos em direção à Drusus.
Os pequenos bárbaros do terceiro planeta do sistema solar se haviam tornado grandes e poderosos. Assistira a seu despertar, notara suas angústias e alegrias, seus erros e seu heroísmo silencioso. Mereciam que um homem clarividente os conduzisse pelo caminho certo.
Um profundo trovejar arrancou-me das minhas meditações. Uma torre de armamentos acabara de abrir-se no corpo gigantesco da nave.
Vi o raio energético ofuscante precipitar-se para o céu. Muito acima de minha cabeça a energia térmica atingiu o campo energético superpotente que envolvia o planeta. Antes que a onda de calor chegasse ao lugar em que me encontrava, procurei abrigar-me no solo e tateei em busca do micro videofone.
Empurrei a chave para baixo e aguardei o sinal verde. No momento em que este se acendeu, o rosto de Rhodan surgiu na tela, que era do tamanho de um selo do correio. Era sinal de que estava sentado à frente da objetiva.
— Ei, bárbaro, o que houve? — perguntei, falando para dentro do microfone.
Rhodan sorriu. Sua resposta soou um pouco estridente.
— Não aconteceu absolutamente nada, arcônida. Não vi outra possibilidade de lembrar-lhe que além de você existem outras pessoas...
Por um instante fiquei perplexo. Então esse terrano de olhos cinzentos mandara disparar um canhão energético da Drusus, apenas para chamar minha atenção ao fato de que havia ligado meu micro videofone.
— Esse método de chamar os amigos é bastante grosseiro — disse em tom ligeiramente irritado.
O pequeno alto-falante vibrou sob o efeito de sua risada.
— Isso é uma questão de opinião — disse com a maior tranqüilidade. — Posso saber onde você se encontra neste momento? Há quinze minutos tento entrar em contato com você.
— Estou perto da Drusus. Dei uma olhada nos controles dos conversores. Alguém teve a idéia de acoplar os projetores do campo defensivo com os computadores dos rastreadores estruturais. O resultado é o seguinte: se num raio de dez anos-luz ocorrer um abalo das fases, o dispositivo automático aumentará a potência do campo para cerca de dez bilhões de kwh.
— Como?
Achei graça no rosto espantado de Rhodan.
— Dez bilhões de quilowats-hora — repeti. — Isso representará um consumo de energia nada desprezível, não é? Não; não estou doido. O mundo em que nos encontramos tem a aparência de um prato de bolo achatado com uma cobertura de plástico... é um mundo dos inconcebíveis superlativos. Sinto muito se sua mente de homem primitivo não conseguir raciocinar com estas grandezas.
Sorrimos um para o outro. As pequenas zombarias entre mim e Rhodan já se haviam transformado num hábito. Muitas vezes não conseguia reprimir o desejo de lembrar-lhe que, quando a civilização arcônida se encontrava no auge, seus antepassados ainda moravam em cavernas.
— Foi a pé? — perguntou.
O tom de sua voz me surpreendeu. Rhodan devia ter visto em sua grande tela que eu caminhava.
— Está bem. Mandarei um pequeno planador para trazê-lo a bordo da Drusus. Se puder comparecer imediatamente ao pavilhão do fisiotron, ficarei muito agradecido a “Vossa Excelência”.
— Ao lugar em que está a ducha? Por quê? — perguntei em tom curioso.
— Mandarei o planador — disse, esquivando-se à pergunta. — Até logo mais. Desligo.
A tela de meu videofone de pulso apagou-se. Rhodan desaparecera.
Por alguns instantes, fiquei deitado no chão e lancei um olhar vazio para a Drusus. O comportamento de Perry fora estranho. Alguma coisa havia acontecido; eu o sentia.
O nervosismo começou a martirizar-me. Lembrei-me do espaço intermediário com seus efeitos surpreendentes e de Perry Rhodan, que entrara na ducha conversora celular durante um deslocamento transitório do eixo. Não podíamos esperar mais. Se não tivéssemos arriscado a renovação celular nessas condições, a esta hora Rhodan já seria um ancião física e psiquicamente esgotado.
Bastante tenso, esperei pelo planador antigravitacional em forma de disco, cujo piloto, sem dúvida, poderia dar-me informações mais detalhadas. Acontece que no gigantesco envoltório de aço da supernave tudo permanecia quieto. Face à pequena distância, não poderia deixar de ver a pequena mancha luminosa junto às comportas.
Levantei-me devagar, e comecei a sacudir o pó de meu uniforme terrano. Levei alguns segundos para lembrar-me de que em Peregrino não havia poeira, ao menos nas áreas das poucas cidades que Ele construíra segundo sua vontade e capricho. Não havia a menor dificuldade em transformar as partículas de poeira em condutores de eletricidade. E, uma vez feito isso, seria fácil sugá-las por meio de campos magnéticos direcionados.
Depois de mais alguns segundos de espera ansiosa, subitamente o ar começou a tremer à minha frente. A menos de dez metros de distância um corpo surgira pouco acima do solo.
O fenômeno parapsicológico da teleportação ainda costumava deixar-me um tanto perplexo. Os princípios do transporte de matéria por meio das forças dirigidas do espírito já eram conhecidos dos velhos cientistas arcônidas, mas nunca conseguimos realizar esse tipo de coisa.
Entre os mutantes de Rhodan, essa paramecânica complicada e superdimensional, no terreno da matemática, parecia ter-se transformado num esporte. Já travara conhecimento com dois teleportadores humanos e um não-humano. Todos eles pareciam ter em comum a alegria causada por aquilo que chamavam de saltar. Era uma maneira cômoda de locomoção, ou de transferência, para alguém que soubesse fazer um uso adequado das forças do espírito. Sem dúvida, eu mesmo nunca adquiriria essa faculdade.
Com uma indiferença propositada, olhei para a criatura de um metro que, tal qual eu, não nascera na Terra.
Gucky, foi este o nome que Rhodan deu ao rato gigante com rabo de castor, isso por causa de seus grandes olhos brilhantes. Aquela criatura inteligente equilibrava-se sobre duas perninhas enfiadas em graciosas botas.
Além disso, Gucky estava usando o uniforme espacial verde-pálido do Império Solar. Sobre o ombro esquerdo viam-se as insígnias de tenente do Exército de Mutantes.
Aquele ser engraçado era levado da breca. Travara conhecimento com ele, durante minha fuga em Vênus, e desde então estávamos ligados por uma amizade um tanto estranha, que se exprimia por meio de indiretas e discussões sutis.
— Olá, seu presunçoso! — disse a título de cumprimento. — Será que você é o planador que Perry me prometeu?
O longo focinho de rato parecia rir. Lancei um olhar fascinado para o dente roedor de Gucky, solitário, mas muito grande, que gostava de exibir sempre que havia oportunidade para isso.
A risada estridente da criatura extraterrana doeu nos meus ouvidos. Quando cessou, comecei a desconfiar. Quando em Vênus atirei um pedaço de madeira podre em Gucky, fiquei sabendo que suas risadas costumam ser mais prolongadas e impetuosas. Os seres de sua raça possuíam uma tendência quase incontrolável para as brincadeiras. E as risadas e brincadeiras tolas faziam parte dessa tendência.
— Eu sou o planador! — afirmou o rato-castor com um gesto grandioso. — Dê-me a mão, espião!
Franzi a testa e baixei os olhos para a pequena criatura que se aproximava calmamente. Para Gucky, eu continuava a ser um espião de Árcon.
Abaixei-me e, sem dizer uma palavra, tomei-o nos braços. Era leve; quase chegava a ser leve demais para seu tamanho. Provavelmente as inteligências do planeta Vagabundo tinham uma ossatura muito delicada. Em compensação, seu cérebro era muito potente.
Gucky lançou-me um olhar indagador. O dente roedor já havia desaparecido no interior da boca pontuda. Fitamo-nos por alguns segundos. Senti que o pequeno ser tremia de tensão. Nem tentou penetrar em minha mente por meio dos seus dotes telepáticos. Há anos me acostumara a recorrer a um monobloco para manter sob controle os impulsos de meu cérebro.
— O que houve? — perguntei. — Você está tão esquisito! Desde quando você se contenta em chamar-me apenas de espião? Em geral ainda há mais alguns comentários malignos. Então?
Vi que suas mãozinhas delicadas se contorciam. De repente segurou meu braço.
— Você sabe como funciona a ducha celular? Pode calcular seus efeitos ou modificar a máquina?
A voz de Gucky parecia mais estridente que de costume. A pressão das mãos tornou-se mais intensa. O rato-castor estava muito nervoso.
— A estrutura técnica do aparelho é conhecida — respondi. — Mas o fato de conhecer o funcionamento do campo de dissociação nem de longe significa que se compreenda a série de processos bioquímicos seguintes. Na minha opinião...
— Segure-me; vamos saltar — disse, interrompendo-me. — Você tem de ir ao pavilhão da ducha. Ora essa! Mal consigo concentrar-me.
Percebi que tinha muita dificuldade em concentrar-se. Voltei a perguntar qual era o motivo de seu nervosismo.
— Bell... é Bell — respondeu com o corpo trêmulo. — Estava recebendo a ducha celular quando começou o deslocamento das fases. Isso o afetou. Alguma coisa está acontecendo com ele. Não; não pense tão intensamente. Você está irradiando impulsos de interferência. Para um teleportador, é muito difícil transportar uma pessoa como você. Procure não pensar em nada; reforce seu bloqueio mental.
Tive a impressão de que esse mundo maluco havia chegado ao fim. Rhodan mandara um canhão pesado disparar para o alto, e o elemento que, sem dúvida, era a maior capacidade do Exército de Mutantes, tremia de medo por causa de Reginald Bell.
Controlei o nervosismo e procurei isolar as irradiações de meu cérebro. Dali a alguns segundos, senti uma ligeira dor. Gucky acabara de saltar comigo; era assim que chamava o fenômeno complicado que envolvia a criação de um campo de manobra individual na quinta dimensão.
Quando voltei a materializar-me, reconheci os contornos do aparelho em forma de coluna; era o fisiotron.
Um homem alto e esbelto caminhou devagar em minha direção. Os olhos de Rhodan irradiavam uma frieza apavorante. Eu o vira assim quando travamos uma luta de vida e morte num mundo deserto.
Parou à minha frente. Nossos olhares encontraram-se.
— Sua capacidade de cálculo é boa, almirante? — perguntou. — Não sei mais o que fazer.
Afastou-se um passo, permitindo que eu visse o conversor de ativação celular.
Junto à marca colorida que delimitava a área de segurança, vi um jovem oficial de cabelos curtos, cor de ferrugem, e rosto liso. Tive de olhar melhor para convencer-me de que a pessoa que estava à minha frente era Reginald Bell.
Alguma coisa apertou minha garganta. Com as pernas cambaleantes, aproximei-me da zona de perigo. O homem de olhos azuis-claros não se movia.
Procurei localizar as rugas profundas que nos últimos anos se haviam gravado na testa de Bell. As primeiras rugas haviam surgido depois do pouso lunar realizado em 1.971, quando acompanhara Perry Rhodan. No dia 14 de maio de 2.042 Bell completaria 104 anos de vida. E hoje era o dia 5 de maio do mesmo ano. Quer dizer que faltavam poucos dias para seu aniversário.
Há sessenta e dois anos, ele e Rhodan receberam a primeira ducha no planeta Peregrino. E, há cinco dias, entrara pela segunda vez no fisiotron, para submeter-se à imprescindível reativação celular.
Arrisquei mais um passo e parei. Será que esse jovem de rosto liso e inexpressivo realmente era Reginald Bell, o representante de Rhodan?
— Reginald, é o senhor? — perguntei em tom hesitante.
Quase não chegou a mover os lábios. Seu corpo mostrava menos gordura na altura dos quadris do que estava acostumado a ver.
— Quando, em meados da década de sessenta, um certo General Pounder me mandou à Academia Espacial recém-instalada, eu era assim — respondeu. Havia um certo pavor em sua voz. — Naquela época estava com vinte e sete anos.
Senti que o pavor começava a encher minha mente. Ao mesmo tempo, meu segundo cérebro, ativado há muitos milênios em Árcon, deu sinal de vida. A mensagem do setor de lógica foi resumida:
Atenção. Houve uma pane na segunda ducha. Verificou-se uma regressão. Está ficando mais jovem!”
A idéia atingiu-me com a força de uma martelada. Tive de esforçar-me para conservar o autodomínio. Meu sorriso devia parecer um pouco triste. Bell não reagiu ao mesmo. Senti que esse homem ativo e arrojado já se conformara com o fato de que sua vida chegara ao fim. Além de Rhodan, só se encontravam presentes os principais cientistas e oficiais da Drusus. O Dr. Arnulf Sköldson, médico-chefe da nave, estava parado junto ao Dr. Ali el Jagat, chefe da divisão matemática.
O rosto estreito de Jagat parecia indiferente, quando este me entregou uma fita-diagrama de plástico.
Iniciou imediatamente suas explicações. Compreendi que não havia tempo a perder. Seria insensato discutirmos demoradamente sobre o destino de Bell. Além disso, correspondia ao gênio de Jagat ir diretamente aos fatos.
— É a primeira avaliação de resultados, almirante. Neste momento, Bell encontra-se num estágio que corresponde ao trigésimo segundo ano de vida. O trecho em ângulo agudo indica o início do processo de regressão. As curvas abertas encerram o tempo-padrão, decorrido após a segunda ativação. Pelo que se depreende do diagrama, num prosseguimento contínuo do processo por setenta e duas horas, chega-se a um estágio inicial. Se o fenômeno não for detido, daqui a uns vinte dias estará transformado num bebê.
A idéia de ver Bell transformado num bebê robusto e travesso desencadearia uma série de risos, se a situação fosse menos trágica. Mas, naquele momento, ninguém moveu um músculo da face.
O diagrama representava o resultado de um pequeno cálculo. Não se precisava recorrer a fórmulas matemáticas complicadas para apurar a data aproximada em que aconteceria o estágio crítico.
Lancei um olhar indagador para o médico. Sköldson limitou-se a espalmar as mãos, num gesto de desamparo. Seu cabelo louro-claro pendia na testa enrugada.
— Não tem nenhuma solução, doutor? — perguntei.
— Nenhuma! Não tenho a menor compreensão do que se tenha passado no interior deste aparelho. Não entendo os fenômenos puramente físicos. E, no que diz respeito às modificações bioquímicas, não sei o que fazer. Para mim, o rejuvenescimento de um adulto é um fenômeno inconcebível, que infringe todas as leis da natureza.
— É o que acontece com todas as coisas neste planeta artificial — observou Bell com a voz débil. — Está bem. Não vamos perder mais tempo. Prefiro morrer a transformar-me num bebê.
Fitou-nos sem esperança, sem a menor vontade de viver. Depois de algum tempo, teve sua atenção atraída para uma figura alta e esbelta, que se mantinha nos fundos do recinto. Olhei para lá.
Havíamos dado ao robô biopositrônico o nome de Homunk. Era o produto de uma ciência que chegara ao fim de sua evolução. Não se poderia realizar uma construção mais aperfeiçoada, a não ser que se quisesse interferir na atividade do Criador dos mundos.
O rosto biossintético de Homunk exibiu um sorriso cortês. Sob o revestimento artificial de seu corpo havia um mecanismo que não tinha igual na Galáxia conhecida.
O microcérebro inteiramente positronizado revelava um desempenho que ainda não vira nas melhores das nossas máquinas. Naquele complicado centro de computação, os circuitos, que nós só poderíamos pôr para funcionar num espaço de pelo menos um metro cúbico, haviam sido abrigados num setor que media menos de um centímetro cúbico. O cérebro mecânico trabalhava com base em impulsos dirigidos, emitidos na base de oitenta milhões de reflexos por segundo. Não sabíamos qual era a capacidade de seu setor de memória. De qualquer maneira, Homunk era algo que poderia ser designado como perfeito.
O seu aspecto externo fora feito à imagem do terrano ou do arcônida. Seu mecanismo de fala era um trabalho em série de natureza biológica, dotado de um vibrador positrônico, cujos impulsos eletromagnéticos eram transformados em palavras audíveis e perfeitamente moduladas por meio de uma série de cordas vocais semi-orgânicas. Homunk era uma verdadeira maravilha. Mas, naquele momento, parecia falhar miseravelmente.
Rhodan fez um sinal para que o robô se aproximasse. Caminhou com passos grandes e elásticos. Seu sorriso estereotipado me arrancou uma observação pouco gentil.
— Parece que seu mestre e senhor também chegou ao fim de sua capacidade. Onde está o ser cuja gargalhada estrondosa costumava ser ouvida a cada instante?
Homunk parou. Seus olhos, que constituíam uma imitação perfeita, dirigiram-se para mim. Deu-me o tratamento de Sir, tal qual fazia com qualquer outra pessoa.
— Desde o momento em que fugiu do espaço intermediário, Ele não deu mais sinal de vida, Sir. Estou preocupado.
Um dos oficiais cosmonáuticos da Drusus soltou uma risada sem graça. Depois o silêncio voltou a reinar no grande recinto.
Quanto a mim, compreendi naquele instante que mais uma catástrofe havia acontecido. Aquilo estava desaparecido! Ao que parecia, o ser vivo, que reunia em si o espírito de milhões de inteligências desmaterializadas para formar uma imensa potência psíquica concentrada, parecia não ter resistido ao caos produzido pelo regresso do espaço intermediário. Naquele instante, éramos praticamente os donos do planeta artificial Peregrino.
Perry Rhodan limitou-se a fitar-me. Já formulara as perguntas decisivas antes de minha chegada. Agora preferia que eu tomasse a iniciativa.
Senti-me invadido pelo desespero. Os homens de minha raça não transpiram. Em compensação, senti que meus olhos se umedeciam. O setor lógico de meu cérebro manteve-se num silêncio obstinado. Ao que parecia, o segundo cérebro não via nenhum caminho viável.
Depois de um silêncio prolongado, Rhodan disse:
— Homunk sugere que repitamos a experiência. Há algumas semanas o planeta Peregrino penetrou numa zona de superposição do plano temporal dos druufs. Ao sair violentamente desse plano, o planeta foi parar numa dimensão intermediária instável. Se penetrarmos conscientemente na muralha do tempo e arriscarmos nova fuga em circunstâncias idênticas, deveremos acabar no espaço intermediário. Nesse caso, seria possível que Bell pudesse receber novamente a ducha celular.
Do rosto de Rhodan, deduzi que ele não via muitas possibilidades de êxito nesse plano.
— Isso é impossível — respondi em tom áspero. — Como é que você pretende fazer a massa imensa deste planeta passar pelo campo de retração?
— As máquinas gigantescas deste mundo permitiriam a criação de uma lente de tamanho suficiente.
Fiz um gesto negativo. Nem adiantava discutir sobre isso.
— De qualquer maneira, para mim seria tarde — disse Bell. — Atlan, o senhor tem uma idéia melhor? Estou perfeitamente lembrado do trabalho que desenvolveu antes e durante a ruptura temporal.
— Entre mais uma vez no conversor e arrisque tudo, para tentar deter o processo — disse o Tenente Sikermann.
Sacudi a cabeça.
A solução não era esta. O problema resultava de nosso desconhecimento sobre a maneira pela qual funcionava o fisiotron. Durante o tempo em que estivera submetido ao processo de revitalização, Bell fora atingido por pouco tempo pela distorção resultante do deslocamento das fases. Já sabíamos que a instabilidade do planeta no espaço intermediário decorria do conteúdo energético. Não havia a menor dúvida de que o plano intermediário guardava muito mais semelhança com a dimensão temporal dos druufs do que com nosso Universo einsteiniano de quatro dimensões.
Só mais tarde, soube que durante mais de uma hora fiquei imóvel diante do robô perfeito. Os homens da Drusus ainda se mantinham em silêncio, quando um impulso repentino e doloroso do setor de lógica de meu cérebro me arrancou das meditações.
Encontrara uma solução provisória. Restava saber se era praticável.
— Você chegou a um resultado? — perguntou Rhodan. — O que podemos fazer?
Senti-me exausto. Até mesmo para um cérebro arcônida, os problemas matemáticos assumiam dimensões excessivas. Por enquanto só pude dar algumas informações genéricas.
Quando olhei em torno, percebi que meus olhos quase se recusavam a funcionar. Rhodan aproximou-se. Seu rosto estava marcado pela preocupação.
— Você ainda está cansado dos esforços que fez — disse. — Será que pode concentrar-se mais uma vez? Tenho uma vaga idéia do assunto. Vejamos o que você “bolou”. Talvez nossas opiniões coincidam.
Sorri. Perguntei a mim mesmo por que já achara que este homem fora meu inimigo. Em Hellgate, quase cheguei a matá-lo. Os homens que cercavam Rhodan lembravam-me cada vez mais os velhos arcônidas comandados por mim, que há muitos milênios haviam lutado e sofrido no sistema solar terrano.
Foram amigos admiráveis e soldados valentes; e eram tão estimáveis como os terranos estavam ficando para mim. Reginald Bell, por exemplo, era o autodomínio em pessoa. Há poucos minutos começara a fazer pouco do destino. Dava a impressão de um combatente incapaz de demonstrar qualquer fraqueza. Evidentemente sabia que, se o processo de regressão continuasse, fatalmente perderia seus dotes mentais. Não podia suportar uma forte concentração ou aglomeração de suas células e combinações de moléculas. Se isto acontecesse, seu corpo encolheria...
E Bell estava rejuvenescendo...
Eu era incapaz de compreender ou traduzir em símbolos matemáticos esse fenômeno. Não sabia praticamente nada sobre o maior mistério do Universo, a vida em si. Era engenheiro de formas energéticas elevadas e especialista em colonização cósmica, e esta última especialidade incluía a área da cosmopsicologia. Mas não era capaz de fornecer uma explicação para as modificações celulares que Bell estava sofrendo. Mas ainda esperava um milagre que, segundo um cálculo superficial de probabilidades, poderia ser provocado.
Contemplei o fisiotron relativamente pequeno.
Era um aparelho em forma de coluna, com uma grossa plataforma circular. Mais atrás, reconheci alguns reatores de alta potência, do tipo daqueles que são encontrados em todas as partes do planeta Peregrino. O suprimento energético da ducha celular era realizado sem fios.
— Você está em condições de manejar corretamente o fisiotron? — perguntei a Homunk.
Este disse que sim.
— Que fontes energéticas se tornam necessárias ao perfeito funcionamento do aparelho? Quais são os circuitos especiais que teremos de levar?
— Levar? — repetiu Rhodan. — Até parece que nossas idéias são idênticas, arcônida. Continue, que sou todo ouvidos.
Homunk explicou o funcionamento técnico. Era relativamente fácil de compreender, até o momento em que chegou aos conversores de impulsos embutidos no suporte do aparelho. Dali em diante, minha capacidade de compreensão entrou em pane. Para exemplificar, não consegui obter uma idéia exata de como se formava o efeito estabilizador mencionado pelo robô.
Mesmo um organismo vivo é formado por átomos que compõem as moléculas. O princípio do fisiotron baseava-se num circuito catalisador, que mantinha estáveis por cerca de sessenta e dois anos os aglomerados de átomos.
Dessa forma, em princípio, compreendi o que a máquina fazia. O processo da decadência celular não era atingido no núcleo da célula, mas no elemento mais fundamental: o átomo.
Homunk respondeu a numerosas perguntas que lhe formulei, e depois comecei a enxergar mais claro. Olhei para o relógio. A seguir, aproximei-me de Reginald Bell.
— Bell, por enquanto apenas tenho uma idéia bastante vaga. Arrancaremos a ducha celular com sua fonte de energia das bases, mediante um feixe de raios antigravitacionais. Teremos que proceder com muito cuidado para não danificar a parte mecânica. O conjunto, que deverá estar em condições de entrar em funcionamento, será transportado numa grande plataforma de carga, que será equipada com um motor de vibrações reforçado.
“A Drusus criará um campo de refração de quinhentos metros de diâmetro, e o usaremos para sair do espaço normal. Penetraremos no plano temporal dos druufs e, uma vez lá, procuraremos imitar a situação instável do espaço intermediário por meio de uma concentração de energia. Esta será realizada no interior do campo defensivo, criado por nós. Sabemos que o espaço intermediário constitui uma forma instável do espaço de cinco dimensões. Forma que pode ser comparada com os isótopos inaproveitáveis de um elemento. Poderemos alcançar uma situação aproximadamente igual a esta, mas para realizar os respectivos cálculos preciso de todos os computadores da Drusus. Terei seu consentimento para realizar a experiência?
Bell manteve-se frio ao perguntar:
— O processo deverá durar uns quatro ou cinco dias. De onde pretende conseguir a energia de que precisará no espaço dos druufs, para preencher o contínuo?
Compreendera perfeitamente qual era o problema. Rhodan também já encontrara uma solução para o retransporte.
— Pegaremos uma segunda plataforma antigravitacional para levar um dos grandes geradores deste planeta. Homunk, será que você poderia cuidar disso? — perguntou o bárbaro.
O robô efetuou um cálculo instantâneo. Respondeu sem a menor demora:
— Daqui a doze horas e quatorze minutos, um carregador de compritorm estará pronto para ser transportado.
— Santo Deus, o que vem a ser um carregador de compritorm? — perguntou Sikermann em tom admirado.
O robô apenas sorriu. Parecia ser incapaz de qualquer outra mímica.
— É um conversor destinado à supersaturação de um campo externo curvo e fechado, que reflete seus efeitos na quarta dimensão.
Estas palavras bastaram para deixar-nos informados. Aos poucos, comecei a compreender que a tecnologia do ser coletivo era muito mais avançada que a nossa.
— Poderemos dar conta do serviço dentro de cinco dias — disse Rhodan, depois de realizar alguns cálculos mentais. — Major Forster, cuide do reforço dos mecanismos de propulsão da plataforma antigravitacional. Homunk lhe explicará como desprender os aparelhos de suas bases. Atlan, nós cuidaremos de conseguir circuitos perfeitos. Vamos começar imediatamente.
O homem esbelto virou-se. Para Perry o assunto estava liquidado... por enquanto.
— E eu? — gritou Bell atrás dele.
O chefe do Império Solar parou. Deu-nos as costas.
— Já falei com o Dr. Sköldson. Você permanecerá na Divisão Médica, até que o equipamento esteja preparado. Um sono bioquímico reduzirá as funções corporais em cerca de oitenta por cento. É bem possível que o processo de rejuvenescimento seja influenciado por isso. Sköldson cuidará do caso. Então, o que estamos esperando?
Sim, o que estávamos esperando? Não havia muita coisa a discutir. Gucky, o estranho ser do planeta Vagabundo, pregou-se nos meus calcanhares.
— Quer que o leve até a Drusus? — perguntou a pequena criatura em tom triste.
Seus grandes olhos pareciam boiar num mar de lágrimas.
Abaixei-me e tomei-o nos braços. Sem dizer uma palavra, caminhamos em direção aos grandes portões em arco do pavilhão do fisiotron.
Atrás de nós, uma atividade febril teve início. A voz potente de Sikermann era inconfundível. Homunk, o robô perfeito, manteve-se imóvel — com um sorriso irritante — entre os apressados tripulantes do supercouraçado terrano.
Quando saí do edifício, Rhodan estava abrindo a porta de um pequeno planador de impulsos. Sem dizer uma palavra, apontou para o assento traseiro.
Parei à sua frente e fitei-o atentamente. Não; com ele não parecia ter havido qualquer alteração. Parecia jovem, robusto e ágil como sempre.
Pelo seu sorriso deduzi que estava adivinhando meus pensamentos.
— Tive sorte — disse. — Minha ativação celular foi concluída no dia primeiro de maio, às 17 horas e 24 minutos. Não fui atingido pelo deslocamento de fases. Bell só saiu da máquina às 19 e 30. As energias deformadoras devem tê-lo atingido, enquanto se encontrava no estado de desmaterialização total.
— Os fatos são conhecidos — respondi em tom pensativo. — O que me parece mais importante é sabermos o que aconteceu com Ele. Onde está o ser coletivo?
A risada de Rhodan parecia um tanto forçada.
— Acho que isso é um problema de segunda ordem, Atlan. Você gostaria que Aquilo lhe desse algumas informações, não é?
Fiz um gesto afirmativo. Naturalmente, gostaria de saber por que há dez mil anos do calendário terrano me havia entregue um estranho aparelho. Apalpei instintivamente o peito de meu uniforme. O ativador estava preso a uma corrente indestrutível.
— Vamos embora — disse Rhodan com uma voz desanimada, que pela primeira vez ouvi de sua boca. — Não gostaria de perder um amigo. Seria muito interessante conhecermos as características do processo de regressão. Onde ou como teria de acabar isso? Na célula máter?
Senti tonturas só de pensar nessa possibilidade. Uma coisa era certa: a natureza acabara de pregar uma peça à Biofísica.


2



Já conhecíamos melhor as leis físicas do universo dos druufs.
Há algum tempo, Rhodan se vira perplexo na superfície intacta daquele estranho planeta, onde tudo estava no seu devido lugar, com exceção da vida orgânica. Muito tempo se passou até que a existência da segunda dimensão temporal pudesse ser traduzida em símbolos matemáticos.
A essa hora já sabíamos que a penetração na outra dimensão temporal era apenas uma questão de dispêndio de energia. Tratava-se de um plano paralelo ao nosso, com a única diferença de que os dois universos possuíam dimensões temporais próprias.
Durante a última expedição foram descobertos estranhos seres, os druufs. Por enquanto, não sabíamos quem eram eles. Os donos da outra dimensão temporal sempre se mantiveram escondidos. E seus robôs e povos auxiliares não nos puderam dar qualquer informação.
Estava convencido de que os acontecimentos de dez mil anos atrás mantinham relação direta com os de hoje. A diferença nas dimensões temporais justificava essa conclusão.
Mas, no momento, a única coisa que tinha importância para nós era a recém-descoberta lei das relações recíprocas. Dela se deduzia, com uma probabilidade de 99,99 por cento, que um salto, através do campo de coordenação a ser criado, levaria a algum planeta situado no plano dos druufs. O conteúdo de matéria da zona estranha — e sua estabilidade — começava a desempenhar um papel decisivo.
A grande plataforma antigravitacional com o chamado carregador de compritorm já havia desaparecido atrás do círculo luminoso. Três usinas de força da gigantesca Drusus estavam acopladas ao gerador de campo de refração. A energia empregada no processo seria suficiente para satisfazer as necessidades energéticas do sistema solar por dez anos.
Poucos metros acima da superfície do planeta Peregrino, via-se a luminosidade de quinhentos metros de diâmetro, que designamos pela expressão simplificada de campo de refração. Mais exata seria a designação carga periferial de superposição de planos e de igualização dos campos; seria mais exata, muito embora nem ela atingisse o cerne do fenômeno.
Encontrava-me junto à amurada baixa da maior das nossas plataformas transportadoras, formada por uma chapa de metal leve, de quarenta metros de diâmetro, com uma instalação antigravitacional montada no centro. Os dois propulsores de radiações recém-instalados não tinham um empuxo suficiente para permitir uma velocidade adequada. Mas tanto fazia atravessarmos o campo de coordenação a cinco quilômetros por hora ou à velocidade supersônica.
A plataforma dava a impressão de um campo de brinquedo de crianças gigantes. As máquinas estavam jogadas por todos os cantos; seus suportes maciços de pedra e plástico haviam sido arrancados à força dos respectivos alicerces.
Não foi nada fácil estabilizar a superfície sobrecarregada. A massa sempre continuava a ser massa, mesmo que em virtude do campo gravitacional perdesse o peso. No último instante, mandei montar uma instalação centrífuga, para evitar que o estranho veículo tombasse.
O fisiotron fora colocado no centro do disco. Junto ao mesmo, haviam sido montados os dois reatores de alta potência, que forneceriam a energia necessária ao funcionamento do aparelho.
Não foi possível levar os enormes e complicados aparelhos destinados à transmissão sem fio da corrente de alta-tensão. O pavilhão da ducha celular já parecia ter sofrido os efeitos de um bombardeio. Rodes Aurin, chefe de armamento do supercouraçado, trabalhara com raios de tração superpotentes, depois que Homunk lhe mostrara onde as respectivas energias deveriam ser colocadas em ação.
Ao pensar nos condutores provisórios destinados a produzir a necessária tensão de três milhões de volts, minhas mãos tremiam. A energia destinada ao funcionamento da ducha celular tinha de ser levada de alguma maneira aos respectivos projetores de campo. E, como a transmissão sem fio não podia ser utilizada, tivemos de recorrer aos isoladores de campo circular da Drusus.
Como engenheiro em energia de alto grau, cabia-me providenciar para que as instalações de suprimento, compostas às pressas, fossem montadas de forma a poderem entrar em funcionamento.
Homunk dissera que só o fisiotron precisava, para funcionar a plena força, de seiscentos mil megawats. Era um consumo inacreditável para um aparelho pequeno como este.
Não sabia se a corrente de alta-tensão seria transformada nos estranhos aparelhos embutidos no pé do fisiotron. Os algarismos usados por Homunk eram de tal ordem que meus cálculos relativos aos dispositivos de segurança, que se tornavam necessários, eram puramente ilusórios.
Por tudo isso, não era de admirar que a plataforma antigravitacional desse a impressão de um caos total. Reginald Bell olhou em torno. Seu desânimo crescera assustadoramente. Apenas consegui esboçar um sorriso débil em meus lábios. Não havia a menor dúvida de que não gostaria de estar na pele desse homem. Penetrar nessas condições no interior de uma máquina que liberava todas essas energias, representava mais que uma temeridade.
Rhodan pôs em funcionamento os estabilizadores centrífugos. Dentro de dois minutos, o volante feito do melhor aço de Árcon atingiu duzentas mil rotações. Esperei febrilmente que aquilo se desmanchasse, mas não aconteceu nada disso.
— Hum! — fez Crest, que se mantinha calado a meu lado.
Aquele ancião, esgotado e desanimado, sofria os efeitos da situação precária em que nos encontrávamos. Levamos cinco dias para calcular todos os dados necessários ao empreendimento.
Em meio às máquinas espalhadas por toda parte, Rhodan apareceu. Quando chegou perto de nós, passou a mão pela testa coberta de suor.
— Apesar do sono profundo em que esteve mergulhado, Bell continuou a tornar-se mais jovem — disse. — Não foi tão depressa como antes. Mas, de qualquer maneira, está mais jovem. Está na hora! — seus dentes cravaram-se no lábio inferior. — Atlan, você tem certeza de que isto agüentará?
Apontou para o conjunto caótico de aparelhos.
— Só penso nos condutores de eletricidade...! — respondi em tom inseguro.
Caminhou lentamente para o lugar em que estava o Capitão Rodes Aurin, comandante de um pequeno destacamento especial ao qual caberia rechaçar eventuais ataques. Além disso, quatro naves auxiliares da Drusus estavam de prontidão para intervir, quando isso se tornasse necessário. Fiz questão de manter a massa considerável das naves de sessenta metros no plano temporal dos druufs, enquanto isso fosse possível. As radiações energéticas emitidas pelos propulsores e reatores dos armamentos eram indesejáveis. Já se provara que a outra dimensão temporal, já por si instável, poderia ser alterada rapidamente se surgisse qualquer influência estranha. Bastava termos de carregar os reatores necessários ao nosso empreendimento.
Rhodan fez um sinal para que me aproximasse.
Limitei-me a acenar com a cabeça. Seria absurdo formular objeções a essa hora. Os pequenos e arrojados selvagens do planeta Terra estavam prestes a demonstrar a um antigo almirante da frota do Império de Árcon que possuíam melhores qualidades.
Nós, os arcônidas, sentimo-nos mal. Em Perry Rhodan não se notava nada daquilo que se desenhava em nossos rostos. Afinal, o sistema nervoso dos terranos era mais jovem que o dos indivíduos da minha espécie. Em compensação, os arcônidas — ao menos os que haviam conservado a saúde espiritual — dispunham de outras qualidades...
Prestei atenção ao ruído dos dois mecanismos propulsores de radiações. Tudo que se encontrava sobre a plataforma perdeu o peso. Apesar disso, os débeis aparelhos tiveram de desenvolver o máximo de sua capacidade de empuxo para que pudéssemos entrar em movimento.
Tive a impressão de que demorou uma eternidade até que atingíssemos a velocidade ridícula de quarenta quilômetros por hora. A essa velocidade, a resistência do ar foi maior, impedindo que o mecanismo conseguisse qualquer aceleração adicional.
Com uma lentidão martirizante, deslocamo-nos em direção ao campo de refração tremeluzente. Antes de o atingirmos, olhei atentamente em torno. Quase todos os membros do Exército de Mutantes haviam vindo conosco. Gucky já se encontrava do outro lado. Fora destacado para servir de guarda do robô Homunk. Fizéramos uma descoberta dolorosa: aquela máquina perfeita pensava menos na vida de Bell que no ser espiritual que era seu senhor. O plano temporal dos druufs guardava maior afinidade com a zona intermediária que o nosso Universo. Talvez Homunk acreditasse que por lá teria uma possibilidade de descobri-lo.
A abertura tremeluzente, que enchia o espaço situado entre os dois universos, já não podia ser vista em todo seu tamanho. Quando nos encontrávamos a dez metros dali, Rhodan mandou que fechássemos os capacetes pressurizados dos nossos trajes espaciais.
Era bem possível que fôssemos sair num mundo em que reinava o vácuo, ou até num planeta cuja atmosfera era venenosa. Quando surgia um fenômeno natural de superposição que fazia desaparecer os seres que respiravam oxigênio, podia-se ter certeza de que os mesmos encontrariam, na outra dimensão temporal, uma mistura gasosa respirável.
Isto não acontecia a quem penetrava ao acaso no reino dos druufs. A lei da massa continuava válida, mas esta também se aplicava a corpos celestes onde não havia vida.
A passagem de um plano a outro foi realizada sem o menor ruído. A parte dianteira da plataforma desapareceu como se nunca tivesse existido.
No momento em que a carga energética aproximou-se de meu corpo, pus instintivamente a mão na arma. Notei que Rhodan também segurava a coronha do mortífero radiador térmico. Éramos tão parecidos, constatei com um sorriso... contrariado.
A passagem de uma zona temporal a outra não provocou nenhuma dor. A luminosidade transitória que vira diante dos meus olhos cessou. Quando voltei a enxergar claramente, a parte dianteira da plataforma de carga tornara-se visível de novo. Ainda não podíamos ver o que vinha atrás. Essa parte ainda se encontrava em nosso Universo normal. Não pude deixar de confessar que foi a mais esquisita transição pela qual passei.
O mundo estranho estendia-se à nossa frente. Tive a impressão de que alguma força estranha nos colocara de repente numa ilha deserta. Tratava-se de um pianeta de cloro, cujos gases venenosos estavam sendo tangidos por uma violenta tempestade e atacavam os vultos desajeitados dos geradores dos campos antigravitacionais.
As comunicações pelo videofone tornaram-se ruins.
Já não estávamos em casa.
A plataforma começou a balançar perigosamente. A uns trinta metros do lugar em que estávamos, vimos o planador no qual Homunk e alguns dos nossos companheiros haviam atravessado o campo de refração.
Rhodan saltou para os controles do estabilizador centrífugo. O número de rotações podia ser aumentado, na melhor das hipóteses, em cinqüenta mil. Com isso, seria atingido o limite de resistência do respectivo material.
Os volantes expostos produziram efeitos estranhos naquela nebulosidade esverdeada. Olhei para minhas mãos: pareciam ter inchado e mudado de cor. O pequeno sol do planeta era uma bola de fogo verde, de reduzida luminosidade, que se tornara assimétrica pelos efeitos de campos de absorção.
— Que ambiente para um tratamento de saúde! — disse alguém pelo rádio de capacete. Era Reginald Bell, que se mantinha de pé, com as pernas bem afastadas, esforçando-se para conservar o equilíbrio. Não pôde deixar de soltar sua piada.
De repente, todos começaram a gritar!
Ninguém contara com tamanha turbulência da atmosfera!
Lutei para chegar ao engenheiro-chefe da nave. Gunter Forster esforçava-se para conseguir um empenho ainda maior dos mecanismos de propulsão.
Vi seus olhos arregalados de susto atrás da grande lâmina de vidro blindado do capacete, quando pus ambas as mãos nas chaves das turbinas axiais. Mesmo para aumentar o efeito de radiação e apoio da máquina, Forster não se arriscara a utilizar a atmosfera ali existente. Provavelmente, pensara nos efeitos corrosivos dos compostos de cloro e também na viagem de volta.
Naquele momento, nem me interessei em saber se o material, não preparado para ser aquecido num ambiente de cloro, iria agüentar ou não. Antes que Forster pudesse dizer qualquer coisa, as turbinas de sucção começaram a uivar. Liguei toda a força do minirreator dos dois propulsores para o aquecedor de arco voltaico e comprimi a chave reguladora das câmaras de compressão para baixo.
Dali a alguns segundos, partículas de cloro, que se expandiam à razão de aproximadamente quatro mil metros por segundo, saíram ruidosamente dos bocais suplementares do propulsor de vibração.
Alguns homens procuraram abrigar-se apressadamente. Mas a força de empuxo e o avanço estabilizaram rapidamente a plataforma antigravitacional balouçante.
Rhodan fez um sinal em minha direção. A forte interferência sofrida por seu rádio de capacete e o uivo dos dois propulsores não permitiram que eu entendesse suas palavras.
Um inferno verde parecia abrir sua boca voraz!
Dentro de poucos segundos, nossa velocidade, antes muito reduzida, cresceu assustadoramente. A plataforma de Homunk surgiu nitidamente à nossa frente. Quando nos encontrávamos a pouco menos de cinqüenta metros desta, desliguei os propulsores suplementares.
Apesar disso, nossa velocidade foi tamanha que nos fez passar para além da plataforma de transporte já pousada no solo.
A queda súbita da gravitação obrigou-me a dobrar os joelhos e fez a plataforma cair com tamanha rapidez. Rhodan agiu com uma rapidez extraordinária. Começou a deter a queda pouco acima do solo, mas apesar disso o pouso pôde ser tudo menos modelar. Ouvi o rangido do material que se quebrava e rompia. Os suportes hidráulicos altamente estáveis estavam dobrados ou quebrados como palitos de fósforos.
Quando finalmente a plataforma se imobilizou, a centrífuga estabilizadora parou de girar. Apenas o uivo da tormenta continuava a martirizar-me o ouvido. Nossa plataforma estava ligeiramente inclinada. Mas, ao que parecia, as máquinas instaladas na mesma não haviam sido danificadas.
— Sinto muito. O dispêndio de energia me obrigou a chegar ao solo perto de Homunk — disse a voz de Rhodan, que saía debilmente e entremeada de ruídos de interferência do alto-falante. — Alguém está ferido?
Sim, ao que parecia um dos tripulantes quebrara uma perna. Estava deitado bem a meu lado. Vi seu rosto contorcido pela dor. Mas foi o primeiro a responder em voz alta:
— Aqui fala o Sargento Tomenski, Sir. Tudo bem; ninguém sofreu um arranhão.
Fez um gesto de súplica para mim. Sorri para ele e ajudei-o a colocar a perna quebrada numa posição mais confortável. Experimentei um sentimento de simpatia, e não o dirigi exclusivamente ao sargento, mas a toda a Humanidade. Esses pequenos bárbaros sabiam ser formidáveis à sua maneira.
O único ser que apesar da atmosfera impregnada de cloro não usava traje espacial era Homunk, o robô. Tive uma sensação desagradável ao ver o sorriso estereotipado em seu rosto de bioplástico. Naquele ambiente, que obrigava todos a se refugiarem num traje protetor, aquela máquina aparentemente tão humana parecia transformada num monstro.
Rhodan saltou da plataforma. A gravitação era de 0,95G, o que facilitava nossos movimentos. Fiquei espantado ao ver a marca de seus pés, que penetraram profundamente na vegetação de musgos. De início, admirei-me de que num ambiente venenoso como este pudesse haver vida, mas subitamente reconheci, com imenso pavor, o verdadeiro motivo de meu súbito interesse.
Como é que as solas das botas de Rhodan penetraram tão profundamente no solo? E como era possível que as nuvens tangidas pela tormenta passassem tão depressa?
Pelo que tínhamos visto até então, nos mundos situados no plano temporal dos druufs todos os fenômenos se processavam 72 mil vezes mais devagar que em nosso Universo. Nessas condições, o ar deveria estar praticamente parado e a vegetação seria dura como aço.
Senti-me chocado ao recordar essa circunstância. Rhodan parecia ter feito as mesmas reflexões. Pareceu-me estarrecido. Um humor fúnebre me fez soltar esta observação.
— Agora até o entendido se espanta, não é, bárbaro? A dimensão temporal reinante neste planeta é quase idêntica à nossa. Todos os fenômenos se processam aproximadamente na mesma velocidade. Como é que isso pode combinar com suas teorias?
Sua resposta consistiu numa expressão não publicável, que os homens muitas vezes costumam soltar nas situações críticas.
Alguém soltou uma risada estridente. Foi Bell. No momento em que virei o rosto para ele, já estava abrindo a comporta transparente do fisiotron.
Crest, um ancião pertencente a minha raça, bateu com os dedos em meu ombro. Parecia apavorado. Fiz-lhe um sinal, pois sabia perfeitamente o que queria dizer.
De repente, a situação se tornara ainda mais crítica. Se houvesse um ataque, não poderíamos deslocar-nos sob a proteção de uma dimensão temporal mais rápida. Se o inimigo desconhecido fosse capaz de desenvolver metade da nossa velocidade, as coisas poderiam tornar-se perigosas.
Rhodan não perdeu uma única palavra. Todos já haviam percebido o fenômeno com que nos defrontávamos. Crest já se retirara para junto do computador eletrônico que leváramos na plataforma. Quanto a mim, confiava nesse cientista altamente competente, que era um dos homens ainda sadios de nosso povo. No entanto, dificilmente seria capaz de desenvolver a iniciativa pessoal que há milênios tanto nos distinguira dos outros seres. Quando me lembrava dos comandantes de meus cruzadores...!
As memórias ameaçavam empolgar minha mente. Tive de realizar um enorme esforço para afastá-las. O tempo de esplendor dos arcônidas chegara ao fim. Eu mesmo era um remanescente misterioso dos tempos antigos, enquanto Crest, que na minha opinião era fraco e dotado de pouca vitalidade, constituía um exemplar do “novo” tipo de arcônida. E era um dos representantes mais capazes do Grande Império.
O Capitão Rodes Aurin não perdeu um segundo. Seus comandos, transmitidos com a voz potente, soaram em nossos alto-falantes de capacete. Trinta homens pesadamente armados saltaram para o chão e desapareceram que nem fantasmas em meio aos vapores esverdeados.
Três homens correram em direção ao campo de refração, que continuava nitidamente perceptível. Sua luminosidade, perturbada somente na periferia por certos fenômenos de refração, sobressaía em meio à atmosfera corrosiva de cloro. Os três soldados receberam ordem de, em caso de perigo, saltar imediatamente através da zona intermediária por meio de máquinas voadoras individuais, a fim de colocar em alarma os comandantes dos girinos, que se mantinham em estado de prontidão.
Em virtude da perturbação causada pelo campo de refração, tivemos de operar a uma distância mínima de trezentos metros.
Os trinta minutos seguintes foram consumidos nos preparativos indispensáveis. Cuidei do suprimento energético do fisiotron, enquanto Rhodan ficava de olho no robô perfeito. As plataformas estavam tão perto uma da outra que suas extremidades se tocavam.
Lancei um olhar nervoso para os dois projetores energéticos em forma de canhão, que serviriam para envolver nosso veículo transportador num campo defensivo. Os dados numéricos já haviam sido fixados. Apenas se tornava necessário ter cuidado para que o estado de espaço intermediário a ser intimado não se deslocasse de um estado próximo à totalidade para uma realidade de cem por cento.
Bell já se encontrava na “jaula” da ducha celular. Seu aspecto era o de calma e autocontrole, mas quem o conhecesse melhor perceberia o nervosismo que o dominava.
Dentro de quarenta minutos, aproximadamente, concluí a verificação dos controles. Nem agora tive coragem de pensar nos miseráveis condutores de energia. Conforme as circunstâncias, a atmosfera de cloro poderia dar origem a processos químicos que inutilizassem o isolamento dos condutores de energia. Num esforço extremo, efetuei um reforço adicional de quinhentos ampères. Se durante o tempo de carga máxima os autômatos queimassem, Bell estaria irremediavelmente perdido. Durante o estado temporário de desmaterialização do paciente, não se pode arriscar uma interrupção no fornecimento de energia, por mais breve que seja.
— Pronto — disse com a maior tranqüilidade possível pelo rádio de capacete. — Como estão as cargas do compritorm?
— Também estão prontas; esperamos que funcionem — respondeu Perry Rhodan com a voz rouca. — Podemos começar, Bell?
— Não deveríamos interferir demais nos desígnios do Criador — respondeu Bell em voz baixa e com uma seriedade extraordinária. — Haja o que houver, agradeço a todos pelo trabalho e pelas preocupações. Gucky, meu amiguinho, não chore!
Homunk fez um sinal. As luzes verdes dos dois reatores acenderam-se. Liguei-os a toda potência. O choque inicial foi violento.

Fitei os fluxos energéticos branco-azulados que se formaram dentro dos campos de isolamento protetores e limitadores. Não deixava de ser uma transmissão de energia sem fio. Apenas não era tão avançada como a que costumava ser realizada pelo ser coletivo desaparecido.

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