Interrompeu-se até que cessassem os
murmúrios.
— Quero informá-los de que, há poucas
horas, nosso técnico Finney teve um sonho durante o qual alguém entrou em seu
camarote. Não há nada de extraordinário nisso. O que é estranho é que eu também
tive esse sonho quase no mesmo instante que Finney.
O técnico olhou para o chão; parecia
embaraçado. Os murmúrios voltaram.
— Silêncio! — disse o coronel. — Não é só
isso. Acabo de encontrar o cadete Ramirez. Está totalmente paralítico.
Everson não esperara que a notícia fosse
provocar um tumulto. O fato é que, depois de suas palavras, um silêncio total
instalou-se na sala de comando. Os astronautas fitaram-no, como se ele pudesse
oferecer a solução do enigma.
— Ramirez deve ser mantido em quarentena —
disse o Dr. Morton. — Ninguém poderá falar com ele sem minha autorização. Peço
que todos se cuidem. Qualquer indício de... de doença deverá ser avisado
imediatamente.
— Aposto que isso tem alguma relação com o
homem estranho que temos a bordo — disse Zimmermann.
Havia em sua voz um tom de ameaça, que
deixou o coronel temeroso. Zimmermann era um homem robusto e retraído, de rosto
anguloso. O nariz recurvado e os lábios estreitos davam-lhe um aspecto quase
brutal. Sempre que falava, os olhos cinzentos ficavam arregalados.
Ouviu-se um murmúrio de concordância. Era
uma revolta incipiente contra a presença de Mataal. Se houvesse outros
incidentes, a cólera dos tripulantes sem dúvida se dirigiria contra o epanense.
Um sorriso quase imperceptível surgiu no
rosto de Everson. Em sua testa, apareceu uma pequena ruga.
— O senhor sabe perfeitamente que o
planeta Epan foi examinado rigorosamente por nossos especialistas — disse,
dirigindo-se a Zimmermann. — É impossível que Mataal tenha qualquer coisa a ver
com a doença de Ramirez.
Zimmermann teve uma percepção instintiva
do apoio representado pela disposição de ânimo dos seus companheiros.
— Acontece que Ramirez esteve
constantemente em contato com o desconhecido — disse em tom obstinado.
Everson poderia tê-lo chamado à ordem, mas
isso apenas aumentaria o clima de desconfiança. Um pequeno estratagema
psicológico poderia resolver a situação.
— Zimmermann — disse Everson com um
sorriso de escárnio. — Será que suas pernas estão tremendo de medo?
Todo mundo irrompeu em gargalhadas.
Zimmermann ficou rubro de cólera. Se fizesse qualquer outra observação, daria a
impressão de que realmente estava com medo. Everson sabia que apenas alcançara
uma vitória temporária. Se houvesse novos incidentes, a inquietação aumentaria.
— O senhor acha que pode haver alguma
ligação entre a doença de Ramirez e a de Goldstein? — perguntou Honda Inoshiro,
o astronavegador japonês, que também era um excelente jogador de xadrez.
— Não sei dizer — respondeu o Dr. Morton.
— Mas não é impossível.
— Voltem aos seus lugares — ordenou
Everson. — Sigam em todas as circunstâncias as instruções do Dr. Morton.
Scoobey, diga a Landi que tome todos os preparativos para um contato de
telecomunicação com a Terra. Quero informar Rhodan sobre o que está
acontecendo.
Dali a pouco menos de uma hora, Scoobey
apareceu no camarote de Everson.
— Por que não transmitiu sua informação
pelo alto-falante? — perguntou o coronel em tom áspero. — Resolveu fazer um
pouco de exercício?
Scoobey não riu.
— Não conseguimos transmitir nenhuma
mensagem à Terra — disse em tom deprimido.
— Não é possível! — exclamou Everson. — O
aparelho é novo e foi testado; não pode falhar.
O oficial repetiu como se fosse um
autômato.
— Não conseguimos transmitir nenhuma
mensagem, coronel.
— Landi não pode reparar o defeito? —
perguntou Everson com um triste pressentimento.
— Nem sequer o descobriu — informou
Scoobey em tom apático. — Sabe que é um elemento de primeiríssima ordem. Se
alguém pode reparar o aparelho, será ele.
Ao que parecia, queria dizer mais alguma
coisa. Porém preferiu ficar calado. Everson fitou-o prolongadamente.
— O que houve, Walt? Diga logo!
— Coronel — desabafou Scoobey. — Alguém
deve ter inutilizado propositadamente o transmissor. Na minha opinião foi
sabotagem.
— Quer dizer... — cochichou Everson.
— Quero dizer que há alguém a bordo que
está interessado em que não consigamos entrar em contato com a Terra. Alguém
quer evitar que em Terrânia tenham conhecimento das ocorrências.
— Quem poderia ser esse alguém? —
perguntou Everson.
— Mataal!
— Sim — concordou Everson. — Mas é
estranho, pois o epanense não tem qualquer conhecimento ligado a aparelhos
técnicos sofisticados.
Falando em voz alta, disse:
— O senhor precisa encontrar provas, Walt,
custe o que custar!
4
O grito humano, estridente e prolongado,
ressoou pela nave girino.
Everson atirou o livro aberto em cima da
mesa. A cadeira caiu ruidosamente ao chão. Com dois passos longos, colocou-se
fora do camarote. Viu homens sobressaltados correrem. Os astronautas da sala de
comando haviam abandonado seus lugares e estavam debruçados sobre a
balaustrada, para ver o que havia acontecido. Everson concentrou-se.
“De
que direção viera o ruído?”, pensava no momento em que encontrou-se com
Finney.
— O que houve, coronel? — perguntou o
técnico em tom de perplexidade.
— É aqui! — gritou uma voz do lado oposto
do passadiço.
Everson correu. Finney o acompanhou.
Quem chamara fora Poul Weiss, um técnico.
Estava de pé junto à porta aberta do camarote de Stanford. Todo sangue parecia
ter fugido de seu rosto. Balbuciou palavras incompreensíveis. Fashong, que se
mantinha imóvel ao lado de Weiss, apontou silenciosamente para Stanford, assim
que Everson chegou ao lugar onde se encontravam.
Everson viu que George Stanford, um
biólogo de vinte e oito anos de idade, estava caído para trás, na sua cadeira.
As mãos seguravam algumas cartas de baralho.
Stanford não jogara sozinho. Seu parceiro
estava estendido no solo. Era Gordon Short, navegador, de quarenta e seis anos
de idade. Seu rosto estava desfigurado numa careta de fantasma.
Weiss passou por Everson. Abaixou-se para
tirar outras cartas da mão de Short. Weiss colocou-as à frente dos olhos de
Everson.
— Que jogo esse felizardo tinha...! —
disse Weiss em voz forçada. — Que jogada, senhores!
Abriu a mão e as cartas esvoaçaram para o
solo.
Everson empurrou Weiss para fora. Gostaria
de lembrar-se de alguma coisa que pudesse dizer aos homens a título de
explicação. Sentiu que o fitavam com os olhos zangados. Quase toda tripulação
estava presente.
Everson virou-se e os observou.
— Ambos estão vivos — disse com certa
perplexidade na voz.
Ninguém respondeu. Depois de algum tempo,
o Dr. Morton rompeu a muralha de homens silenciosos.
— Deixem-me passar! — gritou em tom
exaltado e abriu passagem à força.
— Vai içar a bandeira amarela da
quarentena? — perguntou uma voz sarcástica.
Teria sido Weiss? Ou Wolkow? Ou Sternal?
Everson não saberia dizer.
— O doutor não tem mais bandeiras — gritou
outra voz.
— Ajude o doutor! — ordenou Everson a
Werner Sternal, que exercia as funções de segundo-navegador.
O homem obedeceu. Juntamente com Morton
colocou Stanford sobre a cama.
— Será preferível levarmos Short daqui —
sugeriu o médico. — Não convém que os dois doentes fiquem juntos.
— Está bem — concordou Everson. — Sternal
poderá ajudar.
Levantando a voz, prosseguiu:
— Precisamos substituir três homens, para
efetuar a transição. O segundo salto está próximo. Se todos se esforçarem um
pouco, deveremos conseguir. Espero que ninguém entre em pânico; afinal nossos
companheiros não estão mortos. Tenho certeza de que o Dr. Morton conseguirá
curar a paralisia de que foram acometidos. Não adianta tirar conclusões
apressadas. Mantenham a disciplina e não se esqueçam de que um motim só
pioraria nossa situação. Espero que, face aos acontecimentos, fiquem com os
olhos bem abertos. Deste momento em diante, o sistema de intercomunicação de
bordo ficará ligado ininterruptamente. Os esforços para restabelecer as
comunicações com a Terra serão intensificados. Se conseguirmos entrar em
contato com Terrânia, Rhodan mandará uma nave em nosso auxílio.
Zimmermann adiantou-se. Em seus olhos
lia-se a revolta indisfarçada.
— Exigimos que Mataal seja colocado
imediatamente sob vigilância — disse. — Achamos que é o culpado.
— Não acusaremos ninguém sem provas —
respondeu Everson em tom frio. — É claro que falarei com o epanense.
Ao que parecia, Zimmermann não estava
disposto a dar-se por satisfeito com a informação, mas o olhar enérgico de
Everson fê-lo recuar. Everson sabia que Scoobey também desconfiava do
gladiador. Mas, perguntou a si mesmo, como é que uma pessoa estranha poderia
deslocar-se com tamanha habilidade no interior do girino, atacando os homens,
conseguindo colocar fora de ação o telecomunicador.
Everson não podia negar que havia certos
motivos para suspeitar de Mataal, mas seria ilógico pronunciar essas suspeitas.
Se havia alguma ligação entre a falha do aparelhamento de rádio e a doença de
que foram acometidos os homens, isso devia ser obra de outra pessoa.
Porém, por mais que refletisse, o coronel
não conseguia imaginar quem poderia ser o autor daquilo. Lamentou que Goldstein
tivesse sido colocado fora de ação pela doença. O telepata poderia “verificar” os pensamentos dos homens.
Everson lembrou-se de que Goldstein dissera ter trazido a morte para a nave.
Seriam apenas as palavras de um louco, ou havia algo de verdade por trás das
mesmas? Quem foi que Goldstein trouxe para bordo a não ser Mataal?
Everson não pôde senão continuar a
acreditar que se tratava de uma misteriosa doença. Mais dia menos dia, o Dr.
Morton daria cabo da moléstia.
— Realmente devíamos vigiar Mataal — disse
Scoobey em meio às suas reflexões. — Mesmo que seja apenas para manter a calma
a bordo. É o que sugiro.
— Pensarei a respeito — disse o comandante.
— O que faremos se outros homens forem
acometidos pela doença? — perguntou Scoobey. — Como poderemos realizar a
segunda transição?
Com menos de dez astronautas, tornava-se
extremamente difícil manobrar a Fauna. Quando a nave se encontrava em queda
livre, bastava um homem para controlá-la. Mas as imensas tarefas ligadas a um
hipersalto espacial só poderiam ser realizadas por um grupo maior. E a falha do
hipercomunicador trazia mais inconvenientes do que Everson gostaria de admitir.
Com isso, tornava-se impossível pedir auxílio à Terra. Estavam completamente
isolados, entregues ao destino que os esperava.
— Temos de fazer tudo para evitar que isso
aconteça — disse Everson.
Mas, fazer o quê?
* * *
Quando retornou a seu camarote, o coronel
encontrou Goldstein sentado. Everson fez como se não percebesse o ato de
indisciplina. O rapaz soltou uma risadinha.
— O que veio fazer aqui, Goldstein? —
perguntou Everson em tom contrariado. — Recebeu ordens para não sair de seu
camarote. O Dr. Morton já lhe explicou que está doente e não pode andar por aí
— falou como quem se dirige a uma criança malcriada.
O mutante magro interrompeu-o com um
gesto.
— Morton acha que sou louco — disse.
Apontou com o dedo para a cabeça. Everson esteve a ponto de fazer um gesto negativo,
mas Goldstein acrescentou com a voz tranqüila: — É claro que o senhor também
acha.
— Rapaz, você só precisa de descanso.
Quando chegarmos à Terra, tudo se arranjará!
— À Terra? — Goldstein deu uma risada de
escárnio. — Não venha dizer-me que realmente acredita que voltaremos a vê-la.
Mais uma vez, surgiu a sensação inequívoca
de um perigo ameaçador.
— Afinal, o que é que o senhor sabe? —
perguntou Everson ao telepata.
Os dedos de Goldstein enlaçaram-se
violentamente. Os olhos começaram a chamejar. O cabelo desgrenhado caía-lhe na
testa.
— Por que pergunta? — uivou. — Não estou
aqui para dar as respostas.
Everson pegou o maço e tirou um cigarro.
Acendeu-o cuidadosamente antes de prosseguir:
— Procure ser sensato, Goldstein. Será que
alguém o mandou falar comigo?
As mãos de Goldstein tremiam sobre a mesa.
— Estou com medo — gritou. Seu rosto
estava banhado em suor e as veias do pescoço pareciam estourar. — Estou com
medo de que aquilo volte, tal qual em Epan. Voltará para matar-me — irrompeu
numa série de soluços incontroláveis.
— De que está falando, meu filho? — perguntou
o coronel em tom insistente.
Goldstein foi sacudido pelo pavor. Coisas
horríveis deviam passar-se em sua mente.
— Esteve bem dentro de mim. Esperou,
mantendo-se à espreita. Não pude fazer nada para impedi-lo. Se eu falar,
voltará. O senhor compreende? Está escondido em algum lugar, sempre
espreitando. Será que está dentro do senhor? Sim, pode ser...
Caiu ao chão. Everson calou-se,
profundamente abalado. Uma experiência terrível devia ter deixado o mutante
nesse estado.
Será que as palavras daquele louco tinham
algum sentido? Eram fatos? Ou eram apenas fantasias de um demente? Ou eram
ambas as coisas?
A responsabilidade pela nave pesava
fortemente sobre Everson. Pousaria em segurança na Terra ou não? Sabia que
estava impotente. Mas nunca deveria confessar essa impotência aos outros, ou
deixar que eles a notassem. E, o que era o principal, não devia permitir que os
tripulantes ouvissem as falas loucas de Goldstein.
— Levante-se, Goldstein, eu o levarei de
volta — disse Everson.
O mutante levantou-se, cambaleante.
Everson segurou-o. Do lugar de onde se encontrava, o coronel via que todas as
portas dos camarotes estavam abertas.
Foi empurrando Goldstein pelo passadiço.
Passaram por Finney. O técnico de cabelos negros estava deitado e olhou-os.
Seus olhos se detiveram em Goldstein, que se apoiava nos braços de Everson, e
seus lábios abriram-se para demonstrar sua preocupação através de uma pergunta.
Mas o coronel apressou o passo. Finalmente chegaram ao alojamento de Goldstein.
— O sistema de intercomunicação fica
constantemente ligado — disse Everson. — Se não se sentir bem, poderá chamar o
Dr. Morton.
O mutante parecia não compreendê-lo.
Cambaleou em direção à cama. Everson trancou a porta. Sabia que não havia nada
que pudesse fazer. Apenas lhe restava esperar.
* * *
Ralf Zimmermann, segundo-operador de rádio
do girino, olhou para o relógio de bordo que se encontrava à sua frente. Dali a
alguns minutos, seu período de serviço chegaria ao fim. Maria Landi, o
primeiro-operador, assumiria seu posto. Até lá, Landi tentaria em vão descobrir
o motivo da falha do telecomunicador.
Zimmermann viu Walt Scoobey encolhido na
poltrona de comando. Os olhos do imediato estavam injetados de sangue. Os
acontecimentos desenrolados a bordo representavam uma carga tremenda para ele.
Zimmermann praguejou baixinho.
Será que Everson estava cego? Ainda não se
dera conta de que os incidentes só passaram a ocorrer depois que o epanense
subiu a bordo?
Zimmermann não tinha a menor dúvida de que
Mataal era culpado de tudo. Devia impedir que esse estranho traiçoeiro causasse
outras desgraças. Devia agir por conta própria. Talvez ele mesmo fosse a
próxima vítima da lista de Mataal. Mas não deixaria que as coisas chegassem a esse
ponto...
Havia poucos homens na sala de comando.
Zimmermann olhou para o passadiço. O intercomunicador, constantemente ligado,
representava o maior perigo para a ação que pretendia levar a efeito. Suas mãos
brincaram com os controles que tinha à sua frente.
Dali a alguns minutos, Landi apareceria
para revezá-lo, e então duas coisas poderiam acontecer. O primeiro-operador de
rádio poderia iniciar imediatamente os trabalhos de reparo, ou então realizar
uma verificação de rotina...
Zimmermann resolveu assumir o risco.
Colocou a chave principal na posição de silêncio. O sistema de intercomunicação
de bordo acabara de ser colocado fora de ação.
Zimmermann ouviu os sons dos passos dos
homens que entrariam em serviço nas próximas horas. Scoobey saiu da poltrona de
comando, para que esta fosse ocupada por Everson. Os dois oficiais trocaram
algumas palavras que Zimmermann não entendeu. Landi foi o último a chegar.
Dirigiu-se imediatamente ao aparelho de telecomunicação.
Zimmermann suspirou aliviado e sorriu para
Landi, que já desaparecera em meio a uma confusão de tubos e cabos.
Espreguiçou-se e bocejou como se estivesse satisfeito por ter terminado o
trabalho. Ninguém o seguiu com os olhos quando saiu devagar da sala de comando.
Uma grande tranqüilidade e uma decisão fria encheram seu espírito.
Lembrou-se do tempo de escola, quando
certa vez saíra para dar uma sova no primeiro aluno da turma, porque este o
denunciara perante os professores. Correra pelo longo corredor, enquanto o eco
de seus passos se perdia nas salas de aula. Estava na hora do recreio. O tal
aluno estava encostado a uma coluna, juntamente com dois colegas, e mastigava
tranqüilamente um sanduíche. Era um rapaz corpulento, de face vermelha e olhos
ágeis. Lançou um olhar de desprezo para o adversário, muito menor que ele.
Depois de uma briga violenta, Zimmermann e o outro receberam uma severa
repreensão.
Ao lembrar-se disso, Zimmermann sorriu.
Chegou ao passadiço. Teria de passar por três camarotes cujas portas estavam
abertas, e em cujo interior provavelmente se encontravam os respectivos
tripulantes. Só depois disso, chegaria ao destino, que era Mataal.
Ao passar pelo primeiro camarote, teve
sorte. Constantin Wolkow estava deitado e dormia com a boca aberta. O camarote
seguinte estava vazio. Provavelmente Dealcour estaria no camarote de outra
pessoa, jogando uma partida de xadrez. Zimmermann fez um gesto de satisfação e
prosseguiu. Faltava passar pela última barreira.
— Olá,
Ralf! — Gritou Werner Sternal.
O operador de rádio parou imediatamente.
Esforçou-se para dar uma expressão inocente ao rosto, enquanto refletia com
intensidade sobre a maneira de ludibriar Sternal. Este parecia satisfeito com a
quebra da monotonia resultante da presença de Zimmermann.
“Quanto
tempo demorará até que Everson note que o sistema de intercomunicação não está
funcionando?”, indagou-se Zimmermann.
— Entre! — disse Sternal.
À procura de qualquer expressão de
suspeita, Zimmermann fitou os olhos verdes do astronavegador. Mas ao que tudo
indicava Sternal realmente só desejava companhia. O tempo urgia. Zimmermann fez
um gesto de recusa.
— Estou muito cansado — disse a título de
desculpa. — E vou deitar um pouco.
Um sorriso condescendente surgiu no rosto
de Sternal.
— Será que o vento está soprando do lado
errado para você, Ralf? Seu porto de destino fica do outro lado.
“Chegou
o momento decisivo”, pensou Zimmermann.
— O comandante pediu que controlasse todas
as portas — disse com a voz resmunguenta de quem não está muito satisfeito com
a tarefa adicional que lhe foi atribuída. — Vejo que estão abertas.
— Menos a de meu vizinho — disse Sternal
em tom irônico.
Zimmermann sentiu-se aliviado ao notar que
Sternal voltara a acomodar-se.
Prosseguiu sem demonstrar a menor pressa.
Não avistava ninguém. Parou à frente do camarote de Mataal. Aguçou os ouvidos.
Depois baixou repentinamente a maçaneta.
Viu a escuridão à sua frente. O epanense
devia ter desligado a luz. Acreditou reconhecer, no reflexo da luz que
penetrava no camarote, os contornos vagos de uma figura humana. Entrou no
camarote e fechou a porta atrás de si. Parou no mesmo lugar. Abriu ligeiramente
a boca e passou a língua pelos lábios ressequidos de nervosismo. Depois foi
tateando para a frente.
Por que o epanense não se movia? Estaria
dormindo? Zimmermann sentiu a raiva e o ódio apossarem-se de sua mente.
Sentiu-se tomado de uma cega vontade de destruição.
— Mataal! — disse em tom de ameaça. —
Apareça!
— O que deseja? — disse uma voz, vinda do
escuro, num pesado arcônida.
O operador de rádio dirigiu-se ao lugar do
qual vinha a voz. O tom da mesma estimulou-o, impulsionou-o para a frente e o
enfureceu.
A idéia de que devia eliminar o epanense
dominou-o a tal ponto que lhe roubava toda capacidade de reflexão. Cerrou os
dentes e tateou em direção de...
De repente, a luz acendeu-se. Por um
momento Zimmermann sentiu-se ofuscado. Sua postura era uma demonstração
evidente das intenções que trazia na mente.
Mataal saltou da cama e ficou de costas
para a parede. Seus olhos escuros fitavam-no atentamente.
— Retire-se! — disse em tom frio.
Zimmermann que, segundo se dizia, tinha a
força de um lenhador, atirou-se para a frente, a fim de segurar o epanense. Mas
apenas encontrou a parede; suas mãos atingiram o vazio. Ao mesmo tempo, sentiu
um par de punhos ossudos na altura dos rins. Viu que o plano estava condenado
ao fracasso, antes que realmente tivesse dado início à sua execução.
Atirou-se desesperadamente para a frente e
conseguiu segurar as pernas do epanense. Os dois caíram ao chão. Zimmermann
ergueu o corpo para colocar-se sobre o adversário e procurou apertar-lhe o
pescoço. Mataal levantou as pernas e comprimiu-as contra o peito de Zimmermann.
Este sentiu-se empurrado inexoravelmente para trás. Num gesto instintivo, o
astronauta segurou o pé de Mataal...
A luta continuou feroz e os dois voltaram
a colocar-se de pé.
Zimmermann percebeu que subestimara o
inimigo. Cerrou os punhos e precipitou-se sobre o inimigo. O rosto amarelo que
via diante de si não demonstrou a menor comoção. Um forte soco de Zimmermann
perdeu todo o efeito de encontro aos braços levantados de Mataal. A pancada
desferida por este atirou o operador de rádio para trás. Zimmermann passou a
ver “luzes vermelhas”. Mais uma vez,
precipitou-se sobre Mataal.
Uma voz de repreensão bradou
violentamente, e Zimmermann suspendeu o ataque.
Era o coronel. Seu rosto parecia sério e
cansado. Apontou um paralisador sobre Zimmermann. Este fitou-o com uma
expressão obstinada. Sentia dores em várias partes do corpo e respirava
pesadamente.
— Pobre idiota... — disse Everson em tom
de compaixão. — Mataal poderia tê-lo matado quando quisesse. Quem lhe deu essa
idéia maluca?
Zimmermann lançou um olhar odiento sobre o
epanense.
— Este sujeito é culpado de tudo que vem
acontecendo na nave. Enquanto não estava a bordo não tivemos problemas.
Everson guardou o paralisador.
— O senhor já disse isso — lembrou ao
operador de rádio. — Acontece que não tem provas. Quer matar um homem com base
em simples suspeitas. Sabe perfeitamente o que isso significa. É o fim da sua
carreira; na Terra enfrentará os juízes.
— Apenas faço votos de que o senhor seja o
próximo a ser atacado por seu “amigo”
— disse Zimmermann em tom amargurado. — Até parece que o senhor não quer...
— Dê o fora, Zimmermann! — ordenou Everson
em tom áspero.
Zimmermann saiu cambaleando. Everson lançou
um olhar pensativo para Mataal, que se acomodara na beira da cama.
— Agradeço por sua intervenção — disse o
epanense.
— Acho que sou eu que devo agradecer —
objetou Everson. — O senhor poderia tê-lo matado. Agiu de forma irresponsável.
Quando chegar à Terra, não escapará às conseqüências. Evidentemente existe a
possibilidade de que esteja com a razão. O senhor tem algo a ver com a
paralisia desses homens?
— Adiantaria alguma coisa se eu lhe
garantisse que sou inocente? O senhor continuaria a suspeitar de mim — disse a
criatura extraterrana.
— Sim — admitiu Everson. — Acho que o
senhor tem razão. O senhor tem conhecimento de alguma doença existente em Epan
que provoque sintomas semelhantes a estes?
— Já disse ao Dr. Morton que não
conhecemos nada parecido.
— Só nos resta fazer votos de que ninguém
mais seja atingido pela doença — disse Everson.
Mas essa esperança seria vã.
Henry Dealcour foi a próxima vítima!
5
— Xeque! — disse Dealcour em tom exultante
e colocou seu bispo em diagonal à frente do rei de Inoshiro.
As pestanas do japonesinho ergueram-se
sensivelmente. Parecia um buda em miniatura sentado diante do tabuleiro de
xadrez.
— Você joga muito bem — disse Inoshiro em
tom cortês. — No entanto, não posso deixar de realçar que, com quatro lances,
estará em xeque-mate.
Dealcour fitou o tabuleiro. Calculava que
as posições de suas peças eram muito mais favoráveis. Inoshiro colocou um bispo
à frente do rei de Dealcour e passou à ofensiva com uma torre que estivera
encoberta pelo bispo.
— Parece que tem razão — confessou
Dealcour a contragosto. — Honda, você é uma velha raposa. Mas um dia eu lhe
derrotarei.
Colocou seu rei em segurança, mas o
próximo movimento da dama de Inoshiro voltou a colocá-lo em dificuldade.
— Desisto — disse em tom resignado.
O japonês soltou uma risadinha, enquanto
arrumava as figuras.
Dealcour levantou-se e lançou um olhar
contrariado para o relógio.
— Ainda tenho três horas; vou dormir um
pouco — disse.
Deu uma pancadinha no ombro de seu
parceiro e saiu do camarote.
Henry Dealcour era um homem de estatura
mediana e cabelos ruivos. E, como acontece com quase todas as pessoas ruivas,
tinha um crânio de formato peculiar. O nariz aquilino era notável. Tinha uma
inteligência penetrante, que raramente se deixava influenciar por qualquer tipo
de sentimento. Costumava ser retraído. O japonês era o único ao qual se sentia
ligado por uma discreta amizade.
Assim que chegou a seu camarote, foi à
cama. Dobrou os braços e apoiou a cabeça. Voltou a rememorar o jogo com
Inoshiro e procurou descobrir em que ponto cometera o erro decisivo.
Naquele momento, alguma coisa saiu da
parede, junto à cama.
Qualquer outro homem teria sofrido um
choque. Só a mente fria de Dealcour evitou que o mesmo tivesse igual destino.
Seu coração ameaçava parar de bater. Parecia que a parede de metal leve se
tornava transparente, deixando de existir no lugar em que “aquilo” saíra da parede. No mesmo instante, Dealcour lembrou-se de
que o sistema de intercomunicação já estava ligado.
— Coronel! — gritou em tom penetrante. — Aqui
fala Dealcour. Alguma coisa está passando pela parede. Venha imediatamente!
O medo ameaçava embargar-lhe a voz, que
parecia apagar-se.
— Agüente firme! — respondeu Everson.
Dealcour fitou a coisa, que se desprendera
completamente da parede. Era uma sombra brilhante e transparente, que não tinha
a menor substância sólida. Dealcour nunca vira nada que se parecesse com
aquilo. Sentiu-se dominado pelo pânico. Esteve a ponto de gritar, dar vazão ao
pavor que sentia, desabafar, mas nenhum som saiu de sua boca.
Aquela coisa incrível já se encontrava em
cima dele...
* * *
Os rostos de Everson, Finney, Sternal e
Weiss exprimiam cólera e um medo mal disfarçado.
Everson levantou a cabeça. Seu corpo alto
parecia mais encurvado que de costume.
— Então? — perguntou.
Finney fez-se de porta-voz do grupo.
Sternal e Weiss deixaram patente que partilhavam a opinião do mesmo.
— Dealcour foi a quarta vitima — disse o
técnico. — Agora já temos provas palpáveis de que alguém a bordo da nave é
culpado da paralisia desses homens. Dealcour viu alguma coisa antes de ser
atingido. O que pretende fazer, coronel?
— É perfeitamente possível que Dealcour
tenha sofrido uma alucinação — retrucou Everson. — Quem agiu de forma
irresponsável foi o senhor, Sternal. Encarreguei-o de vigiar Mataal, mas o
senhor deixou que Zimmermann entrasse em seu camarote.
— Pensei que só me coubesse cuidar para
que Mataal não saísse — disse Sternal em tom de perplexidade.
Antes que Everson pudesse responder, Poul
Weiss interveio na discussão.
— Poucos minutos antes de seu pedido de
socorro, Dealcour esteve no camarote de Inoshiro. Jogaram xadrez, e o japonês
não teve a impressão de que Dealcour estivesse delirando. Não teria deixado de
perceber qualquer modificação ocorrida com Dealcour.
— Pois bem — disse Everson em tom
tranqüilo. — Admitamos que um dos tripulantes quer colocar-nos, um após o
outro, fora de ação. Com que finalidade poderia agir assim? Se mais alguém for
acometido pela paralisia, não poderemos realizar mais nenhuma transição, e as
conseqüências disso não seriam nada agradáveis.
— Ninguém afirmou que o culpado seja um
dos tripulantes — observou Finney.
Everson sacudiu resolutamente a cabeça.
— Nada disso, senhores. Vejo que querem
seguir o caminho mais fácil. Outra vez, querem culpar ao epanense. Sternal
nunca constatou que Mataal tivesse andado pela Fauna sem ser vigiado.
Finney disse:
— Dealcour afirmou que alguma coisa chegou
a ele através da parede. Dali se conclui que Mataal pode ter se tornado
invisível para deslocar-se pelo interior da nave.
— Isso só pode ser uma piada — ironizou o
coronel. — Só falta afirmar que o epanense é um teleportador. Sua fantasia está
ficando descontrolada... ou seu medo.
Everson sabia perfeitamente que era o
medo. Era a sensação de que qualquer um deles poderia ser o próximo a ser
paralisado. E a isso aliava-se a preocupação de mais um desfalque entre os
tripulantes, que tornaria impossível qualquer nova transição da nave. Ainda
havia a certeza cada vez maior do desamparo em que se encontravam desde quando
o aparelho de telecomunicações entrara em pane. E para o comandante havia mais
um problema. Devia manter a paz e a ordem. Se irrompesse o pânico, a situação
seria ainda pior.
— Queremos fazer uma sugestão — disse
Sternal. — Temos uma idéia que nos permitirá evitar que mais alguém seja
surpreendido a sós.
— Faça o favor de falar — disse o velho
astronauta.
— Sugerimos que daqui em diante todos os
tripulantes permaneçam na sala de comando. Há lugar suficiente. Ninguém andará
só. Quando houver necessidade de ir a outra parte da nave, formaremos duplas.
Desta maneira, poderemos controlar-nos uns aos outros. É claro que a medida
incluiria Goldstein e Mataal. Já falamos com o Dr. Morton, e este disse que os
homens paralisados também podem ficar na sala de comando.
“É
uma boa idéia”, pensou Everson. “Mas
se os incidentes continuarem a surgir com os homens reunidos? Estarão
comprimidos num espaço exíguo, vigiando-se mutuamente, com os nervos
extremamente tensos; será o começo do fim.”
Entre várias alternativas desfavoráveis,
cabia-lhe escolher a melhor. Esperavam que fizesse alguma coisa. Mas,
justamente por isso, a decepção seria ainda maior, se o plano falhasse. Em
hipótese alguma, os astronautas deviam permanecer inativos. Deviam manter-se
ocupados, a fim de distrair seus pensamentos. Mas o problema maior que Everson
enfrentava não era este. Podia ser formulado em poucas palavras: tinha de levar
a nave de volta à Terra.
— Podem retirar-se — disse. — É uma boa
idéia.
Esperou que saíssem. Depois inclinou-se
sobre o microfone.
— Atenção! — disse. — Aqui fala o
comandante. A partir deste momento, vigoram medidas especiais de segurança.
Todos os homens comparecerão à sala de comando. O Dr. Morton cuidará do resto.
Ninguém poderá andar desacompanhado na nave. Isto também se aplica a Scoobey e
a mim. O epanense também estará conosco. Por isso quero pedir-lhes que não se
esqueçam de que esse homem é membro de uma raça muito mais atrasada que a
nossa. A carga psíquica a que está submetido é enorme, e não devemos aumentá-la
com provocações desnecessárias. Goldstein e os outros doentes serão levados à
sala de comando pelo Dr. Morton e dois astronautas que não estejam de serviço.
Espero que mantenham a calma e a disciplina. Qualquer indisciplina receberá
punição imediata e rigorosa. Dou-lhes dez minutos para cumprirem minhas ordens.
Obrigado.
No momento em que saía do camarote,
Scoobey apareceu no corredor.
— Acha que foi uma boa idéia? — perguntou.
Everson recuou um passo, para ceder lugar
a Weiss e Finney, que transportavam Short, um dos homens paralisados.
— Qual é sua opinião? — perguntou. Scoobey
levantou os olhos castanhos para ele.
— O senhor está esperando demais para
fazer a segunda transição, coronel — disse em tom cauteloso. — O que espera
conseguir mantendo-se por mais tempo neste canto abandonado do Universo?
Everson aborreceu-se com a atitude de
indecisão que ameaçava dominá-lo.
Teria sido realmente apenas o desejo de
aguardar o desenrolar dos acontecimentos que o impedira de ordenar os
preparativos do segundo salto? Ou estaria transformado num homem velho, preso
às rotinas, que se abalava com qualquer incidente? As ordens que vinha dando
não decorriam exclusivamente das sugestões dos tripulantes? Se agora desse
ordem para penetrar no hiperespaço, esta na verdade teria sua origem em
Scoobey.
Everson fitou as mãos. Eram firmes e
morenas. Veias finas estendiam-se em direção aos braços. Não tremiam. Com elas,
o coronel conduzira a K-262 seguramente por muitos anos-luz.
Teria tudo isso chegado ao fim? Será que
seu tempo terminara? Seria apenas um astronauta gasto e vazio, que se via
desamparado diante de qualquer imprevisto?
“Não,
meu velho”, pensou Everson. “Os
outros não foram menos atingidos por isso que você.”
Falando em voz alta, disse:
— Realizaremos a segunda transição. Não podemos
esperar mais.
— Muito bem — disse Scoobey em tom
satisfeito.
No momento em que chegaram juntos à sala
de comando, o Dr. Morton acabara de concluir o transporte de doentes. Parecia
totalmente descontraído. Os circunstantes mantinham-se numa calma estranha.
Everson lançou um olhar apavorado para os doentes estendidos no chão. O médico
os cobrira. Apenas seus rostos sobressaíam debaixo das cobertas. Everson
compreendeu imediatamente por que os homens estavam tão calados: havia mais um
homem paralisado.
Everson apenas viu o rosto forte e
anguloso, mas, no mesmo instante, compreendeu quem estava deitado ali: Ralf
Zimmermann.
— Deve ter acontecido pouco antes de o
senhor ter transmitido suas ordens — disse o Dr. Morton, cuja voz parecia
chegar ao ouvido de Everson através de um espesso véu. — Fashong foi quem o
encontrou.
Era a quinta vítima, e esta fora atingida
poucas horas depois de Dealcour. Everson olhou para Mataal, que estava sentado
num canto afastado. Os olhos negros do epanense enfrentaram seu olhar. Mas
neles não se via nada além da raiva muda.
Everson caminhou lentamente em direção à
poltrona de comando. Ninguém falava. Um dos homens tossiu baixinho. O zumbido
dos aparelhos enchia a sala. Sem dizer uma palavra, os astronautas dirigiram-se
a seus lugares. Goldstein soltou uma risadinha de louco. Parecia o sinal.
— Preparar o segundo salto — ordenou
Everson.
Mãos ágeis passaram pelos teclados, vozes
soaram pela sala, luzes de controle acenderam-se. Mais uma vez o medo, o
pânico, o pavor e a raiva foram dominados. Um sopro de coragem e confiança
parecia ter atingido o pequeno grupo. Os cinco homens paralisados, deitados no
chão, e Goldstein, o mutante, que balbuciava como uma criança, constituíam o
único indício de que tudo aquilo — o medo, a raiva, o pânico e o pavor —
poderia voltar.
6
Marcus Everson, comandante da K-262,
passou a mão pela testa coberta de suor. O mal-estar cessou, cedendo lugar a
uma sensação profunda de satisfação. Girou a poltrona para o lado de Scoobey.
No rosto do pequeno oficial, via-se um sorriso de alívio.
— Conseguimos — disse este. — As
coordenadas estão corretas. Estamos quase em casa, coronel.
Uma única transição separava a nave da
Terra. Os dez homens fizeram o que estava a seu alcance. Conseguiram compensar
a falta dos tripulantes atingidos pela paralisia. Uma nova confiança encheu a
alma de Everson. Decidiu realizar o último salto o quanto antes. Era possível
que, até lá, Landi conseguisse reparar o aparelho de telecomunicação.
Everson saltou da poltrona. O primeiro-operador
de rádio estava sentado à frente do aparelho. Everson apenas viu o cabelo negro
e crespo por cima do encosto da poltrona. Landi parecia totalmente absorvido
pelo estudo do aparelho defeituoso.
— Dentro de pouco tempo estará em ordem,
Landi — disse Everson, dando-lhe uma pancadinha no ombro.
Sob o toque de sua mão, Landi caiu da
poltrona. Ao cair, girou em torno do eixo da cadeira com uma terrível lentidão.
Por um instante, Everson viu o rosto desfigurado e enrijecido de medo passar
bem à sua frente. Enquanto o coronel ainda estava paralisado pelo choque, a
nova vítima caiu de vez ao chão.
Landi estava deitado de costas. A luz
refletia-se nos seus olhos muito arregalados. O Dr. Morton arrastou o operador
de rádio para o lugar em que se encontravam os outros doentes e cobriu-o.
O olhar de Everson caiu sobre uma fita
branca que se encontrava embaixo do aparelho de rádio.
Abaixou-se para pegá-la. Era uma prova de
que o aparelho funcionara por um instante. Todas as mensagens expedidas eram
registradas nessas fitas estreitas.
Teria Landi conseguido transmitir uma
mensagem pouco antes de ser atingido pelo misterioso atacante? Conseguira
concluir os reparos?
Dedicou sua atenção à fita que tinha na
mão. A frase que conseguiu ler deixou patente que os casos de paralisia não
eram nenhuma doença.
Havia alguém na nave que reduzia
propositadamente o número dos homens capazes de entrarem em ação. As palavras
vistas por Everson não passavam de uma amarga ironia!
O instante durante o qual, segundo
parecia, o aparelho funcionara perfeitamente, fora aproveitado para enviar ao
espaço uma mensagem mentirosa.
Everson voltou a examinar a falsa
mensagem.
Tudo em ordem a bordo da
K-262. Everson.
Enfiou a fita no bolso do uniforme.
Procurou lembrar-se de quem estivera sentado ao lado de Landi durante a
transição. O lugar de Wolkow ficava à direita e ligeiramente atrás do assento
do operador de rádio. E o de Sternal ficava à esquerda.
Antes que Everson pudesse dizer qualquer
coisa, os alarmas automáticos soaram. O ruído estridente pesou em seus nervos
superexcitados. Duas luzes vermelhas acenderam-se no painel de emergência.
— Coronel! — gritou Scoobey num desespero
louco. — Dois conjuntos propulsores entraram em pane.
Todos falavam e gritavam ao mesmo tempo.
Everson sentiu uma vontade irresistível de cair na poltrona e deixar que os
acontecimentos tomassem seu curso.
Os propulsores da Fauna dispunham de
vários dispositivos de segurança contra acidentes de todo tipo. Era altamente
improvável que dois conjuntos falhassem ao mesmo tempo. Se fosse um caso de
sabotagem, Everson via-se diante de um enigma insolúvel, pois ninguém se
deslocara no interior da nave. Everson aspirou profundamente. Teria de mandar
dois homens aos compartimentos em que se encontravam as máquinas defeituosas. Finney,
o técnico, não poderia deixar de ir. Wolkow o acompanharia. Scoobey desligou as
sereias.
— Finney! — gritou Everson em meio ao
súbito silêncio. — Wolkow!
As luzes do painel de segurança pareciam
um par de olhos malévolos.
— Procurem localizar e reparar o defeito.
Ajam com cautela. O sistema de intercomunicação de bordo está ligado. A
qualquer momento, poderão entrar em contato conosco.
Sem demonstrar muito interesse, Finney
perguntou:
— E se tivermos de abandonar o local?
— Nesse caso, saiam — disse Everson.
Finney confirmou com um gesto indiferente.
Desceu pelas escadas juntamente com Wolkow. Everson seguiu-os com os olhos, até
que os perdesse de vista.
O comandante dirigiu-se aos homens que
permaneciam na sala de comando.
— Todos sabemos em que situação nos
encontramos — disse. — Apesar disso, espero que ninguém perca a calma. Por
enquanto não temos informações precisas sobre as avarias. Provavelmente Finney
e Wolkow conseguirão pôr as máquinas em ordem.
Fez um sinal para Sternal, que olhava
fixamente o painel de emergência.
— Sternal, o senhor esteve sentado ao lado
de Landi durante o hipersalto. Notou alguma coisa de anormal?
— Não senhor — disse o navegador. — Só
percebi quando Landi caiu da poltrona.
Ao lembrar-se da cena, engoliu em seco.
— Dr. Morton — disse Everson, dirigindo-se
ao médico barbudo. — O senhor acredita que um de nós possa causar a paralisia?
Acha que existe a menor possibilidade de que seja assim?
— Esse tipo de paralisia pode ser
provocado por alguém que disponha dos necessários recursos e conhecimentos
médicos. Esta última parte aplica-se a qualquer um de nós. Todos aprendemos o
necessário para que possamos arranjar-nos sozinhos se estivermos num planeta
deserto. Apesar disso, sou de opinião que o culpado não pertence à tripulação
da nave.
O médico refletiu por um instante.
— Existem varias toxinas que produzem um
efeito como este. Acontece que, no caso de alguns dos tripulantes paralisados,
especialmente no de Landi, não vejo como o veneno poderia ter sido introduzido
em seu corpo. Alem disso, submeti todos os doentes a um exame rigoroso e posso
afirmar com segurança absoluta que não houve nenhuma intoxicação. Ao que tudo
indica, ainda resta muita coisa para esclarecer, pois trata-se de um choque.
— O que está esperando, coronel? — gritou
Weiss. Sua mão estendida apontava para Mataal, que se mantinha sentado, imóvel.
— O senhor acaba de ouvir que não pode ser nenhum dos tripulantes.
— Cale-se! — disse Everson, advertindo o
homem exaltado — Como explicar a pane no telecomunicador e nos dois
propulsores? Será que o epanense poderia ter realizado atos de sabotagem como
estes?
A atmosfera estava tensa ao Extremo.
Os homens vigiavam-se mutuamente com uma
suspeita cada vez mais intensa. E as desconfianças recaíram principalmente em
Mataal.
— O Dr. Morton aplicará uma injeção no
epanense — decidiu Everson. — Ficará por algum tempo em estado de hibernação.
Se durante esse tempo houver outros desastres, poderemos ter certeza de que
nada tem a ver com os casos de paralisia.
Repetiu as mesmas palavras em língua
epanense. O ser extraterrano fitou-o com uma expressão de indiferença.
— É claro que não tenho nada com isso —
disse, estreitando os olhos. — Antes que use a violência, manifesto minha
concordância.
Everson fez um sinal para o Dr. Morton.
Atrás dele. Fashong soltou um grito de surpresa. Everson virou-se abruptamente.
As duas luzes vermelhas se haviam apagado.
— Não é possível! — exclamou o coronel. —
Finney e Wolkow ainda não podem ter concluído os reparos. Mal podem ter
começado.
Uma suspeita horripilante surgiu em sua
mente. Deu dois passos e colocou-se à frente do microfone.
— Finney! — berrou. — Wolkow! Estão
ouvindo?
Um silêncio pavoroso espalhou-se pela
sala. Everson sentiu as pulsações de seu coração. Os alto-falantes continuaram
silenciosos. Goldstein ergueu-se do leito. Ao que parecia, nem sabia onde
estava, pois seus olhos espantados fitavam os arredores.
— Finney! — voltou a gritar Everson,
enquanto sua garganta ameaçava fechar-se. — Finney! Wolkow!
No seu íntimo sabia que não obteria
resposta. Nem Finney nem Wolkow responderiam. Seus corpos paralisados jaziam em
algum lugar da nave. Deviam estar rígidos, com os olhos muito arregalados.
Everson viu o quadro com os olhos de sua mente... O inimigo invisível revelara
uma habilidade tremenda ao afastar os dois homens do grupo, e ele, Everson,
fizera o jogo do mesmo.
— Vou procurá-los — disse Sternal.
O navegador fez menção de sair da sala.
— Pare! — gritou o coronel. — Fique onde
está.
Sternal não tomou conhecimento da ordem e
prosseguiu imperturbavelmente. Numa decisão súbita, Everson pegou o paralisador
e disparou. Sternal caiu na escada.
— Traga-o para cima, Weiss! — ordenou
Everson. — Logo recuperará os sentidos. Repito: ninguém deverá sair da sala de
comando, haja o que houver.
Sentiu-se cansado e desesperado. Os poucos
homens que lhe restavam não poderiam realizar a última transição.
Estavam à mercê do inimigo traiçoeiro.
7
Goldstein seguiu sem a menor dificuldade o
caminho do pseudo-corpo. Ainda tinha de fazer algum esforço para conduzir
aquela figura absurda e antinatural na direção desejada. Era bem verdade que se
tornava cada vez menos difícil compreender a estrutura atômica de objetos pouco
complicados, mas tinha de agir com cautela, para que não surgisse a menor suspeita
contra ele. A capacidade maravilhosa, que descobrira em Epan, tinha de ser
formada e desenvolvida com todo cuidado. A idéia de se fazer doente funcionara
muito bem. Ninguém lhe dava a menor atenção.
Goldstein soltou uma risadinha de triunfo.
Enquanto suas forças paranormais continuavam a deslocar o bloco disforme de
matéria, os olhos observavam os astronautas desesperados. Estavam prestes a
entregar os pontos.
Refletiu sobre se deveria oferecer-lhes um
pequeno espetáculo. Bastaria um ligeiro reagrupamento da estrutura molecular
para que a poltrona do comandante assumisse o aspecto de uma sela. Mas resolveu
deixar essas cenas para depois, quando recorreria a elas para impor sua vontade
aos tripulantes. Ainda era cedo para voltar à Terra. Sabia que seu novo dom não
tinha similar em todo o Exército de Mutantes, mas este, em seu conjunto, ainda
representava um poder que não conseguiria vencer.
Como numa brincadeira, Goldstein afastou
as moléculas de uma parede de metal leve e deixou que o pseudo-corpo entrasse na
abertura assim formada.
Representava um novo elo na corrente dos
mutantes. Goldstein era um transformador de moléculas. Era algo mais que a
telecinese, que apenas lhe permitiria mover a matéria. Sabia transformá-la.
Podia controlá-la pela força de sua mente, dar-lhe a conformação desejada, e
mantê-la no estado que desejasse. Com massas mais complexas, ainda não se
conduzia com muita habilidade. Mas quando se tratava de criaturas humanas, sua
ação limitava-se apenas a afetar o funcionamento de certos tendões nervosos, a
fim de paralisar os corpos.
Mais tarde, precisaria deles, para usar o
girino em conformidade com seus desejos. No momento, pouco lhe importava de que
forma exercia seu domínio sobre esses homens.
Dispondo de uma arma mental tão poderosa,
nunca se submeteria à vontade de outro homem. Rhodan e seus mutantes não
mandariam nele. Se dispusesse de tempo para desenvolver suas faculdades, não
haveria nada que pudesse representar um perigo para ele. A pequena nave
espacial era um excelente campo de experiências.
Enquanto Weiss depositava o corpo de
Sternal a seu lado, permaneceu em atitude indiferente. O coronel guardou o
paralisador. Nessa hora teria sido fácil pegá-los de surpresa. Mas todos eles,
especialmente Everson, teriam de ser submetidos a um cuidadoso “trabalho”. Devia dar demonstrações de
sua força, provar-lhes que seria inútil resistir. Se caísse sobre eles de uma
hora para outra, continuariam recalcitrantes e se esforçariam para criar
problemas.
Deixou que o pseudo-corpo se desfizesse em
minúsculas partículas de pó. No momento não precisava dele. Finney e Wolkow
jaziam como que paralisados diante de um dos compartimentos da nave.
O mutante acolhera propositadamente os
homem mais arrojados para colocá-los fora de ação.
Com uma expressão irônica nos olhos,
contemplou seu campo de escolha. Havia o comandante. imbuído de ideais e senso
de responsabilidade e Walt Scoobey, o imediato, cujo senso de humor
desaparecera nestas últimas horas.
Sem a menor pressa Goldstein dirigiu os
olhos sobre o próximo escolhido Era Fashong, cuja calma asiática seria mais
difícil de romper. Seguir-se-ia Poul Weiss, o homem de temperamento indomável.
Ainda havia Werner Sternal, que era a próxima vítima escolhida por Goldstein, e
Inoshiro, o japonês, cujos pensamentos sempre se encontravam próximos à verdade
embora o nipônico não soubesse disso.
Ainda restava o médico, que preparava a
injeção de Mataal. Sem dúvida seria difícil vencer sua resistência
Goldstein pretendia apoderar-se da Fauna.
Ainda não tinha uma idéia muito precisa do que faria depois. Tudo dependia da
forma pela qual se desenvolveriam suas extraordinárias faculdades. Por enquanto
continuava a avançar nesse terreno. Precisava ir tateando. Um único erro
poderia representar o fim. Teria de prosseguir no papel de doente debilitado.
Em hipótese alguma deveria superestimar
suas forças. Precisava poupar-se. Poderia prosseguir com experiência, mais
simples. Depois que estivesse mais descansado, começaria a fazer tarefas mais
complicadas. Não tinha pressa. Everson não poderia realizar a última transição,
e as provisões que se encentravam a bordo da nave ofereciam uma margem de
tolerância que lhe permitia refletir antes de agir.
O jovem mutante estava satisfeito com os
êxitos já alcançados. Graças as suas faculdades, não teve a menor dificuldade
em iludir um grupo de astronautas experimentados. E aquilo que fizera com um
grupo reduzido de pessoas também deveria funcionar numa cidade, talvez até numa
grande cidade. Goldstein afastou esse pensamento. Ainda era muito cedo para
fazer tais tipos de reflexões. Era jovem e inteligente e possuía um dom que
nenhum ser humano possuíra antes dele. Era capaz de desenvolver um poder
imenso. Além disso, dominava a arte da telepatia. Era capaz de penetrar na
mente dos seus semelhantes para descobrir-lhes os planos e as idéias.
Everson por exemplo estava pesando as
possibilidades de realizar o último salto. Goldstein não seguiu as reflexões do
comandante pois estas não poderiam chegar a qualquer resultado aproveitável. O
Dr. Morton pensava nos homens paralisados. Enquanto isso Fashong refletia sobre
se o próprio Everson não poderia ser responsável pelo que estava acontecendo.
As idéias mais perigosas eram as do
japonês. Inoshiro tinha idéias bem definidas sobre a maneira pela qual foram
produzidas as paralisias.
“Já
que um estado desses não pode ter sido produzido por influências externas, só
resta uma possibilidade...”, pensava o japonês.
Goldstein resolveu mantê-lo sob uma
vigilância ininterrupta.
Scoobey realizava cálculos mentais para
descobrir por quanto tempo o girino poderia permanecer no espaço antes que
todos morressem de fome. As idéias de Weiss também eram bem interessantes. Ele
imaginava o que faria quando descobrissem o autor daqueles atentados. O mais
medroso era Sternal, que esperava que Everson tomasse logo alguma providência
que os ajudasse a sair daquela situação.
— Procure controlar-se um pouco — foram as
palavras que Goldstein ouviu saírem da boca de Everson.
O comandante da nave dirigia-se a Sternal,
que acabara de recuperar-se dos efeitos do disparo.
— Não podemos deixá-los jogados por lá —
disse Sternal. — É possível que as radiações no interior da câmara de reação
sejam tão intensas... — sua voz transformou-se num cochicho inaudível.
— Provavelmente ainda não chegaram lá —
disse Everson em tom menos áspero.
“Preciso
'esquentar-lhes' a cabeça”, pensou Goldstein. “Seus nervos devem ser mantidos sob tensão constante.”
Procurou um objeto adequado. Sua escolha
recaiu na cobertura que protegia Stanford. Certificou-se de que ninguém
observava os doentes. Seu cérebro absorveu o modelo da estrutura molecular da
coberta. Fixou na mente o esquema das moléculas de carbono. Poderia
modificar-lhes a forma de agrupamento à vontade. Se quisesse moldaria uma corda
de alguns metros de comprimento, dividindo-a em várias partes.
Mas não pretendia fazer nada disso. Sob a
influência de sua vontade, a coberta saiu suavemente de cima do corpo de
Stanford. Goldstein voltou a examinar atentamente os homens; depois colocou as
moléculas em movimento. Um tapete voador parecia afastar-se de Stanford.
Goldstein desenvolveu um trabalho rápido e preciso. Colocou o grande pedaço de
tecido em cima de Zimmermann. O operador de rádio estava duplamente protegido,
enquanto Stanford jazia apenas em seu uniforme.
Scoobey foi o primeiro a perceber.
— Doutor, o senhor descobriu Stanford? —
perguntou, dirigindo-se a Morton.
O médico olhou para os doentes.
— É claro que não — respondeu. Levantando
a voz, perguntou: — Quem descobriu Stanford?
Ninguém respondeu. Um tanto perturbado, o
médico aproximou-se dos homens paralisados.
— Deve ter sido alguém que é muito amigo
de Zimmermann — disse em tom de perplexidade.
Voltou a envolver Stanford cuidadosamente
em sua coberta.
Goldstein percebeu que um truque como este
não poderia abalá-los. Seus nervos estavam tão tensos que não atribuiriam maior
importância ao incidente. Todos acreditavam se tratar de um engano.
Menos um dos presentes! Inoshiro!
Goldstein acompanhou cuidadosamente os
pensamentos do japonês. Poucos minutos antes do ato de Goldstein, Inoshiro
observara os doentes. Tinha certeza absoluta de que até aquele momento Stanford
ainda estivera coberto. E, nesse meio tempo, ninguém se aproximara dos homens
paralisados. Era impossível que algum dos astronautas imobilizados tivesse sido
o autor da modificação. Goldstein era o único que não estava paralisado.
“Será
que o mutante louco teria sido o autor da brincadeira? Para isso teria de
levantar-se”, prosseguia Inoshiro em suas reflexões, ignorando que um “ouvinte” acompanhava seus pensamentos. “Por mais que estenda os braços, não
alcançará Stanford. Até parece que alguma força invisível... O mutante!”
O choque mental foi tão violento que
Goldstein estremeceu. O japonês desconfiara e estava prestes a avisar Everson.
O mutante não teria tempo para paralisar Inoshiro. Para isso, teria de realizar
uma sondagem cuidadosa dos respectivos centros nervosos.
Goldstein viu uma caneta que se encontrava
sobre a mesa do navegador. Para o mutante, o objeto não passava de uma
acumulação de moléculas pouco complicadas que poderia transformar à vontade.
Num instante, Goldstein modificou o objeto alongado, reagrupando as moléculas
num conjunto de forma cúbica.
Inoshiro estava olhando em sua direção. A
excitação de sua mente era mais que evidente. Goldstein agiu com uma frieza
total. Antes que os lábios do japonês pudessem abrir-se para formular a
acusação, Goldstein acelerou o movimento do lápis totalmente transformado e
fê-lo bater com força contra a testa de Inoshiro.
O pequeno asiático soltou um gemido e
caiu. Estava inconsciente. Os homens correram em sua direção. Goldstein deixou
cair cautelosamente a arma improvisada. Enquanto os astronautas cuidavam do
ferido, levantavam-no do chão e o examinavam, o mutante restituiu o formato
original ao lápis e o recolocou na escrivaninha.
— Olhe a testa dele, doutor — disse
Everson.
Perplexos, o Dr. Morton e Everson estavam
inclinados sobre seu corpo. O médico virou a cabeça do japonês para cima.
— Está apenas inconsciente — afirmou. —
Parece que alguém lhe deu uma pancada com uma pequena barra de metal.
Everson fitou o médico de bordo: não sabia
o que pensar.
— Não é possível — disse. — Ninguém viu
nada... A causa do ferimento deve ser outra.
— Talvez tenha esbarrado em alguma coisa —
supôs Weiss.
Goldstein não deu maior atenção à sua
conversa.
O japonês não continuaria inconsciente por
muito tempo. Mas havia uma possibilidade de prolongar o estado em que se
encontrava. Goldstein voltou a descansar no leito improvisado. Agora já tinha
tempo para colocar o japonês fora de ação, tal qual fizera com os homens que
estavam deitados a seu lado.
A respiração de Goldstein acelerou-se.
Ainda haveria alguém capaz de detê-lo? Passaria por cima de todos, por cima de
Everson, de Rhodan, dos mutantes — de qualquer pessoa que se interpusesse em
seu caminho. Depois disso, ele, Goldstein, controlaria todas as encruzilhadas
da história, e a evolução da Humanidade se processaria pela trilha que iria
formar em sua mente.
Goldstein tinha idéias perfeitamente
definidas sobre seu futuro. Era verdade que, bem no seu íntimo, sentia certo
mal-estar que não conseguia explicar.
8
Certa vez nos anos de juventude Everson
vira um filme cultural, que mostrava como os membros de um povo primitivo
irrigavam seus campos Faziam um burro magro e estropiado correr em círculo com
os olhos vendados bombeando a água Enquanto o animal indefeso, martirizado
pelos insetos corria ao sol do meio-dia alguns dos nativos se mantinham
inativos à sombra do poço.
Naquele tempo, o tratamento dispensado ao
animal provocara uma cólera violenta em Everson. E agora, que estava encolhido
na sua poltrona, tresnoitado, com o rosto pálido e encovado, sentia uma
compreensão ainda mais profunda pelo sofrimento do burro. Sua situação era
semelhante à do quadrúpede que vira no filme. Everson também se movia em
círculo. Parecia estar com os olhos vendados, incapaz de reconhecer a verdade.
Suas mãos seguraram o copo com o líquido
gelado, que o Dr. Morton lhe dera para animá-lo.
Inoshiro não chegou a recuperar os sentidos.
Passou do estado de inconsciência à misteriosa paralisia. Há poucos minutos
Sternal fora atingido também. O homem caíra à porta da sala de comando, sem
emitir qualquer som, como se fosse uma marionete cujo fio é cortado.

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