sábado, 7 de setembro de 2013

P-071 - Tigris Erra o Salto - Kurt Brand [parte 3]

— O.K., Sir — respondeu o esguio sugestionador e saiu discretamente do quarto.
Desceu pelo elevador antigravitacional, atravessou o enorme hall de recepção, viu os robôs de registro espalhados por toda parte e, quando viu seus rígidos sistemas de lentes, teve a impressão de que o fitavam.
Depois, como um viajante que tivesse saído pela primeira vez de seu planeta natal e se sentisse inseguro num mundo estranho, aproximou-se da recepção.
Kitai Ishibashi não demonstrou pressa. Aras, saltadores, inteligências de aspecto não-humanóide, algumas delas vestidas com trajes espaciais, porque a atmosfera do planeta lhes seria mortal — todos comprimiam-se em torno da recepção, pois todos queriam que os nove atendentes ekhônidas lhes dessem informações.
— Queira dirigir-se ao robô de informações — era a resposta “estereotipada” dos funcionários que Kitai Ishibashi ouvia constantemente. — Queira dirigir-se ao robô de informações.
O rosto de Kitai Ishibashi demonstrava tranqüilidade. Não revelava a tremenda energia sugestiva que desenvolvia e irradiava sobre os funcionários.
A ordem, que lhes transmitira por via de sugestão, foi simples:
— Digam a qualquer pessoa que lhes pergunte por quatro, cinco ou seis saltadores, que o hotel tem mais de vinte mil hóspedes, motivo por que não podem fornecer qualquer informação. Peça que recorram ao robô.
A ordem não poderia ser mais simples, e sua finalidade consistia em proteger Perry Rhodan e seus três companheiros contra qualquer eventualidade.
Logo daria o passo seguinte. Kitai Ishibashi aproximou-se da mesa de recepção.
— Pois não, senhor! — disse um dos funcionários. A cabeça do ekhônida aproximou-se do guichê ocupado exclusivamente por Ishibashi.
— Desejo... — e, depois disso, o sugestionador japonês só moveu os lábios para causar certa impressão em alguém que o estivesse observando.
A fim de sugestionar o jovem ekhônida, recorreu a todas as energias de sua mente.
— Informe quando costumam ser reprogramados os robôs de registro!
— Uma vez por ano, senhor — respondeu o funcionário com a maior cortesia, e nem se surpreendeu com a resposta que ele mesmo acabara de dar, pois estava convencido de que aquele saltador esbelto lhe formulara uma pergunta a este respeito.
— Quem ordena a reprogramação? — foi a outra pergunta sugestionada pelo japonês.
— O engenheiro-chefe Ulgald, senhor.
— Onde posso encontrá-lo?
— No primeiro andar, ala gg/3, setor de registro, senhor.
— Obrigado.
O agradecimento foi dito em voz alta.
Despediu-se apressadamente. Depois foi ao primeiro andar e procurou a ala gg/3. Pediu a um ekhônida que lhe mostrasse onde ficava o setor de registro.
— Esqueça que um saltador falou com você — ordenou apenas por via sugestiva e saiu à procura do engenheiro-chefe Ulgald.
Mas não sabia orientar-se nos escritórios ekhônidas. Perdeu-se e depois de uma busca prolongada voltou a dirigir-se a um funcionário. Este respondeu:
— Eu sou Ulgald, saltador...
Quando os dois saíram do poço do elevador antigravitacional como se fossem velhos amigos, ninguém notara qualquer coisa de anormal no engenheiro-chefe. Despediu-se cordialmente do mercador galáctico, alto e magro, de corpo ligeiramente encurvado, e dirigiu-se a seu setor para mandar que os robôs de registro fossem reprogramados.
Conferiu à ordem um valor que não admitiria qualquer contradita ou indagação.
A operação foi concluída dez minutos antes da chegada da Polícia Aduaneira. Os dados armazenados em nove meses e três dias estavam irremediavelmente perdidos.
As indicações relativas a Perry Rhodan e seus mutantes, que num controle mais rigoroso poderiam ter levado à sua descoberta, já não existiam.
Pela primeira vez na história do Hotel Estrela de Árcon, a administração do estabelecimento não dispunha de dados relativos aos seus hóspedes. Para completar a confusão, a reprogramação fora realizada pouco antes do momento em que os robôs, seguindo um ritmo de três horas, transmitiriam seus dados ao setor de contabilidade.
Ulgald, que dali a vinte anos ainda tremeria ao lembrar-se desse dia, não foi demitido, porque a Polícia Aduaneira atribuía a reprogramação a um acaso infeliz.
Nem mesmo ela teria capacidade de submeter mais de vinte mil hóspedes a um exame rigoroso.

* * *

Quarenta e cinco minutos se passaram desde a saída de Kitai Ishibashi. Tako Kakuta também ainda não voltara de seu segundo salto de teleportação.
Fellmer Lloyd conseguira ler os pensamentos do General Sutokk.
— O quê? — perguntou Perry Rhodan em tom perplexo e fitou Fellmer Lloyd. — Durante a fuga, Ostal e seus homens não usavam quaisquer vestes? Será que você não leu uma piada de mau gosto na mente desse general arcônida, Lloyd?
Fellmer jurou que não se tratava de nenhuma piada. E que os pensamentos entretidos pelo general em relação ao chefe da Defesa Planetária não eram nada favoráveis: Egg-or se recusara a ceder os terranos para a lavagem cerebral.
— Procura descobrir alguma relação entre o apresamento da Tigris e os acontecimentos que se desenrolaram a bordo da Mab I? — perguntou Rhodan em tom insistente.
— Neste ponto, não está fazendo maiores esforços, Sir. O que mais lhe interessa é ter em mãos o quanto antes as coordenadas galácticas da Terra.
— Não demorará em recebê-las — disse Perry Rhodan, mergulhado em suas reflexões. — Kakuta está demorando muito...

* * *

Num segundo salto de teleportação, o débil japonês se transportara à nave capitania do General Sutokk, para examinar o novo goniômetro de compensação.
Como mutante que era, não havia recebido apenas, que nem todos os seus companheiros, a ducha celular do planeta Peregrino, que deteria seu envelhecimento pelo prazo de sessenta e dois anos. Mas, da mesma forma que seus companheiros, fora submetido também a um intenso treinamento hipnótico, que lhe ministrara conhecimentos extensos em todas as áreas.
Tako Kakuta rematerializou-se no interior do gigantesco pavilhão de conversão da nave capitania Ebneb, sob a proteção de uma espula magnética de mais de dez metros de altura, que alcançava o teto e parecia precipitar-se sobre o conversor num ângulo de 45 graus.
O ligeiro ruído provocado pelo salto do teleportador foi abafado pelo zumbido uniforme das diversas unidades energéticas.
Nem os conversores, nem as unidades energéticas — que eram gigantescos acumuladores, suficientes para abastecer um planeta de densidade industrial média por cinco anos — e nem mesmo a espula ou os elementos intermediários de dez metros de altura causaram qualquer impressão em Tako Kakuta. Na Titan e na Drusus já vira aparelhos de dimensões bem maiores.
Chegara exatamente ao lugar desejado. As naves de guerra arcônidas eram praticamente iguais umas às outras. As únicas diferenças assinaladas consistiam no tipo e na espécie do armamento. Kakuta sentiu-se em casa, como se estivesse na Lotus, na Ganymed ou na Drusus.
A três metros de altura, viu o banco de controle, que era um passadiço metálico que contornava o conversor. Teleportou-se para lá, examinou os elementos intermediários e descobriu dois ekhônidas conversando. De costas para ele, ambos estavam sentados num duto energético, balançavam as pernas e soltavam estrondosas gargalhadas.
Tinha de fazê-los sair do pavilhão dos conversores ou distraí-los de tal forma que não ouvissem o abrir ou o fechar de uma das escotilhas que funcionavam como diafragmas.
Tako Kakuta não apreciava os caminhos ásperos. Sempre procurava encontrar um meio que o levasse a seu objetivo sem causar dano grave a pessoas inocentes.
Encontrava-se junto ao dispositivo magnético que regulava a inclinação da gigantesca espula magnética. Soltou uma risadinha. Segurou com ambas as mãos e, com a força de seus dedos, fez girar a roda de regulagem que retirava a gigantesca espula silenciosamente do ângulo de 45 graus, conduzindo-a inelutavelmente para a posição de 30 graus.
Sustentada no ar por energias antigravitacionais dirigidas, a espula modificou seu angulo de inclinação em relação ao conversor, sem produzir o menor ruído. Mas bastou o desvio de um grau para que os controles positrônicos emitissem um som semelhante ao de uma sereia. E, à medida que Tako Kakuta fazia descer a espula magnética, o ruído chegou a uma altura infernal.
Tudo foi uma questão de segundos. Se não fosse sua faculdade de teleportar-se, seria uma missão suicida. Os ekhônidas não deixariam de ver um homem normal que se encontrasse ali. No entanto, como dominasse a teleportação, subitamente o lugar em que se encontrava ficou vazio.
Dois ekhônidas subiram apavorados pelos degraus que davam para a plataforma de controle. Tiveram de contornar o gigantesco conversor, a fim de chegar ao dispositivo de regulagem magnética.
O uivo das sereias enchia seus ouvidos. Os dois soldados ekhônidas não pensavam em outra coisa senão no castigo que os aguardava. Nem se interessaram em descobrir o motivo do alarma da espula magnética.
Tako Kakuta realizou duas teleportações de curta distância. O último salto levou-o para a escotilha atrás da qual devia ficar o compensador estrutural, de dimensões extremamente reduzidas em comparação com sua potência.
E o novo goniômetro de compensação só poderia ficar ali. Era o que afirmava a equipe científica de Allan D. Mercant. Até então, os prognósticos deles sempre se revelaram corretos.
A escotilha abriu-se e voltou a fechar-se depois de o japonês ter passado pela mesma.
Dali a alguns segundos, Kakuta viu-se frente a frente com o mistério.
— Então é com isto que querem derrotar-nos — disse em voz baixa.
Procurou localizar as saliências cinzentas que, ao contato da mão, desprendiam o revestimento do respectivo encaixe.
O goniômetro de compensação era um aparelho de cerca de três metros de altura e mais de dez de comprimento. Encontrava-se junto ao compensador estrutural, ao qual estava acoplado. Tako Kakuta nem pensou em realizar um ato de sabotagem. O chefe não lhe dera ordem para isso. Perry Rhodan apenas desejava descobrir os detalhes do funcionamento do aparelho.
Encostou somente uma das mãos e um pedaço do revestimento desprendeu-se do resto. Kakuta colocou-o no chão.
O novo goniômetro de compensação revelou seu segredo ao olho sapiente do japonês...
No momento em que viu as peças do aparelho, iluminadas pela face interna do revestimento, todos os conhecimentos que adquirira nessa área da tecnologia foram despertados à vida.
Estacou.
Já conhecia essa construção, que ali se apresentava na sua concepção fundamental. A recordação fê-lo pensar nos homens-pepino, os swoons. No mesmo instante, compreendeu que o novo goniômetro de Árcon era apenas uma cópia grandemente aumentada da invenção desses seres.
Um terrível pressentimento atingiu-o com a força de um raio e fê-lo olhar para a escotilha.
Enquanto virava abruptamente a cabeça, concentrou-se para realizar um salto de teleportação e reaparecer atrás do compensador estrutural.
A escotilha abriu-se repentinamente. Um homem — um dos dois soldados ekhônidas — ao entrar, soltou um grito. Mas, no mesmo instante, Kakuta não o viu mais.
A ligeira teleportação o tinha levado para trás do compensador estrutural. Porém não se retirou logo. Ainda quis conhecer a reação do ekhônida, quando este descobrisse o pedaço do revestimento encostado ao goniômetro.
Kakuta teve sorte. O ekhônida que acabara de passar pela comporta estava animado exclusivamente pelo desejo de escapar ao castigo. Por isso estava disposto a aceitar como feitiçaria certos acontecimentos que normalmente teria comunicado aos seus superiores.
— Por todos os sóis e estrelas — gritou com a voz trêmula. — Ainda não tomei nenhum uquir. Nunca acreditei em fantasmas, mas agora já estou acreditando. Caramba! Quem retirou esta placa foi o pequeno demônio estelar.
Kakuta ouviu o ekhônida colocar a placa de revestimento no lugar. Depois saltou para o apartamento de Perry Rhodan, no Hotel Estrela de Árcon.
Kitai Ishibashi veio depois dele. Foi quem esteve fora por mais tempo, mas teve menos a contar.
— Então, onde estão Ostal e os outros? — perguntou Perry Rhodan.
Fellmer Lloyd lançou-lhe um olhar de perplexidade.
— Não consigo localizá-los, Sir. Se ao menos um ekhônida ou esse general da frota soubesse de alguma coisa! Acontece que o general apenas pensa numa coisa: submeter um dos saltadores à lavagem cerebral.
Perry Rhodan disse em tom resoluto:
— Mas não o fará. Nós cuidaremos disso. Acho que também devemos fazer nossos preparativos para o caso de descobrirem nossos homens. Eles não devem sentir-se muito bem no estado em que se encontram. Vamos embora.


7



Egg-or não teve tempo para descansar.
O General Sutokk nem pensou em dormir.
Perry Rhodan e seus três mutantes caminhavam na noite da gigantesca Ent-Than, a fim de comprar trajes completos para os fugitivos e adquirir um veículo de carga.
Quem também caminhava pela noite era o Major Clyde Ostal e seus trinta e dois companheiros.
Estavam parados junto a uma grande clareira. Por cima das copas das árvores viram o semicírculo da lua esverdeada. Do outro lado, encontrava-se o segundo satélite do planeta. Seu reflexo, também esverdeado, era tão forte que fazia a borda da mata projetar uma sombra, permitindo que os homens observassem toda a área livre de vegetação.
A mata do planeta Ekhas era toda silêncio. Era um silêncio apavorante. Não havia um roedor que provocasse seu ruído característico, nenhuma ave cruzava os ares, nenhum animal arisco fugia do homem.
Nem mesmo o vento soprava.
Apesar da hora avançada da noite, o calor era sufocante. A umidade atmosférica chegava ao extremo. O suor gotejava de todos os poros dos trinta e três homens do planeta Terra.
Já fazia alguns minutos que se encontravam escondidos sob as árvores. Esperavam que o major desse ordem de prosseguir na marcha. Mas a hora ainda não chegara. Ostal perguntou pelos seis homens que tinham os pés feridos. O duro treinamento ministrado por Allan D. Mercant lhes ensinara tudo, menos a maneira de locomover-se descalços por uma enorme mata inóspita.
A sede secava-lhes a garganta. Só falavam o indispensável. Nem praguejar conseguiam. Mas não estavam desanimados.
Se não conseguissem hoje, conseguiriam amanhã ou depois.
Queriam roupa, comida, bebida. O desejo de beber dominava todos os pensamentos.
Subitamente, a lua maior desapareceu. Outra lua menor surgiu. Depois de algum tempo, também esta desapareceu.
No momento em que os trinta e três homens ouviram um rugido vindo da nuvem, os primeiros raios desciam à terra.
— Uma trovoada! — exclamou o major em tom de alívio. — Uma trovoada sempre traz água, minha gente!
Prometeu água aos seus homens e a si mesmo.
Mas, antes da água, veio a ventania, e enquanto esta rugia, inúmeros raios se desprenderam da camada de nuvens que corria por cima dos homens.
Subitamente, a clareira ficou mergulhada na luz fulgurante produzida pela fúria dos elementos.
Os trinta e três homens viram ao mesmo tempo a casa ou cabana. O Major Ostal gritou para superar o rugido da natureza, mas só S. Seegers, que se encontrava a seu lado, conseguiu ouvir suas palavras.
— Siga-me! Transmita a ordem! — berrou o Tenente Seegers ao ouvido do homem que se encontrava mais próximo.
Uma extensa fila de trinta e três homens correu de pés descalços pela clareira coberta de capim, em direção à pequena construção que se encontrava do lado oposto.
Subitamente desabou a chuva. Descia em cascatas.
Grandes poças formaram-se no chão. Até mesmo o Major Ostal saciou a sede nelas. A água era morna e tinha um gosto pantanoso. Mas só perceberam isso quando muitos deles, num gesto de satisfação, passavam as costas da mão pelos lábios que já não estavam ressequidos.
— Vamos! — a ordem de Ostal foi transmitida de homem para homem.
Saíram correndo. As energias desencadeadas pela fúria dos elementos proporcionaram a luz, e esta fazia com que não se perdessem de vista.
A clareira era bem maior do que acreditavam ao vê-la sob a luz das duas luas. A trovoada cessou tão de repente como começara.
Ainda não haviam chegado à casa ou cabana situada do lado oposto.
As duas luas voltaram a brilhar.
Subitamente, o major abriu os braços para deter os dois homens que o seguiam de perto. Um cochicho correu pelas fileiras. Todos ficaram parados. Ninguém viu nada, mas depois de algum tempo S. Seegers e o cabo Fip ouviram a ordem do major:
— Sigam-me! Os outros ficarão aqui. Os três atravessaram as enormes poças de água que estavam sendo absorvidas lentamente pelo chão ressequido. Ostal indicou a direção. Seegers e Fip seguiram-no sem dizer uma palavra.
Mais uma vez, Ostal abriu os braços para deter os dois homens. Soltou um ligeiro “psiu”. Os olhos de Seegers e Fip procuraram romper a escuridão.
“Isso não é uma luz?”, indagou-se Seegers, mentalmente.
Fip, que se encontrava a seu lado, cochichou:
— Estou vendo uma luz!
A construção mal se destacava contra o fundo negro da mata. Num ponto, a cabana emitia uma fraca luminosidade, que o major vira antes de Fip e Seegers.
Clyde Ostal deitou lentamente no chão. Um observador atento que se encontrasse no interior da casa já os teria visto. O Tenente S. Seegers e o cabo Fip seguiram o exemplo do major. Rastejando pelo capim molhado, colocaram-se ao lado do oficial superior, para que um eventual disparo de arma de radiações não os matasse de vez.
— Seegers, venha comigo. Fip, você procurará voltar para junto dos outros se algo nos acontecer. Em hipótese alguma, tente ajudar-nos. Na situação em que nos encontramos isso seria inútil. Fip, confio em você.
Caminhando abaixados, Ostal e Seegers descreveram uma curva ampla para aproximar-se da construção pela direita. Logo mergulharam na sombra projetada pela mata. Dali em diante, puderam caminhar à vontade.
O Major Clyde Ostal caminhava uns cinco metros à frente do tenente. Os contornos da construção destacavam-se cada vez mais nitidamente. Não era uma cabana, mas uma construção feita do tipo de plástico que os arcônidas usavam há milênios.
Subitamente Ostal estacou.
Junto ao ângulo esquerdo da casa, voltado para a clareira, reconheceu os contornos de um robô.
— Para trás, Seegers! — conseguiu gritar antes de ser atingido por um tremendo raio hipnótico, que o deixou inconsciente.
O Tenente S. Seegers não se deixou dominar pelo pânico. No treinamento proporcionado por Allan D. Mercant não havia lugar para esse sentimento. Reagiu com uma rapidez incrível. Ainda viu o robô sair da sombra da casa, caminhar em direção à vítima, abaixar-se e tomá-la nos braços. Finalmente, viu o Major Clyde Ostal ser carregado para a casa.
Enquanto observava tudo isso, Seegers rastejou de volta e mergulhou novamente na sombra projetada pela mata. Nâo compreendeu por que não fora localizado e reduzido à inação pelo homem-máquina.
Guardando estritamente todas as cautelas, Seegers voltou para junto do cabo Fip. Ao ver o tenente só, o graduado cochichou:
— Onde está o major?
— Lá na frente há robôs — respondeu o tenente. Fip não teve necessidade de formular outras perguntas.
Assim que voltaram para junto do grupo de homens que os esperava, o Tenente S. Seegers assumiu o comando.
Desviaram-se numa grande curva para a esquerda, entraram na mata e prosseguiram em sua marcha.
Pelos padrões terranos, um dia do planeta Ekhas durava trinta e oito horas. Já fazia dez horas que caminhavam pela escuridão da mata. Podiam contar com mais nove horas de escuridão. Não se entregaram a ilusões; não encontrariam qualquer povoação humana antes do romper do dia.
No dia anterior, enquanto realizavam a fuga precipitada no táxi aéreo, não haviam visto em toda a área qualquer vestígio de habitações humanas. Por isso, quando subitamente viram, por entre o denso arvoredo, algumas dezenas de pontos luminosos imóveis, sentiram-se muito surpresos.
— Cabo Fip! — ordenou o Tenente Seegers. — O senhor e eu...
O ruído trovejante do mecanismo propulsor de uma nave espacial rompeu o silêncio da noite.
— Vamos até o fim da mata! — gritou Seegers.
Mas não chegaram à borda da mata...
À sua frente, estendia-se uma muralha de um quilômetro, formada por trepadeiras e pequenos arbustos entrelaçados.
— Não é de admirar que não vimos isso do táxi aéreo! — disse o Tenente Peter H. Hasting, enquanto fitava as luzes distantes e, tal qual os outros, prestava atenção ao ruído, cada vez mais forte, provocado pela nave. — Aquilo lá não pode ser o espaço-porto de Ent-Than!
Subitamente, teve a atenção despertada para alguma coisa... no seu corpo.
A fratura do braço estava curada!
As informações dos médicos da prisão ekhônida foram corretas. O novo preparado dos aras, injetado no braço fraturado, realizava a cura em menos de vinte horas. Já os medicamentos até então utilizados no Grande Império, e que também eram empregados no Império Solar de Perry Rhodan, precisavam de cinqüenta ou sessenta horas para alcançar a cura completa.
O Tenente Peter H. Hasting estava a ponto de chamar a atenção de seu colega Seegers para o fato, quando uma nave cilíndrica se destacou contra o céu, no qual haviam voltado a brilhar as estrelas. No início, subiu na vertical e, depois de ter atingido a altura de quinhentos metros, passou a deslocar-se horizontalmente, na direção do grupo de terranos.
Com os mecanismos propulsores trovejantes a nave passou acima do lugar em que se encontravam. Dali a trinta segundos, um borbulhar distante foi o único sinal que restava da nave que se afastava.
— Olhem as luzes! — com um gesto de surpresa, o Tenente Seegers apontou para diante.
Os pontos luminosos, um após outro, foram-se apagando. Depois de algum tempo, a área coberta de arbustos estendeu-se diante deles, como se fosse uma extensão de terra virgem e intocada.
— Nosso major!
Ninguém soube quem proferira estas palavras, que produziram o efeito de uma bomba. Trinta e dois homens sentiram-se envergonhados. Abandonaram Ostal sem mover um dedo.
Seegers virou a cabeça.
— Não quero saber quem acaba de dizer isso, mas não posso deixar de chamar a atenção dos senhores para a situação em que nos encontramos..
Sua voz parecia áspera.
— O major não foi abandonado por nós. Se alguma coisa acontecesse a ele ou a nós dois, deu ordens expressas para que não fizéssemos nada. E só poderemos procurar localizá-lo e ajudá-lo, quando dispusermos dos meios necessários. Acho que esses meios podem ser encontrados no lugar de onde vimos decolar aquela nave. Precisamos chegar lá antes que o dia raie. Havemos de conseguir, minha gente!
Conseguiram, mas o dia já estava raiando.

* * *

Seegers, Hasting e Fip encontravam-se atrás dos últimos arbustos. Afastaram cautelosamente os galhos.
Três robôs dos saltadores estavam a cinqüenta metros deles. Pareciam estátuas de aço. Suas lentes refletiam a luz amarela do sol de Naral. Os robôs não se sentiram incomodados com isso. Seu cérebro positrônico não estava sujeito aos efeitos do ofuscamento.
Um dos três homens-máquina virou-se na direção em que se encontravam os três homens. Fip foi o último a soltar os galhos que segurava.
Os terranos não se abalaram. Sabiam que o cérebro positrônico dos robôs dos mercadores galácticos era menos sensível que o das máquinas dos arcônidas.
Cinco minutos passaram-se. Não se ouviu o passo surdo de qualquer dos robôs, nem o chiado de uma arma térmica.
— Não podemos ficar deitados para sempre — cochichou Peter H. Hasting. — Como posso falar com um mercador galáctico sem que um desses robôs me dê um tiro?
— Hasting — respondeu Seegers — como pretende falar com um mercador galáctico, se nem sequer vemos qualquer construção? Os robôs são o único sinal de que por aqui existe alguma coisa. E o que espera conseguir ao falar com um saltador?
— Tudo, Seegers. Quem vive nestas matas procura esconder alguma coisa dos ekhônidas. E quem tem algo a esconder dos filhotes de arcônidas não é nosso inimigo. Se além do mais prevenirmos os saltadores, porque...
Estacou e, depois de algum tempo, perguntou em tom apressado:
— Será que aquela casa baixa com a luz fraca faz parte desta filial dos mercadores galácticos? Seegers, Fip, o que acham?
Seegers sacudiu a cabeça.
— A casa estava na clareira, sem o menor disfarce. Qualquer um podia vê-la. E, ao que parece, por aqui até mesmo o campo de pouso de naves espaciais foi camuflado. Não vejo nenhuma relação entre este espaçoporto e a casa em cujas proximidades foi preso o major.
— Se essa sua suposição for correta, minha posição será reforçada — disse Hasting sem maiores comentários. — Seegers, agora uns três ou quatro dos nossos homens terão de assumir um risco. A única coisa que temos são pedras. Preciso de alguns homens que saibam atirar pedras com boa pontaria. Allan D. Mercant, esse tipo de treinamento nunca foi ministrado em sua escola. Um ataque a pedradas contra robôs controlados por cérebros positrônicos...
O Tenente S. Seegers colocou a mão sobre o ombro do companheiro.
— O que pretende fazer enquanto alguém estiver jogando as pedras? — perguntou com um olhar penetrante.
Peter H. Hasting respondeu:
— Alguém precisa tentar romper o cordão. E é o que pretendo fazer enquanto a atenção dos robôs for distraída pelas pedradas.
— Não! — objetou Seegers em tom enérgico. — Isso seria um suicídio.
— O senhor tem outra solução? — perguntou Hasting em tom tranqüilo.
— Deixe que eu tente, Tenente Hasting — pediu o cabo Fip.
— Então é dois a um, Seegers — disse Hasting, lançando um olhar de aprovação para Fip. — Nosso cabo também vê uma chance de êxito em nosso plano. Parece que o assunto está liquidado. Assim que caírem as primeiras pedras e os robôs examinarem a origem do bombardeio, sairei correndo. Faça o possível para que eu tenha um bom raio de ação para o lado direito. Por lá, a vegetação é mais densa. Então, o que diz?
O Tenente Seegers ainda não estava muito satisfeito com o plano. Sabia que Hasting só contava com uma probabilidade de êxito de três por cento. A melhor resposta seria um não.
Porém, concordou a contragosto e desapareceu entre os densos arbustos, cuja altura naquele lugar chegava a três metros.
Peter H. Hasting manteve-se à espreita, pronto para saltar. Pelos seus cálculos, o Tenente Seegers já devia ter concluído seus preparativos.
Naquele instante, viu que à sua direita umas seis ou oito pedras enormes cruzavam o ar sem o menor ruído. Pouco acima de sua cabeça outra saraivada de pedras cortava o ar, em direção aos robôs.
As pedras bateram ruidosamente nas proximidades dos robôs dos saltadores. Por uma pequena abertura entre os galhos, Hasting viu o robô do meio e o da direita virarem-se abruptamente. Além do baque surdo das pedras que atingiam o chão ouvia-se o passo duro dos homens-máquina.
Os homens destacados por Seegers faziam um bombardeio quase ininterrupto.
Depois de algum tempo, o robô da direita também reagiu com suas armas mortíferas.
Três raios chiantes subiram ao ar e destruíram parte das pedras que se aproximavam. O robô à esquerda caminhou para frente e reagiu da mesma forma.
Para Hasting isso representava o sinal de partida.
Os sistemas de lentes dos robôs fitavam as pedras.
Hasting sabia que os robôs não enxergavam de costas!
Mas sabia que, dentro de poucos segundos, as máquinas descobririam o lugar do qual provinha o bombardeio de pedras e, quando isso acontecesse, apontariam suas armas de radiações para esse lugar e só parariam de disparar depois que o chão estivesse transformado numa massa derretida e borbulhante.
O espaço entre o robô que estava à sua direita e o que se encontrava à sua frente era inferior a cem metros. Peter H. Hasting correu como jamais correra. Olhava alternadamente para a direita e para a esquerda.
Bastaria um ligeiro desvio para que fosse descoberto.
Na velocidade que vinha, atirou-se instintivamente embaixo de um arbusto, mas não ficou deitado. Rastejou que nem um índio, e conseguiu deslocar-se sem tocar em um único dos galhos pendentes.
Subitamente ouviu dois estalos.
Duas pedras haviam acertado o robô que pretendera virar-se na direção em que se encontrava.
Hasting raciocinou com uma lógica inflexível.
Um cérebro positrônico não sente. Uma pedra que o atinge não o afeta em nada. Mas aquela pedra representava o início de um ataque, e o robô não deixaria de reagir...
Hasting levantou-se de um salto, passou entre dois arbustos, perdeu de vista o robô e recuou apavorado quando à sua frente, a três metros de distância, surgiu um raio que fez derreter o solo.
O robô da esquerda acabara de localizá-lo.
Hasting virou-se imediatamente. Sua primeira reação foi correr para trás. Mas, naquele instante, viu que dois saltadores perturbados pelo alarma dos robôs corriam em sua direção.
Levantou os braços e correu em direção a estes.
Às suas costas, outro raio de impulso foi disparado por um dos robôs. Desta vez, errou por pouco, pois o calor irradiado pela vegetação gaseificada e pela terra derretida atingiu-lhe todo o dorso.
Perplexos, os dois saltadores baixaram as armas.
À primeira vista, perceberam que o homem nu, que corria em sua direção, com os braços levantados, não representava o menor perigo.


8



Quando o Major Clyde Ostal entrou, acompanhado por dois robôs, Egg-or não se limitou a lançar-lhe um olhar de surpresa. Saltou de sua poltrona e arregalou os olhos para o terrano.
Já se conheciam!
O olhar irônico do terrano aborrecia o chefe da Defesa Planetária muito mais do que ele estava disposto a confessar a si mesmo.
— Sente, terrano! — disse Egg-or. Sua voz saiu mais áspera do que pretendia.
Outra vez, sentiu-se atingido por um olhar irônico.
— Os terranos são fantasmas para os ekhônidas e os arcônidas, ou será que a consciência intranqüila o fez saltar da poltrona?
Contra sua vontade Egg-or impressionou-se com a coragem desse homem de rosto pouco marcante.
— Sente... por favor! — o “por favor” veio depois de uma estranha pausa.
Clyde Ostal olhou para os lados.
— Será que estes cavalheiros não têm nenhuma objeção, ekhônida?
— Com esse comportamento torna-se muito difícil conservar a calma — respondeu Egg-or.
— Liberte minha tripulação e dê permissão de decolagem à minha nave. Depois conversaremos como amigos pelo hiper-rádio — disse Clyde Ostal como quem trata de negócios. — Gostaria muito de poder comunicar a meu chefe Perry Rhodan que, em Ekhas, existe pelo menos um ekhônida decente.
— Gostaria de saber o que lhe dá tamanha segurança, terrano. Perry Rhodan nada poderá fazer pelo senhor.
O sorriso irônico do terrano deixou-o confuso. Passou a refletir. Sentiu-se apavorado ao lembrar-se da suspeita do general, que continuava a manifestar o receio de que a Tigris representava apenas uma isca lançada por Perry Rhodan.
— Rhodan? — perguntou Clyde Ostal em tom de perplexidade. — Afinal, o que é que o senhor acha que nós, os terranos, somos? Cada um de nós é um Perry Rhodan! Cada um de nós! Quanto tempo levará o Grande Império para compreender esta verdade? Não costumamos dormir de olhos abertos, mas jogamos um jogo franco, e, ekhônida, estamos sempre à procura de amigos com os quais queremos viver em paz.
O chamado do General Sutokk interrompeu a palestra entre Egg-or e Ostal no momento em que o diálogo entrava num estágio interessante. O rosto de Sutokk surgiu na tela. E a voz veio em tom de censura.
— Egg-or, eu soube que esse comandante de nave mercante foi preso. Exijo que o homem seja entregue imediatamente à frota de Árcon. Isto é uma ordem do regente! O respectivo original ser-lhe-á entregue dentro de dez minutos. Desligo.
Será que Egg-or vai entregar-me?”, pensou Clyde Ostal, enquanto contemplava o ekhônida, que lançava um olhar distraído para a tela que já se apagara.
Continuava de pé à frente da escrivaninha de Egg-or, ladeado por dois robôs de guerra. Mas, subitamente, Ostal sentiu-se desconfiado.
Por que esse General Sutokk mencionara com tamanha ênfase o fato de que havia uma ordem do computador-regente para que ele fosse entregue imediatamente à frota, e que o original dessa ordem seria entregue a Egg-or dentro de dez minutos?
Teriam surgido problemas de competência entre Egg-or e o general?”, voltou a pensar.

* * *

Naquele mesmo instante, Fellmer Lloyd fez um movimento impulsivo e colocou a mão sobre o ombro do administrador do Império Solar. Estavam aguardando no restaurante, freqüentado principalmente por mercadores galácticos, que a fita rolante lhes colocasse sobre a mesa as iguarias que haviam pedido.
— Estou na pista de Ostal, chefe — cochichou Lloyd ao ouvido de Rhodan e passou ao intercâmbio telepático.
— Clyde Ostal encontra-se na presença de Egg-or, como prisioneiro. Ao que parece, o tal do Sutokk é um adepto fanático da lavagem cerebral, pois neste momento está dando instruções para que Ostal seja submetido a esse tratamento assim que o major lhe seja entregue. Ah, sim! Até agora Egg-or, chefe do Serviço de Defesa Planetária, se tem recusado a entregar qualquer ser humano, terrano ou saltador da Mab I para ser submetido à lavagem cerebral. Chefe, existe mesmo uma ordem do computador-regente. Neste momento, o respectivo original está sendo levado a Egg-or por um mensageiro especial. É estranho; só se fala no major. Esse general nem chega a pensar nos outros tripulantes da Tigris.
— Bom apetite — disse Perry Rhodan a meia voz, e parecia examinar atentamente os pratos que a fita rolante acabara de empurrar sobre sua mesa.
— Obrigado, igualmente — respondeu Fellmer Lloyd em tom distraído e logo recebeu a ordem telepática de Rhodan.
— Lloyd, o senhor tem de localizar Clyde Ostal. Procure-o para que possa recorrer a Ishibashi e Kakuta. Se entendi corretamente seus pensamentos, Ostal deve encontrar-se nesta cidade. Por que será que, desta vez, tem tanta dificuldade em encontrá-lo?”
A resposta de Fellmer Lloyd foi inequívoca:
— Ostal nem pensa em nós, chefe! Ao que parece, não acredita que estejamos em Ekhas. É a única explicação. Quem dera que uma única vez desejasse nossa presença em pensamento...
Subitamente os pensamentos de Fellmer Lloyd foram interrompidos. Mas, logo após isso, sua mensagem telepática voltou a martelar o cérebro de Rhodan:
— Chefe, uma multidão de funcionários da Polícia Aduaneira realizará um controle neste restaurante!
Entre os mercadores galácticos, que eram mais de mil, ninguém notou quando se levantaram, lançaram um olhar para Ishibashi e Kakuta, que estavam em outra mesa, para que os acompanhassem. A seguir, dirigiram-se, separadamente, às quatro saídas dos fundos.
Enquanto caminhavam, Lloyd aproximou-se por um instante de Ishibashi e cochichou em inglês:
— A Polícia Aduaneira vai realizar um controle.
— Isso não era motivo para deixarmos nossa comida — respondeu Ishibashi num intercosmo escancarado.
— São ordens do chefe — disse Fellmer Lloyd separando-se discretamente de Kitai.
Depois voltou a caminhar em direção a uma das saídas dos fundos.
Quando chegaram às saídas, todas já haviam sido ocupadas por funcionários da polícia. Dali em diante, nenhum freqüentador do restaurante poderia sair sem submeter-se ao controle.
Revelando a calma típica de um salta-dor, Perry Rhodan apresentou seu documento de identidade, fabricado pela Segurança Solar. O funcionário que deveria fazer a verificação devolveu-o depois de lançar-lhe um ligeiro olhar.
Com Fellmer Lloyd aconteceu a mesma coisa, na outra salda.
Perry atravessou a rua numa fita antigravitacional que tinha o aspecto de uma ponte. Tako Kakuta e Kitai Ishibashi já se encontravam à sua frente, e Lloyd, a seu lado.
— Foi um serviço bem feito, Ishibashi — disse Rhodan ao passar por eles juntamente com Fellmer Lloyd, que, naquele instante, parecia desligado do mundo que o cercava.
— Consegui encontrá-lo, chefe! — disse Lloyd subitamente com um ligeiro cansaço na voz. — Acaba de pensar no senhor. Acaba de descobrir por intermédio de Egg-or que o general pretende submetê-lo a uma lavagem cerebral. O major encontra-se na sede da Defesa Planetária. Ainda se encontra no gabinete de Egg-or, onde está sendo vigiado por dois robôs.
— Como foi que o prenderam sozinho? Onde estão os outros, Lloyd? — perguntou Rhodan em tom insistente.
Perry teve a impressão de que os fatos estavam escapando a seu controle!
Fellmer Lloyd passou a utilizar a comunicação telepática.
— Na noite passada, enquanto andavam pela mata, Ostal e seus homens descobriram uma estação retransmissora. Só ele foi localizado por um robô durante a aproximação. O homem-máquina aplicou-lhe um choque. A estação, que pertence ao serviço de escuta de hipermensagens, logo informou o Serviço de Defesa sobre a presa que acabara de fazer. Hoje de manhã foram buscar Ostal e levaram-no à presença de Egg-or. Neste instante, Ostal não sabe onde estão seus homens.

* * *

— Caramba! — berrou o Tenente Seegers, muito assustado.
Deu um salto para o lado ao ver o rosto de um mercador galático pequeno e franzino que subitamente surgiu ao seu lado, vindo do nada. Subitamente, os olhos do tenente arregalaram-se. Com a voz rouca, meio incrédula, mas esperançosa, cochichou:
— Kakuta?
O teleportador preferiu não responder. Passou diretamente ao assunto:
— Que lugar é este, Seegers?
Com um gesto da cabeça o tenente apontou o recinto em que ele e os trinta e um homens estavam presos.
— É um depósito e local de despacho de saltadores contrabandistas e nossa segunda prisão em Ekhas. Em comparação com esta, a prisão Estrela de Árcon fora um lugar muito mais luxuoso.
O teleportador interrompeu-o e, quando toda a tripulação da Tigris se reuniu em torno dele para não perder uma única de suas palavras, não demonstrou o menor interesse.
— O Tenente Hasting ainda está conversando com os saltadores?
O Tenente S. Seegers exprimiu sua admiração por Kakuta estar tão bem informado e apressou-se em responder:
— Está conversando há algumas horas. Pelo menos esperamos que ainda esteja conversando, e que não esteja trancado sozinho em algum lugar. Esses saltadores são uns sujeitos grosseiros. Bem, pelo menos já temos roupas e comemos alguma coisa...
— Descreva a sala em que Hasting conversou com os saltadores. O senhor a conhece?
— Conheço. Fiquei lá por dez minutos. Também fica embaixo da superfície, muito abaixo do “buraco” em que nos encontramos. Se não me engano, atrás dela existem dois ou três depósitos bem grandes. A sala é...
Passou a descrever a sala em poucas palavras, mas de forma tão viva que o teleportador Tako Kakuta logo a viu pelos olhos de sua mente.
O mutante desapareceu em meio a um tremeluzir, tão silencioso como viera.
Tako Kakuta rematerializou-se em meio a uma escuridão total. O cheiro inebriante de ervas ou drogas desconhecidas parecia uma nuvem de gases. Lembrou-se de que o Tenente Seegers lhe dissera que havia dois ou três depósitos subterrâneos como este.
Conseguiu realizar a teleportação. Voltou a materializar-se num ar mais puro, mas ainda em meio a uma escuridão total. Olhou em torno, não descobriu qualquer luz e lançou seu pequeno holofote.
Esse holofote representava uma verdadeira obra-prima da técnica dos swoons. Estava embutido no terceiro botão de seu traje. Os homens da Segurança Solar, dirigida por Allan D. Mercant, ainda não dispunham desse equipamento produzido pelos swoons, mas todos os membros do Exército de Mutantes dispunham desse equipamento minúsculo e potente.
O raio de seu holofote atingiu uma grande porta. Kakuta não descobriu qualquer grade energética ou dispositivo de alarma.
Caminhou tranqüilamente em direção à porta, desviando-se das mercadorias empilhadas. O teleportador apenas abriu uma fresta e viu que era exatamente aquela sala que o Tenente Seegers descrevera com tamanha precisão.
Ouviu vozes. Falavam em intercosmo. Reconheceu o timbre da voz de Peter H. Hasting. Nela vibrava certa dose de impaciência e de ameaça.
— Digo pela última vez, saltador. Ajudem-nos, e vocês farão o melhor negócio de sua vida. É claro que terão de deixar de fazer o contrabando de drogas. Vocês passarão a fazer o contrabando de notícias, de boas notícias, que sejam do interesse de Perry Rhodan; garanto-lhes que ganharão muito dinheiro, muito mais do que lhes rende esse negócio de drogas.
“Modifiquem sua rede de contrabando numa agência secreta de notícias. Para vocês será fácil. Não venham me dizer que estão interessados na segurança do Império. Vocês terão que decidir agora! E se decidirem a favor de Rhodan, vocês se obrigarão a arranjar uma nave espacial para nosso grupo de terranos.”
— Espere aí, terrano! — disse uma voz de barítono. — Quem vai pagar o espetáculo? Você sabe perfeitamente que poderemos ser ótimos amigos, desde que vocês paguem melhor que Árcon ou os aras ou seja lá quem for.
— Meu pagamento consiste em dar-lhes um juramento, na qualidade de oficial de Perry Rhodan, de que a importância a ser fixada lhes será remetida dentro de quinze dias de Ekhas, a partir de nossa fuga.
Dois ou três saltadores deram uma estrondosa gargalhada. O mercador galático de voz de barítono trovejou:
— Calem a boca, seus cabeças-de-vento! Vocês não ouviram o que este homem acaba de dizer? Quer dizer que você é um oficial terrano? Muito bem. Vamos combinar o preço da nave, e depois disso você nos dará sua palavra de oficial de Rhodan. Acho que será um bom começo. Dois mercadores protestaram.
— Não permitirei que meu clã mexa um dedo por este terrano — disse um deles.
— Não gosto nem um pouco do tal do Perry Rhodan! — objetou outro.
— Se vocês não quiserem — começou o mercador de voz grave — faremos o negócio sem vocês. E já sabem de tanta coisa que poderão realizar um trabalho proveitoso nas plantações de Gango e...
— O quê? — gritou um deles. — Você nos ameaça? Diz que vai mandar-nos às plantações de tóxicos da estrela de Klinu-Luns?
— Eu os mandarei para lá — disse o saltador com voz de barítono. — Ainda não estão cansados deste infame negócio de drogas? Um belo dia, os ekhônidas acabarão localizando nossas naves durante o pouso ou a decolagem e, quando isso acontecer, poderemos entregar os pontos.
Tako Kakuta manteve-se imóvel, escutando junto à porta ligeiramente aberta. A idéia de Hasting, que pretendia transformar um grupo de saltadores que se dedicava ao contrabando de drogas em agentes de informações de Rhodan, valia tanto quanto a conquista pacífica do mundo.
Dali a meia hora, a discussão dos salta-dores foi interrompida pelo ultimato do mercador galático que acreditava piamente na palavra de honra de Hasting. Kakuta preferiu não abrir mais a porta, mas acreditava que esse saltador estivesse com uma arma na mão a fim de “facilitar” a decisão dos seus semelhantes.
Subitamente, o teleportador ouviu uma ligeira exclamação desconexa. Seu ouvido aguçado fê-lo ouvir passos que se aproximavam rapidamente. Concentrou-se instantaneamente e, no momento em que a porta atrás da qual se encontrava foi aberta, teleportou-se de volta para a sala de depósito.
Ali, mal se atrevia a respirar e, depois de algum tempo, sentiu dor nos pulmões. Teve uma idéia arrojada, e logo a pôs em prática.
O Tenente Hasting viu o ar tremeluzir à sua frente. Ainda não havia compreendido o significado do fenômeno, quando viu Tako Kakuta à sua frente, com o rosto completamente alterado. Porém reconheceu o mutante pela figura pequena e débil e pela maneira de aparecer.
Sua reação foi imediata. Abrigou o japonês atrás de seu corpo e ouviu-o dizer:
— Rhodan está em Ekhas. Se os tripulantes da Tigris não conseguirem fugir com o auxílio destes saltadores, viremos buscá-los. Tente fazer os mercadores trabalharem para nós.
— Dê o fora, Kakuta! — pediu Hasting. Ouviu alguns saltadores conversando do outro lado da porta aberta; ao que parecia, vinham procurar alguma coisa no depósito.
Dois dos mercadores apenas viram um ligeiro tremeluzir, mas não se interessaram pelo fenômeno, pois acreditavam tratar-se de algum efeito luminoso.
Tako Kakuta surgiu à frente de Perry Rhodan, Kitai Ishibashi e Fellmer Lloyd, vindo do nada. Os três aguardavam seu regresso nos arrabaldes da cidade de Ent-Than. Encontravam-se junto ao pequeno caminhão comprado na noite anterior, e que estava carregado apenas em parte.
Rhodan sorriu. Depois que Kakuta concluiu seu relatório, perguntou:
— Será que a polícia ou a Defesa Planetária descobrirá para quem seria toda esta roupa?

* * *

Egg-or, chefe da Defesa Planetária de Ekhas, mandou que o comando misto de soldados espaciais do General Sutokk aguardasse. Pelo sistema de comunicação ordenou que o terrano Clyde Ostal, que se encontrava preso, lhe fosse apresentado imediatamente.
Flanqueado novamente por dois robôs, o major do Serviço de Segurança Solar entrou. O rosto pálido de Egg-or não anunciava nada de bom.
O videofone chamou. Um rosto surgiu na tela que se encontrava ao lado de Egg-or. Exwin, encarregado da segurança do setor do espaçoporto de Ent-Than, informou apressadamente:
— Senhor, a tripulação da nave terrana foi vista na parte norte do espaçoporto, ao deixar uma pequena nave auxiliar dos saltadores. Nosso agente não conseguiu verificar se entrou numa nave espacial cilíndrica ou se tomou alguns táxis aéreos para dirigir-se à cidade. Enquanto os terranos desciam da nave auxiliar, um desconhecido deu-lhe uma pancada. Mandei imediatamente...
Por alguns segundos, a voz de Exwin deixou de ser ouvida. Egg-or fitava a tela. O Major Clyde Ostal ouvia ansiosamente.
Quando e onde meus soldados conseguiram estabelecer contato com os mercadores galácticos? E como convenceram os saltadores a ajudá-los?”, pensou o major.
A voz de Exwin voltou a soar no alto-falante.
— Senhor, há pouco, os soldados espaciais do General Sutokk iniciaram a busca dos tripulantes da nave mercante terrana. O general exige que proíba a decolagem de qualquer nave, e isso por tempo indeterminado. Disse que, em caso de recusa, interviria com a frota.
— Pois atenda a seu pedido, Exwin — respondeu Egg-or com uma estranha calma. — Mas mantenha-me informado sobre qualquer outra ordem, antes de ser cumprida. Desligo.
Levantou a cabeça e olhou para Ostal.
— Faça o favor de sentar, terrano. Ainda vai demorar um pouco. Tenho alguns assuntos a liquidar.
Lembrou-se dos robôs de vigilância e mandou que estes se retirassem. Seguiu-os com os olhos até que fechassem a porta atrás de si.
O Major Clyde Ostal sentou-se lentamente. Teve de confessar que não compreendia o tal do chefe do Serviço de Defesa.
Será que esse ekhônida era apenas um inimigo declarado da lavagem cerebral, ou era um dos elementos influentes, que por seus atos se rebelavam contra o regente positrônico de Árcon III?”, indagou-se mentalmente. “Será um revolucionário?”
— Terrano — principiou Egg-or. Ao que parecia, esquecera-se de que ainda tinha alguns assuntos a liquidar. — Por ocasião de nossa última palestra, você me disse que todo terrano é um Perry Rhodan. Pois eu lhe dou uma oportunidade de provar isso. Veja que...
O grito do videofone interrompeu a palestra. Exwin surgiu na tela.
— Senhor, a tropa espacial do General Sutokk prendeu os tripulantes da nave terrana sem luta.
— Onde? — perguntou Egg-or.
— No escritório da Associação dos Pequenos Negociantes, no setor norte da cidade.
— No escritório da Associação dos Pequenos Negociantes, no setor norte da cidade — repetiu Egg-or a meia voz, sem dar-se conta de que dissera estas palavras.
Refletiu sobre o que poderia fazer, e nem percebeu a força estranha que se apoderou de sua mente.
Egg-or levantou-se abruptamente.
— Terrano, a partir deste instante, seria insensato ignorarmos a ordem do regente. Daqui a pouco, o general saberá tudo que o senhor e seus homens tentam esconder. Árcon já conhece a posição galáctica da Terra. Embora os dados do computador positrônico da Tigris tenham sido apagados, dela conseguimos extrair os elementos que revelam o lugar da Via Láctea em que pode ser encontrada a Terra.
“Peço-lhe que me dê uma informação, que interessa tanto a mim como ao general. Perry Rhodan está atrás do erro cometido na transição de sua nave, que ainda não foi inteiramente explicado?”
Ostal conseguiu exibir um sorriso condescendente.
— Egg-or, a Tigris é uma pequena nave mercante. Não se trata de uma unidade da Frota Espacial Terrana. O que há de misterioso no erro de transição de minha nave? Isso não pode acontecer a qualquer espaçonave? Será que o senhor está escondendo alguma coisa? Até chego a ter essa impressão, ekhônida!
— O que quer dizer com isso, terrano?
— O que quero dizer? Ora essa! Bem, o crime...
Sem que Egg-or percebesse, embora o Major Clyde Ostal, membro do Serviço de Segurança Solar, não deixasse de notar, houve uma modificação espantosa com o chefe ekhônida.
Seu rosto tenso descontraiu-se. De repente, Ostal viu à sua frente um ekhônida simpático, que o cumprimentou com um gesto.
“Rhodan chegou!”, pensou o major, deixando de lado o que iria dizer. “Egg-or foi ‘trabalhado’ pelas forças hipnóticas ou sugestivas de algum mutante. É um auxílio que me vem no último instante.”
Egg-or conversava, mas não falava na Tigris ou no General Sutokk, e nem sequer referiu-se a ação relativa à Tigris. Levantou-se, dirigiu-se a Ostal, que se ergueu instintivamente da cadeira, deu-lhe a mão e disse:
— Não avisarei que o senhor está saindo daqui. Se, por acaso, passar por Ekhas, não deixe de me visitar. Será um grande prazer.
“Talvez não seja”, pensou o major.
Não se espantou nem um pouco quando um saltador pequeno e franzino que, esbarrando com ele, disse-lhe em tom discreto, e em língua inglesa:
— Major Ostal, terceira rua da direita, no início.
Depois prosseguiu e desapareceu na multidão.


9



O general Sutokk reunira seu estado-maior. O aparelho de comunicações funcionava ininterruptamente, expelindo uma noticia após a outra. Todas vinham da sede da Associação dos Pequenos Negociantes. Era uma associação de pequenos clãs dos saltadores, que em muitos planetas tinham estabelecimentos comerciais, conseguindo com estes considerável redução de custos.
Mas, em conjunto, a Associação dos Pequenos Negociantes representava uma potência econômica, fato para o qual o ajudante chamava a atenção do general.
— General, acho que devemos esquecer o caso. Se chegar ao conhecimento do público que as forças armadas de Árcon desrespeitaram as rigorosas leis que regem a hierarquia dos saltadores, atiraremos boa parte dos clãs dos saltadores nos braços de Rhodan. Os agentes terranos agem discretamente em toda parte, sob a alegação de que não se pode confiar no cérebro positrônico de Árcon III. Por isso, recomendo encarecidamente que nos contentemos com a afirmação recebida no escritório da Associação dos Pequenos Negociantes, segundo a qual os tripulantes da Tigris foram parar ali por um acaso infeliz. Saberemos a verdade quando essa gente for submetida à lavagem cerebral.
Depois de algum tempo, o General Sutokk compreendeu que a sugestão de seu subordinado era razoável e lhe pouparia muitos aborrecimentos. Num tom resoluto, disse ao oficial que operava o aparelho de comunicação:
— Transmita uma ordem para que os terranos sejam transferidos imediatamente ao quartel-general.
— Será que não devíamos enviar robôs de vigilância?
— Que nada! Cinqüenta homens serão suficientes para trazer o grupo até aqui. Vamos logo! Transmita a ordem. Não perca tempo.
Apesar do êxito que acabara de alcançar, a disposição do general atingira o nível mais baixo. Não conseguia livrar-se da impressão de que Perry Rhodan estava atrás do erro cometido na transição da Tigris. Além do mais, há cerca de uma hora, seus cientistas lhe comunicaram certas dúvidas sobre as coordenadas retiradas do computador positrônico da nave.
— General, é possível que os dados sejam falsos. Verificamos as coordenadas galácticas por meio do grande catálogo estelar dos arcônidas. No lugar indicado, encontramos um sistema solar, mas trata-se de um sistema conhecido há oito mil anos que, segundo se diz, só possui planetas desabitados.
— Só agora me comunicam isso? — berrou Sutokk num nervosismo extremo. — Os senhores sabem perfeitamente que já transmiti os dados ao regente pelo hiper-rádio. O sistema costuma ser visitado por nossas naves?
— Pelo que pudemos constatar, não, general.
— Nesse caso, os dados do catálogo estelar podem não estar atualizados!
Depois dessa ousada afirmativa, os cientistas foram saindo.
Enquanto sua ordem era transmitida ao escritório da Associação dos Pequenos Negociantes, Sutokk lembrou-se de que os terranos seriam levados ao quartel-general da frota, situado na parte do espaçoporto reservada às naves de guerra.
A rua da sede da Associação foi fechada de ambos os lados. Em virtude disso, houve dois engarrafamentos colossais no trânsito. Dentro de alguns minutos, as centenas de veículos retidos se transformaram em milhares. Os homens indignaram-se com a demora e os soldados espaciais de Árcon tiveram de ouvir palavras nada agradáveis.
Depois de algum tempo, os ekhônidas viram os trinta e dois terranos cujo retrato desde o dia anterior era irradiado ininterruptamente pela televisão, e que haviam conseguido uma proeza: escaparam da prisão Estrela de Árcon.
Ninguém deu a menor atenção a dois mercadores galácticos que estavam imprensados entre a multidão e olhavam ininterruptamente para a entrada da sede da Associação. Um deles era pequeno e franzino e o outro alto e magro. Não falavam. Apenas olhavam.
Três veículos blindados pararam à frente do edifício. Um pelotão de soldados fortemente armados abriu uma pequena faixa pela qual os terranos teriam de dirigir-se aos veículos blindados.
O saltador alto e magro olhava tranqüilamente para o local onde os prisioneiros estavam sendo colocados no veículo. Não dava o menor sinal das tremendas forças que desenvolvia.
Naquele instante, o oficial, que operava o videofone portátil, transmitiu a notícia de que os prisioneiros acabavam de ser colocados a bordo dos veículos, e informou que os trinta e dois terranos deveriam chegar dentro de meia hora.
Depois disso, os soldados espaciais que bloqueavam a rua em dois lugares diferentes receberam ordem de entrar nos veículos.
Dali a um minuto, o comboio partiu. Não se via mais nada dos terranos que se encontravam no interior dos veículos blindados.
O tráfego começou a rolar. Os ekhônidas e os estrangeiros saíram andando, e os dois saltadores que se encontravam lado a lado, sem dizer uma palavra, entraram no primeiro edifício avistado.
Uma vez no corredor vazio, o maior deles colocou-se atrás do menor, enlaçou-o com ambos os braços. Logo depois, houve um ligeiro tremeluzir. De um instante para outro, o corredor ficou vazio.
Junto ao edifício da recepção do espaçoporto dois saltadores estavam parados na rua. Ao que parecia, esperavam alguma coisa.
De repente, um pequeno veículo de carga de tipo moderno aproximou-se e parou à frente deles. Entraram sem dizer uma palavra. O homem, que estava sentado à frente do painel de controle, um mercador galático de olhos duros, voltou a colocar o veículo em movimento. Mas só foi até a bifurcação onde havia um enorme sinal, indicando que a rua lateral levava ao quartel-general da frota arcônida.
Quatro saltadores agora comprimiam-se no veículo, além de um homem que, segundo se percebia ao primeiro olhar, era um terrano: o Major Clyde Ostal.
Iam buscar os tripulantes da Tigris!

* * *

Do lugar onde estacionaram, viam a nave mercante terrana. Na esfera iluminada pelo sol de Naral, estava gravado o nome Tigris.
— Estão chegando — disse um dos saltadores com a voz de Fellmer Lloyd. — Estão desenvolvendo a velocidade máxima. Ao que parece, não houve nenhuma pane.
O comboio passou ruidosamente por eles, mas não entrou na rua que dava para o quartel-general da frota de Árcon. Seguiu em frente.
O pequeno veículo de carga pôs-se em movimento discretamente, acelerou e manteve-se atrás do transportador blindado. Passaram pelo grande edifício da recepção e administração. O comboio entrou no campo de pouso, passou rapidamente sobre a superfície brilhante revestida de concreto e de plástico. Depois tomou a direção de uma pequena espaçonave ekhônida, cujos tripulantes vinham a seu encontro e achavam natural que sua nave, que aquecia os propulsores, fosse deixada sem vigilantes.
Os veículos blindados pararam diante da grande rampa. Os soldados desceram e voltaram a formar uma passagem, obrigando os trinta e dois terranos a entrar na nave. Não deram a menor atenção ao veículo de carga que parou logo atrás da última viatura blindada. E nem pareciam notar a presença de cinco homens que passaram por eles, para se acomodarem na nave ekhônida.
À frente do segundo veículo da frota arcônida, encontrava-se um oficial que anunciava pelo videofone:
— Dentro de três minutos, o comboio deverá tomar a estrada que leva ao quartel-general, onde chegará às 16:07 h.
O alto-falante berrou em meio às suas palavras:
— O que está dizendo, Thur-Ges? Por que paramos perto de uma nave espacial? O que está acontecendo? Responda!
Com uma calma inacreditável, Thur-Ges, oficial da frota espacial do regente de Árcon, repetiu a informação:
— Dentro de três minutos, entraremos na estrada que dá para o quartel-general e chegaremos às...
O último terrano, que correu pela comporta da pequena nave ekhônida, ainda chegou a ouvir o grito do homem que falava no quartel-general:
— Alarma! Decolagem imediata! Todas as naves decolarão! Aguardem novas instruções...
O cabo Fip foi o último homem a entrar. Fechou a comporta, mandou recolher a rampa, e Perry Rhodan e Clyde Ostal correram pelo convés, na ponta da coluna, em direção à sala de comando.
Cada segundo era precioso. Não podiam calcular a dianteira que teriam de tomar, em relação à frota arcônida. E também não sabiam quantas naves do quartel-general do sistema de Naral se encontravam no espaço.
Perry Rhodan atirou-se no assento do piloto.
Mais uma vez, Kitai Ishibashi, o sugestionador, fizera um excelente trabalho. Todas as máquinas da pequena nave puderam ser aceleradas imediatamente ao máximo. Naquele momento, acendeu-se a luz de controle, anunciando que todas as comportas estavam fechadas.
— Colocar chave sincronizada na posição um! — gritou Perry.
As unidades propulsoras uivaram.
— Colocar campo antigravitacional na potência máxima.
A nave saltou para o céu azul de Ekhas, acelerou como jamais acelerara. No interior da nave, ouviu-se o zumbido agudo dos aparelhos de absorção, que neutralizavam as forças desencadeadas pela aceleração antes que estas atingissem os tripulantes.
— Rádio em condições de funcionamento? — perguntou Rhodan pelo sistema de intercomunicação, dirigindo-se à sala de rádio, que naquela pequena nave ficava longe da sala de comando.
— Tudo preparado, chefe — disse o homem que se encontrava à frente do hiper-rádio. A palavra chefe parecia um toque de cometa.
— Prepare uma hipermensagem destinada à Lotus: Árcon, Árcon. Não, isso não — retificou Rhodan, pois naquele momento lembrou-se de ter utilizado a palavra Árcon para chamar a Lotus para junto da Mab I, no setor central da Via Láctea. — Chame Mercant, Mercant, Mercant...
— Chefe...
Rhodan sabia o que o homem que se encontrava junto ao hiper-rádio pretendia dizer.
— Fale com um sotaque arcônida. Apenas isso. Dessa forma, o serviço de escuta dos espiões terá trabalho de sobra para descobrir o que significa essa palavra repetida três vezes.
O pequeno rastreador de localização entrou em funcionamento. Deu um sinal.
— Sir, uma nave de guerra anuncia a aproximação a Ekhas. A posição é a seguinte...
Seguiu-se uma série de coordenadas.
— Já consegui — disse Kitai Ishibashi com uma calma apavorante. Referia-se ao comandante arcônida da nave de guerra que se aproximava.
Da mesma forma que influenciara Egg-or, bem como cinqüenta soldados arcônidas e a tripulação da pequena nave, suas energias mentais venceram a enorme distância e atingiram o cérebro do comandante inimigo, impondo-lhe sua vontade.
Dali a dez minutos, o General Sutokk sofreu o terceiro ataque de raiva, porque a estação de localização, que procurava encontrar a nave de guerra que se aproximava, indicara uma posição totalmente diversa daquela informada pelo comandante.
— Parece que só estou cercado por idiotas — gritou fora de si.
A pequena nave ekhônida já saíra da atmosfera. Rhodan exauriu brutalmente as energias da pequena espaçonave. Era tudo uma questão de segundos. Quando as unidades de Árcon estacionadas no espaçoporto decolassem, seu jogo desesperado logo chegaria ao fim. Kitai Ishibashi, o sugestionador, não era nenhum feiticeiro.
Rhodan conhecia perfeitamente as limitações de seu mutante, por mais ágil que Kitai fosse.
— Expedir hipermensagem! — gritou para a sala de rádio.
Teve de familiarizar-se com o sistema de comunicação, mas logo conseguiu estabelecer contato com o pequeno hangar.
— Fellmer Lloyd! — chamou.
— Nave auxiliar preparada, chefe.
— Obrigado — virou a cabeça. — Todos abandonarão suas posições. No convés B, existe um pequeno hangar. Procurem chegar lá o mais depressa possível e entrem na nave auxiliar. Não percam tempo.
A última informação recebida por Rhodan foi a seguinte:
— A frota de Árcon está decolando, Sir!
Olhou para o relógio. Tinham uma vantagem de doze minutos. Se a Lotus tivesse compreendido imediatamente a palavra Mercant, repetida três vezes, poderia chegar dentro de cinco ou seis minutos, num hipersalto, para recolher a eles e a nave auxiliar. O novo dispositivo de absorção da Lotus evitaria sua localização.
— Fora! — disse, dirigindo-se ao Major Clyde Ostal. — Saberei lidar com esta nave. Guarde meu lugar na nave auxiliar. Naturalmente será o lugar do piloto. Até logo mais, major. O senhor fez um trabalho bem feito.
O major achou que o elogio saído da boca do administrador numa situação como aquela tinha algo de estranho.
Será que Rhodan o soltara por saber que, dali a alguns minutos, quando chegassem as naves robotizadas do regente, tudo estaria terminado?
Perry Rhodan não teve tempo para interessar-se pelos pensamentos de Ostal. A pequena nave ekhônida corria espaço afora, numa velocidade que representava um risco à sua própria existência. Mas, apesar de todos os esforços, era muito lenta em comparação com as naves da frota de Árcon.
Talvez fosse possível livrar-se dos perseguidores de outra maneira.
Os preparativos necessários para isso não permitiram que Rhodan pensasse em outra coisa...
Transformou a nave numa bomba atômica!
Seu cérebro funcionou com a precisão de um computador positrônico. Mudou a posição de uma chave, de mais uma, e estava pronto.
Dali a dois ou três minutos, explodiria o pequeno conversor. Sua explosão provocaria a detonação de meia dezena de bancos de dados, e a energia liberada pela série de explosões faria com que toda a nave se transformasse num inferno atômico.
Perry Rhodan correu para o hangar do convés B.
Faltavam dois ou três minutos para a destruição da nave; era um tempo extremamente curto. Mas não havia outra alternativa.
O Major Ostal guardara seu lugar.
Rhodan emitiu o impulso teledirigido que abria a escotilha do revestimento da nave.
A escotilha movimentou-se devagar, devagar demais.
Só se abrira um terço de sua largura. Rhodan não podia esperar mais.
Colocou o mecanismo propulsor em um terço de sua potência de empuxo. Passando a apenas alguns centímetros da parte superior e inferior da escotilha, a pequena nave na qual se comprimiam quase quarenta homens precipitou-se espaço afora.
O negrume aproximou-se deles. O sol amarelento de Naral brilhava à sua direita. Parecia o olho de uma ave de rapina em meio à noite.
Mais atrás, as naves robotizadas da frota de Árcon se aproximavam.
Perry Rhodan acelerou ao máximo. A pequena nave salva-vidas, mesmo dotada da aceleração da nave maior, ainda não havia saído da área de perigo quando, atrás deles, a nave-mãe se transformou num sol em miniatura, que se espalhou em todas as direções com uma rapidez vertiginosa.
O General Sutokk assistiu à destruição da nave na grande tela. A imagem fora trazida pela estação retransmissora de uma das naves robotizadas.
Seu sorriso de satisfação não durou muito. Falando com a voz triste, disse:
— Nunca saberei qual foi a ligação que esse clã dos saltadores manteve com os terranos. É uma pena. Mas não contarei isso ao regente. Apenas o informarei de que a tripulação da Tigris não existe mais.
Um tanto distraído tomou conhecimento de que, apesar de suas ordens, outras naves estavam decolando em direção ao espaço. Foi só graças a um erro de transmissão que não soube que uma dessas naves era a Mab I. Quando teve conhecimento disso, esta já se encontrava nos confins da Galáxia, e não havia como pôr a mão nela.
O General Sutokk deveria dar-se por satisfeito com o resultado da ação por ele desenvolvida. Mas quando se lembrou do procedimento absurdo e incompreensível adotado por alguns dos seus homens, e quando nem mesmo a equipe científica soube dar qualquer explicação para o fenômeno, esteve prestes a sofrer outro ataque de raiva.
Subitamente lembrou-se do comandante da Tigris, que ainda estava com Egg-or.
Por que ainda não havia chegado?
— Quero falar com Egg-or! — disse. A ligação foi completada. — Egg-or, será que o senhor também ficou louco? O que aconteceu neste planeta? O quê? Mandou o comandante para cá sem qualquer escolta? Oh, é demais...
Os membros do estado-maior suspiraram aliviados quando Sutokk correu para fora; precisava de ar puro.

* * *

Quando a Lotus saltou para o sistema de Naral, e recolheu um minúsculo veículo espacial recheado de gente, nenhuma nave arcônida a localizou. O novo neutralizador ocultava qualquer salto pelo hiperespaço.
O perigo da descoberta da Terra pelo computador-regente só existiu durante três ou quatro dias. Depois ficaram livres dessa ameaça. E o que Perry Rhodan ainda receava no seu íntimo não se transformara em realidade. Nenhuma nave arcônida surgiu sobre a Terra.
Todas as naves terranas foram chamadas de volta. Só as poucas naves já equipadas com o neutralizador tinham permissão para realizar transições. As outras teriam de esperar até que o equipamento lhes fosse instalado. Este equipamento não mais iria permitir que as vibrações produzidas pelo compensador estrutural fossem irradiadas para o espaço.
Mas o gigantesco computador positrônico não deveria ficar logo informado de que as naves terranas passaram a dispor de um importante aparelho. Por isso, Perry Rhodan mandou que algumas das naves estelares, já equipadas com o neutralizador, realizassem em plena Galáxia séries inteiras de transições não neutralizadas, que, evidentemente, seriam registradas pelas estações de rastreamento estrutural ultra-sensíveis do Grande Império. Perry Rhodan sabia perfeitamente que não poderia usar o estratagema por meses a fio, pois não pretendia cometer o erro de subestimar o computador-regente. Mas cada dia contava, pois sabia também que o tempo trabalhava a seu favor e contra Árcon e o gigantesco cérebro.

* * *

Rhodan levantou os olhos. O Major Clyde Ostal entrou.
— Sir — anunciou. — O professor Manoli acaba de informar que Mabdan III faleceu em virtude dos efeitos da hipnose arcônida. Não puderam fazer mais nada por ele.
— E o velho Mabdan, ou seja, Mabdan I. Ainda está sob o efeito das drogas, Ostal?
Clyde Ostal soltou uma risada.
— Foi justamente por isso que resolvi falar com o senhor, Sir. Mabdan está esperando na ante-sala. Está passando muito bem e veio para agradecer por ter sido salvo pelo senhor.
— Pois mande-o entrar, Ostal. Peça também a Bell que não se esqueça de mandar remeter imediatamente aos antigos comerciantes de drogas de Ekhas a quantia combinada entre eles e o Tenente Hasting. Quem sabe se um dia não precisaremos desses amigos...






* * *
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Perry Rhodan consegue pregar mais uma peça no computador de Árcon...
Porém, os acontecimentos que se desenrolam em Fera Cinzenta, planeta dos democratas, aproximam-se de um perigoso clímax.
Em Os Embaixadores de Aurigel, título do próximo livro, novas emoções estarão presentes.



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