Autor
KURT BRAND
Tradução
RICHARD PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão ARLINDO_SAN
Perry Rhodan lança uma isca —
e Árcon não deixa de mordê-la!
Clyde Ostal, oficial do consagrado Serviço de Segurança Solar, recebe
uma ordem de Perry Rhodan: comandará uma nave mercante armada: Tigris.
Clyde Ostal, com mais 32 homens, deve partir para o espaço, a fim de
realizar uma missão que lhe permita apurar se o computador-regente de Árcon já está
em condições de medir as freqüências peculiares dos compensadores estruturais e
determinar a posição das naves espaciais terranas durante a transição.
E a nave era apenas uma isca...
= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan — Administrador do Império Solar, que se apresenta aos ekhônidas com o nome
de Alf Renning.
Major Clyde Ostal — Um oficial muito competente
do Serviço de Segurança Solar.
Peter H. Hasting e S. Seegers — Auxiliares de Clyde Ostal.
General Sutokk — Comandante da frota arcônida em Ekhas.
Egg-or — Chefe da Defesa Planetária de Ekhas.
Tako Kakuta, Fellmer Lloyd e Kitai Ishibashi — Membros do Exército
de Mutantes, que acompanham Perry Rhodan, ou melhor, Alf Renning.
1
Três homens de rostos marcados pelo cansaço
respiraram profundamente quando o computador fez clique e expeliu a faixa de plástico,
que caiu com um ligeiro ruído no receptor. No mesmo instante, o mecanismo positrônico
desligou-se. O zumbido e as vibrações cessaram, e um silêncio tranqüilizador espalhou-se
pelo recinto impregnado pelos vapores do tabaco.
Nourag, chefe de logística, levantou-se, foi
até o aparelho e pegou a fita de plástico. Depois virou-se e lançou um olhar de
triunfo para os colegas.
Conseguiram!
Foi a melhor recompensa que poderiam ter obtido
por um trabalho que os mantivera ocupados por trinta e seis horas.
Fazia trinta e seis horas que Marshall e o
chefe do Serviço de Segurança Solar, Allan D. Mercant, convocara Nourag, chefe do
setor de logística.
— Preciso dentro de quarenta horas de coordenadas
precisas, através das quais a posição de nosso sistema solar seja transferida. Faça
o favor de anotar, Nourag: em pi, por 16 graus, 34:22; em psi, por 3 graus, 5:45;
e em chi, por 44 graus, 43:01. A distância em anos-luz é de... O senhor dispõe de
ampla liberdade de movimentos num raio de três mil e quinhentos anos-luz. O resultado
não deve ser inferior ao primeiro algarismo, nem superior ao último. A escolha do
sistema ficará a cargo do senhor e de sua equipe.
“Uma vez determinadas as coordenadas, irão
ver-se diante de uma tarefa interessante, que é a determinação da distância exata
entre o local fictício em que se situaria a Terra e os sistemas conhecidos.
“Reduzido à sua expressão mais simples, meu
pedido resume-se no seguinte: Dentro de quarenta horas, arranje todos os dados necessários
para que uma espaçonave de nossa frota nunca mais encontre o caminho da Terra. Por
outro lado, esses dados devem resistir a qualquer exame sem que ninguém suspeite
de que propositadamente se tenha transmitido uma informação falsa.”
Depois dessa explanação, o chefe do setor de
logística foi dispensado.
E agora haviam conseguido: trinta e seis horas
depois, e na quarta tentativa. Por três vezes o computador positrônico voltara,
em meio aos cálculos, à posição zero. Falhou em virtude dos dados errôneos, mas
sempre forneceu uma indicação precisa do erro.
Nourag, um homem baixo e franzino, de costas
ligeiramente encurvadas, exibia um sorriso de triunfo. Qualquer fita de plástico,
por mais comprida que fosse, com seus sinais em código, era para ele um livro aberto,
escrito em sua língua materna.
— Miltau — disse, dirigindo-se ao seu principal
colaborador. — Entre em contato com o Marechal Mercant. Diga-lhe que chegamos ao
fim tanto do nosso trabalho como das nossas forças.
Acontece que Miltau não conseguiu entrar em
contato com o chefe do Serviço de Segurança Solar.
— Muito bem — disse Nourag — nesse caso esperarei
por ele. Obrigado, senhores; podem retirar-se.
Poucos minutos depois de Nourag ter ficado
a sós, recebeu uma visita: Esting, matemático do setor de navegação espacial, apresentou-se
a ele.
Muito cansado, deixou-se cair numa poltrona.
— Um dia, esse Serviço de Segurança Solar ainda
nos matará — disse com um gemido. — Tive de calcular coordenadas de salto de transição.
Santo Deus; não gostaria de viajar na espaçonave que usar essas coordenadas ao entrar
em transição. Para que poderá servir uma loucura dessas?
Mas aquilo não era nenhum engano.
Era um plano muito bem elaborado.
Já fazia duas horas que Perry Rhodan, Reginald
Bell, o Marechal Mercant e o Major Clyde Ostal, do Serviço de Segurança Solar, estavam
reunidos para discutir os últimos detalhes.
Allan D. Mercant passou as últimas notícias
a Perry Rhodan, administrador do Império Solar. Rhodan observou-as e acenou com
a cabeça.
— O quadro vai se completando. Acontece que
já esperamos bastante. As notícias fornecidas por nossos agentes são cada vez mais
escassas. A experiência que já fizemos com o computador-regente nos ensina que,
quando isso acontece, Árcon mais uma vez procura enganar-nos. Aqui — pôs a mão sobre
as mensagens que Mercant acabara de entregar-lhe — vemos que as defesas erigidas
por Árcon em torno de seu novo goniômetro de compensação já se tornaram extremamente
perigosas. Mas nem mesmo o senhor, Mercant, sabe quão perigosa nossa situação se
tornou nos últimos três dias.
O chefe do Serviço de Segurança lançou um olhar
de espanto para Rhodan. Este pôs a mão atrás de si e colocou uma fita-diagrama sobre
a mesa.
Bell, Mercant e o Major Ostal examinaram-na
com uma expressão de curiosidade.
O diagrama, elaborado há três dias, vinha da
nave cargueira Oriniko.
Há dois dias, a Oriniko regressara do sistema
M-13. Pousara em Terrânia com um atraso de nada menos de seis horas.
Esse atraso tivera sua origem em algumas transições
não previstas no plano de vôo. Felizmente o comandante da Oriniko era um oficial
da frota espacial terrana e levava seu trabalho muito a sério.
Também se sentira fortemente abalado pelo diagrama
que, agora, apavorava os três homens que acabavam de examiná-lo. Por isso mesmo,
trinta minutos após seu regresso a Terrânia, fizera questão de falar com Perry Rhodan.
— Que coisa! — exclamou Bell, enxugando o suor
da testa.
Nos olhos de Mercant via-se um brilho assustador.
O rosto de Clyde Ostal estava pálido.
Os dados constantes do diagrama eram arrasadores.
Mercant passou a falar em tom professoral.
Isso era muito raro. Acontecia sempre que tinha de esforçar-se para controlar um
abalo psíquico. Passou o lápis pelo diagrama:
— Aqui; é a transição da Oriniko. Trata-se
de um dado pouco interessante. Mas aqui, às 4:34:05, tempo de bordo, a nave sai
do hiperespaço. E aqui...
A mão de Mercant começou a tremer, mas ele
prosseguiu:
— Exatamente às 4:35:34, tempo de bordo, ou
seja, um minuto e vinte e nove segundos depois da transição, a primeira nave de
Árcon aproxima-se da Oriniko. E isso aconteceu a 1,32 anos-luz do espaçoporto de
destino de nossa nave cargueira...
“Sir, eu realmente não sei como explicar...
É uma verdadeira catástrofe. Verificou-se a hipótese cuja ocorrência procuramos
impedir há mais de meio século. Amanhã ou depois de amanhã, deverão pousar aqui
as primeiras naves arcônidas do tipo da Titan, e isso às centenas.
Era de espantar que Bell não dissesse nada.
Geralmente, isso não era de seu feitio. Ele, um homem bastante explosivo, passou
a mão pelos cabelos ruivos, fungou fortemente e, depois de muito tempo, exclamou:
— Temos os druufs pelas costas, à direita,
e à esquerda, o traiçoeiro computador positrônico, que já conhece a posição da Terra...
— Na minha opinião, o caso ainda não é este
— interrompeu-o Rhodan. — O alcance dos compensadores estruturais arcônidas ainda
é limitado.
Voltou a pegar alguma coisa às suas costas
e colocou outro diagrama sobre a mesa.
— O comodoro Lyst, comandante da Oriniko, teve
uma idéia feliz. Resolveu testar o desempenho do novo aparelho dos arcônidas num
hipersalto executado nas proximidades de M-13. Esta fita diagramada não nos diz
por que motivo o novo goniômetro dos arcônidas não consegue determinar as freqüências
peculiares dos nossos compensadores estruturais a uma distância superior a dez anos-luz,
mas dela se depreende que nós, os terranos, não temos um minuto a perder.
Fez uma pausa para sublinhar as palavras que
iria proferir.
— Temos de continuar fazendo todos os preparativos
para que, a determinado sinal codificado, todas as espaçonaves de nosso planeta
regressem à Terra, realizando pelo menos vinte transições antes de, num último salto,
atingirem a rota final. No momento a situação é esta.
— Vamos acabar logo com esse traiçoeiro computador
positrônico! — exclamou Bell num acesso de cólera. — Perry, você não acha que deveríamos
mandar o rato-castor para junto dessa máquina, para ele brincar um pouco?
Apesar da seriedade da situação, nem mesmo
Perry Rhodan conseguiu reprimir um sorriso. A sugestão de enviar o rato-castor Gucky,
um ser dotado de fortes capacidades telepáticas, telecinéticas e teleportativas,
para enfrentar o computador gigante de Árcon III, não era uma piada sem base. Mas
a simples idéia de Gucky brincar com o gigantesco engenho bastava para provocar
o riso.
Se recebesse uma ordem dessas, Gucky exibiria
seu solitário dente roedor, para exprimir sua alegria. Após isso, se rematerializaria
no interior do computador positrônico, depois de um salto de teleportação, e começaria
a brincar; em outras palavras, usaria suas faculdades telecinéticas para destruir
o gigantesco cérebro positrônico, peça por peça.
— Nem podemos cogitar de enviar Gucky num comando
mortífero como este — disse Rhodan, liquidando a questão. — Mercant, não continue
a insistir para que seus homens se dediquem exclusivamente à forma de construção
do novo goniômetro dos arcônidas. Prefiro saber se, e quando, foi iniciada a fabricação
em série desse aparelho. A forma de construção torna-se menos interessante.
Bell fitou o amigo com uma expressão de perplexidade,
mas Perry não tomou conhecimento do gesto.
— Major Ostal, o senhor já fez todos os preparativos
para decolar às 12:45?
Mercant respondeu no lugar do Major Ostal:
— Os preparativos estarão concluídos até lá.
O aparelho especial está pronto. O resto é apenas rotina.
— Bell, eu lhe pedi que mandasse fazer uma
revisão no cruzador ligeiro Lotus. Como vai indo o serviço? — perguntou Rhodan,
dirigindo-se ao amigo.
Bell respondeu em tom contrariado:
— Nosso trabalho está concluído, mas esses
homens-pepino, os swoons, nunca chegam ao fim. Se ao menos pudéssemos ver o que
estão fazendo! Já começo a ter medo desses aparelhos microscópicos.
— Eu também teria, Bell, caso estes se encontrassem
nas mãos dos arcônidas!
Foi esta a única resposta de Rhodan, mas para
Bell as palavras que o administrador acabara de proferir tinham um significado todo
especial. Conhecia muito bem Perry Rhodan.
— Mais alguma coisa, senhores? — Rhodan lançou
um olhar indagador para os homens que o cercavam.
— Sim — disse o Major Ostal. — O ponto de destino
continua a ser o sistema solar de Naral?
— Continua. Depois dos últimos relatórios recebidos
de nossos agentes, tornou-se mais forte a suspeita de que no planeta Ekhas foram
instalados um ou mais dos goniômetros de compensação dos arcônidas, ou de que lá
estejam estacionadas naves que os trazem a bordo.
“Embora o comandante da Oriniko já nos tenha
dado informações seguras sobre o planeta em que se encontra um daqueles goniômetros,
a reprogramação do aparelho de sua nave representaria um atraso de cinco dias, e,
atualmente, não podemos perder tanto tempo. É perfeitamente possível que, nos próximos
dias, ou mesmo nas próximas horas, Árcon consiga aumentar o alcance do goniômetro
de compensação para mil anos-luz ou mais. E depois?”
— Ainda sou de opinião que Gucky deveria fazer
uma visita a esse computador positrônico — disse Bell em tom furioso.
Perry Rhodan respondeu prontamente:
— Precisamos tanto de Gucky como do computador
positrônico de Árcon III. Não podemos arriscar-nos a perder nem um nem outro.
2
A Tigris, uma nave cargueira esférica de cem
metros de diâmetro, decolou pontualmente às 12:45 do espaçoporto de Terrânia. Com
isso, passou a desenvolver-se, com estupenda precisão, uma ação que o Império Solar
teria de levar a bom termo, custasse o que custasse.
A nave era comandada pelo Major Clyde Ostal,
do Serviço de Segurança Solar. Os trinta e dois tripulantes foram por ele recrutados
entre os membros do Serviço de Segurança de Allan D. Mercant.
Sabiam o que estava em jogo. E também sabiam
que sua missão era perigosa.
O sistema solar de Naral ficava a apenas 4.536
anos-luz da Terra, enquanto Árcon I, II e III ficavam a 34 mil anos-luz; no entanto,
aquele mundo pertencia ao Império Arcônida, já que seus habitantes descendiam dos
arcônidas, e nunca se esqueceram de suas ligações com esse mundo. Sua fidelidade
para com o Império era proverbial, e as ligações com Árcon III não poderiam ser
mais estreitas.
A Tigris desenvolvia 0,85 vezes a velocidade
da luz ao sair do sistema solar. Passou pela estação retransmissora de Plutão e
precipitou-se no abismo hiperespacial.
Raras vezes uma nave saía da Terra com ordens
tão precisas.
Os grandes porões estavam cheios de mercadorias
que eram esperadas ansiosamente no sistema de Tatlira. As hipermensagens expedidas
pelos escritórios comerciais, estabelecidos em outros mundos, e as consultas e chamados
de cargueiros solares que se encontravam em viagem, já haviam sido providenciados
discretamente há três dias.
Qualquer estranho que ouvisse tais mensagens,
veria na última notícia, transmitida pelo cargueiro Eugênio, que anunciava a chegada
da Tigris para o dia 18 de junho de 2.042 do calendário terrano, apenas um comunicado
comercial como qualquer outro.
Como em todos os tempos, a espionagem das mensagens
de rádio era praticada em grande escala. Milhares de ouvidos dos mercadores galácticos
escutavam em todas as freqüências. Os serviços de escuta de Árcon funcionavam na
nebulosa M-13 e nas bases planetárias avançadas. E o Império Solar também se dedicava
a essa prática. Afinal, ninguém desejava defrontar-se com fatos já consumados.
O Major Clyde Ostal sorriu ao ouvir a última
hipermensagem da Eugênio.
Com isso, a ordem 17 estava cumprida. As respectivas
instruções poderiam ser arquivadas.
A ordem 18 dizia que as transições 1 e 2 só
deveriam ser realizadas com o aparelhamento adicional. O computador positrônico
de bordo deveria ser desativado. Os setores de memória e armazenamento de dados
seriam desligados. Mandava instalar o controle triplo. As verificações deveriam
ser realizadas de dez em dez minutos. Após as informações seguiam-se os seguintes
nomes: Major Clyde Ostal, Tenente S. Seegers e Tenente Peter H. Hasting.
O aparelhamento adicional fora construído especialmente
para as primeiras duas transições da Tigris. Na realidade, consistia apenas num
pequeno dispositivo positrônico cuja finalidade era fazer com que a nave saísse
de determinado ponto do espaço e, depois de executar dois grandes hipersaltos, ressurgisse
no espaço normal a 1.375 anos-luz.
Por duas vezes, a pequena tripulação do veículo
espacial esférico ficou exposta aos efeitos desagradáveis do choque de transição.
Assim que o último ocupante da sala de comando da Tigris libertou-se desses efeitos,
viu que outro céu estrelado os fitava pela tela de visão global.
Mais uma vez, o aparelho adicional foi colocado
em ação. Dentro de poucos segundos, após uma verificação quíntupla, determinou as
coordenadas da nave mercante. Ao comparar os dados gravados na fita de plástico
do pequeno computador positrônico e os constantes da ordem 19, o Major Ostal verificou
que eles coincidiam cem por cento.
Passou-se ao cumprimento da ordem 20.
O despertador da cabine VIII emitiu dois zumbidos
curtos e um zumbido longo. Quatro homens aguardavam esse sinal. Saíram apressadamente
em direção à sala de comando. Passaram a desenvolver uma atividade febril, a fim
de desligar o pesado aparelho adicional do computador positrônico até então paralisado.
Eliminariam todo e qualquer sinal que pudesse indicar que, em algum momento, houve
um conjunto acoplado ao grande computador.
Ainda não tinham concluído o trabalho, quando
um robô de serviço entrou ruidosamente e aguardou instruções de carregar o aparelho
adicional.
Seus membros de aço nem sequer chegaram a estalar.
Com facilidade, levantou os cento e cinqüenta quilos e saiu da sala de comando.
Já estava sendo esperado na pequena comporta
B. A escotilha interna abriu-se, o robô entrou e a comporta voltou a fechar-se.
O Major Clyde Ostal e três oficiais contemplaram
a tela de visão global. De repente, esta mostrou um objeto anguloso, que passou
rente à nave. Era o aparelho adicional, que o robô de serviço acabara de atirar
para fora.
Por alguns minutos, Ostal desativou todos os
campos energéticos defensivos da Tigris. Mantendo velocidade uniforme, o aparelho
afastou-se da nave.
O Tenente S. Seegers ligou o microfone e chamou
a posição de artilharia de desintegração:
— Abrir fogo contra objeto solto no espaço!
Dali a três segundos, os ocupantes da sala
de comando fecharam os olhos por um instante, a fim de escapar ao ofuscamento causado
pela luz projetada na tela. O aparelho adicional desfez-se na cascata de fogo do
instantâneo processo de desintegração atômica.
Não havia mais nada que pudesse revelar que
a Tigris atingira este ponto do espaço por meio de um estratagema técnico bastante
dispendioso.
Chegou a hora de cumprir a última ordem, a
de número 21.
O Major Clyde Ostal entrou em contato com a
sala de rádio da nave:
— Avise à nossa agência do planeta Goszul,
no sistema de Tatlira, que o cargueiro Tigris, porto de matrícula Terrânia, Terra,
pousará daqui a três horas e dez minutos. Conforme já se combinou, a mensagem será
condensada e expedida no código usado nos avisos comerciais. Desligo.
Há algumas semanas, o Império Solar tomou conhecimento
de que, mais uma vez, os saltadores conseguiram decifrar o código das comunicações
comerciais terranas. E também, sem maiores dificuldades, transformaram para a duração
normal as hiper-mensagens expedidas pelo condensador comum.
— Tenente Hasting — o Major Clyde Ostal virou
o rosto para a pessoa cujo nome acabara de proferir e entregou-lhe a ordem que continha
os comandos 1 a 22. — Destrua os dados, conforme combinamos. Cabe-lhe tomar todas
as providências para que nem sequer as cinzas possam ser encontradas.
O rosto de Clyde Ostal, que geralmente parecia
um tanto superficial e ocultava as qualidades desses homens, estava fortemente marcado.
O chefe da missão, um homem de quarenta e cinco anos, deixou que seus companheiros
vissem e sentissem a proximidade do ponto decisivo.
— Transição em direção ao sistema Tatlira!
Ao transmitir a ordem, não pôde reprimir um
sorriso irônico. À sua direita, dois oficiais introduziam novos dados no computador
positrônico de bordo. As coordenadas do local onde se encontrava a nave, os volumes
energéticos calculados pelo computador positrônico, que se tornavam necessários
para, num tempo zero, alcançar o sistema Tatlira através do espaço intermediário,
traduzível apenas em termos matemáticos — eram estes os dados necessários a uma
boa transição.
Apesar de ter sido alterado num trabalho de
várias horas, realizado por uma equipe de cientistas terranos, o computador da Tigris
processou os dados falsificados nele armazenados pela forma desejada por Allan D.
Mercant e preparada pelos cientistas.
Ao arriscarem um hipersalto com base em dados
malucos, que incluíam apenas uns dez por cento de informações corretas, na certeza
de saírem corretamente no ponto errado do espaço, os tripulantes da Tigris não se
lançavam numa empresa temerária. Agiam convictos de que a equipe científica de Perry
Rhodan soubera resolver o problema nos termos previstos pelo plano.
— Transição dentro de dez minutos — disse a
voz metálica do contador de tempo do computador positrônico, transmitindo o novo
momento X.
Em X menos cinco minutos, Clyde Ostal voltou
a entrar em contato com a sala de rádio.
— Tudo preparado? A mensagem a ser irradiada
já foi introduzida no automático? O estágio final está iminente. O distorçor e o
condensador estão acoplados?
— Sim, major, tudo preparado, mas o texto não
será codificado, conforme as instruções.
O oficial de serviço junto ao transmissor fez
questão de mais uma vez chamar a atenção para a situação especial. Uma mensagem
de hiper-rádio não codificada era uma raridade.
O intercomunicador de bordo transmitiu as palavras
que o Major Clyde Ostal disse em voz baixa:
— Não chegará a ser um pio.
“O major
tem razão”, pensou o oficial que estava sentado diante dos controles.
No interior da Tigris, os últimos conjuntos
entraram em funcionamento. Todas as unidades energéticas estavam ligadas, e todos
os transformadores funcionavam. No painel de controle que se encontrava à frente
de Ostal, uma luz verde acendeu-se, dando o sinal “em ordem”. O major nem chegou a dedicar uma atenção especial a esse
fato. Aquilo que estava acontecendo à sua frente fora incutido tão intensamente
em seu espírito por meio do treinamento hipnótico arcônida que, dificilmente, ocorreria
uma falha de sua parte.
X menos um...
No momento X, a Tigris transitou pelo hiperespaço,
usando um volume inacreditável de energia.
A tela parecia desfazer-se no seu negrume e
no brilho de dezenas de milhares de sóis próximos e distantes. Os homens a bordo
deixaram de existir materialmente. O hiperespaço tirou-os da forma costumeira de
existência, mas não lhes tirou a vida.
Este momento foi breve. Tudo aconteceu num
tempo que não podia ser medido na dimensão temporal, uma vez que, durante esse “tempo”, a Tigris não se encontrava na estrutura
espaço-temporal onde o conceito de tempo tinha validade.
Os trinta e três homens gemeram e contorceram
o corpo ao acompanharem o hipersalto da Tigris. Mas, em nenhum desses homens, altamente
treinados, os efeitos do choque perduraram por muito tempo.
A menos de um segundo-luz do lugar em que se
encontravam, bem na trajetória da nave, brilhava um sol amarelento. O cargueiro
espacial terrano aproximava-se dessa estrela a uma velocidade correspondente a 0,9
vezes à da luz.
Na sala de comando, os oficiais estavam carregados
de tensão. Todos sabiam que a Tigris não saíra do hiperespaço junto ao sistema de
Tatlira, mas sim no sistema do sol Naral, situado a 4.536 anos-luz da Terra.
Seu destino era o terceiro planeta: Ekhas.
O único, num total de oito, habitado.
Um após outro, as gigantescas unidades energéticas,
os bancos de dados, os campos energéticos especialmente criados para o salto e os
conversores deixaram de funcionar. O último a parar foi o compensador estrutural.
Sob a proteção deste, a nave mercante acabara de realizar um salto de mais de quatro
mil e quinhentos anos-luz.
Uma nova voz indicadora de tempo passou a soar
ininterruptamente na sala de comando.
Fornecia o tempo decorrido desde a entrada
no Universo normal.
Dois homens sentados junto ao rastreador de
localização concentravam-se unicamente nesse aparelho.
— Três minutos e um segundo — disse a voz do
indicador positrônico de tempo.
Na sala de comando reinava um silêncio constrangedor.
Nenhum dos sistemas de comunicação trazia qualquer mensagem. Os trinta e três tripulantes
da nave sabiam que os dez minutos depois da saída do hiperespaço poderiam assumir
importância decisiva.
— Quatro minutos e trinta segundos.
Aos quatro minutos e trinta e oito segundos,
veio um chamado do Tenente Manteau, que se encontrava junto ao rastreador:
— Nave está sendo localizada; é fortemente
atingida pelo raio vetor.
Na sala de rádio, um homem ouvira a mensagem,
conforme determinavam as instruções que recebera. No mesmo instante, foi expedida
a mensagem, sob a proteção do distorçor e do condensador.
A mensagem era curta; consistia apenas em duas
palavras: “Nave localizada.”
O condensador comprimiu-as numa fração de um
por cinco mil de sua duração normal. O operador de rádio procurou constatar na tela
do oscilógrafo a curva representativa da mensagem.
Nem sequer chegou a notar um ligeiro lampejo.
Não pôde deixar de lembrar as palavras proferidas pelo major pouco antes da transição:
“Não
chegará a ser um pio.”
Satisfeito, o operador de rádio pensou:
“Tudo
certo. Tomara que as coisas continuem assim.”
A Tigris registrou três abalos estruturais
de grande intensidade, ocorridos nas imediações do lugar onde se encontrava. Dali
a alguns minutos, surgiram na tela três pontinhos que se aproximavam, vindos do
sistema de Naral, e que refletiam debilmente a luz daquele sol.
Falando para dentro do microfone, o Major Ostal
dirigiu-se à sala de rádio:
— Ainda não houve nenhum chamado?
— Não, major.
— Fale pela faixa comercial de Árcon. A mensagem
usual...
O operador de rádio não perdeu tempo. Falando
em intercosmo, transmitiu o nome da nave, seu porto de matrícula, tipo, destino,
etc. Não cometeu nenhum lapso; disse que a nave se destinava ao sistema de Tatlira.
E não deu a perceber que os tripulantes da Tigris já sabiam que não estavam chegando
ao sistema de Tatlira.
O operador de rádio era apenas um tripulante
de uma inofensiva nave cargueira terrana; nem de longe, poderia ser confundido com
um dos elementos bem treinados do Serviço de Segurança Solar. Não teve a menor dificuldade
em desempenhar seu papel.
Quando uma das naves de guerra ordenou em voz
trovejante que reduzissem imediatamente a velocidade, gaguejou de propósito pelo
rádio de bordo e proferiu suas palavras com tamanha dramaticidade que seu colega
lhe fez um gesto de ameaça, para que deixasse de desempenhar esse papel.
O alto-falante da sala de comando da Tigris
transmitiu a troca de mensagens. Os olhos do Major Clyde Ostal chisparam. Ainda
bem que, naquele momento, nenhum dos tripulantes das naves de guerra arcônidas podia
vê-lo.
— Sim senhor, comandante... Rádio silenciado,
silenciado por completo.
O comandante da nave arcônida era um homem
impulsivo, que ameaçou atacar o cargueiro terrano com todas as armas de que dispunha.
Naquela altura, o Major Ostal ordenou:
— Operador de rádio, transfira a ligação para
mim.
A tela acendeu-se à sua frente. Houve uns ligeiros
sinais, bastante confusos, mas logo se viu o rosto furioso de um comandante arcônida.
— Clyde Ostal, comandante da nave mercante
Tigris...
O arcônida demonstrava todas as características
de sua raça. Era orgulhoso e prepotente. Em tom áspero, ordenou:
— Desligue os campos defensivos. Encostarei
minha nave. Assim que perceber um comando de visitação se dirigir para sua nave,
deverá abrir a comporta principal. Fim.
Com isso, a primeira troca de mensagens entre
três naves esféricas arcônidas, de trezentos metros de diâmetro, e a pequena Tigris,
chegara ao fim.
— O.K. — disse Ostal em tom tranqüilo. — Façamos
a vontade dessa gente.
O tom de ameaça que vibrava na voz do arcônida
não anunciava nada de bom.
Dirigindo-se à sala de rádio, o major perguntou
pelo intercomunicador de bordo:
— Está ouvindo? Em caso afirmativo, não armazene
as palavras. Não queremos que alguém acredite que somos idiotas perfeitos.
— Uma das três naves está transmitindo na freqüência
do computador-regente, major. O texto é codificado, condensado e distorcido. Este
contato está sendo mantido desde o momento em que informei que nosso destino era
o sistema de Tatlira.
Os arcônidas haviam mordido a isca. Ostal sorriu.
No entanto, sentia-se irritado porque agiam com tamanha violência contra uma nave
terrana.
Oficialmente o computador-regente e Perry Rhodan
continuavam a ser aliados.
O Tenente Peter H. Hasting anunciou em voz
tranqüila:
— Comando de visitação planando em nossa direção.
Está trazendo robôs de guerra.
— Na situação em que nos encontramos isso não
é de espantar.
Ostal não se deixava abalar. Embora esse detalhe
não tivesse sido previsto, não representava qualquer obstáculo ao cumprimento da
missão que Perry Rhodan lhe confiara.
Um homem intimorato que se encontrava na comporta
principal anunciou:
— Dez arcônidas e quinze robôs de guerra acabam
de subir a bordo.
No mesmo momento, a sala de rádio anunciou:
— Troca de mensagens na faixa do computador-regente
concluída. Duração da palestra: quatorze minutos.
Clyde Ostal lançou um olhar bastante significativo
para Hasting. O jovem tenente, que já dera provas de seu valor numa série de missões
difíceis, fez continência. Encontrava-se junto ao computador positrônico. Sua mão
estava tranqüilamente pousada na tecla que apagava os dados armazenados no setor
de coordenadas de salto.
Os oficiais que se encontravam na sala de comando
sabiam que esse botão não destruía totalmente essa importante série de dados em
todos os setores do computador positrônico. Apesar de apagados, os dados poderiam
ser extraídos de outros centros de memória da máquina, embora isso exigisse bastante
tempo e trabalho.
A comporta blindada da sala de comando abriu-se
automaticamente.
O Tenente Peter H. Hasting, membro do Serviço
de Segurança Solar, que na Tigris ocupava o posto de tenente da frota mercante,
comprimiu tranqüilamente a tecla que apagava os dados. A luz amarela emitiu um brilho
muito forte.
— Ei! Solte isso! — gritou o primeiro arcônida
que penetrou na sala de comando.
Hasting obedeceu.
— Pois não — disse Hasting com um sorriso irônico.
— Tomamos nossas precauções. Infelizmente os senhores nos deram motivo para isso.
Dali a um minuto, os oficiais da sala de comando
e de rádio não tinham mais nada a fazer. Vigiados por robôs de guerra, comprimiam-se
num canto, enquanto os arcônidas assumiam o comando da Tigris.
Subitamente, o oficial arcônida, cujo rosto
pouco antes aparecera na tela, perguntou:
— Quem é o comandante?
— Sou eu! — respondeu Clyde Ostal, adiantando-se
um pouco.
— O senhor deu ordem para apagar as coordenadas
do salto?
— Naturalmente — disse Ostal em tom indignado.
Nem teve necessidade de fingir.
— Afinal, os senhores não se comportam como
arcônidas, mas como piratas.
— Somos ekhônidas, terrano, e eu sou o comandante
da frota de guerra arcônida estacionada em Ekhas.
Se o ekhônida, um homem alto e arrogante, que
pelos padrões terranos aparentava seus quarenta anos, esperara impressionar Ostal,
se enganara redondamente.
— Pois nós somos terranos, ekhônidas. Sou um
dos comandantes de Perry Rhodan. Meu chefe se queixará ao computador-regente de
Árcon III, e o senhor terá de se explicar por ter abordado dessa forma uma nave
terrana que está com as máquinas avariadas.
Outro ekhônida veio da sala de rádio e cochichou
algumas palavras a seu comandante. Este sorriu, muito satisfeito, e lançou um olhar
ainda mais arrogante para Clyde Ostal.
— O senhor pretendia ir ao sistema de Tatlira,
terrano? — perguntou em tom zombeteiro.
Ostal fez-se de não entendido.
— Nem sei como o senhor se atreve em operar
com suas naves de guerra nas proximidades do planeta Goszul. Diz que é ekhônida?
O senhor, um ekhônida? Pois os ekhônidas habitam Ekhas, o terceiro planeta do sistema
de Naral, e...
— Isso mesmo — interrompeu-o o comandante presunçoso.
— E é justamente por isso que esse tal de Perry Rhodan não nos interessa nem um
pouco. Acontece que o senhor não veio parar no sistema de Tatlira. Sua transição
saiu errada e os fez saltar um pouco mais longe, até o sistema de Naral. Acredita
que o tal do Rhodan virá procurá-lo por aqui? Nós, os ekhônidas, não acreditamos.
Recue para junto dos seus.
Sem dizer uma palavra, Clyde Ostal obedeceu
à ordem. Não se interessou pelos rostos furiosos de seus tripulantes. Desempenhavam
seu papel tão bem quanto ele.
Viram com a maior tranqüilidade que os cinco
ekhônidas passaram a comandar a Tigris. Constataram que um dos cinco dominava o
idioma inglês, estando familiarizado com os termos técnicos da Astronáutica.
As naves terranas, imitando as dos arcônidas,
haviam adotado a forma esférica, muito prática. Dali a duas horas, quando a Tigris
e os três veículos espaciais da frota arcônida chegaram ao espaçoporto de Ent-Than,
até parecia que um grupo misto estava voltando de um vôo de reconhecimento.
O Major Clyde Ostal e seus oficiais viram na
tela que Ent-Than era uma cidade enorme, e que, no espaçoporto, as chegadas e as
partidas eram ininterruptas.
Depois do pouso, trinta e três terranos foram
tangidos por dez robôs de guerra pelo gigantesco espaçoporto. O sol Naral, conhecido
como uma pequena estrela amarela, neste planeta parecia ter o tamanho do sol terrano.
Um céu límpido e azul estendia-se sobre este
mundo, que há mais de dez mil anos foi colonizado pelos arcônidas. Embora com o
correr do tempo, passassem a chamar-se de ekhônidas, não deixaram de ser arcônidas,
mas arcônidas arrojados e sadios.
Os terranos foram tangidos por cinco quilômetros.
E, por mais de uma hora, ficaram expostos aos olhares de desprezo, aos insultos
e às zombarias.
Assim que chegaram ao grande edifício da recepção
e da administração do espaçoporto, foram jogados num veículo em que normalmente
não caberiam mais de quinze pessoas.
Clyde Ostal protestou. Um ekhônida, que trazia
um distintivo desconhecido, ouviu o protesto e respondeu com o maior desprezo:
— O que é que você quer? Afinal, são apenas
terranos.
O Major Clyde Ostal sentiu o sangue afluir
à sua face, mas conseguiu dominar-se. Atirou a cabeça para trás. Falando em tom
relaxado, respondeu num arcônida impecável:
— Ainda bem que você tem razão, ekhônida. Agradeço
a todas as estrelas por ser um terrano, e não um arcônida degenerado ou um ekhônida
presunçoso.
Virou-se abruptamente, dando as costas ao ekhônida
confuso. Nem sequer podia imaginar que iria revê-lo no dia seguinte. Comprimido
num espaço apertado com os trinta e dois companheiros, iniciou o caminho para a
prisão.
De ambos os lados do veículo, seguiam viaturas
de vigilância, com robôs de combate. Não havia a menor possibilidade de fugir. Penetraram
cada vez mais no casario de Ent-Than. A coluna parou dentro de um gigantesco hotel,
cujo nome significava Estrela de Árcon.
O último andar do edifício, situado a quinhentos
metros de altura, era uma prisão.
Um elevador antigravitacional levou-os até
três metros à frente do portão transparente, formado por um campo de radiações.
O Tenente Hasting, que não compreendeu a advertência de um robô, esbarrou no portão
e quebrou o braço direito.
Imediatamente separaram-no dos outros. A barreira
foi retirada, e os trinta e dois tripulantes da Tigris caminharam para a prisão
de Ent-Than.
3
Enquanto os tripulantes da Tigris ainda se
dirigiam à prisão, que constava dos registros do planeta sob o mesmo nome do hotel
Estrela de Árcon, duas dezenas dos especialistas mais competentes de Ekhas foram
retirados de seus locais de trabalho e levados à nave terrana.
Quando estes chegaram, já encontraram três
cientistas do setor de rádio.
Os especialistas, que examinavam o hiper-rádio
da Tigris, receberam ordem de realizar suas investigações com a maior cautela, pois
era necessário verificar se, apesar da vigilância de todas as faixas de hiperfreqüência,
a nave não conseguira expedir um pedido de socorro a seu sistema.
Na sala de comando, oito especialistas ocupavam-se
com o computador positrônico de bordo, enquanto outros examinavam os estágios finais
do compensador estrutural, para após isso desenvolverem sua atividade no setor da
nave em que se encontrava o gigantesco aparelho que, até então, impedira a medição
e a localização dos hipersaltos.
O rastreador estrutural não deixou de merecer
as atenções da equipe. Dois especialistas vasculharam cuidadosamente os papéis.
Examinaram a declaração de carga e os planos de vôo. A língua inglesa com suas expressões
idiomáticas não representava nenhum problema para eles. Um excelente treinamento
hipnótico fizera com que lessem e falassem essa língua como se fosse seu idioma
materno.
Os três ekhônidas incumbidos do exame do conjunto
propulsor da nave não demoraram em concluir seu trabalho. Apresentaram-se a Egg-or,
que dirigia pessoalmente a missão.
— O mecanismo propulsor funcionou perfeitamente,
senhor. O erro na transição deve ter ocorrido por outro motivo. Também examinamos
as reservas de energia da nave. Seriam suficientes para cem saltos, sem considerar
as unidades geradoras, bem melhores que as das naves arcônidas. São mais potentes,
embora no fundo sejam mais simples. Ainda...
Egg-or — o ekhônida perante o qual o Major
Clyde Ostal protestara junto ao gigantesco edifício de recepção do espaço-porto,
contra o tratamento ignominioso dispensado aos terranos — interrompeu-o com um gesto.
— Apresente um relatório detalhado em oito
vias. Obrigado.
Seu rádio de bolso chamou. A central do Serviço
de Defesa Planetária de Ekhas queria falar com ele. A ligação foi passada adiante.
O Serviço de Escuta de Rádio, ao qual competia a vigilância do espaço em torno do
sistema de Naral, informou que, segundo os dados armazenados no computador positrônico,
a nave terrana não transmitira nenhum pedido de socorro, depois de ter regressado
à estrutura espaço-temporal normal.
Egg-or nem chegou a agradecer pela informação,
pois esta não lhe parecia suficientemente segura. Uma certeza cem por cento sobre
os acontecimentos, sobre se a Tigris emitiu um pedido de socorro ou não, sobre se
manteve qualquer contato pelo rádio ou foi surpreendida pelos acontecimentos, essa
tal certeza só poderia resultar do exame do setor de armazenamento de dados das
instalações de rádio da nave terrana.
O setor de armazenamento estava acoplado à
saída do hiper-rádio. As ligações do condensador e do distorçor achavam-se logo
após. Os três especialistas arcônidas nem tiveram a idéia de que bastava uma simples
modificação das ligações para acoplar o condensador e o distorçor antes do centro
de armazenamento.
Apesar disso, descobriram uma coisa.
O aparelhamento acústico não acusou nada. E
o aparelhamento ótico-positrônico não conseguiu tornar visível a curva típica do
hiper-rádio, que pela sua forma peculiar é uma das características marcantes de
qualquer hipertransmissão.
Mas o aparelho de testes de Lar, que funcionava
como potenciômetro, indicava uma saída de energia, incrivelmente breve.
Mais uma vez, o aparelho de Lar deu um sinal.
E, mais uma vez, os especialistas olharam-se em silêncio.
— Isso não significa nada — disse o mais idoso
deles.
— Talvez seja o efeito ainda não explicado
do eco — disse o mais jovem.
Mas, em sua voz, havia um tom de dúvida que
imediatamente despertou a atenção de Egg-or. Este não sabia o que significava o
efeito de eco em relação ao hiper-rádio.
O mais jovem dos três especialistas arcônidas
deu uma explicação em poucas palavras:
— Segundo a teoria, o efeito de eco surge quando
dois hipertransmissores e receptores colocados em pontos diversos têm o transmissor
e o receptor ligados para a mesma faixa. Segundo se supõe, quando um dos transmissores
está funcionando, o outro vez por outra passa a representar um eco deste, transmitindo
fragmentos da mensagem expedida por aquele, e isso a plena potência. Mas devo ressaltar
que isto não passa de pura teoria.
Egg-or não estava disposto a assumir o menor
risco.
— Este hiper-rádio será retirado da nave e
desmontado para ser submetido a um exame...
Foi interrompido. O mais jovem dos especialistas
acreditava conhecer o motivo por que o aparelho de Lar acusara uma pequena descarga
energética.
— Perdão, senhor. Faça o favor de verificar
pessoalmente...
Seguiu-se uma explicação prolongada, que culminou
na constatação de que a Tigris não expedira qualquer hipermensagem depois de seu
retorno ao espaço normal.
* * *
Dali a oito horas, Egg-or apresentou-se ao
General Sutokk, comandante da frota
arcônida estacionada em Ekhas.
Sutokk, que tratara Clyde Ostal com tamanha
arrogância durante a operação de abordagem, fez um gesto afável para Egg-or.
— Quer dizer que posso ficar tranqüilo e anunciar
ao computador-regente que não existe o menor perigo de sermos molestados por Perry
Rhodan, caso retivermos a nave e deportarmos seus tripulantes?
Egg-or fez uma mesura diante do general e disse
em tom confiante:
— General, nossos especialistas ainda estão
reunindo os dados que nos permitirão determinar a exata posição galáctica da Terra.
Neste exato momento, ainda não lhe posso anunciar um êxito total. Mas posso garantir
que o senhor não assumiu o menor risco ao determinar a abordagem da Tigris.
— A cooperação entre o Serviço de Defesa Planetária
de Ekhas e a frota do regente de Árcon nunca funcionou tão bem como nestes últimos
tempos — disse Sutokk.
Depois perguntou em tom insistente:
— Quanto tempo levarão seus cientistas para
extrair dos centros de memória do computador positrônico da Tigris as coordenadas
galácticas da Terra? Egg-or, o senhor sabe tão bem quanto eu que o computador-regente
faz questão de ver respondida esta pergunta no mais breve espaço de tempo. Teve
conhecimento de minha palestra radiofônica com o regente. Então, o que me diz, Egg-or?
— Na melhor das hipóteses, teremos os dados
dentro de três dias, general...
— Será que o senhor ficou louco? O computador-regente
me rebaixará se eu me atrever a transmitir uma informação deste tipo, e sua sorte
não será melhor. Se isso acontecer, o senhor deixará de ser o chefe do Serviço de
Defesa, Egg-or!
Egg-or provou que era um homem de caráter.
— Nossos cientistas não são feiticeiros, general.
Um computador positrônico não é uma maquinazinha como qualquer outra. Neste momento,
os três grandes cérebros positrônicos de que dispomos estão ocupados exclusivamente
em separar e reprocessar os dados armazenados na nave terrana. General, peço-lhe
que considere que esse reprocessamento é extremamente complicado, pois ainda não
conhecemos as coordenadas longitudinais, nem a constante temporal...
— Não diga tolices, Egg-or — interrompeu-o
o general. — A constante temporal é imutável...
— Acontece que sofre uma modificação toda vez
que a nave transita pelo hiperespaço — ponderou Egg-or em tom convicto.
— Já constatamos que a Tigris procurou vencer
num único salto a distância entre o planeta Terra e o sistema de Tatlira. Acho que
isso representa um resultado parcial cuja importância não pode ser subestimada.
Mas ainda não descobrimos o motivo do erro ocorrido na transição da Tigris. O que
houve, general?
Egg-or notou que, de repente, Sutokk passou
a fitá-lo com uma expressão pensativa.
— Egg-or, neste momento tive uma idéia. Será
que o erro de transição não pode representar uma isca bem gorda que Rhodan atirou
a nosso regente? Que tal se neste instante Rhodan se mantém à espreita nos limites
do nosso sistema para...
— General — interrompeu Egg-or com um sorriso
de superioridade. — Será que o senhor se esqueceu dos novos goniômetros de compensação
montados em suas naves, que registram toda e qualquer transição, mesmo que seja
realizada sob a proteção dos compensadores estruturais? Ainda cabe ponderar que
nosso serviço de escuta galáctica conseguiu decifrar mais uma vez o código usado
nas comunicações comerciais dos terranos. Há alguns dias, tivemos conhecimento do
vôo da Tigris para o planeta de Goszul. Terei o maior prazer em apresentar-lhe os
respectivos documentos.
Mas o General Sutokk ainda não se tranqüilizara
de todo. Falando em tom enfático, disse ao chefe do Serviço de Defesa ekhônida:
— Tem certeza absoluta de que a Tigris não
errou o salto de propósito, para servir de isca que Rhodan nos atirou? Não responda
agora, Egg-or. Submeta o comandante do cargueiro a uma lavagem cerebral. Se, depois
disso, chegarmos à conclusão de que minha suspeita não tem fundamento, estarei pronto
a avisar o computador-regente de que ainda levaremos três dias para descobrir as
coordenadas do sistema solar de Rhodan.
Egg-or sacudiu a cabeça.
— Não haverá nenhuma lavagem cerebral, general.
Nossas leis não permitem...
— Vá para o inferno com as nossas...
— Não, general. Neste ponto não cedo em hipótese
alguma, nem mesmo diante de uma ordem do regente.
— O senhor não costuma ter muitos escrúpulos
— disse o General Sutokk em tom mordaz. — Entregue-me a tripulação da Tigris, Egg-or!
— Não entrego! Nem um único homem. Posso deportá-los
para um lugar em que nunca mais sejam encontrados. Mas transformar um ser humano
num idiota, através da lavagem cerebral? Não, general; nunca! É minha última palavra.
O rosto de Egg-or estava pálido como cera.
Seus joelhos tremiam. Mas sabia que essa resposta era uma exigência de sua própria
dignidade.
— Daqui a alguns minutos, terei uma palestra
muito interessante com o regente — disse Sutokk em tom de ameaça, e o brilho de
seus olhos mostrava que não estava proferindo uma ameaça vazia.
No mesmo instante, Egg-or ligou seu rádio de
bolso.
— Aqui fala Egg-or — disse. — Mensagem para
Estrela de Árcon. Superurgente. Nem um único dos terranos presos...
Não conseguiu prosseguir. Foi interrompido
por uma série de palavras que se atropelavam em seu pequeno, mas potente alto-falante.
— Senhor. Os trinta e três terranos fugiram.
Acabamos de receber a notícia da Estrela de Árcon.
Egg-or desligou.
Sutokk e Egg-or fitaram-se.
Pensavam na mesma coisa. Viam diante dos olhos
de sua mente a prisão situada a oitocentos metros de altura, no enorme edifício
em que ficava o hotel. Os dois estavam admirados.
Como é que alguém pôde fugir de lá? Até hoje
ninguém conseguiu escapar dessa prisão!
— Os trinta e três prisioneiros fugiram — disse
Egg-or em tom de incredulidade.
Viu o riso duro no rosto de Sutokk.
— Não maltrate sua consciência, Egg-or. Segundo
todas as probabilidades, alguns dos fugitivos serão presos por membros da frota
de Árcon. Quando isso acontecer, mandarei que um ou alguns deles sejam submetidos
à lavagem cerebral. Egg-or, fico-lhe muito grato pela visita que acaba de fazer
ao quartel-general da frota espacial do regente, estacionada em Ekhas. Bom dia...
Trêmulo de raiva, Egg-or disse:
— General, hoje de manhã, quando os terranos
foram colocados no veículo que os levaria à prisão, ofendi um deles. E ele não se
calou diante da ofensa. Agradeceu a todas as estrelas por não ser um ekhônida. General,
o senhor acaba de provar que realmente não temos motivo para nos orgulharmos de
sermos ekhônidas. Lavagem cerebral! Pense bem, general. Será que o Império Arcônida
se tornou tão fraco que precisa recorrer aos meios mais infames? Não basta que o
regente só pense em números e também nos classifique por números? Nós...
— Nós recebemos ordens do regente para descobrir
sem mais demora o mundo de Rhodan, e pretendo cumprir essas ordens, Egg-or! Faça
o favor de deixar a meu critério os meios de que pretendo valer-me para isso. Pouco
me importa o que o senhor resolva fazer no seu setor. Quero saber se Rhodan não
se mantém à espreita nas proximidades de nosso sistema solar...
O nervosismo dos dois arcônidas estava diminuindo.
Egg-or disse em tom convicto: — Rhodan não
está à espreita nas proximidades do sistema! A nave terrana errou o salto; só isso.
4
Acontece que Rhodan estava à espreita nas proximidades
do sistema de Naral!
Na ordem número 22, destinada à Tigris, o Major
Clyde Ostal tinha trinta minutos para realizar a transição errada.
Em Terrânia, capital do Império Solar e local
em que ficava o maior espaçoporto do sistema solar, o relógio aproximava-se inexoravelmente
do momento fixado na ordem número 22.
Os mecanismos propulsores da nave Lotus, um
cruzador ligeiro da frota espacial do Império Solar, funcionavam com dez por cento
de sua capacidade de empuxo. As comportas do veículo espacial esférico ainda estavam
abertas, e todas as rampas haviam sido descidas entre as gigantescas colunas telescópicas
de apoio.
O ruído trovejante vindo da protuberância equatorial
era um barulho familiar para os homens que, dia após dia, faziam seu trabalho no
espaçoporto. Nenhum deles interrompia seu trabalho quando uma das naves decolava.
Apenas o espetáculo irreal, que se oferecia quando um dos gigantescos couraçados
de 1.500 metros de diâmetro levantava vôo, continuava a ser um acontecimento inesquecível.
Mas quem se interessaria pelo fato de que a
Lotus estava preparada para decolar? Poucas pessoas sabiam que Perry Rhodan a transformara
em sua nave capitania. Havia algo que a tornara diferente de qualquer outra nave
da frota terrana. Apenas os swoons, cuja discrição já era considerada proverbial,
sabiam desse fato. Os swoons eram os seres em forma de pepino, que haviam deixado
Reginald Bell um tanto contrariado. Bell ficara emburrado porque, da mesma forma
que qualquer outro ser humano, era totalmente incapaz de ver as inovações microscópicas
instaladas na Lotus pelos pequeninos seres.
Mas, naquele instante, os tripulantes da Lotus
já começavam a pensar sobre a missão que o cruzador ligeiro teria a cumprir, ainda
mais que sabiam haver alguns membros do Exército de Mutantes a bordo da nave.
Tako Kakuta não entrara em seu camarote pelo
caminho normal. O japonês preferira abandonar sua residência de Terrânia num salto
de teleportação, para rematerializar-se no camarote 7 do convés C. Num redemoinho
tremeluzente voltara a existir juntamente com sua reduzida bagagem.
Quem observasse os movimentos do japonês, pequeno
e franzino, chegaria à conclusão de que Tako era inofensivo como uma criança. Essa
impressão era reforçada pelo rosto infantil que se abria sob a testa saliente. Ninguém
poderia imaginá-lo um teleportador de primeira ordem, que desmaterializava-se para
rematerializar-se a qualquer distancia, desde que visse o ponto de destino ou estivesse
em condições de imaginá-lo.
Fellmer Lloyd e Kitai Ishibashi tiveram de
passar pela comporta, como qualquer outro mortal. Pouco depois da chegada dos dois
mutantes, Perry Rhodan subiu a bordo da Lotus.
Assim que entrou na sala de comando, o comodoro
da nave entregou-lhe o texto de uma mensagem recebida pelo rádio. Vinha da Tigris.
A nave cargueira anunciava sua transição e o próximo pouso no planeta de Goszul,
situado no sistema de Tatlira.
Perry Rhodan agradeceu e enfiou a fita de plástico
no bolso. Acomodou-se no assento de reserva, ao lado do co-piloto.
— Podemos decolar — disse, dirigindo-se ao
comandante.
Virou a cabeça porque seus mutantes se haviam
colocado a seu lado para anunciar sua presença. Mais uma vez, Perry Rhodan agradeceu,
e com isso dispensou seus agentes especiais.
Para os oficiais que se encontravam na sala
de comando, isso não era nenhuma novidade. Muitas vezes haviam realizado missões
semelhantes, e sempre constataram que todos os preparativos foram tomados com uma
precisão incrível.
O cruzador ligeiro Lotus decolou.
Gigantescos campos antigravitacionais foram
eliminando seu peso, e o empuxo dos maquinismos de propulsão, que trabalhavam a
dez por cento de sua capacidade, tornava-se cada vez mais forte.
Mas a gravitação no interior da esfera espacial
não se modificou, e a pressão produzida pela aceleração não se fez sentir. Campos
de absorção perfeitamente ajustados eliminavam-nas antes que pudessem molestar os
homens.
A missão da Lotus acabara de ser iniciada.
A segunda parte de uma tarefa de resultados
imprevisíveis estava sendo executada.
A calma de Rhodan transmitiu-se à tripulação.
* * *
A Lotus atingiu a órbita de Plutão num tempo
normal. Um curto aviso dirigido à estação retransmissora, uma resposta lacônica
e a permissão para o vôo em direção ao espaço galático foram os últimos contatos
mantidos com o sistema solar.
A nave aproximava-se da velocidade da luz e
do momento da transição.
Faltavam dois minutos. O comandante da Lotus
ergueu-se e fitou Rhodan.
— Sir — principiou. — Será verdade que Árcon
dispõe de novos goniômetros, que lhe permitem localizar e medir qualquer hipersalto,
mesmo realizado com o compensador estrutural?
Rhodan sorriu.
— Por enquanto esse boato já se transformou
em fato consumado. Mas o fato de você saber disso me deixou tão espantado como minha
resposta talvez o tenha deixado.
As palavras de Rhodan continham um pedido de
explicação.
— Ouvi falar nisso, Sir. Mas, palavra de honra,
não sei quem me disse.
O olhar de Perry Rhodan tornou-se duro.
— Acredito no que está dizendo — disse depois
de uma ligeira pausa. — Mas peço-lhe que após seu regresso se apresente a Allan
D. Mercant e lhe relate tudo que sabe.
Dali a dez segundos, a Lotus entrou em transição.
Num único salto percorreu a distância de 4.535 anos-luz, retornando ao Universo
normal a um ano-luz do sistema de Naral.
Durante dezoito minutos não aconteceu nada
de alarmante. A Lotus freou sua marcha e se manteve praticamente imóvel no espaço.
De repente, o rastreador indicou um abalo estrutural
a um ano-luz de distância. Dali a pouco seguiram-se três abalos, vindos da mesma
distância e da mesma direção do primeiro.
O intercomunicador de bordo emitiu um estalo.
A sala de rádio anunciou:
— Captamos hipermensagem da Tigris transmitida
pelo condensador e distorçor. Texto da mensagem: “Nave localizada.”
Perry Rhodan virou o rosto para o comandante.
— Ordem B/3!
O comandante disse quase no mesmo instante:
— Realizar transição a curta distância.
A nova transição trouxe a Lotus vinte dias-luz
mais perto do sistema de Naral. Enquanto todos ainda combatiam o choque da transição,
Perry Rhodan continuava impassível no seu assento e lançou um olhar quase indiferente
para o rastreador estrutural. No seu íntimo, teve de reunir todas as forças para
dominar o nervosismo.
Era o único que sabia o que os próximos minutos
significavam para o Império Solar.
No início do quinto minuto, Rhodan disse a
si mesmo que esperara bastante por uma coisa que não acontecera...
A tensão insuportável abandonou-o. Voltou a
recuperar a vitalidade. Os dois oficiais que se encontravam junto ao rastreador
estrutural enxugaram discretamente o suor da testa.
— A Lotus não foi localizada.
Perry Rhodan riu e divertiu-se ao ver que todos
lhe lançavam olhares indagadores, sem compreender o motivo de sua alegria.
Também era apenas um ser humano, e precisava
de descontração, de compensação como qualquer outro. Os olhares indagadores, a falta
de compreensão do que se passava era sua descontração. Então, bem motivado, perguntou:
— Existe um meio de neutralizar o novo goniômetro
arcônida?
Ele mesmo respondeu:
— Sim; esse meio existe.
A Lotus não fora localizada.
O novo aparelho de absorção de freqüência,
uma invenção que anulava o goniômetro de compensação dos arcônidas, foi uma criação
dos técnicos swoons, que deixaram espontaneamente seu mundo para acompanhar Perry
Rhodan e iniciar nova vida em Terrânia.
Graças ao seu engenho, o aparelho por eles
criado absorvia as vibrações do compensador estrutural, fechando a porta às tentativas
arcônidas de, mediante o goniômetro de compensação, descobrir a posição da Terra.
— Isso mesmo, senhores — disse Rhodan, soltando
uma estrondosa gargalhada. — Realmente é um milagre saber que, depois de efetuar
duas transições, nossa nave não foi localizada. A Tigris foi detectada, apesar do
compensador estrutural. Não me olhem desse jeito. Existe um fato incontestável:
Árcon possui um aparelho que permite o registro e a medição de qualquer salto. Apenas,
o novo goniômetro não pode atingir a Lotus. Esta é a única nave espacial terrana
que dispõe de um aparelho de absorção ou abafador de freqüências. Espero que, dentro
de um mês, todas as naves terranas estejam assim equipadas. Os swoons vão ter de
construir em curto prazo um número bem elevado deste tipo de acessório do compensador
estrutural.
— Os homens-pepino? — exclamou o comandante,
usando o nome dado aos microtécnicos no momento em que houve o primeiro encontro
entre os swoons e os homens.
— Isso mesmo — respondeu Perry em tom exultante.
— Devemos esta reação rápida exclusivamente a esses amiguinhos adoráveis.
O chamado da sala de rádio trouxe Perry Rhodan
de volta para a dura realidade.
— Sir! — exclamou o oficial de serviço em tom
tão exaltado que até parecia que queria livrar-se logo da novidade. — Neste momento,
uma nave de Árcon está falando pelo hiper-rádio com o computador gigante.
— A mensagem está sendo transmitida através
do condensador e do distorçor? — perguntou Rhodan.
— Sim senhor — respondeu o operador de rádio.
— O ritmo do distorçor já foi determinado, da mesma forma que o comprimento do impulso
do condensador, mas não conhecemos o código.
— Passe o texto codificado para o computador
de bordo — ordenou Rhodan depois de ligeira reflexão.
— Ainda estão falando na freqüência do regente,
mas o texto está sendo transmitido ao computador, Sir.
Depois de 14 minutos, a mensagem de hiper-rádio
transmitida pela nave de Árcon ao computador-regente chegou ao fim. O grande computador
positrônico da Lotus ainda se esforçava para descobrir a chave do código. Mas, dali
a mais vinte minutos, desistiu. Uma pequena fita de plástico foi atirada no recipiente
de saída, e nela se leu, em código, a solicitação de outros dados.
— Não adianta — disse Rhodan, levantando-se
do assento.
Dirigiu-se à escotilha que separava a sala
de comando e a sala de rádio do resto da nave. Passando pelo amplo convés A, dirigiu-se
a seu camarote.
A palestra de quatorze minutos entre uma nave
arcônida e o computador-regente lhe deu muito o que pensar. Mais uma vez, reforçou-se
em sua mente a suspeita, que quase se transformou em certeza, de que o gigantesco
cérebro positrônico de Árcon in, soberano absoluto do Grande Império, não recuaria
em sua lógica desalmada...
Rhodan lembrou-se dos misteriosos druufs, aqueles
poderosos seres da outra dimensão temporal, que irrompiam continuadamente no Universo
normal e nas zonas de superposição, fazendo desaparecer milhões de seres.
O computador-regente aliara-se a ele a fim
de enfrentar o tremendo perigo, investindo Perry Rhodan nas funções de comandante
supremo da gigantesca frota espacial de Árcon. Mas esse poder só se aplicava na
luta contra os druufs, não quando se tratasse de resguardar outros interesses.
Perry Rhodan soltou uma risada colérica. Mais
uma vez, teve de constatar que o pacto de amizade que fizera com Árcon era apenas
um contrato por tempo limitado. O gigantesco cérebro positrônico recorria constantemente
aos piores estratagemas para descobrir a posição galáctica da Terra.
Naquele momento, provavelmente nem sequer recuava
diante da perspectiva de comportar-se como um pirata e apresar uma nave mercante
que aparentemente se enganara numa transição, a fim de retirar dos bancos de dados
do cargueiro terrano as tão desejadas coordenadas do sistema solar.
Pouco antes da decolagem da Tigris dera ordem
ao Major Clyde Ostal para entrar em contato com os estabelecimentos comerciais terranos
de Goszul, três horas depois da transição que o levaria para o interior do sistema
de Naral.
Perry Rhodan teria de esperar até que essas
três horas chegassem ao fim. Quando faltavam apenas vinte minutos, entrou em contato
com a sala de comando e disse:
— Comandante, prepare a ordem B/7, mas só a
execute depois de receber instruções expressas de minha parte.
Tratava-se de outra transição, que levaria
a Lotus para o interior da aglomeração de sóis do centro da Via Láctea.
Rhodan escolhera propositadamente um local
de reentrada situado longe de todas as rotas de navegação espacial, e que era temido
como a peste até mesmo pelos arcônidas mais arrojados.
Num raio de cem anos-luz, essa área era um
local de encontro de quatro estrelas radiativas invisíveis dotadas de grande potência
energética. Além disso geravam campos magnéticos de intensidade inconcebível que,
segundo se dizia, tornavam quase impossível a navegação nesse setor. Lá as hipercomunicações
ficavam paralisadas.
Perry Rhodan sabia perfeitamente o que havia
de verdade nesses boatos e o que não passava de lenda de astronautas. Já estivera
lá uma vez com a Titan e duas vezes com a Drusus. Encontrara condições muito estranhas,
que só se explicavam pelos campos magnéticos que avançavam profundamente pelo espaço
afora. Porém quem soubesse como conduzir-se numa situação como essa, não teria motivo
para temer as estrelas radiativas.
O senso temporal, bastante desenvolvido de
Rhodan, fê-lo olhar para o relógio. A terceira hora chegou ao fim.
Chegara o momento de executar a ordem B/7.
Para a Lotus, o Universo se desfez; desapareceu
para, no mesmo instante, voltar a existir no setor central da Galáxia.
Dali a cinco minutos, Rhodan compareceu à sala
de rádio.
— Chame a Mab I pela palavra-código árcon.
A freqüência de sua hiperonda consta do manual. Leve a resposta a meu camarote.
Depois deu instruções para que os mutantes
comparecessem à sua presença. Desta vez, mesmo Tako Kakuta, o teleportador, veio
pelo caminho normal.
Fellmer Lloyd caminhava pesadamente. Era um
localizador e telepata, que sabia absorver e processar vibrações cerebrais. Seu
sentido de localização ainda lhe permitia conhecer a disposição dos outros e prever
certos perigos.
Já Kitai Ishibashi, que antes de entrar no
Exército de Mutantes de Rhodan exercia a profissão de médico e psicólogo, era um
homem alto e magro, no qual talvez se pudesse enxergar o tipo do intelectual. Sua
qualidade de sugestionador fazia dele um homem quase insubstituível no Exército
de Mutantes.
— Há alguns minutos informei o mercador galático
Mabdan de que o espero no local combinado. Passaremos à sua nave, a Mab I, e viajaremos
com ele ao sistema de Naral, para pousar no espaçoporto de Ent-Than.
Rhodan sorriu enquanto fitava o sugestionador
e prosseguiu na sua fala:
— Ishibashi, entre imediatamente em contato
com o comandante da Lotus e familiarize-o com sua maneira de trabalhar. Não quero
assumir qualquer risco durante nossa missão, pois não pretendo expor a Lotus com
seu novo aparelho de absorção a qualquer tipo de perigo. Provavelmente o senhor
é o único de nós que pode entrar em contato com a nave e seu comandante a partir
de Ekhas, mesmo que seja apenas por via sugestiva. Mantenha-o informado para que
não soframos contratempos graves.
“A Mab I deve estar a nosso lado dentro de
uma hora, no máximo. Em trajes espaciais dos saltadores, passaremos para ela e não
levaremos em nossa bagagem qualquer utensílio terrano. Façam o favor de verificar
suas vestes neste ponto.
“Os ekhônidas são arcônidas. Se não nos esquecermos
desta verdade, não cometeremos o erro de subestimá-los.”
Rhodan seguiu os homens com os olhos. Havia
uma expressão pensativa em seu rosto. Um nervosismo indefinível procurava apossar-se
de sua mente. Por várias vezes seus pensamentos começaram a girar em torno de Mabdan.
Tal qual muitos de sua espécie, esse mercador galático era um agente terrano.

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