sábado, 7 de setembro de 2013

P-070 - Últimos Dias de Atlântida - K. H. Scheer [parte 3]

— Os colonos arcônidas devem ser avisados a fim de que se preparem para uma fuga que os levará a zonas desertas. O quartel-general será transferido imediatamente para a cúpula pressurizada submarina que será preparada pela equipe de engenharia.
Olhei para o relógio. Passava do meio-dia. Sobre o amplo espaçoporto, o sol branco-amarelado do sistema estava no zênite. Era um belo mundo, semelhante a Árcon, que reunia todas as condições para um belo desenvolvimento. Naquele instante, estava decidido a defender o terceiro planeta com todos os meios a meu alcance.
— Decolaremos dentro de uma hora — ordenei. — Os resultados das medições realizadas pelos instrumentos da TO-4 me serão apresentados imediatamente.
Levantei a mão a título de cumprimento. Os oficiais limitaram-se a inclinar a cabeça. Já fora dito — tudo que pode ser dito — numa ocasião como esta.
Tarts, que também era chefie do estado-maior, acompanhou-me até o carro. Aquela figura alta parecia um símbolo de força e determinação. Depois de ter recebido o tratamento biológico de rejuvenescimento seu passo voltara a ser firme e elástico.
No momento em que pretendia entrar no veículo, disse:
— Nossas chances estão num ataque rápido e fulminante, Atlan! Se esperarmos até que saiam do funil de superposição, estaremos perdidos. Será fácil desviarmo-nos de uma frente temporal normal, face à sua reduzida velocidade.
— Foi justamente por isso que dei ordem para decolar — confirmei. — Apenas receio que ambos os fenômenos se verifiquem ao mesmo tempo. De qualquer maneira, as naves insubstituíveis deverão estar nas profundezas do espaço, caso durante a oposição dos dois planetas se verificar uma superposição. Por enquanto, estou interessado em ver os resultados das medições realizadas pela nave auxiliar. Aguardemos.
Quando decolamos, sabíamos que estávamos indo de encontro ao destino. Estava decidido a avançar pelo anel de estabilização, houvesse o que houvesse, e lançar um ataque devastador do lado oposto.
Os maravilhosos edifícios de Atlópolis, capital de Atlântida, erguiam-se à nossa frente. A cidade era um centro comercial e cultural dos colonos espalhados por uma vasta área.
Nossos veículos soaram as sirenas para abrir caminho. Os nativos, que vestiam roupas coloridas, feitas à mão, ajoelharam-se. Senti-me constrangido ao ver as criaturas inteligentes deste mundo numa posição de devotamento exagerado.
Tarts e os homens do comando de colonização também não gostavam do modo devoto dos nativos.
O velho comandante disse em tom contrariado:
— Devíamos tentar aperfeiçoar os indivíduos mais inteligentes dessa raça por meio de um treinamento hipnótico rápido. Dessa forma, ficaremos sabendo se o volume espiritual dos mesmos já é suficiente para compreender nossa tecnologia.
Limitei-me a fazer um gesto irônico. Meu velho espadachim parecia transformar-se num homem pacato. Tarts já pertencera à classe dos arcônidas que, ao pousarem num mundo estranho, mandavam preparar os canhões antes de dizer bom dia.
— Isso já foi providenciado — respondi.
— Ah!
Diverti-me com o rosto perplexo de Tarts. Enquanto subíamos a larga estrada em espiral que levava ao meu palácio administrativo, notei que examinava atentamente os nativos que trabalhavam nas plantações. Aqueles homens altos e morenos eram fisicamente robustos e ágeis. Só os primeiros ensaios com o aparelhamento ultra-secreto de ensino hipnótico rápido diriam se seus cérebros também eram bem desenvolvidos.
No espaçoporto, que já ficava longe, ouviu-se um trovejar. Os mecanismos de propulsão da gigantesca Tosoma produziam um anel fogoso representado pelas massas de ar superaquecido. Se possuísse dez naves desse tipo, eu me sentiria mais à vontade.
Dali a quarenta minutos, os resultados das medições efetuadas pela nave do Tenente Kehene me seriam transmitidos pelo videofone. O computador positrônico da nave capitania realizara um trabalho rápido e preciso.
Kosol, o novo matemático-chefe, estava no aparelho.
— Alteza, é um fenômeno natural que deve repetir-se a cada cinco bilhões de anos. As duas dimensões temporais tendem para uma estabilização recíproca. Daí resulta uma descarga energética dos volumes dimensionais submetidos a uma tensão mais intensa. Os funis de saída representam campos energéticos instáveis de grande extensão. Através deles, atinge-se uma igualização dos vários fluxos. Na prática, exercem as funções de condutor. É bem possível que os desconhecidos tenham conseguido a interpretação matemática dos fatos e os aproveitado para as finalidades que têm em vista. O rápido avanço das quatro naves espaciais prova que o momento adequado foi perfeitamente determinado. E, ao que parece, sabiam quando estava na hora de voltar.
— Quais são as perspectivas para o futuro? — perguntei.
— Para nós, não são nada boas, Alteza. Dentro de quinze dias, aproximadamente, será atingido o estágio de estabilização total. Devemos contar com o fato de que a situação, ainda instável, se manterá constante durante várias semanas ou até meses.
Foi só o que Kosol tinha a informar. Agradeci e desliguei. Tarts manteve-se pensativo junto às grandes janelas de meu gabinete. Estávamos a sós.
— Temos duas possibilidades — disse com a voz pausada. — Se fugirmos imediatamente, neste mundo não acontecerá um inferno atômico, mas os seres que vivem aqui desaparecerão por completo. Com isso, a evolução natural sofrerá uma interrupção. Se resistirmos, o resultado talvez seja favorável. Talvez, veja bem! Mas, conforme as circunstâncias, o número três se transformará numa fornalha.
Quando dei minha resposta, fitou-me em atitude pensativa:
— Era o que eu estava pensando, Tarts. Assumirei o risco. Mesmo que metade deste mundo seja destruída, ainda sobrará espaço vital para salvar as inteligências deste planeta da destruição. Faremos o possível para rechaçar o inimigo.
Tarts manteve-se em silêncio. Sua mão pesada bateu ruidosamente no lado esquerdo do peito. Em atitude rígida e com o radiocapacete de comandante enfeitado com os símbolos planetários sob o braço, caminhou em direção à porta.
Dali a vinte minutos, anunciou, de bordo da Tosoma, que a nave capitania estava pronta para decolar.
Quando saí do edifício-sede do governo, a Pai to já subia ruidosamente ao céu azul de Atlântida. Lá embaixo, no grande porto natural do continente, os pescadores e mercadores nativos recolheram apressadamente as velas coloridas de seus navios de madeira. Já haviam feito experiências nada agradáveis com as ondas de compressão provocadas pela subida das grandes naves espaciais.
Na comporta inferior da Tosoma fui recepcionado com todo o cerimonial da frota. Tarts fazia muita questão do formalismo. Dali a três minutos, os conversores de impulsos dos quinze propulsores que nos restavam foram acionados cautelosamente. Ao decolarmos, provocamos o ruído de uma irrupção vulcânica.
À nossa frente, abria-se o espaço livre. O terceiro planeta foi recuando e logo se transformou numa bola reluzente.
Em virtude da transformação de três unidades propulsoras em armas superdimensionais, levamos quase treze minutos para atingir a velocidade da luz. Com isso, a velha Tosoma já não tinha o desempenho que seria de esperar de uma moderna nave espacial.
Seguimos diretamente para Larsa II, o segundo planeta do sistema. Pelas informações que me haviam sido fornecidas, aquele mundo selvático não fora privado apenas da vida humana, mas também de boa parte da vida animal. Durante as repetidas passagens da frente relativista, esses seres foram arrastados para a outra dimensão temporal.
Não estávamos interessados em assistir à repetição de tal fenômeno em Larsa III.


5



Foi tudo muito diferente do que imaginávamos. Os fenômenos de descarga energética, que o matemático Kosol chamara de funis de saída, eram imprevisíveis. Quando surgia um fenômeno desse tipo, nunca sabíamos exatamente qual era sua direção.
O computador positrônico de bordo era uma das unidades mais modernas e avançadas do Grande Império. No entanto, não conseguiu estabelecer intervalos determinados ou obter dados aproximados sobre a constância dos fenômenos de descarga energética.
Precisaríamos de dados que abrangessem um período mais prolongado; só assim poderíamos obter resultados fundamentais, mais exatos.
A matemática a que estávamos habituados, e que jogava com os dados da quarta dimensão, não nos levava a lugar algum. Um aumento proporcional ao quadrado da superposição total, que se aproximava, era facilmente programável no computador positrônico; no entanto, os resultados nunca coincidiam com a realidade.
Procuramos valer-nos do setor de hipercomputação do cérebro positrônico. Os resultados foram tão extravagantes que nem valeria a pena discuti-los.
Ultimamente, havíamos apurado que os funis de saída eram um fenômeno de descarga semelhante a um relâmpago, que se processava de maneira diferente e estava submetido a leis totalmente diversas.
Não estávamos lidando com as unidades do plano da quinta dimensão, mas com as que se baseavam no Universo normal. Os fatores variáveis só poderiam corresponder a um deslocamento de tempo relativista e incompreensível no âmbito de nosso sistema, que se realizava no curso de um processo de igualização e sempre assumia um caráter mais ou menos instável.
O inimigo desconhecido dispunha de uma vantagem natural: conhecia as leis da dimensão temporal em que vivia.
E nós tateávamos no escuro.
Depois de termos permanecido no espaço durante oito dias, quando nos limitamos a fazer observações, suas naves espaciais saíram pela segunda vez do estranho campo de descarga energética.
No último instante, resolvi não iniciar as hostilidades.
Ficamos a uma boa distância, observando um acontecimento que nos proporcionou uma lição muito importante.
Quando as naves desconhecidas surgiam repentinamente quase nunca havia os abalos estruturais que acompanhavam inevitavelmente nossa técnica de vôo à velocidade superior à da luz. Minha divisão matemática calculara que os desconhecidos voavam pela quinta dimensão, na verdadeira acepção da palavra. Havia uma diferença considerável entre essa técnica e o método de saltos por nós praticado, também conhecido como transição.
Além disso, as naves espaciais que avistamos nunca desenvolveram mais de cinqüenta por cento da velocidade da luz, muito embora nossos rastreadores energéticos houvessem constatado que unidades propulsoras deles trabalhavam a plena potência.
Ainda se constatara que os seres misteriosos só apareciam quando um funil de saída de sua dimensão temporal se mantinha estável ao menos por três horas.
Provavelmente esta foi a descoberta mais importante que já fizéramos. O inimigo sabia perfeitamente quando podia confiar nesse fenômeno energético e quando não podia.
Nesses oito dias, havíamos colhido experiências muito proveitosas. Ao que tudo indicava, em nosso espaço o inimigo conseguia desenvolver apenas metade da velocidade da luz. Além disso, dispunha de uma técnica de hipervôo linear, e sabia calcular a duração dos campos de força afunilados.
Eram três dados fundamentais em que poderíamos basear nossos planos. Se dispusesse de uma boa frota arcônida, tudo aquilo terminaria dentro de poucos dias. Poderia arriscar-me a mandar alguns couraçados, dirigidos por robôs, atravessarem o primeiro canal de descarga energética que aparecesse. Nesse caso, poderíamos verificar o desempenho de nossas armas do outro lado.

* * *

Desde o momento em que realizamos a decolagem de emergência, onze dias de Atlântida já se haviam passado. Minhas duas unidades mantinham-se a dez milhões de quilômetros do segundo planeta. Os excelentes dispositivos de ampliação de nossos televisores permitiam uma visão clara através da densa camada de nuvens do mundo selvático.
A vida orgânica praticamente desaparecera lá embaixo.
O centro de computação, construído ao tempo da minha regência e instalado em Larsa II, não parecia ter sofrido o menor dano. Seus relatórios eram enviados pelo hiper-rádio assim que o solicitávamos. Mas os resultados das medições não traziam nenhuma novidade. As fortalezas, que mandaram construir para proteger a grande unidade de computação, ainda não haviam entrado em atividade.
— Por falta de massa! — disse Tarts em tom zangado ao receber essa informação.
Até então, o terceiro planeta não fora atingido pelos estranhos fenômenos. Mas os mundos dois e três aproximavam-se a cada dia que passava. A posição de oposição integral estava iminente. E, durante esta, seríamos atingidos pelo menos pela periferia da parede do tempo.
Em atitude pensativa, contemplei as gigantescas telas da galeria panorâmica. A Paito encontrava-se a menos de cem quilômetros. Podíamos perfeitamente manter contato pelo rádio comum. A velocidade desenvolvida por nós era de apenas dez mil quilômetros por segundo. No entanto, os postos de manobra da sala de máquinas contavam com uma tripulação dobrada.
Aguardávamos o surgimento do próximo funil de saída. Meu plano já fora estabelecido. Assim que localizássemos unidades inimigas, realizaríamos uma transição de curta distância para avançar até a periferia do campo de descarga energética. Então penetraríamos de surpresa no campo. Em hipótese alguma, deveríamos permanecer na outra dimensão temporal por mais de uma hora, tempo-padrão. A suposição de que, depois do desaparecimento do funil, o retorno à nossa dimensão temporal seria impossível, tinha bons fundamentos. Ao que tudo indicava, os desconhecidos enfrentavam as mesmas dificuldades, pois também mudavam de rumo e batiam em retirada assim que se aproximavam do tempo-limite.
Com uma sensação de saudade, fitei o pontinho luminoso distante e praticamente irreconhecível, que na verdade representava um grupo de estrelas. Era lá que ficava Árcon, nosso mundo. E lá se travava uma luta encarniçada pela existência do povo arcônida e do Grande Império.
Há muito tempo não recebíamos notícias. A mensagem que mandei expedir pelo rádio, ficara sem resposta. Há muito abandonara a esperança de receber reforços em naves e material de reposição. Assim que estivesse resolvida a questão dos desconhecidos, eu me colocaria à disposição do comando da frota. Mas, para isso, seria necessário que recebesse ao menos uma nave de grandes dimensões. Não poderia arriscar novas perdas, pois isso poderia impedir para sempre nossa volta a Árcon.
Estava a ponto de discutir com Tarts as várias alternativas, quando o operador de rádio entrou na sala de comando. Segurava uma faixa de plástico com séries de algarismos decodificados.
O Capitão Masal me prestou as devidas honras, sem dizer uma palavra.
— Novos problemas, Alteza — disse em tom hesitante. — São notícias de Feltif. Os colonos recusam-se a abandonar suas fazendas. Fundamentam a recusa no argumento de estarem submetidos à legislação civil da Divisão de Colonização, não às ordens de um almirante da esquadra. Além disso, Feltif informa que nossos colonos tomaram providências para, no caso de um ataque, reforçar as posições de artilharia cujas guarnições estão desfalcadas em número.
Respirei profundamente. Aqueles homens eram arcônidas de segunda categoria. Vinham do Planeta Zakreb V, que fora colonizado por genuínos arcônidas. Seus descendentes tiveram de emigrar de novo, porque esse mundo colonial começava a sofrer os efeitos da superpovoação.
— Eles se recusam a abrigar-se na cúpula pressurizada submarina? — perguntou Tarts em tom de perplexidade.
— Isso mesmo. Sentem uma profunda repugnância pela água e pela carência de espaço.
Peguei a mensagem decodificada. O texto era claro. Ao dar minhas ordens, não me lembrara de que os colonos provinham de um mundo de terra. Sob o ponto de vista da psicologia colonial, fora um erro mandar que se recolhessem à cúpula submarina.
— Você vai ceder?
Fitei Tarts com a frieza que se impunha. A decisão teria de ficar por minha conta.
— Quer que toque os zakrebenses à força para baixo do nível do mar? Em caso afirmativo, de que meios disponho para fazê-lo? Os tripulantes de nossas naves, ou os trezentos soldados das forças de superfície?
O comandante estreitou os lábios. A cólera brilhava em seus olhos. Para Tarts, aquilo não passava de alta traição. Ignorava nossa fraqueza.
Face ao reduzido grau de automação, a Tosoma precisava de uma tripulação de três mil homens. A Paito, que era mais moderna, podia operar com seiscentos especialistas. O resto dos meus soldados ocupava as posições atlântidas. Seria insensato procurar forçar os colonos obstinados.
Dirigi-me ao Capitão Masal.
— Expedir mensagem ao Capitão Feltif, código A-13-BQ condensado. Os colonos devem ser informados de que no caso de um ataque a evacuação já não será possível. Face às tarefas de importância vital que estou executando, e que visam em última análise à salvação de um mundo, não poderei conceder qualquer auxílio. Os colonos poderão agir da forma que melhor lhes aprouver. Mas ressalvo, desde logo, que não assumo a menor responsabilidade pelo que venha a acontecer.
Dali a alguns minutos, foi irradiada a mensagem condensada. O Capitão Feltif confirmou o recebimento. A seguir, recebemos a notícia de que o Conselho dos Colonos aceitara minha proposta com a maior satisfação.
Entreguei a mensagem ao imediato do couraçado. Meu sorriso devia representar um sorriso de esfinge para os tripulantes.
— Arquivar e armazenar na memória do computador positrônico. É bem possível que, mais tarde, alguém queira saber por que dez mil colonos zakrebenses morreram.
— São campônios! — disse Tarts com um pouco de desprezo. — São camponeses tolos e atrevidos, desajeitados e arrogantes, cujo horizonte mental não vai além do reator atômico mais próximo.
Com isso, o caso ficou encerrado para o velho capitão. Estava certo de que Tarts não mexeria um dedo para ajudar os colonos. Quanto a mim, não tinha tempo nem vontade para ocupar-me com assuntos internos.
Os nativos de Larsa III foram muito mais inteligentes. Talvez isso fosse devido à sua condição primitiva, que fazia com que vissem, nas minhas ordens, um comando a que não poderiam escapar. De qualquer maneira, o fato poderia representar a salvação de muitos deles; talvez de todos. Tinha uma simpatia especial para aqueles seres altos e robustos, de pele de veludo e comportamento calmo, jamais turbulento. Não me lembrava de qualquer povo colonial com o qual me tivesse dado tão bem. Um belo dia, aqueles seres seriam grandes e poderosos. Não me cabia apressar a evolução natural, mas competia-me defender o mundo dessa gente.
Pedi ao imediato que me apresentasse o respectivo artigo da lei colonial. De acordo com tal parâmetro, eu estava obrigado a dispensar a proteção do Império a qualquer raça amiga.
No curso das minhas reflexões, ainda decidi avisar o inimigo desconhecido sobre as minhas intenções, segundo todas as regras do protocolo.
Masal apareceu na gigantesca sala de comando. Ditei a declaração de guerra, nos termos do artigo 16, volume 2 da legislação de emergência, aplicável aos comandantes de frota que operassem fora dos limites do Império.
Mandei expedir a mensagem, em texto não codificado, a intervalos de dez minutos. No momento em que o próximo funil de saída apareceu numa distância de apenas cinco milhões de quilômetros, mandei que a mesma comunicação fosse irradiada pelas antenas direcionais da Tosoma para o centro da zona de descarga energética. Com isso, fizera tudo que estava a meu alcance. Além disso, o ataque à nave auxiliar comandada por Kehene só podia ser interpretado como um ato de guerra.
O campo de descarga desapareceu dentro de quatorze minutos. Pertencia à classe dos fenômenos instáveis de curta duração, cujo tempo de vida não podíamos calcular.
Lancei um olhar para o relógio e refleti sobre se não seria conveniente suspender por uma hora o regime de prontidão. Meus homens estavam exaustos.
Foi quando aconteceu o inesperado. Um segundo funil de saída surgiu menos de cinco minutos depois do desaparecimento do primeiro.
Apesar do perigo ligado ao fenômeno, fiquei fascinado. A figura surgiu em pleno espaço vazio, e a extremidade menor devia começar na área onde se verificava a superposição dos dois universos.
O funil era, ou ao menos parecia ser, comprido e estreito. As medições, imediatamente iniciadas, revelaram que, no ponto mais estreito este ainda media seus seis milhões de quilômetros de diâmetro.
Tornou-se cada vez mais nítido, à medida que ia sendo carregado de energia vinda do outro plano temporal. Alargava-se na parte superior, onde o diâmetro da abertura chegava a mais de trinta milhões de quilômetros. A luminosidade vermelha do funil destacava-se nitidamente contra o negrume do espaço interestelar. Parecia possuir certo grau de materialização, pois encobria as estrelas distantes e absorvia ou refletia a luminosidade das mesmas.
A abertura do funil apontava em nossa direção, num ângulo de 43,7463°.
Estava mais ou menos coberta por uma luminosidade vermelha. Dali a alguns segundos, o alarma começou a soar. Estremeci.
As telas acopladas aos rastreadores de matéria mostravam sete pontinhos verdes. Uma curva-diagrama iluminou-se, fornecendo dados sobre a composição química dos objetos localizados.
Dali a dez segundos, tínhamos certeza: as naves espaciais do inimigo acabavam de aparecer.
Dali a mais dez segundos, nossa viagem de observação foi suspensa e as unidades propulsoras começaram a trabalhar a plena potência.
Bati violentamente na chave que desencadeava o alarma de primeiro grau. No momento em que as sereias começaram a uivar, os três mil homens que se encontravam a bordo da Tosoma sabiam que chegara o momento de luta, para o qual haviam sido treinados milhares de vezes.
Se desta vez os desconhecidos resolveram enviar sete unidades ao nosso espaço, não poderia haver a menor dúvida de que o funil de descarga, que tínhamos à nossa frente, era estável.
Dali em diante, o trabalho passou a ser feito pelos autômatos. Ouvi o ruído forte das unidades propulsoras, examinei as luzes de controle dos postos de armamentos e verifiquei o volume de energia dos campos de absorção, que trabalhavam a plena potência.
Uma vez que três das nossas unidades propulsoras não podiam ser utilizadas, mandei as quinze restantes trabalharem em regime de emergência. Os tanques do material de funcionamento haviam sido completados em Atlântida. Trabalhávamos com o bismuto, substância encontrada em grandes quantidades em Larsa III. Dessa forma, conseguimos, apesar de tudo, alcançar uma aceleração de 500 km/seg2, no campo de velocidade sub-relativista.
A periferia do funil ficava a menos de dezenove milhões de quilômetros. Onze minutos e três segundos depois da primeira localização, já dispúnhamos dos resultados do cálculo-relâmpago, que seriam introduzidos no dispositivo automático incumbido da transição a curta distância.
No momento em que dei o impulso, as naves desconhecidas nos localizaram. Registramos o impacto das hiperondas, que seriam captadas pela nave emissora sob a forma de ecos.
Ao que tudo indicava, o inimigo usava outro processo, menos satisfatório, ou então, a demora decorria de algum efeito físico-relativista causado pelo deslocamento das dimensões temporais. De qualquer maneira, nossa localização foi imediata. E, só agora, os desconhecidos ficaram sabendo que nas imediações havia duas naves de guerra de grandes dimensões, cujas armas ofensivas e defensivas eram de tamanho desproporcional face às da pequena nave auxiliar.
— ...e agradecemos ao Imperador por ter-nos proporcionado esta dádiva! — disse Tarts, recitando uma fórmula.
Segundo uma tradição vetusta, antes de qualquer combate o comandante dizia estas palavras para dentro do microfone do sistema de intercomunicação. Era tudo muito solene e estimulante. Se Tarts não tivesse dito estas palavras, todos sentiriam falta de alguma coisa.
No momento em que o hipercomputador positrônico transmitiu o impulso para o salto, desenvolvíamos oitenta e dois por cento da velocidade da luz. Face a seu maior poder de aceleração, a Paito já se havia aproximado a vinte mil quilômetros.
Seguiu-se a ligeira dor de desmaterialização provocada pela transição. Ainda ouvi o uivo característico dos geradores de campo estrutural.
Depois perdi os sentidos.


6



Minha poltrona de comando estava sendo sacudida violentamente. Depois de alguns segundos, recuperei os sentidos. Movi uma chave que fez parar o vibrador automático.
Na sala de comando da Tosoma uma centena de violentas trovoadas parecia rugir ao mesmo tempo. As armas do costado verde disparavam num ritmo alucinante. Naturalmente, a computação positrônica de direção de fogo, automaticamente ajustada, percebera os alvos muito mais depressa que nós e iniciara o compasso das salvas.
Quando voltei a enxergar claramente, m notei que saltáramos para o centro do grupo inimigo. As sete unidades foram tomadas de surpresa.
Antes que pudesse gritar minhas ordens para dentro dos microfones, a bateria do costado verde já iniciara o bombardeio de destruição. Os raios energéticos de vários metros de diâmetro não puderam ser vistos no espaço, em virtude da falta de um elemento de apoio. Mas ouvia os sinais acústicos da localização energética que funcionava em velocidade superior à da luz, e que anunciou uma irrupção nas imediações do lugar em que estávamos. Dali a alguns segundos, a luz nos atingiu.
Nas telas panorâmicas, dois sóis atômicos apareceram simultaneamente. Os pontinhos transformaram-se em bolas de dez centímetros e estas incharam, transformando-se em gigantescas esferas incandescentes.
Alvo 1 atingido, alvo 4 atingido — anunciou a voz metálica do autômato da direção de fogo.
Pelos indicadores luminosos vi que as torres de canhões estavam girando. Disparamos com todas as peças de que dispunha a nave. Mais uma nave inimiga dissolveu-se em poeira fluorescente sob o efeito dissociativo de moléculas produzido pelos canhões de desintegração. A tela do rastreador registrou o fenômeno apenas sob a forma de uma impressão em relevo.
Tarts ligou o controle manual. Os acontecimentos se sucediam com tamanha rapidez que o olho humano não conseguia acompanhá-los.
Em velocidade vertiginosa atravessamos a formação inimiga. À nossa frente abria-se o funil vermelho. Não tivemos tempo de combater outras unidades inimigas. Nossas rotas eram opostas, motivo por que a batalha não poderia durar mais que alguns segundos.
Notei mais duas explosões, sem dúvida provocadas pela Paito, que encontrava-se por perto. Concluía-se que, num único ataque fulminante, o inimigo perdera cinco unidades de um total de sete.
Percebi que, em matéria de técnica estratégica, os desconhecidos ficavam muito atrás dos arcônidas. Talvez, mais tarde, aprenderiam conosco, da mesma forma que todos os nossos inimigos haviam aprendido...
A localização de disparos emitiu um sinal. Ouvimos um ligeiro estalo, que quase chegou a ser superado pelo ruído trovejante das nossas unidades propulsoras, que continuavam a funcionar a plena potência. Os instrumentos mostravam que nosso campo defensivo triplicado acabara de ser atingido por um raio térmico. O resultado foi praticamente nulo. Com uma arma desse tipo, não se poderia lutar contra uma nave de grandes dimensões como a Tosoma.
Tarts soltou uma estrondosa gargalhada e disse:
— Eles têm campos defensivos fraquíssimos e armas ainda piores. Eu...!
Suas palavras mergulharam num terrível rugido. Acabáramos de penetrar naquilo que Kosol chamara de campo de descarga. Nossos campos defensivos magnéticos, hipergravitacionais e gravomecânicos começaram a chispar fogo. Podíamos observar o fenômeno nas telas de visão ótica comum; era um sinal de que lá fora havia partículas de matéria.
À medida que nos aproximávamos do ponto mais estreito do funil, o ruído aumentou. As unidades energéticas da Tosoma funcionavam a toda capacidade.
O dispositivo automático desligou todo o aparelhamento que não fosse essencial à defesa da nave.
Nas telas, só se notava uma ondulação vermelha. Estávamos assumindo um risco imenso ao penetrar nessa área terrível a uma velocidade próxima à da luz. Não se via mais as duas naves inimigas que haviam escapado ao ataque. A esta hora, talvez estariam realizando a manobra de frenagem. Provavelmente, o susto ainda paralisava os membros dos comandantes, desde que estes possuíssem membros.
As informações vindas dos diversos setores da nave atropelavam-se. Perto de mim, Tarts estava sentado na poltrona de comando. Movia os lábios, mas o ruído incessante não permitia que eu compreendesse suas palavras. Houve descargas desagradáveis nos campos defensivos, que abalaram a Tosoma até a última junta soldada.
O dispositivo automático de nossos trajes espaciais colocou o capacete sobre nossas cabeças e fechou os protetores de ruído, acolchoados, em cima de nossos ouvidos. Ao mesmo tempo, a comunicação de rádio foi ligada.
Já pensava que arriscara demais ao penetrar no nada, quando o ruído cessou de um instante para outro. A incandescência dos campos defensivos desapareceu instantaneamente e um grande sol vermelho surgiu à nossa frente.
Até parecia que depois de uma transição estávamos saindo do hiperespaço, nas proximidades do sistema desconhecido; mas a impressão era ilusória. Logo notei a falta do profundo negrume que costuma impregnar nosso Universo. Ali tudo parecia envolto numa luminosidade vermelho-escura. As constelações estelares eram totalmente estranhas e, nesse plano temporal, o deslocamento à velocidade da luz parecia ter algo de assustador.
Voávamos muito mais depressa em direção ao sol vermelho do que era de esperar.
Ouvi os comandos de Tarts. Cabia-lhe levar o couraçado para fora da zona de perigo. Nossos rastreadores de matéria indicaram a existência de três planetas situados nas imediações. A interpretação foi realizada com uma rapidez que nem mesmo nosso excelente computador positrônico jamais havia demonstrado.
O ruído das nossas unidades propulsoras cresceu ao infinito. Ao que tudo indicava, Tarts lançara mão das últimas reservas. Para realizar a manobra de desvio, lançamos mão dos combustores adicionais de plasma, que proporcionaram um empuxo suplementar de oitenta mil toneladas.
A Paito aproximou-se velozmente, vinda de trás. Vi que também estava sendo arrancada da rota perigosa pela potência máxima de suas máquinas. Quando passamos pela estrela vermelha, notamos mais uma vez as violentas descargas em nossos campos defensivos bem abertos.
O contato de hiper-rádio com a Paito foi conseguido com tamanha rapidez que logo me dei conta de que nossa teoria sobre as diversas dimensões temporais fora confirmada. Durante essa manobra arriscada, havíamos levado algo que só poderia ser avaliado por um padrão relativista: nossa dimensão temporal estável.
Pelas experiências já colhidas, concluí que nossa velocidade equivalia ao dobro de qualquer objeto que se movesse neste Universo.
Bem à nossa frente, surgiu um planeta que também emitia uma luminosidade vermelha. Nossa velocidade era tão elevada que, subitamente, tive a impressão de voar mil vezes mais rápido que a luz.
O tempo de agir chegou. A interpretação dos dados estava em pleno andamento. Aquele mundo envolto numa densa atmosfera era um planeta de oxigênio.
Por estranho que pudesse parecer, era o planeta número três do sistema desconhecido! Parecia na situação paralela à nossa.
Mandei que a declaração oficial de guerra fosse irradiada mais uma vez pela antena direcional. A essa hora, já nos havíamos aproximado tanto do segundo planeta que, mais uma vez, tivemos de realizar uma manobra de desvio.
A Paito, comandada pelo Capitão Inkar, continuava a aproximar-se. Ainda o via perfeitamente na tela de comunicação audiovisual. Tarts lançou-me um olhar provocador. Havia um traço duro em seu rosto enrugado e seus lábios se estreitaram.
Peguei o microfone de ligação global.
— Chefe de grupo dirigindo-se a todos. Medição energética do planeta número três, que temos à nossa frente, demonstra que lá se encontram bases espaciais, gigantescas usinas energéticas e outras instalações, emitindo impulsos. Ao que suponho, este mundo é uma base cuidadosamente escolhida do inimigo, que se prepara para lançar seus ataques de uma posição favorável, assim que surgirem os fenômenos de descarga que, para ele, são previsíveis. Atacaremos segundo o plano “setor das nebulosas”, usando simultaneamente todas as armas. Realizaremos um contorno duplo.
“A Paito voará de pólo a pólo, enquanto a Tosoma se deslocará ao norte e ao sul da linha equatorial. A seguir, nos afastaremos com a aceleração máxima, nos reuniremos junto ao setor de imersão e atravessaremos separadamente a entrada do funil. Nenhuma das naves esperará pela outra. Pelo menos, uma delas deve romper o campo de descarga. Depois de retornar ao espaço normal, não haverá mais qualquer ação bélica. Voaremos para Larsa III e prepararemos a defesa contra as unidades inimigas que romperem o funil. Devemos contar com a perseguição. Solicito confirmação.”
Os comandantes estavam informados e agiram de acordo com as ordens. O plano “setor das nebulosas” previa um fulminante ataque-relâmpago do tipo dos que já havíamos realizado tantas vezes.
Neste ponto, o grau de experiência arcônida era atingido, quando muito, pelos respiradores de metano. Porém, nunca por esses desconhecidos que cometem a leviandade de despovoar planetas inteiros.
Não correspondia ao espírito da legislação de minha venerável raça que, numa hipótese como esta, se perdesse muito tempo. No curso de uma política galáctica de cinco mil anos, já aprendêramos que a melhor defesa é o ataque. Depois de nós, muitos povos formularam esse princípio e passaram a segui-lo. Estava decidido a dominar o perigo, ou ao menos mostrar os dentes aos desconhecidos.
Dali a três minutos, passamos a desacelerar para a manobra de frenagem. Ao chegarmos, nossa velocidade era tamanha que nem mesmo nós conseguiríamos atingir um alvo predeterminado.
Como chefe de esquadrilha dispunha, para minha informação, de inúmeros aparelhos de controle, que me mantinham informado diretamente — sem a participação dos respectivos chefes — sobre as medidas que estavam sendo adotadas. Foi assim que vi e ouvi que Eseka, nosso oficial de armamentos, mandou preparar os lançadores gravitacionais, que poderiam colocar em ação a mais perigosa de nossas armas: as bombas arcônidas. Estas eram ajustadas para o alvo por meio de mísseis autodirigidos, capazes de desenvolver a velocidade da luz. O poderoso impulso energético lhe conferiria uma velocidade inicial de dez mil quilômetros por segundo.
A respectiva carga desencadearia um incêndio atômico inextinguível, que atingiria os elementos acima do número de ordem dez. Nem mesmo nós conhecíamos qualquer meio de deter um incêndio desse tipo.
Não me arrisquei a utilizar nesse Universo nossa nova arma, a bomba gravitacional, já que normalmente esta deve ser vista como uma arma energética da quinta dimensão.
Quando nos aproximávamos do planeta pela rota prevista, constatamos a presença de mais de uma centena de grandes objetos, que evidentemente pretendiam realizar uma decolagem de emergência para penetrar no espaço.
Voltei a segurar o microfone global.
— Chefe de esquadrilha dirigindo-se a todos. Unidades inimigas decolando para o vôo de interceptação. Apesar disso, toda a energia disponível deverá ser conduzida aos campos energéticos de proa para repelir as moléculas de ar. Abrir fogo com constância, dirigido por robôs, espalhando-o de maneira a desenvolver o equivalente de cinco quilotons de TNT por quilômetro quadrado. Pronto? Vamos começar!
Numa ação desse tipo não se costumavam gastar muitas palavras. Meus homens estavam tão bem adaptados uns aos outros que não havia necessidade de explicações demoradas.
A Paito desapareceu atrás da curvatura do planeta. Nossa gigantesca nave capitania passou por um grupo quase imperceptível de naves espaciais. Naquele instante, percebemos o uivo terrível das massas de ar deslocadas.
Mantivemo-nos nas camadas superiores da atmosfera. Nosso centro de computação informou que nossa reduzida velocidade ainda correspondia ao dobro da provável velocidade-limite da dimensão temporal em que nos encontrávamos.
Naquele momento, não me interessava pelos prováveis efeitos dessa situação. Apesar dos grossos protetores, meu ouvido foi martirizado. O corpo da Tosoma repicava que nem um gigantesco sino. Logo teve início o fogo intermitente das armas automáticas. O dispositivo de mira inteiramente positrônico calculava, baseado na velocidade que desenvolvíamos e na distância do alvo, o intervalo com que deviam ser feitos os disparos, para se verificar a superposição das respectivas áreas periféricas.
Não havia ninguém que pudesse preocupar-se com aquilo que acontecia lá embaixo. Tínhamos trabalho de sobra para manter a nave, que desenvolvia velocidade muito superior à do valor de fuga, na órbita prevista para o ataque, já que as imensas forças centrífugas provocadas por seu deslocamento tendiam a arremessar-nos em linha reta para o espaço.
Tarts mandou que as unidades energéticas inaproveitáveis fossem empregadas para reforçar o campo de repulsão da proa. Apesar de sua densidade extremamente baixa, a atmosfera inflamou-se à frente da nave.
Em pouco menos de cinco minutos e trinta segundos, demos uma volta completa em torno do planeta. As manobras de correção tornavam-se cada vez mais perigosas. As máquinas não resistiriam por muito tempo à sobrecarga a que estavam expostas.
Quando voltamos ao ponto de saída, ocasião em que fizemos um desvio de dez graus para o norte, notei que nas telas só apareciam paisagens incendiadas e gigantescos cogumelos atômicos, provocados pela explosão de materiais. Talvez alguns deles tivessem sido produzidos pelas naves cilíndricas longas e escuras, atingidas por nosso fogo.
Uma vez completada a segunda circunavegação tática do alvo, mandei que a Tosoma modificasse a rota. O Major Eseka disparara um total de dez bombas arcônidas, que atingiram os respectivos alvos, onde detonaram.
O rugido das armas de impulso e de desintegração cessou. Voltamos a ouvir o ruído forte e uniforme das unidades propulsoras e dos reatores. O corpo da nave ainda vibrava. Mesmo agora, não podíamos arriscar-nos a tirar os abafadores de ruído.
— Onde está a Paito? — gritei em tom nervoso para dentro do microfone global.
O Capitão Masal, que se encontrava na central de localização, respondeu:
— Está saindo da curvatura polar da face norte, Alteza. Está disparando mais uma vez à distância, acaba de aumentar a velocidade e dispara os canhões térmicos para o setor vertical vermelho. Divisão em feixes. Ao que parece, constataram a presença de unidades pequenas. O fogo está sendo suspenso. Apenas estamos localizando as ondas de corpúsculos das unidades propulsoras. Pelo volume energético conclui-se que as máquinas estão intactas. Desligo.
Senti um enorme peso cair dos meus ombros. Virei o rosto para Tarts. O comandante de minha nave capitania sorriu. O rádio transmitiu sua voz grave:
— Essa gente não voltará a seqüestrar colonos inofensivos e atirar contra naves-patrulha. Por Árcon, quem serão eles? Serão espíritos, robôs ou sei lá o quê? Por que aproveitam um fenômeno natural para atingir seus objetivos imundos? Estou firmemente decidido a voar com a Tosoma para Árcon, mesmo sem sua permissão, a fim de obter um reforço de naves. Encontrarei um meio de conseguir...
— Se não fossem os metanianos, você conseguiria — interferi em tom resignado.
A auto-recriminação me torturava. Será que meu procedimento era correto? Quem eram mesmo esses desconhecidos?
A abertura do funil voltou a surgir à nossa frente. Penetramos na mesma à velocidade da luz. Mas, para nosso espanto, desta vez não se verificaram os efeitos antes observados. Apenas tive a impressão de que alguma força invisível procurava impedir nosso avanço. Parecia que penetrávamos numa massa viscosa, que cedia a contragosto. Naquele instante, a sala de máquinas transmitiu:
— Máquinas trabalhando a toda potência, mas velocidade diminui à razão de 123 km/seg. Cifra permanece constante. Pergunto se devemos injetar massa de apoio.
Mandei que essa providência fosse tomada imediatamente, embora soubesse que isso representaria uma sobrecarga adicional das máquinas.
Atrás de nós, o cruzador pesado Paito aproximava-se em alta velocidade. Mas Inkar ainda não entrara em contato conosco.
Parecia durar uma eternidade até que conseguíssemos sair do funil. Recebemos outra notícia alarmante, vinda do setor de localização:
— Campo de descarga desapareceu. Não existe mais qualquer oscilação do volume energético.
A notícia, transmitida em tom indiferente, me fez empalidecer. Tarts arregalou os olhos. O rosto de Kosol, que aparecia na tela, emitia um brilho branco. Vi-o olhar apressadamente para o relógio.
— Segundo nossa dimensão temporal não demoramos lá mais que sessenta e cinco minutos — disse em tom de perplexidade.
Segundo nossa dimensão temporal!
Um pensamento ameaçava estourar meu cérebro.
Como é que o campo de descarga podia extinguir-se tão depressa? Sabíamos que se mantinha estável ao menos por três horas. Teríamos passado por uma das temíveis dilatações, um deslocamento do tempo causado pela modificação do ponto de referência? Será que, para os outros seres, os sessenta e cinco minutos representaram igual número de dias ou semanas?
Saí lentamente da poltrona de espaldar alto e peguei o microfone com as mãos trêmulas.
— Masal, entre em contato com Atlântida. Rápido! Quero falar com Feltif. Preciso saber o que está...
Não tive necessidade de prosseguir. Um pedido de socorro redigido segundo o código KRA-QZ de nossa frota estava sendo recebido. Tratava-se de uma mensagem automática em linguagem clara.
— Capitão Feltif chamando o chefe da esquadrilha. Estamos perdidos. Cinco posições de artilharia foram destruídas. Além disso surgiu uma frente de superposição de grande densidade. Muitos colonos já foram sugados. Retiramo-nos juntamente com os nativos para as matas e montanhas. Cerca de cem naves inimigas atacam ininterruptamente. A estabilidade do eixo do planeta foi afetada. Parece que a frente do tempo traz fortíssimos campos gravitacionais, que modificam a posição do eixo de rotação de Larsa III. Capitão Feltif falando. Onde estão vocês? Chamo há nove dias. Árcon não responde. Fim da mensagem. Repetiremos dentro de três minutos.
Todos ouviram a mensagem. Fiquei parado como se alguém tivesse despejado ar líquido sobre minha cabeça. Tarts parecia uma estátua.
Ouvi minha própria voz:
— Atacar imediatamente, haja o que houver.


7



Arriscamos uma transição de curta distância. Quando emergimos do hiperespaço vimo-nos em meio a uma aglomeração de cerca de cento e cinqüenta naves inimigas de grande porte.
Nenhuma delas atingia o tamanho da Tosoma, e só vimos duas que talvez pudessem enfrentar o cruzador pesado Paito.
Apesar disso, desde o primeiro instante, estávamos fadados à derrota.
Nem tivemos tempo de pensar.
Os campos energéticos defensivos da Paito cederam depois dos primeiros impactos. Uma das características dos cruzadores pesados consistia em sua alta velocidade e na potência de seu armamento, mas as respectivas instalações exigiam espaço, motivo por que tais vantagens eram alcançadas à custa dos campos defensivos. O peso útil na base de um G de Árcon não poderia ser excedido. Quando uma das naves esféricas estivesse com um certo número de máquinas e equipamentos, nela não caberia mais nada.
Há um segundo a orgulhosa Paito, comandada pelo Capitão Inkar, explodira sob o fogo concentrado de cerca de sessenta naves inimigas. As energias liberadas pela explosão correspondiam às de um pequeno sol. Sabia que as cargas das máquinas e dos reatores foram atingidas pelo processo de desintegração nuclear. A respectiva energia correspondia à de cinqüenta bilhões de toneladas de TNT.
A desgraça aconteceu junto à órbita lunar. A esfera de gases incandescentes espalhou-se com tamanha rapidez que chegou a atingir as camadas superiores da atmosfera do terceiro planeta.
Encontrava-me sobre a face noturna de nosso mundo colonial. A esfera energética, que quase chegava ao ultra-azul, ergueu-se em toda sua potência acima do horizonte escuro do planeta, fazendo com que, de uma hora para outra, fosse dia.
Forças medonhas rugiam em nossos campos defensivos. Sem dúvida, a destruição de Inkar representara o fim de cinqüenta a setenta naves inimigas. Os desconhecidos ainda não sabiam o que acontecia quando uma grande nave arcônida detonava.
Mas aprenderam depressa.
Subitamente a Tosoma, que ainda há pouco se encontrava sob o fogo cruzado de cerca de oitenta unidades, viu-se livre do inimigo, que acabara de receber uma amarga lição. As naves retiraram-se apressadamente, para voltar a abrir fogo a uma distância de três milhões de quilômetros.
Era muito boa a pontaria dos seres misteriosos vindos da outra dimensão temporal. Minhas manobras de desvio eram temerárias. Desliguei o piloto automático para, mediante comandos manuais, arrancar a nave de sua trajetória.
Estávamos numa situação para a qual não havia saída. Cinco minutos depois do primeiro contato com o inimigo, três disparos de arma térmica romperam nossos campos defensivos sobrecarregados. Na sala de reatores número quatro, irrompeu um incêndio. Seis das quinze unidades propulsoras foram colocadas fora de ação. Dali em diante, a blindagem da Tosoma teve de absorver quase tudo que o inimigo nos mandava.
O fim estava próximo. Nossas manobras eram lentas e facilmente previsíveis. Perdêramos a vantagem da velocidade, pois nem mesmo um arcônida pode fazer boa pontaria numa nave que se desloca a uma velocidade próxima à da luz.
O inimigo mantinha sua velocidade. Tinha todas as vantagens. Segundo as informações transmitidas pelo computador positrônico, as tormentas atômicas expelidas das torres de artilharia da Tosoma haviam destruído trinta e quatro objetos estranhos. Mas os que sobravam ainda bastavam para dar cabo de nós.
Gravemente danificada e ardendo em quatro lugares diferentes, a nave Tosoma caía em direção à superfície do planeta. Pouco antes da transição, dera ordem para que os trajes espaciais comuns fossem trocados pelo equipamento arcônida. Esse produto de nossa hipertecnologia nos permitia voar e erigir um campo defensivo não muito potente.
Os campos defensivos individuais se haviam transformado numa necessidade premente. O equipamento automático de extinção de incêndio da nave já não emitia o sinal de alarma. Em vez disso, as numerosas escotilhas de segurança haviam sido fechadas. As diversas repartições da nave, que se contavam pelas centenas, estavam hermeticamente fechadas.
O incêndio passou a ser combatido por meio da retirada da atmosfera artificial da nave. Sem oxigênio não pode haver nenhum processo de combustão molecular.
No momento em que dei as respectivas ordens, os sistemas de bombeamento já haviam entrado em pane. O computador eletrônico deu o alarma. Mas, naquela hora, isso já não adiantava nada.
O incêndio continuou a lavrar nas salas de máquinas e de geradores. Se o combustível catalítico de elevada potência fosse atingido pelo fogo, o inimigo assistiria a uma explosão ainda mais violenta. Mas, por enquanto, os tanques especiais estavam agüentando; foram feitos para suportar temperaturas até quinze mil graus.
Sessenta por cento das comunicações de videofone também haviam sido afetados. Apenas a comunicação de rádio continuava a funcionar.
Quando as longas naves cilíndricas do inimigo abriram o anel que nos cercava para se colocarem numa distância segura, ficamos momentaneamente fora do alcance de seu fogo. Os desconhecidos usavam propulsores de popa, e, ao que parecia, os impulsos destes perturbavam a mira ótica. De repente, não recebemos mais nenhum fogo.
Aproveitei a oportunidade para fazer com que a Tosoma se precipitasse em direção ao envoltório atmosférico do terceiro planeta.
O ruído uivante do lado de fora continuou. Os campos de absorção da nave, tão potentes, estavam reduzidos a estruturas muito débeis, que mal conseguiam ionizar as moléculas de ar. E, sem condutividade elétrica, não pode ocorrer a repulsão magnética.
Foi por isso que, já nas camadas menos densas da atmosfera, minha nave se transformou num sol ofuscante. Mesmo assim, continuei a descer à velocidade máxima. Nossa blindagem de arconite suportava temperaturas de até cinqüenta mil graus, e o sistema de refrigeração da nave ainda estava funcionando.
Chegáramos definitivamente ao fim. Fiz aquilo que um comandante responsável deve fazer numa situação como esta. Não queria bancar o herói, nem encenar um fim dramático. Meu único interesse era salvar os sobreviventes, para posteriormente solicitar auxílio de Árcon.
— A rota foi fixada: Atlântida encontra-se na face diurna do planeta — disse a voz do imediato.
Pretendia pousar a Tosoma destroçada nas proximidades de Atlópolis, preparar uma ligeira defesa na superfície e abrigar os homens na abóbada submarina, sob o fogo do inimigo.
Sobrevoamos a terra oriental coberta de matas virgens a uma altitude de apenas cem quilômetros. Nesse continente viviam nativos de pele negra e vida extremamente primitiva. Após isso, avistamos as águas do oceano e a seguir as grandes cordilheiras marítimas de Atlântida.

* * *

Ouvi Tarts praguejar. Sobre a terra que se aproximava rapidamente viam-se cogumelos atômicos chamejantes. Ao que parecia o inimigo sabia perfeitamente onde encontrar as poucas instalações de defesa desse mundo.
Dali a alguns segundos, nossos instrumentos de localização deram um sinal. Cinco naves espaciais haviam pousado junto ao litoral.
Estavam desembarcando tropas?
— Não constatamos nenhuma vibração celular; são robôs — disse o Capitão Masal, que se encontrava na sala de rádio, ainda intacta.
Os oficiais do setor de armamentos receberam minhas ordens. A poderosa Tosoma preparava-se para desferir seu último golpe.
— Será que essa gente pensa que minha nave está “aleijada”? — disse Tarts com uma terrível calma pelo rádio de capacete.
O terrível ribombo dos canhões do costado da nave tornou impossível qualquer forma de comunicação. As cinco unidades pousadas explodiram num furacão de chamas.
Senti-me tomado de pavor, quando a capital e o espaçoporto surgiram na tela. A enorme área estava transformada numa cratera. As construções de Atlópolis estavam transformadas em ruínas fumegantes. A paisagem achava-se marcada pelas trilhas de vários quilômetros de altura, abertas pelos disparos dos canhões térmicos.
Nos lugares em que foram instaladas nossas armas de impulsos, os cogumelos atômicos fumegantes cobriam a paisagem. O Capitão Feltif não respondia mais. Nossos chamados não produziam qualquer eco. Compreendi que meu comando de superfície deixara de existir.
E podia imaginar o que era feito dos colonos.
No espaço, surgiu outra frente de superposição. Percebemo-la pela estranha mudança de cor das estrelas e pelo tremeluzir da atmosfera. O inimigo ainda se valia das forças da natureza para atacar-nos.
Tarts realizava a pilotagem puramente manual da Tosoma, que praticamente estava incapacitada para o vôo. As instalações automáticas haviam entrado em pane e a comunicação com a sala de máquinas não funcionava mais.
Na sala de comando, a temperatura subia constantemente. Lá fora deviam lavrar enormes incêndios.
Fiz aquilo que planejara. O couraçado devia ser mantido no ar e cobrir a retaguarda até que as comportas da abóbada submarina, manejadas por robôs, tivessem sido abertas.
Por motivos de segurança fora criado um controle de impulsos individuais. Só havia três arcônidas diante dos quais as comportas se abririam. Um visitante, que não fosse conhecido ao computador da abóbada, não só boiaria diante da comporta sem poder fazer coisa alguma, mas ainda estaria exposto ao fogo do potente armamento da fortaleza.
Uma das pessoas capacitadas para entrar na fortaleza submarina era o Capitão Feltif, chefe das guarnições de superfície e responsável pelas medidas de evacuação. Estava desaparecido.
Outro homem a ter acesso à abóbada submarina era Kosol, chefe da equipe matemática, que se encontrava a bordo de minha nave.
Eu era a terceira pessoa a ter reconhecidas as vibrações orgânicas pelos robôs.
Kosol teria de descer imediatamente com os veículos submarinos de campo energético, a fim de abrir os portões da cúpula submarina e liberar a entrada dos demais. Enquanto fazia isso, eu mesmo permaneceria na Tosoma, para rechaçar eventuais ataques e, após isso, realizaria um pouso relâmpago e colocaria meus homens em segurança. Era de supor que o inimigo não sabia da existência da cúpula submarina, enquanto facilmente poderia localizar as peças de artilharia que disparavam.
Mandei imobilizar a nave. Recorrendo aos campos antigravitacionais, que continuavam intactos, o couraçado pairou no ar, acima do campo espacial destruído. O rádio de meu traje espacial ainda funcionava. Comprimi o botão do microfone.
— Atlan chamando o matemático-chefe Kosol. Verificou-se a hipótese resgate. Abandone seu posto, use seu traje de vôo e abra as comportas da cúpula pressurizada. Estou chamando Kosol. Responda, Kosol.
A resposta veio dentro de um segundo. A minúscula tela do capacete, instalada acima dos meus olhos, mostrou o rosto de um jovem oficial.
— Tenente Einkal falando, Alteza, comando de combate de incêndio número dezoito. Matemático-chefe Kosol foi morto, a divisão matemática está em chamas. Todas as escotilhas foram fechadas. As salas contíguas também estão sendo consumidas pelo fogo. Os rombos abertos pelos tiros deixam entrar o ar. Desligo.
Soltei um grito. Tarts, que se encontrava a meu lado, girou com a poltrona. Compreendeu mais depressa que eu.
— Saia da nave, almirante — gritou. — Vamos, saia logo. Farei a cobertura de retaguarda. Abra a cúpula e dê ordem de pousar pelo rádio de capacete. Depressa! O que está esperando?
— Não saio da minha nave antes dos tripulantes — respondi em tom resoluto.
Tarts soltou uma risada forçada. Era dotado de uma calma inacreditável.
— Mandarei atirá-lo para fora. Farei tudo que estiver a meu alcance para salvar os tripulantes da nave. Não preciso de você para dirigir a nave, ainda mais que não há nenhuma decisão tática a ser tomada. Kosol morreu e Feltif está desaparecido. Dentro de trinta minutos chegará a frente do tempo. Quando isso acontecer, toda a vida desaparecerá na outra dimensão. Saberei enfrentar essas naves cilíndricas. Tenho alguma experiência de combate nas camadas atmosféricas. Abra a cúpula o mais depressa que puder.
As últimas palavras saíram num berro. Dois pesados robôs de combate caminharam em minha direção. Fui arrancado do assento e carregado à força para a comporta central. Tarts conseguiu soltar uma estrondosa gargalhada diante de minha irrupção de cólera.
— Aguardamos seu sinal pelo rádio. Assim que receber três vezes a palavra Atlan, falada ou transmitida por meio de um impulso, arriscarei o pouso. Antes disso, ainda farei uma coisa. Vá logo, amigo, e não se esqueça de que venero você e sua família.
A tampa redonda do transportador abriu-se à minha frente. Era um tubo reto de um metro de diâmetro, que terminava a quatrocentos metros dali, numa comporta inteiramente automática. Esse equipamento permitia que a tripulação da nave fosse evacuada num prazo curtíssimo. Era uma saída de emergência.
Ainda estava gritando de raiva quando a tampa se fechou.
O ar comprimido transformou meu corpo num projétil. A saída de emergência não era muito confortável, mas em compensação era prática. Fui parar no colchão de ar comprimido da câmara de recepção, onde tive de esforçar-me para colocar os pés no chão antes que fosse tarde.
No mesmo instante, procurei abrigar-me, pois outro corpo desceu em disparada pelo tubo. Era o Tenente Cunor.
— Mandarei colocar Tarts diante do júri de bordo — gritei fora de mim.
É claro que não poderia cumprir a ameaça. As gigantescas escotilhas blindadas abriram-se, e um segundo jato de ar comprimido atirou-nos para fora da nave.
Comprimi o botão do aparelho de vôo embutido em meu traje. No conjunto que trazia nas costas, já se ouvia o zumbido do microrreator e do minigerador acoplados ao mesmo.
O aparelho antigravitacional automático estabilizou minha trajetória. Apenas me restava cuidar para que o pequeno propulsor de pulsações fosse colocado em funcionamento. O Tenente Cunor vinha atrás de mim. Era um dos oficiais mais arrojados da nave capitania. Evidentemente, Tarts lhe ordenara que me acompanhasse no difícil caminho que teria de trilhar.
— Boa sorte! — disse uma voz no meu capacete. O rosto de Tarts surgiu na minúscula tela. — Posso dar partida? Estamos registrando novas localizações.
— Ainda falaremos — disse, um pouco mais calmo. — Você ainda se arrependerá de seu ato de insubordinação.
O comandante limitou-se a dar uma risada. Logo após isso, tivemos de esforçar-nos para escapar à sucção da nave que partia lentamente. Quando se encontrava a uma distância segura, Tarts aumentou a velocidade. Chispando fogo, a Tosoma disparou para o céu encoberto por nuvens atômicas.
Quando a nave tinha desaparecido e o trovejar das massas também, Cunor disse em tom pensativo:
— Existe uma dose elevada de radiatividade gama, Alteza. Nossos amigos usam explosivos antiquados.
Mal acabou de falar, ouviu-se um rumorejar distante. Um vulto luminoso passou acima de nossas cabeças, abrindo suas torres de canhões.
Uma violenta onda de pressão arrancou-me da trajetória. Uma tormenta de fogo rugiu sobre a terra devastada. A sede de meu governo foi destruída. Não via outra coisa senão ruínas fumegantes. Até onde a vista alcançava, não havia um único ser vivo. Compreendi que a passagem de uma zona relativista absorvera tudo que tivesse alguma aparência orgânica. Só as plantas foram deixadas para trás, apenas para serem destruídas pela tormenta atômica.
Voamos à pequena altitude sobre o chão calcinado. Contornamos as ruínas de Atlópolis e tomamos a direção do mar aberto.
Só nesse instante, percebi que um furacão fustigava as águas do oceano; ou melhor, por um instante acreditei que fosse assim. Logo que a onda de pressão provocada pela nave atacante passou, houve uma relativa calmaria... Apesar disso, as águas se amontoavam em vagas gigantescas. A península, que protegia a entrada do porto, havia desaparecido. Mais ao leste, o mar estava invadindo a terra.
A oeste do lugar em que nos encontrávamos, o chão estava rachado. Os velhos vulcões que, segundo acreditávamos, há muito estavam extintos, voltaram a abrir-se para vomitar a morte e a destruição.
O rugido que enchia o ar não provinha da batalha, mas das forças da natureza.
Ouvi o grito de pavor de Cunor:
— A terra está afundando!
Foi só então que percebi nitidamente que o chão estava balançando. Era o tremor de terra mais violento que eu havia visto. Bem ao longe, se formava um ciclone, cujas primeiras rajadas de vento uivavam sobre o continente que estava sendo tragado pelas águas.
A zona portuária já estava submersa. As ondas se precipitavam sobre a terra, como se quisessem engolir Atlântida dentro de poucos minutos.
Pousamos junto aos abrigos de barcos, que se erguiam junto ao mar. A terra começou a descer. Quando abri a porta, a água cobriu meus pés...
Cunor preparou o veículo especial. Tratava-se de um barco da frota construído especialmente para operações de desembarque em planetas aquáticos e pantanosos, onde as comunicações eram difíceis.
Enquanto isso, procurei entrar em contato com a Tosoma. Consegui imediatamente. Os débeis impulsos expedidos por meu emissor de capacete foram captados pela aparelhagem especial da nave capitania, que os ampliou milhões de vezes.
— Tudo bem a bordo — respondeu Tarts. Sua voz era interrompida por fortes ruídos de interferência. — Apenas faço curvas para desviar-me e, vez ou outra, aplico um golpe. Até que ponto conseguiu chegar?
— Estamos entrando no barco. Tenha cuidado; ao que parece, o continente está afundando. Registramos fortes abalos sísmicos.
— Todo o planeta parece maluco. Uma grande porção de terra está emergindo do grande oceano. A inclinação do eixo deste mundo está mudando. Haverá enormes inundações. Desligo.
Assim que fechei a cúpula pressurizada do veículo aquático, as ondas espumantes nos levaram para fora do abrigo. Por alguns segundos, dançou sobre as águas revoltas pelo maremoto. Cunor apontou para o leste.
A visão da enorme frente relativista me deu calafrios. Devia deslocar-se a mais de dez mil quilômetros por hora. Pudemos reconhecê-la pelo estranho tremeluzir no ar e pelo desaparecimento da luz do sol. Só nesse instante, lembrei-me de que uma misteriosa alteração das dimensões temporais fizera com que perdêssemos nove dias. Neste meio tempo, devia ter chegado o momento temível da oposição total entre os planetas dois e três.
A desgraça aproximou-se silenciosamente. Tratava-se de uma zona típica de superposição, que não poupava qualquer tipo de vida.
Cunor empurrou a chave do campo protetor gravomecânico. A água foi repelida pelo veículo. Houve uma área livre, na qual reinava o vácuo, que servia de protetor acolchoado entre a pressão da água e a parede fina do barco.
Os tanques de lastro encheram-se. Descemos que nem uma pedra. Só quando chegamos uns cinqüenta metros abaixo da superfície a fúria dos elementos amainou um pouco. Mas as ondas de pressão ainda eram tão violentas que temíamos pela estabilidade do campo defensivo.
Os holofotes de luz infravermelha acenderam-se. Procuramos a cúpula construída pelos especialistas de Feltif, e que devia ficar cerca de cem metros abaixo da superfície. Estivera lá uma única vez e, nessa oportunidade, as ondas emitidas por meu corpo foram registradas pelo detector de impulsos do computador positrônico.
Sabia que nessa profundidade começava um grande platô submarino, cujas rochas chegavam às profundezas do oceano. E, nessa rocha, estavam ancorados os alicerces da cúpula. Esta suportaria qualquer pressão aquática concebível, ainda mais que, em caso de necessidade, poderia ser reforçada por campos defensivos.
Não encontramos o platô! O rosto de Cunor mudou de cor tão repentinamente que adivinhei seus pensamentos. O abalo sísmico levara nosso refúgio para as profundezas.
Mandei que descêssemos mais. A cúpula não poderia ter sido destruída. Nenhum fenômeno da natureza, por mais violento que fosse, seria capaz de desprendê-la de sua base, à qual fora presa por meio de suportes de aço de Árcon, injetado pelo processo de pressurização térmica.
Cunor fez um gesto de concordância. Fiquei desesperado ao pensar nos ocupantes da Tosoma que, naquele instante, deviam encontrar-se em situação desesperadora. Rompi as últimas barreiras psíquicas e recorri ao rádio subaquático para chamar a estação robotizada. O dispositivo de orientação respondeu imediatamente.
O controle de direção atingiu-nos. Fomos arrastados para baixo em velocidade vertiginosa.
Quando finalmente distinguimos os contornos do refúgio azulado, que na base media cento e vinte metros de diâmetro, estávamos a mil e cem metros de profundidade.
O controle de identificação do pequeno computador foi realizado pelo método prescrito da verificação das ondas cerebrais. Coloquei os contatos sobre a cabeça e liguei o transmissor.
— Permissão de entrada concedida, Alteza — soou a voz metálica do autômato, dali a alguns segundos.
Um raio de tração segurou-nos e arrastou-nos em velocidade incrível para o interior da comporta de alta pressão que se abriu à nossa frente. Muito ansioso, prestei atenção ao zumbido agudo das bombas. Assim que a câmara estava vazia e o ar penetrou na mesma, disse apressadamente a Cunor:
— Aguarde aqui. Transmitirei o impulso de programação, a fim de que as comportas se abram diante de qualquer mensagem codificada normal. Depois teremos de subir de novo, para entrar em contato com a Tosoma. Na profundidade em que nos encontramos, isso não é possível. Na cúpula, não existe nenhum hipertransmissor.
Um robô com o aspecto de um arcônida, revestido de plástico, surgiu na escotilha da comporta. Passei correndo por ele e subi apressadamente pelas escadas de caracol que levavam à sala de programação.
Lá fora ouviu-se uma série de ruídos fortes. O zumbido das gigantescas instalações energéticas provava que o centro de computação compensava o aumento de pressão por meio da criação de campos defensivos. Os alicerces rangiam. O efeito das pressões desencadeadas pela movimentação das massas de pedra devia ser tremendo.
Um forte solavanco atirou-me ao solo. Esperei que a onda de abalo passasse. Gemendo e cambaleando, cheguei à sala de comando. O relê principal do computador pequeno, mas potente, estava instalado numa abóbada de aço de pouco menos de dois metros de altura. Fui recebido pelas palavras estereotipadas “seja bem-vindo, Alteza”.
Sem dizer nada, desliguei a barreira individual e empurrei a chave destinada à entrada dos impulsos normais transmitidos pelo rádio. A palavra-chave correspondia a meu nome.
Sem formular qualquer indagação ao computador, corri de volta à comporta. Cunor esperava ansiosamente.
— Achamo-nos a uma profundidade de dois mil metros — anunciou com uma calma espantosa.
Não dei atenção às suas palavras. Dali a alguns segundos, estávamos novamente dentro da água, que, vez por outra, era revolvida por vulcões submarinos, transformando-se em perigosos torvelinhos, parecendo ter a dureza do aço. Em todos os lugares, via-se o fulgor vermelho das irrupções submarinas. Este mundo estava submergindo. Ao menos, assistíamos à modificação dos continentes e ao nascimento de novas terras.
Levamos dez minutos para atingir a profundidade-limite de segurança. Não deveríamos subir mais, pois não sabíamos se a frente relativista já havia passado, ou se ainda ficaram remanescentes da mesma.
— A velocidade da frente foi muito elevada, Alteza — disse Cunor. — É de supor que já tenha passado.
Numa súbita resolução, resolvi jogar todas as chances numa cartada. A segurança de que gozávamos nas profundidades do mar deixara de existir.
Fomos recebidos por ondas tão violentas que nosso veículo se transformou num joguete dos elementos.
De Atlântida só sobravam os cumes mais elevados. Para onde quer que olhasse, só via água. Não descobrimos o menor vestígio da Tosoma.
As naves inimigas não estavam atacando mais. Se seus comandantes tivessem um pouquinho de inteligência, já deveriam ter compreendido não haver mais nada por ali que pudessem destruir. O tremor de terra e as tremendas vagas cuidariam disso.
Deixamo-nos sacudir durante duas horas. Durante todo esse tempo, chamei ininterruptamente pelo transmissor superpotente do barco. Bem acima das nuvens tangidas pela tormenta, via-se uma extensa luminosidade. Não podia ser o sol, pois este nunca brilhava ao norte.
Sabia como era o aspecto da incandescência atômica de uma nave que explode tangida pelo vento. Apesar disso, não quis acreditar. A próxima frente de superposição aproximou-se de nós.
Muito consternado, dei ordem para mergulhar.
Meus amigos estavam mortos.


8



Dali a dez minutos, estaria clinicamente morto.
Descontraído e com o corpo flácido, estava deitado no leito macio, ouvindo a embaladora hipnomúsica. O capacete de impulsos do pulsador cobria minha cabeça. Meu ritmo biológico estava sendo reduzido gradualmente.
A isso seguir-se-ia a injeção automática de soro conservador. Tratava-se de uma técnica que meu venerável povo dominava há muito tempo.
Um indivíduo sadio podia perfeitamente resistir a um estado de hibernação biomédica pelo prazo de quinhentos anos. As funções vitais ficavam reduzidas praticamente ao nível zero.
Em minha cúpula pressurizada havia as instalações que se faziam necessárias para isso. Haviam sido retiradas de uma antiga nave-hospital de minha esquadrilha.
Abri minha vontade consciente, a fim de ceder totalmente ao som insinuante da música. Caso não quisesse enlouquecer, estava na hora de retirar-me para a calma absoluta proporcionada pelo estado de hibernação biomédica.
Quase quatro meses se passaram até que a fúria dos elementos se aplacasse a ponto de podermos pensar em emergir. Depois disso, iniciamos nossa longa busca.
Não descobri nenhum arcônida ou nativo de Atlântida. Os castelos e silos-pirâmide construídos por Feltif ainda existiam, mas não descobrimos o menor vestígio de gente.
Cunor e eu sentimo-nos dominados pelo desespero, que nos fez correr insensatamente de um lugar para outro. Vez por outra, descobrimos certas formas de vida, mas eram tão primitivas que não conseguimos estabelecer qualquer contato.
Os bárbaros do norte gelado sobreviveram à catástrofe. Já os habitantes inteligentes de Atlântida e os colonos estabelecidos no leste e no oeste deixaram de existir.
Foram mortos pelos gigantescos vagalhões ou tragados pelas numerosas frentes relativistas.
Durante seis meses, ficamos procurando e chamando pelo rádio, chamando pelo rádio e procurando. Ao que parecia, em Árcon ninguém se lembrava de nós. As estações transmissoras de Atlântida e dos dois continentes do sul foram destruídas pelo inimigo.
As emissoras existentes na cúpula eram de potência reduzida; jamais seriam capazes de vencer a distância que nos separava de nosso mundo.
Agora me arrependia de não ter instalado um dos transmissores de grande potência na base submarina. Naquela época, acreditávamos que não valeria a pena, pois o lugar da instalação de hiper-rádio não era embaixo da água. A cúpula seria um refúgio para pouco tempo. Para que instalar na mesma os grandes aparelhos, que tomavam tanto lugar, se todos os cantos estavam ocupados?
Pegamos o planador e sobrevoamos todos os continentes. A face do terceiro planeta estava modificada. Novos mares haviam surgido, e enormes ilhas afundaram. Uma delas era Atlântida, da qual apenas restavam os cumes de algumas montanhas, transformados em pequenas ilhas.
Nossa base se estabilizara a uma profundidade de 2.852 metros.
Antes que desistíssemos de vez, um estúpido bárbaro das cavernas do norte abateu o Tenente Cunor com uma cunha de pedra. Com os olhos secos, fitei o túmulo do meu derradeiro companheiro.
Transformei-me na criatura mais solitária...
A última medida por mim ordenada só se tornou possível porque, num canto recôndito de minha mente, ainda havia um pouco de esperança. Um belo dia, viriam para verificar o que era feito do Almirante Atlan. Não deixariam de notar as mensagens que mandei expedir pouco antes da explosão da Paito. Afinal, Árcon não estava morto, e eu era um membro da família imperial.
Em virtude dessas reflexões, instalei no cume mais elevado das montanhas existentes nas ilhas um pequeno aparelho super-sensível, que reagia aos abalos estruturais provocados por qualquer nave que saísse da transição.
Se ocorresse essa hipótese, uma estação retransmissora avisaria o computador instalado em minha cúpula, que me despertaria imediatamente do meu estado de hibernação.
Por uma questão de cautela, limitei o tempo de hibernação em quinhentos anos.
Não havia dúvida de que, antes disso, chegaria alguém do meu povo, nem que fosse uma simples nave-correio.
Por isso, recolhi-me ao leito com o espírito relativamente tranqüilo. Se quisesse esperar dia após dia, noite após noite, isso não adiantaria nada e apenas colocaria em perigo a saúde de meu espírito. No estado de hibernação o tempo deixava de contar; e meu detector merecia toda confiança.
Comecei a sentir sono. Meu robô pessoal de serviço estava a meu lado. Tratava-se de um artefato especial, com o qual podia conversar.
— Quanto tempo demorará, Rico? — perguntei num cochicho.
— Daqui a pouco, Alteza, daqui a pouco encontrarás a paz — disse a máquina dotada de um eficiente computador positrônico.
Desta vez, o som metálico das cordas vocais mecânicas nem me incomodou.
— Encontrei a paz — disse, repetindo a fórmula estereotipada. A paz de quem? De minha consciência?
— Procure relaxar, Alteza — disse o robô.
Rodas coloridas começaram a girar diante dos meus olhos. De repente, vi o rosto enrugado de Tarts, no qual havia um sorriso encorajador. Seguiram-se Inkar, Cunor, Kosol, Cerbus e todos os amigos que já estavam mortos.
Quis gritar, mas não consegui.
Por que defendi este mundo? Por quê?
— Rico, será que um dia estes bárbaros se transformarão numa raça inteligente?
— Procure relaxar, Alteza. O tempo está correndo.
O tempo! Eu subestimara este elemento. Passei ao largo dos fatos. Os que viriam depois de mim não repetiriam o erro. Fiz este juramento perante minha consciência, perante o Grande Império e perante minha venerável família.


9



Alguém estava cantando. A voz era bonita e agradável. Ouvi-o com uma atenção cada vez maior e esqueci a dor de cabeça que me torturava. Por muito, muito tempo, meus sentidos absorveram os belos acordes com uma verdadeira volúpia.
Quando abri os olhos, vi um jovem de pele morena.
Home, home on the ranch” cantava com sua bela voz. Mais adiante vi um oficial de olhos escuros com os distintivos de chefe administrativo. O jovem de rosto moreno continuava a cantar. Subitamente lembrei-me de quem era. O Tenente Fron Wroma pertencia à oficialidade do couraçado terrano Drusus.
De repente, ouvi alguém dizer:
— Lembrei-me de que a música e o canto sempre produzem um efeito benéfico sobre o sistema nervoso de gente do seu tipo.
Ergui-me lentamente sobre a poltrona articulada, que estava em posição reclinada. Lembrei-me de que meu segundo cérebro me obrigara a contar alguma coisa.
Perry Rhodan cumprimentou-me com um sorriso. Reginald Bell ofereceu-me um refrigerante. Falando num tom estranhamente baixo e pensativo, disse:
— Afinal, acabaram chegando, almirante. Apenas demoraram bastante. Mas os bárbaros de Larsa III se desenvolveram. Seu esforço não foi em vão, Atlan. E os que vierem depois de você não voltarão a cometer o mesmo erro.
Limitei-me a acenar com a cabeça. Tinha de realizar um esforço para voltar a raciocinar nos moldes atuais.
Deixaram que descansasse um pouco.
Depois de algum tempo, Rhodan perguntou:
— Parece que seu aparelho de alarma falhou, não é?
Sacudi a cabeça.
— Não; estava em perfeitas condições. Acontece que não apareceu nenhuma nave espacial. Despertei a cada quinhentos anos.
Nessas oportunidades, dava uma olhada pelo planeta, mas faltava muito para que os terranos atingissem o nível desejado. Para fugir à solidão, voltava a recolher-me à cúpula. Quando despertei pela vigésima primeira vez, havia na face da Terra um grande império, conhecido como o Império Romano. Infelizmente despertei um pouco depois da hora, pois dormi enquanto florescia a cultura grega. Dali em diante, fiquei em cena, mas o caminho, que teve de ser percorrido até a construção da primeira nave espacial, ainda era muito extenso. Foi uma longa espera, Perry.
As máquinas da Drusus começaram a funcionar. Levantei a cabeça.
— É um som lindo, quase tão lindo como a voz de Wroma — disse em voz baixa. — Foi uma ótima idéia mandá-lo cantar. Adoro esta velha canção, que costumava ser cantada nos Estados Unidos. Faz muito tempo.

* * *

A Drusus decolou. O planeta artificial Peregrino foi-se afastando. Naquele instante, tomei uma decisão: informaria os humanos sobre todos os erros que cometera. Talvez isso lhes servisse de lição. A essa hora, já sabia contra quem lutara há dez mil anos.
Os seres terríveis vindos da outra dimensão temporal costumavam ser chamados de druufs. Lancei um olhar para Rhodan. Ele estava tranqüilamente sentado em sua poltrona de comandante e examinava os inúmeros controles da gigantesca nave.
Desta vez, não esperaria em vão pelos reforços de naves e material. Tinha certeza absoluta. Esse homem, cujos antepassados trucidaram meu último companheiro, exigiria a revanche. A revanche pela quase-destruição de um mundo que chamava de Terra.
Retirei-me sem dizer uma palavra. Fron Wroma me fez um sinal e sorriu.
— A transição será realizada daqui a dez minutos, Sir — disse em voz alta. — Logo estaremos em casa.
Em casa! Que expressão maravilhosa! As escotilhas blindadas da sala de comando abriram-se automaticamente. O ativador celular pulsava sobre meu peito. Cumprira aquilo que um desconhecido me havia prometido.
Deixei-os a sós, esses barbarozinhos adoráveis. Valera a pena defender Larsa III.
Realmente valera a pena!




* * *
* *
*






Mais uma vez, a arte narrativa, viva e fiel de Atlan, trouxe à luz da história um dos capítulos da mitologia terrana: Últimos Dias de Atlântida...
Mas será que o computador-regente já está em condições de determinar a posição galáctica da Terra?

Em Tigris Erra o Salto, título do próximo livro, o Major Clyde Ostal tentará responder a esta interrogação.

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