sábado, 7 de setembro de 2013

P-073 - Os Três Desertores - Kurt Mahr [parte 3]

Depois Chellich voltou ao trabalho; desta vez foi vigiado por Suttney. Concluiu-o dentro de quinze minutos. Suttney ficou muito satisfeito. Examinara tudo para ver se descobria qualquer coisa que representasse uma prova da culpa de Chellich pelo acidente sofrido por Lauer. Mas o fio de alta-tensão fora tão bem restaurado que nada foi encontrado. E Suttney não fez perguntas.
Ao repetir o teste geral, todas as luzes acenderam-se. A gazela estava em condições de voar. Chellich acionou os respectivos controles e preparou a segunda transição.
Esta foi mais demorada que a outra. Além disso, tornou-se bastante desagradável. Quando o processo de desmaterialização chegou ao fim e a dor foi amainando, Chellich estava quase inconsciente. Olhou em torno e viu que Suttney e Roane estavam ainda piores que ele. Suttney foi recuperando os sentidos aos poucos, enquanto Roane provavelmente continuaria inconsciente por um bom tempo.
Na tela brilhava, inconfundível, a mancha amarela que representava o sol que Ronson escolhera no catálogo. A gazela encontrava-se a uma distância de vinte e cinco unidades astronômicas desse sol e aproximava-se do mesmo com uma velocidade residual de pouco menos de duzentos quilômetros por segundo.
Chellich transmitiu esses dados a Suttney e recebeu ordem para aumentar a velocidade. Do tipo espectral do sol concluía-se com uma elevada dose de probabilidade que este possuía planetas. Suttney pretendia pousar num desses mundos a fim de ver se era lugar seguro e prosseguir na execução de seu plano.
No momento em que Chellich aumentou a velocidade da gazela para 2.000 km/seg, seguindo as instruções de Suttney, Oliver Roane despertou do estado de inconsciência. Suttney só parecia ter esperado por isso. Não deixou que Roane se entregasse às recordações. Segurou-o pelo ombro, sacudiu-o e gritou:
— Acorde, seu idiota! Levante-se, pegue a pistola e vigie Chellich!
Chellich ficou surpreso. Até então não percebera que Suttney estivesse nervoso. Mas agora havia um tom de histerismo em sua voz. Ao que parecia, tinha medo de que poderia perder alguma coisa, caso não conseguisse imediatamente colocar Roane de pé. Dava a impressão de estar extremamente nervoso. No momento em que soltou Roane, Chellich viu que suas mãos tremiam. Alguma coisa “entrara” nele tão de repente que Chellich não saberia dizer o que era.
Oliver Roane levantou-se lentamente. Parecia incapaz de reconhecer os arredores. Percebia-se que Roane ainda não se recuperara de todo. Teve de esforçar-se, a fim de permanecer de pé. Lançou um olhar desconfiado para a pistola que Suttney colocara em sua mão.
Suttney endireitou seu corpo, fazendo com que olhasse na direção em que se encontrava Chellich.
— Olhe! É Chellich! Cuide dele!
Roane resmungou alguma coisa que tanto poderia exprimir concordância como aborrecimento. Mas mantinha-se firmemente de pé e apontava a arma para Chellich. Este não se sentiu muito à vontade. Enquanto Roane não recuperasse inteiramente o controle dos sentidos, poderia acontecer que apertasse o gatilho sem querer.
Por alguns segundos, Suttney ficou parado ao lado de Roane. Assim que este parecia ter compreendido o que queriam dele, atravessou a sala de comando e dirigiu-se ao painel do hipertransmissor.
De repente Chellich compreendeu as intenções de Suttney. Pretendia informar a frota arcônida estacionada nas proximidades de Latin-Oor de que desejava que o viessem buscar, pois possuíam uma informação importante.
Chellich estremeceu, embora há muito tempo soubesse que Suttney pretendia trair a Terra.
E a traição estava por pouco...
Tudo que viria depois seria de importância secundária. Nesse instante, Suttney avisaria os arcônidas de que viera para dizer-lhes aquilo que mais ansiavam por ouvir.
Suttney ligou o transmissor. Ele o fez com movimentos rápidos e precisos, como se já os tivesse treinado muitas vezes. Assim que o aparelho emitiu um zumbido, parou e olhou para Chellich.
Este sentiu-se tomado por uma raiva indomável.
— Seu traidor imundo! — gritou. — O que espera ganhar com isso?
Suttney não respondeu. Virou-se apressadamente, como se estivesse envergonhado de fitar Chellich. Em compensação Roane aproximou-se em atitude ameaçadora. Chellich manteve-se calado e voltou a fitar seus instrumentos.
— Venham! — implorou. — Venham e destruam-nos antes que Suttney...
Encostou os cotovelos ao painel e apoiou a cabeça nas mãos. Fechou os olhos. Ouviu um estalido; Suttney estava preparando o microfone atrás de suas costas. Ouviu o ruído de um pedaço de papel. Suttney havia redigido sua mensagem por escrito.
Subitamente Suttney pigarreou. Chellich ouviu-o respirar profundamente. Depois de algum tempo principiou:
— Atenção, todas as naves arcônidas! Aqui fala Walter Suttney, um fugitivo do planeta Terra.
Seu arcônida era horrível, mas os súditos de Árcon não deixariam de entendê-lo.
— Tenho uma informação para os senhores. Uma informação importante, relativa à posição galáctica da Terra. Apressem-se, se estiverem interessados nesta informação. Esta transmissão também está sendo captada por naves terranas e as mesmas procurarão deter-me antes que possa transmitir-lhes as informações a que acabo de aludir. Atenção, todas as naves arcônidas! Aqui fala Walter Suttney...
A mensagem foi repetida cinco vezes. Depois Suttney manteve-se calado, mas respirava pesadamente, como se aquilo lhe tivesse custado um esforço tremendo.
Gunter Chellich sabia sobre o que Suttney refletia naquele instante. Sabia que havia naves arcônidas numa distância de apenas dezesseis anos-luz. Uma hipermensagem percorre essa distância num tempo zero. E, a essa distância, torna-se possível determinar a posição do transmissor com a precisão de um quilômetro. As naves arcônidas eram unidades robotizadas. Reagiriam com a rapidez peculiar aos robôs. Em outras palavras, partiriam imediatamente.
Estava tudo em ordem, desde que as naves terranas não se encontrassem ainda mais próximas. Walter Suttney esperava que fosse assim, mas não tinha certeza. Pelos seus cálculos, a unidade mais próxima da frota terrana devia encontrar-se a cem anos-luz. A uma distância dessas, a localização goniométrica de um transmissor pequeno como o da gazela seria extremamente difícil. Portanto, caso uma nave terrana captasse a hipermensagem a uma distância de cem anos-luz não teria certeza sobre se o transmissor deveria ser procurado no próprio sistema, ou em algum outro vizinho.
Walter Suttney assim pensava. As naves terranas não poderiam chegar em tempo, pois do contrário estaria perdido.
Depois de refletir prolongadamente, aproximou-se de Roane. Assustou-se, quando Chellich lhe perguntou com a voz embargada:
— Por que fez isso, Suttney? O que espera ganhar?
Suttney parou. Via-se que a pergunta de Chellich o surpreendera.
— O que espero ganhar? — perguntou em tom de perplexidade. — Não pretendo ganhar coisa alguma. Não estou agindo assim para obter alguma vantagem. O senhor já conhece minha opinião sobre o governo do Império Solar. O regime deve ser derrubado, e se não conseguimos derrubá-lo com nossas próprias forças, deveremos recorrer a um auxílio vindo de fora.
— E o senhor nem se interessa em saber quantas pessoas são da mesma opinião que o senhor, não é? Pouco lhe importa que talvez seja o único a acreditar nessa tolice.
Um sorriso condescendente surgiu no rosto de Suttney.
— É claro que não. A verdade de uma afirmativa não depende do número de pessoas que acreditam nela. Procure lembrar-se de Galileu.
— Não me venha com Galileu! — disse Chellich em tom exaltado. — Aqui o caso é... completamente diferente. O senhor não pode trair a Terra e entregá-la aos arcônidas, apenas porque não concorda com os métodos de governo aplicados por Rhodan.
— Posso, sim — respondeu Suttney. Ao que parecia a discussão lhe restituíra a autoconfiança. — Não vê que já comecei?
— E o senhor sabe o que acontecerá depois? Os arcônidas atacarão a Terra. E a Terra se defenderá. Haverá uma guerra como a Galáxia nunca viu igual. Pouco importa quem seja o vencedor, pois o resultado será a miséria dos povos.
— Mas a liberdade voltará a reinar na Terra! — retrucou Suttney em tom fanático.
Chellich suspirou.
— Ora, seu imbecil! O senhor está é doente. Suponhamos que os arcônidas subjuguem a Terra. O senhor prefere ser governado pelo computador-regente?
— O computador não priva seus súditos da liberdade individual — respondeu Suttney com a voz tranqüila.
Chellich fez um gesto de enfado e voltou a dedicar-se ao trabalho. Sabia que não adiantaria empenhar-se em discussões sobre coisas nas quais Suttney acreditava há mais de cinco anos.
Leu as indicações fornecidas pelo rastreador de matéria e constatou que este registrara a presença de três planetas. Os mesmos percorriam órbitas situadas a 0,6, 2,8 e 10,3 unidades astronômicas do respectivo sol. A idéia de que nenhum deles poderia oferecer condições semelhantes às da Terra deixou Chellich satisfeito.
O volume de radiações do sol, que tinham diante de si, era praticamente idêntico ao do sol terrano. O mundo interior seria uma bola de fogo, mais quente que Vênus, enquanto os dois planetas externos seriam mais frios que Marte.
Nesse sistema não havia nenhum lugar que convidasse a um pouso. E, quanto mais a gazela demorasse no espaço, maior seria a chance de que as naves terranas conseguissem capturá-la, antes que Suttney pudesse concretizar a traição que tinha em mente.

* * *

A frota terrana entrou em formação.
Três minutos depois da descoberta de Horace O. Mullon, foi localizado o segundo ponto da transição, que acabara de produzir o campo energético. Por enquanto ninguém conhecia a identidade do veículo espacial que havia sido atingido pelo goniômetro. Mas a circunstância de que o goniômetro de compensação da Drusus reagira ao mesmo, enquanto o rastreador estrutural permaneceu em silêncio, constituía indício seguro de que se tratava de uma nave terrana, uma vez que os arcônidas ainda não conheciam o neutralizador de vibrações.
O indício bastou para que toda a frota empenhada na operação de busca desenvolvesse uma atividade febril. Numa mensagem circular, transmitida pelo telecomunicador, Perry Rhodan colocou a frota em rigoroso alarma e ordenou aos comandantes das unidades que se dirigissem o mais depressa possível ao ponto determinado pelo goniômetro.
A própria Drusus nem perdeu tempo para recolher suas naves auxiliares. Partiu imediatamente. As gazelas receberam instruções para segui-la o mais rápido possível. Já os girinos, que não dispunham de hiperpropulsores, deveriam permanecer no lugar onde se encontravam e aguardar o retorno da nave-mãe.
Uns quinze minutos depois de realizada a localização, a Drusus emergiu do hiperespaço a dez minutos-luz do ponto determinado. Ainda chegou em tempo de registrar a mensagem que Walter Suttney dirigiu à frota robotizada de Árcon, estacionada nas proximidades de Latin-Oor. Segundos depois, a velocidade remanescente da gigantesca nave foi neutralizada pelas máquinas potentes. Movida apenas pela gravitação do sol amarelo, a Drusus manteve-se quase imóvel no espaço.
No interior da nave reinava uma tensão febril. Perry Rhodan anunciara que a qualquer momento se deveria contar com a chegada de uma frota arcônida.
As naves terranas foram surgindo em torno do ponto prefixado. Anunciaram sua presença por meio de ligeiros sinais goniométricos, que nada revelariam a Suttney e seus cúmplices, mesmo que estes por acaso mantivessem ligados seus receptores.
A gazela ainda não havia sido localizada. No momento em que Suttney transmitiu a mensagem, sua posição era conhecida. Mas não se sabia para onde se deslocara. O objeto era muito pequeno para ser localizado por meio do rastreador de matéria. Os campos gravitacionais, provenientes do sol e de seus planetas, sobrepunham-se ao da gazela.
Perry Rhodan acreditava que, conforme anunciara, Walter Suttney passaria a transmitir sinais goniométricos, assim que a gazela se colocasse em posição de espera. Esses sinais seriam irradiados por meio da antena direcional.
Não havia dúvida de que Suttney escolhera o lugar por saber que a frota arcônida estacionada nas proximidades de Latin-Oor se encontrava a apenas dezesseis anos-luz de distância. Acontece que qualquer transmissão realizada por meio de antena direcional produz campos secundários, que podem ser captados a grande distância por aparelhos sensíveis, permitindo a localização goniométrica do transmissor.
As unidades da frota terrana foram dispostas de tal maneira que os arcônidas estariam cercados de naves terranas, fosse qual fosse o lugar em que aparecessem. Na opinião de Perry Rhodan essa posição era a mais favorável. Sabia que a frota arcônida era composta de cerca de quatro mil unidades. Tinha uma superioridade de quatro para três em relação às forças terranas. E, para aguardar um inimigo mais forte, as naves não devem ficar espalhadas pelo espaço. Deve-se entrar numa formação que permita a compensação da superioridade, ao menos nos primeiros momentos do confronto.
Caso naquele instante alguém perguntasse se Perry Rhodan esperava ter de lutar pela gazela ou pelas informações relativas à posição galáctica da Terra, ele não saberia responder. Não sabia quanto valiam esses dados para o computador-regente de Árcon. Era possível que ansiava tanto pelos mesmos que não recuaria nem sequer diante da perspectiva de um ataque à frota terrana.
De qualquer maneira convinha estar preparado.
Face à agitação que reinava no interior da gigantesca Drusus, ninguém se interessara por Horace O. Mullon. Este permanecia deitado junto à poltrona, totalmente exausto. Dera tudo que suas forças lhe permitiam. Só depois que a Drusus se imobilizou, os enfermeiros recolheram o homem inconsciente e levaram-no ao hospital. Horace O. Mullon recebeu uma injeção que restabeleceu o equilíbrio energético de seu organismo e transformou o estado de inconsciência num sono profundo e repousante.
Isso aconteceu no momento exato em que foi registrada a primeira série dos abalos estruturais causados pelas naves arcônidas. Esses abalos vinham de uma distância de dezesseis anos-luz e ainda não haviam cessado, quando nas imediações houve outra série de abalos, que causou nos rastreadores estruturais um ribombar semelhante ao de uma trovoada. Cada abalo causava um forte ruído no rastreador estrutural. Na seção em que ficavam os aparelhos de localização, o pessoal viu-se obrigado a fechar a grade sonora, a fim de não ficar exposto ao contínuo ribombar, estalar e crepitar.
Depois de vinte minutos o ruído começou a diminuir. Contaram-se quatro mil cento e quinze abalos. Era o número de naves da frota robotizada de Árcon. A mesma reagira imediatamente ao chamado de Suttney.
Na tela da Drusus, alguns pontos luminosos amarelos passaram a destacar-se contra o fundo cintilante do oceano de estrelas. Eram as naves arcônidas mais próximas ao supercouraçado de Perry Rhodan.
As telas dos arcônidas deviam exibir o mesmo quadro. Como eles, ou as tropas auxiliares de outras raças, não ficariam surpresos ao constatar que haviam, emergido em meio a uma frota terrana preparada para o combate.
Acreditariam que o chamado de Suttney era apenas uma armadilha?
Nesse momento teve início a espera ansiosa a bordo das naves terranas. Enquanto isso, Horace O. Mullon recuperava as forças num profundo sono.

* * *

Por ordem de Suttney, Gunter Chellich aumentou a velocidade da gazela em cinqüenta vezes. O barco espacial aproximava-se do planeta interior do sistema a 100.000 km/seg. Suttney escolhera esse planeta como campo de pouso. Chellich ponderara que o lugar seria bastante desagradável, com uma temperatura diurna média de setenta graus centígrados. Mas Suttney sabia tão bem quanto o tenente que no espaço aberto um veículo espacial teria poucas possibilidades de esconder-se. Preferia pousar num planeta escaldante a ser aprisionado pelas naves terranas.
Chellich incumbiu-se de dar um nome ao sistema e ao planeta. Não falara a este respeito, pois Suttney não estaria disposto a receber de um prisioneiro sugestões relativas a um ato de batismo. Para Gunter Chellich, o sol seria chamado de Calígula, enquanto o planeta interior teria o nome de Tântalo. Não procurou enganar-se a si mesmo. Ao dar o nome de Calígula ao sol, pensava em Ronson Lauer, cujo caráter apresentava numerosos pontos de semelhança com os do imperador romano, embora sua fantasia fosse outra; e, ao designar o planeta pelo nome de Tântalo, apenas exprimia o desejo de que o Calígula moderno, que naquele momento cuidava das feridas num dos camarotes da nave, não tivesse melhor sorte que a do homem que usara o mesmo nome.
Depois de ter discutido com Chellich os motivos da traição que estava cometendo, Walter Suttney via-se mergulhado numa estranha rigidez. Chellich não entreteve a esperança de que, como resultado de uma reflexão prolongada, surgiria a decisão de desistir do plano infame. Na opinião de Chellich, Suttney enfrentava a situação de um homem que está firmemente decidido a cometer um homicídio. Porém, no último instante, se assusta diante da gravidade do ato. Mas isso talvez não o impediria de assassinar alguém — ou, no caso de Suttney, de cometer a traição.
Oliver Roane assumiu a mesma atitude do chefe: manteve-se calmo. Só que em Roane a calma não tinha sua origem na reflexão. Não tinha muita coisa com que pudesse refletir. Para ele, a atividade mais agradável consistia em ficar sentado sem fazer nada.
Para Chellich, essa calma veio bem a propósito. Ninguém se interessou pelos instrumentos de localização da gazela, que estavam desligados e, por isso, não poderiam mostrar o que estava acontecendo no espaço. Chellich não teve nada a objetar. As indicações dos aparelhos incutiriam em Suttney a suspeita de que, além da frota arcônida, poderia haver mais algumas naves nas proximidades.
A fim de não tatear inteiramente no escuro, Chellich procurou verificar se as telas mostravam qualquer alteração. Ele o conseguiu pela primeira vez, quando começou a frear, a cinqüenta milhões de quilômetros de Tântalo. Só mesmo quem tivesse uma vista bem treinada conseguiria distinguir os pontinhos amarelos que surgiam de repente. Até mesmo Chellich não saberia dizer onde estava a diferença. Mas tinha certeza de se tratar de naves. Por enquanto não tinha condições de saber se eram naves terranas ou arcônidas.
Notou que as mesmas se mantinham praticamente imóveis no espaço.
Isso acontece”, pensou, “porque não conseguem constatar a presença da pequena gazela.
Era difícil localizar um objeto pequeno num espaço interplanetário. As interferências eram muito numerosas. As naves que se encontravam por lá, fossem de quem fossem, dependeriam dos sinais goniométricos de Suttney para encontrá-lo.
Chellich contou um total de trinta e cinco pontos luminosos. Eram as naves que não se encontravam a mais de um milhão e meio de quilômetros da gazela e, devido às suas posições, estavam sendo iluminadas pelo sol Calígula. Devia haver muito mais que essas trinta e cinco naves — atrás dele, à sua frente, a seu lado...
Era uma sensação estranha passar no meio de uma grande formação de naves e fingir não ver mais que trinta e cinco pontos luminosos.
Tântalo entrou no campo de visão. Oferecia um quadro fascinante ao transformar-se numa questão de minutos, em virtude da velocidade elevada do barco espacial, de um ponto num círculo, de um círculo numa bola e de uma bola numa imensa esfera amarelo-acinzentada, que, alguns segundos depois, cresceu para além dos limites da tela.
Gunter Chellich fez a nave penetrar nas camadas superiores da atmosfera. Modificou a rota e passou a deslocar-se em ângulo agudo em relação à superfície do planeta. Enquanto isso, examinou o que se encontrava abaixo dele. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que Tântalo praticamente não apresentava qualquer divisão entre as porções de terra. De horizonte a horizonte, tudo era amarelo-acinzentado. Em certos lugares dominava o cinza, em outros, o amarelo. Chellich não conseguiu descobrir a causa do fenômeno. Durante os primeiros dez minutos de observação, viu um único risco negro e reto, que atravessava o quadro na extensão de algumas centenas de quilômetros. Provavelmente era uma cadeia de montanhas não muito elevadas.
Subitamente alguém colocou-se a seu lado. Era Walter Suttney. Não o vira chegar. Com Chellich, fitou a tela, e seus olhos exprimiam uma profunda depressão.
— É um deserto — disse decepcionado.
Chellich achou que Suttney tinha razão. Era a única explicação que encontrava para a monotonia da superfície do planeta. Tântalo era um deserto gigantesco, um gigantesco oceano de areia sobre o qual borbulhava o ar superaquecido.
Os medidores automáticos revelaram os outros dados relativos a Tântalo. O diâmetro do planeta era quase exatamente de dez mil quilômetros, ou seja, um pouco menor que a Terra. O giro em torno de seu eixo durava vinte e uma horas e cinco minutos e deslocava-se pela sua órbita a uma velocidade de trinta e oito vírgula sete quilômetros por segundo. Sua atmosfera era composta de sessenta e oito por cento de nitrogênio, vinte e nove por cento de oxigênio, dois vírgula três por cento de argônio e zero vírgula sete por cento de dióxido de carbono, hidrogênio e hélio. Concluía-se que o ar era respirável. Restava saber se os pulmões suportariam o calor produzido pelo sol inclemente.
A sonda térmica constatou que a temperatura da areia na superfície do planeta era de noventa e cinco graus centígrados.
— Olhe! — disse Suttney de repente. — Pouse ali.
Na tela via-se um segundo traço negro. A gazela deslocava-se a uma altitude de trinta quilômetros. Notava-se perfeitamente que o traço negro era um conjunto de montanhas — de montanhas relativamente baixas. Era um dos raros lugares onde se poderia encontrar uma sombra em Tântalo.
Gunter Chellich observou mais uma coisa. Viu que a fronteira da face noturna ficava a poucas centenas de quilômetros das montanhas. Dali a menos de uma hora, estaria escuro lá embaixo.
Chellich fez a nave auxiliar descrever uma curva bem ampla e aproximou-se da cadeia de montanhas. Numa descida forte baixou a quinhentos metros e constatou que a montanha mais alta mal e mal atingia essa altura. Reduziu a velocidade e esperou que Suttney escolhesse o local de pouso.
— Isso pouco importa — disse Suttney em tom de resignação. — Entre nesta fenda.
A fenda era um vale estreito e íngreme, que separava duas montanhas. A entrada do vale era tão estreita que mal dava passagem à gazela.
Chellich ficou satisfeito ao notar que o local era bastante conveniente aos seus planos. Suttney sabia de que direção viriam as naves arcônidas. Transmitiria o sinal goniométrico pela antena direcional, a fim de evitar riscos. Mas, se transmitisse de dentro do vale, as ondas seriam refletidas pelas encostas, e o efeito direcional da antena ficaria reduzido praticamente a zero. Caso as naves terranas já se encontrassem nas proximidades, isso seria muito importante.
Chellich fez a nave passar uns duzentos metros acima do vale. Depois pousou cuidadosamente. Agiu como sempre costumava agir. Não se sentiu o menor solavanco. Suttney virou-se.
— Roane! — disse em tom áspero. — Cuide dele.
Roane levantou-se e pegou a pistola.
Pela segunda vez, Suttney dirigiu-se ao painel do hipertransmissor e ligou o aparelho.

* * *

Constatou-se que a frota arcônida emergiu do hiperespaço em formação compacta. De repente surgiu no espaço o centro de um novo campo de gravitação, cuja intensidade levava à conclusão de que era causado por quatro mil naves de guerra que se mantinham bem próximas umas às outras.
Por meio de uma série de cálculos complicados, realizados com extrema rapidez pelo computador positrônico, constatou-se que a frota arcônida mantinha a formação usual. As naves deslocavam-se na face externa de uma esfera cujo diâmetro não ultrapassava duzentos mil quilômetros. Em condições normais esse tipo de formação seria bastante favorável. Mas aqui, que as unidades bem espalhadas da frota terrana; aguardavam os arcônidas, não era.
O centro da esfera concluíra a transição a uma distância de seis unidades astronômicas do astro central do sistema. As naves arcônidas continuaram a deslocar-se em direção a esse sol a uma velocidade pouco inferior a dez quilômetros por segundo. Logo se percebia que a confusão se instalara entre elas. Não sabiam o que estava acontecendo em torno delas. Reconheceram alguns pontos de luz projetados pelas naves terranas, da mesma forma que as telas destas mostravam as naves arcônidas mais próximas.
Mas os arcônidas não tinham qualquer possibilidade de avaliar o “tamanho” da frota inimiga. As naves terranas estavam tão afastadas umas das outras que não poderiam gerar um campo gravitacional digno de nota, e as tentativas de localização pela eco-sonda do hiper-rádio falharam em virtude da absorção de energia causada pelos campos defensivos das naves terranas.
Duas horas se passaram sem que acontecesse nada de importante. Perry Rhodan achou que a melhor tática seria deixar os arcônidas na incerteza. Com isso criaria confusão entre os tripulantes das naves e não forçaria ao robô-comandante quaisquer informações que lhe permitissem elaborar um novo plano.
O mais estranho era a ausência total de mensagens de rádio que prevaleceu durante essas duas horas. As naves terranas haviam sido instruídas a manterem silêncio, a fim de que o inimigo não obtivesse qualquer indicação que lhe permitisse calcular o número de naves da frota.
Já do lado dos arcônidas, o silêncio constituía um sinal típico de que as naves eram comandadas pelos robôs. Entre esse tipo de tripulante não havia qualquer espécie de discussão. Eram apenas receptores de ordens, do chefe ao soldado raso.
Depois de mais de duas horas de espera, o silêncio foi rompido. Walter Suttney começou a enviar sinais goniométricos. Nos setores de rádio das naves terranas, todos começaram a suspirar aliviados.
Mas não só lá...
O fato de que Suttney estava transmitindo os sinais combinados significava que não sabia da presença da frota terrana. Do contrário teria esperado um momento favorável; nem pensaria em revelar sua posição. Isso facilitaria as coisas. Rhodan sentiu-se aliviado. A espera martirizante havia chegado ao fim.
Transmitiu o sinal previamente combinado às unidades de sua frota. As naves muito espalhadas puseram-se em marcha para concentrar-se em torno do centro do sistema. Constatou-se que o transmissor estava situado no planeta interior do sistema, que gravitava em torno de seu sol a uma distância média de 0,6 unidades astronômicas, ou seja, 90 milhões de quilômetros.
De repente a imagem nas telas mudou.
Perry Rhodan fez questão de que agora, que o momento da decisão estava próximo, o inimigo visse uma demonstração de sua força. Os mecanismos propulsores das naves funcionavam com base em radiações de corpúsculos. Repuxos luminosos incandescentes saíram dos gigantescos bocais e movimentaram as imensas unidades da frota. O empuxo provocado pelos raios de corpúsculos era tremendo. Milhares de pontos cintilantes surgiram nas telas.
Os arcônidas começaram a agir. A esfera que até então formavam desmanchou-se. A frota arcônida entrou em formação reta e aberta e também avançou em direção ao planeta interno do sistema.
Perry Rhodan deixou que o fizessem. Mas quando sua nave, a Drusus, se encontrava a dez milhões de quilômetros do destino e a quinze milhões de quilômetros das unidades mais próximas da frota arcônida, enviou uma mensagem de rádio ao comandante de Árcon. Tinha certeza de que havia um comandante orgânico, mesmo que este não comandasse nada, mas apenas recebesse ordens de um robô.
Ao que tudo indicava o arcônida já aguardava a chamada, pois a rapidez com que respondeu à mesma foi inacreditável. A suposição de Rhodan, de que a bordo das naves arcônidas havia tropas auxiliares, revelou-se correta. Poucos segundos depois de transmitida a mensagem, surgiu na tela o busto de um metro e meio de um gigantesco naat, um ser de três olhos vindo do quinto mundo do sistema de Árcon. O naat dirigiu os três olhos para Perry Rhodan. O crânio calvo e esférico brilhava à luz das lâmpadas de gás incandescente, e a boca fina parecia contorcida num sorriso ininterrupto. Rhodan sabia que na verdade aquilo não era nenhum sorriso.
O naat esperou que Rhodan começasse a falar. Este proferiu sua fala em arcônida, e num tom pouco convencional:
— É claro que não lhe posso proibir que mantenha sua frota justamente neste sistema. Mas quero avisá-lo de que no planeta interior pousou uma nave roubada com três desertores. Espero que não metam o dedo nisso.
A cabeça do naat executou um movimento automático para o lado. Olhou para baixo, fitando alguma coisa que Rhodan não via. A expressão “não meter os dedos” era usada tanto em arcônida quanto em inglês. O naat estava olhando suas mãos, que não tinham dedos, mas garras. Perry Rhodan conhecia os complexos de inferioridade de que sofriam as raças dominadas pelo Império de Árcon.
— Alguém nos enviou um pedido de socorro — respondeu o naat depois de contemplar as mãos por algum tempo. — E nunca recusamos o socorro que nos é solicitado.
Aquilo não passava de uma desculpa esfarrapada. Ao que parecia o naat ainda não recebera instruções de seu robô.
— Vamos ao que importa — disse Rhodan em tom frio. — Ouvi o pedido de socorro. Foi transmitido pelos três desertores. Apenas quero saber se está disposto a ficar fora disso ou não.
O naat voltou a olhar para baixo. Rhodan não via nada, mas tinha certeza de que naquele instante um cartão seria expelido por uma fenda, e nela o robô lhe diria o que devia responder.
— Agiremos de acordo com a situação — disse o naat.
— Muito bem — “concordou” Rhodan. — Quero esclarecer mais uma coisa. Se qualquer de suas naves se aproximar do planeta a uma distância inferior ao décuplo de seu diâmetro, mandarei abrir fogo. Espero que tenha entendido. Não temos a intenção de permitir que os senhores fiquem bisbilhotando os assuntos internos de nossa frota. Desligo.
Interrompeu a comunicação antes que o naat pudesse esboçar uma resposta.
As naves continuaram a concentrar-se em torno do alvo. Perry Rhodan ordenou aos seus comandantes que se mantivessem na mesma linha que fora indicada aos arcônidas como limite de penetração. A cem mil quilômetros da superfície do mundo desértico formou-se uma nuvem de espaçonaves, formada por unidades terranas e arcônidas.
Mais uma vez, teve início a espera. Os sinais goniométricos de Walter Suttney já não estavam sendo transmitidos.
A bordo da Drusus foi preparada a gazela, que desceria à superfície do planeta e procuraria localizar os três desertores e o Tenente Chellich.

* * *

Walter Suttney enviou seus sinais goniométricos durante meia hora. Gunter Chellich tremia de excitação. Esperava que a qualquer momento uma nave terrana descesse dos céus e parasse junto à entrada do vale.
Mas fez seus cálculos e chegou à conclusão de que a reação não poderia ser tão rápida. Se o campo de vibrações energéticas tivesse sido registrado por alguma nave terrana esta, se não estivesse a cinco mil anos-luz de distância, conseguiria determinar com toda segurança o sistema solar ao qual a gazela resolvera dirigir-se. Porém não seria capaz de saber em que ponto do sistema se encontrava o veículo espacial.
Quem calculasse em termos de centenas ou mesmo milhares de anos-luz muitas vezes se esquecia de que uma superfície de “apenas” quatro quatrilhões de quilômetros quadrados, que era a de um sistema das classes menores, formava um território quase infinito, no qual a gazela poderia esconder-se pelo tempo que quisesse. Depois de penetrarem no sistema de Calígula, as naves terranas teriam de realizar uma operação de busca de grandes proporções se quisessem localizar a nave desaparecida. E mesmo que tivessem captado o sinal goniométrico de Suttney levariam algum tempo para realizar as manobras de aproximação e pousar no planeta Tântalo.
Não; ainda era cedo para que a salvação pudesse chegar. As naves terranas, mesmo que estivessem presentes, teriam seus movimentos embaraçados pela frota arcônida, que sem dúvida faria tudo para não perder a chance única de obter informações sobre a posição galáctica da Terra.
Gunter Chellich teve outra idéia. E se o grupo de naves terranas de socorro chegasse à conclusão de que não estava em condições de enfrentar as unidades arcônidas? O que fariam as mesmas para evitar que nas condições de inferioridade em que se encontravam o segredo caísse nas mãos dos arcônidas?
A resposta era tão fácil e convincente que qualquer pessoa se lembraria dela, inclusive o comandante espacial mais diretamente interessado no assunto. Uma das naves terranas tentaria chegar antes dos arcônidas. Desceria em direção a Tântalo, procuraria localizar a gazela e a destruiria.
Seria apenas isso. Uma bomba, ou uma salva de desintegradores, e tudo estaria no fim.
Chellich combateu o mal-estar que começou a sentir. Olhou instintivamente para o teto da sala de comando, como se através do respectivo material pudesse reconhecer a nave terrana, que, naquele instante, se preparava para lançar a bomba ou abrir o anteparo diante de um gigantesco canhão de desintegração.
Não. Felizmente, mesmo para isso, ainda era cedo. Ainda lhe restava algum tempo: uma ou duas horas. Depois, caso permanecesse no interior da gazela, estaria praticamente morto.
Enquanto Chellich refletia sobre isso, Walter Suttney desenvolvia uma atividade notável. Esteve lá fora. Chellich ouviu o zumbido da escotilha. Ao voltar carregava sob o braço uma cassete de plástico pertencente ao banco de dados. Chellich logo percebeu o que havia nela. Eram microfilmes que permitiriam a apuração da posição galáctica da Terra. Além disso, Suttney colocara um traje espacial. Estava prestes a abandonar a nave.
Foi seguido por Ronson Lauer, que também envergava um traje espacial.
— Vá buscar um traje, Roane — ordenou Suttney.
Roane levantou-se e saiu. Chellich esforçou-se para que seu rosto exprimisse espanto.
— Pretendem abandonar a nave?
Suttney limitou-se a acenar com a cabeça.
— Por quê?
Lauer soltou uma risada.
— Essa pergunta não é muito inteligente, Chellich. Sabe lá o que fará uma nave terrana que se encontre nas proximidades, assim que nos encontrar?
Chellich bancou o desentendido.
— Ela nos mandará pelos ares — prosseguiu Lauer. — Dessa forma não poderemos revelar nada. Preferimos ver como estão as coisas lá fora.
— Sente-se nervoso, não é? — perguntou Chellich em tom irônico.
O rosto de Ronson Lauer contorceu-se numa careta de deboche.
— Sempre estive, Chellich — confessou. — E são muito bons.
Com um movimento rápido, tirou a arma. Chellich saltou para o lado, mas logo percebeu que o ataque não se dirigia a ele. Lauer girou sobre os calcanhares, numa pose de atirador de cinema, e dirigiu o raio expelido pela arma para o grande painel que se encontrava do outro lado da sala de comando. A energia concentrada cortou ao meio a placa de metal. O metal evaporou-se com um chiado, afastou-se lentamente e condensou-se nas paredes. As lâminas de plástico vitrificado estouravam e uma série de curtos-circuitos rugiu nos condutores embutidos no painel. O pequeno recinto encheu-se de calor e mau cheiro. Um minuto depois, o painel ficou danificado a tal ponto que ninguém poderia repará-lo.
Ronson Lauer virou-se. Sorriu. Ao que parecia, o trabalho que acabara de fazer deixava-o muito satisfeito. Continuava a segurar a pistola.
— Isto é para o senhor não acreditar que vamos permitir que saia voando por aí — disse em tom de escárnio.
Chellich compreendeu o que queria dizer. Olhou para Suttney, mas este esquivou-se ao olhar.
— Seu covarde! — disse Chellich em tom de desprezo e voltou a dirigir-se a Lauer.
— Sua carreira chegou ao fim — disse Lauer em tom dramático e muito satisfeito com a apresentação que estava proporcionando. — Até aqui, o senhor nos tem causado muitos problemas. Agora terminou. Não pense que quero matá-lo. Prefiro deixar que seus amigos da frota matem-no. Acho que eles saberão cuidar muito bem do caso. Pois não sabem que o senhor ainda está na nave, não é mesmo? Naturalmente! Não poderei permitir que fique nos espionando. O senhor compreende?
Chellich quase não prestara atenção às palavras de Lauer. Sabia o que estava para vir. Seu cérebro trabalhava febrilmente em busca de uma saída. Não havia por perto nenhuma arma ou qualquer coisa de que pudesse servir-se. Suttney encontrava-se junto à escotilha, e Ronson Lauer foi bastante inteligente para manter-se a uns cinco metros de distância. Lentamente, como que antegozando o prazer, ergueu a pistola e apontou-a para Chellich.
O tenente conteve a respiração e retesou os músculos. Viu que Lauer apontava a arma para seu ombro. Quando teve a impressão de que iria puxar o gatilho, deu um grande salto para o lado. O disparo passou por ele e atingiu a parede. Por um instante Lauer ficou perplexo. E, nesse instante, Chellich modificou a direção do salto e investiu sobre Ronson. Provavelmente essa ação arrojada poderia surpreender um homem menos experimentado que Lauer. Mas este apenas recuou um pouco e voltou a disparar antes que Chellich tivesse tempo de estender o braço.
Gunter Chellich viu um raio...
Nem chegou a sentir dor. Alguma coisa o levantou suavemente e carregou seu corpo pela infinita amplidão luminosa!


5



Na edição de 13 de outubro de 2.042, Terrânia Times noticiou o seguinte:

Mais uma vez, temos oportunidade de examinar uma informação relativa à concentração da frota terrana na área central da Via Láctea. Procuram apresentar-nos a operação como se fosse uma simples manobra. Acontece que nossos elementos de confiança informam que, além da frota terrana, um grupo de naves arcônidas surgiu nesse setor do espaço. Ao que tudo indica, não se trata de uma manobra, mas, talvez, de uma operação conjunta das duas frotas, dirigida contra um inimigo comum.
Pelo volume das forças empenhadas na operação, conclui-se que não se trata de uma escaramuça galáctica de proporções corriqueiras. Ao que parece, um perigo extraordinário surgiu nesse setor da Via Láctea. Trata-se de um perigo que representa uma ameaça para os dois reinos galácticos, o dos arcônidas e o nosso.
Somos levados a supor que, ao oferecer ao público seu noticiário sobre os acontecimentos que se desenrolam no centro da Galáxia, o Ministério das Informações age no intuito de não perturbar nossa paz e tranqüilidade. No entanto, voltamos a ressaltar aquilo que já ponderamos muitas vezes. Se quisermos esperar que os terranos ajam com determinação e sangue-frio, devemos fazer com que os mesmos sejam devidamente informados sobre todos os fatos importantes.

* * *

Quando Gunter Chellich voltou a si, admirou-se de ainda estar vivo. A explosão ofuscante e silenciosa, a levitação num espaço luminoso e sem fim...
Mas, de repente, já não havia nenhuma luz, nem levitação. Estava escuro, seu corpo jazia sobre alguma coisa e uma dor cruciante revolvia o lado direito do tronco.
De início, sentiu-se intrigado pela escuridão. Depois lembrou-se de que Ronson Lauer destruíra o grande painel.
No momento em que a arma foi disparada contra Chellich, ainda era dia lá fora, e as telas, que não estavam ligadas ao painel, traziam a luz para dentro da nave, como se fossem enormes janelas. Mas agora era noite. Do lugar em que se encontrava, na tela panorâmica só se via um brilho cinzento, quase imperceptível.
Gunter Chellich sabia o que lhe tinha acontecido.
Ainda se lembrava de que Suttney, Lauer e Roane pretendiam abandonar a nave. Mas levou alguns minutos para descobrir por que pretendiam agir assim.
Perigo! Um perigo o ameaçava! A primeira espaçonave terrana que avistasse a gazela a destruiria sem a menor hesitação.
Essa idéia o despertou de todo. Procurou esquecer a dor martirizante que sentia nos quadris e encostou o relógio de pulso aos olhos. Sabia que, quando Lauer disparou contra ele, eram oito horas e quarenta minutos, tempo terrano. Agora eram nove e quinze. Ficara inconsciente por mais de meia hora. Teria de sair da nave o mais depressa possível.
A escotilha estava aberta. Depois da destruição do painel principal, já não havia energia que pudesse fechá-la. Chellich lembrou-se de que as duas escotilhas da comporta também deviam estar abertas. Concluiu que estava respirando o ar de Tântalo e não notara qualquer diferença, e não parecia fazer muito calor.
Não é de admirar”, pensou no mesmo instante. “Tântalo deve possuir um clima acentuadamente continental. De noite o frio é miserável, enquanto de dia faz um tremendo calor.
Tropeçou pelo corredor e parou à frente do armário no qual eram guardados os trajes espaciais. Estava vazio. Os trajes estavam espalhados pelo chão. Chellich apalpou-os e constatou que todos haviam sido inutilizados. Em cada um deles havia um buraco. Não lhe tinham deixado a menor chance.
Cego de cólera, continuou a cambalear em direção à comporta.
A escotilha externa estava a apenas um metro acima do solo. Chellich saltou e...
A perna direita não conseguiu absorver o impacto. Caiu com o rosto na areia. Deitou sobre o lado esquerdo e, ao levantar, apoiou o peso do corpo sobre a perna esquerda. Conseguiu erguer-se.
A areia estava morna. Ainda não pudera irradiar o calor do sol. Por algumas horas armazenaria o calor. Mas não havia a menor dúvida de que ao amanhecer o frio seria intenso.
Chellich olhou em torno. O céu espalhava um brilho leitoso, que lhe permitia orientar-se pela vista.
Examinou seu corpo. O quadril direito estava reduzido a uma massa dura e quebradiça, feita de plástico; a fazenda chamuscada e a carne queimada. Ao que parecia, o tiro disparado por Ronson Lauer só o atingira de raspão. Mesmo assim, as dores eram terríveis. Chellich cerrou os dentes.
Examinou o solo e encontrou a pista de Suttney e seus cúmplices. Ao notar que se haviam dirigido para dentro do vale e pretendiam esconder-se num lugar em que havia sombra, sentiu-se alegre.
Chellich seguiu a pista. Procurou forçar o menos possível a perna direita, e passou a apoiar-se mais na esquerda. Alguns minutos depois, percebeu que esta também já não estava agüentando o peso do corpo. Começou a doer. Dessa forma, não conseguiria andar muito depressa. De qualquer maneira, avançaria mais devagar que Suttney, Lauer e Roane.
Acontece que, nesse meio tempo, sua raiva atingira um estágio em que os argumentos racionais não tinham lugar.
Tenho de alcançá-los”, pensou.

* * *

Às oito horas e cinqüenta e cinco minutos, tempo de bordo, a estação de observação do couraçado Barbarossa constatou que um minúsculo barco espacial se desprendia de uma das naves arcônidas estacionadas nas proximidades. O veículo ultrapassou o limite fixado por Perry Rhodan e se aproximava do planeta. Naturalmente pretendia dar busca ou mesmo pousar ali.
O General Deringhouse, comandante da Barbarossa, não perdeu tempo. Fez exatamente aquilo que Perry Rhodan recomendara.
O primeiro tiro foi disparado quando a nave auxiliar se encontrava a setenta mil quilômetros da Barbarossa. Os canhões do costado também abriram fogo e um feixe de raios energéticos estendeu-se em direção ao pequeno veículo espacial.
Enquadrada na mira, a nave desapareceu numa explosão fulgurante e silenciosa. Os canhões da Barbarossa voltaram a silenciar. Os homens ficaram atentos aos aparelhos de hiper-rádio, procurando descobrir a reação dos arcônidas. Mas nada aconteceu.
Meia hora depois de ter sido derrubada a nave auxiliar, os arcônidas ainda não haviam respondido ao tiro. Numa gazela integralmente tripulada, Perry Rhodan decolou da Drusus. O General Deringhouse assumiu o comando de toda a frota, inclusive da nave capitania.

* * *

Ronson Lauer deixou que o amplo feixe de luz de sua lanterna brincasse sobre a rocha. De repente descobriu a fenda estreita que se abria metro e meio acima do solo e penetrava na parede de rocha. Aproximou-se e percebeu que o caminho subia suavemente. Ao que parecia, levava para o platô.
Lançou um olhar indagador para Suttney. Este fez um gesto para Roane. Roane foi o primeiro a penetrar na fenda. Assim que entrou, ajudou Suttney, que levava a carga pesada da cassete. Ronson Lauer foi o último. Apesar do microtransmissor que trazia pendurado ao pescoço, movia-se com bastante agilidade. Uma vez na fenda, voltou a colocar-se na ponta do grupo e iluminou o caminho.
Subitamente Ronson Lauer notou que o sistema de condicionamento de seu traje espacial trabalhava em outra “tonalidade”. Olhou para o termômetro de pulso e viu que a temperatura externa era de quarenta e um graus centígrados.
Enquanto caminhava pé ante pé prestando atenção à presença eventual de animais perigosos, embora já não acreditasse que nesse mundo existisse vida, ficou refletindo sobre se haviam agido acertadamente ao abandonar a gazela. Concordava com Suttney, segundo o qual toda e qualquer nave terrana que destruísse o barco espacial, mataria o tenente.
Restava saber se existia qualquer veículo espacial terrano nas proximidades. Ninguém poderia saber que estavam ali. Lauer achou tão improvável que no momento em que Suttney irradiava a mensagem destinada aos arcônidas houvesse uma nave terrana num raio de cem anos-luz que nem sequer cogitou seriamente dessa possibilidade. Era claro que a transmissão de Suttney também fora captada pelas naves terranas. Mas as mesmas deviam estar tão longe que levariam alguns dias para encontrar o sistema em que se encontrava a gazela.
Concluiu que, ao fugirem da gazela, agiram precipitadamente.
Teria sido mais confortável permanecer numa poltrona e aguardar a chegada de um arcônida.
No momento em que se virava para sugerir a Suttney que regressassem à nave, alguma coisa aconteceu acima dele. De início, apenas viu um raio ofuscante cuja luz penetrou na fenda. Lauer olhou fixamente para o céu e viu uma chuva de pontinhos reluzentes que saía de algum lugar do zênite e, depois de espalhar-se para todos os lados, caiu em direção à superfície.
Esqueceu-se do que pretendia dizer e saiu correndo. Fungando, foi subindo pela fenda sem dar a menor atenção a Suttney e Roane. Com alguma dificuldade, chegou ao platô.
Neste meio tempo, os pontinhos reluzentes já haviam chegado mais perto. Subitamente algo desceu, assobiando, e com um forte estrondo caiu um pouco afastado do lugar em que se encontravam, enterrando-se no chão arenoso. À luz crepuscular da noite, Lauer viu uma nuvem de pó erguer-se e descer lentamente. Sentiu um forte solavanco na rocha sobre a qual estava parado.
Voltou a erguer os olhos e notou que os pontos reluzentes haviam desaparecido. Deviam ter caído ao solo em outro lugar. Ronson Lauer ouviu alguém respirar pesadamente às suas costas. Nem olhou para trás a fim de ver se era Roane ou Suttney. Saiu correndo em direção ao lugar em que a coisa estranha havia penetrado no solo.
O platô era totalmente plano, e a cratera, que o objeto caído do céu abrira no chão, tornava-se bem visível. Lauer viu que era circular e tinha um diâmetro de cerca de quatro metros. Sua profundidade era a mesma.
Não conseguiu ver o objeto que havia aberto a mesma!
Lauer desceu na cratera. A areia movimentou-se e Lauer começou a escorregar. Ao chegar ao fundo da cratera, Lauer estava envolto numa nuvem de pó. Tirou o microtransmissor de cima do ombro e atirou-o ao chão. Começou a cavar a areia com as mãos enluvadas.
Era um trabalho penoso, ainda mais que a areia estava quente. Depois de meia hora, quando, apesar das luvas, tinha as mãos cobertas de bolhas provocadas por queimaduras, Lauer atingiu um lugar em que a areia derretida se aglomerara num torrão. Tirou o torrão e jogou-o para o lado. Embaixo dele, surgiu uma peça entrecortada e retorcida de metal plastificado, que estendia uma ponta espinhosa para Ronson.
Cautelosamente Lauer foi pegando a ponta. Procurou segurá-la para tirar a peça de metal de baixo da areia. Mas mal tocou o material soltou um grito de dor. A temperatura do metal plastificado era de pelo menos quinhentos graus.
Lauer recuou um pouco e ligou a lanterna. Deixou o raio deslizar centímetro por centímetro pela ponta metálica. Aquilo evocava alguma coisa em sua mente. Tinha certeza de que logo se lembraria do que era caso o visse no seu estado original, isto é, antes de ser deformado pelo calor.
Subitamente ouviu a voz de Suttney no receptor de capacete. Parecia deprimida e desesperada:
— É a coluna de direção de uma nave auxiliar arcônida...
Lauer compreendeu imediatamente que Suttney tinha razão. Era isso mesmo: uma coluna de direção. Lembrou-se do aspecto da mesma, que lhe fora transmitido por meio de treinamento hipnótico. Era um tubo de plástico com várias saliências que continham os diversos controles do barco arcônida. As saliências já não existiam mais; derreteram-se. E o resto se deformara. Mas a observação de Suttney era correta.
Ronson Lauer subiu, totalmente perplexo. Pendurou o microtransmissor no ombro. Não sabia explicar como a coluna de direção de um barco arcônida viera parar na superfície desértica desse planeta.
Walter Suttney encontrava-se na borda da cratera. Oliver Roane ainda não havia chegado. Lauer viu-o caminhando pelo platô.
— Quer dizer que acabaram chegando mesmo — disse Suttney em voz tão baixa como se estivesse falando num solilóquio.
— Quem? — perguntou Lauer. — Os arcônidas?
— Estes também vieram. Mas eu me refiro aos terranos.
Lauer respirava nervosamente.
— Quer dizer que você acha que eles derrubaram um barco arcônida?
— É claro que sim. O que poderia ser?
Lauer continuava a olhar a cratera com uma expressão de incredulidade. Depois lançou os olhos para o céu escuro, como se pudesse avistar as naves terranas e arcônidas.
— Prepare o microtransmissor! — exclamou Suttney de repente.
Lauer virou-se abruptamente.
— Por quê? — perguntou. — Não venha me dizer que você pretende...
— Vamos logo! — insistiu Suttney. — Não podemos perder tempo. Daqui a algumas horas, nossa gente nos encontrará.
Lauer ficou furioso.
— Que diabo você quer que eu faça com o microtransmissor? — gritou.
— Vamos dizer aos arcônidas tudo que sabemos a respeito da posição da Terra; antes que seja tarde.
Por um instante, Lauer ficou perplexo. Roane também parecia ter perdido a fala.
— Será que você ficou maluco, Walter? — questionava Lauer depois de algum tempo. — Se o transmissor der um pio, eles nos localizarão e dentro de três minutos estaremos mortos.
— Três minutos são suficientes para que os arcônidas saibam onde encontrar a Terra — respondeu Suttney em tom sério.
— E nós? O que teremos a ganhar se os arcônidas sabem disso?
Subitamente a voz de Suttney assumiu uma tonalidade irônica.
— Ronson, você não é um revolucionario? Você jurou que iria destruir Perry Rhodan, custasse o que custasse. Pois bem. Rhodan estará destruído no momento em que os arcônidas conseguirem encontrar a Terra. Por que perder tempo? Será que sua vida lhe vale mais que o bem-estar da humanidade?
Ronson Lauer ficou sem fôlego.
— Não conte comigo — disse.
Suttney segurou as cassetes de microfilme sob o braço esquerdo. Respondeu sem fazer o menor movimento:
— Você prometeu obedecer às minhas ordens, Ronson. E é exatamente o que você vai fazer. Prepare o microtransmissor e passe-o às minhas mãos.
— Não! — gritou Lauer.
— Faça o que estou dizendo, senão...
— Senão o quê?
Walter Suttney não soube avaliar corretamente a situação. Acreditava que teria tempo para colocar a cassete cuidadosamente no chão e puxar a arma. Com isso Ronson Lauer pôde agir com uma facilidade verdadeiramente ridícula. Quando Suttney ainda se erguia, já estava com a pistola destravada na mão. Levantou-a e disse em tom de desprezo:
— Seu imbecil!
E disparou duas vezes.

* * *

Quando ocorreu a explosão no espaço, Gunter Chellich ainda se encontrava a algumas centenas de metros do fundo do vale. Soube interpretar corretamente o fenômeno. A idéia de que as naves terranas haviam chegado infundiu-lhe novo ânimo para prosseguir na difícil marcha.
Depois de algum tempo, atingiu a encosta que fechava o fundo do vale e encontrou a fenda. Não saberia dizer com certeza se Roane, Suttney e Lauer haviam passado pela mesma, mas como sua pista terminasse embaixo do lugar em que ela começava e não prosseguia em qualquer lugar, convenceu-se de que devia ser assim. Puxou o corpo para cima. O esforço fez com que as dores nos quadris começassem de novo, motivo por que ficou deitado por alguns minutos na rocha.
Assim que sua respiração se tornou mais tranqüila, procurou ouvir o que se passava na escuridão. Era claro que Suttney e seus companheiros deviam tê-lo deixado bem atrás, desde que tivessem caminhado ininterruptamente. Mas também era possível que se encontrassem mais adiante, no interior da fenda, aguardando os acontecimentos.
Não ouviu nada. Por isso levantou-se e foi adiante. No interior da fenda o calor era intenso e o ar abafado. Depois dos primeiros cinco passos, seu rosto ficou banhado em suor. Encostou-se à rocha para descansar um pouco, mas esta era ainda mais quente que o ar.
Foi andando e lançou os olhos para a frente, na esperança de que a fenda terminasse logo e o levasse ao terreno aberto.
Subitamente ouviu um zumbido e um chiado às suas costas. Ficou tão surpreso com o ruído, que lhe era tão familiar, que a alegria dolorosa o fez escorregar e cair ao chão quente. O ruído cresceu e fez a rocha estremecer. Chellich começou a gritar de alegria e na esperança absurda de conseguir fazer-se ouvir. Mas seu grito foi sufocado pelo chiado que subitamente se misturou ao zumbido agudo dos mecanismos propulsores. Dali a alguns segundos, uma ofuscante luz branco-azulada encheu a fenda, e um instante depois o ribombar de uma tremenda explosão envolveu Chellich.
Este não conseguiu ver a sombra da gazela que passou rente ao platô. Sentiu-se ofuscado. A luz fulgurante da explosão da nave auxiliar em que uma hora antes estivera deitado, inconsciente, desenhava-lhe anéis coloridos e saltitantes diante dos olhos. Tateou em torno e encontrou uma saliência na rocha quente. Puxou-se para cima. Cambaleante e desiludido, continuou a subir.
Haviam destruído a nave auxiliar, conforme era esperado. Sentiu-se amargurado com a idéia de que não tiveram a menor consideração com ele. Se Ronson Lauer o tivesse amarrado na sala de comando, não estaria mais vivo.
É claro que não poderiam ter consideração por ele. O que significava a vida de um ser humano, quando o destino da Terra estava em jogo? Talvez também acreditavam que tivesse encontrado um meio de colocar-se em segurança.
Fosse como fosse, haviam chegado. Passaram pouco acima de sua cabeça. Se tivesse um aparelho de rádio, poderia ter dado um sinal de sua presença.
A esta hora, estariam pousando nas proximidades a fim de verificar se Suttney, Lauer e Roane haviam abandonado a gazela antes da explosão. Se tivesse sorte poderia encontrar sua nave na manhã do dia seguinte, assim que a escuridão desaparecesse.
Prosseguiu na esperança de que, dentro de algumas horas, estaria em lugar seguro, numa cama, tendo ao seu lado um médico gentil que lhe desse um tratamento suave.
Chegou ao platô. Refletiu se devia sentar na areia e esperar ou se seria preferível seguir a pista de Suttney, Lauer e Roane. O platô desenhava-se nitidamente à luz das estrelas. Via a pista numa extensão de quinhentos metros.
Depois de algum tempo, resolveu segui-la. Era possível que os ocupantes da gazela não tivessem a menor idéia de onde se encontravam os três desertores. Quando o localizassem, ele poderia dizer-lhes.
Dali a alguns minutos, viu duas manchas escuras, uma grande e outra pequena.
Ao aproximar-se, verificou que a mancha grande era uma cratera, enquanto a mancha pequena era o corpo de Walter Suttney. Tinha uma ferida feia e profunda no peito e seus olhos vidrados estavam arregalados atrás da lâmina transparente do capacete, em direção ao céu noturno.
Gunter Chellich não soube imaginar o que teria acontecido. Era bem verdade que julgava Ronson Lauer capaz de matar qualquer um desde que isso lhe fosse conveniente, mas não conseguiu atinar com qualquer motivo que numa situação como esta pudesse explicar um homicídio.
Empurrou o cadáver de Suttney até a borda da cratera e deixou que descesse ao fundo da mesma. Quando o vento enchesse a cratera de areia, a mesma seria uma espécie de túmulo.
Depois Chellich prosseguiu na sua caminhada.

* * *

Subitamente o céu noturno ficou repleto de gazelas elípticas. Perry Rhodan as chamara, uma vez descoberta e destruída a nave desaparecida.
Não tivera a menor dificuldade em descobrir o veículo espacial. A gazela de Suttney era praticamente a única peça de metal que se encontrava na superfície do planeta. Perry Rhodan avançou em direção ao lugar do qual provinham os primeiros reflexos do localizador de microondas e logo encontrou aquilo que estava procurando.
No entanto, estava convencido de que Walter Suttney fora bastante inteligente para abandonar a nave. E era bastante provável que não tivesse saído da área de perigo de mãos vazias. As informações relativas à posição galáctica da Terra caberiam perfeitamente numa caixa em forma de cubo com dez centímetros de aresta. Provavelmente Suttney mantinha os microfilmes em lugar de fácil acesso e os levara. Ao menos deviam contar com essa possibilidade.
A gazela foi encontrada num desfiladeiro que penetrava dois quilômetros montanha adentro, na direção leste. Caso Suttney e seus comparsas tivessem abandonado o barco espacial, certamente teriam avançado para o leste, ou seja, em direção às montanhas. A leste do desfiladeiro ficava um platô onde a visão era ampla. Os fugitivos não poderiam esconder-se no mesmo. Já deveriam tê-lo atravessado, ou então se haviam dirigido para a borda da superfície plana, situada ao norte ou ao sul.
Perry Rhodan convocara as gazelas para bloquear essa parte do complexo montanhoso. Ordenou-lhes que pousassem no pé da cadeia montanhosa. A gazela de Rhodan ficou à espreita na extremidade leste do platô. Só depois disso se poderia afirmar com segurança que Suttney e Roane se encontravam numa armadilha, vivos ou mortos.
Perry Rhodan procurou entrar em contato com Walter Suttney pelo telecomunicador. Expediu a seguinte mensagem:
— Aqui fala Rhodan! Responda, Suttney!
A partir do raiar do dia estas palavras foram irradiadas ininterruptamente pelo éter.

* * *

— Desça por aqui! — fungou Lauer. — Que diabo! Ande mais depressa!
A lerdeza de Roane começava a enervá-lo. Deu-lhe um pontapé nas costas, fazendo com que seu corpo descesse pela rocha mais depressa do que pretendia. Uma vez lá embaixo, Roane ficou deitado, gemendo.
Lauer seguiu-o agilmente. Além do microcomunicador carregava a cassete com os microfilmes. Apesar disso, caminhava com uma extraordinária destreza.
Haviam visto a luz da explosão que destruíra a gazela. Encontravam-se num esconderijo seguro, na extremidade leste do platô, quando viram a nave de Perry Rhodan passar pouco acima da superfície. Dali a alguns minutos, viram uma esquadrilha de gazelas que desceu do céu noturno e desapareceu além dos cumes montanhosos.
Ronson Lauer avaliou corretamente a situação. Estavam numa armadilha. Na extremidade leste do platô, a encosta rochosa e íngreme descia para um vale largo e arenoso. Na encosta havia numerosos esconderijos. Ronson Lauer sabia perfeitamente que seria inútil prosseguir na marcha.
Sentados naquele lugar, viram o céu clarear aos poucos. Os homens de Rhodan não demorariam a iniciar as buscas. E procurariam no lugar em que a rocha oferecia bons esconderijos. Não levariam mais de três dias para encontrá-los.
Então era isso. Seu caminho terminara num planeta seco e poeirento, que nem sequer tinha um nome.
Ronson Lauer sentiu-se furioso.
Que malditos idiotas eram os arcônidas! Por que não vieram mais depressa? Nesse caso a esta hora ele e Roane estariam sentados num camarote confortável, onde lhes seria dispensado um tratamento respeitoso, enquanto apresentavam a algum comandante arcônida o segredo roubado a Rhodan.
No entanto, estavam sentados em meio a uma série de rochas marrom-amarelas, esperando que o sol nascesse e que os homens de Rhodan os encontrassem.
Salvo se...
Subitamente Lauer teve uma idéia. Viu à sua frente a cassete com os microfilmes. Não teria oportunidade de entregá-la aos arcônidas. Mas poderia fazer aquilo que Suttney pretendia. Poderia informá-los pelo microcomunicador de que o sistema solar terrano ficava a esta ou aquela distância do lugar em que se encontravam, e que deviam procurá-lo nesta ou naquela direção. Não seria uma informação completa, mas bastaria para que os arcônidas encontrassem a Terra dentro de dois anos no máximo.
Não tinha a intenção de, na situação em que se encontrava, ainda transmitir esta informação aos arcônidas.
Mas poderia ameaçar Perry Rhodan de agir dessa forma!

* * *

Durante uma hora, não houve resposta. Perry Rhodan começou a espantar-se. Tinha certeza absoluta de que Suttney e seus comparsas haviam saído da gazela, antes que esta explodisse sob a ação de um raio de desintegrador. Mas o silêncio reinante no éter parecia contrariar essa suposição. Se estivesse vivo, Walter Suttney não seria tolo a ponto de acreditar que ainda lhe restava uma chance.
Rhodan não sabia que Ronson Lauer ainda não terminara de redigir sua resposta.
Foi só uma hora após o nascer do sol, mais precisamente, às vinte horas, tempo de bordo, que uma voz apressada e nervosa se fez ouvir no receptor de Perry Rhodan:
— Aqui fala Ronson Lauer, Rhodan. Suttney está morto. Assumi seu posto e quero propor-lhe um acordo razoável...

* * *

Quando o sol nasceu, Gunter Chellich havia percorrido metade do platô. Nas últimas duas horas, sentira um frio terrível. Mas antes que o sol subisse um palmo acima da linha do horizonte sentiu tanto calor que ansiava pelo frescor da noite.
Os cumes rochosos situados na extremidade leste da superfície plana aproximavam-se com uma lentidão insuportável. Chellich parava constantemente para respirar. Teve a impressão de que não saía do lugar.
A pista de Lauer e Roane atravessava a areia amarela em linha reta. Chellich pôde ver o lugar em que chegava ao fim dessa área. Mas, antes de chegar lá, teria de percorrer alguns quilômetros. Eram quilômetros de calor e poeira — espaço demais para alguém que não se agüentava um segundo sobre a perna direita e há uma eternidade não bebia um gole.
Não se via mais nada das gazelas. Ao que parecia ninguém acreditara que a superfície arenosa fosse um local de pouso muito favorável.
Chellich continuou a arrastar-se. Começou a duvidar de que conseguisse chegar à periferia do platô. Sentiu-se dominado pelo pavor. Teve de recorrer a toda a força do raciocínio, para não se jogar na areia e ficar deitado.

* * *

— Rhodan, o senhor tem dois meios de transmitir instruções aos seus homens — disse a voz apressada de Lauer. — Poderá usar o telecomunicador ou o rádio comum. Estou em condições de ouvir um e outro. Garanto-lhe que, no momento em que o senhor usar seus transmissores, para qualquer coisa que não seja a troca de mensagens comigo, começarei a transmitir aos arcônidas as informações de que disponho. Lembre-se disso e pense na minha proposta.
Perry Rhodan sabia que Lauer estava falando sério. Começaria a transmitir aos arcônidas as informações relativas à posição galáctica da Terra, assim que alguém tentasse avisar a posição do transmissor às naves, para que estas soubessem onde lançar suas bombas.
Tanto Rhodan como Lauer encontravam-se numa situação em que só havia um caminho a trilhar. Qualquer outro levaria à desgraça.
Ronson Lauer acabara de dizer que não revelaria a ninguém o que sabia, se lhe fornecessem uma gazela e lhe permitissem decolar com a mesma depois da saída da frota terrana.
Naturalmente essa proposta era inaceitável. Uma vez de posse da gazela, Lauer voaria para Árcon, a fim de completar sua traição.
Lauer fixara um prazo de três horas. Se até lá sua proposta não fosse aceita, começaria a transmitir. Perry Rhodan estava com as mãos atadas. Não poderia fazer nada sem arriscar a revelação do segredo mais importante do Império Solar.
O sol amarelo foi subindo no céu branco-azulado. E a bordo da gazela oferecia-se um reino em troca de uma boa idéia.

* * *

...esquerda... puxar a perna direita...! não olhe para o sol! Não pense em água! Vá à frente! Siga a pista!”, eram estes os pensamentos do tenente.
Aos olhos de Gunter Chellich, a areia era de um branco ofuscante e as pisadas que via à sua frente pareciam buracos negros. Parecia um mundo feito de preto e branco e calor.
Não sabia quanto ainda teria de caminhar até atingir a sombra das rochas. Não tinha coragem de levantar a cabeça, pois nesse caso veria o grande sol. E não queria vê-lo.
E nem quando alguma coisa começou a uivar atrás dele levantou a cabeça. Não estava interessado em saber o que uivava. Ouviu o ruído tornar-se mais forte e aproximar-se de trás. Mas não parou nem virou a cabeça, pois receava que, se parasse, não conseguiria prosseguir.
Subitamente viu que os contornos da pista se desmanchavam à sua frente. Desfizeram-se e de repente haviam desaparecido. Piscou os olhos chamejantes, para espantar a alucinação. Porém aquilo não era nenhuma alucinação. A pista havia desaparecido. À sua frente, só havia areia, que alguma força inexplicável tangia...
Quando começou a ficar escuro em torno dele, acabou parando e olhou para trás. Mas não havia mais nada que pudesse ver. Estava envolto numa densa nuvem marrom, a areia penetrou-lhe pelos olhos, nariz e boca, e o uivo transformou-se no rugido de uma tempestade de areia.
Cobriu o rosto com os braços e prosseguiu em sua marcha. Tinha a impressão de saber em que direção corria a pista antes que se apagasse. Um pensamento automático lhe disse que, se não tivesse cuidado, descreveria uma curva para a esquerda, já que em virtude do ferimento a perna direita avançaria menos. Por isso dirigiu-se para a direita e deixou que a tempestade o tangesse.
Não enxergava dois metros à frente dos olhos. Sempre que mordia os dentes, ouvia um forte rangido. Mas pouco lhe importava que sentisse um ardor ou ouvisse um rangido. Uma coisa era tão ruim quanto a outra.
Seguiu cambaleando. Perdeu a noção do tempo. O cérebro foi transmitindo automaticamente os comandos às pernas.
Esquerda... puxar a direita.”
Gunter Chellich se parecia com uma máquina que só continuava a caminhar, porque alguém se esquecera de desligá-la.
De repente, tropeçou em alguma coisa. “Talvez minhas pernas fraquejaram!”, pensou. “Não... senão eu teria caído na areia macia e... continuaria deitado.”
E ele não caiu no macio.
Seu crânio bateu contra alguma coisa dura, e isso o despertou. Teve a impressão de ver uma rocha de dois metros à sua frente. De início não acreditava no que seus olhos viam. Mas, depois de algum tempo, passou a mão pela rocha. As arestas arrancaram-lhe sangue, e o sangue convenceu-o. Conseguira. Chegara ao fim do platô. Quando a tempestade amainasse e o sol voltasse a brilhar, a rocha lhe proporcionaria uma sombra protetora.
Contornou a rocha e comprimiu o corpo contra a face oposta ao vento. Viu que dois metros atrás dele o chão descia fortemente.
Provavelmente lá embaixo existe um vale”, pensou cansado.
Comprimiu a mão contra a boca e respirou entre os dedos. Precisava de ar, mesmo que fosse quente e poeirento como o que estava respirando.
Sentiu que a tempestade sacudia a rocha.

* * *

Ronson Lauer viu a nuvem de areia marrom passar por cima da rocha e ouviu o uivo da tempestade. Sentiu-se dominado pelo pânico. Com a tempestade, Rhodan teria uma excelente oportunidade de aproximar-se sem que ele o percebesse e surpreendê-lo em seu esconderijo.
Deveria mudar de lugar.
— Vamos embora, Roane! — gritou, esforçando-se para sobrepujar o ruído do vento. — Vamos para lá!
Roane não sabia por que deveria sair dali, mas obedeceu. Comprimindo-se pelas rochas, foram seguindo ao longo da encosta. Lauer ficou com o microcomunicador ligado. Mas Perry Rhodan não chamou.
Já se haviam passado duas horas e meia.

* * *

A nuvem marrom tornou-se menos espessa e o ruído da tempestade diminuiu. Chellich olhou para cima e procurou descobrir o sol. Parecia uma bola apagada, em meio às nuvens de pó. Quem o visse assim nunca acreditaria que esse sol fosse capaz de queimar e matar um homem.
O campo de visão de Chellich ampliou-se. Conseguiu enxergar alguns metros da encosta que descia atrás dele. Apenas viu rochas marrons e cinzentas. Não havia nada que valesse a pena olhar.
Subitamente a tempestade cessou. Terminou tão rapidamente como viera. Uma nuvem de areia entrecortada corria preguiçosamente para o leste.
De repente Gunter Chellich ouviu um ruído às suas costas. Deixou-se cair de lado e rastejou até a beira da encosta. A tempestade despertara-o de vez.
Chellich viu Ronson Lauer e Oliver Roane comprimirem-se entre as pedras e deslocarem-se pela encosta. Encontravam-se à sua esquerda, a uns trinta metros do lugar em que estava, e dirigiam-se para a direita.
Chellich recuou. Estava com medo. Não queria que Lauer o descobrisse. Ele o mataria assim que o visse. Escondeu-se do outro lado da rocha. De qualquer maneira teria de ficar lá, pois era o lado da sombra.
Comprimiu o corpo contra a rocha e sentiu que a mesma cedia. Inclinou-se ligeiramente. Não estava presa ao solo. De repente Chellich lembrou-se de que a tempestade a fizera tremer.
Sentiu-se fascinado por uma idéia. Tinha à sua frente uma rocha solta. Mais adiante havia uma encosta íngreme, na qual Lauer e Roane se deslocavam com grande esforço.
Ergueu-se, apoiando-se na rocha, encostou os braços à mesma e procurou movê-la. Lançou um olhar apressado para o outro lado e viu que Lauer e Roane se haviam aproximado. Baixou os braços e encostou o ombro esquerdo à rocha. A dor cruciante, que sentia no quadril, conferiu-lhe mais força.
Percebeu que a rocha se inclinava. Ouviu que lá embaixo, no lugar em que Lauer e Roane rastejavam pela encosta, um pedaço de metal bateu contra a pedra. Compreendeu que naquele momento os dois se encontravam bem embaixo dele. O medo de chegar tarde conferiu-lhe o restinho de força que faltava para mover a rocha. E a pedra de dois metros de altura tombou para a frente, deslizou até a beira da encosta, inclinou-se sobre a mesma, ergueu-se sobre a extremidade superior e desceu ruidosamente.
Gunter Chellich caiu ao chão. Ouviu um grito de pavor. Apoiou-se sobre os braços e rastejou até a encosta.
Bem embaixo viu a pedra que saltitava em direção ao vale, arrastando consigo uma nuvem de pó!
À meia encosta, viu duas manchas azul-escuras.
Eram Lauer e Roane. A rocha os atingira e os arrastara algumas centenas de metros.
Mas o microcomunicador que Lauer largara no momento em que sentira o susto mortal encontrava-se poucos metros abaixo de Chellich.
Este desceu rastejando, sem dar a menor atenção ao sol, cujos raios dardejavam a toda força sobre seu corpo. Teve a impressão de que várias horas se passaram, antes que conseguisse pôr as mãos no aparelho. Viu que estava funcionando e ouviu uma voz muito conhecida que dizia:
— O que lhe podemos propor, Lauer, é o seguinte: a anistia e uma vida livre na Terra. Mas o senhor não poderá sair do planeta. Aguardo sua resposta, Lauer, é minha última oferta.
Chellich sorriu. As lágrimas lhe corriam pelo rosto. Aspirou profundamente o ar — o ar escaldante de Tântalo — e disse para dentro do microfone:
— Aqui fala o Tenente Chellich, Sir. Acho que o perigo passou. Ficar-lhe-ei muito grato se puder buscar-me.
Depois tombou e desligou o microcomunicador com a testa.

* * *

Perry Rhodan e Atlan, o arcônida, conversavam a bordo da Drusus, um dia e meio depois que a frota robotizada de Árcon foi retirada e o regente reconheceu a dupla derrota que acabara de sofrer: o blefe de Latin-Oor e o fato de que em Tântalo Perry Rhodan fora mais rápido que ele.
— Daqui em diante, devemos contar a qualquer momento com a repetição do incidente — disse Rhodan em tom pensativo. — Almirante, você sabe perfeitamente que os maus exemplos fazem escola, mesmo que não dêem certo.
Atlan concordou.
— Eu me admiro — disse — de que você tenha conseguido guardar o segredo por tanto tempo. Qualquer pessoa que queira levar vida bem confortável só precisa pegar uma gazela e voar para Árcon. Tenho certeza de que meu augusto Senhor e Imperador — seu rosto contorceu-se num sorriso de escárnio — lhe demonstraria a gratidão em moeda sonante. Sua programação é “suficientemente” humana. A propósito, por que será que Suttney não foi direto para Árcon ou para Latin-Oor? Com isso alcançaria um máximo de segurança, não acha?
Perry Rhodan sacudiu a cabeça.
— De forma alguma. Para chegar a Árcon, teria de vencer uma distância de cerca de trinta mil anos-luz. Uma gazela não pode fazer o salto de uma só vez. Provavelmente Suttney não quis enfrentar o risco. Um salto representa uma chance de ser descoberto, e cinco saltos são cinco chances. E Suttney sabia perfeitamente que não poderia confiar em Chellich. Cada segundo que este gastasse a mais representaria um risco adicional.
Fez uma pausa e prosseguiu:
— E Latin-Oor estava fora de cogitação. Por lá estava estacionada uma frota robotizada. E a primeira coisa que esta teria feito, se de uma hora para outra uma gazela terrana aparecesse por lá, seria dar cabo da mesma. Suttney nem teria tido tempo de fazer chegar sua mensagem ao destino.
“Para ele, o melhor seria mesmo esconder-se num sistema totalmente desconhecido e chamar os arcônidas. Dessa forma, o Império Arcônida teria tempo para preparar-se. Suttney esperava que, no momento em que começasse a transmitir pelo hiper-rádio, nenhuma das nossas naves se encontrasse a menos de cem anos-luz. Quanto à frota arcônida, sabia que esta se achava a apenas dezesseis anos-luz. Dali resulta uma diferença enorme na precisão da localização. Naturalmente Suttney não sabia que, naquela altura, nós já o havíamos localizado, em virtude da manipulação realizada com o neutralizador de vibrações.”
Atlan estava virado de lado, fitando a tela.
— De qualquer maneira — disse em voz baixa — não posso deixar de felicitá-lo por possuir um tenente como aquele. Se não fosse ele...
— Que tenente é este? — perguntou Rhodan, fazendo-se de espantado.
— É claro que estou aludindo a Chellich. Será que houve outro tenente que tenha desempenhado um papel importante nessa história?
— Ah, Chellich! — disse Rhodan em tom de surpresa. — Ele não é tenente, mas capitão, embora ainda não o saiba.

* * *

Walter Suttney e Ronson Lauer estavam mortos. Oliver Roane fora poupado pelo destino. Quando o encontraram, estava apenas inconsciente. A rocha lhe esmagara a perna direita, que teve de ser amputada. Mas Roane viveria para responder ao processo que lhe seria movido na Terra.
Gunter Chellich não estava morto, mas quase. Os médicos da Drusus declararam nunca terem visto um caso tão grave de esgotamento. Gunter Chellich levou três dias para recuperar os sentidos. Quando isso aconteceu, a Drusus já havia voltado a Fera Cinzenta.
Ao despertar, Chellich virou a cabeça de lado e viu, na cama ao lado, um rosto que lhe parecia muito conhecido-.
— Oh, Mullon! Como foi que você veio parar aqui? — perguntou com a voz débil. — Também esteve em Tântalo?
Mullon riu.

* * *

No dia 15 de outubro de 2.042, Terrânia Daily News conclui da seguinte forma um relato minucioso dos acontecimentos no setor de Tântalo:

Mais uma vez, se verifica que existem vários tipos de informações jornalísticas. O verdadeiro jornalista não levara ao público sem qualquer exame toda e qualquer informação a que tenha acesso. Procurará classificar as notícias segundo a importância do conteúdo e seus prováveis efeitos sobre o público. E, o que é primordial, nunca inventará uma história destinada a lançar a confusão entre o público, e não afirmará que obteve as informações de elementos de confiança, para atribuir-se um ar de seriedade. Geralmente esses elementos de confiança ficam sentados numa pequena sala situada ao lado ou acima da redação e extraem as notícias dos lápis, esferográficas ou outros instrumentos de escrita.
O caso que acaba de ser relatado oferece uma visão flagrante das maquinações de um jornalismo que procura a sensação pela sensação, ou pelo desejo de aumentar as tiragens. Ainda somos de opinião que o jornalismo diligente e responsável deve merecer a preferência do público, face a esse tipo de apresentação das notícias.

* * *

Esperava-se que o Terrânia Times se manifestasse vigorosamente sobre o artigo que encerrava uma alusão inequívoca a seu procedimento.
Mas o Terrânia Times não esboçou a menor reação. Passou tranqüilamente à ordem do dia...

* * *
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Mais uma vez, Perry Rhodan aniquila as ações do cérebro-regente...

Em O Pavor, título do próximo volume, uma expedição terrana irá viver lances indizíveis.

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