Depois Chellich voltou ao trabalho; desta vez
foi vigiado por Suttney. Concluiu-o dentro de quinze minutos. Suttney ficou muito
satisfeito. Examinara tudo para ver se descobria qualquer coisa que representasse
uma prova da culpa de Chellich pelo acidente sofrido por Lauer. Mas o fio de alta-tensão
fora tão bem restaurado que nada foi encontrado. E Suttney não fez perguntas.
Ao repetir o teste geral, todas as luzes acenderam-se.
A gazela estava em condições de voar. Chellich acionou os respectivos controles
e preparou a segunda transição.
Esta foi mais demorada que a outra. Além disso,
tornou-se bastante desagradável. Quando o processo de desmaterialização chegou ao
fim e a dor foi amainando, Chellich estava quase inconsciente. Olhou em torno e
viu que Suttney e Roane estavam ainda piores que ele. Suttney foi recuperando os
sentidos aos poucos, enquanto Roane provavelmente continuaria inconsciente por um
bom tempo.
Na tela brilhava, inconfundível, a mancha amarela
que representava o sol que Ronson escolhera no catálogo. A gazela encontrava-se
a uma distância de vinte e cinco unidades astronômicas desse sol e aproximava-se
do mesmo com uma velocidade residual de pouco menos de duzentos quilômetros por
segundo.
Chellich transmitiu esses dados a Suttney e
recebeu ordem para aumentar a velocidade. Do tipo espectral do sol concluía-se com
uma elevada dose de probabilidade que este possuía planetas. Suttney pretendia pousar
num desses mundos a fim de ver se era lugar seguro e prosseguir na execução de seu
plano.
No momento em que Chellich aumentou a velocidade
da gazela para 2.000 km/seg, seguindo as instruções de Suttney, Oliver Roane despertou
do estado de inconsciência. Suttney só parecia ter esperado por isso. Não deixou
que Roane se entregasse às recordações. Segurou-o pelo ombro, sacudiu-o e gritou:
— Acorde, seu idiota! Levante-se, pegue a pistola
e vigie Chellich!
Chellich ficou surpreso. Até então não percebera
que Suttney estivesse nervoso. Mas agora havia um tom de histerismo em sua voz.
Ao que parecia, tinha medo de que poderia perder alguma coisa, caso não conseguisse
imediatamente colocar Roane de pé. Dava a impressão de estar extremamente nervoso.
No momento em que soltou Roane, Chellich viu que suas mãos tremiam. Alguma coisa
“entrara” nele tão de repente que Chellich
não saberia dizer o que era.
Oliver Roane levantou-se lentamente. Parecia
incapaz de reconhecer os arredores. Percebia-se que Roane ainda não se recuperara
de todo. Teve de esforçar-se, a fim de permanecer de pé. Lançou um olhar desconfiado
para a pistola que Suttney colocara em sua mão.
Suttney endireitou seu corpo, fazendo com que
olhasse na direção em que se encontrava Chellich.
— Olhe! É Chellich! Cuide dele!
Roane resmungou alguma coisa que tanto poderia
exprimir concordância como aborrecimento. Mas mantinha-se firmemente de pé e apontava
a arma para Chellich. Este não se sentiu muito à vontade. Enquanto Roane não recuperasse
inteiramente o controle dos sentidos, poderia acontecer que apertasse o gatilho
sem querer.
Por alguns segundos, Suttney ficou parado ao
lado de Roane. Assim que este parecia ter compreendido o que queriam dele, atravessou
a sala de comando e dirigiu-se ao painel do hipertransmissor.
De repente Chellich compreendeu as intenções
de Suttney. Pretendia informar a frota arcônida estacionada nas proximidades de
Latin-Oor de que desejava que o viessem buscar, pois possuíam uma informação importante.
Chellich estremeceu, embora há muito tempo
soubesse que Suttney pretendia trair a Terra.
E a traição estava por pouco...
Tudo que viria depois seria de importância
secundária. Nesse instante, Suttney avisaria os arcônidas de que viera para dizer-lhes
aquilo que mais ansiavam por ouvir.
Suttney ligou o transmissor. Ele o fez com
movimentos rápidos e precisos, como se já os tivesse treinado muitas vezes. Assim
que o aparelho emitiu um zumbido, parou e olhou para Chellich.
Este sentiu-se tomado por uma raiva indomável.
— Seu traidor imundo! — gritou. — O que espera
ganhar com isso?
Suttney não respondeu. Virou-se apressadamente,
como se estivesse envergonhado de fitar Chellich. Em compensação Roane aproximou-se
em atitude ameaçadora. Chellich manteve-se calado e voltou a fitar seus instrumentos.
— Venham! — implorou. — Venham e destruam-nos
antes que Suttney...
Encostou os cotovelos ao painel e apoiou a
cabeça nas mãos. Fechou os olhos. Ouviu um estalido; Suttney estava preparando o
microfone atrás de suas costas. Ouviu o ruído de um pedaço de papel. Suttney havia
redigido sua mensagem por escrito.
Subitamente Suttney pigarreou. Chellich ouviu-o
respirar profundamente. Depois de algum tempo principiou:
— Atenção, todas as naves arcônidas! Aqui fala
Walter Suttney, um fugitivo do planeta Terra.
Seu arcônida era horrível, mas os súditos de
Árcon não deixariam de entendê-lo.
— Tenho uma informação para os senhores. Uma
informação importante, relativa à posição galáctica da Terra. Apressem-se, se estiverem
interessados nesta informação. Esta transmissão também está sendo captada por naves
terranas e as mesmas procurarão deter-me antes que possa transmitir-lhes as informações
a que acabo de aludir. Atenção, todas as naves arcônidas! Aqui fala Walter Suttney...
A mensagem foi repetida cinco vezes. Depois
Suttney manteve-se calado, mas respirava pesadamente, como se aquilo lhe tivesse
custado um esforço tremendo.
Gunter Chellich sabia sobre o que Suttney refletia
naquele instante. Sabia que havia naves arcônidas numa distância de apenas dezesseis
anos-luz. Uma hipermensagem percorre essa distância num tempo zero. E, a essa distância,
torna-se possível determinar a posição do transmissor com a precisão de um quilômetro.
As naves arcônidas eram unidades robotizadas. Reagiriam com a rapidez peculiar aos
robôs. Em outras palavras, partiriam imediatamente.
Estava tudo em ordem, desde que as naves terranas
não se encontrassem ainda mais próximas. Walter Suttney esperava que fosse assim,
mas não tinha certeza. Pelos seus cálculos, a unidade mais próxima da frota terrana
devia encontrar-se a cem anos-luz. A uma distância dessas, a localização goniométrica
de um transmissor pequeno como o da gazela seria extremamente difícil. Portanto,
caso uma nave terrana captasse a hipermensagem a uma distância de cem anos-luz não
teria certeza sobre se o transmissor deveria ser procurado no próprio sistema, ou
em algum outro vizinho.
Walter Suttney assim pensava. As naves terranas
não poderiam chegar em tempo, pois do contrário estaria perdido.
Depois de refletir prolongadamente, aproximou-se
de Roane. Assustou-se, quando Chellich lhe perguntou com a voz embargada:
— Por que fez isso, Suttney? O que espera ganhar?
Suttney parou. Via-se que a pergunta de Chellich
o surpreendera.
— O que espero ganhar? — perguntou em tom de
perplexidade. — Não pretendo ganhar coisa alguma. Não estou agindo assim para obter
alguma vantagem. O senhor já conhece minha opinião sobre o governo do Império Solar.
O regime deve ser derrubado, e se não conseguimos derrubá-lo com nossas próprias
forças, deveremos recorrer a um auxílio vindo de fora.
— E o senhor nem se interessa em saber quantas
pessoas são da mesma opinião que o senhor, não é? Pouco lhe importa que talvez seja
o único a acreditar nessa tolice.
Um sorriso condescendente surgiu no rosto de
Suttney.
— É claro que não. A verdade de uma afirmativa
não depende do número de pessoas que acreditam nela. Procure lembrar-se de Galileu.
— Não me venha com Galileu! — disse Chellich
em tom exaltado. — Aqui o caso é... completamente diferente. O senhor não pode trair
a Terra e entregá-la aos arcônidas, apenas porque não concorda com os métodos de
governo aplicados por Rhodan.
— Posso, sim — respondeu Suttney. Ao que parecia
a discussão lhe restituíra a autoconfiança. — Não vê que já comecei?
— E o senhor sabe o que acontecerá depois?
Os arcônidas atacarão a Terra. E a Terra se defenderá. Haverá uma guerra como a
Galáxia nunca viu igual. Pouco importa quem seja o vencedor, pois o resultado será
a miséria dos povos.
— Mas a liberdade voltará a reinar na Terra!
— retrucou Suttney em tom fanático.
Chellich suspirou.
— Ora, seu imbecil! O senhor está é doente.
Suponhamos que os arcônidas subjuguem a Terra. O senhor prefere ser governado pelo
computador-regente?
— O computador não priva seus súditos da liberdade
individual — respondeu Suttney com a voz tranqüila.
Chellich fez um gesto de enfado e voltou a
dedicar-se ao trabalho. Sabia que não adiantaria empenhar-se em discussões sobre
coisas nas quais Suttney acreditava há mais de cinco anos.
Leu as indicações fornecidas pelo rastreador
de matéria e constatou que este registrara a presença de três planetas. Os mesmos
percorriam órbitas situadas a 0,6, 2,8 e 10,3 unidades astronômicas do respectivo
sol. A idéia de que nenhum deles poderia oferecer condições semelhantes às da Terra
deixou Chellich satisfeito.
O volume de radiações do sol, que tinham diante
de si, era praticamente idêntico ao do sol terrano. O mundo interior seria uma bola
de fogo, mais quente que Vênus, enquanto os dois planetas externos seriam mais frios
que Marte.
Nesse sistema não havia nenhum lugar que convidasse
a um pouso. E, quanto mais a gazela demorasse no espaço, maior seria a chance de
que as naves terranas conseguissem capturá-la, antes que Suttney pudesse concretizar
a traição que tinha em mente.
* * *
A frota terrana entrou em formação.
Três minutos depois da descoberta de Horace
O. Mullon, foi localizado o segundo ponto da transição, que acabara de produzir
o campo energético. Por enquanto ninguém conhecia a identidade do veículo espacial
que havia sido atingido pelo goniômetro. Mas a circunstância de que o goniômetro
de compensação da Drusus reagira ao mesmo, enquanto o rastreador estrutural permaneceu
em silêncio, constituía indício seguro de que se tratava de uma nave terrana, uma
vez que os arcônidas ainda não conheciam o neutralizador de vibrações.
O indício bastou para que toda a frota empenhada
na operação de busca desenvolvesse uma atividade febril. Numa mensagem circular,
transmitida pelo telecomunicador, Perry Rhodan colocou a frota em rigoroso alarma
e ordenou aos comandantes das unidades que se dirigissem o mais depressa possível
ao ponto determinado pelo goniômetro.
A própria Drusus nem perdeu tempo para recolher
suas naves auxiliares. Partiu imediatamente. As gazelas receberam instruções para
segui-la o mais rápido possível. Já os girinos, que não dispunham de hiperpropulsores,
deveriam permanecer no lugar onde se encontravam e aguardar o retorno da nave-mãe.
Uns quinze minutos depois de realizada a localização,
a Drusus emergiu do hiperespaço a dez minutos-luz do ponto determinado. Ainda chegou
em tempo de registrar a mensagem que Walter Suttney dirigiu à frota robotizada de
Árcon, estacionada nas proximidades de Latin-Oor. Segundos depois, a velocidade
remanescente da gigantesca nave foi neutralizada pelas máquinas potentes. Movida
apenas pela gravitação do sol amarelo, a Drusus manteve-se quase imóvel no espaço.
No interior da nave reinava uma tensão febril.
Perry Rhodan anunciara que a qualquer momento se deveria contar com a chegada de
uma frota arcônida.
As naves terranas foram surgindo em torno do
ponto prefixado. Anunciaram sua presença por meio de ligeiros sinais goniométricos,
que nada revelariam a Suttney e seus cúmplices, mesmo que estes por acaso mantivessem
ligados seus receptores.
A gazela ainda não havia sido localizada. No
momento em que Suttney transmitiu a mensagem, sua posição era conhecida. Mas não
se sabia para onde se deslocara. O objeto era muito pequeno para ser localizado
por meio do rastreador de matéria. Os campos gravitacionais, provenientes do sol
e de seus planetas, sobrepunham-se ao da gazela.
Perry Rhodan acreditava que, conforme anunciara,
Walter Suttney passaria a transmitir sinais goniométricos, assim que a gazela se
colocasse em posição de espera. Esses sinais seriam irradiados por meio da antena
direcional.
Não havia dúvida de que Suttney escolhera o
lugar por saber que a frota arcônida estacionada nas proximidades de Latin-Oor se
encontrava a apenas dezesseis anos-luz de distância. Acontece que qualquer transmissão
realizada por meio de antena direcional produz campos secundários, que podem ser
captados a grande distância por aparelhos sensíveis, permitindo a localização goniométrica
do transmissor.
As unidades da frota terrana foram dispostas
de tal maneira que os arcônidas estariam cercados de naves terranas, fosse qual
fosse o lugar em que aparecessem. Na opinião de Perry Rhodan essa posição era a
mais favorável. Sabia que a frota arcônida era composta de cerca de quatro mil unidades.
Tinha uma superioridade de quatro para três em relação às forças terranas. E, para
aguardar um inimigo mais forte, as naves não devem ficar espalhadas pelo espaço.
Deve-se entrar numa formação que permita a compensação da superioridade, ao menos
nos primeiros momentos do confronto.
Caso naquele instante alguém perguntasse se
Perry Rhodan esperava ter de lutar pela gazela ou pelas informações relativas à
posição galáctica da Terra, ele não saberia responder. Não sabia quanto valiam esses
dados para o computador-regente de Árcon. Era possível que ansiava tanto pelos mesmos
que não recuaria nem sequer diante da perspectiva de um ataque à frota terrana.
De qualquer maneira convinha estar preparado.
Face à agitação que reinava no interior da
gigantesca Drusus, ninguém se interessara por Horace O. Mullon. Este permanecia
deitado junto à poltrona, totalmente exausto. Dera tudo que suas forças lhe permitiam.
Só depois que a Drusus se imobilizou, os enfermeiros recolheram o homem inconsciente
e levaram-no ao hospital. Horace O. Mullon recebeu uma injeção que restabeleceu
o equilíbrio energético de seu organismo e transformou o estado de inconsciência
num sono profundo e repousante.
Isso aconteceu no momento exato em que foi
registrada a primeira série dos abalos estruturais causados pelas naves arcônidas.
Esses abalos vinham de uma distância de dezesseis anos-luz e ainda não haviam cessado,
quando nas imediações houve outra série de abalos, que causou nos rastreadores estruturais
um ribombar semelhante ao de uma trovoada. Cada abalo causava um forte ruído no
rastreador estrutural. Na seção em que ficavam os aparelhos de localização, o pessoal
viu-se obrigado a fechar a grade sonora, a fim de não ficar exposto ao contínuo
ribombar, estalar e crepitar.
Depois de vinte minutos o ruído começou a diminuir.
Contaram-se quatro mil cento e quinze abalos. Era o número de naves da frota robotizada
de Árcon. A mesma reagira imediatamente ao chamado de Suttney.
Na tela da Drusus, alguns pontos luminosos
amarelos passaram a destacar-se contra o fundo cintilante do oceano de estrelas.
Eram as naves arcônidas mais próximas ao supercouraçado de Perry Rhodan.
As telas dos arcônidas deviam exibir o mesmo
quadro. Como eles, ou as tropas auxiliares de outras raças, não ficariam surpresos
ao constatar que haviam, emergido em meio a uma frota terrana preparada para o combate.
Acreditariam que o chamado de Suttney era apenas
uma armadilha?
Nesse momento teve início a espera ansiosa
a bordo das naves terranas. Enquanto isso, Horace O. Mullon recuperava as forças
num profundo sono.
* * *
Por ordem de Suttney, Gunter Chellich aumentou
a velocidade da gazela em cinqüenta vezes. O barco espacial aproximava-se do planeta
interior do sistema a 100.000 km/seg. Suttney escolhera esse planeta como campo
de pouso. Chellich ponderara que o lugar seria bastante desagradável, com uma temperatura
diurna média de setenta graus centígrados. Mas Suttney sabia tão bem quanto o tenente
que no espaço aberto um veículo espacial teria poucas possibilidades de esconder-se.
Preferia pousar num planeta escaldante a ser aprisionado pelas naves terranas.
Chellich incumbiu-se de dar um nome ao sistema
e ao planeta. Não falara a este respeito, pois Suttney não estaria disposto a receber
de um prisioneiro sugestões relativas a um ato de batismo. Para Gunter Chellich,
o sol seria chamado de Calígula, enquanto o planeta interior teria o nome de Tântalo.
Não procurou enganar-se a si mesmo. Ao dar o nome de Calígula ao sol, pensava em
Ronson Lauer, cujo caráter apresentava numerosos pontos de semelhança com os do
imperador romano, embora sua fantasia fosse outra; e, ao designar o planeta pelo
nome de Tântalo, apenas exprimia o desejo de que o Calígula moderno, que naquele
momento cuidava das feridas num dos camarotes da nave, não tivesse melhor sorte
que a do homem que usara o mesmo nome.
Depois de ter discutido com Chellich os motivos
da traição que estava cometendo, Walter Suttney via-se mergulhado numa estranha
rigidez. Chellich não entreteve a esperança de que, como resultado de uma reflexão
prolongada, surgiria a decisão de desistir do plano infame. Na opinião de Chellich,
Suttney enfrentava a situação de um homem que está firmemente decidido a cometer
um homicídio. Porém, no último instante, se assusta diante da gravidade do ato.
Mas isso talvez não o impediria de assassinar alguém — ou, no caso de Suttney, de
cometer a traição.
Oliver Roane assumiu a mesma atitude do chefe:
manteve-se calmo. Só que em Roane a calma não tinha sua origem na reflexão. Não
tinha muita coisa com que pudesse refletir. Para ele, a atividade mais agradável
consistia em ficar sentado sem fazer nada.
Para Chellich, essa calma veio bem a propósito.
Ninguém se interessou pelos instrumentos de localização da gazela, que estavam desligados
e, por isso, não poderiam mostrar o que estava acontecendo no espaço. Chellich não
teve nada a objetar. As indicações dos aparelhos incutiriam em Suttney a suspeita
de que, além da frota arcônida, poderia haver mais algumas naves nas proximidades.
A fim de não tatear inteiramente no escuro,
Chellich procurou verificar se as telas mostravam qualquer alteração. Ele o conseguiu
pela primeira vez, quando começou a frear, a cinqüenta milhões de quilômetros de
Tântalo. Só mesmo quem tivesse uma vista bem treinada conseguiria distinguir os
pontinhos amarelos que surgiam de repente. Até mesmo Chellich não saberia dizer
onde estava a diferença. Mas tinha certeza de se tratar de naves. Por enquanto não
tinha condições de saber se eram naves terranas ou arcônidas.
Notou que as mesmas se mantinham praticamente
imóveis no espaço.
“Isso
acontece”, pensou, “porque não conseguem
constatar a presença da pequena gazela.”
Era difícil localizar um objeto pequeno num
espaço interplanetário. As interferências eram muito numerosas. As naves que se
encontravam por lá, fossem de quem fossem, dependeriam dos sinais goniométricos
de Suttney para encontrá-lo.
Chellich contou um total de trinta e cinco
pontos luminosos. Eram as naves que não se encontravam a mais de um milhão e meio
de quilômetros da gazela e, devido às suas posições, estavam sendo iluminadas pelo
sol Calígula. Devia haver muito mais que essas trinta e cinco naves — atrás dele,
à sua frente, a seu lado...
Era uma sensação estranha passar no meio de
uma grande formação de naves e fingir não ver mais que trinta e cinco pontos luminosos.
Tântalo entrou no campo de visão. Oferecia
um quadro fascinante ao transformar-se numa questão de minutos, em virtude da velocidade
elevada do barco espacial, de um ponto num círculo, de um círculo numa bola e de
uma bola numa imensa esfera amarelo-acinzentada, que, alguns segundos depois, cresceu
para além dos limites da tela.
Gunter Chellich fez a nave penetrar nas camadas
superiores da atmosfera. Modificou a rota e passou a deslocar-se em ângulo agudo
em relação à superfície do planeta. Enquanto isso, examinou o que se encontrava
abaixo dele. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que Tântalo praticamente
não apresentava qualquer divisão entre as porções de terra. De horizonte a horizonte,
tudo era amarelo-acinzentado. Em certos lugares dominava o cinza, em outros, o amarelo.
Chellich não conseguiu descobrir a causa do fenômeno. Durante os primeiros dez minutos
de observação, viu um único risco negro e reto, que atravessava o quadro na extensão
de algumas centenas de quilômetros. Provavelmente era uma cadeia de montanhas não
muito elevadas.
Subitamente alguém colocou-se a seu lado. Era
Walter Suttney. Não o vira chegar. Com Chellich, fitou a tela, e seus olhos exprimiam
uma profunda depressão.
— É um deserto — disse decepcionado.
Chellich achou que Suttney tinha razão. Era
a única explicação que encontrava para a monotonia da superfície do planeta. Tântalo
era um deserto gigantesco, um gigantesco oceano de areia sobre o qual borbulhava
o ar superaquecido.
Os medidores automáticos revelaram os outros
dados relativos a Tântalo. O diâmetro do planeta era quase exatamente de dez mil
quilômetros, ou seja, um pouco menor que a Terra. O giro em torno de seu eixo durava
vinte e uma horas e cinco minutos e deslocava-se pela sua órbita a uma velocidade
de trinta e oito vírgula sete quilômetros por segundo. Sua atmosfera era composta
de sessenta e oito por cento de nitrogênio, vinte e nove por cento de oxigênio,
dois vírgula três por cento de argônio e zero vírgula sete por cento de dióxido
de carbono, hidrogênio e hélio. Concluía-se que o ar era respirável. Restava saber
se os pulmões suportariam o calor produzido pelo sol inclemente.
A sonda térmica constatou que a temperatura
da areia na superfície do planeta era de noventa e cinco graus centígrados.
— Olhe! — disse Suttney de repente. — Pouse
ali.
Na tela via-se um segundo traço negro. A gazela
deslocava-se a uma altitude de trinta quilômetros. Notava-se perfeitamente que o
traço negro era um conjunto de montanhas — de montanhas relativamente baixas. Era
um dos raros lugares onde se poderia encontrar uma sombra em Tântalo.
Gunter Chellich observou mais uma coisa. Viu
que a fronteira da face noturna ficava a poucas centenas de quilômetros das montanhas.
Dali a menos de uma hora, estaria escuro lá embaixo.
Chellich fez a nave auxiliar descrever uma
curva bem ampla e aproximou-se da cadeia de montanhas. Numa descida forte baixou
a quinhentos metros e constatou que a montanha mais alta mal e mal atingia essa
altura. Reduziu a velocidade e esperou que Suttney escolhesse o local de pouso.
— Isso pouco importa — disse Suttney em tom
de resignação. — Entre nesta fenda.
A fenda era um vale estreito e íngreme, que
separava duas montanhas. A entrada do vale era tão estreita que mal dava passagem
à gazela.
Chellich ficou satisfeito ao notar que o local
era bastante conveniente aos seus planos. Suttney sabia de que direção viriam as
naves arcônidas. Transmitiria o sinal goniométrico pela antena direcional, a fim
de evitar riscos. Mas, se transmitisse de dentro do vale, as ondas seriam refletidas
pelas encostas, e o efeito direcional da antena ficaria reduzido praticamente a
zero. Caso as naves terranas já se encontrassem nas proximidades, isso seria muito
importante.
Chellich fez a nave passar uns duzentos metros
acima do vale. Depois pousou cuidadosamente. Agiu como sempre costumava agir. Não
se sentiu o menor solavanco. Suttney virou-se.
— Roane! — disse em tom áspero. — Cuide dele.
Roane levantou-se e pegou a pistola.
Pela segunda vez, Suttney dirigiu-se ao painel
do hipertransmissor e ligou o aparelho.
* * *
Constatou-se que a frota arcônida emergiu do
hiperespaço em formação compacta. De repente surgiu no espaço o centro de um novo
campo de gravitação, cuja intensidade levava à conclusão de que era causado por
quatro mil naves de guerra que se mantinham bem próximas umas às outras.
Por meio de uma série de cálculos complicados,
realizados com extrema rapidez pelo computador positrônico, constatou-se que a frota
arcônida mantinha a formação usual. As naves deslocavam-se na face externa de uma
esfera cujo diâmetro não ultrapassava duzentos mil quilômetros. Em condições normais
esse tipo de formação seria bastante favorável. Mas aqui, que as unidades bem espalhadas
da frota terrana; aguardavam os arcônidas, não era.
O centro da esfera concluíra a transição a
uma distância de seis unidades astronômicas do astro central do sistema. As naves
arcônidas continuaram a deslocar-se em direção a esse sol a uma velocidade pouco
inferior a dez quilômetros por segundo. Logo se percebia que a confusão se instalara
entre elas. Não sabiam o que estava acontecendo em torno delas. Reconheceram alguns
pontos de luz projetados pelas naves terranas, da mesma forma que as telas destas
mostravam as naves arcônidas mais próximas.
Mas os arcônidas não tinham qualquer possibilidade
de avaliar o “tamanho” da frota inimiga.
As naves terranas estavam tão afastadas umas das outras que não poderiam gerar um
campo gravitacional digno de nota, e as tentativas de localização pela eco-sonda
do hiper-rádio falharam em virtude da absorção de energia causada pelos campos defensivos
das naves terranas.
Duas horas se passaram sem que acontecesse
nada de importante. Perry Rhodan achou que a melhor tática seria deixar os arcônidas
na incerteza. Com isso criaria confusão entre os tripulantes das naves e não forçaria
ao robô-comandante quaisquer informações que lhe permitissem elaborar um novo plano.
O mais estranho era a ausência total de mensagens
de rádio que prevaleceu durante essas duas horas. As naves terranas haviam sido
instruídas a manterem silêncio, a fim de que o inimigo não obtivesse qualquer indicação
que lhe permitisse calcular o número de naves da frota.
Já do lado dos arcônidas, o silêncio constituía
um sinal típico de que as naves eram comandadas pelos robôs. Entre esse tipo de
tripulante não havia qualquer espécie de discussão. Eram apenas receptores de ordens,
do chefe ao soldado raso.
Depois de mais de duas horas de espera, o silêncio
foi rompido. Walter Suttney começou a enviar sinais goniométricos. Nos setores de
rádio das naves terranas, todos começaram a suspirar aliviados.
Mas não só lá...
O fato de que Suttney estava transmitindo os
sinais combinados significava que não sabia da presença da frota terrana. Do contrário
teria esperado um momento favorável; nem pensaria em revelar sua posição. Isso facilitaria
as coisas. Rhodan sentiu-se aliviado. A espera martirizante havia chegado ao fim.
Transmitiu o sinal previamente combinado às
unidades de sua frota. As naves muito espalhadas puseram-se em marcha para concentrar-se
em torno do centro do sistema. Constatou-se que o transmissor estava situado no
planeta interior do sistema, que gravitava em torno de seu sol a uma distância média
de 0,6 unidades astronômicas, ou seja, 90 milhões de quilômetros.
De repente a imagem nas telas mudou.
Perry Rhodan fez questão de que agora, que
o momento da decisão estava próximo, o inimigo visse uma demonstração de sua força.
Os mecanismos propulsores das naves funcionavam com base em radiações de corpúsculos.
Repuxos luminosos incandescentes saíram dos gigantescos bocais e movimentaram as
imensas unidades da frota. O empuxo provocado pelos raios de corpúsculos era tremendo.
Milhares de pontos cintilantes surgiram nas telas.
Os arcônidas começaram a agir. A esfera que
até então formavam desmanchou-se. A frota arcônida entrou em formação reta e aberta
e também avançou em direção ao planeta interno do sistema.
Perry Rhodan deixou que o fizessem. Mas quando
sua nave, a Drusus, se encontrava a dez milhões de quilômetros do destino e a quinze
milhões de quilômetros das unidades mais próximas da frota arcônida, enviou uma
mensagem de rádio ao comandante de Árcon. Tinha certeza de que havia um comandante
orgânico, mesmo que este não comandasse nada, mas apenas recebesse ordens de um
robô.
Ao que tudo indicava o arcônida já aguardava
a chamada, pois a rapidez com que respondeu à mesma foi inacreditável. A suposição
de Rhodan, de que a bordo das naves arcônidas havia tropas auxiliares, revelou-se
correta. Poucos segundos depois de transmitida a mensagem, surgiu na tela o busto
de um metro e meio de um gigantesco naat, um ser de três olhos vindo do quinto mundo
do sistema de Árcon. O naat dirigiu os três olhos para Perry Rhodan. O crânio calvo
e esférico brilhava à luz das lâmpadas de gás incandescente, e a boca fina parecia
contorcida num sorriso ininterrupto. Rhodan sabia que na verdade aquilo não era
nenhum sorriso.
O naat esperou que Rhodan começasse a falar.
Este proferiu sua fala em arcônida, e num tom pouco convencional:
— É claro que não lhe posso proibir que mantenha
sua frota justamente neste sistema. Mas quero avisá-lo de que no planeta interior
pousou uma nave roubada com três desertores. Espero que não metam o dedo nisso.
A cabeça do naat executou um movimento automático
para o lado. Olhou para baixo, fitando alguma coisa que Rhodan não via. A expressão
“não meter os dedos” era usada tanto em
arcônida quanto em inglês. O naat estava olhando suas mãos, que não tinham dedos,
mas garras. Perry Rhodan conhecia os complexos de inferioridade de que sofriam as
raças dominadas pelo Império de Árcon.
— Alguém nos enviou um pedido de socorro —
respondeu o naat depois de contemplar as mãos por algum tempo. — E nunca recusamos
o socorro que nos é solicitado.
Aquilo não passava de uma desculpa esfarrapada.
Ao que parecia o naat ainda não recebera instruções de seu robô.
— Vamos ao que importa — disse Rhodan em tom
frio. — Ouvi o pedido de socorro. Foi transmitido pelos três desertores. Apenas
quero saber se está disposto a ficar fora disso ou não.
O naat voltou a olhar para baixo. Rhodan não
via nada, mas tinha certeza de que naquele instante um cartão seria expelido por
uma fenda, e nela o robô lhe diria o que devia responder.
— Agiremos de acordo com a situação — disse
o naat.
— Muito bem — “concordou” Rhodan. — Quero esclarecer mais uma coisa. Se qualquer de
suas naves se aproximar do planeta a uma distância inferior ao décuplo de seu diâmetro,
mandarei abrir fogo. Espero que tenha entendido. Não temos a intenção de permitir
que os senhores fiquem bisbilhotando os assuntos internos de nossa frota. Desligo.
Interrompeu a comunicação antes que o naat
pudesse esboçar uma resposta.
As naves continuaram a concentrar-se em torno
do alvo. Perry Rhodan ordenou aos seus comandantes que se mantivessem na mesma linha
que fora indicada aos arcônidas como limite de penetração. A cem mil quilômetros
da superfície do mundo desértico formou-se uma nuvem de espaçonaves, formada por
unidades terranas e arcônidas.
Mais uma vez, teve início a espera. Os sinais
goniométricos de Walter Suttney já não estavam sendo transmitidos.
A bordo da Drusus foi preparada a gazela, que
desceria à superfície do planeta e procuraria localizar os três desertores e o Tenente
Chellich.
* * *
Walter Suttney enviou seus sinais goniométricos
durante meia hora. Gunter Chellich tremia de excitação. Esperava que a qualquer
momento uma nave terrana descesse dos céus e parasse junto à entrada do vale.
Mas fez seus cálculos e chegou à conclusão
de que a reação não poderia ser tão rápida. Se o campo de vibrações energéticas
tivesse sido registrado por alguma nave terrana esta, se não estivesse a cinco mil
anos-luz de distância, conseguiria determinar com toda segurança o sistema solar
ao qual a gazela resolvera dirigir-se. Porém não seria capaz de saber em que ponto
do sistema se encontrava o veículo espacial.
Quem calculasse em termos de centenas ou mesmo
milhares de anos-luz muitas vezes se esquecia de que uma superfície de “apenas” quatro quatrilhões de quilômetros
quadrados, que era a de um sistema das classes menores, formava um território quase
infinito, no qual a gazela poderia esconder-se pelo tempo que quisesse. Depois de
penetrarem no sistema de Calígula, as naves terranas teriam de realizar uma operação
de busca de grandes proporções se quisessem localizar a nave desaparecida. E mesmo
que tivessem captado o sinal goniométrico de Suttney levariam algum tempo para realizar
as manobras de aproximação e pousar no planeta Tântalo.
Não; ainda era cedo para que a salvação pudesse
chegar. As naves terranas, mesmo que estivessem presentes, teriam seus movimentos
embaraçados pela frota arcônida, que sem dúvida faria tudo para não perder a chance
única de obter informações sobre a posição galáctica da Terra.
Gunter Chellich teve outra idéia. E se o grupo
de naves terranas de socorro chegasse à conclusão de que não estava em condições
de enfrentar as unidades arcônidas? O que fariam as mesmas para evitar que nas condições
de inferioridade em que se encontravam o segredo caísse nas mãos dos arcônidas?
A resposta era tão fácil e convincente que
qualquer pessoa se lembraria dela, inclusive o comandante espacial mais diretamente
interessado no assunto. Uma das naves terranas tentaria chegar antes dos arcônidas.
Desceria em direção a Tântalo, procuraria localizar a gazela e a destruiria.
Seria apenas isso. Uma bomba, ou uma salva
de desintegradores, e tudo estaria no fim.
Chellich combateu o mal-estar que começou a
sentir. Olhou instintivamente para o teto da sala de comando, como se através do
respectivo material pudesse reconhecer a nave terrana, que, naquele instante, se
preparava para lançar a bomba ou abrir o anteparo diante de um gigantesco canhão
de desintegração.
Não. Felizmente, mesmo para isso, ainda era
cedo. Ainda lhe restava algum tempo: uma ou duas horas. Depois, caso permanecesse
no interior da gazela, estaria praticamente morto.
Enquanto Chellich refletia sobre isso, Walter
Suttney desenvolvia uma atividade notável. Esteve lá fora. Chellich ouviu o zumbido
da escotilha. Ao voltar carregava sob o braço uma cassete de plástico pertencente
ao banco de dados. Chellich logo percebeu o que havia nela. Eram microfilmes que
permitiriam a apuração da posição galáctica da Terra. Além disso, Suttney colocara
um traje espacial. Estava prestes a abandonar a nave.
Foi seguido por Ronson Lauer, que também envergava
um traje espacial.
— Vá buscar um traje, Roane — ordenou Suttney.
Roane levantou-se e saiu. Chellich esforçou-se
para que seu rosto exprimisse espanto.
— Pretendem abandonar a nave?
Suttney limitou-se a acenar com a cabeça.
— Por quê?
Lauer soltou uma risada.
— Essa pergunta não é muito inteligente, Chellich.
Sabe lá o que fará uma nave terrana que se encontre nas proximidades, assim que
nos encontrar?
Chellich bancou o desentendido.
— Ela nos mandará pelos ares — prosseguiu Lauer.
— Dessa forma não poderemos revelar nada. Preferimos ver como estão as coisas lá
fora.
— Sente-se nervoso, não é? — perguntou Chellich
em tom irônico.
O rosto de Ronson Lauer contorceu-se numa careta
de deboche.
— Sempre estive, Chellich — confessou. — E
são muito bons.
Com um movimento rápido, tirou a arma. Chellich
saltou para o lado, mas logo percebeu que o ataque não se dirigia a ele. Lauer girou
sobre os calcanhares, numa pose de atirador de cinema, e dirigiu o raio expelido
pela arma para o grande painel que se encontrava do outro lado da sala de comando.
A energia concentrada cortou ao meio a placa de metal. O metal evaporou-se com um
chiado, afastou-se lentamente e condensou-se nas paredes. As lâminas de plástico
vitrificado estouravam e uma série de curtos-circuitos rugiu nos condutores embutidos
no painel. O pequeno recinto encheu-se de calor e mau cheiro. Um minuto depois,
o painel ficou danificado a tal ponto que ninguém poderia repará-lo.
Ronson Lauer virou-se. Sorriu. Ao que parecia,
o trabalho que acabara de fazer deixava-o muito satisfeito. Continuava a segurar
a pistola.
— Isto é para o senhor não acreditar que vamos
permitir que saia voando por aí — disse em tom de escárnio.
Chellich compreendeu o que queria dizer. Olhou
para Suttney, mas este esquivou-se ao olhar.
— Seu covarde! — disse Chellich em tom de desprezo
e voltou a dirigir-se a Lauer.
— Sua carreira chegou ao fim — disse Lauer
em tom dramático e muito satisfeito com a apresentação que estava proporcionando.
— Até aqui, o senhor nos tem causado muitos problemas. Agora terminou. Não pense
que quero matá-lo. Prefiro deixar que seus amigos da frota matem-no. Acho que eles
saberão cuidar muito bem do caso. Pois não sabem que o senhor ainda está na nave,
não é mesmo? Naturalmente! Não poderei permitir que fique nos espionando. O senhor
compreende?
Chellich quase não prestara atenção às palavras
de Lauer. Sabia o que estava para vir. Seu cérebro trabalhava febrilmente em busca
de uma saída. Não havia por perto nenhuma arma ou qualquer coisa de que pudesse
servir-se. Suttney encontrava-se junto à escotilha, e Ronson Lauer foi bastante
inteligente para manter-se a uns cinco metros de distância. Lentamente, como que
antegozando o prazer, ergueu a pistola e apontou-a para Chellich.
O tenente conteve a respiração e retesou os
músculos. Viu que Lauer apontava a arma para seu ombro. Quando teve a impressão
de que iria puxar o gatilho, deu um grande salto para o lado. O disparo passou por
ele e atingiu a parede. Por um instante Lauer ficou perplexo. E, nesse instante,
Chellich modificou a direção do salto e investiu sobre Ronson. Provavelmente essa
ação arrojada poderia surpreender um homem menos experimentado que Lauer. Mas este
apenas recuou um pouco e voltou a disparar antes que Chellich tivesse tempo de estender
o braço.
Gunter Chellich viu um raio...
Nem chegou a sentir dor. Alguma coisa o levantou
suavemente e carregou seu corpo pela infinita amplidão luminosa!
5
Na edição de 13 de outubro de 2.042, Terrânia
Times noticiou o seguinte:
Mais uma vez, temos oportunidade de examinar uma informação relativa
à concentração da frota terrana na área central da Via Láctea. Procuram apresentar-nos
a operação como se fosse uma simples manobra. Acontece que nossos elementos de confiança
informam que, além da frota terrana, um grupo de naves arcônidas surgiu nesse setor
do espaço. Ao que tudo indica, não se trata de uma manobra, mas, talvez, de uma
operação conjunta das duas frotas, dirigida contra um inimigo comum.
Pelo volume das forças empenhadas na operação, conclui-se que não se
trata de uma escaramuça galáctica de proporções corriqueiras. Ao que parece, um
perigo extraordinário surgiu nesse setor da Via Láctea. Trata-se de um perigo que
representa uma ameaça para os dois reinos galácticos, o dos arcônidas e o nosso.
Somos levados a supor que, ao oferecer ao público seu noticiário sobre
os acontecimentos que se desenrolam no centro da Galáxia, o Ministério das Informações
age no intuito de não perturbar nossa paz e tranqüilidade. No entanto, voltamos
a ressaltar aquilo que já ponderamos muitas vezes. Se quisermos esperar que os terranos
ajam com determinação e sangue-frio, devemos fazer com que os mesmos sejam devidamente
informados sobre todos os fatos importantes.
* * *
Quando Gunter Chellich voltou a si, admirou-se
de ainda estar vivo. A explosão ofuscante e silenciosa, a levitação num espaço luminoso
e sem fim...
Mas, de repente, já não havia nenhuma luz,
nem levitação. Estava escuro, seu corpo jazia sobre alguma coisa e uma dor cruciante
revolvia o lado direito do tronco.
De início, sentiu-se intrigado pela escuridão.
Depois lembrou-se de que Ronson Lauer destruíra o grande painel.
No momento em que a arma foi disparada contra
Chellich, ainda era dia lá fora, e as telas, que não estavam ligadas ao painel,
traziam a luz para dentro da nave, como se fossem enormes janelas. Mas agora era
noite. Do lugar em que se encontrava, na tela panorâmica só se via um brilho cinzento,
quase imperceptível.
Gunter Chellich sabia o que lhe tinha acontecido.
Ainda se lembrava de que Suttney, Lauer e Roane
pretendiam abandonar a nave. Mas levou alguns minutos para descobrir por que pretendiam
agir assim.
Perigo! Um perigo o ameaçava! A primeira espaçonave
terrana que avistasse a gazela a destruiria sem a menor hesitação.
Essa idéia o despertou de todo. Procurou esquecer
a dor martirizante que sentia nos quadris e encostou o relógio de pulso aos olhos.
Sabia que, quando Lauer disparou contra ele, eram oito horas e quarenta minutos,
tempo terrano. Agora eram nove e quinze. Ficara inconsciente por mais de meia hora.
Teria de sair da nave o mais depressa possível.
A escotilha estava aberta. Depois da destruição
do painel principal, já não havia energia que pudesse fechá-la. Chellich lembrou-se
de que as duas escotilhas da comporta também deviam estar abertas. Concluiu que
estava respirando o ar de Tântalo e não notara qualquer diferença, e não parecia
fazer muito calor.
“Não
é de admirar”, pensou no mesmo instante. “Tântalo deve possuir um clima acentuadamente continental. De noite o frio
é miserável, enquanto de dia faz um tremendo calor.”
Tropeçou pelo corredor e parou à frente do
armário no qual eram guardados os trajes espaciais. Estava vazio. Os trajes estavam
espalhados pelo chão. Chellich apalpou-os e constatou que todos haviam sido inutilizados.
Em cada um deles havia um buraco. Não lhe tinham deixado a menor chance.
Cego de cólera, continuou a cambalear em direção
à comporta.
A escotilha externa estava a apenas um metro
acima do solo. Chellich saltou e...
A perna direita não conseguiu absorver o impacto.
Caiu com o rosto na areia. Deitou sobre o lado esquerdo e, ao levantar, apoiou o
peso do corpo sobre a perna esquerda. Conseguiu erguer-se.
A areia estava morna. Ainda não pudera irradiar
o calor do sol. Por algumas horas armazenaria o calor. Mas não havia a menor dúvida
de que ao amanhecer o frio seria intenso.
Chellich olhou em torno. O céu espalhava um
brilho leitoso, que lhe permitia orientar-se pela vista.
Examinou seu corpo. O quadril direito estava
reduzido a uma massa dura e quebradiça, feita de plástico; a fazenda chamuscada
e a carne queimada. Ao que parecia, o tiro disparado por Ronson Lauer só o atingira
de raspão. Mesmo assim, as dores eram terríveis. Chellich cerrou os dentes.
Examinou o solo e encontrou a pista de Suttney
e seus cúmplices. Ao notar que se haviam dirigido para dentro do vale e pretendiam
esconder-se num lugar em que havia sombra, sentiu-se alegre.
Chellich seguiu a pista. Procurou forçar o
menos possível a perna direita, e passou a apoiar-se mais na esquerda. Alguns minutos
depois, percebeu que esta também já não estava agüentando o peso do corpo. Começou
a doer. Dessa forma, não conseguiria andar muito depressa. De qualquer maneira,
avançaria mais devagar que Suttney, Lauer e Roane.
Acontece que, nesse meio tempo, sua raiva atingira
um estágio em que os argumentos racionais não tinham lugar.
“Tenho
de alcançá-los”, pensou.
* * *
Às oito horas e cinqüenta e cinco minutos,
tempo de bordo, a estação de observação do couraçado Barbarossa constatou que um
minúsculo barco espacial se desprendia de uma das naves arcônidas estacionadas nas
proximidades. O veículo ultrapassou o limite fixado por Perry Rhodan e se aproximava
do planeta. Naturalmente pretendia dar busca ou mesmo pousar ali.
O General Deringhouse, comandante da Barbarossa,
não perdeu tempo. Fez exatamente aquilo que Perry Rhodan recomendara.
O primeiro tiro foi disparado quando a nave
auxiliar se encontrava a setenta mil quilômetros da Barbarossa. Os canhões do costado
também abriram fogo e um feixe de raios energéticos estendeu-se em direção ao pequeno
veículo espacial.
Enquadrada na mira, a nave desapareceu numa
explosão fulgurante e silenciosa. Os canhões da Barbarossa voltaram a silenciar.
Os homens ficaram atentos aos aparelhos de hiper-rádio, procurando descobrir a reação
dos arcônidas. Mas nada aconteceu.
Meia hora depois de ter sido derrubada a nave
auxiliar, os arcônidas ainda não haviam respondido ao tiro. Numa gazela integralmente
tripulada, Perry Rhodan decolou da Drusus. O General Deringhouse assumiu o comando
de toda a frota, inclusive da nave capitania.
* * *
Ronson Lauer deixou que o amplo feixe de luz
de sua lanterna brincasse sobre a rocha. De repente descobriu a fenda estreita que
se abria metro e meio acima do solo e penetrava na parede de rocha. Aproximou-se
e percebeu que o caminho subia suavemente. Ao que parecia, levava para o platô.
Lançou um olhar indagador para Suttney. Este
fez um gesto para Roane. Roane foi o primeiro a penetrar na fenda. Assim que entrou,
ajudou Suttney, que levava a carga pesada da cassete. Ronson Lauer foi o último.
Apesar do microtransmissor que trazia pendurado ao pescoço, movia-se com bastante
agilidade. Uma vez na fenda, voltou a colocar-se na ponta do grupo e iluminou o
caminho.
Subitamente Ronson Lauer notou que o sistema
de condicionamento de seu traje espacial trabalhava em outra “tonalidade”. Olhou para o termômetro de pulso
e viu que a temperatura externa era de quarenta e um graus centígrados.
Enquanto caminhava pé ante pé prestando atenção
à presença eventual de animais perigosos, embora já não acreditasse que nesse mundo
existisse vida, ficou refletindo sobre se haviam agido acertadamente ao abandonar
a gazela. Concordava com Suttney, segundo o qual toda e qualquer nave terrana que
destruísse o barco espacial, mataria o tenente.
Restava saber se existia qualquer veículo espacial
terrano nas proximidades. Ninguém poderia saber que estavam ali. Lauer achou tão
improvável que no momento em que Suttney irradiava a mensagem destinada aos arcônidas
houvesse uma nave terrana num raio de cem anos-luz que nem sequer cogitou seriamente
dessa possibilidade. Era claro que a transmissão de Suttney também fora captada
pelas naves terranas. Mas as mesmas deviam estar tão longe que levariam alguns dias
para encontrar o sistema em que se encontrava a gazela.
Concluiu que, ao fugirem da gazela, agiram
precipitadamente.
Teria sido mais confortável permanecer numa
poltrona e aguardar a chegada de um arcônida.
No momento em que se virava para sugerir a
Suttney que regressassem à nave, alguma coisa aconteceu acima dele. De início, apenas
viu um raio ofuscante cuja luz penetrou na fenda. Lauer olhou fixamente para o céu
e viu uma chuva de pontinhos reluzentes que saía de algum lugar do zênite e, depois
de espalhar-se para todos os lados, caiu em direção à superfície.
Esqueceu-se do que pretendia dizer e saiu correndo.
Fungando, foi subindo pela fenda sem dar a menor atenção a Suttney e Roane. Com
alguma dificuldade, chegou ao platô.
Neste meio tempo, os pontinhos reluzentes já
haviam chegado mais perto. Subitamente algo desceu, assobiando, e com um forte estrondo
caiu um pouco afastado do lugar em que se encontravam, enterrando-se no chão arenoso.
À luz crepuscular da noite, Lauer viu uma nuvem de pó erguer-se e descer lentamente.
Sentiu um forte solavanco na rocha sobre a qual estava parado.
Voltou a erguer os olhos e notou que os pontos
reluzentes haviam desaparecido. Deviam ter caído ao solo em outro lugar. Ronson
Lauer ouviu alguém respirar pesadamente às suas costas. Nem olhou para trás a fim
de ver se era Roane ou Suttney. Saiu correndo em direção ao lugar em que a coisa
estranha havia penetrado no solo.
O platô era totalmente plano, e a cratera,
que o objeto caído do céu abrira no chão, tornava-se bem visível. Lauer viu que
era circular e tinha um diâmetro de cerca de quatro metros. Sua profundidade era
a mesma.
Não conseguiu ver o objeto que havia aberto
a mesma!
Lauer desceu na cratera. A areia movimentou-se
e Lauer começou a escorregar. Ao chegar ao fundo da cratera, Lauer estava envolto
numa nuvem de pó. Tirou o microtransmissor de cima do ombro e atirou-o ao chão.
Começou a cavar a areia com as mãos enluvadas.
Era um trabalho penoso, ainda mais que a areia
estava quente. Depois de meia hora, quando, apesar das luvas, tinha as mãos cobertas
de bolhas provocadas por queimaduras, Lauer atingiu um lugar em que a areia derretida
se aglomerara num torrão. Tirou o torrão e jogou-o para o lado. Embaixo dele, surgiu
uma peça entrecortada e retorcida de metal plastificado, que estendia uma ponta
espinhosa para Ronson.
Cautelosamente Lauer foi pegando a ponta. Procurou
segurá-la para tirar a peça de metal de baixo da areia. Mas mal tocou o material
soltou um grito de dor. A temperatura do metal plastificado era de pelo menos quinhentos
graus.
Lauer recuou um pouco e ligou a lanterna. Deixou
o raio deslizar centímetro por centímetro pela ponta metálica. Aquilo evocava alguma
coisa em sua mente. Tinha certeza de que logo se lembraria do que era caso o visse
no seu estado original, isto é, antes de ser deformado pelo calor.
Subitamente ouviu a voz de Suttney no receptor
de capacete. Parecia deprimida e desesperada:
— É a coluna de direção de uma nave auxiliar
arcônida...
Lauer compreendeu imediatamente que Suttney
tinha razão. Era isso mesmo: uma coluna de direção. Lembrou-se do aspecto da mesma,
que lhe fora transmitido por meio de treinamento hipnótico. Era um tubo de plástico
com várias saliências que continham os diversos controles do barco arcônida. As
saliências já não existiam mais; derreteram-se. E o resto se deformara. Mas a observação
de Suttney era correta.
Ronson Lauer subiu, totalmente perplexo. Pendurou
o microtransmissor no ombro. Não sabia explicar como a coluna de direção de um barco
arcônida viera parar na superfície desértica desse planeta.
Walter Suttney encontrava-se na borda da cratera.
Oliver Roane ainda não havia chegado. Lauer viu-o caminhando pelo platô.
— Quer dizer que acabaram chegando mesmo —
disse Suttney em voz tão baixa como se estivesse falando num solilóquio.
— Quem? — perguntou Lauer. — Os arcônidas?
— Estes também vieram. Mas eu me refiro aos
terranos.
Lauer respirava nervosamente.
— Quer dizer que você acha que eles derrubaram
um barco arcônida?
— É claro que sim. O que poderia ser?
Lauer continuava a olhar a cratera com uma
expressão de incredulidade. Depois lançou os olhos para o céu escuro, como se pudesse
avistar as naves terranas e arcônidas.
— Prepare o microtransmissor! — exclamou Suttney
de repente.
Lauer virou-se abruptamente.
— Por quê? — perguntou. — Não venha me dizer
que você pretende...
— Vamos logo! — insistiu Suttney. — Não podemos
perder tempo. Daqui a algumas horas, nossa gente nos encontrará.
Lauer ficou furioso.
— Que diabo você quer que eu faça com o microtransmissor?
— gritou.
— Vamos dizer aos arcônidas tudo que sabemos
a respeito da posição da Terra; antes que seja tarde.
Por um instante, Lauer ficou perplexo. Roane
também parecia ter perdido a fala.
— Será que você ficou maluco, Walter? — questionava
Lauer depois de algum tempo. — Se o transmissor der um pio, eles nos localizarão
e dentro de três minutos estaremos mortos.
— Três minutos são suficientes para que os
arcônidas saibam onde encontrar a Terra — respondeu Suttney em tom sério.
— E nós? O que teremos a ganhar se os arcônidas
sabem disso?
Subitamente a voz de Suttney assumiu uma tonalidade
irônica.
— Ronson, você não é um revolucionario? Você
jurou que iria destruir Perry Rhodan, custasse o que custasse. Pois bem. Rhodan
estará destruído no momento em que os arcônidas conseguirem encontrar a Terra. Por
que perder tempo? Será que sua vida lhe vale mais que o bem-estar da humanidade?
Ronson Lauer ficou sem fôlego.
— Não conte comigo — disse.
Suttney segurou as cassetes de microfilme sob
o braço esquerdo. Respondeu sem fazer o menor movimento:
— Você prometeu obedecer às minhas ordens,
Ronson. E é exatamente o que você vai fazer. Prepare o microtransmissor e passe-o
às minhas mãos.
— Não! — gritou Lauer.
— Faça o que estou dizendo, senão...
— Senão o quê?
Walter Suttney não soube avaliar corretamente
a situação. Acreditava que teria tempo para colocar a cassete cuidadosamente no
chão e puxar a arma. Com isso Ronson Lauer pôde agir com uma facilidade verdadeiramente
ridícula. Quando Suttney ainda se erguia, já estava com a pistola destravada na
mão. Levantou-a e disse em tom de desprezo:
— Seu imbecil!
E disparou duas vezes.
* * *
Quando ocorreu a explosão no espaço, Gunter
Chellich ainda se encontrava a algumas centenas de metros do fundo do vale. Soube
interpretar corretamente o fenômeno. A idéia de que as naves terranas haviam chegado
infundiu-lhe novo ânimo para prosseguir na difícil marcha.
Depois de algum tempo, atingiu a encosta que
fechava o fundo do vale e encontrou a fenda. Não saberia dizer com certeza se Roane,
Suttney e Lauer haviam passado pela mesma, mas como sua pista terminasse embaixo
do lugar em que ela começava e não prosseguia em qualquer lugar, convenceu-se de
que devia ser assim. Puxou o corpo para cima. O esforço fez com que as dores nos
quadris começassem de novo, motivo por que ficou deitado por alguns minutos na rocha.
Assim que sua respiração se tornou mais tranqüila,
procurou ouvir o que se passava na escuridão. Era claro que Suttney e seus companheiros
deviam tê-lo deixado bem atrás, desde que tivessem caminhado ininterruptamente.
Mas também era possível que se encontrassem mais adiante, no interior da fenda,
aguardando os acontecimentos.
Não ouviu nada. Por isso levantou-se e foi
adiante. No interior da fenda o calor era intenso e o ar abafado. Depois dos primeiros
cinco passos, seu rosto ficou banhado em suor. Encostou-se à rocha para descansar
um pouco, mas esta era ainda mais quente que o ar.
Foi andando e lançou os olhos para a frente,
na esperança de que a fenda terminasse logo e o levasse ao terreno aberto.
Subitamente ouviu um zumbido e um chiado às
suas costas. Ficou tão surpreso com o ruído, que lhe era tão familiar, que a alegria
dolorosa o fez escorregar e cair ao chão quente. O ruído cresceu e fez a rocha estremecer.
Chellich começou a gritar de alegria e na esperança absurda de conseguir fazer-se
ouvir. Mas seu grito foi sufocado pelo chiado que subitamente se misturou ao zumbido
agudo dos mecanismos propulsores. Dali a alguns segundos, uma ofuscante luz branco-azulada
encheu a fenda, e um instante depois o ribombar de uma tremenda explosão envolveu
Chellich.
Este não conseguiu ver a sombra da gazela que
passou rente ao platô. Sentiu-se ofuscado. A luz fulgurante da explosão da nave
auxiliar em que uma hora antes estivera deitado, inconsciente, desenhava-lhe anéis
coloridos e saltitantes diante dos olhos. Tateou em torno e encontrou uma saliência
na rocha quente. Puxou-se para cima. Cambaleante e desiludido, continuou a subir.
Haviam destruído a nave auxiliar, conforme
era esperado. Sentiu-se amargurado com a idéia de que não tiveram a menor consideração
com ele. Se Ronson Lauer o tivesse amarrado na sala de comando, não estaria mais
vivo.
É claro que não poderiam ter consideração por
ele. O que significava a vida de um ser humano, quando o destino da Terra estava
em jogo? Talvez também acreditavam que tivesse encontrado um meio de colocar-se
em segurança.
Fosse como fosse, haviam chegado. Passaram
pouco acima de sua cabeça. Se tivesse um aparelho de rádio, poderia ter dado um
sinal de sua presença.
A esta hora, estariam pousando nas proximidades
a fim de verificar se Suttney, Lauer e Roane haviam abandonado a gazela antes da
explosão. Se tivesse sorte poderia encontrar sua nave na manhã do dia seguinte,
assim que a escuridão desaparecesse.
Prosseguiu na esperança de que, dentro de algumas
horas, estaria em lugar seguro, numa cama, tendo ao seu lado um médico gentil que
lhe desse um tratamento suave.
Chegou ao platô. Refletiu se devia sentar na
areia e esperar ou se seria preferível seguir a pista de Suttney, Lauer e Roane.
O platô desenhava-se nitidamente à luz das estrelas. Via a pista numa extensão de
quinhentos metros.
Depois de algum tempo, resolveu segui-la. Era
possível que os ocupantes da gazela não tivessem a menor idéia de onde se encontravam
os três desertores. Quando o localizassem, ele poderia dizer-lhes.
Dali a alguns minutos, viu duas manchas escuras,
uma grande e outra pequena.
Ao aproximar-se, verificou que a mancha grande
era uma cratera, enquanto a mancha pequena era o corpo de Walter Suttney. Tinha
uma ferida feia e profunda no peito e seus olhos vidrados estavam arregalados atrás
da lâmina transparente do capacete, em direção ao céu noturno.
Gunter Chellich não soube imaginar o que teria
acontecido. Era bem verdade que julgava Ronson Lauer capaz de matar qualquer um
desde que isso lhe fosse conveniente, mas não conseguiu atinar com qualquer motivo
que numa situação como esta pudesse explicar um homicídio.
Empurrou o cadáver de Suttney até a borda da
cratera e deixou que descesse ao fundo da mesma. Quando o vento enchesse a cratera
de areia, a mesma seria uma espécie de túmulo.
Depois Chellich prosseguiu na sua caminhada.
* * *
Subitamente o céu noturno ficou repleto de
gazelas elípticas. Perry Rhodan as chamara, uma vez descoberta e destruída a nave
desaparecida.
Não tivera a menor dificuldade em descobrir
o veículo espacial. A gazela de Suttney era praticamente a única peça de metal que
se encontrava na superfície do planeta. Perry Rhodan avançou em direção ao lugar
do qual provinham os primeiros reflexos do localizador de microondas e logo encontrou
aquilo que estava procurando.
No entanto, estava convencido de que Walter
Suttney fora bastante inteligente para abandonar a nave. E era bastante provável
que não tivesse saído da área de perigo de mãos vazias. As informações relativas
à posição galáctica da Terra caberiam perfeitamente numa caixa em forma de cubo
com dez centímetros de aresta. Provavelmente Suttney mantinha os microfilmes em
lugar de fácil acesso e os levara. Ao menos deviam contar com essa possibilidade.
A gazela foi encontrada num desfiladeiro que
penetrava dois quilômetros montanha adentro, na direção leste. Caso Suttney e seus
comparsas tivessem abandonado o barco espacial, certamente teriam avançado para
o leste, ou seja, em direção às montanhas. A leste do desfiladeiro ficava um platô
onde a visão era ampla. Os fugitivos não poderiam esconder-se no mesmo. Já deveriam
tê-lo atravessado, ou então se haviam dirigido para a borda da superfície plana,
situada ao norte ou ao sul.
Perry Rhodan convocara as gazelas para bloquear
essa parte do complexo montanhoso. Ordenou-lhes que pousassem no pé da cadeia montanhosa.
A gazela de Rhodan ficou à espreita na extremidade leste do platô. Só depois disso
se poderia afirmar com segurança que Suttney e Roane se encontravam numa armadilha,
vivos ou mortos.
Perry Rhodan procurou entrar em contato com
Walter Suttney pelo telecomunicador. Expediu a seguinte mensagem:
— Aqui fala Rhodan! Responda, Suttney!
A partir do raiar do dia estas palavras foram
irradiadas ininterruptamente pelo éter.
* * *
— Desça por aqui! — fungou Lauer. — Que diabo!
Ande mais depressa!
A lerdeza de Roane começava a enervá-lo. Deu-lhe
um pontapé nas costas, fazendo com que seu corpo descesse pela rocha mais depressa
do que pretendia. Uma vez lá embaixo, Roane ficou deitado, gemendo.
Lauer seguiu-o agilmente. Além do microcomunicador
carregava a cassete com os microfilmes. Apesar disso, caminhava com uma extraordinária
destreza.
Haviam visto a luz da explosão que destruíra
a gazela. Encontravam-se num esconderijo seguro, na extremidade leste do platô,
quando viram a nave de Perry Rhodan passar pouco acima da superfície. Dali a alguns
minutos, viram uma esquadrilha de gazelas que desceu do céu noturno e desapareceu
além dos cumes montanhosos.
Ronson Lauer avaliou corretamente a situação.
Estavam numa armadilha. Na extremidade leste do platô, a encosta rochosa e íngreme
descia para um vale largo e arenoso. Na encosta havia numerosos esconderijos. Ronson
Lauer sabia perfeitamente que seria inútil prosseguir na marcha.
Sentados naquele lugar, viram o céu clarear
aos poucos. Os homens de Rhodan não demorariam a iniciar as buscas. E procurariam
no lugar em que a rocha oferecia bons esconderijos. Não levariam mais de três dias
para encontrá-los.
Então era isso. Seu caminho terminara num planeta
seco e poeirento, que nem sequer tinha um nome.
Ronson Lauer sentiu-se furioso.
Que malditos idiotas eram os arcônidas! Por
que não vieram mais depressa? Nesse caso a esta hora ele e Roane estariam sentados
num camarote confortável, onde lhes seria dispensado um tratamento respeitoso, enquanto
apresentavam a algum comandante arcônida o segredo roubado a Rhodan.
No entanto, estavam sentados em meio a uma
série de rochas marrom-amarelas, esperando que o sol nascesse e que os homens de
Rhodan os encontrassem.
Salvo se...
Subitamente Lauer teve uma idéia. Viu à sua
frente a cassete com os microfilmes. Não teria oportunidade de entregá-la aos arcônidas.
Mas poderia fazer aquilo que Suttney pretendia. Poderia informá-los pelo microcomunicador
de que o sistema solar terrano ficava a esta ou aquela distância do lugar em que
se encontravam, e que deviam procurá-lo nesta ou naquela direção. Não seria uma
informação completa, mas bastaria para que os arcônidas encontrassem a Terra dentro
de dois anos no máximo.
Não tinha a intenção de, na situação em que
se encontrava, ainda transmitir esta informação aos arcônidas.
Mas poderia ameaçar Perry Rhodan de agir dessa
forma!
* * *
Durante uma hora, não houve resposta. Perry
Rhodan começou a espantar-se. Tinha certeza absoluta de que Suttney e seus comparsas
haviam saído da gazela, antes que esta explodisse sob a ação de um raio de desintegrador.
Mas o silêncio reinante no éter parecia contrariar essa suposição. Se estivesse
vivo, Walter Suttney não seria tolo a ponto de acreditar que ainda lhe restava uma
chance.
Rhodan não sabia que Ronson Lauer ainda não
terminara de redigir sua resposta.
Foi só uma hora após o nascer do sol, mais
precisamente, às vinte horas, tempo de bordo, que uma voz apressada e nervosa se
fez ouvir no receptor de Perry Rhodan:
— Aqui fala Ronson Lauer, Rhodan. Suttney está
morto. Assumi seu posto e quero propor-lhe um acordo razoável...
* * *
Quando o sol nasceu, Gunter Chellich havia
percorrido metade do platô. Nas últimas duas horas, sentira um frio terrível. Mas
antes que o sol subisse um palmo acima da linha do horizonte sentiu tanto calor
que ansiava pelo frescor da noite.
Os cumes rochosos situados na extremidade leste
da superfície plana aproximavam-se com uma lentidão insuportável. Chellich parava
constantemente para respirar. Teve a impressão de que não saía do lugar.
A pista de Lauer e Roane atravessava a areia
amarela em linha reta. Chellich pôde ver o lugar em que chegava ao fim dessa área.
Mas, antes de chegar lá, teria de percorrer alguns quilômetros. Eram quilômetros
de calor e poeira — espaço demais para alguém que não se agüentava um segundo sobre
a perna direita e há uma eternidade não bebia um gole.
Não se via mais nada das gazelas. Ao que parecia
ninguém acreditara que a superfície arenosa fosse um local de pouso muito favorável.
Chellich continuou a arrastar-se. Começou a
duvidar de que conseguisse chegar à periferia do platô. Sentiu-se dominado pelo
pavor. Teve de recorrer a toda a força do raciocínio, para não se jogar na areia
e ficar deitado.
* * *
— Rhodan, o senhor tem dois meios de transmitir
instruções aos seus homens — disse a voz apressada de Lauer. — Poderá usar o telecomunicador
ou o rádio comum. Estou em condições de ouvir um e outro. Garanto-lhe que, no momento
em que o senhor usar seus transmissores, para qualquer coisa que não seja a troca
de mensagens comigo, começarei a transmitir aos arcônidas as informações de que
disponho. Lembre-se disso e pense na minha proposta.
Perry Rhodan sabia que Lauer estava falando
sério. Começaria a transmitir aos arcônidas as informações relativas à posição galáctica
da Terra, assim que alguém tentasse avisar a posição do transmissor às naves, para
que estas soubessem onde lançar suas bombas.
Tanto Rhodan como Lauer encontravam-se numa
situação em que só havia um caminho a trilhar. Qualquer outro levaria à desgraça.
Ronson Lauer acabara de dizer que não revelaria
a ninguém o que sabia, se lhe fornecessem uma gazela e lhe permitissem decolar com
a mesma depois da saída da frota terrana.
Naturalmente essa proposta era inaceitável.
Uma vez de posse da gazela, Lauer voaria para Árcon, a fim de completar sua traição.
Lauer fixara um prazo de três horas. Se até
lá sua proposta não fosse aceita, começaria a transmitir. Perry Rhodan estava com
as mãos atadas. Não poderia fazer nada sem arriscar a revelação do segredo mais
importante do Império Solar.
O sol amarelo foi subindo no céu branco-azulado.
E a bordo da gazela oferecia-se um reino em troca de uma boa idéia.
* * *
“...esquerda...
puxar a perna direita...! não olhe para o sol! Não pense em água! Vá à frente! Siga
a pista!”, eram estes os pensamentos do tenente.
Aos olhos de Gunter Chellich, a areia era de
um branco ofuscante e as pisadas que via à sua frente pareciam buracos negros. Parecia
um mundo feito de preto e branco e calor.
Não sabia quanto ainda teria de caminhar até
atingir a sombra das rochas. Não tinha coragem de levantar a cabeça, pois nesse
caso veria o grande sol. E não queria vê-lo.
E nem quando alguma coisa começou a uivar atrás
dele levantou a cabeça. Não estava interessado em saber o que uivava. Ouviu o ruído
tornar-se mais forte e aproximar-se de trás. Mas não parou nem virou a cabeça, pois
receava que, se parasse, não conseguiria prosseguir.
Subitamente viu que os contornos da pista se
desmanchavam à sua frente. Desfizeram-se e de repente haviam desaparecido. Piscou
os olhos chamejantes, para espantar a alucinação. Porém aquilo não era nenhuma alucinação.
A pista havia desaparecido. À sua frente, só havia areia, que alguma força inexplicável
tangia...
Quando começou a ficar escuro em torno dele,
acabou parando e olhou para trás. Mas não havia mais nada que pudesse ver. Estava
envolto numa densa nuvem marrom, a areia penetrou-lhe pelos olhos, nariz e boca,
e o uivo transformou-se no rugido de uma tempestade de areia.
Cobriu o rosto com os braços e prosseguiu em
sua marcha. Tinha a impressão de saber em que direção corria a pista antes que se
apagasse. Um pensamento automático lhe disse que, se não tivesse cuidado, descreveria
uma curva para a esquerda, já que em virtude do ferimento a perna direita avançaria
menos. Por isso dirigiu-se para a direita e deixou que a tempestade o tangesse.
Não enxergava dois metros à frente dos olhos.
Sempre que mordia os dentes, ouvia um forte rangido. Mas pouco lhe importava que
sentisse um ardor ou ouvisse um rangido. Uma coisa era tão ruim quanto a outra.
Seguiu cambaleando. Perdeu a noção do tempo.
O cérebro foi transmitindo automaticamente os comandos às pernas.
“Esquerda...
puxar a direita.”
Gunter Chellich se parecia com uma máquina
que só continuava a caminhar, porque alguém se esquecera de desligá-la.
De repente, tropeçou em alguma coisa. “Talvez minhas pernas fraquejaram!”, pensou.
“Não... senão eu teria caído na areia macia
e... continuaria deitado.”
E ele não caiu no macio.
Seu crânio bateu contra alguma coisa dura,
e isso o despertou. Teve a impressão de ver uma rocha de dois metros à sua frente.
De início não acreditava no que seus olhos viam. Mas, depois de algum tempo, passou
a mão pela rocha. As arestas arrancaram-lhe sangue, e o sangue convenceu-o. Conseguira.
Chegara ao fim do platô. Quando a tempestade amainasse e o sol voltasse a brilhar,
a rocha lhe proporcionaria uma sombra protetora.
Contornou a rocha e comprimiu o corpo contra
a face oposta ao vento. Viu que dois metros atrás dele o chão descia fortemente.
“Provavelmente
lá embaixo existe um vale”, pensou cansado.
Comprimiu a mão contra a boca e respirou entre
os dedos. Precisava de ar, mesmo que fosse quente e poeirento como o que estava
respirando.
Sentiu que a tempestade sacudia a rocha.
* * *
Ronson Lauer viu a nuvem de areia marrom passar
por cima da rocha e ouviu o uivo da tempestade. Sentiu-se dominado pelo pânico.
Com a tempestade, Rhodan teria uma excelente oportunidade de aproximar-se sem que
ele o percebesse e surpreendê-lo em seu esconderijo.
Deveria mudar de lugar.
— Vamos embora, Roane! — gritou, esforçando-se
para sobrepujar o ruído do vento. — Vamos para lá!
Roane não sabia por que deveria sair dali,
mas obedeceu. Comprimindo-se pelas rochas, foram seguindo ao longo da encosta. Lauer
ficou com o microcomunicador ligado. Mas Perry Rhodan não chamou.
Já se haviam passado duas horas e meia.
* * *
A nuvem marrom tornou-se menos espessa e o
ruído da tempestade diminuiu. Chellich olhou para cima e procurou descobrir o sol.
Parecia uma bola apagada, em meio às nuvens de pó. Quem o visse assim nunca acreditaria
que esse sol fosse capaz de queimar e matar um homem.
O campo de visão de Chellich ampliou-se. Conseguiu
enxergar alguns metros da encosta que descia atrás dele. Apenas viu rochas marrons
e cinzentas. Não havia nada que valesse a pena olhar.
Subitamente a tempestade cessou. Terminou tão
rapidamente como viera. Uma nuvem de areia entrecortada corria preguiçosamente para
o leste.
De repente Gunter Chellich ouviu um ruído às
suas costas. Deixou-se cair de lado e rastejou até a beira da encosta. A tempestade
despertara-o de vez.
Chellich viu Ronson Lauer e Oliver Roane comprimirem-se
entre as pedras e deslocarem-se pela encosta. Encontravam-se à sua esquerda, a uns
trinta metros do lugar em que estava, e dirigiam-se para a direita.
Chellich recuou. Estava com medo. Não queria
que Lauer o descobrisse. Ele o mataria assim que o visse. Escondeu-se do outro lado
da rocha. De qualquer maneira teria de ficar lá, pois era o lado da sombra.
Comprimiu o corpo contra a rocha e sentiu que
a mesma cedia. Inclinou-se ligeiramente. Não estava presa ao solo. De repente Chellich
lembrou-se de que a tempestade a fizera tremer.
Sentiu-se fascinado por uma idéia. Tinha à
sua frente uma rocha solta. Mais adiante havia uma encosta íngreme, na qual Lauer
e Roane se deslocavam com grande esforço.
Ergueu-se, apoiando-se na rocha, encostou os
braços à mesma e procurou movê-la. Lançou um olhar apressado para o outro lado e
viu que Lauer e Roane se haviam aproximado. Baixou os braços e encostou o ombro
esquerdo à rocha. A dor cruciante, que sentia no quadril, conferiu-lhe mais força.
Percebeu que a rocha se inclinava. Ouviu que
lá embaixo, no lugar em que Lauer e Roane rastejavam pela encosta, um pedaço de
metal bateu contra a pedra. Compreendeu que naquele momento os dois se encontravam
bem embaixo dele. O medo de chegar tarde conferiu-lhe o restinho de força que faltava
para mover a rocha. E a pedra de dois metros de altura tombou para a frente, deslizou
até a beira da encosta, inclinou-se sobre a mesma, ergueu-se sobre a extremidade
superior e desceu ruidosamente.
Gunter Chellich caiu ao chão. Ouviu um grito
de pavor. Apoiou-se sobre os braços e rastejou até a encosta.
Bem embaixo viu a pedra que saltitava em direção
ao vale, arrastando consigo uma nuvem de pó!
À meia encosta, viu duas manchas azul-escuras.
Eram Lauer e Roane. A rocha os atingira e os
arrastara algumas centenas de metros.
Mas o microcomunicador que Lauer largara no
momento em que sentira o susto mortal encontrava-se poucos metros abaixo de Chellich.
Este desceu rastejando, sem dar a menor atenção
ao sol, cujos raios dardejavam a toda força sobre seu corpo. Teve a impressão de
que várias horas se passaram, antes que conseguisse pôr as mãos no aparelho. Viu
que estava funcionando e ouviu uma voz muito conhecida que dizia:
— O que lhe podemos propor, Lauer, é o seguinte:
a anistia e uma vida livre na Terra. Mas o senhor não poderá sair do planeta. Aguardo
sua resposta, Lauer, é minha última oferta.
Chellich sorriu. As lágrimas lhe corriam pelo
rosto. Aspirou profundamente o ar — o ar escaldante de Tântalo — e disse para dentro
do microfone:
— Aqui fala o Tenente Chellich, Sir. Acho que
o perigo passou. Ficar-lhe-ei muito grato se puder buscar-me.
Depois tombou e desligou o microcomunicador
com a testa.
* * *
Perry Rhodan e Atlan, o arcônida, conversavam
a bordo da Drusus, um dia e meio depois que a frota robotizada de Árcon foi retirada
e o regente reconheceu a dupla derrota que acabara de sofrer: o blefe de Latin-Oor
e o fato de que em Tântalo Perry Rhodan fora mais rápido que ele.
— Daqui em diante, devemos contar a qualquer
momento com a repetição do incidente — disse Rhodan em tom pensativo. — Almirante,
você sabe perfeitamente que os maus exemplos fazem escola, mesmo que não dêem certo.
Atlan concordou.
— Eu me admiro — disse — de que você tenha
conseguido guardar o segredo por tanto tempo. Qualquer pessoa que queira levar vida
bem confortável só precisa pegar uma gazela e voar para Árcon. Tenho certeza de
que meu augusto Senhor e Imperador — seu rosto contorceu-se num sorriso de escárnio
— lhe demonstraria a gratidão em moeda sonante. Sua programação é “suficientemente” humana. A propósito, por
que será que Suttney não foi direto para Árcon ou para Latin-Oor? Com isso alcançaria
um máximo de segurança, não acha?
Perry Rhodan sacudiu a cabeça.
— De forma alguma. Para chegar a Árcon, teria
de vencer uma distância de cerca de trinta mil anos-luz. Uma gazela não pode fazer
o salto de uma só vez. Provavelmente Suttney não quis enfrentar o risco. Um salto
representa uma chance de ser descoberto, e cinco saltos são cinco chances. E Suttney
sabia perfeitamente que não poderia confiar em Chellich. Cada segundo que este gastasse
a mais representaria um risco adicional.
Fez uma pausa e prosseguiu:
— E Latin-Oor estava fora de cogitação. Por
lá estava estacionada uma frota robotizada. E a primeira coisa que esta teria feito,
se de uma hora para outra uma gazela terrana aparecesse por lá, seria dar cabo da
mesma. Suttney nem teria tido tempo de fazer chegar sua mensagem ao destino.
“Para ele, o melhor seria mesmo esconder-se
num sistema totalmente desconhecido e chamar os arcônidas. Dessa forma, o Império
Arcônida teria tempo para preparar-se. Suttney esperava que, no momento em que começasse
a transmitir pelo hiper-rádio, nenhuma das nossas naves se encontrasse a menos de
cem anos-luz. Quanto à frota arcônida, sabia que esta se achava a apenas dezesseis
anos-luz. Dali resulta uma diferença enorme na precisão da localização. Naturalmente
Suttney não sabia que, naquela altura, nós já o havíamos localizado, em virtude
da manipulação realizada com o neutralizador de vibrações.”
Atlan estava virado de lado, fitando a tela.
— De qualquer maneira — disse em voz baixa
— não posso deixar de felicitá-lo por possuir um tenente como aquele. Se não fosse
ele...
— Que tenente é este? — perguntou Rhodan, fazendo-se
de espantado.
— É claro que estou aludindo a Chellich. Será
que houve outro tenente que tenha desempenhado um papel importante nessa história?
— Ah, Chellich! — disse Rhodan em tom de surpresa.
— Ele não é tenente, mas capitão, embora ainda não o saiba.
* * *
Walter Suttney e Ronson Lauer estavam mortos.
Oliver Roane fora poupado pelo destino. Quando o encontraram, estava apenas inconsciente.
A rocha lhe esmagara a perna direita, que teve de ser amputada. Mas Roane viveria
para responder ao processo que lhe seria movido na Terra.
Gunter Chellich não estava morto, mas quase.
Os médicos da Drusus declararam nunca terem visto um caso tão grave de esgotamento.
Gunter Chellich levou três dias para recuperar os sentidos. Quando isso aconteceu,
a Drusus já havia voltado a Fera Cinzenta.
Ao despertar, Chellich virou a cabeça de lado
e viu, na cama ao lado, um rosto que lhe parecia muito conhecido-.
— Oh, Mullon! Como foi que você veio parar
aqui? — perguntou com a voz débil. — Também esteve em Tântalo?
Mullon riu.
* * *
No dia 15 de outubro de 2.042, Terrânia Daily
News conclui da seguinte forma um relato minucioso dos acontecimentos no setor de
Tântalo:
Mais uma vez, se verifica que existem vários tipos de informações jornalísticas.
O verdadeiro jornalista não levara ao público sem qualquer exame toda e qualquer
informação a que tenha acesso. Procurará classificar as notícias segundo a importância
do conteúdo e seus prováveis efeitos sobre o público. E, o que é primordial, nunca
inventará uma história destinada a lançar a confusão entre o público, e não afirmará
que obteve as informações de elementos de confiança, para atribuir-se um ar de seriedade.
Geralmente esses elementos de confiança ficam sentados numa pequena sala situada
ao lado ou acima da redação e extraem as notícias dos lápis, esferográficas ou outros
instrumentos de escrita.
O caso que acaba de ser relatado oferece uma visão flagrante das maquinações
de um jornalismo que procura a sensação pela sensação, ou pelo desejo de aumentar
as tiragens. Ainda somos de opinião que o jornalismo diligente e responsável deve
merecer a preferência do público, face a esse tipo de apresentação das notícias.
* * *
Esperava-se que o Terrânia Times se manifestasse
vigorosamente sobre o artigo que encerrava uma alusão inequívoca a seu procedimento.
Mas o Terrânia Times não esboçou a menor reação.
Passou tranqüilamente à ordem do dia...
* * *
* *
*
Mais uma vez, Perry Rhodan aniquila as ações do cérebro-regente...
Em O Pavor, título do próximo volume, uma expedição terrana irá viver
lances indizíveis.

Nenhum comentário:
Postar um comentário