A primeira coisa que Chellich fez de
manhã, foi organizar uma excursão com sua gente pela cidade. Pediu
acompanhamento para isto. Como de praxe, cada carro dava para dois passageiros,
de maneira que se formou uma fila de cinco vagonetes de colchão de ar. Os guias
solicitados já estavam a postos no estacionamento da torre.
Ao subir no carro em que estavam sentados
Chellich e Mullon, o guia peepsie foi logo dizendo: “Espero que tenhamos uma viagem bem divertida.” Chellich sorriu para
ele, pediu que tomasse lugar, e deu-lhe a contra-senha.
Mullon estava sentado, como de hábito, no
banco de trás. Os vagonetes, um depois do outro, deixaram a torre, saindo pelo
amplo portão e passando pela avenida dos alamos, em direção à cidade.
— Que há de importante? — perguntou
Chellich ao peepsie.
— Duas naves estão sendo preparadas para
decolarem — disse prontamente homem. — As duas únicas de que dispõe a Força
Aérea, já que Sey-Wuun foi dado como perdido.
— Destino?
— Weelie-Wee e Feejnee — retrucou o guia.
— De Weelie-Wee ela deve trazer trigo e em Feejnee vão observar se lá existe
uma base estrangeira.
O susto não foi pequeno para Chellich.
Calculou depressa e achou logo que uma nave dos peepsies, nas condições atuais,
levaria mais ou menos oitenta dias, tempo de Peep, para chegar até Weelie-Wee,
aliás, Fera Cinzenta na língua dos terranos.
A Fair Lady cobriria o mesmo trajeto em
poucas horas. Portanto, mesmo que partissem setenta e cinco dias após a largada
da nave peepsie, ainda chegariam a tempo e impediriam a aterrissagem dos
peepsies.
Setenta e cinco dias! Será que este espaço
de tempo era suficiente para “sacudir”
bem o governo de Peep com esclarecimento do povo e publicação de seus absurdos,
fazendo sobressair também o fabuloso mundo de Aurigel, de maneira a demovê-los
de atacar Fera Cinzenta?
— É claro que temos uma base de nossa
frota espacial em Feejnee — respondeu Chellich, com a maior naturalidade,
tentando dominar a apreensão que sentia. — E, se eu fosse Iij-Juur-Eelie, não
mandaria nenhuma belonave para lá. Nossa gente dá muita importância à sua
segurança.
— Acho que isto já foi dito a Sua
Excelência — disse o peepsie. — Mas, desgraçadamente, suas ordens têm de ser
cumpridas cegamente. O pessoal tem de entrar nestas velhas e duvidosas naves,
mesmo sabendo que não voltarão mais. Ou porque são abatidos em combates ou
porque nossas naves não foram construídas para longas viagens.
“Isto
quer dizer”, pensava Chellich, “que
não haverá nenhuma nave capaz de ir para o espaço em Peep, se conseguirmos
destruir a nave que enviaram para Fera Cinzenta.”
— Fora disso, mais alguma novidade?
— Sim. Comenta-se que o senhor resolveu
fazer um circuito pelo planeta. O aparelho que o senhor vai utilizar está sendo
preparado e vai cair no deserto de Eenee. Os senhores podem escapar com vida,
mas terão que caminhar pelo deserto e levarão pelo menos dez dias para chegar
de volta ao mundo civilizado, pois as instalações de rádio estão sendo
preparadas de tal maneira que se romperão em mil pedaços na aterrissagem
forçada.
Chellich fez um aceno de cabeça, como se
já soubesse disso.
— Já traçaram a rota desta excursão?
— Não. O senhor pode escolher, mas o
piloto tem instruções de sobrevoar o deserto de Eenee, assim que se lhe apresentar
a ocasião.
Chellich pediu que lhe descrevesse a
situação geográfica do deserto. Conforme o guia, tratava-se de uma região
semelhante ao deserto de Gobi, na Terra.
Depois passaram a falar dos planos para
apoio do movimento dos “guerrilheiros”,
que Chellich já tinha delineado.
— O problema vital parece ser — explicou
Chellich — em caso de uma revolução declarada, como impedir que as forças
armadas tomem partido a favor da Sua Excelência. Para isto, tem de haver um
trabalho “subterrâneo”, preparado de
antemão. É preciso bastante dinheiro, bastante mesmo. Como é que estão as
finanças de vocês?
— Péssimas — foi a resposta incisiva do
peepsie. — A preocupação com o dinheiro foi sempre nosso mal. Iij-Juur-Eelie
sabe o que faz. Assegura a amizade dos ricos e da nobreza com concessão de
muitos favores e privilégios. Por isso, do nosso lado não há gente de posse.
— Já imaginava isto mesmo. Temos de
arranjar recursos. Estamos prontos a dar a vocês uma boa parte do dinheiro que
Iij-Juur-Eelie nos coloca à disposição. O total não será mais do que, mais ou
menos, vinte mil diijeeh.
O guia arregalou os olhos ao ouvir o
número. Para os fundos das finanças do partido era bastante dinheiro.
— É claro que isto é muito pouco —
continuou Chellich. — Temos a bordo de nossa espaçonave alguns objetos para
vocês venderem. Aparelhos técnicos e produtos químicos como provavelmente não
existirão aqui em Heeninniy. Num cálculo superficial, poderão arranjar com isto
uns quinhentos mil diijeeh, ou mesmo mais. Dá para o início. Devem investir uma
parte do dinheiro, de sorte que lhes renda juros.
O guia continuava em respeitosa admiração.
Chellich continuou explanando seus pensamentos:
— Seria muito interessante que
aproveitassem e explorassem a queda intencional na propaganda contra
Iij-Juur-Eelie. Quem sabe vocês tornem do conhecimento público que os cartazes,
de que certamente já ouviram falar, foram colados por ordem de Sua Excelência,
a fim de insuflar o povo à guerra. Espalhem que Iij-Juur-Eelie tem intenções de
atacar os homens de Aurigel e façam o maior rebuliço depois de nossa queda no
deserto.
O peepsie estava impressionado. E Chellich
sentiu que os “guerrilheiros”, embora
tivessem boa vontade, eram no entanto principiantes, que não entendiam nada de
como fazer uma revolução.
Entrementes, os vagonetes voadores já
estavam no centro da cidade. Chellich estava agora obrigado a prestar muita
atenção ao trânsito. A conversa esfriou um pouco.
— Parece que houve um acidente num
cruzamento — falou Mullon.
Um engavetamento de muitas viaturas. E
quando Chellich, numa grande curva, tentou passar de lado, uma espécie de
caminhão parou à sua frente, de modo que nem para frente, nem para trás, podia
locomover-se.
O peepsie abaixou a janela e olhou para
fora. Alguns guardas uniformizados estavam diante do carro acidentado e
conversavam. Das torres, os curiosos olhavam lá para baixo. O caminhão na
frente não dava sinais de querer sair dali.
Chellich desceu e viu a causa do
entupimento no trânsito: um peepsie, aparentemente desmaiado, senão morto,
estava ao lado do carro acidentado, e se o caminhão continuasse a andar,
produziria um remoinho tão forte, sob sua carroceria, que o infeliz talvez não
agüentasse.
Um dos guardas descobrira a presença de
Chellich e se aproximou dele:
— Houve um acidente — disse com cara de
ingênuo.
— Isto eu já vi — respondeu Chellich.
— Não se preocupe conosco, podemos esperar
até que tudo termine.
— Oh! Não — disse o peepsie, depois de
transladar as palavras de Chellich. — Temos ali atrás um carro parado, que está
em posição de se deslocar facilmente. Por favor, tome-o, para não precisar
esperar.
Chellich acabou concordando. Mullon e o
guia peepsie também apearam. O carro da polícia estava bem afastado do
engarrafamento, de modo que se podia manobrá-lo facilmente.
Mullon e o peepsie entraram. Chellich
abriu a porta do outro lado e queria sentar ao volante. Neste momento ouviu um
grito de surpresa de Mullon. Virou para trás e viu três homens uniformizados,
sentados no banco de trás. Já haviam algemado Mullon e o guia.
Haviam caído numa armadilha, como crianças
inexperientes. A primeira coisa que os guardas fizeram foi tomar-lhes as armas
de ultra-som.
— Toque de volta para o palácio de Sua
Excelência — ordenou um dos guardas — e não tente fazer nenhuma besteira.
Sabemos que vocês são perigosos, não queremos correr nenhum risco.
Chellich queria protestar, mas achou que
não tinha nenhum sentido. Devia haver um motivo para este ataque bem preparado.
E quanto mais refletia, mais certo estava do que se tratava. No carro em que viajaram
até o ponto do acidente, deviam ter instalado microfones e aparelho de
transmissão.
Conduziram-nos, para uma cela estreita,
sem janela e sem nenhum tipo de móvel. Era numa das torres do conjunto do
palácio real, bem afastado do setor residencial, onde Chellich e os seus haviam
sido hospedados até o momento.
A detenção se efetuara sem nenhuma
formalidade. Foram desarmados brandamente, contra o que não se opuseram. Suas
perguntas sobre O'Bannon e os outros colegas ficaram sem resposta. Também não
lhes disseram o que ia acontecer com eles.
A cela recebia um pouco de luz de uma
diminuta clarabóia bem no alto, entre a parede e o teto.
— Aqui estamos então — disse Mullon para
quebrar o silêncio. — Caímos na esparrela como patinhos, não é?
Chellich, aborrecido, apenas abanou a
cabeça.
— É... não se pode dizer outra coisa. Só
quero saber como Iij-Juur-Eelie vai querer continuar a brincadeira. Deve estar
com um medo horrível de que nossa frota, de uma hora para outra, surja aqui em
Peep e ponha fim às suas injustiças.
— De nada nos adianta pensarmos assim —
contradisse Mullon. — Afinal, ele nos apanhou em crime de lesa-pátria, ou crime
de sei lá o quê!
— Perante seu próprio povo, pode valer
como pretexto, mas não para nós. Suponhamos que houvesse de fato uma frota
terrana aqui nas imediações, certamente não iria esperar até que Sua Excelência
viesse se justificar com todas as suas provas.
Olhou bem em redor e pôde constatar que
não havia microfones escondidos naquelas paredes nuas e frias.
— Iij-Juur-Eelie deve estar esperando
muita coisa de nossa prisão e quanto mais eu penso, mais me convenço de que vai
demorar muito até que saibamos o que vai acontecer.
— Fico com dó do pobre peepsie — disse
Mullon, levando a conversa para outro lado. — Com ele, o processo vai ser
sumário.
— Nem isto a gente pode dizer com certeza.
Os “guerrilheiros” ocupam muitos
cargos no serviço secreto. Quem sabe podemos esperar alguma coisa deste lado?
Mullon olhou para o teto, dizendo:
— Talvez!
* * *
Entrementes, Fij-Gul transmitira suas
informações a Wee-Nii. Este estava ouvindo com interesse as explicações e,
exatamente quando Fij-Gul estava para tirar as conclusões de seus estudos
filológicos, chegou do Comitê Presidencial a notícia de que a espaçonave
estrangeira devia ser equipada pelo menos com duzentos homens. Mas, não havia
comandante para ela.
Ninguém sabia ainda de onde Sua Excelência
tirara a coragem para se apossar assim, em plena luz do dia, da nave
estrangeira, contrariando todas as boas normas da diplomacia, o que lhe poderia
acarretar terríveis conseqüências.
Wee-Nii procurou se informar no Comitê
Presidencial do que havia acontecido de novo, para tão brusca alteração dos
planos. Mas lá também ninguém sabia nada. Wee-Nii transmitiu, pois, a ordem
recebida a Fij-Gul e este teve a impressão de que, nas últimas horas, todas as
missões difíceis vinham estourar nas suas mãos.
Mandou colocar em estado de alarme o
regimento de guarda do aeroporto e se encaminhou para a nave estrangeira, que
repousava imponente e tranqüila. Fij-Gul examinou com desconfiança e medo as
muitas clarabóias distribuídas no bojo esférico da gigantesca nave, temendo a
toda hora que de uma delas irrompesse de repente uma chama mortífera ou uma
saraivada de tiros pesados.
Entretanto, nada se mexia.
Quando Fij-Gul e seus homens estavam a cem
metros da nave, veio do lado da pista um vagonete de colchão de ar. Saltaram
dois oficiais e Fij-Gul reconheceu os técnicos, cuja missão era abrir a
comporta da grande nave.
* * *
— Falando sinceramente, para mim é gente demais!
— exclamou Sheldrake. — São pelo menos duzentos homens e não há nenhum dos
nossos com eles.
Krahl e Loewy olhavam apreensivos para a
tela panorâmica. O vagonete de colchão de ar disparou da margem do aeroporto e
parou a cem metros da Fair Lady. Viram os dois homens apearem e se dirigirem
para a nave.
— São os especialistas em arrombamento —
explicou Sheldrake — treinados para abrir as comportas das naves estrangeiras.
Loewy apontou para a tela.
— Que vamos fazer com os outros? Vamos
deixá-los entrar?
— Não tenho vocação para suicida — disse
Sheldrake pulando para a poltrona do piloto. — Deve ter acontecido alguma coisa
a Chellich e a seus companheiros, do contrário os peepsies não se atreveriam a
invadir a nave. Vamos agir, portanto, por conta própria. Quem sabe é bom termos
dois reféns.
Ligou uma série de botões e começou a
escutar o ruído lá embaixo.
Os dois técnicos já haviam alcançado a
comporta e não se encontravam mais ao alcance das objetivas da tela panorâmica.
Instantes depois, ouviu-se um zumbido. Era o sinal de alarme de que a comporta
tinha sido aberta.
O pelotão de guardas com o oficial à
frente já estava a oitenta metros. Sheldrake os contemplava com um sorriso
irônico. Quando o pelotão se aproximou mais uns vinte metros, num movimento brusco,
empurrou a alavanca para baixo...
* * *
Fij-Gul viu como a comporta se abriu,
depois que os técnicos mexeram um pouco na parede externa, notando que ela
estava vazia. Ficou mais aliviado. Um avalanche de pensamentos invadiu sua
cabeça, o mais vivo deles era um novo sentimento de admiração por Sua
Excelência. Embora fosse um homem duro, severo, não era nada bobo e, quando
fazia uma coisa, tudo era bem calculado. Sabia sempre o que estava fazendo.
Estes pensamentos, que de inteligentes não
tinham nada, pelo menos serviam para acalmar Fij-Gul, dar-lhe mais coragem,
tanto assim que, de repente, tomou a dianteira do pelotão, marchando resoluto
para a espaçonave.
De súbito, porém, teve a impressão de que
o ar na sua frente estava cintilando. Devia ser mera sugestão, provocada pelo
seu estado de nervos. Passou a mão pelos olhos e tocou para frente
marcialmente. No mesmo instante bateu contra uma muralha invisível. Como sua
passada fora dada com extrema força, para ajudar a vencer o medo, o choque o
jogou por terra. Acudiram alguns soldados, levantando-o e o colocando de pé.
Pelas fisionomias dos guardas, notou que todos estavam assustados.
Atônito, de braços esticados para frente,
aproximou-se mais uma vez do local onde sua passagem fora impedida. Não via nada
na sua frente, a não ser o ar que tremulava um pouco, e mais à frente, a uns
cinqüenta metros, o bojo arredondado da nave. Quando suas mãos sentiram de novo
a misteriosa barragem, tremeu. Deu um grito e deixou seus braços caírem, como
se tivesse levado um choque. Levantou-os de novo, para apalpar o que lhe estava
na frente.
Constatou com surpresa que seus dedos não
conseguiam tocar ou melhor, apalpar aquela coisa incrível. Havia no ar qualquer
coisa de força invisível que impedia a aproximação da mão.
Aos poucos, seu sistema nervoso foi se
acalmando, conseguindo pensar com mais clareza. Era um oficial do estado-maior,
e como tal, um homem de formação superior.
Admitiu a possibilidade de que os
estrangeiros estivessem de posse de uma força com a qual podiam envolver sua
espaçonave numa camada protetora.
Isto não era novidade. Experiências neste
sentido tinham sido feitas até em Heeninniy... aliás sem resultado até o
presente.
Neste meio tempo, os dois técnicos, que já
estavam esperando na entrada da comporta, foram avisados do que estava
acontecendo. Quando Fij-Gul começou a acenar, eles se aproximaram. Fij-Gul lhes
gritou que no meio do ar havia uma barreira invisível e ouviu sua resposta:
— Que besteira é esta?
Para as vibrações sonoras, portanto, a
camada de proteção não era um obstáculo. Havia acabado de constatar. Mas os
dois técnicos se aproximavam. Orgulhosos de seu serviço, marchavam ao encontro
de Fij-Gul, quando, com os pés erguidos no ar, não conseguiram completar o
passo, como se um raio tivesse caído à frente deles. Perderam o equilíbrio e
rolaram para trás.
Fij-Gul não conseguiu dominar um sorriso
irônico.
— Eu os avisei — disse o oficial. — Parece
que vocês agora estão presos.
Deu ordem a seus soldados para que dessem
a volta em torno da nave e procurassem, tateando com os braços esticados para
frente, a fim de acharem uma passagem. A ordem não foi prontamente obedecida,
pois os soldados estavam com muito medo.
Os dois técnicos repetiram a operação,
para medirem a resistência daquela muralha invisível. Tudo inútil.
— Talvez seja melhor vocês examinarem o
interior da nave — disse finalmente o oficial — para ver se esta camada de
proteção pode ser desligada.
— A nave deve estar repleta de
estrangeiros e você acha que devemos penetrar nela assim?
Fij-Gul se lembrou de sua responsabilidade
perante Wee-Nii.
— Devem entrar, sim. Como estão vendo,
ninguém, fora de vocês, pode fazer alguma coisa. Além disso, a nave está
completamente vazia, como nós sabemos. Esta camada de proteção ligou-se
automaticamente devido à nossa aproximação.
Ele mesmo não acreditava no que estava
dizendo.
Levados pelas palavras de Fij-Gul, os
técnicos retrocederam rumo à comporta. Fij-Gul viu como eles estavam com a arma
na mão e subiram pelos degraus da escotilha. Depois, na escuridão do interior
da nave, ele os perdeu de vista.
Do outro lado, estavam voltando os
soldados enviados para procurarem uma brecha na muralha invisível. Nos seus
olhos se lia o terror. Mas cumpriram seu dever e chegaram à conclusão de que
não havia passagem em lugar nenhum.
Os dois técnicos estavam presos e, se não
conseguissem desligar o mecanismo que produzia o campo energético em torno da
nave, ficariam para sempre ali.
Para sempre?
Fij-Gul se lembrou de sua constatação de
que as ondas sonoras atravessavam a barreira invisível. Podia-se, pois,
bombardear a nave com canhões, possantes, naturalmente.
Mas a questão continuava. Para que
serviria uma espaçonave destruída? Fij-Gul colocou o pelotão de guardas na
frente da nave e transferiu seu comando a um sargento. Depois voltou às pressas
para Wee-Nii, para colocá-lo a par dos fatos.
* * *
Chellich estava roendo as correias que o
atavam à estranha cadeira, não porque pensasse em ficar livre e fugir, mas
apenas para ter alguma coisa que fazer.
Tiraram-no da cela para colocá-lo numa
sala vazia, cuja instalação tinha uma lâmpada fraca, uns quadros de comandos
elétricos e a tal cadeira estranha, com alavancas, botões e cabos. Não era,
pois, difícil descobrir sua finalidade. Era uma destas instalações que a técnica
moderna criou para substituir os antigos instrumentos de tortura, a roda, os
ferros em brasa e etc. Arrancavam os segredos das bocas mais fechadas.
Além de Chellich, estavam na sala mais
dois peepsies. Um deles, Gii-Yeep, tinha um translador dependurado a tiracolo.
Chellich tinha sido apresentado a ele, uma vez, e se lembrava dele devido a uma
cicatriz na face esquerda. O outro, Chellich não conhecia.
Gii-Yeep se postou na frente de Chellich,
dizendo:
— Vamos lhe fazer algumas perguntas e
suponho que você seja tão inteligente para respondê-las imediatamente.
Chellich encarou seus olhos, mas não disse
nada. Gii-Yeep continuou:
— Que tipo de força é esta que circunda
sua nave como uma muralha invisível?
Chellich respirou mais aliviado.
“Quer
dizer que Sheldrake e os outros dois rapazes reagiram prontamente”,
meditou.
A Fair Lady estava protegida. E nem com
todos os canhões e bombas, os peepsies iriam conseguir quebrar aquela proteção.
Não deixou transparecer sua alegria e continuou em seu mutismo.
O outro peepsie não estava mais ali.
Depois de uns instantes da primeira pergunta de Gii-Yeep, Chellich ouviu o
estalo de um interruptor e no mesmo momento sentiu o choque fortíssimo que lhe
arrancou lágrimas de dor e de ódio.
Mas não respondeu nada. Gii-Yeep renovou a
pergunta e perante o silêncio de Chellich, o outro aplicou ao prisioneiro uma
descarga pelo corpo todo.
Esta última não fora assim tão brava como
a anterior.
— O que você está esperando? — perguntou
Gii-Yeep irritado, vendo seus métodos falharem.
— Por uma explicação — respondeu Chellich
prontamente. — Quero saber primeiro por que motivo estou aqui, onde estão meus
companheiros, o que pretendem conosco e também quero saber se vocês são tão
loucos, ao ponto de não perceberem que a nossa frota espacial estará aqui em
poucas horas, com pelo menos quinhentas naves, para transformar toda Heeninniy
num montão de cinzas! Diga-me isto primeiro, depois vou ver se posso responder
sua pergunta.
Gii-Yeep fez uma cara de idiota. Depois
respondeu:
— Você está aqui, acusado de crime de alta
traição e seus colegas também estão presos. Só para que você saiba que sua
caturrice não vai adiantar nada, quero lhe dizer que não precisamos
necessariamente de você. Entre seus colegas, encontraremos certamente um que
nos responda prontamente. Agora, o que vai acontecer com você, após este
interrogatório, não sei, porque não tenho nada a ver com isto. E a preocupação
com sua frota espacial, é melhor deixar por nossa conta.
Para Chellich, não havia nada de novo em
tudo que ouviu. Tinha aproveitado o tempo para refletir. Veio-lhe uma idéia que
o fascinava, quanto mais pensava.
Poderia enganar um homem como Gii-Yeep ou
os técnicos peepsies?
— Então, você quer responder agora a minha
pergunta? Que tipo de força é esta que protege toda a sua nave?
Chellich ainda estava hesitante. O segundo
peepsie já estava perdendo a paciência e, sem nenhum aviso, lhe aplicou mais um
choque elétrico. Chellich se curvou todo, gritando de dor.
— Parem. Prestem atenção. Trata-se de um
campo antigravitacional.
— Sim, mas o que quer dizer isto?
— Quer dizer que qualquer energia cinética
de um objeto que queira penetrar neste campo, é destruída ao atingi-lo.
— Como é que se produz um campo energético
deste tipo e como se pode desligá-lo?
Novamente uma grande pausa por parte de
Chellich, premiada com o choque de corpo todo, que ele achava muito mais
suportável que o anterior.
— Meu Deus! — disse gritando. — Será que
vocês não conhecem nada disso? E eu tenho que lhes explicar toda a técnica do
campo antigravitacional artificial?
Gii-Yeep fez um gesto afirmativo:
— Exatamente, você vai descrever tudo
pormenorizadamente e este homem ali atrás, no quadro de comando, é o nosso
técnico mais competente e vai tomar nota de tudo que você disser.
— Vocês pretendem construir também um
campo magnético semelhante? — perguntou Chellich.
— Isto não é de sua conta — foi a resposta
estúpida de Gii-Yeep.
— É, sim. Preciso saber de que fontes
energéticas os senhores dispõem. Um único campo de antigravitação consome mais
energia do que uma cidade de quatro milhões de habitantes.
Gii-Yeep olhou para Chellich e depois para
o tal técnico.
O segundo peepsie, atrás do quadro de
ligação, deve ter feito algum sinal confirmando, pois Gii-Yeep se dirigiu mais
uma vez ao seu prisioneiro:
— Produzimos energia com reatores
nucleares — explicou ele a Chellich. — Já temos em atividade, na usina de
fissão atômica, alguns reatores experimentais, mas ainda não são muito
eficientes.
Chellich gostou da explicação do peepsie e
continuou:
— Suponhamos: caso vocês quiserem produzir
um campo energético, capaz de neutralizar a camada de proteção de nossa
espaçonave, precisarão então de uma energia de dez bilhões de Megawatts. Vocês
conseguirão isto?
A expressão no rosto de Gii-Yeep era um
misto de arrogância e de ironia:
— Se você acha que nos vai assustar com
seus números astronômicos, creio que está no caminho errado. Se constatarmos
que você não está exagerando, haveremos de conseguir os dez bilhões de
Megawatts.
— Está bem — disse Chellich — mas vocês
têm as instalações para isto?
— Você terá que nos ajudar.
— Não — disse ele categórico e gritando de
dor, quase ao mesmo tempo, pois o técnico lhe aplicara a descarga no corpo
inteiro junto com o choque de alta-tensão na garganta.
— Você vai nos ajudar nisso — estava eu
dizendo.
— Não! — gritou Chellich furioso.
E desta vez, as duas descargas simultâneas
o deixaram inconsciente por alguns instantes. Quando voltou a si, sentia uma
tempestade na cabeça.
Mas não se entregou. Era muito cedo.
Deixou que repetissem os choques ainda quatro vezes. Quando voltou a si pela
quarta vez, balbuciou:
— Está bem... vou lhes dizer. Mas quero
primeiro alguma coisa para beber.
* * *
O plano de Sua Excelência nasceu do acaso.
Mas mesmo depois de maiores reflexões, parecia perfeito e muito promissor.
Quando mandou instalar microfones nos carros que estavam à disposição dos
estrangeiros, não foi porque tivesse alguma suspeita deles. Simplesmente porque
um carro parecia bem mais apto para disfarçar estes objetos, do que as paredes
de um quarto. E podia ser que em viagem fizessem algum comentário, entre si,
que interessasse a Iij-Juur-Eelie.
O fato de logo na primeira viagem, depois
que mandou colocar os microfones, poder ficar a par daquela conversa e saber
que os estrangeiros conspiravam com os “guerrilheiros”,
foi mero acaso. Então ele, às pressas, forjou aquele vasto plano.
É claro que temia a frota espacial dos
inimigos, mas não acreditava que fossem atacar e destruir sem mais nem menos
Heeninniy. Tinha finalmente seus dez presos e mais ainda: podia provar que
eles, os estrangeiros, infringindo todas as regras diplomáticas, tinham se
aliado à oposição ilegal e entrado em conchavo para elaborar um plano a fim de
subverter a ordem vigente.
Entretanto, teria de devolver os
prisioneiros e as relações com Aurigel já começariam num clima de tensão! Como
contornaria essa situação?
Neste meio tempo, porém, continuaria o
interrogatório dos estrangeiros e ninguém melhor do que Gii-Yeep para garantir
que as respostas viriam rápidas e “espontâneas”
No entanto, já o primeiro contragolpe,
após o aprisionamento dos estrangeiros, estava fracassando. Fij-Gul, com seu
pelotão militar não conseguira se apossar da espaçonave e os dois técnicos, que
abririam a comporta, estavam presos, talvez para sempre.
Depois deste incidente, ninguém mais sabia
se a espaçonave estava vazia ou havia alguém lá dentro vigiando. O envoltório
de proteção podia ter se ligado automaticamente. Se houvesse alguém lá dentro,
este devia estar dormindo, quando Fij-Gul penetrou pela primeira vez na nave.
A última hipótese encerrava algo de
desagradável ou mesmo de perigoso.
Mas havia outra coisa que aumentava
grandemente a inquietação de Sua Excelência: esta manhã se registrou um sinal,
partindo do aeroporto da capital. Foi um fortíssimo sinal de rádio.
Desta vez não foi uma mensagem, mas apenas
um único sinal. Os especialistas de rádio de Gii-Yeep estavam de prontidão para
determinar a posição do transmissor, assim que fosse ao ar novamente. O fato
estava envolvido em mistério, pois os operadores de rádio estavam convencidos
de que um sinal daquele não podia partir da nave.
Mas então, de onde partira? Será que seria
obra dos “guerrilheiros”? Será que
tinham recebido a incumbência de avisarem a frota estrangeira em Feejnee, agora
que os visitantes não o podiam mais fazer?
Sempre os malditos “guerrilheiros”! Sua Excelência quase teve um ataque de cólera ao
saber que um dos chefes do serviço secreto era um “guerrilheiro”. Ordenou imediatamente um rigorosa investigação no “serviço secreto”, à procura de “traidores”.
Mas no momento havia coisas mais
importantes a fazer. Primeiramente, a inquirição dos prisioneiros.
O “guerrilheiro”
detido estava encarcerado, aguardando a sentença de um tribunal especial.
A nave com destino a Feejnee, sob o
comando do Capitão Niij-Seem já estava a caminho. Niij-Seem era de plena
confiança. Tinha recebido uma série de instruções e certamente as cumpriria ao
pé da letra, caso chegasse inteiro até Feejnee, o que, aliás, o Almirante
Wee-Nii não acreditava.
Sua Excelência lamentava profundamente que
o Almirante Wee-Nii tivesse, tão levianamente, dado permissão para que a última
nave que lhes restava, partisse para Weelie-Wee. Niij-Seem ou o Ministério da
Defesa poderiam utilizar muito melhor a única nave e, em caso de extrema
necessidade, poderiam adquirir o trigo que lhes faltava, em outra fonte, isto
é, através de um severo racionamento em todo o planeta.
Mas enquanto Iij-Juur-Eelie estava
ponderando o que devia fazer, se dava ou não a licença para a decolagem de sua
nave, esta partiu afoitamente, sob o comando do Capitão See-Pee, rumo a
Weelie-Wee. Neste momento já estava fora do alcance do fraco rádio do planeta e
não podia mais ouvir a ordem de regresso.
Iij-Juur-Eelie esperava, pelo menos, que o
Capitão See-Pee fosse mais prudente do que Sey-Wuun, de quem até então não se
sabia nada, supondo-se naturalmente que ele e a tripulação haviam perecido em
qualquer acidente.
Dentro de mais alguns dias, a nave seria
dada oficialmente como perdida. Sua Excelência se preocupava muito com este
planeta misterioso, principalmente depois que surgiram as discrepâncias com
Aurigel. Caso se constatasse, porém, que os habitantes de Weelie-Wee eram
responsáveis pelo desaparecimento de Sey-Wuun e de sua nave, haveriam então de
pagar bem caro.
Quando estes pensamentos agitavam a cabeça
de Sua Excelência, estava sentado em seu escritório, um grande salão no ponto
mais alto da torre, exatamente onde havia uma saliência, em forma de terraço.
Lá de cima, se descortinava quase toda a cidade. Era neste salão que se
concentravam todos os meios de comunicação com os elementos mais importantes da
administração, governadores, generais e almirantes.
Foi ali que recebeu a notícia de que o
prisioneiro estrangeiro, que se chamava “Tchee-Lich”
ou algo semelhante, havia iniciado seu depoimento, quer dizer, que tinha
explicado ao técnico Wiir-Nee como se produzia o envoltório de proteção em
torno da nave e como se podia desligá-lo.
Depois, quase em seguida, veio outra
notícia de que o “guerrilheiro”
detido tinha conseguido escapar, sem que houvesse nenhuma pista de sua fuga.
O rubor da cólera subiu ao rosto de
Iij-Juur-Eelie e, esbravejando, ameaçou severas penas para os culpados da fuga.
Mas havia coisa mais importante: o depoimento do estrangeiro “Tchee-Lich”. E isso era de vital
importância.
Se o técnico Wiir-Nee já estivesse pronto,
podia ir começando a preparar os aparelhos necessários para conseguir
neutralizar a misteriosa barragem da grande nave.
* * *
Já um pouco refeito, Chellich começou a
refletir sobre o que havia dito ao técnico e achou que estava tudo certo.
Não foi fácil dar de cabeça, a um técnico,
os elementos básicos para a construção de um mecanismo, por meio do qual este
julgaria poder resolver o problema do campo artificial de gravitação.
Porém guardou certos segredos concernentes
à feitura do aparelho.
O que Chellich lhe havia descrito, era um
instrumento cujos componentes deixavam supor que se iriam conseguir os
resultados prometidos. Nem mesmo um especialista experimentado, caso nunca tivesse
mexido com a técnica de formação de campos artificiais de gravitação, poderia
descobrir a menor falha nos dados alinhados.
E no entanto, havia uma falha, mínima,
imperceptível, que no momento decisivo faria com que os peepsies não tivessem a
alegria de ver funcionando o almejado aparelho.
Depois deste depoimento, deram-lhe algum
alimento e o reconduziram à cela. Wiir-Nee, que já o considerava quase um
colega, assegurou-lhe que iria começar o mais rápido possível a construção do
aparelho antigravitacional e que contava com sua assistência técnica. É claro
que Chellich prometeu estar à sua disposição.
Neste meio tempo, Mullon passara horas
amargas. Sabia que Chellich seria interrogado, mas imaginava que o assunto
fosse outro.
— Não — explicou Chellich, muito fatigado
— não queriam saber nada a respeito de Aurigel. E também não lhes disse que
viemos de Fera Cinzenta. Em compensação, tive que lhes descrever com todos os
detalhes como funciona um campo antigravitacional, para que possam neutralizar
o envoltório de proteção energética que Sheldrake ligou em volta da Fair Lady.
Mullon, aterrorizado, arregalou os olhos:
— E você entregou estes segredos nas mãos
deles?
— Naturalmente, eles têm métodos especiais
para conseguir qualquer depoimento.
Mullon estava perplexo. Caminhou de costas
até a parede.
— Mas, desculpe... Seria naturalmente
exigir demais de você, suportar os métodos de tortura do serviço secreto, sem
abrir a boca.
Chellich, apesar de estar com o corpo todo
dolorido, deu aquele sorriso irônico de sempre:
— Não se preocupe, abri muito a boca, mas
os peepsies vão ter uma alegria muito curta. Não conseguirão nada de positivo
com o que lhes ensinei.
Mullon estava encantado com o que ouvia.
E, no exato momento em que iria fazer uma pergunta, a porta da cela se abriu.
Um guarda uniformizado entrou e disse:
— Espero que tenhamos uma viagem bem
divertida.
Chellich estava com a cabeça tão abalada
pelos choques, que no momento não deu com o significado da frase. Olhou
indeciso e, só depois de alguns instantes, foi que percebeu do que se tratava:
— O senhor... o senhor... pertence aos “guerrilheiros”?
Sua surpresa foi tal, que não se lembrou
de que não tinha mais o translador. Mas o aparelho do peepsie “guerrilheiro” traduziu sua pergunta.
— Exatamente — foi a resposta. — E quero
ajudá-lo a sair daqui.
Chellich compreendeu logo a situação:
— Ótimo, mas não sei bem qual é o melhor
modo de você nos ajudar. Para onde poderemos ir e o que acontecerá com nossos
companheiros?
— Serei o responsável, nas próximas duas
horas, pela vigilância deste setor de detenção. Será o tempo suficiente para
libertar seus companheiros. Podemos nos esconder no subsolo da torre, até que
escureça. Depois, alguns dos nossos virão nos buscar.
— Nós? — perguntou Chellich admirado. —
Você quer fugir conosco?
— Naturalmente, tenho de fugir com vocês.
Haverão de pensar que eu sou o único culpado pela sua fuga e deixarão os outros
em paz.
Chellich concordou.
— Está certo, nós vamos. Todos os nossos
estão presos neste setor?
— Sim, estão nas celas aqui neste
corredor.
Mullon ainda sentia-se perplexo, de pé,
encostado na parede. Estava como uma pessoa que não consegue compreender a
sorte que chega inesperada. Chellich o pegou pela mão.
Ali fora, no corredor, em rápida conversa
com o “guerrilheiro” obteve outras
informações.
Recuperarem as armas que os guardas lhes
tiraram, era, conforme a opinião dele, quase que impossível. O serviço secreto
as havia guardado num cofre-forte, onde tinham acesso apenas Gii-Yeep e uns
dois privilegiados.
O peepsie Luun-Syr julgava, no entanto,
que podia arranjar para eles quatro ou cinco pistolas ultra-som, o que parecia
para Chellich mais do que esperava.
O corredor, comprido e muito alto, estava
silencioso e mal iluminado. As portas dos cubículos estavam todas de um lado só;
no outro, a parede era contínua e sem recuos.
A porta do cubículo mais próximo foi
aberta por meio de uma vareta, da qual Luun-Syr dizia possuir um poder mágico,
capaz de abrir as mais complicadas fechaduras. Chellich concluiu daí tratar-se
de um dispositivo produtor de impulsos eletrônicos, impulsos estes na medida
exata das fechaduras das celas.
Quando a porta girou sobre os gonzos,
viu-se lá dentro, sentados no chão, um na frente do outro, O’Bannon e Milligan,
praticando um jogo diferente, que consistia em formar com o braço direito, em
movimentos rapidíssimos, certas figuras que o parceiro tinha que adivinhar
antes que seu colega acabasse com o movimento.
Foi certamente uma brincadeira inventada
por O’Bannon para dar a impressão aos peepsies de que eles não estavam
preocupados com a prisão.
— Podem terminar tranqüilamente esta
brincadeira — disse Chellich, sorrindo.
O’Bannon deu um salto.
— Chellich...! Mullon...! Está tudo em
ordem?
— Se você continuar gritando assim, tudo
estará perdido. Este bom amigo aqui, Luun-Syr, quer nos ajudar a fugir. Isto
tem que ser feito em silêncio e com muita cautela. Portanto, ajam de acordo.
Venham agora, vamos buscar os outros.
Chellich teve que usar ainda de palavras
enérgicas, enquanto liberava os demais, pois a alegria destes era maior que a
prudência. E cada par de prisioneiros libertados era mais uma explosão
incontida de alegria, sempre acompanhada de gritos de emoção.
Luun-Syr teve sempre o cuidado de fechar
novamente as portas, para que a fuga não fosse percebida logo. Depois se
dirigiu à sala da guarda, onde providenciou as armas ultra-som.
Chellich aproveitou para dar umas
instruções aos seus.
— Luun-Syr acha que nos devemos esconder
no subsolo, até ficar escuro. Então os “guerrilheiros”
virão nos apanhar. Penso, porém, que esta manobra não é interessante, pois
assim que souberem de nossa fuga, vão esquadrinhar todos os edifícios,
inclusive os subsolos. E, contra o aparato todo do serviço secreto, nossas
chances serão diminutas.
“Mas há um lugar, onde, certamente,
ninguém vai nos procurar. São os aposentos que servem de residência para o
próprio Iij-Juur-Eelie. É claro que lá estão muitos guardas, mas se chegarmos
antes que descubram nossa fuga, temos a possibilidade de dominar os guardas e
talvez, mesmo, consigamos botar as mãos em Sua Excelência.”
Alguns acharam o plano excelente, outros
julgaram-no demasiadamente ousado. Entre os últimos estava O’Bannon que disse:
— Por que não partimos já e procuramos
chegar até à Fair Lady? Se conseguirmos chegar até nossa nave, ninguém poderá
nos fazer mal.
Chellich deixou que todos falassem.
— Ótimo! E como vocês querem chegar até
lá? Os peepsies cercaram todo o aeroporto e principalmente a nave. Tiraram-nos
tudo. Não temos nem um sinalizador para nos comunicar com a Fair Lady. Não, meu
caro, esta idéia é inviável.
O’Bannon compreendeu. Concluiu-se que se
devia seguir o plano de Chellich.
Neste ínterim chegou Luun-Syr, sobraçando
seis pistolas ultra-som. Chellich as distribuiu entre seu pessoal e expôs seu
plano ao peepsie “guerrilheiro”. A
reação de Luun-Syr foi idêntica à de O’Bannon. Primeiro achou extremamente
ousado, mas logo se convenceu de que não havia opção melhor.
— Bem — disse Chellich satisfeito —
podemos então arregaçar as mangas. Qual é o melhor caminho para a torre
central?
Luun-Syr apontou para o corredor.
— Ali na frente, chegamos ao hall dos
elevadores. Podemos tomar um elevador e ir até uma das pontes. Se encontrarmos
uma de pouco movimento, dentro de meia hora estaremos na torre central.
Chellich estava de acordo. Virou-se para
os seus e disse:
— Temos seis pistolas, o que nos será
suficiente se tivermos bastante juízo e um pouco de sorte.
7
Depois de prestar informações a Wee-Nii,
Fij-Gul voltou para sua gente. Esperava encontrar seus dois técnicos de novo
junto da barreira invisível, ou ao menos ver um sinal qualquer deles. Mas não
aconteceu nada disto.
Muito confuso e cada vez mais nervoso,
Fij-Gul ficou montando guarda com seu pelotão, em redor do envoltório
energético, sendo rendido após cinco horas de espera inútil.
Durante este tempo, lhe surgiu uma nova
idéia. Assim que houve o revezamento da guarda, foi novamente para o arquivo.
Mandou que um ordenança lhe trouxesse os dois transladores que continham a
língua usada em Weelie-Wee e a dos habitantes de Aurigel.
Agora que estava na frente dos aparelhos,
veio-lhe a impressão de que, o que pretendia, era muito difícil e mesmo que
tivesse sucesso, não teria certeza de que com isso sua suspeita se confirmaria.
Mas veio-lhe outra idéia. Sabia que
Feeh-Leh-Dii significava a mesma coisa que “bela
senhora”.
Pronunciou então a palavra “bela senhora” e ficou esperando até que
o translador, em que estava registrada a língua de Aurigel, desse a tradução
com pronúncia exata. E ficou escutando atento aos sons. O nome da nave
estrangeira soou realmente como se fosse tirado da língua de Weelie-Wee e não
da linguagem do povo de Aurigel. Era isto que o estava preocupando e sobre esta
dúvida cruel, queria ter certeza.
Regulou o translador de Aurigel de tal
modo que o alto-falante auxiliar ficasse bem em frente ao microfone do aparelho
de Weelie-Wee. Desta maneira, economizava o trabalho de ter ele mesmo de
pronunciar as palavras estrangeiras.
Em seguida repetiu:
— Bela senhora.
Esperou que o translador de Weelie-Wee “desse” a última palavra.
Se a expressão Feeh-Leh-Dii viesse mesmo
da língua de Weelie-Wee, então o aparelho de Weelie-Wee daria a palavra como “bela senhora”; caso Fij-Gul estivesse
enganado, o aparelho não diria nada.
Fij-Gul esperava ansioso, retendo a respiração.
Depois veio o ruído do translador de
Weelie-Wee, traduzindo o que seu microfone tinha registrado do alto-falante
auxiliar do aparelho de Aurigel:
— Bela senhora.
Fij-Gul continuou sentado, de olhos
arregalados para o aparelho, apavorado, embora não esperasse outra coisa.
Obrigou-se a recapitular toda sua
argumentação e não descobriu nenhuma falha. Se os estrangeiros de Aurigel
tivessem dado à sua nave um nome oriundo da língua Weelie-Wee, então era muito
e muito mesmo possível que eles mesmos não tinham nada com Aurigel, mas vinham
simplesmente de Weelie-Wee.
E aí estava um fato novo que tinha de ser
comunicado a Sua Excelência, o mais depressa possível.
* * *
Eles o haviam enganado redondamente.
Falaram muito do poderio de sua força espacial e dos altos padrões de sua
técnica, só para assustá-lo e para desviar sua atenção para este mundo
imaginário de Aurigel, a fim de que esquecessem Weelie-Wee.
Antes, dominaram de alguma maneira
Sey-Wuun, conquistaram ou destruíram-lhe a nave e chegaram até aqui para
concluir sua obra e tentar deixar em paz os miseráveis oito mil colonos
primitivos.
Sua Excelência, Iij-Juur-Eelie, não teve a
menor dúvida de que Fij-Gul tinha toda razão. Ao se despedir de Sua Excelência,
teve Fij-Gul a imensa satisfação de ouvir dos lábios reais que, em prazo bem
curto, seria promovido a coronel.
Logo após a retirada de Fij-Gul, Sua
Excelência comunicou a Gii-Yeep que desejava imediatamente ver os prisioneiros
em seu gabinete de trabalho. Que viessem todos os estrangeiros.
Já estava se deliciando com a visão
daqueles dez homens abatidos, vencidos, e ouvindo de suas próprias bocas o
relato da verdadeira origem de Weelie-Wee e recebendo no rosto a acusação de
terem pretendido tapear quem os tratara com tanta gentileza. Haveria de zombar deles...
Tinha intenção de expô-los ao escárnio do povo em praça pública. Haveria de...
Ouviu-se então a voz de Gii-Yeep,
desesperada e histérica, gritando como um louco:
— Os prisioneiros fugiram, Excelência.
* * *
— Com os diabos! Já que não sabe fazer
outra coisa, então rebente o quadro de comando com um tiro!
Walsh obedeceu. Puxou a pistola e atirou
no quadro dos interruptores. A força fantástica do tiro ultra-som rebentou em
pedaços a chapa de metal e reduziu a pó os botões e cabos que ali existiam. A
cabina do elevador subiu e ficou parada no último andar e ninguém mais poderia
usá-la, antes de consertar toda a fiação. Foram ao todo cinco elevadores que
subiram até o último andar, para tirar ao inimigo a possibilidade de fuga. Se
os elevadores não estivessem funcionando, teriam que descer pela escada, aliás
uma única escada, que chegava até o último andar. Três homens armados
bloqueariam facilmente esta escada.
Até o presente momento, tudo estava
correndo normalmente. No caminho, se encontraram ao todo com quinze peepsies,
que tiveram naturalmente de abater e amarrar, para que não dissessem a ninguém
o que tinham visto. Nenhum dos quinze, vendo as pistolas de ultra-som, de
construção afunilada, pensou em resistir.
A passagem da torre lateral para a torre
central não foi percebida por ninguém e agora, que estavam no setor residencial
do próprio Iij-Juur-Eelie, o perigo de serem descobertos era ainda menor.
Luun-Syr lhes disse que estavam agora no
centésimo qüinquagésimo andar. Tendo a torre cento e cinqüenta e seis andares,
estavam próximos do objetivo.
A questão era saber se Sua Excelência
estava de fato em seus aposentos. Tinham bloqueado os elevadores no centésimo
qüinquagésimo andar e deixaram ali, para vigiar a passagem pela escada, Walsh,
Everdon e Milligan. Os três homens tomaram posição nos últimos degraus da
escada, que levava para o andar imediatamente inferior, e estavam resolvidos a
impedir a passagem de quem quer que fosse. Mais dois homens — Farnway e
McLeigh, foram designados para elementos de ligação, caso fosse necessário
levar qualquer aviso aos homens da escada. Mas no momento achavam-se caminhando
com Chellich, em direção ao último andar.
O corredor central do centésimo
qüinquagésimo primeiro andar estava vazio, com exceção de um guarda descuidado,
encostado na parede, ao lado da escada. Não viu os homens, que se esgueiravam
escada acima, e só se mexeu quando Chellich atirou para dentro do corredor uma
moeda que tinha no bolso.
O guarda, admirado, correu atrás da moeda.
Mais do que depressa, Chellich e Mullon se aproximaram dele e, antes que
pegasse a moeda, foi dominado pelos dois.
O peepsie foi amarrado, amordaçado e
colocado ao pé da escada. Não havia perigo algum de que alguém o encontrasse.
No outro andar, a cena se repetiu. Uma
moeda serpenteando pelo corredor fez com que o sentinela abandonasse seu posto,
para procurar o motivo do barulho. Foi novamente dominado, sem o menor ruído e
Chellich e Mullon amarraram-no e amordaçaram-no, deixando-o ao lado da escada.
No andar 153, foi a mesma coisa. O
terceiro sentinela teve a sorte dos outros. Chellich alimentava a esperança de
chegar assim, sem maiores dificuldades até o último andar da torre. Mas ao
penetrarem na escada para o 154, escutaram gritos vindos do andar inferior.
Descobriu-se que os elevadores estavam bem
travados. E já que os prisioneiros haviam desaparecido, não seria difícil
calcular quem era o autor da façanha e onde se devia procurar os fugitivos.
Chellich percebeu que lá em cima surgiu um
grupo de sentinelas e não dava mais tempo para se esconder ou pegá-los de
surpresa. Um avançou destemidamente e Chellich atirou rápido. Sem um gemido, o
peepsie rolou no chão.
— Vamos subir — gritou Chellich — vocês
sabem agora do que se trata.
Nos andares de baixo, os gritos
aumentavam. No barulho da correria e dos gritos, percebeu-se a voz de Milligan:
— Não deixem que eles desçam. Neste
ínterim, Chellich galgou a escada.
Viu, no fundo do corredor, um grupo de
sentinelas. Deviam ser três ou quatro. Jogou-se no chão e começou a atirar de baixo
para cima. Um disparo quase o atingiu, mas, depois, sua arma falou mais alto.
Os guardas caíram inconscientes.
Nos andares de baixo, não se ouvia mais
nenhum ruído. Uma só vez se escutou a voz grave de Milligan:
— Vamos assustar esta gente. Não deixem o “velho” escapar.
Chellich estava sorrindo, quando, num
último esforço, venceu o trecho final da escada. Julgava que o último andar,
onde estavam os aposentos de Sua Excelência, seria o mais difícil. Mas,
inexplicavelmente, não encontrou resistência alguma ao penetrar, com os seus,
no ninho do ditador. No último degrau, agacharam-se de novo e examinaram todo o
longo corredor, em cuja extremidade localizava-se o gabinete particular do
ditador.
Notaram que o corredor estava vazio e a
porta do gabinete meio aberta. Atrás da porta, estavam ajoelhados dois
sentinelas, de armas em punho. Chellich apoiou cuidadosamente o cano da pistola
na borda do degrau e caprichou na pontaria. Exatamente no momento em que o
peepsie percebeu a presença dele, o tiro foi desfechado...
Os guardas, que apareceram depois,
recuaram para os fundos, usando a porta como cobertura.
Chellich estava contente. Os pobres-diabos
não entendiam nada de tática de defesa. Estavam crentes que iriam pegar
Chellich, quando ele se levantasse para avançar pelo corredor e entrar no
gabinete de trabalho de Sua Excelência. Mas, é claro que Chellich não iria
fazer isto sem cobertura.
Estava acompanhado por sete terranos e,
cada um deles, com duas armas nas mãos. O corredor tinha largura suficiente
para se protegerem. Acobertado, Chellich avançou até a porta.
Sob os raios energéticos do ultra-som, as
duas folhas da porta se reduziram a um pó escuro. O amplo salão estava aberto
para Chellich, que ainda viu os últimos guardas fiéis ao ditador se refugiando
atrás da mesa e das poltronas. Só não viu Iij-Juur-Eelie.
Continuou avançando. Quando chegou ao
umbral da porta, ou da ex-porta, protegido pelos dois lados, os guardas saíram
de seu abrigo, lançaram as armas no chão e esticaram os braços horizontalmente
para frente.
Chellich ordenou que passassem diante dele
e incumbiu O’Bannon de revistá-los melhor, deixando ali dois homens para
ajudá-lo. Com os outros, começou a examinar o grande salão.
* * *
Atrás de um grande móvel, semelhante a uma
escrivaninha, encontraram Iij-Juur-Eelie, tremendo feito vara verde. Não teve a
idéia de apanhar uma arma e se defender, como seus devotados sentinelas.
Chellich apanhou o translador de Luun-Syr
e mandou que ele se levantasse. Iij-Juur-Eelie obedeceu sem pestanejar.
Chellich o fez sentar-se numa poltrona e pediu que Mullon o ficasse vigiando.
Depois enviou Farnway e McLeigh lá para baixo para que avisassem a Milligan que
podia subir até o último andar.
Milligan e seus dois ajudantes estavam no
último degrau da escada do 155o andar, contendo os peepsies
que tentavam subir, tornando-lhes bem claro que qualquer erro que cometessem
seria uma séria ameaça à vida de Sua Excelência. Somente quando, com este
argumento, voltou a calma na escada, foi que Chellich iniciou o diálogo com Sua
Excelência.
— Não lhe exigimos muita coisa — explicou
com muita calma. — Nada mais do que livre retirada, seu acompanhamento e a
garantia de que nossos amigos, os “guerrilheiros”,
não serão importunados.
Iij-Juur-Eelie dava a impressão de estar
voltando de um grande sonho. De repente, sem que ninguém pudesse prever, seus
olhos recuperaram o brilho antigo e, num assomo de ira, gritou:
— Isto não lhes vai adiantar de nada,
senhores loucos! Invadiremos Weelie-Wee e acabaremos com a raça de vocês.
Chellich não deixou perceber seu espanto e
perguntou com a calma de sempre:
— Como é que o senhor sabe que somos de
Weelie-Wee?
— Nós o descobrimos — disse Sua
Excelência, espumando de raiva, por ter sido enganado. — Os senhores poderiam
ter escolhido para a sua espaçonave um nome mais inteligente.
“Realmente”,
pensava Chellich, “nisso ele tem razão.
Bancamos otários. Fizemos tanto sacrifício para estudar a língua francesa e
batizamos a nave de Fair Lady.”
— Isto não tem nenhuma importância e não
muda em nada a situação. Desejamos deixar Heeninniy sem nos aborrecermos mais e
o senhor vai nos acompanhar, para que os nossos amigos não sejam perseguidos.
Se sua raça, um dia, empreender qualquer ação hostil contra Weelie-Wee, que nós
chamamos de Fera Cinzenta, isto significará a sua morte.
Iij-Juur-Eelie abaixou a cabeça. Sua raiva
desaparecera como por encanto, transformada em resignação.
— Não me resta outra opção — disse em voz
baixa. — Submeto-me às suas exigências.
— É a melhor coisa que o senhor pode
fazer. Mas não queremos perder tempo. Quem é que precisa ser informado de suas
resoluções, para que não haja mais incidentes desagradáveis?
— Gii-Yeep — disse Iij-Juur-Eelie. —
Utilize aquele aparelho ali em cima. Ele o porá em contato direto com Gii-Yeep.
O aparelho não era muito diferente dos
telefones da Terra. Ao invés do disco seletor numerado, tinha uma série de
botões. Chellich tirou o fone do gancho e logo ouviu a voz chiada de Gii-Yeep.
Chellich aproximou o translador bem rente do fone, para que pudesse traduzir as
palavras.
— Os prisioneiros devem estar se dirigindo
para seus aposentos, Excelência, cuidado! Peço-lhe encarecidamente que...
Chellich o interrompeu:
— Quem fala aqui é Chellich.
Iij-Juur-Eelie já está em nosso poder. Tenho que lhe dizer umas coisas, preste
atenção!
Seguiu-se uma pausa do outro lado. O
choque provocado pela revelação de Chellich devia ter sido tremendo. Demorou
bastante até que reapareceu a voz de Gii-Yeep.
— Estou ouvindo.
— Iij-Juur-Eelie nos garantiu retirada
livre e sua presença ao nosso lado. Exijo que o senhor nos coloque à disposição
uma escolta que nos leve com segurança e rapidez para o aeroporto. A vida de
Iij-Juur-Eelie será nossa garantia contra qualquer tipo de agressão ou manobras
duvidosas. O senhor me entendeu bem?
Novamente, silêncio do outro lado.
Chellich ficou de ouvido colado no fone e, quando Gii-Yeep começou a falar,
percebeu então que estava tudo perdido. Todos os esforços tinham sido
inúteis...
— Não posso aceitar como válida a
resolução de Sua Excelência — disse em tom ríspido. — Ela foi tomada sob coação
e não tem nenhum valor legal. Não lhe vou colocar à disposição nenhuma escolta
e vou tomar todas as providências para que vocês não escapem às penas previstas
na lei.
Chellich teve que fazer grande esforço
para não perder a calma.
— Meça as conseqüências de seus atos. A
vida de Iij-Juur-Eelie está dependendo de nós. Não temos pretensão de fazer mal
ou matar o seu Rei-Presidente, mas se o senhor não nos deixar em paz...
— Seria lamentável que isto acontecesse,
mas não podemos fazer nada contra os erros que o senhor venha a cometer. Não se
esqueça de que não vivemos num regime de absolutismo. O Conselho de Ministros
não me perdoaria, se, para poupar a vida de um único cidadão, eu deixasse vocês
fugirem. Faço-lhe uma contraproposta. Libertem Sua Excelência, renunciem a
qualquer tipo de resistência e se entreguem. Quando estiverem perante a corte
marcial, esta ação será considerada, a fim de diminuir o peso da sentença.
Chellich deu uma gargalhada amarga.
— Muito obrigado pela sugestão! É claro
que o senhor sabe que não podemos aceitar uma loucura desta.
— Estou disposto a ter paciência com os
senhores. No correr das próximas horas, de nossa parte, não partirá nenhuma
iniciativa contra os senhores. Daqui a uma hora, vou lhe telefonar de novo,
dando-lhe a decisão final.
* * *
Tudo perdido! Fizeram uma jogada muito
alta e iriam perder. Colocaram no prato da balança toda a sua determinação e
capacidade criativa, mas o fiel estava pendendo para o outro lado. O contrapeso
de uma raça de três bilhões de habitantes tinha decidido.
A poucos metros de sua meta final, seus
planos iriam malograr definitivamente, e agora, sua condição e a dos habitantes
de Fera Cinzenta ficaria pior que antes.
Chellich olhava para o “homem” idoso, acovardado, de pele bem
amorenada, encafuado na poltrona, que apesar de seus dois metros e sessenta,
parecia pequeno e desprotegido. Iij-Juur-Eelie, que governava Peep como um
tirano, teria de saber que, para seus súditos, sua vida não valia mais do que a
liberação de dez inimigos do país.
Mullon, O’Bannon e os demais tripulantes
da Fair Lady aceitaram com calma a resolução de Gii-Yeep. Não desconheciam a
gravidade da situação, sabiam o que podiam ter pela frente. Ainda não tinham
tomado nenhuma resolução, mas Chellich sabia que, quando chegasse a hora,
haveriam de escolher o único caminho digno: defenderem-se até o fim, caso lhes
dessem como segunda opção apenas a rendição incondicional.
Quando percebeu o que estava cismando
Chellich se assustou.
Deviam agir imediatamente. Não podiam
ficar sentados, esperando que os peepsies atacassem. Tinham de ocupar os pontos
mais estratégicos deste andar e afastar deles tudo que os pudesse prejudicar.
Certamente os peepsies, neste meio tempo,
já teriam consertado os elevadores. Encarregou dois homens de controlar
permanentemente a cabina do elevador e de destruírem os cabos de aço da tração,
assim que os elevadores tentassem subir.
Só então é que teve tempo de apreciar a
luxuosa instalação do gabinete de trabalho de Iij-Juur-Eelie. Era uma
infinidade de aparelhos. Tele e videofone, vasta rede telefônica e coisas
semelhantes. Chellich experimentou uma por uma. Mas alguém fora mais rápido que
ele e já havia cortado toda a ligação para fora. A única a funcionar era a de
Gii-Yeep, mas mesmo nesta, ninguém atendia.
Isto era, naturalmente, obra do próprio
Gii-Yeep. Chellich começou a ter uma certa admiração por este homem. Pois, não
apenas se estava colocando muito acima do desenfreado culto pessoal de “Sua Excelência” (culto este que
escravizava toda a política desde que Iij-Juur-Eelie assumira o poder), mas,
principalmente, estava demonstrando um raro senso de prudência e circunspecção.
Certamente estaria receoso de que Iij-Juur-Eelie tivesse pedido auxílio de
outras regiões do planeta.
Entrementes, O’Bannon tinha distribuído o
pessoal pelos pontos vitais do andar. Chellich examinou a distribuição dos
homens e achou suficiente. Desta maneira, poderiam conter o avalanche dos
peepsies durante algum tempo.
Algumas horas de luta renhida poderiam
fazer com que até um homem duro como Gii-Yeep se sentisse obrigado a desistir
de suas exigências de rendição incondicional. Depois de morrerem muitos de seu
povo, talvez estivesse disposto a rever suas condições para saída dos
estrangeiros.
Quatro quintos da hora já tinham passado.
Chellich voltou ao gabinete de trabalho de Iij-Juur-Eelie, esperando pelo
telefonema de Gii-Yeep.
* * *
— O senhor já resolveu alguma coisa?
— Não há nada para resolver — foi a
resposta peremptória de Chellich. — Se o senhor não estiver disposto a ceder a
nossas exigências, terá de vir nos tirar daqui.
Gii-Yeep hesitou um instante.
— Não aceitamos suas exigências. Vamos
tirá-los daí.
— Por que razão o senhor é tão
intransigente assim? — disse Chellich numa última jogada. — Por que não quer
contribuir para que duas raças vivam em paz, uma ao lado da outra?
— Duas raças? — disse Gii-Yeep irônico. —
O senhor chama de raça a meia dúzia de aventureiros em Weelie-Wee?
“Portanto,
ele também já sabe de tudo”, pensou Chellich.
— Apesar disso — continuou Chellich... Mas
notou que Gii-Yeep não estava mais no aparelho. Entretanto a ligação não foi
desfeita e Chellich ouvia um rumor de conversa agitada.
Alguma coisa não estava dando certo para
Gii-Yeep.
Mas o que seria? Talvez estivesse
preparando seu plano de ataque.
Chellich aguardava no fone, nervoso e
impaciente. Depois de uns cinco minutos ouviu o barulho do fone e novamente a
voz de Gii-Yeep:
— Espere ainda uns instantes e não tome
nenhuma iniciativa.
O telefone foi desligado. Chellich parecia
atônito, procurando imaginar o que poderia ter acontecido.
De repente irrompeu no gabinete de
trabalho de Iij-Juur-Eelie um grito quase selvagem, chegando às raias do
histerismo. E vinha dos lábios de Milligan:
— Uma nave, uma nave de nossa frota... é a
Solar System, minha gente!
Milligan estava à janela, agitando os
braços enquanto gritava com todo entusiasmo. Chellich correu para ele e para a
janela, que a uma altura descomunal tinha ampla vista da cidade e para o
aeroporto.
O bojo imponente da nave esférica descia
suavemente. Uma nave como nunca fora vista em Peep. Duzentos metros de
diâmetro, um verdadeiro couraçado espacial, possante e com as armas
supermodernas.
Chellich viu que Milligan tinha razão. Por
uma série de detalhes, havia reconhecido um dos grandes cruzadores da frota
espacial terrana.
* * *
Tinham se esquecido de uma coisa: O
Capitão Blailey já lhes havia dado a entender que a Terra tencionava instalar
uma base espacial em Peep. Por que motivo e para que fim, ele não sabia. Sua
informação tinha pois fundamento.
O fato de a invasão se dar exatamente no
mesmo tempo em que os dez terranos estavam em grandes apuros em Peep, foi mera
coincidência, uma coincidência salvadora de vidas.
Atrás da Solar System, ainda aterrissaram
mais duas grandes naves. Ambas cruzadores, fortemente armadas.
Chellich e os seus observavam com emoção
as manobras de aterrissagem. Emoção misturada com preocupação, pois a simples
aterrissagem das belonaves não queria dizer que já estavam salvos. Ninguém lá
na Solar System ou nas outras duas naves haveria de saber que eles aqui estavam
em grandes dificuldades. E eles, do Palácio Real, não tinham a menor
possibilidade de entrar em contato com os terranos. E quem sabe, Gii-Yeep sabia
disso.
Era necessário um segundo milagre para
conseguirem se salvar... e o segundo milagre veio de fato!
Uma meia hora após a descida das belonaves
terranas, houve uma grande explosão no mecanismo de alta voltagem que o técnico
Wiir-Nee estava montando, seguindo os dados fornecidos por Chellich, para
produção de um campo artificial de gravitação.
A explosão teve a violência de uma bomba
atômica. Wiir-Nee tinha sua oficina no setor sul da cidade, nas proximidades do
aeroporto. A explosão, ocorrida no momento em que Wiir-Nee ia mudar o comutador,
destruiu duas torres na periferia da cidade e danificou umas tantas outras.
Nas naves terranas, a impressão era de que
se tratava de um ato hostil aos recém-chegados e cinco naves auxiliares, tipo
gazela, saíram dos hangares das belonaves para ficarem em posições
estratégicas, observando o movimento.
A Solar System já havia entrado em contato
com a Fair Lady e estava a par dos acontecimentos. A explosão casual de
Wiir-Nee ajudou a apressar os acontecimentos. O Coronel Sikermann, que dirigia
a operação, confessou que tencionava esperar algumas horas, antes de mandar uma
delegação para falar com as autoridades dos peepsies. Viu, porém, que o quadro
não era o que esperava. Duas gazelas aterrissaram no pátio interno do Palácio
Real. Exigiram falar com Sua Excelência.
Gii-Yeep desistiu de qualquer resistência,
quando soube que estes novos estrangeiros eram da mesma raça que os dez da Fair
Lady, cercados por ele lá em cima.
E mais: soube também que eles estavam
buscando os dez prisioneiros.
* * *
Jamais um comandante de espaçonave teve
recepção tão festiva como o Coronel Sikermann, quando, saindo de um elevador
recém-consertado, entrou no gabinete de trabalho de Iij-Juur-Eelie para
libertar os dez terranos.
Explicou em poucas palavras o sentido de
sua missão, isto é, instalar ali uma base espacial, já que este setor, até aqui
de pouca importância, se transformara, de uma hora para outra, em foco vital na
política galáctica.
Após isto, fez questão de ouvir, ali e
naquele momento, um relato minucioso da Operação Fair Lady e do comportamento
de seus tripulantes.
Depois que Chellich lhe satisfez este
pedido, Sikermann ficou pensativo por alguns instantes. A seguir, disse
sorrindo:
— Uma verdadeira aventura rocambolesca,
olhando-se seu conjunto. Desde o início, a possibilidade de sucesso era muito
reduzida. Mas, tenho a impressão de que vocês fizeram o melhor que podiam.
Chellich e seus companheiros voltaram
assim para a Fair Lady. O Coronel Sikermann se reservara a tarefa de sozinho, e
em nome do Império Solar, iniciar as negociações com o governo de Peep. Ele não
estava ainda bem certo de quem era propriamente o governo em Peep, pois
Iij-Juur-Eelie havia renunciado e o Conselho de Ministros fora dissolvido por
Gii-Yeep. Ficou na expectativa de que, dentro em breve, houvesse uma oposição
legal e que assim tivesse terminado para os “guerrilheiros” aquela fase da clandestinidade.
Para Chellich e sua gente, estas coisas
não tinham mais tanta importância. Levaram dois dias se recuperando do
sofrimento e da luta desesperada.
No terceiro dia, levantaram vôo para Fera
Cinzenta.
Antes de partir, ouviu da boca do coronel
que também Fera Cinzenta passaria a ter a proteção do Império Solar e que ele
mesmo se encarregaria, em tempo hábil, de fazer com que a nave peepsie, que se
achava a caminho do planeta, desistisse para sempre de suas intenções.
* * *
Enquanto Sheldrake, Loewy e Krahl
desenterravam o sinalizador que haviam escondido há duas noites, no meio do
espaçoporto, para confundir os peepsies com sinais misteriosos, Chellich fazia
os últimos preparativos para a decolagem da Fair Lady.
O’Bannon e Mullon estavam com ele na sala
de comando. Pouco depois entrou Milligan. Experimentando alguns contatos, disse
Chellich bem-humorado:
— Como é que vocês se sentem?... como degredados
sob a proteção da Força Espacial Terrana?
Mullon franziu a testa.
— Não me obrigue a relembrar estas coisas.
Se soubéssemos de antemão que passaríamos por doidas aventuras estaríamos ainda
felizes na Terra, vivendo como cidadãos pacíficos e honrados.
O’Bannon o aplaudiu com entusiasmo. Mas
Chellich interveio, dando-lhes novas esperanças:
— Talvez venha agora uma anistia geral que
lhes permita voltar para a Terra. Acho que vocês o merecem agora, com o
espírito de luta e abnegação que demonstraram. Nunca vi rapazes tão corretos e
perseverantes, como vocês.
— Obrigado! — respondeu-lhe Mullon, com
simplicidade.
Fechou-se a comporta.
A Fair Lady estava pronta para decolar.
* * *
* *
*
Quando os cálculos matemáticos demonstraram que, dentro de dez
meses o planeta Fera Cinzenta e todo o sistema Mirta ficariam recobertos pela
dimensão temporal dos druufs, aquela área assumiu, de uma hora para outra, uma
importância capital para Perry Rhodan.
Rhodan planejou penetrar nesta dimensão diferente, com grande
reforço espacial, partindo de Fera Cinzenta.
Em Os Três Desertores,
o próximo volume sensacional da série, o Império Solar está ameaçado...

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