sábado, 7 de setembro de 2013

P-069 - A Morte Espera no Semi-Espaço - Kurt Mahr [parte 2]

Às treze horas do dia 25 de abril, notando que não havia nenhum sinal de Natan, ou melhor, de seu espírito, Perry Rhodan teve um assomo de cólera. Escaldado pela experiência quase desastrosa com Ras Tschubai, mandou inspecionar os compensadores estruturais, procurando saber se em suas câmaras de ressonância estava retida qualquer formação com aparência de névoa. Os compensadores, porém, estavam vazios.
Natan devia ter tido um destino diferente do de Ras Tschubai.
O prazo para renovação da ducha celular tinha baixado para cento e cinqüenta horas. Levando-se em conta os poucos sucessos das últimas trinta e cinco horas, desde que a Drusus havia terminado seu último salto de transição, não sobrava nenhum motivo para otimismo.
Quase sem interrupção, a equipe dos matemáticos trabalhava com afinco, mas tudo que se apurou não passava de resultados parciais e mesmo assim tão reduzidos que não eram suficientes para dar uma idéia clara do conjunto.
Depois de seis longas horas de espera e sem nenhum resultado, Atlan pediu uma outra audiência com Rhodan. Quando o arcônida penetrou na sala de comando, trazia sob o braço uma volumosa pasta, cheia de fórmulas e diagramas.
— Já estamos assim tão adiantados? — foi a primeira pergunta de Rhodan, após haver cumprimentado seu amigo.
Atlan respondeu com um sorriso um tanto forçado.
— Talvez... — disse ele meio reticente. — Pelo menos, podemos apresentar uma série de conclusões úteis.
Sentou-se, colocando a pasta diante de si. Rhodan o observou com atenção. Calculou mentalmente que seu amigo não dormia há quarenta e oito horas. Isto não seria nada de extraordinário tendo-se em vista os modernos medicamentos do posto de saúde de bordo. Mas Rhodan conhecia a abjeção que o arcônida tinha por todos estes reativantes, comprimidos ou injeções. Não havia tomado nada disto, o que provava pelos seus olhos avermelhados de sono.
— Comece — disse Rhodan em tom mais ríspido do que intencionava.
Atlan tirou uma folha de papel da pasta e a colocou na mesa. Os oficiais presentes na sala de comando se agruparam em torno de Rhodan e do arcônida. Não queriam perder uma palavra da explicação.
Atlan apontou para o papel, coberto com elipses confocais, sendo que em cada trajetória elíptica havia uma série de números e fórmulas.
— Isto aqui — começou o arcônida — é a estrutura da parte do espaço em que se localiza o planeta Peregrino. Com outras palavras; é a parte do espaço que está sujeita à distorção do sistema de coordenadas, isto é, o espaço intermediário, como nós o chamamos. O centro de gravidade do planeta coincide com um dos dois centros de gravidade de grupo de elipses. O planeta Peregrino, em toda sua extensão, fica mais ou menos assim.
Desenhou à mão livre, no papel, uma figura que devia ser um círculo, com todas as trajetórias elípticas, mesmo as mais afastadas.
— Este conjunto todo se acha em rotação. Este desenho aqui — dizia ele, apontando para a folha — deve ser considerado como um “apanhado” em determinado momento. Daí se evidencia, ou melhor, as elipses indicam em que proporção se realiza a redução axial em determinados pontos do espaço. Os números nas trajetórias elípticas indicam o fator de redução, que alcança os maiores índices no interior e diminui nas extremidades.
“Durante a rotação, estes índices se alteram, o que, conforme nossa opinião, leva a um fenômeno extremamente curioso: Como se observa, o âmbito da meta-estabilidade não é essencialmente maior do que o próprio planeta Peregrino. De quatro em quatro rotações, acontece uma vez que uma parte da superfície do planeta abandona completamente o setor da meta-estabilidade.
“Mergulha, portanto, no espaço normal, ficando no entanto invisível para nós, pois este fenômeno se dá sempre na face do planeta Peregrino que nos fica oculta. O resto do planeta que ainda continua no espaço intermediário atua como uma espécie de campo de proteção que impede que qualquer irradiação realizada chegue da parte não submersa até nós. A duração desta parte não submersa não pode ser menor do que dez segundos e nem maior do que quinhentos segundos.
“Também não sabemos, por enquanto, qual o tamanho da área do planeta que abandona o setor de meta-estabilidade. Acho, porém, que deve ser pelo menos tão grande que possa permitir a descida de uma gazela” — finalizou o arcônida, sorrindo.
— Quando — perguntou Rhodan — será que este fenômeno vai se repetir outra vez?
— Infelizmente — respondeu Atlan — aconteceu pela última vez há pouco mais de dois minutos. — Consultou o relógio. — Falando mais exatamente, foi há dois minutos e cinco segundos. Pelo menos, foi esta a nossa medição. O tempo de rotação atinge a duração de três horas e 36 minutos. Já que o fenômeno se dá somente de quatro em quatro rotações, teremos de esperar aproximadamente quatorze horas, para podermos presenciá-lo novamente.
— Isto não é nada em comparação com o tempo que já esperamos até agora — disse Rhodan todo entusiasmado. — Se conseguirmos chegar ao planeta com uma gazela, estará tudo salvo.
Atlan olhou-o com um sorriso zombeteiro.
— Sente-se de novo, administrador, minha sabedoria não acabou ainda.
Rhodan mostrou grande interesse em ouvi-lo.
— Você ainda tem mais coisas para explicar?
— Sim, é a respeito de Natan.
Rhodan tornou a sentar-se.
— Imaginemos o espírito de Natan — recomeçou Atlan — como aquilo que ele realmente é: um misto de campos de quatro ou cinco dimensões. Entre um ser deste tipo e o espaço intermediário atuam forças, como demonstraram nossos cálculos. O espaço intermediário é para Natan um pólo que o atrai. Ou, para falar mais concretamente, atua como uma depressão potencial, para onde ele cai, em virtude de sua posição de potencial mais elevado. Portanto, deve ter chegado com muita facilidade ao planeta Peregrino, mas não poderá mais voltar e ficará detido por lá. Este é o motivo por que ainda não está de volta.
Rhodan olhou pensativo para o grande cilindro cinza no chão da grande sala de comando.
— Quer dizer então — começou Rhodan — que devemos levar-lhe o corpo que ficou aqui.
— Exatamente — confirmou Atlan. — E ainda existe mais uma coisa.
Rhodan olhou espantado.
— Não tenha medo, bárbaro — tranqüilizou-o Atlan. — É a última explicação, pois nossos estudos não terminaram ainda. Lembre-se de Ras Tschubai. Uma força gigantesca o projetou de volta, atirando-o para as câmaras de ressonância dos compensadores. Acha que isto é um acaso? Seria possível que ele surgisse, por exemplo, num depósito de mantimentos? Não, de maneira alguma. Não podia, não. A força que o projetou de volta, podia transportá-lo apenas numa determinada rota e esta rota terminava na câmara do compensador. Por quê?
“Exatamente porque o compensador, em estado de repouso, é portador de um campo residual de cinco dimensões, que se torna assim a única entrada para a força atuante proveniente do espaço intermediário, entrada pela qual esta força pode penetrar e atuar em nosso espaço normal. Dando um exemplo figurativo: O espaço intermediário se protege com uma muralha. O único buraco nesta muralha, pelo qual Ras Tschubai podia passar, era o campo residual do compensador.”
O arcônida Atlan estava crente que ainda continuaria a explicar a Rhodan e seus oficiais a conseqüência deste fenômeno. Mal terminara a última palavra, Rhodan se levantou de novo e, desta vez, não o fez apenas para mudar de posição e descansar um pouco. Erguera-se porque tinha uma idéia muito importante, referente ao assunto explicado por Atlan, e onde, naturalmente o arcônida iria chegar.
— Um buraco na muralha! — exclamou Rhodan com entusiasmo. Era um buraco assim que nós queríamos abrir, quando enviamos Rous através do campo de reflexão. Fomos mal sucedidos. Isto porque o campo de reflexão tem uma estrutura diferente da do espaço intermediário, não é?
— Perfeitamente.
— Estávamos, portanto, numa pista errada. Agora já sabemos que o campo residual do compensador equivale a uma abertura ou buraco. Não podemos, propriamente, nos utilizar do compensador mesmo como meio de transporte para o planeta Peregrino, pois o aparelho não dispõe de forças para tal. Temos, porém, um outro instrumento que opera com os mesmos efeitos como o compensador e com ele nós teremos bom resultado. Você está de acordo, Almirante Atlan?
Atlan concordou com muita vivacidade. Seu rosto iluminado pelo entusiasmo não dava mostras das cinqüenta e tantas horas sem dormir, debruçado nos cálculos matemáticos.
— O transmissor fictício — ponderou Rhodan, cuja expressão fisionômica passou da preocupação para o sorriso da segurança. — Admira-me muito termos levado tanto tempo para chegarmos até este ponto.
Uma sensação de alívio e alegria se apoderou de Rhodan e de seus oficiais Sabiam agora de que maneira o planeta poderia ser alcançado.


3



Rhodan achava que era uma verdadeira ironia do destino o fato de que somente aquele instrumento que o próprio Ser coletivo criara há dez mil anos atrás seria capaz de, nesta situação angustiante, lhes abrir caminho para o planeta Peregrino e para o Ser eterno.
O funcionamento do transmissor fictício poderia ser explicado melhor com a comparação já feita por Atlan: o campo de emissão do transmissor abria uma perfuração na muralha que separava o espaço de quatro dimensões do de cinco. O espaço de cinco dimensões, que era para ser perfurado pelo transmissor fictício, era considerado em geral como uma esfera. O transmissor abria um caminho através dele, perfurando-o dos dois lados. Ao sair do lado de lá, entrava de novo no espaço normal.
Agora a situação era diferente: o caminho aberto terminava no espaço intermediário. E já que o semi-espaço não era outra coisa do que um espaço atrofiado de cinco dimensões, bastava neste caso apenas uma perfuração.
Isto incluía, naturalmente, uma alteração no transmissor. Atlan, que entendia bem desta matéria do ponto de vista matemático, explicou:
— Das milhares de maneiras de regular o aparelho, temos que descobrir a mais acertada. É uma tarefa difícil. A matemática não vai mais nos ajudar muito, a não ser que esperemos até que todos os cálculos estejam prontos. Mas não nos sobra tempo para isto, portanto temos de experimentar.
O transmissor fictício, que prestava excelentes serviços a Rhodan, como uma arma de grande valor, estava montado bem solidamente na grande nave. O início do raio transportador, isto é, o local onde devia estar o objeto a ser transportado, para poder ser atingido pela ação da quinta dimensão, podia ser regulado à vontade.
Para simplificar os trabalhos, Rhodan o instalou na sala de comando, de forma que todas as experiências seriam realizadas ali. Rhodan iniciou a série de experiências com pedaços de metal, ali colocados, onde o transmissor começou a funcionar.
Entrementes, fez-se uma ligação no transmissor que impedia que este funcionasse na sua forma normal, isto é, que permitisse ver no espaço normal os pedaços de metal que tinham sido disparados para o local onde se encontrava o planeta. Ou, falando figuradamente: O segundo buraco, que dava saída para fora do espaço de cinco dimensões, estava “entupido”. Se desaparecesse um dos objetos da experiência, era sinal de que tinha sido transportado para o planeta Peregrino.
O início das experiências foi pouco promissor. Ao ligar o transmissor pela primeira vez, o pedaço de metal deformou-se. Uma força invisível o prensou, reduzindo-o a uma chapa, atirando-a ao chão da nave.
Rhodan acabou desligando o transmissor quando percebeu que, de um cubo metálico de dois centímetros de comprimento de aresta, surgiu uma espécie de disco de quase um metro quadrado.
Mudaram um pouco a regulagem do aparelho e veio então a segunda experiência. Fracassou do mesmo modo que a primeira. E mesmo as outras experiências que se seguiram, apesar de regulagens constantes, não chegaram ao resultado pretendido.
Neste meio tempo, Atlan, a pedido de Rhodan, tinha-se deitado para dormir um pouco, o que não fazia há mais de cinqüenta horas. Pedira com insistência que o acordassem assim que se conseguisse alguma coisa.
Estava se aproximando da meia-noite e irrompia o dia 26 de abril. O tempo de que dispunha Perry Rhodan ia pouco além de cento e quarenta horas.
Pelas três horas da madrugada, se deu a primeira experiência bem sucedida. Ao invés de se deformar, como os anteriores, o pedaço de metal desapareceu da sala de comando, sem deixar vestígios.
Conseguira-se enfim, atingir o planeta Peregrino com os meios que estavam à disposição dos tripulantes.
Acordaram Atlan. Dormira somente cinco horas. Mas isto fora suficiente para reaparecer bem descansado e com muita disposição para resolver o problema. Pediu que repetissem a experiência do desaparecimento da peça metálica e depois deu sua opinião:
— Não sabemos ainda que influência pode ter o tamanho do objeto durante o transporte. Poderia ser que acontecesse a um homem, a um objeto voador, por exemplo, a uma gazela, o que se passou com as primeiras duas dúzias de pedaços de metal que foram achatados, apesar das diversas regulagens. Acho que devemos primeiro enviar para o planeta um robô.
Rhodan autorizou a experiência. Um dos robôs de combate, que estava a bordo, foi trazido para a sala de comando. Um monstro, pesando muitas toneladas, equipado com armas que correspondiam ao fogo de um batalhão.
Sem nenhuma objeção, a poderosa máquina chegou até o ponto determinado por Rhodan, que depois passou a instruir o robô sobre o que devia fazer, a missão que tinha a desempenhar.
Completamente imóvel, o robô apenas respondeu:
— Perfeitamente! Estou preparado.
Caminhando de costas, sem perder de vista o robô, Rhodan chegou até ao painel de comandos. Com as lentes brilhando o robô olhava para frente.
Rhodan continuava na contagem regressiva, pausadamente: — ...quatro, três, dois, um... agora!
Um leve estalo no botão de contato... ouvido apenas por Rhodan. Pois para os outros, este estalo foi encoberto pelo estridente estampido de metais em choque. Com olhos arregalados, onde se lia o pânico e a decepção, os homens viram como o poderoso robô ia se transformando. Deu um passo vacilante para frente. Enquanto isto, em frações de segundo, uma força invisível o “apanhou pelos ombros” metálicos e...
O peito se abriu e o material eletrônico produzia ruídos de todos os tipos, como se tudo estivesse caindo aos pedaços. O robô tentou se defender, mas eram poucas as funções de seu corpo que ainda estavam intactas. Acabou caindo e recebendo no chão o impacto daquela força descomunal que havia, antes, reduzido os cubos metálicos em chapas finas.
Do soberbo robô de combate, o que sobrou foi um horrendo amontoado de metal acinzentado. Cessou toda espécie de ruído, ficando na sala de comando apenas o cheiro de cabos elétricos derretidos e de semicondutores incandescentes.
Tudo isto se passara em dois ou três segundos. Quando Rhodan desligou o transmissor, já estava selado o destino do robô CQ-1.238.
Rhodan olhou para Atlan, que estava do outro lado da sala. O arcônida compreendeu o olhar e fez apenas um gesto de resignação.
— Já supunha um desfecho assim — disse ele. — A regulagem está basicamente certa, mas o valor do transporte tem que ser calculado de novo. Talvez seja necessário um valor de transporte especial para cada volume de massa. Temos de calcular o valor certo. Para isso, precisamos de uma série de objetos de experimentação de tamanhos diferentes. Isso vai ser feito agora muito mais depressa, porque a regulagem básica pode ser esta mesma.
Preocupado, Rhodan olhou para o calendário automático.

* * *

Bem no centro do enorme hangar, Reginald Bell estava ocupado em colocar em estado de partida imediata uma nave de reconhecimento espacial do tipo gazela.
Reginald Bell era o braço direito de Rhodan, o segundo homem do Império Solar. Bell foi um dos primeiros que ficou sabendo do resultado dos cálculos dos matemáticos.
Recebera a incumbência de descer naquela região do planeta Peregrino que em cada 14,4 horas surgiria no espaço normal e ninguém sabia ao certo por quanto tempo ficaria neste espaço, como também se ignorava a extensão exata desta região.
Sabia perfeitamente o tipo de missão que ia enfrentar. Aceitara a incumbência extremamente perigosa porque não somente Rhodan, mas ele também estava na dependência de encontrar o planeta Peregrino e, com isso, o fisiotron da ducha celular.
Bell havia sido o segundo homem a receber o grande privilégio da imortalidade, através da ducha do mundo maravilhoso.
Isto há sessenta e dois anos. Se não conseguisse renovar o tratamento revitalizador dentro do prazo estipulado, passaria de uma hora para outra para o estado de um velho decrépito de mais de cem anos e certamente morreria em dois ou três dias.
Somente isto seria motivo suficiente para que Reginald Bell aceitasse qualquer tipo de empreendimento, por mais arriscado que fosse.
Não aceitou, porém, a proposta de Rhodan de guiar a gazela com sua tripulação completa.
A grande maioria dos comandos da pequena espaçonave eram automatizados. Bell achou que podia cumprir toda a missão com apenas um auxiliar. Perguntou ao Tenente Tompetch se o queria acompanhar na arriscada missão, e o jovem aceitou com imensa alegria, como se não tivesse a mínima idéia dos perigos que ia enfrentar. Bell lhe pormenorizou as dificuldades que iriam encontrar, o enorme risco de vida, etc e etc... Disse claramente tudo, terminando com a declaração de que não consideraria nenhuma desonra ou covardia se ele desistisse.
Mas o Tenente Tompetch teve só uma resposta:
— O senhor quer saber de uma coisa? Já sou segundo-tenente há muito tempo, pelo menos conforme meus conceitos. Se puder fazer alguma coisa para passar para primeiro-tenente, é claro que não vou recusar.
Bell não tinha deixado de perceber o malicioso piscar de olho do tenente, que acompanhou suas palavras entusiasmadas. Declarou-lhe que não se tratava de nenhuma “promoção” para primeiro-tenente, mas ele, Bell, haveria de fazer tudo para que Tompetch fosse rebaixado para cabo, caso a missão fracassasse.
Mesmo assim, o tenente continuava firme, piscando o olho e certo da vitória.
Bell iniciara os preparativos para a partida à meia-noite.
Em circunstâncias normais não seria necessário nenhum preparativo. O piloto pediria autorização para decolagem, chegaria até a comporta do hangar e assim que as escotilhas se abrissem, a nave saltaria para o espaço.
Mas o caso, hoje, era diferente. Tornavam-se necessários instrumentos adicionais que pudessem fornecer o posicionamento da gazela com relação à Drusus, numa exatidão de fração de quilômetro. Tinha-se que instalar um dispositivo eletrônico, para economia de tempo, que fosse capaz de registrar o tempo de ligação de um microssegundo até poucos nanos-segundos, isto é, poucos bilionésimos de segundo. Pois da duração deste tempo de ligação, dependeria, em determinadas circunstâncias, a vida dos dois homens na gazela.
Finalmente havia necessidade de se confeccionar um modelo que contivesse o que o robô do planeta Peregrino havia chamado, há sessenta e dois anos, de “vibrações individuais” de Perry Rhodan. Este modelo estaria em condições de transmitir estas vibrações a um amplificador de telepatia, de maneira que o envoltório de proteção existente no planeta se abriria assim que a gazela se preparasse para descer.
Quando começou a trabalhar na gazela, Bell pensava que terminaria os preparativos em três, no máximo em quatro horas, mas já eram sete horas da manhã e o Tenente Mike Tompetch ainda não tinha completado o modelo, que era a coisa mais importante a ser levada com eles.
Conforme os cálculos dos matemáticos, a face iluminada da superfície do planeta surgiria exatamente às oito horas, 57 minutos e 34 segundos. Ninguém, porém, sabia o tempo de sua duração. Esperava-se que fosse suficientemente longo para possibilitar a descida da gazela. Porém, nada mais que mera suposição.
Pouco depois das sete horas, Tompetch veio com o modelo. Foi colocado no amplificador de telepatia, o que demorou mais meia hora. Bell não tinha mais tempo de fazer experiência. O modelo devia estar em ordem, pois em caso contrário a gazela se incendiaria no choque contra o envoltório de proteção do planeta... juntamente com seus dois ocupantes.
Às sete e quarenta e cinco, a gazela estava pronta para a decolagem. Bell anunciou o fato ao posto de comando e junto com a permissão de decolagem recebeu também o último conselho de Rhodan:
— Preste atenção! Vocês sabem que é um trabalho que depende de “centímetros”. Se vocês não estiverem exatamente no lugar indicado, não chegarão nem a ver a parte da superfície, que dirá então conseguir descer nela. E mesmo quando estiverem no ponto certo, vocês sabem que só dispõem de alguns segundos para penetrar no envoltório de proteção e descer. Assim que conseguir pousar, vá imediatamente para o fisiotron. Você dispõe de todos os mapas. Não espere por mim. Nós aqui continuaremos tentanto pôr em ordem o transmissor fictício. Se não tivermos sucesso dentro de quinze horas, chegaremos ao planeta pelo mesmo caminho que vocês. De qualquer maneira nós nos comunicaremos assim que chegarmos ao planeta Peregrino. Está tudo claro?
— Completamente — respondeu Reginald Bell. — Então, felicidades, meu velho amigo.
— Obrigado, Perry, e... faça tudo para chegar até lá.
— Está bem!
A ligação foi interrompida. Às sete e cinqüenta e cinco, a gazela G-203 começou a deslizar para o lado interno da comporta do hangar. A passagem pela escotilha se realizaria dentro de poucos instantes.
Às sete e cinqüenta e oito, a pequena espaçonave de conformação elíptica saiu do gigantesco bojo da Drusus e penetrou no espaço com velocidade moderada.
Começara a grande aventura. Ninguém saberia dizer como terminaria. O prazo concedido pelo Ser do Peregrino só expiraria daí a cento e trinta e seis horas.

* * *

A gazela G-203 pairava imóvel no espaço, sendo que esta imobilidade se referia à Drusus e ao planeta. Reginald Bell regulara a pequena nave conforme os dados sugeridos pelos matemáticos. Por falta de outros sistemas de referência, os dados de posicionamento eram transmitidos pelo Sicocen, isto é, Sistema de Coordenadas do Centro da Nave. Portanto, um sistema de coordenadas cuja origem era a própria Drusus, ou melhor, o centro da Drusus.
Depois de algumas manobras, Bell tomou a direção calculada. Eram oito horas e doze minutos. Depois disso, permaneceu sentado na poltrona, bem encostado, observando com exatidão todo o painel e, de vez em quando, também os aparelhos de rastreamento, trocando às vezes uma palavra com o Tenente Tompetch.
— Que horas são? — perguntou por fim.
— Oito e trinta e quatro, senhor.
Bell fez os cálculos. Ainda vinte e três minutos e alguns segundos.

* * *

— Achamos! — exclamou Atlan. — O valor do transporte está em relação com a massa transportada. Uma relação constante com variação reduzida. Vai nos ser difícil cometer outros erros, agora.
Olhando para o diagrama, Rhodan concordou com o arcônida.
O valor de transporte para uma massa de cem toneladas era apenas três vezes e meia maior do que para uma massa de cem gramas. Para o transmissor fictício isto queria dizer que seriam necessárias apenas cinco regulagens diferentes para cobrir a escala de cem toneladas. Uma regulagem um pouco mais alta teria sido suficiente para salvar o robô CQ-1.238.
Rhodan fez uma experiência com mais um robô. O resultado foi positivo. O robô desapareceu da sala de comando e não restava nenhuma dúvida de que tivesse surgido no mesmo instante no planeta Peregrino.
Isto aconteceu pouco antes das oito e meia. Às oito e quarenta e cinco, Rhodan tentou de novo falar com Reginald Bell e com o Tenente Tompetch pelo rádio. Não teve sucesso, pois a gazela neste momento já se encontrava há muito à sombra do espaço intermediário, que exclui qualquer ligação.
Perry deu ordem para que deixassem de prontidão uma outra gazela e começassem a transportar o transmissor dos raios teleportadores para a comporta externa do grande hangar. Com isto, se evitavam manobras inúteis e difíceis, pois tão logo a gazela deixasse o bojo da Drusus, haveria de incidir no campo de ação do transmissor fictício e assim seria transportada diretamente para o planeta.
Foi o próprio Rhodan quem regulou o valor exato do transporte, embora o fizesse um tanto a contragosto, pois sentia falta da série de testes experimentais, que sempre costumava fazer, para maior segurança.
Consolou-se com o pensamento de que, de fato, não tinha mais tempo para perder e de que o valor de transporte por ele ajustado nada mais era do que o resultado de um cálculo meticuloso e por conseguinte não havia motivos de preocupação.
Eram então oito horas e cinqüenta e dois minutos, quando estes pensamentos lhe passavam pela cabeça.

* * *

Poucos instantes após oito e cinqüenta e sete, o rastreador de corpos materiais começou a dar sinais, isto é, ouviu-se um zunido fino e bem no centro da tela começou a luzir um ponto minúsculo. Quando Bell o percebeu, já estava aumentando de tamanho.
Automaticamente, a mão direita de Bell fez um movimento para o lado, ligando o amplificador de telepatia, que, por intermédio do modelo de Perry Rhodan nele colocado, irradiava as vibrações individuais. Mesmo antes de poder reconhecer a imagem na tela circular, colocou lentamente a gazela em movimento, de forma que o ponto luminoso na tela do rastreador chegou mais para o centro.
Um tanto excitado, Tompetch exclamou de repente:
— Olhe ali, senhor. Está vendo? Reginald Bell ergueu a cabeça e viu na tela um trecho de claridade esmaecida, que surgia ao lado do ponto luminoso, quase no meio da parte anterior da tela, aumentando a olhos vistos, como se viesse de encontro à gazela com toda a velocidade.
Bell procurou dominar o pavor que aquele quadro singular lhe causava e acelerou os motores de propulsão ao máximo. Então, como que atingida pelo soco de um gigante, a gazela deu um salto para frente, de encontro ao objetivo ainda meio indefinido.
Enquanto Bell concentrava toda sua atenção no controle dos instrumentos, o Tenente Tompetch observava a tela panorâmica. Notou que a mancha de um branco esmaecido ia tomando forma definida e aumentando de tal forma que se podiam ver detalhes. Uma região ampla, de tom esverdeado que supunha ser um mar, com litoral bem recortado, onde havia uma mata virgem bem densa, o curso de um rio bem largo — e além, a escuridão misteriosa do espaço infinito. A imagem era redonda e contínua. Uma ilha no espaço, aparentemente zombando de todas as leis da natureza. O tenente olhava atento, acompanhando o rápido crescimento do mar e da mata virgem e depois, ao atingirem todo o tamanho da tela, começaram a se atrofiar, como se estivessem encolhendo.
Uma das últimas coisas que vira — uma curva dupla no grande rio, desapareceu logo a seguir. Era a muralha impenetrável do espaço intermediário que se abatia de novo sobre a gazela.
— Atingimos o máximo! — disse Tompetch um tanto nervoso. — Não conseguiremos mais do que isto.
Bell nem se moveu. Olhando de lado, o tenente percebeu que aquele rosto de ordinário, sempre aberto e brincalhão, estava agora sério, de semblante muito carregado. Um Reginald Bell bem diferente do que Tompetch tinha na memória. Levado por esta descoberta, o tenente também silenciou.
O trecho visível do planeta continuava se atrofiando. Num reflexo rápido, Tompetch calculou que o período de dilatação tinha durado cerca de setenta segundos, portanto, de 8 horas, 57 minutos e 34 segundos até 8 horas, 58 minutos e 44 segundos. Agora eram exatamente 8 horas, 59 minutos e 5 segundos. Tinham apenas cinqüenta segundos para a aterrissagem.
Ao ultrapassar a muralha invisível, a gazela empinou.
— Isto é o envoltório de proteção — constatou Bell. — Agora podemos dizer que conseguimos o principal.
O pequeno trecho arredondado da superfície do planeta estava agora aos pés deles. Sem poder acreditar no que via, o tenente notou que o círculo se encolhia cada vez mais, e que os detalhes que vira até poucos instantes antes sumiam completamente. Abaixo deles estava o trecho de mata virgem.
Reginald Bell fez uma aterrissagem experimental. Com as válvulas de ar comprimido a toda pressão, arrancando mesmo algumas árvores que impediam a aterrissagem, a pequena nave foi baixando, freada pelo jato de ar das válvulas, em direção do centro da mancha esmaecida, que ainda se podia ver e que não tinha mais de dois quilômetros de diâmetro.
O choque contra o solo pegou o tenente desprevenido. O solavanco o atirou para frente. Fechou os olhos, e, sem poder reagir, teve a sensação de estar num carrossel, girando numa velocidade louca. Estava com receio de se sentir mal e acabaria vomitando. Mas, pouco depois, o carrossel parou de girar.
Ao abrir os olhos, viu, na tela panorâmica, que estava no meio de uma mata virgem e acima das copas das árvores; viu também que alguma coisa de ameaçadora, misteriosa, escura que vinha de todos os lados sobre ele. À sua frente, se ergueu Reginald Bell.
A gazela estava inclinada sobre a ramagem da floresta.
— Conseguimos!? — disse Bell, um tanto incerto. — Não há dúvida de que chegamos ao planeta. Mas, agora a questão é como continuar.
Por cima das copas das árvores se apertava cada vez mais o cerco da muralha da escuridão. Tompetch devia estar possuído totalmente pelo terror. Sem o perceber, seus dedos procuraram a fivela do cinturão de segurança, abriram-na automaticamente, afastando as duas extremidades. Levantou-se e sentiu um desejo irresistível de correr. Bell, que parecia ler seus pensamentos, pousou-lhe a mão no ombro, dizendo:
— Calma, amigo Tompetch, o negócio não pode ser tão feio assim.
O tenente tremia. De olhos arregalados ficou vendo como a parede negra ia encobrindo uma árvore após a outra, aproximando-se rápida da gazela.
— Olhe, olhe — gritou ele fora de si de tanto medo — ela vai nos en...
E a escuridão foi total.
Aparentemente, a parede negra os havia engolido. Não se via mais nada além das árvores. Desanimado, o tenente olhava atônito para as lâmpadas de controle que ainda estavam acesas na cabina de comando, como se nada de anormal tivesse acontecido. Baixou os olhos para si mesmo, olhou para Reginald Bell que a seu lado sorria normalmente e... de repente, teve vergonha de seu procedimento. Bateu com a mão na cabeça, fechou os olhos.
Segundos depois, Bell ouviu suas palavras entrecortadas de soluços:
— Perdão, senhor! Comportei-me como um covarde.
Mais uma vez, Bell lhe botou a mão no ombro, dizendo:
— Não diga bobagem e não seja tão trágico assim. Aconteceu comigo a mesma coisa. Também tive muito medo. Agora desligue toda a luz de bordo. Precisamos ter escuridão completa se quisermos ver alguma coisa.
Tompetch olhou. Não estava compreendendo para que serviria a escuridão ali dentro. Foi caminhando pelo chão inclinado da nave até a cabina de comando, desligando então a chave geral. O zumbido, que até então se ouvia na cabina, cessou totalmente, e todas as lâmpadas, mesmo as de controle dos instrumentos, se apagaram. A escuridão era absoluta.
O tenente voltou para seu lugar. Andando às apalpadelas, chegou até o assento do piloto, onde sentou-se, olhando para as trevas dentro e fora da gazela. Depois de alguns instantes, conseguiu vislumbrar os contornos do espaldar das poltronas e o reflexo fraco no vidro da tela panorâmica, chegando mesmo a perceber, a quatro metros dele, a silhueta confusa da figura de Bell. Esfregou os olhos para afastar qualquer alucinação, pois neste ambiente não podia haver nenhuma claridade, por menor que fosse. Era o espaço intermediário, que, como havia aprendido, fora de qualquer imaginação humana e vazio de qualquer coisa que um ser humano pudesse sentir, como luz, som ou calor.
Mas a imagem ali estava. Ali estava o espaldar da poltrona, o reflexo da tela panorâmica e do outro lado, imóvel, a silhueta de Reginald Bell.
— Você está vendo alguma coisa? — perguntou-lhe Bell.
— Sim — retorquiu Tompetch com alguma hesitação. — Acho que eu o estou vendo...
— É um bom sinal — disse Bell mais alegre. — Comigo se dá a mesma coisa. Mas no começo pensava se tratar de mera imaginação. Portanto, há vestígios de luz neste espaço intermediário.
Subiu um pouco mais para poder olhar melhor para a tela panorâmica. Enquanto isto, o tenente se esforçava para reconhecer qualquer coisa na tela panorâmica. Depois de algum tempo, viu os contornos das árvores, a selva escura que havia sido encoberta há pouco pela muralha de trevas. Tentou reconhecer a cor do céu que pairava por sobre as copas das árvores e se decidiu por um vermelho-escuro.
— Você também está vendo o céu vermelho, como eu? — perguntou neste momento Bell.
O tenente confirmou.
— Temos de comparar todas as impressões — explicou Bell, ao notar a estupefação de seu auxiliar. — Aqui, não podemos ter certeza se duas pessoas vêem as mesmas coisas nos mesmos objetos. Eu não gostaria de cometer algum erro num assunto deste. Você observou bem a tela panorâmica. Através do mapa, você poderia descobrir em que lugar nós descemos?
O tenente se lembrou da curva dupla do grande rio que tinha observado com muita nitidez e se recordava de que a gazela passara, no máximo, a uns cinco quilômetros da margem do rio, antes de aterrissar.
— Acho que posso.
— Então acenda as luzes. Vamos nos orientar.
Tompetch acionou novamente a alavanca da chave geral. Quando o conjunto gerador começou a funcionar, ligou também a luz. Caminhando pelo chão inclinado, Bell chegou até um armário na parede, de onde tirou uma pasta com muitos mapas.
— Você sabe — disse ele subindo na direção de Tompetch — que o planeta Peregrino é um mundo como os homens de antigamente imaginavam: uma mesa lisa, de cujas bordas a gente poderia cair, se não existisse o envoltório de proteção. Nós mapeamos toda a superfície do planeta. Todas as medições são exatas, embora naquela ocasião não tivéssemos muito tempo. Pode ser que nem todas as particularidades deste mundo estejam registradas.
Tompetch pegou o mapa e o desdobrou na mesa, com certa impaciência e curiosidade.
— O envoltório de proteção — continuou Bell — tem um efeito secundário muito proveitoso, como pudemos observar. Produz um campo magnético por meio do qual se pode determinar os pontos cardeais. O mapa foi confeccionado convencionalmente com o norte em cima e o sul embaixo.
O dedo indicador do tenente percorria o mapa. Achou registrados vários rios, mas nenhum deles tinha aquela curva dupla, observada com tanta clareza. Percorrendo a linha do litoral, achou uma desembocadura de rio, que pela sua largura mais parecia uma baía. Dos fundos desta, um traço fino e sinuoso penetrava terra adentro. E, somente depois de uns cinqüenta quilômetros, é que apresentava a largura que Tompetch julgava ter visto.
— Nós tivemos a mesma surpresa que você. Um rio que perto de sua nascente é dez vezes mais largo que em sua desembocadura. E sabe você de onde foi que Ele tirou esta idéia?
Tompetch fez que não, apenas com a cabeça.
— Você conhece o Rio Amazonas? — perguntou-lhe Bell.
— Só no mapa, naturalmente.
— Bem. Então você já ouviu falar no estreitamento do leito do rio na região de Óbidos. Até ali, o Amazonas tem vários quilômetros de largura. Em Óbidos ele se aperta para menos de um quilômetro. Eu vi tudo isto há muitos anos atrás. Não se nota nada de extraordinário em si. Mas, pode-se imaginar a força imensa do rio neste trecho. Ele parece ter ficado encantado com esta imagem imponente e assim criou este rio aqui usando o modelo do Amazonas. E, do estreitamento do leito em Óbidos, ele fez um trecho de cinqüenta quilômetros, onde o rio dispara a uma velocidade incrível.
Tompetch ouvia meio assustado.
— O senhor quer dizer que Ele copiou isto da Terra?
— Você não sabia disto? — perguntou Bell com cara de admirado. — Este mundo é artificial. Não só o mundo em si, mas cada curva do rio, cada montanha, cada mar é artificial. Ele percorreu toda a Galáxia e moldou depois a paisagem, conforme seu gosto.
Um tanto perplexo, o tenente retornou a seu mapa. Continuou seguindo o curso do rio, plasmado à semelhança do grande Amazonas, até encontrar pouco depois a curva dupla, que havia observado antes da aterrissagem. Daquela curva dupla, Tompetch traçou uma reta na direção noroeste, reta esta que cruzava o rio obliquamente e terminava poucos quilômetros para o norte da sua margem, no meio de uma região, onde pela cor do mapa, se podia esperar uma selva tropical com muita precipitação pluvial.
— Aqui, aqui — disse Tompetch — é que devemos ter descido.
Reginald Bell não disse nada. Fechou os olhos, como para se concentrar. Depois, com os dois dedos, saiu daquele ponto onde deviam ter descido, subiu na direção norte, cruzou dois mares, uma ilha-continente e finalmente parou no litoral sul de uma enorme faixa de terra, situada bem ao norte.
— Não poderíamos ter escolhido lugar pior do que este para nossa aterrissagem — dizia Bell mal-humorado. — Toda a extensão desta mesa, que é o planeta do mundo artificial, tem oito mil quilômetros de diâmetro. Daqui até a cidade onde se encontra o fisiotron são quase seis mil.
Olhou desconfiado para a tela panorâmica, mas, agora que as lâmpadas estavam acesas, não se conseguia ver nada. Acabou desligando a tela.
— Vamos prosseguir o caminho; tão logo possamos ver alguma coisa — disse da escuridão para o Tenente Tompetch. Se o radiofarol funcionar, será uma maravilha. Se não funcionar...
Deixou em branco o que então aconteceria. O tenente ouviu quando ele se dirigiu para o posto de comando e tomou seu lugar, soltando um prolongado suspiro.
— Sente-se aqui ao meu lado — ordenou Bell. — Pegue o mapa e dirija o radiofarol. Algumas lâmpadas de controle estão acendendo e isto é suficiente para que você possa fazer seus cálculos.
O tenente fez como ele mandou. Ao procurar seu lugar com o mapa na mão, tropeçou em alguma coisa que estava no seu caminho. Assim que sentou, reparou que os olhos se acostumavam depressa com a escuridão.
Surgiram na tela os primeiros contornos das árvores.
Bell esperou uns quinze minutos. Quando chegou à conclusão de que mais nítido do que agora era impossível, ligou os motores de propulsão. Esperou até que surgisse aquele ruído característico da rotação normal, que lhe dava a certeza de que tudo estava cem por cento. Depois, lentamente, foi soltando a alavanca de partida.
Continuou a observar os menores sinais na tela panorâmica. Julgava que em breve haveria de ver as árvores lá embaixo, cada vez mais se distanciando deles. Pura ilusão, por enquanto tudo estava parado. Já havia soltado a alavanca de partida, pelo menos até o meio, e nada havia acontecido. Em circunstâncias normais, a gazela teria dado um salto para cima, como se fosse atirada por um canhão. Em vez disso, lá estava ela: parada entre as árvores, sem se mexer.
Bell soltou mais ainda a alavanca de decolagem, olhou inquieto para a grande tela panorâmica, sentindo o suor escorrer pela face.
Que aconteceria se os motores de propulsão enguiçassem totalmente?
Estavam encarcerados no âmago de uma mata virgem, cheia de animais desconhecidos. O único trecho mais aberto era o rio, mas distava pelo menos cinco quilômetros. E mesmo que fossem apenas cem metros, Bell seria tão prudente de não sair da pequena espaçonave, pelo menos enquanto não tivesse a certeza de que suas armas funcionariam neste três vezes maldito espaço intermediário.
Num movimento brusco, comandado por um ímpeto de ira, deu um soco na alavanca de decolagem, deixando-a no seu ponto máximo. Não contava realmente com a mínima possibilidade de êxito.
Mas, de repente, as árvores lá embaixo começaram a se afastar lentamente. De olhos arregalados, Bell viu que os galhos surgiam e sumiam e, finalmente, no vidro fosco da tela panorâmica, não se via mais nada, a não ser o vermelho-escuro do céu do planeta Peregrino. Uma onda de pensamentos diversos invadiu a cabeça de Bell.
Pelo ruído típico das turbinas de propulsão, reparou que seu funcionamento correspondia à posição em que estava a alavanca.
A gazela estava regulada para uma velocidade média e, em circunstâncias normais, a espaçonave tinha que acelerar para o alto com uma velocidade X. Se não o fez, não foi certamente por culpa das turbinas de propulsão. O gerador antigravitacional, que fornecia o campo de amortecimento do choque, atuava na dependência da solicitação dos motores. Já que funcionavam normalmente, devia existir agora no interior da nave um anticampo do valor X.
Mas já que a gazela não tinha mais que a aceleração de um metro por segundo, os dois ocupantes da espaçonave seriam esmagados em poucos instantes por este anticampo.
Portanto, não havia na realidade nenhum anticampo. Bell estremeceu todo só em pensar no que teria acontecido se não se manifestassem estes dois efeitos misteriosos: a força que impedia a nave de subir com a velocidade que corresponderia à posição da alavanca, no ponto mais alto da escala, e o desaparecimento do anticampo, ao mesmo tempo, com o primeiro efeito, portanto se neutralizando mutuamente.
Olhou rapidamente para Tompetch, mas o tenente parecia não estar preocupado com nada. Não chegou a compreender o perigo por que passara e Bell evitou de assustá-lo.
Banhado em suor, dirigia a gazela em direção ao norte...
Mike Tompetch estava muito ocupado com o radiofarol. Examinava com freqüência as luzes de controle e se sentia feliz, vendo que todas estavam funcionando e o aparelho, em condições de ser usado.
Fez a primeira experiência.
Com um simples aperto de um botão, um amplo feixe de raios luminosos saltou da gazela, e, a três quilômetros da nave, bateu de encontro à superfície do planeta; refletiu, produzindo na tela panorâmica a imagem da paisagem embaixo.
Maravilhado, o tenente contemplava o grande painel, vendo primeiramente surgir bem nítido os contornos do rio que fluía para o oceano em linha reta. Viu o litoral que começava a aparecer e, mais para o sul, o relevo irregular da mata virgem.
O radiofarol estava funcionando. Com certa emoção, Tompetch comunicou a Bell que a imagem na tela estava de acordo com o mapa.
Assim se passou uma hora — uma longa hora em que o rosto de Bell gotejava de suor e em que o tenente não via outra coisa a não ser a monótona superfície do oceano. Manuseando ainda o mapa, Tompetch descobriu, no litoral sul, uma ilha pequena que a gazela teria que sobrevoar, caso mantivesse o mesmo curso. Com a reduzida velocidade com que avançavam, esta ilha só seria atingida depois de uma hora.
Tompetch se recostou na poltrona e deu largas à sua fantasia. Casualmente, deu com os olhos na tela panorâmica do rastreador. Estremeceu todo e, com um grito meio abafado pela surpresa, esticou o corpo para frente.
— A ilha, senhor! — disse transtornado.
— Que ilha? — perguntou Bell.
— A duzentos quilômetros do litoral há uma ilha pequena, senhor. Estamos nos movendo a cem quilômetros por hora, portanto só chegaríamos a ela daqui a duas horas e no entanto, olhe, lá está ela, bem embaixo de nós.
Cético, Bell olhou para a tela.
— Será que você não se enganou ao consultar o mapa?
— Claro que não — respondeu Tompetch.
— Então o radiofarol não está funcionando, pois está dando a direção errada. Está mostrando como se estivesse aos nossos pés uma coisa que fica a mais de cem quilômetros de nós.
Tompetch começou a calcular. Comparou as dimensões da ilha assinalada no mapa com as que apareciam na tela. Sua surpresa aumentou. Confuso, olhou para Bell e disse um tanto excitado:
— A ilha... devia ter cinqüenta quilômetros de largura, senhor... e trezentos de comprimento. O comprimento está certo, mas a largura, de acordo com a tela, mede apenas vinte e cinco quilômetros.
Bell deu um salto de sua poltrona. Comparou as dimensões da ilha no mapa com os dados de Tompetch e achou que realmente ela tinha cinqüenta quilômetros pelo mapa. Depois examinou a imagem da tela e constatou imediatamente que ali a ilha tinha apenas vinte e cinco de largura.
Começou a comparar os dois dados diferentes ou discrepantes. A ilha estava apenas a cem quilômetros do litoral, embora a distância fosse realmente de duzentos quilômetros, quando o mapa foi confeccionado. A largura era apenas de vinte e cinco quilômetros, quando de fato devia ter cinqüenta.
Só podia haver uma única explicação para tudo isto: O planeta Peregrino havia encolhido na escala de uma para dois!


4



Às nove e quinze do dia 26 de abril de 2.042, estavam terminados todos os preparativos para o salto fictício da gazela.
A bordo da pequena espaçonave, que deslizava lentamente para a comporta do hangar, estavam Perry Rhodan, Atlan, o arcônida, Dr. Ali el Jagat, chefe dos matemáticos da Drusus, John Marshall e André Noir; dois mutantes da tripulação do grande couraçado e o corpo de Natan, o ser de Solitude.
Quando se abriu a escotilha interna e a gazela parou diante da comporta externa de lançamento, o prazo para a renovação da ducha celular ainda era de cento e trinta e cinco horas.
Como de praxe, Rhodan era quem dirigia a pequena espaçonave. Com uma ansiedade que mal conseguia disfarçar, esperou os dispositivos automáticos abrirem totalmente a comporta de fora, para a saída da gazela. Fez com que a nave descesse lentamente a rampa e deslizasse para o espaço, prendendo a respiração para o impacto que viria a seguir, assim que a gazela fosse atingida pelos raios transportadores do transmissor fictício.
Estes raios transportadores tinham início fora do envoltório de proteção da Drusus, isto é, mais ou menos a cento e cinqüenta metros além das paredes externas do grande couraçado espacial. Não se conseguia ver o início deste campo magnético. Na grande tela se via somente a negridão do infinito e, de vez em quando, uma leve cintilação proveniente de partículas cósmicas.
Rhodan sentiu, de repente, como todo este empreendimento era irreal. Tratava-se da imortalidade, algo difícil de se compreender ou de se imaginar. O campo de ação se desenrolava ou se desenrolaria num espaço que estava entre as dimensões e que era, não apenas inimaginável, como principalmente absurdo.
Parados ali fora, diante do envoltório de proteção da Drusus, esperavam pelos raios transportadores que haveriam de lançar a gazela com sua tripulação, sem a menor perda de tempo, para um ponto a mais de muitos milhões de quilômetros de onde estavam. Iriam contradizer todos os princípios científicos que, há menos de cem anos, ainda norteavam a física da Terra.
Rhodan não se sentia bem com isto. Uma onda de terror o invadia — o medo atávico diante do desconhecido, do incompreensível. Tentou reagir contra este instinto, como sempre fazia nas horas difíceis. Teve um ímpeto de ira e fez a gazela disparar de repente para cair no campo magnético, onde os raios transportadores a esperavam. Retesou os músculos para abrandar o choque esperado, mas teve que constatar que o impacto foi muito maior do que supunha.
Atingiu-o com a violência de um martelo hidráulico. Parecia que uma cápsula de metal, feita exatamente de acordo com suas medidas, havia envolvido todo seu corpo num milionésimo de segundo, estrangulando-o. Gritou, mas não pôde ouvir sua voz. Estranhou a escuridão total em volta dele e por toda parte, não podendo ver nem ouvir seus companheiros. Procurou resistir à enorme pressão que se abateu sobre ele. Mas, quanto mais força fazia, tanto mais dores sentia.
Quedou inerte, parou de gritar, tentando suportar o incompreensível.
A dor, porém, foi tão aguda que por uns instantes o deixou inconsciente.
Voltou a si banhado em suor. Diante de seus olhos, dançavam círculos coloridos e seus pulmões arfavam como se tivesse terminado naquele instante uma corrida de dez mil metros. Mas, apesar das dores atrozes, que ainda sentia bastante, percebeu que a gazela se encontrava a poucos quilômetros de uma paisagem diferente, tão estranha que não se recordava de ter visto antes coisa semelhante.
Tomado de incrível perplexidade, constatou que o salto espacial pelos raios transportadores tinha sido bem sucedido. Sorridente, olhou para o sol esfuziante que brilhava num céu de um azul sereno, espargindo uma onda suave de luz e calor num enorme parque.
Estavam no planeta Peregrino.

* * *

Natan conversou tanto com o estranho, até que este perdeu a vontade de falar e ficou quieto. Mas, nesta conversa toda, Natan tinha recolhido boas informações. Sabia onde estava a cidade que era o objetivo de seu amigo. E como não houvesse ou não soubesse coisa melhor para fazer, pôs-se a caminho dela.
Estava num estado de espírito muito esquisito. A ausência de seu corpo não o incomodava muito, primeiro porque sabia que seu amigo o ajudaria a encontrá-lo e depois, não seria para ele uma perda irreparável se tivesse de continuar sua existência somente como espírito separado do corpo. É claro que haveria de sentir dores, se seu amigo — caso não o conseguisse encontrar mais — deixasse seu corpo tão longe dele, que os reflexos mentais não o pudessem mais atingir e assim ficassem retidos no próprio espírito. Mas mesmo estas dores seriam suportáveis.
Porém não era isso que Natan estava sentindo. O que o atormentava era o mesmo sentimento que tivera antes, quando passou por este espaço escuro, de caminho para o planeta Peregrino: o sentimento da solidão. Nunca o sentira assim. Pois os habitantes de Solitude viviam em grandes grupos e qualquer um que se afastasse por um período mais longo, podia fazê-lo sem susto, pois alguns quilômetros para frente acharia um outro grupo que o receberia de braços abertos. Portanto, em Solitude não havia solidão.
Até que chegaram os druufs, que acabaram pegando e prendendo os seres de Solitude. Natan estava se lembrando que nem nesta época ele se sentira tão só como agora. Na sua existência como espírito, podia se encontrar e se divertir com outros espíritos também presos pelos druufs. Além de tudo, o ódio contra os druufs era tão grande que abafava qualquer outro sentimento Mas neste planeta não havia nada. Estava sozinho num mundo artificial, cujo senhor se acastelava numa cidade longínqua e já se aborrecera de conversar com ele. Não havia mais ninguém com quem pudesse trocar idéias. O que via, ouvia e sentia, tinha que guardar só para si. Mas o característico de sua raça era exatamente a comunicação, conversar com os outros, trocar recordações e experiências, falar sobre vivências próprias, pensamentos coletivos e assim se divertirem.
Por onde quer que se olhasse, era a solidão. Natan tinha chegado a uma planície com muito capim, que se estendia a perder de vista, até a neblina pardacenta. Não havia nada para ver, a não ser capim e muito raramente um ou outro besouro.
Natan estava remoendo estes pensamentos na cabeça, quando percebeu movimento à sua frente. A princípio viu apenas traços escuros que se moviam, bem rente ao capim. Os traços foram aumentando e Natan pôde constatar que se tratava de seres quadrúpedes que ali chegaram a grande velocidade.
Quando ainda estavam a uns cem metros dele, notou a estranha formação de seu corpo. Tinham cabeça e pescoço alongados, quatro patas e cauda volumosa, mas o esquisito era que de seus dorsos crescia um segundo corpo menor, que por sua vez tinha uma cabeça e duas pernas. Natan, mais do que depressa, correu de encontro a eles, do mesmo modo como eles galopavam na sua direção. O primeiro dos dois animais, percebendo a presença de Natan, parou instantaneamente. Com isso o animal de quatro patas se empinou todo no ar, mantendo no chão apenas as patas trazeiras.
Aí foi que Natan notou que o segundo corpo, apoiado sobre o dorso do quadrúpede, também se movimentava com agilidade e que, de repente, apareceu com uma arma na mão, constituída de uma peça recurvada e de outra reta, que se encontravam em suas extremidades.
Cheio de pavor, Natan viu que a peça recurvada se arqueou mais e, de repente, a peça reta avançou para frente, cortando o ar com extrema fúria e penetrando na existência espiritual de Natan.
O ser, que estava apoiado no outro, ficou aterrorizado. Natan, porém, correu para frente deles. Mas viu como a cabeça, que pertencia ao segundo corpo apoiado no corpo maior, virou para trás diversas vezes, numa tentativa de vê-lo de novo.
Aceitou o incidente banal como uma brincadeira agradável e correu no encalço da estranha aparição. Aí aconteceu uma coisa interessante. O segundo corpo, que sobressaía do dorso do primeiro, se desprendeu totalmente e caiu no capim. O quadrúpede continuou correndo. O que rolou no capim se levantou novamente e saiu pulando.
Natan foi compreendendo melhor. Cada um destes dois seres era constituído por duas criaturas. De um quadrúpede, isto é, daquele que agora corria atrás do grupo dos outros e de um outro que estava em seu dorso e agora tinha caído no capim. O que caíra do dorso do quadrúpede era muito semelhante, quanto à construção do corpo, a seu amigo da grande nave. Apenas tinha roupa diferente e um enfeite colorido na cabeça.
Natan então tomou uma nova forma e identificou-se com o ser de duas pernas, que continuava correndo... Natan o ultrapassou e parou na frente dele. Chegou a ver como o ser de duas pernas arregalou os olhos e abriu a boca. Ouviu um grito de horror e, para acalmá-lo, fez um gesto que, para ele. Natan, significava paz.
No entanto, o estranho ser puxou um objeto, feito de um pedaço de madeira e de uma parte metálica, que até então estava metido na cintura, escondido pela roupa que envolvia o corpo do estranho. Levantou o tal objeto na altura dos olhos, deu um passo em direção a Natan, apontando-lhe o objeto.
Natan ouviu um ruído muito forte que provinha do objeto de extremidade metálica e viu que algo, passando através de seu espírito, penetrara no chão. O ser estranho soltou mais um grito angustioso e caiu de costas no chão. Não se movia mais.
No espírito de Natan agora só havia confusão. Era uma mistura de admiração e de horror. Não pretendia de maneira alguma fazer mal ao estranho. Mas, certamente, devia haver algo em sua existência como espírito, que provocava medo nos estranhos. Ele ainda estava vivo, como Natan reparou pelo movimento rítmico da parte superior do corpo. Haveria de levantar logo e correr atrás do animal de quatro patas, que havia caído.
Para não assustar mais os estranhos, Natan se transformou numa névoa amorfa e se afastou dali.
De repente, ouviu novamente os guinchos estridentes que externavam a alegria do invisível senhor do planeta. Ouviu o que estava dizendo:
— Pobre amigo, você o espantou e, ao mesmo tempo, se assustou com ele. Não tenha medo. Ele não tem vida real, é apenas uma sombra.
Natan não estava entendendo nada e o estranho notou sua confusão.
— Você não disse que tinha um amigo, que estava esperando lá fora que acontecesse alguma coisa para ele conseguir penetrar neste mundo, não é verdade? É da terra dele que vem este ser, que você acaba de ver. Lá o chamam de índio.
Natan olhou para trás e ainda viu o ser estranho deitado no capim.
— Dá impressão de ser real — disse o senhor do planeta em tom amigável — embora não passe de uma sombra.
Natan não compreendeu bem o conceito de sombra. Não podia ser a mesma coisa que existência como espírito, pois o ser estranho era real e podia ser tocado. Ele, parecia conhecer um outro tipo de transformação espírito-matéria.
Natan aguardou que Ele continuasse se manifestando. Isto, porém, não aconteceu. Aquela conversa tão curta parecia ter bastado para Ele. Natan olhou para o alto e viu um animal estranho, de duas asas abertas, deslizando pelo ar. Acompanhou-o com os olhos por um tempo e depois continuou sua caminhada.

* * *

A distância da ilha oceânica até o litoral norte devia ser, conforme o mapa, de mil e oitocentos quilômetros. No entanto, o valor que Tompetch podia deduzir da tela do radiofarol oscilava entre setecentos e oitocentos quilômetros. A incerteza provinha do fato de que a velocidade com que a gazela se deslocava não era bem conhecida.
Reginald Bell, para este fim, confeccionou uma fórmula própria, já que não podia contar muito com a comparação entre o mapa e o quadro apresentado na tela panorâmica.
A atrofia, ou seja, a redução de tamanho, estava cada vez mais acentuada. No início, quando sobrevoaram a estreita ilha do oceano, a escala de redução era de um para dois. Agora, porém, chega a um para dois vírgula três. Bell perguntou a si mesmo se esta atrofia era conseqüência da falta de exatidão na medição ou se era realmente um fenômeno da natureza que se processava no momento.
Fazia mais ou menos dez horas que a gazela estava a caminho, desde que conseguira, com toda força, se desprender do solo da mata virgem, onde parecia colada.
Bell não se afobou em procurar explicações para o encurtamento da superfície do planeta. Lembrou-se do que ouvira, antes de partir do bojo da Drusus e procurou fazer uma relação com o que vira com os próprios olhos na tela do rastreador.
Alguém havia trazido à baila a teoria do espaço intermediário, conforme a qual o planeta Peregrino se encontrava numa região espacial de instabilidade de rotação. A rotação dizia respeito aos fusos do hiperespaço e se alterava, sendo que esta alteração estava em função permanente da velocidade da rotação.
E o que queria dizer mesmo “alteração de um fuso”?
Bell conseguiu se lembrar de que só se falou da atrofia ou do encurtamento. Para um observador, que estivesse fora da rotação do sistema, o encurtamento de um fuso espacial não significava outra coisa do que uma redução nas proporções, ou na escala. Uma região, que, para um observador que estivesse dentro do sistema em rotação, tivesse o comprimento de um quilômetro, teria para um outro de fora apenas quinhentos ou cem metros, de acordo com o índice de atrofia. Com isto, estaria explicado o problema que preocupava tanto a Bell e a Tompetch.
Bell reconhecia, porém, que esta explicação não era nada tranqüilizadora, pois do mesmo modo como os eixos do espaço, também os fusos horários poderiam estar sujeitos a alterações. Isto significava de novo que não havia nenhuma certeza quanto ao valor do tempo no planeta Peregrino, comparado com o do interior da gazela.
Entrementes, a gazela tinha deixado para trás o oceano equatorial e ia iniciar agora a travessia de um continente de uma extensão de cerca de dois mil e quinhentos quilômetros, no sentido norte-sul. Este continente separava o oceano do mar do norte. Pelo menos conforme o mapa, sua largura era de dois mil e quinhentos quilômetros.
Na tela do rastreador, quando Tompetch procedeu à primeira medição, esta largura era de apenas mil quilômetros. O fator de atrofia ou encurtamento tinha aumentado mais uma vez. Estava agora na proporção de um para dois e meio.
Bell percebeu com satisfação que pelo menos este resultado lhes era favorável. Se, por acaso, não soubessem de quanto tempo ainda dispunham, então era realmente muito interessante ter que percorrer dois ou três mil quilômetros, em lugar de seis ou sete mil.
Foi este o último pensamento que lhe passou pela cabeça, antes que os motores deixassem de trabalhar.
De um momento para o outro, cessou o zumbido típico que há mais de dez horas consecutivas enchia a sala de comando. Ouvia-se de vez em quando um grito angustiado. De olhos arregalados, Tompetch fitava a tela, vendo como os contornos do continente se ampliavam com velocidade crescente, parecendo vir, numa carreira desabalada, de encontro à gazela. Os dispositivos antigravitacionais mantinham a gravidade normal dentro da nave. Nem Bell, nem o tenente sentiam os efeitos desagradáveis da queda livre.
No entanto, não havia dúvida alguma de que a gazela despencava e, dentro de alguns segundos, se estatelaria de encontro ao solo.
Bell não perdeu tempo. Com um único aperto de botão, reforçou os campos magnéticos de proteção ou, em outras palavras, o envoltório protetor da gazela, ouvindo no mesmo instante, com imensa satisfação, o bramido que fez estremecer a fuselagem da nave, bramido este provocado pelo atrito com o ar.
Bell bateu com a mão fechada num outro interruptor, dando ao envoltório de proteção um campo gravitacional adicional, que atuava contra a gravitação do planeta Peregrino e assim freava a queda. O tenente Tompetch viu na tela do rastreador que, ao entrar em ação o campo gravitacional, a imagem da tela voltou ao normal. O sibilar do vento produzido pela velocidade excessiva da queda diminuiu e a gazela descia como se estivesse presa a pára-quedas gigantescos.
Por meio do radiofarol, Mike Tompetch calculou a altitude em apenas mil e duzentos metros e a velocidade da queda em seis metros por segundo.
— Não está acreditando que desceremos muito bem nesta velocidade? — perguntou Bell, inesperadamente. — Seis metros por segundo não é demais. Encoste um pouco a cabeça no espaldar e fique bem firme.
O mundo de um vermelho-escuro, para onde caíam, estava muito esquisito. O olhar de Bell percorria a tela, procurando reconhecer qualquer coisa que lhe servisse de ponto de orientação. Viu uma faixa escura, quase horizontal, na tela e supôs tratar-se da linha divisória entre o céu e a terra. No lado de cima, a tela estava avermelhada e no de baixo, preta. Mais do que isto, não conseguiu ver.

Ainda achavam-se a dois ou três mil quilômetros de seu objetivo e Bell sabia que, sem a gazela, jamais chegariam a este objetivo.

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